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Perspectivas de Mitigação dos Vieses Inter-Raciais Implícitos e Explícitos Baseadas em Estudos Científicos

Medicina

Compreender a temática dos vieses inter-raciais, à luz da ciência, objetivando tecer melhor entendimento sobre a problemática e, principalmente, valendo-se do empirismo científico para nortear práticas que visem estreitar as lacunas da discriminação racial de âmbito social e organizacional.

índice

1. RESUMO

O objetivo principal dessa monografia foi a apresentação de perspectivas de mitigação dos vieses inter-raciais implícitos e explícitos baseadas em estudos científicos. Para tanto, o método empregado foi a pesquisa de publicações científicas sobre o tema, em bases referendadas, de pesquisadores renomados nas áreas da neurociência e da cognição social. A fundamentação teórica dividiu-se em contextualização dos vieses implícitos e explícitos, contemplado as bases neurais adjacentes à formação dos preconceitos e estereótipos. As teorias da mente foram apresentadas correlacionando o funcionamento mental dos vieses cognitivos ao conceito ‘dual attitudes’, assim denominado com base em construções conceituais e empíricas e com base na teoria do novo inconsciente. A discussão também reverbera no método de associação implica, hoje utilizado pela maioria dos laboratórios de pesquisas, que permite a análise de escores nos níveis de vieses implícitos e explícitos dos participantes. A segunda divisão da contextualização, pautou-se em pesquisas e análises de estudos proeminentes cujos resultados semearam o campo para que o objetivo principal fosse desenvolvido, apresentado e refletivo com base nas melhores práticas empregadas, levando-se em conta a eficácia na mitigação dos vieses, ao longo do tempo. A discussão compilou toda a narrativa do trabalho, apresentando tanto conceitos quanto reflexões e inferências baseadas nos resultados e escores de todos os experimentos propostos, com suas respectivas análises de eficácia e discussões futuras que deverão ampliar o campo de conhecimento teórico experimental à luz de intervenções cada vez mais efetivas e abrangentes em pontos que carecem de respostas mais contundentes. A conclusão, por fim, apresenta uma proposição de intervenção, em parte considerando as melhores práticas dos estudos científicos, em parte compilando a experiência prática de vivência do cenário corporativo, cuja intenção é a implementação de projetos de testes, com controle e aferição de dados.

Palavras-chave: neurociência, ciência social, vieses implícitos, vieses explícitos julgamento, estereótipos, ‘dual process’ ‘dual atitudes’, mente, consciência, tai.

ABSTRACT

The main objective of this monograph was the presentation of perspectives for mitigation of implicit and explicit inter-racial biases based on scientific studies. Therefore, the method used was the research of scientific publications of the subject in consistent databases of renowned researchers in the areas of neuroscience and social cognition. The theoretical foundation was divided into contextualization of implicit and explicit bias, contemplating the neural bases adjacent to the formation of prejudices and stereotypes. Theories of mind were presented by correlating the mental functioning of cognitive biases with the concept of 'dual attitudes', based on conceptual and empirical constructions and based on the theory of the new unconscious. The discussion also reverberates in the method of association implies, nowadays used by most of the research laboratories, that allows the analysis of scores in the levels of implicit and explicit bias of the participants. The second division of contextualization was based on research and analysis of prominent studies whose results allowed to deepen in the main objective of this work, based on the best practices used for the mitigation of bias over time. The discussion compiled the whole narrative of the work presenting concepts, reflections and inferences based on the results and scores of all the proposed experiments. All studies present efficacy analyzes and suggestions for future discussions that should extend the field of theoretical-experimental knowledge to more effective and comprehensive interventions where there is a need for more assertive answers. Finally, the conclusion presents an intervention proposition considering the best practices of the scientific studies and the practical experience of the corporate scenario. In this sense the intention is the implementation of pilot projects with intensive monitoring and data analysis.

Keywords: neuroscience, social science, implicit biases, explicit biases judgment, stereotypes, 'dual process' 'dual attitudes', mind, consciousness, iat

2. INTRODUÇÃO

O tema diversidade tem sido amplamente discutido no Brasil e no mundo. Diversidade implica em elemento implícito ao contexto social e organizacional, levando-se em conta as diferentes raças, as questões de gênero e de identidade sexual, as diferenças biológicas, culturais e até religiosas que fazem parte da ampla gama de idiossincrasias da humanidade. Entretanto, embora a realidade seja imutável e amplamente caracterizada, a convivência com os aspectos da diversidade tem sido um desafio passível de amplas discussões multidisciplinares por filósofos, sociólogos e antropólogos, incluindo pesquisadores das áreas da psicologia social e da neurociência. Anexo à diversidade, encontra-se toda uma gama de preconceitos e estereótipos cujos efeitos compõem o drama da inclusão de todos na complexa teia social e organizacional, adjacente à globalização. O que, em tese, sequer deveria ser passível de discussão e cuja premissa faz parte da Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU1 (Organização da Nações Unidas), em seus artigos 1 e 2, ipsis litteris, respectivamente, parece persistir em nossa sociedade: (i) todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade; e (ii) todo ser humano tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, idioma, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição.

Abstendo-se de discussões filosóficas, obviamente de não menor importância, a ciência tem se debruçado na questão trazendo à tona o conceito dos vieses implícitos e explícitos, os quais serão amplamente elucidados na contextualização desse trabalho.

De acordo com publicação da Australia National University (2015), existem mais de 150 categorizações de vieses cognitivos já identificados pelos pesquisadores. Para distintas categorias existe uma gama de publicações científicas relacionadas a resultados de estudos muito bem documentados, onde se percebe a complexidade, não somente no que tange à sua clarificação, como também de suas perspectivas de minimização. O tema central discorrido estratifica os vieses inter-raciais implícitos e explícitos que se observa entre pessoas ou membros de distintas raças. Como contextualizado por Molenberghs (2013) a identidade racial é apenas uma das muitas dimensões que as pessoas se utilizam para classificarem-se como pertencentes a um determinado grupo, considerando a existência de distintas categorizações como idade, gênero, classe social, educação, dentre outros.

O preconceito e estereótipo raciais, entretanto, dizem respeito às diferenças biológicas entre grupos e, portanto, de ordem natural. De acordo com Santos et al (2010) o conceito de raça engloba características fenotípicas, como cor da pele. É importante salientar que existe diferença entre os conceitos de raça e etnia. Ainda segundo Santos et al (2010) a etnia, além de compreender a fenotipia, engloba fatores culturais, como a nacionalidade, a língua, a religião e as tradições de um determinado grupo. Devidamente conceituado, os vieses inter-raciais têm origem em diferenças morfológicas entre raças. Considerando que o genoma humano é composto de 25 mil genes, as diferenças mais aparentes como cor da pele, textura do cabelo e formato do nariz, são determinadas por um grupo insignificante de genes e, portanto, as diferenças entre um negro africano e um branco nórdico, por exemplo, compreendem apenas 0,005% da proporção genotípica humana. No Brasil, de acordo com o IBGE2 (Instituto Brasileiro de Geografia Estatística), o censo demográfico do ano 2000 investigou a raça ou cor da população brasileira através da autoclassificação em: branco, preto, pardo, indígena ou amarelo. Na distribuição da população brasileira por cor ou raça de 2016, conforme a Agência IBGE3, os dados apontaram 44,2% de brancos, 8,2% de pretos, 46,7% de pardos e, os restantes 0,9%, de amarelos e indígenas. Na categoria de pardos, temos as pessoas que se classificam como mulatos, caboclos, cafuzos, mamelucos ou mestiços de preto com pessoa de outra cor ou raça. O IPEA4 (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), assim como a maioria dos institutos e autores, atribui a categoria dos negros, composta pelas raças preta e parda. Cada nação tem a sua própria classificação racial. Nos Estados Unidos o censo populacional é realizado pelo U.S. Census Bureau5, sendo definido por brancos, pretos ou afro-americanos, asiáticos, hispânicos ou latinos e índios americanos.

Diante da estatística de densidade racial no Brasil, a população de negros são maioria e é notório a falta de visibilidade positiva à cultura afro-brasileira. A Fundação Tide Setúbal6 publicou em 2017 o mapa do viés racial das desigualdades. Os dados são alarmantes e podem ser conferidos. O que chama a atenção, todavia, é a seguinte percepção:

“Embora nos dados o viés racial da desigualdade seja claro, a teoria de que no Brasil a desigualdade é somente social, e não racial, ainda é defendida por muitos. A tese sustentada é de que, se a população negra possui menor renda, piores trabalhos e menor escolaridade, isso se dá apenas por ocuparem historicamente posições sociais mais baixas, sem que haja qualquer conexão com sua cor. A crença de que o Brasil escapou do racismo e da discriminação racial vista em outros países é um dos pilares do mito da Democracia Racial, teoria que surgiu no final do Segundo Império e defendia que, graças à miscigenação e a um espírito de tolerância e harmonia, aqui haveria a ausência de preconceito e discriminação racial. Deste modo, enquanto a mobilidade social dos brasileiros poderia ser reduzida por vários fatores, como sexo e classe social, a discriminação racial seria considerada irrelevante.” (Fundação Tide Setúbal, 2017)

Muito se pode compreender sobre os vieses raciais aprofundando-se na extensa literatura sobre o conceito de democracia racial, ao longo da história. O recorte que aqui se faz, no entanto, é que o viés histórico de que o Brasil não é um país racista, vem sendo descontruído com dados da realidade. Coube ao sociólogo Gilberto Freyre (1930) em sua obra-prima Casa Grande & Senzala, modelar esse mito. Toda a narrativa literária é construída a partir de uma perspectiva de classe e gênero muito específica – a relação entre o senhor e o escravo, o branco e o negro, o patriarcalismo brasileiro e suas principais vítimas, as mulheres e crianças negras. Entre sutilezas, dicotomias e paradoxos, o que Freyre enfatiza é que o viés racial em relação aos negros e sua posição na sociedade brasileira, deriva de sua condição de escravo. “O que, no texto de Freyre, era uma maneira de combater o racismo, na ideologia da democracia racial é uma forma de negar a sua existência a priori e, desse modo, perpetuá-la (...) Dizer que nossa sociedade não é racista hoje seria falsear uma realidade. Desejar que num futuro próximo a etnia não seja levada em conta é uma maneira de se engajar na luta contra uma realidade abjeta.” (Melo, 2009).

O sociólogo Hasenbalg (2005), falecido em 2014, explica que entre o final do Segundo Império e o início da República já se acreditava que o Brasil teria escapado do preconceito racial e que o mito da Democracia Racial brasileira vem do fato de que as elites políticas e intelectuais promovem uma realidade utópica delineada pela harmonia e tolerância racial, pela ausência de discriminação racial, mascarando a realidade. Outro dado histórico que parece contribuir com o preconceito racial é a ideologia do branqueamento (entre final do século XIX e início do século XX) – sob a alcunha de darwinismo social – onde se acreditava que a raça negra avançaria genética e intelectualmente ou até desapareceria em gerações futuras, pela miscigenação entre brancos e negros:

“A tese do branqueamento baseava-se na presunção da superioridade branca, às vezes pelo uso dos eufemismos raças “mais adiantadas” e pelo fato de ficar em aberto a questão de a inferioridade ser inata. À suposição, juntavam-se mais duas: primeiro – a população negra diminuiria progressivamente em relação à branca. segundo – a miscigenação produziria ‘naturalmente’ uma população mais clara, em parte porque o gene branco seria mais forte e em parte porque as pessoas procurariam parceiros mais claros [...].” (Skidmore, 1976, p. 81)

Colocando uma lupa na questão, pesquisas vêm sendo realizadas para compreender melhor o papel implícito da discriminação racial nas organizações. De acordo com o Financial Times7 (2018) o Brasil possui a segunda maior população de negros do mundo, depois da Nigéria, ultrapassando os 100 milhões em 2018, conforme dados já apresentados pelo IBGE. Em 2016 o Instituto Ethos8 realizou uma extensa pesquisa nas 500 maiores empresas do Brasil constatando que os negros são apenas 4,7% dos cargos executivos, sendo que as mulheres negras representam apenas 0,6% nessa estatística. Além disso os negros ganham em média 30% a menos, comparados aos brancos e possuem menor taxa do índice empregabilidade. A desigualdade racial não é exclusividade do Brasil. Os números, entretanto, colocam-no no epicentro do assunto.

O economista Eduardo Giannetti em sua obra publicada em 2016 - Trópicos Utópicos - Uma Perspectiva Brasileira da Crise Civilizatória - “oferece um esboço da utopia do anacronismo-promessa chamado Brasil”. Em 124 micro ensaios abrange o que ele define como os “três ídolos da modernidade”: a ciência, a tecnologia e o crescimento econômico. Na primeira parte a narrativa conclui que a ciência falhou ao tentar elucidar os mistérios do mundo e o sentido da vida. Na segunda, aborda que os avanços tecnológicos, por mais disruptivos que sejam, jamais levarão ao completo domínio sobre a natureza. A terceira parte, que chama atenção para a presente introdução, fundamenta que o crescimento econômico, e os ganhos que a civilização obtém através dele, não é capaz, necessariamente, de aprimorar a intelectualidade e o arcabouço ético da humanidade. Na quarta e última parte, o autor propõe que se discutam as utopias enraizadas na identidade e no caráter brasileiros, como forma de resolver os impasses descritos nas três sessões anteriores. Giannotti defende que “o brasileiro troque o sentimento de inferioridade em relação ao estrangeiro pela identidade mestiça como um caminho civilizador”:

“O ‘vira-latismo’ brasileiro poderia gerar uma civilização original, que nos reflita e que ofereceria uma alternativa ao modelo anglo-americano dominante no planeta. Cada cultura é portadora de valores e de uma visão da melhor vida. O que não podemos no Brasil é vivermos a ideia de que somos um fracasso e uma cópia desastrada de um modelo e de um padrão que nunca alcançamos. A maturidade de uma cultura é a tranquilidade de ser o que se é – de não se submeter a métricas de sucesso que não são as nossas. O mundo asiático e europeu parece estar rendido a uma visão da melhor vida que é a do padrão ocidental da vertente americana. Isso ocasiona um empobrecimento e um estreitamento do horizonte imaginativo do planeta.” (Entrevista de Giron à Giannetti, Revista IstoÉ, ed. 2555 07/12)

Giannetti recrudesce e reacende a questão da Democracia Racial, não propriamente adotando esse termo, provocando reflexões contundentes sobre a fragmentada identidade brasileira e sobre o complexo de inferioridade frente a culturas ‘de primeiro mundo’. O darwinismo social, embora sua ‘extinção formal’ tenha se dado no início do século XX, parece ainda assombrar o inconsciente coletivo nacional na tentativa incoerente de extirpar a essência cultural (inferior) do brasileiro. O economista defende que essa ‘crise de identidade’ torna o Brasil uma cópia malfeita de modelos socioeconômicos globalmente dominantes, em detrimento de suas próprias métricas e assunção ‘de ser o que se é”, conforme palavras do próprio Giannetti.

O presente trabalho visa compreender a temática dos vieses inter-raciais, à luz da ciência, objetivando tecer melhor entendimento sobre a problemática e, principalmente, valendo-se do empirismo científico para nortear práticas que visem estreitar as lacunas da discriminação racial de âmbito social e organizacional. Parafraseando Robertson Davies9: "o olho vê apenas o que a mente está preparada para compreender”. O trajeto é longo e não sem percalços, porém, toda a contribuição em direção à conscientização sobre um desafio que desafia a natureza humana, é válida. Um dos melhores trechos de Casa Grande & Senzala estampa a face obscura da discriminação racial no Brasil:

“Todo brasileiro, mesmo o alvo, de cabelo louro, traz na alma, quando não na alma e no corpo – há muita gente de genipapo e mancha mongólica no Brasil – a sombra, ou pelo menos a pinta do indígena e do negro. No litoral, do Maranhão ao Rio Grande do Sul, e em Minas Gerais, principalmente do negro. A influência direta, ou vaga e remota, do africano. Na ternura, na mímica excessiva, no catolicismo em que se deliciam nossos sentidos, na música, no andar, na fala, no canto de ninar menino pequeno, em tudo que é expressão sincera de vida, trazemos quase todos a influência negra. Da escrava ou sinhama que nos embalou. Que nos deu de mamar. Que nos deu de comer, ela própria amolegando na mão o bolão de comida. Da negra velha que nos contou as primeiras histórias de bicho e de mal-assombrado.” (Freyre, Quintas, 2002, p.301)

3. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

4. Contextualização: Vieses Implícitos e Explícitos

“Os aspectos subliminares de tudo o que acontece conosco podem parecer pouco importantes na vida cotidiana, [mas] são as raízes quase invisíveis de nossos pensamentos inconscientes.” (Carl Jung)

4.1 Vieses Implícitos

Embora existam, atualmente, várias correntes e iniciativas sociais e corporativas alinhadas em defesa da diversidade, os preconceitos continuam a emergir alimentando conflitos grupais, disparidades, estereotipagem e discriminação. Contrastando com uma era onde a valorização da diversidade, inclusive amparada por direitos civis, tem se intensificado, vê-se que os preconceitos e estereótipos resistem, ainda que moralmente inaceitáveis.

Primeiramente, faz-se necessário definir preconceitos como (i) avaliações de respostas afetivas em relação a um grupo social e seus membros; e estereótipos como (ii) atributos conceituais associados a um grupo e seus membros (geralmente por meio de supergeneralização), que podem se referir a traços pessoais (exemplo, não inteligentes) ou características circunstanciais (exemplo, pobres) (Amodio, 2014). Ainda segundo Amodio (2014) muitos dos preconceitos operam secretamente e, muitas vezes, de forma inconsciente. Tais pressupostos dificultam, por si só, o intento de minimizá-los.

Os Vieses Implícitos podem, então, ser definidos como percepções e respostas baseadas em preconceitos e estereótipos que operam fora do limite da consciência humana. Na literatura da psicologia social um preconceito resulta em atitude em relação a um indivíduo, com base em sua participação no grupo, e são percebidos por refletir uma preferência a membros de um grupo interno seguida de contrariedade a membros de um grupo externo. Em decorrência, tais interações enviesadas precedem emoções e valorações que vão do amor e orgulho, ao medo, nojo e ódio (Amodio, 2014). Em contraste, os estereótipos representam o componente cognitivo provido de atributos conceituais apensos a determinado grupo definido por específica cultura ou sociedade. Isso posto, os estereótipos se configuram através de memória semântica que lida com palavras, símbolos ou significados.

“Embora sejam distinguíveis pelo conteúdo e pelo processo, preconceitos e estereótipos geralmente operam em combinação para influenciar o comportamento social. Além disso, ambas as formas de viés podem operar implicitamente, de tal modo que podem ser ativadas e influenciar julgamentos e comportamentos inconscientes.” (Amodio, 2014)

“Associações afetivas versus semânticas podem ser aprendidas, moduladas e desaprendidas por meio de processos muito diferentes”, escrevem Amodio, Devine (2009), “e, portanto, pode ser importante medir e conceber associações afetivas e semânticas de forma independente”. Por meio de estudos empíricos é possível aos cientistas não somente medirem como também identificarem no encéfalo quais construtos neurais e tipos de memórias estão associados, correspondentes a ativações, na caracterização dos vieses de um indivíduo.

Madva, Brownstein (2016) partilham da teoria de distinção entre os atributos de preconceitos e estereótipos e defendem constituir duas construções separadas que podem refletir em processos mentais e sistemas neurais distintos. Tal fundamentação remete à questão de que preconceitos e estereótipos devam se valer de intervenções distintas na tentativa de minimização da discriminação. Argumentam ainda que todos os preconceitos implícitos supostos são carregados de afeto e que os estereótipos implícitos, por sua vez, são de origem semântica. Associações afetivas versus semânticas podem ser aprendidas, moduladas e desaprendidas por meio de processos muito diferentes e, portanto, parece ser importante medir e conceber associações afetivas e semânticas de forma independente. Já Gawronski, Bodenhausen (2014) validam que, conceitualmente podem ser diferentes, porém sem distinção funcional, ou seja, partilhariam do mesmo tipo de construção mental. Dessa forma, as deduções citadas caracterizam os vieses implícitos como um conjunto de associações semântico-afetivas, relacionadas à estereótipos e ao preconceito, respectivamente.

As implicações dos achados de Amodio (2014) e Madva, Brownstein (2016) sugerem que o IAT test10 (Implicit-association Test) ou TAI (Teste de Associação Implícita), em português, deveria prever a distinção entre ambos os atributos implícitos, tanto na eficácia de suas percepções, quanto na definição de estratégias distintas de mitigação. De acordo com Madva, Brownstein (2016):

“A versão mais influente e empiricamente testada do modelo de dois tipos de estados mentais implícitos é apresentada em uma série de artigos de Amodio, Devine e colegas. (...) Amodio e Devine descobriram que a maioria dos participantes exibiam vieses estereotipados e avaliativos implícitos, mas que esses vieses não eram correlacionados entre si.” (Madva, Brownstein, 2016)

Há uma vastidão de estudos científicos relacionados aos vieses implícitos e, embora não haja consenso quanto a particularidades conceituais e achados empíricos, existem pesquisadores líderes nessa linha de pesquisa cujas divergências não se invalidam entre si, ao contrário, complementam-se na desafiante tarefa de elucidar o funcionamento, em nível de processos mentais e ativações neurais, da discriminação. A façanha de tecnologias como a ressonância magnética funcional ou functional magnetic resonance imaging11 (fMRI) elevou a neurociência à era de ouro em relação ao conhecimento do encéfalo humano, principalmente nas últimas duas décadas. Mapear os construtos neurais adjacentes ao preconceito e estereótipos é, sem dúvida, o melhor caminho para desenvolver métodos de trabalho cientificamente embasados. A combinação de novas técnicas de imageamento funcional possibilitou a elaboração testável de hipóteses sobre a geração das emoções e da consciência humana (Lent, 2016). Nesse sentido, no tópico seguinte, cabe o aprofundamento dessas descobertas, considerando os estudos de Amodio (2014), Azevedo et al (2013), Molenberghs (2013) e demais pesquisadores correlatos.

4.2 Bases Neurais envolvidas nos Vieses Implícitos

É relativamente recente a pesquisa das bases neurais dos preconceitos e estereótipos, por parte dos neurocientistas, na elucidação sobre os processos através dos quais os vieses implícitos se formam, influenciam o comportamento e são regulados.

A classificação anatômica do encéfalo humano corresponde a três macroestruturas: (i) cérebro, que abrange o telencéfalo (córtex cerebral e núcleos da base), e diencéfalo; (ii) cerebelo (córtex e núcleos profundos); e (iii) tronco encefálico (mesencéfalo, ponte e bulbo):

“O telencéfalo, parte mais volumosa do encéfalo humano, divide-se em núcleos da base, caracterizado por estruturas de substância cinzenta composta pelo núcleo caudado e o putâmen e pelo córtex cerebral. O conjunto dos núcleos da base tem participação importante na coordenação dos movimentos, junto com o cerebelo e o córtex cerebral. A parte mais importante do telencéfalo é o córtex cerebral que interpreta, em última instância, as informações sensoriais gerando percepções ‘de quem somos e do que somos capazes’. É responsável também pelo planejamento, programação e envio de comandos à medula espinal para a motricidade. No córtex cerebral situam-se a maioria das informações ‘gravadas’ na memória, sendo responsável por focalizar ou dispersar a atenção em algo, além de, por seu intermédio, ocorrer a compreensão e emissão da fala e da mímica correspondente. (...) O diencéfalo é composto por vários núcleos, dentre eles o tálamo – que participa na recepção, integração e transmissão de informações sensoriais destinadas ao córtex - e o hipotálamo – responsável pela integração de diversas respostas endócrinas, autonômicas e comportamentais essenciais para a sobrevivência, participando também na expressão das emoções. (..) O mesencéfalo desempenha funções de natureza sensorimotoras, ou seja, de interpretação entre o ambiente percebido pelos principais sentidos e as respostas motoras necessárias. São essas as três macros estruturas cerebrais telencéfalo, diencéfalo e mesencéfalo, de maior relevância no entendimento do comportamento e das emoções humanas.” (Lent, 2016, p. 29-32)

Para Damásio (2012, p.18-9) a emoção não é uma abstração mental intangível ou ilusória e sim um processo que surge da interação corpo-cérebro. A emoção, dessa forma, poderia se traduzir em duas ações sequencias entre os estados de ter (físico) e sentir (mental). Ter uma emoção é quando, através de uma lembrança ou de situações reais, o cérebro provoca alterações corporais – alterações dos batimentos cardíacos e da pressão arterial, sudorese, por exemplo. Sentir uma emoção é quando o cérebro registra essas alterações no corpo. É o estado subsequente do processo, quando essas emoções são identificadas como pertencentes ao self (ao eu). Como argumenta Lent (2016), Damásio formulou uma teoria neurocientífica, a mais útil na sua visão, para explicar as origens biológicas do self e da consciência, haja vista que essa teoria é testável.

