"AJAYÔ" A PERSPECTIVA DA CULTURA NEGRA E O PRECONCEITO COM SUAS RELIGIÕES

Religião

Entender o porquê de o preconceito ainda ser dominador em relação às religiões afro-brasileiras se compararmos com outras áreas da cultura negra brasileira, como a culinária e a música.

índice

1. RESUMO

Este trabalho tem como objetivo entender o porquê de o preconceito ainda ser dominador em relação às religiões afro-brasileiras se compararmos com outras áreas da cultura negra brasileira, como a culinária e a música. Tal fato se mostra quando vemos a grande aceitação ao samba e ao carnaval, por exemplo, em detrimento aos terreiros de candomblé e umbanda constantemente atacados pela intolerância religiosa vigente em nosso país. Para isso, vamos analisar materiais bibliográficos e audiovisuais em busca do entendimento do tratamento dado a cultura negra desde seu nascimento em nosso território, passando pelas formas de abordagem dadas pelas grandes mídias e os interesses políticos/financeiros que rodeiam a segunda maior população negra do mundo. O trabalho também visitará o início das religiões afro-brasileiras, sua história e suas características, a fim de traçarmos um caminho para também entendermos a ligação de uma sociedade majoritariamente negra com as religiões nascidas de seus ancestrais, sua mão forte nas formas culturais que estão afastadas do peso do preconceito e toda sua influência nos dias atuais, com heranças importantes na língua, nas formas de expressões corporais e intelectuais, apesar da distância do real conhecimento sobre sua história.

Palavras chave: Preconceito. Religiões Afro-brasileiras. Negros. Cultura. Expressões culturais e intelectuais.

ABSTRACT

This work‘s goal is to understand why the prejudice is still dominant towards the afro-brazilian religions if compared to other areas of brazilian black culture, such as cuisine and music. It’s possible to notice said prejudice when we have a great acceptance of the samba and carnaval, but sacred temples of candomblé and umbanda are constantly attacked due to the religious intolerance in our country. To do so, we will analyze bibliographic and audiovisual materials in search of an enlightenment of the way the black culture has been treated since it was born in our territory, going through the sort of focus given to it by the great media and the political/financial interests surrounding the second biggest black population in the world. This work also visits the beginning of the afro-brazilian religions, its stories and characteristics, aiming the creation of a path to comprehend, as well, the connection of a mostly black society with the religions born from its ancestors, its strong hand in all cultural forms that are away from the prejudice and its influence nowadays, with important language inheritance, in the ways of corporal and intellectual expression, despite the distance from the actual knowledge about its history.

Key words: prejudice, afro-brazilian religions, black people, culture, cultural and intellectual expression.

2. INTRODUÇÃO

Por que e como o preconceito surge e se instala mais fortemente nas religiões africanas, se estabelecermos uma comparação a recepção das outras formas de apresentação da cultura negra, como a música e a culinária?
Para desenvolver um caminho de reflexão que leve a algumas sugestões de resposta a esta pergunta de pesquisa, será preciso estabelecer alguns objetivos específicos: Entender teoricamente o que é religião e sua ação na sociedade; registrar o panorama histórico da religião de matriz africana no Brasil; Diferenciar Candomblé e Umbanda; Entender por que a Umbanda, religião criada no Brasil a partir do Candomblé, depois de 120 anos, ainda é tratada superficialmente e vista pelo viés de conceitos pré-estabelecidos por registros frequentemente construídos por uma memória coletiva prioritariamente branca, cristã e europeia, não considerando as variações e crenças possíveis neste “religare” com o transcendente e entender a real posição da música e culinária negra no contexto atual do país, trazendo suas origens e seu caminho para essa sensação de ascensão cultural.

O lugar de fala, termo recente para ser adequado quando mostramos uma nova forma das minorias darem voz a sua dor, sua realidade, é importante nesta tese por ser uma inquietação pessoal que nasce a partir do momento em que adentro as práticas da religião umbandista. Em relação comparativa com as outras vertentes, a religião está sempre à margem, escondida, como é comum encontrarmos os terreiros nos fundos das casas, sem qualquer demonstração  que há, em alguns locais, o chão sagrado que representa o ilê[1]. (Casa de candomblé, terreiro como um todo). O medo que perdura entre os praticantes das religiões afros causou estranheza quando vemos a alegria carnavalesca, festiva, dos próprios personagens que comentam negativamente sobre o axé[2].

Percebe-se, neste contexto, - por meio dos registros oficiais e da mídia - uma forma em certa medida discriminatória com relação ao tema. O discurso e sincretismo da umbanda são frequentemente medidos e registrados como “culto ao maligno” e “malandragem” que parecem enfraquecer a perspectiva filosófica desta religião que é o encontro da Matriz Africana com a Brasileira. Selecionaremos, por isso, para apontar tais evidências, cenas de telenovela, filmes, literatura e produtos televisivos que trazem tais superficialidades em seu discurso e que, portanto, corroboram com um imaginário de preconceito. Em comparação com outros aspectos da cultura negra e que nasceram juntas dentro da senzala, como as músicas e a culinária temperada com traços africanos, a religião ainda habita um espaço obscuro na sociedade, não atingindo camadas onde outras expressões já conseguiram atingir. Assim, pergunta-se também: Como outras expressões da cultura negra atingiram mais aceitação diante a sociedade? Ao pensar, por exemplo, na culinária e na música, são estes espaços permitidos pelo poder hegemônico branco para a possibilidade de certa visibilidade do negro e sua matriz cultural?

Diante destas perguntas, via pesquisa que registra documentos - livros de história, filmes, novelas e reportagens - procura-se entender e buscar os motivos que tenham feito uma religião nascida no Brasil, que se inspira no folclore nacional e se aproxima da maioria dos arquétipos do país (índios, negros, pescadores, boiadeiros) não ser aceita como merece em seu território.
Supõe-se que a herança negra trazida da escravidão e que vive em diversas áreas de cultura brasileira, sofrem preconceitos, explícitos ou mascarados, que impedem ou tentam impedir a ascensão do negro em um lugar de muitas disputas de poder como é a religião. O estudo torna se atual, pois o intuito é a descoberta das formas atuante do preconceito dentro da realidade da sociedade brasileira. A junção de análises de hipóteses antigas e contemporâneas formará um entendimento da real situação dos negros no país, buscando na história, exemplos da forma de interação com a cultura e com a figura preta.

Por meio do presente estudo, pretende se entender em que ponto realmente se encontra o casamento de ideias e culturas de um país que se orgulha de ser plural, mas enaltece e se preocupa em dar mais voz a culturas que partem de ideais euro centristas. É de suma importância a discussão desse tema para apontarmos na história toda a dívida cultural trazida para a contemporaneidade social em relação à negritude. Estudos como de Kabengele Munanga no livro Rediscutindo a mestiçagem no Brasil (1999), Mircea Eliade no livro O sagrado e o profano (1992) e Djamila Ribeiro no livro O que é lugar de fala (2017), juntamente dos artigos usados como exemplo para a hipótese levantada, já dão mostra da discussão proposta, pois já analisaram o fator colocado em diferentes perspectivas.

Portanto, no segundo capítulo, abordaremos a religião e seus caminhos. A umbanda e o candomblé, como principais, para entender de perto como se relacionam entre si aqueles que os pertencem, para entendermos os relacionados para com os outros. A sua história em território brasileiro, suas funções e formas de ação com o seu seguidor e seu papel nas demais atividades culturais negras do país. A partir desta premissa, avaliamos o fato de algumas religiões caminharem de mãos dadas com a riqueza, gerando lucros além dos próprios para confirmar a hipótese de que não é interessante que se dê algum espaço as religiões negras por justamente, não darem espaço para o lucro exacerbado.

No terceiro capítulo abordaremos o samba e a cozinha negra. A música, originariamente negra, passando pelo caminho que o gênero musical fez de dentro da senzala até as avenidas carnavalescas, se colocando como uma das principais características dos brasileiros e todo o axé e tempero das iguarias trazidas dos escravizados que ganharam um espaço de fala dentro do país. Como e por que o samba ascendeu a camadas maiores? Ainda há preconceitos com essa música? Até onde a cultura negra chega com suas próprias forças sem a intervenção de preconceitos? Porque a cozinha consegue esse espaço e as atividades de formação de opinião, como a literatura e a filosofia não?

