INFLUÊNCIA DO TREINO LOCOMOTOR ASSOCIADO À SUSPENSÃO PARCIAL DO PESO CORPORAL NA FUNCIONALIDADE DA MARCHA E QUALIDADE DE VIDA DO PACIENTE COM PARKINSON

Medicina

Avaliação da qualidade de vida (QV), funcionalidade e velocidade da marcha e atividades de vida diária (AVD’s) de um indivíduo portador da doença de Parkinson (DP) submetido ao treino locomotor com suspensão parcial do peso corporal (SPPC).

índice

1. RESUMO

O presente trabalho trouxe como objetivo avaliar a qualidade de vida (QV), funcionalidade e velocidade da marcha e atividades de vida diária (AVD’s) de um indivíduo portador da doença de Parkinson (DP) submetido ao treino locomotor com suspensão parcial do peso corporal (SPPC). Participou do projeto de pesquisa um sujeito, do sexo feminino com diagnóstico de DP. O sujeito foi submetido a um protocolo de intervenção fisioterapêutica com exercícios de fortalecimento muscular de membros inferiores e treino locomotor associado à SPPC em esteira. Para a avaliação fisioterapêutica pré e pós-intervenção foram utilizados os questionários Parkinson’s Disease Quality Of Life Questionnaire (PQD-39) para qualidade de vida, a Escala de Incapacidade da Northwestern University (NUDS) para avaliar a funcionalidade nas AVD’s, Timed Up And Go Test (TUGT) para avaliar o equilíbrio funcional e velocidade da marcha e o teste de caminhada de 6 metros para análise do comprimento do passo. Foram obtidos resultados relacionados com a capacidade funcional da marcha, envolvendo velocidade e comprimento do passo, capacitação para as atividades de vida diária e percepção na QV do parkinsoniano.

Palavras chave: Parkinson, fisioterapia, marcha e suspensão parcial do peso corporal.

2. INTRODUÇÃO

A doença de Parkinson (DP), uma das doenças neurodegenerativas mais prevalentes no mundo,1 é uma desordem crônica, progressiva e degenerativa do sistema nervoso central.2 A DP interfere nos movimentos voluntários e automáticos, em virtude de uma disfunção dos gânglios da base causada pela morte das células produtoras de dopamina na parte compacta da substância negra e das células produtoras de acetilcolina no núcleo pedúnculo-pontino.3

Segunda doença neurodegenerativa mais comum em idosos, a DP acomete mulheres e predominantemente homens sem relevância de raças e classes sociais, afetando, aproximadamente 1% da população com mais de 65 anos e 4% dos idosos com mais de 80 anos.4

Os sintomas da DP incluem manifestações motores como bradicinesia, acinesia (déficit para iniciar movimentos), rigidez, tremor, marcha festinante4, diminuição da força muscular5 e déficit cognitivo associado à depressão.3 O déficit de equilíbrio, um dos sintomas mais comuns da DP, dificulta a modulação das estratégias de equilíbrio do parkinsoniano que tende a deslocar o centro de gravidade para frente resultando em quedas.1

Com a progressão da DP, os indivíduos apresentam distúrbios progressivos no equilíbrio, na postura e na marcha, além de prejuízos na execução das atividades de vida diária e mobilidade. O tratamento fisioterapêutico é indispensável desde a fase inicial da doença, pois minimiza e retarda sua evolução, assim como busca proporcionar ao paciente melhor qualidade de vida e funcionalidade.6

O treino locomotor com suspensão parcial de peso corporal (SPPC) é uma técnica que utiliza equipamento terapêutico visando à recuperação da locomoção de pacientes que apresentam alterações no padrão da marcha. Um colete é vestido no paciente e este é acoplado a uma estrutura metálica que o suspende. Com o peso corporal diminuído sobre esteira, o paciente é encorajado a trocar passos simulando a marcha com auxílio do terapeuta.7

O surgimento da SPPC advém dos estudos com gatos com lesão medular que passaram por este treino de marcha. A partir dos estudos, foi constatado que existia no sistema nervoso dos animais um gerador de padrão central que era responsável por gerar o padrão cíclico da marcha para estes animais com um pouco de treino mesmo após a lesão medular.8

