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RITUAIS FUNERÁRIOS: O além-morte na percepção da sociedade egípcia antiga

História

Crenças funerárias, ritos fúnebres que envolvem o morto, incluindo o processo de mumificação e a importância da visão de mundo monista.

índice

1. RESUMO

O objetivo central deste trabalho é analisar as crenças e práticas funerárias dos antigos egípcios com base na literatura fúnebre, especialmente o chamado Livros dos Mortos, delimitado ao período da Recensão Tebana. Nossa proposta é compreender como a sociedade egípcia antiga percebia o além-morte e como tais aspectos religiosos regulavam e influenciavam a vida da comunidade e do indivíduo, através de conceitos éticos e mágicos, como abordado no Julgamento de Osíris. Por isso mesmo foram considerados as principais cerimônias e ritos, suas características, destacando a continuação da existência com os vivos e até mesmo a intereação entre eles. Trabalhomos com a ideia de uma visão de mundo monista que permite que ritos e elementos mágicos, de forma integrada aos mitos, concedam vida aos seres inertes considerados inanimdos, como a múmia do morto, elemento fundamental para compreensão dos conteúdos do Livro dos Mortos.

Palavras-chave: Egiptologia, Egito Antigo, Religião Egípcia, Ritos funerários, Livro dos Mortos, Recensão tebana.

ABSTRACT

The main objective of this work is to analyze the funerary beliefs and practices of the ancient Egyptians, especially the funerary text called Books of the Dead, delimited to the Theban Recesion period. Our proposal is to understand how ancient Egyptian society perceived the after death and how such religious aspects regulated and influenced the life of the community and the individual through ethical and magical concepts as discussed in the Osiris Judgment. For this reason, the main ceremonies and rites were considered, their characteristics, highlighting the continuation of existence with the living and even the interaction between them. We work with the idea of ​​a monistic world view that allows rites and magical elements, integrated with the myths, to give life to the inert beings, as the mummy of the dead. So, the monism is fundamental element to understanding the contents of the Book of the Dead.

Keywords: Egyptology, Ancient Egypt, Egyptian Religion, Funerary Rites, Book of the Dead, Theban Recension

2. Introdução

Este trabalho tem como objetivo explorar o universo funerário dos antigos egípcios, como base sobretudo em texto funerário do Reino Novo que ficou conhecido na Egiptologia como “Livro dos Mortos” ou “Livro para Sair à Luz do Dia”, como diziam os antigos. Para isso, delimitamos o período da chamada Recensão Tebana, da XVII a XIX dinastias, quando tal literatura fúnebre ganhou maior difusão na sociedade,

Inicialmente, somente o rei tinha seu destino póstumo conhecido, conforme retratado nos Textos das Pirâmides no Reino Antigo. Posteriormente outros membros da elite tiveram acesso, fato notório nos Textos dos Sarcófagos, quando houve o que os egiptólogos chamam de uma “democratização” do além, que discutiremos em nosso trabalho. O interesse de pesquisar esse recorte histórico considerando o Livro dos Mortos, que deriva dos textos anteriores, deve-se ao fato de serem percebidas mudanças em todos os níveis e maior acesso aos rituais funerários. As cerimônias deixam definitivamente de ser exclusivas dos faraós e elite, estando agora, também ao alcance de pessoas de outras classes, que passaram a acessar o mundo pós mortem por meio de encantamentos mágicos os quais o permitiriam chegar nos domínios de Osíris, rei do mundo dos mortos.

Deste modo, a monografia foi dividida em três capítulos onde priorizamos as crenças funerárias no primeiro capítulo, enfatizando as várias concepções do além morte para os egípcios ao longo dos tempos, com atenção especial ao julgamento osiriano, grande novidade do Livro dos Mortos.

No segundo capítulo, o foco será nos ritos fúnebres que envolvem o morto, incluindo o processo de mumificação, o enterro e os rituis para sua boa vida no além. O capítulo final traz o Livro dos Mortos em si, seus muitos encantamento mágicos para o morto chegar ao destino final e, por fim, considerações sobre a tumba, cuja construção era tão importante quanto os outros processos.

A nossa conclusão pretende articular todos os elementos citados, demonstrando a importância da visão de mundo monista, apresentada como aporte teórico, decisiva para compreender as crenças e práticas no antigo Egito, encaradas de maneira articulada e inseparável.

3. AS CRENÇAS FUNERÁRIAS NO EGITO ANTIGO

3.1 Aporte teórico: O Monismo

Se hoje vemos o mundo de forma segregada, onde política, religião e economia são elementos distintos, para os antigos egípcios, essa separação não existia na forma de pensar. De acordo com Ciro Cardoso (1999, p. 24-25), com base na interpretação de autoras escandinavas, o pensamento dos antigos egípcios era monista onde a visão de mundo “não fragmenta a realidade em esferas estanques”.

Dessa forma, Cardoso explica que os mundos humano, natural e divino eram encarados como um coisa só, sem barreiras entre eles, permitindo que os contatos entre as várias dimensões, não vendo diferença entre o que hoje para nós é dotado de vida (animado) ou objetos sem vida. Todos poderiam ser ativados a partir de certos ritos, como a Abertura da Boca de estátuas e múmias, por exemplo.

Segundo o autor, “o mundo todo, único, é que constitui o objeto de um pensamento baseado em mitos” (CARDOSO, 1999, p. 25). Para isso era preciso acreditar na magia, fundamental para que encantamentos ou capítulos do Livro dos Mortos funcionassem e pudessem favorecer o morto no além.

3.2 Aspectos Gerais

Desde os primórdios, os rituais funerários fazem parte da vida do homem e para os antigos egípcios, existia algo além do nascimento, vida e morte. Embora temerosos com o que lhes esperava no além-túmulo, eles acreditavam na existência de uma vida após a morte próspera ao lado da família.

A sociedade egípcia antiga era regulada por aspectos religiosos, os quais acreditavam influenciar diretamente nos acontecimentos, tanto na vida individual, como no da comunidade.

A complexidade e o detalhismo dos rituais funerários permitiriam que o morto pudesse reviver em outro âmbito de existência. Mas, para isso, o corpo deveria ser preservado através de técnicas de embalsamamento e mumificação específicos (GERMER, 2001, p. 459; EL SADDIK, 2001, p. 473).

O deus da fertilidade e ressurreição, Osíris era visto pelo homem egípcio como aquele que venceu a morte, e assim, representava a esperança do renascimento, em função de seu mito, no qual o deus foi assassinado e revivido. Essa esperança alimentava a crença em uma vida pós mortem, o que determinou que processo de mumificação fosse desenvolvido, o qual permitiria a vivência do individuo no corpo terrestre. Assim sendo, tornou-se costume o defunto ser chamado de Osíris + nome do morto. Isso significa que todo morto se tornava um Osíris aos olhos dos antigos egípcios e era divino após a morte (CARDOSO, 1999, pp. 114-115).

A religiosidade egípcia deve ser entendida de forma diferente da concepção de religião de nossos dias, por serem de tempos e realidades distintas fazendo parte de uma visão de mundo específica já apresentada no referencial teórico. De acordo com Maria Thereza David João, [...] a religião egípcia comporta uma série de preceitos éticos, filosóficos, científicos e de diversas outras ordens que acabam por formar o moderno conceito de religião insuficiente quando aplicado ao mundo egípcio (JOÃO, 2008, p. 62).

A morte fazia parte da vida daquela sociedade, sendo vista de certa forma como a possibilidade de mudança no nível da sua existência e onde os mortos poderiam influenciar no mundo dos vivos cotidianamente.

O medo da morte era manifestado por vezes, mediante certas atitudes, como não verbalização da palavra morte ou mortos, substituindo-a por outras mais amenas. De acordo com Ciro Cardoso, [...] os mortos eram com frequência objeto de alusão metafórica, chamados de os vivos, os fatigados, os inertes, os ocidentais já que as necrópoles estavam situadas habitualmente na margem ocidental do Nilo, terreno desértico (CARDOSO, 1999, p. 106).

