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GUERRA DO IRAQUE: CENSURA E PROPAGANDA VIA JORNALISMO EMBEDDED

História

Análise do papel dos meios de comunicação nas Relações Internacionais, a fim de esclarecer sua importância, principalmente em contextos de guerra

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1. RESUMO

Considerando a relevância crescente de outros atores que não os Estados no cenário internacional, pesquisa-se o papel dos meios de comunicação nas Relações Internacionais, a fim de esclarecer sua importância, principalmente em contextos de guerra. Para tanto, concentra-se em demonstrar de que maneiras os Estados Unidos se utilizaram da mídia como parte de seu esforço de guerra na Guerra do Iraque, focando na adoção do jornalismo embedded. Realiza-se, então, uma pesquisa de caráter exploratório sob uma perspectiva metodológica interdisciplinar. Diante disso, verifica-se que o controle da opinião pública serve aos objetivos estatais de forma que diversos mecanismos de censura e propaganda são adotados para que o mesmo seja efetivo. Constata-se que adoção do jornalismo embedded se apresentou como mais um recurso de controle midiático, alterando a cobertura do conflito em questão e manipulado a opinião pública norte-americana e mundial.

Palavras-chave: Guerra do Iraque. Jornalismo embedded. Opinião Pública. Estados Unidos.

ABSTRACT

Considering the growing relevance of non-state actors in the international arena, the role of the media in international relations is investigated in order to clarify its importance, especially in contexts of war. To do so, it focuses on demonstrating how the United States used the media as part of its war effort in the Iraq War, focusing on the adoption of embedded journalism. An exploratory research is carried out from an interdisciplinary methodological perspective. Thus, it is verified that the control of public opinion serves the state’s objectives so that various mechanisms of censorship and propaganda are adopted to make it effective. It is seen that adoption of embedded journalism presented itself as another resource of media control, altering the coverage of the conflict and manipulating the north-American and worldwide public opinion.

Key-words: Iraq War. Embedded journalism. Public Opinion. United States.

2. INTRODUÇÃO           

No atual cenário internacional, observa-se a relevância crescente de outros atores que não os Estados. Nesse sentido, vale destacar o papel dos meios de comunicação nas Relações Internacionais. Podendo modificar o comportamento dos Estados e influenciar a tomada de decisões, bem como servir a políticas governamentais, a mídia vem se apresentando como importante instrumento de política externa e relações públicas, principalmente no que concerne a um cenário de guerra. Em meio a tais transformações, ainda, o Sistema Internacional se depara com outro desafio: o surgimento de inimigos transnacionais, que ao sobreporem fronteiras geográficas dificultam seu combate.

O estudo a seguir apresenta caráter exploratório. Seu objetivo concentra-se em demonstrar de que maneiras os Estados Unidos se utilizaram da mídia como parte de seu esforço de guerra no contexto da Guerra do Iraque. Visando a promoção de seus interesses, tanto hegemônicos, quanto de segurança nacional após ter sua soberania e impenetrabilidade atacadas pelo grupo terrorista Al Qaeda em 11 de setembro de 2001, o país se lançou, sem o aval da ONU, em um conflito contra o Iraque, detentor de uma das maiores reservas de petróleo mundiais.

No que diz respeito aos procedimentos adotados para coleta de dados a fim de desenvolver  o trabalho, foi utilizada, fundamentalmente, a pesquisa bibliográfica, com leitura de obras sobre a Guerra do Iraque e artigos acadêmicos com foco na análise da relação entre mídia e guerra. Também foram consultadas notícias jornalísticas do período analisado e entrevistas com profissionais relacionados ao tema.

A Guerra do Iraque teve início em março de 2003 e se insere no contexto de guerra ao terror, deflagrada pelo governo norte-americano após os ataques do 11 de setembro, sob a liderança do então presidente George W. Bush. O Iraque foi invadido pelos Estados Unidos, coordenadores de uma coalizão militar multinacional, contando com países como o Reino Unido, Austrália, Dinamarca e Polônia – tendo como justificativas a produção de armas de destruição em massa no território iraquiano e o envolvimento direto de seu líder Saddam Hussein com a Al Qaeda.

Por sua magnitude, o conflito foi alvo de grande cobertura midiática ao redor do globo. Correspondentes internacionais dos mais diversos veículos midiáticos foram enviados  ao front para transmitir notícias. Contudo, os representantes da mídia enfrentaram diversos obstáculos impostos, principalmente, pelas forças militares estadunidenses.

O relacionamento entre a mídia e os militares na Guerra do Iraque foi delineado por embates históricos anteriores. Neles, a comunicação foi um dos elementos considerados pelos Estados como parte constituinte do esforço de guerra. É historicamente de interesse dos países beligerantes o controle de informações, que visa cercear também a opinião pública, elemento essencial para o curso e manutenção de uma guerra.

No Iraque, tal cerceamento foi exercido de diversas maneiras, explicitadas nesse trabalho: censura; propaganda de guerra; notícias falsas; excesso de informações e infotainment (combinação entre informação e entretenimento). Entretanto, apresentou-se um novo elemento: o jornalismo embedded. Na eminência da invasão, a Casa Branca anunciou que ao contrário do que havia ocorrido na Guerra do Golfo (1991), na qual as unidades de combate foram isoladas da imprensa, em 2003 o conflito seria acompanhado de perto pelos jornalistas. Assim, adotou-se o sistema dos embedded journalists (jornalistas incorporados), profissionais que seriam alocados nas diversas unidades de combate.

Dessa forma, esperava-se que surgissem laços entre membros da imprensa e militares, permitindo o controle da mídia por parte dos oficiais. Ademais, esses jornalistas de guerra estavam presos a um manual do governo norte-americano como parte de uma censura oficial e, ainda, extraoficialmente sofriam represálias caso publicassem materiais considerados “irresponsáveis” ou até mesmo não patrióticos. Devido a tais fatos, a cobertura do conflito em questão é considerada muito mais num sentido de propaganda de guerra do que de fato um retrato da realidade.

A proposta da presente pesquisa, além de demonstrar as estratégias de controle de informação impostas pelos órgãos oficiais estadunidenses na Guerra do Iraque, estende-se a outros fatores internos ao próprio sistema de formulação de notícias que permitiram a manipulação midiática. Procuraremos esclarecer o porquê da postura adotada pela potência hegemônica, como ela afetou a cobertura do conflito e quais foram suas consequências dentro e fora do território estadunidense, focando na estratégia de adoção do embedding program. Para isso, utilizaremos de uma perspectiva metodológica interdisciplinar, envolvendo História, Relações Internacionais e Comunicação.

O presente tema foi escolhido para análise devido à importância e destaque, tanto do conflito estudado no contexto século XXI, quanto da crescente influência da mídia nas relações da sociedade e dos Estados. O Iraque está inserido no Oriente Médio e exerce papel importante na região, principalmente devido ao petróleo, despertando o interesse de diversos países. Logo, analisar os fatores políticos que levaram primeiramente à guerra e depois à adoção da censura por parte dos Estados Unidos se torna cientificamente relevante.

Guerra do Iraque: censura e propaganda via jornalismo embedded também apresenta relevância social, partindo do pressuposto de que é majoritariamente através da mídia tradicional que a população se informa. Como veremos, o processo de informação é imprescindível para a construção e manutenção da opinião pública, elemento essencial aos Estados. Assim, é relevante trazer para o debate como as notícias são produzidas – principalmente em cenários de guerra, em que a manipulação e a censura se fazem presentes – e como as mesmas afetam o nível de informação da população mundial e os acontecimentos no Sistema Internacional.

Acreditamos que essa pesquisa contribuirá para parte da literatura de Relações Internacionais que se liga aos estudos da Comunicação, articulação ainda pouco explorada pelo viés mais convencional do campo. Se faz imprescindível um maior destaque dado à imprensa como ator no Sistema Internacional, no que diz respeito à sua influência nas ações e comportamento dos Estados e à sua atuação como quarto poder no âmbito interno dos mesmos. Também consideramos que o trabalho poderá acrescentar ao Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (INEST), na medida que aborda um tema que se diferencia dos demais mais comumente abordados em tal ambiente.

Foram produzidos 3 capítulos. O primeiro contará com uma descrição histórica de acontecimentos relevantes para compreender o contexto da Guerra do Iraque, notadamente entendidos como seus antecedentes: a Guerra do Golfo e os ataques do 11 de Setembro. Nele, também procurou-se refletir sobre as motivações verídicas ou inverídicas do governo norte-americano para a invasão do território iraquiano, denominada Operação Iraqi Freedom. Ainda, será abordado o curso da guerra em seu campo físico, trazendo táticas e estratégias do front e apontando o desfecho do embate.

O Capítulo 2, por sua vez, discorre sobre o uso da mídia como ferramenta relevante em contextos de conflito e parte do esforço de guerra. Será explicitado o papel dos meios de comunicação em um governo democrático, em especial no caso estadunidense na Guerra do Iraque, bem como os recursos de manipulação da informação empregados nessa conjuntura, caracterizando a guerra em seu campo psicológico. Conjuntamente, será exposta a histórica relevância da opinião pública nos Estados Unidos.

Por fim, o Capítulo 3 lança um olhar histórico sobre o surgimento da censura no contexto de guerra, assim como da propaganda política. Estuda-se a complexa relação entre mídia e guerra, envolvendo o Estado e a opinião pública, desenvolvida na Guerra do Golfo. Em suas subseções são discutidos os objetivos do Pentágono ao adotar o embedding, bem como suas implicações na cobertura midiática. Ademais, acrescenta-se a perspectiva dos próprios jornalistas incorporados sobre o embedding program, além das mudanças propiciadas pela internet e a rede de TV pan-árabe Al Jazeera na produção noticiosa.

“Usando argumentos humanitários como mero pretexto e apoiados por uma imensa máquina de mídia, as potências ocidentais estão tentando atender a seus próprios interesses.”

Alexander Zinovyev

3. CAPÍTULO I – Os antecedentes e a Guerra do Iraque

3.1. A Primeira Guerra do Golfo

A Segunda Guerra do Golfo, ou Guerra do Iraque, foi precedida do choque entre Iraque e Kuwait nos anos 1990, a chamada Guerra do Golfo. No entanto, de acordo com William Waack (2006):

As duas guerras do Golfo, a de 1991 e a de 2003, só nas aparências sugerem ser duas metades de um mesmo evento. O primeiro, iniciado com a invasão do Kuwait por tropas iraquianas, é parte de um longo período no qual a preocupação estratégica das principais potências envolvidas na região — os Estados Unidos em primeiro lugar — foi sempre a de conter os atores locais, especialmente os que pudessem espalhar instabilidade e tumulto, como o Irã logo após a Revolução Islâmica de 1979. O segundo evento, iniciado com o ataque americano ao Afeganistão, em outubro de 2001, em consequência dos atentados de 11 de setembro, é parte da estratégia americana de redesenhar o mapa político do Oriente Médio (p.454).

A invasão do Kuwait por parte de tropas iraquianas se deu primeiramente em razão do petróleo. Após o conflito com o Irã e sua consequente crise econômica, o Iraque almejava vender o barril a preços altos. Todavia, o mesmo, que custava US$21,00 em janeiro de 1990, estava sendo vendido a US$11,00 na metade daquele ano, por conta da pressão exercida pelos sheiks do Kuwait (WAACK, 2006, p.455). Além disso, os empréstimos feitos pelos kuwaitianos a Sadddam Hussein - então presidente do Iraque – durante o conflito com a antiga Pérsia começaram a ser cobrados. Outro agravante era a disputa pelo território de Basra, que Saddam julgava ter sido invadido pelo país vizinho. O Iraque afirmava que o Kuwait era uma criação artificial de colonizadores e que por isso não deveria ser um Estado independente.

O país invadiu o Kuwait e ocupou o território em poucas horas. A ação foi condenada pela ONU, que por meio da Resolução 678 intimou o Estado iraquiano a retirar suas tropas até o dia 15 de janeiro de 1991, sob a ameaça de ser atacado pela coalizão em caso de negativa. Com a recusa do Iraque, os Estados Unidos, liderando a aliança composta por países como Inglaterra, França, Egito, Síria e Arábia Saudita, invadiram o território kuwaitiano num confronto que duraria um mês e meio e levaria mais de meio milhão de homens ao combate. O poderio aéreo e a tecnologia dos exércitos modernos da coalizão acabaram por derrotar rapidamente o superestimado exército de Saddam.

Em meio ao enfrentamento, o Conselho de Segurança da ONU aprovou a Resolução 661, impondo severas sanções econômicas ao Iraque com o objetivo de “[...] pôr fim à invasão e ocupação do Kuwait pelo Iraque e restabelecer a soberania, independência e integridade territorial do Kuwait [...] afirmando o direito natural de legítima defesa, individual ou coletiva em resposta ao ataque armado do Iraque, em conformidade com o artigo 51.º da Carta.” Assim, o país teve proibidas todas as suas transações comerciais e financeiras, enfrentando uma “guerra não declarada”. Pouco depois do cessar-fogo, votou-se resolução que demandava ao governo iraquiano o fim de seu programa de armas de destruição em massa, como os mísseis balísticos utilizados durante o embate, além de manter inspetores no país (CAMILO, 2010, p.205).

Após o conflito, a infraestrutura iraquiana sofreu grandes desgastes por conta dos bombardeios. Grande parte não foi refeita após a guerra, tendo em vista a falta dos rendimentos do petróleo e o isolamento do país. O acordo Petróleo por Alimento não satisfazia um quarto da população, a economia havia se exaurido, o povo estava subalimentado e as condições eram pré-industriais (MUSA-FAY, 2003, p.70). O efeito das sanções foi rigoroso e “não haveria suspensão enquanto as reparações de guerra não fossem pagas, mas as reparações de guerra não poderiam ser pagas se as sanções não fossem suspensas” (WAACK, 2006, p.466).

É válido ressaltar que a Primeira Guerra do Golfo está inserida no contexto da queda do Muro de Berlim, a falência do socialismo real e o fim da Guerra Fria. Ou seja, num cenário internacional de solidificação dos Estados Unidos como potência. O país interveio no conflito com o aval do Conselho de Segurança da ONU, tendo como objetivo impedir que o Iraque controlasse a maior parte do petróleo do Oriente Médio ao invadir o Kuwait. Se antes o Estado norte-americano estava se estabelecendo, anos depois se volta novamente para o Iraque numa tentativa de não ter sua primazia ameaçada após os ataques do 11 de Setembro e, novamente, controlar o mercado petrolífero, dessa vez agindo de forma unilateral.

3.2. Os ataques do 11 de Setembro e a preparação para a guerra

Na manhã do dia 11 de Setembro de 2001, quatro aviões comerciais foram sequestrados. Dois deles se chocaram contra as torres gêmeas do edifício World Trade Center, em Nova York, enquanto o terceiro atingiu o Pentágono (Washington, DC) e o quarto, que seguia para o Capitólio, acabou tendo seus destroços encontrados em um campo no estado da Pensilvânia. Alvejando os  principais símbolos econômico, militar e político do país, a sequência de explosões que chocou o mundo e desafiou a impenetrabilidade dos Estados Unidos revelando que os mesmos não estavam livres de ameaças externas como pensado, ficou conhecida como os ataques do 11 de Setembro e deixou mais de três mil mortos e seis mil feridos (The New York Times, 2018).

