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O caso Elizabeth Thomas na pespectiva do transtorno de apego reativo da infância

Psicologia

Análise do caso Elizabeth Thomas sob a luz do transtorno de apego reativo

índice

1.  RESUMO

Nesse trabalho, propomos analisar o caso Elizabeth Thomas, sob a luz do Transtorno de apego reativo. Foram utilizadas referências teóricas que possam nos auxiliar na elucidação deste caso, que se tornou público na década de noventa através das mídias televisivas e cinematográficas. A análise do caso foi realizada com base bibliográfica a respeito do transtorno, com o qual Elizabeth foi diagnosticada. Para tanto, foi realizada uma pesquisa teórica, com fundamentação no desenvolvimento humano, com ênfase na fase da infância, assim como a importância da estrutura de apego e da construção do vínculo afetivo para um desenvolvimento saudável. Aborda-se, também, quais os prejuízos que podem surgir ao longo da vida do indivíduo, caso este vínculo não ocorra ou aconteça de forma inadequada. O caso Elizabeth Thomas, por ser público, inspirou-nos a buscar uma compreensão maior sobre sua trajetória de vida, suas referências bibliográficas e diagnósticas, assim como despertou para uma investigação sobre a historicidade do Transtorno de apego reativo, enquanto sua classificação patológica e quais os possíveis tratamentos que visam um melhor prognóstico para a vida dessas crianças. Acredita-se que, com tratamento eficaz, essas crianças sejam reabilitadas e vivam bem ajustadas no seio de suas novas famílias. Por ser um transtorno com diagnóstico precoce, a partir do referencial pesquisado, torna-se necessário que se tome medidas protetivas para salvaguardar os direitos fundamentais da criança, prevenindo que estas não se tornem adultos desprovidos de sentimentos. Uma dessas medidas é o acolhimento dessas crianças em lares de outros familiares ou mesmo em instituições, onde se deparam com a questão da reabilitação do vínculo do apego. Ressalta-se a escassez de estudos e materiais bibliográficos, recomenda-se a ampliação de investigações sobre o tema, tanto no que diz respeito ao diagnóstico como a prevenção e tratamento do transtorno de apego reativo.

Palavras-chave: Apego. Infância. Vínculo.

ABSTRACT

In this work, we propose to analyze the Elizabeth Thomas case, in the light of reactive attachment disorder. Theoretical references were used to help us elucidate this case, which became public in the nineties through television and cinematographic media. The analysis of the case was carried out based on bibliography on the disorder, with which Elizabeth was diagnosed. For this purpose, a theoretical research was carried out, based on human development, with emphasis on the childhood phase, as well as the importance of the attachment structure and the construction of the affective bond for a healthy development. It also addresses the losses that may arise over the life of the individual, if this bond does not occur or does not happen in an inappropriate way. The Elizabeth Thomas case, for being public, inspired us to seek a greater understanding of her life trajectory, bibliographic and diagnostic references of her case, as well as awakening to an investigation into the historicity of Reactive Attachment Disorder, while its pathological classification and which the possible treatments aimed at a better prognosis for the lives of these children. It is believed that, with effective treatment, these children are rehabilitated and live well within their new families. As it is a disorder with early diagnosis, based on the researched framework, it is necessary to take protective measures to safeguard the fundamental rights of the child, preventing them from becoming adults without feelings. One of these measures is the reception of these children in the homes of other family members or even in institutions, where they are faced with the issue of rehabilitation of the attachment bond. The scarcity of studies and bibliographic materials is emphasized, it is recommended to expand investigations on the topic, both with regard to diagnosis and the prevention and treatment of reactive attachment disorder.

Keywords: Attachment. Childhood. Bond.

2. INTRODUÇÃO

Este estudo se propõe a fazer uma análise do caso de Elizabeth Thomas, sob a perspectiva do Transtorno de Apego Reativo (TAR). Serão apresentadas suas referências teóricas e a classificação de acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais DSM V (AMERICAN..., 2014). Onde está classificado no grupo de transtornos relacionados a traumas e estressores, sendo o TAR especificado como persistente ou grave, podendo afetar a crianças desde tenra idade, até mesmo bebês. Tal quadro se desenvolve durante os primeiros anos da infância e apresenta uma relação de apego inseguro derivado, que pode ser derivado de negligência e /ou maus tratos dos cuidadores primários.

A partir da escolha do tema proposto, o caso de Elizabeth Thomas, observou-se o TAR como sendo um transtorno com características e classificação propostas para o diagnóstico. É descrito como sendo um transtorno específico, raro e de baixa prevalência, entretanto, de alguns anos para cá, pode-se observar um aumento de casos de violência precoce elencadas à história da família da criança. Apresenta-se, então, uma preocupação de como irá se desenvolver esse indivíduo biopsicossocialmente na vida adulta.

Embasado nessa perspectiva, o presente estudo investigativo constitui-se de uma pesquisa bibliográfica constituída dos seguintes capítulos. No primeiro capítulo, descreve-se o desenvolvimento humano e infantil de acordo com algumas teorias que serviram como um parâmetro para a compreensão e transcurso do trabalho, sendo elas: o desenvolvimento humano à luz da teoria psicossexual de Freud e o desenvolvimento humano à luz da teoria psicossocial de Erick Erikson.

O segundo capítulo trata de conceituar e caracterizar a Teoria do apego (TA) e apresentar uma visão geral sobre o conceito e tipos de apego, em seguida, descreve-se o TAR como tradução de Reactive Atachament Dissorder (RAD) por meio de levantamento bibliográfico científico.

No terceiro capítulo, busca-se compreender o Caso Elizabeth Thomas na perspectiva científica e midiática, apresenta-se o caso com base nas produções cinematográficas e televisivas baseadas na sua história de vida. Em 1992, o diretor Larry Peerce realizou o filme Chind of rage (“A ira de Anjo”), ficção baseada em fatos reais; porém, o caso de Elizabeth Thomas veio a tornar-se público por meio das sessões de terapia gravadas com o Dr. Ken Magid, que compôs o documentário realizado exibido pela HBO e disponível com o mesmo título do filme – A ira de Anjo. Dessa forma, o mundo conheceu a menina de lindos olhos azuis e semblante angelical que, aos seis anos de idade, chocou o mundo quando disse que queria matar os pais adotivos. Quais as causas que vieram a fazer essa criança manifestar esse comportamento com tão pouca idade?

O quarto capítulo apresenta ao estudo iconográfico (fotográfico) das expressões emocionais de Beth Thomas sob a perspectiva Darwiniana. O estudo foi realizado por meio de pesquisa em banco de dados de imagens e textos publicados e disponíveis na internet.

Baseando-se nestas informações, coletadas por meio do documentário bem como por referências teóricas, esta pesquisa tem como objetivo trazer à luz o Transtorno de apego reativo a partir do estudo de caso, bem como apresentar o levantamento de dados referentes ao tema. Para tanto, foi realizada uma pesquisa bibliográfica em livros, artigos científicos e sites sobre a temática em estudo, a fim de buscar estabelecer uma relação entre o caso, o transtorno de apego reativo e a teoria do apego.

3. OBJETIVOS

3.1. Geral

Investigar a relação do caso de Elizabeth Thomas com o Transtorno de apego reativo.

3.2. Específicos

  • Descrever algumas teorias sobre o desenvolvimento humano infantil;

  • Conceituar e caracterizar a Teoria do apego e o Transtorno de apego reativo;

  • Compreender o Caso Elizabeth Thomas na perspectiva científica e midiática.