3.3 Manutenção da Memória do Morto

Um dos grandes temores para um egípcio era a perda de seus laços terrenos e deixar de existir na memória da sociedade. Para este indivíduo, isso seria interpretado como uma segunda morte. Tal preocupação se faz presente, além das obrigações dos vivos na manutenção de oferendas, mas também na construção das tumbas, na decoração dos túmulos e sarcófagos, assim como, na aquisição de fórmulas mágicas e encantamentos cujo o conteúdo o preveniriam de um destino desagradável (VERHOEVEN, 2001, p. 485).

“Os mortos não eram excluídos da sociedade e poderiam, até mesmo, interagir em questões dos vivos, a pedido deles próprios, conforme se observa através das cartas que os egípcios escreviam a seus falecidos” (JOÃO, 2008, p. 66). Tais cartas, como as que vemos nesta passagem, evidenciam que mortos e vivos faziam parte de uma mesma comunidade em que uns poderiam interferir positiva ou negativamente na vida dos outros:

Uma oferenda que o rei dá a Osíris e Anúbis, que está sobre sua montanha, para que invocações de oferenda sejam feitas em favor de ...tjat, justificada. Foi sem descontentamento algum de tua parte contra mim que foste trazida para cá, par a cidade da eternidade. Caso tais malefícios estejam sendo infligidos com teu conhecimento, vê: a casa pertence a teus filhos; e, no entanto, as desgraças se repetem. Caso eles estejam sendo infligidos contra tua vontade, teu falecido pai permanece influente na necrópolo. Se houver uma reprovação em teu coração, esquece-o em favor de teus filhos. Sê misericordiosa, sê misericordiosa, para que todos os deuses do nomo de Tínis sejam misericordiosos para contigo. (WENTE, 1990, p. 214)

Os egípcios não concebiam o espírito e o corpo como distintos do ser, já que o corpo era composto de elementos que se complementavam (ká, bá, o corpo e o coração) e que seriam indispensáveis após a morte. Esses elementos compunham o que os egiptólogos costumam chamar de personalidade humana junto do nome e da sombra (CARDOSO, 1999, p. 104).

3.3.1 Elementos da Personalidade Humana

De acordo com a crença egípcia, o corpo era composto por seis elementos: khet – o corpo; ren – o nome; e chut – a sombra, sendo estes primeiros, ligados à matéria.

Segundo João (2008, p. 68), o e o são elementos não corpóreos... o é o elemento principal da personalidade de um egípcio, e pode ser compreendido como a junção de todos aqueles elementos que fazem parte de uma pessoa única. Era representado como um homem com cabeça de pássaro ou apenas um pássaro, livre para voar entre as dimensões.

Ao morto que passou pelo julgamento de Osíris, era permitido que o seu visitasse o mundo dos vivos durante o dia e ao anoitecer retornasse ao seu corpo na tumba, a casa da eternidade.

Imagem 1: Passagem 92, Livro dos Mortos. Câmara funerária de Irinefer, XIX dinastia, entre 1200 a. C. e 1150 a. C. Fórmula para abrir o túmulo ao e à sombra de (nome do defunto), para que saia de dia e tenha poder sobre as suas duas pernas. (Fonte: KAMPP-SEYFRIED, 2001, p. 262)

O Ka pode ser entendio como um princípio de sustento, que acompanhava o indivíduo desde o nascimento e somente o deixava no momento da morte. Por esse motivo, oferendas eram feitas ao ká, para que ele mantivesse a sua força vital após a morte. Após ser enterrado, o defunto tornava-se um akh, luminoso, fruto da união do e o após o falecimento (EL SADDIK, 2001, pp. 471-472).

A existência e individualidade de uma pessoa eram reconhecidas pelo seu nome (ren):

O nome estava diretamente associado ao bem-estar do morto, razão pela qual houve, ao longo da história egípcia, tentativas de se fazer mal a uma pessoa afetando diretamente o seu nome, tentando apaga-lo de uma inscrição, por exemplo... O nome era também uma forma de sobrevivência caso a múmia perecesse por algum motivo, e era importante que, durante os rituais fúnebres ele fosse recitado em voz alta para ativar sua potencialidade mágica... Rituais como a abertura da boca visavam restaurar magicamente as faculdades físicas e mentais do morto. (JOÃO, 2008, pp. 68-69)

Podemos perceber com isso, que ao ser criado o conjunto de frases da confissão negativa, se demonstra a preocupação dos autores, em utilizar palavras que mostrem a retidão de suas ações. Isso nos leva a crer em uma tentativa contínua de seguir um código moral ideal para a vida do homem egípcio antigo, como será visto na análise do julgamento osiriano.

3.4 A Vida Após a Morte dos Antigos Egípcios

Segundo o supracitado mito de Osíris, este foi morto e esquartejado por seu irmão Seth e teve seu corpo espalhado por todo Egito sendo posteriormente revivido por Ísis, gerando um filho, sucessor do trono do Egito, Hórus (SILVERMAN, 2002, p. 61). A cabeça teria sido enterrada em Abidos, fato que tornou a cidade um centro de peregrinação de veneração de Osíris. Durante o embalsamamento, o deus ctônico recebeu de suas irmãs Ísis e Neftis amuletos que o protegeriam dos males no além-tùmulo, além de recitarem fórmulas mágicas que permitiriam a vida eterna.

Desde o nascimento, existia uma preocupação do indivíduo na sociedade egípcia, de como seria a sua vida no além-túmulo. Essa preocupação, por si só, gerava uma atenção maior no que diz respeito à construção de sua sepultura e por isso, uma parcela do seu tempo, assim como uma cota de bens eram absorvidos por pensamentos com o detalhismo e simbolismo da tumba e atenção constante ao momento em que seu corpo mumificado seria conduzido à morada eterna.

Sendo assim, muitas pessoas acreditavam que o mesmo que ocorrera com Osíris, aconteceria com eles em sua vida eterna. O deus Osíris vencera a morte, mutilação e a maldade, tornando-se senhor e juiz no Mundo Inferior e isso fez surgir entre os egípcios o sentimento de que sendo virtuosos, assim como o deus, também seriam vitoriosos. Vale ressaltar que a Osíris é atribuído o domínio da eternidade, como pode ser observado em alguns trechos do hino (De Iside et Osiride, da obra de Plutarco, o grego):

Louvores te sejam dados, ó Osíris, senhor da eternidade, Um-nefer, Heru-Cuti (Harmachis) cujas formas são múltiplas e cujos atributos são grandes, que és Ptá-Sequer-Tem em Anu (Heliópolis, senhor do lugar oculto e criador de Het-ca-Ptá (Mênfis) e dos deuses [lá dentro], guia do mundo inferior, a quem [os deuses] glorificam quando te instalas em Nut). Ísis abraça-te em paz e afasta os demônios da boca dos teus caminhos. Voltas o rosto para Amentet e fazez brilhar a terra como se fosse revestida de cobre refinado. Levantam-se os mortos para ver-te, respiram o ar e olham para o teu rosto quando o disco emerge no horizonte; seus corações estão em paz, na medida de em que te contemplam, ó tu que és eternidade e sempre eternidade. (BUDGE, 1985, p. 47)

3.4.1 O Mito de Osíris e a importância do Deus para as Crenças Mortuárias

Conforme explica Chapot, a primeira aparição de Osíris remonta à Dinastia V, quando foi retratado já na forma humana, com o corpo envolto em tiras usadas como nas múmias, de onde saem mãos que carregam o cajado e o chicote, paramentos típicos do rei do Egito. Com base em Antonio Brancaglion, a autora acredita que o deus ctônico absorveu as insignias do rei Anedjty, que governou o Egito na Dinastia I e foi cultuado como uma divindade do âmbito mortuário na cidade de Busíris (2015, pp. 213-214).

