FIBRA DE BURITI: O ARTESANATO COMO IDENTIDADE CULTURAL DE BARREIRINHAS EM 2014

História

Identificação do processo de inclusão do artesanato da fibra do buriti no cenário histórico de Barreirinhas aplicando em forma de oficina e palestra na Escola Municipal Módulo Educacional.

índice

1. RESUMO

Esta pesquisa apresenta o artesanato de fibra do buriti como um símbolo da identidade cultural de Barreirinhas e o seu entrelaçamento com a História dessa cidade abordando os conceitos de memória local no que se refere a importância do artesanato para a cultura nativa que precisa ser ainda mais trabalhada em sala de aula, também dialogando com os conceitos de identidade cultural enfocando na necessidade da preservação e reafirmação de suas  raízes, não esquecendo de analisar a relação entre a história local com os PCN’s sendo num ponto de vista pedagógico e sociológico pois, coloca em evidência os alunos da Escola Municipal Modulo Educacional como sujeitos construtores da história da sociedade em que vivem, utilizando instrumentos didáticos e paradidáticos para ajuda-los na compreensão desse projeto.

2. INTRODUÇÃO

Desde que cheguei a Barreirinhas no ano de 2005 tenho observado e vivenciado a imensa importância do artesanato da fibra do buriti, não apenas para a economia local mais como um símbolo de identidade cultural que inclusive é demonstrado na Bandeira e no Hino do município. A figura da palmeira de buriti é vista como uma espécie de “arvore da vida” que fornece matéria prima das mais variadas finalidades, desde a utilização do “olho” para a fabricação do artesanato até o uso dos troncos na construção de casas em povoados.

A escolha desse tema surgiu de minha satisfação e orgulho por viver nessa cidade pacata e de uma natureza inigualável, destacando o valor do artesanato que sustenta milhares de famílias e movimenta uma economia crescente. Essa produção que ultrapassa barreiras territoriais o artesanato barreirinhense já é conhecido em vários países.

O artesanato e sua cultura esta entrelaçada com a história de povoamento da cidade de Barreirinhas, os primeiros habitantes desenvolveram essa produção totalmente rústica com métodos indígenas de aproveitamento de materiais naturais.

O processo de confecção e comercialização do artesanato passa por várias etapas que se inicia com a colheita da fibra e termina com a venda da peça nas lojas do centro da cidade, sendo que a maioria dos artesãos são moradores de povoados distantes próximos às margens do rio Preguiças.

Pretendo com esse trabalho valorizar o papel do artesanato preservando sua importância singular na cultura de Barreirinhas, mesmo já existindo outros trabalhos sobre essa temática acredito no meu dever, como acadêmico, de buscar alternativas no melhoramento dos estudos sobre esse assunto, tendo em vista que essa cidade é conhecida mundialmente por suas belezas naturais e seu artesanato não se iguala ao de nenhum outro lugar.

Iremos observar que todos os processos e etapas de produção tem o “jeito particular” e independente do artesão barreirinhense, ou seja, as técnicas utilizadas no manuseio da fibra do buriti revelam as características da identidade cultural de Barreirinhas.

A importância se fundamenta em considerações da crença em que o homem possui intenção para criar e transformar inconscientemente os objetos em símbolos, dotando-os, de grande relevância social e perpetuando-os enquanto patrimônio da mesma forma em que estão inscritos nos traços que os identificam:

A identidade cultural pode ser considerada como o conjunto de caracteres próprios e exclusivos de um corpo de conhecimentos, seus elementos individualizadores e identificadores, enfim, o conjunto de traços psicológicos, o modo de ser, de sentir e de agir de um grupo, que se reflete nas ações e na cultura material. (PIRES, 2001. p.67).

No livro “Identidade Cultural e Artesanato” (2000), o designer Eduardo Barroso Neto lembra que o trabalho artesanal, sobreviveu durante o avanço industrial apenas como alternativa de consumo para a população periférica, impossibilitada de comprar produtos feitos em massa, o que se refere á importância inicial dessa arte no aspecto social de um povo ainda em um primeiro momento na transição de materiais manuais para materiais industriais.

