A arquitetura do futuro é multidisciplinar!

Engenharia

Projetos adequados, tanto às particularidades e necessidades dos clientes, como às condicionantes geográficas e sócioeconômicas das regiões em que se propõem inserir.

índice

1. Resumo

Que tipo de produção técnica é esperada do arquiteto do futuro?A crescente tendência do mercado por soluções mais audaciosas, economicamente viáveis e, ao mesmo tempo, energeticamente sustentáveis obriga este profissional à busca por uma familiaridade técnica cada vez maior com as mais variadas áreas do conhecimento humano para a gestão adequada de projetos racionais e, até mesmo, para sua permanência dentro de um mercado cuja concorrência se acirra exponencialmente e onde produtos com referência técnica são o diferencial que determinará o sucesso de um escritório. Cabe a este autor demonstrar que a formação de equipes profissionais multidisciplinares são a mais forte das ferramentas da atualidade para suprir a ausência de domínio geral por parte do profissional, individualmente, sobre todos os aspectos da produção técnica. Esta imperativa necessidade de uma visão global do ecossistema projetual que envolve recursos naturais, sociais, econômicos e técnicos é defendida pelos diversos autores aqui pesquisados e busca, como resultado positivo, uma conscientização - a partir do debate - e a consequente geração de projetos adequados, tanto às particularidades e necessidades dos clientes, como às condicionantes geográficas e sócioeconômicas das regiões em que se propõem inserir.

Palavras-chave: Arquitetura. Engenharia. Multidisciplinar. Equipe de trabalho. Projeto.

2. Introdução

As necessidades modernas aumentaram o nível de exigência e qualidade técnica dos projetos arquitetônicos obrigando profissionais a uma gestão mais responsável do ponto de vista sócio-econômico e mais racional quanto aos custos da obra. Uma nova postura foi adotada como imperativa exigência de mercado, diferente da metodologia tradiocionalmente usada onde o arquiteto deve buscar uma nova linha de conceito projetual sem prejuízo do partido mas revestida de técnicas construtivas originadas da gestão da produção intelectual a partir da cooperação multidisciplinar e da integração dos variados conhecimentos profissionais envovidos na formalização desta mesma ideia (partido). Assim, entende-se que a metodologia do processo do projeto é multidisciplinar em todas as suas fases individualmente ou por etapas.

Conan (1990) enfatiza a noção da atividade de projeto como uma “resolução de problemas”, e que remete o projetista a “enunciados inevitavelmente incompletos”. O projeto se desenvolve por etapas, dentro de um ambiente de incerteza, cada vez mais acentuada pela complexificação dos empreendimentos. Como afirma Conan, considerando-se que a atividade de projeto é cada vez mais um trabalho de equipe, ela deveria produzir interações entre os profissionais, resultando em um aprendizado coletivo. Pode-se dizer que esse tipo de caracterização do processo de projeto é conhecida desde os anos 70 e está ligada à idéia de “espiral do projeto”. De acordo com esse conceito, é necessário um esforço de cooperação entre arquitetos, engenheiros de projeto, construtores e todos os demais envolvidos, para que se obtenham bons resultados (MELHADO, 2002, p.01).

Ainda segundo Melhado (2002), como uma feliz consequência do adequado processo de envolvimento de cada um dos profissionais de uma equipe multidisciplinar sempre há também uma evolução técnica destes entes a cada novo processo projetual uma vez que novos desafios exigem nossas abordagens técnicas para a solução de problemas diferenciados e particulares a cada empreendimento e, a qualidade dos resultados alcançados, depende diretamente do nível de integração e interação desta equipe que deve cooperar desde a fase de atividades até o resultado físico final.

O arquiteto romano Marco Vitrúvio Polião define em seu tratado – o mais antigo de que se tem notícia – a arquitetura como “uma ciência, surgindo de muitas outras, e adornada com muitos e variados ensinamentos: pela ajuda dos quais um julgamento é formado daqueles trabalhos que são o resultado das outras artes." Defende ainda que o arquiteto deveria possuir confortável domínio em campos diversos como astronomia, música, filosofia, etc. Em particular a filosofia é uma das grandes influências percebidas nas produções de muitos arquitetos onde, o racionalismo, empirismo, estruturalismo, pós-estruturalismo e fenomenologia são percebidos de forma bem marcada.