Segundo o mito, Osíris e Ísis teriam governado Egito, com justiça e muita prosperidade, mas seu irmão Seth, teria assassinado o soberano em uma emboscada:

Encerrado em uma urna, o corpo de Osíris chega pelo rio até Biblos onde, ao se chocar a uma árvore, fê-la crescer frondosamente, do que derivou sua associação como da fertilidade. Isis sai em busca do corpo de seu marido e, conseguindo resgatá-lo após, estadia no álácio de Bíblos, lenterra-o no pântano a fim de protege-lo de Seth. Este deus, contudo, encontra o local onde estava escondida a urna contendo o corpo de Osíris e esquarteja-o, espalhando cada parte por diversos cantos do Egito. Com a ajuda de Anúbis, Thot e Néphtys, Isis consegue juntar todos os membros novamente e empreende esforços rituais para tentar ressuscitá-lo. Antes disso, Isis transforma-se em um falcão e sobrevoa o corpo de Osíris, sendo magicamente fecundada por ele, e desta união surge o deus Hórus. Osíris é considerado a primeira múmia do Egito e, tendo ressuscitado, nãos mais voltou a habitar o mundo dos vivos, mas sim, tornou-se regente do submundo transformando-o em um local de plena abundância. (JOÃO, 2008, p. 72)

O seguimento da narrativa sobre o mito contextualiza que Hórus busca vingar a morte do pai e em uma luta, teve um olho arrancado por Seth, que era seu tio. A disputa chega diante do tribunal dos deuses, onde Seth argumenta contra Hórus, mas devido ao equilíbrio existente nas deliberações, a deusa Neith intervém e “o trono é dado a Hórus como legítimo sucessor de Osíris” (Ibid., 2008, p. 72).

Devemos destacar a importância desta parte final do mito, dentro das concepções funerárias egípcias, pois, a ressurreição de Osíris dependia da entronização de seu filho. O olho arrancado de Hórus, apresentado a Osíris, passou a simbolizar a regeneração e tornou-se peça de destaque na ritualística e literatura mortuária.

3.5 Concepções funerárias sobre o outro mundo ao longo do tempo

Quando falamos de post mortem, devemos levar em consideração as diversas formas de como este era concebido pelo egípcio antigo, ou seja; os vários destinos possíveis para o morto e suas modificações ao longo do período faraônico.

Embora as concepções acerca do além tenham variado ao longo do tempo e tenham sido até simultâneas, os egípcios não viam isso como um problema, já que sua religião era altamente inclusiva (CARDOSO, 1999, p. 109). Por isso mesmo, a ressurreição da múmia na tumba – Casa da Eternidade; o destino celeste, estelar ou solar; e a vida no mundo inferior, o reino de Osíris, estavam entre as concepções mais aceitas e conhecidas (Ibid., 1999, pp.110-116). Apesar de em certos momentos essas concepções pareçam antagônicas, o que se procurou a longo prazo foi um entendimento conciliatório entre as posições, sem, contudo, jamais unificá-las por completo.

Encontramos no Encantamento 245, parágrafo 251, do Textos das Pirâmides, uma fala atribuída a deusa Nut (do Céu), dirigindo-se ao rei, na qual Ciro Cardoso (1999) observou nessa passagem, que com relação ao soberano, o destino celeste e o destino osiriano subterrâneo, se opõem. Neste período, somente o rei e a realeza tinham acesso a uma vida no além, processo posteriormente ampliado e que será por nós discutido no capítulo 3, a chamada democratização do post mortem.

Que possas abrir teu lugar no céu entre as estrelas celestes, pois tu és a Estrela Solitária [= a estrela da manhã], o companheiro de Hu [deus que personifica o alimento]. Olha lá em baixo Osíris, quando governa os mortos, pois tomas posição

longe dele: tu não estás entre eles [i.e. o rei não está entre os mortos governados por Osíris], tu não és um dentre eles. (Ibid., 1999, p. 109)

A tumba era vista como a casa da eternidade, pois ali o através da múmia, era animado para receber oferendas trazidas pelos vivos, tais como: alimentos, bebidas e roupas, sustentando-se no interior do sepulcro. Com esta visão admitia-se também, primeiro para os reis e depois aos demais defuntos, o princípio do sustento na vida futura e para o , ou princípio da mobilidade, onde “o morto seria capaz de sair da tumba, buscando a luz durante o dia, voltando para o sepulcro à noite. Esse desenvolvimento remonta desde os Textos dos Sarcófagos [...] continuando mais tarde [...] no Livro dos Mortos, de encantamentos mágicos capazes de permitir ao morto assumir diferentes formas nesta saída à luz” (Ibid., 1999, p. 110).

Akh, o morto transfigurado, graças ao seu bá, teria a faculdade de transitar nas diferentes dimensões – visíveis e invisíveis e um dos seus destinos possíveis era como habitante do mundo subterrâneo governado por Osíris, o paraíso agrário. Ainda, segundo Cardoso (1999, pp. 111-112) nesse paraíso, com os seus Campos dos Juncos e nos Campos das Oferendas tudo era prosperidade e riqueza, podendo ser descrito como uma cópia do Egito ampliado.

De acordo com Lesko (2002, p. 146), os referidos campos estavam associados aos horizontes oriental e ocidental, sendo o primeiro como um “lugar de purificação”, ao passo que o outro, das oferendas, era encarado como algo semelhante aos campos elísios, um paraíso agrário como se falou.

Ciro Cardoso transcreve em seu livro Deuses, múmias e ziggurats: Uma comparação das religiões antigas do Egito e da Mesopotâmia, uma passagem do Encantamento 159 em que é apresentado o mundo agrário osiriano nos Textos dos Sarcófagos:

Eu conheço aquele Campo dos Juncos que pertence a Ra, cuja muralha que o cerca é de ferro. A Altura de sua cevada é de quarto cúbitos. A sua espelta tem quarto cúbitos de Altura, sua espiga, dois cúbitos, sua haste, cinco cúbitos. São os Habitantes do horizonte que as colhem, de nove cúbitos de Altura. (1999, p. 112)

De acordo com as referências de Cardoso, os pés de cevada teriam aproximadamente dois metros de altura; as espigas com meio metro; os pés de espelta (trigo duro) de quase quatro metros com espigas de um metro e ceifadores (habitantes que as colhem) com quase cinco metros de altura.

Imagem 2: Livro dos Mortos, Papiro de Ani (Folha 35), Vida no mundo depois da morte (Fonte: www.britishmuseum.org)

O ressuscitado, já transfigurado, dentre suas funções vitais, seria capaz de realizar trabalhos, mas que evitaria em seu benefício próprio, se possível. Para isso deveria “compelir magicamente deuses e outros seres fantásticos a trabalhar para ele [...] no tocante especificamente às corvéias do além, preparar para depósito na tumba estatuetas na forma do morto […] shabti ou uchabti [] prontas a substituí-lo nos trabalhos braçais” (Ibid., 1999, p. 113).

Estas pequenas estatuetas representariam as funções e algumas tinham gravadas em suas costas inscrições com encantamentos. Budge transcreve um texto extraído do Papiro de Nebseni (MUSEU BRITÂNICO, nº 9.900, folha 10), que era “desenhista do Templo do Norte e do Sul, homem altamente venerado no Templo de Ptá”:

DE COMO FAZER A IMAGEM SHABTI TRABALHAR PARA UM HOMEM NO MUNDO INFERIOR

Diz o escriba Nebseni, [...] “Ó imagem shabti do escriba Nebseni, filho do escriba Tena, vitorioso, e da senhora da casa Mut-resta, vitoriosa, se eu for chamado, ou condenado a fazer algum trabalho, seja ele qual for, dente os que devem ser executados no mudo inferior – eis que [para ti] a oposição alí será posta de lado – por um homem em seu turno, que o julgamento recaia sempre sobre tí em lugar de recair sobre mim, quando for preciso semear os campos, encher os rios de água, e trazer as areias deste este [para] o oeste.” [A imagem shabti responde]. “De fato estou aqui [e irei] aonde ordenares que eu vá”. (BUDGE, 1985, p. 155)

Imagem 3: Shabit de Haremakhbit (Faiança): XXI Dinastia. (Fonte: Foto do autor)

Imagem 4: Shabtis (Museu Nacional). (Fonte: Foto do autor)

3.6 O Julgamento Osiriano

A grande novidade contida no Livro dos Mortos foi o surgimento de um tribunal no qual os mortos seriam julgados diante de Osíris em seu destino no além. Conhecido na Egiptologia como Encantamento 125, a passagem do julgamento dos mortos revela como o morto deveria se portar diante dos deuses ao chegar a Sala das Duas Verdades, diante de Osíris, rei do mundo dos mortos, bem como de toda enéada. O morto então declararia uma confissão negativa a cada um dos 42 juízes, chamando-o pelo nome, onde manifestava não ter cometido àquela falta (SILVERMAN, 2002, p. 65).

