O homem da máscara de ferro: O poder Absolutista e sua justificação divina na França do século XVII - ANTONIO; SOUSA

Filosofia

O reinado do rei Luís XIV de meados dos anos 1600 na França, e suas singularidades enquanto poder absolutista e católico, através de uma interpretação da obra cinematográfica de 1998 denominada “O homem da máscara de ferro”.

índice

1. Resumo

Uma das principais características que está diretamente ligada aos estudos e análises sobre a dita ‘’História moderna’’ seria a implementação do poder absolutista na Europa ocidental. O estado absolutista representa a total desvinculação com a idade média e seus resquícios feudais, pois dela se propaga, cada vez mais, o desenvolvimento dos núcleos urbanos e a sua nova configuração de poder. Este ensaio de graduação se propõe a analisar o reinado do rei Luís XIV de meados dos anos 1600 na França, e suas singularidades enquanto poder absolutista e católico, através de uma interpretação da obra cinematográfica de 1998 denominada “O homem da máscara de ferro”.

Palavras-chave: Poder absolutista, Luís XIV, França, católico.

Abstract: One of the main features that is directly linked to the study and analysis of the so-called “Modern History” would be the implementation of absolutist power in Western Europe. The absolutist state represents the total decoupling with the average age and its feudal characteristics, because of it propagates, more and more, the development of the urban nuclei and the new configuration of power. This undergraduate essay sets out to analyze the reign of King Louis XIV from the mid-1600s in France, and its singularities as an absolutist and Catholic power, through an interpretation of the 1998 cinematographic work called “The Man in the Iron Mask”.

Keywords: Absolutist power, Louis XIV, France, Catholic.

2. Introdução

Em um primeiro momento este ensaio pretende discorrer sobre o filme “O homem da máscara de ferro” (1998), procurando estabelecer com o mesmo uma relação como fonte histórica e suas contribuições para se interpretar a História Moderna. Vale destacar também o como o desenrolar desta trama em questão está estruturado a partir da obra do autor Alexandre Dumas (que ficou mundialmente reconhecido por escrever o romance “Os três mosqueteiros”): “O Visconde de Bragelonne”, sendo alguns de seus trabalhos inspirados nos governos absolutistas de Luís XIII e Luís XIV, que governaram a França de 1610 até 1715.

Após uma breve ilustração sobre o enredo da obra cinematográfica, suas proximidades e distanciamento com as “realidades históricas” e a análise sobre a sua inspiração literária, propomos destacar neste trabalho alguns fenômenos envoltos a França moderna, a igreja católica e o poder absolutista que se consolidou a partir do século XVII, trazendo a debate a problematização dos “cristais” que permeiam esta temática, a partir da premissa da “justificação divina” adotada pelos reis como forma de fortalecer seu governo perante o povo e a própria igreja (que nesse momento histórico já não se resumia a apenas “igreja católica”).

Em vista deste breve debate e estudo sobre a França moderna, salientamos uma pequena investigação e interpretação filosófica embasada na obra de Maquiavel denominada “O príncipe”, referente às estratégias de governo adotadas pelos reis absolutistas, na qual o mesmo adota políticas que buscam ora conquistar e ora oprimir seu povo, acrescentado a discussão às influencias religiosas sobre os rumos que um reinado pode tomar.

3. “O homem da máscara de ferro” e “O Visconde de Bragelonne”: Uma interpretação da França de 1600.

O filme “O homem da máscara de ferro” é uma produção americana de 1998, que visa ser uma readaptação do capítulo final da obra literária “O Visconde de Bragelonne”, sendo tal capítulo “O prisioneiro da máscara de ferro”, responsável por finalizar a sequência e toda a história do célebre romance de Alexandre Dumas denominado “Os três mosqueteiros”.

A trama e o enredo de ambos os trabalhos, tanto fílmico quanto literário, gira em torno do governo do jovem rei Luís XIV, que acabara de assumir o poder após um período de regência administrado por sua mãe/rainha Anne D’Austria devido a morte do antecessor de Luís XIV o rei Luís XIII, retratando assim um cenário realmente urbano que não se assemelhava às características feudais da idade média, fatos que realmente ocorreram na França dos séculos XVI e XVII.

