Grupos 3ª idade, modificando sonhos e perspectivas: um estudo fenomenológico

Saúde

Analisar e compreender os discursos de participantes de um grupo de terceira idade, os sentidos e significados atribuídos por eles e a relação a sua participação neste grupo.

índice

1. RESUMO

Desde os tempos antigos, tanto a sociedade como os pensadores sempre tiveram na busca de fórmulas para prolongar o tempo de vida e mesmo processos para a busca do rejuvenescimento. Para os povos gregos e romanos a estimativa média de vida que lhes eram atribuídas chegava a ser aos 30 anos de idade. Somente após a Segunda Guerra Mundial por conta da consolidação dos países desenvolvidos que a geriatria e gerontologia obtiveram limite. E com o aumento da tecnologia, e melhorias sanitárias e sociais a estimativa de vida se prolonga e taxa de natalidade diminui, acarretando no aumento no número de idosos. Com o intuito de melhorar a qualidade de vida em 1º de Outubro de 2003 foi criado a Política Nacional do Idoso com o objetivo de garantir melhores condições de seus direitos por conta das inúmeras transformações que vêm ocorrendo nesta fase do desenvolvimento. Este estudo teve como objetivo compreender a partir dos discursos de participantes de um grupo de terceira idade os sentidos e significados atribuídos por eles em relação a sua participação neste grupo. Foram participantes 6 idosos que concordaram em participar. A pesquisa foi realizada a partir dos pressupostos do método fenomenológico de pesquisa em psicologia. Realizou-se entrevista áudio-gravada que foram transcritas e analisadas a partir do referencial teórico da Psicologia Fenomenológico-Existencial. Constatou-se que adentrar um grupo de 3ª idade significa a possibilidade de socialização, onde o encontro com o outro possibilita sentir-se em uma nova casa, de sentir-se saudável; que o temporalizar é vivenciado nas reminiscências do passado, a experienciação do presente e a esperança reacionada ao futuro; que o apoio familiar é imprescindível; que é olhar a vida de modo mais seguro e com maiores perspectivas. Assim, percebe-se que participar de um grupo de terceira idade constitui-se, fundamentalmente, ressignificar a si mesmo e à vida.

Palavras-Chave: Terceira Idade, Grupo, Método Fenomenológico, Psicologia Fenomenológico-Existencial

ABSTRACT

Since ancient times, both society and thinkers have always been in search for ways to prolong life and even processes for seeking rejuvenation. For the Greeks and Romans the average estimate of life to which they were assigned was even at 30 years of age. Only after World War II due to the consolidation of the developed countries that limit obtained geriatrics and gerontology. And with increasing technology, and  improvements in health and social life estimation and extending birth rate decreases, resulting in increase in number of elderly people. In order to improve the quality of life on 1st October 2003 was created the National Elderly Policy in order to ensure better conditions for their rights because of the many changes that are occurring at this stage of development. This study aimed to understand from the speeches of participants in a group of seniors the meanings assigned to them in relation to their participation in this group. Participants were six seniors who agreed to participate. The survey was conducted from the assumptions of the phenomenological method of research in psychology. The interviews were audio-recorded which were transcribed and analyzed from the theoretical Phenomenological-Existential Psychology. It was found that entering a group of senior means the possibility of socialization, where the encounter with the other means to feel in a new house, to feel healthy, that time passing is experienced in the reminiscences of the past, experiencing the present and unchangeable hope for the future, that family support is essential, that the looking at life more safely and with greater prospects. Thus, one sees that part of a group of seniors is to fundamentally reframe themselves and life.

Keywords: Elderly, Group Method Phenomenological, Existential-Phenomenological Psychology.

2. INTRODUÇÃO

Desde os tempos antigos, as sociedades bem como os pensadores sempre estiveram com sua atenção voltada para as causas do envelhecimento, tentando obter modos de como poderiam prolongar o tempo de vida, indo sempre na busca da "eterna fonte da juventude" por meio de processos de rejuvenescimento. Pois naquela época, para muitos a velhice era considerada uma doença crônica. Alguns pensadores como Aristóteles, consideravam a velhice como uma "doença natural" e, outros como Sêneca encaravam a velhice como uma doença incurável. No século II da era cristã, Galeno de Pérgamo acreditava que a velhice não era uma doença, pois as doenças sempre estariam contra a natureza.

Ainda na Antiguidade, entre os povos gregos e romanos, a estimativa média de vida era de aproximadamente aos 30 anos. Como os idosos representavam uma pequena parte da sociedade e a estimativa de vida era baixa, os indivíduos que conseguiam chegar à idade mais avançada passavam a ser mais valorizados, pois significava que eles conseguiram viver além da expectativa de vida que lhes era atribuída e, com isso adquiriram maiores experiências e tinham uma maior valorização. (GRIFFA, 2008)

A gerontologia e a geriatria somente alcançaram seu limite após a Segunda Guerra Mundial, devido à consolidação das sociedades de bem-estar e consumo dos países desenvolvidos. No século XIX e inicio do século XX, a pediatria se tornava uma área especializada de grande importância, por conta de o Brasil ser um país de jovens. No entanto, os serviços geriátricos tornavam-se mais carentes, por mais que sejam os idosos as pessoas mais vulneráveis a problemas físicos e psíquicos. Entretanto, por conta das melhorias nas condições sanitárias, educativas e econômicas a expectativa de vida acelerou (IDEM, 2008)

Com o prolongamento da estimativa de vida devido às melhorias nas condições sanitárias e sociais e consequentemente a diminuição da taxa de natalidade, ocorre o aumento do numero de idosos (IDEM, 2008). E por conta dessas melhorias, a sociedade contemporânea passa então a se interessar pela adolescência e juventude e, com tudo que se considera novo. Onde o individuo somente têm valor, ate o instante que são proveitosos e oferecem rendimento a sociedade. O que faz com que os idosos passem a ser tratados como se fossem seres descartáveis que podem ser trocado por algo novo, ou mesmo moderno (MONTEIRO, 2005). Com isso a sociedade modifica o olhar de valores que atribuía aos idosos. Pois eram vistos como heroicos, cheios de sabedoria e experiência, que participavam da tomadas de decisões nas comunidades, os chamados Conselhos de Anciões, passando a ser desvalorizados e marginalizados. Logo, o idoso passa a ser marginalizado não somente pela sociedade, como também pela família. Com o transpor da família numerosa para a família nuclear, os avôs passaram a ser figuras mais distantes. (MONTEIRO, 2005).

A psicologia é uma área rica e bastante abrangente em termos de pesquisa para o graduando, sendo possível vivenciar e experienciar os diversos saberes da psicologia. Entre elas o estudo da Psicogerontologia, que por intermédio desta área é possível estudar o processo do envelhecimento humano, bem como atender as necessidades físicas, emocionais e sociais do idoso.

O assunto abordado surgiu de uma experiência que tive no ensino médio pelo “Projeto Meu Velho Amigo”. E o idoso a quem escolhi residia no asilo São Vicente de Paula e, através dele pude conhecer os demais idosos daquele lugar e conhecer num pequeno espaço de tempo a história de vida de cada um deles. Num certo dia quando fui visitar meu idoso, todos eles estavam participando de uma atividade em grupo que continha dinâmica e danças. E entrei na sala para observar, e percebi a alegria, a felicidade contagiante que transmitiam em seus rostos através de um belo sorriso.

A partir de então emergiu o interesse em procurar saber qual o olhar dos idosos ao participarem de grupos voltados para terceira idade? Quais foram os resultados favorecidos ao terem participado destes grupos?

Dessa forma, torna-se de fundamental importância o estudo desta temática para a sociedade, os acadêmicos, profissionais e até mesmo os idosos, pois assim não somente os idosos como também a sociedade terão o entendimento que a velhice é um processo natural da vida de todo ser humano, que todos iremos passar e, daí a importância de se fazer parte de um grupo de terceira idade.

Para melhor compreensão este estudo está dividido da seguinte forma: Revisão de Literatura, Percurso Metodológico, Resultados e Discussão, Considerações Finais, Bibliografia e Anexo.

3. REVISÃO DE LITERATURA

3.1. ENVELHECIMENTO

O envelhecimento é um processo de maturidade da idade cronológica, biológica, social e psicológica. (SCHNEDEIR, IRIGARAY, 2008).

No processo de maturidade cronológico é destacado os dias os meses e o anos, é a idade que cada individuo constitui. (IDEM, 2008)

No processo de maturidade biológico, são as modificações corporais e mentais que ocorrem no processo do desenvolvimento humano e se definem no processo de envelhecimento humano, que se inicia antes do nascimento e se estende em toda existência humana. (IDEM, 2008)

O processo de idade social se define por meio daqueles indivíduos que deixam o mercado de trabalho e se aposentam, sendo logo rotulados pela sociedade como pessoas idosas por serem vistos como inativos e improdutivos, pois não são mais vistos como pessoas economicamente ativas. A aposentadoria é considerada como um ritual de passagem para a terceira idade, onde ela pode ser vista como um período de atividades e lazer, deixando de ser vista como o momento de descanso recolhimento. (DEBERT, 1999, apud SCHNEDEIR, IRIGARAY, 2008).

