GEOGRAFIA E MEIO AMBIENTE: Evolução do pensamento Geográfico e Educação Ambiental

Geografia

Evolução da Geografia enquanto ciência e o papel dos “pais fundadores” Ritter, Humboldt, Ratzel e La Blache, a relação Homem e Meio Ambiente e as principais conferências ambientais e a importância do estudo da Geografia e Meio Ambiente e como estão relacionados

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1. RESUMO

O presente trabalho foi dividido em três partes, inicialmente abordando a evolução do pensamento geográfico, desde o período “pré-científico” até a consolidação da Geografia como uma ciência e suas diversas vertentes, a segunda parte se propõe a analisar as mudanças na relação homem-natureza e os principais encontros ambientais (Conferencia de Estocolmo e Eco-92) e suas consequências para a educação ambiental, em seguida é analisada como a temática Meio Ambiente está inserido na Geografia e de que forma a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) relaciona esses temas. O Meio Ambiente está inserido no Espaço Geográfico, o mesmo é a principal categoria de estudo da Ciência Geográfica, ou seja, através deste trabalho foi possível analisar a intrínseca relação entre Geografia e a questão ambiental.

Palavras-chaves: Geografia, Meio Ambiente e Educação Ambiental.

ABSTRACT

The present work was divided into three parts, initially addressing the evolution of the geographic thinking, from the “pre-scientific” period to the consolidation of Geography as a science and its various aspects, the second part proposes to to analyze the changes in the man-nature relationship and the main environmental meetings (Stockholm Conference and Eco-92) and its consequences for environmental education, then it is analyzed how the Environment theme is inserted in Geography and of that forms the National Common Curricular Base (BNCC) lists these themes. The middle Environment is inserted in the Geographic Space, it is the main category of study of Geographic Science, that is, through this work it was possible to analyze the intrinsic relationship between Geography and the environmental issue.

Keywords: Geography, Environment and Environmental Education.

2. INTRODUÇÃO

Este trabalho de conclusão de curso propõe-se a análise três vertestes que estão intimamente relacionadas, primeiro a evolução da Geografia enquanto ciência e o papel dos “pais fundadores” Ritter, Humboldt, Ratzel e La Blache. Será analisada também a relação Homem e Meio Ambiente e as principais conferências ambientais. Na terceira parte é abordada a importância do estudo da Geografia e Meio Ambiente e como estão relacionados.

A Geografia hoje é uma ciência consolidada, no entanto a evolução do pensamento geográfico é relativamente recente, somente a partir do século XIX que a Geografia deixar de ser um conhecimento empírico e torna-se uma Ciência, é válido ressaltar que essa “nova” ciência sofre modificações, já que a mesma se propõe a analisar o espaço geográfico, que é constante, mutável.

O Meio Ambiente é uma das principais correntes estudadas pela Geografia, seja na relação homem-natureza ou na distribuição da mesma pelo espaço geográfico.  Apesar da relação histórica entre Meio Ambiente e Homem somente a partir da década de 1970 que começa a ocorrer debates sobre a importância da preservação ambiental e de um novo modelo de desenvolvimento socioambiental como a importância da educação ambiental.

Existe uma evidente preocupação em inserir a educação ambiental na grade curricular brasileira do Ensino Fundamental e Média, essa preocupação torna-se visível ao analisar a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), onde a questão ambiental e fortemente ressaltada, agora é imprescindível que o debate ambiental saia da teoria (BNCC) e entre na prática (cotidiano do aluno), porém tal transição só é possível com a mediação do professor.

3. O CAMINHO PARA SE TORNAR UMA CIÊNCIA: GEOGRAFIA

A primeira parte deste artigo busca mostrar a evolução do pensamento geográfico e suas fases, compreendendo como a Geografia deixou de ser um conhecimento empírico e tornou-se uma ciência.

É possível dividir a Geografia em duas partes, a geografia como conhecimento e a Geografia como ciência. Desde o período paleolítico usamos a Geografia, inicialmente em pinturas rupestres, que buscava representar e indicar regiões com solos férteis, grupos inimigos, recursos hídricos ou rituais religiosos.

