A percepção do tempo e seu valor presente

Filosofia

O ritmo que determina nossa forma de existir e pensar, refletindo nosso lugar no tempo, investigando as teorias temporais entrelaçadas entre o passado, presente e o futuro.

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1. RESUMO

Tempo é algo que muitos falam e pouco se vive, sendo perceptível somente quando uma minúscula fagulha para e a consciência tenta explicar. É provável que seja relativo, mas está aí e não pode ser negado, sendo possível vive-lo da melhor forma, mesmo que por vezes se parece acelerado. Tornando-se essencial empreender um estudo sobre o ritmo que determina nossa forma de existir e pensar, refletindo nosso lugar no tempo, investigando as teorias temporais entrelaçadas entre o passado, presente e o futuro. Analisando a concepção de tempo fundamentada em teorias do conhecimento e a necessidade que o homem tem para determiná-lo. Investigando as implicações que destrincharam o tempo atual, controle e liberdade do ser humano. Refletindo sobre o ritmo existencial e as análises sistêmicas a partir do presente que marca nossa história. Implicando nas possibilidades em ter consciência, sentido e sensação do ritmo que move o homem sendo controlado ou não de acordo com suas individualidades. A pesquisa é baseada em história das mentalidades no diálogo de bibliografias e explorações a cerca da temporalidade existencial, com abordagem psicológica qualitativa. A reflexão da construção de vida e formação histórica, influenciadas por escolhas ou impasses de agentes transformadores da humanidade sejam eles internos ou externos, percebido ou não pelo ser humano. Verificando a importância do tempo para o controle social e que vem sofrendo transformações tecnológicas para resinificar a visão de mundo e expectativas ao longo da vida. Propostas difusas que partem das escolhas e espaços, sejam eles temporais ou atemporais. Encontrando caminhos percorridos para concepção da existência do tempo, as possibilidades para perceber o ritmo da vivência no presentismo, com ramificações desafiadoras de problemáticas contemporâneas e futurísticas na busca pelo tempo.

Palavras-chave: Consciência -Tempo – Vida

ABSTRACT

Time is something that many speak and little is lived, being perceptible only when a tiny spark for and consciousness tries to explain. It is likely to be relative, but it is there and cannot be denied, and it is possible to live it in the best way, even if it sometimes seems accelerated. Making it essential to undertake a study on the rhythm that determines our way of existing and thinking, reflecting our place in time, investigating the temporal theories intertwined between the past, present and future. Analyzing the conception of time based on theories of knowledge and the need that man has to determine it. Investigating the implications that have unstained the current time, control and freedom of the human being. Reflecting on the existential rhythm and the systemic analyses from the present that marks our history. Implying the possibilities to have consciousness, sense and sensation of the rhythm that moves the man being controlled or not according to his individualities. The research is based on the history of mentalities in the dialogue of bibliographies and explorations about existential temporality, with a qualitative psychological approach. The reflection of the construction of life and historical formation, influenced by the choices or impasses of transforming agents of mankind be they internal or external, perceived or not by the human being. Verifying the importance of time for social control and that has undergone technological transformations to resinify the worldview and lifelong expectations. Diffuse proposals that depart from choices and spaces, whether they are temporal or timeless. Finding paths traveled to conception of the existence of time, the possibilities to perceive the rhythm of experience in presentism, with challenging ramifications of contemporary and futuristic problems in the search for time.

Keywords: consciousness - time – life.

2. INTRODUÇÃO

A partir das reflexões do uso do tempo tanto para historiador como para a sociedade, na busca pelo tempo, cada vez menor, por assim dizer a princípio. Meu trabalho consiste em explorar a temporalidade, os valores e resignificar o tempo atual. Levando em consideração as bases de duração que transformaram o tempo histórico e desenhando novas visões sobre o tempo. As problemáticas a respeito da percepção e controle da vida e alterações na vida a partir das escolhas e cobranças da contemporaneidade.

Baseando na corrente historiográfica a partir da Nova história da escola dos Annalles, tendo como base a história problema, com metodologia a história das mentalidades, com abordagem psicológica, suscitando preocupações com o inconsciente coletivo, a formação da diversidade e novas propostas culturais. Através da exploração de fontes escritas, como quatro livros e sete artigos, fontes sonoras, com uma música, fontes audiovisuais, sendo um documentário e um filme, analisando e percebendo o pensamento da temporalidade e sua importância.

Ocasionando como problema: a possibilidade em ter consciência, sentido e sensação do ritmo que move o homem sendo controlado ou não de acordo com suas individualidades? Com tudo que está por trás da consciência de uma sociedade, em sua totalidade psíquica, uma estrutura mental, individual e coletiva, envolta das escolhas e vertentes para se viver o “presentismo”.

A profundidade e clareza dessa dimensão do campo historiográfico têm como eixo, os recortes dos estudiosos desenvolvidos nos capítulos a seguir. Pesquisa bibliográfica e exploratória, qualitativa. A partir de Pesquisadores e cientistas em busca de respostas para o tempo presente. Bem como, artigos que implicam sobre a temporalidade existencial, em que conceito, controle, valor, espaço/tempo e atemporal, são sistematizados e problematizados.

As Modificações e transformações ao longo dos tempos, no cotidiano do individual e coletivo, com pensamentos da consciência do ritmo de vida. Fundamentados em autores trabalhados neste texto e pensadores contemporâneos.

Sendo assim, o objetivo geral é Empreender um estudo sobre o ritmo que determina nossa forma de existir e pensar, refletindo nosso lugar no tempo, investigando as teorias temporais entrelaçadas entre o passado, presente e o futuro.

Dentro deste objetivo, há necessidade de Analisar a concepção de tempo fundamentada em teorias do conhecimento e a necessidade que o homem tem para determiná-lo. Na busca para compreensão do que é tempo e qual seu significado para a vida humana? O tempo por vezes pode ser considerado como não existente em si, não é nem um dado objetivo, como sustentava Newton, nem uma estrutura do espirito como que queria Kant. Mas então como podemos falar tanto de algo que não existe?

Pode ser considerado um símbolo social, resultado de um longo processo de aprendizagem e nesta vasta exploração ao longo das Eras, classificado em uma escala, como pode ter outras funções. Será que a concepção de tempo ainda permanece obscura?

Questão que procede Investigar as implicações que destrincharam o tempo atual, controle e liberdade do ser humano. É possível conceber tempo ou ele é manipulador de nossas determinações cotidianas? O tempo é controlado ou determinado? Se controlado, por quem, como e por quê? A civilização passou e ainda passa por processos de dimensão temporal que ora se aliam, ora se contradizem com as teorias de liberdade e condicionamento do fluxo de vida irrefutável e abrangente com as necessidades para uma vida plena. Necessitando ou não medi-lo? O tempo realmente virou uma moeda de troca?

Refletir sobre o ritmo existencial e as análises sistêmicas a partir do presente que marca nossa história. “Há mais do que passado na história.” (KOSELLECK, 2014). Porque é importante conhecer o tempo em si e valorizar o ritmo que vivemos atualmente, apropriando do que é mais precioso?

As pessoas vivem em uma realidade presente paralela, aonde pensam que estão constantemente em um espaço infinito e consciente do saber, quando tudo é superficial. E isso pode ter consequências.

Assim sendo, este trabalho foi organizado por uma introdução que destaca o problema, os objetivos de investigação, o pensamento e as bases de pesquisa realizadas do desenvolvimento. Seguindo com desenvolvimento, divididos em três problemas, sendo o primeiro capítulo, abordando a natureza do tempo, subdividida primeiro em o que é tempo? E em segundo como: fundamentos temporais.

O Segundo capítulo investigará a exploração de símbolos e problemáticas envolvidas na História, subdividida em três implicações, sendo o primeiro nos questionamentos do cronometro na história do tempo, o segundo com a confusão do marco inicial e o terceiro do valor, controle e liberdade do tempo.

O terceiro capítulo trata sobre o tempo para refletir, subdividida em duas partes, primeiro em o ritmo que determina nossa consciência histórica e o segundo sobre apropriar do que é mais precioso. Terminando com considerações finais a cerca de respostas para questões aqui explicitas e referências estudadas para examinar os problemas, os resultados encontrados e recomendações para futuros estudos temporais.

3. CAPÍTULO I

3.1. A natureza do tempo.

Pensando na colcha que tece a melhor história produzida pelo homem comum, transmitindo sua experiência ao longo do tempo, com expectativas e perseveranças para construção de um novo conhecimento e consolidação do significado da vida. Os estudos aqui abordados têm como base, as discursões da formação e percepção do ritmo que desenha nossa existência.

São amplas as discursões sobre o conceito de tempo, sendo por vezes considerado como não existente em si, é preciso aprofundar sobre o tema para encontrar um caminho que direcione esse significado recheado de sentido que envolve a vida humana. O tempo passou e ainda passa por um processo de transformação até chegar à forma que se compreende hoje.

“O tempo tornou-se tão habitual para o historiador, que ele o naturalizou ou instrumentalizou. Ele é impensado, não porque seria impensável, mas porque não o pensamos ou, mais simplesmente, não se pensa nele.” (HARTOG, 2006, p.262). Tem um valor estimável, fala-se dele o tempo todo, mas não se tem tempo para ele.

Interessante à forma como o tempo foi representado por Adam (2004 apud TONELLI, 2008, p.209), definindo a amplitude da questão à priori:

Tempo é -Tempo é ordem -Tempo é duração - Tempo é estabilidade e estrutura-Tempo é persistência e permanência - Tempo é repetição, ciclo e ritmos - Tempo é começo e fim, pausa e transição - Tempo é a diferença entre o antes e o depois, a causa e o efeito - Tempo é vida e morte, crescimento e declínio, noite e dia - Tempo é mudança, transitoriedade e efemeridade - Tempo é evolução, história e desenvolvimento - Tempo é fluxo e transformação - Tempo é processo e potencial - Tempo é mutabilidade - Tempo é caos - Tempo é - Tempo é velocidade - Tempo é duração - Tempo é simultaneidade - Tempo é Chrono & Kairos - Tempo é passado, presente e futuro - Tempo é a sucessão de momentos - Tempo é memória, percepção & antecipação - Tempo é mercadoria & valor de troca - Tempo é medida de movimento - Tempo é, a priori, intuição - Tempo é instantaneidade - Tempo é um recurso - Tempo é dinheiro -Tempo é um presente - Tempo está - Tempo está voando - Tempo está passando - Tempo está continuando - Tempo não está esperando por ninguém - Tempo está desaparecendo como um sonho - Tempo está indo para sempre -Tempo está evaporando -Tempo está chegando - Tempo é tempo -Tempo é.

Mas para ser preciso e bem peculiar, para saber o que realmente é tempo, pergunte a uma mãe em sua hora de parto natural, o tempo que durou o exato momento do nascimento de seu filho e pergunte a pessoa que acabou de esperar ao lado de fora este mesmo ocorrido? Ou uma situação desagradável quando se quer que acabem o mais rápido possível, momentos divertidos e festivos com experiências que merecem a infinidade, mas que termina em instantes. Essa dimensão que estabelece relações subjetivas nos fazendo refletir sobre sua existência e conceito.