No processo psicológico, existe uma relação entre a idade cronológica e as capacidades psicológicas de cada individuo.

“Define-se a idade psicológica como as habilidades adaptativas dos indivíduos para se adequarem às exigências do meio. As pessoas se adaptam ao meio pelo uso de várias características psicológicas, como aprendizagem, memória, inteligência, controle emocional, estratégias de coping. Há adultos que possuem tais características psicológicas com graus maiores que outros e, por isso, são considerados "jovens psicologicamente", e outros que possuem tais traços em graus menores e são considerados "velhos psicologicamente". (HOYER e ROODIN, 2003 apud SCHNEDEIR, IRIGARAY, 2008).

De acordo com Scheneider e Irigaray (2008), o envelhecer psicológico é definido pela ótica que cada individuo constrói por meio das junções do passado, do presente e do futuro. O termo velhice é uma construção subjetiva de cada individuo, sendo atribuída por meio dos significados que faz sobre o envelhecimento, a maneira como este idoso vai enfrentar a fase do envelhecer é que determinara na sua qualidade de vida.

A forma de se pensar e encarar a velhice depende das condições culturais, históricas, políticas, geográficas, econômicas que cada individuo está inserido, como a sociedade local vê o termo velhice e, como este individuo atribui o significado de velhice. Para muitos o termo velhice implica em ser ultrapassado, doente, rabugento, absoleto, desusado. Estes termos impostos são resultados de uma sociedade construída com seus próprios valores e princípios (IDEM, 2008). Mesmo com o invento de muitos meios industriais para se tardar a velhice, a conotação do termo gera sofrimentos, na medida em que querem viver muitos anos de vida, assim mesmo não querem parecer como velhos e nem querem envelhecer."Envelhecer bem significaria estar satisfeito com a vida atual e ter expectativas positivas em relação ao futuro". (NERI, 1993, p. 11), ou seja, mantendo e restaurando suas perspectivas numa época de vida em que se encontra mais fragilizada a situações de crise e riscos biológicos, psicológicos e sociais. (p.11) De acordo com Monteiro (2005), “o ser humano envelhece com o passar do seu próprio tempo, um tempo interno, subjetivo, que pertence a cada um individualmente”.  A partir do meio que esta inserido, serão formados conceitos subjetivos sobre a velhice, que resultam da interação dele como sujeito com o contexto social na qual pertence.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), “a pessoa é considerada idosa a partir do 60 anos de idade” (BRASIL, 1994), mesmo que este envelhecimento não seja apresentado junto com a idade cronológica. Velhice não é caracterizada como sinônimo de aposentadoria, dependência, doença, inatividade ou mesmo de incapacidade (SCHNEDEIR, IRIGARAY, 2008). O que ocorre são incidências patológicas que acometem o individuo com o passar dos anos é que fazem com que seu organismo torne-se diferente na velhice (COLL, MARCHESI e PALÁCIOS, 2004). Especialistas sobre o envelhecimento destacam três grupos de idosos: o primeiro grupo é destacado por idosos jovens, que estão na idade de 65 a 74 que são aqueles que estão com suas vidas cheias de energias, que são ativos na sua vida social; o segundo grupo é destacado pelos idosos velhos que estão entre a faixa de idade dos 75 a 84 anos e, o terceiro grupo que são os idosos mais velhos que estão na idade de 85 anos ou mais, que são vistos como idosos mais sedentários e com probabilidades maiores acerca de doenças. (PAPALIA, OLDS & FELDMAN, 2006, apud SCHNEDEIR, IRIGARAY, 2008). Logo, o processo de envelhecimento é uma experiência heterogênea, que é vivida de maneira individual, pois alguns idosos com a idade de 65 anos mostram ser incapazes de ter uma vida ativa e, outros que estão com uma idade acima dos 85 anos apresentam ter mais vigor do que aqueles que estão com idade inferior. (BEE, 1997, apud SCHNEDEIR, IRIGARAY, 2008).

Para Coll, Marchesi e Palácios (2004), uma das maneiras de caracterizar o envelhecimento é por meio da deteriorização biológica, um fator que veio preconcebido geneticamente. Este organismo vem programado biologicamente para envelhecer. Com o passar dos anos as capacidades de regeneração de uma célula tornam-se limitadas, os raios solares e a poluição atmosférica acometem danos moleculares que vão se acumulando com o passar dos anos. O sistema imunológico diminui à capacidade da autodefesa das infecções, o sistema endócrino que controla as funções do corpo envelhece, e com isso resulta nos centros cerebrais o desgaste, o que gera uma ameaça. O organismo humano foi programado para viver apenas um período de tempo, "estima-se que o potencial máximo está entre os 110 e os 10 anos" (COLL, MARCHESI e PALÁCIOS, 2004, p. 377).  O corpo humano tem um importante potencial do viver, como também programado para morrer, este é um processo natural da vida que acarreta toda a sociedade e não existem meios irreversíveis para que cada individuo não passe por esse estágio biológico da vida. "A partir do momento em que o organismo perde o sentido da conectividade com seu ambiente, perde o seu conhecimento e então morre”. (MONTEIRO, 2005, p. 31).

Outra forma de se caracterizar o processo de envelhecimento é o da deteriorização individual, nesta etapa o individuo é responsável pelo seu organismo, ele é quem mantém o controle de seus hábitos. Para se obter um envelhecimento saudável, é necessário uma boa alimentação, práticas em atividades físicas, se abster do uso de álcool e fumo, bem como a utilização de medicamentos que previna doenças e, assim evitar o declínio funcional (COLL, MARCHESI e PALÁCIOS, 2004). “Do ponto de vista médico ou de saúde pública, a noção de envelhecimento satisfatório consiste na otimização e na expectativa de vida e na minimização da morbidade física, psicológica e social”. (FRIES, 1990 apud NERI, 1993, p. 36).

Com o passar dos anos e, por conta da elevada taxa de vida, a velhice vem ganhado um novo olhar, passando a ser vista como um período de novas possibilidades de aprendizado e conhecimento, onde é possível ser saudável e manter o bem-estar de vida nesta fase do desenvolvimento (GRIFFA, 2008). Até a metade do século XX, o Brasil era considerado um país de jovens, com taxas de natalidade e mortalidade elevadas, principalmente a infantil. (COSTA, Revista UFG, 2003). Por conta das doenças infecciosas e parasitárias, a maiorias dos individuos não chegavam a na fase de desenvolvimento da velhice. (IDEM, 2003). Hoje, vemos um aumento significativo de pessoas idosas, o que deixa de ser o Brasil um país jovem. “Com o aparecimento dos métodos contraceptivos a taxa de fecundidade entrou em decadência, a partir de então a taxa de fecundidade total diminuiu de 5,8 filhos por mulher em 1970 para de 2,3 filhos, em 2000” (KALACHE, 1998 apud COSTA, Revista UFG, 2003). Outro fato que vem chamando atenção em relação aos idosos na dinâmica demográfica do Brasil é a questão da longevidade que vem crescendo nos grupos de faixa etária de idosos maiores de 75 anos. A expectativa de vida é mais elevada ao gênero feminino, destacando que o numero de mulheres viúvas em maior do que homens viúvos. De modo geral, conforme relata Resende (ET AL., 2001 apud COSTA, Revista UFG, 2003) “do ano de 1940 a 2000, o índice da taxa de mortalidade por fatores de doenças infecto-parasitárias foi baixa, por conta de melhorias nas condições de saneamento e, pelo advento de vacinas e antibióticos”.

No entanto, os índices da taxa de mortalidade por doenças cardiovasculares, neoplastias e por causas externas foi relativamente alta. No Brasil, algumas doenças infecciosas como a malária e a tuberculose ainda são responsáveis por um grande número de óbitos. "Outras, como a febre amarela e a dengue estão recrudescendo e causando importante impacto sobre o sistema de saúde. E depois das causas obstétricas, as infecções respiratórias são, segundo dados do Ministério da Saúde do Brasil, a primeira causa de hospitalizações, principalmente dentre idosos”. (CAMARANO, 2002 apud COSTA, Revista UFG, 2003). Por estarem em exposição num tempo prolongado de fatores de risco por conta da diminuição da reserva funcional, tornam-se propensos a fragilidades orgânicas, fazendo com que sejam os maiores consumidores na utilização de recursos financeiros destinados à saúde. Logo, com o crescimento populacional de pessoas idosas a meta deixa de ser a longevidade, deslocando-se a fazer com que este grupo de idosos se torne pessoas autônomas e independentes o maior tempo possível. Estudos realizados mostram que cerca de 30 a 50% dos indivíduos muito idosos (85 anos acima) são incapazes para pelo menos cinco das atividades da vida diária (banhar-se, vestir-se, alimentar-se, transferir-se da cama para a cadeira, usar o sanitário e manter a continência urinária e/ou fecal) e requerem cuidados pessoais em tempo integral. Eles são frágeis e apresentam elevado risco de quedas, confusão mental, hospitalizações freqüentes, sinais de maus-tratos e, em consequência, admissão em instituições de longa permanência (asilos) (RESENDE et al., 2001 apud COSTA, Revista UFG, 2003).

