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O ENSINO DE HISTÓRIA NA TURMA 601 DA ESCOLA SÃO RAIMUNDO DO RIO ARROZAL NO ANO DE 2016

História

Refletir sobre o ensino de História possibilita fazer um breve diagnóstico sobre como aprender, fazer e ensinar o educando a construir a sua própria consciência histórica, sendo esta uma orientação disseminada e que conduz a uma perspectiva de transformação futura.

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1. Resumo

O presente artigo pretende analisar algumas possibilidades reflexivas sobre a prática do Ensino de História na turma 601 da escola São Raimundo do rio Arrozal, distrito de Curumu, no município de Breves. Nesta perspectiva, este ensaio recorre a dados à luz da pesquisa de campo, adquiridos a partir da observação da infraestrutura da escola; observação das aulas de história na turma e entrevistas com o professor local e alunos da referida turma. O estudo permitiu atentar para a importância de um ensino de história coerente, de acordo com as necessidades dos alunos e da comunidade em que estão inseridos. Sob esse ponto de vista, a pesquisa permitiu também fazer um breve diagnóstico sobre como aprender, fazer e ensinar o educando a construir a sua própria consciência histórica. A base das ações teóricas deste ensaio está intimamente influenciadas pelos escritos de Selva Guimarães Fonseca (2009), e de Paulo Freire (2001).

Palavras-chave: Alunos. Cotidiano Escolar. Ensino de História. Espaço Rural. Sala de Aula.

Abstract

The present article intends to analyze some reflective possibilities about a practice of History Teaching in Turkey 601 of the school Raimundo of the Arrozal river, district of Curumu, not municipality of Breves. In this perspective, this essay draws on data in the light of the field research, acquired from observation of the school infrastructure; observation of the history classes in the class and interviews with the local teacher and students of the class choice. The study allowed for the importance of a coherent history teaching, according to the needs of the students and the community in which they are inserted. From this point of view, research has also allowed us to make a brief diagnosis of how to learn, to do, and to teach the educator to build his own historical consciousness. A foundation of the theoretical actions of this essay is intimately influenced by the writings of Selva Guimarães Fonseca (2009), and Paulo Freire (2001).

Keywords: Students. Everyday School. Teaching History. Rural Space. Classroom.

2. INTRODUÇÃO

Como estava interessado em fazer uma pós-graduação na área da História, percebi que poderia conciliar a prática da pesquisa e o trabalho de professor, desde o período que fui lotado para ministrar a disciplina de Estudos Amazônicos com uma turma de 7º ano da escola São Raimundo do rio Arrozal escola, tendo em vista que o fato de estar trabalhando no local e a familiaridade com a Comunidade, facilitaram as observações das aulas de História ministradas pelo professor Francilau Pinheiro1. Através da pesquisa de campo, obtive dados interessantes sobre a referida turma. Tomei o professor como meu interlocutor e selecionei quatro alunos, os quais trechos das entrevistas com eles realizadas aparecem ao longo deste ensaio e estão detalhadas fontes no final do artigo.

O lócus da minha pesquisa foi a turma 601 (6º ano/5ª série) da Escola São Raimundo do rio Arrozal, no ano de 2016. A turma era formada por 19 alunos, sendo que somente 15 discentes estavam frequentando normalmente as aulas de história.

Para contextualizar, vale ressaltar que este lugar se estabelece no meio rural do município de Breves, portanto, faz-se necessário apresentar neste ensaio um breve histórico do município em questão. Nesse sentido, Breves localiza-se na mesorregião do Marajó e microrregião Furos de Breves, no estado do Pará, foi criado pela Lei Provincial nº 200, de 25 de outubro de 1851, com a elevação da Freguesia Nossa Senhora Santana dos Breves à condição de Vila, posteriormente à categoria de cidade, pela Lei Estadual nº 1122, de 10 de novembro de 1909, tendo alteração toponímica municipal de Nossa Senhora de Santana dos Breves para Breves, pela Lei Estadual nº 1122, de 10 de novembro de 1909.2