Coordenado por uma célula da Al-Qaeda — grupo terrorista fundamentalista islâmico, à época liderado por Osama Bin Laden o 11 de Setembro marcou uma mudança fundamental na política externa estadunidense que mais tarde viria a justificar a postura tomada diante da contingência com o Iraque. Anteriormente assumindo a denominada Containment Policy, que estabeleceu os pilares da Guerra Fria ao propor uma política de contenção ao comunismo, os Estados Unidos no pós-11 de Setembro passaram a adotar a Doutrina Bush, que prezava pela urgência em agir e destacava a ameaça real e direta das armas de destruição em massa (FEITOSA, 2008, p.52). Empregou-se o princípio de guerra preventiva, considerado ilegítimo mesmo no tempo do regime de equilíbrio de poderes, vigorante desde o Tratado de Westfália até o final do Século XX. Nesse sentido, em 11 de setembro de 2002, o então presidente norte-americano George W. Bush apresentou as premissas da Estratégia de Segurança Nacional:

Defender nossa Nação contra seus inimigos é o primeiro e fundamental compromisso do Governo Federal (...) A América irá responsabilizar nações comprometidas pelo terrorismo, incluindo aquelas que abrigam terroristas – porque os aliados ao terror são os inimigos da civilização. (…) Por fim, os Estados Unidos usarão este momento de oportunidade para espalhar os benefícios da liberdade ao redor do globo. Nós iremos trabalhar ativamente para trazer a esperança da democracia, desenvolvimento, livres mercados e livre comércio a cada canto do mundo (cf. Estratégia de Segurança Nacional, 2002 apud  FEITOSA, 2008, p.52). [1]

Foram essas as proposições que levaram os Estados Unidos a invadirem o Iraque, lançando-se contra um ator transnacional: o terrorismo. A Doutrina Bush inseriu o país no denominado “eixo do mal”, composto por países que apoiavam e abrigavam núcleos terroristas, juntamente ao Irã e à Coreia do Norte. Tendo como objetivos procurar armas de destruição em massa e levar a democracia ao povo iraquiano, deu-se início à Guerra ao Terror. O novo inimigo da nação norte-americana estava definido. Em pronunciamento Bush declarou:

No Iraque, estamos servindo a causa da liberdade, e pela liberdade sempre vale a pena lutar. No Iraque, estamos servindo a causa da paz, ao promover o progresso e a esperança no Oriente Médio como alternativa à estagnação e ao ódio e à violência.  No Iraque, estamos servindo a causa de nossa própria segurança, atacando os terroristas onde os encontramos, ao invés de esperar que eles nos ataquem em casa (Bush, 2004)[2] .

A fim de conseguir Resolução que autorizasse a ocupação do Iraque, o então presidente se dirigiu à ONU. Sem obter sucesso, Bush anunciou “Nós consultaremos. Mas que não haja nenhum mal-entendido: Se Saddam não se desarmar totalmente, pela segurança de nosso povo e pela paz mundial, nós lideraremos uma coalização para desarmá-lo”(Bush, 2003)[3]. Acusando Saddam de graves violações de Direitos Humanos, apoio a atividades terroristas e desenvolvimento de armas biológicas e nucleares, os Estados Unidos invadiram o Iraque em 20 de março de 2003 clamando:

Em um lugar – em um regime - nós encontramos todos estes perigos, em suas mais letais e agressivas formas (...) Onze anos atrás, o Iraque invadiu o Kuwait sem provocação. E as forças do regime estavam preparadas para continuar sua marcha para apreender outros países e seus recursos. Se Saddam Hussein tivesse sido apaziguado em vez de impedido, ele teria posto em perigo a paz e a estabilidade do mundo. (Bush, 2002)[4]

Tal decisão reflete a mudança da postura estadunidense no Sistema Internacional. Enquanto no Governo Clinton a cooperação multilateral e a diplomacia econômica eram privilegiadas, na Administração Bush as relações internacionais foram endurecidas em prol de decisões unilaterais, ao mesmo tempo em que a militarização ganhou destaque. Bush constituiu nova estratégia de defesa, denominada “americanocentrismo”. Colocando os Estados Unidos no centro, tal estratégia baseia-se nos seguintes pilares: doutrina de utilização de todas as forças para maximizar os interesses nacionais, capacidade que o país tem de projetar suas forças militares ao redor do globo e na garantia da manutenção dos EUA como potência única. De acordo com Musa-Fay (2003):

Depois dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, o Governo norte-americano, além de ter ampliado os investimentos na tecnologia militar, inclusive desenvolvendo projetos de militarização do espaço, não tem respeitado os esforços internacionais sobre questões relacionadas ao controle do meio ambiente, aos direitos humanos e à manutenção da paz (p.60).

No pós-11 de Setembro, Bush se tornou figura central no mundo e já contava com um dos maiores índices de aprovação da história dos Estados Unidos, com 65% dos norte-americanos o apoiando (cf. Veja 2002:40).

A decisão de intervir no Iraque veio como uma tentativa de manutenção da hegemonia norte-americana, não só global, mas também na região do Oriente Médio, que necessariamente passa pelo fornecimento de petróleo do território. O fato é que a dependência norte-americana em relação a tal recurso energético vem desde a adoção de uma política liberal e estava presente já no Governo Reagan, em que foi elaborada uma política de segurança das reservas de petróleo que consequentemente envolvia a segurança da parte oriental do globo.

Paul Wolfowitz, atual Secretário-Adjunto de Defesa encarregado do Sudeste Asiático e da zona do Pacífico, e I. Lewis Libby, Conselheiro para Questões de Segurança do Vice-Presidente Dick Cheney, pretendiam “(...) impedir toda potência hostil de dominar regiões cujos recursos lhes permitam ascender ao status de grande potência” e “(...) desencorajar os países industrializados avançados de toda tentativa visando a desafiar nossa liderança ou a modificar a ordem política e econômica estabelecida e prevenir a emergência futura de um concorrente global” (Golub, 2001 apud MUSA-FAY, 2003, p.67).

As ligações da administração Bush com o recurso energético eram estritas. Dick Cheney, vice-presidente norte-americano, era presidente da Halliburton Co., fornecedora mundial de equipamentos para empresas petrolíferas e também financiadora da campanha republicana. Cheney foi responsável pelas operações Causa Justa (Panamá) e Tempestade no Deserto (Golfo) e é acusado de atuar em favor de interesses econômicos próprios ao apoiar a invasão do Iraque. Condoleezza Rice, assessora de segurança nacional da Casa Branca, foi alta executiva da Chevron, grande petrolífera, também possuindo relação suspeita com a guerra (FONTENELLE, 2013, p.35).

O controle do Iraque contribuiria para regular o preço do petróleo e seu acesso, portanto, serviria aos interesses nacionais e hegemônicos estadunidenses, colocados em risco por conta dos ataques do 11 de Setembro. Na tentativa de reorganizar o mercado petrolífero tendo os maiores produtores de petróleo do mundo sob a égide de uma política contrária à sua como obstáculo, Bush escolheu assumir uma postura bélica, mas mascarada por um ethos democrático. É interessante observar que havia também interesses pessoais do presidente envolvidos: uma derrota de Saddam Hussein serviria como marketing político para uma reeleição republicana.

Ainda, vale lembrar que já em janeiro de 1998 defendia-se uma alteração da política diplomática adotada perante o Iraque, apelando para os meios militares. Bill Clinton, então presidente dos Estados Unidos, chegou a receber uma carta do Projeto para o Novo Século Americano organização com o objetivo de defender a supremacia militar norte-americana  sugerindo a retirada de Saddam do poder a fim de assegurar os interesses estadunidense e de seus aliados. No ano de 2000, o PNSA elaborou outro documento de mesmo teor que continha a assinatura de Rumsfeld, Secretário de Defesa, Cheney e Jeb Bush então governador da Flórida e irmão de George Bush. Isto posto, pode-se afirmar que o 11 de Setembro não foi a causa da guerra, mas possibilitou que a mesma ocorresse (FONTENELLE, 2013, p.36).

3.3. A Guerra do Iraque

A decisão de invadir o Iraque sofreu também influência crescente dos neoconservadores na elaboração da política externa estadunidense após o 11 de Setembro. Muito antes da Primeira Guerra do Golfo, o grupo surgiu como uma reação à onda liberal dos anos 60 e já influenciava a sociedade norte-americana, sendo “parte de uma profunda transformação ideológica nos Estados Unidos ligada diretamente, pelo menos no que se refere a políticas sociais, a valores religiosos e até fundamentalistas”. Tal corrente clamava por uma utilização expansionista do predomínio bélico e tecnológico norte-americano em várias partes do mundo, por isso faz sentido dizer que invadir o Iraque e forçar uma mudança de regime no pós-11 de Setembro foi uma deliberação dos neoconservadores, levando a cabo sua ideia de que “bastava remover os tiranos para que os cidadãos do país e suas organizações implantem a liberdade e democracia que o tirano impedia” (WAACK; 2006, p.467).

Acreditava-se que o ódio ao que é ocidental, principalmente ao conjunto de liberdades e valores democráticos, só poderia ser minado quando os países onde as ideias fundamentalistas dos terroristas ganham espaço passassem a adotar os mesmos sistemas políticos e valores ocidentais. A esses fatos, somados às justificativas previamente citadas para o ataque, acrescentam-se a elaboração de comunicados duvidosos, a manipulação de informações e as falhas dos principais serviços de inteligência dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha, questões que serão tratadas detalhadamente em capítulo posterior.

A Grã-Bretanha foi um grande apoiador da invasão. Tony Blair, então Primeiro-ministro do Reino Unido, enfrentou as pressões do parlamento inglês, defensor da obediência à decisão da ONU, e se decidiu pelo que ficou conhecida a “opção Kosovo”, em referência à declaração de guerra ao país por parte de Blair sem a aprovação das Nações Unidas. Em clara manobra para convencer a opinião pública da ameaça representada por Saddam, descobriu-se mais tarde que o Primeiro-ministro havia produzido um dossiê de evidências contra o Iraque plagiando uma tese de Ph. D (FONTENELLE, 2013, p.38).

O fato é que Saddam não possuía armas de destruição em massa, nem ligação com grupos terroristas ou capacidade militar para atacar seus vizinhos. A ausência das armas foi confirmada perante o Conselho de Segurança da ONU pelo sueco Hans Blix, chefe dos inspetores de armas, e um ano depois da invasão por comissão nomeada pelo próprio governo norte-americano. O diplomata brasileiro José Maurício Bustani chegou a ser afastado da chefia da Organização Para a Proibição das Armas Químicas por conta da pressão estadunidense, “[...] defensores de Bustani dizem que as negociações da Opaq com o Iraque irritaram os americanos, pois um eventual ingresso do país na entidade enfraqueceria os argumentos para uma possível ação militar contra o governo de Saddam Hussein” (BBC Brasil, 2002 ).

Apesar dessas constatações, os Estados Unidos entraram no Iraque em março de 2003 com a adesão de vários países, da OTAN, do Congresso norte-americano e da opinião pública. Do lado iraquiano, as forças militares estavam desgastadas pelas sanções, e Saddam desprovido de Força Aérea e sem acesso à moderna tecnologia bélica. A disparidade entre as forças combatentes era gritante. De acordo com Rumsfeld, secretário e Defesa norte-americano:

A invasão de 2003 estava destinada a transformar-se numa vitrine de que operações ofensivas convencionais poderiam ser realizadas por contingentes militares muito menores do que em anteriores conflitos comparáveis. Meio milhão de combatentes compunham as tropas da coalizão unida para expulsar Saddam do Kuwait em 1991. A invasão por terra em 2003 foi feita por cerca de 150 mil soldados, incluindo os serviços de logística e retaguarda. Esse tipo de evolução é ainda mais importante do que o notório avanço das chamadas “armas inteligentes”, especialmente bombas capazes de corrigir seu rumo por diversos métodos (GPS, iluminação a laser do alvo, entre outros) (WAACK;2006, p.470).

A invasão norte-americana, denominada Operação Iraqi Freedom, foi uma lição de guerra moderna e deixou claro que, naquele momento, não havia adversário à altura da megapotência no Sistema Internacional. As tropas se concentraram em conquistar Bagdá o mais rápido possível, atingindo o centro de gravidade do Iraque. Pela primeira vez foram empregados três níveis de aviação de combate, helicópteros e bombardeiros de longo alcance, “em outras palavras, os americanos aperfeiçoaram a integração entre os instrumentos de bombardeio estratégico, contra alvos importantes da infraestrutura do inimigo, ataques táticos, destinados a destruir oponentes nos campos de batalha, e aviação atuando diretamente em conjunto com forças terrestres” (WAACK;2006, p.472) e, ao contrário do que se pensou, o deserto e a temperatura não se apresentaram como obstáculos às tropas estadunidenses. Em História das Guerras, de Demétrio Magnoli, William Waack descreve:

O primeiro objetivo próximo à capital iraquiana era o aeroporto internacional Saddam Hussein (como quase tudo se chamava no país), um enorme terreno a oeste da cidade. Uma coluna blindada que avançou na direção do aeroporto não encontrou resistência séria. O mesmo aconteceu com os primeiros grupos de reconhecimento armado mandados para dentro de Bagdá. Num dos episódios mais celebrados da invasão, uma coluna de tanques americanos chegou ao centro da cidade, viu que poderia permanecer onde estava, e ficou. Acabaram gerando uma das imagens mais importantes da guerra: a da participação popular, ao lado de soldados americanos, para derrubar uma das muitas estátuas de Saddam numa das praças mais importantes (WAACK, 2006, p.474).

Em dezembro de 2003 Saddam foi capturado durante uma operação militar. O líder do Iraque estava em um buraco camuflado por terra a 129 quilômetros de Bagdá, numa fazenda em Adwar, localizada na região central do país. Após a ocupação, definiu-se um prazo para devolver o país ao povo iraquiano, o que ocorreu em 28 de julho de 2004. Em comunicado, Bush reiterou:

Após décadas de governo brutal por um regime de terror, o povo iraquiano tem seu país de volta. Este é um dia de grande esperança para os iraquianos, e um dia que os inimigos terroristas esperavam nunca ver. [...] suas bombas e ataques não evitaram a soberania do Iraque, e não irão evitar a democracia iraquiana. [...] O Iraque hoje ainda possui muitos desafios para superar - nós reconhecemos.  Mas é um mundo distante do país atormentado, exausto e isolado que encontramos no ano passado. Agora a transferência de soberania inicia uma nova fase no progresso do Iraque em direção à democracia plena. Juntos, com o governo iraquiano, estamos avançando em cada elemento do nosso plano de cinco partes para o autogoverno iraquiano (Bush, 2004).[5]

Vale destacar a parte final que diz que a “restauração da soberania iraquiana” é parte de um plano de cinco etapas para a independência do Iraque, o qual será executado junto ao governo iraquiano, sugerindo que os Estados Unidos se manteriam na região através de uma política intervencionista. No dia 5 de novembro de 2005, Saddam foi sentenciado à morte. Quatro dias depois foi enforcado. O julgamento foi amplamente criticado pela Anistia Internacional e pelo Humans Rights Watch (FONTENELLE, 2013, p.78).

Os norte-americanos acabaram não sendo recebidos como libertadores, mas sim como um mal necessário para que a população se livrasse de um ditador sanguinário. Depois da invasão, a maior dificuldade das tropas foi a criação de vínculos com a população ocupada. A própria cultura se mostrou como barreira. Um sucesso militar, mas um fracasso na reorganização política, econômica e social do país invadido. Para Bresser-Pereira (2003):

A guerra contra o Iraque ficará provavelmente na história dos Estados Unidos como um dos grandes equívocos de seu governo. A decisão unilateral desse país de iniciar a guerra terminou em vitória militar, mas, com o transcorrer do tempo, provavelmente veremos que resultou em derrota política, na medida em que seu caráter unilateral conflitou com a lógica básica da globalização. As seis milhões de pessoas que se reuniram para protestar no dia 15 de fevereiro de 2003, principalmente nos países cujos dirigentes estavam apoiando a guerra, foram uma indicação clara da existência da sociedade civil mundial [...]. A grande potência, porém, ignorou que vivemos na era da globalização e da democracia e, apenas apoiada pelo Reino Unido, lançou-se em uma guerra aparentemente vitoriosa. Terminada a guerra, a hegemonia americana, ao invés de haver se afirmado, ficará provavelmente prejudicada; a maior segurança pretendida pela guerra resultará no seu contrário: em reforço do terrorismo, em maior insegurança em todo o mundo, e em maior instabilidade política no Oriente Médio. (p.43)

Previsões que mais tarde vieram a ser concretizadas. Um ponto importante citado por Bresser é a influência da opinião pública, tanto internacional, quanto estadunidense para as justificativas e manutenção da guerra, assunto que será tratado no próximo capítulo.