Historicamente a SPPC está vinculada a acometimentos neurológicos, sendo utilizada primeiro em vítimas de acidente vascular encefálico e lesados medulares, depois se iniciou o tratamento de paralisia cerebral, doença de Parkinson e esclerose múltipla. A ampla utilização desta técnica de reabilitação deve-se a maior facilidade para o treino da marcha e à satisfação dos pacientes durante o tratamento.8

3. OBJETIVO

Avaliar a eficácia do treino locomotor com suspensão parcial do peso corporal na doença de Parkinson.

4. JUSTIFICATIVA

Sabendo-se das manifestações motoras dos pacientes da doença de Parkinson que prejudicam a marcha como o padrão de marcha festinante, bradicinesia e acinesia, redução dos passos, diminuição da velocidade da marcha e dos benefícios terapêuticos da SPPC, é de extrema importância avaliar se o treino locomotor associado à SPPC irá influenciar na funcionalidade de marcha, considerando a velocidade da marcha e largura do passo, bem como a qualidade de vida do parkinsoniano.

5. MATERIAIS E MÉTODOS

5.1. Tipo de estudo

Trata-se de uma pesquisa exploratória e de intervenção terapêutica (estudo de caso).

5.2. Recrutamento de voluntário e local da pesquisa

A pesquisa foi desenvolvida a partir da seleção de uma participante do sexo feminino, com diagnóstico clínico de DP da clínica-escola de fisioterapia da Universidade Paulista, Campus Vargas, cidade de Ribeirão Preto, estado de São Paulo.

5.3. Critérios de inclusão

A paciente selecionada possui o diagnóstico clínico de DP; foi capaz de deambular sem assistência; não realizou treino em esteira nos últimos 6 meses que antecederam a avaliação; não possui sequelas motoras de patologias pré-existentes e foi capaz de compreender e assinar o termo de consentimento, além de realizar os testes para avaliação e procedimentos terapêuticos.

5.4. Critérios de exclusão

Pacientes com sequelas motoras pré-existentes ou em associação ao diagnóstico da doença de Parkinson que necessitem de auxílio para deambulação e que não apresente capacidade cognitiva para tais testes e avaliações.

5.5. Protocolo da intervenção fisioterapêutica

5.5.1. Avaliação fisioterapêutica

5.5.2. Teste de Caminhada de 6 Metros (TC6M):

paciente com os pés descalços e pintados de tinta tempera guache Maripel® da cor preta, realizou marcha sobre papel pardo durante 6 metros desconsiderando 1,5 metros antes e após, para desconsiderar a aceleração e desaceleração. Após o comando “já”, paciente percorreu sobre o papel e acionou-se o cronômetro no início dos 6 metros. Com o TC6M foi possível avaliar a velocidade média da marcha, comprimentos da base de sustentação, comprimento do passo e comprimento das passadas.

5.5.3. Escala de Incapacidade da Northwestern University (NUDS):

foi inventada em 1961 e traz consigo cinco categorias (vestuário, marcha, higiene, alimentação e fala), cada categoria equivalem de 0 a 10 pontos. A NUDS avalia a incapacidade funcional, por conseguinte quanto maior a pontuação total, pior a incapacidade do paciente. É uma escala fidedigna para o uso em pesquisas.

5.5.4. Parkison’s Disease Quality Of Life Questionnaire (PDQ-39):

Feito com base no questionário SF-36, o PDQ-39 foi criado em 1995 e seu foco é a qualidade de vida do parkisoniano. O PDQ-39 é constituído por 39 questões divididas em 8 categorias: mobilidade, AVD’s, bem estar, dificuldades e percepções no meio social, comunicação e cognição. O total de pontos vai de 0 (nenhum problema) até 100 (nível máximo de problema), ou seja, quanto menor a pontuação maior a qualidade de vida. Foi aplicado em forma de entrevista a fim de impedir falhas de interpretação e perda de dados.

