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UMA ANÁLISE SOCIOLÓGICA DA VOLUBILIDADE DO NARRADOR MACHADIANO NO ROMANCE MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS

Educação

Leituras feitas pelos críticos da obra machadiana, análise do salto qualitativo de Machado de Assis, o porquê da volubilidade do narrador machadiano e a análise sociológica da obra Memórias Póstumas de Brás Cubas.

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1. RESUMO

Este trabalho analisa o romance Memórias Póstumas de Brás Cubas por meio da tese de Roberto Schwarz acerca do narrador volúvel e do paternalismo, os quais podem ser identificados na obra de Machado de Assis. A presente investigação inicia apresentando como estes aspectos estão inseridos nos primeiros romances ou na chamada primeira fase do supramencionado escritor. A questão do paternalismo mostra-se bem delineada nos primeiros romances de Machado de Assis e o presente trabalho analisa a questão nos romances Iaiá Garcia, A mão e a luva e Helena. Em seguida, reflete-se mais profundamente sobre a volubilidade social, que, por sua vez, é imitada no romance Memórias Póstumas de Brás Cubas. Nele, é possível identificar uma narrativa volúvel, não apenas no conteúdo, mas sobretudo na forma. Sendo assim, a análise feita nesta monografia corrobora com a perspectiva de Schwarz, que afirma que a volubilidade do narrador ocorre pelo fato dele estar representando a sociedade da época, que era volúvel. A reflexão de Roberto Schwarz sobre a incoerência do Brasil na incorporação das ideias liberais europeias, em um momento histórico que ainda sustentava a escravidão negra, mostra como o país estava na contramão do liberalismo. Ao fazer uma leitura sociológica da obra machadiana, esta monografia reflete sobre a importância de Machado de Assis não somente para a literatura, mas também para a compreensão da complexidade ideológica da sociedade brasileira, contribuindo para um melhor entendimento da formação cultural e identitária desse povo.

Palavras-chaves: Machado de Assis. Narrador. Volubilidade. Favor. Paternalismo.

Abstract

This paper analyses the novel Memórias Póstumas de Brás Cubas” through Roberto Schwarz’s thesis on the voluble narrator and paternalism, which can be identified on Machado de Assis’ works. This research begins by presenting how these aspects are inserted on the first novels, or on the so called first phase of the aforementioned writer. The paternalism issue is well delineated on Assis’ first novels, and this paper analyses it on the novels Iaiá Garcia, A mão e a luva and Helena. After that, a deeper reflection is presented about social volubility, which is emulated on the novel Memória Póstumas de Brás Cubas. On this novel it is possible to identify a voluble narrative not only on the content, but mostly on the form. Therefore, the analysis performed on this research corroborates with Schwarz perspective, which asserts that the narrator’s volubility is due to the fact that they represent the voluble society of the time. Roberto Schwarz’ reflections about Brazil’s incoherence on the incorporation of liberal European ideas at a time that still supported black people’s slavery shows the way the country was running counter to liberalism. By doing a sociological reading of Assis’ work, this paper reflects on the importance of Machado de Assis not only to the literature, but also to understand the ideological complexity of the Brazilian society, contributing to a better understanding of this people’s cultural and identity formation.

Keywords: Machado de Assis. Narrator. Volubility. Favor. Paternalism.

2. INTRODUÇÃO

Não há dúvidas que Machado de Assis foi um grande escritor brasileiro e que as suas obras foram um marco na forma de se encarar as contradições e os antagonismos presentes na sociedade brasileira. A escolha da obra Memórias Póstumas de Brás Cubas como objeto de análise deste trabalho não foi aleatória, mas está relacionada ao fato de ser uma das obras que marcam o início do realismo crítico no Brasil e por ser a primeira da chamada fase madura de Machado de Assis.

A metodologia utilizada para a realização desta monografia consistiu em pesquisas bibliográficas publicadas sob a forma impressa, e os principais autores pesquisados foram Roberto Schwarz, Alfredo Bosi, José Guilherme Merquior, Raimundo Faoro e Augusto Meyer.

Este trabalho, no entanto, centraliza a análise da obra Memórias Póstumas de Brás Cubas pelo campo investigativo da questão social apresentada por Roberto Schwarz no ensaio As ideias fora do lugar. Esse crítico literário também trata da concepção do narrador volúvel, que é abordado na obra Um mestre na periferia do capitalismo, e que chama a atenção por abordar as contradições da sociedade oitocentista que importou o liberalismo europeu, ao mesmo tempo em que convivia com um regime escravocrata. Roberto Schwarz nos mostra como as ideias não se coadunavam com a realidade brasileira da época.

Com base nesses argumentos, buscamos mostrar que o Machado de Assis romancista, que saiu de uma condição de pobreza para uma realidade de proprietário e abastado, não se manteve alheio e inerte aos acontecimentos do seu tempo, mas perscrutou e a sondou de tal forma que percebeu as nuances em que ela estava incrustrada e a sua condição de sociedade hipócrita e possuidora de uma regra política baseada na cooptação e no favor.

Machado de Assis, desta maneira, inaugura o que viria a ser conhecido como realismo crítico, o qual pode ser qualificado como moderno, híbrido e livre de atavismos, que o diferencia dos românticos que o antecederam.

Esta monografia é composta por quatro capítulos. O primeiro trata das várias leituras que são feitas pelos críticos da obra machadiana, são elas: leitura hermenêutica, leitura metafísica, leitura social e leitura satírica. Neste capítulo há também uma análise do salto qualitativo de Machado de Assis, verificável quando se compara as obras da primeira fase com as obras da segunda fase. Para tanto, buscou-se embasamento na obra de Alfredo Bosi, que analisa Memórias Póstumas de Brás Cubas em três versões: a versão construtivista, a versão mimética e a versão existencial.

O segundo capítulo foca na questão atinente à volubilidade do narrador machadiano com enfoque no ensaio As ideias fora do lugar de Roberto Schwarz. A temática do paternalismo nas obras da primeira fase é considerada importante e por isso são feitas digressões levando-se em conta os romances Iaiá Garcia, Helena e a Mão e a Luva.

No terceiro capítulo é feita uma abordagem do tema sociológico, considerando a obra Memórias Póstumas de Brás Cubas, que é o romance que introduz Machado de Assis em sua segunda fase e inicia o realismo crítico no Brasil.

Este trabalho toma como principal foco de investigação social as obras de Roberto Schwarz, ratificando, portanto, a sua visão de que o narrador machadiano é volúvel porque representa a sociedade da época em que Machado de Assis viveu.

3. AS VÁRIAS LEITURAS POSSÍVEIS DA OBRA MACHADIANA

Há várias formas de ler a obra de Machado de Assis, sobretudo o romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, um dos mais famosos da literatura brasileira.

Algumas leituras possíveis podem ser verificadas nas obras de autores como: Ronaldes de Melo e Souza, Raymundo Faoro e Alfredo Bosi. Sobre a literatura machadiana, sobrepuseram-se várias vertentes de análise, as quais são invariavelmente ligadas aos perfis críticos adotados em cada época. No entanto, não se pode considerar que haja nesses críticos qualquer desvalorização em relação ao outro, ou seja, elas são grandes porque seu significado é grande e por isso as várias gerações de leitores veem motivos diversos em sua leitura.

Essas interpretações das obras machadianas não necessariamente invalidam umas às outras. O que ocorre é uma complementação pois, ao serem analisadas no todo, elas enriquecem a leitura que se tem de Machado de Assis.

Ronaldes de Melo e Souza faz uma investigação da obra de Machado de Assis por viés mais hermenêutico e metafisico.

Segundo ele, Machado de Assis, logo que chegou à maturidade, pela altura dos quarenta anos, chamou a atenção pela sua ironia e pela sua capacidade de multiplicar-se dentro da obra, observando a sociedade da época sob diversos pontos de vista. Essa característica é vista por Souza (2006) de uma maneira mais hermenêutica, que inclui uma metafisica advinda da filosofia grega que se encontra nos pré-socráticos.

Dessa forma, esse autor verifica em Memórias Póstumas de Brás Cubas um personagem que é e não é, pois está sempre se metamorfoseando e sempre se comportando como mediador dramático, que usa máscaras. O narrador, portanto, é um mediador e se multiplica em diversos papéis. No caso, o narrador está sempre representando os outros eus e não o próprio eu.

Além disso, há na narração o tragicômico que pode ser encontrado em Machado devido à sua familiaridade com a visão tragicômica do mundo e com a noção de espelhamento na concepção dionisíaca do homem e do mundo. O narrador machadiano reconhece com a sua ironia que o ser do homem e do mundo possui uma duplicidade e não uma unicidade ontológica.