No Iraque, o defensor mundial da democracia e dos Direitos Humanos se transformou em grande ameaça a tais valores políticos. As justificativas para a guerra, sustentadas pela mídia nacional e internacional, acabaram caindo por terra. A questão do petróleo e da democracia é apontada por diversos estudiosos que afirmam o interesse estadunidense em assegurar seu suprimento. Dentre eles, Jeffrey Sachs argumenta:

Em primeiro lugar, o Iraque é vital para o fluxo de petróleo do Oriente Médio, já que possui a segunda maior reserva petrolífera do mundo. Segundo o relatório, os EUA precisam do óleo iraquiano por razões de segurança econômica, mas, por motivos de segurança militar, não podem permitir que Saddam desenvolva sua produção. [...] não é a democracia, mas a segurança econômica que estaria por trás da determinação do governo americano de derrubar o regime ditatorial iraquiano, a administração Bush pode acreditar que esteja partindo para a guerra para lutar pela democracia no Oriente Médio, mas, infelizmente, uma guerra travada pelo petróleo será uma guerra que vai desestabilizar a política e a sociedade internacionais ainda mais, e que vai solapar a verdadeira segurança dos Estados Unidos e do mundo (SACHS, 2003 apud BRESSER-PEREIRA, 2003, p. 54).

No que diz respeito à ONU, ao enfrentá-la e decidir invadir o Iraque mesmo sem uma Resolução que os apoiassem, os Estados Unidos tornaram explícitas as limitações enfrentadas pela Organização em lidar com os principais conflitos internacionais da atualidade, principalmente aqueles ligados ao terrorismo. Dois grupos surgiram a partir de tal problemática, um pró-guerra, tendo à frente Bush, sustentado na afirmação de que Saddam ignorou a ONU por mais de 10 anos; e outro anti-guerra, que acredita que os Estados Unidos desprezaram a ONU na decisão de atacar. A partir dessa dualidade, Kofi Annan, Secretário-geral da ONU, propôs uma reforma do sistema e dos procedimentos e sugeriu uma definição para o termo terrorismo “qualquer ato de violência contra civis com o objetivo de intimidar governos, organizações ou povos” (cf. COSTAS, 2005b: 95 apud FEITOSA, 2008, p.88).

Pode-se dizer que a organização, apesar de ter tido sua postura contra a guerra ignorada pelos Estados Unidos, exerceu importante pressão no que diz respeito aos protestos anti-invasão, tendo em vista a relevância dada à não aprovação do Conselho de Segurança pelos demais países e a opinião pública mundial. Caso obtivesse aprovação, o conflito teria sido juridicamente legitimado, enfrentando menor resistência da opinião pública, que como citado precedentemente, exerceu força protagonista no palco do conflito.

Não é o caso, como um ingênuo pode pensar, que a doutrinação é incompatível com a democracia. Pelo contrário, é a essência da democracia.”

Noam Chomsky, Manufacturing consent

4. CAPÍTULO II - War of words

4.1. Mídia, democracia e guerra

O presente capítulo versará sobre o uso da mídia como ferramenta relevante em contextos de conflito. Demonstraremos como sua utilização é incorporada ao chamado esforço de guerra, entendido como a mobilização de recursos visando o suporte a uma força militar. Para tal, primeiramente será explicitado o papel dos meios de comunicação em uma democracia, em especial no caso estadunidense no âmbito da Guerra do Iraque. Também serão tratados os recursos de manipulação da informação empregados nessa conjuntura.

A relação entre a chamada mass media e a democracia é traçada desde o século XIX. De acordo com Nelson Traquina (2005), “a expansão da imprensa foi alimentada pela crescente conquista de direitos fundamentais, como a liberdade, cerne de lutas políticas seculares que incendiaram revoltas e revoluções, valor central da emergência de um novo conceito de governo – a democracia” (p.40). Num governo democrático, o sistema de poder tem como base a opinião pública, termo que ganha sentido político com Rousseau, em O Contrato Social (1762):

Por si mesmo o povo será sempre bom, mas de modo algum vê sempre por si mesmo. A Vontade Geral tem sempre razão, mas o julgamento que a guia nem sempre está informado... A informação pública leva à união da compreensão e da obtage no corpo social (ROUSSEAU, 1762 apud TRAQUINA, 2005, p.45).

A imprensa figuraria como o elo entre a opinião pública e as instituições governantes. Essa concepção reforça a noção do jornalismo como o Quarto Poder pelo princípio de “power checks power em que os outros três poderes seriam o executivo, o legislativo e o judiciário tendo em vista que opinião pública, parte da teoria democrática do Estado, é importante instrumento de controle social em uma democracia.

É por conta desse papel de “mediador” exercido pelo jornalismo que a liberdade de imprensa se apresenta como essencial a um governo representativo. “A liberdade de imprensa é uma consequência necessária da soberania do povo, tal como é entendida na América” para Alexis Tocqueville (2005, p.207). “Não há democracia sem liberdade de imprensa”, afirma Thomas Jefferson, terceiro presidente dos Estados Unidos (TRAQUINA, 2005, p.49). Contudo, como poderemos observar no contexto da Guerra do Iraque, pode-se dizer que a imprensa norte-americana, mesmo sendo considerada livre, se deparou com os mais diversos tipos de amarras. Naquele cenário, foram recorrentes as manobras de manipulação e restrições a informação. Ainda, a relação entre a mídia, o governo e os militares, se alterou, dando lugar a uma espécie de cobertura nacionalista e até mesmo parcial dos fatos.

Sabemos que a relação entre os meios de comunicação e o Estado em situações de guerra não é novidade. Sun Tzu, em A arte da guerra, tratado militar escrito durante o século IV a.C, chama a atenção para o conceito de “Lei Moral”, um fator intangível que governa a arte da guerra, composto pelo estado de espírito, motivação, vontade e convicção. Para ele, será vencedor aquele cujo exército estiver animado do mesmo espírito em todos os postos. A partir de tal afirmativa, é possível inferir que a certeza da vitória é um fator crucial para o sucesso das operações, e o apoio do público interno (os soldados) e do externo (a opinião pública), é de extrema importância. A guerra não é travada somente no campo de batalha, mas também nos âmbitos ideológico e psicológico. Sobre a relevância de conquistar “corações e mentes”, Crespy (2006) exemplifica:

A Alemanha perdeu a guerra em 1918, em razão de desobediência civil, sem que tenha havido algum fracasso militar claramente reconhecido (circunstância que não seria esquecida pelos ex-combatentes, durante a fermentação do nazismo), enquanto, durante a Guerra Civil espanhola, o apoio de uma parte da população à insurreição militar permitiu a vitória dos generais rebeldes. Um pouco mais tarde, durante o segundo conflito mundial, os combatentes atacam diretamente a população civil, na intenção explícita de desestabilizá-la moralmente: Coventry será arrasada por uns, Dresden por outros (p.71).

O apoio popular também é mencionado em Da Guerra obra sobre estratégia militar de Carl Von Clausewitz. Para teorizar sobre a guerra, Clausewitz se utiliza do chamado modelo trinitário, tendo Exércitos, Estado e Povo como partes constituintes. Dessas, o povo é apontado como o motor da guerra, sem o qual não poderiam existir as outras partes, e seu apoio é considerado como um dos seis princípios básicos da ação estratégica. De acordo com o autor, a recusa da população em apoiar um conflito pode levar ao fracasso da iniciativa bélica (PAULINO, 2009, p.28). Sobre a guerra psicológica Shah (2005) escreve:

Provavelmente, todo conflito é travado em pelo menos dois fundamentos: o campo de batalha e as mentes do povo via propaganda. Os mocinhos e os maus podem, com frequência, ser culpados de enganar o seu povo com distorções, exageros, subjetividade, imprecisão e até mesmo invenções, a fim de receber apoio e senso de legitimidade.

É justamente por conta da relevância da opinião pública no Estado democrático que a mídia é incorporada ao esforço de guerra.

Noam Chomsky e Edward Herman se debruçaram sobre o funcionamento da mídia norte-americana em “A Manipulação do público”. Os autores defendem que os media norte-americanos reverberam os pontos de vista do establishment (poder instituído) e apresentam um modelo de propaganda (propaganda framework) em que a cobertura maciça de um acontecimento particular é tratada como uma campanha de publicidade.

Frequentemente um tema ou acontecimento é capaz de servir às relações públicas ou exigências ideológicas de um grupo de poder. Estes temas ou acontecimentos são então vistos como ‘grandes estórias’ e podem ajudar a mobilizar a opinião pública numa direção específica. Em todos estes casos a cobertura dos media ou a ‘publicidade’ salienta e mobiliza o apoio público para ações da política internacional ou nacional (TRAQUINA, 2005, p.166).

Especificamente no caso da Guerra do Iraque, tais apontamentos são confirmados levando em conta a cobertura exaustiva do conflito por parte da mídia local, muitas vezes reforçando posições nacionalistas que direcionavam o apoio da opinião pública à guerra, na medida em que procurava justificá-la tanto para os não-combatentes, quanto para aqueles no front — exercendo uma espécie de controle sutil. Chomsky, importante linguista e ativista político norte-americano, aponta que a propaganda e a mídia estão para o estado democrático assim como o porrete está para o estado totalitário (CHOMSKY, 2014, p.10).

O modelo anteriormente citado apresenta a mídia como um sistema de propaganda apto a mobilizar um consenso de elite, além de cinco filtros pelos quais todas as notícias devem passar e que distorcem a cobertura jornalística e, claramente, afetam os rumos da guerra. Dentre eles, são de interesse do presente trabalho os três seguintes: propriedade dos meios, as fontes de notícias e a cobertura patriótica, explicitados abaixo.

Propriedade dos meios:

Como os custos dos operadores da mídia são altos, há uma barreira à entrada no mercado, por isso a grande concentração dos meios nas mãos de poucas empresas. O segmento superior da mídia visto como o formador de opinião  repete o que produzem as agências de notícias, e tem seus conteúdos replicados por outros veículos inferiores (gatekeeping em linguagem jornalística). O problema se apresenta na medida que essas agências são um segmento extremamente concentrado: Associated Press, United Press International, Thomson Reuters e Agence France Presse correspondem a oitenta por cento das notícias internacionais em circulação no mundo. Dessas, as duas maiores (Reuters e AP) são de capital privado norte-americano, o que dá aos Estados Unidos maior controle do que é de acesso ao público.

As fontes de notícias:

Dizem os autores:

A mídia de massa é levada a um relacionamento simbiótico com as poderosas fontes de informação pela necessidade econômica e pela reciprocidade de interesses. A mídia precisa de um fluxo constante e confiável de matérias-primas para notícias (...) e não é possível ter repórteres e câmeras em todos os lugares onde histórias importantes possam acontecer (CHOMSKY e HERMAN, 2003 apud PAULINO, 2009, p.38).

As principais fontes de informação acabam sendo as governamentais, no caso, a Casa Branca, o Departamento de Estado e o Pentágono (processo denominado press release em linguagem jornalística). No cenário da guerra de 2003, isso permitiu que o governo estadunidense controlasse o que seria ou não de conhecimento do público, reforçando o entendimento de que a moderação da mídia é um fator multiplicador de poder militar e parte do esforço das operações.

Um exemplo de como a interdependência entre mídia e as chamadas fontes primárias pode influenciar a agenda dos meios é a colaboração acentuada entre a assessoria oficial da administração Reagan e os meios de comunicação. Enquanto a assessoria se esforçava para produzir boas imagens e eventos grandiosos pertinentes às indispensabilidades formais da televisão, a mídia divulgava de maneira acrítica a agenda da Casa Branca, mantendo-se longe de investigações e perguntas inconvenientes ao governo (ALDÉ, 2003, p.4).

5. A Cobertura patriótica:

Aqui os autores apontam para a necessidade de se criar consensos unificadores na história dos Estados Unidos, dando como exemplo o anticomunismo durante a Guerra Fria. Apela-se para a instituição “família” norte-americana e tudo aquilo que lhe oferece perigo deve ser combatido. Essa é uma tática antiga que pode ser percebida até mesmo nos discursos de Bush transcritos no capítulo anterior, em que as dualidades “fora” e “dentro”, “eu” e o “outro” e “bem” e mal” foram instrumentalizadas no sentido de promover a união em torno de uma causa comum: a Guerra ao terror deflagrada após a ameaça às famílias norte-americanas, ou seja, os ataques do 11 de Setembro. (PAULINO, 2009, p.33-44)

Esses são alguns dos meios pelos quais a mídia e quem a controla interferem na narrativa da guerra. É a partir da manipulação e da propaganda que governos e militares buscam o que Walter Lippmann  notável jornalista norte-americano denomina “produzir consenso”, isto é: “obter a concordância do povo a respeito de assuntos sobre os quais ele não estava de acordo por meio das novas técnicas de propaganda política” (CHOMSKY, 2014, p.8). De acordo com Lippman:

O mundo lá fora e as imagens em nossas mãos […] A hipótese que me parece mais fértil é que notícias e verdades não são a mesma coisa e devem ser claramente distinguidas. A função da verdade é trazer à luz fatos ocultos, estabelecê-los em relação uns aos outros e fazer um retrato da realidade sobre o qual os homens podem agir. A revolução significativa dos tempos modernos não é industrial, econômica ou política, mas a revolução ocorrendo na arte de criar consenso entre os governados (Walter Lippmann, 1922 apud CAMARGO, 2008, p.37).[6]

A preocupação em se construir um consenso se dá na medida em que o regime democrático está intimamente ligado à opinião do povo como base para a tomada de decisões e “como qualquer ator político, interessa a um Estado em guerra fortalecer o consenso em torno de sua própria versão dos acontecimentos” (ALDÉ, 2003, p.3). Segundo Thompson (2002):

Embora as autoridades políticas e militares possam justificar suas tentativas de controlar a mídia com base na lógica do campo de batalha (como a necessidade de evitar informações que possam colocar em risco a vida dos soldados), sabem muito bem que há muito mais em jogo. Sabem que imagens e informações mediadas têm o poder de estimular formas de ação responsiva, crítica e dissenso que podem enfraquecer o esforço de guerra (p.104).

Ainda, de acordo com Camargo (2008): “Caso haja um descompasso entre a opinião da sociedade e as atitudes governamentais, o voto é o instrumento de controle sensível que os cidadãos nacionais possuem para responder de forma positiva ou negativa às consequências das políticas formuladas” (p.64). Sendo assim, a manutenção de um consenso com relação à guerra é interessante tanto do ponto de vista bélico, quanto do ponto de vista político-eleitoral.

Nesse sentido, inicialmente apoiados pela população norte-americana, os ataques do 11 de Setembro e a posterior Guerra do Iraque influenciaram de forma decisiva para a reeleição de Bush em 2004, na medida que a popularidade do presidente estava estritamente ligada a tal aprovação. Seu adversário, o democrata John Kerry, foi visto como incapaz de elaborar propostas concretas e atitudes firmes na guerra contra o terror, enquanto Bush era visto como um “presidente de guerra” (PECEQUILO, 2006 apud DAMIN, 2014, p.434).

Em contrapartida, a derrota dos republicanos em 2008 com a saída de Bush da Casa Branca após dois mandatos consecutivos e a eleição do democrata Barack Obama já refletiam a dissolução do consenso criado pelo Estado em torno da guerra. As baixas de soldados norte-americanos passaram a agir de forma que a opinião pública se mostrou contrária à continuidade conflito, levando à rejeição do candidato republicano John McCain. Sendo assim, “Obama é um presidente que vence a eleição no contexto de uma crise de popularidade de uma guerra. A mesma guerra que, quatro anos atrás, havia reeleito Bush” (DAMIN, 2014, p.445). Sobre o assunto, Crespy (2006) discorre:

Mas se, num primeiro momento, o reflexo nacional se motiva para cerrar os punhos, a questão da legitimidade da guerra é rapidamente colocada. Bush foi reeleito, é certo, mas assume seu segundo mandato com a mais baixa cota de popularidade de um presidente americano reeleito; Blair sofre um claro recuo (em porcentagem, o único que faz sentido), enquanto o governo espanhol de Aznar perde as eleições por ter mentido sobre a questão dos atentados de Madri. Não se pode mentir a respeito da guerra e da violência: os danos eleitorais são bastante graves. Ou melhor, não se pode arriscar, tentando convencer pela mentira uma sociedade que erigiu a transparência como valor supremo. Consequentemente, os serviços de investigação militar devem fazer uma pressão ainda maior sobre a informação. Se não se pode justificar o injustificável, é necessário dissimulá-lo. A determinação é a condição que leva um governo a declarar a guerra – e, se a situação se degrada, é a condição da sobrevivência política desse governo. Sem essa determinação, sustentada pelo apoio da opinião pública, o fracasso político substituirá, de maneira ainda mais eficiente, o fracasso militar. Não é mais no campo de batalha que se ganha ou que se perde uma guerra, e sim através das colunas de jornais e das câmeras de televisão (p.72).