A longevidade é influenciada tanto por fatores genéticos, ambientais e do estilo de vida que cada individuo adquire para si. Logo, não adianta ter melhoras no fator genético e ambiental, se não é levado em consideração o estilo de vida saudável. Se há qualidade de vida preventiva, à longevidade é mais extensa.

“A velhice normal significa ausência de patologias biológicas ou psicológicas, em contraposição à patológica, caracterizada por degenerescência associada a doenças crônicas, a doenças típicas da velhice e à desorganização biológica que pode acometer os idosos. Falar em velhice ótima significa tomar como fonte de referência algum estado de bem-estar pessoal e social. (NERI, 1993)

Com o intuito de melhorar a qualidade de vida, dentro do plano de assistência a 3º idade foi criado o Estatuto do Idoso sancionado pelo Presidente da República, através da Lei nº 10.471, de 1º de Outubro de 2003, e a Política Nacional do Idoso, Lei nº 8.842, 04 de Janeiro de 1994, com o objetivo de garantir aos idosos a defesa de seus direitos abrangendo ações nas áreas social, saúde, educação, previdência social, esporte, lazer e demais assuntos.

Com o passar do tempo às questões relacionadas à velhice vem sendo observadas, no sentindo de fazer com que o idoso conviva e interaja no meio social, onde umas das maneiras de inseri-lo nesse meio seja através de grupos de convivência, para que assim o individuo desta faixa de idade encontre um espaço para desenvolver inúmeras atividades. (RIZZOLI, 2010)

E os grupos de terceira idade têm como objetivo contribuir na promoção e qualidade de vida para um envelhecimento saudável e, por meio da interação dos grupos sociais que estabelecem, faz com que haja uma melhoria positiva no âmbito social e como também na saúde mental e física. Idosos que sentiam solitários e com dificuldades físicas passam a ser estimuladas por meio das atividades que são desenvolvidas nos grupos de terceira idade.

Constatou-se que:

“Ao participar de grupos, as idosas resgatam sua vaidade, o prazer, a satisfação e alegria de poder estar com as outras pessoas. É também, ter um espaço social, no qual podem realizar diversas atividades e ao mesmo tempo conversar, sorrir, dançar, contar piadas, fortalecer laços e fazer novas amizades. (LEITE, CAPELLARI e SONEGO, Revista Eletrônica, 2002)

Outras razões nas quais foram citadas pelos idosos, são as necessidades que todo ser humano tem de relaciona-se, de conviver socialmente com o outro. Destacaram que por meio das atividades físicas que eram praticadas com o objetivo de melhorias na saúde, tornaram-se importantes, pois patologias crônicas que eram apresentadas por declarações clínicas evidenciaram-se que desapareceram ou mesmo foram amenizadas. (IDEM, 2002)

Por meio de pesquisas, um programa de exercícios de dez semanas os pesquisadores Hawkis, Kramer e Capaldi (1992), demonstraram resultados significativos na melhora em tarefas de atenção, onde em alguns casos, essa melhora era desproporcionalmente para os sujeitos mais velhos. E Powel (1992) em suas pesquisas encontrou melhoras cognitivas em pacientes mais velhos institucionalizados que haviam passado por uma rotina de exercícios. E as pessoas que mantém um nível razoável de aptidão física, apresentam um índice menor de variação nos níveis de desempenho intelectual, principalmente na inteligência fluida. (STUART-HAMILTON, 2002). Que esta vem a ser “a habilidade de resolver problemas novos que exigem pouco ou nenhum conhecimento prévio” (PAPALIA, 2009, p.573).

Através da realização de pesquisas de idosos que estavam inseridos nos grupos de terceira idade, conclui-se que as maiorias dos idosos tinham a visão de qualidade de vida como algo bom, expressavam o que pensavam conforme suas vivências. E estas experiências podem estar relacionadas com a saúde, o bem-estar, ao convívio social, bem como as atividades de lazer, de apoio social e às condições financeiras. (TAHAN, CARVALHO, 2010).

Com o passar dos tempos vemos que o ser humano tem sua preocupação voltada para o conhecimento e a compreensão de sua existência humana. (FORGHIERI, 2004). Que por meio desta perspectiva este busca “ampliar a possibilidade de a pessoa relacionar-se consigo mesmo, com os outros e com o mundo ao seu redor”. (CIPULLO, 2002).

3.2. FENOMENOLOGIA

A fenomenologia é uma corrente filosófica que exerceu influência a partir da metade do século XX. Como propulsor da corrente o alemão Edmund Hursserl. (GILES, 2008)

A palavra fenomenologia quer dizer discurso sobre o fenômeno, conquanto se procura trabalhar no discurso daquilo que se veio manifesto, que veio à tona. (FORGHIERI, 2004).

A intenção da fenomenologia como ciência é procurar descrever os fenômenos que se revelam, ao invés de explicar suas causas ou relações. Deste modo volta-se para as coisas que foram encobertas e assim vem à tona da maneira que foram manifestas. (GILES, 2008)

Utilizada por meio de uma ciência eidética oriunda pela descrição, sua atenção está voltada para os fenômenos, onde a ideia principal a ser considerada é de que “toda consciência é consciência de alguma coisa”, logo não se existe fenômeno sem que haja consciência de algo, e é através da intencionalidade da consciência que se há compreensão do mundo. (IDEM, 2008).  Assim se torna um acesso a realidade concreta do mundo de cada ser. E é por meio da subjetividade, que se busca ter acesso a realidade do mundo que cada sujeito vivência. (HOLANDA, 2005)

Falar em essência é entender que a possibilidades para abertura de novas vivencias, compreendendo em cada discurso uma intencionalidade consciente, que se é desvelada na sua intersubjetividade, clareando desta maneira a experiência para a consciência do sujeito. (IDEM, 2005).

Conforme Forghieri (2004), Heidegger estabelece que em cada momento da vida, perante as experiências do dia-a-dia ressignificamos nosso ser-no-mundo, superando os limites entre o dentro e o fora de nossa existência.  Passando a compreender o mundo e a si mesmo a partir dos significados de entendimento subjetivo. (FORGHIERI, 2004).

A premissa da fenomenologia esta baseada na compreensão do fenômeno, pois se entende que o homem é sujeito e objeto de seu conhecimento, que através de sua existência são lhe conferidos sentidos e significados. (GONÇALVES, 2008).

3.3. O MÉTODO FENOMENOLÓGICO PARA A PESQUISA EM PSICOLOGIA

A Psicologia em seu processo de desenvolvimento enquanto ciência tem enveredado por vários caminhos para ser considerada ciência. Assim, vemos desde a criação do primeiro laboratório de Psicologia às atuais vertentes uma busca contínua por cientificidade e reconhecimento de sua produção. Contudo, “tem se mantido presa a estudos que não possibilitaram o conhecimento do homem” (VALLE, 1997, p.28).

Na tentativa de suprir essa lacuna existente, surge a proposição de uma Psicologia de base fenomenológica, em que Giorgi (1978) apud Valle (1997) apropriou-se de conceitos da Fenomenologia e demonstrou a relevância destes para a Psicologia. Assim, são utilizados conceitos tais como: mundo-vivido, consciência, intencionalidade, significado.

A Fenomenologia é para Husserl (1980) a disciplina que poderá fundamentar a lógica através da descrição do vivido, dos atos intencionais da consciência e das essências que eles visam, isto é, dos correlatos intencionais. Esta não considera, de maneira inseparável, o ato e o objeto que ele visa, mas estabelece sua união mediante a estrutura básica da consciência, a intencionalidade. Cabe à fenomenologia distinguir, revelar o que há de essencial na percepção, na recordação, na imaginação, enfim, no vivido.

A Fenomenologia de Husserl conceitua mundo-vivido como a presença imediata do homem à realidade, o cotidiano em que a vida se desenrola, o mundo conforme é encontrado na experiência cotidiana, o mundo enquanto cenário de todas as atividades humanas.  É, no dizer de Valle (1997, p.35) “o mundo tal como é vivido anteriormente a qualquer reflexão sobre ele mesmo como tal (...) e a experiência do mundo vivido deveria ser tomada em sua imediaticidade original, independente de qualquer tipo de conceitualização especializada”. A consciência, por sua vez, enquanto expressão é animada por um estilo que não procede da presença pura e simples do objeto ou da situação designada, mas que procede de um ato mediador, a intenção da significação, presente aqui o que Carvalho apud Castro (2009, p.45) pressupõe como a “célebre noção husserliana de intencionalidade”. Observa-se que Husserl revela ser necessário uma análise do fenômeno vivido como tal, excluindo qualquer pressuposto relativo a uma natureza psíquica. O objeto é a consciência viva enquanto se exprime e dá sentido à experiência, e que para este objetivo ser alcançado, Husserl propõe o método fenomenológico.

Convém assinalar que a Fenomenologia é um “método de acesso à realidade concreta do mundo” (HOLANDA, 2001, p.35), e dessa forma, a pesquisa fenomenológica é basicamente uma pesquisa de natureza e que pretende dar conta do que acontece pelo clareamento do fenômeno. (AMATUZZI,2001).