Vitrúvio nomeia três elementos fundamentais na arquitetura: a firmitas (que faz referência à resistência construtiva do elemento), a utilitas (atualmente associada à função) e, por fim, a venustas (associada à beleza e à estética) e o decorum (associado à dignidade da arquitetura, à necessidade de rejeição dos elementos supérfluos e ao respeito das tradições/ordens arquitetônicas), estes mais tarde conhecidos como a Tríade Vitruviana. Dentro do processo para atingimento de cada um destas características com valores distintos existe uma interação de saberes, também distintos, que dão forma a cada uma, atuando em maior ou menor grau para a obtenção dos resultados.

O arquiteto Lúcio Costa (2002), traça sua definição para a arquitetura e, dentro de sua visão conceitual, já percebemos uma consciência das características multidisciplinares percebidas por ele dentro da profissão. Desta forma, ele defende a arquitetura como,

[...] construção, mas, construção concebida com o propósito primordial de ordenar e organizar o espaço para determinada finalidade e visando a determinada intenção. E nesse processo fundamental de ordenar e expressar-se ela se revela igualmente e não deve se confundir com arte plástica, porquanto nos inumeráveis problemas com que se defronta o arquiteto, desde a germinação do projeto, até a conclusão efetiva da obra, há sempre, para cada caso específico, certa margem final de opção entre os limites - máximo e mínimo - determinados pelo cálculo, preconizados pela técnica, condicionados pelo meio, reclamados pela função ou impostos pelo programa, - cabendo então ao sentimento individual do arquiteto, no que ele tem de artista, portanto, escolher na escala dos valores contidos entre dois valores extremos, a forma plástica apropriada a cada pormenor em função da unidade última da obra idealizada. A intenção plástica que semelhante escolha subentende é precisamente o que distingue a arquitetura da simples construção (COSTA, 1995, p.246).

A Arquitetura moderna, como bem afirma Lúcio Costa, transcendeu o senso comum de uma ciência dedicada à simples produção construtiva para se tornar uma ciência completa e embasada em princípios técnicos, artísticos e sociológicos em constante evolução agregando sempre novos valores conceituais e buscando de adequar à realidade tecnológica, ambiental e social corrente.

3. As equipes multidisciplinares: o processo

A atual configuração do mercado profissional e as novas exigências para projetos de significativa importância e impacto no contexto social e econômico das cidades modernas não permitem mais ao arquiteto a comodidade de atuar como um ente solitário dentro do processo de produção técnica dos projetos nem, mesmo que se permita apenas assessorar-se com outros profissionais quando achar conveniente em dada fase do projeto. A necessidade de uma interação cada vez mais íntima entre os profissionais envolvidos diretamente no processo aumenta na proporção da complexidade do mesmo e a compatibilização dos sistemas e ideias acaba tendo que ser feita em tempo real para a geração de um cronograma físico-financeiro confiável, um grande diferencial para escritórios de arquitetura e engenharia dentro do atual painel empresarial que pode ser fator decisivo para a consecução de importantes contratos e consequente projeção profissional.

Tapie (1999) também enfatiza a multidisciplinaridade e a soma de competências que envolve o projeto.  Esse autor mostra que a atividade do arquiteto é cada vez menos autônoma, afirmando que “a complexidade crescente dos empreendimentos de construção e urbanos e as exigências de qualidade de produtos e serviços, colocadas pelos clientes e pelos empreendedores, favorecem a segmentação e a especialização, ao mesmo tempo em que obrigam permanentemente a arranjos de equipe para atender às necessidades de cooperação”.  Tapie destaca a necessidade de uma gestão de competências, para responder à ampliação constante do conjunto de conhecimentos especializados de projeto, em substituição à simples divisão de tarefas e de responsabilidades que se baseia no bom relacionamento, familiaridade e amizade. Para o autor, “a gestão é o melhor recurso para responder às restrições atuais”, para lidar com as contradições entre projetistas de formações disciplinares diversas e para fazer face à “incerteza de natureza múltipla (técnica, financeira, legal e política)” dos empreendimentos de construção e urbanos (MELHADO, 2002, p.02).