Pretende-se com esse projeto levar aos alunos do Ensino Fundamental da Escola Municipal Módulo Educacional uma reflexão e debate sobre a necessidade da preservação dessa identidade cultural de Barreirinhas que aos poucos esta perdendo espaço para produções industrializadas. O que se percebe é que ainda existe uma valorização financeira do artesanato da fibra do buriti dentro do país como também no exterior, porém é preciso reafirmar as raízes dessa arte que carrega um peso simbólico da própria história da cidade que esta repleta de mitos, lendas e outras manifestações culturais.

3. OBJETIVOS

OBJETIVO GERAL:

- Identificar o processo de inclusão do artesanato da fibra do buriti no cenário histórico de Barreirinhas aplicando em forma de oficina e palestra na Escola Municipal Módulo Educacional.

OBJETIVOS ESPECIFICOS:

- Analisar através de textos, jornais, revistas, documentários e fontes bibliográficas como surgiu à ideia do artesanato como identidade cultural no âmbito histórico e o que possibilitou para a inserção dessa arte na própria história da cidade.

- Discutir o conceito de artesanato, memória e identidade.

- Levar a uma reflexão aos alunos sobre a importância do artesanato para a cidade de Barreirinhas.

4. METODOLOGIA DA PESQUISA

Este projeto recorreu a elementos antropológicos e historiográficos a respeito de cultura, artesanato e identidade. De forma complementar foi realizado um levantamento bibliográfico de escritos abrangentes e textos mais específicos sobre os assuntos aqui abordados dentre eles: Jacques Le Goff – História e Memória (1994), Marshall Berman - Tudo que é sólido desmancha no ar (2007), José Luiz dos Santos - O que é cultura (2006), Stuart Hall- A identidade cultural no pós-modernidade (1992), Eunice R.Durham – A Aventura Antropológica (2004).

Em paralelo à leitura destes autores busquei trabalhos mais específicos sobre o artesanato como o Programa SEBRAE Artesanato (2004), Valorização de Produtos Com Diferencial de Qualidade – Lea Magalhães (2006), Revista Especial Casa (2008), Catálogo de Produtos Buriti do Maranhão (2010). Além desses instrumentos de pesquisa também colocou-se em evidência os meus quatro anos como vendedor na Coopalmar - Cooperativa de Artesãos dos lençóis Maranhenses, tendo vivenciado esse processo de perto no cotidiano das donas de casa de Barreirinhas, tecendo o que me coloca no oficio do historiador.

Em contato com outras ciências sociais, o historiador hoje a distinguir durações históricas.  Existe um renascer do interesse pelo evento, embora seduza mais a perspectiva da longa duração.  Esta conduziu alguns historiadores, tanto através do uso da noção de estrutura quanto mediante diálogo com a antropologia (LE GOFF, 1994, p. 13)

Munido deste aparato teórico e metodológico procurei identificar elementos que interligam os temas aqui abordados e o papel referencial de cada um destes para a história de Barreirinhas. Intencionou-se observar como a simbologia do artesanato se faz presente não só no cotidiano da cidade ou povoado, mas na construção sociológica das identidades destes indivíduos. Logo, essa identidade cultural iniciou-se desde os primórdios dos primeiros habitantes às margens do Rio Preguiças, um processo coletivo criativo que acredito que no primeiro momento não havia intenção de ganho econômico e mas, simplesmente, uma forma de distração para passar o tempo.

Assim, a análise aqui desenvolvida partiu de uma perspectiva multidisciplinar apoiada, sobretudo, em bibliografia e metodologias da História, da Antropologia e, também, em estudos de Sociologia. A contribuição da antropologia para a história, como mostra Thompson (2001), não se resume pela passagem simples e linear de métodos e temas. A relação entre história e antropologia necessita testar, refinar e redefinir categorias ou modelos derivados de outros contextos ou campos disciplinares; teorias incompatíveis no campo antropológico não necessariamente o serão quando redimensionadas para a pesquisa histórica; o estímulo antropológico para os historiadores sociais não se verifica pela construção de modelos, mas na visualização de novos e velhos problemas, em novas formas, na ênfase em normas ou sistemas de valores.