4. DESENVOLVIMENTO HUMANO DE ACORDO COM ALGUMAS TEORIAS PSICOLÓGICAS

4.1. Freud e o Desenvolvimento Humano à luz da Teoria Psicossexual

O conceito de desenvolvimento humano, como um todo, refere-se a um processo contínuo e ininterrupto em que os aspectos biológicos, físicos, culturais e sociais se inter-relacionam, se influenciam reciprocamente, o que implica na produção de indivíduos singulares no seu modo de pensar, agir e estar no mundo (BOCK, FURTADO, TEIXEIRA, 2001).

Segundo Amaral (2012), a fase da infância, no desenvolvimento humano especialmente, teve uma longa trajetória até chegar a alguns conceitos fundamentais, para compreendê-la tal como é hoje. Este processo, que sofreu muitas modificações através do tempo, da humanidade e do desenvolvimento socioeconômico e cultural. Sabe-se que, da Idade Média até o sec. XV, não existia um conceito de infância, mas sim, uma caracterização que ia desde o nascimento até os sete anos de idade, onde o ser infantil era considerado como um mini adulto.

Indivíduo com comportamento de infantilidade e, a partir daí, dos sete anos em diante, ele já era tratado como um miniadulto. Tão logo o pequeno pudesse abastar-se fisicamente habitaria o mesmo mundo que os adultos, confundindo-se com eles. Nesse mundo adulto, aqueles que hoje chamamos crianças eram educados sem que existissem instituições especiais para eles. (ARIÈS, 1986, p. 17)

Dessa maneira, essas crianças eram introduzidas ao mundo dos adultos, e os menos favorecidos condicionados ao trabalho. Franco Frabboni (1998) descreverá as fases da infância durante este período, começando pela fase de infância negada, que tem por conceito a apresentação do descuido dos adultos para com as crianças, que gerava um alto índice de letalidade e também um grande índice de natalidade.

É possível observar nos quadros de arte renascentista crianças ao lado de adultos e vestidas como tais. Ao longo de muito tempo, só então no séc. XVI, através das influências de filósofos e da religião, foi que se instituiu a escola para crianças, nesse momento, apenas para as crianças brancas, de famílias influentes ou abastadas, com o objetivo de manter as crianças afastadas dos pais por um período e de prepará-las para o mundo adulto.

A posteriori e, devido à Revolução Industrial, essas crianças que tinham melhores condições sociais frequentavam escolas e as crianças não favorecidas ou pobres acompanhavam os pais no seu trabalho. A chamada fase da infância industrializada, que teve seu início no séc. XVI, seguindo, sem muitas alterações, até o séc. XVIII. Gabriel (2011 apud ÁRIES, 1986, p. 17), refere que, no séc. XVII, as crianças eram corrigidas, educadas e instruídas da mesma forma, pois eram consideradas “todas iguais”, quer dizer, essa condição estava limitada às crianças brancas, ricas e as que conseguiam acesso à educação, mesmo que informal.

O reduto familiar torna-se cada vez mais privado e progressivamente assume funções antes não assumidas, como os cuidados básicos com a criança. Isto é, somente nas estruturas de relações de propriedade e poder a criança existe como minha, tua, nossa, sua criança, ou seja, dentro de uma estreita privatização de relações e definições. (FRABBONI, 1998, p. 67)

Somente a partir do séc. XIX é que se inicia, a partir dos estudos científicos, o entendimento de que a criança tem características próprias; é nesse momento, então, expressa o autor, que surgem várias teorias para explicar o desenvolvimento infantil e os processos de aprendizagem, esta fase será da infância de direitos, ainda que estes direitos fossem condicionados à situação financeira da família da criança. (FRABONI,1998).

A partir do século XX é que podemos encontrar a criança como sujeito de direitos, a esse respeito, o autor citado expressa que:

Estamos falando de uma criança cujas primeiras páginas do álbum de família estão manchadas com certas características de “identidade negativa”, a saber: a identidade da criança-adulto e a identidade da criança-filho-aluno. Somente nas páginas do álbum correspondentes ao século XX reconhece-se à infância a identidade de sujeitos social, sujeito de direitos. (FRABBONI, 1998, p. 64)

Partindo deste ponto para as teorias contemporâneas de desenvolvimento infantil, Freud apresentará a teoria do desenvolvimento psicossexual que, de acordo com Bonfim (2009) referenciará que Freud foi o responsável por superar os estudos da sexualidade nas ciências biológicas, ultrapassando a visão do sexo meramente reprodutivo e por transportar a temática para as ciências humanas, onde a sexualidade está ligada à afetividade, como fonte de bem-estar: “o prazer do amor, da comunhão interpessoal, da relação íntima e profunda com o outro da celebração da vida” (BONFIM, 2009, p.139).

Zornig (2008) expressa, com respeito às dimensões subjetivas do bebê, apresentando por meio de pesquisas realizadas nas últimas décadas, que demonstraram a procura ativa do bebê por interagir com o meio desde o nascimento. Autores pioneiros no estudo do apego, como Stern (1992) e Cyrulnik (1999) corroboram neste sentido apontando que o bebê possui, desde o nascimento, competências e capacidades que lhe permitem uma intensa forma de comunicação não-verbal acentuada, e os bebês procuram discriminar experiências a partir de um sistema de percepções e sensações vivenciadas em seu mundo relacional, sensorial.

Desta forma, pode-se observar que, se as pesquisas sobre primeira infância, por um lado, refutam a figura de um bebê passivo, objeto do discurso e do desejo parental, apresentando a dimensão subjetiva bem como a precoce capacidade relacional, outrossim, demonstra como o desenvolvimento do psiquismo infantil é complexo e mutável, se estruturando a partir de trocas afetivas e interações que permitem ao bebê uma experiência de co-construção (ZORNIG, 2008).

Enfatizando a necessidade de acolhimento e interação, Freud (1905, p. 22), no seu trabalho Três Ensaios sobre a teoria da Sexualidade cita que, “o bebê, ao ser amamentado, procura também satisfazer suas necessidades emocionais ao entrar em contato com a pele da mãe, ouvir sua voz, sentir seu olhar, ser acariciado por ela”. Zornig (2008) expressa que o ato de amamentação permite uma intensa troca afetiva, possibilitando que mãe e bebê sejam afetados um pelo outro e iniciem uma relação afetiva e sexual, nesse ponto de vista, o sexual teria um sentido amplo, pois a mãe (ou quem exerce esta função) ao mesmo tempo em que cuida de seu filho, erotiza seu corpo. Este corpo é erotizado justamente por não ser apenas um pedaço de carne para os pais, mas sim um corpo simbólico, investido de afeto e de palavras que vão marcar o bebê e lhe dar um lugar fundamental na estrutura familiar.

Por este motivo, os bebês e as crianças pequenas em sofrimento demonstram seu mal-estar com sintomas físicos, através de um sintoma no corpo - de um corpo que fala, que se comunica, antes mesmo da linguagem oral. Esta linguagem não verbal é externalizada por meio de expressões faciais, de sons como o choro, denota-se a falta de interação, falta de segurança no cuidador, quando o bebê entrelaça os dedos no tecido ou em algo que o cerque e o segura com força, como se estivesse com medo de cair, que o deixem cair, e que sinaliza que a criança instintivamente busca se proteger do risco por sua própria conta, com seus recursos primários diante do medo e da insegurança.

Freud descreve ainda que, com relação à memória infantil, deve-se supor, ou que se pode convencer que, mediante a investigações psicológicas, as mesmas impressões por nós esquecidas deixaram, e ainda assim, deixarão os mais profundos rastros em nossa vida anímica, e se tornarão determinantes para todo o nosso desenvolvimento posterior (FREUD, 1976, p. 22).

Para melhor entendimento, os autores descrevem as fases do desenvolvimento humano na perspectiva da teoria psicossexual defendida por Freud sendo descritas as fases, que são: fase oral, fase anal, fase fálica, fase de latência e, por fim, a fase genital, que se refere a seguir.