Outro importante ganho a partir das equipes multidisciplinares para a projeção dentro de uma acirrada concorrência profissional é a maior probabilidade do surgimento de novas tecnologias que podem ser aplicadas nas produções técnicas, individualizando e tornando-as economicamente viáveis e atrativas e assim sirvam de diferencial dentro deste mercado.

Melhado (2002), chama a atenção para uma forte influência dos fatores sociológicos quando no convívio de indivíduos - profissionais em áreas correlatas ou não - nas equipes multidisciplinares onde, naturais conflitos podem surgir e cabe a um ou mais dos entes envolvidos e seu domínio mais aprofundado da questão técnica em pauta a tarefa de dirimir a incerteza e o impasse pessoal da equipe e, quando isto não ocorre, pode-se notar uma consequente dispersão de objetivos na equipe de trabalho onde ”muitos profissionais se encontrarão, ao mesmo tempo mas com diferentes pesos ou níveis de empenho”. O que se espera de uma boa equipe é um comprometimento com “a busca de soluções para os problemas de seus clientes” e “esse tipo de prestação de serviço, de natureza intelectual, deve estar orientada não apenas ao cliente-contratante, mas também aos clientes-usuários e ainda a todos os clientes internos, como é o caso das empresas construtoras”. Dessa forma percebe-se que existe todo um universo de pensamentos e necessidades na extremidade final do processo de produção técnica projetual, permeado de exigências que devem ser previstas quando na geração de uma proposta adequada.

É certo que a qualidade de uma equipe está correlacionada à qualidade de seu capital humano,

Desse ponto de vista, “a competência humana, profissional, se revela, desde o início, decisiva na eficiência de uma produção de serviço, pois é preciso interpretar e compreender as expectativas do cliente. (…) Não é suficiente que a solução seja intelectualmente elaborada. Falta ainda efetuar a transformação efetiva das condições de atividade do cliente-usuário. Este é um ponto freqüentemente subestimado na produção de serviço” (MELHADO, 2002, p.03).

A interação profissional nas equipes multidisciplinares como método de produção, em muitos casos, pode funcionar como ferramenta de equilíbrio quando numa eventual falta de acervo  técnico por parte de qualquer de seus membros sobre determinado assunto e que pode ser compensado pela contribuição de outro profissional envolvido e, desta forma, a qualidade intelectual do produto permanece inalterada.

Figura 01 – Dada sua formação interdisciplinar, o arquiteto é o profissional qualificado para gerenciar a integração dos saberes técnicos da equipe no processo de produção projetual.

Fonte: , acesso em 27jul, 2015.

Dentro desta equipe multiprofissional, o papel técnico do arquiteto é de fundamental importância para a fluidez dos processos do projeto dada a abrangência técnica inerente à sua formação e exercício profissional. Desta forma, com o auxílio de certo nível de capacidade organizacional é possível a obtenção de um corpo técnico focado na formalização de projetos dotados de estética e funcionalidade com metodologia de trabalho integrada de forma a envolver empreendedores, engenheiros de projeto, engenheiros residentes, consultores e outros profissionais especializados. Somada a esta qualificação profissional da equipe, a implementação de sistemas de gestão da qualidade pode orientar o ritmo técnico a ser adotado pelos envolvidos e as necessárias mudanças nos métodos de trabalho.

Esta nova visão que visa o fomento da criação das equipes multidisciplinares ou multiprofissionais vem contra a usual metodologia de segmentação e sequenciamento das etapas do projeto presentes na construção civil convencional originada da falta de interação e comunicação entre os diversos profissionais envolvidos. Assim, um novo pensar é proposto através de uma mudança fundamental na postura no sentido de promover o desenvolvimento de práticas de trabalho integrado nos projetos desde a concepção da ideia ou necessidade até a execução da obra e assim garantir a sobrevivência tanto técnica quanto financeira das empresas deste setor isto à revelia das naturais dificuldades em se criar as condições organizacionais necessárias à implementação de tais mudanças mais ainda para as empresas ou escritórios de pequeno e médio porte que não possuem ainda essa educação voltada para o projeto modelado a partir de uma abordagem multidisciplinar do mesmo. Entende-se portanto que a mudança no processo depende numa mudança no pensar técnico tendo em vista que a maioria dos problemas de falta de qualidade das produções arquitetônicas têm sua origem na falta de qualidade no processo de projeto, conduzido sem um adequado planejamento e desprovido de uma visão global de todas as etapas e sistemas envolvidos no mesmo.