O pensamento filosófico Grego teve grande importância para a Geografia, foi na Grécia Antiga que a Geografia começou a ganhar sua base para séculos depois se tornar uma ciência.

O período pré-científico corresponde aos saberes geográficos desprovidos de sistematização e organização metodológica produzidos pelos seres humanos desde a pré-história até a consolidação científica. Abarcam as pinturas rupestres encontradas em cavernas representando a organização espacial da sociedade, os estudos de astronomia, cartografia, correntes marinhas, organização social entre outros. (COSTA; ROCHA, 2011, p.26)

Aristóteles (384-322 a.C) foi o primeiro a provar a circunferência da Terra, Eratóstenes (276-194 a.C.) calculou a circunferência da Terra, errou por apenas 308 quilômetros, Hiparco (190-120 a.C.) deixou contribuições importantes para o campo da cartografia, são feitos extraordinários, principalmente analisando os recursos disponíveis do período.

A ascensão do Império Romano é a ascensão da Geografia, segundo Queiroz (2016) a Geografia tinha o objetivo de descrever os portos, os caminhos/rotas dos quais possuíam grande importância política e econômica, tanto para a organização do comércio como para a defesa militar do império.

A Queda do Império Romano do Ocidente (476 d.C.) e a difusão do Cristianismo dão início a um novo momento da história da humanidade, o conhecimento científico foi gradualmente substituído pela centralização do poder religioso, ocorreu uma  estagnação das ciências, afetando fortemente o desenvolvimento da Geografia.

O fervor intelectual que havia favorecido a reflexão sobre a forma e a configuração da Terra desapareceu. O Estoicismo deixou de apoiar-se na hipótese geocêntrica e na imagem de um mundo harmonioso que daí emanava (...) as formas de construção social que triunfaram na Idade Média assentam em relações pessoais: é através de notáveis locais que o poder se exerce à distância; como tal, não é necessário formalizar o saber geográfico nesta sociedade: o conhecimento das pessoas é suficiente. (CLAVAL, 1996, p. 17-18).

Com o advento das grandes navegações, a partir do século XV, e o uso dos mapas, a Geografia volta a ganhar destaque, segundo Queiroz (2016) os mapas eram segredos de Estado durante as Grandes Navegações, pois “escondiam” as riquezas dos impérios.

Somente na virada do século XVIII para XIX que a Geografia deixa seu status de empirismo para se tornar uma Ciência, graças aos Alemães Alexander Von Humboldt (1769- 1859) e Carl Ritter (1779-1859).

Após o falecimento, em 1859, dos dois principais pioneiros da Geografia moderna, Ritter e Humboldt, o desenvolvimento dos estudos geográficos acelerou-se, uma vez que esses dois estudiosos colocaram, por assim dizer, a pedra fundamental para a construção e evolução da Geografia como ciência. (Dantas; Medeiros, 2008, p.4).

Foi outro geógrafo Alemão que usou a “pedra fundamental” deixada por Ritter e Humboldt para continuar o desenvolvimento geográfico, Friedrich Ratzel (1844-1904) teve papel fundamental para a concretização da Geografia como ciência.

Friedrich Ratzel (1844-1904) e sua obra foram de fundamental importância para o processo de sistematização da Geografia moderna. Foi de sua autoria uma das pioneiras formulações de um estudo geográfico especificamente dedicado à discussão dos problemas humanos. (Dantas; Medeiros, 2008, p.3).

Friedrich Ratzel foi o “pai” do Determinismo Ambiental, concepção segundo o qual o meio estabelece ou influência as ações humanas, ou seja, as características naturais de uma região tem impacto direto na vida dos habitantes do local.