De acordo com o que era declarado, o coração do defunto era pesado em uma balança, e tinha como o contrapeso uma pena de Maat que representava a Justiça, Verdade e a Ordem. A pesagem era o momento crucial do julgamento, pois, o equilíbrio era pesado pelas virtudes do morto durante a vida terrena, pela pena de Maat. Assim, se o coração fosse mais leve que a pena, o defunto teria os benefícios da vida eterna e desfrutaria de um post mortem com tranquilidade por toda a eternidade.

Se passasse por essa prova, na qualidade de justo de voz ou justificado, teria permissão de adentrar o paraíso osiriano. Entretanto se as suas faltas fizessem o coração pender a ser mais pesado, o destino certo seria selado por Am-mit, que devoraria o defunto e este deixaria de existir. Am-mit, o Comedor dos Mortos, também chamado de Aman A Devoradora, de acordo com a mitologia egípcia antiga era uma criatura descrita com um corpo misto de leão, hipopótamo e crocodilo, que para os egípcios eram os três maiores animais comedores de homens. Esta era a segunda morte, tão temida pelos egípcios antigos. A partir de então, o condenado era considerado morto (mut) viveria a morte dentro da morte, a expulsão para fora da criação (Ibid., 2002, p. 68).

3.6.1 A Confissão Negativa e a Pesagem do Coração

O morto apresentava a sua Confissão Negativa e se esta fosse aceita ele se tornaria uma Maat KeruVerdadeiro de Palavra ou ainda Triunfante – Vitorioso. Isso lhe permitiria ir aonde desejasse e fazer o que lhe aprouvesse no Campo das Oferendas um lugar de bem-aventurança, terra paradisíaca, de fartura e onde esperava viver a eternidade, pois possuía a palavra justa.

O termo Confissão Negativa refere-se a uma proclamação feita pelo morto diante dos deuses (juízes), chamando cada um pelo seu nome durante o julgamento. O termo se origina do fato de existir uma negativa em cada uma das declarações recitadas, pois, sempre eram compostas por expressões como: não roubei, não pronunciei; e não agi, entre outras, e ao final da recitação o morto acrescentava: Sou puro! Sou puro! Sou puro! (...):

O ritual funerário, como um todo, era uma encenação dos mistérios de Osiris. A passagem pelo julgamento dos mortos é análoga àquela enfrentada por Hórus, no qual o mesmo é proclamado justo contra as acusações de Seth, o qual vifa a personificação do inimigo. Na literatura funerária, o morto, ao passar pelo julgamento com sucesso passa a ser chamado também de o “justo de voz”. (JOÃO, 2008, p. 73)

De acordo com Chapot (2007, pp. 162-164), a declaração de inocência ou a Confissão Negativa era iniciada assim: “O que dizer ao chegar à larga ‘Sala das Duas Verdades’”, assim separando “N” (nome do morto) de todas as coisas proibidas que cometeu, e vendo as faces de todos os deuses:

Adoração a ti, grande deus,

Senhor das Duas Verdades!

Eu venho a ti, meu senhor,

Eu fui trazido para apreciar tua beleza,

Eu te conheço,

Eu conheço o nome dos quarenta e dois deuses,

Os quais estão contigo na Sala das Duas Verdades,

Que vives desviando de malfeitores,

Que bebes de seus sangues,

No dia do julgamento de caráter diante de Osíris.

Eu venho diante de ti,

Trazendo Maat para ti,

Tendo repelido o mal para ti.

Eu não cometi nenhum crime contra as pessoas,

Eu não maltratei o gado,

Eu não conheci o que não deveria ser conhecido,

Eu não transgredi no Lugar da Verdade1.

Eu não cometi mal algum

Eu não comecei um dia exigindo mais do que devia

O meu nome não alcançou a barca do poderoso soberano

Eu não blasfemei Deus algum

Eu não roubei dos pobres

Eu não aborreci os Deuses

Eu não caluniei um criado a seu senhor

Eu não causei sofrimento

Eu não fiz com que corressem lágrimas

Eu não matei

Eu não ordenei que matassem

Eu não fiz ninguém sofrer

Eu não danifiquei as oferendas nos templos

Eu não esgotei os pães dos deuses

Eu não roubei os bolos dos mortos

Eu não copulei ou maculei a mim mesmo

Eu não aumentei ou reduzi a medida

Eu não diminuí a aruraEu não enganei nos campos

Eu não adicionei ao peso da balança

Eu não falsifiquei a escala de peso

Eu não tomei o leite da boca das crianças

Eu não privei o gado de seu pasto

Eu não cacei pássaros com dos deuses

Eu não pesquei em suas lagoas

Eu não contive água durante sua estação

Eu não represei correntezas

Eu não extingui uma chama da qual se necessitava

Eu não negligenciei os dias de ofertar carne

Eu não detive gado pertencente aos deuses

Eu não interrompi um deus em sua procissão

Eu sou puro, eu sou puro, eu sou puro, eu sou puro

Eu sou puro como a grande garça em Hnes

Eu sou verdadeiramente o nariz do “Senhor do Alento”

Que sustenta todas as pessoas

No dia de concluir o Olho em On

No segundo mês de inverno, último dia,

Na presença do senhor de sua terra

Eu testemunhei a conclusão do Olho em On

Nenhum mal há de se abater sobre mim nessa terra

Nesse Salão das Duas Verdades

Porque eu sei o nome dos deuses nele Os seguidores do grande Deus.

O pensamento egípcio era de que ao se apresentar diante de Maat, deusa da Justiça e ordenação, a posição social, bens e riquezas, de nada adiantariam em favor do morto, mas sim, seus atos praticados em vida. Ela era a personificação da harmonia; o equilíbrio das relações entre maat (ordem) e isfet (caos), onde as penas de avestruz que compunham o seu traje, eram o símbolo da verdade, justiça e ordem do universo.

Imagem 5: Livro dos Mortos, Papiro de Ani (Quadro 3) - Julgamento de Ani, pesagem do coração. (Fonte: www.britishmuseum.org)

No papiro Ani, este (e sua esposa Thuthu) entra na sala do julgamento, observado pelos deuses do panteon egípcio. Em seguida seu coração é colocado em um dos pratos da balança da justiça, onde no outro prato está a pena de Maat (por vezes, uma estatueta da deusa). Anúbis observa o fiel da balança, enquanto Am-mit aguarda. Tot, o escriba real, faz a anotação do resultado e caso este tenha sido satisfatório, o defunto é conduzido por Hórus, e já justificado – iluminado, ajoelha-se na presença de Osíris, que ladeado pelas deusas Ísis, Néftis e os quatro filhos de Hórus, proclamará a sentença.

A cena do julgamento é retratada em diversos papiros da XVIII, XIX e dinastias seguintes, como os de Ani, Anhai e o de Hunefer, entre outros. Com pequenas variações, de acordo com a concepção de cada artista, os elementos básicos sãos os mesmos e onde Osíris é apresentado como juiz e a ele caberia decidir sobre os destinos do morto em seus domínios.

Ciro Cardoso enfatiza que, muito embora muitos autores tenham tentado no passado ressaltar um predomínio ético no que tange às funções do Livro dos Mortos, o viés mágico sempre acabava prevalecendo sobre o anteriormente mencionado. Com a inclusão de certos encantamentos específicos, junto ao morto, se garantiria que o julgamento fosse sempre positivo e favorável ao destino póstumo almejado nos campos de Osíris (CARDOSO, 1999).

Imagem 6: Livro dos Mortos, Papiro de Ani – Ani já justificado – iluminado, na presença de Osíris. (Fonte: www.britishmuseum.org)

4. PRÁTICAS MORTUÁRIAS E A CONTINUAÇÃO DA EXISTÊNCIA

4.1 O Processo de Mumificação

O legado egípcio nos deixou inúmeros textos, relevos e encantamentos sobre ritualística funerária, entretanto, poucos são os que versam sobre o processo de mumificação. De acordo com Germer (2001, pp. 459-463), o processo que conhecemos é baseado em duas fontes que seriam: dois papiros descrevendo um rito de embalsamamento, mas detalhando o ritual em si, de como o corpo deveria ser ungido, enfaixado e protegido com amuletos e formulas mágicas; e os testemunhos de Heródoto, em que descrevia em detalhes o trabalho dos embalsamadores – “Depois da lamentação dos mortos […] levam o defunto para embalsamar. Há pessoas que se estabelecem nesta atividade e que exercem estas artes transmissíveis de geração para geração” (Ibid, 2001, p. 460).