O nome Breves foi atribuído ao município em homenagem aos portugueses Manoel Maria Fernandes Breves e Ângelo Fernandes Breves, os primeiros colonizadores residentes na Sesmaria “Missão dos Bocas”, concedida pelo Capitão-General João de Abreu Castelo Branco em 19 de novembro de 1738, e confirmada pelo rei de Portugal em 30 de março de 1740, onde fundaram um pequeno engenho e fizeram plantações de roças.3

Na Amazônia brasileira, o município de Breves ocupa uma área territorial de 9.549,52 km² no estado do Pará, cuja sede municipal está situada entre as coordenadas geográficas – 50°28’48,00W e -01°40’55,20” S. O território de Breves limita-se e tem relações geopolíticas com os municípios de Afuá e Anajás (ao norte); Melgaço e Bagre (ao sul); Anajás, São Sebastião da Boa Vista e Curralinho (a leste); Gurupá e Melgaço (a oeste).4

A configuração territorial da região de Breves é formada por ecossistemas de várzea igapós, campos e terra firme, e abrange um grande número de ilhas, interligadas e margeadas por inúmeros cursos d’água denominados igarapés, furos, canais, paranás e estreitos, por onde escoam as águas dos rios Amazonas e Tocantins.5

O presente artigo pretende analisar algumas possibilidades reflexivas sobre a prática do Ensino de História na turma 601 da escola São Raimundo do rio Arrozal, distrito de Curumu, no município de Breves. Diante da proposta curricular pensada para o ensino de História de 6º à 9º, para o município, busca-se revelar concepções de mundo, organizá-las e trazer reflexões para que os alunos conheçam melhor o cotidiano da sociedade em que estão inseridos. Intenciona também, contribuir para a formação de cidadãos críticos e atuantes, que se envolvam com a problemática do lugar em que vivem e que sintam que estão diretamente envolvidos no processo de fazer a história.

Refletir sobre o ensino de História possibilita fazer um breve diagnóstico sobre como aprender, fazer e ensinar o educando a construir a sua própria consciência histórica, sendo esta uma orientação disseminada, que conduz a uma perspectiva de transformação futura, que ao adquiri-la, condiciona uma percepção de tempo e emana mudança.

3. O LUGAR E A ESCOLA

A escola pública que desejo é a escola onde tem lugar de destaque à apreensão crítica do conhecimento significativo através da relação dialógica. É a escola que estimula o aluno a perguntar, criticar, a criar, onde se propõe a construção do conhecimento coletivo, articulando o saber popular e o saber crítico, cientifico mediados pelas experiências no mundo (Freire, 2001, p. 83).

A escola E.M.E.F. São Raimundo localizada no Rio Arrozal/Distrito Curumu, foi fundada em 2000 (constando apenas o ano de seu funcionamento no arquivo da Semed). Por haver lugares distantes e de difícil acesso, muitas escolas continuam com uma estrutura precária, sendo muitas vezes, o âmbito escolar substituído por um espaço improvisado. O que ocorre nesse caso, o espaço escolar é cedido pela Comunidade São Raimundo, trata-se de barraca da Comunidade local. É importante dizer que os recursos são escassos para direcionar o desenvolvimento de uma aula em sua forma plena conforme o direito dos alunos, o que se apresenta como alternativa é o material trazido da cidade pelo professor como ferramenta de trabalho, o qual mencionarei mais adiante.

Observo, que durante esse tempo em que estive lecionando história no meio rural de Breves, não verifique na SEMED qualquer projeto destinado à área da História, e nem formação continuada para professores que trabalham com essa disciplina, especialmente no meio rural.