Com relação a Tony Blair, sua imagem política também foi afetada. Em fevereiro de 2003, 61% da população se declarou insatisfeita com a atuação do Primeiro-ministro, atingindo o índice mais baixo de aprovação desde julho de 2002. No contexto da guerra os números se inverteram, chegando a 46% de satisfeitos e 45% se diziam insatisfeitos (FONTENELLE, 2014, p.69).

5.1. Opinião pública e manipulação nos Estados Unidos

A relevância da opinião pública para a política estadunidense remonta os tempos da Revolução Americana no século XVIII. Naquela época, o fato de os colonos serem instruídos e alfabetizados possibilitou a circulação de ideias, informações e teorias que culminaram no fim da dependência política com a Coroa Inglesa. Sobre tal episódio, escreve Adams:

O que queremos dizer com a Revolução? A guerra? Isso não foi parte da Revolução; foi apenas um efeito e consequência dela. A Revolução estava nas mentes das pessoas e foi levada a cabo de 1760 a 1775, no curso de quinze anos, antes que uma gota de sangue fosse derramada em Lexington.

Os registros de treze legislaturas, os panfletos, jornais em todas as colônias deveriam ser consultados durante aquele período para averiguar os passos pelos quais a opinião pública foi esclarecida e informada no que diz respeito à autoridade do Parlamento sobre as colônias. (ADAMS apud BAYLIN apud DAMIN, 2014, p.423).

Assim, avançou-se no processo de desenvolvimento de canais para a formação da opinião pública nacional, com os jornais mantendo seu papel de destaque, enquanto o rádio assumiu grande relevância no contexto da Segunda Guerra Mundial. Na Guerra do Vietnã, a massificação da televisão promoveu a primeira “guerra da sala de estar” e demonstrou a força da opinião pública como variável que intervém nas decisões governamentais norte-americanas. (DAMIN, 2014, p.423-427).

Tendo como traço histórico e cultural a significância da opinião pública, de forma esperada, os Estados Unidos foram pioneiros nas atividades de relações públicas e na utilização da propaganda de guerra, como se pode notar na criação do Pânico Vermelho. Na Guerra do Iraque não seria diferente. Através da manipulação midiática, instrumento da propaganda de guerra, buscou-se sobrepujar a chamada “Síndrome do Vietnã”, definida pelo intelectual pró-Reagan Norman Podhoretz como “as restrições ao uso do poder militar, que acabariam limitando as incursões externas do país”. A população seria normalmente pacifista e partilharia das restrições à violência, e é para introduzir nela o respeito pelo “valor marcial” e conquistar seu apoio que o controle da informação e a criação de um consenso se tornaram alvos das operações militares (CHOMSKY, 2014, p.11). Ainda, a Síndrome representaria o temor dos governos de não convencer a população por conta de uma cobertura midiática contrária ao conflito. Dessa forma, a partir daí o controle de informações e a manipulação da mídia se fizeram principal preocupação não só do governo estadunidense como de outros Estados (FONTENELLE, 2014, p.23).

Abordada no capítulo anterior, a própria Primeira Guerra do Golfo é um exemplo de propaganda política e de guerra bem-sucedida no manipular da opinião pública. Na época, não se veiculava na mídia sequer a existência de uma oposição democrática iraquiana contrária a Saddam, mas também contra a guerra. Em momento algum as justificativas para a invasão, baseadas em ocupação ilegal e violação dos Direitos humanos, foram questionadas ou tiveram seus princípios aplicados ao próprio comportamento estadunidense. Da mesma forma, na GWoT (Global War on Terror) os guerreiros da liberdade, armados e treinados pela própria CIA na década de 1980 se tornaram os inimigos da pátria em 2001, numa manobra de política externa e propaganda política de dimensões assombrosas (CHOMSKY, 2014, p.35).

No âmbito da Guerra do Iraque e de seus antecedentes apresentados no Capítulo 1, pode-se perceber que a mídia exerceu dois diferentes papéis no que se refere à literatura sobre mídia e Relações Internacionais. Apesar de muitas vezes tais papéis serem apresentados como excludentes ou antagônicos, no presente trabalho serão tratados como complementares, tendo em vista que a relação entre a mídia e governo não são engessadas, respondendo a influências externas, neste caso, a guerra. O primeiro deles diz respeito à teoria do Manufacturing Consent, brevemente apresentada anteriormente e que afirma que a mídia é mobilizada com o objetivo de servir a políticas governamentais. O segundo é relativo ao conceito de CNN Effect, em que os media têm a capacidade de influenciar o processo de tomada de decisão e modificar a agenda política, especialmente no que concerne às intervenções militares. Ambas as hipóteses dialogam com a teoria do Agenda setting, amplamente discutida por Maxwell McCombs em sua obra A Teoria da Agenda, para a qual os veículos jornalísticos estabelecem a agenda pública.

No cenário internacional, considerando as diferentes faces da mídia, pode-se afirmar que a mesma alterou a maneira como a política externa é entendida. Se antes era realizada apenas por diplomatas e o Poder executivo, agora a política externa é influenciada pelas redes de informação, que também servem de instrumento para expandir, preservar ou conquistar poder no âmbito externo. Tal influência é denominada pelo norte-americano Eytan Gilboa (1987) como diplomacia midiática. Observam-se três modelos da media diplomacy, são elas: diplomacia pública, diplomacia na mídia e diplomacia feita pela mídia (BURITY, 2013, p.166), sendo o primeiro de maior interesse para o presente trabalho.

A diplomacia pública também foi meio utilizado no conflito em questão para influir na opinião popular, sendo entendida como o esforço para promover o interesse de um ator  nem sempre um Estado  através da capacidade de informar e influenciar pessoas em outros países. Por conta das ferramentas de convencimento utilizadas, como intercâmbios educacionais ou culturais e o estímulo à troca de informações e publicações, alguns autores relacionam seu conceito ao de soft power, definido por Keohane e Nye (2001, p. 215-227) como a capacidade de influenciar o comportamento ou interesses de outros corpos políticos através da atração, não coerção, o que exige efetividade dos meios de comunicação (CAMARGO, 2008, p.40-45).

Posteriormente aos ataques do 11 de Setembro e à invasão do Iraque, a utilização da diplomacia pública ganhou maior destaque nos Estados Unidos. Para combater a crescente onda de sentimento antiamericano associada a tais eventos, em 2002 o governo norte-americano lançou duas estações de rádio em árabe  Rádio Sawa e Rádio Farda  “em conjunto” e “amanhã”, respectivamente, com o intuito de impactar a população jovem do Oriente Médio. Em abril de 2003, logo após o início da Guerra do Iraque, os governos britânico e norte-americano inauguraram uma emissora de TV no país invadido batizada de Nahwa Al Hurrieh (em direção à liberdade) para despertar nos iraquianos um sentimento de confiança com relação aos militares. Para o mesmo fim, criou-se um jornal impresso para ser difundido entre o povo iraquiano (CAMARGO, 2008, p.45).

A preocupação com a imagem estadunidense no Oriente médio era tanta, que posteriormente aos ataques, Charlotte Beers, uma das publicitárias mais poderosas do país, foi empossada Subsecretária para a Diplomacia Externa a convite de Colin Powell, Secretário de Estado. Seu objetivo era promover uma percepção positiva dos Estados Unidos no mundo árabe, demonstrando que era uma nação de valores éticos sólidos, minando o sentimento antiamericano (FONTENELLE, 2014, p.42).

Tais esforços corroboram com a hipótese de que ao servir de canal para ampliar a capacidade de sensibilidade e vulnerabilidade, conceitos desenvolvidos por Robert Keohane e Joseph Nye (1989) na Teoria da interdependência, os veículos de informação são alvo dos Estados em uma tentativa de maximizar suas capacidades no tabuleiro internacional. Para os autores, “interdependência, em política mundial, refere-se a situações caracterizadas por efeitos recíprocos entre os países ou entre atores em diferentes países.” De acordo com Burity (2013):

Numa circunstância de interdependência, as relações de poder devem ser percebidas pelos conceitos básicos que definem o poder na interdependência: sensibilidade e vulnerabilidade. A sensibilidade, segundo Keohane e Nye (1989), pode ser entendida como a reação imediata de um Estado a uma determinada política ou conjunto de políticas, presumindo-se que estas permaneçam imutáveis. Quanto à vulnerabilidade, esta pode ser compreendida como a capacidade de reação de um Estado, considerando-se a disponibilidade e a dispendiosidade das alternativas que os atores têm (p.168).

A mídia serviria de amplificador para tais conceitos na medida que através das tecnologias se tornou mais fácil impactar e causar reações de países e povos a determinadas políticas, inclusive permitindo sua manipulação.

O fato é que principalmente após o 11 de Setembro a mídia norte-americana alterou seu padrão jornalístico. Se antes dos ataques agia como watchdog da sociedade civil e cultivava certa independência em relação ao governo, depois passou a veicular reportagens nacionalistas e sem grandes questionamentos (SILVA, 2005, p.6). Foi essa a mudança que permitiu o apoio da opinião pública à GWoT e posteriormente às invasões do Afeganistão  Operação Liberdade Duradoura (Operation Enduring Freedom)  e Iraque  Operação Liberdade do Iraque (Operation Iraqi Freedom), ambas sem autorização da ONU.

Rapidamente a mídia norte-americana interrompeu a programação cotidiana e foi palco de uma espécie de espetacularização da guerra, criando um ambiente social beligerante. Para os Estados Unidos, era preciso produzir legitimidade e convencer de que a ofensiva contra o Iraque era a solução. Ao se comportar como caixa de ressonância servindo aos meios militares, a mídia fez da informação uma arma, uma modalidade determinante da violência militar (CRESPY, 2006, p.72). Edward Said descreveu a atmosfera criada pela mass media naquele contexto:

Todos os canais importantes empregam agora como “consultores” generais aposentados, agentes da CIA, especialistas em terrorismo e conhecidos neoconservadores. Todos cospem um jargão complicado, desenhado para transmitir uma pitada de autoridade, mas na verdade tudo o que fazem é apoiar os Estados Unidos: do seu papel no âmbito da ONU às areias da Arábia. Somente um dos jornais importantes, de Baltimore, publicou algo sobre a espionagem, a escuta telefônica e o Conselho de Segurança[...]. Não se ouve nem se lê vozes antibélicas em nenhum meio importante nos Estados Unidos, não há árabes ou muçulmanos (todos foram condenados em massa para as fileiras de fanáticos e terroristas deste mundo); não há críticos de Israel nem no Public Broadcasting, nem no The New York Times, New Yorker, US News and World Report, CNN, entre outros. Quando estes meios mencionam, como pretexto para ir à guerra, que o Iraque tem ignorado 17 resoluções das Nações Unidas, não mencionam as 64 resoluções que Israel tem ignorado (com respaldo dos Estados Unidos). Tão pouco mencionam o sofrimento humano que o povo iraquiano suporta já faz 12 anos. Qualquer coisa que o espantoso Saddam Hussein tenha feito, Israel e Sharon o fizeram com respaldo estadunidense, e sem dúvida ninguém diz nada destes últimos enquanto fulminam o líder iraquiano. Isto faz com que as advertências de Bush e outros, exigindo o cumprimento das resoluções das Nações Unidas, sejam um escárnio total (SAID, 2003 apud CUNHA, 2013, p.12).

Por sua vez, o governo norte-americano logo cuidou para que os representantes da mídia  os jornalistas estivessem alinhados às versões oficiais, a fim de controlar a opinião popular em torno da guerra, como ocorreu em diversos eventos históricos:

As duas grandes guerras mundiais são fartamente ilustrativas dos esforços das nações envolvidas no sentido de usar o jornalismo para mobilizar favoravelmente a opinião pública. Se, por um lado, Hitler usava o rádio, o cinema e a imprensa para promover os ideais e feitos do nazismo, o desembarque dos soldados aliados na costa francesa no dia D, bem como a tomada americana das ilhas do Pacífico, também obedeceram a organização e produção profissionais, em que pela primeira vez o governo norte-americano empenhou-se em enviar fotógrafos e cineastas para dirigir os cenários, personagens e histórias da guerra, a fim de garantir as imagens de impacto que circularam o mundo (ALDÉ, 2003, p.4).

Foi nesse sentido que surgiram os embedded journalists (jornalistas incorporados), profissionais que seriam alocados nas diversas unidades de combate. Dessa forma, esperava-se que surgissem laços entre membros da imprensa e militares, permitindo o controle de informações por parte dos oficiais. Assim, o conflito foi visto de perto pelos jornalistas, ao contrário do que ocorreu na Guerra do Golfo de 1991, em que esses foram proibidos de acompanhar os acontecimentos no teatro de operações, tendo acesso somente a imagens oficiais, controladas pela Coalizão. Por se tratar de uma estratégia militar de destaque incorporada ao esforço de guerra estadunidense e que pautou toda a cobertura do conflito, o caso dos jornalistas incorporados será tratado com maior precisão no capítulo seguinte.

“The first casualty, when war comes, is truth.”

Hiram Johnson, senador norte-americano

6.  CAPÍTULO III – Guerra pelas mentes

6.1. Mídia e guerra

Antes de tratarmos especificamente do caso dos embedded journalists, lançaremos um olhar histórico sobre o surgimento da censura no contexto da guerra. Também será abordada a origem da propaganda política. Posteriormente discorreremos sobre a relação entre mídia e guerra, derivada das tensões entre a própria mídia, a opinião pública e o Estado, procurando expor o caminho percorrido na Guerra do Golfo até a criação do sistema de embedding.

Como vimos nos capítulos anteriores, a comunicação é um elemento estratégico do esforço de guerra, tanto no que diz respeito à propaganda oficial, quanto na conquista e manutenção da opinião pública, ações em que a imprensa livre exerce papel fundamental (ALDÉ, 2004, p.2).

A censura em um contexto de conflito surgiu na Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), confronto religioso entre católicos e protestantes que levou ao desmonte do Sacro Império Romano-Germânico. Por meio de imposições governamentais, taxações exorbitantes e proibição de circulação de jornais extraoficiais, procurava-se impedir que revoltas e revoluções de outros países extrapolassem fronteiras (BORGES, 2005, p.14).

A propaganda política, por definição instrumento de influência da opinião pública, por sua vez, data do século XX. Propiciada pelas novas técnicas de informação e comunicação, esse viés propagandístico se relaciona com o surgimento de conflitos e foi direcionado pela formação de nações cada vez mais unificadas. A partir do momento em que o indivíduo foi convocado para guerras e exigiu-se sua participação na vida pública, de acordo com Jean- Marie Domenach (1963),

A política exterior não interessa apenas às chancelarias; agita, igualmente, a opinião nacional. Por seu turno, a opinião transforma-se em um instrumento de política exterior; previsões apoiam-se na calma ou na inquietação da opinião e utiliza-se dela para sustentar uma política ou pressionar a do adversário; o irrompimento da guerra de 1870, com o despacho truncado de Ems, as edições especiais dos jornais, a exaltação repentina do chauvinismo, constituem brilhante sintoma dessa aglutinação nacional e significam que a opinião pública ascende a um novo estádio (p.5).

7. A GUERRA DO GOLFO (1990-1991)

Na Guerra do Golfo a imprensa foi submetida a forte censura. A ideia que circulava entre os militares era de que como no Vietnã a guerra foi televisionada sem qualquer impedimento, qualquer outro confronto em que viesse a acontecer o mesmo seria uma guerra perdida. Assim, a Operação Tempestade no Deserto foi apelidada de Operação Mordaça no Deserto, tendo em vista o estrito controle da operação de mídia (FONTENELLE, 2013, p.24).

Pela primeira vez um conflito foi transmitido em tempo real durante 24 horas por dia a nível mundial. A manipulação da mídia a levou a exercer função de relações públicas e a estratégia dos militares era tornar a guerra séptica para a opinião pública. A operação Desert Storm ficou conhecida como a videoguerra por sua retratação com operações cirúrgicas e sem mortos, uma versão sanitizada da guerra. De acordo com Mattos (2003, apud CAMARGO, 2005, p.52), “a videoguerra desumanizou a guerra, pois todos os alvos eram transformados em meros pontos luminosos de computadores.”

