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NOSSO LAR, UMA UTOPIA ESPÍRITA

Religião

Análise das sociedades imaginárias em Nosso Lar, a obra do médium Francisco Cândido Xavier, sobre as complexas e bem organizadas estruturas sociais, econômicas e políticas desta cidade relacionadas, por sua vez, a ideais cristãos, espíritas e utópicos.

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1. RESUMO

O objetivo deste trabalho foi buscar no livro espírita Nosso Lar, de Francisco Cândido Xavier, elementos característicos de uma complexa e bem estruturada utopia, como as de Thomas More, Utopia, de Tommaso Campanella, A Cidade do Sol e Nova Atlântida, de Francis Bacon. Procuramos identificar os processos de legitimação, consolidação e disseminação das ideias e valores expressos em Nosso Lar por meio de práticas e discursos da Federação Espírita Brasileira e de seus principais líderes. Pudemos identificar a influência daquelas concepções otimistas (tipicamente utópicas) no imaginário religioso brasileiro e, especificamente, no campo religioso espírita, onde acabaram por incentivar o modo de agir e pensar de adeptos e seguidores.

Palavras-chave: religião; espiritismo; Chico Xavier; utopia

ABSTRACT

The objective of this work was to find in the spiritualist book, called Nosso Lar, written by Francisco Cândido Xavier, typical features of a complex and well structured utopia, like Utopia, by Thomas More, A Cidade do Sol, by Tommaso Campanella and Nova Atlântida, by Francis Bacon ones. We tried to identify the legitimation, consolidation and dissemination process of ideas and values expressed in Nosso Lar through practices and discourses of the Brazilian Spiritis Federation and its top leaders. We were able to identify the influence of those optimistic views (typically utopian) in the Brazilian religious imaginary, and specifically in the religious spirit field, which they eventually encouraged the way of acting and thinking of spiritist and followers.

Key-words: religion; spiritism; Chico Xavier; utopia

2. INTRODUÇÃO

No início do século XX, o crescente desenvolvimento das ciências, do conhecimento científico e do racionalismo indicava o fim da criação das "sociedades ideais", não apenas no campo intelectual, mas também no campo religioso; no entanto, as décadas seguintes demonstraram exatamente o contrário: a utopia da cidade perfeita persiste, especialmente no imaginário1 cristão do ocidente (seja com o nome de paraíso, de além ou mundo espiritual).

O imaginário é um aspecto da vida social, uma das forças reguladoras da vida coletiva, uma das respostas que a sociedade dá aos seus problemas, conflitos e tensões. Assim, ele informa acerca da realidade, ao mesmo tempo em que constitui um convite à mudança dos valores e dos comportamentos. Como a utopia, ele é um complexo sistema de símbolos, representações, discursos e crenças que não funcionam isoladamente, mas sim, em relações diferenciadas e variáveis com outros sistemas, às vezes, confundindo-se com eles.

Nesta pesquisa procuramos analisar uma daquelas sociedades imaginárias: Nosso Lar, localizada no “mundo dos espíritos”, descrita na obra de mesmo nome, do médium mineiro Francisco Cândido Xavier. A narrativa fornece detalhes interessantes sobre as complexas e bem organizadas estruturas sociais, econômicas e políticas desta cidade relacionadas, por sua vez, a ideais cristãos, espíritas e utópicos.

Em que medida Nosso Lar representa cada uma dessas perspectivas? Até que ponto ela corresponde aos mais antigos e persistentes desejos humanos de esperança, por sua vez, baseados na crença da existência de um mundo melhor? Nosso objetivo geral seria investigar essas representações presentes na sociedade ideal de Nosso Lar, a legitimação, a consolidação e a disseminação de suas idéias no imaginário religioso brasileiro.

Para tanto, buscamos identificar o contexto em que Nosso Lar está inserida, tanto em relação ao espiritismo2 quanto em relação às utopias mais importantes dos séculos passados (a ilha de Utopia, de Thomas More; a Cidade do Sol, de Tommaso Campanella e Bensalém ou Nova Atlântida, de Francis Bacon). Nossa hipótese é de que os discursos presentes na obra articulam muito dessas concepções e acabam por incentivar boa parte de seus leitores, adeptos e não-adeptos do espiritismo, a pensar e agir de acordo com a sua receita que garantem a evolução e o progresso individual e, consequentemente, social.

Nosso Lar é o maior clássico da literatura espírita, seu autor, mais conhecido como, Chico Xavier, é a maior personalidade religiosa dos últimos anos no país, contudo, uma breve pesquisa realizada a partir da Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações, revela que apenas 56 trabalhos estão relacionados ao termo “espiritismo”. Alguns autores, por meio de diferentes pesquisas, indicam que o espiritismo tem recebido pouca atenção dos meios acadêmicos (cf. ALMEIDA, 2007; GIUMBELLI, 1997, LEWGOY, 2000; SILVA, 2007; entre outros) apesar de compor um importante campo religioso no Brasil.

Após a morte de Chico Xavier em 2002, o interesse a respeito de sua vida e obra é crescente entre o público em geral. Chico dedicou mais de setenta anos à causa do espiritismo, publicou 412 livros em vida e contribuiu para a disseminação de vários conceitos espíritas entre a sociedade brasileira, por exemplo, as ideias de reencarnação e vida após a morte (ou “continuidade da vida no mundo dos espíritos”), como veremos mais adiante.

Nosso Lar já vendeu mais de 1,6 milhões de exemplares, é o mais vendido e divulgado livro de Chico Xavier, sendo indicado entre as leituras básicas da doutrina espírita e considerado essencial para aqueles que querem “conhecer um pouco mais” sobre o “mundo dos espíritos”. Por que tem despertado tanto interesse nas pessoas? Uma das respostas pode ter sido dada pelo próprio codificador da doutrina, Allan Kardec, em O livro dos espíritos:

“o Espiritismo progrediu principalmente [...] depois que lhe perceberam o alcance, porque tange a corda mais sensível do homem: a da sua felicidade, mesmo neste mundo. Aí a causa da sua propagação, o segredo da força que o fará triunfar” (KARDEC, 2007 590-591).

Talvez possamos apontar a mesma causa para o sucesso de Nosso Lar, já que aborda justamente a questão da felicidade, ou melhor, o caminho para alcançá-la, além de responder aos mais profundos questionamentos humanos, relacionados à vida e à morte –

“em algum momento da evolução da espécie humana, há milhões de anos, adquirimos a auto-consciência e com ela a certeza de que nossa vida é finita. Diferentes das outras espécies que habitam esse planeta, nós sabemos que vamos morrer. Por outro lado, possuímos o mesmo desejo de sobreviver que faz parte de toda espécie viva existente. Essa ‘contradição’ nos acompanha desde então, produzindo enormes quantidades de angústia, que permanentemente procuramos amenizar” (SILVA, 2007, p. 157).

Acredita-se que o conteúdo otimista torna a literatura espírita, de um modo geral, extremamente atraente, enquanto a autenticidade dos fatos ou a real existência das cidades espirituais aparecem como questões menores para o público leitor em geral. O mesmo conceito pode ser aplicado ao estudo de Nosso Lar, nesse caso adotamos a posição de Jerzi Szacki, de acordo com aquilo que ele define para tema das utopias: "não nos interessa, contudo, o grau de verdade das idéias apresentadas, pois ainda como invenções elas continuam a ser verdades da época, expressando as suas aspirações e nostalgias" (SZACHI, 1968, p. 50).

3. SOBRE O ESPIRITISMO

Allan Kardec sistematizou uma doutrina altamente relacionada com os ideais burgueses de sua época. A proposta de união entre ciência, filosofia e religião fez do espiritismo um agente de consolidação e difusão dos desejos e esperanças da sociedade contemporânea: progresso e evolução, ordem, liberdade de agir e pensar, laicização, espiritualidade, justiça e igualdade.

Os discursos e as práticas de seus primeiros adeptos brasileiros e as instituições a eles ligadas foram decisivos para introdução, consolidação e expansão de uma “mentalidade espírita” em nossa sociedade. Devido a um expressivo mercado literário, o Brasil é, hoje, o país com maior número de espíritas e o principal centro de difusão do espiritismo e de suas concepções para o mundo.

3.1 O espiritismo de Allan Kardec

Em 1857, Allan Kardec publicou O livro dos espíritos, em que apresenta um mundo invisível, de seres imateriais, chamado de mundo dos espíritos. Não se trata de uma utopia, entretanto, esta obra abriria caminhos para uma série de "mundos possíveis" que seriam explorados principalmente em meados do século XX quando assistimos a uma verdadeira multiplicação de obras espíritas que descrevem com mais ou menos detalhes essa "vida no mundo espiritual". O livro dos espíritos deu início à chamada codificação da doutrina espírita3 realizada por Kardec em meados do século XIX.

Allan Kardec nasceu em 03 de outubro de 1804, na cidade de Lion, na França, com o nome de Hippolyte Léon Denizard Rivail. Filho de uma tradicional família lionesa, conceituada em advocacia e magistratura, aos dez anos de idade foi transferido para a Suíça para concluir seus estudos em Yverdun, no Instituto Pestalozzi, dirigido pelo célebre professor Johann Heinrich Pestalozzi (1746-1827). O método pestalozziano marcaria toda a sua vida e sua obra4.

Entre 1819 e 1850, o professor Rivail dedicou-se à prática do magistério; em 1823 lançou o primeiro de uma série de livros pedagógicos5 que o tornaram conhecido (e reconhecido) na França.

Somente em 1855 é que o pedagogo teve contato com o famoso "fenômeno das mesas girantes", eventos que ganharam dezenas de reportagens nos jornais europeus e conquistaram muitos adeptos, era a coqueluche da sociedade francesa de 1853 a 1855 (MENDONÇA, 2006). Nos elegantes salões europeus e de outras partes do mundo, após os típicos saraus das elites, algumas pessoas (consideradas médiuns6) sentavam-se em torno dessas mesas que se moviam, giravam, sacudiam em movimentos bruscos, produziam pancadas e ruídos estranhos. Diz Kardec (apud THIESEN; WANTUIL, 2007, p. 263):

"eu ainda nada vira, nem observara; as experiências, realizadas em presença de pessoas honradas e dignas de fé, confirmavam a minha opinião, quanto a possibilidade do efeito puramente material; a idéia, porém, de uma mesa 'falante' ainda não me entrara na mente",

numa outra anotação, escreveu: "...porque não costumo aceitar idéia alguma, sem lhe conhecer o como e o porquê" (ibid., p. 264). Essas anotações representam o pensamento típico do século XIX quando a racionalidade triunfava, marcando o início de um redirecionamento no sentido de se buscar o conhecimento através da observação empírica dos fatos – era preciso ser positivista – até a obtenção das respostas (DAMAZIO apud ALMEIDA, 2000, p.19). A ciência, a razão e o materialismo eram os únicos agentes capazes de conduzir e orientar o pensamento e a ação humanos (ibid., p. 19), assim, o fenômeno das mesas girantes haveriam de ter uma explicação racional – ideia que também seguia a tendência da época de racionalizar o sobrenatural.

Foi nesse passatempo aparentemente fútil que o professor Rivail percebeu "qualquer coisa de sério". Em reuniões posteriores, as mesas se levantavam e, com um dos pés, davam certo número de batidas, conforme combinado anteriormente, respondendo sim ou não a determinadas perguntas; respostas mais elaboradas puderam ser obtidas com o auxílio das letras do alfabeto, cada letra correspondendo a um número de pancadas; esse método se mostrava demorado e incômodo, foi então adotada uma cesta (cuja borda era tocada pelos dedos dos médiuns) e um lápis sobre uma folha de papel onde eram escritas palavras, frases e até longos textos. Finalmente,

"reconheceu-se mais tarde que a cesta e prancheta não eram, realmente, mais do que um apêndice da mão; e o médium, tomando diretamente do lápis, se pôs a escrever por um impulso voluntário e quase febril. Dessa maneira, as comunicações se tornaram mais rápidas, mais fáceis e mais completas. Hoje é esse o meio geralmente empregado..." (KARDEC, 2007, p. 27).

Segundo Kardec, "a precisão das respostas e a correlação que denotavam com as perguntas causaram espanto" (ibid., p. 26), deduziu que, "a impulsão dada aos objetos não era apenas o resultado de uma força mecânica cega", haveria naqueles movimentos "a intervenção de uma causa inteligente" (ibid., p. 25) os quais o professor começou a investigar.

"Bem depressa, ocasião se me ofereceu de observar mais atentamente os fatos como ainda o não fizera. Numa das reuniões da Senhora Plainemaison, travei conhecimento com a família Baudin que residia então, na Rua Rochechouart. Foi nessas reuniões que comecei os meus estudos sérios de Espiritismo, menos ainda por meio de revelações do que de observações" (KARDEC apud ALLAN KARDEC, O EDUCADOR, 2006).

E teria sido observando atentamente, repetindo experiências, comparando e julgando cuidadosamente7 – metodologia que aprendera no Instituto Pestalozzi – que Kardec chegara à conclusão de que seriam os espíritos dos homens que já haviam morrido a causa inteligente daqueles fenômenos. Segundo ele, havia então descoberto uma explicação racional para aqueles fenômenos e a prova definitiva para a imortalidade da alma.

O professor passou a levar para as reuniões uma série de perguntas pré-elaboradas sobre as mais diversas questões a respeito da filosofia, da moral, da metafísica, da psicologia, etc., para as quais recebia respostas cheias de "precisão, profundeza e lógica". "Mais tarde, quando vi que aquilo constituía um todo e ganhava as proporções de uma doutrina, tive a idéia de publicar os ensinos recebidos, para instrução de toda a gente" (KARDEC apud THIESEN; WANTUIL, 2007, p. 268).

O livro dos espíritos foi criado a partir das experiências e observações do autor que organizou, compilou e sistematizou uma série de textos psicografados8 por diferentes médiuns. Em suas palavras: "[O livro dos espíritos] nasceu da fusão e da comparação de todas as respostas dadas pelos espíritos, coordenadas, classificadas e muitas vezes retocadas no silêncio da meditação foi que elaborei a primeira edição do livro" (apud ALLAN KARDEC, O EDUCADOR, 2006). Somente com a publicação dessa obra, o professor Rivail assumiu definitivamente o pseudônimo de Allan Kardec9.

O livro é composto basicamente de perguntas (elaboradas por Kardec) e respostas10 (que teriam sido dadas pelos espíritos através dos médiuns), sendo que algumas delas contam ainda com complementação e explicação do próprio autor no final. Não somente este, mas todos os livros que fazem parte da codificação do espiritismo11 têm um caráter essencialmente pedagógico – como não poderia deixar de ser, já que foram concebidos por um educador; volta-se para a racionalidade, para o cientificismo e para a ideia de progresso – o que também não poderia ser diferente em pleno século XIX. Classificou-se como uma doutrina científica, filosófica e religiosa, cujos pontos principais são:

a) Deus existe, "é eterno, imutável, imaterial, único, onipotente, soberanamente justo e bom" (KARDEC, 2007, p. 30), infinito em todas as perfeições;

b) crença na reencarnação (diversas existências corpóreas) e na evolução constantes, até que se atinja o objetivo final que seria a perfeição e a felicidade absoluta; "as diferentes existências corpóreas do Espírito são sempre progressivas e nunca regressivas" (ibid., p. 33);

c) existência de dois mundos: o material (mundo visível e corporal composto de espíritos encarnados) e o espiritual (mundo imaterial, formado pelos espíritos desencarnados) que estariam sempre em contato e em comunicação;

d) os espíritos encontrar-se-iam em diferentes graus de evolução; "não [sendo] iguais, nem em poder, nem em inteligência, nem em saber, nem em moralidade" (ibid., p. 32);

e) daí a crença também na pluralidade dos mundos. Todos os globos que se movem no espaço seriam mundos habitados (ibid., p. 96) que possuem diferentes níveis de evolução.

O espiritismo atende à necessidade do homem ocidental contemporâneo de compreender o mundo de uma maneira racional, de preencher o vazio da própria existência com a crença na imortalidade e de ocupar o espaço deixado pela decadência das concepções religiosas dogmáticas e fechadas, especialmente as da Igreja Católica.

"Os indivíduos procuravam por uma forma de religiosidade que estivesse de acordo com os novos tempos: que acreditasse no progresso (portanto na ciência e na 'evolução' da humanidade), que garantisse a liberdade de consciência (individualismo) e que se mostrasse capaz de responder à[s] angústia[s] humana[s]" (SILVA, 2005, p. 18).

Articulado à crença no progresso, para o espiritismo, cada um é responsável pela transformação, pelo desenvolvimento e pelo aprimoramento espiritual, moral e material de si próprio e, consequentemente, da sociedade em que vive por meio do trabalho útil e dos estudos edificantes durante toda a sua existência – material e espiritual.

Assim, o espiritismo não significava um retrocesso místico em meio a um século de racionalismo, estava muito bem adaptado às estruturas e conceitos próprios de sua época. A referência ao cientificismo não foi o único motivo de sua popularidade (SILVA, 2005, p. 27).

3.1.1 Ciência, filosofia e religião

Surge, então, uma dúvida: como elementos tão contraditórios foram articulados e reunidos na doutrina espírita? Em primeiro lugar, para Kardec, “o Espiritismo não é da alçada da Ciência”, ele próprio constitui-se uma ciência; com isso, Kardec está separando aquela “Ciência”, dita oficial, científica, fundada sobre determinados princípios e leis universais (por exemplo, a Física e a Astronomia), de uma outra ciência, esta com letra minúscula, pois refere-se ao saber e ao conhecimento do mundo espiritual, por sua vez, também regido por leis e princípios próprios, diferentes daqueles. Essa questão é levantada logo na introdução d’O livro dos espíritos:

“a Ciência propriamente dita, é, pois, como ciência, incompetente para se pronunciar na questão do Espiritismo: não tem que se ocupar com isso [...] Pretender deferir a questão à Ciência equivaleria a querer que a existência ou não da alma fosse decidida por uma assembléia de físicos ou de astrônomos. [...] Ora, é soberanamente ilógico imaginar-se que um homem deva ser grande psicologista, porque é eminente matemático ou notável anatomista. Dissecando o corpo humano, o anatomista procura a alma e, porque não a encontra, debaixo do seu escalpelo, como encontra um nervo, ou porque não a vê evolar-se como um gás, concluiu que ela não existe, colocado num ponto de vista exclusivamente material” (KARDEC, 2007, p. 39).

“Repetimos mais uma vez que, se os fatos a que aludimos se houvessem reduzido ao movimento mecânico dos corpos, a indagação da causa física desse fenômeno caberia no domínio da Ciência; porém, desde que se trata de uma manifestação que se produz com exclusão das leis da Humanidade, ela escapa à competência da ciência material, visto não poder explicar-se por algarismos, nem por uma força mecânica. Quando surge um fato novo, que não guarda relação com alguma ciência conhecida, o sábio, para estudá-lo, tem que abstrair da sua ciência e dizer a si mesmo que o que se lhe oferece constitui um estudo novo, impossível de ser feito com idéias preconcebidas” (ibid., p. 41).

Em outras palavras, para Kardec o espiritismo é uma nova ciência (no caso, conhecimento e não “Ciência”) que deve ser observada e estudada a partir de leis espirituais diferentes daquelas que orientam o mundo material, estas, há muito conhecidas e pesquisadas pelos homens. A nova ciência não pode ser provada pela Ciência tradicional, pois pertencem a mundos diferentes. Somente o espiritismo seria capaz de explicar os “fenômenos alheios às leis da ciência humana [que] se dão por toda parte, revelando na causa que os produz a ação de uma vontade livre e inteligente” (ibid., p. 68).

Kardec acreditava estar aplicando métodos científicos (típicos das principais “Ciências” do século XIX) para provar a existência dos espíritos: recolher, observar e experimentar os fenômenos relacionados àquelas entidades. A lógica e a razão norteavam seu pensamento e suas pesquisas: “a razão diz que um efeito inteligente há de ter como causa uma força inteligente” (ibid., p. 68).

Os “fatos espíritas” são considerados fenômenos naturais e objetivos, portanto, para Kardec, o sobrenatural não existe, o que existe são dois estados da natureza: o visível e o não-visível. Segundo M. Aubrée e F. Laplantine (2009, p. 79), “toda referência ao sagrado, e qualquer representação do sagrado é totalmente banida, como para melhor se convencer da cientificidade da atitude adotada”. Num trecho de A gênese, essa posição é claramente confirmada:

“demonstrando que esses fenômenos baseiam-se em leis tão naturais quanto as dos fenômenos elétricos, e em que condições normais se podem reproduzir, o Espiritismo destrói o império do maravilhoso e do sobrenatural e, conseguintemente, a fonte da maior parte das superstições” (KARDEC, 2006, p. 45).

Tudo o que se refere às manifestações espíritas pertence ao campo da “ciência espírita”, aquilo que dela resulta, pertence ao campo da filosofia.

A “filosofia espírita” baseia-se no conhecimento moral fornecido pelos espíritos, Kardec assim a defende:

“... à parte [aqueles] fenômenos, há a filosofia, que me explica o que NENHUMA OUTRA me havia explicado. Nela encontro, por meio unicamente do raciocínio, uma solução racional para os problemas que no mais alto grau interessam ao meu futuro. Ela me dá calma, firmeza, confiança; livra-me do tormento da incerteza. Ao lado de tudo isto, secundária se torna a questão dos fatos materiais” (KARDEC, 2007, p. 591).

O aspecto filosófico do espiritismo seria o mais importante e o mais forte por ser capaz de estimular as mais profundas transformações morais e desenvolver o sentimento religioso. Ter “efeitos religiosos” não faz do espiritismo uma religião.

O mesmo raciocínio desenvolvido para diferenciar Ciência de “ciência espírita” é aplicado para explicar a relação com a religião:

“O Espiritismo é uma doutrina filosófica de efeitos religiosos, como qualquer filosofia espiritualista, pelo que forçosamente vai ter às bases fundamentais de todas as religiões: Deus, a alma e a vida futura. Mas, não é uma religião constituída, visto que não tem culto, nem rito, nem templos e que, entre seus adeptos, nenhum tomou, nem recebeu o título de sacerdote ou de sumo-sacerdote” (KARDEC, 2005a, p. 318).

Kardec não tinha a intenção de estabelecer uma religião tradicional, o significado do termo “religião”, um dos tripés em que se sustenta o espiritismo, está relacionado à palavra latina religare (religar)12, o que indica que a ciência e a filosofia espírita seriam uma forma de reaproximar o homem de Deus. O caminho para se restabelecer essa ligação seria a aplicação prática da moral anunciada pelos espíritos, a saber, a moral cristã evangélica.