No quarto capítulo, abordaremos o desconhecimento de causa vendido pela mídia. Todas as formas erradas e distorcidas que traços da cultura negra são mostrados para a população aumenta o preconceito e afasta o conhecimento verdadeiro de faces que pertencem a história do Brasil. Palavras desconhecidas, cenários, conceitos invertidos sobre expressões nascidas de berço negro e até a própria cor da pele são transformados para que seja mascarada toda a contribuição do povo preto. As histórias trazidas para toda a população dá o entendimento do verdadeiro descaso com toda a história por trás da fundação do Brasil.

Portanto, a conclusão nos dá a certeza que partes da cultura foram, de fato, apropriadas à revelia do próprio negro. Toda a parcel cultural que pudesse gerar lucro foi dominada, afastada e completamente mudada afim de que pudesse ser usada de forma oposta do seu real significado. Os elementos mais fáceis de serem usurpados, como a música e a culinária, logo começaram a fazer parte do cenário intitulado como brasileiro, por sua diversidade, e não herança negra. Já a religião, fundada com ideias caridosas, sem obter lucro, foi demonizada para não fazer concorrência a denominação mais forte à época, e que influenciou todas as outras religiões que nasceram depois.

3. COM AS BÊNÇÃOS DOS ORIXÁS

A religião, nascida no Brasil uma mistura de crenças e culturas. Nela, é comum encontrar traços das diversidades que acompanham a evolução da história do nosso país. Originalmente, sua raiz mais forte é a africana. O candomblé. A umbanda, que apesar de ter sido registrada em cartório há pouco mais de 100 anos, está presente na história dos negros por dois motivos: Adoração e imposição. Todo traço ritualístico é de matriz africana. Os terreiros de terra batido, os orixás, os atabaques. Herança trazida da África com todos os escravos, que chegavam de diversas regiões do continente e consequentemente, com suas diferentes culturas, e diversas formas de culto ao divino. Ao comum, cultuar a natureza e suas forças eram pontos em comum. Outros traços de religiões também são identificados na umbanda, como o indígena, que também obtinha forte ligação com a natureza, com os animais e as forças mágicas das matas. Oxóssi, um orixá das religiões afros, hoje é comumente ligado a figura do homem índio, guerreiro e caçador.

Por imposição, o traço mais controverso. Nas senzalas, os negros não tinham sua liberdade para cultuar seus orixás. A obrigação de pertencerem a mesma religião de seus senhores os levaram a encontrarem formas de ainda assim, não se afastarem mais de suas origens. Portanto, era comum termos nas senzalas imagens de santos católicos que, aos olhos dos brancos, era a conversão para a religião vista como superior. É preciso lembrar que, quando capturados em suas terras natais, os negros eram considerados objetos e por não serem catequizados, não obtinham a evolução dada por Deus de pensar. Contudo, o pensamento dos negros foi além dos católicos. A associação dos santos, que figuravam nas senzalas, com os orixás começara a existir e assim, a liberdade das ritualísticas foram maiores. Esse traço é trazido para umbanda em dias atuais. É comum vermos imagens de santos católicos nos terreiros de umbanda, mas que na verdade, estão correlacionados aos orixás. Um exemplo é São Jorge, imagem católica que hoje é sincretizado com Ogum, orixá africano. Todos os orixás têm correlação a algum santo católico, incluindo Jesus Cristo, que em terreiros de umbanda, é o orixá Oxalá.

Em suas tendas, a umbanda é orientada pelos seus guias chefes. Portanto, a forma de comportamento dentro dos terreiros é definida por cada entidade que figura em seu dirigente. Então, o que determina se nos terreiros haverá tambores, imagens de santos católicos, práticas católicas, como a quaresma, são as entidades chefes do local, espíritos que se dizem evoluídos por participarem de diversas vidas encarnadas na terra, e trazendo consigo, as experiências vividas nos tempos passados. Por isso, muitas dessas práticas realizadas pelos escravos nos séculos passados ainda estão vivas nas ritualísticas. Os ensinamentos não passam apenas pelas histórias de pai para filho, mas também dos espíritos para seus médiuns.

A partir disso, conseguimos entender todas as influências que frequentam a religião afro brasileira; Influência essa que ajudou a fundar, especificamente, a primeira tenda de umbanda no Brasil, em 1908. Considerado o pai da religião, Zélio Fernandino de Morais, criador da tenda espírita nossa senhora da Piedade, com 17 anos, teve sua primeira manifestação em uma casa espírita. Vindo de uma família católica, o rapaz apresentava algumas enfermidades que o impediram de seguir a vida militar, seu sonho. Procurava a cura para seus problemas na medicina, com frequentes visitas ao psiquiatra, mas também no misticismo, com sessões de exorcismo. Zélio também participou dos rituais de mesa branca, o kardecismo, religião baseada nos ensinamentos de Allan Kardec, francês considerado pai do espiritismo. Em uma dessas participações, Zélio sofre o fenômeno chamado de incorporação.

Na umbanda, a incorporação é o principal caminho para as realizações das sessões de atendimento ao consulente. Esse fenômeno se coloca a partir do momento em que o médium aceita receber a presença de uma vibração considerada espírito de luz. Essa força espiritual entra em conexão com a mente do médium, que dá passagem para que assume seu corpo, sua fala e seu processo locomotor. O processo de incorporação é considerado antigo em meio às religiões existentes, que trabalham com essa prática há maior tempo, em comparação com a religião afro brasileira. O espiritismo, o Candomblé e até mesmo o catolicismo já apresentaram durante sua história processos ritualísticos de incorporação.

Como explicado, o fenômeno traz no corpo de uma pessoa, uma força espiritual que se porta como um espírito evoluído, frequentador de várias encarnações de vida passadas, trazendo consigo experiência suficiente para ajudar outras almas. Foi o que aconteceu com Zélio Fernandino de Morais. Um espírito, denominado como Caboclo das sete encruzilhadas, se apresentou para os frequentadores do local onde se realizava o ritual de kardecismo se colocando como arquétipo do índio brasileiro, com palavras de força e apoio aos mais pobres, propondo uma nova forma de tratamento com o divino.

Mircea Eliade nos dá em seu livro - O sagrado e o profano - um apontamento para entrarmos em área específica de grande percepção do preconceito. A religião Afro-brasileira é o braço da cultura negra que mais sofre com as diferenças das religiões europeias que dominaram os países colonizados, a fim de neutralizar qualquer tipo de malignidade e rebelião.

A partir disso, Mircea traça caminhos para explicar, primeiro, o que é considerado sagrado, e posteriormente, o que esse significado pode representar para o homem:

"O homem toma conhecimento do sagrado porque este se manifesta, se mostra como algo absolutamente diferente do profano. A fim de indicarmos o ato da manifestação do sagrado, propusemos o termo hierofania. Este termo é cômodo, pois não implica nenhuma precisão suplementar: exprime apenas o que está implicado no seu conteúdo etimológico, a saber, que algo de sagrado se nos revela. Poder-se-ia dizer que a história das religiões – desde as mais primitivas às mais elaboradas – é constituída por um número considerável de hierofanias, pelas manifestações das realidades sagradas (Mircea, 1992, p. 13)".

Hierofania, para Mircea, representa a forma mais consciente de demonstração do sagrado, se manifestando nos objetos do nosso universo. Nesta perspectiva, o sagrado é algo fora do comum visto e vivido na sociedade. Em época que a igreja católica dominava grande parte do mundo, o sagrado, na visão do homem, era tudo aquilo representado dentro dos cultos católicos. Assim, tudo diferente visto de outros povos e culturas, eram tratados como não sagrados, ou profanos.

Mircea exemplifica tais cenários em outra citação:

"O homem ocidental moderno experimenta um certo mal-estar diante de inúmeras formas de manifestações do sagrado: é difícil para ele aceitar que, para certos seres humanos, o sagrado possa manifestar-se em pedras ou árvores, por exemplo. (Mircea, 1992, p. 13)".