Esta pesquisa deverá será desenvolvida na perspectiva da modalidade fenomenológica. Valle e Vendruscolo (1996, p.739) ressaltam que este método pressupõe ir ao sujeito que experimenta a situação, objeto da investigação. A captação da experiência se dá através do ouvir a fala do participante que se disponibilizar a participar e a partir da convergência das unidades de significado, as falas, culminando com a revelação do fenômeno, o que possibilitará sua compreensão. Buscar-se-á, inicialmente interrogar o fenômeno pesquisado, que a si mesmo se mostra. Este tipo de pesquisa está – ainda na fala das autoras citadas – “dirigida para significados, ou seja, para expressões claras sobre as percepções que o participante tem daquilo que está sendo pesquisado, as quais são expressas pelo próprio sujeito que as percebe”. Para Castro (2009, p. 56) o “ver” esta experiência necessita, por parte do pesquisador, de um “olhar cuidadoso” além do que se deve evitar quaisquer preconceitos, teorias ou explicações a priori. A posição fenomenológica implica dirigir-se aos fenômenos de maneira aberta, livrando-se das especificidades e pré-conceitos. O inquiridor fenomenológico dirige-se para o fenômeno da experiência em sua forma pura. Diante do fenômeno, ele suspende qualquer julgamento e abandona os pressupostos a respeito deste. Para ele, os dados são absolutos e devem ser compreendidos na pura intuição imanente. A realidade na visão fenomenológica não é este mundo de matéria e atos que existe objetivamente. Há um sentido que permeia as ações, os objetos, o mundo; há um sujeito que dá sentido a tudo (NEVES E CARVALHO, 1990).

Na pesquisa fenomenológica o relato é tomado na sua intencionalidade própria e constitutiva, isto é, não é tomado pelo que ele revela, mas pelo que é. O que ele pretende efetivamente dizer? É esta pergunta que o pesquisador sob essa perspectiva metodológica se faz, como “que se colocando na posição de interlocutor que sente surgir de dentro de si mesmo a necessidade de resposta” (AMATUZZI, 2001, p.18).

Uma possibilidade de chegar à experiência vivida do sujeito é através da entrevista fenomenológica, que de acordo com o que ressalta Carvalho (1991) é “um “ver” que não é “pensamento de ver”, mas efetivação de uma consciência de si, a do cliente” sendo esta a consciência que o cliente tem de sua maneira de estar no mundo e de posicionar-se frente às situações. É, assim, um ver e observar que compreende a captação da maneira como o sujeito vivencia o mundo, que se apresenta de várias formas embora seja singular a cada um, e o pesquisador não se pode arvorar em emissor de juízo de valor sobre esse sujeito. Assim, o sujeito é “corpo e corpo e consciência, sujeito encarnado no mundo, estrutura histórica e psicológica, poder de decisão e escolha, engajamento e abertura para o mundo” (IDEM, p.45).

A pesquisa tem como objetivo descrever os fenômenos, buscar a essência ou a estrutura do fenômeno que se deve mostrar necessariamente nas descrições. Há, portanto, nessa modalidade, grande ênfase na natureza descritiva do conhecimento desejado ou aquele conhecimento que se deseja chegar. O objetivo a ser atingido são descrições da essência do fenômeno experienciado e isso delimita o campo da pesquisa.

Assim, chegar à essência do próprio conhecimento passa a ser o mesmo que procurar captar o sentido da vivência para a pessoa em determinadas situações por ela experienciadas em seu existir cotidiano. O método fenomenológico, que possui como referência a compreensão, possibilita chegar à essência do próprio conhecimento. O que equivale dizer sendo o homem um ente que se manifesta através da fala, é na sua discursividade que ele tem a possibilidade de se explicitar, de revelar o sentido do ser e do existir humanos. Então, através da sua fala é possível captar o significado de suas experiências, desvelar suas verdades.

4. PERCURSO METODOLÓGICO

Para compreender como os idosos vivenciam sua entrada em um grupo de idosos, significa compreensão do vivido, da experiência, a partir de significados existentes em seus discursos, considerou-se a teoria da Psicologia Fenomenológica Existencial.

A Fenomenologia-Existencial utiliza-se de pesquisa qualitativa, justamente por se tentar entender os significados que surgem nos discursos e das vivências de quem participa da pesquisa.

Convém assinalar que a Fenomenologia é um “método de acesso à realidade concreta do mundo” (HOLANDA, 2001, p.35), e dessa forma, a pesquisa fenomenológica é basicamente uma pesquisa de natureza e que pretende dar conta do que acontece pelo clareamento do fenômeno. (AMATUZZI, 2001).

Castro (2009, p. 56) ressalta que este método pressupõe ir ao sujeito que experimenta a situação, objeto da investigação. A captação da experiência se dá através do ouvir a fala do participante que se disponibilizar a participar e a partir da convergência das unidades de significado, as falas, culminando com a revelação do fenômeno, o que possibilitará sua compreensão.

Amatuzzi (2001, p.18) revela que na pesquisa fenomenológica o relato é tomado na sua intencionalidade própria e constitutiva, isto é, não é tomado pelo que ele revela, mas pelo que é. O pesquisador se coloca na posição de interlocutor que sente a necessidade de uma resposta.

Então, de acordo com o método fenomenológico de pesquisa, este estudo buscou inicialmente 10 idosos em um Centro de Convivência do Idoso na cidade de Manaus, contudo, as entrevistas áudio-gravadas foram realizadas apenas com 6 idosos. Foi feito um primeiro contato com a instituição para que a mesma ficasse a par da proposta de pesquisa para a autorização e, em seguida, contactei com os idosos e 6 se colocaram à disposição para a pesquisa. Foi marcado então, dia e horário com esses idosos. Todas as entrevistas foram feitas na própria instituição por uma questão de conveniência para os mesmos.

No dia, horário e local marcado foram feitas as entrevistas com os idosos. A proposta de entrevista inicialmente partiu de uma questão norteadora e foi realizada através de áudiogravação.

Após a realização de todas as entrevistas, seguiu-se para o passo seguinte, que consistiu da análise das entrevistas. No dia, horário e local marcado foram feitas as entrevistas com as participantes que acordaram em participar. A proposta de entrevista inicialmente partiu de uma questão norteadora e foi realizada através de áudio gravação. Após a realização de todas as entrevistas, seguiu-se para o passo seguinte, que consistiu da análise das entrevistas. Inicialmente, foi pensado utilizar as orientações de Martins e Bicudo (2005) propostas em vários momentos, a saber: a) Leitura de cada entrevista do princípio ao fim no objetivo de compreender a linguagem do participante e consequente visão do todo, ou seja, neste momento não se buscará ainda qualquer interpretação do que está exposto e sem tentativa de identificação de quaisquer atributos ou elementos ali contidos; b) Releitura atenta de cada entrevista, quantas vezes foram necessárias, com a finalidade de discriminação de unidades de significados dentro da perspectiva do pesquisador. Será uma análise psicológica que seguirá critério psicológico, sendo, consequentemente, consequência da análise e diretamente relacionado à atitude, disposição e perspectiva do pesquisador diante da questão norteadora; c) Diante das afirmações significativas, houve uma postura reflexiva e imaginativa, para expressar o que se intuiu dentro delas mesmas, deste modo buscando-se expressar o insight psicológico nelas contido, mais diretamente; d) Deverão ser sintetizadas todas as unidades de significado transformadas em uma proposição consistente referente à experiência do sujeito. Assim, buscou-se a convergência das unidades significativas numa afirmação sobre a experiência dos participantes, de forma a constituir as categorias temáticas.

5. ANÁLISE DOS DADOS A PARTIR DA PSICOLOGIA FENOMENOLÓGICO-EXISTENCIAL:

Para a efetivação da análise de dados, dá-se conta que uma das propostas existentes para a compreensão, no sentido fenomenológico, do real, será a identificação neste do seu caráter de fenomênico e não de empírico. A partir daí, pode-se afirmar que para entender o discurso dos participantes da pesquisa pensou-se o processo a partir da Fenomenologia Existencial. Partir para a análise numa perspectiva fenomenológico-existencial consiste, dentre outras coisas, em um remeter-se á uma análise do existir na dimensão ontológica conforme a analítica da existência.

No percurso da análise, sob a lente da Fenomenologia Existencial possibilita-se ao pesquisador assumir o lugar de mensageiro do discurso do sujeito, num processo mútuo de corresponder e des-prender. No corresponder, a fala se desprende quando escuta. No des-prender, a escuta se dá simultaneamente com o responder. Compreende-se que é deste modo que se dá o processo de "escutas e falas" do pesquisador e do participante.

A análise aqui proposta se dá no sentido de compreender esse acontecer "ontos" e ente, no sentido do cuidado. Trata-se de que exerça o pre-ocupar-se, com o pesquisador participando do acontecer do participante. Na compreensão, cuidando do acontecer, facilita o reconhecimento do sentido mais próprio ou impróprio. Ocupar-se do acontecer cuida. Assim, entrega-se o estar-aí às possibilidades mais próprias, ao mesmo tempo em que se entrega o homem ao mundo, constituindo-se num estar - lançado. O mundo próprio constitui-se com suas próprias possibilidades e limites. A pesquisa, nesta perspectiva, não pensa em termos de realidade, mas de possibilidades. Recorde-se que nada é a priori e que o processo de análise deverá ser construído no decorrer do desenvolvimento da pesquisa.