A partir dessa concepção, pode-se afirmar que a arte é parte da cultura, mas não a exprime em todos os sentidos. O gênero cultural inclui literatura, teatro, cinema, artes plásticas e afins, mas também hábitos, costumes, tradições e tudo o que cria, recriam, modifica ou reformula as formas simbólicas na sociedade. Além disso, é preciso considerar que todos os fenômenos culturais são perpassados por relações de poder e autoridade.

5. RELATOS DA PROPOSTA PEDAGÓGICA

5.1. Primeiro dia – Palestra e vídeos

Segundo o que foi proposto para o desenvolvimento do projeto optou-se pela sua execução em formato de palestra e oficina. De início busquei uma articulação com a profa. Aldileide Araujo, responsável pela disciplina de História na Escola Municipal Módulo Educacional, em específico a turma do 9° ano no turno vespertino, para nos auxiliar em meio às atividades.

A aplicação ficou definida para dois dias em horários de 45 minutos, sendo que no primeiro dia, que ocorreu em 03 de Setembro de 2014, foi ministrada uma palestra de apresentação do projeto pelo acadêmico André Holanda. Assim preparou-se slides contendo os pontos principais da proposta, como por exemplo: a justificativa e os objetivos do trabalho, inclusão de fotos e imagens de peças de artesanato para a melhor compreensão do assunto.

A proposta deste projeto foi de socializar junto aos alunos o surgimento do artesanato no município, sendo uma forma de esclarecer certas mudanças no cotidiano social da cidade desde os primeiros moradores até o momento atual. Conforme os PCNs, no processo de ensino e aprendizagem de História é preciso desenvolver nos alunos a compreensão das semelhanças, diferenças, permanências e transformações que ocorrem no seu cotidiano, relacionando a sociedade tanto no presente como no passado, mediante a observação das questões que permeiam a sua realidade.

Os PCNs apresentam como um dos objetivos mais importantes do ensino de História, nas séries iniciais do Ensino Fundamental, a questão da identidade. É de grande relevância que o ensino de História esteja constantemente relacionado com a construção da noção de identidade, mediante o estabelecimento de relações entre identidades individuais, sociais e coletivas. Pautado nestes pressupostos que objetivei colocar em prática este projeto, correlacionando-o com a produção do artesanato local e a constituição da identidade do povo barreirinhense.

De início teve-se uma conversa informal com os alunos para saber o que eles entendiam sobre a temática do artesanato e qual importância davam a esta prática, isso foi feito como forma de instigar a curiosidade destes, tentando atrair a atenção dos presentes a respeito do assunto abordado.  A palestra ocorreu de maneira tranquila e em alguns momentos houve uma pausa para os questionamentos dos estudantes, foi distribuído a cada um o catálogo “fibras do Maranhão” elaborado pelo SEBRAE que aborda o artesanato da fibra do buriti em várias localidades do Estado, inclusive em Barreirinhas.

O catálogo SEBRAE TOP 100 de artesanato avalia os processos produtivos com foco nas exigências do mercado, evidenciando critérios de dimensão social, econômica e ambiental, contribuindo assim para dar uma maior visibilidade ao artesanato brasileiro através da seleção de produtos de acordo com onze critérios de mercado entre eles o grau de inovação e diferenciação mercadológica dos produtos, adequação econômica dos produtos ao seu publico alvo e a capacidade produtiva.

Nesse primeiro dia se torna indispensável ressaltar a importância da cooperação por parte da docente profa. Aldileide Araujo, em reservar um horário disponível para a aplicação deste projeto, também destaco o apoio da diretoria da Escola Municipal Módulo Educacional, que abriu as portas para este acadêmico fornecendo o suporte operacional através de retroprojetor, tendo em vista que nesse período as escolas estavam preparando-se para as festividades da Independência do Brasil.

Durante a apresentação foi disponibilizado um vídeo com comentários de artesãos locais descrevendo sobre as dificuldades e início do processo de valorização do artesanato de fibra do buriti em Barreirinhas, esse vídeo com duração de 10 minutos mostra o dia a dia de artesãos que residem em regiões mais distantes da cidade e que precisam viajar com frequência para o centro comercial oferecendo as peças para os lojistas. Este material evidencia a reclamação por parte dos artistas que são obrigados a vender os seus produtos por baixos preços aos donos de lojas, que acabam por obter até 100% de lucro sobre a revenda do artesanato para os turistas de várias partes do mundo.