E para que isso ocorra é preciso ter consciência de como funciona a dimensão temporal que é dependente da condição humana, Koselleck, (2014) também concorda com essa trajetória, reafirmando que o tempo não é linear, “ele se completa na produção daquele que, pela compreensão, toma consciência de seu tempo”, experiência que nunca tem fim e pode ser contido em todas as dimensões. Há uma possibilidade de que seja o obstáculo que existe, para que o tudo não ocorra de repente ou instantaneamente e não como determinador da causa.

Tempo é algo que muitos falam e pouco se vive, sendo perceptível somente quando uma minúscula fagulha para e a consciência tenta explicar ou quando tudo para e a falta do momento se torna percebido? É provável que seja relativo, mas está aí e não pode ser negado, são amplas as teorias que tentaram definir um conceito, sendo necessário abordá-las para compreensão do tempo atual.

Foi este o caminho que levou a autora do documentário, Quanto tempo o tempo tem, “Dirigido por” (DUTRA, 2015), a iniciar os preconceitos sobre as contrariedades encontradas nas falas dos pesquisadores contemporâneos, onde sua concepção se torna frustrante ao saber que o que existe é esse instante que já passou, onde o passado não está e o futuro não chegou. “Já que o passado não existe o futuro nunca chega, e o presente é só esse instante imaginário, porque então perder tanto tempo contando um tempo que não existe?” (DUTRA, 2015). Mas então, como falar tanto de algo que não existe?

3.2. O que é tempo?

Para Elias (1993) tempo é “um símbolo representativo desses tipos de sínteses aprendidas no âmbito de uma sociedade.” E ainda, “O tempo não se deixa ver, tocar, ouvir, saborear nem respirar com um odor.” É um conceito contraditório e abstrato, mas não se pode negar.

A compreensão do tempo e capacidade de conceitua-lo parte das designações abordada por todos os autores estudados, considerando o tempo como “múltiplos” em sua dimensão conceitual, mais contido nos reflexos de noção de “passado, presente e futuro”, sendo estes, definidos a partir do olhar sistêmico de cada autor, representação de modos de ligação onde as experiências ocorrem, os motivos para definir os momentos. Considerando o presente por si só, em posições modificadas, ou palco de acesso as direções temporais.

“O futuro de hoje é o presente de amanhã, e o presente de hoje é o passado de amanhã.” (ELIAS, 1998, p.62). Onde a representação de ligação da experiência do homem, flui, num [quantium] da simbologia considerada nas formas de contagem do tempo, que, no entanto, só adquire aspecto no presente. Essa dimensão é contestada onde o tempo pode ser absoluto, não tendo começo, nem fim, não há entrada para o passado e nem saída para o futuro. Sendo: “determinado por cada grupo humano” (ELIAS, 1998, p.64) que se transforma e modifica essa delimitação.

Assim como, Whitrow, (1993) considera que o tempo é distinto e depende da singularidade de cada um, alimenta ainda a perspectiva de que há grupos mais isolados que conseguem viver sem o tempo, a depender do modo como se relacionam com o mundo e o significado que abrange a noção de passagem do tempo. Onde, “os pontos de referência sendo uma projeção, no passado, das relações presentes entre grupos sociais”. Tudo depende do significado de definição do espaço e do tempo.

Dentre tanto, Dutra, (2015) desconsidera que tempo existe, permitindo a percepção individualizada do instante, muito rápido, sendo imperceptível de definir, e que: “Não existe passado, nem futuro, o que existe é o presente”, proposta que Koselleck, (2014) explica minuciosamente:

O presente pode ser dissolvido entre o passado e o futuro, esse extremamente também pode ser invertido: todo tempo é presente e num sentido específico. Pois o futuro ainda não é, e o passado já não é mais. O futuro só existe como futuro presente; e o passado, só como passado presente.

Considerando os estudos e Koselleck, (2014) ao que Santo Agostinho conjugava por dimensões da existência humana, como o [presente] que abraça todas as dimensões e também “desaparece no passado e no futuro”. Combinando com a teoria heidegeriana, onde o presente pode andar para trás ou para frente, tendo várias combinações possíveis. Intrigante este pensar, mas que poderá ser um caminho de futuras perspectivas.

Ainda na concepção Agostiniana, estudado por Julião, (2018) confirmando que o passado e o futuro estão dentro do presente, em que: “A recordação do passado, portanto, é uma (“representificação.”), ou seja, o (“presentismo”) trabalhado por Koselleck, (2014) bem como, à espera do futuro que ocorre no presente, “não pode ser futuro se nós não vemos os fatos futuros, mas suas causas ou seus prognósticos já dotados de existência.” Portanto, definidas, independente como consideramos essa definições à priori, sendo por [Deus] ou por qualquer predisposição natural.

“Muitos de nós temos, intuitivamente, a impressão de que o tempo prossegue para sempre, por conta própria, sem ser em nada afetado por qualquer outra coisa” (WHITROW, 1993. p. 15), desta forma, para conceber o tempo, não basta defini-lo através de um relógio ou calendário como se faz hoje. Haja vista que, tempo não é linear, passando de um ponto A para o ponto B, tornando incapaz de seguir um padrão e muitas são considerações envolvidas que precisam ser descortinadas. Essa determinação de duração temporal, não foi algo repentino, levou grandes proporções até chegar neste conceito.

A nossa sociedade entende o tempo por um símbolo criado pra marcar períodos de anos, meses, semanas, dias, horas, minutos, segundos e milésimos de segundo, mas será que tempo é ter noção de medida ou duração, desconfigurando o sentido e o movimento? O homem constrói experiência, considerado como patrimônio do saber e tem necessidade de aumentar, não diferente do conhecimento do tempo, ainda não houve na história da humanidade quem o definisse, como já implicado anteriormente.

Levar em consideração os autores que principiaram esta temática é de suma importância, a própria percepção de tempo definida nos estudos de Elias, (1998) considerando que Newton, foi contraditório aos conceitos de Einsten, sobre o tempo na modernidade, onde ele sustentava um tempo que não era “único e uniforme, através de toda a extensão de universo físico” (ELIAS, 1998, p.35.), mas defendia sua linearidade. E hoje são vários especialistas de defendem outras versões, partindo dos primórdios, ou somando – os.

Isso mostra que para compreender o tempo em si, é necessário muito tempo, ou seja, temos a capacidade de começar a compreender suas irregularidades, e perceber que cada instante é diferente um do outro, significativo e que não obedece a lei natural, dificultando sua percepção no espaço. Mesmo que, seu conceito foi alimentado nas palavras de Adam, (2004) apud Tonelli, (2008) no início deste capítulo. Contudo, sua definição precisa de questionamentos, envolvendo as sensações e percepção apresentadas nos fundamentos temporais.

3.3. Fundamentos Temporais.

O descortinar dessa emblemática, parte do princípio de que a história trabalha com os eventos marcados no tempo espaço e ocorre mediante as narrativas e memórias não para predizer o futuro, nem tão pouco para definir o passado, mas para resgatar e reconstruir um novo, partindo do momento presente. Mesmo porque há variações sobre o momento do tempo e sua existência disseminada no espaço. Para maior compreensão, a base estruturada por Koselleck, (2015) determina vários níveis de tempo, o [curto], o [médio] e o de [duração].

O primeiro se designa no tempo definido por o que vem antes e o que vem depois, como o ontem e amanhã, nas determinações cotidianas cronometradas nas definições simbólicas para medir. Ou melhor, dividir um quantium em o que vem primeiro e por último a um determinado momento definido no presente.

O segundo representado nos acontecimentos que fogem do controle pessoal, envolvendo grupos sociais de fatores econômicos, encontrado nas revoluções inovadoras ou desastrosas que modificam as condições de vida humana e por fim as experiências vividas em espaços considerados meta históricos, onde pode ser repetido e revisado na memória e nas narrativas históricas, ou seja, nas experiências e vivências em que o ser humano tem percepção do movimento ou não.

Koselleck, (2014) ainda fala de um tempo que se designa da vivencia do passado e futuro, considerando subjetiva a interação do tempo que cada qual se inseri no presente, ou seja, as escolhas do tempo objetivo, decorrente do percurso natural a qual pertence, concebido por meio de cálculos e localizações espaciais e ou biológicos, facilmente apresentados nos calendários, como conhecemos ou organizamos. Assim:

[...] o dia a dia já tem sofrido uma pressão de prazos suficientemente grande para provocar uma percepção dos novos ritmos decimais como desafios, como apoio ou alívio, ou seja, como modos de um novo tempo. (KOSELLECK, 2014, p.225).

A sociedade necessita de organizar o tempo para conquistar resultados e se estabelecer. E se esse ritmo como apresenta koselleck, (2014) tem novos desafios, a possibilidades de percepção ou mudança do sentido de tempo – espaço é decisiva para a qualidade da existência. Contudo o homem é que precisa definir suas prioridades.

De acordo com a Nova História, a À escola dos Annales, (1929) apontada por Koselleck, (2014) fundamentando que: não são as estruturas e as categorias que fazem a história, mas os sujeitos, sendo o homem o principal foco na História, que agi através do tempo, norteando a vida.

Perpassando mediante várias implicações, onde o tempo não seja contínuo, conectando os tempos para que este se faça presente. Encontrando-se, uma delimitação da palavra tempo, destilada como símbolo de passagem de um ponto ao outro, comprando-o com mudança ou movimento de estado/espaço. Um tempo em que todos os tempos se solidificam.

Ao passo que, atualmente as informações são transmitidas em tempo real, instantaneamente. Onde todos podem acessar ao mesmo tempo e no momento que desejarem, a percepção do tempo pode sofrer alterações, considerando o espaço “cibernético” atemporal, onde tudo ocorre no mesmo tempo e em um espaço externo em que o homem contemporâneo aderiu.

Contudo, os desígnios do tempo requer um olhar sistêmico, para encontrar os sentidos e a percepções analisadas em filosofias com abordagens historiográficas e que infere na expectativa de vida humana. E sensações para conectar as experiências dos ciclos considerados por cada sociedade. Tanto as ciências naturais como as humanas, analisam o tempo, mas, compreendem suas teorias de formas diferentes para manejar.

Mas de acordo com as analises encontradas é possível dizer que: “o tempo e espaço é conceito histórico” (KOSELLECK, 2014, p.74). E este está constantemente em transformação e redefinindo a nossa identidade, como veremos mais adiante.

E em decorrência das mudanças embutidas nas Revoluções, ao longo da História, em especial a industrial, tornando-o cada vez mais minuciosa. Levando em consideração o tempo de distancia, principalmente os avanços dos meios de comunicação. Situação que Koselleck, (2014) e os demais personagens temporalistas abordam, sobre a velocidade do tempo, determinando as ações que desencadearam na “aceleração do tempo”, ou “dilatação”. Transformando a qualidade de vida e discernimentos de posições que desenharam os caminhos e seus contrapontos.

Consequentemente, essa “aceleração do tempo”, tornou possível a reflexão dos eventos e ações da organização temporal e as decisões convergentes do modo de vida social e individual, como defini Koselleck, (2014) “o ser humano já não tem como não refugiar-se no futuro e planejá-lo, pois os dados da experiência própria e alheia se tornam cada vez mais disponíveis” e ainda, afirmando a imprevisibilidade do tempo e existência da confusão de duração temporal. O tempo atual é instantâneo e pode fragmentar valores, antagônicos a conexão do espaço – tempo e a memoria patrimonial.