Em seu encontro com índios, e especialmente os negros, a visão católica se deparou com cultos aos deuses que se manifestavam por elementos da natureza, sua adoração e formas de construção e manutenção da vida em sociedade baseada nas crenças de suas religiões. A diferença logo foi notada e tratada, como dito acima, de forma combativa. O profano, contrário do sagrado, foi posto em igualdade com o maligno, assim, desde a época da colonização e da escravidão, as práticas religiosas vindas dos povos considerados inferiores, foram conceituadas em imagem do mal, que faz parte dos preceitos religiosos ensinados nos estudos das religiões euro centristas. A presença de algo maligno, portanto, mostrava que qualquer coisa feita diferente daquilo que a igreja ensinava, era considerada errada.

Mircea expõe também o poder do espaço físico, além do espiritual, para afirmar com maior veemência, sua afirmação em relação ao sagrado:

"Vemos, portanto, em que medida a descoberta – ou seja, a revelação – do espaço sagrado tem um valor existencial para o homem religioso; porque nada pode começar, nada se pode fazer sem uma orientação prévia – e toda orientação implica a aquisição de um ponto fixo. É por essa razão que o homem religioso sempre se esforçou por estabelecer se no “Centro do Mundo”. Para viver no Mundo é preciso fundá-lo – e nenhum mundo pode nascer no “caos” da homogeneidade e da relatividade do espaço profano. (Mircea, 1992, p. 17)".

Portanto, podemos entender que o espaço físico adorado pelo homem não é homogêneo, ou seja, não é igual a qualquer outro local. E em local sagrado, a verdade absoluta de um Deus se torna a única palavra para seguimento e construção de um mundo. Assim, entendemos que na época dos escravizados, a fundação do mundo católico já existia, pois era trazida junto de seus colonizadores da Europa, e suas verdades absolutas tinham de se impor a qualquer outra tentativa de fundação de um sagrado, sufocando, portanto, toda a história religiosa trazida pelos negros de seus países de origem.

3.1. Umbanda x Candomblé

É importante colocar em vista que, depois de mais 100 anos de Umbanda, as práticas realizadas em alguns terreiros já se misturaram as práticas mais tradicionais do candomblé. Essas vertentes criadas e batizadas das mais variadas formas (umbanda branca, umbanda cruzada, umbandomblé, etc.) seguem as formas que seus dirigentes incorporam como corretas para o local. O trabalho visa citar as diferenças das religiões em sua forma tradicional.

Usada como base para criação da umbanda, o candomblé tem ao mesmo tempo, muitas semelhanças com a religião brasileira, mas também muitas diferenças. Os pontos mais distintos são nas formas de tratamento ao público. No candomblé, não há incorporação como trato consultivo. Como explicado anteriormente, na Umbanda, um médium recebe a entidade em seu corpo para trabalharem em conjunto. São as entidades que fazem o trabalho de ligação entre os deuses e o público. A partir delas que se há a consulta. Na umbanda, os deuses maiores, os orixás, não são incorporados para consulta. Eles estão presentes nos terreiros somente para corrente de energia, bênçãos ao terreiro e participações em rituais comemorativos. Os dirigentes que recebem os orixás maiores alegam que não conseguem se expressar e assim trabalhar a consulta às pessoas que frequentam o local. Já no candomblé, toda incorporação é explicada como energia diretamente dos orixás. Os deuses incorporam nos dirigentes e são o canal de ligação com o público. Não há o trabalho das entidades conhecidas e citadas neste trabalho (caboclos, malandros, pretos velhos). Os Búzios são usados no lugar da fala de uma entidade.

É o jogo mais usado em terreiros de candomblé para a consulta dos seguidores dessa religião.

Outra grande diferença é o abate de animais. A prática é usada como um ritual mágico para o Candomblecista. Usado como oferenda, o animal é um presente dado aos orixás em agradecimentos a causas alcançadas, pedidos a serem realizados e nas comemorações realizadas. O abate considerado crucial dentro da religião, pois a redistribuição da energia, o axé, é considerada importante para o seguimento da vida. Os couros dos animais, por exemplo, são aproveitados para os atabaques e instrumentos musicais. O sangue é sagrado e usado como forma de abençoar os locais que realizam os rituais. É considerado um momento de união dos homens e Orixás. A prática do sacrifício é pouco usada nos terreiros de Umbanda, mas o oferecimento dos alimentos é forte como forma de presentear todas as entidades.

As duas religiões caminham juntas, apesar de algumas diferenças citadas, quando o assunto de resume ao preconceito sofrido por ambas. Nos dias atuais, vemos ataques a terreiros e locais sagrados, depredando os espaços religiosos puramente por ódio, pela crença de que de cultua o maligno. A colocação, por parte dos brancos, dos negros em lugar de inferioridade, desde os séculos passados, remete no esvaziamento de sua cultura, levando a até para os lados mais sombrios, somente pelo fato de não compactuar com a mesma forma do pensamento e vivência religiosa. Fato esse que, desde os primeiros séculos foi usado também como forma de não deixar a geração de lucros pela fé ser deixada de lado, como os famosos "pedacinhos do céu", indulgências vendidas pela igreja católica no século XIII e que ocorre até os dias atuais, com outras denominações também se prestando a tais abusos, assunto que vamos tratar no próximo título.

3.2. Religião e lucro

A partir do entendimento em relação às bases das religiões Afro-brasileiras, vemos nos dias atuais a grande indústria religiosa movimentar milhões de reais de diversas formas. A influência da Igreja é antiga e sabida em relação à política, formas de governo e escolha de representantes para que seus interesses sejam sempre favorecidos. Logo, sabemos que todo interesse tem relação com o dinheiro que possa ser adquirido e movimentado, desde a Igreja católica nos séculos anteriores, até às igrejas protestantes evangélicas que hoje são uma forma lucrativa que tem sua enorme influência em todas as decisões que permeiam uma sociedade política e econômica. Em matéria da Folha de São Paulo, em 2013, mostra que igrejas católicas, evangélicas e demais, arrecadaram mais de 20 bilhões de reais em um ano. 31, 7 milhões de reais diários, de acordo com a lei de Acesso à informação, dados divulgados pela Receita Federal. Os templos religiosos, protegidos pela constituição, tem imunidade tributária e dentre esses livros, há inclusive rendimentos de aplicações e ações, considerando abertamente que são geridas como empresas, o que contradiz a fala sobre o principal fundamental da religião, que é a fé, sem cobrar nada em troca. Traçando paralelos com as religiões de matriz africana, não há nada parecido com os formatos geridos pela igreja católica e alguns templos de igrejas pentecostais. O lucro, no caso da umbanda/candomblé não é diretamente ligado aos seus templos. É comum encontrarmos lojas de artigos religiosos espalhadas pelos grandes centros, que movimentam o pequeno comércio e quase sempre é gerida por donos que fazem parte da religião. Como exemplo, a revista Pequenas Empresas Grandes Negócios, traz uma matéria de 13 de março de 2019 apontando uma loja ligada a artigos religiosos que é a primeira a ter franquias espalhadas pelo país. A Origem da Fé, nome da loja fundada por Rafael Jorge, movimentou cerca de 3 milhões de reais em 2018, número irrelevante se compararmos com os 31,7 milhões diários citados acima, que são recebidos pelas igrejas no país.