Ao longo da palestra, em várias ocasiões, alertei os alunos sobre a preservação da cultura do artesanato, informando que em décadas passadas constituía uma prática tradicional sendo repassado este conhecimento de pais para filhos e que nos dias atuais isso já não esta mais ocorrendo por diversos fatores, entre eles: o êxodo rural que leva à mudança, principalmente, de jovens em busca de uma estrutura educacional melhor para os grandes centros populacionais; assim como tem possibilitado a perda dessa identidade cultural devido às mudanças de pensamento resultantes do advento da tecnologia.

Infelizmente constatou-se que para muitos alunos, que tiveram de alguma forma o contato com a produção artesanal, este conhecimento é visto como “ultrapassado” ou “cafona” tornando necessária a afirmação dessa identidade cultural, para que não seja esquecida e nem apagada nas próximas gerações. Neste sentido, acredito ser importante ressaltar as afirmações de Hall:

Assim a chamada "crise de identidade" é vista como parte de um processo mais amplo de mudança, que está deslocando as estruturas e processos centrais das sociedades modernas e abalando os quadros de referência que davam aos indivíduos uma ancoragem estável no mundo social. (HALL, 2002, p.07).

É notório que com o crescimento veloz da utilização da internet e outros instrumentos tecnológicos esteja acontecendo essa chamada “perda de identidade” ou até mesmo “conflitos de identidade”, fazendo com que um país, estado, município ou comunidade perca suas referências culturais, ou seja, seus símbolos e seu patrimônio estão sendo esquecidos, dando lugar a outras manifestações não pertencentes aquele local ou que não valorize elementos próprios daquela realidade.

No tocante a compreensão intencional do trabalho que é a afirmação positiva de suas raízes culturais e valorização do artesanato como símbolo representativo da memória coletiva do povo barreirinhense, entende-se a necessidade de todo um aparato que possa servir como sustentáculo desta memória coletiva, segundo Halbwachs.

Não há memória coletiva que não se desenvolva num quadro espacial. Ora o espaço é uma realidade que dura. Nossas impressões se sucedem, uma à outra, nada permanece em nosso espírito e não seria possível compreender que pudéssemos  recuperar o passado, se ele não se conservasse, com efeito, no meio material  que nos cerca.  (HALBWACHS, 2006, p.74)

Dessa forma, acredita-se que a história local vem colocar os alunos como parte integrante do processo de construção das suas memórias. Le Goff (1990) assinala que os estudos sobre memória social constituem um dos meios fundamentais de abordar os problemas do tempo e da história. Neste sentido, a presente proposta pedagógica embarca na ideia da importância dos estudos voltados para os “lugares de memória” que no decorrer dos anos vem ganhando um espaço cada vez maior nas pesquisas acadêmicas por abordar a memória coletiva de uma sociedade ou povo, tornando conhecido personagens e objetos que fazem parte de um determinado contexto[1].

O historiador procura representar da melhor forma as memórias de uma sociedade, tecendo parte a parte todas as “peças” componentes do acervo não organizado ou não bibliografado. Assim, é possível encontrar em várias localidades de diversas cidades do Brasil, lugares onde as “raízes históricas” ainda se encontram escondidas sem qualquer tipo de pesquisa ou estudo. Por isso se torna indispensável pesquisas, e projetos pedagógicos, voltados para a necessidade de valorização e resgate de práticas sociais que guardam a memória de um povo.

Portanto, não é incorreto identificar o historiador como um produtor de memórias, como um artífice do reordenamento do passado, segundo as expectativas e indagações do presente. A História é uma produção intelectual e científica do saber, que disciplina a memória, tira-lhe a espontaneidade, mas, simultaneamente enriquece as representações possíveis da própria memória coletiva (Guarinello, 1994, p. 181).