A reflexão temporal abordada por Hartog, (2006) na perspectiva de sondagem que envolve as rupturas e as permanências de escolhas materiais sobre o tempo contemporâneo, mostra que existe um interesse de conservar o antigo e que este se faz presente, valorizando o patrimônio histórico demasiado a definir uma cultura. Confusão que pode ser resposta da rapidez do fluxo da vida e os avanços que o homem tem sobre a percepção do tempo que lhe serve.

Esta perspectiva ressalta a confusa e a amplitude de conservação de identidade, dentre outras valias de desordem cronológica que ele considera. Onde o ser humano não compreende os significados das experiências que formaram o futuro, agregando valores históricos em no descompasso da realidade. Mas que pode ser entendo por dois aspectos estudados por Koselleck, (2014).

A primeira como angústia, um dos problemas enfrentados aos olhos de quem vive na velocidade do tempo, ou seja: “Consciência determinada pela antecipação da morte” (KOSELLECK, 2014, p.94), valorizando algo que ainda não aconteceu e confundindo o presente, ansiado por uma dilatação ao negar os limites do agora.

Resultados de acúmulos de matéria que aparentemente vêm suprindo a necessidade do sentimento de conquista, não da vida eterna como defendido até o período conhecido como idade média, mas na intensão do viver completo e sempre insatisfeito.

E a segunda no sentido de pertencimento ou deixar as experiências para próximas gerações, firmando um compromisso social e cultural, no seguimento da própria existência ou intensão de imortalidade. Particularmente, estas memorias podem estar em risco, ao pensar na desconsideração do valor temporal e da banalização em viver no descompasso, em que tudo pode acabar e não der tempo suficiente para se fazer o pretendido. Lutando em busca de mais tempo.

No filme Quanto tempo o tempo tem? Dirigido por: (DUTRA, 2015), há uma resposta que compreende essa velocidade do tempo, onde a cobrança de se conhecer tudo em um curto espaço de tempo está associada ao comportamento impensado de impaciência ou não compreensão das necessidades alheias e aos anseios individuais que estão “desorientados” e desconexos com a própria identidade. Os autores configuram essas atitudes “instantâneas” como reflexo preocupante, onde o descontrole de decisão pode não ser seu.

Firmando que: “o presente nunca falha. O presente sempre está lá inteiro. Só você pode se apropriar de seu tempo e se apropriar do seu tempo, é viver o presente” (DUTRA, 2015). Não que este deva ser intenso a todo instante, ou que só se faz o que quer, pensando que o amanhã pode não chegar.

Consequentemente, toda via de raciocínio depende da cultura, moral, religião e hábitos que podem se contradisser ou definir a temporalidade, como aponta Calanzans, (2007) em que os orientais tratam o tempo como momento único, “instantâneo”. O fim é recomeço, onde se nasce para morrer e morre para nascer, desenhando um ciclo da vida, perspectiva da cultura hindu o qual tem crena na “reencarnação”.

Já os ocidentais, são mais ligados a história do inicio do mundo, alinhado ao surgimento do universo, ao começo da história. Onde o tempo começou do nada “ a criação de Deus” e desaguará “na volta para o nada”, ou seja na destruição da humanidade.

[...] preferiram ignorar os problemas do tempo e concentrar-se apenas na suposta (ordem eterna que rege a natureza) e, usando para isso, o tempo apenas como a referência, a escala para marcar diferentes posições ou alternações de movimento [...] (CALANANS, 2007, p.8).

Considerando o tempo com irreversível, ou durável, onde não pode ser alterado. Ele é e sempre foi. Muito similar ao pensamento Cristão, e destino linear dos acontecimentos, ajustado as teorias de controle do tempo.

Outra concepção defendida são as teorias apocalípticas judaicas – cristã, sobre a percepção do tempo abreviado. Como confirmação da vinda do Cristo, onde através do caos, haja a esperança do futuro eterno, assim, “o tempo em que Deus retornará para transformar este mundo [saeculim].” (KOSELLECK, 2014, p. 12), perpassa nas experiências transformadoras de comportamento populacional, onde a passagem do tempo acelera a ação do homem, tanto para o bem como para o mal e este representa o cenário do “fim dos tempos”, essencial para manter as organizações religiosas e resolver o problema da linhagem e composição do tempo.

Os livros de Mateus 24: 22 e Marcos 13: 20 demonstra o desejo dos fiéis em ver o tempo abreviado, para compartilhar a salvação o quanto antes. Esse desejo permanece como salvação da saída dessa angustia, ou de se livrar dos problemas causadores da falta de percepção do tempo / espaço?

Na Visão abordada por Koselleck, (2014) nos tempos remotos era um privilégio participar do “Juízo Final” agora o poder do jugo está sobre quem determina a moral. “quanto mais o ser humano se aproxima da morte, mais se abreviam os prazos à sua disposição.”. Alinhado o tempo a duração de vida no mundo.

A noção de tempo abreviado é proveniente da concepção apocalíptica, em que “Deus, em sua misericórdia, abrevia os tempos, pois deseja abreviar também o tempo de sofrimento dos seus”. Concepção que Julião, (2018) aponta como descrição da “Cidade de Deus”, o “tempo imortal”, destinado aos merecedores e o “tempo mortal”, para os que vivem nas trevas, descrito por Santo Agostinho.

Essa abordagem da divindade contida na imortalidade, trás o princípio do homem com relação aos limites da vida, ou da finitude pós vida, onde o tempo tem fim, pode ser contínuo e infinito, sabendo que se nasce para morrer e isso é natural. Mas como defini Elias, (1998) “cada indivíduo tem a mesma medida pessoal de tempo que depende de onde está e da maneira como se está a mover”.

Reflexão que reforça a ideia indicada por Elias, (1998) onde as experiências, somam ao sentido de valor do tempo, “Muitos não conseguem impedir-se de ter a impressão de que é o próprio tempo que passa, quando na realidade, o sentimento de passagem refere-se ao curso de sua própria vida.”.

Nada é definido, tudo depende de um novo em cada minuto tempo, e se este novo é irrompido pode experiências positivas ser perdidas. “A arrogância da idade poderá levar à cegueira, pois a resistência as surpresas bloqueia possíveis experiências novas.” (KOSELLECK, 2014, p.24). A junção das experiências somadas às surpresas durante a vida são resultados dos eventos históricos independente de suas consciências.

No entanto, desde o século XVIII, o ser humano vive em modificação aos conceitos temporais não valorizando “as experiências das gerações que convivem se transformam tão rapidamente que as lições passadas pelos avós aos netos parecem inúteis” (KOSELLECK, 2014, p. 276), o modelo a ser seguido é o novo, confrontando com o tempo, desafiando o historiador em um mistério cada vez mais denso.

O valor desse interesse em conservar as memórias coletivas através dos patrimônios históricos, é considerado verdadeiro “tesouro nacional” afirmado no texto Tempo e Patrimônio, de Hartg, (2006) é uma das formas do resgate as narrativas que afirmam o vivo ao próximo sucessivamente. Sustentando a base para compreensão da identidade, buscando no passado respostas significativa para viver o presente plenamente.

Ao pensar que hoje o instrumento de precisão que não leva em consideração o espaço tempo de rotatividade entre a terra e os planetas, em suma, para coordenar as atividades humanas, chamados de “relógios”, e que essa estrutura foi definida a priori por meios de análises experienciais, alinhadas aos movimentos do sol e da lua e que vem sofrendo transformações irregularidades entre inverno e verão por influencias do homem com o resultado de acúmulo ou condições naturais do planeta, e outros tipos de inferências não apresentadas ao conhecimento científico e a humanidade.

A percepção que envolve a pressão do cotidiano na velocidade dos ponteiros, da roda que nunca para, desde o acordar até o dormir e do próprio envelhecimento do corpo, no instante em que nasce e aparentemente como passar dos anos fica cada vez mais evidente. Mas essa velocidade nem sempre foi assim, a forma como lidamos com o tempo passou por modificações temporais, dependentes de fatores diversos. Então por que considerar um marco para delimitar a morte da vida?

Será que este relógio ainda conserva esta estrutura e adapta aos novos conceitos de humanidade e vida? Para responder essa pergunta é necessário mergulhar na história da contagem do tempo e a formatação dessa representatividade. Encontrando os caminhos do tempo entre condições e necessidades primitivas até o progresso humano.

4. CAPÍTULO II

4.1. A exploração de símbolos e problemáticas envolvidas na História.

Análises feitas por Edwin Hubble em 1929 observou “que todas as galáxias distantes se afastavam umas das outras”. (CHERMAN, 2008, p10.), ou seja, o conhecimento do tempo / espaço, cada dia que passava tem modificado, surgindo novas ideias. A própria ideia de George Gamow, (1946) na teoria do “Big Bang", como designa o surgimento do “espaço tempo”, sendo impossível de ser medido, mas pensando contra os religiosos, e não o atrelando ao universo.

Com isso a necessidade de buscar os fundamentos iniciais para tratar o tempo, foi se tornando cada vez mais constante e se este teve inicio. “Importante é saber que o nosso tempo como o conhecemos começou ao mesmo tempo em que a expansão do Universo. Se havia outro tempo antes disso, não podemos saber.” (CHERMAN, 2008 p. 11). Pensamento que não afirma e nem nega um começo para existência do tempo.

Até mesmo porque essa capacidade de conhecimento e medição não era importante para os primórdios, suas vidas eram moldadas de acordo com as condições do espaço. Olhar do tempo hoje é muito diferente do olhar do passado, onde é possível ver os movimentos e vivências relatados nos fatos históricos ou análises documentadas, abrindo o imaginário aos estudos de Cherman, (2008) Whitrow, (1993) e Elias, (1998).

Saber delimitar o espaço atrelado a vivencia humana foi algo que levou muito tempo de observação. A princípio esta contagem iniciou com o sol e a lua, para indicar a possibilidade do dia vivido ou mesmo técnica de estratégia da vida paleolítica. Considerando o dia e a noite, o escuro e claro relacionado as atividade de sobrevivência. Naturalmente não percebido, nem sagrado, muito menos questionado.

4.2. O cronometro e a contagem do tempo.

Os achados em determinados riscos de talha de ossos chamada de “osso de Abri Blanchard”, ilustram um sistema aproximado às estações da lua, perfeito para direcionar a duração do dia. Bem com, os megalíticos encontrados em sítios arqueológicos, expressos no movimento do sol, como o centro do universo, perfeito para direcionar a duração do dia “aurora”, “nascer do sol” e “pôr do sol” período em que o sol ilumina e assim por diante. Mas que, difere funções diversas.

A sequência desses dias somou o ano, considerado por Whitrow, (1993) tendo o tempo de “semear e de colher” um período vegetativo e o período natural de rotação da terra, divididos inicialmente entre inverno e verão ou repouso e atividades. Desta forma, as posições das estrelas e altura do sol definiam a passagem do tempo dos helíacos, e sucessivamente a introdução da lua na medição do mês. Resultando no sentimento de dividir esse ano em doze partes, que começou com os Egípcios, como conduzem Cherman, (2008) e Whitrow, (1993).