Em sua narrativa, a história apresenta os personagens responsáveis pelo desenrolar do enredo, descritos como um pouco mais velhos e cansados, reconhecemos nela as figuras: de Aramis que agora é o líder da ordem dos jesuítas da França (grupo responsável por despertar diversas rebeliões contra o atual rei) e se faz um grande estrategista e sábio clérigo; Athos que agora já tendo aposentado sua espada é construído a partir da figura de um pai orgulhoso, afinal seu filho Raul é membro da guarda real, conhecida como mosqueteiros, e logo se tornará noivo de uma bela donzela conhecida como Louise de La Vallièrre; Phortos preocupa-se em desfrutar de sua fama com a intenção de deitar-se com belas mulheres e D’Artagnan, o mais jovem do famoso quarteto, é descrito como honroso e respeitado capitão dos mosqueteiros, sempre próximo ao rei Luís XIV e sempre fiel ao seu soberano.

Em um primeiro momento da trama, Luís XIV é retratado como um rei tirano e opressor que não se importava em deixar de lado a grande parte da população de Paris, ou seja os pobres. Luís se preocupava com estratégias de guerra e em expandir seu território, alimentando apenas seu exército, e esbanjando banquetes e festivais para agradar a nobreza. Esta política adotada por Luís XIV, é claro, não agradava a população que cada vez mais se organizava em rebeliões pelo simples fato de passar fome, somado também às intenções e ideologias religiosas dos jesuítas de Aramis. D’Artagnan e os conselheiros do rei que procuraram induzir o mesmo a “alimentar o seu povo”, mas o rei distribui alimentos podres a população, o que agrava ainda mais a sua já delicada “aprovação” popular. Esta faceta egoísta e ambiciosa de Luís XIV é uma das características já interpretadas na história sobre o rei do século XVII; o autor Peter Burke descreve o soberano sobre suas singularidades que o constituíram por um viés extremamente ambicioso e narcisista em seu trabalho “A fabricação do rei: A construção da imagem pública de Luís XIV”:

“Os críticos de Luís XIV faziam freqüentes referências ao que um deles chamou “O insaciável apetite de sua ambição”. A crítica moral geral ligava-se a uma afirmação política especifica, expressa em 1667 num famoso panfleto intitulado “O escudo do Estado” [Le Bouclier d’Etas] e freqüentemente reiterada. O que se afirmava era que Luís tinha um “vasto e profundo plano” de se tornar “Senhor da Europa” e assim realizar uma “monarquia universal”. Os críticos condenavam com tanta veemência o fim como os meios adotados para alcançá-lo. Segundo um deles, os eventos do reinado eram “Livros eloquentes”, através dos quais se pode ler, em grandes caracteres, Luís, o Grande sacrifica tudo à sua ambição e interessa.” (BURKE; 1994; p.63)

Os conflitos de nossa história literária/fílmica se iniciam a partir deste contexto, em uma das festas reais patrocinadas por Luís XIV aos nobres e aos seus mosqueteiros. O filho de Athos, Raul, pretendia pedir sua donzela Louise em casamento, contudo o rei Luís ao avistá-la começa a desejar a moça, e após ter sua investida negada por Louise, escutando da bela dama que seu coração pertence a Raul, o rei Luís XIV envia o rapaz para uma próxima batalha do exército francês, exigindo que o mesmo esteja na linha de frente de seus homens, ou seja na frente dos canhões inimigos, resultando assim na realização de sua ambição: possuir a moça após a morte de seu mosqueteiro.

O plano do rei tirano conclui-se com sucesso, apesar de D’Artagnan pedir para que a vida do jovem Raul fosse poupada, esta situação eclode na ira de Athos que agora coloca o rei como seu inimigo. Aramis como sempre se manteve observador e analítico sobre as movimentações que se desenrolavam em torno da coroa, e após o próprio rei pedir ao clérigo que encontre o líder da ordem dos jesuítas e o execute pelas revoltas que esta classe religiosa operava contra o governo de Luís, o ex-mosqueteiro se vê em um impasse, pois tem o conhecimento que a coroa deseja a sua própria cabeça. Estas manifestações de rua, de viés religioso, já vinham ocorrendo, de fato, na França do século XVI; foram incendiadas principalmente pela faísca do “reformar-se” ou como retratado no filme, por uma motivação política. A autora Natalie Zemon Davis, discorre sobre esta situação em sua obra “Culturas do povo. Sociedade e cultura no início da França moderna. ”:

“Vimos, assim, na França do século XVI, multidões assumindo os papéis do padre, do pastor ou do juiz para defender a doutrina ou purificar a comunidade religiosa - fosse para manter suas fronteiras e estruturas católicas, ou para re-formar as relações em seu interior. Vimos que a violência popular religiosa podia ser legitimada por diferentes aspectos da vida política e religiosa, tanto como pela identidade de grupo das pessoas na multidão. Os alvos e o caráter da violência das multidões eram de certo modo diferentes entre os católicos e os protestantes, dependendo de sua percepção da fonte do perigo e de sua sensibilidade religiosa. Mas em ambos os casos, a violência religiosa estava relacionada, no tempo, no lugar e na forma, com a vida do culto, e os atos violentos eram, eles próprios, derivados de um estoque de tradições de punição ou de purificação correntes na França do século XVI.” (DAVIS; 1990; p.156-157)

Motivado pelo desejo de causar uma ruptura no governo de Luís XIV, aproveitando-se da insatisfação dos religiosos e da população faminta, juntamente com a ira de Athos tomado pelo anseio de vingar seu filho e de fazer revolução, Aramis reúne os mosqueteiros Athos, Phortos e D’artagnan e os apresenta seu plano de mudar o governo. D’artagnan recusa-se a participar de prontidão, justificando que deve lealdade ao seu rei devido ao seu juramento enquanto mosqueteiro. Neste momento ocorre um interessante debate de honra e lealdade, quando Athos questiona e afirma que quando um rei não é integro o mesmo não merece qualquer tipo de devoção ou lealdade e o mosqueteiro se torna livre do seu juramento; D’artagnan discorda e retira-se de cena, deixando uma interessante reflexão sobre os limites da honra, se ela existe e até quando é justificável se sacrificar pelo seu rei.

Aramis então relata e explica seu plano, que consiste em libertar um prisioneiro da torre da Bastilha que a seis anos está detido e tem seu rosto preso e coberto por uma máscara de ferro. Athos, Phortos e Aramis em sua empreitada conseguem libertar o prisioneiro, e ao retirar a máscara observam que seu rosto é idêntico ao do rei Luís XIV, Aramis então discorre sobre sua história e narra que Anne D’Austria deu à luz a gêmeos na noite em que Luís nascera, sendo a segunda criança nomeada Phelipe que, tomada pelo receio da existência dos gêmeos proporcionarem uma briga política pelo trono, envia o segundo bebe para viver no campo. Quando Luís assume a coroa e descobre sobre a existência de seu irmão temendo que seu governo seja ameaçado, ordena a sua prisão e que seu rosto fosse eternamente coberto por uma máscara de ferro, afinal, o rosto mais reconhecível da França é o do próprio rei.

Na parte final dessa história, os mosqueteiros substituem Luís XIV por Phelipe em um baile de máscaras propiciado pelo rei; a intenção de “substituir” baseia-se no coração puro e na bondade existentes em Phelipe e em como tal personagem demonstra ser “o verdadeiro rei”. D’Artagnan percebe as mudanças nos trejeitos do “novo” rei, e dá o sinal de alerta para que as patrulhas dos mosqueteiros se redirecionassem as saídas do palácio, impedindo assim a fuga de Athos, Phortos e Aramis juntamente com o rei Luís XIV amordaçado.

Com o resgate de Luís XIV e a captura de Phelipe, o rei ordena novamente que seu irmão seja preso com a máscara de ferro, por consequência D’artagnan descobre que Anne deu luz a gêmeos neste momento. Após a nova prisão de Phelipe, o capitão dos mosqueteiros D’artagnan ajuda seus antigos amigos no novo resgate de um dos primogênitos reais, momento em que ocorre uma intensa batalha na torre da Bastilha, pois Luís já desconfiava que perdera a lealdade de D’artagnan. Nesta batalha é revelado que D’artagnan é pai de Phelipe e de Luís, pois o mesmo tinha um caso com Anne D’Austria; o rei em uma tentativa de esfaquear o irmão, atinge seu pai, e com a morte do capitão dos mosqueteiros pelas mãos do próprio rei na frente de sua tropa, todos os mosqueteiros recusam-se a continuar lutando por Luís XIV. Todos os mosqueteiros lembraram-se do sigilo real e, neste momento, ocorre a última e definitiva substituição, por todos os maus que Luís XIV causara a seu irmão, o até então rei, foi designado para ser o novo prisioneiro a usar a máscara de ferro e Phelipe para assumir o trono, agora partindo de uma nova versão da figura justa e piedosa do rei Luís XIV.