Imagem 7: Enfaixamento de uma múmia e preparação da urna. Tebas Occidental, túmulo de Tjai (TT 23); Império Novo, XIX dinastia, cerca de 1250 a. C. (Fonte: ELL SADDIK, 2001, p. 473).

Ao longo do nosso trabalho, o termo múmia é utilizado por ser o mais corrente entre os estudiosos sobre o estudo do antigo Egito. Todavia, vale a pena ressaltar a opinião de Ciro Flamarion Cardoso de que: “o termo múmia é o resultado de um engano: corpos trabalhados com resina derretida, em fase tardia da civilização egípcia, adquiriam uma cor escura que os árabes julgaram erroneamente ser decorrente do uso de pixe ou asfalto (em árabe mummiya)” (CARDOSO, 1999, p. 117).

A prática egípcia na preservação era baseada na crença de que a morte era um estágio transitório, mas perigoso, para outra vida e por isso, os diversos elementos que formam o ser animado deveriam manter-se íntegros e unidos para serem introduzidos de novo no corpo.

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Durante o processo de mumificação, o corpo era esvaziado e desidratado com sal; embalsamado; envolvido com faixas de linho; as vísceras eram colocadas em quatro urnas (recipientes); o coração substituído por uma peça com formato de um escaravelho; e em seu verso era escrito um texto sagrado. A tarefa mais difícil do embalsamador era a retirada do cérebro, com longas pinças de metal, pelas narinas do morto. O defunto é vestido com uma túnica de linho negro que é o signo da ressurreição e preservação (EL SADDIK, 2001, pp. 473-474).

Entalhava-se uma fórmula mágica na parte ventral de um escaravelho que substituía o coração do morto, para que este, não testemunhasse contra ele, quando diante do Tribunal de Osíris. Para os antigos egípcios, o coração era a sede do intelecto e dos sentimentos (CARDOSO, 1999, pp. 117-118). Ainda, acompanhavam os paramentos ritualísticos: uma coluneta Djed, o cajado e chicote – símbolos reais e joias que eram amuletos, no caso régio.

A descrição anterior talvez seja uma das mais divulgadas no mundo contemporâneo, devido às informações que chegam ao público através dos meios de comunicações atuais. Entretanto, de uma forma geral, os processos de mumificação no Egito Antigo, obedeciam a critérios que estavam na maioria das vezes ligados à condição social do morto.

Podemos compreender, com base em uma passagem de Heródoto do Sec. V a. C (Cf. CARDOSO, 1999, p. 152-155), que aqueles que praticavam profissão de embalsamadores, apresentavam modelos que variavam de réplicas de corpos confeccionados em madeira e pintados com perfeição de detalhes; um segundo modelo menos caro e menos cuidado; e por ultimo o mais simples e barato de todos.

O processo menos caro, de acordo com Heródoto, consistia em injetar através de seringas, azeite de cedro no ventre do morto, sem cortá-lo ou retirar as vísceras; salgar o corpo durante o tempo necessário. Posteriormente o azeite é liberado, juntamente com os intestinos, vísceras e as carnes que se dissolveram com o natrão, restando somente ao cadáver, pele e ossos. O processo mais barato consistia, para os mais pobres, da limpeza dos intestinos com algum tipo de extrato de plantas; o corpo salgado durante os 70 dias previstos e depois devolvido aos parentes. Atenção especial era dada às mulheres de pessoas importantes (belas ou de grande reputação), onde os corpos esperavam alguns dias antes de serem entregues aos embalsamadores, afim de se evitar que abusassem dos cadáveres (Ibid., 1999, pp. 152-154).

Cardoso (1999, p. 118), comenta que, ao chegar ao fim, o corpo mumificado era colocado dentro de um sarcófago retangular, cuja finalidade era mantê-lo o mais protegido possível dos avanços do tempo. Era comum decorar esses sarcófagos com pares de olhos que permitiam ao morto observar as oferendas, também retratavam portas e mapas do chamado Mundo Inferior, localidade no além, reservada aos mortos. Tudo era feito para que o morto chegasse bem ao outro lado da vida.

Segundo Santos (2012, pp. 214; 238-239), no Reino Novo temos exemplares de sarcófagos antropoides (mumiformes), ou seja, que acompanham a forma do corpo, os quais poderiam ser um prolongamento das máscaras funerárias vigentes desde o Reino Antigo e mantendo a identidade do morto. Embora coexistindo com os caixões ou ataúdes do tipo retangular, os de formatos antropóides se impuseram na preferência dos egípcios durante as dinastias posteriores.

O ataúde mumiforme responde, em sua forma, tanto quanto nas inscrições, à ideia de multiplicar as formas de identificar o morto por sua aparência, seu nome, seu sexo, etc. Os egípcios achavam que a perda da identidade significaria a aniquilação, de modo que, de diferentes maneiras (diferentes também no tempo: assim, por exemplo, as cabeças do morto representadas isoladamente no Reino Antigo, paralelamente a estatuetas completas dele), multiplicavam os elementos de identificação. (SANTOS, 2012, pp. 215-216).

No caso do corpo de um soberano, após ser envolvido em uma mortalha de cânhamo era colocado no primeiro de três ataúdes de ouro puro e incrustados com pedras preciosas, que se encaixavam um no outro e onde poderiam ser observadas em seus cantos, Ísis, Néftis, Neith e Selkit, como deusas protetoras.

A partir do período Raméssida na Décima Nona Dinastia do Reino Novo, as tampas dos vasos utilizados para conservar vísceras passaram a ser moldadas com as cabeças dos filhos de Hórus: uma cabeça humana, uma de chacal, outra de falcão e babuíno (GERMER, 2001, p. 463). Esculpidos nas tampas dos vasos que acompanhavam a múmia, representavam: Duamutet, Imset, Kebehsenut e Hapi, que segundo o mito, socorreram Osíris, abrindo sua boca após a morte dele, para que pudesse se alimentar. Tais deuses são descritos desde os Textos das Pirâmides como tendo auxiliado o faraó em sua jornada post mortem e se tornam no Livro dos Mortos os protetores dos órgãos internos. Estes quatro deuses estão ligados ao culto funerário e cada um deles seria guardião de um dos órgãos internos do falecido, sendo que a partir da XVIII dinastia, os vasos canópicos (guardavam os órgãos), passaram a ter em sua tampa a imagem das cabeças dos deuses, onde se encontravam: Duamutef (chacal) – estômago – ponto cardeal Leste – deusa tutelar Neith; Imset (homem) – fígado – ponto cardeal Sul – deusa tutelar Isis; Kebehsenut (Falcão) – intestinos – ponto cardeal Oeste – deusa tutelar Selkis; e Hapi (Balbuíno) – pulmões – ponto cardeal Norte – deusa tutelar Néftis.

A preocupação com a manutenção dos órgãos intactos foi descrita no Encantamento 154 do Livro dos Mortos: “Meus membros continuarão a existir para sempre. Eu não degenerei, eu [não inchei], eu não me decompus. Eu existo, vivo, permanecendo. Eu acordei em paz. [...] minhas vísceras não pereceram, eu não fui mutilado [...] nenhum mal aconteceu ao meu corpo” (SANTOS, 2012, p. 275).

Ao término dos procedimentos rituais de preparação do morto, seguia-se a proclamação do enterro e onde era realizada a cerimônia de despedida do morto.

4.2 O Sepultamento do Morto

Para conduzir a múmia até sua morada eterna, era realizado um cortejo fúnebre até o local. Ocorria uma peregrinação simbólica até determinadas cidades, como Ábidos, associadas à Osíris, Sais e Buto. O transporte era feito via marítima através de embarcações pelo Nilo (CARDOSO, 1999, p. 123). Os familiares, juntamente com os sacerdotes e carpideiras, seguiam em cortejo com […] a urna, a necrópole seguida imediatamente pelo tabernáculo com a caixa dos vasos canópicos, os utensílios de culto, a dotação e as oferendas. […]. No túmulo, tinha início à cerimônia de abertura da boca […] uma espécie de reanimação da múmia ou da estátua (EL SADDIK, 2001, p. 479).