Para Damásio (2015, p. 25-6) a consciência é uma grande peça sinfônica e o principal ingrediente da mente que, do contrário, limitaria o encéfalo humano a constructos neurais. A consciência humana pode ser separada em tipos complexos e simples, bem documentados por meio de dados neurológicos. A consciência central, o tipo mais simples, fornece ao indivíduo “um sentido do self concernente a um momento – agora – e a um lugar – aqui”. Essa consciência não vislumbra o futuro e o único passado que ela consegue perceber é aquele ocorrido no instante anterior. Já a consciência ampliada, do tipo mais complexo, fornece um sentido do self – uma identidade – situando o indivíduo em sua autobiografia temporal: “situa a pessoa em um ponto do tempo histórico individual, ricamente ciente do passado vivido e do futuro antevisto, e profundamente conhecedora do mundo além desse ponto”. Por exemplo, esse self central permite ter sensações como dor e prazer, sem necessariamente a pessoa refletir sobre suas ocorrências. É uma entidade transitória recriada incessantemente para cada situação ou contexto com o qual o cérebro interage – é o aqui e agora. Já o self (ampliado) autobiográfico permite que além da senciência – capacidade de sentir (as sensações) de forma consciente – haja a reflexão sobre essas sensações:

“O self autobiográfico depende de lembranças sistematizadas de situações em que a consciência central participou do processo de conhecer as características mais invariáveis da vida de um organismo: quem o gerou, onde, quando, seus gostos e aversões, o modo como habitualmente se reage a um problema ou conflito, seu nome, etc. Uso a expressão memória autobiográfica para denotar o registro organizado dos principais aspectos da biografia de um organismo.” (Damásio, 2015, p. 26)

Para Damásio, ‘o sentimento de ter um sentimento’, a consciência de uma emoção, surge quando a representação das mudanças no cérebro e no corpo são re-representadas como causa e consequência – ou seja, nessa visão, consciência e emoção são inseparáveis. Evidências nos estudos relativos à pacientes neurológicos de Damásio (2012, 2015), por exemplo, demonstram que o comprometimento de certas estruturas do proto-self12 - precedente biológico pré-consciente ao self, na suposição do autor - compromete todos os níveis de consciência, o que apoia a proposição de que a representação do corpo é o nível mais básico da consciência. A consciência do sentimento, por exemplo, alerta o indivíduo para a situação que provocou a emoção, incentivando o planejamento de formas adaptativas novas e adequadas para cada situação e contexto (Lent, 2016). Conclusivamente, baseado em Damásio (2012, 2015), as emoções e sentimentos são as essências no processo de tomada de decisão, de julgamentos, moldando a razão e o discernimento humanos. Na relação entre o self autobiográfico e o inconsciente:

“Não estamos conscientes de quais memórias armazenamos e quais não armazenamos, de como armazenamos memórias, como as classificamos e organizamos, como inter-relacionamos memórias de tipos sensoriais variados, de diferentes assuntos e de diferente importância emocional. Em geral, temos pouco controle direto sobre a ‘força’ das memórias ou sobre a facilidade ou a dificuldade com que elas serão recuperadas na evocação. (...) A situação é a mesma para as memórias que constituem nossos registros autobiográficos.” (Damásio, 2015, p. 184-5)

De acordo com Amodio (2014) “para o neurocientista, os preconceitos sociais são sustentados por estruturas neurocognitivas de nível básico, mas suas expressões são guiadas por objetivos pessoais e expectativas normativas desempenhadas em contextos diádicos e intergrupais”. David Amodio13, Professor Associado de Psicologia e Ciências Neurais da New York University, desde 2011, é um dos referendados cientistas cujas pesquisas examinam os papéis da cognição social e emoção na regulação do comportamento humano e os mecanismos neurais subjacentes a esses processos - em grande parte no contexto do preconceito e da estereotipagem. Em seus estudos descreve as estruturas neurais chaves, incluindo as funções e papéis neurocognitivos do preconceito e da estereotipagem. Suas pesquisas sobre o preconceito focaram-se principalmente em diferentes substratos neurais envolvidos na emoção e na motivação, como a amígdala, a ínsula, o estriado e as regiões dos córtices frontais orbitais e ventromediais.

“O preconceito implícito tem sido associado ao condicionamento do medo envolvendo a amígdala, enquanto as associações estereotipadas parecem refletir sistemas conceituais de aprendizagem envolvendo o córtex temporal e o córtex pré-frontal” (Amodio, 2014). O complexo amigdalóide, em sua definição precisa, está localizado nos lobos temporais direito e esquerdo. A amígdala cerebral está envolvida em respostas automáticas associadas ao medo, cujo condicionamento passa por um processo associativo de aprendizagem. Ela recebe aferências diretas (ou quase) de todos os órgãos sensoriais, respondendo rapidamente a ameaças ambientais antes mesmo de um processamento mais elaborado de tal estímulo. Um estudo para examinar o momento e a função da resposta da amígdala a imagens relativas a diferentes raças, realizado por Amodio et al (2003), utilizando o método startle eyeblink14, revelou significativamente maior atividade startle (de sobressalto) em resposta a rostos negros se comparado a rostos brancos ou asiáticos. Ao demonstrar essa resposta diferencial à raça negra com um índice associado à atividade do núcleo central da amígdala, esse resultado implicou mais diretamente o condicionamento ao medo como um mecanismo subjacente ao preconceito implícito. Lent (2016) corrobora com Amodio definindo a amígdala como uma estrutura potencialmente chave na integração de informações sensoriais às respostas comportamentais e fisiológicas, principalmente para estímulos que sinalizam perigo, inclusive em interações inter-raciais.

Shkurko (2013) realizou meta-análise15 de trinta e três estudos de fMRI envolvidos na investigação dos mecanismos comprometidos com a categorização social. Os resultados relataram ativações seletivas para diferentes grupos sociais, considerando a referência ‘nós e eles’ para a hipótese da oposição ingroup/outgroup, ou seja, membros de um mesmo grupo em contraposição a membros de grupos externos. Constatou-se favoritismo ingroup e preconceitos associados à diferentes categorias socias, inclusive raça, outgroup. A pesquisa de dados foi realizada no Google Acadêmico e PubMed usando o termo ‘fMRI’ com um dos seguintes atributos: (i) ‘categorização social’; (ii) ‘status social’; (iii) ‘grupo social’; (iv) ‘ingroup’; e, (v) ‘outgroup’. A análise final, baseada em ‘estimativas de probabilidade de ativação’ ou activation likelihood estimation16, revelou certos agrupamentos mais comumente envolvidos na categorização social. Para a condição ingroup, os maiores aglomerados integram: córtex cingulado anterior, região amigdalóide esquerda, incluindo o globo pálido e o putâmen, e parte posterior do giro cingulado. Já a condição de outgroup, revelou a amígdala esquerda e a ínsula direita como os maiores aglomerados. A conclusão, na época da meta-análise, é que essas últimas estruturas estão mais tipicamente envolvidas em respostas a alvos sociais discriminatórios e, as primeiras, parecem ser sensíveis aos membros do grupo interno, indicando preferência e auto referência entre semelhantes. Estratificando os resultados de Shkurko (2013) quanto ao construto amigdalóide, tem-se: (i) maior envolvimento da amígdala esquerda e regiões adjacentes na resposta seletiva a grupos alvos de discriminação; (ii) participação crucial para o processamento implícito e rápida avaliação social; (iii) maior frequência de ativação (mas não exclusiva) na condição de grupo externo. Outros estudos similares, apesar de conterem certas variações, apresentaram resultados passíveis de semelhantes inferências.

A ínsula17, também pesquisada por Amodio (2014), pequena região do córtex cerebral localizada dentro de uma fissura proeminente do cérebro denominada sulco lateral, que separa os lobos frontal e parietal do lobo temporal, relaciona-se com os estados somatossensoriais, incluindo respostas viscerais, e emoções relacionadas a tais estados, como nojo e repugnância. Acredita-se que regiões da ínsula posterior forneçam a representação primária de sinais interoceptivos, enquanto regiões anteriores suportam a representação cognitiva desses sinais, que fornece uma ligação com o córtex cingulado anterior e o córtex pré-frontal, envolvidos na consciência subjetiva da emoção e do controle cognitivo. Portanto, a porção anterior da ínsula é mais frequentemente associada a aspectos da cognição e da emoção social, onde o pesquisador especula que, por meio dessas conexões com o córtex cingulado anterior e o córtex pré-frontal, facilita-se a capacidade de se detectar e regular comportamentos com base em uma resposta afetiva negativa. Achados em estudos de neuroimagem sugerem que a atividade da ínsula está associada a reações viscerais negativas implícitas de brancos em relação a negros.

Harris, Fiske (2006), em complementação, apresentam resultados intrigantes, do ponto de vista moral, em suas pesquisas. Considerando a neurociência social, pautaram-se na investigação sobre quais construtos neurais seriam significativamente mais ativados em um modelo de conteúdo de estereótipos (stereotype content model), definido por quatro quadrantes: (i) de baixa competência e de baixo calor, como os viciados e os sem-teto; (ii) de alta competência e de alto calor, como a classe média e os atletas olímpicos americanos; (iii) de alta competência e de baixo calor, como as pessoas ricas e os profissionais de negócios; e, (iv) de baixa competência e de alto calor, como as pessoas idosas e os deficientes. As análises revelaram, mais fortemente, a ativação do córtex pré-frontal medial para os grupos (ii), (iii) e (iv), corroborando com a relação entre essa estrutura neural e a cognição social, exceto para o grupo (i). Para esse grupo periférico as áreas ativadas corresponderam especialmente à ínsula e à amígdala, consistentes com a emoção de nojo, conforme relatos de Amodio (2014). A hipótese é a de que membros de grupos sociais extremos (baixo-baixo) sejam ‘desumanizados’, ou seja, que estejam à margem da consideração humana, da sociedade. Harris, Fiske (2006) relatam que “o nojo é a única entre as emoções previstas pelo stereotype content model que pode ter como alvo humanos ou não-humanos, tornando as pessoas funcionalmente equivalentes a objetos”. Corroborando com esses achados Yunzhe et al (2015) relatam:

“Descobrimos que, comparados aos rostos enojados dos grupos internos, os rostos enojados dos grupos externos resultam em aumento do envolvimento da amígdala e da ínsula, com acoplamento positivo da ínsula com a amígdala e com acoplamento negativo da ínsula com o córtex cingulado anterior (...) De acordo com este argumento, o acoplamento positivo entre ínsula e amígdala é preditivo do preconceito racial implícito do indivíduo, no presente estudo. Por outro lado, o aumento do acoplamento ínsula – córtex cingulado anterior negativo, ao ver rostos desagradáveis ​​fora do grupo, pode indicar uma falha na regulação cognitiva deliberada ou na inibição de respostas prejudiciais”. (Yunzhe et al, 2015).

Estes e outros estudos semelhantes sugerem que atividades na ínsula relacionadas à empatia, dependem do grau de afiliação social com a vítima. Azevedo et al (2013) descrevem:

“Confirmando a hipótese de viés no grupo a ínsula anterior bilateral foi encontrada mais ativa, em resposta à dor, em membros da própria raça do que de indivíduos fora do grupo. Consistentemente, o padrão de atividade autonômica simultânea também revelou respostas pupilares maiores à dor dos indivíduos do grupo interno versus do grupo externo. Tal viés, paralelamente a atividade no córtex cingular anterior, confirma maior envolvimento emocional com a dor de membros de uma mesma raça.” (Azevedo et al, 2013)

As pesquisas de Azevedo et al (2013), combinando fMRI a eventos com medidas de reatividade autônoma - no caso dilatação da pupila - investigaram como as atitudes em grupos raciais afetam as respostas neurais autonômicas associadas à empatia, pela dor. No estudo relatado, foram utilizados métodos implícitos e explícitos, visando explorar os mecanismos subjacentes a possíveis respostas empáticas à dor, relacionadas a indivíduos de raças distintas. Foram utilizados modelos de pessoas da raça branca e negra, sendo que todos os indivíduos caucasianos eram de origem italiana e os negros nascidos em países africanos - Burundi, Camarões, Congo, Nigéria e Tunes. O resultado final da análise, comparando as respostas BOLD18 (Blood Oxygenation Level Dependent) e autonômicas associadas à observação de estímulos de dor em (i) mãos da própria raça, (ii) mãos de outra raça e (iii) raça ou pele violeta (hipotética), variaram. Foram observados aumento da atividade autonômica e de atividades cerebrais na ínsula, em resposta a dor da própria raça, expandindo a noção de reatividade empática outgroup. Fato interessante é que a percepção da dor na raça hipotética provocou menos atividade na ínsula bilateral e no córtex cingulado medial anterior, o que sugere menor motivação em resposta a modelos raciais dissonantes. Conclusivamente:

“Embora os seres humanos possam ser programados para ter empatia com todos, eles parecem preferencialmente ressonar com a dor de indivíduos pertencentes ao mesmo grupo social.” (Azevedo et al, 2013)

Outra estrutura investigada (Amodio, 2014), o corpo estriado, um componente dos gânglios da base que compreende o núcleo caudado e o putâmen, apresenta relatos de ativação caudada mais proeminente quando voluntários de estudo viram rostos brancos em comparação a rostos negros. Essa diferença foi associada a uma preferência implícita por membros brancos do grupo. O corpo estriado está amplamente envolvido em processos de aprendizado e recompensa, incluindo o comando de respostas direcionadas a objetivos e hábitos, por meio de conexões bidirecionais com o córtex pré-frontal, via núcleo caudado, e com áreas motoras, via putâmen, estrutura localizada no telencéfalo, envolvida em atividades de condicionamento. O estudo de Huebner (2016) enfatiza haver uma rede de mecanismos no estriado ventral, na amígdala e no córtex orbitofrontal, com associações entre estímulos e eventos biologicamente significantes, ou seja, sistemas pavlovianos19 distintos, que teriam evoluído em busca de insumos básicos à sobrevivência, tanto quanto à recompensa sexual e trocas sociais. Infere que tais sistemas são narcisistas, por si só, ao rastrear relações associativas relevantes a propósitos privados, embora, saliente o envolvimento de múltiplas fontes de recompensa e de punição orientando escolhas biológicas e socialmente significativas.

Dasgupta (2013, p. 236) contribui para todo esse entendimento e descreve que atitudes implícitas são conceitualmente distintas do que ele conceitua como respostas explícitas auto relatadas e conscientes, ou seja, quando o observador é cônscio de suas avaliações e opiniões. Esse estado de consciência, que se distancia do condicionamento medular, enfatiza, habilita-o a reivindicar suas próprias atitudes e consequências com suficiente motivação e esforço para mudanças atitudinais. Fala-se aqui em dois sistemas cognitivos e operativos distintos que deu origem a teoria ‘dual-process’, a qual será oportunamente abordada com elementos empíricos que elucidam múltiplas complexidades e considerações envolvidas na relação implícita e explícita dos julgamentos e estereótipos, nem sempre tão bem duais e determinísticas em seus papéis, como será demonstrado.

Amodio (2014) relata que outra importante estrutura envolvida no comportamento social é o córtex pré-frontal medial, que abrange a área de Brodmann 820, ao longo da parede medial do córtex frontal, superior e anterior ao córtex cingulado anterior. O córtex pré-frontal medial, região de processamento altamente associativo, possui interconexões proeminentes com o córtex cingulado anterior, bem como com a ínsula, o córtex frontal orbital e o córtex pré-frontal dorsolateral e demais estruturas. No contexto da cognição social a atividade do córtex pré-frontal medial tem sido associada principalmente à formação de impressões sobre outras pessoas, especialmente àquelas que exigem processos mentais, como a perspectiva empática em relação ao outro. De fato, o córtex pré-frontal medial na região ventral tem demonstrado ser mais altamente ativado quando um sujeito vê os membros de grupos estimados associados com orgulho e admiração (por exemplo, bem-sucedidas) do que quando um sujeito vê membros de grupos de baixo status, associados com repulsa e desrespeito (por exemplo, pessoas desabrigadas). Respaldando essa dedução Bzdok et al (2013), através de meta-análise de estudos de neuroimagem arquivadas no banco de dados BrainMap21, relacionada à cognição social, demonstrou que o córtex pré-frontal ventromedial foi seletivamente associado à tarefas de recompensa enquanto o córtex pré-frontal dorsomedial foi seletivamente associado à tarefas de recuperação de memórias episódicas. Ambas as estruturas foram associadas ao processamento social, emocional e facial. O córtex pré-frontal ventromedial se mostrou mais intimamente conectado aos construtos mediais límbicos, relacionados à recompensa e, funcionalmente, associados ao processamento de estímulos relevantes para a abordagem e para a evitação. Já o córtex pré-frontal dorsomedial apresentou maior conexão a áreas associativas corticais de níveis mais elevados, além de áreas corticais do lobo frontal, temporal e parietal lateral. Funcionalmente, o córtex pré-frontal dorsomedial demonstrou estar associado ao processamento de estados mentais e memória episódica.

Como citado anteriormente infere-se que estereótipos reflitam associações conceituais, residentes na memória semântica, entre grupos sociais relacionados a um conjunto particular de atributos. Dessa forma postula-se que vieses estereotipados envolvem regiões do lobo temporal, associados a memórias semânticas e, especialmente, do lobo temporal anterior. O lobo temporal anterior é uma estrutura implicada na representação do conhecimento social e interconectada com regiões do córtex pré-frontal medial, associadas aos julgamentos de traços e à formação de impressões, sugerindo que a informação social representada no lobo temporal anterior é selecionada no córtex pré-frontal medial no processo de cognição social. Estudo com fMRI, voltado a examinar a atividade neural representativa dos julgamentos de indivíduos brancos e negros, com base em características estereotipadas, no caso atletismo, versus avaliações, no caso potencial para amizade, realizado por Gilbert, Swencionis (2012), demonstrou que os estereótipos e os julgamentos avaliativos implícitos sociais correlacionavam-se com ativações no lobo temporal anterior. Assim como em Amodio (2014) e Madva, Brownstein (2016) esses achados remetem a sistemas cerebrais distintos e independentes em comportamentos avaliativos e estereotipados. A síntese desse estudo revelou que o córtex pré-frontal medial anterior está preferencialmente envolvido em julgamentos de estereótipos ou traços raciais e, diferentemente, no lobo temporal esquerdo registrou-se preferencialmente medidas comportamentais de vieses avaliativos durante os julgamentos de interações sociais inter-raciais.

Mitchel et al (2009), utilizando-se de fMRI em seu estudo, identificaram padrões de atividade neural associadas a estereótipos na avaliação psicológica de outro indivíduo, com resposta BOLD, em extensa região do córtex frontal direito. Diferentemente do viés racial, a investigação consistiu em mapear os construtos adjacentes a associações estereotipadas, amplamente sustentadas, de gênero. Nesse estudo, embora diversas regiões cerebrais distinguirem entre a aplicação e a não aplicação de estereótipos, apenas a modulação do córtex frontal direito foi correlacionada com o índice comportamental de estereotipagem, sugerindo o desempenho de importante papel funcional lateralizado, tanto na aplicação quanto na supressão de estereótipos. Os achados demonstraram que:

“Quando os participantes usavam um estereótipo de gênero para inferir a preferência de um alvo (por exemplo, julgando que o alvo feminino gostaria de comprar roupas novas ou que o alvo masculino não o faria), maior ativação foi observada em uma extensa região do córtex frontal direito - isso quando os participantes julgaram um alvo de maneira inconsistente com os estereótipos de gênero. Além disso, a magnitude dessa diferença frontal direita foi significativamente relacionada a um índice comportamental bem caracterizado de estereótipos de gênero, o IAT. Especificamente, quanto mais forte a associação de homens com carreira e ciência e de mulheres com o lar e humanidades, maior será a diferença frontal entre os estereótipos aplicados e os estereótipos não aplicados.” (Mitchell et al, 2009)

Amodio (2014) sugere ainda a existência de estruturas neurais que suportam processos de estereotipagem onde o lobo temporal anterior representa o conhecimento relacionado a estereótipos e forneça dados para o córtex pré-frontal medial, ao que tudo indica, durante a formação ‘online’ de impressões sobre um indivíduo. Dessa forma, os estereótipos sociais armazenados no lobo temporal anterior podem influenciar os processos de impressão de traços associados à atividade do córtex pré-frontal dorsomedial. Juntas, as estruturas dessa presumível rede, podem suportar o armazenamento, a ativação e a expressão comportamental de estereótipos sociais.

Volz et al22 (2009) realizaram um experimento com fMRI dividindo aleatoriamente os participantes em membros de distintas equipes, com base em certas categorias de desempenho. Os participantes tiveram que distribuir dinheiro para membros desconhecidos em seu próprio grupo e fora dele, enquanto suas atividades cerebrais eram medidas usando fMRI. Os resultados demonstraram maior ativação no córtex pré-frontal dorsomedial, córtex cingulado anterior posterior, junção temporoparietal e precuneus. O precuneus23, porção póstero-medial do lobo parietal, parece estar envolvido em estratégias de imagens mentais autocentradas e, na região posterior, no auxílio à recuperação de memória episódica bem-sucedida. Esses resultados foram mapeados quando os participantes estavam engajados em categorização social (isto é, quando tinham que dividir dinheiro com os membros de fora do grupo em comparação à divisão de dinheiro entre membros do grupo), demonstrando favoritismo intergrupo:

“Os dados de imagem revelaram ativação dentro de uma rede centrada no córtex pré-frontal dorsomedial especificamente para processos de identidade social. Além disso, essa ativação mostrou correlação com o viés exibido no grupo. Os presentes resultados demonstram que os processos de identidade social e pessoal utilizam os mesmos correlatos cerebrais e, portanto, conclui-se que uma rede centrada no córtex pré-frontal medial atende a funções relacionadas ao self.” (Volz et al., 2009)

O preconceito, processo social cognitivo complexo, parece ser apoiado por uma rede de estruturas neurais, conforme resultados de estudos relatados, e não por estruturas isoladas. Em síntese, a amígdala relaciona-se a associações baseadas em ameaças, subjacentes ao preconceito implícito, como também se envolve em respostas primeiras a sinais salientes positivos ou negativos, incluindo pistas sobre participação em grupos. Dessa forma, parece estar associada à ameaça ou à recompensa social, dependendo do contexto e dos interesses envolvidos. A atividade na ínsula anterior sustenta a experiência subjetiva do afeto negativo, normalmente acompanhada de resposta preconceituosa, enquanto o córtex pré-frontal medial envolve-se na mentalização e na tomada de perspectiva. Infere-se que as projeções neurais da amígdala e da ínsula para o córtex pré-frontal ventromedial apoiam a integração de respostas afetivas com processos mentais e empáticos. Por fim, atitudes positivas e tendências comportamentais relacionadas ao contexto, em relação aos membros do grupo, são principalmente apoiadas pelo corpo estriado. Na conclusão de Amodio (2014) e de outros pesquisadores correlatos citados, todas essas regiões cerebrais parecem funcionar em conjunto, em rede, para apoiar o aprendizado, a experiência e a expressão do preconceito e dos estereótipos sociais inter-raciais.