Estando conscientes de toda ficção e romance que envolve um filme americano, é indiscutível algumas características da França Moderna retratadas em “O homem da máscara de ferro”. É destacável neste momento como o poder absolutista nas mãos de Luís XIV era estruturado, que apesar de obter seus conselheiros, era extremamente centralizado e justificado divinamente a todo instante por falas do próprio rei como “Eu sou enviado por Deus”, além de toda a insatisfação da população sobre a miséria que estavam submetidas somada a seus próprios questionamentos religiosos.

Apesar de algumas diferenças com a versão literária de Alexandre Dumas, como: a morte de Athos, Phortos e D’artagnan, o não envolvimento de D’artagnan com Anne D’Austria, o não reencontro em nenhum momento dos quatros mosqueteiros e a configuração de uma versão mais “bondosa” do rei Luís XIV, a obra cinematográfica aqui descrita baseia-se no mesmo mistério que inspirou Dumas, o da existência de um prisioneiro na torre da Bastilha que realmente usara uma máscara de ferro e tinha seu rosto coberto. Como a sociedade francesa do século XVII era letrada, é quase um consenso entre os historiadores e pesquisadores que tal prisioneiro não era uma figura de elite, pois são poucos os registros escritos que discorrem sobre o mesmo, mas é inegável que sua existência é uma brecha para a imaginação de todo historiador ou literário.

4. A igreja reformada e o poder absolutista: uma construção da França moderna

Tomando como base duas características destacadas no filme “O homem da máscara de ferro”: A religiosidade e o poder absolutista, é posto em discussão o como ambas se relacionavam no século XVII e estavam dispostas perante a sociedade.

Partindo pelas gêneses do poder absolutista, voltamos a crise da idade média, ou mais precisamente, pelas crises do sistema feudal que emergiu na necessidade, ou facilitou o estabelecimento da figura do Estado na Europa Ocidental. Mas neste contexto tão complexo da história não podemos generalizar as características que definem o moderno e o medieval, pois já é de um consolidado debate historiográfico buscar identificar os limites de se estabelecer inícios e fins, ou seja, cronologias. Dando continuidade ao início do poder absolutista na Europa ocidental, podemos compreende-la com mais precisão através da interpretação de Perry Anderson em sua obra “O estado absolutista no Ocidente”:

“As alterações nas formas de exploração feudal sobrevindas no final da época medieval estavam, naturalmente, longe de serem insignificantes. Na verdade, foram precisamente essas mudanças que modificaram as formas do Estado. Essencialmente, o absolutismo era apenas isto: um aparelho de dominação feudal recolocado e reforçado, destinado a sujeitar as massas camponesas à sua posição social tradicional – não obstante e contra os benefícios que elas tinham conquistado com a comutação generalizada de suas obrigações. Em outras palavras, o Estado absolutista nunca foi um árbitro entre a aristocracia e a burguesia, e menos ainda um instrumento da burguesia nascente contra a aristocracia: ele era a nova carapaça política de uma nobreza atemorizada”. (ANDERSON;1998; p.18)

A partir das ponderações feitas por Anderson, é possível compreender o poder absolutista como uma readequação da nova elite, nobre ou burguesa, de se manter no poder, mesmo em meio as diversas modificações que vinham ocorrendo no mundo feudal do ocidente. Na verdade, tais modificações construíram-se como aliadas na centralização do poder com a figura de um Estado sem a referência do senhor feudal e a criação dos novos núcleos urbanos, juntamente, com sua dinâmica econômica e mercantilista que estabelecia relações políticas entre os príncipes ou representantes políticos das cidades, por isso foi se fomentando o estabelecimento do “líder” destinado a governar, a partir, é claro, de seus conselheiros e todo corpo hierárquico que iriam constituir a realeza.

Atrelado a tais relações de poder, Estado e sociedade, a figura da igreja católica, que por quase toda história representa uma instituição de poder, está presente na consolidação do Estado absolutista, pois é a partir dela que o poder monárquico se justifica por um ideal cristão, além de manter os considerados privilégios do clérigo. Anderson discorre sobre tal relação salientando que “Naturalmente, a definição social de “súditos” era previsível. Os “estados do reino” representavam habitualmente a nobreza, o clero e os burgueses das cidades (...)” (1998). Tendo como premissa a influência que a igreja cristã sempre propagou no cotidiano e no viver das sociedades ocidentais, é lúcido que toda a sua estruturação se expandiria para os poderes administrativos, ou seja, é inegável que a mesma exercera participação no poder absolutista.