Alguns autores (Fabrício et alii, 1998a e 1998b; Andery, 2000) que defendem a mudança das atuais formas de condução de projetos de edificações, acenam para: (i) a realização em paralelo de várias etapas do processo, em especial, o desenvolvimento integrado de projetos do produto e para produção; (ii) o estabelecimento de equipes multidisciplinares, formadas por projetistas, usuários e construtores, em especial os engenheiros de obras; (iii) uma forte orientação para a satisfação dos clientes e usuários; (iv) a padronização das formas de apresentação e documentação do projeto; (v) a adoção de procedimentos para coleta de dados durante a execução e após a entrega das obras, que torne possível a retroalimentação dos projetos. Ou seja, apontam para um novo paradigma na construção civil: o desenvolvimento integrado de edificações (ROMANO; BACK; OLIVEIRA, 2001,p.01 e 02).

Esta remodelagem na forma de pensar e produzir o projeto permite ainda às empresas, através desta abordagem mais abrangente de todas as suas etapas, além da redefinição do próprio método pela reinserção dos dados e experiências adquiridas, a prevenção de situações desfavoráveis ao andamento da obra ou a minimização de ações corretivas em ocorrências antes mesmo que se consolidem como problemas graves. Assim, decisões são agilizadas a partir de informações previamente estruturadas e disponibilizadas pela equipe multiprofissional e a alocação de pessoas, equipamentos e materiais é otimizada. Sobre isto, Vargas (2000) afirma que,

[...] os benefícios da modelagem do processo de projeto de edificações têm reflexos diretos sobre o sucesso do projeto, tanto no aspecto técnico – ser concluído dentro do tempo e do orçamento previsto, ter utilizado os recursos eficientemente e ter atingido a qualidade e a performance desejadas –, quanto no aspecto organizacional – ter sido concluído com o mínimo possível de alterações em seu escopo, ter sido aceito sem restrições pelo contratante ou cliente, ter sido empreendido sem que ocorresse interrupção ou prejuízo nas atividades normais da organização, não ter agredido a cultura da organização (ROMANO; BACK; OLIVEIRA, 2001, p.03).

4. Os projetos multidisciplinares: o produto

Para discutir o papel e a importância da multidisciplinaridade aplicada aos projetos de arquitetura é bem mais simples uma abordagem a partir do produto técnico final: o próprio projeto. Suas exigências técnicas já determinam parâmetros e tecnologias que deverão ser utilizadas ou maximizadas em menor ou maior grau e, para cada tipologia de uso dos espaços, demandam necessidades distintas. Porém, mais que uma exigência técnica, a adoção das equipes profissionais integradas deve partir de uma consciência voluntária dos indivíduos envolvidos no empreendimento sobre qual seu papel e responsabilidade dentro do ambiente caótico que é a malha urbanizada das cidades e na promoção da qualidade de vida ao ser humano é a resposta que deve motivar a cooperação profissional para a produção de projetos que integrem de forma harmônica os espaços à natureza e às necessidades individuais e coletivas dos homens.

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A fase inicial de qualquer projeto já demanda conceitos que buscam em áreas individualizadas do saber os conceitos primários para a orientação dos trabalhos da equipe uma vez que o próprio programa de necessidades do projeto, nada mais é, que uma análise de necessidades sociais que se busca suprir, uma vez que o espaço proposto pretende se inserir em um sistema já existente ou mesmo provocar uma nova dinâmica a partir dele. Nesta mesma fase, quando se aborda a questão dos fluxos, outras variáveis sociais são levadas em consideração e novas disciplinas são inseridas no processo pois, devem ser previstas condições de adequada mobilidade, ergonomia, acessibilidade universal e segurança; tudo isto para a promoção de um conforto para os fluxos humanos de todas as tipologias de usuários dos espaços propostos. A elevação dos custos de operação e manutenção, bem como, a crescente necessidade de preservação dos recursos naturais do planeta orienta a nova arquitetura ao estudo e proposição de espaços integrados a natureza e com fator de custo benefício energético positivo.