Imagem 8: Livro dos Mortos, Papiro de Ani (Folha 5), A Procissão Funerária. (Fonte: www.britishmuseum.org)

Os elementos do cortejo fúnebre estão representados no papiro de Ani, onde podemos observar: o suporte que transporta o sarcófago e outros itens, sendo puxado por bois coloridos; a queima de incenso; pelo sacerdote, enquanto faz as orações ritualísticas; o tabernáculo sendo puxado em uma espécie de trenó; além de familiares; dos responsáveis pela dotação funerária e diversas carpideiras. Diante do túmulo, os sacerdotes invocam Anúbis, deus dos mortos, através de rituais das oferendas e preces, que recebe a múmia. Pode ser observado ainda, que um dos sacerdotes porta o instrumento que é utilizado na cerimônia de abertura da boca (EL SADDIK, 2001, p. 479).

Imagem 9: Livro dos Mortos, Papiro de Ani (Folha 6). (Fonte: www.britishmuseum.org)

No local da morada final do faraó, o sarcófago só podia ser conduzido e tocado para o interior da tumba, pelas mãos purificadas dos sacerdotes Sem, pois, a múmia era ungida com os óleos sagrados e assim prosseguindo para a Câmara Funerária. Esta era ornamentada com tudo que o faraó ou o morto necessitariam no além. Objetos preciosos, roupas reais, armas, carros de guerra, colares, objetos pessoais, móveis, cestas de frutas e alimentos, cântaros de vinho e o trono, tinham por função recordar ao falecido as suas obrigações. As entranhas do morto eram colocadas em quatro vasos canópicos embaixo do sarcófago, assim como, as estatuetas shabit que responderiam e cuidariam do do faraó.

4.3 O Ritual de Abertura da Boca e Apresentação de oferendas

4.3.1 Abrindo a boca do morto

A intenção ao descrever as cerimônias e procedimentos funerários é demonstrar como estes, dentro de uma cultura que pode ser dita material funerária, ajudariam o morto a alcançar uma “nova vida”, no post-mortem, de forma segura e tranquila.

Imagem 10: Cerimônia de Abertua da Boca (Fonte: www.britishmuseum.org)

Um dos ritos mais emblemáticos envolvendo a performance funerária é o ritual conhecido como “abertura da boca”. A partir dele a múmia estaria apta a se tornar o que Ciro Cardoso chama de “larva”, contendo uma vida em potencial e estaria pronta para receber as oferendas e manter a existência no além.

DE COMO ABRIR A BOCA DE OSÍRIS, O ESCRIBA ANI, TRIUNFANTE

Possa o deus Ptá abrir minha boca, e o deus da minha cidade afrouxar as ataduras, as ataduras que estão sobre minha boca. Além disso, Tot, cheio e provido de sortilégios, chegar a afrouxar as faixas, as faixas de Set que me prendem a boca; e possa o deus Tem arremessa-las com força nos que gostariam de prender [-me] com elas, e fazê-los recuar. Seja minha boca aberta, seja minha boca descerrada por Shu com sua faca de ferro, com que ele abriu a boca dos deuses. Sou a deusa Sequet, e estou sentada sobre [meu] lugar no grande vento do céu. Sou a grande deusa Sah que habita entre as Almas de Anu (Heliópolis). Ora, quanto a cada encantamento e a todas as palavras que se podem proferir contra mim, resistam os deuses e a elas, e oponham-se a elas todos os componentes da companhia de deuses. (BUDGE, 1985 p. 208)2

Os rituais de purificação, unção e abertura da boca faziam parte de um contexto de cerimônias. Desde o ato da purificação, unção com óleos sagrados, libações e incensos, até o ritual de abertura da boca, o objetivo era de renovar a força (e poder) da múmia. Nas palavras de Chapot:

No Reino Novo, era o sacerdote Sem, juntamente com o sacerdote leitor, os principais encarregados de todo ritual envolvendo a morte, sendo o ultimo incumbido de recitar encantamentos ao longo da cerimônia de abertura da boca. Por meio de um enxó – instrumento metálico o oficiante “abria” a múmia para que ela se tornasse apta a receber vitalidade e assim ficar animada (CHAPOT, 2007, pp. 155)

Este ritual mágico podia ser realizado tanto na múmia, como em uma estátua divina, sendo que o objetivo era de que o consumisse os alimentos ofertados, pois, acreditava-se que os defuntos assim como os deuses se sustentavam através das oferendas. Era incumbência do filho mais velho cuidar do enterro e de cerimônias de oferendas posteriores (VERHOEVEN, 2001, p. 482). Estas incluíam óleos, incenso, natrão, frutas, carnes, pães, água e eram depositadas próximas à chamada falsa porta, entendida como um lugar de passagem entre as dimensões do universo. “A lista deveria ser lida em voz alta, pois o poder criador da palavra ativava magicamente tudo aquilo que era pronunciado” (Ibid., 2007. p. 158).

4.3.2 O banquete funerário e a apresentação das oferendas

Era costume, durante o Reino Novo, que após a conclusão dos procedimentos e enterrado os mortos, serem realizadas refeições ou banquetes funerários. Estes banquetes rituais ajudariam o morto a desfrutar no além, de uma vida parecida com a que tinha no mundo dos vivos. Uma vez que o ataúde ou sarcófago houvesse baixado à câmara funerária, os servidores arrumavam no interior da tumba, as oferendas funerárias e o equipamento ritual; os sacerdotes procediam às rezas finais; e o poço que conduzia à câmara mortuária era entulhado e a tumba era fechada e selada. Fora dela, os membros da processão funerária voltavam sua atenção para um banquete preparado para eles, enquanto se ocupavam da múmia (ROMANO, 1990, pp. 33-37).

Imagem 11: Cena do banquete no túmulo de Userhat. Tebas Ocidental (TT56). XVIII dinastia. (Fonte: KAMPP-SEYFRIED, 2001, p. 254).

A refeição consistia em carne, aves e vinho. Não mais elaborados, os participantes adornavam-se com colares de flores e depois do banquete, os pratos e taças eram deliberadamente quebrados e os cacos, juntamente com qualquer comida remanescente eram enterrados perto da entrada da tumba (ROMANO, 1990, pp. 33-37).

Aos parentes cabia a responsabilidade de prover os alimentos que eram depositados na capela da tumba e que poderiam também serem representados na forma de imagens ou textos e ficavam dispostas sobre diversos suportes. Santos afirma acerca dos alimentos e itens já mencionados que todas as oferendas estavam relacionadas com o cotidiano com a finalidade de sustentação do corpo, tal como fora em vida (SANTOS, 2012, p. 314).

5. ENCANTAMENTOS PARA SAIR À LUZ DO DIA: O LIVRO DOS MORTOS

5.1 Acerca das composições funerárias no Antigo Egito

O Livro dos Mortos ou Livro para Sair à Luz (Reu nu pert em hru) ou Fórmulas para Voltar à Luz, era uma coletânea de hinos, encantamentos, orações e fórmulas mágicas, copiados em rolos de papiros e colocados junto às múmias dos mortos, em seus túmulos. A composição recebeu a condição de livro, porém, o termo é deveras infeliz, uma vez que não se configure em um livro no sentido exato da palavra, mas sim um repertório variado de encantamentos derivados de composições funerárias anteriores (CARDOSO, 2011, p. 79). O objetivo dos textos era ajudar o morto em sua viagem de passagem para o outro mundo e alcançar de forma tranquila e segura a nova vida no além-morte.

O próprio título “Livro dos Mortos" é insatisfatório, pois não descreve o conteúdo da massa de textos, litânias, hinos religiosos, etc., hoje mais conhecidos por esse nome e, não traduz por nenhum modo o antigo título egípcio REU NU PERT EM HRU – Capítulos do Sair à Luz. (BUDGE, 1993, p. 13)

Embora tenha a sua maior divulgação no período entre 1580 a. C. e 1160.a.C., seu conteúdo abrange ideias anteriores, contidas nos Textos das Pirâmides e nos Textos dos Sarcófagos. Os Textos das Pirâmides eram compostos por inscrições e fórmulas mágicas, gravadas nas paredes dos corredores e câmaras mortuárias (funerárias), de reis pertencentes a V e VI dinastias, em Sakara. Nesse período a vida após a morte somente era acessível a estes reis.