5.5.5. Timed Up And Go Test (TUGT)

Usado para avaliar a funcionalidade básica. A paciente partiu de sua posição inicial com as costas apoiadas na cadeira e foi instruída a se levantar (após o comando verbal “já”, o cronômetro é iniciado) andar num percurso linear de três metros até um cone para sinalização colocado ao chão, “pivoteou” e sentou-se apoiando as costas na cadeira (cronômetro é pausado). Foi realizada uma média em segundos de três tentativas. Maiores valores de tempo representam um maior risco de quedas. Para adultos saudáveis um tempo de até 10 segundos é considerado normal e entre 10,01 e 20 segundos considera-se normal para idosos frágeis ou com deficiência.

5.5.6. Intervenção fisioterapêutica

A intervenção fisioterapêutica constituiu-se na utilização da cinesioterapia através do fortalecimento muscular de membros inferiores e treino locomotor associado à SPPC. Foram realizados:

- Fortalecimento dos flexores plantares (tríceps sural: gastrocnêmio e sóleo) com o participante em posição ortostática, pisando com o antepé sobre step, realizou movimentos de flexão plantar. Foram realizadas três séries de 10 repetições bilateralmente.

- Fortalecimento dos dorsiflexores (tibial anterior) com o participante sentado no tablado com os membros inferiores estendidos. O terapeuta posicionou o theraband azul (resistência moderada) sobre os metatarsos e região de antepé do paciente. Solicitou-se então ao paciente que realize dorsiflexão ativa. Foram realizadas três séries de 10 repetições.

- Fortalecimento de extensores de joelho (quadríceps: reto femoral, vasto medial, vasto lateral e vasto intermédio). Paciente foi instruído à levantar-se e sentar-se do tablado sem auxílio dos membros superiores. Foram realizadas três séries de 10 repetições.

- Fortalecimento de flexores de joelho (semitendinoso, semimembranoso e bíceps femoral) e extensores de quadril (glúteo máximo) com exercício de ponte isométrica. Paciente em decúbito dorsal com os membros superiores estendidos ao lado do corpo e flexão de joelho mantida sobre o tablado realizou extensão de quadril. Foram realizadas três séries de 10 repetições.

- Fortalecimento de flexores de quadril (iliopsoas e reto femoral) com exercício Straight Leg Raised (SLR) flexão. Paciente posicionado em decúbito dorsal sobre o tablado, com membros superiores estendidos ao lado do corpo manteve flexão de quadril e joelho sobre o tablado do lado contralateral ao lado que foi fortalecido. O lado que foi fortalecido realizou flexão de quadril de forma ativa. A carga foi instituída através de caneleiras de 1 kg. Foram realizadas três séries de 10 repetições bilateralmente.

- Fortalecimento de abdutores de quadril (glúteo médio) com exercício SLR abdução. Paciente em decúbito lateral sobre o tablado foi instruído à realizar flexão de joelho que está sobre o tablado. O lado de cima realizou abdução de quadril com leve extensão de quadril, de forma ativa. A carga foi instituída através de caneleiras de 1 kg. Foram realizadas três séries de 10 repetições bilateralmente.

- Treino de marcha: foi realizado na esteira da marca Athletic Way® modelo Advanced 2, com SPPC em 15% (foi utilizado 8,4 kg do peso total da paciente que foi 56,5 kg). Foi realizada 2 séries de 5 minutos com 1 minutos de intervalo.

5.6. Metodologia

O estudo foi realizado com amostra composta por uma participante possuindo as características necessárias de acordo com os critérios de inclusão e que assinou o termo de consentimento livre e esclarecido. O período de coleta de dados foi do mês de outubro à novembro do ano de 2019, dividido em três etapas.

Durante a primeira etapa foi realizada a pré-avaliação que se incluiu a aplicação dos seguintes testes: TC6M, NUDS, PDQ-39 e TUGT.

A segunda etapa foi composta da intervenção fisioterapêutica e treino de marcha na esteira com SPPC, com frequência de duas vezes por semana, durante quatro sessões com duração de 50 minutos cada, no período da tarde na clínica-escola das dependências da Universidade Paulista, Campus Vargas na cidade de Ribeirão Preto, São Paulo.