Figura 02 – Exemplo de composição técnica multiprofissional de um projeto adequado.

Fonte: . Acesso em 27jul, 2015.

Para cada uso específico determinado aos espaços, existem normatizações legais que variam de região para região e que também passam a compor o dossiê preliminar de trabalho e que inserem novas disciplinas a plataforma do projeto. Por exemplo, para o projeto de uma instituição de ensino destinada à crianças, somada às normas fixadas pelos órgãos reguladores competentes, existe todo um arsenal de informações que devem fazer parte da orientação das tarefas projetuais e de execução da obra onde os elementos observados para a ergonomia e segurança dos usuários são específicos em relação à uma instituição de ensino destinada a adultos. Também, os sistemas preventivos contra situações de risco biológico são totalmente divergentes, tanto em proporção quanto em tecnologias, de uma edificação destinada à saúde pública que, por sua vez, difere da concepção de um espaço destinado ao sistema prisional ou de uso industrial e assim por diante.

Cada particularidade espacial demanda uma abordagem psicossocial individualizada que, num efeito em cadeia, exige a aplicação de tecnologias a partir de outras práticas técnicas como a física, a biologia, a química, a arte, a geologia, geografia, etc.

A demanda atual por edificações com fator de eficiência energética positiva e integradas a locação é um importante contribuinte para o crescimento das equipes multidisciplinares, haja vista que para que se obtenha um equilíbrio da edificação com o entorno e, simultaneamente, economicamente viável por conta da sustentabilidade de sua demanda de consumo de energia, exige-se uma completa interação e integração de tecnologias que, para coexistir de forma eficiente dependem de estudos e validação de uma plataforma multidisciplinar completa que vai, a partir de referenciais técnicos e experiências de laboratório, propor uma adequada locação que tire proveito dos condicionantes naturais existentes como iluminação, ventilação e acústica reduzindo custos de operação e manutenção do espaço (Ex.: refrigeração e iluminação artificial); vai ainda obter vantagens sobre a topografia para a condução de sistemas de infraestrutura que se utilizem da gravidade (Ex.: sistema de esgoto e água canalizada); propor tecnologias de reaproveitamento de águas e resíduos e até apresentar novas alternativas que sirvam de um diferencial profissional aplicado à construção pela equipe.

Figura 03 – A partir da ideia, no caminho da espiral do processo projetual, acabam sendo requeridos conhecimentos e técnicas variadas para que se chegue ao produto final.

Fonte: , manipulada pelo autor.               Acesso em 27jul, 2015.

Outro fator importante, sobretudo para o resultado final da obra e seu custo é que as equipes multidisciplinares, quando devidamente integradas, imprimem um impacto financeiro significativo para o processo de projeto e execução uma vez que, nos trabalhos multiprofissionais os projetos são produzidos já compatibilizados onde os sistemas de apoio à infraestrutura dos espaços convivem durante toda a evolução da proposta a assim, problemas de difícil e dispendiosa solução durante a execução da obra, são previamente identificados e solucionados sem a necessidade de retrabalhos.

O desenvolvimento dessa forma minimiza conflitos, simplifica a execução e aperfeiçoa o tempo da construção. Segundo Chippari (2013), o uso dessa ferramenta pode reduzir entre 5% e 8% no custo total da obra. A etapa de somar diversos projetos se aproxima da definição de projeto simultâneo, também denominada engenharia simultânea, o que significa desenvolver o produto pensando no processo, interligado todos os demais envolvidos, por meio da cooperação entre os diversos agentes, com foco na construtibilidade (GERHARDT, 2014, p.02 e 03).

5. A tecnologia BIM

Uma importante ferramenta tecnológica que vem ganhando espaço nos escritórios de arquitetura e construtoras é a tecnologia BIM (Building Information Modeling) que vem se apresentando como o ponto de convergência virtual entre todas as plataformas de trabalho da equipe envolvida em determinado projeto pela modelagem das informações de construção.