De acordo com Romagnani et al. (2011 apud Freud 1976) a fase oral ocorre do nascimento aos dezoito meses, destaca que, nesta fase, a criança tem a boca como fonte de prazer, ela encontra satisfação em todas as atividades orais: morder, chuchar, sorrir, chorar, sugar. Nesse contexto, Freud defende que que estas atividades são primariamente sensoriais e que a satisfação encontrada nesta ação cristaliza-se a partir da libido, entendida como energia psíquica que perpassa toda a educação social da criança, desta maneira, enfatiza que durante esta fase a libido se concentra em torno da zona oral, ou seja, a necessidade e o prazer concentram-se em torno dos lábios, língua e posteriormente nos dentes.

A boca é descrita como sendo a primeira área do corpo onde o bebê concentra sua libido e pode controlá-la. O seio da mãe é o primeiro objeto de ligação afetiva infantil. Ao crescer, ele vai desenvolvendo outras áreas do corpo que também passarão a ser regiões de prazer e satisfação, contudo, os prazeres orais poderão ser mantidos, como: comer, chupar, morder, lamber ou beijar, expressões físicas prazerosas que as pessoas continuam mantendo.

Na fase Anal que ocorre dos dezoito meses aos três ano é expressada pelo momento em que a criança retira parte da libido que antes se concentrava na boca e divide com a zona erógena anal. Alega que quando a pessoa não consegue completar a fase anal, ela ainda permanece com a energia libidinal na zona oral, o que se denomina fixação advento, que ocorre quando alguma situação traumática acontece durante a fase a qual a pessoa fica fixada.

Conforme expressado no texto do artigo, a fixação, segundo Freud, pode vir a desenvolver diversos transtornos como anorexia e bulimia, comer em demasia, fumar, preferir sexo oral, quando adulta ser verbalmente agressiva, entres outras questões. Por essa razão, é de grande importância a orientação à criança durante todas as fases e suas transições, tornando-se necessário ter apoio e carinho para que a criança complete cada uma de suas fases. O autor explica ainda que a fase anal é caracterizada pelo aprendizado da criança a controlar os esfíncteres anais e a bexiga, que ela sente prazer em produzir as fezes e a urina; a zona de maior satisfação apontada por Freud é a região do ânus, este período é um momento de autodescoberta corporal. Quando a criança passa a controlar a micção e a evacuação, ela descobre uma nova fonte de prazer e gratificação, recebe muita atenção e elogios dos pais e das demais pessoas com quem convive, ao cumprir as exigências de higiene e padronizar suas necessidades fisiológicas.

Esta fase pode marcar o comportamento sexual da criança, dependendo da forma como foi vivenciada. Pode ser frustrante para a criança as contradições mentais que ocorrem, pois, primeiramente, ela recebe elogios e gratificações por terem cumprido adequadamente suas necessidades fisiológicas e, por outro lado, a repugnação dos pais de que as fezes e a urina são sujas (ROMAGNANI et. al., 2011).

Ainda em relação a fase anal Freud descreve que, durante essa fase a criança ainda não reconhece seus órgãos genitais, principalmente a menina, apenas o órgão genital masculino começa a ser descoberto, ressaltando que o final desta fase é caracterizado pela primeira noção do que é dela e do que é do outro.

A terceira fase é chamada de fálica que ocorre dos três aos seis anos, denominada de fálica por estar referenciando a palavra “falo “ que significa pênis. Essa fase é o período marcado pela descoberta dos órgãos sexuais pelos meninos e meninas, levando-os a perceberem e reconhecerem a existência das diferenças genitais, sendo este também o momento em que as crianças começam a se tocar e manipular as suas genitálias, percebendo que o ato de se tocar nessa região pode lhe proporcionar prazer.

Durante a fase de latência que vai dos seis aos dez anos, se apresenta como um período caracterizado pela presença de uma mudança em suas relações afetivas que, até o momento, estavam voltadas para os pais, ocorre a transferência das suas energias em relações voltadas ao social, esportivo e intelectual, o impulso sexual apresentado pelas crianças nas fases anteriores sofre uma diminuição e a libido passa por um período de adormecimento. A criança passa por transformações, e começa a ter novos referenciais de identidade, ela foca as suas energias em atividades intelectuais e sociais, o que contribui para a diferenciação dos papeis sociais e sexuais.

Outro estudo intitulado, Fases Psicossexuais Freudianas, realizado por Farias e outros autores (2015), corrobora descrevendo o último período das fases psicossexuais, como um estágio que não possui uma idade para finalização ou resolução, integrando com as outras fases, conformando o impulso genital. A fase genital, como sabe-se , inicia por volta dos dez anos de idade, trazendo consigo as transformações e mudanças corporais, biológicas e afetivo-sociais, transacionando à puberdade etapa em que o indivíduo passa por muitas mudanças fisiológicas , hormonais dentre as demais citadas , seguida da adolescência, período em que o indivíduo começa o processo de amadurecimento, que ocorre desde a puberdade até o alcance da maturidade física e mental, que, durante o qual acontece a transição no chamado objeto de desejo, que já não está mais voltado para o próprio corpo, mas para o corpo do outro , refere que:

“Mesmo com a chegada do período Genital, as fases que o indivíduo passou anteriormente não são apagadas e nem substituídas, pois os mesmos se juntam para formar os impulsos genitais. Como já citado, no período Genital a pessoa está em momento de preparação para constituir uma família, sendo que o principal exercício do Estágio Genital é a reprodução. Para que isso aconteça o psicológico trabalha de uma forma que lhe dê segurança e estabilidade para tal responsabilidade”. (FARIAS et al., 2015 p. 12)

Podemos observar, no decorrer da história, assim como, o meio social influenciou direta ou indiretamente o comportamento, as experiências vividas em cada época ou fase e como situações de constrangimentos e sofrimentos ficaram gravadas no inconsciente, que futuramente se manifestaram de maneiras adversas. Desta forma, enfatizamos a importância do conhecimento das teorias de Freud, especialmente as fases do desenvolvimento psicossexual da criança para melhor compreensão do que chamaríamos aqui de um desenvolvimento típico e atípico (ROMAGNANI et. al., 2011).

4.2. Erik Erikson e o desenvolvimento humano à luz da Teoria Psicossocial

Antes de iniciar, faz-se necessário apresentar Erik Homburger. Erikson e sua trajetória desde a atuação na área artística, que seguiu como carreira até ser convidado a trabalhar em uma escola para pacientes submetidos à psicanálise, continuando seus estudos em Psicanálise, tornando-se o primeiro psicanalista infantil americano. Não negando a teoria freudiana sobre desenvolvimento psicossexual, Erikson apresentou uma mudança no enfoque desta teoria, trazendo para o problema da identidade e das crises do Ego, baseando-se em um contexto sociocultural.

No início do século XX, Erikson começa a construir sua teoria psicossocial do desenvolvimento humano, repensando vários conceitos de Freud, considerando o ser humano como um ser social, antes de tudo, um ser que vive em grupo e sofre a pressão e a influência deste. Será a partir desta consideração que Erikson formula sua teoria de forma a deixar duas importantes contribuições à Psicanálise, segundo Rabello; Passos; Erikson (2007 apud HALL et. al., 2000): Erikson deixa uma teoria na qual o Ego tem uma concepção de ampliação do Ego, realizando estudos psico-históricos, exemplificando sua teoria psicossocial no curso de vida de algumas figuras famosas.

Nessa perspectiva, Rabello; Passos; Erikson (2007) expressam que, sendo esta uma metodologia considerada totalmente inovadora para a psicanálise da época e para a própria psicologia, que trabalham o ciclo vital como um contínuo onde cada fase influencia a seguinte, Erikson observa que o que construímos na infância em termos de personalidade não é totalmente fixo e pode ser parcialmente modificado por experiências posteriores; propõe que, a cada etapa, o indivíduo cresce a partir das exigências internas de seu Ego, mas também das exigências do meio em que vive, fazendo-se, portanto, essencial a análise da cultura e da sociedade em que vive o sujeito em questão; ressaltando que, em cada estágio, o Ego passa por uma crise (que dá nome ao estágio).