Figura 1 – Paciente em SPPC realizando treino de marcha em esteira.

Na terceira etapa foi realizada a pós-avaliação em que o participante foi submetido à reavaliação com os mesmos questionários e testes da pré-avaliação. Após o levantamento de dados, estes foram analisados por estatística descritiva.

6. RESULTADOS

Como consequência do TC6M, realizado em papel pardo, foi possível cronometrar o tempo (em segundos) percorrido e obtenção de medidas (em centímetros) do passo, base de sustentação e passada. A velocidade foi calculada através da fórmula: VM = ∆s/∆t (velocidade média igual à variação do espaço sobre o tempo percorrido); houve um aumento de 0,32 segundos, ou seja, um aumento da velocidade da marcha. A base de sustentação foi obtida, em centímetros, a partir da média das bases em 6 metros; foi analisado um acréscimo de 36,51 centímetros, havendo ampliação do equilíbrio dinâmico. A partir do cálculo da média do comprimento do passo foi observado que houve um aumento de 24,31 cm; na média do comprimento da passada à direita um aumento de 47,33 cm e à esquerda um aumento de 50,3 cm; todas as variáveis indicam uma maior funcionalidade da marcha.

Tabela 1 – Comparação entre valores obtidos a partir da média dos parâmetros avaliados no TC6M.

 

Velocidade média

(m/seg)

Base de sustentação (cm)

Comprimento do passo

(cm)

Comprimento da passada à direita (cm)

Comprimento da passada à esquerda (cm)

Avaliação Inicial

 

0,43

 

38,73

37,1

75,42

74,07

Avaliação Final

0,75

2,22

61,41

122,75

124,37

A partir da análise da média obtida através do tempo, em segundos, no TUGT houve redução do tempo com uma diferença de 0,8 segundos. Os dados indicam o acréscimo do equilíbrio funcional e consequentemente diminuição do risco de quedas.

Tabela 2 – Comparação entre médias alcançadas através do TUGT.

 

Média do tempo de execução da tarefa (seg.)

Avaliação

Inicial

14,12

Avaliação

Final

13,32

A pontuação do questionário NUDS apresentou uma diferença significativa de seis pontos, ou seja, houve uma diminuição global da incapacidade funcional durante as AVD’s. Analisando os domínios foi observado que a paciente passou de “qualidade da marcha pobre e lenta” para “normal”, zerando o domínio marcha. Houve queda de dois pontos no domínio comer, passando de “ocasionalmente come alimentos sólidos com bastante esforço e tempo” para “mastigação e deglutição trabalhosa”. O domínio comunicação foi zerado, passando de “voz ou ritmo alterado” para “normal”. Os dois últimos domínios analisados podem ter relação com a eficácia do tratamento medicamentoso realizado pela paciente. Mantiveram-se os itens “higiene”, “alimentação” e “vestuário”.

Tabela 3 – Comparação entre as pontuações dos domínios do questionário NUDS.

 

Marcha

Vestuário

Comer

Alimentação

Higiene

Comunicação

Total

Avaliação Inicial

2

1

3

3

0

2

11

Avaliação Final

0

1

1

3

0

0

5

A avaliação final com o PDQ-39 sofreu um decréscimo de oito pontos, ou seja, uma melhora na percepção de que a DP interferiu na QV da paciente. Analisando os domínios houve diferença significativa na mobilidade, bem estar e percepção corporal. Na mobilidade foi observada uma diminuição significativa de sete pontos, indicando então menor impacto da DP nesse quesito. Sobre bem estar, houve aumento de quarto pontos, podendo estar relacionado com manifestações depressivas decorrentes de fatores psicossociais e progressão da DP. Em percepção corporal, houve aumento de 3 pontos que significam piora na percepção corporal, decorrentes de pioras relacionados ao quadro de dor, câimbras e sensações de frio extremo. Não foram observadas diferenças relevantes nos domínios que avaliam as AVD’s, apoio social, cognição e comunicação.

Tabela 4 – Comparação entre as pontuações dos domínios do questionário PDQ-39.