Kardec apostava na filosofia e na religião como os aspectos mais fortes da doutrina, e que, se fosse reduzida ao aspecto científico, acabaria se enfraquecendo. Ao que parece, ele estava certo.

3.2 O auge e o declínio na França

Após a morte de Allan Kardec em 1869, alguns de seus seguidores conseguem dar continuidade ao projeto do codificador com certo sucesso, mas após a morte desses, o espiritismo vai perdendo cada vez mais a sua força na França.

Pierre-Gaëtan Leymarie (1817-1901) foi um dos discípulos mais fiéis de Kardec dedicando a maior parte de sua vida à causa do espiritismo. Assumiu a dianteira do movimento e da Revista Espírita divulgando e expandindo a doutrina e suas concepções. Leymarie e outros dois espíritas foram acusados de fraude e de mistificação em 1875, apesar dos ataques e das acusações, Leymarie foi absolvido livrando-se de qualquer suspeita.

Entre 1880-1910 as “sociedades espíritas”, as “sociedades de pesquisas”, as revistas e obras sobre o assunto se multiplicam. Personalidades ilustres aliavam-se e passavam a atuar ativamente no movimento:

“militares, entre os quais um grande número de oficiais; médicos, muitas vezes homeopatas; advogados e magistrados; publicistas; professores; embaixadores e príncipes; homens políticos; alguns padres que, desafiando as interdições, manifestam suas convicções cristãs espíritas; cientistas, cujos testemunhos constituem para o movimento espírita a referência mais importante: o físico William Crookes, o naturalista Alfred Wallace, colaboradores de Darwin; o criminologista Lombroso; o astrônomo Flammarion já citado anteriormente; o coronel Rochas, administrador da Escola Politécnica que pratica regressões a vidas passadas sob hipnose; Boucher de Perthes, o fundador da arqueologia pré-histórica; René Caillé ou ainda Paul Gibier, aluno de Pasteur O universo espírita se fragmenta cada vez mais” (AUBRÉÈ; LAPLANTINE, 2009, p. 343).

Nesse período surgiram muitos médiuns que se consagraram a partir do trabalho ativo de comunicação com o “outro mundo”.

Uma espécie de mecenato começa a funcionar em favor do espiritismo: donos de empresas e de negócios prósperos investem sua fortuna e oferecem seus espaços para reuniões, pesquisas e conferências espíritas. Jean Meyer (1855-1931) foi um dos mais importantes “mecenas”, proprietário de vinhedo e negociante de vinhos, interveio financeiramente para que a Revista Espírita voltasse a ser publicada quando de sua interrupção no período da Primeira Guerra Mundial. Em 1917, participou da fundação da União Espírita Francesa, em Paris, dedicada à pesquisa e atividades experimentais.

O auge do espiritismo se dá pelos anos de 1920.

“Entretanto é nesse momento, em que o movimento atinge sua maior força e está sedimentado na sociedade francesa, que tem início o seu declínio. A perda de credibilidade é tão rápida quanto a paixão da qual foi objeto” (AUBRÉE; LAPLANTINE, 2009, p. 126).

Os problemas internos e externos começam a ganhar cada vez mais força e abalar as estruturas do movimento. Um deles é a relação, desde sempre, conflituosa com a Igreja; Léon Dennis (1846-1927), considerado um símbolo do pensamento espírita da época posterior a Kardec, orienta a doutrina para uma posição absolutamente anti-católica, laica e politizada. Outro, é a divergência interna entre aqueles que privilegiam o aspecto religioso e “evangélico” e aqueles que estão mais interessados na dimensão “científica”, racionalista e experimental do espiritismo.

Aubrée e Laplantine (op. cit., p. 126-128) apontam as principais razões do declínio do movimento espírita francês: em primeiro lugar, “a fraude dos médiuns que procuram provar, a qualquer preço, a força prodigiosa de sua capacidade”; em seguida, “o rápido progresso das descobertas científicas”; depois, as “desavenças entre espíritas e ocultistas, entre espíritas e teósofos, e a atração exercida pelas sociedades metapsíquicas”; a exploração da mente humana estimulada por escritores, pensadores, filósofos e, especialmente, pelos psicólogos, psiquiatras e, mais tarde, psicanalistas, “deram o golpe de misericórdia no espiritismo”; além disso, o desmoronamento da doutrina dos espíritos acompanha “o desmoronamento das certezas sobre a natureza da ciência, da religião, da arte, do universo, da República,...” que chegam com o século XX.

Entre 1924 e 1931 morreram os principais membros, colaboradores e adeptos do espiritismo: Camille Flammarion, Alexandre Delane, Léon Denis, Conan Doyle, Dr. Geley, Meyer, dificultando a organização e a manutenção das instituições espíritas.

Assim como a Primeira, a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) fez aumentar a busca pelo espiritismo e pela comunicação com os mortos, mas, enquanto o primeiro conflito contribuiu para o aumento das reuniões e dos congressos sobre o tema (que atraiam centenas de pessoas), o segundo, diferentemente, contribuiu para a formação de grupos autônomos que seguiam interpretações próprias d’ O livro dos espíritos e métodos particulares para estabelecer contato com as criaturas desencarnadas.

“A partir da guerra, seguiram-se rupturas, separando definitivamente o movimento em duas partes dificilmente reconciliáveis cujas práticas se afastaram cada vez mais, ainda que a base da crença permaneça ainda bastante semelhante. De um lado, os defensores da parapsicologia, que, partindo da ‘ciência’, acreditam na sobrevivência e na reencarnação, e, de outro lado, os fiéis de um espiritismo de tipo tradicional que querem continuar a obra de Kardec e Denis...” (AUBRÉE, LAPLANTINE, 2009, p. 347)

privilegiando o aspecto moral13, sem abandonar, porém, o lado racional e “científico” de suas convicções.

No período em que Aubrée e Laplantine realizaram a pesquisa (de 1986 a 1989), a maior parte dos grupos da esfera espírita se dividia nestes dois eixos. Apesar dos desentendimentos e das rupturas surgidas entre as instituições parisienses (Sociedade de Estudos Psíquicos de Paris, Instituto Metapsíquico Internacional e União Espírita Francesa), era na capital francesa que se encontrava o maior número de “fiéis”14, seguida pela província de Lyon (Federação de Lyon). Por outro lado, mesmo assim, o espiritismo francês continuou se dissipando ao longo do século XX. A salvação da doutrina seria mesmo a base religiosa? A resposta viria do outro lado do Atlântico.

3.3 O espiritismo no Brasil

Durante o século XIX a Europa, particularmente a França, foi o centro cultural do ocidente. Para lá, dirigiam-se todos aqueles interessados em atualizar seus conhecimentos e manter-se informado das novidades. Assim fazia a elite brasileira da época, pois era preciso manter o país no caminho da evolução e acompanhar as ideias correntes do outro lado do Atlântico. O espiritismo chegou ao Brasil já por volta da década de 1850 ao mesmo tempo em que várias outras correntes filosóficas e científicas, como o iluminismo, o positivismo e o darwinismo.

As obras da codificação, todas em francês, eram então lidas na corte, entre os intelectuais, literatos, artistas, enfim, pessoas de vanguarda da época pertencentes a uma elite cultural e econômica. Apesar de o espiritismo ter chegado ao Brasil primeiramente no Rio de Janeiro, foi em Salvador que ele ganhou a atenção pública devido a intensos debates travados entre o iniciante movimento espírita e o clero católico. Aí foi instalado, em 1865, o primeiro centro espírita de que se tem notícia, o Grupo Famílias do Espiritismo fundado por Luís Olympio Telles de Menezes, professor e jornalista que traduziu o primeiro livro espírita impresso no Brasil, O espiritismo – introdução ao estudo da doutrina espírita (1865). Esta obra continha páginas traduzidas por ele da 13ª edição d'O livro dos espíritos, a tradução de um apêndice de outro autor francês e um prefácio intitulado Lede onde Telles de Menezes fala sobre a alegria "de ter sido o primeiro na Bahia que, fervorosamente, esposou a doutrina espírita" (MENEZES apud ARRIBAS, 2008, p. 46).

Essa publicação permitiu maior acesso do público às ideias espíritas, especialmente àqueles que não liam francês. A Igreja Católica reagiu alertando os fiéis dos perigos que essa nova doutrina representava. Em 1868, Telles de Menezes escreve uma carta-resposta um tanto polêmica:

"[...] o Espiritismo e o catolicismo são a mesma Igreja de nosso Senhor Jesus Cristo; somente estão mudados os tempos e as palavras: o espiritismo é o tradutor fiel, pelos enviados de Deus, das doutrinas do Evangelho" (MENEZES apud SILVA, 2007, p. 57).

As diferenças entre o espiritismo na Europa e o espiritismo que se desenvolveria no Brasil aparecem tão logo chegam por essas terras.

O primeiro periódico espírita brasileiro, Ecos de além-túmulo, fundado pelo próprio Telles de Menezes, em 1869, acentua as divergências e o debate alcança a Europa. Ainda nos primeiros números, Menezes declara-se "espírita católico"15 (INCONTRI apud ALLAN KARDEC, O EDUCADOR, 2006) – o que aponta para a adoção especial de uma das três vertentes cuja doutrina está apoiada (ciência, filosofia, religião). Os espíritas franceses se colocam contra essa posição. No comentário de Pierre-Gaëtan Leymarie (1827-1901), publicado dois meses depois da morte de Kardec na Revista Espírita16, a posição do brasileiro é diretamente criticada:

"...nos apressamos imediatamente a endereçar vivas felicitações [a Olympio Telles de Menezes], pela iniciativa corajosa de que nos dá prova. Com efeito, é preciso grande coragem de opinião para criar num país refratário como o Brasil um órgão destinado a popularizar os nossos ensinamentos. [...] A introdução e a análise que o Sr. Luiz Olympio faz, do modo pelo qual os Espíritos nos revelaram a sua existência, pareceram-nos bastante satisfatórias. Outras passagens, referindo-se mais especialmente à questão religiosa, dão-nos ocasião para algumas reflexões críticas.

Para nós, o Espiritismo não deve tender para nenhuma forma religiosa determinada. Ele é e deve continuar como uma filosofia tolerante e progressiva, abrindo seus braços a todos os deserdados, seja qual for a nacionalidade e a convicção a que pertençam. [...] Acreditamos, por experiência, que a melhor maneira de conciliar todos os interesses consiste em evitar tratar de questões que a cada um cabe resolver..." (ECO DE ALÉM-TÚMULO, O. In: Revista Espírita, 1869, p. 474-475).

O sucessor de Kardec reconhece a coragem de Telles de Menezes ao publicar aquele periódico num país majoritária e oficialmente católico17, mas ressalta que o espiritismo não deve tender para nenhuma forma religiosa, ou seja, nem deixar a característica religiosa da doutrina se sobrepor as outras, nem tentar se aproximar do mundo católico apostólico romano. Apesar da oposição dos franceses e até mesmo da Igreja Católica, é exatamente o que vemos acontecer nas décadas seguintes: uma maior valorização em relação à vertente religiosa.

Muitos trabalhos foram realizados com o intuito de traçar os caminhos divergentes pelos quais seguiu o espiritismo brasileiro em oposição à matriz francesa. Não caberia aqui entrarmos em pormenores dessa discussão, por ora nos basta uma síntese de Fábio Luiz da Silva (2007, p. 53):

"... o Espiritismo no Brasil não é um simples desvio de uma doutrina racional de origem européia e que sofreu uma contaminação do mágico e do místico, graças a uma predisposição do povo brasileiro para o maravilhoso. É uma construção original, influenciada pela formação cultural brasileira que já possuía elementos que foram reinterpretados pelo Espiritismo, assim como ele foi reinterpretado por estes elementos...".

Podemos dizer que, a essas "adaptações" se deve a rápida aceitação, propagação e adoção da doutrina no Brasil, considerado hoje o maior país kardecista do mundo, com 20 milhões de fiéis (BLANCO, 2010, p. 51).

“Em se tratando de uma teoria que se definia ao mesmo tempo religiosa, científica e filosófica, era de se esperar que fosse absorvida e desenvolvida de diversas formas. [...] Cada tipo de camada social buscou enfatizar uma das suas possíveis vertentes [...]. Se hoje conhecemos o espiritismo como uma religião [...], é porque por detrás de todo esse processo de sua introdução e legitimação no Brasil, um grupo frente aos demais conseguiu vencer a disputa e alcançar assim a posição estatutária de ditar o que seria (ou não) espiritismo” (ARRIBAS, 2008, p. 40).

Entre a aceitação dos dias de hoje18 e as perseguições sofridas nos séculos passados, podemos dizer que dois elementos foram fundamentais: a Federação Espírita Brasileira e Francisco Cândido Xavier.

3.4 A Federação Espírita Brasileira

A movimentação na Bahia atraiu a atenção do restante do país, principalmente no Rio de Janeiro, e contribuiu para a divulgação do espiritismo. Os adeptos da capital procuram se organizar. Em agosto 1873, criam a Sociedade de Estudos Espíritas – Grupo Confúcio, um dos primeiros grupos organizados com o intuito de dar continuidade às iniciativas dos primeiros imigrantes franceses que introduziram os livros de Kardec no Brasil. Dedicaram-se ao "estudo dos fenômenos relativos às manifestações espíriticas, bem como o de suas aplicações às ciências morais, históricas e psicológicas" (WANTUIL apud GIUMBELLI, 1997, p. 61) e à tradução integral para o português de quatro das cinco obras da codificação de Allan Kardec19 – contribuindo decisivamente para a expansão da doutrina no país.

Essa retomada das atividades espíritas no Rio também gerou debates calorosos20 entre diferentes setores da sociedade carioca. Os desentendimentos enfrentados não foram somente externos, mas também internos ao movimento espírita entre grupos que defendiam e passavam a assumir cada vez mais diferentes posições em ralação à doutrina. Nessa disputa predominaram dois grupos: o dos religiosos e o dos científicos. Os primeiros preocupavam-se mais com a experiência fenomenológica, ou seja, voltavam-se para os “fenômenos” de aparição de espíritos e seus efeitos de materialização, sonambulismo, hipnotismo etc.; enquanto os segundos, destacavam os aspectos religiosos e filosóficos, especialmente os elementos da moral cristã contida nos evangelhos.

Segundo Fábio Luiz da Silva (2007, p. 60), a fundação da Federação Espírita Brasileira em janeiro de 1884, a partir do Grupo Confúcio significou, de algum modo, a vitória desse grupo mais religioso21. Apesar de nunca ter negado seus princípios científicos, a FEB sempre valorizou muito mais o aspecto religioso e cristão do espiritismo22. Atualmente, no Portal da FEB na internet, num breve texto sobre a sua história, encontramos um trecho que sustenta essa ideia:

“desde cedo firmou-se a Instituição na segura orientação de tornar o Espiritismo estreitamente vinculado ao Evangelho, duas etapas da Revelação separadas no tempo mas convergentes e complementares, como sobressai claramente do contexto da Codificação” (PORTAL FEB).

Quando foi criada, seus membros apontavam como principal objetivo da instituição a divulgação da doutrina23. Para isso, contavam com a revista Reformador24 e, a partir da década de 1930, com uma grande editora. Quando os projetos de Bezerra de Menezes (1831-1899)25 começam a ser colocados em prática por seus sucessores, a partir dos anos de 1900 é que a Federação passa a assumir novos objetivos, entre eles a organização dos cerca de 160 grupos26 espíritas brasileiros, a normatização das atividades por eles realizadas, a unificação desses grupos em torno da própria FEB, a representatividade destes e de seus membros perante a Justiça, a prática da caridade e do auxílio aos necessitados.

Este redirecionamento dos objetivos e do campo de atuação da instituição parece ter sido mantido – pelos menos em grande parte – até os dias de hoje. De acordo com o Portal da FEB, seus objetivos são os seguintes:

“promover o estudo, a prática e a difusão do Espiritismo, com base nas obras da Codificação de Allan Kardec e no Evangelho de Jesus; a prática da caridade espiritual, moral e material, dentro dos princípios espíritas; e a união solidária e a unificação do Movimento Espírita, colocando o Espiritismo ao alcance e a serviço de todos. Fortalecer, ampliar e aprimorar a ação do Movimento Espírita em sua atividade-fim, promovendo o estudo, a difusão e a prática da Doutrina Espírita é o que impulsiona a prática da missão da FEB” (PORTAL FEB).

O espiritismo e a FEB tiveram de travar uma árdua batalha em busca da legitimação e utilizar certas estratégias para obter o seu espaço na sociedade. Um dos discursos mais eficientes, segundo Fabio Luiz da Silva, teria sido criado nos livros Brasil, coração do mundo e pátria do evangelho e A caminho da luz27, em que

"o Espiritismo representado pela Federação Espírita Brasileira seria responsável pela parte terrena, humana dos planos de Jesus e Ismael28 para o Brasil. É justamente a autoridade que esse raciocínio promove que serviu, entre outros fatores, para a FEB consolidar sua hegemonia dentro do movimento espírita" (SILVA, 2005, p. 150-151).

No entanto, devemos entender a construção do espiritismo levando em consideração não somente fatores externos existentes e expressivos, mas também as forças internas que atuaram e continuam atuando nesse campo. Para Célia Arribas, a articulação dos intelectuais da FEB foi essencial para “organizá-lo, sistematizá-lo e, principalmente, inculcá-lo na vida de seus adeptos” (2008, p. 197), tanto no aspecto doutrinário, quanto burocrático.

“À custa das ‘reinterpretações’ de um grupo (o religioso) dotado de mais capital, o espiritismo da FEB conseguiria agora falar a todos os demais grupos, neutralizando-os e acolhendo-os para si e sob seu poder. É nesse sentido que os discursos da Federação Espírita Brasileira não eram apenas signos destinados a serem decifrados e compreendidos; eram também, e sobretudo, signos de autoridade a serem acreditados e obedecidos. [...] foi a FEB que mais dele [desse poder de nomear, de ditar, de construir e de adjetivar o espiritismo] se apropriou; poder este incumbido aos porta-vozes cujas ações e a matéria de seus discursos constituíam um testemunho, a garantia de delegação de que foram investidos pelo grupo” (ibid., p. 146).

A partir de então, a FEB define e orienta o Espiritismo conforme uma religião29. A hegemonia adquirida pela instituição será reafirmada com o desenvolvimento de seu departamento editorial, tendo à frente as obras do médium Francisco Cândido Xavier.

3.5 A literatura espírita e a Editora FEB

Livros sempre foram importantes para o espiritismo que aconselha, já com Kardec, a leitura e o estudo. Os primeiros adeptos brasileiros foram justamente professores, jornalistas, médicos, advogados, militares, ou seja, um grupo social letrado e instruído. Até hoje, o espiritismo cresce principalmente nas camadas mais ricas e escolarizadas da população; segundo a revista Época (MENDONÇA, 2006), “a renda dos espíritas é 150% superior a média nacional, e 52% ganham acima de cinco salários mínimos. Entre os espíritas, 77% têm entre oito e 15 anos de escolaridade, dez anos em média a mais que os católicos”. O incentivo ao estudo constante e ao aprimoramento moral, cultural e intelectual fez do espiritismo uma religião do livro (SILVA, 2007, p. 65), ou melhor, dos livros.

Atualmente, a literatura espírita é considerada um “fenômeno editorial” devido ao crescente interesse de leitores de outras religiões/crenças e, consequentemente, da entrada de grandes editoras nesse ramo. Segundo reportagem da revista Época, de maio de 2003, foram vendidos 7 milhões de livros com viés espiritualista em 2002, 20% a mais do que em 2001; “um em cada dez clientes entra em livrarias para comprar obras psicografadas”; segundo André Shinohara, diretor comercial do site de vendas Submarino, mais da metade das encomendas de livros religiosos são de caráter espírita, esses leitores compram 15% mais do que os de outras religiões. Os três livros mais vendidos seriam O evangelho segundo o espiritismo, de Allan Kardec, com 11 milhões, O livro dos espíritos, do mesmo autor, com 4 milhões e Nosso Lar, de Chico Xavier, com 1,5 milhões30 (MANSUR; CORDEIRO, 2003).

Para os jornalistas que assinam a matéria, a razão do sucesso das obras espíritas estaria no fato delas cumprirem aquilo a que se propõem: “aliviar angústias de seus leitores”. Pode ser, mas levantamos aqui dois outros motivos, relacionados à configuração do campo religioso brasileiro. Uma pesquisa, realizada em 1988, pelo Instituto Gallup, constatou que 45,9% dos católicos que dizem freqüentar semanalmente serviços religiosos acreditam na reencarnação – apesar da crença não pertencer aos dogmas da Igreja Católica. Outra pesquisa, realizada em cinco grandes cidades brasileiras pelo Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais, em 2000, aponta que 55,7% dos entrevistados acreditam em vida após a morte, sendo que 35,8% destes afirmaram crer na reencarnação dos mortos (STOLL, 2004, p. 182). O epiritismo e suas crenças difundiram-se pelo país de forma bastante difícil de calcular estatisticamente,

“para se aquilatar a profundidade cultural e a extensão social da difusão deste sistema de crenças, os dados dos censos demográficos são insuficientes, uma vez que estes são incapazes de apreender a ‘dupla pertença’, fenômeno corrente no campo religioso brasileiro. Declarar-se ‘católico’ é uma prática ainda vigente entre os espíritas, assim como se dizer ‘espírita’ é uma prática dos adeptos de religiões afro-brasileiras, especialmente entre os segmentos sociais de baixa renda” (ibid., p. 182).

Mesmo assim, os números obtidos despertam a atenção: segundo o Censo de 2000, 2,3 milhões de brasileiros se declararam espíritas, o que já torna o Brasil, o maior país espírita do mundo. Por outro lado, os números podem ser ainda maiores se levarmos em conta pessoas que têm o epiritismo como segunda opção religiosa ou que simplesmente adotaram algumas ideias da doutrina; estima-se que existam cerca de 30 milhões31 de simpatizantes (PADILLA, 2006).

Segundo Marion Aubreé e François Laplantine (2009, p. 237), o livro está no centro do desenvolvimento do espiritismo. Na França do século XIX, ler O livro dos espíritos estava relacionado a um símbolo de conhecimento, de instrução,

“sua leitura dava àqueles que a praticavam a impressão e mesmo a convicção de que eles podiam enfim ter acesso à cultura erudita. Possuí-lo foi certamente um ato de libertação em relação à Igreja católica, assim como um ato de rebeldia contra os valores conservadores da burguesia. Assinalava uma identidade: a filiação à sociedade leiga e republicana” (ibid., p. 237).