A intenção era não só garantir a mobilização dos Estados Unidos para um conflito prolongado contra o Iraque, como também fazer da mídia arma através de uma estratégia denominada shock and awe. Doutrina militar baseada no uso da força decisiva e destrutiva de uma só vez, a shock and awe assemelha-se a blitzkrieg alemã, com visão ampla sobre o campo de batalha e demonstrações de poder com o intuito de imobilizar a percepção do adversário e minar sua vontade de lutar. Para a efetivação de tal estratégia, era necessária a presença de repórteres transmitindo ao vivo do front, além do uso maciço da televisão como parte da guerra de informação (PAULINO, 2009, p.84).

A cobertura era feita por um sistema de pool, em que alguns jornalistas iam ao front e posteriormente passavam as informações aos outros. Qualquer um que quebrasse esse sistema era considerado antipatriota. Por conta da falta de informações, ao início da guerra somente Peter Arnett, correspondente da CNN se manteve em Badgá.

A administração profissional de noticiários em uma forma inteligente que entende as necessidades da mídia, enquanto as monitora, pode levar a guerra ao vivo às casas das pessoas com uma percepção limitada e saneada da matança e do sofrimento (....). É evidente que a Guerra do Golfo foi o ensaio geral para um novo tipo de guerra (CASTELLS, 2003 apud CAMARGO, 2008, p.69).

A censura sempre esteve presente em um ambiente de guerra. A liberdade de imprensa não é garantida nem mesmo quando países como os Estados Unidos, que a têm assegurada pela Primeira Emenda, estão envolvidos, já que o objetivo dos Estados de construir um consenso perante a opinião pública necessariamente perpassa pela tentativa de controlar a mídia.

Conquanto, como vimos no Capítulo 2, a relação entre os meios de comunicação e o governo (e consequentemente os militares) em um contexto de guerra não é engessada: ora a mídia pode assumir postura parcial e nacionalista, ora pode ser cão de guarda da sociedade civil e influenciar a tomada de decisões governamentais, fazendo com que a opinião pública seja acatada, como ocorreu na Guerra do Vietnã (CAMARGO, 2005, p.74).

Em tempos de conflito, há um equilíbrio delicado entre a censura do governo, a correspondência de guerra e o direito à imprensa livre. Em essência, na relação mídia-militares há uma interdependência para a propagação do sentimento de guerra e ambos têm o poder de destruir a credibilidade um do outro perante o público (TUOSTO, 2008, p.21). Essa tensão é descrita por Kirtley:

A missão dos militares é lutar e vencer seja qual for o conflito que se apresente - de preferência no campo de batalha, mas certamente na opinião pública e nos livros de história. O jornalista, por outro lado, é um cético, se não um cínico, e busca procurar, encontrar e relatar a verdade - uma missão que ambas as partes consideram incompatível com a guerra bem-sucedida, que depende tanto do sigilo e do engano quanto da estratégia superior, táticas, armamento e mão de obra (KIRTLEY, 2001 apud SHAH, 2005, s.p).

Entendemos que para melhor compreensão das Relações Internacionais contemporâneas, a percepção do comportamento adotado pelas organizações militares e pela mídia na Guerra do Iraque deve ser feita a partir dos eventos históricos acima, não sendo o conflito entendido como um ponto isolado, mas parte de um encadeamento inserido na história do papel dos meios de comunicação em conflitos internacionais.

3.2 A Guerra do Iraque e os jornalistas embedded

You will fall in with a bunch of grunts, experience and share their hardships and fears and then you will feel for them and care about them. You will wind up loving them and hating their officers and commanders and the administration that put them (and you) in harm’s way. Ernie Pyle loved his grunts; Jack Laurance and Michel Herr loved theirs; and I loved mine. And as we all know love blinds and in blinding it will alter the reporting you thought you were going to do. Trust me. It happens, and it will happen no matter how much you guard against it.

Jeff Gralnick, enlistado pela NBC News

A Guerra do Iraque, ou Segunda Guerra do Golfo, como vimos anteriormente, foi marcada por uma censura muito mais rígida do que a Primeira. Nela operaram não só os filtros de Herman & Chomsky explicitados no Capítulo 2, como também o embedding. O sistema de jornalistas incorporados era uma alternativa para controlar a mídia de forma discreta e surgiu como uma forma de gestão da informação. Embedding significa “viver, comer e mover-se em combate com a unidade a qual você está ligado” (WHITMAN, 2003 apud PFAU, 2004). No Brasil, o termo embedded journalist recebeu diversas traduções, dentre elas jornalistas engajados, acamados, embutidos, incorporados ou enlistados.

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O programa foi idealizado por Victoria Torie Clarke, Secretária Adjunta de Defesa para Assuntos Públicos do governo norte-americano. Em um memorando de dez páginas preparado para o Conselho de Segurança Nacional, Clarke e Donald Rumsfeld Secretário de Defesa na época   argumentaram que a permissão para que os jornalistas acompanhassem o conflito de perto garantiria a retratação fidedigna da guerra, mostrando tanto o lado bom quanto o ruim, evitando, assim, que a população norte-americana fosse vítima de desinformação e distorções.

Nosso pessoal no campo precisa contar nossa história. Somente comandantes podem garantir que a mídia chegue à história ao lado das tropas. Devemos nos organizar e facilitar o acesso da mídia nacional e internacional às nossas forças, incluindo as forças envolvidas em operações terrestres (...). Para conseguir isso, vamos incorporar a mídia às nossas unidades. Essa mídia incorporada viverá, trabalhará e viajará como parte das unidades (...) para facilitar uma cobertura máxima e profunda (CLARKE, 2003 apud SHAH, 2007).

Bryan Whitman, Vice-secretário Assistente de Defesa para Operações da Mídia declarou:

Reconhecemos desde cedo que para tornar a verdade uma questão era necessário haver uma campanha militar, porque Saddam Hussein era um mentiroso experiente, um mestre do engano e a única maneira de se defender contra isso é através das observações objetivas de uma terceira parte de profissionais observadores (...). Nós também acreditamos que os norte-americanos merecem ver exatamente quão bem treinadas são suas forças militares, o quão dedicadas e profissionais (...) (WHITMAN, 2003 apud PFAU, 2004, p.75).

A criação do sistema embedding reforçou a ideia de que as guerras contemporâneas são deflagradas em dois campos simultaneamente, o real e o virtual (midiático) ou físico e psicológico. As estratégias de comunicação e relações públicas concebidas pelos governos britânico e norte-americano em conjunto com as Forças Armadas durante a preparação para o conflito demonstraram a importância atribuída a mídia nesse cenário, tanto com relação à conquista da opinião pública, quanto para o sucesso das operações (ARAÚJO, 2005, p.2).

Segundo Fontenelle (2014), “os países aliados receberam 775 nomes de jornalistas para acompanhar as tropas dos exércitos britânico ou americano, o que correspondia a 628 equipes e 262 veículos. Cerca de 10% eram mulheres.” Além disso, deu-se prioridade aos veículos de alcance internacional e também à mídia norte-americana, que ocupava 73,5% das posições (p.52).

Em diretiva do Departamento de Defesa, assegurou-se que repórteres incorporados em bases terrestres e aéreas teriam total acesso às missões e seus combatentes, além de todas as entrevistas serem registradas. Em troca, eles se comprometeriam a não divulgar dezenove categorias de informações, que iam desde números específicos de tropas, aeronaves e unidades até informações sobre futuras operações e feridos (FAHMY, 2005, p.302). De acordo com Sydney H. Schanberg, correspondente do The New York Times: “Embedded means you’re there. It also means you’re stuck.” (KNIGHTLEY, 2004, p.533).

As diretrizes do programa foram delineadas pelo Public Affairs Guidance (PAG) on Embedding Media During  Possible Future Operations/Deployments in the U.S. Central Commands (CENTCOM) Area of Responsibility (AOR). Nele continham categorias de informações que não poderiam ser veiculadas pela mídia, tais como:

a. Número de tropas, aviões e navios das unidades;

b. Nomes e localização de instalações militares ou unidades. Imagens que as identificassem não seriam liberadas para veiculação na mídia;

c. Informação sobre operações militares futuras, táticas e procedimentos;

d. Nenhuma foto ou imagem de prisioneiros de guerra mostrando a face, etiqueta com nome ou qualquer elemento de identificação poderia ser tirada ou produzida;

e. Foto ou vídeo de operações de custódia ou entrevistas.

Tais restrições não são novas. O embedding program é resultado do desenvolvimento da relação mídia-militares descrita na seção anterior e foi precedido pelo Relatório Sidle (1984). Contendo oito recomendações que asseguravam a cobertura midiática de forma a garantir o sucesso das operações militares, nele se endossava o uso do sistema de pool adotado na Guerra do Golfo. Defendia-se também que o acesso às operações militares deveria ser regido por regras do DoD (U.S. Department of Defense). Em 1992 foi publicado o DoD Principles for News Media Coverage of DoD Operations, reiterando o que foi dito anteriormente e destacando a importância do envolvimento pessoal do comando militar nas operações de mídia (PRITCHARD, 2003, p.14).

Na Guerra do Iraque, o sistema de informação era estruturado de forma que se pudessem implementar verificações de segurança: todas as notícias eram transmitidas através de dois centros militares, a Unidade Móvel de Transmissão (UMT), popularmente conhecida como Hub, posicionada em Basra, e o Centro de Mídia do Comando Central, localizado no Catar. Enquanto o Hub centralizava a transmissão, criptografando-a para que as reportagens não estivessem ao alcance dos adversários, o Centro de Mídia verificava se o material estava de acordo com as regras de publicação, decidindo quais sofreriam censura prévia. Pode-se dizer que essa estratégia de comunicação se apresentou como uma adaptação moderna dos filtros de Herman & Chomsky articulados no capítulo anterior (PAULINO, 2009, p.91).

No Hub se encontravam aproximadamente quarenta oficiais e quarenta jornalistas, entre operadores de câmera, correspondentes e equipe técnica, tendo a sua disposição as mais variadas tecnologias. Todavia, o material captado pelos embedded era transportado para a Unidade pelos soldados e lá era editado, não sendo permitido entrar ao vivo dos campos de batalha. O sistema logo gerou certo descontentamento nos jornalistas, levando em conta a indisponibilidade imediata dos fatos. Já no CentCom, entrevistas eram concedidas todos os dias, porém, sem que nenhuma informação relevante fosse passada aos correspondentes (FONTENELLE, 2014, p.48-50).

Não há dúvidas de que na Guerra do Iraque houve uma maior abertura aos veículos midiáticos através do sistema de incorporação. No entanto, essa maior liberdade de atuação na verdade se configurou como uma estratégia de controle da informação por parte dos governos norte-americano e britânico, favorecendo a predominância da versão militar. O acesso ao front e às fontes oficiais foi minado pelas regras e constrangimentos impostos a esses profissionais. Os embedded journalists somaram ao esforço de guerra, numa tentativa de inseri-los na máquina de propaganda.

A propaganda é uma arma de guerra, muitas vezes mais eficaz que outras armas e umbilicalmente ligada à guerra porque sempre se tem tentado intimidar o inimigo, exagerar a própria força, semear discórdias, difundir falsas informações, manter o moral das próprias tropas. No campo da comunicação social, a propaganda consiste num processo de disseminação de ideias através de múltiplos canais, com a finalidade de promover no grupo ao qual se dirige os objetivos do emissor (QUINTERO, 1993 apud ROCHA, 2004, p.36).

O interesse militar em adotar o embedding não era somente garantir a profundidade da cobertura, mas também logicamente influenciar a opinião pública.

A cobertura midiática de qualquer operação futura irá, em grande medida, formar a percepção pública do ambiente de segurança nacional agora e nos próximos anos. Isso vale para o público dos EUA, o público de países aliados cuja opinião pode afetar a durabilidade de nossa coalizão e o público de países que realizamos operações, cuja percepção de nós pode afetar o custo e a duração do nosso envolvimento (PAG on Embedding Media During  Possible Future Operations/Deployments in the U.S. CENTCOM Area of Responsibility).

Rapidamente o embedding foi apontado como um obstáculo à manutenção da objetividade jornalística, tendo em vista a relação de proximidade entre esses profissionais e as tropas. Argumenta-se que surgiu uma espécie de Síndrome de Estocolmo: como a mídia dependia dos soldados que cobria para sua própria sobrevivência, teria “se apaixonado” por eles, perdendo a perspectiva.

Um total de 692 jornalistas trabalharam incorporados em unidades militares (MARDARAS; GONZÁLEZ; PEÑÍN; SABARÍS, 2014, p.651). Durante a guerra, 56 foram assassinados e 29 foram sequestrados. De acordo com o Repórteres Sem Fronteiras, essa foi a guerra mais mortífera para jornalistas desde a Guerra do Vietnã, “In 25 cases (45%), Reportes Without Borders is sure they were deliberately killed, a much higher than in earlier wars, when journalists were usually the victims of indiscriminate attacks and stray bullets.” No entanto, somente 4 casos envolviam jornalistas embedded (BORGES, 2005, p.55), o restante não era incorporado, os chamados jornalistas independentes ou unilaterais. Esses profissionais eram constantemente vistos com desconfiança por parte dos militares, já que não podiam ser controlados como os embedded. Por isso, muitos foram expulsos pelos soldados.

As reações à proposta do Pentágono de integrar cerca de 600 jornalistas às unidades de combate dividiu opiniões. Para alguns a prática seria favorável à mídia, tendo em vista a proximidade permitida, e os repórteres não se deixariam influenciar pela mesma, fornecendo materiais que retratavam fielmente a natureza da guerra. Outros compreenderam que após o 11 de Setembro a imprensa tenderia a assumir postura patriótica. Ademais, acreditava-se que a presença no campo de batalha permitiria que os embedded desmentissem falsas declarações dos militares. Também havia os que questionavam a compatibilidade do sistema embedded com o estatuto profissional e a liberdade de expressão garantida pela Primeira Emenda (MESQUITA, 2003 apud ROCHA, 2004, p.37). Críticos chegaram a afirmar que alguns repórteres eram líderes de torcida, não profissionais.

Outra crítica direcionava para a possibilidade de os incorporados terem acesso somente a uma pequena parcela do teatro da guerra, ficando limitados ao que acontecia com as unidades que acompanhavam e não tendo informações contextualizadas num cenário geral, já que não detinham permissão para viajar de forma independente e acesso a outras fontes como soldados e cidadãos iraquianos. Como o repórter do U.S. News & World Report sugeriu: “Sentar em cima de um veículo de combate no sul do Iraque pode lhe dizer muito sobre uma escaramuça, mas não necessariamente alguma coisa sobre o estado geral da guerra” (FAHMY, 2005, p.303).

Em estudo realizado pela Journalism & Mass Comunication Quarterly, comprovou-se que a cobertura realizada pelos incorporados foi mais descontextualizada, focando principalmente em unidades de combate específicas e visões pessoais, em vez de panoramas gerais. De acordo com o estudo, os embedded journalists adotaram um enquadramento episódico. O enquadramento diz respeito às escolhas que o jornalista faz ao construir a notícia, o que afeta como ela será interpretada pelo leitor e consequentemente a percepção e opinião do mesmo. O enquadramento episódico busca personalizar questões, apresenta exemplos convincentes e é essencialmente ilustrativo, no entanto, limitado quanto a sua totalidade de cobertura (PFAU, 2004, p.77).

Tal enquadramento teria sido adotado por conta da proximidade dos profissionais com o objeto a ser coberto, as unidades de combate. A Teoria da Penetração Social, dos psicólogos Irwin Altman e Dalmas Taylor, oferece uma explicação, evidenciando como relações interpessoais se desdobram e as implicações do desenvolvimento de um relacionamento:

Relacionamentos se desenvolvem através do contato, o que possibilita o aumento da auto revelação. A auto revelação envolve o compartilhamento de informações sobre si mesmo com o outro, o que facilita a penetração social. Relações começam com pouca amplitude e profundidade, mas aumentando a auto revelação desenvolvem intensidade e intimidade (PFAU, 2004, p.78).

Esse processo geralmente requer mais tempo, todavia se acelera em ambientes de conflito. A ligação pessoal é feita mais rápido, podendo influenciar a percepção dos envolvidos. Assim, os jornalistas poderiam internalizar os valores da unidade militar em que estavam embutidos, aumentando potencialmente a probabilidade de realizarem uma cobertura tendenciosa.