A proposta curricular das séries finais do Ensino Fundamental da Rede de Ensino do município de Breves construída pela SEMED apresentava a intenção de desenvolver no educando o conhecimento do modo de vida dos diferentes grupos sociais, nos diversos tempos e espaços, no que se refere à cultura, economia, política e questões sociais, contribuindo, contudo, para que os mesmos sentirem-se parte de seu contexto histórico e nesse sentido, despertar o interesse, aguçar a curiosidade, a reflexão, provocar uma leitura e vivência da história com ênfase na transformação social. Mas, a realidade vivenciada não permitia cumprir com essas metas.

Algo a destacar nesse processo de ensino-aprendizagem também está relacionado ao papel da família no melhor desempenho dos alunos, pois é no seio das relações familiares onde ocorrem as primeiras interações sociais de individuo, sendo imprescindível mencionar que, a primeira educação nós trazemos de casa e ela é determinante para ditar o ritmo de aprendizagem e identificar possíveis dificuldades. A este respeito, Nereci (1972) afirma:

A educação orienta a formação do homem para ele poder ser o que é [...]. A influência da família, no entanto, é básica e fundamental no processo educativo do imaturo e nenhuma outra instituição está em condições de substituí-la [...], a educação para ser autêntica, tem de descer a individualização, à apreensão da essência de cada educando, em busca das suas fraquezas e temores, das suas fortalezas e aspirações [...]. O processo educativo deve conduzir à responsabilidade, liberdade, crítica e participação.

Portanto, para que haja uma melhor formação social do educando é preciso pensar na criação e aplicação de políticas educacionais que fomentem cada vez mais a integração entre os órgãos competentes do município, escolas, comunidade e pais de alunos, para que se tenha uma perspectiva de educação qualitativa no âmbito pensado para a educação do município.

É interessante observar que, a educação no decorrer dos anos tem sido pauta de várias discussões. O elevado índice de alunos reprovados ao final do ano, por exemplo, assim como a preocupação com o analfabetismo, as evasões escolares, a desvalorização profissional, entre outras problemáticas, colocaram o Brasil em lugar de pouco destaque no ranking dos países emergentes que melhoraram seus índices de qualidade na educação. Quando se trata da disciplina de história, é possível perceber as dificuldades que os alunos enfrentam na sala de aula para aprenderem determinados assuntos.

Exposta a realidade do ensino-aprendizagem na construção de identidade e na perspectiva de uma consciência histórica dentro do âmbito escolar, percebe-se também a carência de projetos que discutem a importância de estudar história, numa perspectiva que possibilite a construção de identidades sociais. Pois, para Jovino:

A escola com suas contradições e limites, ocupa espaço privilegiado na vida dos educandos de classes populares, seja pelo tempo diário que passam nela, seja pelo valor atribuído a ela como um dos fatores de pode-lhes possibilitar a ascensão social. Em virtude dessas razões, a escola tem grande potencial para tornar-se um espaço no qual alunas e alunos vejam suas questões acolhidas e trabalhadas de forma a ampliar o campo no qual constroem suas identidades e projetos. (JOVINO, 2009, p. 15)

Como o meio rural de Breves é muito amplo, o professor precisa ser flexível e aventureiro - falo por experiência própria -, pois, em minhas jornadas pelos espaços ribeirinhos, muitas vezes o docente me deparei com diferentes problemas e dificuldades. Posso afirmar que no espaço rural do município existe uma dicotomia: Em certos lugares percebe-se uma boa estrutura de ensino e recursos utilizáveis de qualidade. Por outro lado, existem localidades com escolas em condições precárias de estruturas físicas, por vezes, são substituídas por espaços improvisados cedidos pela comunidade local como já observei anteriormente. Possivelmente, a falta de uma boa estrutura de ensino pode causar certas frustrações nos educadores e educandos. No entanto, na sala de aula, improvisada ou não, o professor precisa ser cidadão, crítico, criativo e ter compromisso, pois, assim como o conhecimento é dinâmico, da mesma forma o professor precisa ser.