Esse recurso vem com a proposta de aparar as arestas que dificultavam a incompatibilidade técnica de trabalho entre os entes profissionais permitindo aos indivíduos trabalharem, simultaneamente, em um mesmo arquivo central gerado a partir das informações do projeto desde seu nascimento e alimentado com as atualizações de dados gerados pelos técnicos em tempo real gerando uma modelagem virtual de todos os sistemas da edificação e gerando um diagnóstico claro de quaisquer incompatibilidade que possa ocorrer antes mesmo de iniciados os trabalhos de execução da obra permitindo, além da adequação da edificação ou sistema, a troca de conhecimentos entre os profissionais no processo de solução de cada problema. Desta forma percebe-se que a adoção de uma plataforma de trabalho coletiva, mas virtual, não significa necessariamente a anulação das interações sociais entre os membros da equipe.

Figura 04 – Esquema de integração multidisciplinar gerada a partir de tecnologias BIM.

http://pmkb.com.br/uploads/19033/bim1.jpg

 Fonte: <http://www.siscad.pt/produto.php?area=7&id=391&escolha=Geral#salto>. Acesso em 25jul, 2015.

É importante ressaltar que , neste tipo de tecnologia, o fator de maior importância não são os desenhos por si só mas, as informações que permitem, além de apresentações gráficas, um melhor gerenciamento de todo o projeto com a geração de quantitativos, orçamentos, estimativas de custos com menor margem de erros e análise de riscos.

Figura 05 – Exemplo do funcionamento da tecnologia BIM: compatibilização de projetos.

Fonte: <http://blogdopetcivil.com/2013/02/22/bim-o-futuro-dos-projetos-de-engenharia>. Acesso em 25jul, 2015.

A exemplo do conceito das equipes multidisciplinares físicas, a integração de informações através da tecnologia BIM permite ainda um processamento automático de qualquer alteração aplicada ao projeto ou em seus parâmetros modificando todas as plantas, orçamentos, quantitativos e atualizando on-line todos envolvidos com rapidez e qualidade e gerando por fim um projeto eficiente gerado a partir destas informações integradas e facilmente inteligível até mesmo por quem não domine o conhecimento técnico das simbologias e representações do desenho geométrico – como o cliente – aproximando-o do andamento do processo e angariando sua satisfação e empatia.

Figura 06 – Fluxo adequado do projeto nas equipes de trabalho interdisciplinares

Fonte: <http://www.tekla.com/cdn/farfuture>. Acesso em 27jul, 2015.

6. Considerações finais

Esta nova forma de trabalhar projetos – a multidisciplinaridade – deve, como consequência benéfica, migrar para o nível de comunicação técnica da interdisciplinaridade onde os esforços atuam simultaneamente na produção técnica e na solução dos problemas, como ocorre na plataforma BIM. Daí, o objeto final é a transdisciplinaridade, onde o método de pensamento da equipe é complexo e alinhavado de modo a formar um conjunto técnico homogêneo. Os dados expostos apontam para um pensamento que não exime o arquiteto de seu papel pioneiro de transformador dos processos de trabalho das equipes e da fomentação dos ambientes interdisciplinares com o objetivo da promoção da qualidade deste processo e dos projetos frutos dele além de produzir o debate sobre a responsabilidade compartilhada e a imperativa necessidade de participação de cada um dos profissionais envolvidos para a geração de resultados positivos nos serviços. É evidente que uma nossa postura por parte das instituições acadêmicas deveria ser adotada enfocando a importância do pensamento multidisciplinar como ferramenta de qualificação dos projetos e da participação de cada profissional no gerenciamento de conflitos e compartilhamento de saberes em equipe, principalmente entre a arquitetura e a engenharia civil. A adoção deste método de trabalho pode produzir a aproximação real de cada membro da equipe com a inteireza do projeto e a construção propriamente dita e, esse domínio da situação, pode gerar importantes contribuições que auxiliarão na tomada de decisões executivas e corretivas, reduzindo custos e riscos e melhorando a fluidez e qualidade do processo desde o projeto até a entrega da obra.

7. Referências

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Publicado por: Malcolm Teles de Oliveira

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