O Determinismo Ambiental foi à base para outra importante concepção formulada por Ratzel, o conceito de Lebensraume (espaço vital), ou seja, o espaço necessário para a expansão territorial de um povo/nação. Segundo Friedrich Ratzel:

Ao examinar o homem (...) é sempre necessário considerar, junto com o indivíduo ou com o grupo em questão, também uma porção de território. (...) Sem território não se poderia compreender o incremento da potência e da solidez do estado. Um povo em processo de decadência verifica-se que esta não poderá absolutamente ser compreendida, nem mesmo no seu inicio, se não levar em conta o território. Um povo decai quando sofre perdas territoriais. E isso é, sem dúvida, o principio de sua decadência futura. (apud MORAES, 1990, p. 74).

As ideias do espaço vital de Ratzel foram às bases, para meio século depois, a concretização da política imperialista da Alemanha Nazista de Adolf Hitler, que culminaram na Segunda Guerra Mundial.

Em reação a visão determinista alemã, surge na França com o geografo Paul Vidal de La Blache (1845-1918) o Possibilíssimo Geográfico, teoria segundo o qual o homem é influenciado pelo meio, porém também exerce influência no mesmo.

La Blache rejeitava a ideia idealizada por Friedrich Ratzel, que caracterizou a escola alemã em geografia determinista, em que as condições naturais do meio ambiente influenciavam e determinavam as atividades humanas e sociais. Para La Blache, o homem também transformava o meio onde vivia, de forma que para as ações humanas, diversas possibilidades eram possíveis, uma vez que essas não obedeceriam a uma relação entre causa e efeito. Ele contraria a ideia de que o homem é, antes de tudo, passivo e submisso às condições locais e obrigado a se adaptar. Na análise Vidalina, a compreensão das relações homem/natureza se dá em toda sua complexidade, dando relevante atenção às iniciativas humanas transformadoras do meio ambiente. (DE SOUZA, 2016, p. 46).

Paul Vidal de La Blache foi o responsável por implantar e institucionalizar a Geografia na França, fazendo um contra ponto a escola alemã em Geografia. É necessário ressaltar a conturbada relação entre alemães e franceses no final do século XIX e a disputa territorial por Alsácia-Lorena resultado direto da Guerra Franco-Prussiana.

Como disciplina universitária, a Geografia se institucionalizou na década de 1870, na Alemanha, e logo passou a ter cadeiras universitárias em outros países, como na França e na Inglaterra. No caso alemão, tal ciência se constituiu no bojo da unificação do Estado, após conflitos importantes, como a guerra franco-prussiana, e acabou por formalizar a consolidação do nacionalismo alemão. (DE SOUZA, 2017, p. 179).

Como supracitado Ritter e Humboldt foram os responsáveis pela “pedra fundamental” da Geografia, mas a concretização da Geografia como uma ciência foi de responsabilidade de Ratzel e La Blache. Neste período surgem os conceitos básicos da ciência geográfica,

São as categorias geográficas que permitem expressar uma concepção de mundo que engloba as transformações e a dinâmica da sociedade. Os principais conceitos que deram à Geografia no passado o patamar de ciência ainda hoje se mantêm como base para o conhecimento geográfico, destacando-se: espaço, região, território, lugar e paisagem. 

A partir da década de 1945 surge uma nova corrente filosófica no campo geográfico, ficou conhecida como a nova geografia ou geografia quantitativa, corrente pautada em métodos quantitativos, caracterizou-se por ser uma vertente meramente descritiva e voltada para interesses capitalistas, estava ocorrendo uma “matematização” da Geografia.

A Geografia Quantitativa tem sua gênese na Europa, pós Segunda Guerra Mundial, especificamente na Alemanha, Suécia e Finlândia. No Brasil, seus principais representantes foi o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e a Associação de Geografia Teorética e Quantitativa (AGETEO).

Denomina-se Geografia “Teorética e Quantitativa” ou Geografia “Neopositivista” a corrente que começou a se formar logo após a Segunda Guerra Mundial e que terminou por trazer profundas modificações teóricas e metodológicas. Esta escola se caracterizou pelo emprego maciço das técnicas matemático-estatísticas na geografia, provocando uma verdadeira “revolução” no seio dessa ciência. (CAMARGO; REIS JÚNIOR, 2007, p.84).