4.2.1 Uma visão Interacionista na compreensão dos Vieses Implícitos

Gawronski, Bodenhausen (2017), trazem dois achados significativos que vão ao encontro de atributos funcionais e empíricos relevantes ao enviesamento cognitivo: (i) os vieses implícitos apresentam flutuações consideráveis em curtos períodos de tempo, salientando-se instáveis (Gawronski et al, 2017); e (ii) as relações entre as medidas de enviesamento implícito e as diferenças individuais na discriminação comportamental tendem a ser relativamente fracas24. Na sua visão as medidas de vieses implícitos devem ser entendidas como o produto interativo de fatores relacionados à pessoa e a situação, considerando (i) estruturas preexistentes de associações na memória do indivíduo (fator pessoal); e (ii) configuração dos estímulos de entrada (fator situacional), exemplificando:

“A ativação de associação não é um processo de tudo ou nada, tal que o encontro de um dado objeto ativa toda e qualquer associação mental relacionada a esse objeto. Em vez disso, os objetos tendem a ativar apenas um subconjunto limitado de todas as associações relacionadas a objetos disponíveis na memória. Qual subconjunto de associações é ativado em resposta a um determinado objeto, depende da configuração geral dos estímulos de entrada. Por exemplo, encontrar uma pessoa negra em uma banda de jazz pode ativar o atributo estereotipado musical, enquanto a mesma pessoa negra pode ativar o atributo estereotipado criminal, se for encontrada em um beco escuro.” (Gawronski, Bodenhausen, 2006)

A proposta interacionista leva em conta que “o preconceito implícito não é uma característica simples da pessoa e não é uma reflexão pura da situação; é um reflexo da pessoa dentro de uma determinada situação” (Gawronski, Bodenhausen, 2017).

4.2.2 Os efeitos da Interseccionalidade nos julgamentos implícitos

Ampliando a visão do modelo interacionista é relevante considerar que, além do contexto, a mitigação dos julgamentos implícitos se depara com o fator da interseccionalidade, ou seja, quando alvos apresentam dois ou mais atributos correlacionados à iniquidade racial, por exemplo, uma pessoa negra, mulher e homossexual. O fator da interseccionalidade não está restrito à iniquidade racial, estando presente em combinações distintas de classes de vieses.

Interseccionalidade aborda a sobreposição e intersecção entre diferentes identidades discriminatórias, em diferentes contextos:

“A interseccionalidade é um conceito que nos permite reconhecer o fato de que a participação percebida em grupo pode tornar as pessoas vulneráveis a várias formas de preconceito, mas, como somos simultaneamente membros de muitos grupos, nossas identidades complexas podem moldar a maneira específica como cada um experimenta esse viés. Por exemplo, homens e mulheres podem frequentemente experimentar o racismo de formas diferentes, assim como mulheres de diferentes raças podem experimentar o sexismo de formas diferentes e assim por diante.” (Gillbon, 2015)

As implicações dessa sobreposição de vieses devem refletir na forma de como analisar a complexidade dos vieses implícitos, como também na eficácia das intervenções para minimizá-los. É preciso questionar se intervenções que se voltam ao viés racial, por exemplo, surtirão efeito na minimização de demais preconceitos implícitos. Desconsiderar esse fato, é mascarar a dimensão real do problema.

Cole (2009) já relatava em seu trabalho duas questões encontradas em suas pesquisas: (i) escassas publicações teriam se voltado a investigar dois ou mais constructos interseccionados; e (ii) a falta de diretrizes para que os psicólogos abordem o tema empiricamente e a possibilidade de acharem que investigações interseccionais sejam de alta complexidade demandando, inclusive, equipes multidisciplinares, no que ela discorda. Analisando bases de pesquisas, ao que parece, essas constatações permanecem uma década após serem alertadas.

Freeman, Johnson (2016) sinalizam que, historicamente, os estudos relacionados aos vieses implícitos voltaram-se basicamente a análises de categorias isoladas. Entretanto, estudos recentes começam a demonstrar suas naturezas interseccionais percebidas de forma interdependente, mesmo quando não relacionadas, como é o caso das dimensões de raça e gênero:

“Isso ocorre porque o processamento de uma dimensão de categoria (por exemplo, gênero) ativará estereótipos que, por sua vez, distorcem a percepção de outras dimensões de categoria (por exemplo, raça), enquanto a percepção ainda está se desdobrando. Na medida em que duas categorias sociais (por exemplo, homens e negros) compartilham estereótipos (por exemplo, ‘agressivo’), essas próprias categorias sociais se tornarão inextricavelmente ligadas até um nível perceptivo. Assim, estudos recentes descobriram que as categorias raciais influenciam a percepção de gênero e vice-versa, de tal forma que os rostos femininos negros ativam parcialmente a categoria masculina e os rostos masculinos asiáticos ativam parcialmente a categoria feminina durante a percepção facial.” Freeman, Johnson (2016)

Tais suposições foram feitas baseadas em estudos com ressonância magnética funcional quando os participantes visualizaram faces que variavam por gênero (mulher ou homem), raça (branco, negro) e atributos emocionais distintos (irado, feliz), sendo possível analisar a extensão da sobreposição de estereótipos, corroborando com a interseccionalidade de vieses. Empiricamente, os efeitos neurais desses achados foram refletidos no giro fusiforme e no córtex orbitofrontal. Exemplificando, registraram-se maior similaridade de padrões neurais nessas áreas, quando da intensidade de atração na seleção de faces negras, combinadas com o atributo emocional ‘irado’. O estudo revisional de Grill-Spector, Weiner (2014) propõe que a categorização social ocorra no córtex temporal ventral, uma área do lobo temporal, que inclui o giro fusiforme, o giro para-hipocampal e seus sulcos delimitadores. A região lateral do giro fusiforme é uma área que responde seletivamente a faces, em comparação com estímulos animados ou inanimados. A perspectiva demonstrada é que o córtex temporal ventral parece estar envolvido em distinções categóricas, interagindo inclusive com outras regiões cerebrais como o córtex pré-frontal, envolvido diretamente em tomadas de decisões relacionadas à categorização.

Freemam, Jonhson (2016) inferem que regiões cerebrais associadas à monitoração e inibição de conflitos de julgamentos parecem estar envolvidas em ajudar a corrigir os vieses temporários durante a percepção, uma vez ativados, alterando a percepção inicial de associação negativa. As percepções sociais não são sensíveis apenas às percepções visuais bottow-up originadas em regiões neurais visuais de categorização de faces, mas são sensíveis também às percepções cognitivas top-down que têm relação com os processos de tomada de decisão como o reconhecimento da pessoa, os objetivos previstos no processo de interação e os estereótipos presentes na estrutura mental do indivíduo:

“As percepções das categorias de raça, gênero e emoção de um rosto são influenciadas por expectativas estereotipadas, e esses vieses se manifestam em níveis relativamente precoces de representação visual no cérebro. Objetivos de ordem mais alta, como motivos de autoproteção também podem influenciar essas percepções, levando alvos ambíguos a serem mais facilmente percebidos como homens ou como negros devido a associações com o potencial de dano.” (Freemam, Jonhson, 2016)

A conclusão final desse estudo, diferentemente de abordagens tradicionais, sugere que as percepções sociais iniciais refletem uma dinâmica de influências interativas que levam em conta processos visuais e cognitivos inerentes aos alvos sociais, em fração de segundos. À medida que essa integração se desdobra, múltiplas ativações de categorias ‘ocultas’ podem afetar a percepção sem serem observadas em julgamentos perceptivos explícitos. Ainda que essas ativações sejam rapidamente eliminadas do processamento, seus impactos tendem a perdurar levando a consequências importantes na associação dos vieses implícitos. Diferentemente de estudos onde pesquisadores atribuíram a categorização social como uma leitura automática de traços faciais, este atual traz novas perspectivas onde os estereótipos, atitudes e objetivos podem restringir as percepções iniciais. Dessa forma, sugere-se que a percepção social é um processo bidirecional onde percepções visuais são maleáveis à cognição social de ordem neural superior.

Em síntese, os pesquisadores sinalizam otimismo entre o estreitamento dos interesses da psicologia cognitiva e da neurociência cognitiva e neural na compreensão da percepção social e da interseccionalidade, deixando algumas questões importantes a serem respondidas, como:

“A flexibilidade e o preconceito nas percepções sociais iniciais podem ser considerados processos adaptativos (preconceitos motivados pela autoproteção), mas também mal adaptativos (erros de percepção). Quais são as origens evolutivas dos efeitos top-down sobre a percepção: eles representam uma adaptação ou um subproduto de interações perceptivo-cognitivas mais gerais (ou algum outro processo)?” (Freeman, Jonhson, 2016)

4.3 Vieses e suas relações com as teorias e estudos da mente

“A mais valiosa contribuição de Freud foi a descoberta de que a mente consciente é simplesmente uma fachada e de que você é completamente inconsciente de 90% do que realmente se passa em seu cérebro” (Ramachandran, 2002)25. Essa construção suscita em reflexões mais aprofundadas sobre a real extensão dos desafios intrínsecos à mitigação dos vieses implícitos. De acordo com David Rock26 (2016) ‘se você tem um cérebro, você tem um preconceito (implícito)’. Pode parecer uma afirmativa de cunho acusador e, possivelmente, suscitará em conflitos internos como a negação ou mesmo a justificativa, ao lê-la. A discriminação é uma conduta transgressora que remete a graus de dissonância cognitiva - conceito teorizado inicialmente por Festinger27 (1957), onde as atitudes implícitas e explícitas de um indivíduo são divergentes. A complexidade se amplia na medida em que se tenta reduzir tal discrepância buscando justificativas, ainda que contraditórias, com base em crenças pessoais. “O cérebro cria um ‘sistema de crenças’, um roteiro que indica o que é verdadeiro a respeito de uma pessoa e a respeito do mundo, e que faça sentido à luz das evidências disponíveis, pelo menos aquelas disponibilizadas pela mente consciente” (Callegaro, 2011). O fato é que todo indivíduo se esforça para manter um estado de coerência, de consonância, consigo próprio e, quando se depara com dissonâncias, esforça-se para reduzi-las munindo-se de construções cognitivas, ainda que bem elaboradas, porém muitas vezes irracionais. Davidson28 (1991) atribui que, “a ideia de uma ação, crença, intenção, inferência ou emoção irracional é paradoxal. Isso porque o irracional não é apenas o não-racional, que se encontra fora do âmbito do racional; a irracionalidade é uma falha dentro da casa da razão”. O paradoxo da irracionalidade ocorre a partir da percepção do que está envolvido nas formas mais básicas de definir, entender e explicar eventos e estados psicológicos. Portanto, racionalizar o preconceito, permite considerar certas atitudes dentro de certa razoabilidade. Por exemplo, a tomada de consciência sobre determinado grau de preconceito racial implícito à negros pode suscitar em construções mentais dissonantes que se sustentam, com base em argumentos inválidos como a interpretação ilógica de que negros são seres moralmente inferiores por natureza e, portanto, passíveis de discriminação. Ao invés de admitir um viés racial não reconhecido, as pessoas desviam a atenção para alguma característica negativa sobre o alvo (Bargh, 2014). Festinger (1957) definiu que quanto maior a dissonância, maior a intensidade da ação para reduzi-la e maior a evitação de situações que podem aumentá-la e concluiu que o comportamento, a mudança de atitude ou convicção e a adição de novos elementos cognitivos são meios importantes para minimizá-la.

Mlodinow (2015) investigou como o inconsciente modela o comportamento humano e determina as decisões e os julgamentos sobre o mundo, as pessoas e as coisas. Sua obra relata como os novos achados da neurociência podem alterar a percepção do que ele define como ‘subliminar’. Mlodinow (2015) descreve que o inconsciente é uma parcela fundamental do mecanismo evolutivo humano de sobrevivência que opera em paralelo aos pensamentos e sentimentos conscientes, influenciando-os.

“Pode ser difícil distinguir um comportamento voluntário e consciente de outro habitual ou automático. Na verdade, como seres humanos, nossa tendência em acreditar nos comportamentos conscientes e motivados é tão forte que vemos consciência não só no nosso comportamento como também no reino animal (...). O fenômeno chama-se antropomorfismo.” (Mlodinow, 2015, p. 18)

O físico e escritor americano traz à tona a questão sobre o quanto, de fato, as decisões mais complexas são racionais e bem avaliadas, considerando-as sob a ótica do inconsciente. A dificuldade que se tem em reconhecer as próprias atitudes habituais é um entrave para as expectativas de minimização dos vieses cognitivos:

“Todos nós temos nos nossos pontos de referência implícitos – com sorte menos radicais, que produzem comportamentos e pensamentos rotineiros. Nossas experiências e ações sempre parecem se basear em raciocínios conscientes. (...) podemos achar difícil aceitar que haja forças ocultas nos bastidores. Mas, embora possam ser invisíveis, ainda assim essas forças exercem uma forte influência.” (Mlodinow, 2015, p. 22)

O moderno modelo de inconsciente como descrito por Mlodinow (2015), corrobora com a descrição de outros cientistas como Callegaro (2011), que será citado na sequência, em aspectos substanciais relativos ao entendimento de seu funcionamento. Marco Callegaro, proeminente psicólogo, neurocientista e autor brasileiro, é responsável por importantes e extensas pesquisas que resultou na obra nacional, ganhadora do Prêmio Jabuti em 2012, sobre o ‘novo inconsciente’. Hoje a ciência consegue observar como diferentes estruturas e subestruturas cerebrais geram os sentimentos e as emoções, chegando ao ponto de mapear as atividades neurais que formam os pensamentos de um indivíduo. Sob essa nova ótica é preciso compreender que o comportamento humano se origina de um fluxo contínuo de pensamentos, sentimentos e percepções que ocorrem tanto em nível consciente, quanto inconsciente.

Como se demonstra, a questão dos vieses cognitivos envolve redes neurais e estados e processos mentais complexos. Tal complexidade gerou a necessidade de tratá-los à luz da neurociência cognitiva. A neurociência cognitiva se constituiu como um campo científico a partir da aproximação entre a psicologia cognitiva, que estuda as funções mentais superiores, e a neurociência, que estuda o sistema nervoso central (Ripoll, 2014)29. Os estudos científicos relacionados aos vieses cognitivos envolvem multidisciplinaridade de especializações, que atuam em consonância para definir abordagens consistentes entre cérebro, mente e comportamento (humano). Essa comunhão entre a neurociência e a psicologia empírica (social) vem realizando pesquisas exitosas na tentativa de revelar todos os elementos que abrangem o preconceito e os estereótipos. No item 2.1. foram dissecadas as bases neurais envolvidas nos vieses implícitos e esse tópico se propõe a ampliar a compreensão desse efeito com base em teorias e estudos da mente. Busca-se promover discussões futuras sobre os critérios das intervenções que, sistematicamente, cooptem às organizações institucionais elementos exitosos da diversidade racial. Faz-se necessário para esse fim ampliar o empirismo dos métodos de redução de ‘unconscious bias’, termo popularizado instituído na configuração dos vieses implícitos.

O termo unconscious, em inglês, significa inconsciente - o substrato involuntário da mente. Partindo do pressuposto de Ramachandran (2002), os vieses implícitos são ‘irrefletidos’ em sua quase totalidade, ou seja, decisões e ações implicitamente tendenciosas distorcem ou influenciam tais condutas. Desse universo, os pesquisadores sociais vêm se debruçando extensivamente naqueles que influenciam as atitudes e comportamentos de forma indesejada e muitas vezes discriminatórias: os preconceitos e estereótipos. Teorias sobre a influência da mente inconsciente sobre o comportamento humano e o pensamento consciente são milenares e remontam à era de Hipócrates e Galeno à 370 a.C., tendo o seu apogeu no século XIX com o inconsciente freudiano (ou dinâmico). Em 2006 foi lançada a primeira versão de publicação sobre o conceito do ‘novo inconsciente’, fruto das pesquisas de Hassin30 et al (2006), inaugurando uma nova era para a compreensão da mente humana. O modelo do ‘novo inconsciente’ (Callegaro, 2011, p.31-2) apresenta formas de se estudá-lo cientificamente, sintetizando os avanços da neurociência cognitiva nos estudos dos mecanismos neurais envolvidos no comportamento. É um conceito mais amplo do que o inconsciente dinâmico englobando algumas hipóteses quando evidenciadas, formuladas por Freud, sem incorporar sua metateoria sobre a mente. Esse novo inconsciente se encarrega de operar rotinas pesadas por meio de circuitos neurais robustos, desonerando a consciência para focar na resolução de novos problemas. De acordo com Callegaro (2011), estima-se a proporção de 200 mil vezes mais informações operando no inconsciente. É fundamental que se entenda que toda a percepção consciente é processada sensorialmente no inconsciente, embora não se tenha acesso ao produto final das operações que chegam à consciência. Essa nova abordagem de inconsciente cognitivo explora como o comportamento humano é duplamente ditado na mente consciente e inconsciente, passando por processos complexos de informações, desde as emoções, até o controle cognitivo e a autorregulação.

A autorregulação, com base em Barkley (2011), envolve (i) qualquer ação que um indivíduo faça a si próprio de modo a (ii) resultar em uma mudança em seu comportamento para (iii) alterar a probabilidade de uma consequência futura ou realização de um objetivo. Parte das funções executivas do córtex pré-frontal contribui para a antecipação, o planejamento e a definição de objetivos, (vide item 2.1). Hofmann et al (2012), descreve que a autorregulação é o aspecto central do comportamento humano adaptativo, sinalizando que suas bases têm sido estudadas através da psicologia social e cognitiva. Uma das lentes aplicadas pelos pesquisadores é o entendimento sobre a autorregulação bem-sucedida e o seu fracasso. O resultado bem-sucedido da autorregulação envolve três componentes principais (i) padrões de pensamento, sentimento ou comportamento que as pessoas endossam, representam e monitoram mentalmente; (ii) motivação suficiente para investir esforços na redução de dissonâncias entre estados e padrões reais; e (iii) capacidade de resiliência e motivação frente aos obstáculos e intempéries ao longo do caminho. Da mesma forma, os motivos que corroboram com a falha, estão associados à falta desses componentes, destacando-se, por ordem de importância, a motivação. Mesmo que um indivíduo tenha capacidade em abundância, esta seria de pouca utilidade sem direção e motivação para usá-la. Nesse sistema, destaca-se o controle inibitório, responsável por inibir ou controlar respostas impulsivas (ou automáticas), munindo-se de atenção e raciocínio para criar réplicas avaliativas que forneçam uma resposta mais adequada para cada situação, detendo associações e condutas inadequadas. Allen et al (2010), investigando fatores que poderiam atenuar os vieses, sugerem que inserir membros de grupos externos em ambientes sociais positivos, estimula o protagonismo do controle inibitório mesmo em diferentes contextos que ativam diferentes associações implícitas de grupo. Descobriram também que a motivação dos participantes é fator determinante para a inibição das associações tendenciosas. Suas medições demonstraram menores níveis de vieses implícitos em contextos positivos, e mesmo em contextos negativos em participantes com altos graus de motivação para controlar o preconceito. Por exemplo, Wittenbrink et al (2001), pesquisando sobre a implicação contextual nos vieses raciais, descobriram que as atitudes implícitas de brancos em relação a negros variavam em situações estereotipas positivas e negativas. Em interações socias, como um churrasco entre amigos, as medidas apontaram redução dos vieses implícitos em relação aos afros americanos e, em oposição, sinalizaram aumento em um contexto negativamente valorado, como um assalto realizado por negros. Esses achados correspondem a estudos semelhantes realizados por Barden et al (2004), onde todos os resultados relataram reversão significativa dos vieses raciais implícitos dependendo do contexto. Allen et al (2010) foram além e descobriam que o contexto positivo facilita a inibição de associações raciais implícitas inapropriadas ou indesejadas, mas não leva à ativação de outras associações diferentes. Ou seja, parece que o contexto positivo não atua como fomentador de novas associações raciais, frente às anteriores, apenas atenuando os vieses situacionalmente. Essas descobertas, em linhas gerais, estão alinhadas com o conceito interacionista de Gawronski, Bodenhausen (2017) e todas são relevantes na caracterização e formulação de estratégias intervencionistas dos vieses cognitivos. De outro modo, alienando-se do empirismo, pontos cegos das tipificações generalizadas podem comprometer os resultados almejados.

Em linhas gerais, unconscious bias é definido como “quaisquer processos inconscientes que influenciam nossas percepções, julgamentos e ações, nesse contexto, em relação a membros de uma determinada categoria social (mulheres, negros, gays, por exemplo)” - Holroyd, Sweetman (2016). Com base nas fundamentações anteriores, é inapropriado manter a generalização desse conceito e, mais ainda, sua tratativa. O universo mental vai muito além de generalizações passíveis de explicar os comportamentos humanos e teorias têm sido formuladas para estreitar o elo entre o seu funcionamento e os seus efeitos nas interações sociais. Uma dessas teorias é a ‘dual-process’, termo inicialmente cunhado pela psicologia, e que vem recebendo atenção de psicólogos empíricos e de neurocientistas pró e contrários.

4.4 Teoria ‘Dual Process’ e Conceito ‘Dual Attitudes’ – aplicados às associações implícitas e explícitas

A primeira impressão sobre alguém que acabamos de conhecer é rapidamente formada antes mesmo de uma intervenção verbal. Instantaneamente o cérebro processa informações estereotipadas como sexo, idade, atributos físicos e até socioeconômicos e culturais, que se conectam com os próprios estereótipos internalizados do observador. O resultado são suposições, frequentemente incorretas, que não se respaldam em fatos. Por exemplo, um indivíduo branco, ao acabar de conhecer um outro negro, pode ter um ‘feeling’ que essa pessoa não é confiável, embora nada ateste essa suposição. Esse mesmo indivíduo branco pode ser submetido a um teste IAT racial e surpreender-se quando cientistas revelam certo grau de viés implícito, alegando ter atitudes positivas em relação aos negros (Bargh, 2014). Howell et al (2014) analisaram as reações de negros, brancos e bi racistas (negros e brancos) diante do feedback sugestivo de preconceitos raciais implícitos não alinhados com as suas atitudes explícitas auto referidas por IAT test. Ficou demonstrado que as pessoas são defensivas quando há indicativos de dissonância entre suas auto percepções e percepções aferidas, independente do grupo racial a qual pertençam. Nessa perspectiva, uma forma potencial de aumentar o reconhecimento dos preconceitos é apresentá-los como reações afetivas espontâneas, abrindo portas para o desenvolvimento de intervenções mais efetivas e menos constrangedoras e reativas (Hahn, Gawronski, 2018). O preconceito implícito não se percebe apenas na relação interpessoal. Já foram documentados resultados com impactos negativos em testes escolares, quando alunos pertencentes a certa minoria foram solicitados a indicar o grupo social ou étnico ao qual pertenciam e, como atribuem os pesquisadores, nessas situações tiveram piores desempenhos comparativos em seus próprios testes (Bargh, 2013).

Em contraste com as atitudes implícitas que funcionam sem a plena consciência ou controle, as atitudes explícitas são medidas com base em auto relato, porém ambas podem ser inconsistentes entre si. As razões normalmente encontram ressonância em questões socialmente sensíveis e difíceis de serem incorporadas. Dovidio e Gaertner (2002) examinaram como atitudes implícitas e explícitas influenciam comportamentos em interações inter-raciais e quais os reflexos dessas atitudes em diferentes percepções entre os participantes brancos e negros. As medidas iniciais já demonstravam vieses implícitos dos participantes brancos em relação aos negros, nesse estudo. Os resultados apontavam fatos que levaram os pesquisadores a inferir que (i) não há como estabelecer uma taxonomia que identifique comportamentos deliberativos de espontâneos; (ii) os padrões de resultados sugerem que atitudes implícitas e explícitas não refletem um continuum e sim processos separados com consequências diferentes - sugerindo um sistema ‘dual attitudes’ consistente com os achados de Wilson et al (2000). O sistema de atitudes duplas refere-se à ideia de que um indivíduo pode ter duas atitudes diferentes sobre algo, tanto implícita (resposta intuitiva ou reação instintiva) quanto explícita (reposta mais deliberada e ponderada), simultaneamente.

Na literatura científica não existe consenso entre os pesquisadores sobre a validade da teoria ‘dual process’ da mente. É relevante considerar a conclusão de Melnikoff, Bargh (2018): “o que os pesquisadores demonstraram é que os recursos de processamento às vezes se alinham conforme previsto pela tipologia ‘dual proces’. No entanto, há também muitos exemplos onde os recursos de processamento não se alinham conforme previsões da tipologia ‘dual process’’”. O fato é que muitas publicações relacionadas ao ‘unconscious bias’ baseiam-se no ‘dual process’, quer como conceito, quer como denominação e funcionalidade.