O contraponto para colocarmos em evidência neste trabalho são as inúmeras casas que usam as religiões para o lucro próprio, fugindo da principal característica das práticas afro-brasileiras: a caridade. Como já citado no primeiro capítulo, a religião tem uma ligação com a natureza que faz com que tudo que seja iniciado, oferecido e praticado seja ligado com o natural. As formas de lucro usadas por essas casas, como a venda de visões do futuro, leitura de cartas e mãos, trabalhos para a volta de pessoas amadas, vão totalmente contra seus fundamentos, então não podem ser encaradas como a essência verdadeira da religião. O contraponto citado é importante para entendermos a grande influência política/financeira das religiões em toda história da humanidade. Hoje, a Igreja Universal do Reino de Deus conta com diversas empresas lucrativas ligadas aos templos religiosos, como uma redação de jornal, editora de livro e gravadora de CD/DVD, que produzem suas próprias formas de interação com as pessoas, e com seu grande alcance, já conseguiu entrar no campo político elegendo o Prefeito da cidade do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, bispo licenciado da igreja. A influência da religião nos regimes de poder é antiga e nos dá a noção de que nunca se caminhou separadamente os interesses pessoais aos interesses da fé. Desde as épocas feudais, com as influências socioeconômicas da igreja católica nos camponeses e Imperadores, a corrupção e forma praticamente total de ensino de como deveria se viver, incluindo a presença de religiosos nas navegações expedicionárias, o apego aos cargos que necessariamente mudam a vida da população é disputado afinco. No Brasil, já é famosa a bancada evangélica, apelido dado aos políticos que foram eleitos em favor de suas posições religiosas, que se colocam à disposição para lutar pelos direitos do que suas respectivas igrejas acham correta, em detrimento da necessidade do povo. Os exemplos em relação a forma de governar para os interesses religiosos começam a tomar conta do cenário, visto que, como citado, o Prefeito do Rio de Janeiro foi eleito por sua base evangélica. A partir de 2020, a Prefeitura anunciou que não disponibilizará mais verbas para que os desfiles do carnaval no Rio de Janeiro seja realizado, entregando o totalmente as mãos de iniciativas privadas. A folia realizada na cidade é altamente lucrativa em relação financeira e o retorno de quem investe é alto, porém, há o embate entre os costumes religiosos que demonizam a festa que justamente carrega um grande traço da cultura negra, o samba, e ainda hoje canta suas histórias de luta e envolvem suas devoções sagradas, colocada assim, por quem elegeu Marcelo Crivella, como culto ao maligno. O samba, citado neste parágrafo, é um dos três comparativos que a hipótese desta tese seja confirmada no próximo capítulo.

4. BATUQUE NA COZINHA

O primeiro termo de comparação para essa pesquisa é o samba. Gênero musical oriundo da cultura africana, hoje é o cargo chefe da “brasilidade” para o mundo. Para entendermos como o samba chega a esse status, voltamos às suas origens. A palavra “samba” divide teóricos quanto seu significado. A primeira linha traz a derivação da palavra árabe “zambra”, dança flamenca cigana, de regiões bascas da Espanha na década de 14. A origem é compartilhada a partir do momento em que ciganos são os principais praticantes da dança, e possivelmente poderiam ter migrado para África com sua cultura. A segunda linha já deriva do continente africano, onde as junções dos dialetos oriundos da Angola formam a língua Kimbundu ou Quimbundo. De forma estrutural, o prefixo “sam” significa “dar”, e o sufixo “ba”, significa “receber”. Do Quimbundo também vem a derivação de “semba”, que significa “umbigada”. Esse tipo de dança foi trazido pelos escravos bantos para as senzalas e praticada dentro das musicalidades afros. Nos batuques, rodas de jongo e rodas de semba, a dança é o caminho mais aceito para a origem do nome do gênero.

Recriminado por ser parte da cultura negra, o samba se associou rapidamente a malandragem carioca quando chega a capital do império trazido pelos negros vindos também da Bahia, e misturado a alguns ritmos que se tocava no Brasil. Tendo o aspecto de dança, era somente praticado, primeiramente pelos negros nas senzalas e, depois, pelos negros libertos que começaram a ocupar os morros em busca de moradias. Instituem se os terreiros de candomblé primeiramente, e após a década de 20, os de umbanda. A música sempre caminhou unida ao sagrado, pois era ali que os negros tinham sua cultura as mãos. E isso tem forte envolvimento com as propostas apresentadas neste trabalho. Como dito acima, tudo que era derivado da cultura afro era rapidamente colocada embaixo do tapete para que não tomasse seu lugar de fala, e de fato. Então, as rodas de samba foram proibidas no rio com o aspecto de crime. Apesar do Presidente Getúlio Vargas ver no samba uma forma de adentrar seus discursos nas camadas mais pobres da população e assim criar os desfiles das escolas de samba, até a década de 60, era tranquilamente possível se deparar com fins de rodas de samba, ou de encontros negros, pela truculência da polícia militar.

Já na cozinha, a história negra no país anda de mãos dadas aos afazeres domésticos, obrigatórios, na casa grande. E a cozinha é uma grande referência disso. Hoje em dia, receitas típicas negras chegaram a aceitação do grande público mesmo ainda existindo preconceito instalado no país. Do desconhecimento aos pratos criados e recriados pelos negros, passando pelo preconceito com as "comidas de santo" e chegando na "brasilidade" da feijoada, o brasileiro de forma geral, aceitou sua origem negra, ou mais uma vez desconhece de onde nasceu tudo que se considera retrato do país?

A história sempre retrata a senhora negra, de bom coração, que vivia na cozinha das grandes casas preparando seus quitutes e temperos sem igual. Seu conhecimento culinário era diferente dos demais e ela logo ganhou a admiração de todos. Mas não saia da cozinha. Talvez a maior representante deste contexto seja a personagem Tia Nastácia, criada por Monteiro Lobato, em 1931. O interessante é que, após 80 anos, a figura do negro na cozinha continua exatamente igual. Na mídia brasileira e seus diversos programas culinários, nenhum chef negro. Nas telenovelas, os empregados ainda são retratados na sua maioria como negros.

Historicamente, toda a cozinha negra vem dos temperos e legumes vindos da terra, plantações, de onde os escravos tiravam o seu alimento. As carnes, sempre restos do que vinham da casa grande, e assim, considerados de segunda mão. Partes não comíveis pelos brancos a época, hoje dão o diferencial para a comida tão exaltada: Feijoada. Os elementos naturais mais uma vez chamam atenção. A cultura africana sempre prezou pelas relações com a natureza, já vistos neste trabalho. Assim, as misturas dos temperos africanos com os plantios brasileiros deram uma nova versão para a culinária servida no Brasil. E assim, séculos se passaram e nos trazem para os dias atuais, onde o que era considerado o "resto", é a comida típica que representa a imagem do país mundo afora. Ora, então podemos presumir que seus criadores, hoje estão fincados e estabelecidos como a elite de seus pratos e de suas mãos saem as representações para o mundo. Mas não é assim. Um artigo realizado pela revista MENU TRIP, em 2017, elenca os 10 melhores chefs de cozinha do Brasil. Nenhum é negro. Suas origens, mais diversas, mas em sua maioria europeia. Brasileiros ou não, assumiram a culinária brasileira como suas paixões e as levaram para o mundo, assumindo também diversos pratos que foram originados pelos negros. E ainda assim, não há nenhum negro na elite do cenário gastronômico nacional. O paralelo tem de ser traçado quando visitamos a Bahia, estado com maior população negra, e na base da cadeia encontramos as baianas, mulheres negras, que tem na sua culinária a forma de sustento de vida. Com seus carrinhos e barracas simples, vende acarajés, cocadas e vatapás, enquanto no topo da cadeia, os chefs renomados não contam com nenhuma figura negra.

4.1. Ligação do samba e da cozinha com a religião

Vindo dos terreiros, o batuque presente no samba tem ligações muito mais profundas do que somente parte da cultura como sua música. Na religião, os orixás cultuados têm seus “batuques” específicos. Explicando, no ato do culto umbandista/candomblecista, os responsáveis pela música mudam suas formas de ritmar o ritual de acordo com a reunião que está acontecendo no momento. A partir disso, a ligação das escolas de samba com a religião já começa de acordo com sua especificidade com os orixás. Dependendo de qual santo é seu guia, protetor, a escola tem sua bateria ligada à sua forma ritmada, ou seja, o formato de como é tocado o samba tem raiz com a forma de celebração feita dentro dos terreiros. Um outro ponto são as cores. Muitas das escolas carregam suas cores inspiradas em seus orixás. Exemplo dos acadêmicos do Salgueiro, que carrega o vermelho como sua cor forte em alusão ao orixá padroeiro da casa, Xangô. Nos anos 1960, as escolas passaram a exaltar os orixás e a sua cultura negra nas letras. O país se encontrava em uma questão que seus intelectuais e escritores propunham um projeto de país que incorpora tradições mais populares. Essa exaltação às suas origens rapidamente voltou a ser reprimida, com a chegada da ditadura. Em 1974, por exemplo, a Vila Isabel teve de mudar seu enredo as ordens dos militares. A escola iria exaltar os índios Carajás, que em sincretismo afro-brasileiro, são os caboclos, entidades representativas dos índios vividos em tempos antigos no Brasil. O enredo foi mudado para a construção da Transamazônica, estrada construída em período ditatorial.