Outro conceito que auxilia na compreensão da relação desenvolvida entre os media e os militares na Guerra do Iraque através do embedding é a aculturação, processo no qual “os membros de uma organização adquirem conhecimentos e habilidades necessárias para se comportar como membros componentes.” Esse processo está presente mais intensamente nas organizações militares em contextos de ameaça à vida e teria afetado também os incorporados por conta das condições de combate, já que certo grau de aceitação dos valores da cultura militar é essencial para o sucesso do embedding. Para iniciar o processo de aculturação, jornalistas estadunidenses foram encorajados a treinar em campos militares antes de irem ao front, o que 238 fizeram.

Em essência, os jornalistas incorporam tanto uma unidade militar quanto sua cultura: os dois são praticamente inseparáveis. O processo de aculturação em condições de combate garante que, até certo ponto, os jornalistas inseridos serão afetados pelos valores de uma unidade militar, incluindo: “significado compartilhado, compreensão compartilhada e tomada de consciência compartilhada” (HEATH, 2000, apud PFAU, 2004 p.79).

Como resultado de tais processos, os jornalistas incorporados passaram a usar frequentemente o pronome “nós” para descrever a marcha estadunidense a Bagdá. A proximidade entre repórteres e tropas afetou a objetividade e a independência dos mesmos, que adotaram de certa forma a autocensura. Há vários relatos de incorporados permitindo que soldados utilizassem seus telefones para contactar a família em casa. Ainda, os embedded journalists produziram notícias mais favoráveis à operação Iraqi Freedom do que os nonembedded.

Quando você é parte das tropas que está acompanhando, aqueles são seus parceiros, são seres humanos. Vocês potencialmente serão baleados juntos e eu acho que há um senso de que você está se tornando parte desse grupo de uma forma que um jornalista não necessariamente quer ser. (THOMPSON, 2003 apud PFAU, 2004, p.79)

Em pesquisa realizada pela Universidade de Harvard, reafirmou-se através de análise dos principais jornais impressos que trataram da Guerra do Iraque, notadamente The Washington Post, The New York Times, Los Angeles Times e Chicago Tribune, a parcialidade dos embedded journalists. Foram examinadas a coberturas durante os primeiros vinte e um dias da invasão estadunidense e os vinte e um dias de ocupação do Iraque. Os resultados revelaram divergências significativas entre os incorporados e os independentes no que diz respeito ao tom para com os militares, confiança pessoal nos militares, enquadramento e autoridade (HAIGH, 2006, p.139). Para Fahmy e Johson (2005):

De fato, análises de conteúdo encontraram diferenças consideráveis entre jornalistas incorporados e unilaterais cobrindo a guerra. Jornalistas incorporados descreveram a guerra em termos da fraqueza iraquiana, a frequência da deserção ou rendição do Iraque, e a alegria dos cidadãos iraquianos após a queda do regime de Hussein. Histórias discutiram interações amistosas entre soldados aliados e civis iraquianos, mas também caracterizaram o tédio e o cansaço da guerra. A guerra foi geralmente descrita como um sucesso inigualável, com as tropas dos EUA precisamente alvejando alvos inimigos. Jornalistas unilaterais tenderam a ser mais negativos, descrevendo a possibilidade de importantes inconvenientes contra-ataques de armas tradicionais, a adequação do planejamento de guerra dos Aliados, a raiva contra os americanos pelos danos infligidos durante a guerra e a desconfiança da intenção americana (p.305).

Diferentes ênfases eram dadas pelos unilaterais e embutidos. Enquanto os primeiros relatavam questões como a dos refugiados, civis iraquianos sendo mortos e a recepção e percepção dos iraquianos quanto às forças militares estadunidenses, os segundos focavam nas tropas e em seu limitado contato com a população do Iraque (FAHMY e JOHNSON, 2005, 312). Havia também uma certa rivalidade entre os dois grupos: em inglês, “Unidade Móvel de Transmissão” é “Forward Transmission Unit”, de sigla FTU. Para rivalizar com os jornalistas independentes, os embedded ressignificaram a sigla como Fuck The Unilateral. Fontenelle (2014) descreveu a tensão:

Os independentes recebiam tratamento similar quando buscavam a proteção das tropas militares. A reclamação dos enlistados era a mesma daqueles que estavam no Hub: eles contavam com a segurança de estar com soldados treinados para o combate, mas fazia parte do acordo com o exército não se distanciar das tropas. Logo, por que os unilaterais teriam o direito de fazer as duas coisas? Outra queixa comum surgia quando algo relevante acontecia nos campos de batalha e os repórteres do Hub não conseguiam chegar ao local (p.65).

Além da cobertura mais positiva e a retratação de histórias individuais de militares, os relatos dos jornalistas incorporados eram considerados de maior autoridade, tendo em vista que seriam uma fonte mais confiável, já que acompanhavam as tropas de perto. Contudo, críticos do sistema embedded chegaram a utilizar o trocadilho in bed (na cama) para se referir à relação de proximidade desenvolvida pelos jornalistas e as unidades em que foram embutidos.

Já no início do conflito, oficiais dos Estados Unidos e da Inglaterra, numa tentativa de incutir culpa e arrefecer a oposição ao conflito, ressaltaram para a população que mesmo que ela se opusesse à guerra, deveria agora apoiar as tropas. A partir daí, a BBC por exemplo reduziu significativamente sua cobertura antiguerra, nem mesmo os protestos de mais de quatrocentas mil pessoas em Londres ganharam grande cobertura. Muito se utilizou “pró-tropas” para se referir na verdade a “pró-guerra”, o que segundo a FAIR (Fairness and Accuracy In Reporting), é antijornalístico.

Em seu livro War is a force that gives us meaning, o veterano correspondente de guerra Chris Hedges afirma que o mito social toma forma em situações de conflito internacional, assim há uma interrupção do senso crítico e passa a se adotar os clichês cunhados pelo governo e um sentimento de orgulho por ser capaz de submeter o mundo à “nossa verdade”. Hedges argumenta que é muito mais fácil e confortável acompanhar a versão oficial dos fatos, e é por isso que a guerra tem sucesso na identificação maniqueísta do “bem” contra o “mal” (ALDÉ, 2004, p.7).

Nesse sentido, vale destacar o papel da Fox News no que concerne à manipulação da opinião pública. A cobertura feita pela rede de TV estadunidense teve grande impacto no nível de desinformação de seus telespectadores. Uma pesquisa realizada pelo Program on International Policy Attitudes, da Universidade de Maryland, concluiu que 80% dos que assistiam ao canal erravam pelo menos uma entre três perguntas sobre a guerra: 33% acreditavam que os Estados Unidos haviam encontrado armas de destruição em território iraquiano; 35% achavam que a opinião pública mundial era favorável do conflito e 66% acreditavam que o país havia encontrado evidências claras de que Saddam Hussein estava diretamente ligado a Al-Qaeda (FONTENELLE, 2014, p.68).

Em estudo do The Center for Public Integrity, comprovou-se que o governo Bush mentiu deliberadamente sobre as suspeitas de que o Iraque produzia ou detinha armas de destruição em massa através de 935 declarações falsas – em pronunciamentos, relatórios, entrevistas e outros meios. Foi com base em tais declarações que a mídia construiu sua cobertura de guerra. De acordo com The New York Times 42 por cento do público norte-americano acreditava que Saddam Hussein estava diretamente envolvido com os ataques do 11 de Setembro. A ABC afirma que 55 por cento acreditava que Saddam dava suporte à Al Qaeda (SHAH, 2007).

These journalists become participants in the war effort. They want to do their bit. And their bit is the dissemination of myth, the myth used to justify war and boost the morale of the soldiers and civilians. The lie in wartime is almost always the lie of omission. The blunders by our generals — whom the mythmakers always portray as heroes — along with the rank corruption and perversion, are masked from public view. The intoxication of killing, the mutilation of enemy dead, the murder of civilians and the fact that war is not about what they claim is ignored. But in wartime don’t look to the press, or most of it, for truth. The press has another purpose (HEDGES, 2003 apud SHAH, 2007).

Por conta das estratégias adotadas pelo governo, a cobertura da Guerra do Iraque foi definida por elementos como a censura, autocensura, notícias falsas, propaganda, excesso de notícias e infotainment (combinação entre informação e entretenimento). Analisaremos alguns casos de maior relevância abaixo que comprovam a presença dos mesmos na Operação Iraqi Freedom, demonstrando como foram tratados pela mídia. São eles: o bombardeio do Hotel Palestina, o bombardeio do escritório da Al-Jazeera, a derrubada da estátua de Saddam Hussein, o falso resgate de Jessica Lynch, a demissão de Peter Arnett e o bombardeio da TV iraquiana.

8. O bombardeio do Hotel Palestina (censura)

No Hotel Palestina estavam hospedados jornalistas independentes que cobriam o lado iraquiano da guerra. Não era permitido sair sem a autorização do governo do Iraque e os funcionários atuavam como verdadeiros espiões. Quando deixavam o hotel, os repórteres eram acompanhados e só lhes era mostrado o que demonizava o lado contrário da guerra (FONTENELLE, 2014, p.55).

 No dia 8 de abril de 2003 o hotel foi atingido por um tanque estadunidense, levando a óbito dois cinegrafistas. Forças norte-americanas alegaram responder a um ataque na área, todavia, jornalistas desmentiram essa versão dizendo não terem ouvido qualquer disparo anterior. No que diz respeito aos repórteres unilaterais, a posição da coalizão se assemelhava à postura adotada por Bush ao declarar guerra ao terrorismo: “You’re either with us or you’re against us” (KNIGHTLEY, 2004, p.537).

Cristiana Mesquita, correspondente da agência de notícias Associated Press, e presente no momento do ataque, disse em entrevista[7] que os militares alegaram ter confundido uma câmera apontada para eles com um lança-foguetes. A jornalista declarou “eles sempre usam essa desculpa. No dia que eles disserem ‘eu morri porque achei que era uma arma e não uma câmera’, eu acredito nessa história, porque é sempre ao contrário” (MESQUITA, 2019).

9. O bombardeio do escritório da Al-Jazeera (censura)

No mesmo dia, forças da coalizão bombardearam o escritório da TV pan-árabe em Bagdá, matando um cameraman. A hostilidade do Pentágono perante a Al Jazeera foi notável durante todo o conflito, já que sua cobertura “incitava sentimentos antiamericanos.”

10. A derrubada da estátua de Saddam Hussein (infotainment, propaganda)

Logo após da tomada de Bagdá, a estátua de Saddam foi derrubada na praça Fardus, em um claro simbolismo: significava a supremacia militar da coalizão, a desmoralização de Saddam. O acontecimento foi transmitido com grande euforia pela mídia.

O fato é que havia poucos iraquianos presentes. As imagens transmitidas por redes de TV como a CNN e a Fox News feitas em um ângulo mais fechado  deram a impressão de que uma multidão estava presente, e sua cobertura foi questionada. Um soldado posicionou a bandeira estadunidense na cabeça da estátua de Saddam, claramente em uma tentativa de produzir imagem de impacto para os comerciais da campanha de reeleição de Bush (PRITCHARD, 2003, p.12). “Coincidentemente”, era mesma bandeira hasteada no Pentágono após o 11 de Setembro (FONTENELLE, 2014, p.60).

11. O falso resgate de Jessica Lynch (notícia falsa, propaganda)

De acordo com a mídia norte-americana, Jessica Lynch fazia parte de um grupo de dez soldados que foram capturados por tropas iraquianas. A combatente teria sido baleada, esfaqueada e levada para um hospital na cidade de Nassíria, onde teria sofrido maus tratos. Uma semana depois, forças especiais estadunidenses invadiram o hospital numa missão para libertá-la. Bush chegou a anunciar o resgate à nação e o Pentágono distribuiu para a mídia vídeos feitos durante a operação dignos de Hollywood: o resgate foi registrado com equipamento de visão noturna por um ex-assistente do diretor Ridley Scott, sendo considerado a nova versão do filme O regaste do soldado Ryan (SHAH, 2007).

Após a guerra, jornalistas do The New York Times averiguaram o caso. Na verdade, Lynch havia sofrido um acidente com o pelotão em que viajava e não foi maltratada pelos médicos. O hospital em que ela se encontrava já estava ocupado pelas forças norte-americanas no dia do resgate e não houve resistência ou ferimentos por parte da equipe médica, que tentou devolvê-la aos norte-americanos, mas foi recebida a tiros na barreira de segurança.

Caso icônico da teatralização da guerra, o resgate de Lynch ilustra a clara apropriação dos meios de comunicação no esforço de guerra. As imagens foram exibidas por todo o mundo sem que a mídia sequer questionasse a versão oficial. Posteriormente, Jessica publicou um livro intitulado  I’m a Soldier Too em parceria com o jornalista Rick Bragg, jornalista do The New York Times, contando a verdade sobre o incidente.

Figura 1: notícia do resgate de Jessica Lynch no site da TV a cabo norte-americana CNN.

Figura 2: Carta  ao editor do The New York Times repercutindo a notícia do resgate.

12. Demissão de Peter Arnett (censura)

Arnett era norte-americano e correspondente veterano da NBC. Foi demitido após criticar em entrevista à TV iraquiana a estratégia de guerra adotada pelos Estados Unidos, provocando tensão entre mídia e governo. Sua polêmica declaração afirmava:"The first war plan has failed because of Iraqi resistance. Now they are trying to write another war plan. Clearly, the American war planners misjudged the determination of the Iraqi forces."

O jornalista, vencedor de um Prêmio Pulitzer por sua cobertura na Guerra do Vietnã, foi contratado menos de 24 horas depois pelo Daily Mirror, tabloide diário britânico. No dia seguinte, a primeira página do jornal inglês trazia “Fired by America for telling the truth… hired by Daily Mirror to carry on telling it” (CNN, 2003).

Neal Shapiro, presidente da NBC declarou que o repórter errou ao ceder entrevista para a TV de controle estatal iraquiano em um cenário de guerra, se equivocando ao discutir suas opiniões e observações pessoais. Em entrevista a Matt Lauer no The Today Show, Arnett se desculpou por suas declarações.

Tal caso exemplifica a afirmação de que em um contexto de guerra, o jornalista muitas vezes é visto como representante de seu país, embora seu compromisso seja com a sociedade, e não com governos.

13. Bombardeio da TV iraquiana (censura)

No final de março, a TV iraquiana, fonte de propaganda do país, foi alvo de bombardeio por parte da coalizão, violando as Convenções de Genebra. Entretanto, na mídia norte-americana não houve questionamentos quanto à legitimidade do ato, inclusive incitaram para que o mesmo se concretizasse (SHAH, 2007).

Ainda sobre a cobertura, mortes de civis foram tratadas como “casualidades”. Em alguns momentos elas se tornaram problemas de Relações Públicas, já que prejudicariam o esforço de guerra da coalizão, alarmando a opinião pública. 120 mil pessoas foram mortas até dezembro de 2012, dessas, 55% por forças da coalizão. Além disso, houve um esforço dos governos britânico e norte-americano em sanitizar a guerra. Assim, a mídia acabou focando muito mais nos militares do que nos horrores do conflito.

Outro ponto a ser levantado é a diretiva do Pentágono que estabeleceu que não haveria cerimônias de chegada ou cobertura midiática de militares mortos retornando ou partindo de bases aéreas. O argumento era de que se visava preservar as famílias das vítimas, enquanto críticos apontavam que o ato representava manipulação de imagem e da mídia. Além disso, era permitido que os oficiais censurassem materiais e restringissem transmissões eletrônicas para “segurança operacional”, que pode ser definida como qualquer coisa que o comandante queira censurar (FAHMY, 2005, p.303).

No dia 21 de março de 2003, três dias após o início do conflito, forças iraquianas capturaram soldados da coalizão. A TV estatal iraquiana e a rede árabe de TV Al-Jazeera exibiram as imagens de quatro prisioneiros e de cinco corpos de militares. O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush e o secretário da defesa, Donald Rumsfeld, sugeriram às TVs e aos jornais que omitissem as imagens, as quais feriam a norma da não exibição de prisioneiros instituída pela Convenção de Genebra. Em sintonia com o governo, tanto a imprensa de grande circulação norte-americana quanto os canais de televisão não exibiram os retratos com a justificativa de se tratar de fotos chocantes. Acusada de adotar a autocensura, a mídia norte-americana foi bastante criticada nesse episódio (CANZIAN, 2003 apud CAMARGO, 2008, p.79).