Não pare agora... Tem mais depois da publicidade ;)

Caracterização dos Participantes: 6 idosos participantes de um grupo de idosos em um Centro de Convivência de Idosos em Manaus.

No que concerne às considerações éticas, todos os participantes que acordaram em participar da pesquisa assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

6. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Para melhor explicitação dos resultados obtidos, apresento a partir de agora as Categorias de Análise elaboradas a partir das Unidades de Significado identificadas nos discursos dos participantes.

A seguir explicito as Categorias de análise e subcategorias que foram elaboradas a partir da análise dos dados:

  • Ser-com-o-outro: as várias possibilidades, a possibilidade do encontro; a possibilidade da socialização; a possibilidade de uma nova casa; possibilidade de ser saudável.
  • Passado, presente e futuro: ser idoso é temporalizar! Do passado as reminiscências; no presente a possibilidade-de-ser e para o futuro a esperança.
  • Apoio familiar: o envolvimento da família
  • É ter outro olhar sobre a vida.

SER-COM-O-OUTRO: AS VÁRIAS POSSIBILIDADES

Atingir o período atualmente denominado de terceira, ou melhor, idade pressupõe, no caso dos participantes deste estudo, adentrar em grupos de socialização que possuem como objetivo primordial qualidade de vida do idoso.

Assim, pertencer a um grupo com esta configuração significa permitir-se ver a vida a partir de si mesmos, é perceber-se como um ser de possibilidades. No caso das falas abaixo, a possibilidade do encontro, da socialização, de uma nova casa, de ser saudável.

A) A POSSIBILIDADE DO ENCONTRO

Chama a atenção nos discursos dos participantes à alegria por pertencerem ao grupo, por conviverem com outras pessoas, por desenvolverem as mais diversas atividades que lhes são direcionadas. Poder pertencer a este grupo, significa pertencimento, acolhimento de um para com o outro, significa encontro, a possibilidade de estar com o outro em seu dia a dia. E este fenômeno surge bem explícito nas falas abaixo:

Olha, participa desse grupo tem sido muito importante pra mim, muito [...] porque aqui eu encontrei pessoas idôneas [...] maravilhosa e porque não dizer uma segunda família que eu encontrei aqui (IVANIR)

Aqui eu fico aqui venho pra cá de manhã, almoço aqui, merendo [...] ai pronto, aqui eu to numa boa só vou lá pelas seis horas pra casa pronto, aqui eu to com as minhas colegas, fico mexendo, fico conversando, fico dando aquilo outro, fico dando abraço, aquilo outro, tamo dançando em dança, tamo indo pra dança, todas as coisas que tem aqui. (SANDRA)

Vindo pra cá não, ainda tenho o que fazer, eu já me intreto aqui [...][...] eu me sinto muito bem (ROSINDA)

Heidegger (2002) revela que o homem está no mundo, pertence ao mundo e não está tenuamente ligado a ele. Considerando a fala do filósofo, Forghieri (2004) expõe que o mundo apresenta trina configuração: circundante, humano e próprio. O segundo é aquele que nos interessa neste momento, o humano.

De acordo com Forghieri (2004, p. 31) o mundo humano diz respeito “ao encontro e convivência da pessoa com os seus semelhantes”. Em decorrência desta acepção essa autora demonstra que existir é originariamente ser-com o outro, haja vista que, temos a capacidade de nos compreendermos mútua e imediatamente, por sermos fundamentalmente semelhantes, embora na concretude de nosso existir cada um apresente algumas peculiaridades em seu perceber e compreender as situações.

Os discursos trazem expresso o encontro e a alegria e felicidade que isto causa em cada um dos participantes. Assim, pertencer ao mesmo grupo de idosos, é motivo de sentir-se motivado, de rever as pessoas que se tornaram importantes em suas vidas – os “colegas” - e, conforme nos diz Forghieri (2004, p.31) “no encontro com seu semelhante ocorre uma relação de reciprocidade, na qual ambos se influenciam mutuamente”.

B) A POSSIBILIDADE DA SOCIALIZAÇÃO

Uma das características de quem participa de um grupo de idosos é o encontro conforme ressaltei anteriormente. Contudo, esse encontro propicia, sobremaneira, o estar-com-o-outro em relação significativa e que demanda crescimento, desenvolvimento. Assim, ao se permitirem ir ao grupo, acresce aos participantes o aspecto relacional, de contato com o outro, de socialização.

[...] Porque eu to saindo eu não saia mais né? eu to frequentando o que gosto [...] é isso.  (RAIMUNDA)

A sensação é assim de eu gostar de ter estudado em aula que elas me butaram, de memórias, tem aula de salão que eu me diviste mais a dançar e cada vez eu me divisto mais porque eu gosto tudo eu gosto, cada vez eu gosto mais de dançar (SANDRA)

Vindo pra cá não, ainda tenho o que fazer, eu já me ´intreto´ aqui [...][...] eu me sinto muito bem (ROSINDA)

Então vamos fazer Centros onde os idosos possam se reunir, aonde tenha o lazer, aonde se possa cuidar dos idosos e onde ele se sinta feliz (ANTONIO)

Apoiando-me em Heidegger (2002) esses excertos de discursos pressupõe que os seres humanos fazem parte do existir humano, da existência humana. É o que Forghieri (2004) chama de abertura ao outro. Dessa forma, pertencer a este grupo possibilita uma relação mais profunda, com uma dimensão que permite crescimento e como nos diz Heidegger (2002, pp. 169 e 170) os seres humanos “são e estão no mundo que vêm ao encontro, segundo o modo de ser-no-mundo [...] o mundo é sempre um mundo compartilhado com os outros”.

Ontologicamente, somos um ser de relação, ser para o contato, nascidos do contato, do encontro com um outro ser. Construímos nossa identidade, nosso self por meio dos contatos que estabelecemos com o mundo e com o outro. Sem contato, sem envolvimento com o outro e consigo mesmo, o eu perde o sentido da vida, não é capaz de formar vínculos e de ter relações saudáveis.

Contato é um conceito gestáltico que enuncia a condição relacional do ser humano. Também representa um processo psíquico de escolha que se dá via identificação ou alienação de algo/objeto/situação que se destaca como figura de um fundo amorfo. Antony (2012) revela que o processo de contatar deve ser coerente com a identidade organísmica da pessoa e deve estar conectado à satisfação de uma necessidade primordial. Quando isto ocorre, promove o desenvolvimento, o crescimento, a nutrição psicológica do indivíduo, ou seja, a socialização possibilitando ir além da situação que está posta, propicia liberdade.

C) A POSSIBILIDADE DE UMA NOVA CASA

O aconchego, o acolhimento e a reciprocidade possibilitam “ver” o Centro onde o grupo se reúne, como uma segunda casa. Uma segunda chance para cada um dos participantes. Por esse motivo, ressaltam as amizades construídas e constituídas, possibilitando alegria, momentos de lazer e de companheirismo, um segundo lar.

Então a maioria da minha parte eu passo aqui na minha segunda casa, com as colegas, com as amizades que eu tenho aqui muito boas e porque não, tudo é bom aqui to me sentindo muito feliz, muito mesmo. (IVANIR)

Essas coisas eu tenho porque ela chega, ela assim vai lá no centro ela pega ela compra as coisas pra mim, pra cá eu venho bem vestida porque ela me da as coisas, ela já me deu muito vestidinho pra mim, eu visto venho pra cá bem bonitinha, eu chego aqui do um abraço nela, e eu como era minha primeira mãe eu chamo ela de mãe (SANDRA)

É esse o olhar que eu defino. Uma casa aonde no momento de felicidade do governador desse estado [...] fez esse centro aqui. Aonde as pessoas, as pessoas idosas muitas ficam perambulado ai pela rua sem saber pronde ir e hoje elas vem pra cá, oito horas da manhã e sai daqui seis horas, sete horas da noite. (ANTONIO)

Augras (2011) considera que a construção do mundo pelo homem é feita mediante a elaboração de significado. Corroborando com esta acepção, Angerami-Camon (2007) revela que a vida enquanto existência única e isolada não tem sentido. O homem existe a partir de suas realizações, não existindo pela sua própria vida isolado do contexto de suas realizações. Diante disto, percebo que o sentido atribuído a uma situação e, especificamente nesta pesquisa, ao Centro de Convivência de Idosos do qual os participantes fazem parte, é a propulsão capaz de leva-los a horizontes sequer atingíveis pela razão.

Existencialmente falando, se a vida não tem sentido, a existência é absurda. Conquanto vivenciem esse espaço designado para eles, os idosos conseguem ir além de suas situações difíceis e que causam sofrimento, especializam esse ambiente como uma segunda casa, um lar onde são acolhidos, são bem vindos e isso provoca a sensação de paz e tranquilidade. E, como nos diz Forghieri (2004, p. 29) o mundo circundante “consiste no relacionamento da pessoa com o que costumamos denominar ambiente”. Aprofundando um pouco mais a temática, é no dizer desta autora o especializar que consiste no modo como vivenciamos o espaço em nossa existência, e neste caso, esse especializar se dá no sentido de que este ambiente – o Centro de Convivência – é vivenciado à conta de agradável, de um local que faz bem a cada um deles.