Esse aspecto traz o primeiro questionamento: Considerado inferior as culturas europeias instaladas no território, hoje é geradora de lucros. Em 2019, a Confederação Nacional de Comércio de Bens, Serviços e Turismos estipulou que o carnaval arrecada para o país mais de 6 bilhões de reais. No Rio de Janeiro, mais de 7 milhões de pessoas movimentaram os dias de folia. 1,6 milhões de turistas estiveram na cidade carioca, com uma receita de 3,78 bilhões, recorde de arrecadação da história. O samba nos dias atuais é sinônimo de dinheiro. E este não é totalmente revertido para suas origens negras. Hoje, as grandes empresas veem no carnaval a oportunidade de ganho, lucro. De certa forma, a aceitação dessa parte da cultura negra se dá pelo que ela pode te retornar como interesse. Na avenida, hoje já se vê desfiles patrocinados por empresas privadas. Algumas escolas “vendem” seus enredos para diferentes interessados que não tem qualquer ligação com a origem do samba como patrimônio negro. Exemplo: A grande rio contou a história da empresa Vale, que na época ainda era chamada de Vale do Rio Doce, em 2003, como tentativa de melhorar a imagem humana da empresa. Cerca de 2 milhões de reais foram pagos para a agremiação de Duque de Caxias. Aos carnavais de rua, também são sentidas o peso das imposições feitas pelas empresas que não tem ligação cultural com a música, dança e celebração. Hoje, é comum vermos blocos de rua sendo patrocinados por empresas que em troca pedem exclusividade na comercialização dos produtos durante o percurso da folia. Áreas VIPS tomam conta de grande parte da festa, ocupando um espaço que naturalmente seria do povo. Grandes artistas nacionais e internacionais são pagos pelas empresas para emprestarem sua imagem aos locais patrocinados e “abrilhantar” as festas, seja nos blocos de rua ou até mesmo no sambódromo.

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Já a culinária, representa sua devoção aos orixás. Todas as suas oferendas alimentícias para cada um dos santos têm de ser diferentes. Acredita-se que em terra, os orixás eram membros de suas respectivas realezas e assim, seus pratos sempre estão bem bonitos e arrumados. As histórias sobre cada comida são antigas e se tornaram sagradas. Um orixá, por exemplo, não gosta de um certo tipo de comida que o outro possa gostar. A oxalá, por exemplo, não se dedica bebidas alcoólicas, mas a Exu sim. Um outro assunto polêmico a ser tratado são as oferendas animais. Usada constantemente para apontar a religião como maligna, o desconhecimento de causa mais uma vez adentra a questão. Na umbanda e candomblé, as energias dos alimentos são dedicadas aos santos, e os animais também são encarados como alimentos. Acredita-se que o alimento colocado nas ruas, em pontos de força específicos para cada orixá, tenha também um outro significado. Não se tem certeza plena sobre o assunto, mas no período de escravidão, como os brancos nutriam medo pela religião negra, além de, sim, ser dedicado aos santos, algumas dessas oferendas eram disfarçadas para que outros escravizados fugitivos pudessem se alimentar, quando estavam em busca de um quilombo, de sua liberdade. Vivemos em uma sociedade consumista que conta com grandes monopólios alimentícios, que usam de carnes animais para seu lucro. Já é sabido bois, frangos, galinhas e peixes são criados em cativeiros para ser unicamente abatidos para o consumo e não deixar a roda do dinheiro parar de girar. Dentro da religião, tudo que se é oferecido, é aproveitado, então, a energia da oferenda animal é dada aos orixás, mas a carne é consumida dentro do próprio terreiro. Aos que fazem os animais sofrerem, costurando suas bocas ou os amarrando para tentar obter algum benefício próprio nesse pedido oferendado, não fazem parte da religião de forma pura e simples.

Discutir o lugar de fala é importante neste sentido pois esse representa a importância da voz das minorias, com algumas ressalvas. É importante que o debate seja amplo e que outras vozes sejam ouvidas no diálogo. Vemos algumas radicalidades nos discursos e isso enfraquece movimentos. Exemplo: Homens que possam assumir discursos pró feministas. Apesar de não ser o lugar de fala masculino, é importantíssimo que haja a participação do gênero que historicamente praticou o machismo, rebaixando as. No caso desta tese, pode se colocar como um contraponto se usarmos esse exemplo justamente para dizer que é importante que todas as pessoas falem sobre o samba, sobre a cozinha. O fato é que não há o conhecimento de causa para que se fale. O falso pertencimento demonstra, indicado ao longo do capítulo, um desconhecimento de sua história como parte do povo brasileiro. O branqueamento das partes afasta o autor de sua verdadeira cultura. Em seu livro sobre o tema, a filósofa Djamila Ribeiro mostra que o conceito sobre o lugar de fala é inferiorizado no país, mostrando, que as vozes minoritárias são caladas ou retiradas as oportunidades das próprias falarem:

"No Brasil, comumente ouvimos esse tipo de crítica em relação ao conceito, porque os críticos partem de indivíduos e não das múltiplas condições que resultam nas desigualdades e hierarquias que localizam grupos subalternizados. As experiências desses grupos localizados socialmente de forma hierarquizada e não humanizada faz com que as produções intelectuais, saberes e vozes sejam tratadas de modo igualmente subalternizado, além das condições sociais os manterem num lugar silenciado estruturalmente. Isso, de forma alguma, significa que esses grupos não criam ferramentas para enfrentar esses silêncios institucionais, ao contrário, existem várias formas de organização políticas, culturais e intelectuais. A questão é que essas condições sociais dificultam a visibilidade e a legitimidade dessas produções. Uma simples pergunta que nos ajuda a refletir é: quantas autoras e autores negros o leitor e a leitora, que cursaram a faculdade, leram ou tiveram acesso durante o período da graduação? Quantas professoras ou professores negros tiveram? Quantos jornalistas negros, de ambos os sexos, existem nas principais redações do país ou até mesmo nas mídias ditas alternativas?" (Djamila, 2017, p xx)

A história traz o embranquecimento de fatos importantes, os englobando de diversas formas, seja apenas se apropriando ou até mesmo dividindo o discurso com a colocação de novas cores de pele, onde o cidadão pode ser encaixar e "esvaziar" todo o problema sofrido pela cor mais prejudicada. O conceito expressado no lugar de fala caminha paralelamente com um novo termo que está em grande evidência, o Blackfishing. O termo, que surgiu na internet, aponta para casos diversos de influenciadores digitais se apropriam da cultura negra para obtenção de lucro pessoal. A absolvição do visual e dos traços negros é extremamente recente e acontece justamente quando o lugar de fala se torna importante, ao que tudo mostra que todos os discursos e posicionamentos de figuras negras deram um princípio de espaço. Digo princípio porque ainda não vemos os negros ocupando todas as camadas da sociedade igualitariamente. Assim, a internet deu espaço para que discuta se todos os problemas e preconceitos sofridos, e atingindo ótimos resultados, porque atinge justamente a maior parte do país que é negra, e sofrem as mesmas coisas. O ótimo resultado chama atenção de quem possa visar uma oportunidade de lucrar, mais uma vez, com aspectos negros, e a discussão sobre o Blackfishing é voraz. Os exemplos são muitos se colocarmos o termo paralelo a apropriação cultural. Artistas famosos se apoiam no visual negro para atingir diferentes camadas, e assim, mais lucro.

A cantora Anitta é constantemente acusada quando, no começo da fama, opta por cirurgias plásticas para afinar seus traços, buscando o fenótipo branco. A partir disso, no auge de seu sucesso, coloca tranças nagôs e sobe o morro para gravar clipes de suas músicas internacionais, querendo vender sua imagem como uma negra, de fato.

Figuras 1 e 2

(Imagens: Foto 1: correio 24 horas/Fábio Guimarães e Foto 2: site Veja. Abril/) montagem feita pelo site correio 24 horas.