O israelense Daniel Kahneman, Prêmio Nobel de Economia em 2002 e professor emérito de psicologia da Universidade de Princeton, é um dos teóricos que combina a economia comportamental com a ciência cognitiva para explicar comportamentos duais da natureza humana. Ele atribui dois sistemas mentais funcionais, intrinsecamente relacionados, denominados sistema 1 (S1) e sistema 2 (S2). Seu trabalho fundamenta-se no estabelecimento das bases cognitivas envolvidas nos processos de julgamento e de tomada de decisão. Operações automáticas, rápidas e eficientes, com pouco ou nenhum esforço e qualquer percepção de controle voluntário, operam no S1; Operações que requerem atenção, concentração, incluindo cálculos complexos, comumente associadas com experiências subjetivas de atividades, escolha e concentração, operam no S2 (Kahneman, 2011, p. 29):

“Quando pensamos em nós mesmos, nos identificamos com o Sistema 2, o eu consciente, raciocinador, que tem crenças, faz escolhas e decide o que pensar e o que fazer a respeito de algo. Embora o Sistema 2 acredite estar onde a ação acontece, é o automático Sistema 1 o herói (...). Descrevo o Sistema 1 como originando sem esforço as impressões e sensações que são as principais fontes das crenças explícitas e escolhas deliberadas do Sistema 2. As operações automáticas do Sistema 1 geram padrões de ideias surpreendentemente complexos, mas apenas o Sistema 2, mais lento, pode construir pensamentos em séries ordenadas de passos. Também descrevo circunstâncias em que o Sistema 2 assume o controle, dominando os irrefreáveis impulsos e associações do Sistema 1.” (Kahnemann, 2011, p. 29)

Kahneman (2011, p. 33-4) postula ainda que o S1 gera continuamente sugestões para o S2, como impressões, intuições e sentimentos que, se endossadas pelo S2 - impressões e intuições -, se tornam crenças, e impulsos se tornam ações voluntárias. O S1 recorre ao S2 quando se depara com alguma dificuldade que requer um processamento mais detalhado. A maior parte do que um indivíduo pensa e faz se origina do S1, mas quando ocorrem problemas não solucionáveis por ele, é o S2 quem assume o controle.

Evans, Stanovich (2013) defendem que as críticas publicadas ao ‘dual-process’, baseiam-se em postulados generalizados sobre a teoria e argumentam que há evidências neurocientíficas que definem sua consistência. Argumentam que existe base empírica para uma distinção ‘dual process’, tipo 1 (intuição) e tipo 2 (reflexão), como a denominam atualmente, nos campos do raciocínio e da tomada de decisão. A nomenclatura foi alterada em concordância a autores que propuseram que duas formas de processamento estão competindo ou se combinando para produzir o comportamento observado, e não operando em sistemas distintos. Inicialmente, em suas primeiras publicações, Stanovich denominava sistema 1 e sistema 2, assim como Kanheman. A tabela 1 apresenta os tipos de processamento reivindicados por Evans, Stanovich (2013) na parte superior, em itálico, e os atributos correlatos típicos.

Tab. 1 – Atributos ‘dual process’ e ‘dual system’. Fonte: Evans, Stanovich (2013)

Evans, Stanovich (2013) buscaram esclarecer alguns conceitos em direção a sua visão atual: (i) ‘dual process’ - suposição, por muitas teorias, de que as tarefas cognitivas evocam duas formas de processamento que contribuem para o comportamento observado: (ii) ‘dual types’ - terminologia que implica que os processos duais são qualitativamente distintos. Processos tipo 1 são (amplamente) intuitivos e processos tipo 2 reflexivos; e (iii) ‘modes of processing’ - formas de pensamento tipo 2 que podem diferir em um continuum, sendo que diferenças individuais nesses continuum são frequentemente avaliadas com medidas de ‘thinking-disposition’31. Na concepção dos pesquisadores, os termos ‘system1’ e ‘system 2’ são ambíguos e dessa forma adotaram os termos tipo 1 e tipo 2. A atual convenção sobre esses dois tipos adotada por eles é TASS (The autonomous set of systems), ou conjunto autônomo de sistemas (Stanovich, 2004). Os termos tipos 1 e 2 indicam formas qualitativamente distintas de processamento, porém permitem que múltiplos sistemas cognitivos ou neurais operem em background. Já a terminologia system 1 e system 2, via de regra, representa polos distintos de um continuum de formas de processamento. Outros desalinhamentos justificaram a descontinuidade das terminologias ‘sistemas 1 e 2’ como, por exemplo, o fato de que a origem do processamento tipo 1 no cérebro nem sempre ocorre em áreas consideradas evolutivamente antigas (old mind) e nem sempre o pensamento consciente está necessariamente no controle do comportamento. Evans (2012) atribui, de fato, que existem algumas falácias em proposições ‘dual process’ anteriores, como: (i) os processos tipo 1 são sempre responsáveis pelo viés cognitivo e tipo 2 são sempre responsáveis pelas respostas corretas; (ii) o processamento ‘rápido’ é sempre um indicador do processamento tipo 1; e (iii) o processamento tipo 1 é contextualizado e o processamento tipo 2, abstrato. Críticos da teoria ‘dual process’, como Keren, Schul (2009), levantam dúvidas sobre evidências empíricas em apoio a distintos modelos de processamento e também contestam a ideia de que existem dois sistemas cognitivos com um conjunto pré-definido de atributos e isoláveis (ver tabela 1). Uma de suas proposições para sanar esse dilema é supor dois subsistemas, qualitativamente diferentes, que executam funções superiores da mente humana, sendo capazes de transitar entre estados mentais heterogêneos para resolver uma tarefa específica. No caso, esses estados podem ser a combinação de diferentes características como nível de afeto, velocidade de processamento, controle, reconhecimento e, dessa forma, o mecanismo mental seria divisível em partes que estão relacionadas entre si. Nessa suposição não existe a necessidade de uma partição fixa de papéis, assumindo-se que cada subsistema poderia interagir em diferentes combinações, dependendo dos objetivos e do contexto. Por exemplo, o viés de crença pode ser explicado tanto por padrões lógicos, paradigmáticos, quanto pela crença em si e, ambos os padrões, podem operar dentro do mesmo sistema.

Existe ainda outros argumentos relevantes sobre essa binariedade funcional inferindo que tal caracterização de coocorrência relatada em muitas das teorias ‘dual process’ nem sempre são válidas, empiricamente falando. Por exemplo, no momento em que algumas informações são rotinizadas, há desalinhamentos entre o processamento de recursos conscientes e intencionais. “A rotinização pode tornar o processamento menos dependente da atenção consciente, sem afetar a execução da intencionalidade: dirigir, digitar, tocar piano e muitas outras habilidades podem ser praticadas a ponto de operaram inconscientemente, ainda assim permanecendo atividades completamente intencionais” - Melnikoff, Bargh (2018). Há ainda outra evidência contestadora, quando da assunção de que tanto processos eficientes quanto ineficientes podem ser não intencionais, como é o caso da ativação de estereótipos. Os achados de Gilbert, Hixon, (1991) sugerem que a ativação de estereótipos raciais não é consequência incondicional e automática da mera exposição inter-racial e sim de recursos de processamento adequados para que esses estereótipos sejam ativados, por parte do observador, contrariando afirmativas como a de Brewer (1989, p. 5-6) onde “a mera apresentação de uma pessoa estimuladora ativa certos processos de classificação, que ocorrem automaticamente e sem intenção consciente”. Por meio de resultados empíricos, os pesquisadores não negam que tais categorizações rápidas podem e frequentemente acontecem, mas simplesmente negam que devam acontecer. Inferem que em certas dimensões, objetivos e situações, tais categorizações simplesmente podem não ocorrer, o que se aproxima do conceito interacionista de Gawronski, Bodenhausen (2017). Meta-análise realizada por Herring et al (2013) examinou o impacto de diferentes associações de julgamentos para testar as perspectivas clássicas de codificação e resposta do priming32 avaliativo, compilando dados de 25 anos de pesquisas. A análise concluiu que avaliações positivas e negativas são ativadas diretamente por estímulos externos, quando da ausência de qualquer tipo de intenção de avaliação ou instrução de tarefas. No entanto, a avaliação em si é adjacente ao objetivo e contexto da pessoa. Outro estudo, bastante interessante, pôde documentar em seus experimentos um processo com uma causa inconsciente e um efeito consciente: “mesmo quando os indivíduos sabem que um determinado estímulo é irrelevante para a tarefa em questão, a exposição a esse estímulo pode colocar em movimento processos que distorcem seus comportamentos de formas não intencionais” - (Payne et al, 2016). No entanto, por definição de Melnikoff, Bargh (2018), a consciência abrange pelo menos três subdimensões: (i) conscientização da causa; (ii) conscientização do efeito de um julgamento ou comportamento; e (iii) conhecimento da relação de causa e efeito. Em artigo publicado em 2011 pesquisadores oferecem evidências empíricas para uma abordagem teórica unificada da teoria ‘dual system’. Seus estudos relatam que tanto os julgamentos intuitivos, quanto os deliberados, são baseados em regras e que essas regras podem fundamentar a ambos os sistemas. Por fim, concluem:

“As dificuldades conceituais e empíricas acarretadas pela divisão entre juízos intuitivos e deliberados e seu alinhamento com múltiplas dicotomias semelhantes impediram um exame mais profundo da psicologia do julgamento. É hora de ir além de dualismos imprecisos e em direção a modelos específicos do processo de julgamento. (...) O presente artigo pretende ser um passo nessa direção.” (Kruglansk, Gigerenzer, 2011)

Embora muitos pesquisadores propuseram ampliar esse debate, desde então, diferentes visões tanto divergiram, quanto convergiram para atestar a infinita complexidade e, sem trocadilhos, diversidade da mente humana. O objetivo com a apresentação destes argumentos e contra-argumentos, não é o de apresentar alguma nova teoria conclusiva, porque até o presente momento ela parece não existir. Porém, pode-se inferir, com certeza, que os processos mentais diferem em várias dimensões, mas ainda não se sabe, ao certo, qual o grau de alinhamento entre essas várias dimensões.

Por fim, com bases nos achados de Gawronski, Bodenhausen (2017), Melnikoff, Bargh (2018), Keren, Schul (2009), Gilbert, Hixon (1991), Herring et al (2013), Payne et al (2016) e Kruglansk, Gigerenzer (2011) será empregado o conceito ‘dual attitudes’ para se referir aos distintos processos dos vieses cognitivos. A magnitude do trabalho de Kahneman, Evans e Stanovich sobre o ‘dual-process’ são inquestionáveis e, como relatado por Evans, Stanovich (2013), tanto sua teoria quanto a de Kahneman são de estrutura intervencionista-padrão, ou seja, a qual pressupõe que o processamento rápido do tipo 1 gera respostas-padrão intuitivas, nas quais o processamento reflexivo subsequente do tipo 2 pode ou não intervir. Apenas e entretanto, pareceu ser mais apropriada a consideração do conceito de ‘duas atitudes distintas’ ou ‘dual attitudes’, com base nos achados empíricos, para delinear as associações raciais implícitas e explícitas. Além disso, há de se considerar que a questão não está fechada, inclusive no campo de discussões futuras sobre compreensão amplificada e minimização dos vieses cognitivos, o que suscita em oportunidades futuras de conhecimento e aprimoramento.

4.5 IAT (Implicit-Association Test)

De acordo com artigo publicado na APS (Association for Psychological Science) por Scott Sleek33 (2018), desde a estreia em 1998 da versão online do IAT test, os cientistas puderam investigar milhões de usuários quanto a algum tipo e grau de suas atitudes implícitas. O IAT test foi concebido em 1995 por Anthony Greenwald, atualmente da Washington University, em colaboração com Mahzarin Banaji, sua doutoranda de pesquisa na época, atualmente da Harvard University. Greenwald e Banaji colaboram há mais de 30 anos para entender como as mentes operam em contextos sociais, com especial foco nos aspectos inconscientes, automáticos, menos reflexivos da mente e nas decisões que os indivíduos tomam sobre si mesmos e sobre os outros na sociedade.

O IAT test tem por objetivo examinar associações inconscientes e automáticas entre pessoas em diferentes contextos, por meio da categorização de palavras ou imagens que aparecem na tela de um computador. Por exemplo, no IAT racial os candidatos são confrontados com uma série de imagens ou palavras relativas a homens brancos e negros, onde devem estabelecer correlações de atributos como bom ou mal a cada uma delas. O tempo relativo à resposta do estímulo a cada associação é uma medida relevante para possíveis vieses implícitos não acessíveis em nível consciente ou não relatados pela dificuldade de exposição. Em suma o IAT test mede atitudes e crenças que os participantes do teste não querem ou não conseguem relatar. Exemplificando, digamos que uma pessoa acredite na igualdade de gênero associada à ciência, porém, suas associações automáticas predizem o contrário, ou seja, que os homens são mais capazes em carreiras científicas. Ou ainda, um profissional de recrutamento e seleção pode afirmar ser indiferente à contratação de um candidato negro ou branco, mas, mesmo que ambos tenham qualificações semelhantes, ou, no caso, a pessoa negra seja mais bem preparada para a função, sua escolha final recai sobre o outro pretendente. Através do IAT, nesses casos, é possível identificar possíveis dissonâncias entre a crença real e a ilusória do indivíduo.

O IAT, atualmente, é utilizado pela maioria dos pesquisadores destacando-se os psicólogos sociais e os neurocientistas, que o recebem gratuitamente para seus estudos. Para esse fim foi criado o Projet Implicit34, organização sem fins lucrativos fundada em 1998 por Greenwald, Banaji e Nosek (University of Virginia), para exercer colaboração internacional à pesquisadores na área da cognição social implícita. O objetivo da organização é educar o público sobre os vieses implícitos e coletar laboratorialmente dados pela internet. O IAT test pode ser realizado em sua versão brasileira35 ou americana36, acessível a todos também de forma gratuita. Os testes IAT, em ambas as versões, avaliam as diferentes classes de vieses, como idade, sexualidade, gênero, raça, peso e demais categorias, demonstrando que para distintos preconceitos e estereótipos, existem avaliações específicas. Pesquisadores conseguiram modificar o IAT test para ser utilizado em estudos de associações implícitas intergrupais entre crianças. Espera-se com isso entender como os vieses cognitivos se formam desde os primeiros anos de vida em busca de respostas sobre, inclusive, como atuar de forma preditiva na minimização dos preconceitos e estereótipos. As versões do IAT racial e de gênero são as mais populares e empregadas em pesquisas no mundo todo, com a finalidade de entender e reduzir questões como a discriminação sofrida por diferentes raças em diferentes contextos e a disparidade entre, sob vários aspectos, homens e mulheres no ambiente organizacional. A candidata Hillary Clinton, por exemplo, abordou a questão dos vieses implícitos durante um dos debates de sua campanha presidencial de 2016. O Departamento de Justiça Americana (U.S. Department of Justice – DOJ) integrou em seu curriculum treinamentos de vieses implícitos para mais de 28.000 funcionários, entre agentes da lei e promotores públicos, como forma de combater o preconceito. Tanto é que em uma decisão histórica de 2015 envolvendo ‘fair housing’37 a Suprema Corte dos Estados Unidos referenciou viés implícito em uma decisão que permite ação federal contra políticas habitacionais com impactos díspares, além de serem claramente discriminatórias.

4.5.1 A ciência por trás do IAT test

Em artigo publicado por Greenwald, Farnham (2000) explica-se um pouco mais da ciência por trás do IAT test. O IAT avalia as forças de associações entre conceitos, observando latências de respostas em tarefas de categorização administradas por computador:

“Em um bloco inicial de testes, exemplares de dois conceitos contrastados (por exemplo, imagens faciais para as raças Negra e Branca) aparecem em uma tela e os sujeitos rapidamente os classificam pressionando uma das duas teclas (por exemplo, uma tecla E para negro e I para branco). Em seguida, exemplares de outro par de conceitos contrastados (por exemplo, palavras representando valência positiva e negativa) também são classificados usando as mesmas duas teclas. Em uma primeira tarefa combinada, os exemplares de todas as quatro categorias são classificados, cada um atribuído à mesma tecla que nos dois blocos iniciais (por exemplo, E para preto ou positivo e I para branco ou negativo). Em uma segunda tarefa combinada, um emparelhamento complementar é usado (ou seja, E para branco ou positivo e I para negro ou negativo).” (Greenwald et al, 2009)

No IAT Racial a interpretação é apresentada com base no quão rápido o participante respondeu quando faces de Brancos e palavras Boas foram classificadas com a mesma tecla do que quando faces de Negros e palavras Boas foram classificadas com a mesma tecla. Dessa forma, é possível não somente indicar o viés implícito, como também o seu grau. Dependendo da magnitude do resultado a preferência automática pode ser descrita como 'leve', 'moderada', 'forte', 'pouca’ ou ‘nenhuma’ preferência. Na maioria das implementações os respondentes são obrigados a corrigir os erros antes de prosseguir, e as latências são medidas para a ocorrência da resposta correta. A diferença na latência média entre as duas tarefas combinadas fornece a base para a medida IAT. Para os demais vieses, são definidas diferentes categorias que inferirão na força de diferentes associações implícitas.

As primeiras investigações experimentais do IAT confirmaram que o procedimento era estável em diversas variações de categorias e, desde a publicação inicial de estudo em 1998, houve evidências substanciais sobre as propriedades psicométricas das medidas IAT. Greenwald, Banaji (1995) expõem que a partir da teoria psicanalítica, passando pelo behaviorismo e pela psicologia cognitiva, já se previa que atitudes humanas são capazes de operar inconscientemente. Entretanto, até que essa suposição pudesse ser empiricamente comprovada por modelos laboratoriais confiáveis, era desafiador não somente incorporá-la, como também melhor compreender os seus mecanismos. Na década de 80 e, principalmente na década de 90, psicólogos cognitivos conseguiram reproduzir variedades de cognição inconsciente de forma confiável em laboratório, inclusive relacionadas a julgamentos implícitos. Em paralelo, teorias de cognição social vinham abordando a questão dos preconceitos e estereótipos de diferentes formas e em diferentes contextos. Greenwald baseou-se nesses achados empíricos para desenvolver o Teste de Associação Implícita, com base em evidências consideráveis de que o comportamento social normalmente opera de maneira implícita ou inconsciente. A latência de respostas ao IAT é avaliada usando algoritmos de computadores, e a análise dos dados coletados é que determina a associação dos vieses cognitivos.

4.5.2 Convergências e Divergências na utilização do IAT test

No item 2.6 será apresentado detalhamento de estudos voltados a associações implícitas e explícitas inter-raciais, porém, nesse ponto é oportuno considerar e demonstrar que existem convergências e divergências entre os pesquisadores sobre o grau de efetividade do IAT racial.

Greenwald et al (2009) realizaram meta-análise de 122 resultados de pesquisas relativas a 184 amostras com o total de 14.900 participantes, visando encontrar a predição de medidas comportamentais e fisiológicas - implícitas e explícitas - de preconceito e estereótipos. Desse total, 156 amostras, ao todo 13.068 indivíduos, apresentavam medidas explícitas paralelas, ou seja, com auto relato. Nessa meta-análise os pesquisadores procuraram incluir todos os estudos que relataram correlações de validade preditiva envolvendo quatro tipos de medidas de força de associação implícita: atitudes (associações conceito-valência), estereótipos (associações grupo-característica), autoconceitos ou identidades (autotraço ou auto associações de grupo) e autoestima (associações de auto valência). O objetivo principal dessa meta-análise foi estimar o tamanho médio do efeito da validade preditiva das medidas IAT. Alguns achados importantes retratam que (i) a validade preditiva das medidas de auto relato (mas não das medidas do IAT) foi acentuadamente reduzida quando os tópicos de pesquisa eram socialmente sensíveis; (ii) as medidas do IAT tiveram maior validade preditiva do que as medidas de auto relato envolvendo comportamento inter-racial e outro comportamento intergrupal; e (iii) tanto o IAT quanto as medidas de auto relato mostraram validade preditiva incremental um em relação ao outro. Por fim, esse estudo indicou a justificativa para uma recomendação de se utilizar as medidas IAT e de auto relato conjuntamente como elementos preditores de comportamento. A revisão dos estudos dessa meta análise constatou que, para tópicos socialmente sensíveis, a validade preditiva das medidas de auto relato foi notavelmente baixa e a validade incremental das medidas do IAT foi relativamente alta. Demonstrou-se ainda alta sensibilidade social em estudos de comportamento racial e de outros intergrupos. Nesses domínios temáticos, a validade preditiva das medidas do IAT excedeu significativamente a validade preditiva das medidas de auto relato.

Já Oswald et al (2013) realizaram meta-análise baseados no estudo de Greenwald et al (2009), que teve como domínio examinar o grau dos efeitos IAT projetados na previsão da discriminação racial e étnica. Os resultados apresentam questões relevantes: (i) as estimativas meta-analíticas das correlações médias entre os escores IAT e as medidas de discriminação racial e étnica são menores do que as correlações análogas relatadas por Greenwald e colegas em 2009; (ii) tanto para a exploração de preconceitos ou estereótipos implícitos, os resultados se mostram deficientes para indicar os tipos de comportamento, julgamentos ou decisões que foram estudados, como em casos de discriminação, independentemente do quão sutis, espontâneos, controlados ou deliberados sejam; (iii) em média as medidas explícitas foram fracos preditores de vieses em relação aos estudos cobertos pela meta-análise de Greenwald; e (iv) os resultados de Greenwald e colegas sugerem que houve influência de resultados obtidos em estudos de neuroimagem no mapeamentos dos vieses. Nesse sentido os pesquisadores argumentam:

“Não consideramos o IAT correlacionado altamente com os escores de critério de atividade cerebral no domínio racial como evidência de que ele é preditivo de comportamento discriminatório. Na verdade, hesitamos em incluir estudos de neuroimagem nessa meta-análise, porque nesse domínio os resultados não foram relatados em estudos publicados e, portanto, não estão disponíveis para revisão meta-analítica; e porque não podemos conceber qualquer definição socialmente significativa de discriminação que trate as diferenças na atividade cerebral - independente de resultados comportamentais relevantes.” (Oswald et al, 2013)

Em comentário, Greenwald et al (2015) chegaram a duas conclusões entre os aparentes desacordos de Oswald et al (2013) e de suas atuais reanálises: (i) primeiro, as diferenças nas conclusões publicadas entre ambas as meta-análises explicam-se pelas diferenças dos métodos utilizados; e (ii) segundo, ambos os estudos meta-analíticos estimaram os tamanhos dos efeitos de correlação agregados, grandes o suficiente para justificar a conclusão de que as medidas IAT predizem importante discriminação social. Quanto à inferência de Oswald et al (2013) de que as medidas IAT mostram “previsões ruins de discriminação racial e étnica”, discordaram. A conclusão de Greenwald e colegas é que Oswald e colegas, não levaram em conta “que os pequenos efeitos que afetam muitas pessoas ou que afetam pessoas individuais repetidamente podem ter grande impacto social” (Greenwald et al, 2015).

Na réplica, Oswald et al (2015) relatam ter pontos de concordância e discordância, além da correção de um erro em relação a reanálise de Greenwald et al (2015), com base em suas análises complementares:

“No final, todas as meta-análises convergem para a conclusão que, mesmo através de diversos métodos de codificação e análise dos dados, os escores IAT não são bons preditores de discriminação étnica ou racial, e explicam, no máximo, pequenas frações da variância de comportamento discriminatório em ambientes laboratoriais controlados. Os experimentos mentais apresentados por Greenwald et al. (2009) não vão além do laboratório para reivindicarem efeitos sistemáticos IAT em ambientes barulhentos do mundo real.” (Oswald et al., 2015)

Os pesquisadores consideram ainda que os exemplos e argumentos matemáticos de Greenwald e colegas que visam mostrar os substanciais impactos sociais do IAT são falhos. Na visão de Oswald e colegas, o ‘tamanho de efeito global’ está desconectado dos contextos aos quais eles procuram generalizar em suas pesquisas e obscurece variações importantes nos resultados. Consideram que uma abordagem mais produtiva para compor as implicações sociais das pontuações IAT seria conduzir investigações longitudinais bem controladas e em grande escala que possam modelar a previsão IAT com base em critérios socialmente significativos - organizações, escolas, hospitais e outros contextos nos quais o viés implícito é uma preocupação direta:

“Se os pequenos efeitos do preconceito inconsciente sugeridos como possíveis, pelo menos nessas meta-análises, crescerão, serão contidos ou desaparecerão em sistemas sociais complexos do mundo real, é uma questão que deve ser resolvida através de testes empíricos, simulações e experimentos mentais vigorosos.” (Oswald et al, 2015)

Até o momento não foram encontradas tréplicas de Greenwald e colegas sobre a réplica de Oswald et al (2015), porém, Blanton et al (2015) propuseram a necessidade de tornar a métrica do IAT menos arbitrária em medidas de associações a vieses raciais e étnicos. Os pesquisadores basearam-se na interpretação de medidas IAT com alto nível de vieses implícitos dos norte-americanos, sugerindo a necessidade de intervenções que provoquem mudanças tanto no aspecto organizacional, quanto no aspecto legal em relação à discriminação. Suas análises evidenciaram que os algoritmos do ‘ponto zero’ do TAI não mapeiam a neutralidade racial comportamental e que a tendência dos pesquisadores em tratar esse ‘ponto zero’ como válido, provavelmente leva a superestimação do grau de viés implícito nas populações analisadas. Ao reexaminarem dados de estudos publicados, os pesquisadores encontraram evidências de que a métrica IAT é "tendenciosa" de tal forma que indivíduos que são comportamentalmente neutros tendem a ter pontuações IAT positivas, levando a inferências errôneas sobre a prevalência do preconceito implícito. Na análise dos pesquisadores o ‘ponto zero’ do IAT desconsidera a neutralidade nas atitudes explícitas. Blanton et al (2015) entendem que essas atitudes estão mais sujeitas ao viés da desejabilidade social devendo-se desconfiar de auto relatos de neutralidade racial, porém, ainda assim, sugerem revisões no atual critério ostentado pelo IAT racial.