D) POSSIBILIDADE DE SER SAUDÁVEL

Ao serem questionados acerca do que é ser idoso, as respostas nos trouxeram, basicamente, a concepção de ser saudável, conforme se pode perceber a seguir:

Perceber-se com energia e poder ver o mundo de forma mais amena:

Idosa é uma maneira da gente chegar como eu, setenta e quatro anos [...] com essa saúde toda graças a Deus, com essas energia e com essa cabecinha que Deus me deu ô pra pensar. Então as pessoas aa você ta velha, velha é mundo que tá belo e formoso, nos somos idosos, idosa feliz, idosas bem vevidas (IVANIR)

É ter consciência da renovação:

Renovou tudo na minha vida (RAIMUNDA).

É poder participar de várias atividades:

Éé de memória, eu estudo aula de memória também, eles me botarão aula de memória, me botarão de salão, me botaram em de dança de carimbo, de tudo, e isso tudo eu me divirto graças a Deus eu sou uma menina que sou amada, olha essa menina é uma dançarina aqui, essa menina ela não falta, ela não cansa, eu não sei como que ela não cansa com as pernas dela, o braço dela dançar. Que a dança é bem forte aquilo outro... É bom a pessoa ser ser idosa, porque é muito bom né, a pessoa fica assim no [...] uma pessoa muito alegre, aquilo bom (SANDRA)

Ah! pra mim é umaa, uma grande experiência e uma satisfação [...] porque no grupo a terceira idade a gente aprende tanta coisa né, que a gente tem as atividades, e a gente [...] se entrosa com as amigas né? os participante, pra mim foi uma beleza e mesmo encaminhada pelos médicos né (ROSINDA)

É tudo de bom, é uma alegria, uma satisfação participar desses grupos, muito bom, muito bom... A velhice saudável eu defino assim, como nós vivemos aqui, é um envelhecimento saudável, aqui nós temos hidroginástica, aqui nós temos aula de ginástica, aqui nos temos geroncapoeira que é o idoso jogando capoeira, aqui nós temos musculação, aqui nós temos salas de dança, aqui nos temos o piscinão pra hidroginástica (ANTONIO)

Angerami-Camon (2007) apoiando-se em autores do Existencialismo, revela que o ser-no-mundo implica uma luta constante do homem consigo próprio para não perder sua dignidade existencial e suas características individuais. Na medida em que os valores são determinados pelo enfeixamento de normas sociais, os conflitos serão diversos e exigirão um discernimento bastante lúcido no sentido de uma reflexão para não se tornar presa de um sistema social em que a dignidade humana sequer é questionada.

O homem é o ser que existe, ao contrário de outros seres e objetos que apenas são. O ser é. O ser é em si. O ser é o que é. O homem, no entanto, é um ser para si. E, neste contexto, ser-idoso não significa, conforme se percebe nos discursos, é ir em direção contrária ao que se postulava há algum tempo. Ser-idoso é possibilitar-se, é mergulhar na possibilidade de se ver de forma diferente. Aqui, chamo a atenção para o constructo mundo próprio que Forghieri (2004) ressalta como sendo a significação que as experiências têm para a pessoa, e pelo conhecimento de si e do mundo, é, no dizer da autora “a relação que o indivíduo estabelece consigo, ou em outras palavras, no seu ser-si-mesmo, na consciência de si e no autoconhecimento” (IDEM, p.32).

Assim, ser idoso é perceber-se, ao mesmo tempo, como sujeito e objeto.

PASSADO, PRESENTE E FUTURO: SER IDOSO É TEMPORALIZAR!

A pessoa que consegue atingir essa época da vida traz consigo uma série infinita de situações pelas quais passaram no decorrer de suas vidas. Assim, nos discursos dos participantes surgiram questões relativas ao passado, mormente relacionadas a situações que causaram dor e desconforto; fazem referência ao momento atual, ao presente em que estão vivenciando juntamente com os outros participantes do Centro de Convivência e trazem questões referentes à possibilidade do futuro.

A) DO PASSADO, AS REMINISCÊNCIAS.

O passado está revestido por situações muito marcantes, tais como perdas:

E eu fiquei, eu pensava que eu era uma mulher forte pra aguentar a sepa a perda, mas não fui, não fui [...] com uns quinze a vinte dias eu comecei a arriar, a cair, cai mesmo [...] a perda, porque era meu amigo, era um pai maravilhoso, eu cai, pro fundo do poço, eu fui pro fundo do poço, no escuridão, sofri, foi dois anos isso (IVANIR)

A equivocada postura de manter-se só em casa:

Ah é outra, de primeiro eu só vivia em casa não tinha vontade de sair não [...] era pra cuidar de casa mesmo dos filhos [...] e agora não, quando chega aquela hora já quero vim pra cá (RAIMUNDA)

Recordar da tristeza que vivenciava por estar sozinha em casa e também a sensação de abandono, o que também caracteriza como solidão:

Eu na minha casa ficava muito triste (SANDRA)

Porque a gente quando vai chegando com certa idade a gente se sente tão abandonado nem que seja nos familiares da gente, a gente se sente tão [...] deprimido dentro de casa sem ter com que conversar,  filha trabalha, neto trabalha, genro trabalha, neto sai pra aula e ai fica sozinho [...] se sente tão só (ROSINDA)

Abandonado. Abandonado pelas pela bancos da da das praças, pelos jardins das praças. Abandonado, caminhando sem direção (ANTONIO).

Percebo claramente nestes discursos como o sofrimento, a dor, a solidão e a sensação de abandono por parte de suas figuras significativas mais importantes – suas famílias -, é algo que é muito presente nestas falas. E, inclusive, a forma como falaram dá a impressão do quanto esse sofrimento, essa dor foram marcantes em suas vidas.

B) NO PRESENTE, A POSSIBILIDADE-DE-SER

Ao conseguirem participar de um grupo de idosos no Centro de Convivência, parece levar essas pessoas a outra dimensão da vida. A tristeza dá lugar à alegria; o abandono dá lugar a novas amizades e ao aprendizado. Dessa forma, as relações, o acolhimento, a segurança emocional que nessa instituição são trabalhadas favorecem uma espécie de despertar para esse momento que é pleno de satisfação, de vida:

A amizade, um novo relacionamento:

Então tiraram [alguém lhe chama]  foi quando eu vim pra cá, com as amizade eu graças a Deus, agora eu tenho um novo companheiro (IVANIR)

Sentir que é viver melhor, onde a alegria é uma sensação contínua:

Muuito. To vivendo bem do que eu vivia. To vivendo melhor (RAIMUNDA)

É bom a pessoa ser ser idosa, porque é muito bom né, a pessoa fica assim no [...] uma pessoa muito alegre, aquilo bom (SANDRA)

Ser uma outra pessoa:

e depois que eu vim pra cá não eu me senti outra Rosinda, me senti jovem, eu me sinto que ainda sou jovem [risos] [...] [...] é isso, pra mim é ótimo, eu to feliz ate o dia que Deus quiser né?... Ótimo. Ótimo. Eu me sinto muito bem tendo essa minha idade, muito bem, muito bem [...] ter essa idade [...] e ainda espero ter mais e mais e mais (ROSINDA)

Partícipe ativo das atividades e se sentir bem plenamente:

E nos demonstramos todos os dias que não, uma pessoa como eu que tem setenta e cinco anos no meu canto se você colocar um Pavarotti cantando e me colocar ao lado pra cantar eu canto no mesmo tom que o Pavarotti canta. Então eu com setenta e um anos não era pra estar cantando muito bem né. Ali era pra uma pessoa de no máximo trinta anos [...] mas eu vou lá [...] sabe como é essa nota, é uma oitava acima e eu vou lá, eu alcanço. Então é uma prova de que eu tenho idade mais não sou velho... Agora, se eu achar que não, que eu só, a minha velhice é só no corpo ai a coisa fica diferente, eu acho que a minha velhice é só no corpo, na minha mente não (ANTONIO)

C) E PARA O FUTURO, A ESPERANÇA.

Há algumas décadas, a pessoa que atingia a terceira idade era considerada “velha”, em desuso. Assim, essas pessoas eram relegadas à marginalia, discriminadas mesmo como se fossem ou tivessem condições de acompanhar a vida. Atualmente, essa concepção tem mudado bastante. Hoje, o participante de grupos de terceira idade sente-se apto a desenvolver muitas atividades, busca qualidade de vida, sabe-se capaz. Inclusive de pensar o futuro e ter esperança em relação a etapa:

Ah! o olhar é bom né, eu acho muito bonito né [...] é tão bonito [...] tão bonito olha tem pessoas mais idosas do que eu, tão bonito quando elas vem e participam das atividade todinhas. Eu acho tão bonito, eu fico tão satisfeita de vê, alegre de vê  essas pessoas participando, eu tenho fé em Deus que eu ainda chegue essa idade né? (ROSINDA)

[...] idoso eu defino como uma pessoa que viveu esses anos com muita dificuldade e chegou até a idade que esta. E hoje com os benefícios que têm através de muita luta, ele pode se consiga, pode se considerar um idoso sem perseguição, um idoso com lugares bons pra ele ir, porque nisso ai pode se dizer que o governo (ANTONIO)

Três são os tempos do homem: o histórico, significativamente organizado em torno de datas magnas sempre lembradas e celebradas, constitui-se como o substituto racionalista do tempo sagrado. É o seu equivalente e possui a mesma função. Do tempo social, recebe a função mítica dos ritos e de tradição. O tempo biológico é um processo orientado num único sentido, para todas as espécies (AUGRAS, 2011).