A Teoria do Desenvolvimento Psicossocial apresenta o desenvolvimento em oito etapas, nas quais o desenvolvimento da seguinte etapa dependerá da resolução da anterior, e dará menor ênfase à sexualidade e maior às apresentações psicossociais do conflito. Os oito estágios que constituem a teoria psicossocial, que contemplam o desenvolvimento humano do nascimento à morte são os seguintes, sendo, o primeiro, Confiança Básica x Desconfiança Básica: de acordo com Rabelo e Passos (2007 apud Erikson, 1976), este estágio, que corresponde à fase oral freudiana, é a fase do início da infância. Durante ela, ocorre a primeira relação social do bebê, sendo este o momento no qual, justamente com a falta da mãe, a criança começará a lidar com algo que o teórico chama de força básica, caracterizada nessa fase como a esperança, que pode ser observada quando o bebê se dá conta de que sua mãe não está ali, ou está demorando a voltar, então, a criança cria a esperança de sua volta, e quando a mãe volta, ele compreende que é possível querer e esperar, porque isso vai se realizar; ele começa a perceber que objetos ou pessoas existem, a existência do outro, mesmo que este ainda se encontre temporariamente fora de seu campo de visão

Os autores seguem descrevendo os demais estágios de acordo com a teoria psicossocial, e, neste trabalho, iremos abordar resumidamente como uma breve apresentação, para corroboração com os aspectos que iremos abordar; dessa forma, descreveremos os demais estágios. O segundo estágio, chamado de Autonomia x Vergonha e Dúvida, que corresponde à fase anal freudiana, é a força básica que se apresenta como a vontade, que se manifesta na livre escolha, assim como o controle e o autocontrole social. Tal fase é precedentemente essencial para o crescimento sadio, assim como para o desenvolvimento da autonomia.

No estágio de Iniciativa X Culpa, que corresponde à fase fálica freudiana, a criança já adquiriu a confiança, por meio do contato inicial com a mãe, e a autonomia, com a expansão motora e o controle, descrito no estágio anterior. Nesse processo, a autonomia e a confiança são associadas e se dá a iniciativa pela expansão intelectual. No seguinte estágio, denominado Diligência X Inferioridade, correspondente à fase de Latência, período considerado como de adormecimento sexual, que é marcado, de acordo com pelo controle; porém, o controle, neste aspecto, difere do citado anteriormente, pois, aqui, refere-se ao controle de atividades físicas e intelectuais na perspectiva de equilibrar tais forças em relação às regras de método de aprendizagem, também chamado de período de escolarização da criança, diante ao contexto social escolar e nas relações familiares mais expandidas Erikson (1976).

Identidade X Confusão de Identidade: esta é a fase onde ele desenvolveu mais trabalhos, e dedicou um livro inteiro à questão da chamada crise de identidade. Em seus estudos, Erikson defende que o adolescente irá precisar de segurança para lidar com todas as transformações físicas e psicológicas que ocorrem nesse período. Na segurança, ele encontrará a forma de sua identidade, que foi construída por seu Ego em todos os estágios anteriores. No estágio de Intimidade X Isolamento, expressa que ao ter estabelecido uma identidade definitiva e bem fortalecida, o indivíduo estará pronto para unir a sua identidade a de outra pessoa, sem se sentir ameaçado, desenvolvendo a intimidade ou, ao contrário, quando o Ego não é suficientemente seguro, a pessoa irá preferir o isolamento à união, apresentando medo de compromissos.

Generatividade X Estagnação: Neste estágio, o sujeito tem a preocupação com tudo o que pode ser gerado por ele, desde filhos até ideias e produtos. Sendo muito visível na transmissão dos valores sociais de pai para filho se, por ventura, esta transmissão não ocorrer, o indivíduo tem um sentimento de que tudo o que fez e tudo o que construiu não valeu a pena, não teve um porquê, uma razão, já que não existe como dar prosseguimento, quer seja através de um filho, de empreendimento ou uma pesquisa remetendo à estagnação.

No último estágio, Integridade x Desespero, revela-se como o ser humano reflete e revê a sua vida, os efeitos da passagem do tempo, o que fez, o que deixou de fazer. Refletir principalmente em termos de ordem e significado de suas realizações. Essa retrospectiva pode ser vivenciada de diferentes formas. A pessoa pode simplesmente entrar em desespero ao ver a morte se aproximando, ou ter o sentimento de dever cumprido, de dignidade e integridade, sentido mais sábio por sua idade e experiências.

Para este estudo, a fase oral-sensorial freudiana correspondente ao estágio de confiança básica X desconfiança básica, é de grande relevância em relação ao Caso Elizabeth correlacionado à teoria do apego (TA) e ao TAR. Estaremos retomando sua relevância nas considerações finais. Pois, nesse estágio, o teórico descreve o sentimento de confiança (em si e nos outros) como uma condição fundamental, uma personalidade sadia, o desenvolvimento favorecido num mundo mais confiável, com mais amor do que agressão, mais atenção do que abandono.

5. CONCEITO E CARACTERIZAÇÃO DA TEORIA DO APEGO E DO TRANSTORNO DE APEGO REATIVO

A Teoria do apego, criada por Jonh Bowlby na década de 1950, se opõe ao cenário no qual a teoria predominante sobre como se originava o vínculo tinha como base o conceito psicanalítico de amor interesseiro, segundo o qual os bebês criavam vínculos com a figura que suprisse suas necessidades fisiológicas, Valho (2016) a este respeito destaca-se a citação:

Enquanto a teoria psicanalítica de “amor interesseiro” de Sigmund Freud sugere que os bebês se apegam ao cuidador por que ele os alimenta, a experiência com os filhotes de macacos rhesus apresenta a capacidade de criação de vínculos com a “mãe” substituta, que embora não fosse capaz de alimentá-los, mas era capaz de proporcionar aconchego. (HERMENTO; MARTINS, 2012, p. 278)

É nesse contexto que Bowlby (2006) apresenta o apego como sendo o tipo de vínculo no qual o senso de segurança de alguém está estreitamente ligado à figura de apego, no caso, a mãe ou a pessoa responsável diretamente pelo desenvolvimento durante os primeiros anos de vida. Por sua vez, refere-se à diferença importante, entre apego e comportamento de apego, sendo que o comportamento de apego pode, em circunstâncias diferentes, ser mostrado a uma variedade de indivíduos, por sua vez, o apego duradouro ou laço de apego é restrito a muito poucos (BOWLBY, 2006 apud RAMIRES, 1988).

Por sua vez, o tipo de apego com padrão resistente ou ambivalente é caracterizado pela criança que, antes de ser separada dos cuidadores, apresenta comportamento imaturo para a sua idade, pouco interesse em explorar o ambiente, voltando sua atenção aos cuidadores de maneira preocupada. Logo após a separação, apresenta-se bastante incomodada, resiste em se aproximar de pessoas estranhas e, mesmo quando os cuidadores retornam, ela não se aproxima facilmente e alterna seu comportamento entre a procura por contato e a rejeição (DALBEM; DELL´ÁGIO 2005 apud AINSWHORTH, 1963).

Com base na experiência, sugere-se que, em alguns momentos, essa criança recebeu cuidados de acordo com suas demandas e, em outros, não obteve uma resposta de apoio, o que pode ter provocado falta de confiança nos cuidadores em relação aos cuidados, à disponibilidade e à responsividade (BOWLBY, 2006).