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Trazendo agora o recorte para a França Moderna do rei Luís XIV, conhecido como rei Sol, Luís XIV é reconhecido por manter um longínquo e duradouro governo no século XVII e início do século XVIII, governou de 1643 a 1715, durante 72 anos; seu reinado é tido como um exemplo materializado de centralização do poder e Estado absolutista. É destacável em todo governo desta figura, a busca por justificar divinamente o seu poder, baseado principalmente pelos moldes dos sacramentos católicos. Neste mesmo período estava também emergindo os ideais protestantes, mas apesar da significativa força que os mesmos estavam tomando na Europa, a França se manteve majoritariamente governada pelos princípios católicos. Perry Anderson (1998) descreve esta característica religiosa e política que envolvia a realeza de Paris: “A monarquia francesa foi, em última análise, negada ao protestantismo”. Tendo como exemplo, um dos tantos rituais religiosos e sacramentos católicos (como debatido anteriormente, os ideais e propósitos protestantes não alcançaram a França dos anos 1600) pelos quais Luís XIV foi submetido em seu reinado; é possível elucidar através de Burke (1994), o sacramento do monarca recheado de simbologia no momento de sua coroação:

“A seguir o momento da sagração. O corpo do rei foi ungido com o crisma, o santo óleo da âmbula sagrada, um frasco que se dizia ter sido trazido do paraíso por uma pomba quando Clóvis, o primeiro rei cristão da França, foi batizado por são Rémy. O bispo pôs o cetro na mão direito do rei, na esquerda pôs a “mão da justiça” e na cabeça a “coroa de Carlos Magno”. Seguiram-se a homenagem da alta nobreza do reino e a revoada de um bando de pássaros no ar.” (BURKE; 1994;p.16)

É válido destacar neste debate, uma outra interpretação acerca da sagração real, que ao contrário do ideal de centralização do poder pelo “escolhido”, remonta a antiga monarquia na qual o rei possuía um governo absoluto que não se fazia absoluto, mas se construía compartilhado com a nobreza. Burke (1994) pondera:

“O ritual de inauguração e sagração era essencialmente medieval. Fora codificado por Luís VII, numa época em que o rei não era “absoluto”, partilhando o poder com seus nobres. Era essa concepção de monarquia que se expressava no juramento real e na aprovação formal do novo soberano pela assembléia. No início do século XVIII, o duque de Saint-Simon, vigoroso defensor dessa idéia tradicional de monarquia limitada, continuava interpretando o ritual dessa maneira” (BURKE; 1994; p.17)

Retomando um ideal de santidade que pairava sobre o rei, é perceptível compreender através de tais rituais a construção dessa imagem santa, que em alguns momentos era até interligada a poderes milagrosos e procedimentos de cura. Afirmando cada vez mais uma visão religiosa sobre o governo nas mãos de um homem, afinal, não se tratava de qualquer homem francês, era “o homem”, era “o escolhido”, “o enviado por Deus”, e em alguns casos até descrito como o “representante de Deus” ou de “Cristo na terra”, tendo suas decisões sempre pairadas sobre muita sabedoria e santidade. Tendo Burke (1994) como ilustrador deste contexto, o autor exemplifica:

“Mais tarde, em suas memórias, Luís afirmou (tal como os teóricos da monarquia absoluta) que sua sagração não o fizera rei, simplesmente o declarara rei. Acrescentou, no entanto, que o ritual tornara sua realeza “mais augusta, mais inviolável e mais santa”. Essa santidade pode ser ilustrada pelo de dois dias depois, o jovem rei ter desempenhado pela primeira vez o ritual do toque real. Segundo uma crença tradicional, os reis da França, como os da Inglaterra, tinham o poder miraculoso de curar a escrófula, uma doença da pele, tocando os atingidos e dizendo “o rei te toca, Deus te cura” [Le rei te touche, Dieu te guérit]. O poder curativo do toque real constituía um poderoso símbolo do caráter sagrado da realeza. Nessa ocasião, Luís tocou três mil pessoas. Ao longo de seu reinado, tocaria muito mais.” (BURKE; 1994; p.17-18)

Na periodização referente à idade média e a idade moderna, em muitos casos e interpretações da história, procuram separar estas cronologias por trevas e luz, ou melhor, a razão contra o irracional, mas como já abordado anteriormente, estas generalizações, em muito, dificultam uma real compreensão da história.