Percebe-se a importância da vivência do tempo na vida do homem. Temporalizar é experienciar o tempo que por sua vez é vivenciado como uma totalidade, um presente perene, abarcador, tanto do já acontecido como do que esperamos que venha a acontecer. Assim, é observado na fala dos participantes que os três modos de tempo ou medidas se assim o quiser denominar, sendo vivenciados em um único momento. Atualizam o passado com toda a dimensão da dor que os afetou naquele momento; presentificam o pensar sobre si mesmos no presente e ousam projetar para um futuro que, embora incerto, é algo que faz parte do humano, da vida (FORGHIERI, 2004).

7. APOIO FAMILIAR: O ENVOLVIMENTO DA FAMÍLIA

A relação familiar na vida do idoso é fundamental para que o mesmo consiga realizar-se. Assim, ter a oportunidade de contar com o apoio dos filhos e familiares, propicia sem a menor dúvida, a motivação tão necessária para que estes participantes possam vivenciar a abertura existencial.

O olhar dos filhos para com esse momento na vida, acompanhando-os, possibilitando que desenvolvam suas atividades no Centro de Convivência é um fundamento de extremo valor, pois é através deste ato de cuidar que eles se sentem seguros para continuar a jornada da vida.

Então to feliz, eu tenho uma família maravilhosa, maravilhosos [...] o quê que eu quero mais diga, diga pra mim... A eles adoram, eles vem me deixar todo dia, todo dia ele vem me deixar, todo dia. Eles adoram, me incentivam [...] incentivam.  (IVANIR)

E meus filhos não deixam eu ficar triste [...] eles me levam pa todo canto [...] (RAIMUNDA)

Ai eles só fazem perguntar isso né, que eu digo não graças a Deus to boa. E outro conta conta também, é ela ela agora ela ta graças a Deus que agora ela ta mas se divirtindo que no centro, dela, de idoso, ela dança e fica aquilo outro. Ela se acha quilo, muito bem, graças a Deus que ela ta assim, ela vai e volta, ela sabe vim de onibus mano. É porque eu vim aqui só perguntar se ela ta boa se não ta de ti. Ai ele conta (SANDRA)

A minha filha me incentiva muito, no dia que eu não venho que eu me sinto doente, que às vezes eu to doente, que eu não sinto vontade de sair, ai ela [...] conversa comigo e pede né que eu venha que eu não abandone, não desista, que continue [...] continue, porque ela sente, ela acha que, que eu melhorei depois de participar, que eu fui outra pessoa [...] (ROSINDA).

Por outro lado, existem aqueles que ressaltam essa não participação da família:

Não. Geralmente os filhos eles não participam da vida dos pais, quando na sua velhice, poucos que participam que querem saber, que quando tem uma apresentação e vão participar são muito poucos que fazem isso. Alegam que estão muito ocupados, tem trabalho pra fazer e quase não vêm, isso é muito ruim (ANTONIO)

Fernandes (2011) revela que o nosso mundo circundante se abre, a partir do Cuidado, como a tessitura familiar dos usos e costumes, em que experimentamos a significância, isto é, o significado, a importância, o valor e o sentido de cada coisa. Assim, para os participantes, esse cuidado expresso por seus familiares é significado da melhor forma possível, tendo em vista que é, a partir daí, do cuidado de seus familiares no sentido de apoiá-los, que conseguem perceber a dimensão do cuidar de si mesmos, participando ativamente do processo.

Este autor considera que o relacionamento com o outro cai sempre dentro da envergadura do cuidado, que se faz solicitude. O arco das possibilidades da solicitude vai da indiferença e do ódio, por um lado, à diligência e amor por outro lado (FERNANDES, 2011). E, na perspectiva das falas, percebe-se que este último caso é o vivenciado por eles na relação com seus familiares que são fundamento, base, apoio contínuo. E, este movimento possibilita mergulhar, redimensionar as suas vidas.

8. É TER OUTRO OLHAR SOBRE A VIDA

Viver esse momento de convivência diária, se perceber com possibilidades de cuidar de si mesmo, ser-si-mesmo é permitir ao idoso lançar outro olhar sobre sua própria vida. Conforme asseveram os dois participantes a seguir é olhar a vida com outro coração, ou mesmo, olhar sob dois aspectos, o primeiro lançando ao passado a compreensão de ter sido um olhar a partir do véu da tristeza; e, por outro lado, projetar para o futuro, um olhar mais alegre.

Éé [...] olhar com outra vida, com outro coração (RAIMUNDA)

É um novo olhar, alias dois olhares. Um no passado e um no futuro [...] Porque não dizer um no presente... O olhar do passado era meio triste, era cinzento. O olhar do presente ele é mais colorido, ele é mais alegre. E é projetando para o futuro... (ANTONIO)

Estes excertos de discursos expressam o que poderia denominar de autenticidade. Observo que os idosos ao utilizar a palavra “olhar”, significa dizer que tem sua vida em suas próprias mãos, conseguem perceber-se como seres-de-possibilidade, uma vez que, ao olhar para o passado e verificar a diferença que existe entre o antes, o agora e o porvir, tomam para si mesmos a responsabilidade, querem realizar algo por e para si mesmos e percebem que as atividades realizadas no Centro de Convivência possibilitam isso.

Como ressaltam Angerami-Cajon (2007); Forghieri (2004) e Heidegger (2002), ao Dasein cabe à busca de si-mesmo, cabe redimensionar o olhar que lançam sobre a vida enquanto seres de escolha, em busca da vivência da liberdade e da possibilidade de serem felizes.

9. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este estudo oportunizou por meio dos dados coletados compreender quais foram as modificações ocorridas após o envolvimento dos participantes em grupos 3ª Idade.  À  luz da Psicologia fenomenológico-existencial procurei entender quais as modificações que ocorreram em suas vidas, sendo que este entendimento se baseou na realidade concreta do mundo que estas pessoas vivenciam.

Percebe-se que o vínculo estabelecido entre os idosos, possibilitou o ser-com-o-outro, ou seja, permitiu a socialização necessária onde o encontro é de fundamental importância, uma vez que é a partir do convívio com o outro que a sensação de pertencimento e acolhimento se fizeram presentes em sua relação com o grupo, pois ali encontraram pessoas que se compreendem mutuamente, um lugar que suas necessidades passam a se interagir, um ambiente em que há o encontro das pessoas com a mesma faixa etária.

O relacionamento e o vínculo estabelecido propiciaram o compartilhamento de sentimentos variados, tais como: alegria, felicidade, tristeza e pertencimento. Este processo, consequentemente culminou em um suporte emocional e motivador de objetivos na vida de cada um dos idosos.

Foi considerado que a partir do integrar-se nestes grupos, os participantes percebem o ambiente como uma segunda casa, o que faz com que passem grande parte do seu dia no local do em que o grupo se reúne, pois nestes Centros de Convivência encontram práticas, trocas, aprendizagens, momentos de lazer, companheirismo, sendo um lugar que favorece aconchego e acolhimento, criando laços de amizades e trocas de experiências.

Ao referir sobre a concepção do significado do que é ser idoso, pode-se dizer que as narrativas foram no sentido de considerarem esta acepção como ser saudável, um ser renovado e que pode participar de diversas atividades, dentre elas as que são oferecidas pelo Centro de Convivência, como a dança, oficina de memória, musculação, hidroginástica, capoeira.  Conforme o envolvimento no grupo foi progredindo e essas atividades passaram a ser contínuas, os participantes passaram a sentir-se renovados e com uma outra forma de se verem a si mesmos e ao mundo.

Um dos aspectos relevantes levantado pela pesquisa, diz respeito ao temporalizar. Depreende-se o quanto trazem consigo as reminiscências do passado, as lembranças que proporcionaram dores e sofrimentos, caracterizando suas perdas, a solidão, e o sentimento de abandono. São traços que se mantêm vivos em suas memórias, mostrando o quanto tais fatos que lhes ocorreram foram marcantes nas suas vidas.

Outro momento em que o temporalizar é manifestado é no que se refere às  perspectivas da possibilidade-de-ser, o momento presente que estão vivenciando. Assim, após adentrarem nos grupos de 3ª idade as mudanças começaram a ser transparecidas, as dores, as perdas, sentimentos de abandono e solidão passaram a dar lugar a preenchimentos com novas amizades, com novos relacionamentos. Em meio aos seus discursos alegam estarem se sentindo mais jovens e motivados a romper com suas limitações e isso mostrou o quanto estão predispostos a uma melhor qualidade de vida.