No Brasil, essa prática se tornou sinal de ascensão social. Saber ler, poder estudar e ter condições de comprar livros são marcas de pertencimento das classes médias e superiores. A valorização da leitura corresponderia à necessidade de respeitabilidade social e de diferenciação em relação às outras religiões mediúnicas de tradição oral – como a umbanda e o candomblé. Uma das razões da difusão do espiritismo entre a classe média urbana letrada é justamente o fato de a doutrina exigir leitura e instrução; “ler faz parte do aprendizado espírita”, reforça o editor Celso Maiellari, diretor da editora Lúmen, especializada em obras psicografadas (apud MANSUR; CORDEIRO, 2003).

Para o antropólogo Bernardo Lewgoy (2000), o espiritismo não difere de outras religiões do livro que se baseiam num conjunto de textos explicativos e normativos – como o judaísmo, a especificidade encontra-se na literatura mediúnica, onde há toda uma imaginação complementar à sistematização realizada por Kardec, para ele “esta é uma religião do livro, da leitura e do letramento, num sentido que dificilmente se iguala em outras religiões” (ibid., p. 10), é o que faz toda a diferença, particularmente no Brasil.

Esse tipo de literatura mediúnica não é apenas elemento de propaganda e de disseminação do espiritismo, mas também sua principal fonte de legitimação; é por meio dessa cultura escrita que o sistema religioso de crenças, práticas e valores é atualizado.

“O livro espírita (assim como a prática das sessões e as reuniões de estudo) serve para avivar as certezas fundamentais e a leitura propicia um relacionamento da experiência pessoal com as verdades fundamentais da doutrina. Esse aspecto mostra-se especialmente significativo para a literatura espírita, que consiste, em grande parte, em relatar histórias de Espíritos, cuja variedade de carreiras através das encarnações pode servir de exemplo, admoestação e exortação para os fiéis em busca de orientação. O fato desta multiplicidade de histórias espirituais representar, em sua variedade, as centelhas em que fulgura a Lei da Evolução, eterna e justa, vem dar verdadeira densidade religiosa – e eficácia psicológica – à sua função exemplar” (CAMARGO apud LEWGOY, 2000, p. 39).

Com a expansão do mercado editorial espírita uma série de editoras32 disponibilizou (e continua disponibilizando) uma imensa variedade de textos populares com uma linguagem mais adequada ao público não-espírita33. Entretanto, nem todos os escritos possuem o mesmo status:

“a massa de textos disponíveis ao público sofre um processo seletivo junto às instâncias de legitimação do movimento espírita organizado. Há um conjunto de editoras, médiuns e espíritos, que são respeitáveis e dignos de fé pelos kardecistas [...], formalmente, todos os textos publicados pela editora da Federação Espírita Brasileira são ‘legítimos’ aos olhos do movimento espírita organizado” (LEWGOY, 2000, p. 35).

A Federação Espírita Brasileira inaugurou sua livraria em 1897 e conseguiu da Société de Librairie Spirite (proprietária e responsável pelas obras de Allan Kardec em todo o mundo) os direitos exclusivos às traduções portuguesas, tanto no Brasil como em Portugal, dos principais textos34 do codificador. Além da revista Reformador, a livraria publicou diversas obras de outros autores por meio de contratos com algumas editoras35 até criar o seu próprio departamento editorial em 1906.

Hoje, a Editora FEB possui um catálogo com mais de 400 títulos que chegam a quase 40 milhões de exemplares vendidos; são romances, poesias, contos, crônicas, textos científicos e filosóficos, depoimentos e mensagens “escritas pelos espíritos”. Entre os médiuns mais importantes estão Divaldo Pereira Franco, Waldo Vieira, Yvonne do Amaral Pereira e o “fenômeno Chico Xavier” que, sozinho, já vendeu mais de 18 milhões de livros36 – sendo Nosso Lar o mais vendido, com 1,6 milhão de exemplares, segundo dados do Portal FEB.

Divulgando e disseminando as ideias “oficiais” do espiritismo, a Editora FEB contribuiu ainda para a legitimação da Federação Espírita Brasileira como a grande porta-voz do movimento espírita no Brasil e no exterior.

3.6 Chico Xavier

Sem dúvida, a produção literária do médium Chico Xavier foi essencial à FEB e a sua editora tanto quanto a legitimidade, autoridade e aceitação da FEB e de sua editora foram às obras e ao próprio Chico Xavier, especialmente em torno dos anos de 1940 e 1950 – justamente o período da publicação das obras da coleção André Luiz. Até então, o espiritismo não tinha grandes nomes de destaque provenientes das camadas mais populares da sociedade. Chico Xavier foi uma exceção.

Quando buscamos a história de vida de Francisco Cândido Xavier nos deparamos com uma situação complicada: é difícil separar a pessoa da personagem que se construiu. Como atesta Magali Oliveira Fernandes (2008, p. 17): “ambas, pessoa e personagem, pareciam se cruzar entre a história vivida e a narrada; o real e o fictício misturavam-se frequentemente, a meu ver, numa dinâmica de reforço e sustentação mútuos”.

Muitas biografias, reportagens especiais e entrevistas foram feitas sobre Chico Xavier, principalmente depois de sua morte em 2002, ressaltando um certo misticismo que sempre envolveu suas histórias.

“Chico Xavier, um dos autores mais lidos no Brasil, é também uma das personagens mais presentes e fortes de que se tem notícia nos últimos anos no país, podendo ser considerado, por muitos, uma das mais importantes personalidades na história do fenômeno religioso brasileiro, principalmente pela enorme aceitação do público em relação a seus livros” (FERNANDES, 2008, p. 18-19).

“As 48 horas de velório foram suficientes para que as caravanas de ônibus chegassem em paz. A Polícia Militar fez as contas: 2.500 pessoas por hora, em média, se despediram de Chico no Grupo Espírita da Prece. Ao todo, 120 mil pessoas. A fila para ver o corpo atingiu quatro quilômetros e chegou a exigir uma espera de aproximadamente três horas [...] Mais de 30 mil pessoas acompanharam o cortejo a pé. O trânsito parou e um clima de comoção tomou conta da multidão” (SOUTO MAIOR, 2003, p. 13-14).

“Verdade irrefutável mesmo é que Chico [...] se transformou em mito, venerado, idolatrado, atacado, perseguido – um ídolo popular” (ibid., p. 15). Em vida, publicou 412 livros37 e vendeu quase 25 milhões de exemplares, mesmo assim levou uma vida pobre e simples já que os direitos autorais e a renda dos livros foram transferidos a instituições de caridade. Desde os primeiros escritos mediúnicos, Chico abriu mão de qualquer benefício proveniente desse trabalho, desde direitos autorais até empregos, favores pessoais e dinheiro. Ele foi (e continua sendo) o modelo mítico de espírita exemplar, o santo e o caxias, como afirma Lewgoy:

“O ideal espírita de homem público modelar, encarnado pelo exemplo de Chico Xavier, combina dois paradigmas culturais muito caros à sociedade brasileira: o ‘caxias’, o cidadão obediente e honesto, disciplinado, cumpridor de horários, seguidor de normas, inflexivelmente igualitário e legalista como ‘renunciante’ ou santo, aquele que se pauta pelos princípios do ‘mais alto’, combinando renúncia com caridade cristã. Chico, nesse sentido jamais faltou a qualquer de sues deveres familiares (criou irmãos, sempre cuidou de sua família) e espíritas” (2000, p. 186).

Francisco de Paula Cândido nasceu em 1910 numa família pobre na pequena cidade de Pedro Leopoldo no interior de Minas. A mãe, a dona-de-casa, Maria João de Deus morreu quanto o menino tinha apenas cinco anos; o pai, João Cândido Xavier, um humilde vendedor de bilhetes de loteria distribuiu os filhos entre parentes e conhecidos, pois não teria condições de criar as nove crianças. Chico foi morar com a madrinha, Rita de Cássia, que o maltratou muito no período em que esteve com ele; ela aplicava-lhe surras e castigos diariamente – como enfiar garfos na barriga do menino, talvez por causa das histórias de espíritos e idéias estranhas que o garoto costumava contar pela cidade. Para o pai, o filho era louco e deveria ser internado num sanatório; para a madrinha, Chico tinha “o diabo no corpo” e o padre provavelmente concordava com ela, pois fazia o menino rezar e cumprir penitências pesadas como seguir em procissão com uma pedra de quinze quilos na cabeça repetindo mil vezes seguidas a ave-maria. O sofrimento nas mãos de Rita de Cássia durou dois anos, quando João Cândido se casou com Cidália Batista e juntou toda a família novamente. Quando a madrasta viu os ferimentos abertos a garfadas na barriga de Chico, então com sete anos, prometeu: “enquanto eu viver, ninguém mais vai pôr as mãos em você”. Esse era o anjo que o espírito da mãe, com quem Chico conversava frequentemente, tinha anunciado algum tempo antes.

As vozes e as visões de espíritos continuaram a atormentar o garoto. O padre Sebastião Scarzello orientou João Cândido a procurar um emprego para preencher o tempo ocioso do jovem – provavelmente levado pela crença de que o que acontecia com Chico era coisa do diabo. O salário de tecelão ajudaria em casa e tiraria da cabeça do pai a ideia de internar o filho. Aos nove anos Chico estudava pela manhã e trabalhava na fábrica de tecidos das três horas da tarde até à uma da manhã; o serviço árduo e insalubre fez seus pulmões adoecerem e por recomendação médica, o garoto trocou o trabalho na fábrica pelo bar de um conhecido; muito serviço e pouco dinheiro, anos depois, Chico foi trabalhar num armazém. O jovem trabalhava muito, mais do que o normal, mas não resolveu o problema do contato com os espíritos.

Em 1927, por causa de uma estranha doença que acometeu uma das irmãs de Chico, um casal amigo da família que seguia o espiritismo foi chamado para curar a moça. A irmã melhorou e Chico seguiu com o casal para a fazenda deles: finalmente, o jovem teria encontrado explicação para tudo aquilo que o atormentou a vida inteira, Chico era médium. Pouco mais de um mês depois, ele ajuda a fundar o primeiro centro espírita da cidade onde escreveria os primeiros textos psicografados e teria contato com o seu “amigo espiritual”, de nome Emmanuel, que o acompanharia pelo resto da vida.

“Em 1931, Chico já não sentia a pressão alucinada na cabeça nem o enrijecimento doloroso no braço. Tinha aprendido a se entregar, a não criar resistência. Às vezes, um volume imaterial aparecia diante de seus olhos e era dali, daquelas páginas invisíveis, que Chico copiava os textos do outro mundo. Em outras ocasiões, escrevia como se alguém lhe ditasse as mensagens e, enquanto colocava as palavras no papel, experimentava no braço a sensação de fluídos elétricos e, no cérebro, vibrações indefiníveis. De vez em quando, esse estado atingia o auge e Chico perdia a sensação do próprio corpo. Sem medo, já podia ser o instrumento passivo dos mortos-vivos” (SOUTO MAIOR, 2008, p. 36).

Mesmo acometido por uma catarata incurável e ter completado somente os primeiros anos de estudo Chico escrevia uma de enorme quantidade de mensagens e textos. Em 1932 chegaria às livrarias através da Editora FEB, Parnaso de além-túmulo, uma coletânea de 59 poemas assinados por 14 conhecidos poetas mortos – entre eles, Castro Alves, Olavo Bilac, Augusto dos Anjos, Casimiro de Abreu – todos recebidos pelo médium Francisco Cândido Xavier38.

Apesar dos compromissos assumidos com o outro mundo, Chico não deixou de trabalhar, pois havia prometido à Cidália no leito de morte que não deixaria o pai se desfazer dos filhos e ainda ajudaria a cuidar dos catorze irmãos. Em 1935, com a falência do armazém onde trabalhava, tornou-se escrevente-datilógrafo da Inspetoria Regional do Serviço de Fomento da Produção Animal, na Fazenda Modelo onde trabalharia até se aposentar.

As críticas, as desconfianças e as perseguições aumentavam na mesma proporção e velocidade em que aumentava a fama do médium. Parnaso teve grande repercussão junto à imprensa, aos literatos da época e à opinião pública. A pequena Pedro Leopoldo recebia cada vez mais gente, umas em busca de esperança, consolo e cura, outras, mais céticas, buscavam desmascarar aquele matuto metido a poeta; na imprensa, os artigos sobre os poemas de Parnaso se dividiam entre o reconhecimento e a acusação de pastiche.

Uma acusação oficial de plágio viria em 1944: a viúva do poeta maranhense Humberto de Campos (1886-1934), Catarina Vergolino, iniciou um processo judicial contra Chico Xavier e a Federação Espírita Brasileira. Ela queria explicações a respeito das cinco obras publicadas e atribuídas ao poeta depois de morto.

“O processo prometia. Se o juiz renegasse a autenticidade dos textos, Chico e o presidente da Federação Espírita Brasileira estariam sujeitos a pagar indenização por perdas e danos e a ser presos por falsidade ideológica. Se o ‘meritíssimo’ reconhecesse os livros como obras do além, atestaria a existência de vida após a morte e teria de decidir se os direitos autorais deveriam, ou não, ser repassados aos herdeiros do morto-vivo” (SOUTO MAIOR, 2008, p. 92).

Para o juiz, os direitos da pessoa acabavam após a morte. Chico escapou dessa, mas as polêmicas sempre o cercaram. Diante de cada problema, ofensa ou obstáculo, os amigos espirituais o incentivavam: tenha paciência, seja disciplinado, trabalhe muito em favor dos outros, somos muito pequenos diante do universo, a verdadeira vida é a vida espiritual. Os casos, episódios e eventos contados em suas biografias reforçam um imaginário construído em torno da esperança da existência de um mundo melhor, de uma sociedade ideal, completa e perfeita que não estaria aqui entre os vivos, mas entre os mortos – no mundo espiritual – funcionando de acordo com uma antiga receita utópica cujos principais ingredientes são a ordem, a justiça e o progresso.

O vago mundo dos espíritos de Allan Kardec seria detalhadamente descrito na 19ª obra publicada por Francisco Cândido Xavier, Nosso Lar; diferente de todas as outras, tornou-se um marco para o espiritismo brasileiro e foi fundamental para a consolidação da crença (e porque não dizer, da esperança) na continuidade da vida após a morte.

4. SOCIEDADE DOS HOMENS X SOCIEDADE DOS ESPÍRITOS

Se o mundo não acaba quando o corpo perece, o que, então, aconteceria depois? Para onde os espíritos revelados por Allan Kardec iriam? Ser errante é vago demais para os homens que não conseguem se desvencilhar do mundo material... A criação de uma cidade espiritual conciliou duas necessidades: as dos espíritas, que buscavam saber mais sobre a vida depois da vida e de tantas outras pessoas que buscavam algo em que acreditar num mundo secularizado, cada vez mais racional e científico, capaz de provar, com ajuda de tecnologias avançadas, a impossibilidade da existência de outros mundos ou de sociedades completamente isoladas das quais pouco se poderia saber e muito se poderia imaginar: o ser humano seria capaz de chegar a qualquer lugar; nem a Terra, nem o Universo lhe seriam inalcançáveis ou desconhecidos.

Se nem aqui, nem lá, para onde iriam nossas utopias? Como diz o ditado, a esperança nunca morre, e assim, elas sempre encontraram o seu lugar.

4.1 O mundo dos espíritos nas obras da codificação

Nas obras da codificação, Kardec está preocupado em "transmitir" os ensinamentos, a moral e os princípios que regem os "dois mundos" e não com a descrição do mundo novo que lhe fora "revelado". Dessa maneira, muito pouco é dito sobre a "vida espiritual" ou "estado de erraticidade" 39 do espírito. Kardec explica que os espíritos

"não encarnados ou errantes não ocupam uma região determinada e circunscrita; estão por toda parte no espaço e ao nosso lado, vendo-nos e acotovelando-nos de contínuo. É toda uma população invisível, a mover-se em torno de nós" (KARDEC, 2007, p. 34).

Também não há nenhuma descrição a respeito do Paraíso ou do Inferno, pois "nenhum lugar circunscrito ou fechado existe especialmente destinado a uma ou outra coisa [penas e recompensas]" (ibid., p. 576). Esses lugares fariam parte apenas da imaginação do homem – que tende a materializar as coisas; inferno e paraíso seriam alegorias que deveriam ser entendidas como condições, "estados do espírito".

"Pode-se assim dizer que trazemos em nós mesmos o nosso inferno e o nosso paraíso. O purgatório, achamo-lo na encarnação, nas vidas corpóreas ou físicas" (ibid., p. 579).

Nem mesmo em relação aos outros mundos habitados40 nos é informado maiores detalhes, Kardec afirma apenas que eles existem e que toda informação sobre eles tem uma finalidade moral, deve ser encarada como "um meio de vos fixarem as ideias sobre o futuro e não vos deixarem na incerteza" (KARDEC, 2008, p. 463).

"...lembrais-vos de que semelhantes descrições têm por fim o vosso melhoramento moral e que, por conseguinte, é sobre o estado moral dos habitantes dos outros mundos que podeis ser mais bem informados e não sobre o estado físico ou geológico de tais esferas. Com os vossos conhecimentos atuais não poderíeis mesmo compreendê-lo; semelhantes descrições de nada serviriam para o vosso progresso na Terra..." (ibid., p. 463).

Apesar de não habitarem um espaço específico, os espíritos errantes devem trabalhar, estudar e respeitar incondicionalmente uma hierarquia de poderes cuja autoridade é acatada por todos em qualquer circunstância – porque é "irresistível"; costumam se reunir formando famílias ou grupos de acordo com o grau de evolução e de afinidade – mesma categoria, mesmo caráter, mesmos sentimentos41.

Talvez por estarem em toda parte não há descrições sobre lugares ou regiões específicas ocupadas pelos espíritos errantes. Mas, por outro lado, Kardec (2007, p. 202) diz que “em lugar algum há o vazio; tudo é habitado, há vida em toda parte” e dedica um item ao que ele chama de mundos transitórios.

“234. Há, de fato, como já foi dito, mundos que servem de estações ou pontos de repouso aos Espíritos errantes?

‘Sim, há mundos particularmente destinados aos seres errantes, mundos que lhes podem servir de habitação temporária, espécies de bivaques, de campos onde descansem de uma demasiado longa erraticidade, estado este sempre um tanto penoso. São, entre os outros mundos, posições intermediárias, graduadas de acordo com a natureza dos Espíritos que a elas podem ter acesso e onde eles gozam de maior ou menor bem-estar’” (KARDEC, 2007, p. 200).

Essa permanência “temporária”, assim como o “intervalo das encarnações”, é bastante relativa, podendo durar desde algumas horas até alguns milhares de séculos, só não é eterna – cedo ou tarde, o espírito voltaria a uma existência material apropriada para continuar sua saga em busca da perfeição (ibid., p. 197). Esses mundos transitórios não são materiais, “estéril é neles a superfície. Os que os habitam de nada precisam” (ibid., p. 201).

Nas obras da codificação, esses lugares existem, mas o que é dito sobre eles é pouco esclarecedor e acaba deixando inúmeras questões, dúvidas e lacunas que serão preenchidas décadas mais tarde com a coleção A vida no mundo espiritual escrita por Chico Xavier (e André Luiz, como dizem os espíritas).

Como reconhece o próprio Kardec, o ser humano tem uma certa necessidade de materializar as coisas e prefere certeza à dúvida, especialmente em relação ao futuro. Não basta saber que é possível uma vida melhor, que existem mundos melhores para onde todos deverão ir um dia, precisamos saber COMO vai ser para continuarmos acreditando, apegados à velha e boa esperança.

4.2 Sobre a produção literária de Chico Xavier

Chico Xavier trabalhava incessantemente. Dormia entre três e quatro horas por dia. Depois de ter se aposentado passou a dedicar-se exclusivamente aos serviços ligados a causa espírita, principalmente à sua missão maior: a produção de livros; chegou a escrever quinze obras num único ano (1985). Os poemas elaborados, os romances históricos, os tratados científicos e filosóficos das primeiras publicações deram espaço a textos mais simples, mais populares, como coletâneas de entrevistas, mensagens e cartas particulares. Coincidentemente ou não, os textos mais populares passaram a ser publicados a partir de 1959, quando Chico se muda para a cidade de Uberaba e passa a conceder a outras editoras e grupos espíritas os direitos autorais de suas obras42, num discreto distanciamento da FEB.

Chico sempre procurou se aproximar do povo e, assim, aproximar o espiritismo dos “menos favorecidos”, numa posição claramente divergente dos primeiros precursores das idéias de Kardec no país. “O Espiritismo veio para o povo e para com o povo dialogar”, repetiria aos intelectuais da doutrina. Mas, o povo não costumava ser favorecido, principalmente nas psicografias consideradas as mais significativas, aquelas assinadas pelos espíritos do aristocrata Emmanuel e do médico André Luiz. Palavras e expressões como “fenomenologia espírita”, “processo anímico”, “ideoplasticidade do pensamento”, “feérica”, “hausto”, “estentórico”, “objurgatório”, entre tantas outras que pululam naqueles textos, são complicadas e difíceis demais para uma população pouco familiarizada às letras.

Se a linguagem mudou ao longo dos anos, por outro lado, o tom doutrinário e edificante permaneceu uma característica comum. Independentemente da forma, o conteúdo sempre estimulava a prática do amor, da caridade e o cumprimento dos ensinamentos do evangelho num incessante exercício de complementação e reiteração dos textos de Allan Kardec.

“Além de remeterem uns aos outros, muitos textos de divulgação espíritas têm uma característica de redundância, funcionam sempre como chaves para a totalidade, resumem, sintetizam e recapitulam os pontos principais do sistema. Mesmo a bibliografia indicada – importante componente desta religião – passa a ser fortemente marcada por obras de Chico Xavier e Divaldo Franco (entre outros, de menor importância) além das obras de Kardec” (LEWGOY, 2004, p. 280).

O capital simbólico vinculado à figura de Chico Xavier e à Federação Espírita Brasileira confere às obras e ao discurso contido nelas uma autoridade quase incontestável dentro e fora do movimento espírita. A autenticidade dos fatos e das mensagens é menos importante para o público leitor do que o conteúdo otimista dos livros – extremamente atraente em tempos de medo (quando da publicação de Nosso Lar, em meio a Segunda Guerra Mundial), incertezas e crises (tão comuns nas sociedades ocidentais contemporâneas).

Todavia, o conteúdo da coleção André Luiz surpreendeu inclusive aos adeptos da doutrina, cujo líderes trataram de oficializar por meio de artigos na revista Reformador que ressaltavam a beleza do livro, elogiavam os ensinamentos transmitidos e buscavam comparar Nosso Lar a descrições anteriores43. Ainda hoje, a cisão promovida por Nosso Lar dentro do grupo espírita permanece: aqueles que acreditam nas cidades espirituais e aqueles que dizem que elas não passam de ilusão, fantasias e recursos literários para agradar o povo.