Dessa forma o artesão barreirinhense pode ser considerado como o “guardião” da cultura local, sendo que essa “arte” foi repassada por várias gerações, chegando até o momento atual. Prova da importância do buriti para a história e economia de Barreirinhas esta imortalizada na Bandeira e no Hino da cidade, que coloca essa palmeira como um símbolo de fartura e vida[2]. No decorrer do tempo, o artesanato foi constituindo a identidade cultural da população, influenciando no cotidiano do morador barreirinhense, tanto como forma de ganho econômico como parte da cultura local.

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O aparecimento do artesanato esta ligado ao surgimento e desenvolvimento dos grandes centros urbanos que necessitavam da mão de obra de alguns trabalhadores para o manuseio mais “cuidadoso” na confecção dos produtos como, por exemplo, carpinteiros, costureiras, pintores e etc. Sendo assim, a atividade artesanal em Barreirinhas esta entrelaçada com a própria historia de fundação da cidade que emergiu às margens do rio Preguiça, em meio aos buritizais e morros de areia. Essa arte surge em paralelo com as tradições e ritos populares de origens indígenas, negros e brancos.

O ensino de História local em Barreirinhas ainda é um desafio, pois existe a necessidade de mudança na prática de socialização dos estudos sobre a historiografia local, neste sentido, este projeto pedagógico consiste em “materializar” o aprendizado adquirido durante todo o tempo da graduação.  Ao historiador cabe a função de ensinar e, ao mesmo tempo, produzir a História, principalmente aquela que possibilite ao educando a capacidade de interagir com os fatos que norteiam a sociedade em que se está inserido, mesmo não havendo muitos registros históricos locais.

Nos últimos anos, após as constantes mudanças vivenciadas pelo ensino de História, novas formas de abordagem emergiram e passaram a colocar o aluno como o sujeito ativo que atua na construção de suas memórias e pensamentos. Em várias universidades, e entre diversos pesquisadores, vêm ocorrendo debates a respeito do ensino tradicional versus ensino moderno, que traz metodologias mais abrangentes na tentativa de aproximar os estudantes do conhecimento de suas raízes, credos e cultura.

O professor de História possui um papel essencial na construção e na inserção do pensamento crítico dos alunos, orientando e dando o suporte necessário para que estes possam abrir novos caminhos para o acesso livre de todos ao processo de ensino e aprendizagem da disciplina. Assim, a realidade histórica do município precisa ser apresentada aos educandos de modo que eles tenham a noção da sua participação nas ações e manifestações sociais da localidade que residem. Segundo a historiadora Circe Bittencourt:

Para a maioria delas, o ensino de História visa contribuir para a formação de um “cidadão crítico”, para que o aluno adquira uma postura crítica em relação à sociedade em que vive. As introduções dos textos oficiais reiteram, com insistência, que o ensino de História, ao estudar as sociedades passadas, tem como objetivo básico fazer o aluno compreender o tempo presente e perceber-se como agente social capaz de transformar a realidade, contribuindo para a construção de uma sociedade democrática. (BITTENCOURT, 1996, p.121)

Ao final da palestra foi aberta a oportunidade para que os alunos pudessem expor suas opiniões e ideias sobre o projeto, com o objetivo de analisar e verificar a absorção do conhecimento e das problematizações elencadas.

5.2. Segundo dia – Oficina

A ideia de promover uma oficina surgiu com a inspiração do tema que enfocaria a produção do artesanato da fibra do buriti no Município de Barreirinhas, partiu-se do pressuposto que o contato dos estudantes com um artesão traria uma melhor compreensão e visualização do projeto pedagógico na forma prática.

Nesse momento entrei em contato com a Cooperativa de Artesãos dos Lençóis Maranhenses (COOPALMAR), a fim de encontrar uma pessoa que pudesse dar-me o suporte necessário para o segundo dia da aplicação do projeto, através de uma oficina com a duração de 45 minutos. Esse artesão, ou artesã, apresentaria as formas de produção do artesanato desde o início, com a colheita do “olho” na parte de cima das palmeiras de buriti, havendo também a disposição de algumas peças de artesanato além de fotos que retratassem o cotidiano, a confecção e venda dos produtos.