Para Souza (2006), há uma complementariedade e uma reversibilidade de opostos em Memórias Póstumas de Brás Cubas e também uma natureza dual e ambígua da narrativa machadiana em todos os seus processos. Segundo o autor: “o narrador que assume múltiplas perspectivas narrativas revela-se capaz de atuar em consonância com a essencial heterogeneidade do homem e do mundo.” (SOUZA, 2006, p. 9)

Denotam-se, portanto, os seguintes processos constitutivos: discurso sério-jocoso, o paradoxo arquitetônico do defunto autor, o choque de imagens e ideologias antagônicas entre capítulos espelhados, a fronteira esgarçada entre a razão e a sandice, o objetivo e a vontade e um desdobrar-se do eu por vezes imperceptível, do sujeito reflexivo e distante que é o narrador para o eu-objeto, ou seja, personagem. Enfim, em toda a narração ocorre uma constante reflexão acerca do espetáculo multiverso da vida e da morte por meio das máscaras machadianas. .

Ao ler Machado de Assis por um olhar mais social e histórico, tem-se Raymundo Faoro como um autor que aponta para os estamentos e para as classes sociais e espelha a relação geral e constante entre o romance e a sociedade, que é um ponto principal do realismo. Raymundo Faoro se debruça sobre a vida política e econômica do Segundo Reinado com os olhos postos em personagens e situações machadianas.

Em O espelho e a lâmpada, afirma Faoro (1982) que, no realismo, fazia-se a cópia minuciosa de tudo, mas isso trazia uma perda pelo emaranhado e os detalhes irrelevantes, enquanto o romantismo esconde demais, escondendo verdades por imposição de uma sociedade hipócrita que vivia de faixada. Já com Machado de Assis, é possível fazer uma leitura da sociedade por meio de um realismo crítico, o qual permeia a obra Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Com A Pirâmide e o trapézio, Faoro (1974) mostra que Machado de Assis expõe a vida em si mesma, revelando a sociedade e a vida política de sua época, da qual o autor das Memórias fazia parte. Faoro tinha como objeto de estudo o Brasil, pois pretendia captar a vida que Machado de Assis infundiu em seus personagens, bem como o funcionamento concreto e cotidiano da ação dos donos do poder e seus agregados, além da presença das ideologias, dos vícios e das virtudes.

A representação do trapézio direciona para o capítulo 2 das Memórias Póstumas de Brás Cubas, em que o narrador machadiano afirma que:

Com efeito, um dia de manhã, estando a passear na chácara, pendurou-se-me uma ideia no trapézio que eu tinha no cérebro. Uma vez pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas cabriolas de volantim, que é possível crer. Eu deixei-me estar a contemplá-la. Súbito, deu um grande salto, estendeu os braços e as pernas, até tomar a forma de um X: decifra-me ou devoro-te. (ASSIS, 2012, p. 30).

Desta forma, ocorreu a Faoro (1974) que desse trapézio, onde ficavam alocadas as ideias de Machado de Assis, surgem as possibilidades de desvendar os segredos da estrutura da pirâmide social brasileira, constatando a presença de uma sociedade estamental que tem por características: o nascimento ilustre, a origem fidalga, o modo de vida e educação que são traços distintivos da elite brasileira e a sociedade de classes que começa com os homens bons.

Faoro (1974) consegue visualizar esse esquema nas obras de Machado de Assis e assim constrói a sua crítica, interessado no homem e no seu destino individual.

Machado de Assis também inclui em suas obras a sátira, e esta foi analisada tendo como contraponto a sátira menipeia, analisada por José Guilherme Merquior. Nesse caso Merquior fala de um Machado de Assis já doente, que escreve uma obra de sabor caustico que destoa de toda a literatura da época. Não esquecendo que este livro é escrito de forma zigue zagueante e que diverge da narração linear e objetivista de Flaubert ou de Zola, mas que segue a forma livre de Laurence Sterne. (MERQUIOR, 2014, p. 266).

Flaubert, escritor francês do século XIX, é considerado um dos principais realistas da sua época destacando-se por seus romances e contos. Os alvos de Flaubert quase sempre são a burguesia provinciana, meio do qual o próprio autor fazia parte, e os romances sentimentais, os quais eram o gênero popular da primeira metade do século XIX, o qual Flaubert considerava obsoleto. Seus romances seguem com uma forma mais linear o que o diferencia de Machado de Assis.

Da mesma forma, Merquior, não se esquece de acrescentar que a obra, segundo o próprio Machado, foi escrita com “a pena da galhofa e a tinta da melancolia”. (ASSIS, 2012, p. 25).

Há também algumas características que diferem as Memórias da obra de Sterne e que são bem evidentes. Uma delas é a questão filosófica que está presente no humorismo de Machado, incluindo aí a ironia; e a outra é a natureza do fantástico que envolve toda a narrativa.

Dessa forma, pode-se antever que a ironia e o sarcasmo terão uma função relevante na obra e é comparada à sátira menipeia, foco para o qual direciona Merquior que afirma ser Brás Cubas “um representante moderno do gênero cômico-fantástico. Esta é a linhagem a que efetivamente pertence o livro”. (MERQUIOR, 2014, p. 267).

A base da criação literária estrutural de Brás Cubas, começando pelo fato do romance ser de autoria de um defunto autor, é um artificio usado por Machado para inserir um duplo jogo de ausência e presença do eu que narra (o defunto), e o eu vivo, da ação propriamente dita da personagem no desenrolar da trama, a fim de expor as discrepâncias existentes em relação às normas sociais.

Portanto, é a região dos mortos, segundo Merquior, que irá permear o romance que tem sua formação na literatura ocidental, desde o fim da antiguidade e que tem em Luciano de Samósata, autor dos Diálogos dos Mortos, sua realização mais perfeita.

Ainda tratando dos diversos críticos que elaboraram leituras sobre as obras machadianas, e em particular Memórias Póstumas de Brás Cubas, pode-se citar Augusto Meyer, que vislumbra um esquema de cunho psicológico em que predomina a pseudo-autobiografia.

A ótica pela qual os críticos mencionados direcionaram seus argumentos a respeito de Machado de Assis e sua obra da primeira e da segunda fase não esgotaram o assunto e Alfredo Bosi, em sua obra Brás Cubas em três versões, irá apresentar algumas abordagens a respeito da obra machadiana Memórias Póstumas de Brás Cubas, sendo este tema que iremos abordar no próximo item.

3.1 A TRANSPOSIÇÃO DE MACHADO DE ASSIS SEGUNDO ALFREDO BOSI

Ao observar as multifacetadas obras de Machado de Assis verifica-se, como já elencado na seção anterior, que em sua primeira fase a referência ao paternalismo nas obras A Mão e a Luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878), traz como tônica os meandros do favor, por meio das quais personagens como Guiomar, Helena e Iaiá Garcia são levadas à cooptação, mas buscam a fuga de tal situação considerando que viver do favor e do paternalismo é algo humilhante. No entanto, “são livros deliberada e desagradavelmente conformistas”. (SCHWARZ, 2012, p. 83). Machado, que é considerado por muitos críticos como romântico em sua primeira fase, torna-se um escritor mais maduro em sua segunda fase e chama a atenção em seus textos pela ironia e pelo seu estilo refinado, que mistura pessimismo, humor e denota por diversas vezes um aborrecimento da vida.

O marco divisor que causa o desnível entre o Machado de Assis da primeira e da segunda fase é o romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, que pode ser considerado uma sátira de projetos políticos da época, os quais são formulados a partir de conhecimentos de base realista e que leva em conta uma sociedade que vive em função de uma classe proprietária ambivalente acostumada ao favor, mas que tem como mote uma Europa liberalista de cunho capitalista e industrial.

Tal raciocínio burguês entre nós, no entanto, era inevitável já que “a prioridade do lucro, com seus corolários sociais” (SCHWARZ, 2012, p. 13), era uma constante e nossa economia era voltada para o comércio internacional.

Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado toma um rumo novo em seus textos e perfaz o caminho realista em que:

o sabor cáustico do livro destoou imediatamente de todos os exemplos nacionais de idealização romântica; [...] Obra difusa, cheia de digressões e extravagâncias [...] (MERQUIOR, 2014, p. 266).

Dessa forma é que Alfredo Bosi, em seu livro Brás Cubas em três versões propõe uma abordagem que busca mostrar os múltiplos perfis do defunto autor e traz à luz aquilo que está por trás do sentido aparente do texto, mostrando uma especificidade de cada uma das vertentes machadianas e, ao mesmo tempo, relacionando-as entre si. É possível verificar um vasto caminho no qual a questão sociológica e a situação de classe do narrador tornam possível retirar a máscara tanto da classe dominante quanto da dependente.

3.2 O INSÓLITO PONTO DE VISTA DE UM DEFUNTO

Alfredo Bosi apresenta a abordagem do defunto autor relembrando a obra machadiana e fazendo com que o leitor perceba o “jogo de presença e distanciamento” (BOSI, 2006, p.08) infringido ao leitor. A presença do narrador torna-se o fio condutor de uma história em que é necessário confiar em sua visão, pois é testemunha dos acontecimentos, e o distanciamento que ocorre quando se tem que considerar o Brás Cubas que já não se encontra entre os vivos, mas defunto. Desse modo, ele se torna capaz de criticar, esboçar opiniões e fazer correções que, caso estivesse em vida não poderia fazê-lo.