4.3 A vida no mundo espiritual e Nosso Lar

Nosso Lar é o primeiro livro de uma série de treze publicações “assinadas” pelo espírito André Luiz44, considerado o mais “científico”, “jornalístico” e “sociológico” dos espíritos que transmitiram mensagens e textos através de Chico Xavier. É o décimo nono livro do médium, o mais vendido, um grande clássico, considerado o melhor livro espírita do século XX45 e um dos mais polêmicos por ser o primeiro relato a respeito do cotidiano numa cidade espiritual.

André Luiz é um médico que narra sua própria história de “vida após a morte” ao longo da coleção chamada A vida no mundo espiritual46. Os livros abordam temas recorrentes da sociedade da época e que ainda hoje causam muita discussão, como eutanásia, aborto, drogas, sexo, casamento e divórcio, família, além de temas consagrados do espiritismo como mediunidade, evolução, reencarnação, etc.

“Ao narrar a sua experiência, André Luiz reitera as crenças e valores espíritas sobre a substância do cotidiano no plano espiritual, aproveitando para reafirmar a profissão de fé espírita numa evolução adquirida pelo aprendizado, pela caridade e pelo trabalho” (LEWGOY, 2000, p. 211-212).

Os episódios e situações relatadas têm sempre uma conotação pedagógica baseada no objetivo primordial da série: ensinar por meio de exemplos morais. O texto é tão didático quanto as obras da codificação; em Allan Kardec, as perguntas e respostas são numeradas, organizadas de acordo com o tema que abordam, algumas possuem explicações mais complexas e mais longas, mas também há respostas bem diretas, como “sim” ou “não” seguidos de uma ou duas linhas explicativas; em Nosso Lar, prevalecem capítulos curtos a respeito de uma situação ou acontecimento geralmente repleto de longas respostas para as dúvidas do personagem-narrador; em seguida, depois de receber uma enxurrada de novas informações, André Luiz procura avaliar e interpretar os ensinamentos sob o prisma evangélico e ressaltar a beleza e a perfeição das leis divinas que começava a aprender. Como uma criança, enche seus interlocutores de questionamentos e transforma cada experiência numa lição, numa constante reiteração de determinados aspectos doutrinários do espiritismo.

A coleção se propõe a uma espécie de revisão da codificação numa linguagem mais fluida, mais acessível, própria dos romances populares. André Luiz retoma ideias kardecistas dando sentido à cidade espiritual por meio da representação de conceitos e valores cristãos (pode-se dizer até, de valores católicos) caros à sociedade brasileira.

Nascido numa família de comerciantes, André Luiz teve “pais excessivamente generosos” que lhe permitiram formar-se sem sacrifício em Medicina; casou-se, teve três filhos e “perseguira situações estáveis que garantissem a tranqüilidade econômica” familiar. Morreu em 1931 devido a um câncer no intestino. Passou oito anos “sofrendo” numa região chamada Umbral, zona inferior que se localiza em torno da Terra, junto aos homens encarnados onde multidões de almas desequilibrados (espíritos “infelizes, malfeitores e vagabundos de várias categorias”, irresolutos e ignorantes, “verdugos e vítimas, exploradores e explorados”) “que não são suficientemente perversas para serem enviadas a colônias de reparação mais dolorosa, nem bastante nobres para serem conduzidas a planos de elevação”, o Umbral seria uma espécie de purgatório. Mesmo reconhecendo que havia morrido, André continuava “vivo”, sentia fome, frio, sede, cansaço:

“perguntava a mim mesmo se não enlouquecera, encontrava a consciência vigilante, esclarecendo-me que continuava a ser eu mesmo, com o sentimento e a cultura colhidos na experiência material. Persistiam as necessidades fisiológicas, sem modificação” (XAVIER, 2009, p. 21).

Enquanto médico encarnado, André era materialista e odiava as religiões no mundo, mas, segundo suas palavras: “em momento algum, o problema religioso surgiu tão profundo a meus olhos. Os princípios puramente filosóficos, políticos e científicos, figuravam-se-me agora extremamente secundários para a vida humana” (ibid., p.16), “experimentava agora a necessidade de conforto místico” (ibid., p. 21). Neste trecho, há um tom de crítica, que pode estar relacionado à oposição entre o espiritismo mais religioso, cultivado pela FEB e por Chico Xavier, e o espiritismo mais científico, voltado à matriz francesa e contrário às ideias difundidas pelo médium mineiro.

Em meio à dor e desespero, o médico se recorda de Deus e pede ajudar numa “prece dolorosa” e é atendido por um “emissário dos Céus”, um velhinho simpático chamado Clarêncio47 que o socorre e o leva a uma cidade espiritual chamada Nosso Lar.

Nosso Lar teria sido fundada no século XVI por “portugueses distintos” desencarnados no Brasil; localizada em algum ponto do espaço, mais perto do Sol do que da Terra - uma “esfera espiritual vizinha da Terra” – receberia os espíritos que merecessem socorro e auxílio. Considerada “zona de transição”, aí, os homens desencarnados poderiam se recuperar, aprender, trabalhar e progredir nos períodos entre uma encarnação e outra. Cerca de um milhão de seres viviam ali.

A cidade seria dirigida por um Governador e setenta a dois ministros, doze de cada um dos seis Ministérios: da Regeneração, do Auxílio, da Comunicação, do Esclarecimento, da Elevação e da União Divina. Os quatro primeiros estariam mais próximos da Terra, os dois últimos estariam ligados ao “plano superior”. O palácio da Governadoria está localizado no centro da colônia onde começam todos os ministérios que, por sua vez, prolongam-se em forma triangular compondo, assim, uma enorme estrela de seis pontas bem acomodada numa planície circundada por “montes coroados de luz”.

Os primeiros dias de André Luiz na colônia se passaram dentro de um quarto de hospital que fazia parte de um imenso parque hospitalar; André era apenas mais um, entre os mais de mil doentes, que ocupava o edifício, um dos menores do lugar. Quando saiu pela primeira vez, impressionou-se com “o espetáculo das ruas”:

“Vastas avenidas, enfeitadas de árvores frondosas. Ar puro, atmosfera de profunda tranqüilidade espiritual. Não havia, porém, qualquer sinal de inércia ou de ociosidade, porque as vias públicas estavam repletas. Entidades numerosas iam e vinham” (XAVIER, 2009, p. 55).

Conheceu o Ministério do Auxílio, onde se encontrava o complexo hospitalar, as explicações ficaram por conta do enfermeiro que o acompanhou durante o tratamento, Lísias48:

“Estamos no local do Ministério do Auxílio. Tudo o que vemos, edifícios, casas residenciais, representa instituições e abrigos adequados à tarefa de nossa jurisdição. Orientadores, operários e outros serviçais da missão residem aqui. Nesta zona, atende-se a doentes, ouvem-se rogativas, selecionam-se preces, preparam-se reencarnações terrenas, organizam-se turmas de socorro aos habitantes do Umbral, ou aos que choram na Terra, estudam-se soluções para todos os processos que se prendem ao sofrimento [...] Nossos serviços são distribuídos numa organização que se aperfeiçoa dia a dia, sob a orientação dos que nos presidem os destinos” (ibid., p. 55-56).

Passadas algumas semanas, já familiarizado com o lugar e com a principal norma que rege Nosso Lar – a saber, o trabalho útil, André sente “a necessidade de movimentação e trabalho”. Autorizado pelos superiores competentes, começa a aprender as atividades nas Câmaras de Retificação, no Ministério da Regeneração, o local mais inferior da colônia, mais próximo da crosta terrestre. Liberado do hospital, André vai morar na casa da família de Lísias, com a mãe dele, D. Laura e as irmãs Iolanda e Judite. Nesse ambiente, aprenderá lições sobre a organização doméstica e familiar no mundo espiritual.

Aos poucos, o médico encontra conhecidos da Terra que haviam morrido antes dele, entre eles, sua mãe que “habitava esferas superiores”. Tanto a visita materna quanto a visita que faria aos familiares encarnados foram espécie de recompensa pelos serviços prestados “aos irmãos necessitados”.

A Segunda Guerra Mundial tumultuaria o mundo visível e o não-visível – a história se passa em meados de 1939. As atividades aumentariam em todos os departamentos da colônia.

Somente depois de muito trabalho e preparação, nosso personagem pôde voltar ao lar terrestre para rever a esposa e os filhos. Desde que desembarcara no mundo espiritual não recebera muitas notícias deles, vinha sendo poupado de notícias desagradáveis: a esposa havia se casado de novo, o filho seguia seus passos na Medicina e na vida mundana, a filha mais velha estava casada e já tinha um filho, nenhum deles podia falar sobre pai dentro de casa porque desagradava ao padrasto. As angústias e decepções precisavam ser contornadas em nome de todo o aprendizado que realizara em Nosso Lar, ele relembrou do apoio e do “exemplo edificante” de cada habitante que conhecera. Durante sete dias, André transitaria entre os dois mundos a fim de ajudar o homem que ocupava o seu lugar naquela família, o Dr. Ernesto estava muito doente por causa de uma forte pneumonia e a esposa aflita pensava que poderia ficar viúva mais uma vez.

Com a ajuda de Narcisa, uma enfermeira das Câmaras de Retificação, André tratou o doente com as técnicas aprendidas na colônia. Curado o Dr. Ernesto e finda a espinhosa tarefa na Terra, André Luiz volta à cidade e recebe o título de “cidadão de Nosso Lar”.

5. HERANÇA UTÓPICA

Vimos no capítulo anterior que a narrativa de Nosso Lar procura acompanhar e aprofundar os ensinamentos evangélicos da doutrina de Allan Kardec, mas descreve detalhes sobre o “período de erraticidade” dos espíritos; para alguns, uma invenção fantasiosa de Chico Xavier e/ou espíritos-autores, já que nas obras da codificação não há referências a respeito de lugares fechados ou específicos habitados pelos “espíritos errantes”; para outros (uma oficial maioria), Nosso Lar complementa as obras da codificação preenchendo a lacuna deixada por Kardec a respeito dos “mundos transitórios” citados n’O livro dos espíritos. Recebido com surpresa pelos adeptos na época de sua publicação, Nosso Lar foi considerado uma espécie de revelação, uma novidade para o movimento espírita. No entanto, os valores e as concepções pensadas e criadas em Nosso Lar não são uma completa novidade na história, há séculos os homens vêm criando lugares e sociedades imaginárias que representam os sonhos e os desejos de determinadas épocas.

5.1 UTOPIA: propostaS de transformação, esperança de melhoria

Os sonhos e os desejos humanos movem o mundo, são eles que levam homens e mulheres a buscar e a continuar buscando sempre meios e condições de tornar a vida melhor e, consequentemente, a sociedade que os cerca; ou em ordem contrária, como fizeram tantos pensadores em diferentes momentos que, ao escrever os seus sonhos, ao criar suas sociedades perfeitas, ao idealizar os habitantes que aí poderiam viver plenamente satisfeitos e realizados, sugeriam formas de transformar a realidade social de seu tempo. Esses sonhos não são como frágeis bolhas de sabão suspensas no ar, nem falsidades bem organizadas, muito menos meras fantasias ilusórias ou irrealizáveis já que a sociedade ideal é pensada justamente a partir da sociedade em que esses pensadores viveram e desejaram melhorar. Mesmo duvidando de que o que existia pudesse servir de inspiração, é nesse mundo dado onde se encontra o prenúncio de um futuro melhor.

Há séculos o ser humano se permite a liberdade de se opor às circunstâncias dadas, nada o impede de continuar sonhando, de manter a esperança, "esperança de que aquilo que não é, não existe, pode vir a ser; uma espera, um sonho, de que algo se mova para frente, para o futuro, tornando realidade aquilo que tem de passar a existir" (COELHO NETO, 1985, p. 7), aqui ou num outro mundo. A vontade de uma vida melhor é inerente ao homem, uma vez que há sempre algo de irrealizado no projeto humano, ou seja, o idealizado nunca é completamente colocado em prática49.

A utopia aproxima-se da noção de ideal e ideologia; ideal como aquilo que é perfeito, mas não-real ou ainda, "uma perfeição concretizada num tipo ou numa forma de vida, mas não realizada" (ABBAGNANO, 2007, p. 606). Como a utopia, o ideal serve de modelo,

"embora não se possa atribuir realidade objetiva (existência) aos ideais, nem por isso eles devem ser considerados quimeras; ao contrário, oferecem um critério à razão, que precisa do conceito do que é perfeito em seu gênero para, tomando-o como medida, avaliar e estimar o grau e a falta de perfeição" (KANT, citado por ABBAGNANO, 2007, p. 606).

A utopia é um tipo de ideologia, considerando ideologia como

"toda crença usada para o controle dos comportamentos coletivos, entendendo-se o termo crença, em seu significado mais amplo, como noção compromissiva da conduta, que pode ter ou não validade objetiva. Entendido nesse sentido, o conceito de ideologia é puramente formal, uma vez que pode ser vista como ideologia tanto uma crença fundada em elementos objetivos quanto um crença totalmente infundada, tanto uma crença realizável quanto uma crença irrealizável. O que transforma uma crença em ideologia não é sua validade ou falta de validade, mas unicamente sua capacidade de controlar os comportamentos em determinada situação" (ABBAGNANO, 2007, p. 616).

Não há utopia sem idealização moral e social, toda utopia se coloca como uma orientação ou modelo para a vida em sociedade e se desenvolve no campo da oposição em relação às situações atualmente existentes. Geralmente, no senso comum, utopia significa quimera, fantasia, criação que não leva os fatos em consideração, projeto irrealizável; seria assim, via de regra, de caráter subjetivo e limitado, já que um observador historicamente limitado decidiria sobre sua possibilidade ou impossibilidade de realização, no entanto, fantasias de um século podem muito bem se tornar realidades num outro (SZACHI, 1972). Em toda sociedade imaginada é possível encontrar uma insatisfação em relação à realidade social;

"em certos casos, a sociedade imaginada pode ser vista como negação completa da realmente existente — como é o caso mais freqüente das utopias —, mas em outros, como visão de uma sociedade futura a partir da supressão dos elementos negativos da sociedade existente (opressão, exploração, dominação, desigualdade, injustiça) e do desenvolvimento de seus elementos positivos (conhecimentos científicos e técnicos, artes) numa direção inteiramente nova" (CHAUÍ, 2008, p. 7-8).

Ou seja, a utopia é essencialmente uma manifestação de desacordo diante da realidade. "Ela nasce quando na consciência surge uma ruptura entre o que é, e o que deveria ser, entre o mundo que é, e o mundo que pode ser pensado" (SZACHI, 1972, p. 13), dessa forma pode ser reveladora dos desejos e das esperanças de toda uma época.

"Ela parte, sim de fatores subjetivos produzidos, num primeiro momento, apenas no âmbito do indivíduo. Mas, a seguir, ela se nutre dos fatores objetivos produzidos pela tendência social da época, guia-se pelas possibilidades objetivas e reais do instante, que funcionam como elementos mediadores no processo de passagem para o diferente a existir amanhã" (COELHO NETO, 1985, p. 9).

Literalmente, utopia (de ou-topia) significa "lugar-nenhum" ou "lugar inexistente"; talvez porque toda sociedade imaginada necessariamente nunca tenha sido plenamente colocada prática – portanto não existe; nessa concepção, se existisse, deixaria de ser utopia – ou porque todo lugar perfeito não pode ser encontrado por estar separado do mundo corrompido por barreiras naturais (mares, oceanos, continentes, desertos, montanhas instransponíveis), pelo tempo (por estar localizada no passado ou no futuro), pelas distâncias (longe demais para ser encontrado ou está num outro plano, em outros mundos, até mesmo no além-túmulo) e/ou ainda por falta de merecimento, de valores elevados, de condições morais para alcançá-lo. No entanto, nos parece mais interessante pensar num sentido positivo (segundo outra leitura, eu-topia que significa "lugar feliz"), como sugere Coelho Neto (1985): o que não está em lugar nenhum, é porque talvez esteja em toda parte, já que utopia é, antes de tudo, um desejo, uma esperança, aquela vontade de um mundo melhor que sempre esteve e continua espalhada por toda parte.

Desde sua origem, a idéia de utopia esteve ligada à narrativa de uma sociedade perfeita, ideal e completa; foi empregada nesse sentido pelo humanista inglês Thomas More quando publicou o livro Utopia, em 1517. Esse é o nome da ilha encontrada por acaso em algum lugar do Oceano Pacífico por um viajante português, é ele quem conta a More detalhes sobre a vida dos utopianos (habitantes de Utopia), seus valores morais, suas formas de organização política e social, entre outras coisas. Assim, profundamente relacionada à literatura, em pouco tempo, utopia deixou de designar apenas a ilha criada por More no século XVI e passou a caracterizar todo um gênero literário abrangendo escritos e narrativas anteriores – como A República50 (387 a.C.), do filósofo grego Platão (428/427 a.C.-348/347 a.C.) e A Cidade de Deus51 (416-427), de Santo Agostinho (354-430) – e posteriores – como Gargântua e Pantagruel52 (1532-52), de François Rabelais (1483-1565), Código da Natureza53 (1755), de Morelly, o falanstério54, de Charles Fourier (1772-1837), várias obras55 de Júlio Verne (1828-1905), entre outras. Mais do que apresentar uma sociedade ideal e perfeita, essas obras criam um discurso político ao criticar direta ou indiretamente a realidade da época e acabam por influenciar toda uma forma de pensamento, principalmente durante o século XX.

"O utopista não aceita o mundo que encontra, não se satisfaz com as possibilidades atualmente existentes: sonha, antecipa, projeta..." (SZACHI, 1968, p. 13), é, acima de tudo, um crítico que analisa minuciosamente a sociedade em que vive e pensa em soluções para seus defeitos e problemas. Ele está preocupado com o que é ideal em relação à realidade; diz como seria perfeito, mas, em geral, não diz exatamente como realizá-lo. Então, o objetivo das utopias não seria impor, mas propor, elas não foram criadas necessariamente com o objetivo de realizar-se; mais do que acreditar em sua aplicação prática ou defendê-la, a vontade, a aspiração, o desejo de transformação é que lhes são imanentes. Como o próprio Thomas More deixa claro no final da sua Utopia:

"Porque, se de um lado não posso concordar com tudo o que disse este homem [Rafael Hitlodeu], aliás incontestavelmente muito sábio e muito hábil nos negócios humanos, de outro lado confesso sem dificuldade que há entre os utopianos uma quantidade de coisas que eu aspiro ver estabelecidas em nossas cidades.

Aspiro, mais do que espero" (MORE, 2005, p. 159).

As ideias utópicas estimulam a reflexão crítica sobre uma determinada época, inspiram e impulsionam o ser humano, por isso, alguns estudiosos de tema consideram a utopia como o motor ou a força propulsionadora da história, "sem utopia não há progresso, movimento, ação" (SZACHI, 1968, p. 130). Logo, existem diversas utopias, cada sociedade cria suas próprias, uma quantidade quase ilimitada, com conteúdos e funções diferentes (sociedades de abundância, de prazeres, de virtudes, de bondade etc.; utopias sociais, utopias políticas, religiosas, científicas, entre outras). Os momentos de crise são os mais ricos em utopias, são nesses períodos que elas se espalham, tornam-se conhecidas, "ganham em número de adeptos e em poder de atração, [...] passam das margens ao centro das buscas e conflitos ideológicos. A ordem dominante torna-se então problemática não só para os grupos desprivilegiados nela como para aqueles que até há pouco consideravam-na como 'natural' e 'eterna'" (ibid., p.127). Teriam elas algo em comum?

5.2 UTOPIA, DE THOMAS MORE

Encontramos nas utopias o testemunho do "estado de espírito" mais profundo de uma dada sociedade, elementos de uma forte crítica social, um julgamento cuidadoso da realidade em que vive cada autor, mas, além disso, as utopias são marcadas por quase uma obsessão pela ordenação, pela regularidade, pela organização, pelo planejamento, seja do espaço físico, seja da vida pública e privada das pessoas, dos modos de produção, de governo, de educação, de alimentação, de moradia, enfim, de tudo que está relacionado à forma de viver dos habitantes. Geralmente, o individualismo é condenado por ser nocivo ao bom funcionamento da sociedade, como no caso da narrativa de More.

Thomas More (1477-1535) nasceu e passou a maior parte da vida em Londres. Nomeado Grande Chanceler em 1529, manteve-se ligado ao governo de Henrique VIII até 1532 quando pediu demissão do cargo por não concordar com o rompimento do rei diante da Igreja Católica Apostólica Romana56. Como cristão fervoroso, More opôs-se ao casamento do rei com Ana Bolena (segundo matrimônio), recusou-se a assistir à coroação da nova rainha e a reconhecer a autoridade religiosa do rei (chefe supremo da nova Igreja Anglicana); diante dessa recusa em prestar juramento a Henrique VIII, em 1535, o humanista, foi condenado à morte e decapitado pelo crime de alta traição. Quatro séculos mais tarde, Thomas More foi canonizado pela Igreja Católica.

Em Utopia, Utopus, o grande conquistador que organizou a vida da ilha, "deixou a cada um inteira liberdade de consciência e de fé" (MORE, 2005, p. 140) co-existindo assim, desde adoração ao Sol e à Lua, culto aos antepassados até a crença na existência de um Deus único, na verdade,

"a maior parte dos habitantes, que é também a mais sábia, repele estas idolatrias e reconhece um Deus único, eterno, imenso, desconhecido, inexplicável, acima das percepções do espírito humano [...] Esse Deus é chamado de Pai; a ele são atribuídas as origens, o crescimento, o progresso, as revoluções e o fim de todas as coisas" (ibid., p. 137).

Apesar da diversidade de crenças, todos os utopianos acreditam na existência de um ser supremo, ao mesmo tempo Criador e Providência, o que difere é a forma de Mitra (como este ser é designado na língua nativa). Mas, é claro que, como bom cristão, More destaca que "esta variedade de superstições tende, dia a dia, a desaparecer e a converter-se numa única religião, a qual parece muito mais razoável" (ibid., p. 137), principalmente porque

"quando aprenderam conosco o nome do Cristo, sua doutrina, sua vida, seus milagres, a admirável constância de tantos mártires, cujo sangue voluntariamente vertido submeteu à lei do Evangelho a maioria das nações da terra, não podeis imaginar com que afetuosa inclinação ouviram esta revelação. Talvez que Deus agisse secretamente em suas almas [...] O que na minha opinião foi fundamental para inspirar-lhes estas felizes disposições foi a narração da vida em comum dos primeiros apóstolos, tão cara a Jesus Cristo, e atualmente ainda em uso nas sociedades dos verdadeiros e perfeitos cristãos.