Foi enfatizado ao artesão que não deixasse de lado a preservação da identidade cultural da fibra do buriti incentivando os educandos ao debate e defesa de suas manifestações culturais. Assim convidei a artesã Maria José, queiniciou a oficina falando sobre o processo de produção do artesanato em Barreirinhas, segundo ela, inicialmente poucas pessoas realizavam tal prática, sem muita organização, pois era feito tudo em suas residências nos povoados mais distantes, como Santo Antônio, Cedro, Tapuio e outras localidades nas margens do Rio preguiça.

Após a palestra da D. Maria foram colocadas em exposição algumas peças para a apreciação dos alunos, a artesã fez uma abordagem de maneira simples facilitando a interação e questionamentos. Em seguida houve a apresentação de um vídeo com depoimentos de mulheres artesãs sobre o comércio da fibra do buriti com o tema “Arte dos Lençóis Maranhenses” com duração de 40 minutos. O vídeo produzido a partir de uma pesquisa realizada pelo Sebrae junto as Cooperativas de artesanato em Barreirinhas retrata o início da produção das peças em fibra de buritiainda de maneira totalmente rústica e manual.

O advento da utilização da tecnologia tem ocasionado o aumento do consumo de produtos produzidos em grandes fábricas havendo uma disputa comercial selvagem entre multinacionais, que na maioria das vezes oferecem mercadorias sem nenhuma qualidade. Por essa razão o artesanato esta sendo pouco valorizado em algumas cidades do interior do nosso país, cuja valorização se dá muito mais nos mercados externos como, por exemplo, a Europa e Ásia onde existem poucas formas de produção artesanal. Assim, a procura maior destes produtos é muito procurada pelos turistas do que pela população local.

Em Barreirinhas, o artesanato da fibra do buriti ocupa uma imensa importância econômica para as famílias pobres que não possuem nenhuma outra forma de ganho financeiro. Como já ressaltado anteriormente, o artesão utiliza a sua arte popular como uma maneira de afirmar sua identidade cultural, como cidadão de uma localidade, muitos deles conseguiram sua independência através dos ensinamentos repassados de pais para os filhos. De alguma maneira essa atividade é encarada como uma realização pessoal para aqueles que dela participam como afirma Barroso (2000), constitui uma atividade que é fruto da habilidade, da destreza e da dedicação. Além de ser fonte de sustento para quem o executa, traz um sentimento de autoestima, de orgulho de si mesmo, que se transforma em mola propulsora para construção da cidadania.

Começando a oficina os alunos foram colocados em cinco grupos de seis integrantes, em seguida foram distribuídos tapete de fibra de buriti, um para cada equipe, o objetivo era que fosse explicado o processo de elaboração dos chapéus e bolsas, desde a fase inicial até o acabamento para a venda aos lojistas. Neste momento também foi explicado e demonstrado aos alunos como ocorre o tingimento da fibra através de tintas naturais com o uso de sementes, raízes e plantas, como o urucum e a salsa.

Ao final da oficina foi oferecido aos alunos um lanche como forma de agradecimento pelo seu apoio e atenção, também fiz as considerações finais a todos os presentes na turma ressaltando a importância dessa pesquisa acadêmica como possível fonte de conhecimento aos interessados em estudar a historicidade da cidade de Barreirinhas, um trabalho de relevância cultural, educacional e socioeconômico que busca preservar uma das principais riquezas daqueles que habitam essa localidade.

Não obstante ressalta-se que pesquisar a história local é entender os processos históricos de cada realidade, para estudar uma comunidade com seus “símbolos” e memórias torna-se necessário identificar os laços sociais ou raízes existentes. De fato foram estes os elementos que motivaram o desenvolvimento deste estudo, além de promover a relação entre História e lugar numa visão tanto de maneira individual como também de forma coletiva . Pois, segundo Certeau:

Encarar a história como uma operação será tentar, de maneira necessariamente limitada, compreendê-la como a relação entre um lugar (umrecrutamento, um meio, uma profissão, etc.), procedimentos de análise (uma disciplina) e a construção de um texto (uma literatura). É admitir que ela faz parte da ‘realidade’ da qual trata, e que essa realidade pode ser apropriada ‘enquanto atividade humana’, ‘enquanto prática’. Nesta perspectiva, gostaria de mostrar que a operação histórica se refere à combinação de um lugar social, de práticas ‘científicas’ e de escrita. Essa análise das premissas, das quais o discurso não fala, permitirá dar contornos precisos às leis silenciosas que organizam o espaço produzido como texto. A escrita histórica se constrói em função de uma instituição cuja organização parece inverter: com efeito, obedece regras próprias que exigem ser examinadas por elas mesmas. (Certeau, 1982, p. 66)

Partindo do pensamento de Certeau, observa-se que existem diversas formas ou maneiras de se fazer uma história local, a maioria dos escritos existentes sobre essa temática ainda são de autoria amadora, ou seja, de pessoas que fazem parte de alguma comunidade e pretendem descrever os acontecimentos marcantes de uma população como, por exemplo, uma manifestação religiosa, um ponto turístico, um morador estimado ou sobre a fundação de uma cidade, porém sem o comprometimento didático e historiográfico.

Esses estudos locais permitem romper com o tradicionalismo histórico que estabelece conteúdo escolhidos apenas visando o ensino regular com datas comemorativas e heróis nacionais, essa “História do lugar” surge como um “novo olhar” para os alunos que podem ter acesso a outras pesquisas direcionadas ao cotidiano comunitário de pessoas comuns como o pescador, um politico ou artesão que é um dos personagens desse trabalho acadêmico.

Ao refletir acerca dessas transformações, os PCNs assumem uma posição fundamental dentro das chamadas novas tendências do ensino histórico, especialmente da Nova História, modificando a ideia de História voltada apenas para os estudos de setores, tidos como únicos sujeitos da História e favorecendo a expansão das temáticas até então consideradas como “sem historiografia” ou “sem relevância histórica”.

Essa aproximação com a Nova História fica visível no texto das propostas voltadas para o Ensino Fundamental:

As propostas curriculares passaram a ser influenciadas pelo debate entre as diversas tendências historiográficas. Os historiadores voltaram-se para a abordagem de novas problemáticas e temáticas de estudo, sensibilizados por questões ligadas à história social, cultural e do cotidiano, sugerindo possibilidades de rever no ensino fundamental o formalismo da abordagem histórica tradicional. A história chamada “tradicional” sofreu diferentes contestações. Suas vertentes historiográficas de apoio, quer sejam o positivismo, o estruturalismo, o marxismo ortodoxo ou o historicismo, produtoras de grandes sínteses, constituidoras de macrobjetos, estruturas ou modos de produção, foram colocadas sob suspeição(PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS, 1997: 24).

Nessa perspectiva o ensino de História busca ir além da sala de aula, desenvolvendo atividades que permitem uma melhor compreensão do conteúdo histórico que o cerca, tendo como orientador o professor que auxilia o educando a criar instrumentos e métodos para entender melhor a sua sociedade, preparando-o para discernir a respeito dos temas relacionados aos movimentos sociais, políticos e manifestações culturais.

Os PCNs de História para o Ensino Médio reafirmam tais princípios:

[...] a História para os jovens do Ensino Médio possui condições de ampliar conceitos introduzidos nas séries anteriores do ensino fundamental, contribuindo substantivamente para a construção dos laços de identidade e consolidação da formação da cidadania. O ensino de História pode desempenhar um papel importante na configuração da identidade, ao incorporar a reflexão sobre a atuação do indivíduo nas suas relações pessoais com o grupo de convívio, suas afetividades, sua participação no coletivo e suas atitudes de compromisso com classes, grupos sociais, culturas, valores e com gerações do passado e do futuro ((PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS, 1999: 22).

Tendo isso o que foi exposto ao longo do texto este trabalho busca ressaltar entre os alunos os laços de identidade existentes com a sua “raiz local”, enfatizando o seu papel como cidadão e sua capacidade de transformação social através dos estudos direcionados para os saberes de seu povo, ajudando na formação de um caráter identitário que valorize o modo de vida e a cultura de sua comunidade.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Acredita-se que esta proposta pedagógica alcançou os objetivos propostos, pois provocou um discurso claro e utilitário a respeito de temas como: Identidade cultural, Artesanato e História local, abrindo um precedente importante nos estudos históricos no Município de Barreirinhas, tendo em vista que no futuro os estudantes precisarão de referenciais e de pesquisas que tratem das memórias da cidade.