Contudo que não se esqueça os Sumérios, trabalhavam arbitrariamente as falanges dos dedos, os verdadeiros “ábacos manuais”, marcando os números de 0 a 60, e na mão direita, encontravam os 12 meses, múltiplos deste. Implicações que desencadearam no calendário atual. Instrumentos que não mais usamos em nosso cotidiano, mas que serviram de base, como o “quadrante solar”, a “clepsidra”, o “merkhet”, o “ábaco manual”, a “ampulheta”, os “balanços de pêndulos” e sucessivamente até chegar aos próximos da nossa civilização, como destacou Whitrow, (1993) no tempo ao longo da história.

Com o ritmo da vida atual, fica difícil compreender a importâncias do “quadrante solar”, instrumento que marcava a posição dos astros medidos pela altura em relação aos ângulos, de 0º a 90º, com objetivo de delimitar a hora e divisão das horas em dez partes, que posteriormente introduziu “mais duas, uma pela manhã e outra para o crepúsculo” (WHITROW, 1993, p.30), a hora variava de acordo com a época do ano e este não era linear, dependia do reinado, avaliada no valor de posses.

Havia dois calendários o “civil”, alinhado as fases da lua, e o “zodiacal” dividido em três estações, coincidindo a cada quatro anos, contendo trezentos e sessenta e cinco dias, até decair nos conceitos romanos emplacados ao controle social e fundamentos religiosos, determinando a vida política e social.

Outro instrumento inventado pelos egípcios foi a “clepsidra”, o relógio de água, que media o tempo noturno, durante o período de Amenhotep III e de Karnak, técnica desenvolvida por Gregos e Romanos, que indicava as horas “sazonais”, sendo possível alterar a pressão da água de acordo com a escala de hora em determinada época do ano, onde a água fluía de um recipiente gradualmente.

Para medir a noite, os egípcios usam o “merkhet”, ou fio de prumo, medindo a alinhação das estrelas ao meridiano, definidos de dez em dez dias, conhecidos como “decanatos”. Todo esse conhecimento foi transcrito no “tampo de ataúdes de madeira datados na nona dinastia (c. 2150 a.C.).” (WHITROW, 1993, p. 43.), designados “relógios estelares diagonais”, os calendários com 36 decanatos acrescidos cinco dias no final, todas essas divisões chegaram a 24 horas. No entanto, se divergiam com os babilônicos na contagem dos segundos, que por sua vez tinham outra visão de mundo.

Foi com ajuda de uma “ampulheta” que Atenienses, conseguiram resolver determinar a duração do tempo, um instrumento por onde a quantidade de areia passa em um espaço observável há considerar um tempo, vez que, a necessidade de controlar o tempo igualável para os oradores, era de grande valia em não obter desvantagens contra os adversários, iniciando a consistência da democracia.

De fato resolvia a questão, mas não definia o conceito por puro e acabado, mesmo porque não houve somente o tempo definido, como visto anteriormente. Sendo criados outros instrumentos de medição específicos em cronometrar, como: os “relógios de quartzo” e “digitais” na contemporaneidade, na tentativa de conquistar um tempo absoluto.

Entretanto, Whitrow, (1993) institui que as condições ambientais que os mesopotâmicos enfrentavam, de variações climáticas, resultantes de poderes divinos, conhecidos na “lenda do dilúvio” que originou a ordem social em harmonia entre a terra e o céu, formou uma cultura onde o sentimento de permanência não existe, tudo é instável. Assim sendo, através de predições de observações dos corpos celestes, que se organizavam, era determinante para mostrar o momento do nascimento até seu fim. Difundindo previsões futurísticas, tanto no âmbito individual como coletivo, que foram embaralhados na história da humanidade.

Grandes astrólogos fundamentavam a existência humana pelo movimento dos astros e não por processos históricos. Essas condições celestiais foram consideradas por Whitrow, (1993) definindo o calendário babilônico, que começava ao anoitecer, tendo a lua como base. O ano tinha doze meses e de vez em quando, treze, mas com o passar do tempo no ciclo de dezenove anos, que tornou a base do calendário judaico – cristão, questão que acabou por gerar um grande problema para construção do calendário até chegar ao calendário juliano.

É interessante como controlavam as leis naturais ao poder de Deus, e consequentemente as atitudes esperadas dentro dos limites espaciais de caráter convencional ao tempo sagrado, ou “Aion” como chamado pelos helenísticos.

O grande problema desta questão é enquadrar um calendário que abordava as características de uma vida laboral rural ao verdadeiro trópico e por assim, as comemorações aos deuses em agradecimentos a fartura proveniente de Deus e não das condições do tempo, como constitui os estudos da história do tempo. Haja vista, na civilização Egípcia esses rituais eram constantes, como consideravam Whitrow, (1993) e Cherman e Vieira, (2011).

Já os babilônicos, realizavam um único ritual, descrito por Whitrow, (1993) como: o “Festival do Ano – Novo” designado como o dia em que Deus enfrentou o demônio, e sua conquista determinou um novo, ou esperança de um recomeço. Desta forma, a “Páscoa” precisava ser celebrada nesta data, por abordar um significado de renascimento coincidindo com do “ciclo lunissolar de 19 anos” e considerando a fase da lua nova, e por diante, a divisão das semanas em sete dias, o ultimam ou a passagem de uma lua para outra, chamado de “dia maligno”.

Os filósofos gregos do século VI a.C., invocaram a mitologia temporal com o objetivo de examinar o jugo da existência humana, considerando que os percalços encontrados nos princípios do universo era o equilíbrio e verdade, o conceito de tempo estava ligado a justiça, ou “lei divina”, associada a “Chronos” e a filosofia pitagórica com a essência dos números, significando o tempo e o espaço, como designava os registros de Whitrow, (1993) atrelando Deus, Tempo e Matemática.

Outros pensadores gregos, não consideravam o tempo racional, como Parmênides que “afirmava que o tempo não pode pertencer a nada que seja verdadeiramente real.” (WHITROW, 1993, p. 55.). Propondo a existência de dois tempos, o aparente com características de mudanças ou atrelados aos sentidos, abstrato e o real que é imutável e atemporal, podendo até ser racional ou concreto.

Os paradoxos envolvidos nos movimentos argumentavam a experiência de fundamentar o tempo e dividindo-o do espaço, concernente às ideias de Platão, em que o tempo não tem direito de existir, o que existe é a percepção do antes e o depois, nos reflexos dos pensamentos de Elias Norbert. Então como explicar o presente e evitar que os fatos sejam esquecidos no futuro?

Heródoto e Tucídides tinham que resolver esta questão, transformando a história e problematizando cada vez mais, propondo a investigação dos eventos passados e não sobre o mundo. Contudo a importância seria com o presente e com um passado imediato, esquecendo-se do futuro, considerado algo incerto, definindo na linearidade do tempo próximo, e ao tempo que o ser humano começou a pensar, ou melhor, raciocinar seu lugar no tempo até o momento presente.

Considerando a medida dos eventos por “Eras”, ou seja, um período que tinha início, mas não podia determinar seu fim, antes de outra, contagem originada por Dionísio no século VI d. C. Determinação modificada, mas ao longo dos tempos, povos tentaram se firmar na importância de se posicionar no tempo espaço, com preceitos divinos, como fizeram os judeus, considerados os “construtores do tempo”.

Quanta influencia para marcar o mundo enquadrado aos preceitos de um povo mesopotâmico, fundamentando os valores divinos a determinação temporal. Ao passo de encontrar como o tempo em “si”, foi fundido e contraditório, dividindo povos, designando a vida e o pensamento da existência do tempo.

Isto posto, podemos falar do zoroastrismo e sua interpretação do tempo, fundado por Zaratustra pertencente à tribo do norte da Pérsia, renunciando a mentira encontrada posteriormente em um deus conhecido por “Ormuzd”, que passou a adorar a verdade, encontrado no deus “Ahura-Mazdã”, envolvido na luta cósmica entre bem e mal, ou espíritos “gêmeos” de origem comum, designando o arbítrio da humanidade.

Contudo, as escolhas que o homem fazia para determinar o pós-morte, seja na glória ou na treva, marcava um escala de duração do tempo. Em que o mal reinava na terra e de acordo com as escolhas de vida que o ser humano obtinha o tempo infindável no reino celestial ou mortal na terra. Seguindo sacerdotes e aceito pelo primeiro rei persa, Dario, mas posteriormente confundido com magia. A expressão desse pensamento confeccionava o tempo descrito por Rivayat Persa:

Exceto o Tempo, todas as outras coisas são criadas. O Tempo é o criador; e o Tempo não tem imite, nem cume ou base. Ele sempre foi e será para todo o sempre. Nenhuma pessoa sensata dirá de onde veio o Tempo. Apesar de toda a grandeza que o cercava, não havia ninguém para chamá-lo de criador; pois ele não dera origem a criação alguma. Então ele criou o fogo e a água; e quando os reuniu, Ormuzd ganhou existência, e simultaneamente o Tempo tornou-se Criador e Senhor da criação que produzira. (apud WHITROW, p.49.).

Essa deixa fluir o pensar da exaltação do tempo como o pai de Deus, ou como Santo Agostinho considerava, “O que havia antes da Criação? O Inferno, para lá jogar as pessoas que fazem esta pergunta.” (apud CHERMAN, 2008, p. 11.), ou melhor, nem podiam falar sobre essa questão, subjugar o poder maior, era impensado, proibido, era questionar Deus, um pecado impagável.

As palavras de Rivayat apud Whitrow (1993), descreve dois tempos, o “Zuran arakana” o tempo infinito, eterno indivisível e o “Zurvan daregho-chavadhata” o tempo finito, associado à morte, que atravessa um ciclo de mudanças findando no tempo infinito. Infelizmente no decorrer dos anos suas linhagem sofreram alterações significativas que afastou a verdadeira essência dos princípios dessa corrente, bem como, a temporalidade escalográfica, por desconsiderem o valor histórico. Enfrentando desafios para reconstruir a cronologia temporal, resultando na diversidade de calendários.

Existe uma gama de calendários resultante em implicações e definições de controle do tempo do nascer à morte. Contudo, o princípio desse estudo perpassa em minúcias que não desencadeiam em predestinações de vidas em comparação aos valores astrológicos e astronómicos, encontrado no calendário “sideral” e bases planetárias de contagem aos interesses da civilização maias, mas nos desdobramentos temporais.

Mesmo porque, nossa contagem do tempo que usamos hoje está mais próxima as problemáticas diacrônicas da cultura firmada no calendário juliano [cristão], que traz inferências sobre a contagem do tempo de trás para frente e um reinicio aos interesses de desígnios e aflições desencadeadas.

Muitos já ouviram falar no mês de “nisan”, mas não compreende seu significado associado hoje para determinada a época exata da páscoa, ou seja, o primeiro mês do ano judeu eclesiástico, como desenvolve Whitrow, (1993) significando a importância da lua para definir os meses e as semanas de sete dias, representados no primeiro livro da bíblia, sendo assim, as práticas religiosas precisavam manter as mesmas datas em todos os calendários, visto que, havia outras linhagens que se divergiam dos judeus, como os fariseus e saduceus. Na contemplação de uma data significativa e em Cristo.