O sofrimento psicológico subsequente à exposição a um evento traumático ou estressante é bastante variável. Em alguns casos, os sintomas podem ser bem entendidos em um contexto de ansiedade ou medo. Entretanto, está claro que muitos indivíduos que foram expostos a um evento traumático ou estressante exibem um fenótipo no qual, em vez de sintomas de ansiedade ou medo, as características clínicas mais proeminentes são sintomas anedônicos e disfóricos, externalizações de raiva e agressividade ou sintomas dissociativos. (AMERICAN..., 2014, p. 265)

O Transtorno de apego reativo está descrito no DSM V a partir da página 265, no capítulo dedicado aos Transtornos relacionados a trauma e a estressores, que inclui o TAR dentre outros transtornos, nos quais a exposição a um evento traumático ou estressante está listada explicitamente como um critério para diagnóstico.

De acordo com o DSM V (AMERICAN..., 2014) nesse aspecto, a criança deverá atender aos critérios descritos; de acordo com estes, o TAR poderá ser especificado das seguintes formas: denomina-se como sendo persistente o transtorno que está presente há mais de 12 meses, levando em consideração a avalição da gravidade atual e, considera-se o transtorno como grave quando a criança exibe todos os sintomas do transtorno, e cada sintoma se manifesta em níveis relativamente elevados. Seguiremos com a descrição dos critérios e características.

Os Critérios Diagnósticos São:

A. Um padrão consistente de comportamento inibido e emocionalmente retraído em relação ao cuidador adulto, manifestado por dois aspectos:

1. A criança rara ou minimamente busca conforto quando aflita;

2. A criança rara ou minimamente responde a medidas de conforto quando aflita.

B. Perturbação social e emocional persistente caracterizada por pelo menos dois dos seguintes aspectos:

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1. Responsividade social e emocional mínima a outras pessoas;

2. Afeto positivo limitado;

3. Episódios de irritabilidade, tristeza ou temor inexplicados, evidentes até mesmo durante interações não ameaçadoras com cuidadores adultos:

C. A criança vivenciou um padrão de extremos de cuidado insuficiente evidenciado por pelo menos um dos seguintes aspectos:

1. Negligência ou privação social na forma de ausência persistente do atendimento às necessidades emocionais básicas de conforto, estimulação e afeição por parte de cuidadores.

2. Mudanças repetidas de cuidadores, limitando as oportunidades de formar vínculos estáveis (p. ex., trocas frequentes de lares adotivos temporários).

3. Criação em contextos peculiares que limitam gravemente oportunidades de formar vínculos seletivos (p. ex., instituições com alta proporção de crianças por cuidador).

D. Presume-se que o cuidado do Critério C seja responsável pela perturbação comportamental do Critério A (p. ex., as perturbações do Critério A iniciam após a ausência de cuidado adequado do Critério C).

E. Não são preenchidos os critérios para transtorno do espectro autista.

F. A perturbação é evidente antes dos 5 anos de idade.

G. A criança tem uma idade de desenvolvimento mínima de 9 meses.

As Características diagnósticas do TAR são atribuídas por um padrão de comportamentos de vínculo extremamente perturbados e inapropriados em termos do desenvolvimento infantil, nos quais a criança rara ou minimamente recorre de preferência a uma figura de apego para obter conforto, apoio, proteção e carinho. A característica essencial é a ausência ou um vínculo grosseiramente não desenvolvido entre a criança e os supostos cuidadores adultos. Acredita-se que crianças portadoras do TAR tenham a capacidade de formar vínculos seletivos. Entretanto, em virtude das oportunidades limitadas durante o desenvolvimento inicial, elas não conseguem demonstrar as manifestações comportamentais de vínculos seletivos. Isto é, quando aflitas, não demonstram esforços consistentes para obter conforto, apoio, carinho ou proteção dos cuidadores.

Outra característica observada é que quando aflitas, crianças com esse transtorno não respondem mais do que minimamente aos esforços reconfortantes dos cuidadores. Dessa forma, o transtorno está associado à ausência da procura esperada por conforto e de resposta a comportamentos reconfortantes.

Por isso, crianças com TAR apresentam diminuição ou ausência de expressão de emoções positivas durante interações de rotina com os cuidadores. Além disso, sua capacidade de regulação das emoções torna-se comprometida dessa forma, e descreve que essas crianças manifestam episódios de emoções negativas, como de medo, tristeza ou irritabilidade, que não são facilmente explicadas.

Nessa perspectiva, a AMERICAN... (2014) atenta que não se deve fazer um diagnóstico de Transtorno de apego reativo em crianças incapazes, pelo estágio do desenvolvimento, de formar vínculos seletivos. Por essa razão, é preciso que a criança tenha uma idade de desenvolvimento mínima de 9 meses. As características associadas, que apoiam o diagnóstico em virtude da associação etiológica com negligência social, o TAR ocorre com frequência, concomitantemente a atrasos no desenvolvimento, sobretudo, ocasiona atrasos na cognição e na linguagem.

Expressam-se outras características associadas, que incluem estereotipias e outros sinais de negligência grave como, por exemplo, situação de desnutrição, sinais de maus cuidados ou falta de cuidados básicos, como alimentação apropriada e higiene. A prevalência do Transtorno de apego reativo é desconhecida, mas ele é relativamente raro em contextos clínicos. Observou-se o transtorno em crianças pequenas expostas à negligência grave antes de serem colocadas em lares adotivos temporários ou criadas em instituições. Entretanto, o transtorno é incomum até mesmo em populações de crianças gravemente negligenciadas, ocorrendo em menos de 10% delas. O desenvolvimento e curso em condições de negligência social estão frequentemente presentes nos primeiros meses de vida em crianças diagnosticadas com TAR, até mesmo antes de ele ser diagnosticado.

As características clínicas do transtorno manifestam-se de maneira semelhante entre 9 meses e 5 anos de idade. Isto é, sinais de comportamentos de apego ausentes a mínimos e comportamentos emocionalmente aberrantes associados são evidentes em crianças nessa faixa etária, embora diferenças nas habilidades cognitivas e motoras possam afetar a expressão desses comportamentos (AMERICAN..., 2014).

Sem tratamento e recuperação por meio de ambientes de cuidado, parece que os sinais do transtorno podem persistir, pelo menos por muitos anos. Não está claro se o TAR ocorre em crianças mais velhas e, caso ocorra, como sua apresentação difere da de crianças menores. Por isso, o diagnóstico deverá ser feito com cautela em crianças com mais de 5 anos de idade.

Dentre os fatores de risco e prognóstico ambientais, está como o mais associado à negligência social grave, é um critério diagnóstico necessário para o TAR sendo também o principal fator de risco conhecido para o desenvolvimento do transtorno. Entretanto, a maioria das crianças gravemente negligenciadas não desenvolve esse Transtorno.

O prognóstico parece depender da qualidade do ambiente de cuidados depois da negligência grave; questões diagnósticas relativas à cultura comportamentos de apego similares foram descritos em crianças pequenas em muitas culturas diferentes no mundo inteiro.

Como diagnóstico de diferenciação em relação ao TAR e ao Transtorno do espectro autista (TEA) o DSM V expressa ainda que ambos apresentam comportamentos sociais aberrantes, que se manifestam em crianças pequenas tanto com TAR, como também são aspectos-chave dos transtornos do espectro autista. Sendo assim, pode-se compreender que crianças pequenas em ambas as condições podem manifestar expressão reduzida de emoções positivas, atrasos cognitivos e de linguagem, além de prejuízos na reciprocidade social.

Desta forma, é preciso diferenciar o TAR do TEA, esses dois transtornos podem ser distinguidos com base em histórias diferenciadas de negligência e na presença de interesses restritos ou comportamentos ritualísticos, como ocorre com crianças portadoras do TEA, além de déficit específico na comunicação social e comportamentos de vínculo seletivos. A diferenciação se dá por critério de que as crianças com TAR sofreram negligência social grave, ainda que nem sempre seja possível ter conhecimento detalhado a respeito dessas histórias e da natureza precisa de suas experiências, especialmente nas avaliações iniciais.