Schryver et al (2018) propuseram revisão na definição dos algoritmos IAT, atualmente baseados em ‘D-effect size measures’ (D), para ‘Probabilistic Index’ (PI) como medida de tamanho do efeito para pontuação de dados obtidos através do procedimento. O objetivo da pesquisa foi verificar dados de três diferentes estudos IAT para comparar o desempenho das medidas D e PI em diferentes critérios, a saber: confiabilidade, correlação com medidas explícitas e validade preditiva. Os pesquisadores verificaram que a medida D é sensível à outliers - por exemplo, respondentes online do IAT - enquanto a medida PI se mostrou relativamente robusta a outliers. Além disso, os algoritmos de pontuação PI superaram os algoritmos de pontuação D em vários critérios psicométricos, como confiabilidade e previsão. Os algoritmos de pontuação são fundamentais no IAT porque, além de descreverem quais latências de resposta devem ser consideradas, definem também a medida do tamanho do efeito para estimar as pontuações finais. Tradicionalmente, a medida do tamanho do efeito foi definida como a diferença média dos tempos de resposta observados nos blocos incongruentes e congruentes do IAT. Uma importante limitação dessa medida de tamanho do efeito é estar correlacionada com a velocidade geral de respostas. Esse fenômeno causa distorções, como medidas de tamanhos de efeito maiores para pessoas idosas, que são tipicamente mais lentas do que suas contrapartes mais jovens. Em linhas gerais, os resultados da pesquisa apontaram para uma melhora sistemática na confiabilidade dos dados em diferentes categorias de atitudes (IAT-political e IAT-self) adotando-se o Probabilistic Index, exceto no IAT racial. Os coeficientes de correlação médios para as medidas de auto relato relacionadas a raça obtiveram resultados ligeiramente melhores usando a medida D. Porém, o mais importante, é que em situações em que a previsão e a evidência são importantes, os melhores resultados obtidos em todas as categorias foram através do PI.

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Os resultados finais demonstraram que o critério PI apresenta várias vantagens teóricas e práticas importantes, como confiabilidade, além de ser mais facilmente calculado e interpretado. O destaque final é que a medida PI possibilita uma interpretação muito mais clara do IAT, em comparação à medida D. Além disso, o PI é útil em situações onde não especialistas precisam de uma resposta a questões tão diretas como: “quão mais rápidas foram as respostas dos testes congruentes em comparação aos incongruentes”? – entretanto a probabilidade estimada de que a fase congruente tenha uma menor latência de resposta do que uma fase incongruente em um estudo aleatório é igual a 80%”. Essa propriedade deve acarretar em um aumento da validade PI no IAT racial, de acordo com os pesquisadores.

4.5.3 Medidas de auto relato (explícita) do IAT racial

Todo o participante dos testes IAT realizados online são convidados a primeiramente preencher um auto relato sobre suas percepções explícitas de vieses. Essa medida, como citado, serve para analisar a possível dissonância entre as percepções auto relatadas e as pontuações finais, com base nos processos implícitos dos respondentes.

Para esse pré-questionário as respostas baseiam-se na Escala Likert, atribuindo seu nível de concordância em cada afirmativa. No IAT racial, versão brasileira, algumas dessas questões de auto relato são passíveis de autorreflexões sobre os preconceitos e estereótipos presentes, como exemplos citados a seguir.

  1. Qual das afirmativas abaixo melhor lhe descreve?

eu prefiro fortemente brancos a negros | eu prefiro moderadamente brancos a negros | eu prefiro levemente brancos a negros | eu gosto igualmente de brancos e negros | eu prefiro levemente negros a brancos | eu prefiro moderadamente negros a brancos | eu prefiro fortemente negros a brancos

  1. Todos os grupos deveriam ter a mesma oportunidade na vida.

  2. Nenhum grupo deveria dominar a sociedade.

  3. É correto que alguns grupos tenham maiores chances na vida que outros

  4. Os ‘modos de antigamente’ e os ‘valores de antigamente’ ainda são a melhor maneira de se viver.

  5. Existem muitas pessoas radicais e imorais tentando nos prejudicar; a sociedade de impedi-las

Para essas afirmativas de 2-6, os participantes devem classificá-las de acordo com a seguinte escala Likert:

concordo fortemente | concordo moderadamente | concordo ligeiramente | discordo ligeiramente | discordo moderadamente |discordo fortemente

5. Contextualização: Estudos Científicos e Melhores Práticas

“Quando os psicólogos tentam entender o modo como nossa mente funciona, chegam frequentemente a uma conclusão que pode parecer surpreendente: as pessoas muitas vezes tomam decisões sem ter pensado muito nelas - ou, mais precisamente, antes de pensar conscientemente nelas.”

(John Bargh)

5.1 Os desafios e a importância da adoção de melhores práticas

Como apresentado até o momento há alta complexidade e extensos desafios que envolvem o tema vieses implícitos e explícitos. Em particular, os vieses inter-raciais ainda desafiam a lógica humana, considerando o quão inaceitável é o comportamento relacionado à discriminação, seja através do preconceito, seja por meio de estereótipos. Se por um lado existem movimentos sociais, educacionais, políticos e até científicos em direção à extinção dos vieses inter-raciais, sabe-se que o desafio é enorme e, nem sempre, os resultados são tão desejáveis. A presente contextualização, amparada em toda a fundamentação teórica anterior, traz estudos e experimentos científicos significativos que poderão contribuir para que as intervenções sejam melhor desenvolvidas, mais bem aplicadas em seus alvos e, por conseguinte, mais eficazes. A ciência vem se debruçando no tema nos últimos anos e, acompanhando as projeções e pesquisas correlatas, presume-se que os vieses implícitos e explícitos ainda serão amplamente estudados e pesquisados, o que reverbera na necessidade de um acompanhamento cirúrgico nas publicações científicas, por parte de todos os interessados. O enfoque, nesse segundo bloco, será a contextualização desses experimentos, bem como a consideração sobre as melhores práticas no intento de minimizar os vieses raciais, de acordo com os pesquisadores.

5.2 Estudos e Experimentos Científicos – Vieses Inter-raciais

Dr. Bertram Gawronski, psicólogo social e professor de psicologia na University of Texas at Austin, é um dos proeminentes pesquisadores nas áreas da Cognição Social, Atitudes, Tomada de Decisão e Psicologia Moral, juntamente com o Dr. Adam Hahn, da University of Cologne, também proeminente pesquisador em áreas da Introspecção e Conscientização, Atitudes, Cognição Social, Estereótipos e Preconceitos e Dual Process na Cognição Social. Hahn, Gawronski (2018) testaram a eficácia de diferentes procedimentos visando expandir as conceituações teóricas e o reconhecimento dos vieses implícitos a grupos raciais minoritários, incluindo negros, asiáticos e latinos. Suas considerações iniciais apontam para a premissa de que existe um quase consenso entre os pesquisadores de que assumir o reconhecimento dos vieses é um passo importante para que sejam formuladas políticas e intervenções que visem educar o público no combate à discriminação. O principal objetivo dessa pesquisa foi investigar a eficácia de diferentes procedimentos para aumentar o reconhecimento dos vieses implícitos, por meio da previsão de pontuações obtidas através do Implicit Association Test, e compará-las com os efeitos resultantes da conclusão real e respectivo feedback sobre o desempenho IAT. Dessa forma, os pesquisadores puderam inferir sobre os efeitos resultantes da conscientização dos vieses, com base nas pontuações IAT, como uma prática efetiva ou não nos processos de intervenções que visam a minimização. Partiu-se de quatro achados: (i) indivíduos não têm acesso introspectivo a seus vieses implícitos, incapacitando-os de relatá-los em medidas tradicionais de auto relato – fornecer feedback individual sobre suas pontuações IAT, como já ocorre no procedimento online; (ii) indivíduos não estão dispostos a relatar seus vieses implícitos, capturados pelas distorções de medidas entre auto relato e pontuações reais IAT – criar contextos favoráveis à assunção aberta de seus vieses; (iii) indivíduos não têm acesso introspectivo às atitudes subjacentes aos vieses implícitos, mas podem se conscientizar sobre, através da observação de seus próprios efeitos comportamentais – o fato do indivíduo perceber suas reações comportamentais durante a execução do IAT já poderia provocar percepções de seus vieses, independentemente do feedback conclusivo; e (iv) as avaliações implícitas são subjetivamente experenciadas como reações afetivas espontâneas e as dissociações entre essas e as avaliações explícitas ocorrem com base em distorções relativas à autopercepção quando do julgamento valorativo – direcionar a atenção dos indivíduos para suas reações afetivas espontâneas em relação a membros de grupos minoritários, visando o reconhecimento dos vieses e subsequente rejeição dessas reações como esteio para um julgamento aberto. Nesse caso, diferentemente dos demais achados, o reconhecimento dos vieses ocorre sem a completude do IAT e sem a ação de feedback ou de antecipação de medições reais. Ainda segundo Hahn, Gawronski (2018), com base na análise de pesquisas anteriores sobre a eficácia do feedback na ampliação do reconhecimento de vieses, a conclusão foi a de que os participantes tendem a reagir defensivamente quando suas expectativas não correspondem aos resultados apontados pelo IAT, inclusive questionando a validade do procedimento. Essa descoberta sugere que a suposta eficácia do feedback pode converter-se em maior rejeição a mudanças. Além disso, o IAT racial parece representar uma ameaça aos respondentes brancos por expor medidas de graus de racismo – o que parece interferir na ampliação da dissonância.

Nesse estudo foram analisados distintos contextos IAT racial – na avaliação de preferências de brancos sobre negros e outras minorias: (i) estudos 1-3: estudo 1 (157 participantes) e 2 (193 participantes) com feedback e estudo 3 (243 participantes) sem feedback - com o objetivo de demonstrar se o feedback tem alguma influência na preferência explícita de brancos sobre as minorias raciais avaliadas; (ii) nos estudos 4-6 os participantes foram solicitados a previamente avaliar o seu nível de viés racial. Os estudos 4 (358 participantes) e 5 (449 participantes) ocorreram sem feedback e o estudo 6 (383 participantes) com feedback. O detalhe é que o estudo 4 investigou adicionalmente se os efeitos obtidos foram moderados pelo objetivo de não preconceito dos participantes. O estudo 6 comparou os efeitos da predição da pontuação IAT com os efeitos de atenção às reações afetivas espontâneas de um indivíduo em relação aos negros e brancos, comparativamente. Os resultados desses estudos apontaram que os estudos 1-3 demonstraram que os participantes que previram suas respostas em relação a vários grupos minoritários no IAT apresentaram maior alinhamento entre as preferências implícitas e explícitas e um maior viés explícito contra as minorias. Os estudos 4-6 demonstraram que os participantes que predisseram seus vieses raciais no IAT Preto-Branco, posteriormente se auto descreveram como portadores de maiores níveis de viés racial automático. O estudo 4 apontou que o efeito da predição da pontuação IAT está atrelado aos objetivos dos participantes, sendo que os escores foram maiores para participantes com objetivos fortes não preconceituosos e diminuíram para participantes com fracos objetivos não preconceituosos. O estudo 6 demonstrou que as instruções para atender às reações afetivas espontâneas em relação a membros minoritários, aumentaram o reconhecimento do viés na mesma medida que a previsão do escore IAT. Para esses achados algumas considerações foram feitas: (i) embora nos estudos 2-3 o IAT sem feedback aumentou marginalmente o alinhamento entre as preferências implícitas e explicitas, tal efeito não foi significativo no estudo 1; (ii) o IAT sem feedback também não aumentou o viés explícito – tendo diminuído nos estudos 1-2 – nem demonstrou efeitos significativos no reconhecimento do auto relato; (iii) a conclusão do IAT com feedback parece ter aumentado o alinhamento entre as preferências implícitas e explícitas no estudo 3, mas também não demonstrou efeitos significativos no reconhecimento do auto relato; e (iv) no estudo 5 houve um aumento no reconhecimento dos vieses auto relatados, porém sem correlação com o feedback individual. Conclusivamente, os achados de Hahn, Gawronski (2018), sugerem que o reconhecimento dos vieses raciais tende a aumentar direcionando a atenção dos indivíduos para suas reações afetivas espontâneas em relação a grupos minoritários – por exemplo, solicitando-lhes que prevejam suas pontuações antecipadamente à realização do IAT. A conclusão sobre os efeitos IAT e do feedback IAT no reconhecimento dos vieses foram inconsistentes e menos confiáveis.

Outro expressivo estudo de Axt et al (2018), abrangendo sete investigações com mais de 7.000 participantes, investigaram os efeitos da redução dos vieses de julgamentos sociais em múltiplas categorias (por exemplo, excesso de peso, minoria racial, identidade de gênero, etc.), avaliando se instruções para a redução de preconceitos implícitos em uma determinada categoria seriam eficazes na minimização das demais. Com base nesse questionamento os investigadores avaliaram se a eficácia dessas intervenções se restringia à categoria social explicitamente identificada ou se reverberaria simultaneamente nas demais, mesmo sobre um único alvo (indivíduo com dois atributos, por exemplo, negro e gay).

O estudo partiu de duas perspectivas teóricas: (i) primeira - modelo de ‘correção de viés mental’, - comportamentos são influenciados por fatores que existem fora da intenção consciente ou da consciência (Wilson, Brekke, 1994) – que identifica as origens dos preconceitos e dos processos para contrabalancear suas expressões: (a) consciência do comportamento indesejado relacionado ao julgamento; (b) motivação para corrigir o julgamento; (c) consciência da direção e magnitude do julgamento; e (d) capacidade de ajustar respostas relativas ao julgamento. Nesse modelo o não cumprimento de qualquer condição resultaria em julgamento tendencioso. É preciso considerar que Wilson, Brekke (1994) alertaram sobre o fato de que a sinalização para a redução de um viés ser eficaz para uma categoria, mas não para outras, no caso de alvos individuais. Porém, inferiram que a consciência sobre os vieses não precisa necessariamente vir de uma fonte externa e que alertar as pessoas para um preconceito em relação a uma categoria social pode levá-las a perceber espontaneamente outros possíveis vieses relativos a outras categorias sociais. De qualquer forma, esse modelo não é definitivo quanto à especificidade da consciência:

“Por exemplo, para reduzir o viés de orientação política, pedir às pessoas que evitem mostrar um preconceito em relação a “pessoas de diferentes categorias” é tão eficaz quanto pedir às pessoas que evitem mostrar uma tendência para “pessoas de diferentes partidos políticos”? E, alertando sobre outra categoria, seria suficiente para iniciar processos corretivos que também reduziriam os preconceitos políticos?” (Axt et al, 2018)

Em tese o modelo não antecipa ou exclui diretamente tais possibilidades, mas evidências empíricas, como alegam os pesquisadores, ajudariam a refinar a teoria; e (ii) segunda perspectiva teórica - enfoca a ativação de processos motivacionais para reduzir a dependência de estereótipos e potencialmente diminuir comportamentos tendenciosos (Moskowitz, Li, 2011). “Semelhante ao modelo de Wilson e Brekke (1994), essa perspectiva argumenta que a ativação da categoria social é necessária, mas pode não exigir ‘consciência’ do viés no sentido convencional” (Axt et al, 2018). Alguns estudos sugerem que uma categoria social pode ser ativada e ao mesmo tempo ser invocada a sua correção pela simples e breve apresentação de uma face outgroup – como indivíduos da raça branca que relataram ser racialmente preconceituosos implicitamente e diminuíram o viés ao processar informações relacionadas a essa discriminação.

“Esses relatos também são inespecíficos, pois preveem que alertar as pessoas para um viés criaria reduções em outros vieses simultâneos. Por um lado, os estudos empíricos virtuais sempre ativam a mesma categoria social que é avaliada quanto à mudança de comportamento. Isso implica que a ativação da motivação para ser imparcial é restrita à categoria social ativada. Ainda, os modelos teóricos deixam em aberto a possibilidade de impacto mais geral nos processos motivacionais.” (Axt et al, 2018)

Mesmo os modelos revisados compartilham a expectativa de que a conscientização sobre o viés potencial (juntamente com capacidade e motivação para abordá-lo) é fundamental para mudar o comportamento tendencioso – porém, falta especificidade para saber se as intervenções direcionadas a certa categoria social são suficientes para reduzir o preconceito em relação a outra categoria, simultaneamente.

No estudo de Axl et al (2018) todos os participantes completaram uma ‘tarefa de viés de julgamento’ - Judgment Bias Task – JBT:

“Em geral, o JBT solicita aos participantes que avaliem uma série de perfis. Os perfis são criados previamente para apresentar diferentes níveis (por exemplo, melhores alunos versus piores alunos, pacientes mais saudáveis versus pacientes menos saudáveis, etc.). Dentro de cada nível, os perfis são atribuídos a diferentes categorias sociais (por exemplo, pessoas mais atraentes versus pessoas menos atraentes, pessoas de um país versus outro país, etc.). Os pesquisadores podem então ver se a presença dessas categorias distorce a maneira como os perfis são avaliados.” (Axl et al, 2016)

Nos quatro experimentos os candidatos foram apresentados a duas formas de critérios conhecidos pelo favoritismo implícito: (i) faces variando em atratividade física; e (ii) um indicativo do status dos membros ingroup ou outgroup. No experimento 1 alguns participantes foram escolhidos para receber prévia intervenção, que tanto mencionou o potencial de favoritismo ingroup, quanto solicitou para que os mesmos fossem evitados. Já no experimento 2 alguns participantes receberam uma intervenção para que evitassem exibir um ou ambos os atrativos físicos ou os vieses ingroup. No estudo 3 testou-se a eficácia do alerta sobre vários potenciais vieses (por exemplo, raça, orientação sexual), além de vieses relacionados à atratividade física e aqueles definidos na EEOC38 - Equal Employment Opportunity Commission americana aplica as leis federais que proíbe, a discriminação no trabalho. Por fim, no experimento 4, o objetivo foi testar a amplitude da advertência sobre um viés potencial para outras categorias sociais.

As evidências experimentais sugerem que as intervenções são eficazes na redução de vieses para a categoria identificada, mas não para as demais. São também compatíveis com o ‘modelo de correção de viés’ de Wilson, Brekke (1994), bem como da inferência de Moskowitz, Li (2011) onde a ativação de categorias sociais e o potencial de parcialidade podem invocar processos corretivos. Porém, adicionalmente e com base nos objetivos desse estudo: (i) os indivíduos devem ser alertados para a categoria social específica (não se evidenciou que um ‘alerta geral’ surta efeito na imunização dos vieses) e a eficácia de intervenções para evitar-se os vieses implícitos são diluídas quando consideradas com outras categorias; (ii) consequentemente, esses achados sugerem que intervenções eficazes devem ser específicas para atender as condições necessárias à correção dos vieses; (iii) da mesma forma, alertar os participantes sobre possíveis vieses e pedir-lhes que os evitem não demonstrou introspecção espontânea, nem repercussão a outras fontes de preconceitos; e (iv) entretanto, um simples alerta foi capaz de reduzir consistentemente os vieses para as categorias sociais selecionadas nas intervenções realizadas. Por fim, nesse mesmo estudo, foi realizada e publicada uma importante e interessantíssima projeção:

“Recente pesquisa observou que 106 milhões de pessoas usam o LinkedIn pelo menos uma vez por mês. Uma estimativa conservadora seria a de que metade desses usuários ativos utilizam foto no seu perfil (53 milhões). Se assumirmos (...) que as pessoas que avaliam esses candidatos mostrariam o mesmo viés de atratividade que os participantes em nossas condições de controle, um candidato mais atraente fisicamente receberia uma avaliação mais favorável 73,1% do tempo, comparado com um candidato igualmente qualificado, menos atraente fisicamente. Se a manipulação de aviso de viés aqui utilizada fosse aplicada a todos os empregadores que usam o LinkedIn para seleção de entrevistas - e produzisse o mesmo efeito que nos participantes do estudo - o percentual cairia para 67,5%. Aplicada a todo o grupo de usuários ativos do LinkedIn que acessam essa rede social uma vez por mês, essa breve manipulação significaria que mais de 1,48 milhões de pessoas menos atraentes fisicamente receberiam entrevistas que, de outra forma, teriam sido destinadas a pessoas fisicamente mais atraentes.” (Axl et al, 2018)

Lai et al (2014) é outro grupo de pesquisadores voltados à questão dos vieses implícitos. Em um extenso e relevante estudo, denominado ‘concurso’ de pesquisa, para comparar experimentalmente a eficácia de intervenções voltadas à redução do preconceito racial implícito de brancos em relação à negros. Ao todo foram 17 estudos comparativos, com um total de 17.021 participantes, onde cada intervenção foi testada, em média, 3,7 vezes. Para justificar esse projeto, os pesquisadores partiram de algumas premissas, com base na análise de centenas de estudos na esfera dos preconceitos inter-raciais: (i) normalmente o auto relato de participantes da raça branca reflete atitudes raciais igualitárias, mas implicitamente preferem os brancos aos negros; (ii) as preferências implícitas e explicitas são construídas através de mecanismos distintos, o que leva a diferentes mecanismos a serem adotados no processo de intervenção; (iii) as preferências raciais implícitas predizem comportamentos que interferem negativamente nas interações inter-raciais, como processos de tomada de decisão na área médica, ou mesmo discriminação em processos seletivos de candidatos; (iv) a maioria das investigações examina mecanismos potenciais isoladamente, fornecendo pouca visão sobre os efeitos comparativos ou interativos dos processos básicos que contribuem para a avaliação implícita; e (v) pouca evidência sobre a eficácia relativa de diferentes abordagens na minimização dos vieses. Com base em todas as análises realizadas, o objetivo principal do estudo passou a ser: “como a expressão das preferências raciais implícitas pode ser reduzida para mitigar o comportamento discriminatório subsequente?”. Para tentar responder a essa pergunta, inferiram que esse estudo comparativo teria o efeito de testar intervenções complexas, permitindo identificar o que é ou não eficaz e, além disso, o quanto e como são eficazes. Partiu-se do princípio onde uma divisão estruturada de trabalho em equipes pode ser mais eficiente do que tão somente projetos de pesquisa com mecanismos isolados de testes e análises de resultados. O foco do estudo foi na análise dos vieses raciais implícitos de brancos em relação à negros, cujos resultados serão apresentados (mas também abrangeu a investigação de vieses explícitos de avaliações que abrangeram outros grupos raciais, como hispânicos e asiáticos).