 

Mobilidade

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AVDs

Bem estar

Estigma

Apoio Social

Cognição

Comunicação

Corpo

Total

Av.

Inicial

34

10

12

11

0

11

3

7

88

Av.

Final

27

10

16

4

0

11

2

10

80

7. DISCUSSÃO

Fahn & Bennett9,10 observaram que com a progressão da DP há diminuição da amplitude de movimento em membros inferiores e alterações de marcha que levam a um declínio no quadro motor. As desordens da marcha são os sintomas que mais prejudicam a qualidade de vida e independência do parkinsoniano por majorarem o risco de quedas.

Segundo Blin et al.11, em relação aos parâmetros da marcha é observado a diminuição da velocidade da marcha e por conseguinte a diminuição do comprimento do passo e da passada. Através da intervenção fisioterapêutica, neste estudo, houve um aumento em todos os parâmetros da marcha.

Miyai et al.12 proferem que treino de marcha com SPPC depende menos do sistema cardiorrespiratório quando comparado ao treino de marcha sem a SPPC, podendo ser mantido por mais tempo. Segundo Platz et al.13 tal treino permite um ajuste automático do comprimento do passo. No presente estudo, a execução do protocolo de fortalecimento muscular apresentado somado ao treino em SPPC, foi possível observar aumento significativo do comprimento do passo, indicando então maior amplitude de movimento de quadril principalmente, ganho de força muscular e consequentemente, aquisição de funcionalidade da marcha.

De acordo com Ostrosky et al.14 a velocidade normal da marcha em indivíduos saudáveis varia de 75 à 90 metros por minuto. Morris et al.15 acarretam que na DP os valores normais são de 40 à 60 metros por minuto. Comparando a este estudo e transformando os valores obtidos através do TC6M a velocidade final da marcha foi de 0,0075 m/s (antes 0,0043 m/s), significando que a paciente está a acima de valores normais na DP, enquadrando-se em velocidade normal em indivíduos sadios.

Kerrigan et al.16 defende que o comprimento da passada em indivíduos sadios é de 120 a 150 centímetros e Morris et al.15 que 80 a 100 centímetros devem ser considerados na DP. Considerando a avaliação pós-intervenção fisioterapêutica, no presente estudo, os valores obtidos foram: à esquerda de 124,37 cm e à direita de 122,75 cm. Os valores exibem que a paciente está acima dos valores considerados na DP e dentro dos valores considerados em indivíduos sadios.

Almeida et al.17 consideram que se a base de sustentação for grande, maior será possível que o centro de massa se desloque sem perder o equilíbrio. Neste estudo, a partir da medida em centímetros da base de sustentação, foi observada uma média de 2,2 cm, ou seja, uma base de suporte menor durante a deambulação. Sendo assim, a paciente adquiriu equilíbrio durante a marcha.

Podsialo & Richardison18 apreciam que os valores esperados para um TUG isolado sejam menores que 13,5 segundos, sendo considerado risco de quedas valores superiores a 13,5 segundos; para idosos frágeis os valores normais são de 11 a 20 segundos, superiores à 20 segundos indicando independência em parcialidade e baixo risco de quedas. Após a intervenção, no presente estudo, foi avaliada no TUGT a média de 13,32 segundos, ou seja, a paciente diminuiu o risco de quedas (antes 14,12 segundos) e se enquadrou em valores normais do TUG isolado. Portanto, houve aquisição de equilíbrio funcional.

Segundo Jenkinson et. al.19, o PDQ-39 é eficaz, bem validado e particular ao avaliar a percepção da QV no parkinsoniano. O questionário, neste estudo, foi aposto em forma de entrevista a fim de impedir falhas de interpretação pela paciente e perder os dados impostos. Segundo a aplicação pós-intervenção houve uma queda no score total, sugerindo então uma diminuição do impacto da doença na QV e, por consequência uma melhor percepção da QV. Especificamente foi observado que no treino de fortalecimento muscular somado ao treino em SPPC, houve um menor impacto da DP na mobilidade. Não foram observadas mudanças significativamente relevantes nos domínios que envolvem o impacto da DP em AVD’s, apoio social, cognição e comunicação. Houve alterações em domínios que avaliam o impacto da doença no bem estar e percepção corporal, porém estes estão ligados a fatores biopsicossociais e progressão da DP