Crianças com TEA raramente terão história de negligência social. A presença de interesses restritos e de comportamentos repetitivos típicos do TEA não é uma característica do TAR. Essas características clínicas manifestam-se como uma adesão excessiva a rituais e rotinas; interesses restritos e fixos; e reações sensoriais incomuns. Crianças com ambos os transtornos também podem exibir funcionamento intelectual variado, mas, apenas aquelas com transtorno do espectro autista exibem prejuízos seletivos em comportamentos comunicativos sociais, como comunicação intencional prejuízo na comunicação que é deliberada, orientada por objetivo e voltada para influenciar o comportamento interlocutor, (AMERICAN..., 2014).

Por sua vez, as crianças com TAR demonstram o funcionamento comunicativo social compatível com seu nível global de funcionamento intelectual. Por fim, crianças com TEA mostram regularmente comportamentos de apego típicos para o seu nível de desenvolvimento. Já aquelas com TAR o fazem apenas raramente ou de maneira inconsistente, se o fizerem. Aponta ainda que, a deficiência intelectual (transtorno do desenvolvimento intelectual): atrasos no desenvolvimento com frequência acompanham o TAR, mas não devem ser confundidos com ele.

Alerta-se para que se observe que crianças com deficiência intelectual devem exibir habilidades sociais e emocionais compatíveis com suas habilidades cognitivas, e não demonstram a redução profunda no afeto positivo e dificuldades de regulagem de emoções evidentes em crianças com Transtorno de apego reativo. Além disso, crianças com atrasos no desenvolvimento que chegaram a uma idade cognitiva de 7 a 9 meses deverão demonstrar vínculos seletivos independentemente de sua idade cronológica. Por sua vez, crianças com TAR exibem ausência de vínculo preferencial a despeito de terem chegado a uma idade de desenvolvimento mínima de 9 meses.

Por outro lado, em relação à depressão em crianças pequenas, também está associada a reduções no afeto positivo. Entretanto, há evidências limitadas para sugerir que crianças com transtornos depressivos tenham prejuízos no apego. Ou seja, crianças pequenas diagnosticadas com transtornos depressivos ainda deverão buscar e responder a esforços dos cuidadores para proporcionar conforto.

Em relação às comorbidades e condições associadas à negligência, incluindo atrasos cognitivos, atrasos de linguagem e estereotipias, frequentemente são concomitantes com o TAR. Condições clínicas, como desnutrição grave, podem acompanhar sinais do transtorno, e sintomas depressivos também podem ocorrer de forma concomitante com o transtorno (AMERICAN..., 2014).

Quanto à sintomatologia, encontrou-se outros aspectos em comum, tanto no DSM IV como no DSM V que permanecem inalteradas, sendo estes: O bebê chora e evita qualquer bajulação dos pais (ou responsáveis, cuidadores). Os bebês normalmente reagem quando você os deixa sozinhos, mas bebês com Transtorno de apego reativo não mostram quaisquer sinais; essas crianças evitam estranhos, e qualquer cuidado ou o amor vindo deles.

Diante dessa perspectiva é pertinente referenciar a contribuição de Mary Ainswhorth (1963) que realizou uma importante investigação a respeito dos fatores sobre a TA, apresentando alguns determinantes no estudo do desenvolvimento do apego, tais como, a relação de proximidade e intimidade que se expressa no comportamento de interação de crianças com suas mães. Após a publicação do seu estudo realizado em Uganda, houve uma grande colaboração intelectual entre Ainsworth e Bowlby.

Para melhor compreensão, destacam-se os trabalhos de M. Ainsworth (1978, 1985) onde se aborda o desenvolvimento socioemocional durante os primeiros anos de vida, evidenciando que o modelo de apego que um indivíduo constrói ou estabelece durante a primeira infância é profundamente influenciado pela maneira como os cuidadores primários (pais ou pessoas substitutas) cuidam dessas crianças, além de estar ligado a fatores temperamentais e genéticos.

De acordo com Monteverde et al., (2017), mesmo que alguns estudos não relatem como comum sua ocorrência em crianças gravemente negligenciadas, e que estudos estatísticos apontem para uma porcentagem menor de 10%. Crianças diagnosticadas com este transtorno possuem menor capacidade de formar vínculos seletivos, que pode vir a trazer prejuízos significativos, no modo em que se relacionam com os adultos parentais ou amigos. No que tange aos fatores de risco, continua sendo enfatizada a negligência social grave, caracterizada como a ausência de cuidados adequados durante a infância, é apontada como o único fator de risco para este transtorno e, portanto, sendo a qualidade do cuidado decisiva no prognóstico do quadro psicopatológico.

6. DESVENDANDO O CASO ELIZABETH THOMAS

Através do documentário “Rage of child 1992” traduzido em português paraA Ira de um Anjo” HBO, chegamos à história de Elizabeth Thomas, que nos inspirou a nos aprofundar numa investigação científica sobre caso, assim como a realização desse trabalho. Elizabeth, nasceu em junho de 1982 nos EUA, Perdeu a mãe durante seu parto, ficando sob a guarda do pai, ela e seu irmão mais novo Jonathan, o pai cometia vários abusos de ambos ainda na fase de dependência absoluta. Sofriam ainda com a negligencia total, falta de alimentação, ambiente sujo e falta de estímulos e cuidados básicos, como relatado no documentário.

Tendo sido encaminhados a uma instituição acolhedora de lá por meio da assistente social foram encaminhados para adoção que foi realizada pelo casal Tim e Julie Teneger, resumidamente trata-se de um casal cristãos que não conseguiam ter filhos e encontraram nessa no processo de adoção a possibilidade de criar uma família. Naquele momento Beth tinha 2 anos e o irmão alguns meses.

No transcurso da adoção e adaptação com nova família Beth começou a apresentar comportamentos atípicos para sua idade , como, maus tratos e mortes de animais, praticava masturbação diariamente muitas vezes em público , a ponto de machucar e sua vagina sangrar chegando a precisar ir a um hospital, ela agredia o irmão menor com violência física batendo nele e muitas vezes introduzindo o dedo no seu ânus e batendo , batia a cabeça dele no chão até sangrar e tentava sufocá-lo , s maneiras de violência narradas por ela aos seis anos no documentário.

No discorrer das histórias, mediante aos comportamentos apresentados por Beth, os pais decidem passar a trancá-la no quarto durante a noite, pois notaram que as facas estavam sumindo, Beth se queixava de constantes pesadelos com “um homem que caía sobre ela”. Como os pais adotivos não sabiam como lidar, foram em busca de ajuda, o casal então, levou Beth então aos seis anos para o psicólogo especialista em crianças vítimas de abuso sexual, traumatizas ainda nos primeiros anos de vida, o Dr. Ken Magid, que em 1989, começa a atendê-la por meio da psicoterapia, ele grava as sessões que se tornam o documentário ao que nos referimos. O Dr. Ken Magid atribui como diagnóstico para Elizabeth o transtorno de apego reativo, visto no capítulo anterior.

O caso veio a público e se tornou bastante conhecido na época por meio das mídias televisivas onde se mostra as sessões de terapia filmadas, servindo de inspiração para o filme de ficção baseado em fatos reais, com mesmo título “A ira de um anjo” (Child of range) dirigido por Larry Pearce, também em 1992 apresentando uma sinopse comparável à de um filme de terror, conforme a sinopse,1 em 1992: “casal adota uma menina de 7 anos, aparentemente angelical, mas que logo revela uma personalidade cruel, capaz de manipular os adultos e cometer atos violentos contra aqueles que se colocam em seu caminho”.