A dinâmica desse ‘concurso’ previu a seleção de pesquisadores divididos em quatro macro estudos, detalhados na sequência. Entre os experimentos as equipes poderiam revisar suas intervenções para serem mais eficazes, mantê-las como estavam ou desistir do ‘concurso’. Ao todo foram realizados 68 testes de ‘maleabilidade de preferência racial implícita’, com 17 intervenções e 1 condição de comparação que foi projetada para induzir artificialmente a maleabilidade dos vieses. Em linhas gerais, os mecanismos presumidos nesses testes variavam bastante e consideravam, principalmente: (i) aumento das avaliações positivas de negros; (ii) aumento das avaliações negativas de brancos; (iii) aumento do controle sobre a expressão de atitudes raciais preconceituosas; e (iv) indução de mentalidades raciais igualitárias. Todos os participantes eram cidadãos norte-americanos, não negros, que se registraram no site do Projeto Implícito (https://implicit.harvard.edu).

Nos estudos 1-2 os participantes foram selecionados aleatoriamente para uma condição de controle, uma condição faking ou uma das condições de intervenção IAT previstas para a redução dos vieses implícitos. Na sequência, todos completaram o IAT racial branco-negro, seguido por uma medida de auto relato. O estudo 3 foi idêntico aos anteriores, exceto pelo fato de que os participantes foram designados aleatoriamente para completar o mesmo IAT dos estudos 1-2 ou o IAT multirracial. O estudo 4 manteve as condições anteriores, acrescentando um IAT pré-teste de categorização, com o objetivo de testar o atrito verificado em relação ao diferencial de condições estabelecidas nos estudos anteriores. Nesse caso os participantes foram designados aleatoriamente para completar ou não o IAT pré-teste e os pesquisadores puderam avaliar os dados relativos aos efeitos desse procedimento no pós-teste. É importante ressaltar que embora o IAT seja relativamente consistente contra falsificações (faking), ele pode ser manipulado por meio de estratégias comportamentais. Aleatoriamente, participantes foram informados de que o objetivo do estudo era ‘fingir’ um resultado IAT e foram instruídos a diminuir as velocidades de respostas em blocos ‘black and bad’ e acelerar em blocos ‘white and bad’ – os pesquisadores previamente informaram tendências sobre preferência implícita de brancos em relação à negros. O objetivo desse faking IAT foi verificar se resultados obtidos e publicados estão sujeitos a manipulação. A análise final dos dados coletados apontou os seguintes resultados:

  1. 8 das 17 intervenções, mais a condição faking, obtiveram sucesso na redução de preferências raciais implícitas, ao menos uma vez;

  1. As intervenções foram classificadas por eficácia ou não eficácia em cada procedimento, conforme tabela 2, divididas em classes distintas:

GF

Grupo/Procedimento

E1

E2

E3

E4

Envolvendo-se com as Perspectivas dos Outros

Shifting Group Affiliations Under Threat

NT

NF

EF

EF

14º

Imagining Interracial Contact

NF

NF

NT

NT

17º

Training Empathic Responding

NF

NT

NT

NT

Exposição a Exemplares Contra Estereotípicos

Vivid Counterstereotypic Scenario

EF

DF

EF

EF

Shifting Group Boundaries through Competition

NT

EF

EF

EF

Practicing an IAT with Counterstereotypical Exemplars

ER

EF

EF

EF

12º

Highlighting the Value of a Subgroup in Competition

NF

NT

NT

NT

18º

Perspective-Taking

NF

NT

NT

NT

Apelo aos Valores Igualitários

Priming Multiculturalism

NT

NT

EF

EF

11º

Considering Racial Injustice

NF

NF

NT

NT

13º

Priming Feelings of Non-Objectivity

NF

NF

NF

NF

15º

Priming an Egalitarian Mindset

NF

AP

NF

NF

16º

Instilling a Sense of Common Humanity

NF

NF

NF

NF

Condicionamento Avaliativo

Evaluative Conditioning with the Go-No Go Association Task

NF

EF

EF

EF

Evaluative Conditioning

ER

NF

EF

EF

Indução de Emoção

10º

Inducing Moral Elevation

NF

NF

NT

NT

Estratégias Intencionais para Superar Vieses

Faking the IAT

EF

EF

EF

EF

Using Implementation Intentions

EF

EF

EF

EF

tabela 2 – baseada em Lai et al (2014, 2016)

Legenda:

EF – Eficaz NF – Ineficaz ER – Erro no procedimento

DF – Duplamente eficaz NT – Não testado GF – Grau de Eficácia

AP – Aumento de preferência implícita

1º) Vivid Counterstereotypic Scenario (Maddalena Marini, Sandro Rubichi, & Giuseppe

Sartori)

Intervenção onde se criou cenários ficcionais de mudanças nos atributos dos objetos associados a vieses, por exemplo, associar o ‘branco’ ao ´mal’ e o ‘negro’ ao ‘bem’. Teceu-se uma narrativa ficcional estereotipada, inserindo o participante na história, atrelando-o a experiência positiva com a raça negra e negativa com a raça branca – por exemplo ser salvo por negro versus agressão sofrida por um branco. No estudo 1, ao realizarem o IAT, os participantes foram instruídos a manter a história em mente e a confirmar os atributos branco=ruim e negro=bom, durante o procedimento. No estudo 2 a duração e vivacidade da narrativa foram ampliadas.

2º) Shifting Group Boundaries through Competition (Rebecca Frazier)

Intervenção na qual os participantes foram designados para fazer parte de uma equipe de queimada onde todos os seus companheiros eram negros e todos os seus oponentes eram brancos. Os participantes visaram os oponentes brancos e receberam ajuda de seus companheiros de equipe negros durante o jogo. O objetivo desse tipo de intervenção foi testar se a cooperação com membros outgroup impactaria na minimização das preferências implícitas dos brancos sobre os negros. Além disso, os membros da equipe da raça branca foram desleais durante a partida, visando induzir que negros = bons e brancos = maus. No estudo 3, para aderir aos requisitos de tempo do ‘concurso’, as seções avançavam automaticamente em caso de uma demora maior na resposta. O estudo 4 replicou o anterior.

3º) Practicing an IAT with Counterstereotypical Exemplars (Bethany Teachman)

Intervenção que reforçou, em uma variação do IAT, associações positivas com negros e negativas com brancos, através de prática repetida dos blocos de resposta. Os blocos comtemplavam negros positivos conhecidos (Bill Cosby) e brancos negativos conhecidos (Charles Manson). No estudo 1 houve um erro de programação TAI, invalidando-o. No estudo 2 houve a correção do erro e os participantes interagiram com associações contra estereotipadas. No estudo 3 a prática contra estereotipada foi reduzida em quase 60%, reduzindo as preferências implícitas no mesmo grau. No estudo 4 manteve-se a mesma configuração.

4º) Faking the IAT (Calvin Lai)

Essa intervenção simulou um faking IAT como uma oportunidade para observar se as intervenções reais são distinguíveis dos efeitos de possíveis falsificações. Os participantes receberam um breve tutorial de como utilizar o IAT e foram questionados sobre tendências em relação a preferências implícitas de brancos sobre negros. No procedimento foram informados de que o objetivo do estudo era sobre ‘fingir’ as respostas IAT, sendo solicitados a diminuir a velocidade em blocos com "black and bad" e acelerar em blocos com "white and bad". O objetivo de incluir essa manipulação foi obter dados comparativos com intervenções sugestivas de manipulações, com resultado positivo.

5º) Using Implementation Intentions (Calvin Lai)

Intervenção onde ‘planos de implementação’ – situações ‘se-então’ que ligam uma resposta comportamental a uma pista situacional – podem ser eficazes para aumentar a consistência entre intenções e comportamentos direcionados por objetivos, aumentando a automaticidade comportamental. O mecanismo desse procedimento conecta o contexto com a intenção do objetivo, tornando as associações entre ambos mais acessíveis na memória. Previamente ao IAT os participantes foram informados sobre a tendência implícita pelos brancos em comparação aos negros, sendo convidados a se comprometer com uma intenção como: "eu definitivamente quero responder positivamente a faces negras com boas associações”. No Estudo 1 houve redução de preferências implícitas. No Estudo 2, os participantes completaram testes práticos do IAT para familiarizá-los com a tarefa antes do teste real. Nesse caso a eficácia da intervenção foi aumentada em comparação com os estudos 1, 3 e 4.

6º) Evaluative Conditioning with the Go-No Go Association Task (Carlo Cerruti & Jiyun-Elizabeth Shin)

Intervenção caracterizada por associações rápidas e repetidas entre dois estímulos, utilizada para fortalecer a associação entre ‘negros’ e ‘bons’. No primeiro bloco os participantes foram instruídos a ‘go’ quando o par de estímulos eram relacionados a um negro e uma qualidade e ‘no go’ quando o pareamento não era uma pessoa negra e uma qualidade. A maioria dos pares de estímulos era composta de pessoas negras e boas palavras (qualidades). No segundo bloco os participantes foram instruídos a ‘go’ quando o pareamento de estímulo era uma pessoa branca e uma boa palavra e a não fazer nada se esse não fosse o pareamento. Uma minoria de tentativas continha uma pessoa branca e um bom par de palavras. Assim, o segundo bloco tentou desencorajar associações automáticas de pessoas brancas e boas palavras.

7º) Priming Multiculturalism (Larisa Heiphetz)

Intervenção que examinou o efeito do multiculturalismo nas atitudes raciais, incentivando os participantes a adotar uma perspectiva multicultural – há pesquisadores que atacam o daltonismo racial, por ampliarem as preferências raciais. Os participantes leram um alerta defendendo o multiculturalismo, o resumiram com suas próprias palavras e listaram duas razões favoráveis para adotá-lo.

8º) Shifting Group Affiliations Under Threat (Steven Lehr)

Intervenção que apresentou um cenário pós apocalíptico para leitura. No estudo 2 inseriu-se nesse contexto maioria de faces negras amigas, sinalizadas como úteis, de ajuda, nesse contexto. No estudo 3 inseriu-se faces brancas descritas como inimigos, nesse mesmo contexto. O estudo 4 manteve o mesmo desenho, mas incluiu faces negras mais simpáticas e faces brancas menos simpáticas.

9º) Evaluative Conditioning (Sean Wojcik & Spassena Koleva)

Intervenção que explorou o condicionamento. Nessa intervenção os participantes viram pares de rostos negros com palavras positivas e de brancos com palavras negativa. No caso, faces afro-americanos foram sempre emparelhadas com palavras positivas e faces brancas com palavras negativas. Após a apresentação dos estímulos (por 1 segundo), os participantes categorizaram a face e memorizaram as palavras de valência para testes posteriores. Os estudos 3 e 4 foram eficazes após a retirada da etapa de memorização, o que diminuiu a complexidade do experimento.

10º) Inducing Moral Elevation (Jonathan Haidt)

Intervenção onde a hipótese era induzir atos de caridade, gratidão ou generosidade, visando desfocar os limites entre o grupo interno (brancos) e o grupo externo (negros). No estudo 1, os participantes assistiram a um vídeo sobre um jogo de softball, onde um jogador se machuca, sendo socorrido e carregado por um adversário - nesse vídeo todos os jogadores eram brancos, porém não foi eficaz na redução de preferências implícitas. Para o Estudo 2 o vídeo apresentou outra situação, porém onde os protagonistas eram todos negros desempenhando atos de generosidade. Nesse experimento o pré-teste induziu a elevação moral, mas não no teste final.

11º) Considering Racial Injustice (Larisa Heiphetz)

Intervenção que listou dois exemplos de injustiças atualmente infringidos pelos brancos contra os negros e a percepção de como eles (os negros) superam essa injustiça racial. Na visão dos pesquisadores, apenas enxergar as injustiças poderia ampliar a visão negativa sobre os negros. Seria preciso vê-los como agentes de mudanças sociais positivas para acarretar um efeito oposto.

12º) Highlighting the Value of a Subgroup in Competition (Selin Kesebir)

Intervenção que enfatizou a valorização de membros outgroup, lembrando que os afro-americanos contribuíram para o posicionamento de destaque internacional dos EUA. Os participantes leram uma descrição sobre o posicionamento de destaque do basquete americano em nível mundial, com uma lista de 8 proeminentes jogadores negros, onde a tarefa era assinalar os conhecidos. O objetivo era estabelecer associações positivas em relação aos negros.

13º) Priming Feelings of Non-Objectivity (Jennifer Joy-Gaba)

Intervenção que considerou o fenômeno do ‘ponto cego de viés’ – aquele que reflete autopercepção de objetividade e imparcialidade, imune a julgamentos tendenciosos. Foi demonstrado que indivíduos auto percebidos como mais objetivos despontam com maiores graus de discriminação. Logo, induzir sentimentos de não-objetividade, poderia provocar um efeito positivo. No estudo 1 os participantes foram convidados a lembrar de 9 eventos passados onde se comportaram de forma objetiva, buscando demonstrar-lhes que a dificuldade em acessar essas lembranças poderia indicar a inexistência dessa característica. No estudo 2 os participantes relataram como eles pessoalmente agiriam, dado um contexto específico, em comparação com a forma como a sociedade acredita que eles deveriam agir. Nos estudos 3-4 os pesquisadores inseriram uma variante solicitando aos participantes que lessem um artigo científico sobre como os preconceitos implícitos influenciam o comportamento.

14º) Imagining Interracial Contact (Eva Chen & Rhiannon Turner)

Intervenções que sugerem imaginar interações outgroup, partindo-se de premissa onde, sob condições adequadas, o contato entre membros de diferentes grupos levará a relações intergrupais mais positivas. Apoiando essa ideia os participantes que imaginam contato com distintos outgroup (por exemplo, idosos, muçulmanos, negros, gays) demonstram menos ansiedade intergrupal e mantêm atitudes mais positivas em relação a eles.

15º) Priming an Egalitarian Mindset (Arnold Ho)

Intervenção com priming na escala humanitária-igualitarista, como forma de atenuar os vieses no estudo 1. No estudo 2 os participantes escreveram: “todas as pessoas e grupos são iguais; portanto, eles devem ser tratados da mesma maneira”. No estudo 3 os participantes tinham que responder à pergunta: ‘por que é importante ser igualitário e o que fez com que você não conseguisse eventualmente viver de acordo com esses valores?’

16º) Instilling a Sense of Common Humanity (Carlee Beth Hawkins)

Intervenção voltada a redesenhar os limites do ingroup, visando expandir suas fronteiras na inclusão de membros outgroup - redefinição do paradigma de que membros internos são mais apreciados. Nos estudos 2-4 os participantes assistiram a um vídeo onde um homem dançava com várias pessoas em vários países e culturas distintas. Os pesquisadores esperavam ampliar o senso de diversidade, criando associações positivas outgroup.

17º) Training Empathic Responding (Hillary Schaefer)

Intervenções com o propósito de aumentar a resposta empática, visando tornar as atitudes explícitas mais positivas para membros outgroup. Para averiguar se o treino de empatia alteraria as preferências implícitas, os participantes foram inseridos em um jogo onde a resposta empática foi recompensada com feedback positivo.

18º) Perspective-Taking (Steven Lehr)

Intervenções com o objetivo de ativar o processamento auto referencial em associação a membros outgroup, através da proximidade, prevendo-se respostas de ‘medo’ mais fracas e controladas. No estudo 1 a intervenção adaptou o paradigma de tomada de perspectiva, mostrando faces negras acompanhadas por um contexto emocional.

No estudo de Lai et al (2016), contemplando 12 experimentos com 6.321 participantes, foram analisadas as 9 intervenções do estudo Lai et al (2014) que demonstraram efetividade na redução dos vieses implícitos, sob a ótica da eficácia ao longo do tempo. Os resultados finais revalidaram a eficácia dessas 9 intervenções, porém em períodos de tempo que não ultrapassaram 24 horas, em média, concluindo:

“(...) os efeitos da intervenção foram fugazes, durando menos de dois dias. Essas descobertas são um testemunho de como os preconceitos da mente permanecem firmes diante dos esforços para mudá-los. Entender quando as preferências implícitas podem ser alteradas a longo prazo será a próxima fronteira para pesquisas sobre mudanças em associações implícitas.” (Lai et al, 2016)

5.2.1 Os efeitos das intervenções ao longo do tempo na redução dos vieses implícitos

No presente trabalho investigou-se também se os métodos de redução de vieses implícitos perpetuavam, ou seja, se mantinham ao longo do tempo e em qual proporção. Entretanto, com base nas pesquisas realizadas, supõe-se que sejam escassos os estudos nessa direção, porém Devine et al (2012) realizaram testes sobre o efeito de longa duração, com resultados promissores.

O extenso e didático estudo de Devine et al (2012) foi baseado na premissa de que o viés implícito se comporta com as mesmas propriedades do ciclo de formação e mudança de um hábito. De acordo com essa visão, o viés implícito poderia ser reduzido por meio de uma combinação de tomada de consciência sobre o preconceito, preocupação com os efeitos do mesmo e aplicação de estratégias para mitigá-lo. Dessa forma, foi realizado um estudo longitudinal de 12 semanas, com o objetivo de reduzir os vieses raciais implícitos, com maior previsibilidade de efeitos positivos ao longo do tempo. Os participantes eram 91 estudantes não negros de psicologia, sendo 67% mulheres e 85% brancas. Desses, 38 participantes foram designados para uma condição de controle e 53 para intervenção.

A primeira menção preventiva desse estudo diz respeito ao fato onde os participantes de estudos anteriores conseguiram reduzir seus vieses implícitos por um tempo, porém sem intenção de fato a não ser pelas manipulações estratégicas dos pesquisadores. A segunda menção parte da inferência de que os vieses explícitos e implícitos são fundamentados em processos mentais distintos, onde o primeiro independe do contexto e tem a capacidade de mudar rapidamente e o segundo é altamente contextual, apenas mudando de forma duradoura se for empregado relativo esforço ou dependendo da intensidade e objetivos da experiência. De acordo com o estudo essas questões aproximam os construtos relacionados aos hábitos e aos vieses e, por conseguinte, mudar um preconceito requer tempo e esforço na busca de objetivos.

“‘Quebrar o ‘hábito’ do viés implícito, portanto, requer aprender sobre os contextos que ativam o preconceito e como substituir as respostas preconceituosas por respostas que refletem os objetivos, sem preconceitos. Apoiando a estrutura de mudança de hábito dos preconceitos, evidências consideráveis ​​demonstram que, quando acreditam ter agido com viés, as pessoas que endossam valores contrários ao preconceito são motivadas a inibir a expressão do viés implícito, buscando informações e aplicando-as em tarefas nas quais acreditam ser eficazes para a quebra do hábito do preconceito. (...) Além disso, quando essas pessoas se dão conta de terem agido de forma preconceituosa, sentem culpa, o que promove maiores esforços na autorregulação das expressões dos vieses.” (Devine et al, 2012)

A estratégia do estudo, portanto, foi sintetizar insights sobre o ‘modelo do hábito do preconceito’, no que tange à redução dos vieses implícitos, utilizando-se de intervenções multifacetadas através de paralelos conceituais como a terapia cognitivo-comportamental, os fundamentos da aprendizagem de adultos e da mudança de comportamento para hábitos saudáveis. As condições e etapas do estudo foram (i) todos os participantes completaram uma medida de viés implícito e receberam feedback sobre seu nível de viés; (ii) os participantes designados para o grupo de intervenção participaram de um treinamento sobre preconceitos, cujos objetivos gerais evocavam a pontos de alerta e preocupação sobre os vieses implícitos e como eliminá-los. Especificamente, o treinamento abordou a comparação entre os vieses e um hábito, em diversos contextos, como nos relacionamentos interpessoais, no trabalho, na saúde, etc, apresentando estratégias para a ‘quebra do preconceito’; (iii) como parte da intervenção, os participantes escolheram as estratégias que eles consideravam mais aplicáveis para cada situação de suas vidas, sendo convidados a refletirem e relatarem sobre elas nas próximas semanas; (iv) para avaliar a eficácia da intervenção, foi utilizado o IAT racial negro-branco. Como 90% da amostra apresentou um viés pró branco no IAT, esse procedimento serviu também como uma medida de conscientização; (v) foi desenvolvida uma medida específica que avaliava a preocupação da sociedade com a discriminação, realizada antes da intervenção do treinamento e em dois momentos após (para os grupos de intervenção e controle); e (vi) todos os participantes completaram o IAT racial negro-branco, com medidas implícitas em três momentos: imediatamente antes da intervenção, 4 semanas após a intervenção e 8 semanas após a intervenção. As medidas explícitas também foram realizadas em três momentos: 4 semanas antes da intervenção em sala de aula e 2 e 6 semanas após a intervenção, via e-mail. Os participantes do grupo de intervenção completaram ainda medidas de suas reações (por exemplo, percepções sobre probabilidade e possibilidade de uso) às estratégias de redução de vieses, imediatamente após o treinamento. Esses, ainda, completaram perguntas de respostas livres sobre suas experiências com o emprego das estratégias, 2 e 6 semanas após a intervenção. As medidas explícitas que foram implicadas no processo de redução de preconceito incluíram atitudes raciais, fontes de motivação para responder socialmente sem preconceito, discrepâncias relevantes ao preconceito e preocupação com a discriminação na sociedade (todas essas medidas poderão ser melhor avaliadas quanto aos critérios e resultados no paper original do estudo).

Segundo os pesquisadores, o desenho e estratégia do estudo apresenta cinco pontos fortes principais:

“Primeiro, permite avaliar os efeitos da intervenção em um rico conjunto de variáveis ​​(implícitas e explícitas) que são teoricamente importantes para a redução do viés racial. Segundo, permite examinar se os efeitos da intervenção sobre essas variáveis ​​persistiram ou mudaram ao longo do tempo. Terceiro, oferece a oportunidade de avaliar se o uso da estratégia relatada está associado a reduções no viés implícito. Quarto, no grupo de controle, pode-se avaliar se o feedback sobre o nível de viés implícito leva a reduções sem uma intervenção multifacetada. Finalmente, pode-se examinar se qualquer uma das medidas explícitas tomadas em dois momentos, antes e depois da manipulação da intervenção, modera o efeito da intervenção no viés implícito”. (Devine et al, 2012)

Vale ressaltar as estratégias utilizadas na intervenção em sala de aula, para melhor compreensão dos resultados finais desse estudo (sendo que a dinâmica poderá ser também melhor analisada no paper original), a saber:

1ª) Stereotype replacement: essa estratégia envolve a substituição de respostas estereotipadas por respostas não estereotipadas, envolvendo o reconhecimento e a reflexão sobre o viés. Na sequência, discute-se sobre estratégias para que respostas tendenciosas sejam evitadas no futuro, substituindo-as por outras não tendenciosas.

2ª) Counter-stereotypic imaging: essa estratégia envolve imaginar em detalhe outros modelos contra estereotipados abstratos (por exemplo, pessoas negras inteligentes) famosos (por exemplo, Barack Obama) ou não famosos (por exemplo, um amigo pessoal), tornando os exemplos positivos para desafiar a validade dos vieses.

3ª) Individuation: essa estratégia se baseia na prevenção de julgamentos estereotipados, através de informações específicas pessoais sobre os membros dos grupos, ajudando as pessoas a avaliarem membros alvos com base em seus atributos pessoais e não com base em vieses de grupo.

4ª) Perspective taking: essa estratégia envolve colocar-se na perspectiva da pessoa de um grupo estigmatizado, visando ampliar a proximidade psicológica e melhorar as avaliações automáticas de grupos.

5ª) Increasing opportunities for contact: essa estratégia envolve a busca de oportunidades para que haja interações positivas com os membros outgroup.