Desse modo, os lugares se diferenciam e possuem as suas especificidades e peculiaridades. Nesse sentido, escola nem sempre é sinônimo de boa estrutura educacional. Portanto, fica explícito que a Educação no meio rural deste município é desigual, em relação às estruturas de ensino.

Perguntado sobre os problemas enfrentados no lugar, Francilau argumenta que:

É complexo, às vezes, trabalhar em um espaço improvisado. É verdade que é bem melhor do que lecionar ao ar livre, ou no meio chuva. No entanto, quando chove, aqui, a chuva adentra pelos lados, daí é necessário interromper a aula até que ela pare. É preciso ter bom senso nesses momentos e aceitar a realidade do lugar. Problemas como calor e chuva são normais. Eu venho para trabalhar, não para reclamar, mas, sinceramente, é frustrante, o jeito é dar o seu melhor, independente da situação. Já trabalhei em “escolões” em outros lugares deste município, há algumas diferenças nesse sentido. Mas, o importante é saber relevar e perceber que os lugares são diferentes e cada um apresenta as suas complexidades. Espaço improvisado ou “escolão”? Existem defeitos nos dois, e isso é inegável.6

As escolas do meio rural se diferenciam em suas estruturas, e cada lugar tem a sua especificidade e seus problemas. Segundo essa linha de raciocínio, os parâmetros curriculares Nacionais (1998) reconhecem a realidade brasileira como diversa, e as problemáticas educacionais das escolas, das localidades e das regiões como múltiplas. É no decorrer diário das escolas e das salas de aula - a partir das condições, contradições e recursos inerentes à realidade local e educacional - que são construídos os recursos reais. Quando não existem recursos como data show, quadro magnético, computadores, entre outros, o jeito é inventar uma metodologia que supra essa necessidade. Segundo o professor Francilau Pinheiro:

O professor tem acesso à grade curricular criado pela Semed. Os conteúdos programáticos são dados ao professor. Temos os temas, e nos professores produzimos o material de acordo com a lotação. Faço algumas pesquisas na internet, e possuo vários livros didáticos, e de acordo com a sequência dos temas, eu produzo o meu material apostilado. Vejo quantos alunos existem na turma à qual vou trabalhar, e depois tiro uma quantidade de materiais equivalente ao número de alunos existentes na mesma. O custo sai do meu bolso, mas é o mínimo que eu posso fazer, mesmo porque isso me ajuda também a fazer uma boa passagem aonde vou trabalhar.7

Nesse trecho da entrevista do professor Francilau Pinheiro, observa-se o quão difícil é o trabalho do professor do meio rural, e que vulgarmente falando, o mesmo tem que “se virar” para produzir seu próprio material. O custo do material sai do bolso do professor, como o mesmo fala na entrevista, dando a mostrar que a SEMED quase não dá suporte ao professor que trabalha no espaço rural. Nesse sentido, são grupos de professores e alunos, de pais e educadores, em contextos sociais e educacionais concretos e peculiares que formulam e colocam em prática as propostas de ensino. Estes parâmetros oferecem mais um instrumento de trabalho para o cotidiano escolar. De acordo com Fonseca:

Nós, professores, não apenas estamos na história, mas fazemos, aprendemos e ensinamos História. A educação histórica e a formação da consciência histórica dos sujeitos não ocorrem apenas na escola, mas em diversos lugares. Isto requer de nós uma relação viva e ativa com o tempo e o espaço do mundo no qual vivemos, por menor que seja. O meio no qual vivemos traz marcas do presente e de tempos passados. (FONSECA, 2009, p. 116).

A Educação como objeto importante, sendo uma importante força motriz para o município, passa por sérias deficiências em diferentes sentidos e aspectos. A qualidade de ensino nem sempre é alcançado de maneira objetiva e de qualidade.