Observa-se que a presença do eu como protagonista traz nuances de verossimilhança, mas, quando observada pelo crivo da coerência, a questão do autor ser um defunto engendra o humor que poderia levar inevitavelmente à lógica do inverossímil. No entanto, todas essas colocações são vistas sob outro ângulo por Bosi quando afirma ser a “verdade do humor que, sob as aparências da morte, é vida pensada.” (BOSI, 2006, p. 08). Por isso, pode-se concluir que por meio do humor busca-se expressar a verdade séria do que seria a sociedade que se esboçava nos tempos machadianos. Portanto, uma forma singular de iniciar o romance.

Bosi inicia relembrando de uma forma geral o enredo romanesco de Memorias Póstumas e então menciona as características e atos praticados por Brás Cubas (o qual era de uma família abastada e conservadora e que possuía ares de aristocracia), desde quando era menino até a idade adulta. Logo em seguida, o autor de Brás Cubas em três versões faz considerações sobre as perspectivas de Memórias Póstumas de Brás Cubas ser um romance em primeira pessoa e nesse caso “a presença do narrador junto aos fatos dobra-se em autoconsciência.” (BOSI, 2006, p.9). Dessa forma, o defunto autor torna-se mais livre para expressar-se dado que agora é ator e expectador.

Seguindo em suas explanações, o segmento seguinte, “O outro fora e dentro do eu”, trata de questões importantes no texto, quais sejam, o do “Almocreve”, da “borboleta preta”, do “embrulho misterioso” que, achado na rua, mostra muito das características dúbias do defunto autor, e a questão complexo narrativa que mexe com a hipocrisia social do tempo em que vivia o autor que é Eugênia no capítulo “A flor da moita”.

Confirmando o que seria a sociedade da época, Brás Cubas não foge à condição dos que faziam parte da aristocracia social e deixa clara a impossibilidade de se relacionar com Eugênia, pelo fato de ser ela uma desfavorecida economicamente e coxa de nascença. Temos assim uma assimetria social e uma deficiência física em um momento e, em um segundo momento, um Brás que, por ser “personagem e autoanalista” (BOSI, 2006, p.10), consegue mostrar-se sem constrangimento como de fato era, ou seja, “leviano, satisfeito da sua superioridade e tentado a desfrutá-la, intimamente desprezador da mocinha bonita, mas filha espúria e agravada por um defeito físico.” (BOSI, 2006, p. 10).

Esboçando estes fatos, Alfredo Bosi se debruça sobre os tópicos críticos que se propõe a analisar buscando passar ao leitor as três possibilidades de leitura do romance. Aqui há uma proposta de análise em que o romance machadiano é visto sob a ótica “construtivista”, “expressiva” e “mimética”.

3.3 AS TRÊS VERTENTES APRESENTADAS POR ALFREDO BOSI

No seu texto, Alfredo Bosi dá ao leitor três leituras possíveis do grande personagem machadiano Brás Cubas. Essencialmente, eles seguem três vertentes distintas que serão apresentadas nas seções a seguir.

3.3.1 A vertente construtivista

Um dos pontos importantes para se compreender a obra de Machado de Assis é a intertextualidade, e este autor é um especialista nesta forma de escrita na literatura brasileira. Machado insere o leitor na obra, com alusão, citação e referência, de uma forma ousada e inovadora, utilizando a sua narrativa como crítica à sua época, exemplificando obras anteriores, escondendo a verdadeira essência, mostrando que um texto literário é influência ou continuação de outros.

Nesse sentido é que surgem as referências mais remotas para as memórias de Brás Cubas e este “desenvolve uma tática narrativa que não tem precedentes na história do nosso romance” (BOSI, 2006, p. 22). Aqui é possível vislumbrar a sátira menipeia do século III a.C e os Diálogos dos mortos de Luciano de Samósata, que foi redigido por volta do ano 160. Comentando a inspiração da sátira menipeia em relação a Memórias Póstumas de Brás Cubas Bosi afirma que:

No elenco bem nutrido das semelhanças, o autor destaca o vezo das citações enciclopédicas trabalhadas em registro paródico (uma espécie de erudição galhofeira peculiar a épocas saturadas de metalinguagem), o distanciamento irônico em relação às personagens e ao próprio narrador, o moralismo motejador e, no fundo, não moralizante e, em primeiro plano, a combinação dos gêneros sério e cômico. (BOSI, 2006, p.23).

No romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, Brás discute e filosofa sobre tudo que se fazia na Europa, porém o faz de maneira risível, porque Machado de Assis examina a sociedade por dentro, e o faz com humor e ironia chegando ao cômico-fantástico, que tornou-se conhecido também como literatura menipeia. Esta literatura, que passou a ser conhecida no ocidente desde o fim da Antiguidade, tem em Luciano de Samósata sua realização mais perfeita e engloba em suas características semelhanças com a obra machadiana.

Merquior, traçando uma comparação da literatura menipeia com o romance machadiano, esclarece alguns pontos que são similares às Memórias tais como:

A frequência da representação literária de estados psíquicos aberrantes: desdobramentos da personalidade, paixões descontroladas, delírios (como o delírio de Brás Cubas), o uso constante de gêneros intercalados – por exemplo, de cartas ou novelas – embutidos na obra (como as historietas de Marcela, de Dona Plácida, do Vilaça e do Almocreve, nas Memórias Póstumas)”. (MERQUIOR, 2014, p.268).

Com esses esclarecimentos fica denotada a força inspiradora que exerceram em Machado de Assis as leituras anteriores feitas pelo autor.

No entanto, há textos como A vida e as opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy, de Laurence Sterne, e a Viagem à roda de meu quarto, de Xavier de Maistre” (BOSI, 2006, p.22), as quais, citadas no prólogo como inspiradoras de uma “forma livre” (ASSIS, 2012, p. 23), trazem uma compreensão maior da intertextualidade machadiana. Há, portanto, características comuns que podem ser observadas, por exemplo, quando se detém em analisar a obra Tristram Shandy que, buscando as similaridades com Memórias Póstumas, as agrupa em quatro tópicos, a saber: “a presença enfática do narrador; a técnica da composição livre, que dá ao texto a sua fisionomia digressiva e fragmentária; o uso arbitrário do tempo e do espaço; a interpenetração de riso e melancolia.” (BOSI, 2006, p. 24). O primeiro tópico considerado por Schwarz (2012) como definidor da volubilidade do narrador é também considerado nessa explanação, tendo em vista que Tristram Shandy é o protótipo de todos os narradores volúveis” (BOSI, 2006, p. 24).

A noção do leitor implícito a sua importância para o desenvolvimento da obra

Tristram Shandy, tal qual um espirito livre, é antes de tudo, uma história da sua própria história, a narração da narrativa, uma linha que estica e se torna reta para, logo em seguida, se tornar curva; desvia-se e avança para depois recuar por isso. De acordo com Bosi, Tristam não “obedece a regras” (BOSI, 2006, p. 24). Sobram as opiniões e digressões do narrador, que constituem a maior parte da narrativa.

Tal qual Machado de Assis, o leitor tanto pode ser respeitado como pode ser desrespeitado e o mudar de posição é uma constante, da mesma forma que Brás Cubas também muda de uma posição para outra, de um sistema filosófico para outro. Há, portanto, uma inconstância de Machado como há em Tristram, mas o leitor está sempre lá em uma cumplicidade constante.

Embora em muitas passagens de seus textos Machado drible o interesse do leitor, despistando-o ou desencorajando-o a se fixar em seu relato, é impossível não perceber que o narrador machadiano usa um dialogismo único até então para com os leitores.

Machado de Assis muitas vezes para a narração e dialoga com o leitor das mais diferentes formas: seja advertindo-o ou em tom de ameaça e ironia, como é o caso do trecho intitulado “ao leitor”, em que o narrador chama a atenção do leitor que passa a sentir-se em um beco sem saída. Ou lê a obra ou não lê, ou gosta ou não gosta, porque pouco importa o que o leitor vá pensar, já que a obra continuará existindo com ou sem o leitor. Sendo assim, diz o narrador das memórias:

Conseguintemente, evito contar o processo extraordinário que empreguei na composição destas Memórias, trabalhadas cá no outro mundo. Seria curioso, mas nimiamente extenso, e, aliás, desnecessário ao entendimento da obra. A obra em sim mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus. (ASSIS, 1994, p. 2)

O leitor é chamado a compartilhar da obra desde o seu início. É provocado, ameaçado e o narrador força uma intimidade com o leitor, que é levado a refletir a obra levado pelo narrador labiríntico e muitas vezes o leitor se torna cúmplice das ações do narrador, como no caso do paralelo feito por Brás Cubas entre as Escrituras e as Memórias. Roberto Schwarz define da seguinte maneira esse capítulo:

O contraste entre esta provocação e as anteriores é sensível, pois uma coisa é fazer pouco do bom senso literário, contando com a cumplicidade do leitor, cumplicidade malévola, já que o próprio Brás Cubas é objeto de riso também, e outra é banalizar o livro Sagrado mediante uma curta frase. (SCHWARZ, 2012, p. 21)

Nessa junção de pensamentos, o leitor é levado a também construir e recriar a obra. O autor, no entanto, constrói seus textos pela perspectiva de mundo que possui, o que o torna uma cópia do mundo que o cerca. A visão do leitor do mundo em que vive criará as possibilidades de interpretação do texto.