Na cobertura, o desencontro de informações também acabou contribuindo para a desinformação. Casos como da Revolta de Basra, onde supostamente havia uma rebelião iraquiana, foram noticiados sem qualquer checagem. O repórter Bem Brown, da BBC, transmitiu a notícia e depois a desmentiu:

Essa notícia eu creditei aos militares, depois neguei dizendo que eles não achavam que havia acontecido. Olhando para trás, acho que aquilo foi um erro, mas o dado havia sido passado pelos repórteres, depois confirmado pelos militares no Catar, onde ficava o Comando Central (FONTENELLE, 2014, p.48).

O Coronel Sean Tully, diretor do Hub, chegou a afirmar que não tinha certeza do que estava ocorrendo em Basra, mas que de qualquer forma, para o exército, era melhor que a revolta fosse noticiada de qualquer forma.

Para ser bem sincero, eu não estava preocupado, visto que, no final das contas, se eles dissessem que a revolta era massiva, isso era bom para nós porque levantaria questionamentos do tipo “será que a rebelião vai avançar? Será que o mesmo acontecerá em Bagdá?” (FONTENELLE, 2014, p.48).

Situações em que os militares forneciam informações inexatas com o intuito de levantar a moral dos soldados, prejudicar a confiança do governo iraquiano e favorecer sua campanha de guerra foram recorrentes. Alex Thomson, também correspondente de guerra, declarou:

Num determinado dia, disseram-nos que uma grande coluna de tanques havia saído de Basra para atacar os britânicos. Na verdade, eram apenas dois. Esse tipo de coisa acontecia bastante; você transmitia uma notícia à noite, para, na manhã seguinte, aparecer em frente às câmeras e dizer: “infelizmente, a notícia que demos não era verdade” (FONTENELLE, 2014, p.48).

De acordo com Rocha (2004):

Na guerra do Iraque, os exemplos de situações criadas pela propaganda, potenciadas pela falta de um ‘tempo de confirmação’ decorrente da concorrência entre media não faltam: o líder iraquiano Saddam Hussein foi várias vezes dado como provavelmente morto; a 19 de março noticiou-se que o vice-primeiro-ministro do Iraque, Tarek Aziz, abandonara o país num voo para a Bulgária, mas, pouco depois, Aziz aparecia na televisão iraquiana; nos primeiros dias de guerra, anunciou-se nove vezes a tomada do porto de Um Qasr pelas forças britânicas; a notícia da queda da cidade de Nassíria foi transmitida a 22 de março e dias depois havia ainda informações sobre combates (p.37).

Para Virilio “É inútil interrogarmo-nos sobre o que distinguiria, ainda, a “informação” da “propaganda”, na medida em que a desinformação ativa-interativa não se baseia mais na mentira, mas no excesso de informações contraditórias, a sobreinformação” (VIRILIO, 1991 apud ROCHA, 2004, p.36). Clausewitz (1997) afirma que a maior parte da informação obtida em um conflito é contraditória, falsa ou de caráter duvidoso (p.84). Em carta ao editor do The Guardian afirmou-se: “Apesar de vasculhar dois jornais nacionais todos os dias, ouvir rádio, navegar na Internet e assistir aos noticiários da TV, não tenho a menor ideia de como anda a guerra” (KNIGHTLEY, 2004, p.527).

Ainda, para Tuosto, a correspondência de guerra adotada na Guerra do Iraque ampliou três vieses inerentes ao jornalismo: o víes leitor-resposta, o víes editorial e o víes do sacrifício, destrinchados abaixo. Tais vieses limitariam a objetividade e gerariam um efeito de distração e dessensibilização sobre o público norte-americano com relação a guerra, além de perpetuar um excesso de confiança da população nas habilidades dos militares. Para a autora, o embedding seria uma transgressão do princípio de liberdade da imprensa e teria dado início a uma hiper-dramatização da guerra sem precedentes.

14. O viés leitor-resposta

O repórter alteraria o conteúdo e a retórica de acordo com o público do veículo midiático para qual trabalha. Em um contexto de conflito, o jornalista irá inevitavelmente censurar a realidade da guerra de acordo com seus critérios, já que estará expondo a brutalidade e a crueldade ao “inocente público estadunidense” e as famílias dos combatentes têm o direito de saber da morte de seus entes queridos de forma respeitosa, diplomática e formal. Tais pressões significam que o embedded journalist não só se autocensura, como também recebe informações limitadas por questões de sigilo e estratégia militar.

Essa autocensura criaria uma versão fabricada da guerra, uma relativização e distorção da informação. O correspondente Gordon Dillow endossa a afirmativa:

O resultado foi que os fuzileiros soaram muito mais como garotos de coral em minhas histórias do que realmente são. (...) Eu não escondi nada. Por exemplo, quando alguns dos meus fuzileiros navais atiraram em um veículo civil que estava caindo sobre eles, matando três homens iraquianos desarmados, eu relatei isso - mas eu não levei minha história para esse lado, e tive o cuidado de colocá-la no contexto de jovens assustados tentando se proteger ... garotos americanos de face doce, endurecidos por uma guerra que não era de sua responsabilidade (TUOSTO, 2008, p.22).

Bob Roberts, enviado pelo The Daily Mirror, acrescenta:

Os militares estavam numa posição de poder em que podiam liberar informação quando quisessem, e seguraram dados o tempo todo, além de passar informação incorreta, distorcida. Não podíamos fazer muita coisa sobre isso, porque nesse tipo de notícia os militares são a fonte oficial, e não tem muito como verificar a exatidão dos dados. Sem sombra de dúvida, eles distorceram muita informação (FONTENELLE, 2013, p.112).

15. O viés editorial

Como dito anteriormente, os embeddeds tinham acesso somente a uma pequena parcela do teatro da guerra. Cabia aos editores juntar tais “peças” para dar uma visão geral ao público. Dessa forma, as notícias eram filtradas pelo critério do editor, o que introduz significativos problemas de objetividade. A Fox News, por exemplo, foi acusada de adotar a linguagem da administração Bush ao se referir a guerra para derrubar Saddam como “a guerra da América para libertar o Iraque.”

16. O viés do sacrifício

Os ricos do embedding são justificados pela maior objetividade e a cobertura de profundidade. No entanto, a capacidade de relatar objetivamente acaba sendo afetada pelo inerente perigo. É necessário questionar como o viés de sacrifício afeta a objetividade, se o risco de morte é ético e ainda, o que arriscar vidas de civis revela sobre o capitalismo norte-americano no que diz respeito à mídia. Aqui também se insere a questão entre o que separa um jornalista de um soldado ativo em contextos de conflito, já que há relatos de repórteres auxiliando as unidades de combate em que estavam incorporados em situações de ataque (TUOSTO, 2008, p.22-25). Nesse sentido, ao responder o quão perto da morte havia chegado, o jornalista Ben Brown, da BBC, acabou esclarecendo as dificuldades de se manter imparcial perante o risco.

Em Basra foi o mais próximo, aconteceu algo horrível conosco quando estávamos num carro blindado. Ao sair, havia uma grande batalha acontecendo, tiros por todos os lados — na maioria, provenientes dos britânicos —, mas os iraquianos estavam resistindo. Eles me disseram que já podia sair do veículo para dar uma olhada, então, saímos para filmar. Um carro blindado começou a atirar numa parede bem aqui (apontando para seu lado). Era um iraquiano que fingia estar morto. De repente, ele se levantou segurando uma granada, e quando estava se preparando para atirá-la em nós, o veículo o acertou no peito, onde ficou um buraco enorme. Em seguida, meu câmera e eu apertamos as mãos do soldado que atirou nele porque estávamos aliviados. De certa maneira, acho que, naquele momento, cruzamos a linha, porque eu estava feliz, orgulhoso ao ver o iraquiano assassinado, algo que nunca havia sentido antes (FONTENELLE, 2013, p.149).

16.1. Os embedded no espelho

We didn’t want to be in bed with the military, but we certainly wanted to be there.”

Marjorie Miller, editora do Los Angeles Times

Acreditamos que para uma visão total da cobertura da Guerra do Iraque, além dos pontos de vista de críticos e estudiosos, se faz necessário considerar como os próprios embedded journalists avaliam a cobertura realizada por eles no conflito e como apoiadores do sistema se posicionaram.

Enquanto críticos consideraram o embedding como uma experiência falha que serviu mais a objetivos militares do que jornalísticos, muitos jornalistas o entenderam como uma revolução para o direito de informação do público. Para eles, comparativamente, a Operação Iraqi Freedom havia ganho uma cobertura de maior qualidade do que a Desert Storm, na Primeira Guerra do Golfo. De acordo com Fahmy (2005):

Os defensores argumentaram que a incorporação teve sucesso por vários motivos. Primeiro, o governo cumpriu amplamente sua promessa de permitir o acesso, livre de censura. Em segundo lugar, a incorporação de repórteres permitiu a divulgação de relatórios em primeira mão e em tempo real sobre a guerra, dando uma noção mais clara dos horrores e confusão da guerra do que anteriormente. Terceiro, os repórteres em cena poderiam corrigir as distorções dos militares e publicar histórias que poderiam ter sido enterradas por oficiais. Por exemplo, enquanto as autoridades militares informavam que a guerra estava indo bem e os soldados estavam recebendo pouca resistência, a CNN trouxe fotos de ataques às unidades do Sétimo Calvário. Finalmente, enquanto os críticos argumentavam que os jornalistas incorporados “chegavam perto demais” de suas fontes, os defensores observaram que as autoridades militares também se aproximavam dos repórteres e davam-lhes insights que poderiam não ter dado a um repórter comum (p.302).

Em pesquisa que contou com 54 jornalistas incorporados, demonstrou-se a ambivalência dos mesmos quanto ao sistema embedded. Apesar de a maioria acreditar que foi um experimento bem-sucedido, admitiu-se que levantou questões éticas. 44,5% relataram que foi uma experiência totalmente positiva e igual porcentagem afirmou que haviam pontos positivos e negativos. Ainda, todos concordaram que deveriam haver jornalistas unilaterais operando fora da estrutura militar. 93% disseram que não poderiam imaginar alternativa que lhes desse maior acesso às informações do que o embedded.

Contrariando críticos, 80% negou que sua objetividade tivesse sido afetada pela proximidade com as tropas. No entanto, quando questionados sobre a vivência e o trabalho com os militares as opiniões se dividiram: 40% concordaram e 46% discordaram que o embedding favorece cobertura tendenciosa por conta da proximidade mídia-militar. 76% concordou que a incorporação dos jornalistas às unidades de combate limitou a visão sobre a guerra e acreditavam que era seu trabalho relatar pequenas partes, sendo a visão geral responsabilidade dos editores (FAHMY, 2005, p.304).

Em seu livro Guerra pelas mentes, Paula Fontenelle afirmou que grande parte dos mais de 20 jornalistas entrevistados, entre unilaterais e incorporados, foi taxativa quanto à condução de seu trabalho. Muitos reagiram na defensiva e utilizaram jargões específicos da profissão para negar que o relacionamento desenvolvido com as unidades de operação havia afetado seu profissionalismo e imparcialidade (FONTENELLE, 2014, p. 82). Segundo ela, apenas um entrevistado admitiu a dificuldade em separar o jornalista do soldado:

Ben Brown, da BBC, conta que, certo dia, próximo à Basra, viu um soldado britânico atirar em sua direção. Ao virar-se, constatou que o tiro teve como alvo um iraquiano, que, não fosse a precisão e rapidez do militar britânico, teria atingido e assassinado o próprio repórter. Ele reconhece a espontaneidade de sua reação, mas admite ter extrapolado o papel de jornalista: “Eu e meu câmera abraçamos o soldado, agradecendo-lhe, e a imagem do iraquiano morto me deixou exultante. Percebi, então, que havia passado dos limites de minha profissão” (FONTENELLE, 2014, p.86).

Poucos declararam a interferência militar nas informações. Bob Roberts, do The Daily Mirror, reconheceu que às vezes lhe eram passadas informações falsas e distorcidas e que era difícil averiguar a veracidade dos dados.

Um militar britânico de alto escalão dizia que eles obteriam o controle de Basra vinte e quatro horas após entrarem na cidade. Ele continuou afirmando isso por vários dias. Logo ficou claro para nós que aquela informação estava sendo manipulada e que Basra não havia sido conquistada coisa alguma. Não me lembro direito; o controle de Basra só ocorreu umas três ou quatro semanas mais tarde, e já nos diziam isso vinte quatro horas após chegarem lá (FONTENELLE, 2014, p.112).

O comportamento das Forças Armadas descrito pelos repórteres incorporados entrevistados por Fontenelle, na verdade, foi guiado por princípios básicos presentes em todos os manuais militares, de acordo com Phillip Knightley (2004):

Pareçam abertos, transparentes e ansiosos para ajudar; nunca apelem para a repressão sumária ou controle direto; anulem em vez de ocultar notícias indesejáveis; controlem a ênfase ao invés dos fatos; equilibrem notícias ruins com boas notícias; e mintam diretamente somente se estiverem certos de que a mentira não será descoberta no curso da guerra (p.484).

Em entrevista realizada para o presente trabalho, Cristiana Mesquita, atualmente parte do corpo jornalístico da Associated Press, afirmou que a grande mídia errou já antes da guerra ao se tornar um alto-falante das mentiras armadas para justificar a invasão do Iraque. Cristiana já foi correspondente nos conflitos da Bósnia, Kosovo, Haiti, Afeganistão e Iraque, tendo assumido a editoria geral da América Latina e Caribe da agência, em Washington. Para a jornalista, os militares procuraram implementar o que aprenderam na Guerra do Vietnã tentando exercer um controle midiático maior no Iraque.

Titi, como é conhecida no meio, confirmou a proibição de se filmar corpos de soldados norte-americanos, salientando que, em contrapartida, no Vietnã eram feitas imagens dos aviões chegando e os caixões sendo posicionados. A jornalista declarou ter sorte de ter estado em uma agência de notícias naquele contexto, já que para a AP era viável manter repórteres em diferentes posições no conflito, tanto embedded, quanto independentes. Ressaltando que os combatentes estadunidenses eram apenas um lado da guerra, mas que em sua opinião num conflito o objeto de real interesse é o que se passa com a população civil, ela endossou que uma cobertura exclusivamente de embeddeds não é satisfatória, sendo um desserviço.

A primeira correspondente de guerra brasileira também informou que os militares censuravam o que os jornalistas poderiam cobrir, mas que uma vez já publicada a matéria, ela não era impedida, configurando um controle sutil como forma de evitar que certo viés fosse veiculado. Ainda, contou que se sentiu censurada em vários momentos, dando o exemplo da invasão de Faluja, a qual não pode ter acesso. Quando perguntada sobre a maior dificuldade de um correspondente de guerra, Titi afirmou que “realizar uma cobertura justa, visto a constante exposição àqueles que querem influenciar o jornalista em ambos os lados de um embate”. “Que há erros, que há censura, que há enganos, há”, finalizou a entrevistada (MESQUITA, 2019).

No geral, a visão dos embedded journalists foi favorável. Um pequeno número percebeu imparcialidade e sensacionalismo na cobertura da guerra. A maioria a considerou justa e confiável, além de segura para as tropas. Apesar de admitirem que suas histórias diziam respeito somente a uma pequena parte da guerra, muitos acreditavam que o sistema de incorporação ofereceu grande acesso ao campo de batalha e entendimento do que ocorria no teatro da guerra.

16.2. A internet e a Al-Jazeera

Além do embedding, merecem destaque dois outros elementos contribuíram para o pioneirismo da cobertura dada à Guerra do Iraque. O primeiro deles é o avanço da internet e o segundo a presença de televisões árabes, em particular a Al Jazeera.

O volume de notícias produzidas na Guerra do Iraque, se comparado aos conflitos anteriores, é inegavelmente maior. Os avanços proporcionados pelo sistema global de comunicação de massa junto à adoção do embedding permitiram uma maior difusão das informações. À mídia tradicional (rádio, jornal e TV) foram acrescentados websites, blogs e chats que contribuíram para a diversificação da cobertura, apesar de os meios tradicionais terem exercido papel dominante na formação da opinião pública. O avanço tecnológico com a chegada do videofone também foi fundamental para esse cenário (ARAÚJO, 2005, p.9).