Em resposta a Geografia Quantitativa a partir da década de 1970 surge a Geografia Crítica, que tem como um dos seus principais expoentes o brasileiro Milton Santos, que ganhou notoriedade na vertente Crítica após a publicação do livro “Por uma Geografia nova: da crítica da Geografia a uma Geografia Crítica” em 1979. Para Milton Santos a geografia, para ser útil, tem que ser analítica e não apenas discursiva.

A partir dos anos 60, sob influência das teorias marxistas, surge uma tendência crítica à Geografia Tradicional, cujo centro de preocupações passa a ser as relações entre a sociedade, o trabalho e a natureza na produção do espaço geográfico. Ou seja, os geógrafos procuraram estudar a sociedade por meio das relações de trabalho e da apropriação humana da natureza para produzir e distribuir os bens necessários às condições materiais que a garantem. Critica-se a Geografia Tradicional, do Estado e das classes sociais dominantes, propondo-se uma Geografia das lutas sociais. (BRASIL, 1997, p. 21).

A Geografia Crítica propõe-se a “uma revolução que procura romper, de um lado, com a geografia tradicional e, de outro, com a geografia teorético-quantitativa” (Corrêa, 1995, p. 23). Busca questionar e responder às profundas modificações que ocorrem no espaço geográfico, principalmente em consequência da intensa urbanização, êxodo rural, desigualdade e industrialização, ou seja, diferente da Geografia Quantitativa que era muitas vezes representada por dados matemáticos, a Geografia Crítica propõe a analisar, questionar e responder as informações.

O ensino de Geografia no Brasil iniciou-se a partir da década de 1930 com forte influência da escola francesa, segundo Cavalcante (2008, p.21) “A geografia brasileira, seja ela acadêmica, seja a escolar, institucionalizou-se no início do século XX, via Sociedade Brasileira de Geografia Estatística, Universidade de São Paulo, e outras instituições [...] essa institucionalização está vinculada ao seu ensino”. Hoje a Geografia está presente nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) com o papel de ser um conhecimento crítico, reflexivo mostrando as transformações do espaço geográfico.    

A Geografia é uma área de conhecimento comprometida em tornar o mundo compreensível para os alunos, explicável e passível de transformações (...) o estudo da Geografia proporciona aos alunos a possibilidade de compreenderem sua própria posição no conjunto de interações entre sociedade e natureza. Há também uma posição muito clara em prol da democratização da escola, do convívio escolar e das propostas de conteúdos que se combinam com a abordagem plural da Geografia que se propõe no documento. (BRASIL, 1997, p. 26).

Após discorrer sobre o processo de evolução da ciência geográfica, este artigo se propõe na segunda parte fazer uma análise da questão ambiental em âmbito mundial e nacional e como a Geografia está inserida nas discussões sobre Meio Ambiente.

4. MEIO AMBIENTE E EDUCAÇÃO AMBIENTAL

O Homem sempre manteve uma intrínseca relação com a natureza, desde o homem caçador/coletor até as revoluções tecnológicas o homem modifica o meio natural em que vivem essa relação não fica restrita as modificações do espaço geográfico, a natureza teve grande importância religiosa, havia um deus para cada fenômeno da natureza: O deus dos ventos, das chuvas, dos rios, das pedras, das plantações, dos raios etc.

A relação Homem e meio ambiente pode ser dividida em duas partes, antes e depois das Revoluções Industriais, até o século XVIII ocorreram poucas modificações na relação, o Homem extraía da natureza o essencial para sobreviver e se defender.

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A partir da Revolução industrial, nos séculos XVIII e XIX, os padrões de produção e consumo basearam-se na exploração dos recursos naturais e do trabalho de forma ilimitada e, além disso, instigou-se o consumismo, o individualismo e a competitividade. (PASSOS; DA OLIVEIRA, 2016, p. 4).

As Revoluções Industriais modificaram os meios de produção e trabalho, mas a relação do Homem com o meio ambiente também sofreu severas mudanças, principalmente através da exploração dos recursos naturais necessários para manter a grande produção e demanda do mundo pós-revolução e a utilização de combustíveis fósseis em larga escala.