O narrador está sempre presente, invadindo a cena e perturbando o ritmo do romance. Estas invasões que mexem com o leitor são as inovações no romance brasileiro que mais chamam a atenção da crítica nos romances machadianos. A narrativa machadiana é pontilhada de reflexões e de diálogos com o leitor, o que traz um clima especial ao ato de leitura: provoca nele a participação ativa no trabalho de construção do romance.

No capítulo XVI, Uma reflexão imoral, Brás Cubas faz um parênteses em suas narrações para refletir com o leitor sobre Marcela, que é um bom exemplo da caracterização de grande parte das personagens femininas machadianas: interesseiras, fingidas e traidoras, submetem os homens a elas, pois, no geral, são ingênuos e apaixonados. Nesse trecho, o narrador compartilha com o leitor uma reflexão imoral, já que, por amar Marcela, gastara com ela muito dinheiro, chegando a comprar fiado em joalheria.

Ciente desse fato, o leitor passa a refletir sobre o assunto para logo ser surpreendido no capítulo seguinte com a informação dada pelo narrador de que Marcela o amara “durante quinze meses e onze contos de réis” (ASSIS, 2012, p.71).

No capítulo intitulado O velho diálogo entre Adão e Eva, o autor surpreende e causa espanto, inibe-se, recusa-se a escrever e apela ao leitor, ou seja, instiga a sua imaginação. O diálogo sem palavras, marcado apenas por pontuação, metaforiza os silêncios significativos de um casal apaixonado, indicando que desde o primeiro homem e a primeira mulher, o amor é sempre igual. Mas o leitor é levado a silenciar-se e interpretar para preencher o sugerido, o vazio, o não dito. E o que resta ao leitor é a decodificação de seu sentido oculto em uma busca por uma interpretação mais condizente que o torna preso à escritura, garantindo continuação ao autor que, nesse momento, parece caminhar para a morte.

Com a ajuda do leitor, o narrador consegue uma sobrevida e, portanto, ludibria a morte, pois continuará o seu percurso narrativo com a ajuda do leitor que nesse capítulo fora subjugado.

Dessa forma, o texto comunica o que o autor disse e estimula as interpretações e percepções do leitor. É esse processo que faz da leitura uma forma de conhecimento, pois o leitor vai dirimir, deglutir o texto, chegando às suas próprias conclusões.

Machado de Assis, fazendo uso de uma intertextualidade dinâmica, se diverte e usa como ninguém a comicidade e fraseio curto para romper com o molde convencional que envolveu a sua primeira fase.

3.3.2 A vertente expressiva ou existencial

Nessa vertente, o autor se aprofunda um pouco mais e inclui nessa questão o tão propalado humor machadiano. Bosi faz menção a alguns críticos que não aprovam os “processos morais e cognitivos do narrador humorista” (BOSI, 2006, p. 27), como Silvio Romero, e outros nos quais o autor encontrou uma maior receptividade, como José Veríssimo e Alcides Maia. Este último reconhece em Machado “um veio de sátira local na fixação de ‘caricaturas’ de alguns tipos da sociedade brasileira.” (BOSI, 2006, p. 27).

No entanto, a fixação das ideias apresentadas por Bosi estão representadas pelas análises do “crítico-artista Augusto Meyer” (BOSI, 2006, p. 29) – este, imbuído de um amplo conhecimento e familiaridade dos analistas moralistas e pessimistas franceses e ingleses, “compõe sua rica fenomenologia do humor machadiano” (BOSI, 2006, p. 29).

O narrador se vê como expectador de si mesmo e traz em seu bojo o homem subterrâneo, que é uma interpretação elaborada pelo crítico Augusto Meyer (2000) a partir de sua compreensão da obra de Dostoievski.

O humor machadiano e suas sutilezas irônicas são feitas de saltos e incertezas que levam o leitor a envolver-se nos caminhos percorridos pelo narrador, tornando até mesmo o fantástico um estratagema humorístico, de uma primeira manifestação do sarcasmo de Machado.

Augusto Meyer interpreta as Memórias Póstumas como pseudo-biografia do autor, tendo de um lado o homem Machado de Assis e de outro o expectador de si mesmo. Nesse sentido, Meyer viu em Machado uma figura dúbia que traz dentro de si o outro, pois contempla os dois lugares do eu narrativo. O Machado que manuseia a matéria lembrada e o que se encarrega da sua interpretação.

Meyer (1964), para demonstrar que há um tratamento auto-biografico nos romances machadianos e que há uma graduação nessa auto-biografia cita Brás Cubas que, de uma perspectiva “além-tumulo e tal como se apresenta nos capítulos iniciais da obra, não respeita nenhuma plausibilidade autobiográfica no estrito sentido” (MEYER, 1964, p. 159-171). Contudo, ele seria tão amplo em sua cultura que às vezes a proximidade com o autor se torna tão intensa que chega a nos parecer um parceiro do próprio autor.

Analisando o Homem subterrâneo a partir da compreensão da obra de Dostoiévski, Meyer chega à conclusão de que há uma relação íntima entre narrador e autor e que foi possível ao narrador fazer literatura porque se afastou, tornou-se solitário, da mesma forma que o fizera o homem subterrâneo.

O homem do subsolo

Fiodor Mikhailovich Dostoievski foi uma das maiores personalidades da literatura russa, tido como fundador do Realismo. Sua mãe morreu quando ele era ainda muito jovem e seu pai, o médico Mikhail Dostoievski, foi assassinato pelos próprios colonos de sua propriedade rural em Daravoi.

Entre suas obras destacam-se: Crime e Castigo (1866), O Idiota (1869), O Jogador (1867), Os Demônios (1871), O Eterno Marido (1870) e Os Irmãos Karamazov (1880). Publicou também contos e novelas, criou duas revistas literárias e ainda colaborou nos principais órgãos da imprensa russa.

Seu reconhecimento definitivo como escritor universal surgiu somente depois dos anos 1860, com a publicação dos grandes romances: "O Idiota" e "Crime e Castigo". Seu último romance, "Os Irmãos Karamazov", é considerado por Freud como o maior romance já escrito.

O homem do subsolo ou O homem subterrâneo é uma obra cujo protagonista é um trabalhador russo civil aposentado de 40 anos de idade, que reside no subsolo de um edifício em São Petersburgo, Rússia.

Essa característica lembra a composição de Memórias Póstumas de Brás Cubas, pois o personagem russo vive em um subsolo e o defunto autor brasileiro se encontra no túmulo, portanto ambos estão afastados de uma convivência efetiva com a sociedade à qual pertencem.

Enquanto em Memórias Póstumas de Brás Cubas surge a ironia, a galhofa e o pessimismo; no homem subterrâneo o narrador se mostra ácido, raivoso, petulante e amargo. Também este é narrador e personagem e não esconde a sua depressão, o seu desencanto e a sua baixa autoestima.

O personagem do Homem subterrâneo vive só em um buraco, como ele mesmo cita. O mesmo acontece com Brás Cubas, que narra do além e por isso, para o leitor, já traz o pressuposto de que não há companhia, estando este também solitário.

Dostoiévski demonstra a personalidade em certos trechos do personagem, mas nunca menciona seu nome, e a única nomenclatura que surge para o leitor é “o homem subterrâneo”.

Dostoyévsk (2000) explana e teoriza os ideais do personagem que, como nas Memórias, os apresenta e os descreve quase que como num diálogo entre leitor e narrador. Assim como Brás Cubas, provoca o leitor e tenta convencê-lo ou deduzir quais são as suas opiniões. O homem subterrâneo também o faz e supõe comentários, ideias, e pensamentos. Muitas vezes a narrativa é direta e chega a ser descortês.

Não raro, em alguns pontos, são mencionadas as obras do próprio Dostoyévsk e a de outros escritores, o que também é feito por Machado de Assis em Memórias Póstumas de Brás Cubas.

3.3.3 A vertente mimética

Agora pode-se falar em questão social, na qual é apresentada a figura do rentista ocioso. A leitura sociológica à qual se debruça Roberto Schwarz e à qual se direciona este estudo é a que afirma haver uma relação entre as estruturas estilísticas do romance e estruturas sociais, que são moldadas nos modos de pensar e sentir de Brás Cubas. Nesse momento, é possível falar em liberalismo conservador e liberalismo progressista, as quais são ideologias que permeavam o país e as quais Roberto Schwarz envereda nos livros Ao vencedor as batatas e Um mestre na periferia do capitalismo.

Alfredo Bosi faz uma abordagem inicial ao tratar desse tema, mencionando as condições em que vivia Machado de Assis desde que se encontrava na fase infantil, ou seja, de menino pobre e epilético, até mudar de classe antes dos trinta anos - para em seguida mencionar que dessa trajetória é que dependeriam certas vertentes em sua obra, tais como o interesse pela assimetria social e a condição do favor arbitrada inevitavelmente pelo rico (BOSI, 2006, p. 33).