Como quer que seja, muitos dentre os utopianos abraçaram nossa religião e foram purificados pelas águas sagradas do batismo; infelizmente, de nós quatro (...), nenhum era padre. Eles não puderam, portanto, ainda que já iniciados nos outros mistérios, receber os sacramentos que, entre nós, unicamente os padres têm o poder de conferir; apesar disso, têm uma idéia perfeitamente exata desses sacramentos..." (ibid., p. 138).

Durante todo o capítulo dedicado às religiões da Utopia transparece a posição de More em relação às questões religiosas da Inglaterra de seu tempo, primeiro a defesa da liberdade religiosa, permitida e bem aceita entre os utopianos; todavia, mais a diante, a superioridade e a relevância do cristianismo é ressaltada – é ele que tem e deve ter maior prestígio entre as demais crenças; e por último, More não poderia deixar de tocar no espinhoso tema dos conflitos entre católicos e protestantes e parece defender a política adotada na Utopia: "os utopianos incluem no número de suas mais antigas instituições a que proíbe prejudicar uma pessoa por sua religião" (ibid., p. 139) e "quanto ao emprego da violência e de ameaças para constranger alguém a adotar a mesma crença que outrem, pareceu-lhe [a Utopus] tirânico e absurdo" (ibid., p. 140).

No entanto, as críticas mais duras foram dirigidas à desigualdade econômica e à injustiça social que dominavam a Inglaterra no século XVI. A primeira parte do livro, quando o amigo Pedro Gil57, apresenta Rafael Hitlodeu58 a Thomas More, o viajante expõe suas opiniões e conta alguns fatos que aconteceram durante suas viagens. Essa conversa nos dá um panorama da situação social e institucional da época, pois falam sobre administração pública, legislação, estrutura social, modo de vida etc. Diante da grande sabedoria expressa por Rafael, More afirma que ele poderia ser muito útil como conselheiro de qualquer rei o que é negado pelo viajante já que, segundo ele, os monarcas "ocupam-se muito pouco de bem administrar os Estados submetidos à sua dominação", sendo assim, seus conselhos não surtiriam efeito entre essas pessoas.

"O dever mais sagrado do príncipe é velar pela felicidade do povo antes de velar pela sua própria", "a dignidade real não consiste em reinar sobre mendigos, mas sobre homens ricos e felizes", a opinião de More expressa nas palavras de Hitlodeu contrasta com o egoísmo, a ganância, a vida faustosa e parasitária da corte de Henrique VIII59. Nesse período, o povo inglês não sofria somente com os excessos da monarquia. No resumo sobre a vida e a obra do autor que antecede a narrativa é apresentada uma visão geral da situação, cabe aqui a transcrição do trecho:

"a nobreza e o clero possuíam a maior parte do solo e das riquezas públicas; estes bens permaneciam estéreis para a grande massa de trabalhadores. Além disso, nessa época, os grandes senhores mantinham uma multidão de vassalos, seja por amor ao fausto, seja para assegurar a impunidade de seus crimes ou ainda para utilizá-los como instrumentos de violência contra os vilões. Esta vassalagem era o terror do camponês e do trabalhador.

De outro lado, o comércio e a indústria da Inglaterra não tinham muita expansão antes das descobertas de Vasco da Gama e Colombo. E assim, as gerações se sucediam sem finalidade, sem trabalho e sem pão.

A agricultura estava em ruínas desde que a nascente indústria da lã, prometendo lucros espantosos, fez com que terras imensas fossem transformadas em pastagens para carneiros. Em conseqüência disto uma multidão de camponeses viu-se reduzida à miséria, trazendo uma multiplicação de mendicidade, vagabundagem, roubos e assassínios. Por sua vez a lei inglesa era de uma severidade inaudita, punindo com a morte, indistintamente, o ladrão, o vagabundo e o assassino" (THOMAS Morus: o autor e a obra...).

Neste mundo tomado de insegurança, assolado pela fome, pelas guerras e pelas epidemias, é idealizada a ilha da Utopia, tão diferente, tão profundamente organizada e justa; segundo Hitlodeu, "não somente a melhor, como a única que pode se arrogar, com boa justiça, do nome de república".

Uma forma de evasão da realidade sim, mas acima de tudo uma crítica ferrenha que pode ser vista como uma proposta de melhoria. Aqui os cidadãos são o tesouro mais caro e mais precioso para a república; com a comunidade de todos os bens, sem a divergência tradicional entre o campo e a cidade, sem supérfluos, sem trabalho abusivo, com um estado que se preocupa com o bem-estar de todos, onde não há dinheiro nem propriedade privada, porque "em toda parte onde a propriedade for um direito individual, onde todas as coisas se medirem pelo dinheiro, não se poderá jamais organizar nem a justiça nem a prosperidade social"; a verdadeira felicidade está em "deixar a cada um o maior tempo possível para libertar-se da servidão do corpo, cultivar livremente o espírito, desenvolvendo suas faculdades intelectuais pelo estudo das ciências e das letras", ou seja, no desenvolvimento completo do espírito através da razão, tão cara a humanistas como More.

Enquanto no imaginário popular predominava a Cocanha60, país da fartura, do ócio e da fruição sem limites, a elite e seus intelectuais preferiam criar sociedades perfeitas pautadas pelo trabalho bem organizado, onde reinava a liberdade, a igualdade, a paz e a justiça – ou seja, uma espécie de negação da Cocanha. Na Utopia, a ociosidade e a preguiça são impossíveis, todos aprendem a arte da agricultura e mais um outro ofício (há uma rotatividade de dois anos nos trabalhos agrícolas).

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"Não se deve crer que os utopianos se atrelem ao trabalho como bestas de carga desde a madrugada até à noite. Esta vida, embrutecedora para o espírito e para o corpo, seria pior que a tortura e a escravidão. E, no entanto, assim é, em qualquer outra parte, a triste sorte do operário!" (MORE, 2005, p. 70),

por isso, eles dedicam apenas seis horas do dia às artes e ofícios realmente úteis.

"O trabalho material é de curta duração; mesmo assim produz a abundância e o supérfluo. Quando há acúmulo de produtos, os trabalhos diários são suspensos e a população é transportada em massa para reparar as estradas esburacadas e estragadas. Na falta de obras comuns ou extraordinárias a realizar, um decreto autoriza uma diminuição nas horas de trabalho, porque o governo não procura fatigar seus cidadãos em labores inúteis" (MORE, 2005, p. 75),

todos os utopianos mantêm uma vida "pura" e "ativa".

O maior problema da sociedade inglesa do século XVI seria a distância social existente entre as classes abastadas e o povo pobre; More soluciona essa contradição: na sociedade utopiana, ninguém é rico nem pobre porque "a riqueza nacional é tão igualmente repartida que cada um goza abundantemente de todas as comodidades da vida", assim, "aquele que tem a certeza de que nada faltará jamais, não procurará possuir mais do que é preciso".

A imprensa nascente permitiu que as histórias sobre as novas descobertas e os relatos de viagens (mais ou menos verdadeiras) das primeiras décadas do século XVI se espalhassem mais rapidamente pela Europa estimulando a imaginação de homens e mulheres daquele e dos próximos tempos. No século seguinte, a Utopia de Thomas More inspirou o frei italiano Tommaso Campanella (1568-1639) a criar A Cidade do Sol (1602-23).

5.3 CIDADE DO SOL, DE TOMMASO CAMPANELLA

A Cidade do Sol foi pensada por Campanella seguindo um modelo de sociedade ideal; localizada na ilha Taprobana, no Oceano Índico teria sido descoberta por um navio genovês que por lá passara no início do século XVII.

A sociedade solar ocupava o alto de uma colina isolada no meio de uma planície, protegida por sete muralhas circulares concêntricas61; os habitantes viviam sob um Estado rigorosamente organizado e hierarquizado governado por uma espécie de rei-sacerdote62, detentor do poder secular e espiritual63, a quem os habitantes consideram como um pai ou irmão mais velho.

Para ele, como bom utópico, o mundo está cheio de problemas, as coisas não funcionam, está tudo fora do lugar numa verdadeira desordem, portanto, é preciso estabelecer a mais completa ordem e administrar a sociedade em todos os seus detalhes. Assim como na Utopia, encontramos aqui a mesma esperança de que a abolição da propriedade privada acabaria também com a distinção entre ricos e pobres,

"a pobreza é a razão principal de se tornarem os homens vis, velhacos, fraudulentos, ladrões, intrigantes, vagabundos, mentirosos, falsos testemunhos, etc., produzindo a riqueza os insolentes, os soberbos, os ignorantes, os traidores, os presunçosos, os falsários, os vaidosos, os egoístas, etc. A comunidade, ao contrário, coloca os homens numa condição ao mesmo tempo rica e pobre: são ricos porque gozam de todo o necessário, e são pobres porque não possuem nada" (CAMPANELLA, s/d, p. 48-49),

entretanto, Campanella vai além e institui na Cidade do Sol, a comunidade de todas as coisas, estendendo, inclusive ao afetivo: as mulheres e a família64 (!), as terras, as ciências, as dignidades, os prazeres, enfim tudo aquilo que pudesse ser fonte de egoísmo e, consequentemente, incitar divergências e disputas.

O trabalho também é divido por gênero ("as mulheres exercem as artes menos pesadas"), "é distribuído de modo que nunca possa ser nocivo à pessoa, mas, ao contrário, deve torná-la e conservá-la melhor", é obrigação de todos conhecer a arte militar, a agricultura e a pecuária e o critério para produção seriam "as necessidades dos cidadãos";

"havendo igual distribuição dos misteres, das artes, dos empregos, das fadigas, cada indivíduo não trabalha mais de quatro horas por dia, consagrando o restante ao estudo, à leitura, às discussões científicas, ao escrever, à conversação, aos passeios, em suma, a toda sorte de exercícios agradáveis e úteis ao corpo e à mente" (CAMPANELLA, s/d, p. 48).

Mais uma vez, a preocupação com a saúde física e mental do povo, defendendo uma curta jornada de trabalho para que as pessoas tenham tempo para cultivar e desenvolver outras habilidades, principalmente as intelectuais.

A vida é rigorosamente orientada pelos médicos e pela astronomia, nada escapa à orientação destes num esforço para manter a harmonia e a perfeição da sociedade; a alimentação era escolhida pelo médico, os astros e estrelas eram consultados a respeito da agricultura, da procriação dos animais65, para a geração de filhos66, etc.; apesar de defenderem o livre-arbítrio, acreditam na influência dos corpos celestes em praticamente todos os aspectos da vida. Pode-se compreender a concepção religiosa de Campanella na Cidade do Sol, como um tipo de cristianismo ou catolicismo baseado no conhecimento astronômico. Os solares acreditam num deus único, fonte da vida, simbolizado pelo Sol.

Campanella passou a maior parte da vida sendo perseguido, ora pela Igreja Católica, acusado de heresia, ora pela monarquia, acusado de conspiração; passou quase trinta anos preso e foi submetido à tortura várias vezes; ao que parece, suas idéias desagradava muita gente.

Se considerarmos a utopia de Thomas More como uma utopia do tipo social, podemos chamar a Cidade do Sol de Tommaso Campanella de utopia política. Sendo assim, a Cidade do Sol não é um sonho, nem um projeto que pretende ser realizado ou imposto, mas novamente, uma proposta, um modelo a ser seguido na medida do possível; nas palavras do autor:

"a primeira dificuldade, segundo a qual não se pode alcançar exatamente a idéia de uma tal república, está, pois, respondido que nem por isso se escreveu inutilmente, porque o que se propõe é um exemplo que deve ser imitado tanto quanto possível" (CAMPANELLA, s/d, p. 92).

A partir de Campanella,

"começa a desenhar-se com mais nitidez a idéia de buscar na ordem natural, tida como o ideal de uma ordem perfeita, o modelo da ordem para a sociedade. Por essa altura Galileu já tinha exposto suas principais teorias e, portanto, qualquer modelo que se formulasse tomando por referência a natureza, acabaria por se confrontar com o problema da nova ciência e da técnica que se iam vagarosamente desenhando" (LEONÍDIO, 2004, p. 20).

Francis Bacon (1561-1626), um discípulo de Campanella, é quem vai inserir essa novidade entre as utopias com o livro Nova Atlântida, publicado em 1627.

5.4 BENSALÉM, DE FRANCIS BACON

Nessa obra acontece observamos uma mudança no conteúdo da utopia, trata-se de uma utopia cientificista, de caráter progressista que inspirará muitos outros pensadores nos séculos seguintes.

Uma viagem do Peru ao oriente (China e Japão) é surpreendida por fortes ventos que acabam conduzindo o grupo de marinheiros a uma misteriosa ilha, há muito tempo isolada, localizada no sul do Oceano Pacífico, chamada Bensalém. Ao narrador-viajante é dada a oportunidade de conhecer a história e a atual organização dessa terra auto-suficiente, governada por sábios e habitada por um povo muito culto de longa tradição. Em Bensalém, o saber e todo o conhecimento científico e tecnológico são empregados para o perfeito funcionamento e desenvolvimento das pessoas e da sociedade; o conhecimento é considerado a principal virtude, o caminho para a felicidade e para a manutenção do bem-estar de todos.

"Reinou nesta ilha, cerca de mil e novecentos anos atrás, um rei cuja memória, dentre todos, mais veneramos; não de modo supersticioso, mas como um instrumento divino, apesar de se tratar de um homem mortal; sei nome era Solamona e consideramo-lo o legislador da nossa nação. Este rei tinha um 'grande coração', um inesgotável amor ao bem; e era totalmente dedicado a tornar seu reino e seu povo felizes" (BACON, 1999, p. 235).

Como é comum a muitas utopias, a construção da sociedade perfeita é iniciada (ou intensificada) por um grande homem, governante muito admirado, que cria leis, determina regras, normas e valores essenciais ao bom funcionamento e ao desenvolvimento da nação e de seus habitantes. Solamona funda a instituição mais importante de Bensalém, a Casa de Salomão, "a mais nobre fundação que jamais houve sobre a terra [...], o farol deste reino" (ibidem, p. 236), uma espécie de ordem ou sociedade dedicada ao estudo das obras e criaturas de Deus, ao conhecimento das causas e dos segredos dos movimentos das coisas e à ampliação dos limites do império humano na realização de todas as coisas que forem possíveis (BACON, 1999). O segredo da prosperidade reside no trabalho desenvolvido e nos resultados alcançados pela Casa de Salomão.

Os bensalenses utilizam os mais diversos ambientes naturais e/ou construídos para a realização de todo tipo de experimento, cavernas, fossas, torres altíssimas, lagos de água doce e salgada, poços, fontes, pomares, jardins, parques e cercados para os animais, fábricas, fornos, moinhos, cozinhas, farmácias, casas de perspectiva, de som, de perfumes, de máquinas, de matemática, de ilusão dos sentidos; nesses lugares foram desenvolvidos navios e barcos para navegar debaixo d'água (como os atuais submarinos), máquinas capazes de voar pelos ares (talvez como os aviões), a transmissão do som por longas distâncias através de canos e tubos (algo como um sistema telefônico) e dispositivos ópticos para ver coisas muito distantes e também minúsculas partes dos corpos (como os telescópios e os microscópios); produzem energia, pedras preciosas, plantas e animais (melhorando suas características, mudando a cor, a força, o tamanho, a atividade, a forma), sabores e odores, bebidas e remédios curativos, alimentos para objetivos específicos, instrumentos musicais, cores, luzes, radiações, sons; são capazes de reproduzir até as condições do tempo em grandes salas fechadas. Para a realização dos mais diversos trabalhos científicos a Casa de Salomão conta com um verdadeiro exército de sábios, pesquisadores e aprendizes perfeitamente ordenados segundo uma hierarquia baseada nas atividades de recolhimento, experimentação e compilação de informações e materiais.

Todo o desenvolvimento científico e tecnológico dessa Nova Atlântida67 teria como objetivo o domínio da natureza em favor do homem, em favor da melhoria das condições de vida do ser humano; Bacon demonstra em sua utopia o desejo de fazer da ciência e da filosofia conhecimentos úteis para a sociedade – por exemplo, a expectativa de vida dos bensalenses é muito alta: a maioria das pessoas vive mais de oitenta anos e alguns chegam até os cento e dez anos graças aos avanços médicos, os próprios seres humanos foram aperfeiçoados: seus cérebros foram aumentados, aumentando assim a capacidade mental (memória, juízo, inteligência, facilidade de aprendizado e telepatia).

Bensalém é uma monarquia, o povo tem grande respeito por seu rei ou Radar e pela Casa de Salomão. O papel do monarca é predominantemente simbólico, a cidade é administrada por uma série de juntas e assembléias:

"As juntas consistem de três membros designados, responsáveis pela administração de 39 cidades e dez distritos rurais, bem como pelo desenvolvimento das artes, das ciências e das industrias. Cada junta trabalha em consonância com uma assembléia, da qual qualquer um pode participar. A administração geral está a cargo de uma junta e de uma assembléia central. Quaisquer diferenças de opinião que surjam em qualquer nível são submetidas ao conselho e à assembléia superior para julgamento" (MANGUEL; GUADALUPE, 2009, p. 60).

Como em More e Campanella, não há dinheiro nem propriedade privada, os bens de consumo são oferecidos para todos, desta forma também não há distinção social. Os "Deveres" são determinados pelas juntas locais (tempo de trabalho, atividade desenvolvida, etc), os "Secundários" são escolhidos pelos indivíduos, então, podem se dedicar à jardinagem, à pesquisa amadora, passatempos literários e artísticos e assim por diante (MANGUEL; GUADALUPI, 2009).

Assim como em Utopia e na Cidade do Sol, em Bensalém68 também é permitido conservar a própria religião, apesar da população ter-se convertido ao cristianismo já por volta do ano 50 d.C. quando um milagre trouxe para uma de suas praias uma arca contendo o Novo e o Velho Testamento e uma carta de São Bartolomeu, contendo a explicação de que recebera ordens de Deus para lançar a arca ao mar e que ela levaria "salvação e paz e a bem-aventurança do Pai e do Senhor Jesus Cristo" ao povo da terra onde ela chegasse.

O acesso a Bensalém é rigorosamente controlado, tanto a saída da ilha quanto a entrada ou permanência de estrangeiros; aqueles que recebem permissão para desembarcar são bem recebidos, bem tratados por todos e ficam hospedados na Casa dos Estrangeiros, mantida pelo Estado, no entanto, não podem afastar-se mais de um quilômetro e meio dos muros da cidade sem permissão especial. As cidades estão situadas na região costeira, parecem ser belas e tranqüilas, com muitas coisas "dignas de se observar e relatar". Várias passagens da narrativa enfatizam a ordem, seja na Festa da Família (cujo aposento, mesmo cheio de pessoas, não apresentava nenhuma desordem), na recepção a um dos membros da Casa de Salomão ("a rua estava maravilhosamente disposta, e de tal modo que nenhum exército seria capaz de se manter em melhor ordem do que esse povo. As janelas não se achavam atulhadas, mas as pessoas nelas se encontravam como se ali tivessem sido colocadas com antecedência" (BACON, 1999, p. 244)), seja na descrição de ambientes (como a Casa dos Estrangeiros) e costumes (como os referentes ao matrimônio, diz o viajante-narrador: "...que eu reconhecia, de bom grado, haver mais retidão moral em Bensalém que na Europa" (ibidem, p. 243)). À admiração pela superioridade do povo de Bensalém opõe-se um certo sentimento de inferioridade em relação aos próprios europeus, numa conversa do narrador com os colegas ele pede para que não deixem transparecer "nossos vícios e indignidades [...] comportemo-nos como deve ser para estarmos em paz com Deus", pois estavam "entre um povo cristão, cheio de piedade e humanidade" (p. 227).

Ao criar sua utopia Francis Bacon estava muito mais preocupado com os domínios da técnica e da ciência do que com os problemas econômicos e sociais, dessa forma, alguns assuntos caros a maioria dos utopistas não apareceram nessa obra, aliás, inacabada69. Bacon nasceu em Londres, numa típica família da elite inglesa, foi diplomata na França, estudou filosofia, direito e acabou ocupando posições importantes no governo; em 1618, tornou-se Lorde Chanceler do governo de Jaime I, o mais alto posto do reino britânico. Bacon acreditava em uma nação-Estado ampla, moderna e centralizada numa monarquia poderosa, por isso, serviu ao rei de maneira total. Levou uma vida faustosa, cercado de criados, como um verdadeiro cortesão; como o pai, recebeu terras e títulos de nobreza. Esses aspectos da vida do filósofo talvez expliquem o fato dele ter evitado os detalhes a respeito de questões sociais e econômicas complexas em Nova Atlântida.

Utopia não é ficção nem invenção a partir de pura fantasia. As utopias são fenômenos sociais bastante complexos, são respostas não somente a perguntas eternas sobre a condição humana, mas também a perguntas de sociedades históricas particulares. Até o XVIII,

"a utopia é um jogo intelectual no qual o possível é imaginário, combinado a nostalgia de um mundo perfeito perdido e a imaginação de um mundo novo instituído pela razão. Em contrapartida, quando passamos ao século XIX, a utopia deixa de ser um jogo intelectual para tornar-se um projeto político, no qual o possível está inscrito na história" (CHAUÍ, 2008, p.11).

As utopias desse período estarão articuladas com a tecnologia, o progresso da ciência e do saber; as máquinas estarão por toda parte para facilitar a vida e o trabalho. Apesar de suas particularidades, as cidades ideais representam a fuga de um mundo real que, geralmente, se mostra extremamente penoso e infeliz, é a quebra de rígidas regras e leis que ordenam a vida cotidiana. Portanto, a utopia está sempre ligada à realidade, ao desejo de mudança, à esperança; é a realização, no plano imaginário, daquilo que é negado no presente.