“Desde que o Universo tenha tido um princípio, podemos supor que teve um Criador. Mas, se o Universo for na realidade completamente independente, sem qualquer fronteira ou limite, não terá princípio nem fim: existirá apenas.” (STEPHEN W. HAWKING. p.113). No entanto, a possibilidade da percepção ou mudança de sentido aderiu novas visões do tempo, a modo que a hora marcada no relógio não é única, experiênciada na teoria da relatividade.

“O relógio mecânico e sua disseminação, foram mais revolucionários do que a pólvora que mudou o movimento; do que o papel que mudou a memória; do que a bússola que mudou o espaço. Porque o relógio mecânico mudou o tempo.” (OLIVEIRA, 2015, apud, DUTRA, 2015). A junção de pedaços iguais que fragmentou a ideia de hora/dia. A questão é: esse relógio determina nosso ritmo de vida ou é controlado? E se controlado, por quê? A segunda parte deste capítulo considera as problemáticas da confusão do tempo e o pensamento do seu poder.

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4.3. A confusão do marco inicial.

O marco inicial do ano começou a contar de trás para frente em 754, com a fundação de Roma, importando o valor do nascimento de Cristo, paralisando o tempo para tentar enquadrar uma data definida na divindade. Esquecendo o espaço de tempo entre as datas reais e o cotidiano da população, valorizando os movimentos de astros alinhados com o designo da igreja.

Aproximadamente mil e duzentos anos após, estudiosos confirmaram erro na nesta contagem, “Ou seja, é provável que Cristo tenha nascido no ano 4 a.C.” (CHERMAN, 2008, p.48.), e isso não foi alterado. Visão de tempo definida na concepção judaica, “com a esperança de redenção de sucessivos opressores” (WHITROW, 1993, p. 72.). Assim, Jesus passou a definir um novo tempo, de esperanças, pois através do “sacrifício de si mesmo” o pecado seria abolido, acabando com o fim do tempo confuso e em “pecado”, por assim dizer.

Em virtude disto, os conceitos de vida se dividiram entre as classes que detinham o “conhecimento” e a própria salvação do pós vida. Baseando conceitos como: “A cidade de Deus” em que Santo Agostinho “argumentava que o tempo não pode ter existência alguma a menos que as coisas estejam efetivamente acontecendo, e em suas confissões” (WHITROW, 199 p. 79.). Condutas que reformularam a concepção de tempo e qualidade de vida. A base inicial para considerar o poder do tempo, que pertencia a Deus, e efetivamente, aos cristãos.

Chegando a conclusão de que “só podemos medir o tempo se a mente tiver o poder de guardar em si mesma a impressão nela deixada pelas coisas à medida que passam, mesmo depois que já se foram” (SANTO AGOSTINHO, apud, WHITROW, 1993, p. 80.). Desta forma, seus conceitos contribuíram para reforçar o cristianismo, fundamentando o conceito temporal histórico e o controle do tempo. Conceber o tempo era o mesmo que roubar de Deus e tirar proveito de algo que não pertence ao homem. E usufruir de algo divino era viver na “usura” como relembra Paquot, em Quanto tempo o tempo tem? Dirigido por: Dutra, 2015.

Os próprios Romanos faziam uso do relógio da água, manipulando o tempo a seu favor. Certamente que essas manipulações do tempo não permaneciam somente como uso do relógio, um símbolo de status da sociedade eclesiástica. Quem obtinha o poder era quem concebia o conhecimento do tempo. Sendo assim, o tempo era aliado ao prolongamento dos governantes, uma verdadeira confusão e redefinição que não condiziam com o verdadeiro objetivo de atrelar o calendário a atividades humanas em especial às estações do ano.

Logo, Cézar inteirou-se da emblemática, abolindo o ano lunar, fixando o ano em 365 dias, incluindo um dia no ano a cada quatro anos. Entretanto, este calendário foi alterado apos sua morte, em homenagem a Augusto, retirando um dia do mês de fevereiro para acrescentar ao mês de agosto, redefinindo a contagem dos dias em seus respectivos meses. As semanas consideraram os tempos astrológicos denominados de acordo com “planetas”, ligados ao “dias dos deuses”, ou seja, Sol, Lua, Marte, Mercúrio, Júpiter e Vênus e Saturno, associando também a reação dos planetas a horas, em suas sequencias.

Dividiram o ano em meses, a princípio como sendo: martius, aprilis, maius, junius, quintilis, sextilis, september, octuber, november, december, februaruius, mercedonius, reto de februrius e januaris. Mas com o passar dos tempos foi se modificando até chegar aos doze meses que conhecemos. Demarcando por sua vez em semanas e em dias desiguais, em consideração a reis. Marcaram as semanas determinadas no movimento dos planetas e suas influencias no poder das autoridades sobre povos, definindo a prática da fé, como Cherman, (2008) definiu.

Implicações que eram definidas para marcar dias importantes, inclusive o “dia do senhor” domingo, “em que Cristo ressuscitou dos mortos” declarando como primeiro dia da semana por Constantino em 321 d. C. Esse posicionamento estava de acordo com a localização de Roma astrologicamente falando, contando que o ano definido neste calendário era de 5 dias e 6 horas, não enquadrado na duração do ano trópico com diferença de 11 minutos e 14,8 segundos, encontrado nas problemáticas de Cherman, (2008). Essa diferença era realmente insignificante?

Certamente, que não. Mesmo porque em algum período esses minutos somados tornariam tempo não contado “controlado” ou a diferença temporal. Embora os efeitos sejam decorridos de longos tempos, imperceptivelmente em algum momento a rotatividade da terra estaria desalinhada. Não seria esta designação de um novo tempo?

Concernente que Constantino, “após o concelho de Nicéia apenas, insistindo em nossa analogia do trem descarrilhado, colocou os vagões de volta nos trilhos. Mas nada fez para consertar os trilhos em si.” (CHERMAN; VIEIRA, 2008, p.73.). Reafirmando a quem se opuser aos preceitos eclesiásticos, que eram punidos.

Como descreve Cherman e Vieira, (2008) o estudioso Beda, “pai da História inglesa” e Roger Bacon que conseguiu através do Cardial Guy de Foulques, o “papa Clemente IV” auxiliando uma formulação da nova teologia, mas seus designíos foram abortados, mediante a morte de Clemente. Em 1345, a reforma foi aborda, mas deixada de lado, perante a situação drástica provocada pela peste negra. Para chegar ao nosso calendário, foi preciso enfrentar a grande questão que abordei no princípio da contagem do tempo a partir do ano novo babilônico.

Foi a través do V concelho de Latrão, com o Papa Júlio II e Leão X em 1511 a 1512, percebendo que a comemoração da Páscoa estava calculada errada, resolveu que precisavam encontrar um resultado positivo. Consultando diversos reis, tentativa de salvar a data, mas na prerrogativa de perder o status para o protestantismo e dividir a igreja católica.

Contudo, o concelho de Trento abriu porta para Luigi Lilio, médico italiano que de dedicou a definição do atual calendário, que infelizmente não pode estar presente, quando Gregório XIII editou a “bula papal” ou “Inter Gravissimas”. Esse calendário foi imposto e aceito na maior parte do mundo, mas não praticado no mesmo instante. Visto que, essa decisão implicaria questões de cunho político, cultural, histórico, religioso e econômico.

Essa trajetória realmente trouxe reflexões a cerca de como nosso tempo foi determinado por princípios religiosos, em suas variáveis linhagens reconhecendo o tempo em homenagem aos feitos da fé em Deus, o criador de todas as coisas, estabelecido em gêneses 1: 1 “No princípio, Deus criou o céus e Terra.” e terminando com Apocalipse, o fim, ressaltando a posição de que tem um tempo inicial e um final.

Nosso dia a dia tem se misturado entre o tempo cíclico e linear, em que a repetição da ação humana tem um sentido de recomeço de uma experiência atrás da outra. Como também, nos direcionando e movendo através do cronometro contínuo de passagem. Será que esse tempo continua a determinar nossa vida?

4.4. Valor, controle e liberdade do tempo.

Kosseleck, (2014) designa o tempo sendo manifesto conforme os ritmos de desenvolvimento cultural e de cada organização social. E mesmo que exista um calendário padronizando a duração de tempo, a história como conhecemos hoje sofreu ajustes de “aceleração” ou “retardações”, mesmo que haja inicio e fim.

Contudo, o tempo obtido desde a Era moderna, articulado no “cronometro artificial”, como defini Elias, (1998) não está regular ao sentimento e consciência do tempo, tornando – o um mistério, ou contido no “divino” algo inalcançável. Um enigma que foi dividido entre fundamentos naturais e sociais. Assim sendo, o tempo passou a determinar a sociedade “em que a produtividade vai crescendo e nas quais a ampliação do lazer não é adquirida ao preço do trabalho estafante e da miséria de outros homens” (ELIAS, 1998, p.157), mas o valor do uso do tempo.

Interessante como o tempo o e trabalho desde o princípio estão ligados, essa representação aparece no filme: O preço do Amanhã. Dirigido por: Niccol, (2011) Marcando o valor do tempo como controle financeiro e social. Onde o tempo é a moeda de troca e dependente para qualidade e quantidade do tempo de vida. Tudo articulado para determinar a população mundial e as áreas privilegiadas ou suburbanas. Situação que nos faz refletir se é possível conceber tempo ou ele é manipulador de nossas determinações cotidianas? É possível tempo pra fazer nada?

A cobrança de produção do tempo pode se tornar uma moeda valorosa, onde se troca, negocia, mas que não se pode emprestar. E como considera Dutra, (2015) “Meu tempo livre virou uma conta poupança em débito constante”. Ou seja, não há tempo vago que não seja contabilizado.

A noção do tempo atual é fundida na produtividade e no capitalismo. O tempo livre passou a ser produto para promover conteúdo em redes sociais, mesmo que não se percebe como defini os temporalistas do filme: Quanto tempo o tempo tem? Dirigido por: Dutra, (2015) “você está produzindo os meios de produção e fornecendo conteúdo para que alguém lucre em cima daquilo”. Alguém está apropriando do seu tempo e considerando o tempo como dinheiro. Visão que começou a ser destilada com Lutero. No fundo, acaba-se por aprisionar a um tempo que não é mais seu, pois foi vendido.

A vida acaba em instantes e é necessária, no ponto de vista financeiro, como prescrito nas falas e encenações, em que o tempo é uma moeda de troca. Mesmo assim as pessoas lutam contra o tempo e a exploração enquanto o uso do tempo para sobreviver. Nas palavras do guardião do tempo em que diz: “é um tempo que não deveria estar lá” (O preço do Amanhã, Dirigido por: NICCOL, 2011), onde o tempo tem diferenciação e não pode ser concebido por todos. O nosso dinheiro não é o tempo, mas o tempo gasto para ganha-lo é significativo.

Como Elias, (1998) aborda que o tempo tem outras formas para existir, de cunho social, cultural, capital, de dinheiro ou linguagem, “os quais remetem a uma certa realidade que, num sentido mal definido, parece existir fora dos seres humanos e independente deles”. Ou seja, exerce poder sobre cada indivíduo.

Dentre tanto, há uma contrariedade expressa no filme: O preço do Amanhã. Dirigido por: (NICCOL, 2011), em que o protagonista, Will (Justin Timberlake), consegui controlar o tempo, correndo em contraversão, o relógio / que pulsa a vida de todos no filme, representando o ganho do tempo ensinado por seu pai, quando ele diz: “o que se faz é deixa-los ficar em vantagem e aí você deixa seu tempo descer todo, por que ele sabia que quando estivesse nos últimos segundos em que achassem que acabou, começariam a olhar o relógio dele e se esqueceriam de olhar os próprios.”. Não controlar o próprio tempo é deixa-lo fluir.