Machado trata as questões sociais tendo como forma de expressão um outro ponto de vista em relação às suas narrativas, tendo em vista que o gênero romance foi criado em uma realidade totalmente diferente (a europeia) da que se vivia no Brasil e por esse motivo as personagens e as caracterizações delas pareciam não se coadunar com a realidade brasileira.

Era uma inverossimilhança e uma realidade postiça. Outro era o contexto e o mundo, sendo necessário no Brasil algo mais contundente e realista. Portanto, seria necessário a Machado de Assis inovar o modo de fazer romance. Ao criar a figura do defunto autor, Machado inova, mas, ao lermos o romance, tem-se a impressão de que os acontecimentos serão por demais triviais e que não acontecerá muita coisa. Contudo, no decorrer da leitura, surgem questões fundamentais para a compreensão do Brasil que, até então, tentava acoplar-se a ideias que surgiram na Europa, mas que não estavam de acordo com a realidade e modos da sociedade brasileira.

Bosi conjuga a biografia machadiana com a literária para mostrar que acontecimentos da vida do autor tiveram relação com seus escritos. Assim é que Machado de Assis teria acrescido “certas vertentes temáticas” (BOSI, 2006, p. 34) à sua ficção, por já tê-las vivenciado ou observado.

Quando aborda o tema do agregado e do favor, ou da afilhada de madrinha abastada, procura-se a justificativa em um Machado conhecedor dessa ordem social, já que transpôs o estamento da pobreza para uma classe abastada. Reconhece-se essa interação entre biografia e obra nos romances “de 1870 (A mão e a Luva, Helena, Iaiá Garcia) e em Casa Velha.” (BOSI, 2006, p. 34).

Segundo Bosi, nesses romances há momentos em que parece estar-se diante de um narrador que aceita, embora constrangido, a lógica do paternalismo; e em outros momentos a ideia é de que não aceita.

No entanto, Machado de Assis dá um grande salto em sua carreira literária quando escreve o romance Memórias Póstumas de Brás Cubas e os motivos alegados pelos críticos para isso são os mais diversos. Desde doença a uma empatia maior com o leitor, até o conhecimento dos humoristas ingleses e dos moralistas franceses. Todos são citados e estudados para justificar a sublime ascendência de Machado de Assis. Bosi chega a citar um comentário de Lúcia Miguel Pereira (1988) ao afirmar que “Brás Cubas e Machado se confundem” (BOSI, 2006, p. 35).

A questão se faz imponente enquanto mitigação intelectual e há autores que consideram o narrador-protagonista como “espelho de sua classe social.” (BOSI, 2006, p. 36). Brás Cubas, considerado um rentista que vive de maneira abastada, vive em uma sociedade que é escravista e patriarcal, mas que já é conhecedora dos costumes e ideais burgueses europeus e é por este caminho que a crítica considerada sociológica persegue o “veio mimético na obra ficcional” (BOSI, 2006, p. 40). É também por este prisma que Roberto Schwarz está convicto de que as Memórias direcionam para a vida social dos brasileiros de meados do século XIX e, nesse aspecto, não se encontra sozinho em suas conclusões, pois outros autores tais como Astrojildo Pereira e Raymundo Faoro seguem na mesma direção.

Astrojildo Pereira (1991), no entanto, se detém e enfatiza a “tese da literatura como reflexo da sociedade” (BOSI, 2006, p.41), mantendo como suporte de explanação os textos de Plekhanov (PEREIRA apud, BOSI, 2006, p. 41), o qual afirma que a psicologia das personagens reflete a psicologia de classes sociais inteiras e que por este motivo seriam os movimentos das classes sociais a que pertencem.

Raymundo Faoro (1974) por sua vez, conclui que Machado escolheu pontos da vida política brasileira que mais estavam de acordo com seu ponto de vista de cético. Haveria, portanto, uma “filtragem valorativa”. (BOSI, 2006, p.41)

Quanto a Schwarz, sua obra perfaz o caminho de que a obra Memórias Póstumas de Brás Cubas está estruturada em uma imitação da sociedade brasileira do século XIX que, escravista e liberal, seguia instável e de maneira absurda e volúvel. Logo, Brás Cubas também era volúvel, pois em sua vida inteira não havia qualquer projeto consistente.

A partir de todas essas leituras possíveis, todas igualmente válidas e valiosas, este trabalho optou por privilegiar a análise apresentada por Roberto Schwarz acerca da volubilidade no narrador machadiano. Esta escolha se sustenta no fato de que, embora Augusto Meyer se refira às Memórias Póstumas como um romance pseudo-biográfico, Schwarz afirma tratar-se de um romance que somente possui a forma biográfica e assim se expressa o autor de Um mestre na periféria do capitalismo: “a forma do romance é biográfica, entremeada de digressões e episódios cariocas.” (SCHWARZ, 2012, p.63). Este autor também comenta a falta do que fazer incrustrada em Brás e, por isso mesmo, a sua volubilidade, já que por ser rico encontra-se constantemente enfastiado, o que o leva a diversos projetos sem, contudo, concluir nenhum deles.

Dessa forma, a finitude é uma constante e o narrador nunca é o mesmo. É um mutante, é volúvel e “não permanece igual a si mesmo por mais de um curto parágrafo, ou melhor, muda de assunto, opinião ou estilo quase que a cada frase. Com ritmo variável, a mobilidade vai da primeira à última linha do romance.” (SCHWARZ, 2012, p.30). Há sempre uma transgressão, um desvio, uma quebra.

A exceção torna-se a regra, a agressão ao leitor uma constante e o escândalo recorrente, como se o narrador quisesse a todo instante ser superior ao leitor. Essa condição de superioridade faz com que o defunto autor descarte os modelos para compor suas memórias, colocando-se de fora e acima deles.

Os capítulos a seguir tratarão de maneira mais aprofundada a tese de Roberto Schwarz que acabamos de apresentar. São dois capítulos que abordam, respectivamente, o que viabiliza a volubilidade do narrador machadiano e uma análise de Brás Cubas como narrador volúvel e representante da sociedade carioca do fim do século XIX.

4. O PORQUÊ DA VOLUBILIDADE DO NARRADOR MACHADIANO

Neste segundo capítulo analisaremos as questões, sobretudo sociais e políticas, que levam Schwarz a defender que o narrador de Machado de Assis é um narrador volúvel.

4.1 AS IDEIAS FORA DO LUGAR

No Brasil do século XIX, o paternalismo era denotado em suas diversas faces. A lógica de domínio que impregnava a sociedade elitizada da época estava presente tanto nas estratégias de subordinação de escravos, quanto nas pessoas livres dependentes; e o símbolo maior desta agressão estava na vontade senhorial, que era inviolável e indiscutível.

É possível afirmar que a sociedade estava diretamente engendrada por poderosos capitais do mercantilismo internacional, especialmente com seu funcionamento peculiar no Brasil, que tinha o tráfico negreiro como centro de suas atividades comerciais.

O tráfico negreiro externo e, sobretudo, interno era a atividade comercial mais lucrativa no país. A venda de escravos no Brasil, entre os negociantes e os fazendeiros das províncias do império, era tolerada e completamente mesclada a todas as atividades normais do comércio naquele período, tanto de mercadorias de importação, quanto de exportação ou de circulação interna.

Roberto Schwarz, no ensaio As ideias fora do lugar, explana a contradição que havia na tentativa do Brasil em manter-se escravista, pois possuía a pretensão de imitar a sociedade europeia que tinha como carro chefe o liberalismo.

A escravidão que era um fato “impolítico e abominável” (SCHWARZ, 2012, p. 11), não poderia coadunar com as ideias liberais em voga na Europa. A disciplina para obter-se lucro por meio de escravos era rígida e o latifúndio escravista mantinha os lucros no Brasil desde o capitalismo comercial que, tendo surgido nos séculos XIII e XIV, ganhou força no século XV com o desenvolvimento da burguesia comercial europeia.

A ideologia imperante era essa e o comodismo exacerbado que movia os senhores de escravo não lhes permitia abandonar tal prática com facilidade. Há, portanto, uma diferença abissal entre o liberalismo e a sociedade brasileira escravista.

A economia, contudo, era voltada para a burguesia europeia e, consequentemente, as ideias liberais de lá chegavam a uma pequena multidão abastada que mantinha o raciocínio “de que a prioridade do lucro, com seus corolários sociais” (SCHWARZ, 2014, p. 49) é o que deveria imperar. Ademais, após alguns artifícios políticos engendrados entre as oligarquias brasileiras e o príncipe herdeiro, foi definida a Independência do Brasil. Porém:

Com a Independência de 1822, consolidou-se no Brasil um regime político monárquico de base econômica-social escravista. Ou seja, deu-se o contrário do que ocorreu na maioria das ex-colônias espanholas da América, em que as elites criollas implantaram regimes republicanos não baseados no trabalho escravo, mas num sistema de trabalho- ao menos nominalmente - livre. (MOTA; LOPEZ, 2012, p.325).