Somente a partir da década de 1970 que começa ocorrer uma preocupação relacionada aos impactos ambientais, justamente nesse período que ocorre o primeiro grande debate ambiental, reunindo chefes de Estados de diversos países, a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, ou Conferência de Estocolmo (Suécia – 1972) foi um marco na luta pela preservação do meio ambiente.

A Conferência de Estocolmo teve como desdobramentos a criação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e a declaração de Estocolmo que contém 26 princípios, que tem como objetivo guiar, preservar e melhorar o meio ambiente. O princípio 19 da Conferência de Estocolmo ressalta a importância da conscientização e educação da população a respeito das questões ambientais

É indispensável um esforço para a educação em questões ambientais, dirigida tanto às gerações jovens como aos adultos e que preste a devida atenção ao setor da população menos privilegiado, para fundamentar as bases de uma opinião pública bem informada, e de uma conduta dos indivíduos, das empresas e das coletividades inspirada no sentido de sua responsabilidade sobre a proteção e melhoramento do meio ambiente em toda sua dimensão humana (UNESCO Declaração sobre Meio Ambiente Humano, 1972, p.5).

O principal legado da Conferência de Estocolmo foi inserir no debate internacional a questão dos problemas ambientais e colocar em pauta uma nova forma de desenvolvimento, que incorpora a necessidade do crescimento econômico, mas compreende a importância da sustentabilidade para gerações atuais e futuras.

Foi com base na Declaração de Estocolmo e a partir de seus próprios estudos, que a Comissão Brundtland oficializou o termo “Desenvolvimento Sustentável”, definitivamente popularizado pela ampla cobertura da mídia à Rio-Eco 92 (...) reuniu no Rio de Janeiro, nada menos que 185 países, incluindo 172 chefes de estado, com a presença de 35 mil pessoas, 11 mil membros de entidades internacionais, 3 mil ONGs. (CAMPOS, 2006, p. 388).

O Brasil se posicionou no xadrez ambiental a partir de 1990, por três principais motivos, primeiro pela sua extensão territorial que abrange uma quantidade considerável de biomas com uma grande biodiversidade, segundo pelo vultoso desmatamento e queimadas no território nacional (nos dias de hoje o Brasil ainda sofre pressões internacionais contra o processo de degradação ambiental), por fim, em 1992 o Brasil sediou um dos maiores eventos relacionado ao meio ambiente do Século XX, a Rio-92 ou ECO-92, que inseriu definitivamente o Brasil no debate ambiental.

O grande destaque na ECO-92 foi a elaboração da Agenda 21 Global, que traçava metas e ações para um desenvolvimento sustentável para o século XXI, o documento contém 40 capítulos.

A Agenda 21 Global ressalta a importância da educação ambiental para a conscientização da necessidade de um desenvolvimento sustentável e a consciência pública.

O ensino tem fundamental importância na promoção do desenvolvimento sustentável e para aumentar a capacidade do povo para abordar questões de meio ambiente e desenvolvimento. Ainda que o ensino básico sirva de fundamento para o ensino em matéria de ambiente e desenvolvimento, este último deve ser incorporado como parte essencial do aprendizado. (Agenda 21, 1992, p.355).

A educação ambiental no Brasil iniciou-se em 1981, através da Política Nacional de Meio Ambiente (PNMA), que através da Lei nº 6.938/81, estabeleceu a necessidade de inclusão da educação ambiental. Segundo o Artigo 2º do inciso X estabelece: “educação ambiental a todos os níveis de ensino, inclusive a educação da comunidade, objetivando capacitá-la para participação ativa na defesa do meio ambiente;”.

A Constituição brasileira de 1988 concretizou e estabeleceu a presença das questões ambientais em âmbito escolar, segundo o Artigo 225º do inciso VI aborda: “promover a educação ambiental em todos os níveis de ensino e a conscientização pública para a preservação do meio ambiente;”.