No início do século XX, o crescente desenvolvimento das ciências, do conhecimento científico e do racionalismo apontavam para o fim das sociedades ideais, não apenas no campo intelectual (político, social, econômico), mas também no campo religioso, no entanto, as décadas seguintes demonstraram exatamente o contrário; a utopia da cidade perfeita persiste no imaginário religioso do ocidente. E mesmo com toda a tecnologia desbravando o planeta e o universo sem nunca ter encontrado nenhum vestígio de paraíso, inferno, purgatório ou outras formas de vida inteligente, cada vez mais, acredita-se no “antes” e “depois” da vida. Segundo Mircea Eliade, para o homem religioso não há dúvida de que a vida continua após a morte:

“A aparição da Vida é, para o homem religioso, o mistério central do Mundo. Esta vida ‘vem’ de qualquer parte que não é este mundo, e finalmente retira-se daqui de baixo e ‘vai-se’ para o além, prolongando-se de maneira misteriosa num lugar desconhecido, inacessível a maior parte dos vivos. A vida humana não é sentida como uma breve aparição no Tempo, entre dois Nadas; é precedida de uma preexistência e prolonga-se numa pós-existência. Muito pouco se conhece acerca desses dois estágios extraterrestres da Vida humana, mas sabe-se pelo menos que eles existem. Para o homem religioso, portanto, a morte não põe um termo definitivo à vida: a morte não é mais do que uma outra modalidade de existência humana.” (2001, p. 123).

E é pautada na certeza da existência desses estágios pré e pós-existência que Nosso Lar tornou-se possível. Talvez o preenchimento desse vazio a respeito desses períodos com elementos que vem de encontro aos desejos humanos seja uma das razões que fizeram do livro um grande sucesso.

5.5 Nosso Lar, A CIDADE IDEAL DE CHICO XAVIER

Nosso Lar possui vários elementos que constituem respostas a diversos e antigos desejos humanos; todas as suas características, de uma forma ou de outra, atendem a certas necessidades bem humanas da população terrestre. Como uma típica utopia, Nosso Lar oferece soluções para os problemas reais, do mundo real; é um sonho de ordem, justiça e igualdade que procura atender aos principais interesses tanto da elite quanto do povo.

Os próprios “autores” representam esses dois opostos: André Luiz, o “autor espiritual”, representa a elite intelectual e econômica, como médico e filho de uma rica família de comerciantes; Chico Xavier representa o povo, pobre, humilde e com pouca instrução. Como conciliar interesses antagônicos?

“Como ser moderno, letrado, científico e laico sem ser ateu, indiferente à caridade, ‘subversivo’ e desprovido de valores? Como ser cristão sem ser católico num país sem tradição protestante? Não apenas pregando as concepções de carma e de reencarnação como indistinção da ordem natural e da ordem sagrada, mas também conciliando alguns dos modelos modernos de autoridade e poder, como a encarnada pela burocracia com a tradicional devoção familiar aos mediadores, que trilham atalhos e personalizam a rigidez dos formalismos do mundo legal brasileiro, este transposto à condição de ordem transcendente no espiritismo, como se vê em Nosso Lar. Conciliar o sistema da dádiva com o sistema da dívida, o país tradicional com o moderno, a hierarquia com a igualdade (ainda que sem o individualismo liberal), a tradição familiar e o corporativismo, a linguagem dos espíritos com o culto dos santos, o letramento com a humildade, o coração e a razão, eis as promessas de síntese encarnadas no modelo mítico de santidade encarnado na vida e obra de Chico Xavier” (LEWGOY, 2000, p. 220).

Muitas dessas questões a respeito da conciliação de elementos diversos aparecem em Nosso Lar como veremos adiante.

A descrição das características “físicas” da cidade demonstra o quanto ela está ligada ao mundo real, pois quase tudo em Nosso Lar é “cópia melhorada” das coisas da Terra. André Luiz não economiza adjetivos para qualificar tudo o que vê por lá começando pela Natureza, mais bonita do que a terrestre, com “cores mais harmônicas, substâncias mais delicadas”, enfeita todos os cantos da cidade, com “jardins prodigiosos”, “pomares fartos”, praças cuidadas com esmero, nas residências e em todos os departamentos.

As construções são sempre “vastas”, “espaçosas”, “enormes”, “extensas”, “amplas”, como as avenidas, os edifícios públicos e especialmente o palácio do governador, “de magnificente beleza, encabeçado de torres soberanas, que se perdiam no céu”. Por outro lado, as casas residenciais são simples, mas acolhedoras e confortáveis; os móveis e os objetos em geral são “quase idênticos aos terrestres”. Assim, o que é de todos e para todos parece ser bem melhor e “superior” em relação ao que é usado particularmente e/ou para fins pessoais. Por exemplo, o aeróbus, espécie de ônibus aéreo, é uma (entre as duas) grande tecnologia descrita no livro e que não encontra correspondente direto na Terra:

“- Esperemos o aeróbus.

Mal me refazia da surpresa, quando surgiu grande carro, suspenso do solo a uma altura de cinco metros mais ou menos e repleto de passageiros. Ao descer até nós, à maneira de um elevador terrestre, examinei-o com atenção. Não era máquina conhecida na Terra. Constituída de material muito flexível, tinha enorme comprimento, parecendo ligada a fios invisíveis, em virtude do grande número de antenas na tolda. Mais tarde, confirmei minhas suposições, visitando as grandes oficinas do Serviço de Trânsito e Transporte” (XAVIER, 2009, p. 67).

Muitos espíritos poderiam dispensar o aeróbus e transportar-se a vontade pela cidade por meio da volitação70, mas como a maioria não adquiriu essa faculdade, todos se abstêm de exercê-la nas vias públicas, o que não significa que não possam utilizar o processo longe da cidade quando precisam percorrer grandes distâncias em pouco tempo.

Além de volitar, os espíritos mais evoluídos conseguem ler os pensamentos dos outros e se comunicar entre si. Não é o caso da maioria dos habitantes de Nosso Lar, como André Luiz que precisa utilizar o “aparelho de comunicações urbanas” (telefone?) para avisar a senhora Laura “através do fio” que trabalharia até mais tarde.

Os aparelhos de comunicação, em geral, são muito parecidos com os exemplares conhecidos na década de 1940, os mais comuns transmitem imagem e som. O primeiro que encontramos no livro descreve o momento da “oração coletiva” liderada diariamente pelo governador que se faz ver e ouvir por toda a cidade. Num grande salão dentro do parque hospitalar onde se encontrava André, funcionários e pacientes se encontram para acompanhar o momento da prece: numa gigantesca tela brilhante surge a imagem do simpático velhinho, como num cinema, “obedecendo a processos adiantados de televisão”. Todos os núcleos de trabalho da colônia possuem ligação direta com as preces da Governadoria; na casa de Lísias, onde André fica hospedado, há um “grande aparelho” que transmite todos os dias esse “louvor do momento crepuscular” sempre acompanhado por todos “através da audição e visão a distância71

O rádio ou pequeno aparelho “à maneira de nossos receptores radiofônicos” funciona na verdade como a televisão, já que é possível ver a figura do locutor. As transmissões limitam-se à programação do serviço necessário, notícias e recados de outros departamentos ou colônias, mensagens e ensinamentos da espiritualidade superior; nada que possa afetar os ânimos e perturbar o equilíbrio da colônia é permitido. O mesmo vale para os livros.

As bibliotecas particulares são comuns nas casas da cidade, mesmo existindo um Ministério do Esclarecimento onde é possível encontrar parques de estudo e escolas dedicadas à pesquisa e à experimentação, além de arquivos públicos e pessoais para a instrução de todos, os livros estão presentes em todas as casas que André Luiz conhece. Porém, não são quaisquer livros, obras e escritores de “má-fé” que “estimam o veneno psicológico” não são aceitos em Nosso Lar enquanto não se ajustarem, os volumes disponíveis possuem conteúdo espiritual voltado para o conhecimento e aprendizado das coisas daquele mundo.

Outra novidade tecnológica só aparece no final do livro, é um grande globo cristalino de cerca de dois metros de altura, ligado a auto-falantes, usado na comunicação entre encarnados e desencarnados; mais especificamente, permite que uma pessoa na Terra possa ser vista e ouvida em Nosso Lar. O contrário (encarnados visitando Nosso Lar) só é possível a poucos mortais, "poderosos espíritos" ou "criaturas extraordinariamente espiritualizadas" capazes de abandonar o corpo e transitar por aquelas paragens se assim lhes for permitido.

Tudo o que acontece na cidade é estritamente acompanhado por um superior responsável, nada escapa ao rigoroso controle dos ministros e seus subordinados, geralmente interlocutores do "plano superior". Tudo segue a uma rígida hierarquia. A autoridade dos superiores não é questionada (talvez por se tratar de pessoas devidamente escolhidas e orientadas pelo "plano superior"), é um compromisso de todos compreender e respeitar tudo o que vem de cima. "Só é verdadeiramente livre quem aprende a obedecer. Parece paradoxo e, todavia, é a expressão da verdade" (XAVIER, 2009, p. 297).

O governador72 ocupa o cargo mais alto da cidade há cento e catorze anos, sua autoridade e poder abrange toda a colônia. Seguindo uma tradição utópica, foi ele quem organizou a cidade nos moldes atuais, criou ministérios, estabeleceu regras, normas e valores que fizeram de Nosso Lar uma sociedade exemplar. Três mil funcionários são responsáveis pelas atividades administrativas ligadas ao governador, entre eles, os setenta e dois ministros, cargos mais importantes depois da governadoria. Os ministros formam uma espécie de conselho para discutir medidas e tomar decisões em comunhão com o governador. Todos estão em seus cargos de acordo com um sistema que une merecimento por meio do trabalho útil para a colônia e para os “irmãos necessitados” e uma espécie de destino, pois estão sempre seguindo orientações do “plano superior”, desta forma, o governador é também o “Governador Espiritual”, exercendo influência sobre o comportamento, o pensamento e a opinião das pessoas, seguindo e lembrando-os sempre dos preceitos evangélicos. Todos admiram o governador que estima “as atitudes patriarcais, considerando que se deve administrar com amor paterno”, “sua assistência carinhosa a tudo e a todos atinge”.

Tanto a lei do trabalho quanto a lei do descanso são rigorosamente cumpridas. Os moradores de Nosso Lar trabalham oito horas por dia, podendo ficar no máximo mais quatro horas em alguma tarefa necessária, não mais do que isso, pois as horas de descanso, de lazer e de aprendizado são praticamente obrigatórias. Exceção apenas para o governador

“o trabalhador mais infatigável e mais fiel que todos nós reunidos. Os Ministros costumam excursionar noutras esferas, renovando energias e valorizando conhecimentos; nós outros gozamos entretenimentos habituais, mas o Governador nunca dispõe de tempo para isso. Faz questão que descansemos, obriga-nos a férias periódicas, ao passo que, ele mesmo, quase nunca repousa, mesmo no que concerne às horas de sono. Parece-me que a glória dele é o serviço perene” (XAVIER, 2009, p. 58).

O trabalho é uma necessidade, pois é através dele que o espírito evolui, se aperfeiçoa e melhora. O desenvolvimento individual significa o desenvolvimento da colônia de um modo geral, já que o equilíbrio dela depende do equilíbrio dos habitantes. Aqueles que possuem mais bônus-hora73 são virtuosos e muito admirados, enquanto aqueles que não trabalham são mal vistos. Nenhuma condição de destaque é concedida a título de favor, somente os trabalhadores assíduos e dedicados são recompensados e podem ser promovidos.

Graças à lei do livre-arbítrio, pode-se escolher viver nos Campos de Repouso e não trabalhar, o que não é bem visto pela sociedade; ter um membro da família por lá é motivo de vergonha. Depois de começar a trabalhar, André Luiz faz questão de demonstrar o quanto estava se sentindo melhor diante dos outros:

“não pensava, francamente, na compensação dos bônus-hora, nas recompensas imediatas que me pudessem advir do esforço; contudo, minha satisfação era profunda, reconhecendo que poderia comparecer feliz e honrado, perante minha mãe e os benfeitores que havia encontrado...” (XAVIER, 2009, p. 182).

Todo o sistema da cidade faz com que os moradores sintam a necessidade de ser útil por meio do trabalho que atenda ao interesse coletivo, para isso, existem tarefas variadas, como nas cidades terrestres. De forma geral, homens e mulheres (ou “almas femininas” e “almas masculinas”) devem exercem atividades diferentes, próprias do gênero, como vimos na utópica Cidade do Sol, de Campanella.

“As almas femininas não podem permanecer inativas aqui [em Nosso Lar]. É preciso aprender a ser mãe, esposa, missionária, irmã. A tarefa da mulher, no lar, não pode circunscrever-se a umas tantas lágrimas de piedade ociosa e a muitos anos de servidão. É claro que o movimento coevo do feminismo desesperado constitui abominável ação contra as verdadeiras atribuições do espírito feminino. A mulher não pode ir ao duelo com os homens, através de escritórios e gabinetes, onde se reserva atividade justa ao espírito masculino. Nossa colônia, porém, ensina que existem nobres serviços de extensão do lar, para as mulheres. A enfermagem, o ensino, a indústria do fio, a informação, os serviços de paciência, representam atividades assaz expressivas. O homem deve aprender a carrear para o ambiente doméstico a riqueza de suas experiências, e a mulher precisa conduzir a doçura do lar para os labores ásperos do homem” (XAVIER, 2009, p. 130-131).

Nessa explicação de Laura num diálogo com André Luiz percebemos a defesa daquela antiga tradição e visão de mundo: as mulheres não podem ocupar o lugar dos homens, existem serviços próprios a cada gênero: os de “extensão do lar” para elas e os “labores ásperos” para eles. A vantagem é que a remuneração não é baseada no tipo da atividade realizada, mas nos deveres morais que lhes competem.

“Tudo é relativo. Se, na orientação ou na subalternidade, o trabalho é de sacrifício pessoal, a expressão remunerativa é justamente multiplicada [...] Para o plano espiritual superior, não se especificará teor de trabalho, sem a consideração dos valores morais despendidos” (ibid., p. 141-142).

Cada ministério possui características próprias quanto aos serviços prestados:

“as tarefas de Auxílio são laboriosas e complicadas, os deveres no Ministério da Regeneração constituem testemunhos pesadíssimos, os trabalhos na Comunicação exigem alta noção da responsabilidade individual, os campos do Esclarecimento requisitam grande capacidade de trabalho e valores intelectuais profundos, o Ministério da Elevação pede renúncia e iluminação, as atividades da União Divina requerem conhecimento justo e sincera aplicação do amor universal. A Governadoria, por sua vez, é sede movimentada de todos os assuntos administrativos, numerosos serviços de controle direto, como, por exemplo, o de alimentação, distribuição de energias elétricas, trânsito, transporte e outros” (ibid., p. 76).

A forma de pagamento é igual para todos: o bônus-hora, uma “ficha de serviço individual” com “valor aquisitivo”; cada hora de serviço prestado corresponde a um bônus-hora, ou um ponto, que é registrado na ficha do trabalhador. A contagem do tempo de serviço útil vale mais do que gastá-los. A quantidade de bônus-hora permite certos privilégios, como vestir a roupa que mais lhe agradar, adquirir uma propriedade para viver com a família, visitar amigos e pessoas queridas (vivas ou mortas), interceder por eles, freqüentar os Campos de Música e outros lugares dedicados ao lazer e ao entretenimento, instruir-se com orientadores sábios nas diversas escolas da colônia, além de assegurar certas vantagens aos trabalhadores dedicados que voltam a viver na Terra. Porém, segundo Laura, “as aquisições fundamentais constituem-se de experiência, educação, enriquecimento de bênçãos divinas, extensão de possibilidades”, ou seja, mais importante do que receber os pontos é aprender, cooperar, auxiliar e servir.

“O celeiro fundamental é propriedade coletiva”, todos os habitantes de Nosso Lar recebem o estritamente necessário ao que se refere à alimentação, ao vestuário e à moradia, até mesmo aqueles que não trabalham (ou por estarem temporariamente sem condições, caso dos doentes e dos recém-chegados, ou por vontade própria, caso dos que vivem nas zonas de repouso). Esses suprimentos são produzidos em grandes fábricas onde trabalham mais de cem mil criaturas; a distribuição é responsabilidade de departamentos específicos dentro da governadoria e dos ministérios. “Todos cooperam no engrandecimento do patrimônio comum e dele vivem”, porém, aqueles que trabalham e adquirem bônus-hora “conseguem certas prerrogativas na comunidade social”; os pontos só podem ser empregados em determinadas situações.

Por exemplo, os bônus-horas não são empregados na aquisição de alimentos variados porque há cem anos a alimentação respeita a lei da simplicidade: caldos reconfortantes, água (“mais tênue, pura, quase fluídica”) e frutas deliciosas. Tudo o que possa recordar as formas de vida terrena e os fenômenos puramente materiais são evitados e estritamente controlados pelos órgãos responsáveis, caso da alimentação. Nos Ministérios da Regeneração e do Auxílio há maior suprimento de “substâncias alimentícias” que lembram a Terra, devido aos serviços pesados que despendem muita energia e ao grande número de “necessitados” e doentes ainda muito ligados à matéria. Nos demais ministérios há somente o necessário, no da Comunicação e no do Esclarecimento prevalece o consumo de frutas, no da Elevação, sucos e concentrados, no da União Divina, o processo de alimentação é muito sutil porque quanto mais evoluído, menos o espírito precisa de alimento físico.

A propriedade é relativa; as construções, em geral, são patrimônio comum sob os cuidados da Governadoria, mas os bônus-hora podem ser empregados na aquisição de um lar para a família (nunca mais de um, pelo valor de trinta mil bônus-hora) que ficará de herança para aqueles que permanecerem em Nosso Lar. Diferente dos bônus que não são herdados (são revertidos ao patrimônio comum quando o dono se ausenta da cidade, ou seja, quando reencarna na Terra ou segue para planos superiores).

Normalmente, as criaturas mais evoluídas são aquelas que possuem mais horas de trabalho e mais instrução74, ou seja, os dois princípios fundamentais que regem esta sociedade, o que a aproxima das utopias de séculos passados, como as de Thomas More e de Tommaso Campanella.

Analisando Nosso Lar como utopia, podemos considerar essa cidade imaginária, uma utopia social quando propõe soluções para diminuir a desigualdade econômica (determinando a igual distribuição de bens essenciais, disponibilizando trabalho para todos, proibindo o supérfluo) e a injustiça contra os trabalhadores (recompensando aqueles que exercem trabalhos mais difíceis, obrigando-os ao descanso e às férias, reconhecendo a importância deles para a sociedade etc.); quando idealiza uma forma de governo justa, honesta, baseada nos princípios cristãos de fraternidade e igualdade, paternalista, centralizada, autoritária, hierárquica e, mesmo assim, extremamente admirada e respeitada, podemos considerá-la uma utopia política; quando pensa em formas de locomoção e de comunicação baseadas em fluídos magnéticos e energias ainda desconhecidas do ser humano e a aplicação destas à cura dos doentes, à purificação da água, ao aperfeiçoamento de plantas e alimentos, poderíamos também considerá-la uma utopia científica; e, é claro, Nosso Lar é, antes de tudo, uma utopia religiosa, por estar localizada no outro mundo, por acreditar na influência direta de Deus, Jesus, entre outros espíritos evoluídos em todos os aspectos da vida, por idealizar a adesão de todos os habitantes a uma única religião (o cristianismo), por pensar leis eternas (que nunca mudarão), divinas (portanto perfeitas), justas e igualitárias (que não podem ser burladas e valem pra todos) e por acreditar que um dia toda a sua estrutura será estabelecida na Terra (de acordo com a crença no progresso e na evolução guiada por entidades superiores). Ou seja, é uma sociedade ideal, perfeita, completa que realiza, no plano imaginário, aquilo que não é possível no mundo real. O modo de vida imaginado em Nosso Lar é a representação dos desejos e esperanças de um mundo extremamente injusto, materialista e abalado por uma guerra mundial. Como aponta Szachi, as utopias são típicas de momentos de crise e confusão, dúvida e incerteza (op. cit., p. 13).

Como nas cidades imaginadas por More, Campanella e Bacon, Nosso Lar não pode ser afetada por elementos que possam ameaçar o perfeito estado das coisas. Além de encontrar-se num plano inacessível ao homem comum, ela é protegida por morros e por uma enorme muralha, o que não é suficiente para garantir a paz e a tranquilidade de seus moradores, portanto contam ainda com um forte sistema de vigilância e segurança. Só são aceitos na colônia aqueles que fizeram por merecer, aqueles que reconheceram as próprias fraquezas e têm boa vontade para corrigir seus erros, aqueles que se desapegaram da matéria e que não cultivam maus pensamentos nem maus sentimentos, os que querem “perturbar os que trabalham” não entram. Quando a guerra é anunciada, o governador faz um discurso para convocar trabalhadores em defesa da ordem:

“Haverá serviço para todos, nas regiões de limite vibratório, entre nós e os planos inferiores, porque não podemos esperar o adversário em nossa morada espiritual. Nas organizações coletivas, é forçoso considerar a medicina preventiva como medida primordial na preservação da paz interna. [...] Seria caridade permitir a invasão de vários milhões de espíritos desordeiros? Não podemos, portanto, hesitar no que se refere à defesa do bem. Sei que muitos de vós recordais, neste instante, o Grande Crucificado. Sim, Jesus entregou-se à turba de amotinados e criminosos, por amor à redenção de todos nós, mas não entregou o mundo à desordem e ao aniquilamento. Todos devemos estar prontos para o sacrifício individual, mas não podemos entregar nossa morada aos malfeitores [...] ‘Nosso Lar', e um patrimônio divino, que precisamos defender com todas as energias do coração. [...] Preparemos, pois, legiões de trabalhadores [... ]; precisamos organizar, neste Ministério, antes de tudo, uma legião especial de defesa...” (XAVIER, 2009, p. 279-280).

O comentário de André Luiz não é menos significativo, nesse sentido:

“Observei, então que as zonas superiores da vida se voltam em defesa justa, contra os empreendimentos da ignorância e da sombra, congregados para a anarquia e, consequentemente, para a destruição” (ibid., p. 268).

A defesa também atua em favor da beleza e do bem-estar da população. Os doentes ou “desequilibrados” em situações mais complicadas não são atendidos nos hospitais da colônia, mas em lugares longe da vista mantidos em níveis inferiores. “Uma série de câmaras vastas, ligadas entre si”, chamadas de Câmaras de Retificação, abrigam “verdadeiros despojos humanos”, “rostos escaveirados, mãos esqueléticas, facies monstruosas”, criaturas perturbadas que choram, gemem, deliram e falam coisas sem sentido, viciadas no crime, na drogas, tomados por sentimentos inferiores, como a vaidade, o egoísmo, o ciúme, a raiva, a vingança, extremamente ligadas aos prazeres físicos. Como uma espécie de pronto-socorro que atende os doentes mais graves, as câmaras atuam no sentido de curá-los (ou corrigi-los) até que possam ser admitidos e viver tranquilamente em sociedade.