O controle do tempo gera a esperança da “imortalidade”, ou melhor, do aumento de vida e o fim do controle temporal. Sensação que se tem quando queremos que o tempo passe rápido, mas demora. Ou seja, olhar o tempo, viver devagar, pode prolongar ou dilatar o momento.

Essa relação do tempo controlada, só alinha com o que Elias, (1998) chama por: “ditadura dos relógios”, mas se “cada indivíduo confeccionasse para si seu próprio tempo”, talvez esse poder não fosses coercitivo. Assim, o ser humano torna-se livre, capaz de construir suas vivências, como encontrado nos estudos de Silva, (2013) “compete ao próprio homem, em suas ações concretas, construir os valores que possam orientar suas escolhas”.

Bem como, Yazberk, (2005) defini os pensamentos de Sartre sobre o tempo:

[...] a liberdade é precisamente o ser da consciência: nela, o ser humano é o seu próprio passado – bem como o seu devir - sob a forma de nadificação. Sendo consciência de ser (liberdade), há para o ser humano um determinado modo de situar-se frente ao passado e ao futuro como sendo ambos ao mesmo tempo. [...]. Não há futuro previsível e nem ao menos algumas cartas marcadas de antemão. Há isso sim, o movimento através do qual o ser do homem faz-se isso ou aquilo – escolhas [...] (apud: SILVA, 2013, p.95).

Pensamento que possibilita a liberdade de tempo que o homem escolhe para viver. O modo como se valoriza o tempo, determina sua existência. Se deixar o tempo fluir, tornando-o imperceptível, ele pode te controlar. Ao focar ou conhece-lo melhor há possibilidade de controlá-lo.

A própria história do tempo, abre amplas possibilidades de como podemos conceber a temporalidade, não somente na leitura dos calendários como do relógio, mas na forma com o qual projetamos. E para isso, “máquinas de poupar tempo”, “máquinas de enriquecer o tempo”, “máquinas de estocar o tempo” e “máquinas de programar o tempo” como ressalta Dutra, (2015) em Quanto tempo o tempo tem? Dentro dessas minúcias é necessário repensar sua importância, levando em consideração, as informações da atualidade e o que está contido em si, designando o poder do tempo para a vida e o seu real valor subjetivo e coletivo.

A civilização passou e ainda passa por processos de dimensão temporal que ora se aliam, ora se contradizem com as teorias de liberdade e condicionamento do fluxo de vida. Irrefutável e abrangente com as necessidades humanas. Mas que pode ser neste instante condicionador de posições tomadas por cada ser humano em suas escolhas.

O tempo atual não é o mesmo, levando em consideração a transformação de domínio/controle social. Assim: “Hoje o intervalo de tempo é menor que o de uma vida humana e, portanto, nosso aprendizado deve preparar indivíduos para enfrentar a renovação das condições.” (WHITEHEAD, apud WHITROW, 1993, p. 9). É essa perspectiva que o próximo capitulo irá abordar.

5. CAPÍTULO III

5.1. TEMPO PARA REFLETIR.

“Todos os dias quando acordo; Não tenho mais o tempo que passou; mas tenho muito tempo; Temos todo tempo do mundo [...]” (RUSSO, R. 1986)

Iniciei este texto, com a obra musical “Tempo Perdido” do compositor Renato Russo, para questionar a compreensão e as considerações do tempo renovador que esteve constantemente em transformação. Necessitando refletir sobre o ritmo existencial e as análises sistêmicas a partir do presente que marca nossa história.

O tempo parafraseado passa numa velocidade em que ao comparar com os tempos passados, fica incompreensivo, não cabendo o homem no mesmo cronometro definido em Eras longínquas. Contraditório e cada vez mais impensante, reflexos da vida contemporânea na cobrança de estar sempre presente e lutando contra o tempo, para não passar.

“Todos os dias antes de dormir Lembro e esqueço como foi o dia; Sempre em frente; Não temos tempo a perde” (Russo, 1986). Hoje a percepção que se tem do tempo é que ele escorre durante o dia e este dia também se estendeu para além da noite na possibilidade que tivemos após a invenção das lâmpadas. Até o dormir ficou mais longo que o dia e menor, por causa da claridade. A noite agora, não é momento de descansar, mas de planejar o futuro, o que será um amanhã instantâneo e calculado pra não perder tempo, acelerando até a pausa.

Concernente que o compositor Renato Russo, quando pensou neste tempo perdido, não estava a falar da moeda de troca como produção cambial para viver, no sentido de conquista de capital, mas no período histórico do país, ao passar por um regime militar e a sensação do cotidiano que a juventude tinha em meio a caminhos políticos e econômicos esperançosos por menos limitações.

Há outras concepções do tempo “perdido”, como abordam os pesquisadores do filme: Quanto tempo o tempo tem? Dirigido por Dutra, (2015). Como a própria noção de valor do tempo, a duração em relação ao tempo que se tem, determinando situações cotidianas pode demonstrar avanço do sistema econômico, que visa o lucro do tempo, mais pode ser desperdiçado futilmente. Não como duração de viver o tempo, precioso. Assim “o tempo tem que ter uma função pragmática, tem que criar objetos, criar coisas concretas e tem de ser produtivo no sentido econômico” (FELINTO, apud: Quanto tempo o tempo tem?). Dirigido por: DUTRA, (2015).

A falta de consciência de se fazer tantas coisas ao mesmo tempo, coloca a memória e o passado desalinhado com os valores de permanências e escolhas que precisamos para formar nossa identidade. Esse é um problema do ponto de vista histórico, a verdadeira perca da personalidade. E novas possibilidades para vida supra-humana, como veremos mais adiante.

Na sequencia, eles cantam “Nosso suor sagrado; é bem mais belo que esse sangue amargo; e tão sério e selvagem! Selvagem! Selvagem!” Na intensão que produzimos o tempo inteiro para manter a máquina do capital girando, independente de ser dia ou noite, levando em consideração de que tanto faz, temos que trabalhar e estudar, obter o máximo de coisas e informações em menos tempo.

Esse caminhar nos faz questionar se temos o tempo que querermos e se ele é próprio de cada um? O que esperamos de uma vida de cobranças? Russo, (1986) continua a lembrar:

Veja o sol; Dessa manha tão cinza; A tempestade que chega; teus olhos, castanhos; Então me abraça forte e diz mais uma vez que já estamos distantes de tudo; Temos nosso próprio tempo; temos nosso próprio tempo; tempos nosso próprio tempo. (RUSSO, 1986)

Isto posto, marca que o tempo é particular, ninguém além de si, pode decidir o que fazer com ele. Como já predito no capitulo anterior. A nova revolução tecnológica está transformando e ampliando as expectativas do futuro.

Chegamos ao ponto de tentar resignificar o ser humano e as possibilidades para vida plena, questionando o dia como fator decisivo para mudança de padrão de vida. Não adiantando lamentar por algo que não podemos modificar, mas ter a certeza que o momento presente tem nova perspectiva para o processo de finitude. Onde a ciência e não mais a religião concebe o tempo incessante. O futuro do tempo trás esperanças de promessas para alcançar cada vez mais a longevidade do ponto de vista tecnológico.

Contudo não sabemos se esses avanços poderão ter bons êxitos e conduzir a humanidade para a tão sonhada liberdade de apropriar de um tempo infinito como termina Russo, (1986), ao considerarmos uma incerteza de um tempo pós-vida, assim: “Não tenho medo do escuro; mas deixe as luzes acesas, agora; o que foi escondido; é o que se escondeu; e o que foi prometido ninguém prometeu; nem foi tempo perdido;” Mesmo que tanto se aponta para evoluções sobre as perspectivas do tempo, ainda, precisamos de cautela para brincar com o tempo, como irei tratar mais a frente.

“Somos tão jovens! tão jovens! Tão jovens!” (RUSSO, 1986) temos muito a apreender.

O tempo adquiriu uma nova qualidade histórica que, no horizonte das coisas imutáveis e do retomo dos eventos exemplares, nunca possuíra. Podemos também dizer que o progresso foi a primeira determinação temporal genuinamente histórica que não extraiu seu sentido de outras áreas de experiência, como a teologia ou o pré-conhecimento mítico. O progresso só pôde ser descoberto quando o próprio tempo histórico começou a ser objeto de reflexão. Trata-se de um conceito reflexivo. Na prática, isso significa que ele só pode acontecer se as pessoas o desejarem deliberadamente e o planejarem. (KOSELLECK, 2014).

Por isso, o pensamento sobre o tempo é tão essencial significar a vida e questionar o tempo que se tem, é destrinchar a consciência de existir, alternando o ritmo e as escolhas que fazemos assunto a serem minuciados a seguir.

5.2. O ritmo que determina nossa existência e consciência histórica.

O tempo tem passado tão rápido que eu já deixo minha árvore de natal montada dentro do armário. É como se ele tivesse encurtado, ficado mais rápido. Tudo sugeri velocidade, urgência. E eu por mais que me divida e me multiplique em várias. Eu não tenho tempo. Não tenho tempo para demanda do meu trabalho, nem de ler todos os livros e ver todos os filmes que me interessa, nem de atender todas as ligações, ou responder tantos e-mails e curtir as milhares de fotos. Não tenho tempo de dormir as horas que desejo e muito menos de estar ao lado daqueles que amo. (DUTRA, 2015)

O cotidiano passa tão de pressa que a consciência a datas estabelecidas como datas especiais em calendários, deixa de ter significado temporal, como preparos e rotinas, caindo no conceito mercadoria da expressão. O que se fazia em ano, agora faz em semana e sucessivamente, o tempo gasto para ansiar um evento, vem diminuindo. Consequentemente a memória sobre esses acontecimentos, sejam eles corriqueiros ou não são menos consistentes.

A memória acaba por ser denegrida por falta de amplitude de vivencia, canalizada em tecnologias para somar a capacidade que o homem tem de pensar, refletir, conviver e conhecer. Fortalecendo as experiências históricas e permanências culturais ao próximos da geração.

O consumo por manter memórias inquestionáveis e pouco percebidas ao ambiente qualificado para sua representatividade se confundi com aspectos naturais e culturais para sua ocorrência. O presente já não é o mesmo, a imersão na passagem cibernética e o surgimento de novas temporalidades modificaram a percepção desse ritmo como considerou Meirelles, (2010).

As transações tecnológicas vão conquistando espaços cada vez maiores, atingindo o ponto da internet, onde o espaço “desaparece”, tornando o tempo instantâneo, nos conectando constantemente. “Espaço e tempo se transformaram, à medida em que o espaço de fluxos passou a dominar o espaço de lugares e o tempo intemporal passou a substituir o tempo cronológico” (CARVALHO, 2008, p.2 – 3).

Assim sendo, o tempo eletrônico comanda a vida no mundo, acelerando e diversificando o rumo dos negócios e das trocas de experiências. O que resulta no surgimento sistemático da “tecnoficiência”, do pragmatismo e da “quantificação” a eficácia das coisas, formando os conceitos para visões de vida e condução para disseminar culturas. Como reporta Carvalho, (2008), chamando esse cenário de “globalização do capital, das condições de produtividade, do mercado, do lucro e das exigências do mesmo mercado”.