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Sabe? Eu já trabalhei com turmas de história do 6º ao 9º ano, e teve alunos que não sabia escrever o seu próprio nome, muitos menos escrever uma frase pequena por completo. É um caos quando se deparamos com esse tipo de problema. Na verdade eu não sei como existem professores que passam alunos que não sabem nem escrever seu próprio nome, é como se eles não tivessem compromisso com a educação e a aprendizagem dos seus alunos. Não vou citar nomes, mas existem professores que não estão nem aí para os seus alunos, só estão interessados no próprio salário mesmo!8

Diante do exposto, percebemos os problemas provenientes das péssimas estruturas de ensino escolar que existem em comunidades ribeirinhas deste município. Recursos multimidiáticos e materiais didáticos pedagógicos também somam para aplicação e direcionamento de um bom trabalho, mas infelizmente, algumas escolas não desfrutam desse luxo. No entanto, “ai de nós, educadores, se deixarmos de sonhar sonhos possíveis” (FREIRE, 1981).

4. O ENSINO DE HISTÓRIA NA TURMA 601 DA ESCOLA SÃO RAIMUNDO DO RIO ARROZAL

Ao conversar com os alunos, formulei algumas perguntas, as quais percebi interessantes de serem aplicadas com quatro9 alunos da turma 601 da escola São Raimundo: o que é História? Qual a sua importância? Porque estudar História? No ato de estudar, estão aprendendo alguma coisa? O que aprenderam vai servir para alguma coisa?

Essas perguntas são cruciais, mas respondê-la, não é uma tarefa fácil, até mesmo para quem leciona na área. Para Selva Guimarães Fonseca, responder a essas questões é algo que pode ser complexo, por outro lado, simples. De acordo com Boschi (2007, p. 12 apud FONSECA, 2009, p. 7):

A história serve para que o homem conheça a si mesmo – assim como suas afinidades e diferenças em relação a outros [...] Por mais sem sentido que pareçam, tais indagações traduzem a necessidade que temos de nos explicar, nos situar, nos (re)conhecer como humanos e, em decorrência, como seres sociais.

À luz de Selva Guimarães Fonseca (2009, p. 7):

A história é um campo de possibilidades, nos ajuda a compreender o mundo e a nós mesmos. O conhecimento histórico não está pronto, acabado, não é verdade absoluta, mas construção temporal, parcial, seletiva, incompleta, que possibilita múltiplas leituras e interpretações. Logo, alunos e professores participam do trabalho de leitura e escrita, investigação e crítica. São também construtores de conhecimentos.

Apesar de toda sua funcionalidade e importância na vida das pessoas, a História enquanto disciplina, ainda é percebida como uma disciplina “decoreba”. As aulas de História, em muitos casos, ainda são vistas como o simples estudo do passado, em que se exige a memorização de fatos e datas. Quando a disciplina é assim ensinada, os alunos acabam considerando os fatos como algo perdido em algum momento, e distante da realidade.

Eu pensava que estudar história a gente tinha só que memorizar datas, fatos e nomes. Tipo assim, tem o dia de Tiradentes, o sete de setembro, a proclamação da República e etc. Fatos, como aqui no nosso país, que foi colônia, depois império e república. E quando se fala em história, o quem vinha em mete era a ideia do estudo do passado e coisa de memorizar momentos e nomes sabe?10

Nesse caso, cabe ao professor encontrar formas de envolver todos nas atividades e ajudá-los a perceber o impacto de determinado momento histórico na sociedade e, ao mesmo tempo, as diferenças entre a vida do passado e do presente.