Outros influenciadores digitais também estão sofrendo acusações de apropriação, por começarem a disputar posições que são de negros, e que foram conquistadas a duras penas. Posições vencidas no grito de empoderamento, mas também de dor. Assim, o espaço que é relativamente novo mostra que o saldo das longas décadas de apropriação e sofrimento colocaram a maior parte dos negros em posição de extremo ódio, praticando entre eles até mesmo o preconceito velado do Brasil. O colorismo, importante, foi usado de ponta cabeça para justificar que negros de pele mais claras estejam tentando ocupar o espaço de negros de pele mais escura, e não para apontar que o preconceito praticado no Brasil não é somente colorau, mas estrutural. Há um longo caminho de debate e enfrentamento para que se perceba que negros são negros, independente de pele mais clara ou mais escura, e que esses têm na união, a única forma de caminho para uma vitória de suas aceitações.

5. AJAYÔ!

Um artigo divulgado pela Carta capital aponta a grande ascensão da população pobre pelas políticas públicas assistencialistas que foram implantadas no último governo. A grande maioria da população negra do país, que está acamada nas mais baixas classes econômicas da sociedade, começou a ter poder de compra e participar ativamente do mercado. Se antes a única participação era como mão de obra, o povo negro consumiu muito mais do que o normal, e a partir deste ponto, as grandes empresas viram o poder que tinham em mãos para ganhar mais e mais dinheiro. Recentemente, a hashtag #senãomevejonãocompro tomou conta das redes sociais como uma forma de protesto para identificação de mais personagens negros participando de campanhas publicitárias em evidência na mídia. Levando em consideração que maior parte da população brasileira é constituída por negros, não seria nenhum problema a maioria do povo dominar as peças promocionais como chamariz mercadológico. Entretanto, não é isso que ocorre.

Acerca dessa colocação, o artigo apresenta uma afirmação sobre o texto acima:

“Entendemos que temos uma nova questão que é proporcionalidade e colorismo. Ou seja, não basta a empresa colocar apenas um negro de pele clara. Se temos mais de 50% da população negra, o comercial precisa ser proporcional (carta capital, 2018)"

Das telenovelas que representam a Bahia, território mais negro do Brasil, totalmente branca, aos comerciais que representavam Machado de Assis, escritor negro e brasileiro, como indivíduo branco único capaz de ter chegado a esse sucesso, a cultura comercial é mais um traço do preconceito. Hoje é comum associarmos diversos pontos da cultura negra sem saber realmente a sua origem. Da música a comida, das roupas aos cabelos, hoje está na moda ser negro. Apropriação cultural ou verdadeiramente traços da cultura de quem construiu a história do país?

Segundo o professor e antropólogo da USP Kabengele Munanga definição de negro no Brasil é política. A divisão entre negros e pardos dá a possibilidade de interpretações quanto sua origem e seu papel. Portanto, todo aquele que tem alguma parte negra em sua história, deveria ser considerado negro, mas não é isso que acontece no Brasil.

Em sua fala, ele aponta uma diferença de nossa abordagem com a interpretação de outros países:

“Nos Estados Unidos, o grupo mestiço não é
individualizado como tal, nem na mentalidade coletiva, nem
na prática social, nem nos textos legais. Os recenseamentos
demográficos oficiais contabilizam somente brancos e negros.
O que mostra que as categorias "branco" e "negro" não são
apenas biológicas, mas também sócio-políticas. (Munanga, 1999, p.19) ”

O professor traça historicamente, todo o caminho percorrido pelos mestiços no Brasil, da chegada dos escravizados até os dias atuais. Assim, uma forma de estudo sobre o caso se tornou uma definição: colorismo. Citado na fala trazida pelo artigo, fazemos a ligação comercial atual com a história. A forma de tratamento dado às pessoas pelo seu tom de pele, acentua a afirmativa de Kabengele em relação ao negro. O preconceito é maior ou menor a partir do tom de pele trazido em seu corpo. Aos que tem a pele mais clara, chamados popularmente de morenos, a oportunidade de ser tratados como pardos pela política, afasta de fato sua identificação com sua origem negra. Por isso, a mestiçagem, de acordo com Munanga, é continuamente usada para dividir a luta de quem é oprimido e perpetuar a dominação da cultura que se acha superior.

O debate acerca da mistura de raças é antigo, como aponta Kabengele Munanga:

“A pluralidade racial nascida do processo colonial representava, na cabeça dessa elite, uma ameaça e um grande obstáculo no caminho da construção de uma nação que se pensava branca, daí por que a raça tornou se o eixo do grande debate nacional que se travava a partir do partir do fim do século XIX e que repercutiu até meados do século XX. (Munanga, 1999, p.51) ”

Em sua história, nunca se assumiu o preconceito por tratar o povo como mestiço. A mistura de raças é, de fato, um retrato do Brasil. Mas não totalitário. Toda base e origem tem sua grande parte negra. Roberto Damatta traz em seu livro O que faz Brasil, Brasil? (1986) um capítulo acerca da ilusão das relações raciais no Brasil durante sua história, e ilustra as diferenças do preconceito sofrido nos EUA e no Brasil. Assim, a "máscara" com o fato de que a mistura das raças é um orgulho estampado no peito de qualquer brasileiro é colocada à frente da história massacrante do processo de escravidão vivido pelos negros e índios.

"Tal associação permite dizer que, no Brasil, ao contrário do que aconteceu em outros países — e eu penso aqui, sobretudo, nos Estados Unidos —, não ficamos com uma classificação racial formalizada em preto e branco (ou talvez, mais precisamente, em preto ou branco), com aqueles conhecidos refinamentos ideológicos que, na legislação norte-americana, eram pródigos em descobrir porções ínfimas daquilo que a lei chamava de “sangue negro” nas veias de pessoas de cor branca, que assim passavam a ser consideradas pretas, mesmo que sua fenotipia (ou aparência externa) fosse inconfundivelmente “branca”. (DaMatta, 1986, p. 35) ”

O Brasil é a segunda maior população negra do mundo, somente atrás da Nigéria. Não assumir um preconceito em tamanha população negra foi, e é uma das principais bengalas para a exclusão de toda a cultura negra, pois, se não há a percepção de dívida com uma parte da sociedade, porque exalta lá e dar o seu devido espaço?

Desde 2003, o ensino sobre a África e a história dos negros se tornou obrigatório nos ensinos fundamentais e médios. A lei 10.639 estabelece que os professores de fato, digam como se formou a sociedade brasileira e sua base negra, dando valor a sua cultura e todo traço histórico trazida consigo.

Apesar disso, são diversos os exemplos vindos da população e da mídia que nos dá base para a construção dessa hipótese. Traços culturais negros são vistos em abundância nas produções de televisão, cinema e música, mas nem sempre dá forma como verdadeiramente ela existe.

Exemplos:

  • Carlinhos Brown: Integrante da academia do Oscar, indicado ao prêmio em 2012 com a canção original do filme “RIO”, é um importante instrumento de avaliação. Músico, negro e baiano, tem suas origens na raiz da música negra. Fundou a Timbalada, grupo de músicos que tem seu nome oriundo do instrumento musical timbau, que nada mais é que uma forma de percussão criada no Brasil inspirada nos tambores africanos. Carlinhos é um músico muito respeitado e conhecido fora do país. Indicado 11 vezes ao Grammy latino, ganhando uma vez em 2004. Dentro do território nacional, não tem a mesma importância para uma faixa da população que não se vê representada. Sofre muito preconceito por estar fora dos padrões “aceitáveis” que se espera de um artista. Seu cabelo rastafári, roupas com inspirações africanas típicas, gritos e brados relacionados às religiões africanas, a qual Carlinhos pertence. Seu famoso “ajayô”, entoado por todos quando é puxado por ele na rede globo de televisão, em horário nobre, significa uma saudação a Oxalá, um orixá africano pertencente a umbanda e candomblé. É um artista tipicamente brasileiro. Carrega as raízes dos negros que viveram aqui.
  • Cidade de Deus (2002) - Um dos filmes nacionais mais aclamados tem, em sua construção, uma cena que mostra uma forma inadequada em relação às religiões de matriz africana; O personagem Dadinho (Leandro Firmino) muda seu nome para Zé Pequeno em uma visita feita a um pai de santo (expressão popular para os médiuns responsáveis pela tenda espírita). O personagem pede para que nada de ruim o aconteça, e consequentemente, que possa fazer o mal para chegar em seu objetivo. Essa cena mostra uma errônea forma de entender a religião. O preconceito é mostrado a partir do momento em que o filme ilustra um ritual íntimo que é realizado dentro dos terreiros, ou de forma específica, em locais considerados sagrados para a umbanda, e dá a entender que existe a possibilidade da religião trabalhar para atitudes malignas. É uma inverdade. A umbanda e candomblé são fundadas em cima de um aspecto principal: A caridade. As entidades são consideradas “santas”, portanto, na visão umbandista e Candomblecista, derivadas de Deus, por isso não cometem nenhum tipo de malignidade.
     