Além do sistema escravista, ainda existia na sociedade brasileira a política do favor em que os homens brancos e livres. Não possuindo fonte de renda, eles viviam um pouco melhor do que os escravos, mas também estavam presos aos que que possuíam bens e eram envolvidos em suas ideias por pura necessidade de se manter.

O liberalismo, que exigia uma liberdade econômica de empregar e demitir, de comprar e vender, não ocorria no Brasil. Isso se desenvolveu dessa forma pelo simples fato de que os grandes latifundiários estavam assentados dentro de um conformismo em que fazer mudanças lhes era trabalhoso, e viver dentro de uma zona de conforto era o suficiente. Os interesses prevaleciam e a troca de favores ainda dava o tom. Nesse sentido, tinha-se três classes de população: o latifundiário, o escravo e o homem branco livre, mas que era dependente. Schwarz analisa essa terceira classe e argumenta sobre a política do favor, voltada para o agregado. Antes de fazê-lo, no entanto, este autor faz um paralelo entre José de Alencar e Machado de Assis, mostrando as contradições daquele e os pontos positivos deste, já que Machado teria, na visão de Schwarz, dado um passo à frente em direção a uma ficção mais madura e profunda.

4.2 O PATERNALISMO NAS OBRAS DE MACHADO DE ASSIS E A CULTURA DO FAVOR

Lucia Miguel Pereira, se referindo a Machado de Assis e aos demais escritores de sua época, assim se expressa:

O desajustamento entre Machado de Assis e os escritores do seu tempo provém, afinal, tanto da sua intrínseca superioridade como do fato de haver ele seguido o ritmo da vida política e social das classes dominantes, enquanto os outros se atrasavam, perdidos na busca do elemento típico. (PEREIRA, apud BOSI, 1982, p. 31).

Ou seja, ao observar os donos do poder, Machado pôde montar uma relação entre quem manda e quem obedece, verificando os meandros e sutilezas de como isso ocorria. Portanto, a questão periférica e localista seria bem colocada, pois:

Machado de Assis iria tirar muito partido deste desajuste, naturalmente cômico. Para indicar duma vez a linha de nosso raciocínio: o temário periférico e localista de Alencar virá para o centro do romance machadiano; este deslocamento afeta os motivos “europeus”, a grandiloquência séria e central da obra alencariana, que não desaparecem, mas tomam tonalidade grotesca. Estará resolvida a questão. (SCHWARZ, 2012, p.50).

Nesse sentido, há como que uma preparação de Machado de Assis em relação a José de Alencar, pois aquele iria dar um passo adiante solucionando as questões que não foram bem-sucedidas, conforme explicita Schwarz ao afirmar que há pontos fracos na obra alencariana. “Isso sucedida, e que tem sempre um quê descalibrado e bem pesada a palavra, de bobagem”. (SCHWARZ, 2012, p.39).

Machado de Assis, em sua primeira fase, inicia uma reviravolta nas ideias fora do lugar da forma romanesca e já em seus primeiros romances, embora de forma ainda incipiente, passa a trazer no bojo de seus textos um olhar mais aprimorado da sociedade brasileira. Com isso, introduz a figura do personagem dependente e agregado à cultura do favor, tornando-o motivo de discussão de forma perspicaz e instigante.

Machado coloca o problema de forma diferente, mas mostra a dependência nacional à qual habituou-se a sociedade brasileira. No entanto, tudo isso é feito de forma conformista, pois os livros da primeira fase “são livros deliberada e desagradavelmente conformistas” (SCHWARZ, 2012, p.83), mas que traziam em seu bojo a “observação de costumes que eram os da sociedade brasileira e os mais arraigados, de sorte que essa produção abria uma frente de pesquisa da ideologia”. (BOSI et al,1982, p.32).

A força e o ímpeto de Machado de Assis ainda eram latentes, embora o tema já se manifestasse em seus escritos. A referência liberal que impregnava Machado de Assis foi logo substituída pelo paternalismo conservador, pois “a ilusão não durou, e logo Machado iria mudar de convicção, movido por razões que resta aos biógrafos esclarecer”. (SCHWARZ, 2012, p. 84). Ele trata desta forma de um tema atual e verossímil, considerando que no Brasil, país católico e de tradições em que a família dá o tom à sociedade, a forma patriarcal se impunha.

4.2.1 A mão e a luva

Nos romances machadianos, analisados por Roberto Schwarz, a questão da dominação é recorrente e é mostrada a face dominadora da família abastada que desejava ter as suas vontades realizadas e os seus desejos satisfeitos. Mas há também as sutilezas dos que estão em situação de inferioridade nessa sociedade estamental, como é o caso de Guiomar de A mão e a luva, que objetiva estar em situação privilegiada e para isso busca o que era comum na época: um casamento adequado. Nesse jogo dialético de ação e reação, esconder e mostrar, envolver-se e distanciar-se, eram usados diversos meios persuasivos que envolviam os que dependiam do favor e os que eram donos do poder, mas sempre tendo como eixo a família. “Noutras palavras, a família, de preferência abastada, é a intocável depositária da ordem e do sentido da vida. (SCHWARZ, 2012, p. 89).

Machado, por sua vez, traz para os seus romances problemas rotineiros que se mostram, a princípio, despojados de pretensão, mas que no decorrer da trama se mostram de maior alcance, ficando clara a questão do favor e da cooptação. Machado, para transpor essas nuances que envolveram o romance alencariano, se afasta do realismo em que este se inspirou e apoia-se na literatura francesa recente para, dessa forma, se achegar à nossa realidade. A sociedade copia os modos de vida dos europeus e é esclarecedor o comentário feito por Schwarz quando afirma que:

O primeiro passo, portanto, é dado pela vida social, e não pela literatura, que vai imitar uma imitação. Mas fatalmente o progresso e os atavios parisienses inscreviam-se aqui noutra pauta; retomando o nosso termo do início, são ideologia de segundo grau. Chega o romancista, que é parte ele próprio desse movimento faceiro da sociedade, e não só lhe copia as novas feições, copiadas à Europa, como as copia segundo a maneira europeia. (SCHWARZ, 2012, p. 46).

Já Machado de Assis estaria em uma situação em que os seus escritos configuram-se um pouco mais ousados do que os de Alencar, mas sem o brilho incandescente da segunda fase. Em A Mão e a luva, segundo romance do autor, publicado em folhetins no ano de 1874 (e em livro no mesmo ano), as camadas mais ricas da sociedade são apresentadas e é mostrada a vida cotidiana destas com suas vantagens, seu teatro, suas vestes e seus caprichos. Guiomar, a personagem principal da história, vem de uma família humilde e precisa decidir entre seus três pretendentes. Após a morte de seus pais, ela é adotada por uma baronesa viúva que a tem como substituta da filha que falecera. A baronesa diz amá-la, como confidencia à sua dama de companhia Mrs. Oswald:

-Há ocasiões, disse enfim a baronesa ao cabo de alguns segundos de silêncio, há ocasiões em que eu quase chego a sentir remorsos do amor que tenho a Guiomar. Ela veio preencher na minha vida o vácuo deixado por aquela pobre Henriqueta, a filha das minhas entranhas, que a morte levou consigo, para mal de sua mãe. (ASSIS, 1994, p.15).

Já nesses comentários da baronesa, é possível verificar que mais do que a romântica escolha motivada pelo amor, Machado trouxe para este romance o jogo de interesses do casamento, o qual envolve, principalmente, os familiares e os agregados.

É mister comentar que em meados do século XIX uma das possibilidades de elevação da mulher a uma condição de status social superior era o casamento e Guiomar estava ciente disso, por isso é justificável que esta cative o desejo de um ideal que se “resume em luzimento social, uma boa casa com bons móveis e um marido em boa posição”. (SCHWARZ, 2012, p. 98). Mas a questão aqui é se a gratidão paternalista deve suplantar os desejos que a moça possui. Tendo sido cooptada pela madrasta abastada, deveria Guiomar manter-se passiva e conformar-se com as decisões da baronesa como forma de gratidão ou tornar-se senhora de suas atitudes e decisões? Como as várias personagens femininas de Machado de Assis, que possuem um egoísmo o qual não permite que amem livremente, tem-se em Guiomar essa mesma característica, já que a luta por uma ascensão social lhe acompanha. Nas palavras da própria Guiomar, que via no casamento uma forma de tornar-se favorecida pela elite e após ter sido cooptada e agregada pela madrasta:

-[...] Saiba pois que sou muito senhora da minha vontade, mas pouco amiga de a exprimir; quero que adivinhem e obedeçam, sou também um pouco altiva, às vezes caprichosa, e por cima de tudo isso tenho um coração exigente. (ASSIS, 1994, p. 66).