Em entrevista com Adailton José Guedes dos Santos, o mesmo justifica que:

Nos anos iniciais eu praticamente não sabia nada de história, a não ser o fato de que eu tinha que estuda-la e gravar certas datas comemorativas. Na verdade eu decorei algumas datas, certos fatos, mas não via nisso grande importância sabe? Na verdade eu não sabia por que eu tinha que estudar aquilo. Pra mim, o que tinha passado não significava nada, não fazia sentido.11

Carla Ferreira Duarte, discente e integrante da turma em questão, ao ser perguntada sobre o que entende por história, a mesma argumenta que:

Eu entendo que a história nos ajuda a compreender o passado e as mudanças que ocorreram ao longo do tempo. O professor nos ensinou que ela também é uma prática social e que orienta a gente para atuarmos como agentes críticos em sociedade. Nos anos iniciais eu só a entendia como uma disciplina em que eu tinha que gravar datas comemorativas e fatos ocorridos no mundo. Agora eu percebo um pouco que a história nos ajuda a compreender muita coisa e que a nossa ação tem repercussão e reflete lá na frente, é por isso que a gente estuda, para ser alguém melhor no futuro. É verdade que não dá para prever o futuro, mas, se a gente não parar de estudar, mais lá na frente, talvez a gente seja alguém na vida, a tendência é essa.12

Um recurso pertinente utilizado para mediar o conhecimento científico e o senso comum, pensado e analisado cautelosamente é atribuído ao uso de analogias. Para Ana Maria F. C. Monteiro (2005):

O conhecimento histórico tem no reconhecimento e consideração das diferenças socioculturais uma dimensão estratégica para a análise e compreensão dos fatos, processos e conceitos. Assim, o uso das analogias é discutido de forma a contribuir para identificar os riscos e possibilitar a exploração de seu potencial como recurso didático.

Outra possibilidade que permite aos estudantes identificar uma proximidade maior com sua vida é a História do Brasil. Para compreender as sociedades antigas, possivelmente, eles utilizam as informações que possuem sobre a vida atual e a organização social que conhecem.

Eu percebi que ao longo do tempo, vários tipos de organizações sociais, políticas e culturais existiram, a própria historia do Brasil nos mostra que antes de ser democracia, aqui já foi colônia, império e etc. Eu sempre via alguns livros de história, e gostava de ver imagens antigas, tipo como as pessoas se vestiam, o cabelo, tudo isso eu achava interessante, só não compreendia a importância de estudá-la. Agora um pouco eu já sei, e história é também é se perguntar sobre as coisas, e como as coisas eram antigamente. Perguntando sobre a minha comunidade para os mais velhos, eles me falaram que era bem diferente do que é hoje, eles até me mostraram algumas fotos, achei muito interessante porque prendeu a minha atenção e meu interesse. Também perguntei sobre o ‘por que’ do nosso Rio ser denominado de Arrozal, alguns me responderam que talvez seria um nome referente a plantação de arroz, ou algo do tipo. Então percebi que naquele rio já, muitas casas plantavam arroz em seus terremos. Uma coisa leva a outra!13

Uma das melhores maneiras de se fazer isso é trabalhar com pesquisa escolar, enfatizando a realidade de sua comunidade e o processo histórico da mesma. De acordo com Samuel (1989, p. 220):

A história local requer um tipo de conhecimento diferente daquele focalizado no alto nível de desenvolvimento nacional e dá o pesquisador uma ideia muito mais imediata do passado. Ela a encontra dobrando a esquina e descendo a rua. Ela pode ouvir os seus ecos no mercado, ler o seu grafite nas paredes, seguir suas pegadas nos campos.

Nesta perspectiva, todos os lugares possuem histórias, percebe-se assim que o local e o nacional estão incluídas em um mesmo processo. Portanto, para que haja uma melhor formação social do educando é preciso pensar na criação e aplicação de políticas educacionais que fomentem cada vez mais a integração entre os órgãos competentes do município, escolas, comunidade e pais de alunos, para que se tenha uma perspectiva de educação qualitativa no âmbito pensado para a educação do município. De acordo com Zamboni:

O objetivo fundamental da História, no ensino de primeiro grau (ensino fundamental), é situar o aluno no momento histórico em que vive. [...] O processo de construção da história da vida dos alunos, de suas relações sociais, situados em contextos mais amplos, contribui para situá-lo historicamente, em sua formação intelectual e social, a fim de que seu crescimento social e afetivo desenvolva-lhe o sentido de pertencer. (1993, p.7).