Dando continuidade ao debate do poder absolutista francês, é possível em meio a todo este cenário de religiosidade e justificação divina do poder reconhecer o embasamento “teórico-filósofico” que guiava e direcionava os príncipes e reis até mesmo em uma França moderna. Esta situação, em muito, se explica pela enorme quantidade de resquícios de idade média se dão no “período moderno”, propiciando um governo absoluto que tanto se explica pela fé, quanto se qualifica pela razão. Em seu artigo “As reformas religiosas na Europa moderna: notas para um debate historiográfico”, o autor Rodrigo Bendes Monteiro, discorre sobre como política e religião dialogam por uma perspectiva filosófica:

“Nesse âmbito, segundo Crouzet, o poder régio Frances da Renascença se caracterizava pela capacidade do rei governar como um iniciado nos segredos do universo. No sistema neoplatônico de Ronsard, poeta da corte, o universo era regido por uma lei de alternância. Mesmo que o dia seguisse a noite, que as estações se sucedessem, o bom tempo viria após a tempestade. Em 1566, um teórico definia o príncipe como aquele devia, por suas virtudes, ser sábio para guiar o povo aos bons modos, na crença e no amor de Deus.” (MONTEIRO; 2007; p.145)

Diante destes aspectos apresentados sobre o poder absolutista e a igreja católica na França do século XVII, é notável o quanto a monarquia desta época ainda se agarrava a toda uma justificação cristã e, mais especificamente católica, em uma época que tal igreja vinha sofrendo duras críticas e propostas de reformas. Manter-se forte na França demonstra o quanto tal religiosidade se construiu intensamente neste local, talvez por uma herança feudal. É válido destacar que, em como todo período moderno, não se pode homogeneizar o poder absoluto; na França o rei era resguardado pelo o seu destino divino católico, contudo na Espanha e na Inglaterra a igreja era frequentemente contestada, necessitando assim de uma “outra versão” do poder absolutista, pois não se pode negar que a fé está incorporada no governo, assim como o governo está incorporado na fé, desde que essa afirmação seja bem compreendida.

5. “É melhor ser temido ou ser amado? ” Algumas ponderações de Maquiavel e sua influência no absolutismo “moderno”.

Partindo da dualidade proporcionada pela obra cinematográfica “O homem da máscara de ferro”, na qual encontramos duas formas de governo materializadas em Luís XIV e Phelipe, é possível indagar: qual forma de governo absoluto seria mais duradouro e vigoroso? Aquele pelo qual o rei governa por ambição e anseio em expandir e crescer, não se atentando aos problemas internos e, se preciso, sacrificando seu povo pelo crescimento de seu próprio território? Este tipo de governo se manteria? Ou seria melhor partir de um governo absoluto que priorize a bondade e piedade, conquistando a população pelo afeto, mas ao mesmo tempo transparecendo uma certa fragilidade? Como um rei piedoso seria visto por seus inimigos? Este tipo de governo conseguiria se manter em um Europa Ocidental sem a dita “mão de ferro”?

Para que a discussão que pretendemos propor fique mais clara, farei, previamente, apenas um pequeno adendo, citando o autor Napolitano (2005) quando o mesmo salienta que em um filme pode ocorrer “predomínio da ideologia ("discurso ideológico") dos realizadores sobre a historicidade, subvertendo o sentido dos personagens e dos fatos” (p. 241). O olhar crítico dos pesquisadores deverá permanecer atento quanto as intenções do filme “O homem da máscara de ferro” de vender a ideia do que seria um bom ou um mau governante. Em suma, o filme traz a figura do bom governante como um homem “justo”, “bondoso” e amigo de seu povo e essa visão, nas entrelinhas da própria obra cinematográfica, é a única opção correta de governante.