A história segue adiante, nas cenas do documentário durante as sessões de psicoterapia é que Beth fala de forma “natural” e desinibida sobre seu sofrimento com as pessoas e diz que quer matá-las para não sofrer mais. O documentário apresenta o depoimento do casal Teneger, onde observa-se que durante a entrevista, os pais adotivos em nenhum momento se referem a uma atitude disciplinadora, como por exemplo: um castigo de privação, repreensão ou punição, devido a certas atitudes de Elizabeth em relação a si mesma e os outros. Observa-se apenas o relato dos pais, onde não há uma proposta de intervenção e sim uma grande preocupação e a busca de uma orientação.

Na narrativa, Beth fala sobre a pratica da masturbação até ocasionar o sangramento na sua vagina , refere-se ao irmão mais novo admitindo as agressões e abusos contra ele , assim como também a morte de animas e tortura com alfinetes, na sequência, se vê o comportamento de Elizabeth durante as sessões, que é um dos pontos interessantes, que se pode analisar sobre o diagnóstico, no que se refere aos DSMS IV e V como supracitado, a característica de desinibição se encaixa o tipo II do TAR que foi alterado de Transtorno de apego reativo, para a classificação Transtorno do engajamento social no qual a característica principal seria a desinibição.

Retomando o ponto anterior (a análise das filmagens) o Dr. Magid propõe seu encaminhamento para uma clínica especializada no tratamento de crianças com comportamentos atípicos e violentos, o que é aceito já que a família adotiva, aparentemente não sabia como colocar limites porque não conseguiam compreender a necessidade básica de autoridade e disciplina que as crianças demandam de forma geral e no caso do diagnóstico apresentado ainda maior.

Na clínica, Elizabeth é monitorada, disciplinada e não pode fazer nada sem consentimento nem sequer tomar água a princípio, sendo este o ápice da disciplina e do controle, não iremos nos deter aqui as técnicas que foram utilizadas para tratamento de Elizabeth mas, entende-se que se faz necessário um panorama geral da sua vida para que se possa analisar dentre outros aspectos, como o meio ambiente influenciou no seu desenvolvimento e no curso que sua história tomou.

Mostra-se nas imagens registradas que com o passar do tempo Elizabeth começa a estabelecer vínculos, que as regras da clínica passam a afrouxar paulatinamente, ela começa a frequentar a escola púbica, ir à igreja, a interagir socialmente e demonstra certa afeição pelos animais e algumas pessoas que vemos no documentário como Nancy Thomas, que trabalha na clínica, que durante o processo de acompanhamento desenvolve afeto por Beth e Beth por ela, diante desse fato, Elizabeth não quer mais voltar aos pais adotivos. Nancy Thomas a adota, tornando-se sua mãe, desenvolvendo um vínculo que até hoje as mantém como família e trabalhando juntas em projetos sociais de cuidados as crianças e de preparação de pais adotivos.

Elizabeth Thomas, hoje é enfermeira, atualmente está trabalhando na linha de frente em um Hospital de tratamento a pacientes com a Covid-19, trabalha com crianças que sofreram violência, publicou o livro onde conta sobre sua experiência de vida intitulado de “More than a Thread of Hope” (não traduzido para o português) realiza palestras e workshops, junto com a sua mãe adotiva, administra uma ONG chamada “Atachament Org” que é uma espécie de clínica, que acolhe e trata crianças com graves distúrbios de comportamentos, organiza cursos preparatórios para pais adotivos, oferece cursos para profissionais que tem interesse em formação especifica. Na página loja do site da organização pode-se encontrar artigos e outras mídias publicadas a respeito do tema e na internet de forma geral podemos encontrar registros de artigos que citam Elizabeth Thomas e sua atuação profissional, assim como algumas informações sobre sua vida pessoal que relatam que ela casou e tem filhos.

7. Expressões emocionais de Elizabeth Thomas – Estudo iconográfico

Buscando ampliar os recursos utilizados na pesquisa acadêmica ampliando a possibilidade de fontes na investigação científica, no presente estudo acreditamos, que, por se tratar também de um estudo realizado também por mídias digitais especificamente meios audiovisuais, ser interessante para melhor compreensão e ilustração do caso a análise do aspecto das expressões emocionais de Elizabeth Thomas, para tanto utilizou-se o recurso de estudo iconográfico

Formiga (2010, p. 98 apud Almeida e Barros, 2008, p. 1) refere-se aos estudos iconográficos como um tipo de pesquisa qualitativa, a respeito da observação de uma realidade social através da análise dos seus ícones, que podem ser: gravuras, imagens, registros visuais e fotografias dentre outros, permitindo desta forma um registro mais poderoso das ações temporais e dos acontecimentos reais e concretos.

Neste trabalho apresenta-se um enfoque fotográfico usando, portanto, as imagens de Elizabeth Thomas de domínio público para associar ao estudo das emoções, de acordo com Feitosa (1999, p. 267):

No texto principal de The Expression of the Emotions, Darwin expõe seus três princípios gerais "explicativos das expressões e gestos usados involuntariamente pelo homem e pelos animais inferiores, sob a influência de várias emoções e sensações" (p. 33). São eles o princípio dos hábitos associados de serventia ["ações complexas de serventia direta ou indireta em certos estados da mente, a fim de aliviar ou gratificar certas sensações, desejos, etc." (p. 34).

De acordo com Aronson, Wilson e Akert (2015) o estudo das expressões faciais, pesquisa realizada por Darwin produziu forte impacto em muitas áreas de estudo. No que se refere ao estudo das expressões afirma que as emoções primárias transmitidas pelo rosto são universais que todos os seres humanos codificam ou expressam essas emoções da mesma maneira em distintas culturas da mesma forma que todos podemos decodificar ou interpretá-las da mesma maneira.

O autor menciona ainda que o interesse de Darwin pela evolução o direcionou a pesquisar e alcançar como resultado a identificação, de que, as formas não verbais de comunicação eram “específicas à espécie” e não “específicas à cultura”, propondo que as expressões faciais são vestígios de reações fisiológicas, antes úteis na comunicação dos primórdios.

Nessa perspectiva expressa que, a obra, Expressão das Emoções no Homem e nos animais contribui para o estudo da psicologia das emoções, por meio do abrangente estudo das expressões emocionais nos homens e nos animais, onde o autor defende que, as mudanças de gestos e posturas que caracterizam as principais emoções podiam ser interpretadas em termos evolutivos. Darwin defende que, estas são remanescentes de movimentos que um dia serviram a alguma função prática, aludindo à uma leitura científica iconográfica com seres humanos e animais a respeito de como as emoções são expressadas.

Aronson, Wilson e Arket (2015) referem e descrevem as seis expressões faciais de emoção identificadas por Darwin como sendo as principais manifestações emocionais que são: raiva, felicidade, surpresa, medo, nojo e tristeza, ainda na perspectiva da comunicação não verbal o autor cita:

As seis principais emoções são também as primeiras a aparecer no desenvolvimento humano. As crianças de seis meses a um ano demonstram essas emoções com as expressões faciais, que associamos aos adultos. Isso é verdade também para as crianças cegas de nascimento, capazes de expressar as emoções básicas no rosto mesmo que nunca as tenham visto no de outras pessoas. (ARONSON; WILSON; ARKET, 2015, p. 87 apud EIBL-EIBES-FELDT et al., 1975)

Dessa forma avaliou-se como interessante investigar se Elizabeth Thomas manifestava emoções e quais seriam essas, veremos a seguir a fotografias que compõe um breve estudo que se propõe a identificar as expressões de Elizabeth Thomas no transcurso da sua vida. Nessa perspectiva, realizou-se o estudo iconográfico sobre suas expressões emocionais.