  • Sítio do Pica-Pau Amarelo (1920) - O conjunto de histórias escritos por Monteiro Lobato traz dois questionamentos importantes para serem abordados: O primeiro é a figura dos negros presentes na história, que representam arquétipos de entidades pertencentes às religiões: Os pretos velhos. Tia Nastácia e tio Barnabé são típicos negros que são representados na umbanda como o maior dos espíritos evoluídos: Barnabé, com seu cachimbo, chapéu de palha e sua bengala, e Nastácia, a quituteira baiana, de roupas largas e lenço amarrado na cabeça. A questão apontada é de que, mesmo a história de Lobato ter quase 100 anos de existência, é fácil encontrar quem não sabe a real influência da criação dos personagens.

Figuras 3 e 4

Tio Barnabé e Tia Anastácia (Imagens: sitiodopicapalamarelo.fandom.com/)

O afastamento das figuras de sua real origem desvela noção do quanto a cultura negra se perdeu durante sua história. É comum vermos traços culturais negros vivenciados nos dias atuais por uma sociedade que não conhece sua verdadeira identidade. A ignorância, no real sentido da palavra, pode mostrar até mesmo que, por não conhecer a origem dos personagens, muitas das pessoas que se afeiçoaram a história não praticaram algum tipo de preconceito.

O segundo ponto é: As histórias escritas por Lobato trazem um peso de preconceito racial muito grande. Em um de seus contos - Histórias de tia Nastácia (1931) - Os diálogos com a personagem Emília mostram o tratamento dado aos negros empregados em décadas passadas.

“Pois cá comigo - disse Emília - só aturo estas histórias como estudos da ignorância e burrice do povo. Prazer não sinto nenhum. Não são engraçadas, não têm humorismo. Parecem-me muito grosseiras e até bárbaras - coisa mesmo de negra beiçuda, como Tia Nastácia. Não gosto, não gosto, e não gosto! (LOBATO, 1957, p. 30).”
“- Bem se vê que é preta e beiçuda! Não tem a menor filosofia, esta diaba. Sina é o seu nariz, sabe? Todos os viventes têm o mesmo direito à vida, e para mim matar um carneirinho é crime ainda maior do que matar um homem. Facínora!
- Emília, Emília! - ralhou Dona Benta.
A boneca botou-lhe a língua (LOBATO, 1957, p.132).”

A literatura espelha uma sociedade preconceituosa que, disfarçada em contos infantis ou histórias fictícias, mostra como é enraizado o preconceito. Outro ponto é que, Monteiro Lobato tinha nas mãos uma história infantil, dialogando diretamente com os próximos adultos formadores da sociedade brasileira. Externar o preconceito escrito, mesmo que disfarçado, é um risco de se colocar como exemplo para repetição daqueles que são leitores e apreciadores de sua obra. Podemos discutir também o uso palavra escravo. O termo comumente é empregado para identificação dos negros que viveram na época da escravidão do Brasil. Porém, a forma correta de emprego de similar palavra seria escravizada. Ninguém escolhe ser colocado em regime de trabalho forçado em condições precárias, e sim são forçados a tal. O termo escravo dá a ideia de que o sujeito aceita essa condição passivamente. Logo, a colocação da palavra escravo para se referir a um negro, dá a entender que ele, o negro, é um sujeito passivo e sem voz na sociedade.

  • Segundo Sol (2018): Televisão, literatura, música, cozinha. O país é majoritariamente negro, mas não conhece sua história, como ficam evidentes nos exemplos. É comum vermos retratados nas obras, personagens negros ocupando os cenários mais coadjuvantes e irrelevantes na trama. Como já citado neste trabalho, uma telenovela - Segundo Sol, 2018 - retratou a Bahia, cidade mais negra do país, com um elenco de atores brancos. Aos negros, sobraram os papeis de apoio, como empregados, pobres e vilões. Da Bahia, que nascera o candomblé, o samba brasileiro, é levado a população em 2018 de forma semelhante as obras de décadas e décadas passadas que expunham o preconceito racial. No Romance, um cantor de axé é o protagonista principal que finge sua morte para viver no ostracismo. A trama se desenrola e em todos os momentos vemos a preferência da produção pelos atores brancos em comparação aos negros, já que os únicos que participaram foram coadjuvantes com poucas entradas em um local onde seus semelhantes são a maioria.

Figura 5

O elenco principal da novela que se passava na cidade com maior número de negros, era majoritariamente branco (Imagem: Tv Foco/) montagem feita pelo site tv foco
  • Masterchef/ Programas culinários: Fenômenos recentes na mídia brasileira, os programas trazem em seus profissionais, o retrato da cozinha brasileira: Não há negros. Nomes como Paola Carosella, Erick Jacquin, Olivier Anquier e até Buddy Valastro, o "cake Boss", acharam no Brasil, a oportunidade de se colocarem para viver de suas melhores profissões, nada de errado para um país com dimensões continentais. O grande problema é que na cultura do país é muito mais fácil vermos pessoas de fora assumindo a "brasilidade" da cozinha do que os próprios brasileiros ascenderem aos melhores cargos, principalmente os negros. Não há nenhum cozinheiro negro nos programas que fazem parte da grade de televisão aberta do Brasil, que conta com alguns formatos bem-sucedidos, como Masterchef, programa que do canal Bandeirantes que está no ar há 5 anos.

Figura 6

Elenco do Masterchef Brasil, que conta com um brasileiro, um francês e uma argentina (Imagem: entretenimento Band)

A Rede Globo se rendeu ao formato de programação culinária e também lançará seu programa intitulado "Mestre do Sabor". O programa irá ao ar pela primeira vez no dia 10 de outubro e mais uma vez, não há negros entre os profissionais jurados. No SBT, a competição culinária "Bake Off Brasil" também não conta com negros como profissionais, e na rede Record, o chef mundialmente conhecido, o americano Buddy Valastro, também não conta com nenhum. A problemática deste exemplo é que o Brasil tem traços marcantes da cozinha negra em toda sua história. Pratos consagrados que hoje são colocados como a imagem do país, exemplo da feijoada e do acarajé, são preparados por chefes brancos e de outros países que absorveram todo ensinamento vindo dos primeiros negros que desenvolveram o prato e assim fincam seus nomes no cenário sem a presença dos precursores. O país é majoritariamente negro, tem os pratos negros como cartazes pelo mundo, então porque não há negros chefes de cozinha na mídia?

Figura 7

O elenco de jurados do novo programa culinário da Globo, Mestre do Sabor. Apenas uma mulher, nenhum negro (Imagem: Globo/ Victor Pollack)

O que conseguimos entender nestas amostragens é de que, não importa o quão fiel e respeitoso sejam os formatos, e sim se gerarão lucros. É assim que a indústria midiática construiu seus rendimentos em cima da cultura negra. A ilusão da miscigenação como o maior orgulho do brasileiro por ser diverso, construiu um racismo disfarçado, quando contestamos o porque não há a figura do negro em todos esses exemplos, e quando há, representam sempre as camadas mais baixas da população. É certo de que como maior parcela dos brasileiros, os negros ocupam em sua maioria às camadas mais baixas, e por quantidade, também deveriam ser maioria nas camadas maiores. Desde a abolição, a República e contratação de imigrantes europeus para trabalharem nos lugares dos escravizados, a política de extermínio da cor preta em solo brasileiro é tentada, de formas veladas ou diretas. Sem salários e sem política social, os escravizados trocados pelos imigrantes tinham baixa expectativa de vida, nenhuma educação e nenhuma possibilidade de viver em condições humanas até os dias de hoje e as políticas de cotas adotadas pelo governo como um atestado de que o Brasil é um país racista.