Segundo Ursula Verhoeven, a partir do Reino Médio ocorreu uma espécie de democratização das crenças funerárias, na qual se observou também particulares fazendo uso de tais textos mortuários em seus enterramentos (VERHOEVEN, 2001, p. 483). Embora deixe de ser exclusividade do soberano, este privilégio ainda fica limitado aos nobres, funcionários com altos cargos e uma pequena parcela da população, e a esta, desde que possuísse recursos para honrar os custos das despesas ritualísticas.

O período do Reino Médio, portanto, assinala uma modificação, tanto nos procedimentos nos locais das inscrições, bem como o surgimento de novos textos, ajustando-se àqueles que eram utilizados pelos reis, para permitir um acesso mais abrangente de indivíduos, porém, mantendo sempre a função primordial de ajudar o morto na sua caminhada para o além. Nobres e funcionários, passam a ter os seus textos escritos no interior dos sarcófagos de madeira, método esse, através dos quais tornaram-se conhecidos como Textos dos Sarcófagos (Ibid, 2001, 483).

A fase subsequente, conhecida na Egiptologia como Reino Novo, apresenta um período em que os textos funerários anteriores, como os Textos das Pirâmides, os Textos dos Sarcófagos e tantos outros novos, produzidos e escritos em rolos de papiro, formam uma coletânea supramencionada que passou a ser conhecida na atualidade como o Livro dos Mortos.

Convém salientar que no Reino Novo, para o caso específico régio, foram criadas composições funerárias que passaram a decorar unicamente as tumbas reais. Conhecidos como Livro do Mundo Inferior e eram organizados em: Livro de Amduat, Livro dos Portais, Livro das Cavernas e Livro da Terra (SANTOS, 2012). Tais Livros do Mundo Inferior podem ser caracterizados por um predomínio da iconografia sobre os textos e, em termos de conteúdo, destinavam-se a mapear o trajeto noturno de pelo Mundo Inferior, a identificação do deus solar com Osíris e a regeneração de ambas as divindades (CHAPOT, 2007, p. 165).

5.2 Uma Democratização do Além Morte?

Tendo como referência Quirke (1992), podemos observar que a chamada democratização da imortalidade, entendida, mais como, uma apropriação dos aspectos ritualísticos e sociais para a ascensão à imortalidade, do que uma mudança conceitual teológica entre os Textos das Pirâmides e os Textos dos Sarcófagos.

Os Textos dos Sarcófagos na realidade, não apresentam uma ruptura com o esquema teológico presente no seu antecessor Textos das Pirâmides, mas são, antes, um desenvolvimento das noções de outrora, agora aliada a variações regionais.

Em vez de haver uma deterioração em relação às concepções partilhadas pelo faraó e seu círculo mais restrito, houve uma apropriação dos modelos régios que colaborou para sua perpetuação, e não para um maior enfraquecimento. Nas palavras de Quirke, o uso das insígnias e equipamentos régios em funerais de outros que não o rei, na verdade confirma o papel deste muito mais do que o subverte. (JOAO, 2008, apud QUIRKE, 1992, p. 158)

Nesse sentido, João (2008), entende que a apropriação de textos com encantamentos é uma “tentativa de assim como o rei, gozarem também eles do privilégio do convívio junto aos deuses na outra vida” e o que para Lichtheim é visto como “usurpação de prerrogativas régias, neste contexto, é uma tentativa de superar o medo”. (2008, p. 131).

A preocupação com a vida eterna e sobrevivência no mundo dos mortos faziam parte da religião egípcia antiga. A imortalidade, antes prerrogativa dos faraós, com o tempo, se estendeu aos outros como os pertencentes a nobreza e mais tarde, a todos os indivíduos. Apesar das mudanças ao longo do tempo, alguns conceitos permaneceram, entre eles, o de que a preservação do corpo era parte essencial para a continuação da vida após a morte.

O medo do esquecimento, uma segunda morte, fez com que aqueles que possuíssem condições financeiras e sociais, buscassem adquirir, quase sempre através dos sacerdotes, papiros cujos encantamentos mágicos favorecessem o morto, no julgamento.

Assim, entendemos que como um guia, possuir uma cópia do Livro dos Mortos, garantiria ao morto estar apto, mesmo que simbolicamente, a responder e como comportar-se no julgamento, diante do panteon dos deuses.

É importante notar que, apesar do uso do termo “democratização”, o alargamento das concepções funerárias não foi amplo e irrestrito a todas as parcelas da população... O acesso a tais privilégios funerários implicava, de um lado, em poder aquisitivo suficiente praa arcar com a execução dos ritos e, de outro, no alcance de um status (relacionado a determinadas funções exercidas no âmbito religioso) que possibilitasse o “acesso ao divino”, segundo as normas de decoro religioso existentes na sociedade egípcia. (JOÃO, 2011, p. 2).

5.2.1 O Livro dos Mortos: Magia e Encantamentos

Conforme foi dito, no Reino Novo os textos funerários passaram a ser inscritos em rolos de papiro que poderiam atingir até 25 metros de comprimento, colocados dentro das urnas por cima ou por debaixo da cabeça da múmia (VERHOEVEN, 2001, p. 483). De acordo com Verhoeven, a composição e a ordem das formulas sofreram grande variação ao longo do tempo, até atingir sua forma canônica com 165 encantamentos na dinastia XXVI, posteriormente adicionados mais alguns até chegar o total de 200 capítulos ou encantamentos (CARDOSO, 2011, p. 80).

Somente no 1º Milênio a. C. a recensão saíta daria ao conjunto uma forma mais estável, menos variável de um exemplar a outro. A confusão é aumentada pelos inúmeros erros de cópia, indicadores de falta de cuidado dos escribas às vezes, mas também de sua incompreensão da língua clássica que já não entendiam bem, ou de fatos religiosos arcaicos; há igualmente indícios textuais similares pelo som, mas diferentes no sentido das que seriam corretas, afirma. (Ibid., 2011, p. 79)

Os rolos de papiro podiam ter o seu tamanho variável de acordo com a quantidade de encantamentos e imagens desenhadas, observamos no Livro dos Mortos, a partir da XIX dinastia, a utilização de um título, que quase sempre era “começo dos encantamentos para sair durante o dia”. Este tipo de encantamento permitiria ao morto sair do mundo subterrâneo e renovar-se na luz solar, retornando para a sua tumba à noite, já que o deus solar frequentava os domínios de Osíris, nas horas noturnas.

Segundo Cardoso (2011, pp. 80-81) estudo de autores como Alexandre Moret e Paul Barguet, nos mostram que a maioria dos temas desses encantamentos estava relacionada ao ciclo repetitivo de renascimentos e a solarização dos mortos, como: Oração para sair durante o dia; hinos como o da chegada do morto à necrópole; como não morrer pela segunda vez no Mundo Inferior; regeneração do morto; capacidade do morto assumir diversas formas, ao sair durante o dia, navegar na barca solar e retornar à tumba; além de textos que glorificariam o morto, em algumas celebrações e durante o ciclo anual do culto funerário; e ainda, os não menos importantes, o de preservação da múmia através de métodos mágicos e amuletos.