Encontrou-se no referente bibliografia, na página 62 a um quadro com o estudo ilustrativo fotografias das expressões de emoções com pessoas de diferentes culturas, desta forma se comprova o resultado da pesquisa realizada por Darwin, de que as emoções são universais à espécie e não a cultura como mencionado anteriormente, no referente quadro estão expressas as emoções supracitadas em ordem de: raiva, medo, nojo, felicidade, surpresa e tristeza. Estaremos identificando algumas delas em Elizabeth Thomas a seguir.

Figura 1 – Imagem de Elizabeth Thomas retirada do Documentário

Fonte: https://www.impala.pt/noticias/menina-psicopata-irreconhecivel/#&gid=1&pid=8.

A Figura 1, fotografia retirada de um frame documentário, quando Elizabeth é questionada pelo terapeuta sobre o que ela faria com a faca , ela responde que “esfaquearia” o irmão e os pais adotivos , porém a expressão apresentada não é a de raíva mas de uma tristeza reflexiva como se ela não tivesse outra opção.

Figura 2 – Elizabeh Thomas aos dois anos

Fonte: https://www.graduatez.com/view/crazy-girl-adult/&page=5.

Acima (figura 2), quando Elizabeth tinha dois e havia sido resgatada da guarda do pai , se observa a expressão de medo, olhos bem abertos dentes fechados como se quisesse se proteger.

Figura 3 – Elizabeth Thomas e seu irmão Jonatan

Fonte: https://www.livingmgz.com/life/six-year-old-beth-thomas-diagnosis-left-everyone-stunned/5.html.

A figura 3 mostra uma aparente felicidade expressa pelos irmãos Elizabeth e Jonatan no processo de adoção ainda sob a guarda da primeira familia , demonstrando que apesar de dizer que queria matá-lo ela consegue manifestar a expressão de felicidade.

Figura 4 – Elizabeht durante a sessão com o Dr. Ken Magid (imagem do documentário)

Fonte: https://www.graduatez.com/view/crazy-girl-adult/&page=16.

No registro da sessão (figura 4), podemos observar a desinibição expressa através do corpo em contraposição a expressão facial de reflexão, com olhar voltado para dentro, enquanto o corpo está exposto para fora.

Figura 5 – Depoimento de Elizabeth na clínica

Fonte: https://www.impala.pt/noticias/menina-psicopata-irreconhecivel/#&gid=1&pid=8.

A figura 5, quando Elizabeth já se encontra na clínica em tratamento e narra para o documentário seu arrependimento pelas coisas que cometeu, ela nesse momento está consciente de sua trajetória demonstra tristeza pelos atos cometidos.

Figura 6 – Elizabeth na clínica trabalhando os vínculos

Fonte: https://www.perdavvero.com/beth-thomas/.

A figura 6, demonstra satisfação e surpresa com ela mesma por estar conseguindo superar seu passado e no presente ela é capaz de sentir afeto pelo pássaro que antes costumava perseguir e matar como nos relatos.

Figura 7 – Elizabeth Thomas e sua mãe Nancy Thomas na atualidade

Fonte: https://www.impala.pt/noticias/menina-psicopata-irreconhecivel/#&gid=1&pid=8.

O registro acima (figura 7), mostra para além da expressão de felicidade, a expressão de confiança e de superação, ao lado da mãe adotiva Nancy Thomas, Elizabeth ajuda outras crianças que sofreram violência e orienta as novas famílias na construção de um novo vinculo de apego seguro.

Figura 8 – A enfermeira Elizabeth Thomas no ambiente de trabalho

Fonte: https://bbsradio.com/guestson/guest-beth-thomas-rn.

A figura 8, expressa através do largo sorriso, a felicidade e realização de Elizabeth que se formou em enfermagem e trabalha na unidade neonatal de um hospital em Flagstaf, cidade do estado do Arizona, nos Estados Unidos.

8. Considerações finais

Através deste trabalho foi possível considerar-se que , quando há em uma criança manifestações e sinais do transtorno de apego reativo da infância, esta deve ser acompanhada, ter acesso a uma rede de apoio multidisciplinar que conte com assistência social adequada, médicos que possam avaliar fisicamente , psiquiatras que corroborem com o diagnóstico e psicólogos que tratem terapeuticamente da criança e que também orientem tanto as instituições de acolhimento como as famílias sobre o comportamento da criança e sua história anterior com o objetivo de tratar o transtorno e seu desenvolvimento.

Atualmente, um novo tipo de transtorno de conduta ou social, digamos assim, tem sido identificado em adolescentes e jovens, o de assassinos em massa, como vemos os famosos massacres em escolas, como a de Suzano por exemplo, sabe- se que geralmente são adolescentes ou jovens adultos que tiveram ligações perturbadas na infância, como o bullying, ausência de pais , cuidadores substitutos, falta de atenção, abuso e negligencia das necessidades básicas , ultimamente apresenta-se o contato com mídias violentas que incentivam comportamentos agressivos, tais como os jogos de prática de tiros em primeira pessoa.

Diante do exposto, podemos concluir que a violência infantil não é um fenômeno tão raro quanto pensava-se e que ocorre principalmente em crianças que passaram por algum tipo de privação de afeto, de ausência de um vínculo seguro, que sofreram traumas e que tiveram contato diário com a violência em tenra idade, o que parece acarretar uma maior predisposição aos instintos violentos do indivíduo.

Através deste trabalho pode-se constatar que um dos pontos mais importantes que se pode observar através da pesquisa bibliográfica, é de que há muito tempo se estuda ao apego através de teorias, experiências, testes. Porém, existe pouco material no que se refere ao transtorno de apego reativo, que, como observado ao longo do trabalho tem sua origem no comprometimento do desenvolvimento típico gerando a ausência de um vínculo afetivo, o que deriva a uma relação de apego inseguro ou inadequado.

Permitiu-nos ainda observar através do caso Elizabeth Thomas, como o meio ambiente pode interferir no desenvolvimento saudável e no transcurso do transtorno apresentando, enfatizando a negligencia como um determinante, criando um ambiente inapropriadamente propicio, para que este se desenvolva. Os casos de violência intra- familiar aumentam concomitante a precocidade de comportamentos violentos observados em crianças, adolescentes e jovens como dito.

Alerta-se para as funções do Estado de políticas públicas, que alcancem as famílias que garantam os direitos das crianças que se preparem para oferecer um acolhimento institucional adequado para atender a esta demanda com cuidadores sensíveis e capacitados, que se faça a reflexão que, antes dessas crianças se tornarem violentas, foram vítimas da violência intrafamiliar, do abandono e do mal cuidado.

Tendo o caso de Elizabeth Thomas como um exemplo de dedicação e de superação podemos acreditar que com tratamento adequado pode ser eficaz, proporcionando a essas crianças uma nova perspectiva de vida. Percebe-se a grande importância da psicoterapia no acolhimento, no diagnóstico tão especifico, no planejamento de um tratamento multidisciplinar adequado, que busque atender a cada caso na sua particularidade e historicidade sistemicamente, que possa direcionar ao acompanhamento especializado, enriquecido com o conhecimento prévio das teorias de desenvolvimento, sendo este um campo a ser ampliado e trazido para atualidade.

Na perspectiva da psicologia crítica social, denota-se que esta pode colaborar valorosamente por meio da investigação cientifica, da pesquisa de fenômenos e fatores biopsicossociais, podendo vir a prospectar estratégias sociais, baseadas no conhecimento, na prevenção e na capacitação de profissionais para atender a esta demanda.

Acredita-se que este estudo pode acrescentar a psicologia no estudo do desenvolvimento infantil típico e atípico e a tornar mais difundido no meio cientifico o conhecimento e a pesquisa sobre o Transtorno de apego reativo.

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1 Disponível em: https://filmow.com/a-ira-de-um-anjo-t13967/. 


Publicado por: Daniela Georgia

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