6. CONCLUSÃO

A ilusão de que não existe mais nenhum tipo de racismo no Brasil é facilmente quebrada com os dados trazidos na hipótese. Confirma se verdadeira o que a tese nos mostra pelo motivo mais forte do mundo capitalista que vivemos: lucro. A falsa hegemonia do samba, que chega a ascensão depois de criminalizado e da cozinha, grande sensação no mundo pelos temperos brasileiros, mascarou uma posição vivida no país. Posição essa que usa de apropriação das culturas minoritárias, tomando sua voz e seus modos de se expressarem para que haja a maior possibilidade de se retirar, desta minoria, os resultados positivos que receberiam naturalmente com objetivos alcançados. A retirada da voz das minorias é histórica vinda da falsa superioridade branca e apagar outros traços culturais acabou se tornando a forma cruel de imposição de seus pensamentos. A escravidão, a imposição de sua religião, as teorias racistas do século XIX, são exemplos que nos mostram que nunca se pensou de forma humanitária nas minorias em território tupiniquim e o resultado de tal condução é encontramos o povo negro na base da pirâmide estrutural, com os menores índices educacionais e ocupando as maiores parcelas da pobreza. Se desde o começo não se respeitou a cultura de cada povo, não seria diferente agora. Dar voz ao povo negro seria ascender a camada mais pobre para evidência, e isso nunca foi permitido no Brasil. Assim, tomar do menor tudo aquilo que possa ser lucrativo, mascarado de um falso espaço, foi a forma encontrada para que a elite branca continue se perpetuando. Os exemplos são claros e foram citados nesta hipótese.

A dificuldade de usurpar a religião em si contribuiu para que essa continuasse à margem da sociedade. Ela é fundada com dogmas concretos. Sem a caridade, não há umbanda. Logo, sem o todo, alguns pontos específicos foram incorporados em outras culturas. O samba e a cozinha foram introduzidos no cenário "aceitável" por conversar com as maiores classes das formas econômicas. É ilusório acharmos que a cultura negra chegou ao auge. É mentira a felicidade que vemos no palco do falecido programa de televisão Esquenta, da Rede Globo, que dava ao chamado "povão" a alegria de ver alguns negros na TV cantando e exaltando, por uma hora no domingo, suas raízes. Ao momento que os níveis de audiência caem e o lucro diminui, o amor ao negro é chegado ao fim e todo o discurso de agregação some. O carnaval é lucrativo, as grandes empresas investem e o capital gira, mas nunca chega na camada mais pobre que empurra o grande carro alegórico. O embranquecimento é notório quando vemos, por exemplo, a reunião da escola de samba Grande Rio, representante da baixada fluminense ser realizada em um hotel na barra da Tijuca, com convidados escolhidos a dedo, dando as costas para a comunidade. E o nome do evento? "Feijoada da Grande Rio". Elementos esses que puderam ser extraídos pela soberania branca e que não foram encontrados quando partimos para a discussão religiosa. A umbanda e o candomblé são praticados por uma boa parcela da população, das mais famosas ao público mais simples, e na sua maioria, de forma velada. O medo do preconceito afasta a oportunidade de que mais vozes sejam ouvidas e o debate seja aumentado, as condições sejam apontadas. Elementos da religião também foram usurpados para esvaziamento de seus significados, como o exemplo dado sobre a romantização dos negros escravizados na literatura e nas novelas, porém, são pontos específicos, e que não conseguiram trazer para supervisão de uma intervenção branca há modo de que consiga se obter lucros satisfatórios. Em termos festivos, é lindo dizer que o negro faz parte da história do Brasil. O respeito merecido não foi dado, mesmo no uso de suas culturas. A mulher negra ainda é estereotipada no carnaval. As "mulatas" seminuas com corpos estonteantes servem como a imagem da folia, do convite que se quer mostrar ao mundo: inferioridade por coloca-lá como um pedaço de carne e abusando de todo conteúdo machista da sexualidade de uma mulher negra, que é discriminada diariamente por seu cabelo, seus traços e sua "falta de classe". No Brasil, são as negras que mais são assassinadas nos casos de feminicídio.

O desconhecimento da história também é uma forma velada de esconder de onde nasce cada história. As políticas de embranquecimento da pele no Brasil do século XIX também serviu para apagar a memória de toda contribuição dos negros. É comum vermos pessoas exclamando surpresas com o sofrimento dos escravizados ao verem romances na televisão, como telenovelas. Não retratam 10% da barbárie sofrida por esse povo. Logo, é fácil a quem interessa, dizer que a "brasilidade" venceu. A diversidade, o plural, o povo que mais se misturou, que construiu todo o país com trabalho de mãos calejadas, a ele pertence toda a cultura. O samba veio da África. Alimentos como a banana e a mandioca foram trazidos da África para que os negros se adaptassem melhor ao país. E isso não é ensinado na escola básica. Não são mostradas as principais contribuições culturais do povo negro, indígena e o caminho é aberto e livre para a apropriação de pontos que possam ser interessantes a elite intelectual.

Damatta discorre em seu livro o terror que os teóricos americanos racistas tinham da miscigenação. Já no nosso território, vimos a miscigenação ser usada para povoar um território extremamente rico e repleto de interesses de quem o colonizou. Outra formação dos miscigenados foram as barbáries cometidas com as negras escravizadas, que eram usadas como objetos de seu senhorio e muitas vezes engravidavam dessas relações.

O Brasil, de fato, é um terreno extremamente misturado. Portugueses, Índios e negros em primeiro momento. Imigrantes de todas as partes contratados após a abolição em segundo momento. A promessa de um país fértil e agradável trouxe gente de todo o canto e com eles, mascarados, a tentativa de branquear o fenótipo brasileiro da época. Dominado por negros, a tentativa clara e manifesta era dita sem nenhum pudor. A miscigenação tupiniquim teve um interesse maior por trás da simplicidade das relações humanas. Até 1911, no congresso universal das raças, realizado em Paris, o antropólogo João Baptista de Lacerda tinha o discurso que a população brasileira seria "melhorada" em 100 anos pela quantidade dos europeus vindos ao Brasil, que iriam se misturar com os já miscigenados existentes, deixando claro a ideia da superioridade da cor branca. Assim, encontrar quem assume que exista preconceito racial aqui é realmente difícil. A brasilidade é sim usada para te levar ao pensamento que somos perfeitos. O racismo é disfarçado de várias maneiras, mas sempre acaba na cor preta. Encontramos por exemplo, um racismo de classe, dos ricos para os mais pobres, porém, se os negros ocupam a maior parte das menores classes da economia, o preconceito não se transforma em racial? A discussão das cotas mostra o debate muito bem camuflado. Até entre os negros vemos que existe ideias contrárias com a cota existente por cor, querendo somente a cota social. A conversa é superficial pois supõe se que essa cota existe para diminuir a classe, quase isolando a de uma possível oportunidade de disputa entre os brancos. O fato é que está comprovado que, como citado acima, a maior parte dos negros brasileiros estão nas menores classes e por isso frequentam as piores educações que possam prepara-los para o vestibular. A cota social já engloba a maioria dos negros, mas a racial também é extremamente importante pois abre mais um espaço para que os negros adentrem as universidades, obtendo outro lugar de disputa. Negros disputam com negros na racial e também na social. A elite branca continua com as maiores facilidades por estarem com a melhor educação, muitas vezes frequentando as instituições que são feitas especialmente para essa disputa universitária. Esse é um claro exemplo da dificuldade do debate no Brasil, extremamente abafado. Assim, apontar que exista a apropriação das culturas minoritárias é arrevesado pelos escudos sociais construídos durante muito tempo.

7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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[1] Ilê: casa de candomblé, terreiro como um todo;

[2] Axé: na língua iorubá, significa poder, energia ou força presentes em cada ser ou em cada coisa. Nas religiões afro-brasileiras, o termo representa a energia sagrada dos orixás. O axé pode ser representado por um objeto ou um ser que será carregado com a energia dos espíritos homenageados em um ritual religioso.


Publicado por: Robert Matheus Fernandes Barbosa Ferreira

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