Os resultados finais obtidos pelos pesquisadores foram bem convincentes para a mitigação dos vieses implícitos, ao longo do tempo. A estratégia multifacetada de intervenção parece ser eficaz: (i) as reduções de vieses implícitos que foram aferidas na quarta semana após a intervenção perduraram até a oitava semana e, segundo os pesquisadores, são sem precedentes na literatura, como de fato, até a realização desse trabalho, não foi encontrado estudo similar, o que não quer dizer que não exista, mas as pesquisas realizadas não puderam identificá-lo. Parece que a estratégia randomizada e controlada desse estudo tornaram estratégias que haviam sido ineficazes em outros estudos apresentados no item 2.6, eficazes; (ii) outro resultado de destaque foi a simultaneidade entre a intervenção e o aumento da preocupação auto referida sobre as discrepâncias causadas pela discriminação racial – nesse sentido o processo parece ter ampliado a autoconsciência e a consciência social sobre o problema. Os pesquisadores atestam que mesmo aqueles participantes desmotivados ou inconscientes de seus vieses, parecem ter sido envolvidos pela intervenção e compelidos a responder sem preconceitos, em um esforço de autorregulação. Essa inferência se deve ao fato de que nenhuma medida explicita coletada na linha de base ter servido como moderadora do efeito da intervenção dos vieses implícitos. Em contraste, uma medida explícita obtida na segunda semana – preocupação com a discriminação – emergiu como moderadora do efeito da intervenção. Ambos os achados sugerem que a preocupação com a discriminação não é um fator sensível no início do processo, mas tende a sê-lo à medida em que se incorporam estratégias de redução dos vieses implícitos – quando as pessoas se tornam efetivamente conscientes das implicações pessoais e sociais provocadas pela discriminação; (iii) além disso, como as estratégias de redução de vieses foram selecionadas livremente pelos participantes, sugere-se que esse efeito, de acordo com os relatos, tenha provocado não somente a redução inicial dos vieses, como a manutenção da redução ao longo do tempo. Infelizmente, porém, conforme relatado, esse presente estudo não possui indicadores quantitativos precisos quanto ao uso das cinco estratégias transferidas aos participantes, onde, a coleta de indicadores mais precisos, poderão ajudar no delineamento dos mecanismos subjacentes à regulação do viés implícito em estudos posteriores; (iv) os achados de frequência e verossimilhança, combinados com os achados sobre mudança no viés implícito, consciência pessoal e preocupação, apoiam o modelo do hábito do preconceito e outros modelos de processo duplo que identificam o esforço como necessário para a redução dos vieses implícitos – os pesquisadores acreditam que esses achados são importantes no efeito da regulação a longo prazo, por meio de estratégias bem definidas, como decorrido no estudo.

Em relação à sugestões para estudos futuros, os pesquisadores elencam: (i) estabelecer os mecanismos comportamentais, cognitivos e afetivos através dos quais esse modelo de intervenção exerce seus efeitos, além de medir quando, onde e com quais frequências as pessoas empregam diferentes estratégias – sugerem estudos com modelagem multimodal e neurociência comportamental; (ii) não foi possível especificar, a priori, quais elementos da intervenção (por exemplo, feedback sobre o nível pessoal de viés implícito, educação sobre a natureza e consequências do vieses implícitos, treinamento sobre estratégias para reduzir preconceitos e oportunidades para relatar o uso da estratégia) seriam necessários ou suficientes para envolver o processo de regulação – existiu ambiguidade em relação aos vários componentes da intervenção e seus efeitos, dada sua complexidade. Entretanto, os pesquisadores sugerem que, de qualquer forma, diferentes componentes em conjunto parecem ser mais eficazes; e (iii) estudos futuros devem aumentar a frequência de medição do componente relacionado a ‘preocupações e discrepâncias’ para medição de resultados sobre as mudanças ocorridas.

Em suma, como se queria demonstrar, o estudo apresentado produziu redução nos vieses raciais implícitos, por pelo menos dois meses do início da intervenção, ampliando as expectativas de sucesso de intervenções randomizadas, controladas e multifacetadas:

“Ao capacitar as pessoas para quebrar o hábito do preconceito, este estudo dá um passo importante para resolver o paradoxo da discriminação em curso em uma nação fundada no princípio da igualdade”. (Devine et al, 2012)

Não foram, ao menos através dos recursos empregados como pesquisas em base de dados do Google Scholar, PubMed, ScienceDirect, ResearchGate, Psycnet, Sage, Elsevier, Scielo, etc., encontrados estudos similares ao de Devine et al (2012), o que sugere haver um amplo espaço ainda para que pesquisas que envolvam intervenções multimodais sejam aplicadas, controladas e analisadas ao longo do tempo.

De acordo com Wood, Rüger (2015) os hábitos cotidianos se formam à medida que as pessoas perseguem objetivos de vida, entretanto, o mecanismo básico de resposta aos hábitos, contextualmente falando, se torna menos responsivo na medida em que suas associações se fortalecem. Com base nessa constatação o aprendizado de associações de respostas dos hábitos ao contexto é uma consequência não intencional dessa mesma repetição. Os hábitos são ativados na memória (de procedimento) de forma autônoma, sem exigir o controle executivo:

“Hábitos, no entanto, não são sinônimo de automaticidade, mas são mais bem compreendidos como respostas automáticas aprendidas com características específicas. Duas características definidoras da automaticidade do hábito são: (a) ativação por sinais contextuais recorrentes e (b) insensibilidade a mudanças de curto prazo nos objetivos (também não dependente de metas), incluindo mudanças no valor dos resultados de resposta e na contingência resposta-resultado.” (Wood, Rüger, 2015)

Intervenções voltadas às mudanças de comportamentos na formação de novos hábitos, ou seja, da aprendizagem de novos hábitos, podem ser eficazes apesar de desejos pessoais de curto prazo. Além disso, ecoando os fatores que equilibram hábitos e objetivos, as pessoas tendem a ser mais propensas a escolhas habituais cujos efeitos são mais efetivos.

“Os hábitos refletem a aprendizagem associativa e a formação de associações contexto-resposta na memória processual. Uma vez que os hábitos se formem, a percepção do contexto automaticamente traz a resposta à mente, e as pessoas frequentemente realizam essa resposta. À medida que os hábitos se fortalecem, gradualmente se tornam independentes do valor de incentivo e suas consequências, e a ativação neural muda de regiões associativas para regiões cerebrais sensório-motoras.” (Wood, Rüger, 2015)

Maiores pesquisas e aprofundamentos se fazem necessários a respeito da inferência sobre a similaridade entre os vieses inconscientes e os hábitos, porém, pontos relatados por Devine et al (2012), parecem ter consonância com o atual estudo:

“Embora os hábitos sejam amplamente insensíveis às mudanças na estrutura e no valor dos objetivos, eles interagem de três maneiras diferentes com a busca deliberada desses mesmos objetivos. Primeiro, os hábitos se formam na vida cotidiana à medida que as pessoas buscam objetivos repetindo ações em contextos específicos. (...) Uma segunda interface entre objetivos e hábitos surge após a formação dos hábitos. (...) Uma terceira maneira de os objetivos se integrarem aos hábitos é através das explicações que as pessoas geram para seus hábitos. Como a automaticidade do hábito é inacessível à experiência subjetiva, as pessoas tendem a inferir as razões para tais respostas. Uma inferência plausível para comportamentos repetidos são motivações e objetivos subjacentes fortes e consistentes.” (Wood, Rüger, 2015)

5.2.2 Realidade virtual imersiva na redução dos vieses implícitos

Partindo do pressuposto de que técnicas de realidade virtual podem ser usadas para produzir uma forte ilusão de propriedade sobre um corpo virtual, Peck et al (2013) realizaram estudo para verificar se pessoas brancas ao se sentirem ‘na pele’ de pessoas negras, sofreriam redução de seus vieses implícitos raciais:

“Realidade Virtual Imersiva fornece uma ferramenta poderosa para potencialmente colocar as pessoas em uma "coalizão" diferente, aqui especificamente de raça, mudando a forma de representação do corpo. Isso é alcançado por uma configuração a que nos referimos como "incorporação virtual". Os participantes usam um monitor de cabeça com visor de campo amplo. Quando olham para baixo em direção a si mesmos em realidade virtual, veem um corpo virtual programado substituindo seu próprio corpo real. Os participantes também veem esse corpo virtual ao olharem para seu reflexo (geometricamente correto) em um espelho virtual. Além disso, os participantes usam um traje de rastreamento do corpo que fornece captura de movimento em tempo real. Então, quando eles movem seu corpo real, eles veriam seu corpo virtual se mover de forma síncrona.” (Peck et al, 2013)

Os objetivos desse estudo valeram-se das seguintes suposições ao incorporar os participantes em corpos com diferentes variações de tom de pele: (i) verificar a possibilidade de induzir uma ilusão de propriedade corporal em um avatar de compleição diferente; e (ii) verificar se a ilusão de propriedade corporal poderia reduzir as respostas implícitas negativas para essa outra raça.

O design experimental do estudo previu 60 mulheres brancas, de origem espanhola da Universidade de Barcelona, sem qualquer vínculo com laboratório experimental dos pesquisadores. Primeiramente todas realizaram o IAT racial, cujos resultados foram analisados, e após três dias iniciaram os experimentos. Imediatamente ao término da realidade virtual imersiva foi aplicado novo IAT através do HMD (head-mounted display), equipamento com monitor estéreo que foi colocado na cabeça das participantes, com as mesmas faces femininas utilizadas no primeiro IAT. Ao final do IAT HMD, os participantes completaram um questionário sobre suas experiências, incluindo questões relacionadas ao nível de propriedade subjetiva do corpo, relacionadas ao nível de tensão quando da aproximação dos personagens virtuais. O interesse dos pesquisadores era comparar os resultados do pré IAT com os do IAT pós experimento. Em paralelo, realizaram um questionário de preconceito racial explícito.

As participantes foram distribuídas em quatro experimentos (15 mulheres para cada um) de realidade virtual, sendo: (1) embodied-light-skinned – incorporação em um corpo virtual de pele clara, através da sincronia visuomotora entre o real e o virtual, por meio do reflexo em espelho também virtual; (2) embodied-dark-skinned – idêntico ao experimento (1), porém mediante incorporação de um corpo de pele escura; (3) non-embodied dark-skinned – sem incorporação do próprio corpo por outro de realidade virtual, porém os participantes viam no espelho um corpo virtual de pele escura, de tamanho geometricamente correspondente ao seu, movendo-se de forma assíncrona (independente) em relação aos seus próprios movimentos; e (4) embodied-alien-skinned – nesse modelo a pele do corpo virtual hipotético era na cor púrpura, com o objetivo de parecer antinatural. É importante observar que em cada condição, os participantes experimentaram os mesmos eventos sempre sob a mesma perspectiva visual e a condição ‘púrpura’ foi incluída para que os pesquisadores pudessem tentar aferir se eventuais efeitos se dariam em função da condição ‘pele escura púrpura’ – relacionada à raça – ou pele escura diferente – não relacionada à raça. A tarefa de realidade virtual consistiu em observação direta e de movimentação subsequente dos avatares no espelho, por cinco minutos.

Os resultados da incorporação de indivíduos de pele clara em um avatar de pele escura, ao menos temporariamente, demonstram redução do viés implícito outgroup, de acordo com as medidas pré e pós IAT e de acordo com o questionário sobre experiências com o experimento de realidade virtual. No entanto, esses resultados devem ser tratados com cautela, pois, em linhas gerais, foram considerados bons, mas não ótimos em alguns experimentos. A próxima questão a considerar é o tempo de duração desse efeito após a manipulação experimental - seja de curta ou longa duração - como sinalizam os pesquisadores. No detalhamento, pôde-se perceber: (i) o experimento 1 foi positivo na incorporação, considerando a simulação visuomotora, mas não foi eficaz no experimento 3, cujo avatar tinha autonomia de movimentos; (ii) as medidas explícitas de auto relato apontaram pontuações muito baixas, nada fora do comumente relatado em estudos anteriores; (iii) pelo fato da resposta do experimento 4 (pele púrpura) não ter resultado escore equivalente ao experimento 2 (pele escura), presume-se que o efeito desse último esteja ligado especificamente ao viés racial; e (iv) a variável tensão, ou seja, nervosismo quando os avatares de pele escura se aproximaram, não foi exatamente conclusiva ou seja, se teve correlação com a incorporação ou com o impacto do cenário experimental.

Banakou et al (2016) basearam-se no experimento de realidade virtual de Peck et al (2013) e no estudo de Lai et al (2014, 2016), onde as intervenções contra estereotipadas foram mais bem-sucedidas, porém de curto efeito na minimização dos vieses implícitos ao longo do tempo. O objetivo desse estudo, dessa forma, foi a verificação desses achados anteriores, adicionando a variável tempo - o experimento mediu as variações dos vieses implícitos pelo prazo de uma semana.

Sob visão macro, esse estudo de Banakou et al (2016) utilizou-se de realidade virtual, com incorporação de pessoas brancas em avatares brancos e pretos, através de múltiplas exposições, durante o período de uma semana (de 1 a 3 exposições intercaladas). Foram dois experimentos abrangendo 90 participantes do sexo feminino, caucasianas (idade entre 18 e 44 anos). Diferentemente do estudo de Peck et al (2013), os participantes tinham como tarefa seguirem os movimentos de um professor virtual de Tai Chi Chuan, asiático ou europeu caucasiano. Todos os participantes tiveram suas medidas IAT racial (preto-branco) de vieses implícitos aferidas uma semana antes e uma semana após o experimento. Outra variável analisada foi se o número de exposições poderia interferir nas medidas finais IAT. No experimento 1 o professor virtual da Tai Chi Chuan era asiático e houve sincronicidade visuomotora, onde os participantes incorporaram um avatar preto ou branco. O tempo de exposição foi de 5 minutos de orientação, seguidos de 10 minutos de execução – os participantes foram divididos em células de 1, 2 ou 3 exposições, no total de 60 mulheres (10 por grupo). O experimento 2 foi realizado sob as mesmas condições do experimento 1, com diferenças nas quais o professor virtual de Tai Chi Chuan era europeu caucasiano e as mulheres incorporaram apenas o avatar branco - os participantes foram divididos em células de 1, 2 ou 3 exposições, no total de 30 (10 por grupo).

As evidências finais do experimento 1 sugerem que a incorporação no avatar preto resulta em redução do viés racial implícito mesmo, no mínimo, após uma semana do término do experimento. Entretanto, os resultados em relação às múltiplas exposições foram ambíguos, ou seja, não foram estatisticamente significativos, porém podem ter surtido algum efeito (em ambos os experimentos). As conclusões em relação ao experimento 2 confirmaram que a incorporação de um avatar preto realmente interferem positivamente na redução dos vieses implícitos. Por fim, as evidências sugerem que a etnia asiática ou europeu caucasiana do professor virtual não exerceu qualquer influência em ambos os experimentos.

5.3 Compilação dos Estudos e Experimentos Científicos – Vieses Inter-raciais

Nesse item será apresentada, com base nos estudos apresentados nos itens anteriores relativos aos estudos científicos, a compilação das melhores práticas inferidas, com base nos resultados demonstrados, na mitigação dos vieses raciais cognitivos.

No estudo de Hahn, Gawronski (2018) o objetivo foi investigar a eficácia de diferentes procedimentos visando ampliar o reconhecimento dos vieses implícitos, por meio das pontuações IAT, e compará-las com os efeitos resultantes da conclusão real e do respectivo feedback sobre o desempenho. Os resultados sugerem que pode ocorrer um aumento no reconhecimento de vieses raciais quando a atenção dos indivíduos é direcionada, por meio de suas reações afetivas espontâneas a grupos minoritários, inclusive sem a utilização do IAT. Entretanto, tanto os efeitos do IAT quanto do feedback IAT no reconhecimento dos vieses foram inconsistentes e menos confiáveis.

“Os achados atuais sugerem que uma apresentação de vieses implícitos como reações afetivas espontâneas pode ser mais precisa, abrindo as portas para o desenvolvimento de intervenções mais efetivas. (...) se o reconhecimento do preconceito também leva ao aumento dos esforços para controlar os vieses, é uma questão que aguarda pesquisas futuras. No entanto, mediante debates anteriores sobre intervenções relativas ao preconceito, exigem que aceitemos e comuniquemos publicamente o fato de que as diferenças entre as preferências implícitas e explícitas estão enraizadas em fatores que têm pouco a ver com falta de consciência ou auto relatos desonestos.” Hahn, Gawronski (2018)

Axt et al (2018) investigaram se os efeitos de instruções relacionadas à redução dos vieses sociais implícitos direcionados a uma categoria surtiriam efeito simultaneamente para múltiplas categorias – investigação de interseccionalidade de vieses. Os resultados sugeriram que as intervenções são eficazes na redução de vieses para uma categoria identificada, mas para as demais as pessoas devem ser alertadas. Não se evidenciou que uma intervenção ‘genérica’ sobre os preconceitos seja eficaz na redução de todos os vieses cognitivos relacionados a múltiplas categorias. O aspecto positivo é que o estudo evidenciou que ‘um simples alerta’ sobre uma determinada categoria de viés é capaz de minimizá-lo.

“Um alerta de intervenção sobre o potencial de viés reduziu os preconceitos sociais no julgamento, mas apenas ao alertar os participantes sobre a avaliação impactante da categoria social específica. A intervenção não afetou outros vieses sociais com impacto, no julgamento. Isso implica que a identificação da categoria social responsável pelo viés é necessária para reduzir o preconceito associado a ela. Se esta conclusão é generalizável em uma variedade de categorias sociais, tipos de intervenção e resultados, então as implicações seriam bastante substanciais para a compreensão teórica de como os preconceitos de julgamento social poderiam ser reduzidos, com base no desenvolvimento de estratégias de intervenção.” (Axl et al, 2018)

Lai et al (2014), no estudo relativo ao ‘concurso’ de pesquisa visando comparar experimentalmente a eficácia de 17 intervenções voltadas à redução do preconceito racial implícito de brancos em relação à negros, apresentou resultados positivos em 8 delas, por grau de efetividade: 1º Vivid Counterstereotypic Scenario | 2º Shifting Group Boundaries through Competition | 3º Practicing an IAT with Counterstereotypical Exemplars | 4º Using Implementation Intentions | 5º Evaluative Conditioning with the Go-No Go Association Task | 6º Priming Multiculturalism | 7º Shifting Group Affiliations Under Threat | 8º Evaluative Conditioning.

Por classes de intervenções, temos: 1ª Exposição a Exemplares Contra Estereotípicos = 1, 2 e 3 | 2ª Estratégias Intencionais para Superar Vieses = 4 | 3ª Condicionamento Avaliativo = 5 e 8 | 4ª Apelo aos Valores Igualitários = 6 | 5ª Envolvendo-se com as perspectivas dos outros = 7

Com base na compilação desses estudos, as intervenções de ‘exposição a exemplares contra estereotípicos’, seguida das ‘estratégias intencionais para superar vieses’ e ‘condicionamento avaliativo’, foram as mais eficazes:

“Comparando experimentalmente dezessete intervenções e uma falsa condição de comparação para reduzir as preferências raciais implícitas, descobrimos que as intervenções com Exposição a Exemplos Contra Estereotípicos, Estratégias Intencionais para Superar Vieses e Condicionamento Avaliativo foram consistentemente mais eficazes do que aquelas que incluíram engajamento com as Perspectivas dos outros, Valores Igualitários e Indução de Elevação para reduzir as preferências implícitas de brancos em relação a negros.” (Lai et al, 2014)

Peck et al (2013) realizaram estudo com realidade virtual imersiva, com base em intervenção de ‘exposição a exemplares contra estereotípicos’, para verificar os efeitos de pessoas de pele branca incorporadas em avatares de pele escura na redução de seus vieses implícitos raciais. Os resultados desse experimento, ao menos temporariamente, demonstram redução do viés implícito outgroup:

“O principal foco de interesse nesse estudo é que os corpos virtuais podem ter uma ‘semântica’ particular associada a eles - possivelmente através de estereótipos. Esta 'semântica do corpo' pode ter correlatos comportamentais para o participante - por exemplo, foi demonstrado que ser incorporado em um corpo virtual de aparência casual leva a um desempenho mais expressivo do que ser encarnado em um corpo formal de pele clara.” (Peck et al, 2013)

Os estudos de Hahn, Gawronski (2018), Axt et al (2018), Lai et al (2014, 2016) e Peck et al (2013) trouxeram achados importantíssimos voltados à definição de possíveis melhores práticas na mitigação dos vieses inter-raciais, entretanto nenhum deles testou a eficácia dessas intervenções ao longo do tempo, nem em contextos interseccionais e adversos. Como relatado, são escassos os estudos que investigaram essa propriedade, conforme compilação na sequência.

O estudo de Devine et al (2012), efetivamente e de acordo com os critérios utilizados para a pesquisa dos artigos selecionados, foi o único encontrado que apresentou a estratégia de intervenção multifacetadas com efeito de longo prazo de no mínimo 12 semanas na redução dos vieses raciais implícitos, partindo da premissa de que eles se comportam como ‘hábitos’. As classes de intervenções adotadas foram (i) ‘exposição a exemplares contra estereotípicos’ (stereotype replacement, counter-stereotypic imaging, individuation); (ii)envolvendo-se com as perspectivas dos outros’ (perspective taking); e (iii) ‘condicionamento avaliativo’ (increasing opportunities for contact).

“Em suma, este estudo apresenta a primeira intervenção de seu tipo que, usando um design controlado randomizado, produziu uma redução no viés de raça implícito que perdura por, pelo menos, dois meses. Nossos dados fornecem evidências que demonstram o poder da mente consciente de implantar estratégias para superar o viés implícito. Assim, essas descobertas aumentam a esperança de resolver um problema que há muito incomoda os cientistas sociais - como reduzir a discriminação baseada em raça. Ao capacitar as pessoas para quebrar o hábito do preconceito, esse estudo dá um passo importante para resolver o paradoxo da discriminação em curso, em uma nação fundada no princípio da igualdade.” (Devine et al, 2012)

Já o estudo de Banakou et al (2016), como citado, complementou, até certa medida, os estudos de Lai et al (2014, 2016) e Peck et al (2013). Foi planejado para análise na redução de vieses implícitos de longa duração (acima de uma semana), na classe de ‘exposição a exemplares contra estereotípicos’, baseado em realidade virtual imersiva. Os resultados finais foram positivamente sugestivos.

“Voltando às questões que este artigo abordou, nossas descobertas gerais foram: em primeiro lugar, foi demonstrado que a propriedade sobre um corpo de raça diferente ocorreu novamente, sugerindo que essa propriedade não depende da aparência do corpo virtual. Em segundo lugar, há mais evidências de que a incorporação de pessoas brancas em um corpo virtual de pele escura diminui seus vieses raciais implícitos. Em terceiro lugar, esta diminuição dura pelo menos 1 semana após o final da exposição. Finalmente, uma exposição é suficiente para observar esse efeito. Estudos adicionais de replicação seriam necessários para apoiar ainda mais o último ponto. Além disso, é importante notar que o experimento envolveu apenas participantes do sexo feminino. Embora haja alguma evidência de que existe um maior viés racial implícito entre as mulheres em comparação aos homens (mas maior viés explícito de homens em comparação com as mulheres), outros estudos de replicação devem abordar essa questão.” (Banakou et al, 2016)

6. DISCUSSÃO

A discussão sobre o tema abordado fundamenta-se por meio do objetivo principal deste trabalho. Não obstante os danos sociais e, em esferas particulares, psicológicos causados pela discriminação racial, fato inquestionável é que os preconceitos e estereótipos prevalecem à lógica humana. Abordar a questão, por conseguinte, deve permear a esfera de organizações e, sem exagero, de nações que se fundamentam em direitos humanos. Não se trata de interpelar os efeitos que características fenotípicas acarretam na sociedade, mas, antes, considerar as reações que esses efeitos ocasionam nas interações inter-raciais. Molengerhs (2013) define muito bem que ‘a identidade racial é apenas uma das muitas dimensões que as pessoas se utilizam para classificarem-se como pertencentes a um determinado grupo, considerando a existência de distintas categorizações como idade, gênero, classe social, educação, dentre outros’. A diversidade é ponto pacífico e, assim sendo, não deveria ser ponto passível de discussão. Entretanto, de filósofos à cientistas, passando por psicólogos, sociólogos e antropólogos, não são poucos os estudos que buscam tanto maior compreensão quanto meios de mitigar – o que pode ser considerado como – uma distorção elementar no processo de construção da sociedade global. Quiçá esses estudos se convalidem, cada vez mais, através da intersecção multidisciplinar necessária ao intento de ‘tornar esse mundo mais justo’. A injustiça não é um elemento etéreo que permeia os ambientes, ela é fruto daquilo que a própria coletividade define como modus operandi sistêmico da dinâmica e consequências de seus atos.