Em geral, procuramos pontuar estas questões referentes ao principado e a monarquia a partir da obra de Nicolau Maquiavel, denominada “O príncipe”. Sua obra pode ser descrita como um manual de como se alcançar e se manter em um poder absoluto, mas é claro que seus ideais podem ser contestados. Como ponto norteador, é necessário dar ênfase as palavras de Maquiavel, sobre uma monarquia estruturada a partir da hereditariedade, que é o modelo pelo qual se constituiu majoritariamente as monarquias europeias do ocidente. Maquiavel pondera:

“Digo, pois, que nos estados hereditários e acostumados à linhagem de seus príncipes, há bem menos dificuldades para mantê-los do que nos novos, pois basta não preterir as ordenações de seus antepassados e, depois, saber contemporizar segundos os acontecimentos; de modo que, se um príncipe é de capacidade ordinária, ele sempre se manterá em seu estado, desde que dela não seja privado por uma força excessiva e extraordinária. E, se o for, ele o reconquistará a qualquer revés do ocupante.” (MAQUIAVEL; 2014; p.7)

A partir dessa visão proposta por Maquiavel, é possível concluir que um governo absoluto conquistado de forma hereditária, dentro de todas as formas de governos monárquicos (como os conquistados por invasão, por exemplo) se faz mais “fácil” na questão de sua manutenção, tendo como base o governo que o antecedera, o principado pode guiar-se a partir daí, pois já tem o seu povo inserido em uma linha de administração do poder.

No que diz respeito aos homens reais, e sua atordoante dúvida entre ser temido ou amado por seu povo, Maquiavel é sucinto e afirma:

“Surge disso uma questão: é melhor ser amado que temido ou o inverso? A resposta é que seria de desejar ser ambas as coisas, mas como é difícil combiná-las, é muito mais seguro ser temido que amado, quando se tem que desistir de uma das duas. Isso porque geralmente se pode dizer o seguinte acerca dos homens: que são ingratos , volúveis, simulados e dissimulados, fogem dos perigo, são ávidos por ganhos e, enquanto lhes fizerem bem, pertencem inteiramente a ti, te oferecem o sangue, os bens, a vida e os filhos, como eu disse acima, desde que a carência esteja distante; mas, quando precisas deles, revoltam-se. O príncipe que se apóia inteiramente em suas palavras, não estando protegido por outros preparativos, arruína-se, porque as amizades conquistadas com dinheiro, e não com a grandeza e a nobreza de ânimo, se merecem, mas não se possuem e, no devido tempo, não podem ser expendidas. Os homens têm menos receio de ofender quem se faz amar do que quem se faz temer; pois o amor é mantido por vínculo de obrigação, que por serem os homens maus, é rompido por toda ocasião que lhes seja útil, enquanto o temor é mantido pelo medo do castigo, que nunca abandona.” (MAQUIAVEL; 2014; p.82)

Em seu raciocínio Maquiavel é cirúrgico no que tange a fidelidade dos homens. Sinteticamente, afirma que para um rei não se é seguro confiar no amor de seus súditos, pois o mesmo está propenso a traição, se em algum momento este não se sentir confortável e acabar usufruindo para benefício próprio do “amor” real. Maquiavel entrelaça o amor à traição; em uma perspectiva filosófica maquiavélica sobre esta faceta humana, apesar de parecer desesperançosa, possuí uma lógica extremamente coerente sobre natureza, não importa quem seja o indivíduo, em algum momento de sua vida este sujeito, em qualquer contexto histórico, já decepcionou uma única vez quem o ama, em outras palavras, já o traiu; esta situação em proporções de reinados torna as consequências gigantescas. Assegurar-se como rei no temor dos seus súditos não o faz necessariamente um tirano, apenas o faz mais sólido; o temor é uma característica que impede a traição, por isso é bem mais eficaz do que o amor. Partindo desta interpretação de Maquiavel, Luís XIV possuía um potencial para se consolidar como rei absoluto mais efetivo que Phelipe, mas a sua ambição superou qualquer perspectiva de governo partindo para um viés desonroso e injustificável, na qual pode-se entender que não é fácil se conquistar o temor quando este possuí uma linha tênue com a revolta e a rebelião que se pode causar em seu povo, e até mesmo na sua nobreza.

É claro que a abordagem de Maquiavel acerca dos governos absolutistas não é a única e não é a verdade histórico-filosófica, mas se faz como um bom debate, afinal, não se pode ignorar uma obra já tida como imortal quando se tem em debate o principado. Contudo, acrescentando a esta discussão, é enriquecedor apresentar um contraponto a Maquiavel escrito pelo autor Michel Senellart em “As artes de governar”, na qual o autor discorre:

“Afirmar-se facilmente que Maquiavel substituiu uma arte utópica de governar, centrada na virtude do príncipe e orientada para o bem comum, por uma arte pragmática, atenta às condições concretas de êxito. Mas seria preciso ir mais longe. Pois Maquiavel não modificou apenas as regras da arte, ele transformou o próprio objeto dela. É a idéia de governo como condução, direção que ele rejeita, abandonando a velha imagem usual desde Platão, do rei piloto que governa a nave do Estado, segue uma rota e busca chegar a um porto. O príncipe maquiaveliano não dirige mais, ele domina. Ele reina num mundo sem objetivos, entregue às relações de força. Certamente é muito significativo, para o destino do pensamento moderno, que o momento em que a política se torna uma técnica seja também aquele em que o governo perde sua função diretiva para se concentrar inteiramente sobre o poder.” (SENELLART;2006)

Desta perspectiva de Senellart, chega-se ao pensamento de que governar para ser temido, ou simplesmente governar sobre outras perspectivas de Maquiavel, retira do rei absoluto a sua capacidade de guia, tomando a frente de seu povo para que todos caminhem no mesmo ritmo de passos, para um mesmo objetivo, por um mesmo caminho.

Governar com temor de perder seu poder não é governar por um todo, mas é o simples governo do poder pelo poder, sem nenhuma outra perspectiva de crescimento, prosperidade ou progresso. O autor Senellart nos apresenta um ideal de governo a ser buscado, o ideal de governar no seu verdadeiro sentido da palavra, pois não é correta a concepção de governar para o temor, este verbo deve ser conjurado em seu real sentido: do governar para caminhar. Este caminhar que busca horizontes que vão escrevendo a história, um infinito horizonte de eternos súditos e reis, que mudam suas aparências, mas não a sua disposição na sociedade.

6. Considerações finais

A partir destas discussões e análises, que iniciou-se através de uma visão crítica a respeito de uma obra cinematográfica intitulada “O homem da máscara de ferro” foi possível destacar facetas do filme e de sua inspiração literária “O Visconde de Bragelonne” que interligam a conhecida cronologicamente como “História Moderna”, e algumas de suas características que se constroem de maneira tão peculiar, como o Estado absolutista e a igreja católica em meio ao poder exercido pelos monarcas enquanto instituição, que viveu um momento de contestações e reformas, mas que, ao mesmo tempo, ainda se estrutura como uma figura política que exerce extremo poder perante os seus súditos.

Quanto mais nos aprofundamos nas facetas humanas predispostas ao longo da história, mais percebemos que o ser humano é complexo, principalmente enquanto ser social. Justificar um governo na mão de um único homem, que está a poucos passos de ser considerado como divindade, é um contexto único, de um determinado país (no caso a França), recortado em uma determinada temporalidade (século XVII), que não deve ser expandido como interpretação para os demais fatos históricos, principalmente os fatos históricos que tangem a modernidade.

Este período da História conhecido como “Moderno”, é um dos mais contraditórios a ser analisado, pois delo nasce, ou ao menos se é reconhecido, o como o homem não possuí uma única explicação tentativa de explicação; o homem é diverso e sua diversidade é abrangente; é um ser medieval sem excluir a modernidade que habita em seu interior, ou vice-versa.

As intenções deste ensaio não são explicativas, pois não há nada discorrido aqui que possua uma linha de perspectiva autoexplicativa respondendo todas as indagações sugeridas, este trabalho procura, acima de tudo, incitar que os questionamentos que desta temática surgiram, possam transformar-se em um fator de força motriz que motive cada vez mais compreender as versões da História.

7. REFERÊNCIAS

ANDERSON, Perry. Linhagens do Estado Absolutista. São Paulo: Brasiliense, 1998.

BURKE, Peter. A fabricação do rei. A construção da imagem pública de Luís XIV. Rio de Janeiro, Jorge Zahar,1994.

DAVIS, Natalie Zemon. Culturas do povo sociedade e cultura no inicio da frança moderna: oito ensaios. Paz e Terra, 1990.

MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. Editora WMF Martins Fontes Ltda. 3ª edição. São Paulo, 2014.

MONTEIRO, Rodrigo Bentes. As reformas religiosas na Europa Moderna: notas para um debate historiográfico. VARIA, HISTORIA, Belo Horizonte, vol. 23, n°37, 2007.

NAPOLITANO, Marcos. "A história depois do papel." Fontes Históricas. São Paulo: Contexto (2005): 235-289.

SENELLART, Michel. As artes de governar: do regimen medieval ao conceito de governo. São Paulo: Editora 34, 2006.


Publicado por: Victor Coqueiro de Sousa

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