Vale ressaltar que durante o processo de produção deste material encontrei algumas dificuldades pois, Barreirinhas é uma cidade do interior e não dispõe de recursos suficientes para o aprimoramento de qualquer pesquisa que envolva a História local, graças a internet tive o contato com muitas obras que me auxiliaram na produção do projeto que corresponde não apenas a um mero trabalho acadêmico, mas também a um instrumento de reafirmação da identidade cultural de Barreirinhas, através de seu belo artesanato.

O artesão e o artesanato devem ser preservados e valorizados como “símbolos” de uma cultura repleta de riquezas naturais e memórias de um povo sofrido que trabalha de sol a sol para prover o seu sustento, essa arte que se mantém viva e sobrevive mesmo com o advento da tecnologia se mantém viva entre as populações ainda carentes de áreas e comunidades deste município.

Como citado no início dessa análise a árvore do buriti é apresentada na bandeira do Município de Barreirinhas como um dos pilares da sustentabilidade local, venho através desta obra também destacar a importância ambiental de mantê-la protegida da expansão territorial que surge destruindo florestas e vegetação. Espero assim ter contribuindo para este processo, despertando assim entre os nossos alunos um interesse crescente por este tema e pela preservação da árvore do buriti.

7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BITTENCOURT, Circe Maria. Capitalismo e cidadania nas atuais propostas curriculares de História. In: O saber histórico na sala de aula. São Paulo: Contexto, 2005. p. 11-27.

BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais: introdução aos parâmetros curriculares nacionais. Brasília : MEC/SEF, 1997.

_______. Parâmetros Curriculares Nacionais – Primeiro e Segundo Ciclos do ensino fundamental - História e Geografia. Brasília: MEC/SEF, 1997.

LEI DE DIRETRIZES E BASES DA EDUCAÇÃO NACIONAL – nº9394 de 1996.

CERTEAU, Michel. A Escrita da História. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1982.

CERTEAU, Michel de. A Operação Histórica. In: Nora, Pierre e Le Goff, Jaques História: novos problemas. RJ, Francisco Alves, 1988.

HALBSWACHS. Maurice. Memória Coletiva. São Paulo: Vértice.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. RJ, DP&A, 1999.

POLLAK, Michel. Memória e Identidade Social. In: Estudos Históricos Rio de Janeiro.vol. 5, nº 10, 1992.

CHARTIER, Roger. A História Cultural: entre práticas e representações. 2 ed. Portugal: DIFEL, 2002.

LE GOFF, Jacques. História e Memória. Campinas,SP: EditoraUnicamp, 2003.

SEBRAE, BASE conceitual do artesanato brasileiro. Gov.Federal ;2008

RIBEIRO.Berta G. O artesão tradicional e seu papel na sociedade contemporânea, Rio de Janeiro, Funarte, 1983.

BARROSO. Eduardo, identidade Cultural e Artesanato, www.portadigital.com.br/barroso,2000.

8. ANEXOS

HINO DA CIDADE DE BARREIRINHAS

Densas matas cortadas de rios,
Borboletas, mil aves e flores.
Palmeiras, campos, dunas e praias.
És um mundo de sonhos e amores.

Refrão

Barreirinhas rincão paraíso
Ai, se um dia eu tiver que partir,
Dos recantos e amores que tenho
Hei de sempre saudade sentir.

Foste berço de índios valentes
Que se uniram ao herói missionário
Tradições de folguedos e ritos
Que formaram teu mundo lendário.

Que delícia a rosada mangaba!...
Quão cheiroso é o teu bacuri!...
Como é bom ver a frágil juçara
A dançar a frente ao rei buriti.

Povo simples que acolhe num abraço
E cativa que vem com amor...
Teu futuro será venturoso
Se souberes guardar teu valor.

 


[1] Sobre os lugares da memória, verNora, 1981.

[2] Ver em anexo o Hino da cidade.


Publicado por: ANDRE HOLANDA LOBATO

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