Para evitar maiores desequilíbrios, é proibido o contato com aqueles que vivem na Terra, especialmente familiares próximos, sem a devida preparação, autorização e consentimento do Ministério da Comunicação. Antes dessa norma ter sido estipulada pelo governador, de acordo com a orientação da União Divina, grande agitação era causada quando certos espíritos tomavam conhecimento de alguma situação desagradável pela qual os entes queridos estavam passando ou diante de desastres coletivos que se tornavam “verdadeiras calamidades públicas” quando divulgadas na colônia. Lísias justifica a atitude do governante: “não devemos esquecer, entretanto, que somos criaturas falíeis. Necessitamos, pois, recorrer aos órgãos competentes, que determinem a oportunidade ou o merecimento exigidos” (ibid., p. 151). Assim, a comunicação com a colônia é estritamente controlada, tanto de lá pra cá quanto daqui pra lá.

“A conquista do mundo novo é ao mesmo tempo o abandono do velho” (SZACHI, 1968, p. 45), curiosamente, aqueles que deixam Nosso Lar e voltam para a Terra, necessariamente se esquecem dela, visto que, “não se pode ser cidadão dos dois mundos ao mesmo tempo” (ibid., p. 45).

Esta preocupação com a transmissão de notícias do mundo espiritual também é própria à Federação Espírita Brasileira. À época da publicação de Nosso Lar, os líderes da instituição apressaram-se em buscar explicações e tornar oficial (portanto, verdadeiro) o relato do médium Chico Xavier; nos dias de hoje, os centros espíritas e os adeptos vinculados à FEB estimulam a leitura das obras assinadas pelo médium mineiro (a maioria publicada pela FEB, portanto oficial) enquanto evitam e criticam relatos publicados por médiuns e editoras diferentes75. Todos os textos de cunho espiritual acabam passando pelo criterioso julgamento da Federação que divulga sua opinião de modo mais formal através da revista Reformador, ou informalmente por meio de uma rede de dirigentes e colaboradores fiéis que assistem palestras, frequentam congressos, cursos, encontros, lêem os textos, livros e mensagens indicados e acabam assim reproduzindo o discurso "febiano".

5.5.1 O projeto utópico

Nosso Lar é indicada pelos espíritas como leitura básica para a iniciação ao espiritismo porque reforça e oferece exemplos práticos dos conceitos mais caros à doutrina kardecista, além de ser apresentado em forma de romance, narrado por um espírito, então, leigo nos assuntos transcendentais. Em comparação com as obras da codificação, Nosso Lar é realmente menos denso, mais acessível e mais material, ou seja, mais popular.

Seus longos diálogos apresentam profundos ensinamentos cristãos-espíritas que apontam para a necessidade da mudança de hábitos e de atitudes em favor da evolução individual e, consequentemente, mundial. O texto é uma verdadeira convocação à ação orientada a partir dos valores evangélicos segundo a interpretação espírita. Ainda no primeiro capítulo, André Luiz faz uma reflexão reveladora:

"em momento algum, o problema religioso surgiu tão profundo a meus olhos. Os princípios puramente filosóficos, políticos e científicos, figuravam-se-me agora extremamente secundários para a vida humana. Significavam, a meu ver, valioso patrimônio nos planos da Terra, mas urgia reconhecer que a humanidade não se constitui de gerações transitórias e sim de Espíritos eternos, a caminho de gloriosa destinação. Verificava que alguma coisa permanece acima de toda cogitação meramente intelectual. Esse algo é a fé, manifestação divina ao homem" (XAVIER, 2009, p. 16-17).

Então, o primeiro passo para a mudança deveria ser a fé, o desapego das coisas materiais e transitórias em favor das coisas espirituais e eternas responsáveis pelo verdadeiro progresso a que todos estão predestinados. No segundo capítulo, André se volta a Deus:

"... comecei a recordar que deveria existir um Autor da Vida, fosse onde fosse. Essa idéia confortou-me. Eu, que detestara as religiões no mundo, experimentava agora a necessidade do conforto místico" (ibid., p. 21).

Somente depois de ter sofrido no umbral, de "haver conhecido o remorso, a humilhação, a extrema desventura" e ter recorrido a Deus em "prece dolorosa", o médico recebe socorro. Aos poucos o trabalho é apresentado e reconhecido como o princípio do aprimoramento espiritual. Todo o sistema de ideias e imagens representado em Nosso Lar construiu um imaginário em torno da noção de servir, de atuar, de ajudar, de trabalhar em favor do próximo (e consequentemente de si mesmo) que acabou por direcionar as ações individuais e coletivas relacionadas ao espiritismo.

Estas representações dão sentido a uma das máximas mais conhecidas da doutrina: "fora da caridade não há salvação", ou seja, é preciso praticar serviços de caridade como uma forma de resgatar os erros do passado e ser salvo dos sofrimentos. Além de orientar e incentivar o trabalho útil, Nosso Lar fornece exemplos variados que demonstram, a partir da lei de ação e reação76, o que acontece àqueles que levam e/ou levaram uma vida laboriosa baseada na caridade e àqueles que ''desperdiçaram" sua existência com coisas menores.

Aqui, cabe salientar que, para os espíritas, essa cidade espiritual não é o céu ou o paraíso (apesar de possuir diversos elementos em comum com as antigas representações cristãs e católicas destes lugares); para a maioria dos seguidores da doutrina, Nosso Lar representa a simples continuidade da vida. Ou, na verdade, como encontramos no próprio livro, há muito tempo a Terra procura seguir as organizações da colônia espiritual, sendo assim, a Terra é que seria uma cópia imperfeita de Nosso Lar.

A sociedade dos espíritos é apresentada como um exemplo a ser seguido. Dessa forma, o livro reforça um dos objetivos definidos pela FEB no início dos anos de 1900 que também é exigido e cobrado das casas espíritas filiadas: a prática da caridade e o auxílio aos necessitados. Se Nosso Lar, especificamente, incentivou mais ou menos essas atividades, levou ou não mais adeptos a praticá-las são questões que deverão ser respondidas a partir de pesquisas futuras, por enquanto, podemos afirmar apenas que a vida e as obras de Chico Xavier foram essenciais para a multiplicação de simpatizantes, adeptos e seguidores ativos do espiritismo. Consequentemente, cresceu também o número de centros espíritas kardecistas; atualmente, existem mais de cinco mil centros dedicados a estudar, praticar e divulgar o espiritismo e, o mais importante, prestar serviços à comunidade.

As atividades então realizadas se aproximam daquelas exercidas pelos moradores de Nosso Lar, são tratamentos voltados à cura (espiritual e física), distribuição de alimentos, roupas e produtos de primeira necessidade, aconselhamento e orientação diversos (como às mães de primeira viagem, aos jovens, aos desempregados, aos viciados, etc.), oferecimento de cursos e palestras, realização de visitas a hospitais, asilos, creches e comunidades carentes, enfim, ajudar material, moral e espiritualmente aqueles que precisam.

Esta perspectiva assistencialista está vinculada ao fato do espiritismo ter se desenvolvido entre a elite e as camadas médias urbanas brasileiras. Como vimos anteriormente, entre a população mais pobre a dificuldade de acesso à educação formal e a baixa escolaridade foram obstáculos à disseminação da "religião dos livros". Os trabalhos sociais revelaram-se eficientes elementos de aproximação, como atesta Souto Maior:

“o livro [Nosso Lar] foi um marco para o espiritismo, ele convenceu muita gente da necessidade de trabalhar, e muito, em favor dos necessitados. Quem se dedicasse à caridade evoluiria mais depressa. Quem ajudasse o outro se ajudaria. A generosidade poderia soar, às vezes, como egoísmo. Mas o discurso deu bons resultados, estimulou o auxílio aos pobres” (SOUTO MAIOR, 2003, p. 84).

Como resume André Luiz, “‘Nosso Lar’ estava repleto de exemplos edificantes” nos quais as pessoas deveria se inspirar, como fez o próprio médico:

“apliquei ao meu caso o proveitoso conselho e comecei recordando minha mãe. Não se sacrificara ela por meu pai, a ponto de adotar mulheres infelizes como filhas do coração? [...] A Ministra Veneranda trabalhava séculos sucessivos pelo grupo espiritual que lhe estava mais particularmente ligado ao coração. Narcisa sacrificava-se nas Câmaras para obter endosso espiritual, de regresso ao mundo, em tarefa de auxílio. A senhora Hilda vencera o dragão do ciúme inferior. E a expressão de fraternidade dos demais amigos da colônia? Clarêncio me acolhera com devotamento de pai, a mãe de Lísias me recebera como filho, Tobias como irmão. Cada companheiro de minhas novas lutas me oferecia algo de útil à construção mental diferente, que se erguia, célere, no meu espírito.
[... deliberei colocar acima de tudo o amor divino, e, acima de todos os meus sentimentos pessoais, as justas necessidades dos meus semelhantes (XAVIER, 2009, p. 330).

Os diálogos ao longo do livro e os pensamentos de André Luiz procuram, acima de tudo, levar o leitor a refletir a respeito de seus atos e alertá-lo quanto as consequências deles. Depois, os objetivos maiores seriam justamente inspirá-lo a mudar e a agir baseado nos ensinamentos da doutrina de Kardec.

O que mantém Nosso Lar atualizado são justamente a esperança e a confiança no futuro que sua narrativa procura estimular. É assim que essa “cidade espiritual”, cheia de construções, habitantes e complexas organizações continua a “existir”, foi assim que essa utopia inseriu-se no imaginário espírita brasileiro e contribuiu para a propagação a assimilação de diversos conceitos espíritas dentro e fora do movimento.

Investigar como esses elementos são assimilados, lidos, interpretados e compreendidos pode ser uma importante forma de compreender melhor o universo espírita brasileiro, o que, por si só mereceria outra pesquisa.

Por ora, podemos afirmar apenas que esse texto “psicografado” nada tem de mera fantasia, nem pode ser considerado simples mentira, afinal, as utopias fazem parte da historia porque são criações humanas (ou, talvez como nesse caso, “criação humana num outro mundo”), porque refletem as contradições, os valores e os mais profundos sonhos e desejos humanos.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

“Aquela sociedade otimista encantava-me. Diante dos olhos, tinha concretizadas as esperanças de grande número dos pensadores verdadeiramente nobres, na Terra” (XAVIER, 2009, p. 301). É assim que o personagem André Luiz manifesta a sua admiração pela colônia Nosso Lar num dos capítulos finais do livro. Encontramos aqui uma referência ao otimismo característico das utopias, ou seja, das sociedades ideais criadas ao longo da história; por todo o livro encontramos referências como esta que aproximam Nosso Lar de cidades imaginárias como Utopia, Cidade do Sol e Bensalém, grandes utopias dos séculos passados. Todas conservam características comuns ao mesmo tempo em que manifestam insatisfação em relação à realidade social e, dessa forma, acabam revelando também os sonhos, os desejos e a esperança da época em que foram pensadas.

Se Nosso Lar foi recebido com surpresa entre os espíritas da década de 1940 por causa da novidade que trazia ao descrever o “mundo espiritual” como um mundo quase material (e muito parecido com a Terra), para a história, esse tipo de sociedade ideal, completa e perfeita construída a partir dos problemas sociais reais, ou melhor, pensando na solução desses problemas, não é novidade. Para alguns, essa forma de criticar a realidade da época pode ser encontrada já na República, de Platão (séc. IV a.C) ou na Cidade de Deus, de Santo Agostinho (séc. V d.C.), mas foi mesmo a partir da ilha de More que “utopia” deixou de designar apenas um gênero literário e tornou-se uma concepção, uma ideia que influenciou muitos intelectuais e escritores ao longo do tempo.

Não estamos dizendo que esse seria o caso de Chico Xavier, pois não temos como afirmar se ele teve acesso ou não àqueles escritos, essa não é uma questão central – como também não é a discussão a respeito da autoria do livro ou da veracidade de seu conteúdo; o que procuramos mostrar nesse trabalho é que "a imaginação utópica é, assim, inerente ao homem, sua presença nas sociedades históricas, uma constante" (COELHO NETO, 1985, p.14). É esse conteúdo utópico que nos chama a atenção.

A assinatura de Chico Xavier, a maior personalidade espírita do mundo (como defendem alguns seguidores), o selo da editora da Federação Espírita Brasileira, gerente e porta voz do movimento no país, e os discursos de seus líderes em defesa de Nosso Lar, garantiram-lhe a legitimação necessária para a aceitação e a difusão de suas ideias e valores, não apenas entre os adeptos da doutrina, mas também entre os não-adeptos.

A literatura espírita, de forma geral, contribuiu para a construção de uma “mentalidade espírita” no campo religioso brasileiro, no qual, apesar de hegemônico e declaradamente católico, revela uma grande porcentagem de pessoas que acreditam em conceitos tipicamente espíritas, como a continuidade da “vida após a morte” e “reencarnação”. Sendo Nosso Lar o livro espírita mais vendido no país, acredita-se ter contribuído consideravelmente nesse sentido.

Em que medida e de que maneira esta obra e as representações de ordem, beleza, justiça, trabalho, enfim, de perfeição contidas nela inspiraram e/ou inspiram as práticas cotidianas dos grupos e casas espíritas? Como esses elementos são lidos, compreendidos e interpretados? Seria necessário investigar as práticas de leitura individuais ou de comunidades de leitores, como esse texto chega até eles, seu processo de apropriação, os usos que fazem dele, enfim, seria necessário construir uma história do ato de ler para compreender melhor a constituição do campo espírita no Brasil.

Por enquanto, podemos afirmar apenas que Chico Xavier e suas obras desempenharam e continuam a desempenhar um papel fundamental no espiritismo ao destacar a importância do “trabalho útil”, ou seja, de atuar em “tarefas edificantes” em prol do aperfeiçoamento individual e coletivo que, como vimos, parece ter estimulado a criação de entidades ligadas ao movimento espírita e voltadas à prestação de serviços sociais.

Talvez pelo fato da sociedade brasileira ser profundamente católica, acostumada com os discursos cristãos de caridade, amor ao próximo, igualdade e trabalho como algo bom e positivo, essas ideias espíritas não tenham enfrentado maiores dificuldades de aceitação, assim como, a ideia de uma cidade no outro mundo, repleta de elementos católico-cristãos do paraíso77, não seria de todo uma novidade dentro do imaginário religioso brasileiro.

Ao longo desta pesquisa, uma profusão de entrevistas, reportagens, livros, documentários e pesquisas vinham sendo divulgados em função dos cem anos que Chico Xavier completaria no ano de 2010 se ainda estivesse vivo. Dois filmes, em especial, reacenderam o interesse do público pelo espiritismo; um deles, a versão de Nosso Lar para o cinema, lançado no início de setembro, recebeu mais de um milhão de espectadores em cinco dias de exibição e fez o livro voltar para a lista dos mais vendidos. Mas, deixemos esse assunto para pesquisas futuras.

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1 Esse "sistema de idéias e imagens de representação coletiva que os homens, em todas as épocas, constituem para si, dando sentido ao mundo [...] remete à compreensão de que ele constitui um conjunto dotado de relativa coerência e articulação. A referência de que se trata de um sistema de representações coletivas tanto dá a idéia de que se trata da construção de um mundo paralelo de sinais que se constrói sobre a realidade, como aponta para o fato de que essa construção é social e histórica" (PESAVENTO, 2008, p. 43).

2 Ou doutrina espírita. Esses termos serão utilizados ao longo do trabalho referindo-se ao grupo de adeptos que adotam as obras de Allan Kardec como referência e/ou vinculados à Federação Espírita Brasileira (FEB).

3 Além d'O livro dos espíritos (1857), são consideradas obras básicas da codificação do espiritismo O livro dos médiuns (1861), O evangelho segundo o espiritismo (1864), O céu e o inferno (1865), A gênese (1868). Outras publicações do mesmo autor são consideradas complementares, como Revista espírita (1858 a 1869), O que é o espiritismo (1859), Obras póstumas (1890). Vale ressaltar que Allan Kardec não era nem se considerava médium, ele mesmo assinava seus textos; os escritos psicografados presentes em suas obras foram "recebidos" por outras pessoas (essas sim, médiuns).

4 Pestalozzi é considerado o pai espiritual de Kardec. Segundo Dora Incontri (2004) existe uma herança histórica, uma continuidade de ideias entre Jan Amos Comenius (1592-1670), Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), Johann Heinrich Pestalozzi (1746-1827) e Allan Kardec (1804-1869).

5 Cursos e manuais de aritmética, gramática, ciências e pedagogia – como um plano para melhora-mento da educação pública.

6 Pessoas que seriam capazes de realizar a comunicação entre os dois mundos (o corporal, material ou visível e o incorpóreo, imaterial ou invisível), são meios ou intermediários entre os espíritos e os homens.

7 "Apliquei a esta nova ciência, o Espiritismo, um método experimental, nunca elaborei teorias pré-concebidas. Observava cuidadosamente, comparava e deduzia conseqüências; dos efeitos procurava remontar as causas por dedução e pelo encadeamento lógico dos fatos e não admitindo por válida uma explicação senão quando resolvia todas as dificuldades da questão" (KARDEC apud ALLAN KARDEC, O EDUCADOR, 2006)

8 Uma das formas de manifestação dos espíritos seria "a transmissão do pensamento do Espírito, mediante a escrita feita com a mão do médium" (KARDEC, 2008, p. 221).

9 "Sendo o seu nome muito conhecido do mundo científico, em virtude dos seus trabalhos anteriores, e podendo originar confusão, talvez mesmo prejudicar o êxito do empreendimento, ele adotou o alvitre de o assinar com o nome de Allan Kardec, nome que, segundo lhe revelara o guia, ele tivera ao tempo dos druidas" (SAUSSE apud THIESEN; WANTUIL, 2007, p. 275).

10 "O conteúdo completo do livro com o qual nos deparamos hoje foi publicado somente em 1860, ocasião de sua segunda edição, 'inteiramente refundida e consideravelmente aumentada', conforme anunciava sua página de rosto. Passou a conter 1019 perguntas e respostas distribuídas em quatro partes, enquanto que a anterior, de 1857, tinha apenas 501, divididas em três partes" (ARRIBAS, 2008, p. 31).

11 O termo espiritismo ou doutrina espírita foi definido por Kardec com o intuito de diferenciar a nova doutrina das outras crenças espiritualistas da época.

12 Segundo Lactâncio e Agostinho a palavra religião deriva de religare (RELIGIÃO. In: ABBAGNANO, 2007, p. 998a).

13 Ou filosófico. Segundo Kardec, as idéias espíritas apresentariam três períodos distintos: primeiro, o da curiosidade que os fenômenos desperta; segundo, o do raciocínio e da filosofia; terceiro, o da aplicação e das conseqüências. “Começou o segundo período, o terceiro virá invitavelmente” (KARDEC, 2007, p. 590).

14 Apesar disso, em Paris, encontram-se poucos “grupos espíritas” tradicionais (comunidades que mantém as práticas de realizar reuniões regulares e que procuram divulgar a doutrina). Talvez, aí se encontre o maior número de simpatizantes isolados, curiosos ou pessoas mais ou menos interessadas pelo tema. “É também aí que ela pode permitir diversos sincretismos com doutrinas de outras proveniências culturais”, Aubrée e Laplantine encontraram apenas um grupo que corresponderia às características tradicionais do movimento: o grupo de Estudos Espíritas Allan Kardec, fundado em 1982 por uma brasileira espírita (op. cit.,, 2009, passim).

15 Para Kardec, o espiritismo teria aperfeiçoado princípios já existentes no catolicismo e seria “tão antigo quanto a criação”: “encontramo-lo por toda parte, em todas as religiões, principalmente na religião Católica e aí com mais autoridade do que em todas as outras, porquanto nela se nos depara o princípio de tudo que há nele: os Espíritos em todos os graus de elevação, suas relações ocultas e ostensivas com os homens, os anjos guardiães, a reencarnação, a emancipação da alma durante a vida, a dupla vista, todos os gêneros de manifestações, as aparições e até as aparições tangíveis. Quanto aos demônios, esses não são senão os maus Espíritos e, salvo a crença de que aqueles foram destinados a permanecer perpetuamente no mal, ao passo que a senda do progresso se conserva aberta aos segundos, não há entre uns e outros mais do que simples diferença de nomes” (KARDEC, 2007, 593-594).

16 A Revista espírita foi um periódico criado por Allan Kardec e por ele dirigido entre 1858 e 1869. "Tornou-se a Revista o instrumento hábil pelo qual o Codificador dialogava com os novos adeptos da Terceira Revelação e, também, com seus detratores, tornando o periódico tão interativo quanto possível, objetivando, assim, construir a unidade de princípios no movimento espírita nascente" (PORTAL FEB). É considerada uma das obras que complementa a codificação da doutrina.

17 Desde a constituição de 1824 o catolicismo usufruía os privilégios de ser a religião oficial do Império. "Entretanto o catolicismo não era a única religião admitida. A Constituição também abriu, com restrições, a possibilidade de instalação de outros credos. Essa organização deveria apresentar-se de forma discreta, realizando suas práticas em lugares sem identificação externa e evitando a expansão por proselitismo" (ALMEIDA, 2000, p. 32).

18 Pesquisa realizada pelo Vox Populi (VARELLA apud SILVA, 2005, p. 03) indica que 59% da população brasileira acredita que já teve outras vidas, apesar de somente 3% se declararem espíritas.

19 O médico Joaquim Carlos Travassos traduziu O livros dos espíritos, O livro dos médiuns, O céu e o inferno e O evangelho segundo o espiritismo.

20 Para o clero católico, o espiritismo não era uma religião, mas sim uma heresia por estar relacionado às religiões afro-brasileiras, aos misticismos e por adotar princípios divergentes daqueles contidos nas bases dogmáticas do catolicismo (além de ser considerado fruto de ação demoníaca). Para a comunidade médico-científica a idéia da existência de um elemento extra-material (o espírito) seria um retrocesso à superstição, algo inaceitável numa época de conquistas intelectuais e científicas (ALMEIDA, 2007). Os médicos denunciavam as práticas de "curandeirismo" e "charlatanismo" e identificavam a doutrina como uma patologia extremamente contagiosa. Para a Justiça, esses crimes deveriam ser reprimidos e combatidos.

21 Em 1881, foi fundada a primeira instituição que se pretendeu unificadora do movimento espírita nacional, o Centro da União Espírita do Brasil que reunia o grupo dos "científicos". Devido à própria insipiência do movimento espírita e aos conflitos que enfrentava internamente, a instituição não resistiu por muito tempo. Em 1894, nova tentativa fracassada: "científicos", dissidentes insatisfeitos com a política da FEB, fundam o Centro da União Espírita de Propaganda no Brasil que lutou pela liderança do movimento espírita até a sua extinção no final de 1897 (ARRIBAS, 2008).