Fica evidente que suas concepções passaram a ser resgatadas, tendo esperanças de um futuro melhor, com oportunidades de entretenimento que não tinham antes.

Na relação de apoio familiar notou-se a importância deste apoio no sentido de sentirem-se cada vez mais motivados a permanecer no grupo e a desenvolver as atividades ali oferecidas. Há, contudo, aqueles que não percebem este apoio e isto é um fator interveniente na continuidade do participante no Centro de Convivência.

Considerando o item anterior, o apoio familiar, percebi em seus discursos que este fator propicia força para que continuem na caminhada da vida. Outrossim, foi através deste apoio e mediante as alegrias e satisfações encontradas no convívio com o outro que puderam considerar a possibilidade de começar a vivenciar ativamente o processo de envelhecimento saudável nos grupos de 3ª Idade. A partir do momento em que se viram apoiados começaram a assumir o que poderia denominar de auto-cuidado, ou seja, este cuidado lhes concedeu um redimensionamento vivencial, que assim  permitiu para um recomeço existencial.

A partir do momento que iniciaram suas participações nos grupos de 3ª Idade, suas rotinas, suas expectativas de vida foram modificadas. O olhar que lançavam para seu passado era de algo sem vida. Em relação ao presente, este é encarado com mais ânimo, com mais força de viver, o que possibilita ver um futuro com mais ousadia. Quando remetidos à sua historia, percebem que ocorreram modificações em relação a seus sonhos e expectativas. Assim, conseguem se perceber como seres autênticos e com possibilidades de modificar o olhar que lançam à vida.

Percebe-se a valorização da pessoa idosa naqueles que participam dos grupos de convivência, que passaram a ver como pessoas com deveres, mas com direitos também e, principalmente, se percebendo capazes de realizações, quer através das atividades físicas, quer através da possibilidade de relacionar-se com o outro. Essa participação propiciou o desenvolvimento de sua autoestima, sua autoimagem e, além disso, a partir dessa transformação, passam a priorizar qualidade de vida e inserção social mais agradável e com possibilidade de crescimento.

As falas dos participantes trazem a satisfação do fazer parte de um grupo de 3ª Idade, pois percebem que após a inserção nestes grupos as rotinas de suas vidas mudaram. Dado o exposto, constatei o valor da participação em grupos dessa natureza, assim como a importância que se tem em manter a relação com o outro nestes grupos, pois foi a partir destas relações estabelecidas que ocorreu uma mudança positiva na vida de cada um dos entrevistados, inclusive passam a lançar um novo olhar com possibilidades para o futuro.

Através da utilização do método fenomenológico é possível averiguar como as pessoas estão em um determinado momento do aqui-agora, onde abrimos mão dos juízos de valor para que possamos compreender e entrar na realidade daquele individuo que relata seu sentido vivencial. Assim são abertas viabilidades de pensamento para que se gere possibilidade de mudança e de conhecer a si mesmo.

Logo por meio da vivência como discente e pesquisadora que tive em um pequeno espaço de tempo com aqueles idosos, percebi que cada um atribuiu significados ao existir e hoje lhe é permitido uma nova visada sobre si mesmos e à vida.

Sendo assim, porque não me emocionar e sentir um prazer a mais diante da vida por meio daqueles que tem história de aprendizagem e vivência a nos contar? Onde cada história de vida ouvida me proporcionou um novo olhar, um olhar amplo no que vem ser o idoso e as modificações que lhes ocorreram ao participar desses grupos. Contudo, cada vivência que me foi relatada me fez sentir-se mais apaixonada pela vida, pois nós enquanto sujeitos temos uma vivência do temporalizar, e a partir dai construímo-nos a nós próprios enquanto ser-no-mundo, um ser de inúmeras possibilidades.

10. BIBLIOGRAFIA

AMATUZZI, M.M Pesquisa Fenomenológica em Psicologia In: BRUNS, M.A.T e HOLANDA, A.F Psicologia e Pesquisa Fenomenológica:Reflexões e Perspectivas – São Paulo: Ômega Editora, 2001.

ANGERAMI-CAMON, V. A. Psicoterapia Existencial – 4. Ed. – São Paulo: Thomson Learning Brasil, 2007.

Psicoterapia Fenomenológica Existencial -- São Paulo: Thomson Learning Brasil, 2002.

ANTONY, S.M.R.Gestalt-terapia: Cuidando de crianças teoria e arte. Curitiba: Juruá, 2012.

BRUNS, M.A. T e HOLANDA, A.F. (Org.) Psicologia e Pesquisa Fenomenológica: reflexões e perspectivas – 2º edição - São Paulo: Ômega Editora, 2005.

CASTRO, Ewerton Helder Bentes A experiência do diagnóstico: o significado no discurso de mães de crianças com câncer à luz da filosofia de Martin Heidegger Tese (Doutorado) Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto: Ribeirão Preto, 2009, 182 p.

CIPULLO, Marcos Alberto Taddeo. Decifrando posturas: corpo e existência na compreensão psicodiagnostica – São Paulo: Casa do Psicólogo, 2002.

COLL, César; MARCHESI, Álvaro e PALÁCIOS, Jesus. Desenvolvimento Psicológico e Educação_ 2. Ed. - Porto Alegre: Artemed, 2004.

COSTA, E.F. A; PORTO, C.C; SOARES, A. T. Envelhecimento populacional brasileiro e o aprendizado de geriátria e gerontologia. Revista da UFG. Vol. 5 No. 2 , Dez, 2003.

DANTAS, B.J; EWALD, P.A; GARCIA F.A. F; GONÇALVES, R.R. Merleau-Ponty, Sartre, Heidegger: três concepções de fenomenologia, três grandes filósofos. Estudos e Pesquisas em Psicologia, UERJ, nº 2, RJ 2008.

FERNANDES, M.A. Do cuidado da Fenomenologia à Fenomenologia do cuidar In:

PAPALIA, Diane E. Desenvolvimento Humano – São Paulo: McGraw-Hill, 2009.

FORGHIERI, Yolanda Cintrão. Psicologia Fenomenológica: fundamentos, método e pesquisa – São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2004.

GILES, Thomas Ransom. História do Existencialismo e da fenomenologia – São Paulo : EPU, 1959, 3ª reimpressão, 2008.

GRIFFA, Maria Cristina.   Chaves para a psicologia do desenvolvimento: Adolescência, Vida Adulta, Velhice_ 4. Ed. - São Paulo: Paulinas, 2008.

HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo (1927), parte I e II. Tradução Márcia Sá Cavalcante Schuback. Petrópolis: Vozes, 2002. [ Sein und Zeit, Frankfurtam Main: Vittorio Klostermann, 1977.]

MARTINS, J e BICUDO, M.A.V A pesquisa qualitativa em Psicologia: Fundamentos e Recursos Básicos – 5.ed. – São Paulo : Moraes, 2005.

MONTEIRO, Pedro Paulo. Envelhecer: Histórias, Encontros, Transformações_ 3. ed. - Belo Horizonte: Autêntica, 2005.

NERI, Anita Liberalesso. Qualidade de vida e idade madura. São Paulo: Papirus, 1993.

NEVES, M.C.D e CARVALHO, W O Mecanicismo da Física na Psicologia e a Perspectiva Fenomenológica  - Cadernos da Sociedade de Estudos e Pesquisa Qualitativos. –Vol. 1, Nº 1 - . – São Paulo: A Sociedade, 1990.

PEIXOTO, A.J. e HOLANDA, A.F. (Coord.) Fenomenologia do Cuidado e do Cuidar: perspectivas multidisciplinares.  Curitiba : Juruá, 2011.

RIZZOLLI, Darlan; CESAR SURDI, Aguinaldo. Percepção dos idosos sobre grupos de terceira idade. Rev. Bras. Geriatr. Gerontol., Rio de Janeiro, v. 13, n. 2, ago. 2010.

SCHNEIDER, Rodolfo Herberto and IRIGARAY, Tatiana Quarti. O envelhecimento na atualidade: aspectos cronológicos, biológicos, psicológicos e sociais. Estud. psicol. (Campinas) vol.25 no.4 Campinas Oct./Dec. 2008.

STUART-HAMILTON, Ian. A psicologia do envelhecimento: uma introdução. – 3.ed. Porto Alegre: Artemed, 2002.

TAHAN, Jennifer; CARVALHO, Antonio Carlos Duarte de. Reflexões de idosos participantes de grupos de promoção de saúde acerca do envelhecimento e da qualidade de vida. Saúde soc. vol.19 No. 4, São Paulo out./dez. 2010.

VALLE, E.R.M. Câncer Infantil : Compreender e Agir – Campinas,SP:Editora Psy,1997.

VALLE, E. R. M e VENDRUSCOLO, J. A família da criança com câncer diante do diagnóstico da doença. Encontros iniciais com a psicóloga. Pediatria Moderna  v. XXXII, n.7 – São Paulo, 736:51, dez., 1996. 

 

Por Thais da Silva Barreto


Publicado por: THAIS DA SILVA BARRETO

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do site por meio do canal colaborativo Monografias. O Brasil Escola não se responsabiliza pelo conteúdo do artigo publicado, que é de total responsabilidade do autor. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.