O virtual apropria-se da flexibilização das relações de trabalho, da onipresença de grandes corporações em lugares eqüidistantes do globo através de oficinas de trabalho descentralizadas e de parques produtivos dispersos geograficamente. (MEIRELLES, 2010)

A grande proporção que essas revoluções tecnológicas atingiram foi simultaneamente e “planetária”, interagindo com diversas culturas em um único espaço.

O fato que estas tecnologias estão cada vez mais presentes em nosso quotidiano, impondo às pessoas, novos ritmos de interagir e pensar a realidade, ao mesmo tempo em que, ampliam as capacidades humanas e a forma de se utilizar e gerenciar a informação. O homem se hibridiza com a máquina, ampliando suas capacidades e possibilidades de interação no mundo real e virtual. (MEIRELLES, 2010).

Certamente que essas atitudes podem ter consequências tanto negativas como positivas. “Neste caos desorganizado os homens parecem estar perdendo o sentido da vida, da própria identidade” (CARVALHO, 2008, p.3).

Como Dutra, (2015) também prediz, sobre o perigo dessas perca de identidade, onde as considerações de valor do que é bom ou ruim, do belo ao feio, do que é importante ao banal, se desconfigura. O tempo para comunicar e conviver “uns com os outros” perpassam que todos devem estar conectados a todo o momento “on-line” como dizemos na vida real/digital, ultrapassando os limites que antes não eram considerados como inadequados para vida saudável.

Concernente e até mesmo essa mudança de contato de “uns com os outros”, foram se modificando, dependentes da vivencia com aparatos nos reportando a princípio com o rádio, depois a televisão e por fim a internet. Interessante como Meirelles, (2010) representa este espaço/tempo no:

Co-presente mas não visível; o outro visível mas nem sempre co-presente; e o outro digital. Esse ultimo, avatar e extensão do nosso eu, representação idealizada de nós mesmos na nuvem de zeros e uns que nós dá vida e forma no maravilho mundo. (MEIRELLES, 2010)

A impressão de estar “on-line” a todo tempo e em pensar que toda a informação tem urgências e necessidades do saber, nos mantém num aprisionamento de estar sempre conectado ao mundo “cibernético” e que nos afasta cada vez mais da vida real. Na perspectiva de que o tempo futuro está aqui neste instante vivido e somos cobrados a se enquadrar no devir. O contrário torna-se repugnante e ultrapassado, talvez impensado. “em tempos de cibercultura, estar off-line é praticamente impossível.” (MEIRELLES, 2010, p.17).

A velocidade de conteúdos e abundancia destes, tornaram se desestimulante e obrigatório para situar-se no mundo, que modifica a comunicação com as pessoas, isolando-o do outro e ampliados por espaços constantes de satisfação momentânea. O saber está cada vez mais compartilhado e fragmentado. Ao pensar que sabemos mais pela quantidade de informações que obtemos a todo instante, estamos caindo na pseudosaber. Saber mais de muito é “saber nada”, como afirma especialista em pós-humanismo na entrevistada do filme: Quanto tempo o tempo tem? Dirigido por Dutra, (2015).

A evolução tecnológica aconteceu muito rápida ao ponto de vivermos o tempo momentâneo. Os acontecimentos mundiais são transmitidos simultaneamente. E como transcreve Domenico de Massi, em Quanto tempo o tempo tem? Dirigido por Dutra, (2015) “Se essa massa de informação não encontra em nós o adequado nível cultural para decifrar as informações, para decodificar as informações, para organizar as informações, a massa de informação se transforma em infelicidade”.

“Vivemos conectados em redes, celulares, computadores, facebooks, twitters, conference calls. Ansiosos pela próxima notícia, compartilhamos nossa privacidade em redes sociais. E de uma máquina para outra, transformamos nossa vida [...] Nós fragmentamos sem poder desligar.” (DUTRA, 2015).

A vida cercada por acontecimentos a todo instante, torna-nos dispersos. Ao mesmo tempo em que se está a fazer algo, está a ler, pensar e executar diversas atividades. Artur Dapieve, em Quanto tempo o tempo tem? Filme Dirigido por Dutra (2015), reafirma a concepção do fazer múltiplo, onde: “A própria experiência estática fica um experiência muito rasa que favorece, é claro a produção de também produtos culturais rasos.” A compreensão de algo é a compreensão de quase nada, a rapidez temporal não está contribuindo para a sabedoria humana, tornando um tipo de ser, incapaz de conhecer profundamente algo, como salienta.

Ainda neste ponto de informação, há uma divisão da sociedade em contra posição. “De um lado, a elite determinando o poder nessa nova ordem social, caracterizada pela interdependência do espaço. Do outro, a massa popular, para a qual o espaço é limitado. Todos, no entanto, sofrem” (CARVALHO, 2008, p.4). Tonelli, (2008), também fala dessa velocidade do tempo, como facilitadora de “informação” e “modalidade” humana, mas que aprisiona ao trabalho e ao mesmo tempo que conduz a aceleração e também conduz a “lentidão” da capacidade que o homem tem de conceber as coisas por completo, mais superficial.

Outro problema que Tonelli, (2008) aborda é a falta de paciência que as pessoas estão tendo em relação ao tempo de espera pelo outro, e o fazer do outro na cobrança por agilidade. O ritmo das pessoas está alinhando aos comportamentos alterados de consciência do valor ao outro. “Somos hoje mais impacientes.” (TONELLI, 2008, p.214). A palavra espera, soa como uma tormenta aos ouvidos de quem corre a todo tempo. A noção de ritmo presente pode alterar a forma com que as pessoas passam a se comportar uns com os outros, mais impacientes e “desorientados”.

A sensação de dia e noite se condensa entre claro/escuro não importa mais em relação ao fazer algo, modificando nosso ritmo natural. Apontado por Stevens Rehen, em: Quanto tempo o tempo tem? Dirigido por Dutra, (2015). O abuso desse descontrole eletrônico provoca “rupturas” que desequilibram o social, trás discordâncias e tensões e altera o cotidiano e a velocidade da vida.

Consequências, que derivam em “crises”, Carvalho, (2008) explica ação das pessoas e do estado – nação, onde “deixam uma sensação de vazio, de perda de chão, de desequilíbrio, de [desmonte e descontrole] jamais vividas historicamente” as escolhas como foi esmiuçadas em controle do tempo, já não são mais imposições maiores que partem do outro, mas de si mesmo.

E a busca pelo sucesso, condiz para uma aceleração vultosa. Se estiver a fazer nada tem se a sensação de “tédio”, causa de ansiedade. O tempo digno presente como declara Carvalho, (2008), é “efêmero”, ainda, “tudo é passageiro e fugaz. Até as relações interpessoais caem na malha do imediato”. A expressão “Felizes para sempre!” mesmo que fantasiosa fazia parte da vida feliz ou infeliz da maioria dos casais, hoje, nem tanto. Ao esperar por uma realidade eterna e imutável perduramos por algo que pode não ocorrer.

O tempo então passa a desenhar uma nova democracia, de acordo como Tonelli, (2008) conduzindo:

O novo meio técnico-científico-informacional determina as novas práticas sociais, as novas formas de organização do trabalho e o novo self contemporâneo, que têm por característica comum a volatilidade e a efemeridade das modas, que passam a regular os valores, as relações interpessoais, a vida amorosa e o trabalho. (TONELLI, 2008)

Mesmo que as relações sociais estão menos “duráveis”, isso não significa que seja causada por transformação do tempo, há outras tantas inferências que corroboram para esta questão.

Bem como, Carvalho, (2008) que problematiza as relações de interesses internos em que “as pessoas já não se prendem a instituições; ao contrário, desacreditam nelas e em seus valores. Família, religião (culto) são relegados a segundo plano”. A conquista torna-se nesta visão de tempo perdido, entra em contraste ao conceito de Renato Russo ao compor a música. Passou-se mais de trinta anos e a reflexão temporal enquanto as permanências transformaram em momentos instantâneos.

É possível encontrar nas falas de Koselleck, (2014) que os ritmos temporais são “diferentes”, a cada experiência preservada. Decursos das mudanças experiênciadas e recicladas. Todos os momentos da vida são alterados.

Portanto, é possível que no futuro sejamos forçados a dirigir os esforços da humanidade mais para os estabilizadores e para as condições naturais da nossa existência terrena. Então talvez vejamos que a aceleração até agora vivenciada indicou apenas uma face de transição, após a qual as taxas de duração e perduração, de transformação e mudança terão de ser relacionadas de forma diferente. (KOSELLECK, 2014, p.188)

Será que essa configuração apresentada não suscita uma renovação do atual período histórico? Um pós-contemporâneo da contemporaneidade? A formação ser humano superior ou transumano? Em que isso ocorre?

5.3. Apropriar do que é mais precioso.

A consideração sobre o tempo que temos para viver chega a uma perspectiva que realça novas possibilidades para quantificar a qualidade de vida. O tempo não passou mais de pressa, são as escolhas do novo homem que deixaram de vivenciar o presente e começaram a expectar o futuro, nessa ansiedade do devir a ocorrer no mais perfeito possível.

Acontece que os rumos dos passos largos que caminhamos, sofreram intensos inventivos. Colocando-nos sempre a busca de mais tempo, ampliando as possibilidades e questionando a finitude. Divisão que proporcionou as explicativas entre um tempo contado que tem seu fim o tempo pós-vida no eterno. Antes inquestionável, mas que hoje é reportada a especialistas revolucionários, condutores de melhoramentos genéticos.

As falas dos entrevistados no filme: Quanto tempo o tempo tem? Dirigido por Dutra, (2015) levantaram diálogos onde a qualidade de vida e o melhoramento genético são capazes de prolongar o tempo de vida e controle do envelhecimento, combatendo células mortas e doentes, para que o corpo possa encontrar meios de sobreviver talvez eternamente.

Assim a noção de tempo, torna-se superada através da tecnologia, a expansão do tempo que se tem, condiz na proposta para um humano evoluído, do ponto de vista científico, como Felinto, em Quanto tempo o tempo tem? Dirigido por Dutra, (2015) prediz que “o homem vai chegar ao estado divino” Lugar que pertence a “Deus”. Será que temos tempo certo pra existir, ou morrer?

Ao nascer vivenciamos os anseios e aspectos evolutivos para tornarmos criança, que até mesmo este tempo tem se modificado, tornamos jovens capacitados para estudar em prol de uma profissão, escolhendo algo pra fazer durante um longo período da vida, depois constituímos família, assim terremos bases para envelhecemos e morrer. Planejamento este, que está por um fio e se parar pra pensar, não faz mais sentido. Fragmentar a vida em tempos longos como os apresentados, classificados basicamente em quatro fases já ficou ultrapassado, de acordo com temporalistas no filme de Dutra, (2015).

As narrativas históricas encontradas entre a delimitação da vida e a morte só podiam ser vivenciadas com a antevisão da morte. No entanto, essa experiência de longevidade, reverenciando alternativas genéticas, que antes eram propagadas pela fé, o “destino” por assim dizer, como Koselleck, (2014) categoria, fez parte de reflexos importantes que desaguaram no conceito de morte. Calculado pelo domínio do tempo e consequentemente da cultura que vivemos. Contudo, as pontualidades tecnológicas estão ampliando essa reverencia da “longevidade”.