Vejamos essas passagens do Papiro de Ani, um dos mais famosos da Egiptologia:

DE COMO SAIR À LUZ E VIVER APÓS A MORTE

Diz Osíris Aní, vitorioso – “Salve, Uno, que brilhas com a Luz! Concede que este Osíris Aní saia entre as multidões que estão lá fora; e se estabeleça como habitante (ou circule) entre os cidadãos do céu; e que o mundo inferior abra para ele. E eis que Osíris, Osíris Ani, sairá à luz para fazer o que deseja sobre a terra entre os vivos”. (BUDGE, 1993, p. 146)3

E ainda:

DE COMO SAIR À LUZ E VIVER APÓS A MORTE

Osíris Aní, triunfante, diz: – “Meu esconderijo está aberto, mas o Olho de Horo me fez poderoso e o deus de Ap-uat amamentou-me como a uma criancinha. Escondi-me convosco, ó estrelas da minha que nunca diminuís! Minha testa é igual à de Rá; meu rosto está aberto; meu coração repousa no seu trono; tenho poder sobre a fala da. Não minha boca; tenho conhecimento; na verdade sou o próprio Rá. Não sou considerado pessoa sem importância; e não se me fará violência. Teu pai vive por ti, ò filho de Nut; sou teu filho ó Grande, e vi as coisas ocultas que te pertencem. Fui coroado rei dos deuses, não morrerei pela segunda vez no mundo inferior”. (BUDGE, 1993, p. 146)4

5.3 Tumbas, a Morada Eterna

Tão importante quanto o processo de mumificação ou produção de uma literatura funerária sobre a morte, a construção de uma tumba para abrigar o corpo era decisiva para as concepções mortuárias dos antigos egípcios. Como foi dito, o renascimento na tumba era uma das possibilidades mais antigas, o que gerava a necessidade de incluir tudo aquilo que o morto pudesse precisar na nova vida.

Ao longo dos períodos históricos, as tumbas régias e privadas no Egito antigo sofreram alterações significativas, quase todas associados ao elemento religioso, sobretudo o processo de solarização, o que inclui a iconografia e arquitetura.

Durante o período de Amenófis IV as tumbas de funcionários importantes foram construídas no lado oriental da cidade de Amarna, lado que o sol nascia, assim com a tumba real. (CHAPOT, 2007, p. 249). As cenas eram todas sobre o culto do deus Aton por parte da família do faraó, exibindo o que Cardoso chamou de cenas de “grande intimidade” inexistindo representações do Livro dos Mortos ou Livros do Mundo Inferior (CARDOSO, 2001, p.15)

Se no Reino Antigo as mastabas (edifício baixo de tijolos) e grandes pirâmides abrigaram os corpos dos reis, durante o Reino Novo surgiu uma nova forma de sepultamento, o das tumbas escavadas em rochas, o chamado hipogeu, originando o Vale dos Reis na região ocidental de Tebas. A ideia é que a entrada do hipogeu fosse mantida em segredo para evitar os constantes roubos de tumba (CARDOSO, 1999, p. 119).

Ciro Cardoso explica que na arquitetura funerária e apesar de serem encontradas variações regionais, o conceito básico da estrutura manteve-se por milênios, tanto para os reis, como para pessoas comuns (Ibid., 1999, p. 119).

A tumba era composta por um poço com passagem para a câmara funerária; uma superestrutura que por vezes possuía uma capela aberta ao público, para cerimônias e rituais; deposito e outros cômodos. A entrada do poço era lacrada após o funeral, impedindo assim, acesso à câmara funerária, onde se encontravam o sarcófago, mobiliário e pertences do morto (Ibid., 1999, p. 119).

O local preferido para erigir as tumbas era o lado ocidental do Nilo, associado ao deus dos mortos Osíris. No Reino Novo temos o famoso Vale dos Reis, uma espécie de cemitério real onde até hoje são encontradas novas tumbas. O local foi a principal necrópole real por quase cinco séculos. Santos (2012, p. 78) afirma que após a escolha do solo a cerimônia de fundação era um dos momentos mais importantes da sua construção. No Reino Novo eram os Livros do Mundo Inferior que decoravam as tumbas dos faraós e mostravam o passeio do sol Rá pelas horas noturnas quando em um momento se encontrava com Osíris.

Os particulares também fizeram uso do hipogeu no Reino Novo. Destacamos aqui as tumbas construídas em Deir el Medina por artesãos especializados por sua beleza e conservação. As tumbas tem forte associação com o sol a apresentam cenas de adoração e oferendas funerárias.

Imagem 12: Túmulo de Nefertari. Tebas Ocidental (KV66). XIX dinastia, reinado de Ramsés II, cerca de 125 a.C. (Fonte: KAMPP-SEYFRIED, 2001, p. 245).

Dentro das tumbas a oeste existia uma estrutura chamada de “falsa porta” pois imitava uma porta de pedra ou madeira onde eram depositadas as oferendas. Os egípcios acreditavam ser um local especial para comunicação com os mortos no além (CARDOSO, 1999, p. 126). Por esse motivo, a falsa porta era um dos locais mais importantes de culto dentro da tumba e ficava perto do poço, reforçando a ideia de lugar de transição. Caso faltassem as oferendas, as imagens ali retratadas correspondentes às oferendas reais tinha um efeito real de alimentar e manter o morto no seu pós morte.

A manutenção da memória do morto também era assegurada dentro da tumba com estelas funerárias, onde os textos biográficos “ se destinavam a conservar a memória do proprietário do túmulo para posteridade” (KAMP-SEYFIRED, p.253).

6. Conclusão

Ao longo desse trabalho procuramos analisar e descrever a percepção do além-morte para a sociedade do antigo Egito, destacando os elementos principais das cerimônias funerárias, especialmente os processos importantes para o sepultamento e sua influência na vida social.

Conforme apresentado, os aspectos religiosos regulavam e influenciavam a vida da comunidade e do indivíduo, através de conceitos éticos. A morte fazia parte da vida da sociedade, onde acreditava-se que o morto poderia continuar agindo no mundo dos vivos. Os mesmos não eram excluídos da sociedade e um dos grandes temores das pessoas era o de sofrer uma segunda morte, através da perda de sua memória e das lembranças deste, como indivíduo. Para isso ser evitado empenhavam-se para adquirir fórmulas mágicas e encantamentos que permitissem evitar um destino desagradável. As práticas funerárias e a continuação da existência estavam relacionadas intimamente aos processos ritualísticos funerários, onde a mumificação e o conhecimento de rituais mágicos e encantamentos eram os elementos principais para se atingir a vida eterna.

Ao morto que passasse pelo julgamento de Osíris seria permitido visitar o mundo dos vivos e depois retornar à tumba, pois, a vida no além fazia parte da vida dos indivídios e assim, como um deus, se fossem vitoriosos, poderiam viver à eternidade. Mas para poder desfrutar dessa vida era necessário realizar uma Confissão Negativa e pesar o seu coração, pois assim, como um Maat Kerú – Verdadeiro de Palavra, poderia fazer o que lhe aprouvesse no Campo das Oferendas.

Como observamos, com base, sobretudo, no Livro dos Mortos, os processos funerários podiam variar entre os mais simples e baratos, até aos mais elaborados e caros, sendo realizados de acordo com a condição socioeconômica de cada indivíduo. O cortejo; o sepultamento; os rituais, como o da Abertura da Boca; e oferendas, tinham como objetivo ajudar o morto a alcançar uma nova vida, no post-mortem, de forma segura e tranquila.

Ao longo das fases históricas, o acesso aos rituais se alargou, estando agora ao alcance de pessoas fora do círculo da realeza, desde que tivessem como arcar com os custos ritualísticos e funerários. Os encantamentos contidos na coletânea que formava o Livro dos Mortos ajudariam o morto a realizar sua passagem para ao outro mundo de forma segura.

O medo do esquecimento (segunda morte), fez com que os que possuíam condições sócio financeiras o adquirissem, afim de serem favorecidos durante o julgamento. O mesmo pode ser dito da tumba, fundamental para abrigar o corpo e a múmia do morto, que após os rituais específicos ganhava vida no pós morte.

Todas as crenças em ritos e atos mágicos somente são possíveis dentro de uma concepção de mundo monista na qual todas as dimensões do universo podem ser acessadas sem barreiras. Isso permitia ao morto circular nas várias dimensões do universo, concebido como uma rede integrada.

7. Referências

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1 Lichthein explica que a expressão Lugar da Verdade está associada ao templo e à necrópole. (LICHTHEIM, 1995 apud CHAPOT, 2007, p. 163).

2 Do Papiro de Ani (Museu Britânico nº 10.470, folha 15).

3 Do Papiro de Ani (Museu Britânico, nº 10470, folha 18).

4 Do Papiro de Ani (Museu Britânico, nº 10470, folha 61).

Por Edison Luiz da Rocha Lopes


Publicado por: EDISON LUIZ DA ROCHA LOPES

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