Referente ao ensino de história, múltiplas questões e fatores podem favorecer o debate sobre as deficiências explícitas no campo da educação. O processo da Educação no Brasil se desloca a passos lentos e está longe de ser comparada à nível de países de primeiro mundo, mas é preciso acreditar que é possível ter um país melhor, e que um bom professor é aquele que se importa com seus alunos, e dar valor em seu ofício, não somente pelo seu salário, mas pelo papel fundamental que o mesmo possui na sociedade e na formação de seus alunos. A contribuição do professor de história na vida de um aluno é imprescindível, e vale dizer que, tem alunos que percebem e são influenciados pelo mesmo.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante do exposto, percebemos certas dificuldades enfrentadas pelos alunos em termos de definições e conceitos de história enquanto disciplina e ciência humana. Ao final desse artigo, algumas conclusões são convenientes.

A primeira refere-se às escolas e suas diferenças. Escola padrão ou improvisada, o certo é que cada uma possui as suas especificidades e problemáticas, e a falta de recursos escolares é a realidade em cada uma delas.

Em segundo lugar, foi possível perceber que história é uma disciplina que “prende” alguns discentes, provocando a perda de interesse em estudá-la, por não compreenderem a sua objetividade, e, em certas circunstâncias, não se situarem dentro do processo e construção do conhecimento histórico. Cabe ao professor orientar sobre a importância dos discentes dentro desse processo, e que os mesmo fazem parte dessa dinâmica. O diploma de um professor é apenas um papel, mas, a instituição à qual o mesmo se formou conta muito. No entanto, compromisso e a experiência do mesmo são pertinentes na prática de seu ofício.

O estudo da história faz com que os educandos aprendam a serem cidadãos de seu tempo e que assumam fazer a tarefa de seu tempo. Por fim, percebeu-se que, através de uma breve observação do ensino história na turma 601 da escola São Raimundo do Arrozal, problemas existem, e que alguns desses problemas estão interligados a dificuldade dos discentes em estudar e compreender história como prática social; a ausência da consciência histórica e sua difusão em âmbito escolar; a ausência de posicionamentos políticos que promovam a aplicação de leis e projetos que favoreçam uma melhor interpretação e compreensão da história enquanto disciplina escolar.

6. REFERÊNCIAS

ABUD, Katia Maria. A construção de uma didática da história: algumas ideias sobre a utilização de filmes no ensino. In: História, São Paulo, v. 22, pp. 183-193, 2003.

BITTENCOURT, Circe Maria Fernandes. Ensino de História: fundamentos e métodos – 3. ed. – São Paulo: Cortêz. 2009.

CANDAU, Vera Maria. Multiculturalismo e Educação: desafios para a prática pedagógica. In: MOREIRA, Flávio Barbosa; CANDAU, Vera Maria (org). Multiculturalismo: diferenças culturais e práticas pedagógicas. 2ª Ed. Petrópolis: Vozes, 2008, p. 13-37.

CARDOSO, Oldimar. Para uma definição de didática da história. In: Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 28, n.55, pp. 153-170, 2008.

FONSECA, Selva Guimarães. Fazer e ensinar História. Belo Horizonte: Dimensão, 2009. 293 p.

FREIRE, P. Carta de Paulo freire aos professores. Estudos Avançados, São Paulo, v. 15, n. 42, mai/ago. 2001.

FREIRE, P. Educação: o sonho possível. Rio de Janeiro: graal, 1981.

JOVINO, Ione da Silva. Alguns pressupostos para o trabalho com cultura negra na escola.In: SCHLEUMER, Fabiana (org.). Estudos Étnico-Raciais. Bauru-SP: Canal 6, Cotidiano Escolar; Ensino de História; Gurupá.