O computador do futuro será do tamanho de células capazes de serem inseridas ao corpo, (micro chips), combinando o pensamento as determinações tecnológicas expansivas e capacitadas para aumentar a memória, integrando a inteligência às máquinas da ultima geração. Assim, quando não soubermos de algo, será possível alcançar novos conceitos, de acordo com Raymond, em Quanto tempo o tempo tem? Dirigido por Dutra (2015), onde ele fala:

Eles vão colocar nossos cérebros numa nuvem, como em celular. Se o celular não puder responder a uma pergunta, ela vai para o servidor NUVEM. O telefone é só uma porta de entrada para a NUVEM. Colocaremos estas portas de entrada em nosso cérebro. E por isso precisamos ter mais pensamentos maiores. Precisamos de mais capacidade cerebral. O nosso cérebro vai se conectar com a NUVEM e a NUVEM é a tecnologia da informação pura. Está dobrando de potencia a cada ano, de modo que irá multiplicar a inteligência humana. (RAYMOND, apud DUTRA, 2015)

Esta visão tecnológica já é experimentada, bem como, perspectiva para todo o futuro da humanidade. Onde os espaços armazenadores do saber, tornam-se infinito e expansivo. Ao mesmo tempo em que isso pode parecer positivo, tem consequências um tanto perigosas. O sujeito não é mais importante, único e peculiar, agora, é compartilhado a aparatos imortais. Será a isso sonho ou pesadelo?

Essa realidade nos condiciona as palavras de Nilton, em Quanto tempo o tempo tem? Digerido por Dutra, (2015) em que “o prazer é associado a existência e a finitude”, e assim podemos, “brincar de ser Deus” como dialoga Bonder, não é questão de qualidade de vida e sem a finitude não é possível desafiar a mortalidade.

Dutra, (2015) considera que viver na “infinitude” é viver contra o tempo, precisamos fazer o máximo de coisas para que nos sintamos de certa forma realizados. A perspectiva de viver para sempre impossibilita a transformação e o sentido da existência. O problema da grande maioria das pessoas é não escolher viver o presente, mais ansiar o futuro. Transformando algo que ainda não aconteceu, ou seja, uma probabilidade para que ocorra, em certeza absoluta. Deixando o agora para o passado.

Viver pensando no futuro é fazer escolhas e esperar resultados que podem não ocorrer. Independente de “previsões”, que “são mais negativas do que positivas” (KOSELLECK, 2014, p.189), e ainda, “que suscitam ou que, em atividades de planejamento, números de uma série de produção dependem das possibilidades futuras”. Ou seja, o amanhã ainda é longe para ser definido agora.

O desejo como diz Kant, mas também os temores e as esperanças, anseios e receios, planejamentos, cálculos e previsões são todos esses modos de expectativa que fazem parte da nossa experiência, ou, melhor, correspondem à nossa experiência. O ser humano, como ser aberto ao mundo e obrigado a viver sua vida, permanece dependente da visão do futuro para poder existir. (KOSELECK, 2014).

A humanidade está tão desfocada e conexa a uma realidade mais fora de si e compartilhada que fica difícil apropriar de um tempo digno por assim dizer, viver no sentido de existir e não do passar por aqui. A sensação do tempo que temos, mesmo em um curto período, ganha mais dilatação, encontrando resultados para as considerações de Koselleck, (2014), onde diz: “Quanto mais nos aproximamos do nosso tempo, mais difícil se torna a arte dos prognósticos de curto prazo” e ainda,

o que esperamos para o futuro é delimitado de maneira diferente daquilo que experimentamos no passado. Expectativas cultivadas podem ser ultrapassadas; experiências realizadas, no entanto, são colecionadas. Por isso, o espaço de experiências e o horizonte de expectativas não podem ser remetidos um ao outro de forma estática. (KOSELLECK, 2014)

O tempo mudou e está em constante mudança, movimentando as curvas das experiências humanas. Faz parte do processo de refletir quem somos e o que precisamos fazer neste mundo. Os legados que queremos deixar quando o nosso tempo findar. Portanto, “se nós fomos uma ponte, para nos conectar ao passado e ao futuro, os nossos descendentes longínquos, no futuro, lembraram de nós com saudade e afeto” e que viver é viver com “intensidade é a coisa mais preciosa que existe, apreciando a vida e dar valor a cada instante da existência”. (COEN, apud Quanto tempo o tempo tem? Dirigido por DUTRA, 2015).

O Tempo para história só “serve de significados espaciais e só pode ser descrito metaforicamente” (KOSELLECK, 2014, p. 307). Por isso sua importância é valiosíssima e talvez o sentido de tudo que vivemos nas sincronias e diacronias peculiares de cada indivíduo.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Interessante como ao longo da estrada da vida, a constância tempo vem sendo tratada como algo impensado, parar e perceber algo natural e enigmático não faz parte da maioria das pessoas. O tempo ocioso valorizado na Grécia antiga, não condiz como o tempo do presente. Pensar o tempo como matéria, registrado nas páginas de um calendário ou no compasso de um relógio, refleti a insensibilidade das marcas da vida.

Ao falar de tempo, logo se pensa nas horas constantes que nunca param e que corre cada dia mais veloz. Visão de mundo de quem corre contra o tempo, ou melhor, de quem não quer perder tempo. Considerado um bem precioso em uma mistura abstrata com sentido ríspido, contraditório, ainda obscuro e inexistente.

Aderindo momentos de acontecimentos, misturados entre o passado e o futuro, que estão dentro do presente. Onde o presente é esse instante, agora e único. Que em um piscar de olhos já acabou. Sendo que no presente é possível acessar o passado, através das lembranças, memórias e experiências dos nossos conterrâneos, bem como, o encontro do “Eu” na preservação da história que forma nossa identidade.

É no presente, que as escolhas direcionam o futuro, um campo jamais alcançado, do ponto de vista do “presentismo”. Assim sendo, o passado forma uma extensa biblioteca da vida, tudo que foi e está sendo se encontra lá, crível de ser alterado.

Outra questão do tempo presente é o espaço mediativo para ocorrência das coisas, praticadas no ambiente virtual. Local onde não se está em lugar algum e está no alcance de tudo, ao mesmo tempo. Um tempo atemporal, no qual os eventos são instantâneos, não mais tendo a importância duradoura e construída por extensos firmamentos, mas abrangendo a urgência de saber o mais rápido possível e esquecer com facilidade. A cobrança dos tempos atuais e necessidade do viver “on-line” perpassa nas condições da falta do tempo e de percepção em fazer algo único, não importando com o que vem depois.

O controle do tempo a priori, estabelecia a sociedade e dividia os poderes e deveres, intitulado pelo conhecimento que o homem tinha para organizar cada civilização, calçada por sua cultura e fé. Com o passar das Eras, esse controle foi se modificando, alterando os padrões econômicos, religiosos, culturais, políticos e sociais. Atualmente o controle passa a ser ideológico e do saber. A duração que foi definida por Lucien Febvre, em diferencias as formas de perceber o ritmo que molda nossa existência, tanto individual como a interação na sociedade, foi alterada.

A própria confusão do marco inicial para um tempo linear, onde o tempo passou a contar de trás para frente, em 754, na divisão encontrada para tentar resolver os problemas da humanidade, na esperança de um recomeço. Determinando nossa história e escolhas, partiram de consistências manipuladoras para definir a sociedade.

Tempo que foi alterado diversas vezes, na tentativa de alinhar as datas comemorativas, práticas religiosas e os movimentos dos astros, e mesmo assim, não foi possível. Colocar a humanidade em uma linha reta em que o fim é a esperança do melhor na vida presente é valorizar o que não se tem.

A evolução industrial, juntamente com o pensamento capitalista, reconfiguraram o homem, aderindo novas formas de viver e se comunicar. O tempo do trabalho tornou-se maior e o interesse pelo consumo contribuiu cada vez mais para investir tempo em moeda de troca, não que seja dinheiro, mais o tempo gasto para consegui-lo é valioso.

Podemos controlar, mais depende de cada um, viver a favor do tempo, com foco em uma única coisa, não fragmentando e muito menos multiplicando os segundo como se depois não fosse existir é uma grande mudança para quem se confiança no destino. Porém, tudo depende das escolhas que fazemos e do espaço em que se está. Se deixar fluir o tempo, ao torna-lo imperceptível ele pode te controlar, mais o contrário também ocorre. Há momentos que o tempo se dilata, dando a impressão de que para, assim, a percepção torna-se mais evidente, provocando sentidos amplos para a questão.

Neste sentido, a falta de consciência temporal desalinha os valores essenciais para a formação humana. Causa um sentimento de angustia, medo do tédio e necessidades de consumo para suprir a algo que está na essência do viver. Produzindo uma satisfação momentânea, não na passagem de um ciclo, mas no sentido de existir, muito particular e que passa a ser coletiva e dispersa quando não é vivenciado.

Apropriar do que é mais precioso, corresponde as decisões de viver intensamente cada momento e isso implica o conhecimento e acúmulos de informações, sem poder definir e conduzir a vida plena. Ao pensar que, quanto mais informação se tem, mais sabemos e mais completos estamos, percorremos para a “lentidão” da capacidade que o homem tem de conceber as coisas, tornando-nos superficial.

Ao passo das investigações e análises feitas nas bibliografias sobre o tempo, encontrei respostas para refletir o uso do tempo e os avanços tecnológicos que anseiam em conceber o tempo por completo. Realizando um desejo do eterno, ou a finitude. A luta cósmica entre o bem e o mal, separando o tempo em si, poderá ser diluída, a partir de novos conceitos humanísticos da formação do ser hibrido, cada vez, mais insensível e isso é um problema para novos estudos.

Atualmente a ciência vem trazendo novas possibilidades que envolvem a temporalidade, a duração e as possibilidades para viver a longevidade antes ansiada somente no pós vida. Alterando a importância e o valor temporal, a consciência e a mentalidade humana.

Ainda não foi possível dizer que tempo em si existe, pois é considerado abstrato, subjetivo e relativo, mais é considerado um instrumento de medição. Hoje condensando na obscuridade do saber humano, não totalmente linear e nem totalmente cíclico. Independente de múltiplas nomenclaturas para considera-lo existente, as linguagens humanas são pobres para descrever tempo.

A riqueza de seu conceito vai muito além de tudo que vemos, sentimos, ouvimos e degustamos de todo conhecimento que o homem foi capaz de chegar. Iniciamos um processo para compreender esse tudo e ao mesmo tempo nada. Porque para saber o que é tempo? É preciso muito tempo.

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MEIRELLES, Mauro. Sobre o tempo que passou: a imersão na paisagem cibernética e o surgimento de novas temporalidades e formas de perceber o tempo. 2010.

NICCOL, A. O PREÇO DO AMANHÃ. Direção: Andrew Niccol. Produção: Marc Abraham, Eric Newman, Andrew Niccol. Roteiro: Andrew Niccol. Realização: 20th Century FOX. Gênero: Suspense. EUA. 2011. (109 min.).

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Publicado por: Kelly Cristina Rodrigues Provazi

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