No ano de 1994 em decorrência dos acordos internacionais firmados pelo Brasil na Rio-92 e a exigência da Constituição Federal de 1988 e criado o Programa Nacional de Educação Ambiental (ProNEA), com o objetivo de promover a Educação Ambiental em todos os níveis de ensino, a partir de então  a educação ambiental se concretizava no Brasil.

Segundo diretrizes do Ministério da Educação (MEC) a temática ambiental é interdisciplinar, ou seja, pode é deve ser abordada por todas as matérias escolares, desde a Educação da Primeira infância ao Ensino Médio, a Geografia tem papel central no ensino, já que como foi abordado na primeira parte deste trabalho é uma ciência que estuda as modificações do espaço geográfico e a relação homem-natureza.

5. ENSINO DE GEOGRAFIA E MEIO AMBIENTE

O ensino de Geografia e a educação ambiental (meio ambiente) estão intrinsicamente ligados, o professor tem que ser capaz de relacionar os temas abordando de forma a indicar a importância da ação individual para o bem coletivo, auxiliando assim no processo de sujeitos críticos, autónomos e atuantes capazes de construir suas próprias interpretações.

Por meio ambiente entendemos, segundo a visão da Geografia Humana, o conjunto de três aspectos interligados Em primeiro lugar é o resultado material da ação humana, tratando-se da segunda natureza, da natureza transformada pelo trabalho social A materialidade social assim criada constitui, de um lado, um reflexo dos conflitos sociais e, de outro, é o resultado do desenvolvimento das forças produtivas, que gera novas tecnologias, novos meios de produção de ambientes Os campos agrícolas, caminhos e o habitat rural são exemplos típicos e clássicos dessas criações pelo homem estão incluídas também, entre outros exemplos, as encostas devastadas, as voçorocas e as áreas desertificadas, produtos sociais, produtos de uma ruptura de um dado equilíbrio ecológico pela ação transformadora do homem (LOBATO, 1993, p. 29).

A Geografia está inserida no debate relacionado às problemáticas ambientais e a sustentabilidade, já que uma das principais categorias geográfica e o espaço geográfico, as mudanças no meio (urbano ou rural) e a relação com o Meio Ambiente.

Analisando a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) do Ensino Fundamental e Médio é possível observar que a temática Meio Ambiente é abordada em diversas matérias, como Ciências, Biologia, História e Física, porém o eixo central é guiado pela Geografia.

Existe uma unidade específica relacionada à questão ambiental na BNCC, a Natureza, ambientes e qualidade de vida, que está presente na parte dedicada a Geografia. Essa unidade busca relacionar a Geografia Humana e a Geografia Física. Abaixo foram listados os principais pontos de interligação entre Geografia e Meio Ambiente presentes na  BNCC:

  • Identificar, comparar e explicar a intervenção do ser humano na natureza e na sociedade, exercitando a curiosidade e propondo ideias e ações que contribuam para a transformação espacial. (BNCC, p.357);
  • Desenvolver o conceito de ambiente na perspectiva geográfica, o que se fundamenta na transformação da natureza pelo trabalho humano. (BNCC, p.364);
  • Utilizar os conhecimentos geográficos para entender a interação sociedade/ natureza (...) para a compreensão das formas como os seres humanos fazem uso dos recursos da natureza ao longo da história. (BNCC, p.366);
  • (...) permite que reconheçam a dinâmica da natureza e a interferência humana na superfície terrestre, conhecendo os lugares e estabelecendo conexões entre eles, sejam locais, regionais ou mundiais, além de contribuir para a percepção das temáticas ambientais. (BNCC, p.368);
  • Descrever as atividades extrativas (minerais, agropecuárias e industriais) de diferentes lugares, identificando os impactos ambientais. (BNCC, p.373);
  • Investigar os usos dos recursos naturais, com destaque para os usos da água em atividades cotidianas (alimentação, higiene, cultivo de plantas etc.), e discutir os problemas ambientais provocados por esses usos. (BNCC, p.375);
  • Identificar e descrever problemas ambientais que ocorrem no entorno da escola e da residência (lixões, indústrias poluentes, destruição do patrimônio histórico etc.), propondo soluções (inclusive tecnológicas) para esses problemas. (BNCC, p.379);
  • Discutir em que medida a produção, a circulação e o consumo de mercadorias provocam impactos ambientais, assim como influem na distribuição de riquezas, em diferentes lugares. (BNCC, p.387).