2009.

MONTEIRO, Ana Maria F. C. Entre o estranho e o familiar; o uso de analogias no ensino de história. In:Cadernos Cedes, Campinas, vol. 25, n. 67, p.333-347, set./dez. 2005.

NEMI, Ana Lúcia Lana/ Reis, Anderson Robert dos. Coletânea: Para viver juntos: história. 6º, 7º, 8º e 9º ano: ensino fundamental – 1. ed. rev. – São Paulo: edições SM, 2009. – (Para viver juntos).

Parâmetros Curriculares Nacionais. Brasília: Ministério de Educação e do Desporto, 1997.

SAMUEL, R. História loca e história oral. Revista Brasileira de História, São Paulo, ANPUH, v. 9, n. 19, p. 219-242.

SANTOS, B. S. As tensões da modernidade. Fórum Social Mundial, Biblioteca das Alternativas, 2001. Disponível em: http://www.forumsocialmundial.org.br.

SANTOS, Maria Auxiliadora Moreira dos; GARCIA, Tânia Maria Braga. A formação da consciência histórica de alunos e professores e o cotidiano em aulas de história. In: Cadernos Cedes, Campinas, v.25, n.67, pp.297-308, set./dez.2005.

SCHAAN, Denise Pahl e MARTINS, Cristiane Pires. Organizadoras. Muito além dos campos: arqueologia e história na Amazônia Marajoara. – 1. ed. – Belém : GKNORONHA, 2010.

SILVA, Maria da Penha da.A diversidade étnico-racial na escola e a temática indígena em questão: discutindo políticas públicas para a efetivação da lei 11.645/08.In: Pesquisa e Educação na Contemporaneidade: perspectivas teórico-metodológicas. Caruaru, 13 e 14 de Setembro de 2012.

ZAMBONI, Ernesta. O ensino de História e a construção da identidade. In:_____História – Série Argumento. São Paulo: SEE/SP, 1993.

6.1 FONTES UTILIZADAS

6.1.1 ENTREVISTAS

Adailton, natural do Rio Arrozal, município de Breves.

Cleber, realizada no dia 06 de julho de 2016

Carla, natural do Rio Arrozal, município de Breves.

Francilau, natural de Breves. Formado em Licenciatura Plena em História pela Universidade Federal do Pará, pelo PARFOR. Atua desde 2001 na área da Educação no referido Município.

José, natural do Rio Arrozal, espaço rural de Breves.

6.2 NOTAS

1Professor de História do fundamental maior. Formado em Licenciatura Plena em História pela Universidade Federal do Pará - UFPA

2IBGE – Instituto Brasileiro Geográfico Estatístico. Histórico do município de Breves. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/cidadesat/topwindow.htm?1>. Acesso em: 15 e julho de 2016.

3Idem.

4IBGE – Instituto Brasileiro Geográfico Estatístico. Histórico do município de Breves. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/cidadesat/topwindow.htm?1>. Acesso em: 15 e julho de 2015.

5IBGE – Instituto Brasileiro Geográfico Estatístico. O município e o seu contexto. Disponível em: http://www.ibge.gov.br. Acesso em: 16 de julho de 2016.

6Trecho da entrevista com Francilau Pinheiro, 36 anos, realizada no dia 06 de julho de 2016.

7Idem.

8Idem.

9Ver fontes utilizadas.

10Trecho da entrevista de Cleber, 16 anos, realizada no dia 06 de julho de 2016.

11Trecho da entrevista com Adailton, 15 anos, realizada no dia 06 de julho de 2016.

12Trecho da entrevista com Carla, 16 anos, realizada no dia 06 de julho de 2016.

13Trecho da entrevista de José, 15 anos, dia 07 de julho de 2016.


Publicado por: Anazildo da Gama Almeida

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