Canter et. al.20 trazem que a escala NUDS possui um alto coeficiente de competência e é satisfatoriamente recomendada para estudos e pesquisas. De acordo com a avaliação final, deste estudo, foi obtida uma menor incapacidade global durante as AVD’s, imposto que o score diminuiu significativamente. Houve melhora do domínio marcha, por consequência de sua velocidade, como descrito no teste. Foi observado também melhora da deglutição e ritmo da voz, porém estes fatores estão relacionados com a eficácia da terapia medicamentosa realizada pela paciente. Os domínios que envolvem avaliação da higiene, alimentação e vestuário não sofreram alteração alguma e não foi alvo do trabalho envolver especificamente tais itens.

8. CONCLUSÃO

Fica evidente que o treino de marcha em SPPC, somado ao programa de fortalecimento muscular de membros inferiores são uma boa proposta de intervenção com resultados satisfatórios envolvendo a funcionalidade da marcha, bem como a sua velocidade e repercussão na QV do parkinsoniano. São necessários mais estudos que envolvam relação da QV com a funcionalidade da marcha na DP e maior tempo de pesquisa para resultados mais fidedignos.

9. REFERÊNCIAS

  1. Christofoletti G, Freitas RT, Cândido ER, Cardoso CS. Eficácia de tratamento fisioterapêutico no equilíbrio estático e dinâmico de pacientes com doença de Parkinson. Fisioter. Pesqui. 2010; 17( 3 ): 259-263.

  2. Braz NFT, Dutra LR, Medeiros PES, Scianni AV, Faria CDCM. Eficácia do Nintendo Wii em desfechos funcionais e de saúde de indivíduos com doença de Parkinson: uma revisão sistemática. Fisioter. Pesqui. 2018; 25( 1 ): 100-106.

  3. Filippin NT, Martins JS, Dela LLB, Halberstadt BF, Severo AR. Qualidade de vida de sujeitos com doença de Parkinson e seus cuidadores. Fisioter. mov. 2014; 27( 1 ): 57-66.

  4. Santos TB, Peracini T, Franco PM, Nogueira RL, Souza LAPS. Facilitação neuromuscular proprioceptiva na doença de Parkinson: relato de eficácia terapêutica. Fisioter. mov. 2012 June; 25( 2 ): 281-289.

  5. Borges ED, Silva MS, Bottaro M, Lima RM, Allam N, Oliveira RJ. Força muscular isocinética dos extensores do joelho em indivíduos com doença de Parkinson. Fisioter. mov. 2013; 26( 4 ): 803-811.

  6. Bertoldi FC, Silva JAMC, Faganello-Navega FR. Influência do fortalecimento muscular no equilíbrio e qualidade de vida em indivíduos com doença de Parkinson. Fisioter. Pesqui. 2013; 20( 2 ): 117-122.

  7. Biase MEM, Baron CE, Ribeiro LHS, Kimura F. Condutas Práticas em Fisioterapia Neurológica: treino locomotor com suporte de peso corporal. Editora Manole Ltda, 2012.

  8. Haupenthal A, Schutz GR, Souza PV, Roesler H. Análise do suporte de peso corporal para o treino de marcha. Fisioter. Mov. 2008 abr/jun;21(2):85-92

  9. Fahn S. The history of dopamine and levodopa in the treatment of Parkinson's disease. Mov Disord. 2008;23(3):497-508

  10. Bennett DA, Beckett LA, Murray AM, Shannon KM, Goetz CG, Pilgrim DM, Evans DA. Prevalence of parkinsonain signs and associated mortality in a community popuation of older people. N Engl J Med. 1996;334(2):71-6.