É uma visão e desejos dos que viviam como satélites da classe privilegiada que tinha como fato consumado o ser servido e ter os seus desejos satisfeitos. Para isso, envolvia os que nada possuíam em seu mundo, que era o mundo do favor. Para uma alma que vivia na pobreza, e para quem pensar em trabalhar causava rubor além de escapar de ser inferior “por um triz”, Guiomar buscou e logrou êxito em seus interesses materiais já que, ao fim do livro, escolhera o pretendente que estava em uma classe privilegiada e que também era ambicioso: “- Resoluto e ambicioso, ampliou Luis Alves sorrindo. (ASSIS, 1994, p.67).

No entanto, a questão de estar ainda na dependência fica clara quando, saindo de uma convivência com a baronesa, Guiomar, agora casada, passa a ter os benefícios de um nome, como afirma Luís Alves: “- O lustre do meu nome, respondeu ele”. (ASSIS, 1994, p. 68).

Estava, portanto, engendrada a ideologia do favor à qual “para manter-se precisa da cumplicidade permanente, cumplicidade que a prática do favor tende a garantir”. (SCHWARZ, 2012, p.20). Nesse caso, no entanto, em que a questão do interesse financeiro está visível e que Guiomar se guia e adere aos bens temporais, encontra-se uma grande diferença em relação ao romance Helena, em que a política de dominação paternalista se consubstancia em preceitos moralistas, voltados para a vigilância do preceito cristão e a defesa da família.

4.2.2 Helena

No caso deste romance, tem-se duas óticas bem distintas que marcam a supramencionada diferença e que, segundo Schwarz, poderiam ser colocadas da seguinte maneira:

[...] só os menos bons (D. Úrsula e Eugênia) ou os francamente maus (Dr. Camargo) aderem sem reserva aos bens temporais, e deixam-se guiar por eles, como fizera Guiomar [...] Já os bons são exigentíssimos neste ponto, e a menor insinuação quanto aos seus motivos é suficiente para leva-los à renúncia. (SCHWARZ, 2012, p. 118).

Helena não fora introduzida em uma família rica por seu querer, mas o fez por causa do seu pai. Já aqui percebe-se uma obediência à família e não um interesse próprio levado por questões estritamente materiais. A protagonista o faz devido à necessidade de ser aceita por essa nova família. Quanto ao catolicismo, ele estava impregnado na sociedade brasileira, pois já há muito que aqui se encontrava e lançara os seus ideais. Esta instituição religiosa possuía uma grande presença social, política e cultural no Brasil.

No próprio romance Helena há a figura do Padre-mestre Melchior, que influencia a família do conselheiro. Assim expressa-se o narrador a respeito do Padre: “Entretanto, o conselheiro ouvia-o sinceramente em todas as ocasiões graves, e o voto de Melchior pesava em seu espírito”. (ASSIS, 1994, p.24).

O romance Helena, portanto, segue uma linha mais moralista e se volta para a santidade cristã e para as tradições familiares. Schwarz assim se expressa a respeito desse fato: “[...] Machado se filiava à estreiteza apologética da Reação europeia, de fundo católico, e insistia na santidade das famílias e na dignidade da pessoa”. (SCHWARZ, 2012, p. 83). A religião católica insere-se no ideário das famílias e serve como uma ação reparadora, já que, nessa condição, traz consolo e sublimação. A estrutura da sociedade é analisada por Machado, buscando mostrar constantemente a reprodução da autoridade e do favor a que estavam submetidos os que nada possuíam na época.

Helena foi para sua nova casa e procurou ser fazer aceita, tornando-se vítima da sujeição pessoal e do capital, cumprindo assim o destino que fora ditado no testamento deixado pelo conselheiro Vale. “Em suma, assistimos a uma espécie de luta, e não de transação, em que Helena deve agradar e dar provas de mérito, até que os outros a reconheçam, luta a que ela se submete de bom grado e cristãmente”. (SCHWARZ, 2012, p.124). Como é possível observar, o sentimento cristão predomina e dita as regras. Helena precisa provar a todo instante que é digna de estar na família para receber o aval e, nesse caso, participar da riqueza que estava reservada a classe dominante.

Também nesse romance, “Machado procura contribuir para o aperfeiçoamento do paternalismo” (SCHWARZ, 2012, p.117), mas o faz mostrando uma personagem resignada, humilde e que precisa vencer uma luta. “Em suma, assistimos a uma espécie de luta, e não de transação, em que Helena deve agradar e dar provas de mérito, até que os outros a reconheçam, luta a que ela se submente de bom grado e cristãmente”. (SCHWARZ, 2012, p.124).

No entanto, a intranquilidade na vida dessa personagem está sempre presente e o protecionismo e o benefício também. Ela não pertencia à família em que agora se encontrava e, mesmo tendo direito à herança, permanecia nela porque lhe era concedida esta generosidade. Helena trouxera da sociedade desfavorecida a consciência de que o protecionismo e o paternalismo traziam consigo o favor. Ela expressa essa ideia logo no começo do romance quando, ao pedir a D. Úrsula que lhe acompanhe em um passeio pela chácara, esta se nega, dizendo, de maneira seca, que não o faria pois tinha por hábito “descansar e ler”. (ASSIS, 1994, p.19). Assim se expressa Helena: “- Pois eu lerei para a senhora ouvir, replicou a moça com graça; não é bom cansar os seus olhos; e, além disso, é justo que me acostume a servi-la. Não acha? Continuou ela voltando-se para Estácio”. (ASSIS, 1994, p. 19). Parece claro que Helena, ciente de que o que agradava aos que possuíam bens era a submissão e o favor, procurara atingir dona Úrsula naquilo que ela mais tinha em conta, ou seja, a grandeza e o materialismo.

Quando a família cedia, era aos poucos e com reservas, sendo que até mesmo uma palavra de simpatia podia causar um estranhamento em quem a proferia, como é o caso de D. Ursula que, em momento anterior, negou simpatia à Helena, afirmando que:

-Bem sei que não há já agora outro remédio mais que aceitar essa menina e obedecer às determinações solenes de meu irmão, disse D. Úrsula, quando Estácio acabou de falar. Mas só isso; dividir com ela os meus afetos não sei que possa nem deva fazer. (ASSIS, 1994, p. 15).

Logo em seguida, em capítulo posterior, ela mostrou-se preocupada quando Helena comenta que poderia morrer primeiro: “-A cova! Exclamou Helena. Está ainda tão forte! Quem sabe se não me há de enterrar primeiro? -Menina! exclamou D. Úrsula em tom de repreensão.” (ASSIS, 1994, p. 19).

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Mas se existia favor como meio de dominação, existia também a fuga dos dependentes dessa regra, pois ao aceitar o favor aceitavam também a humilhação. É uma correção da sujeição pessoal mencionada por Schwarz, sendo que a outra é a baixeza do motivo econômico. Helena procura fugir disso e, ao fazê-lo, demonstra o horror dos desprovidos e, com maior intensidade, a condição de escravo. A respeito do favor em relação a Helena, assim se expressa Schwarz: “Assim, melhor que a gratidão, o horror à gratidão expressa o visco do paternalismo para o desfavorecido”. (SCHWARZ, 2012, p. 127) E mais adiante: “Resumindo, o favor é a norma, o favor é insuportável, e fora do favor só existe miséria”. (Ibid).

Ademais, além da figura do padre Melchior, que representa a cristandade impregnada nas famílias, tem-se também o próprio Estácio, que representa a ideologia paternalista. A sua figura representa uma autoridade respeitada até mesmo por Helena, que só não aceita aquilo que não lhe parece correto. Por esse motivo, Schwarz comenta com propriedade este fato:

Noutras palavras, os cuidados paternais de Estácio escondem sentimentos os mais pecaminosos, de que ele não pode saber, pois são inconscientes. Depois de acumular as intervenções nefastas, o próprio Estácio pressente que não agiu bem. ‘Meu zelo foi talvez excessivo; a intenção é boa e pura. Que posso eu desejar senão ver felizes os meus? A pergunta assinala a inconsciência da personagem, que interessava a Machado sublinhar, mas no contexto expressa também a ideologia paternalista, segundo a qual o chefe de família não pode ter outro interesse que a felicidade dos ‘seus”. (SCHWARZ, 2012, p.142).

Fica clara, portanto, a influência paternalista desde a morte do conselheiro Vale, que teve os seus desejos expressos no testamento. Mesmo depois de morto sua influência persistia, até os momentos em que Estácio (embora cheio de aflição) passou a tomar decisões.

Helena é um romance com vários prismas, porém muitas das suas características só serão melhor trabalhadas mais tarde, quando Machado estiver amadurecido o seu brilhantismo. Algumas dessas características são citadas por Schwarz quando se refere à estilística, à prosa realista e maliciosa, à visão desabusada e humorística da sociedade, à ambição do Dr. Camargo (que representa o realismo e a denúncia social) e ao padre Melchior, que imprime uma linguagem bíblica e cristã no romance. (SCHWARZ, 2012, p.145). Todas essas características serão amadurecidas nos romances da segunda fase.