A neurociência cognitiva, como Ripoll (2014) define, é ponto fundamental de intersecção entre a ‘ciência do cérebro’ e a ‘ciência da mente’ para ampliar discussões e descobertas no campo dos vieses cognitivos. Esse enlace entre a neurociência e a psicologia, como demonstrado nesse trabalho, frutificou-se na ampla compreensão dos construtos neurais e mentais do preconceito. Implícito, é um adjetivo que expressa o não manifestamente declarado. Em contraposição, os achados científicos vêm explicitando os desafios que a humanidade, se assim o desejar conscientemente, deverá acolher como meio imprescindível de evolução moral. Amodio (2014) - cabendo aqui o mérito aos demais pesquisadores imbuídos nessa tarefa – mapeou as bases neurais subjacentes aos vieses, que vão do condicionamento aos recursos cognitivos de primeira ordem, constructos do gênero humano – homo sapiens – espécie que surgiu há aproximadamente 300 mil anos na região leste da África, de acordo com publicação de Galway-Witham, Stringer 39(2018) na Science. A citação de Robertson Davies: "o olho vê apenas o que a mente está preparada para compreender” e a constatação de Santos et al (2010) – “diferenças entre um negro africano e um branco nórdico compreendem apenas 0,005% da proporção genotípica humana”, são duplamente oportunas nesse contexto. Nesse sentido é válido conjecturar se o ‘homem sábio’ arcará com o mérito de nobre caracterização. A sabedoria é fruto do conhecimento, da erudição, da ciência. Os achados empíricos remetem à África as origens humanas modernas – isso é conhecimento; porém, “saber não é suficiente; é preciso aplicá-lo - a vontade não é suficiente; é preciso realizá-la.” (Goethe40)

Ramachandran (2002), parafraseando Freud, coloca em xeque o conceito ‘free will’, ou livre-arbítrio – cuja complexidade, por si só, remete a construção específica desse tema o qual não foi direto e amplamente abordado no presente trabalho. Como descrito por Callegaro (2011, p. 48), falar em ‘controle inconsciente’ parece ser um oximoro, porém, no modelo do novo inconsciente, “não existe contradição lógica nem razão para acreditar que os processos controlados devam ser exclusivamente conscientes”. Nesse novo modelo o conjunto das funções cognitivas que compreende inibição de respostas dominantes, planejamento e mudanças de acordo com o contexto, dentre outras, pode ou não ser consciente e controlado. Tal inferência parece corroborar com os achados de Wilson et al (2000), cuja autonomia dos construtos neurais e mentais conscientes e inconscientes parece melhor adequar-se à denominação ‘dual attitudes’, justificando, inclusive, essa escolha denominativa para este trabalho, conquanto novos estudos devam ampliar a discussão.

O preconceito reflete uma preferência implícita ingroup. O homo sapiens descende de um ancestral africano. A discriminação é uma conduta transgressora, mitigá-la espelha as atitudes associadas ao esteio da evolução moral da humanidade. Saber não é suficiente – é preciso realizar. São todas frases inócuas, soltas no papel - passíveis, sem dúvida, de instigantes discussões intelectuais e filosóficas - se a aplicabilidade do que se sabe hoje não refletir em ações sociais e institucionais contundentes. Se se mantiverem confinados aos laboratórios experimentais de renomadas universidades, por brilhantes pesquisadores, os achados que cooptam com a minimização dos vieses cognitivos, por mais aprazível que seja o debate científico sobre o tema, perdem as sociedades, perdem as instituições.

Em toda a forma de preconceito perde quem comete, sofre quem é estigmatizado. É preciso ampliar toda essa discussão, além do empirismo acadêmico. A bem da verdade, é preciso aprofundar a questão da discriminação além de políticas demagogas, normas protocolares e marketing institucional. Como sapiens, que se foi convencionado para definir a atual raça humana, é preciso ir além e não aquém dos meios necessários para transmutar o impensável. É preciso que as instituições convencionem os achados desses incansáveis pesquisadores por meio de discussões e ações concretas. E acreditando que o elo entre o real e o experimental sejam os estudiosos que se propõem a facilitar essa ligação de forma prática, conclusivamente e por fim, é preciso desenvolver métodos e meios, baseados em evidências empíricas, para que o preconceito não se constitua em herança aviltante às próximas gerações.

Garowski, Bodenhausen (2017) levam em conta que “o preconceito implícito não é uma característica simples da pessoa e não é uma reflexão pura da situação; é um reflexo da pessoa dentro de uma determinada situação”. Quem sabe a visão interacionista não seja um meio de confrontar os factóides mentais armazenados na memória como verdades paradoxais sobre as diferenças raciais? Mas quando se depara com o conceito epistemológico do preconceito, nenhuma conjectura se sustenta facilmente e, muito menos, uma via única que remeta a qualquer solução eficaz. Estratégias multimodais longitudinais, conforme estudo de Devine et al (2012), parecem alçar voos mais audaciosos frente aos moderados testes de associação implícita cujos efeitos, per si, não parecem consistir com a perenidade almejada na mitigação dos vieses. Ou será que a realidade virtual imersiva de Peck et al (2013) e Banakou et al (2016), longe de ser ficção científica, seja a ponte para que alguma startup venha a desenvolver um app comercial eficaz no combate à discriminação? Se a evolução moral da humanidade fosse consonante com a evolução tecnológica dessa era, muitos dos desafios mundiais atuais já seriam fatos históricos que se consolidaram em algum lugar no tempo. Certamente essas elucubrações seriam consistentemente feitas por futurólogos capacitados para tal, não sendo aqui o caso.

Os achados de Axt et al (2018) ampliam a percepção de como os atuais estudos se comportam na identificação e redução dos vieses implícitos. Pouco se achou, porém, sobre a interseccionalidade no espectro de experimentos robustos relacionados a testes de múltiplas categorias de vieses. Baseado, entretanto, nos resultados do estudo de Axt et al (2018), é possível prever o que não é eficaz e o que desponta como cenário promissor em direção à construção de projeções intervencionistas, com diligência suficiente, que suportem esses achados em modelos testáveis.

Quando as elites políticas de um País promovem uma realidade utópica - como alertado pelo sociólogo Hasenbalg (2005) – delineada pela harmonia, tolerância e ausência de discriminação racial, o mito da Democracia Racial extrapola os seus tentáculos imperialistas na desarvorada apologia de uma igualdade dissonante, em alto grau, com os fatos. Não se valendo impropriamente dessa casuística, esse dilema – em certos pontos – amoral com os grupos estigmatizados, pode e deve encontrar esteio na iniciativa privada. Quando o inconsciente coletivo, amparado em figuras mitológicas, se apraz com o factoide da igualdade racial, é preciso repensar os valores de toda uma sociedade, a começar pelos valores organizacionais.

A discussão final que se abre nesse contexto é que as empresas possam exercer, de forma contundente, papel decisivo no combate à discriminação. Na mesma linha, é preciso que especialistas, mediante domínio e em direção aos estudos que se baseiam no empirismo, ajudem a romper os grilhões que ainda se fundem à cor da pele de seres humanos. Essa discussão, portanto, é somente o começo e é também uma intenção genuína de continuidade.

7. CONCLUSÃO

Contextualizações e experimentos conclusivos foram apresentados neste trabalho sobre as perspectivas de se mitigarem os vieses implícitos e explícitos inter-raciais. Porém, tais perspectivas baseadas em estudos científicos são, em parte promissoras, em parte incompletas para se atingir uma expectativa mais ampla – conforme objetivo inicial.

Embasados por toda uma fundamentação teórica e empírica apresentadas, modelos multimodais longitudinais de intervenções apresentaram-se com a perspectiva de maior grau de efetividade e, portanto, a definição conclusiva de escolhê-los como parte de uma simulação prática em ambiente organizacional, baseia-se nos resultados compilados no item 2.7, doravante denominados ‘melhores práticas experimentais’.

A proposição simulada a seguir baseia-se em cenário real, embora questões éticas e naturalmente restritivas por conta do não compartilhamento sobre a realização desse ensaio, impeçam a divulgação da identidade da organização, bem como dos parâmetros que induziram tal escolha, como segue:

“Nota-se que em tal organização os atributos técnicos são em alto grau, discrepantes, porém, dos atributos emocionais e comportamentais. A não percepção de aspectos inter-relacionais elementares ao bom convívio e aos resultados almejados pela alta gestão, vinham interferindo nos ânimos com projeções futuras dissonantes de expectativas recompensadoras e fomentadoras de oportunidades pessoais e profissionais. As primeiras impressões, compactuadas com a área de gestão de pessoas, definiram a dinâmica intervencionista, com base em conceitos relacionados ao autoconhecimento e, consequentemente, a reflexões sobre os demais. Intervenções imersivas foram definidas para que esses achados fossem replicados, com base na neurociência e todo o arsenal correlato tangente ao comportamento humano. Ao final do ciclo os resultados não somente apontaram condutas reflexivas, como também, espontaneamente (premissa pré-acordada com o sponsor do projeto) - porém não sem manipulações construtivas - várias células foram constituídas para tecerem, na prática, estratégias de condutas intrapessoais e interpessoais mais promissoras e melhor amparadas nas expectativas organizacionais.”

Em suma, esse e outros resultados corroboram com achados científicos de que, em grande parte, o conhecimento e a tomada de consciência sobre condutas relacionais, baseadas em ‘sensibilizações espontâneas’, podem exercem papel relevante no espectro de mudanças não somente almejadas, como também necessárias, em contextos organizacionais. Em parte, comportamentos habituais são replicados indiscriminadamente por pessoas, sem a ciência mais amplamente abrangente, de seus efeitos nocivos. Nesse sentido embora, questões muito mais elaboradas e passíveis de amplas e profundas pesquisas e discussões sejam necessárias quanto à percepção do relativo ‘simplismo’ com que a correlação foi estabelecida, associar a mitigação de vieses à condutas operantes cíclicas vai ao encontro, em parte, dos achados de Devine et al (2012). Isso é fato e, inclusive, nesse sentido seguramente, na definição de estratégias intervencionistas multimodais e longitudinais, além de multidisciplinares.

Há ainda um desconforto, passível de maior aprofundamento e pesquisas, na utilização do Implict Association Test como procedimento inicial balizador dos vieses implícitos e auto relatados de pessoas dentro de uma organização. Até que ponto seus efeitos são benéficos – na percepção e conscientização dos vieses – ou maléficos – em relação a possíveis (maiores) dissonâncias ocasionadas por questões sociais sensíveis como o preconceito, não está claro. Existe uma suspeita de que o IAT possa dar lugar a procedimentos experimentais que prevejam tais dissonâncias, com maior critério. Outra possibilidade é utilizá-lo (talvez sobre a premissa de ‘espontaneidade’ na sua realização), considerando projetos multifacetados, em momentos onde intervenções imersivas – consistentemente planejadas e desenvolvidas – tenham provocado efeito similar ao exposto no case (sigiloso) citado. Uma terceira, porém, não definitiva possibilidade, é o desenvolvimento e aplicação de novo procedimento experimental, inicialmente manual ou ‘pseudo’ automatizado, passível ainda de estudos, análises e discussões de equipe multidisciplinar. Além de tudo isso, reverbera a citação de Oswald et al (2015): “os experimentos mentais apresentados por Greenwald et al. (2009) não vão além do laboratório para reivindicarem efeitos sistemáticos IAT em ambientes barulhentos do mundo real.”

Embora os estudos tenham relatado como estratégia mais bem-sucedida abordagens ‘contra estereotípicas’, duas questões vieram à tona: (i) até que ponto tais dinâmicas realmente interferem na percepção da estigmatização do outo ou confundem-se com comportamentos de ‘self-vitimizing’ (e aqui utilizando o inglês para reforçar o efeito do self no comportamento humano)? – até porque, os grupos relacionados à intervenções considerando ‘apelo empático’, obtiveram os piores escores em praticamente todos os estudos apresentados (e pesquisados até o momento). Outro aspecto é a consideração sobre ‘efeitos emocionais momentâneos’ versus ‘tomada de consciência’ em um sentido mais amplo; e (ii) qual a possibilidade desse tipo de dinâmica ampliar a intensidade, inclusive relacionada a sentimentos viscerais negativos, em indivíduos que auto relatam vieses explícitos, ainda que fundamentados em crenças infundadas? Talvez existam respostas empíricas a tais questionamentos e outros que ainda estão sendo formulados, porém, pesquisas mais aprofundadas a estudos sobre o tema devem ser feitas em complementação e este trabalho.

Outra questão relevante a ser considerada é a interseccionalidade. Intervenções genéricas, com base nos achados relatados, não são eficazes para ampliar o espectro da diversidade, no sentido literal. Em recente evento realizado em São Paulo onde CIO´s expuseram suas estratégias de diversidade organizacional (na maioria empresas multinacionais ou nacionais de grande porte) os relatos, em sua maioria (com poucas exceções), apontaram para estratégias segmentadas em suas metas de diversidade. Algumas definiram o foco na diversidade racial, outras de gênero, e assim por diante. São questões que os mediadores devem levar em conta na definição de suas metodologias e estratégias de abordagem. Além disso, os estudos demonstram que construtos neurais e mentais diferentes permeiam os estereótipos e os preconceitos. Dessa forma, infere-se que distintas sensibilizações devam ser projetadas para abranger o amplo espectro da discriminação, e a conclusão também para essa questão, é que as pesquisas sobre os estudos relativos aos vieses cognitivos, seja ampliada neste trabalho. Dessa forma, talvez essa inferência possa ser descartada ou melhor reformulada. Os estudos correlacionam a questão, mas crê-se na necessidade de maior entendimento de como essas ‘atitudes duais’ devam ser consideradas na mitigação dos vieses, considerando a extensa complexidade e ‘diversidade’ da mente humana.

Apetece a proposta de Hans, Garowski (2018) – indo ao encontro, de certa forma, do case oculto relatado - onde, “os achados atuais sugerem que uma apresentação de vieses implícitos como reações afetivas espontâneas pode ser mais precisa, abrindo as portas para o desenvolvimento de intervenções mais efetivas.”, porém, “ (...) se o reconhecimento do preconceito também leva ao aumento dos esforços para controlar os vieses, é uma questão que aguarda pesquisas futuras”, deixa lacunas que, ao que parece, até recentemente não foram respondidas. Essa proposta vai ao encontro dos achados de Lai et al (2014) em relação ao grupo de intervenções voltadas a ‘estratégias intencionais para superar os vieses’, como também abrange uma das intervenções realizadas por Devine et al (2012), embora os pesquisadores deste estudo tenham relatado a impossibilidade de aferirem, distintamente, os efeitos das ações realizadas.

Outra questão que não se responde, completamente, são os efeitos da mitigação dos vieses ao longo do tempo. É fato que Devine et al (2012) obtiveram o êxito de tal feito por 12 semanas. Porém, conforme relataram, a intervenção multimodal realizada foi ‘imersiva’, ou seja, os participantes estavam imersos no ‘problema’, mas – se os pesquisadores consideraram a similaridade entre os atributos e funcionalidades dos vieses com os hábitos – os objetivos de mudanças estavam sendo continuamente reforçados e motivados. E mais, o tema ‘mudança de hábitos’ ainda é controverso entre os pesquisadores, no que tange a ‘prazo médio’, ‘motivações’ e ‘recompensas’, considerando as individualizações inerentes ao comportamento humano. Talvez o ‘tempo’ tenha menor relevância, certa forma, do que os demais atributos. Intervenções do grupo ‘condicionamento avaliativo’, bem ranqueadas nos estudos apresentados, se enquadram nesse mesmo contexto. Embora, também sobre esse tema, esse presente trabalho careça de maior aprofundamento.

Desconhece-se, por ora, neste trabalho, se a realidade virtual imersiva – por si só - provoca efeitos cérebro-mentais mais contundentes em direção a redução de vieses. Os estudos de Banakou et al (2016) se demonstraram promissores, até certa medida. Porém, quando se pensa na ‘realidade real’, esse método parece inviabilizar intervenções comerciais, diferentemente das laboratoriais e acadêmicas.

Por fim, pesquisas futuras para esse trabalho precisam ampliar-se em outros estudos mais abrangentes e, ao mesmo tempo, através de benchmark em empresas que já implementaram e testaram diferentes estratégias correlacionadas ao tema objetivado. Da mesma forma, uma etapa prática que se consiste em ‘pilotagem’ de projetos com intervenções multimodais longitudinais, – talvez 12 meses seja um período apropriado para o ciclo ‘intervenção - análise de dados/resultados – ajustes – intervenção – compilação final – reanálise futura’ - poderá, utilizando-se das estratégias recomendadas, ainda que adaptadas a cada contexto, agregar em toda a discussão deste trabalho e sobre o tema e objetivos propostos.

Os pontos incompletos deste trabalho para complementações futuras, cuja proposição é minimizá-los através de novos estudos, pesquisas e benchmark, são (i) ampliar os estudos de ‘melhores práticas’ na redução dos vieses implícitos e explícitos; (ii) pesquisar a correlação funcional das intervenções relativas a mudanças no agrupamento ‘hábitos-vieses’, inclusive considerando os atributos neuroplásticos do encéfalo; (iii) ampliar pesquisas da diversidade no contexto da inovação organizacional; (iv) aprofundar no conceito ‘free will’ com base na neurociência (cognitiva); (v) aprofundar na inferência ‘dual attitudes’ no espectro dos vieses cognitivos; (vi) ampliar estudos sobre outros vieses que não inter-raciais; (vii) pesquisar e estudar papers (inclusive recentes) sobre experimentos relacionados à redução de vieses com crianças; (viii) ampliar o conhecimento do tema à luz da sociologia e da antropologia.

Da mesma forma, a expectativa é que os estudos voltados à minimização dos vieses implícitos e explícitos inter-raciais sejam ampliados e realizados em contextos mais amplos, ao longo do tempo.

A expectativa pessoal e profissional, na conclusão de todo esse apanhado, é continuar ‘imersivamente’ ampliando conhecimentos e práticas, como forma de cooperar na conscientização e redução da discriminação em todos os contextos, de todas as formas.

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8.1 Notas

1 A Declaração Universal dos Direitos Humanos, que delineia os direitos humanos básicos, foi adotada pela Organização das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948. Sua elaboração foi esboçada principalmente pelo canadense John Peters Humphrey, contando com a atuação de diferentes autores do mundo todo, podendo ser encontrada, na íntegra, no site da United Nations.

2 Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo demográfico 2000 [Internet]. [acesso 2009 jul 2009]. Disponível em:

www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/censo2000/populacao/censo2000_populacao.pdf

3 Agência IBGE, editoria de estatísticas sociais 2012-2016. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia- noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/18282-pnad-c-moradores

4 O Sistema Classificatório de “cor ou raça” pelo IBGE. Disponível em http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/TDs/td_0996.pdf

5 U.S. Census Bureau – Population Estimates, 2017. Disponível em https://www.census.gov/quickfacts/fact/table/US/PST045217

6 Fundação Tide Setúbal. O viés racial das desigualdades, 2017. Disponível em https://fundacaotidesetubal.org.br/noticias/3812/o-vies-racial-das-desigualdades

7 Financial Times. Racial Diversity in Brazil “turn´s to a new page”, 2018. Disponível em https://www.ft.com/content/abe60816-3cc9-11e8-bcc8-cebcb81f1f90

8 Instituto Ethos. Diferença entre negros e não-negros no mercado de trabalho persiste, 2016. Disponível em https://www.ethos.org.br/cedoc/diferenca-entre-negros-e-nao-negros-no-mercado-de-trabalho-persiste/#.W-37NuhKjIU

9 Robertson Davies Quotes. Disponível em http://www.notable-quotes.com/d/davies_robertson.html

10 About de IAT. Project Implict. Disponível em https://implicit.harvard.edu/implicit/iatdetails.html

11 Castelo-Branco et al (2017). Ressonância Magnética Cerebral Funcional: qual o Impacto e que Limites? Disponível em file:///C:/Users/ASUS/Downloads/12234-Texto%20do%20Trabalho-36962-3-10-20170630.pdf

12 O proto-self é um conjunto coerente de padrões neurais que mapeiam, a cada momento, o estado da estrutura física do organismo nas suas numerosas dimensões. Damásio A. O mistério da Consciência. 2015, p. 129.

13 Amodio, David. NY Psychology. Disponível em https://www.psych.nyu.edu/amodio/

14 “The human startle response is a sensitive, noninvasive measure of central nervous system activity that is currently used in a wide variety of research and clinical settings” (Blumenthal et al, 2005). Disponível em https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/15720576

15 Meta-analysis. ScienceDirect. Disponível em https://www.sciencedirect.com/topics/neuroscience/meta-analysis

16 Eickhoff et al. Activation likelihood estimation meta-analysis revisited. ScienceDirect, volume 59, issue 3, 2012. Disponível em https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1053811911010627

17 Neuroscientifically Challenged. Know your brain: Insula (2013). Disponível em https://www.neuroscientificallychallenged.com/blog/2013/05/what-is-insula

18 Ogawa et al. Functional brain mapping by blood oxygenation level-dependent contrast magnetic resonance imaging. A comparison of signal characteristics with a biophysical model. PubMed, 1993. Disponível em https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1262394/

19 Timberlak, W. Behavior systems, associationism, and Pavlovian conditioning. Psychonomic Bulletin@Review, 1994, vol. 1, p. 405-420. Disponível em https://link.springer.com/article/10.3758/BF03210945

20 ScienceDirect. Brodmann 8 area. Disponível em https://www.sciencedirect.com/topics/neuroscience/brodmann-area-8

21 BrainMap. Disponível em http://www.brainmap.org/

22 Volz, K.G., Kessler, T., Von Cramon, D.Y. (2009). apud Molenberghs, P, fMRI Experiment. Em Molenberghs, P. The neuroscience of in-group bias, 2013

23 Cavanna, A.E., Trimble, M. R. The precuneus: a review of its functional anatomy and behavioural correlates, 2006. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/16399806

24 Em metanálise de 167 estudos, os autores descobriram que as tarefas sequenciais de priming estavam significativamente associadas a medidas comportamentais entre r = 0,14 e 0,28). Cameron et al. Sequential Priming Measures of Implicit Social Cognition: A Meta-Analysis of Associations With Behavior and Explicit Attitudes, Personality and Social Psychology Review, 2012.

25 O Iceberg Cerebral. Neurociências em benefício da Educação, 2013. Disponível em http://neuropsicopedagogianasaladeaula.blogspot.com/2013/02/o-iceberg-cerebral.html

26 Rock, D. A Bias Against Bias. Psichology Today, 2016. Disponível em https://www.psychologytoday.com/us/blog/your-brain-work/201610/bias-against-bias

27 Festinger, L. A theory of cognitive dissonance. American Psychological Association, 1957. Disponível em http://psycnet.apa.org/record/1993-97948-000

28 Moser, P. K. Rationality in Action – Contemporary Approaches. Cambridge, EUA, 1991.

29Ripoll, D. R. Neurociencia Cognitiva, 2014.

Disponível em https://www.researchgate.net/publication/262258789_Neurociencia_Cognitiva

30 Haasin et al. The New Unconscious. Oxford University Press, 2006.

31 Facione et al. Critical thinking disposition as a measure of competent clinical judgment: the development of the California Critical Thinking Disposition Inventory. PubMed, 1994

32 “O efeito priming (pré-ativação) vem sendo estudado pela neuropsicologia e psicologia social há aproximadamente 50 anos, estando relacionado ao modo como um estímulo inicial pode afetar as respostas de um indivíduo a estímulos subsequentes, sem que exista consciência do mesmo sobre tal influência”. Junior JCSP, Damacena P, Bronzatti R. Preativación: el efecto priming en los estudios sobre el comportamiento del consumidor. 2015;1. Disponível em https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/revispsi/article/view/16075/12094

33 Sleek S. The Bias Beneath: Two Decades of Measuring Implicit Associations. Association for Psychological Science. 2018. Disponível em: https://www.psychologicalscience.org/observer/the-bias-beneath-two-decades-of-measuring-implicit-associations

34 Project Implicit. Harvard Education. Disponível em: https://www.projectimplicit.net/about.html

35 Teste de Associação Implícita. Disponível em: https://implicit.harvard.edu/implicit/brazil/

36 Project Implict Social Attitudes. Disponível em https://implicit.harvard.edu/implicit/selectatest.html

37 Fair housing, i.e, is the right to choose housing free from unlawful discrimination. Federal, state and local fair housing laws protect people from discrimination in housing transactions such as rentals, sales, lending, and insurance. Disponível em: http://www.fhcwm.org/whatisfairhousing

38 EEOC – U.S. Equal Employment Opportunity Commission. Disponível em https://www.eeoc.gov/employees/

39 Stringer C, Galway-Whitam J. How did Homo sapiens evolve? Science. 2018;360:1296-98. Disponível em http://science.sciencemag.org/content/360/6395/1296

40 Goethe JW. Brainy Quote. Disponível em: https://www.brainyquote.com/quotes/johann_wolfgang_von_goeth_161315


Publicado por: Christina Jacob

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