  11. Blin O, Fernandez AM, Pailhous J, Serratrice G. Quantitative analysis of gait in Parkinson's patients: increase variability of the stride length. J Neurol Sci. 1991;98(1):91-97

  12. Miyai I, Fujimoto Y, Ueda Y, Yamamoto H, Nozaki S, Saito T, Kang J. Treadmill training with body weight support: its effect on Parkinson's disease. Arch Phys Med Rehabil. 2000;81(7):849-52

  13. Platz T, Brown RG, Marsden CD. Training improves the speed of aimed movements in Parkinson's disease. Brain. 1998;121(3):505-14

  14. Ostrosky KM, VanSwearingen JM, Burdett RG, Gee Z. A comparision of characteristics in young and old subjects. Phys Ther. 1994;74(7):637-44.

  15. Morris ME, Iansek R, Matyas TA, Summers JJ. Stride length regulation in Parkinson's disease. Normalization strategies and underlying mechanisms. Brain. 1996;119(2):551-68.

  16. Kerrigan DC, Todd MK, Della Croce U. Gender differences in joint biomechanics during walking: normative study in oung adults. Am J Phys Med Rehabil. 1998,77(1): 2-7

  17. Almeida ST. Análise da estabilidade postural de idosos sedentários, praticantes de exercício físico regular e atletas. RBCEH, Passo Fundo, v. 4, n. 1, p. 39-47, jan/jun. 2007.

  18. Podsiadlo D, Richardson S. The timed “Up & Go”: a test of basic functional mobility for frail elderly pearsons. J Am Geriatr Soc. 1991;39(2):142-8

  19. Jenkinson C, Fitzpatrick R, Norquist J, Findley L, Hughes K. Cross-cultural evaluation of the Parkinson´s Disease Questionnaire: Tests of data quality, score reability, response rate, and scaling assumptions in the United States, Canada, Japan, Italy, and Spain. J Clin Epidemiol. 2003;56:843-7

  20. Canter GJ, De La Torre R, Mier M. A method for evaluating disability in patients with Parkinson's disease. J Nerv Ment Dis 1961; 133 : 143-7.

9.1. ANEXO A – Escala de Incapacidade da Northwestern University (NUDS)

1. MARCHA:

Ele sempre caminha sozinho

0. Normal

1. A marcha apenas discretamente difere do que de qualidade normal e velocidade; é o ato mais difícil. Essencialmente a postura normal

2. A qualidade da marcha é pobre e lenta velocidade. Moderadamente afeta a postura. Pode haver tendência para uma propulsão discreta. É difícil de virar.

3. A marcha é muito anormal, lenta e hesitante. Postura obviamente alterada. Pode haver propulsão.

Só às vezes caminhando

4. Facilmente caminha distâncias curtas. Caminhar ao ar livre é difícil, mas você sempre pode fazer isso sem ajuda. Raramente a pé longas distâncias apenas.

5. Anda de uma sala para outra com apenas moderada dificuldade. Às vezes você pode andar lá fora sem ajuda.

6. Anda de um quarto para outro, sem assistência, mas se move lentamente e usar o suporte externo. Não vai só lá fora.

Ele nunca anda sozinho

7. Requer ajuda potencial em ambientes fechados e ao ar livre ativo.

8. Requer assistência moderada dentro; andar no exterior com considerável assistência.

9. Você precisa ajuda considerável mesmo para distâncias curtas. Você não pode andar ao ar livre ou com ajuda.

10. Não anda, mesmo com assistência máxima.

2. VESTUÁRIO:

Autonomia completa

0. Normal.

1. Veste-se com um pouco mais de tempo e esforço do que o normal.

2. Veste-se completamente com lentidão e grande esforço.

Requer ajuda parcial

3. Se veste sozinho, exceto para atividades finas (colocar gravata e abotoar botões).

4. Realiza mais do que a metade das atividades que envolvem se vestir independientemente.

5. Realiza menos do que a metade das atividades que envolvem se vestir independentemente.

6. Só realiza atividades mais grossas (colocar chapéis ou abrigos).

Requer ajuda completa

7. Há ajuda consideravelmente com os movimentos do corpo.

8. Algo pode ajudar nos movimentos do corpo.

9. Os movimentos do paciente não ajudam nem impedem o assistente.

10. O paciente dificulta mais do que ajuda.

3. COMER

0. Normal.

1. Dieta normal, mas a mastigação e a deglutição são trabalhosas.

2. Geralmente come algum sólido, mas isso requer tempo e esforço.

3. Facilmente lidar com líquidos e alimentos moles. Ocasionalmente, são necessários sólidos, com muito esforço e muito tempo.