A abordagem sobre meio ambiente é recorrente na ciência geográfica, no Ensino Médio e Fundamental é focada principalmente nos problemas ambientais, as atividades econômicas e os impactos no meio natural e principalmente as ações e consequências da relação homem-natureza.

A discussão sobre meio ambiente está presente em fóruns mundiais, na política, na diplomacia, porém esse tema está presente na vida cotidiano de um estudante? A Conferência de Estocolmo foi fundamental para colocar a questão ambiental no debate mundial, mas essa discussão ficará restrita a fóruns e conferências mundiais ou chegará à sala de aula?

Para colocar a questão ambiental na pauta do estudante é necessária à participação dos Governos, escola, professores, familiares e do próprio aluno. Agora é necessário que as teorias densamente abordadas pela BNCC tornem-se prática, para tal transição é de suma importância à participação do professor no papel do agente mediador, colocando no cotidiano escolar, familiar e do bairro a prática da preservação do meio ambiente.

6. CONCLUSÃO

A geografia enquanto conhecimento é extremamente antiga, o homem usava pinturas para localizar recursos naturais, deuses ou tribos inimigas no período Paleolítico (40000 A.C), sem saber o homem primitivo estava utilizando a Geografia.

O pensamento geográfico vem sofrendo fortes transformações desde a sua concretização enquanto ciência, que ocorreu no final XIX, é possível identificar quatro grandes correntes geográficas, o Determinismo, Possibilíssimo, a Geografia Quantitativa e a Crítica. Em decorrência da sua análise do espaço geográfico a Geografia é uma ciência extremamente mutável, é provável que em algumas décadas os futuros geógrafos estudem uma nova corrente da Geografia.

Apesar da histórica relação entre homem e natureza, somente a partir da década de 1970 que começa a ocorrer uma preocupação com as questões ambientais, a Conferência de Estocolmo de 1972 teve papel central para o debate ambiental em âmbito global, foi a primeira grande reunião para discutir sobre Meio Ambiente, nos dias atuais várias pautas ambientais tem suas raízes ou influência na Conferência de Estocolmo de 1972.

O Brasil tem papel fundamental na discussão ambiental, principalmente pela sua extensão territorial que abrange vários biomas com uma grande biodiversidade, porém somente em 1992 que o país ganhou notoriedade em âmbito mundial, ao sediar a ECO-92.

A Conferência de Estocolmo e a ECO-92 foram fundamentais para colocar as questões ambientais em destaque mundial e na pauta política de vários países. Questões como desenvolvimento sustentável, educação ambiental, preservação e uma agenda para o futuro, que hoje são amplamente debatidas, é fruto dessas duas reuniões.

A Conferência de Estocolmo foi extremamente importante para colocar as questões ambientais no debate político mundial, agora é necessário que essa discussão chegue às escolas, é necessário colocar todas as teorias em prática.

A Geografia sempre abordou questões sobre Meio Ambiente, porém agora é necessário colocar em prática. O professor de Geografia tem papel fundamental nesse processo, é necessário mostrar ao aluno a importância da preservação do meio ambiente, mostrando que o aluno é um agente modificador, ou seja, ele tem um papel importante, central na mudança ambiental.

A célebre frase de Paulo Freire (1921-1997) “A educação não transforma o mundo, educação muda às pessoas, pessoas transformam o mundo”, encaixa-se de forma perfeita na necessidade de uma mudança de visão a respeito da preservação ambiental. Continua sendo necessário e importante o debate em âmbito mundial sobre Meio Ambiente, porém a mudança só ocorrerá se a sociedade mudar, a sociedade tem o poder de “transformar o mundo”.

7. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

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Publicado por: WILLIAN TAVARES CERINO

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