22 "A definição pelo 'religioso' tomada pela FEB pode ser interpretada como o produto da sobreposição entre virtualidades doutrinárias e possibilidades legais" (GIUMBELLI, op. cit., p. 118).

23 "O aparecimento da FEB é apresentado por vários autores enquanto um esforço no sentido da articulação entre os grupos então existentes no Rio de Janeiro, como se sua principal razão de existência fosse a de assumir, diante deles, uma função de representação. Essa versão, contudo, é contrariada pelas informações prestadas à época pelo Reformador [órgão de imprensa da instituição]. Aí a FEB é anunciada como [...] um instrumento de divulgação da doutrina espírita" (GIUMBELLI, op. cit., p. 63). Somente anos depois, reivindicaria para si o papel de unificadora, defensora do movimento espírita e de seus adeptos – principalmente para defendê-los das constantes perseguições judiciais de que eram alvo.

24 O jornal Reformador já existia desde 1883, portanto, antes da fundação da FEB. “Quando a FEB é criada, o Reformador passa a ser seu órgão de imprensa, veiculando o conteúdo de suas discussões e decisões. O periódico continua a publicar artigos de propaganda e defesa do espiritismo, escritos por colaboradores locais ou extraídos de periódicos estrangeiros, bem como notícias sobre o movimento espírita no Brasil e em outros países” (GIUMBELLI, op. cit., p. 63). Desde o lançamento, sua publicação nunca foi interrompida até os dias de hoje.

25 Conhecido como "Allan Kardec brasileiro", Adolfo Bezerra de Menezes, médico, político e jornalista, esteve na presidência da FEB em 1889 e de 1895 a 1900.

26 Segundo estimativa elaborada pela FEB no ano de 1904 (GIUMBELLI, op. cit., p. 125).

27 Ambos escritos pelo médium Francisco Cândido Xavier e publicados pela FEB. O livro Brasil: coração do mundo, pátria do evangelho (1938), interpreta a história do Brasil à luz do Espiritismo desde as grandes navegações até acontecimentos do século XX. Segundo essa narrativa, o Brasil teria sido preparado espiritualmente fazendo parte de um grandioso plano de Deus para fincar aqui as raízes do cristianismo e, mais tarde, do espiritismo. A FEB e seus principais líderes também fazem parte desse plano divino legitimando assim, não só o programa da FEB como também as ações de seus líderes (cf. SILVA, 2005; ARRIBAS, 2008).

28 Espírito protetor do Brasil, aquele que recebe as ordens diretamente de Jesus.

29 Para Celia Arribas, a ideia de unir novamente as bases da doutrina só foi retomada após a consolidação e a legitimação da FEB: “pouco a pouco uma ‘nova antiga’ idéia foi se firmando no horizonte espírita como estratégia de ‘unir’ todas as correntes. Unir entre aspas, pois todas elas deveriam na realidade subjugar-se à corrente religiosa, a mais legítima porque vitoriosa. Agora sim passaríamos a ver um espiritismo tido simultaneamente como ciência, filosofia e religião: uma tese que realmente interessava à Federação de então. Com ela, os espíritas mais racionalistas acabavam aceitando o lado religioso da doutrina e a FEB perdia o qualificativo único de religiosa, passando a agregar os diferentes grupos sob sua égide. Isso facilitaria a união do movimento em torno dela e a irradiação da sua plataforma doutrinária” (2008, p. 144-145).

30 Segundo dados atualizados da FEB, Nosso Lar já teria vendido 1,6 milhões de exemplares. É a obra psicografada mais vendida no Brasil, em segundo lugar estaria Violetas na janela, de Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho, publicado pela editora Petit, com quase um milhão de exemplares vendidos.

31 Os números variam muito de acordo com cada publicação. A revista Veja aponta mais de 40 milhões de pessoas que seguem a doutrina de Allan Kardec, segundo dados da Federação Espírita Brasileira (CARELLI, 2005); a revista Super Interessante aposta em 20 milhões de fiéis (BLANCO, 2010, p. 51); a revista Época fala em 30 milhões de simpatizantes (PADILLA, 2006). Se adeptos, simpatizantes, seguidores, fiéis (a nomenclatura também é variada); “neste cenário se incluem não apenas os que ‘se dizem católicos’ mas professam crenças espíritas (ou outras), como também aqueles que se declaram ‘sem religião’. Conforme sugere Almeida (2004), este tipo de declaração não significa necessariamente ‘ausência de religiosidade’. Segundo o autor, esta categoria abriga pessoas que ‘não têm freqüência assídua aos serviços religiosos, nem envolvimentos pessoais com a comunidade moral [...], mas mantém uma disposição religiosa frente ao mundo, principalmente em situações de insegurança física, emocional, financeira etc.’ (Almeida, 2004, p. 7). Dentre estes também se incluem aqueles que inventam o seu próprio ‘cardápio de credos e práticas’, desvinculando-se, dessa forma, de marcas de pertencimento definidas” (STOLL, 2004, p. 182).

32 Dentre as mais ativas e conhecidas estão: FEB (editora da Federação Espírita Brasileira), LAKE (Livraria Allan Kardec), FEESP (editora da Federação Espírita do Estado de São Paulo), Petit, EDICEL (Editora Cultural Espírita Ltda.), IDE (Instituto de Difusão Espírita), CEC (Comunhão Espírita Cristã), GEEM (Grupo Espírita Emmanuel Editora), Edições Leon Denis, Aliança, Clarim, IDEAL (Instituto de Difusão Espírita Allan Kardec), Casa dos Espíritos, Mundo Maior Editora, Lúmen, entre tantas outras.

33 Uma das características dos primeiros “escritos mediúnicos” publicados no Brasil é o uso de uma linguagem excessivamente pomposa, repleta de palavras rebuscadas, sofisticadas e incomuns no vocabulário cotidiano. Talvez, esse recurso fosse para “apresentar algo intelectualmente elevado, que se [pudesse] reconhecer como digno de respeito e consideração. Afinal de contas, o que estava em jogo (e dá para dizer que sempre parece estar) no caso do espiritismo no Brasil é a busca de aceitação e respeito também pela ‘boa apresentação’ e ‘boa aparência’ do seu discurso escrito, da sua literatura de vulgarização, na qual se veicula, ao fim e ao cabo, o teor fora do comum e duplamente heterodoxo de um espiritismo que se fez religioso” (ARRIBAS, 2008, p. 156). Essa linguagem teve que se adaptar às necessidades do mercado atual, tornando-se mais acessível ao grande público – alvo principal das novas publicações.

34 A saber: O que é o espiritismo; O livro dos espíritos; O livro dos médiuns; O evangelho segundo o espiritismo; O céu e o inferno; A gênese; Obras póstumas e os 40 volumes, da Revista Espírita.

35 A Federação utilizava principalmente os serviços de um conhecido livreiro-editor da época, H. Garnier.

36 Considerando somente as publicações da Editora FEB.

37 Postumamente foram publicados, até agora, 39 livros, contabilizando 451 obras ao todo que levam o nome do médium.

38 O “pseudônimo literário” foi adotado logo nas primeiras publicações. O nome de batismo foi oficialmente substituído por Francisco Cândido Xavier em 1966.

39 Intervalo entre uma encarnação e outra, período que o espírito aspira novo destino, que espera (KARDEC, 2007, p. 197). "Deixando o corpo, a alma volve ao mundo dos Espíritos, donde saíra, para passar por nova existência material, após um lapso de tempo mais ou menos longo, durante o qual permanece em estado de Espírito errante" (ibid., p. 33).

40 Podemos concluir, a partir das obras, que Kardec não só revela a existência do "mundo dos espíritos" – chamados "errantes", mas também de outros mundos habitados – nesse caso, materialmente, como os homens na Terra: "As diferentes moradas [do Universo] são os mundos que circulam no espaço infinito e oferecem, aos Espíritos que neles encarnam, moradas correspondentes ao adiantamento dos mesmos Espíritos" (KARDEC, 2009, p. 83-84).

41 "Os membros deste [grupo], ora se dispersam para se darem à sua missão, ora se reúnem em dado ponto do Espaço a fim de se prestarem contas do trabalho realizado, ora se congregam em torno dum Espírito mais elevado para receberem instruções e conselhos" (KARDEC, 2009, p. 43).

42 Mais de duas mil instituições de assistência foram fundadas, ajudadas ou mantidas com os direitos autorais ou com campanha beneficentes promovidas pelo médium.

43 Cf. A recepção do livro Nosso Lar, in: SILVA, 2007, p. 125-135.

44 André deriva do grego, significa “homem”, da família léxica que significa “homem valoroso”. Segundo os Evangelhos, André é o nome de um dos discípulos de Jesus de quem teria recebido o título de “Pescador de Homens”, curiosamente, o primeiro a recrutar novos discípulos para o seu mestre. Luiz é um nome de origem latina, cujo significado está relacionado a guerreiro, ou seja, aquele que tem coragem e força. André Luiz foi um nome adotado pelo “autor espiritual”, pois sua “verdadeira identidade”, enquanto encarnado na Terra, é desconhecida. A escolha pode revelar seus objetivos: aproximar mais pessoas ao espiritismo, recrutar novos adeptos também dentro da doutrina, o que, por si só já seria uma verdadeira batalha, afinal, detalhes sobre a “vida depois da vida” era uma grande novidade para o espiritismo.

45 Segundo pesquisa realizada pela Candeia Organização Espírita de Difusão e Cultura em 1999 que contou com a participação de estudiosos do espiritismo, escritores, dirigentes e todos os presidentes das Federações e Órgãos Estaduais, que fazem parte do Conselho Federativo Nacional da Federação Espírita Brasileira.

46 Todas as obras foram publicadas pela Federação Espírita Brasileira: Nosso Lar (1944); Os mensageiros (1944); Missionários da luz (1945); Obreiros da vida eterna (1946); No mundo maior (1947); Libertação (1949); Entre a Terra e o céu (1954); Nos domínios da mediunidade (1955); Ação e reação (1957); Evolução em dois mundos (1959); Mecanismos da mediunidade (1960); Sexo e destino (1963); E a vida continua... (1968).

47 Clarêncio é um nome de origem latina que significa “iluminado”; é ele quem resgata André das zonas obscuras, levando-o para a cidade onde “branda claridade inundava” todas as coisas, ou seja, é ele quem traz de volta a luz, a claridade depois de anos de escuridão.

48 Talvez Lísias tenha alguma relação com Elísios, espécie de paraíso antigo, habitado pelos heróis e pelos homens virtuosos, depois da morte.

49 Segundo Sigmund Freud, a felicidade é o propósito e a intenção da vida humana, "[os homens] esforçam-se para obter felicidade; querem ser felizes e assim permanecer. Como vemos, o que decide o propósito da vida é simplesmente o programa do princípio do prazer. Esse princípio domina o funcionamento do aparelho psíquico desde o início. Não pode haver dúvida sobre sua eficácia, ainda que o seu programa se encontre em desacordo com o mundo inteiro, tanto com o macrocosmo quanto com o microcosmo. Não há possibilidade alguma de ele ser executado; todas as normas do universo são-lhe contrárias", ou seja, "nossas possibilidades de felicidade sempre são restringidas por nossa própria constituição” (FREUD, 1969, p. 94). Todavia, nem por isso deixamos, nem devemos deixar de nos esforçar para nos aproximar daquele objetivo.

50 Diálogo onde Platão desenvolve suas principais ideias e expõe como seria o governo e o modo de vida na cidade imaginária de Calliopolis, sua sociedade perfeita e harmônica baseada na justiça.

51 Obra onde Agostinho procura defender o Cristianismo das acusações feitas por aqueles que viam no monoteísmo cristão a causa da ruína do Império Romano. A segunda parte da obra trata da origem, do desenvolvimento e dos respectivos fins das duas cidades: a Cidade de Deus (celestial) e a Cidade dos Homens (terrena). A cidade humana seria essencialmente imperfeita, somente aqueles que vivessem de acordo com os preceitos cristãos poderiam habitar a cidade celestial (após a morte), onde não há pecado e tudo é bom e justo. Para Agostinho, o Estado deveria imitar a perfeição divina.

52 Nome dos dois gigantes, personagens centrais da obra. Aqui, o escritor francês Rabelais, criou Thélème, uma abadia construída por Gargântua na margem sul do rio Loire, na França, em agradecimento pelos serviços prestados pelo monge Jean dês Entommeures. Somente eram admitidos homens e mulheres que fossem bonitos, bem construídos e de boa natureza; podiam deixar a comunidade quando quisessem. A única regra era: "faça o que quiser"; o ser humano era governado apenas pelo seu livre-arbítrio, podiam satisfazer todos os seus desejos, nada era proibido, comiam, trabalhavam e dormiam quando e como quisessem, uma vez que se acredita que pessoas livres, bem-nascidas e bem-educadas têm, por natureza, um instinto que as empurra para a virtude e um sentimento muito forte de honra (MANGUEL, Alberto; GUADALUPI, Gianni, 2009, p. 428-429). Neste paraíso eterno, havia comida por toda parte e ainda pagava-se cinco dinheiros por dia para quem quisesse apenas dormir e sete dinheiros e meio para aquele que dispensasse um esforço maior: roncar!

53 Este livro desenvolve todo um sistema de pensamento que será, mais tarde, a base da doutrina do chamado socialismo utópico. Morelly cria uma sociedade baseada na doutrina comunista ordenada de acordo com as leis da natureza. "A vida social está baseada em três leis fundamentais e sagradas, destinadas a acabar com os vícios e males que afligem as outras sociedades: nenhum cidadão do país de Morelly pode possuir propriedade privada, exceto as coisas que usa na vida cotidiana; todos os cidadãos são empregados pela comunidade; e todos os cidadãos contribuem para a economia de acordo com sua idade, suas habilidades e sua força física" (MANGUEL, Alberto; GUADALUPI, Gianni, 2009, p. 285-286). Este é um bom exemplo da obsessão utópica pela ordem, pela organização das coisas e das pessoas.

54 Em 1822, o filósofo francês Charles Fourier lança o jornal O Falanstério, depois denominado A Falange, por meio do qual passa a defender a proposta de reconstrução social baseada no idealismo de Jean-Jacques Rousseau. Fourier sugere a criação da Harmonia, um grupo de colônias ou falanges, cujos membros possuíam tudo em comum e viviam numa grande moradia chamada falanstério, que continha tudo que era necessário para uma vida útil e agradável. A vida comunitária é caracterizada pela ausência total de repressão e pela liberdade absoluta das paixões humanas (MANGUEL, Alberto; GUADALUPI, Gianni, 2009, p. 282-283).

55 Obras de aventura, de viagens, de ficção que trouxeram muitos inventos, até então, "fantásticos", como a televisão, o helicóptero, o avião, os veículos-anfíbio, a caça submarina, os tanques de guerra, a iluminação a néon, entre outros. Dentre os livros mais conhecidos estão: Viagem ao Centro da Terra (1964); Vinte Mil Léguas Submarinas (1870); A Volta ao Mundo em Oitenta Dias (1872); A Ilha Misteriosa (1873-75); A Esfinge dos Gelos (1895); O Senhor do Mundo (1904).

56 O caso ficou conhecido como "A questão real". A primeira esposa de Henrique VIII, Catarina de Aragão, não deu à Inglaterra o esperado filho homem, futuro herdeiro do trono; diante dessa situação o rei começou a buscar meios para cancelar seu matrimônio e assim poder casar-se com outra mulher. O Papa Clemente VII recusou o pedido de dissolução do casamento, mesmo assim Henrique VIII casa-se com Ana Bolena (mais tarde coroada rainha consorte) e é excomungado pelo papa em 1533. O rei decide então romper definitivamente com a Igreja Católica Romana fundando a Igreja Anglicana (Church of England) da qual tornou-se o chefe supremo. Dessa forma, não reconhecer a autoridade religiosa do rei tornou-se traição que deveria ser punida com a morte.

57 Uma mistura de ficção e realidade já que Pedro Gil, natural da Antuérpia, realmente foi amigo pessoal de Thomas More.

58 "Rafael em hebreu significa 'Deus tem curado', no livro apócrifo de Tobias o arcanjo Rafael orienta Tobias numa viagem que termina com a cura da cegueira sofrida por ele. É um nome apropriado, portanto, para um viajante que abre os olhos dos homens e lhes indica onde está a prosperidade. Hythlodaeus é um jogo de palavras em grego, 'dispensador de absurdos (não-sentidos)'" (FERNANDES in SZACHI, 1972, p. 1).

59 Numa correspondência particular de More ao amigo Erasmo (quem editou A Utopia), ele revela a repugnância que sentia: "Não podes avaliar", escrevia-lhe, "com que aversão me encontro envolvido nesses negócios de príncipes; não há nada mais odioso que esta embaixada..." Referia-se à embaixada diplomática enviada pelo Rei da Inglaterra a Flandres afim de resolver um dissídio surgido entre este país e o príncipe Carlos de Castela (THOMAS Morus: o autor e a obra...).

60 "A Terra da cocanha foi uma miragem que representou os anseios dos homens pobres do Renascimento e uma recusa obstinada, por meio da imaginação, da precariedade da vida. A terra de cocanha é uma utopia do imaginário popular do início da Era Moderna, que tenta fornecer aos homens aquilo sobre o qual se sentem muito frustrados em não possuir [...]. É, sobretudo uma mensagem contra o trabalho e a morte" (LOPES, 2004, p. 141).

61 Cada intervalo entre os círculos recebeu o nome de um dos planetas conhecidos até então.

62 O chefe-supremo, chamado de Hoh ou Metafísico, é assessorado pelos representantes dos três princípios fundamentais do ser, Pon, Sin e Mor, ou seja, os príncipes ou ministros do Poder, da Sabedoria e do Amor, respectivamente. Pon é responsável pela arte militar (exército, cavalaria, infantaria, armas, estratégias e máquinas de guerra) e pelos atletas, responde somente a Hoh; Sin cuida da paz e também da guerra, mas principalmente das ciências e das artes; Mor administra os departamentos que tratam da alimentação, vestuário e procriação, cuidando para que os casais sejam harmônicos.

63 Campanella parece ser contra a perda do poder político da Igreja – processo intensificado por toda a Europa após a Reforma.

64 "A sociedade comum das mulheres não destrói as pessoas, nem impede a geração; e não é contra a ordem, mas, ao contrário, auxilia grandemente o indivíduo, a geração e a república" (CAMPANELLA, s/d, p. 110). A comunidade da família diminui "a cobiça e a avareza, porque o homem, sob o regime da divisão, tende a amar os próprios filhos mais do que convém e a desprezar os alheios além da medida. Por conseguinte, o homem sábio ama mais os melhores, mesmo que sejam alheios, e se preocupa mais com os maus, para melhorá-los [...] Pela comunidade dos filhos, dos irmãos, dos pais, das mães, providencia-se de modo que diminua o excessivo amor próprio, que é a cobiça, e aumente o amor comum, isto é, a caridade" (ibid., p.114).

65 "Não mandam ao pasto os garanhões, juntamente com as éguas, mas, quando ocorre, emparelham-nos no átrio das estrebarias campestres, observando o Sagitário em bom aspecto com Marte e Júpiter. Para o gado bovino, observam o Taurus, para as ovelhas, o Áries, etc., segundo a doutrina" (CAMPANELLA, s/d, p. 60).

66 A união marital acontece a cada três dias, homens e mulheres "deitam-se, então, em celas separadas e dormem até a hora estabelecida para a união [...] Essa hora é determinada pelo médico e pelo astrólogo, que procuram escolher a ocasião em que todas as constelações são favoráveis aos geradores e aos gerados" (CAMPANELLA, s/d, p. 43).

67 A prosperidade e a tecnologia avançada do povo de Bensalém é comparada àquelas da antiga Atlântida, continente que teria submergido nas águas do Oceano Atlântico por volta do ano 9560 a.C. O título da obra de Francis Bacon tem significado simbólico, contrapondo-se àquela extinta civilização mencionada por Platão na República.

68 Pesquisadores indicam que Bensalém, do árabe, significaria "a filha da salvação".

69 Nova Atlântida foi traduzida para o latim e publicada após a morte de Francis Bacon por seu secretário particular William Rawley, que afirma no prefácio: "certamente o modelo é mais vasto e mais grandioso do que possa ser imitado em todas as coisas [...] pensou também Sua Senhoria em um corpo de leis ou no melhor dos Estados, ou em uma comunidade exemplar. Mas, prevendo tratar-se de empresa prolongada, desviou-o seu desejo de compilar a História Natural, colocada muitos graus antes desta obra" (RAWLEY, William. In: BACON, 1999, p. 221).

70 É como “voar”. A velocidade depende do grau de evolução do espírito, alguns conseguem se transportar na velocidade do pensamento.

71 Não há outra referência nem detalhes que expliquem melhor essa capacidade dos habitantes da cidade.

72 Ao longo de todo o livro, este personagem não é citado por um nome próprio, é apenas o “Governador”, mesmo sendo uma figura importante para a narrativa. É descrito por André Luiz no seguinte trecho: “nunca esquecerei o vulto nobre e imponente daquele ancião de cabelos de neve, que parecia estampar na fisionomia, ao mesmo tempo, a sabedoria do velho e a energia do moço; a ternura do santo e a serenidade do administrador consciencioso e justo. Alto, magro, envergando uma túnica muito alva, olhos penetrantes e maravilhosamente lúcidos, apoiava-se num bordão, embora caminhasse com aprumo juvenil” (XAVIER, 2009, p. 277).

73 Ponto relativo a cada hora de serviço.

74 Entende-se por instrução, o conhecimento, a compreensão e o cumprimento das leis divinas e cristãs.

75 Zíbia Gasparetto é uma das médiuns não filiada à FEB que mais vende romances psicografados, assim, acaba sendo uma das mais criticadas. Seu comportamento – aceitar o lucro proveniente dos livros – é alvo das mais intensas críticas.

76 Umas das leis de Deus, segundo o espiritismo; baseia-se na justiça infalível e no mérito individual, garante que toda ação corresponde uma reação, em outras palavras, garante que "todos colherão aquilo que plantaram", o bem ou o mal. No livro Nosso Lar, há uma fala de Lísias que dá exemplos do funcionamento dessa lei no plano da eternidade: "Sabe que o homem imprevidente, que gastou os olhos no mal, aqui comparece de órbitas vazias? Que o malfeitor, interessado em utilizar o dom da locomoção fácil nos atos criminosos, experimenta a desolação da paralisia, quando não é recolhido absolutamente sem pernas? Que os pobres obsidiados nas aberrações sexuais costumam chegar em extrema loucura?" (XAVIER, 2009, p. 38).

77 Cf. SILVA, 2007.


Publicado por: THAIS CRISTINA GONCALVES

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