4. Beba apenas líquidos e alimentos moles; Estes são consumidos muito lentamente.

5. A comida é tão alterada que a hospitalização é necessária para manter uma nutrição adequada.

4. ATIVIDADES PARA A ALIMENTAÇÃO

0. Normal.

1. Se alimenta. Acidentes raros. Mais lento que o habitual.

2. Faça todas as atividades sozinhas, com lentidão moderada, embora você possa procurar ou precisar de ajuda em situações específicas (cortar carne em um restaurante). Acidentes não são incomuns.

3. Faça a maioria das atividades sozinho, com lentidão moderada. Pode precisar de ajuda em situações específicas (cortar carne, encher uma xícara).

4. Independentemente executa apenas algumas atividades.

5. Requer assistência total.

5. HIGIENE

Autonomia completa

0. Normal.

1. Higiene mantida normalmente, com exceção da discreta lentidão.

2. Atividades higiênicas que consomem um tempo moderado; não requer métodos alternativos. Alguns acidentes.

3. Higiene mantida de forma independente, mas com esforço e lentidão. Acidentes frequentes.

Você precisa de ajuda parcial

4. Serve as necessidades mais pessoais apenas. Estabelece métodos alternativos para superar as atividades difíceis.

5. Requer ajuda para tarefas não difíceis envolvendo coordenação.

6. Requer metade da assistência às necessidades de higiene.

7. Realiza algumas atividades apenas, usando a mão.

Precisa de assistência completa

8. Higiene bem mantida; ajuda do assistente.

9. Razoavelmente boa higiene com assistência, mas não ajuda de maneira significativa.

10. Não é possível manter adequada mesmo com ajuda de máxima higiene.

6. FALA

0. Normal.

1. Completamente apropriado idioma; distúrbios da voz minamemte presentes.

2. Linguagem facilmente compreensível, mas a voz ou o ritmo pode ser alterado.

3. Comunica-se com facilidade, mas a alteração da linguagem, reduz o conteúdo.

4. Linguagem pode ser entendida se o ouvinte dedica atenção suficiente. Tanto a articulação e a voz podem ser defeituosas.

5. Sempre usa a linguagem para se comunicar, mas a articulação é muito pobre. Habitualmente usa frases completas.

6. Usa a linguagem para se comunicar na maioria das vezes mas a articulação é dificilmente inteligível. Pode ter dificuldade às vezes para iniciar a linguagem. Geralmente fala com palavras simples ou frases curtas.

7. Tentativa de usar a linguagem para se comunicar, mas há dificuldade de iniciar a vocalização. Pessoa para no meio da frase e é incapaz de seguir.

8. Vocaliza para chamar a atenção.

9. Proferidas, mas raramente com intenção comunicativa.

10. Não se pronuncia.

(Canter CJ et al., 1961)

10. ANEXO B – Parkinson’s Disease Quality Of Life Questionnaire (PDQ-39)

(Health Services Research Unit, University of Oxford, 1995)

ANEXO C - Timed Up And Go Test (TUGT)

Instrução: sujeito sentado em uma cadeira com braços, com a coluna apoiada, usando seus calçados habituais e seu dispositivo de auxílio à marcha. Após o comando “vá”, deve se levantar da cadeira e andar um percurso linear de 3 metros, com passos seguros, retornar em direção à cadeira e sentar-se novamente.

Tempo de execução do teste (em seg.)

 

1.

 

 

2.

 

 

3.

 

Média:

 

 

Valor de referência

Risco de quedas

TUG isolado

< 13,5 segundos

> 13,5 segundos

TUG isolado para idosos frágeis

11 a 20 segundos

> 20segundos

TUG cognitivo

< 15 segundos

> 15 segundos

(Podsiadlo & Richardison, 1991)


Publicado por: João Rafael de Souza

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