A internet, com sua contribuição descentralizada e plural, auxiliou na diversificação de enquadramentos noticiosos, apesar de na época ser pouco acessível para ser considerada mobilizadora da opinião pública. Contudo, vale ressaltar que sua disponibilização foi de extrema importância para os embedded journalists e até mesmo os militares presentes no campo de batalha. Era através dela que os repórteres tinham acesso a outras versões jornalísticas e também por ela que as Forças Armadas garantiam que as restrições aos embedded estavam sendo respeitadas (ALDÉ, 2004, p.10).

É interessante evidenciar também a aprovação da USA Patriotic Act, sigla que significa Uniting and Strengthening America by Providing Appropriate Tools Required to Intercept and Obstruct Terrorism. A legislação foi aprovada logo após os ataques do 11 de Setembro e aumentou significativamente a capacidade legal da polícia, forças armadas e serviços de inteligência de interceptar e-mails, telefones, registros médicos e financeiros, assim como qualquer transmissão de dados considerada suspeita de envolvimento com o terrorismo. Ademais, também conferiu maior autonomia à Secretaria do Tesouro para modificar regulamentos que regem movimentações monetárias, autorizando a detenção de suspeitos relacionados a práticas terroristas, bem como de imigrantes.

Apesar de não afetar diretamente os meios de comunicação tradicionais que predominantemente tratamos nesse estudo, a Lei Patriota é relevante, tendo em vista que autoriza previamente a interceptação de qualquer tipo de dados, o que é de extrema importância para tais meios, mas principalmente para a internet. Para Paulino (2009):

Em especial, podemos apontar que, pela primeira vez, graças aos novos recursos participativos e colaborativos da rede, como os blogs, foi possível levar ao conhecimento de milhares de pessoas perspectivas até então impensadas, como os comentários diários de um soldado em missão, relatos sobre bombardeios escritos por pessoas comuns poucos minutos após o acontecimento ou até mesmo em tempo real (p.93).

Neste contexto de múltiplas informações, destaca-se o papel da pan-árabe Al-Jazeera, que desafiou a hegemonia da mídia ocidental. A rede emprestou ao conflito a diversidade de visões que faltou aos media ocidentais e que não esteve presente na Guerra do Golfo. Tendo acesso aos novos atores políticos das Relações Internacionais, como a rede Al Qaeda e Osama Bin Laden, foi acusada de apoiar práticas terroristas, além de parcialidade da cobertura, ao transmitir imagens de cadáveres e prisioneiros de guerra ocidentais.

A Al Jazeera se defendeu apontando a parcialidade de redes norte-americanas como a Fox News, que só mostravam as baixas iraquianas. Em diversos momentos, a emissora do Catar foi a única a manter correspondentes nos locais de conflito e suas imagens auxiliaram a desmascarar algumas operações de manipulação da informação citadas anteriormente (ALDÉ, 2004, p.10). Para Miladi (2003):

Few could have imagined that a new and challenging way of understand impartiality in communicating conflict would arise from an Arab television channel in a region where broadcasting has been stigmatized for decades by heavy censorship and complete sate control (p. 149).

Contudo, a rede obteve maior impacto em sua área de atuação, não tendo alcance sobre a opinião pública estadunidense e internacional.

16.3. A dissolução do consenso

Como explicitado no capítulo anterior, os Estados buscam obter um consenso popular que assegure o apoio e a continuidade do conflito. De acordo com Hallin (1989), primeiro autor da Comunicação Internacional a apresentar a ideia da “esfera de um consenso”, quando a formulação do mesmo é forte, a mídia tende a seguir as posições políticas expressas pelo governo sem grandes questionamentos (CAMARGO, 2008, p.66).

No entanto, é interessante notar que à medida que o consenso se dissolveu dentro do próprio bloco de poder estadunidense com questionamentos dos parlamentares do Congresso e cobranças a cobertura jornalística se alterou, passando a ser mais diversificada e crítica às ações do Pentágono e do governo. Questões como a resistência iraquiana e as frágeis justificativas para a guerra, assim como sua duração, começaram a ser levantadas (ALDÉ, 2004, p.9).

A pressão internacional quanto às provas de que o Iraque de fato detinha armas de destruição em massa e representava uma ameaça mundial aumentou gradativamente. Ainda, o próprio Pentágono sofria internamente questionamentos sobre os serviços de inteligência estadunidenses. Em julho, Bush admitiu que a CIA havia assegurado que as informações contidas no dossiê britânico não eram verídicas. Assim como tais fatos, o aumento de baixas norte-americanas, chegando a 961 em 2007, também contribuiu para o enfraquecimento do consenso em torno da guerra (FONTENELLE, 2014, p.73).

Foi somente a partir de 2004 que a mídia desenvolveu certos questionamentos. Nas primeiras páginas dos jornais passaram a figurar dúvidas sobre a legitimidade do conflito, sobre a real presença de armas de destruição em massa e a duração da guerra. Até mesmo fotos e depoimentos de detentos das prisões de Abu Ghraib e Guantánamo foram divulgadas, revelando o tratamento brutal dado aos prisioneiros de guerra da coalizão (CAMARGO, 2008, p.81). As acusações de que os Estados Unidos estariam desrespeitando as Convenções de Genebra de 1949 - que tratam do Direito Internacional Humanitário e das barbáries da guerra – em suas prisões se multiplicaram.

Jornais de grande circulação e equivalente impacto na opinião pública circularam editorais se desculpando pela cobertura falha da Guerra do Iraque. O The New York Times e o Washington Post foram os primeiros a fazer mea-culpa. Até mesmo a BBC assumiu que a pressão para entregar uma cobertura de 24 horas por dia da guerra fez com que alguns erros fossem cometidos, comprometendo a verdade.

Figura 3: Manchetes da mídia norte-americana se retratando pela cobertura da Guerra do Iraque.

Fonte: Ecos do Fragor: a invasão do Iraque em 2003(CAMARGO, 2008, p.82).

A Guerra do Iraque pode ter sido entendida como uma grande vitória para a mídia moderna e a evolução tecnológica. Contudo, foi um triunfo para militares e propagandistas. O plano para administrar a operação de mídia no contexto da guerra, concebido por Bryan Whitman, teve quatro pontos principais que lograram sucesso em moldar a opinião pública não só estadunidense, como em todo o ocidente. De acordo com Knightley (2004), tais pontos foram:

1. Enfatizar os perigos representados pelo regime iraquiano; 2. Dispensar e desacreditar aqueles que lançam dúvidas sobre esses perigos; 3. Não se envolver em apelos à lógica, mas sim apelar aos corações e mentes do público, especialmente aos corações; 4. Dirigir a mensagem para o público: "Confie em nós. Sabemos mais do que podemos dizer (p.529).

Quanto aos embedded journalists, esses não tiveram escolha. Optar por boicotar o novo sistema seria uma auto derrota, já que o Pentágono havia deixado claro em suas ações que cobriria a guerra por si mesmo, e ainda com a ajuda de Hollywood, impondo aos Estados Unidos e ao mundo sua versão do conflito sem qualquer resistência (KNIGHTLEY, 2004, p.547).

17. CONCLUSÃO

Iniciamos esse trabalho tendo como objetivo compreender os acontecimentos históricos e políticos que levaram os Estados Unidos a invadir o Iraque em 2003 e de que maneira os media cobriram o conflito. Nos interessava a inter-relação entre Relações Internacionais, Jornalismo e História. Para tanto, nos debruçamos sobre o panorama da Guerra do Golfo e as articulações dos ataques do 11 de Setembro. Também nos preocupamos em demonstrar as motivações da potência hegemônica ao se lançar em uma guerra contra o Iraque, retomando discursos do então presidente norte-americano George W. Bush e as políticas adotadas em sua administração, que visaram assegurar a hegemonia política, econômica e militar do país.

Verificamos que apesar de não serem metades de um mesmo evento, a Primeira e Segunda Guerra do Golfo interagem no que concerne ao relacionamento estadunidense com o Iraque e às continuidades das administrações de Bush pai e Bush filho, tanto no que diz respeito à ocupação de cargos políticos, quanto no interesse de controlar o mercado petrolífero.

Posteriormente, abordamos a Guerra do Iraque em seu curso, enfatizando a não autorização da ONU para o ataque e trazendo as estratégias adotadas no campo de batalha. Ainda, foram expostas as consequências do conflito para o território iraquiano e sua economia, assim como o desfecho de seu líder, Saddam Hussein.

Ao abordar tais pontos, visamos endossar as afirmativas de que as motivações e justificativas para a guerra, expostas pelo governo norte-americano e fatalmente reproduzidas pelos veículos midiáticos, não refletiram os verdadeiros interesses estadunidenses, que não diziam respeito a levar a democracia ao Oriente Médio, mas a garantir o controle da região e da oferta de petróleo.

Considerando a importância da mídia no conflito em questão, trouxemos para a discussão de que forma os Estados Unidos a instrumentalizaram, inserindo-a em seu esforço de guerra. Para tal, explicitamos os recursos de manipulação empregados pelos governos britânico e estadunidense, com foco no segundo, e também pelas Forças Armadas. Nesse sentido, ficou claro o papel da mídia em um governo democrático, bem como o por quê da postura de controle da informação adotada.

Sendo a imprensa o elo entre a opinião pública e as instituições governantes, nada mais interessante aos Estados do que controlá-la, visto que é a própria opinião pública o termômetro das democracias. Como visto, seu posicionamento pode definir os destinos da guerra e até mesmo interferir em processos eleitorais.

Para ilustrar a antiga relação entre os meios de comunicação e o Estado em situações de guerra, nos utilizamos de autores reverenciados pelo campo das Relações Internacionais. As obras A Arte da Guerra, de Sun Tzu e Da Guerra, de Carl Von Clausewitz serviram de referencial para demonstrar as nuances de uma guerra travada não só no campo físico, mas também psicológico desde os seus primórdios.

Evocando a interdisciplinaridade pretendida por essa pesquisa, foram também citados clássicos da área de Comunicação. Ao estudar autores como Noam Chomsky e Walter Lippmann, almejamos evidenciar a utilização da propaganda política e de guerra na Guerra do Iraque, também atentando para os efeitos causados em sua cobertura. Salientamos a posição nacionalista assumida pela mídia, além dos três filtros de Chomsky que influenciam a cobertura jornalística, sinalizando o objetivo dos Estados, em especial dos Estados Unidos, de construir consenso em torno de iniciativas bélicas. Como pudemos constatar, foi a dissolução desse mesmo consenso que ditou a posterior mudança de comportamento da mídia, além de ter possibilitado a eleição do democrata Barack Obama.

Ainda, lembramos da histórica importância atribuída a opinião pública para a política norte-americana, que posteriormente levou o país a ser pioneiro nas atividades de relações públicas e utilização da propaganda de guerra, como exemplificado na Guerra do Iraque. Apresentando a mídia como um novo ator no Sistema Internacional, elucidaram-se suas múltiplas faces: aqui, a teoria do Manufacturing Consent e o conceito de CNN effect lograram significado de complementariedade para confirmar a atuação midiática nas novas maneiras de se entender a política externa. Ademais, clarificamos o papel midiático na amplificação da sensibilidade e vulnerabilidade dos Estados, conceitos desenvolvidos por Keohane e Nye.

Por fim, lançamos um olhar histórico sobre a relação entre a mídia e a guerra, ressaltando as tensões entre a própria mídia, a opinião pública e o Estado em conflito anterior ao Iraque. Observando a Guerra do Golfo, foi possível vislumbrar os processos que levaram à adoção do sistema embedding pelo Pentágono em 2003.

Apresentamos o emprego dos embedded journalists como mais uma estratégia aliada às da censura, controle da informação e propaganda vastamente incorporadas ao esforço de guerra norte-americano no cenário da Guerra do Iraque. O programa, lançado com uma tentativa de garantir a cobertura total e fidedigna do teatro da guerra, na verdade se confirmou uma estratégia de comunicação perspicaz. Nesse ponto, descrevemos o sistema de informação estruturado no front, bem como uma gama de restrições impostas aos jornalistas.

Também expusemos opiniões contrárias e favoráveis ao uso de jornalistas incorporados. De um lado o argumento de uma maior abertura aos veículos midiáticos e a oportunidade em anos inédita de acompanhar um conflito de perto e do outro diversas críticas argumentando o prejuízo à parcialidade, reproduzimos as afirmativas de críticos e até mesmo jornalistas, fundamentando-nos em pesquisas quantitativas, teorias e conceitos.

Concluímos que cobertura descontextualizada, patriótica e positiva oferecida por grande parte da mídia norte-americana e seus jornalistas incorporados possibilitou a manipulação da opinião pública e contribuiu para a desinformação da população. Uma mídia que se baseou nas falsas declarações de seu presidente se viu reproduzindo informações sem checagem e protagonizou inúmeros casos de apropriação dos meios de comunicação para fins militares, como o escandaloso falso resgate de Jessica Lynch. Marcada pela censura, autocensura, notícias falsas, propaganda, excesso de notícias e infotainment, a cobertura da Guerra do Iraque é um claro exemplo de como a mídia é incorporada ao esforço de guerra para servir aos interesses estatais.

Felizmente, elementos como a introdução da internet como meio noticioso e a presença da Al-Jazeera incutiram ar de diversidade de informações ao conflito. Mesmo que ainda não tenham sido capazes de reformular a opinião pública, tais meios representaram a diversificação de perspectivas e deram voz a um viés até então inexistente: o contra-hegemônico.

Finalizamos o presente trabalho esperando que o debate sobre a relação entre os meios de comunicação, o Estado e a Guerra, sendo as Forças Armadas seu principal vetor, não se esgote. Ensejamos para que o uso da mídia como arma de guerra promova maiores questionamentos no que diz respeito às estratégias adotadas pelos Estados para atingir seus objetivos políticos e militares, tanto nos ambientes militares, quanto midiáticos.

18. BIBLIOGRAFIA

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[1] Do original: Defending our Nation against its enemies is the first and fundamental commitment of the Federal Government. (…) America will hold to account nations that are compromised by terror, including those who harbor terrorists – because the allies of terror are the enemies of civilization. (…) Finally, the United States will use this moment of opportunity to extend the benefits of freedom across the globe. We will actively work to bring the hope of democracy, development, free markets, and free trade to every corner of the world.

[2] Do original: In Iraq, we´re serving the cause of liberty, and liberty is always worth fighting for. In Iraq, we´re serving the cause of peace, by promoting progress and hope in the Middle East, and as the alternative to stagnation and hatred and violence for export. In Iraq, we´re serving the cause of our own security, striking the terroristis where we find them, instead of waiting for them to strike us at home.

[3] Do original: We will consult. But let there be no misunderstanding: If Saddam Hussein does not fully disarm, for the safety of our people and for the peace of the world, we will lead a coalition to disarm him.

[4] Do original: In one place – in one regime – we find all these dangers, in their most lethal and aggressive forms (…) Twelve years ago, Iraq invaded Kuwait without provocation. And the regime´s forces were poised to continue their march to seize other countries and their resources. Had Saddam Hussein been appeased instead of stopped, he would have endangered the peace and stability of the world.

[5] Do original: After decades of brutal rule by a terror regime, the Iraqi people have their country back. This is a day of great hope for Iraqis, and a day that terrorist enemies hoped never to see. [...] their bombs and attacks have not prevented Iraqi sovereignty, and they will not prevent Iraqi democracy. [...] Iraq today still has many challenges to overcome - we recognize that. But it is a world away from the tormented, exhausted and isolated country we found last year. Now the transfer of sovereignty begins a new phase in Iraq’s progress toward full democracy. Together, with the Iraqi government, we’re moving forward on every element of our five-part plan for Iraqi self-government.

[6] Do Original: The world outside and the pictures in our hands […] The hypothesis, which seems to me most fertile, is that news and truth are not the same thing, and must be clearly distinguished. The function of news is to signalize an event. The function of truth is to bring to light hidden facts, to set them into relation with each other, and make a picture of reality on which men can act. The significant revolution of modern times is not industrial or economic or political, but the revolution taking place in the art of creating consent amon the governed (Walter Lippmann, 1922).

[7]Realizada em 17 de junho de 2019 pelos autores no Rio de Janeiro.


Publicado por: Bruna de Almeida Cabral Correa

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