O purismo de Helena, por sua vez, não teria espaço no romance Iaiá Garcia, o último da primeira fase machadiana, pois

se nos romances anteriores a estreiteza do ponto de vista acabava por distanciar o paternalismo literário do que se praticava efetivamente, agora Machado está numa posição que os aproxima, e que permite a circulação mais desafogada entre os espaços do romance e da realidade. (SCHWARZ, 2012, p. 152).

Agora, a verossimilhança do que de fato ocorria na sociedade seria melhor expressa nos escritos de Machado de Assis, embora ainda não houvesse toda a força narrativa da segunda fase e tenha um tom solene e conformista. A escrita desse último livro procura desmistificar as compensações imaginárias dos favores prestados pelos dependentes, sem deixar passar as maneiras truculentas dos proprietários.

4.2.3 Iaiá Garcia

Nesta obra, embora ocorra a ênfase no paternalismo, o realismo não é excluído, pois ela se atém a fatos recentes da história (tanto interna quanto externa). Ela mostra, por exemplo, a condição de funcionário público de Luís Garcia, que, inclusive, leva trabalho para casa. Também nos familiarizamos com a guerra contra o Paraguai, que ainda que considerada patriótica, nos permite identificar diversos favores comerciais, sendo, portanto um patriotismo que “é logo desmentido, e a motivação que domina é condizente com o clima privado e paternalista do livro”. (SCHWARZ, 2012, p. 155).

O favor passa como norma irrecusável, já que é praticado de uma forma generalizada e ganha contornos diferenciados da prosa anterior, tendo em vista que o romantismo trágico e purista de Helena, por exemplo, é superado e o tratamento simplista e limitado de nosso processo social é logo substituído em Iaiá Garcia, por uma “realidade mais abundante, menos esquemática, e ainda assim melhor unificada”. (SCHWARZ, 2012, p. 152).

A ordem social mais realista que Machado se propõe mostrar em Iaiá Garcia está imbuída de submissão por parte dos dependentes, assim como devoção religiosa e da busca de uma independência por meio de emprego assalariado. O romance concentra-se nos detalhes da vida privada de uma família patriarcal do Rio de Janeiro e tem como foco, na primeira parte, a complicação amorosa entre Jorge e Estela. Na segunda parte entram em cena Iaiá Garcia e Procópio Dias, que poderia ser visto aqui como uma personagem burguesa. Nesse caso, configurar-se-ia a primeira que poderia levar essa nomenclatura nas obras de Machado de Assis, como pode-se verificar no trecho: “Jorge conheceu Procópio Dias no Paraguai, onde este fora negociar e triplicar os capitais, o que lhe permitiu colocar-se acima das viravoltas da fortuna”. (ASSIS, 1994, p. 38).

Vilão da história, não foge à condição de paternalista e pratica diversos tipos de crime. Sobre essa personagem assim se expressa Schwarz: “não recua diante de nada. Seus crimes vão da negociata em tempo de guerra e da calúnia a gostar da boa mesa e do outro sexo”. (SCHWARZ, 2012, p. 160).

A condição de agregado e dependente traz algumas situações humilhantes para os personagens, como pode-se perceber na recusa de Valéria em aceitar Estela como possível noiva do filho, denotando uma condição social em que os marginalizados deveriam permanecer afastados e a unidade dos que eram proprietários deveria sustentar-se a qualquer custo, mesmo que isso significasse o envio do filho para a guerra. Valéria, portanto, dispõe não só dos dependentes, como também de recursos e instrumentos manobráveis para realizar os seus caprichos. Tudo isso “graças à sua arte de assediar as vontades alheias”. (ASSIS, 1994, p. 14). Ademais, em sua hipocrisia, as vantagens eram duplas já que o filho ganharia glória e honra patriótica.

A Valéria tinha poder e que era proprietária surge já no início do romance, quando esta exige que Luís Garcia venha até sua casa na rua dos inválidos porque precisava “de seus conselhos, e talvez de seus obséquios.” (ASSIS, 1994, p. 1). Aqui, até a descrição do local mostra o controle do proprietário, pois a casa, a sala de visitas, tudo é feito para denotar tal qualidade. Nas palavras de Valéria surge o tom de autoridade e na aceitação de Luís, que era funcionário público, a subordinação. “Entre nisto, como eu mesma, disposto a vencê-lo e convencê-lo.” E Luís Garcia diz: “- Faço, disse ele frouxamente.” (ASSIS, 1994, p. 08).

Valéria Gomes gostava não só do poder, mas também “das pessoas que dependem dela, e porque é calorosa não hesita em dispor delas conforme lhe dê na veneta.” (SCHWARZ, 2012, p. 160).

Mas enquanto o proprietário tenta atrair o subordinado para o campo de suas necessidades e caprichos, este também procura uma forma de fugir do seu campo de ação, procurando autonomia e independência, como é o caso de Luís Garcia. Ele, contudo, não consegue fugir de tal sina, pois quando a família proprietária precisava de seus serviços Luís Garcia os servia religiosamente. “Obsequiava sem zelo, mas com eficácia, e tinha a particularidade de esquecer o benefício, antes que o beneficiado o esquecesse.” (ASSIS, 1994, p. 02).

Quanto a Jorge, ele volta da guerra transformado e francamente volúvel. Procura aproximar-se de Estela, mas essa o evita, permanecendo sempre perto de Valéria, o que deixa claro uma tentativa de domínio por parte do proprietário e a fuga em uma busca pela liberdade por parte do dependente. Não conseguindo essa aproximação, Jorge, em um momento de falta de lucidez e aproveitando-se de um sobrado vazio, “lançou-lhe as mãos à cabeça, puxou-a até si e antes que ela pudesse fugir ou gritar, encheu-lhe a boca de beijos.” (ASSIS, 1994, p. 19). Não tendo suas intenções satisfeitas, o proprietário tenta tê-las à força. Ao conseguir, envergonha-se e alista-se como voluntário no exército. Como mais um sinal de sua volubilidade, Jorge tem seus projetos intelectuais frustrados e por fim não dão em nada. Como herdeiro de uma família rica, Jorge assume “exclusivamente o papel de proprietário” (ASSIS, 1994, p.38), portanto uma nova máscara para um novo perfil. Jorge não para quieto e quer tudo, parecendo poder tudo. É o típico proprietário que procura envolver o dependente e busca ter satisfeitas suas necessidades.

Cabe ressaltar nesse livro a questão da descontinuidade, que é possível perceber nas compensações que Valéria oferece aos dependentes, tais como: “a Estela, um homem por outro homem; a Luís Garcia, uma esposa por um constrangimento; a Jorge, a glória militar por Estela.” (SCHWARZ, 2012, p. 193). Schwarz afirma ainda que não são trocas, mas descontinuidades. Essas imposições mostram que a vontade impositiva de Valéria deveria ser satisfeita e assim o era, pois o dependente não tinha escolha. A satisfação do dependente estava em ter sua proteção perpetuada e por isso não ser desconsiderado pelo proprietário. Há, portanto, uma acomodação ao paternalismo em que a ilusão do progresso é logo desfeita pelas novas condições sociais. Ocorre dessa maneira o “naufrágio das ilusões” (ASSIS, 1994, p. 107).

Diante do que foi exposto, é possível verificar que Machado de Assis, por meio de uma obra abrangente que expõe de maneira inusitada a sociedade do século XIX, não esteve alheio aos acontecimentos do seu tempo, mas sabia definir e tratar com o mesmo e o diferente, abordando tanto o tipo quanto a pessoa.

Analisou, de maneira contundente e pontual, a assimetria social do seu tempo e expôs tanto as ambições quanto as humilhações de quem não era proprietário e também a situação privilegiada dos proprietários que viviam em função da política do favor. Além disso, Machado de Assis desnudou a questão da riqueza, que tem consequências diretas na falta de projetos e ideais realmente plausíveis. Ele apresenta a sociedade volúvel.

Utilizando-se da obra machadiana, Schwarz elencou subsídios para uma abordagem mais abrangente, trazendo suas conclusões para o campo critico-sociológico, no qual foi possível perscrutar as implicações estéticas e ideológicas do desenvolvimento desigual e simultâneo do capitalismo, bem como a ideologia e a moral dos proprietários paternalistas da sociedade em que vivera o próprio Machado de Assis.

Sendo assim, com os subsídios da obra machadiana e com as abordagens críticas de Schwarz, o capítulo seguinte trará inferências para uma abordagem sociológica do romance Memórias Póstumas de Brás Cubas.

5. UMA ANÁLISE SOCIOLÓGICA DO ROMANCE MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS

Para uma melhor compreensão do que seja a questão social em Memórias Póstumas de Brás Cubas, faz-se necessário levar em conta que o autor foi uma criança pobre, mulata e epiléptica, mas que não permaneceu na condição de pobreza durante toda a sua vida. Foi protegido por uma rica madrinha e conseguiu uma ascensão social pelo seu trabalho, talento e casamento. A sociedade em que viveu Machado de Assis tinha como governante D. Pedro II, o qual teve sua maioridade antecipada, aos 14 anos. A capital do país, à época, era o Rio de Janeiro, que também era o principal centro urbano da nação.

Com ares cosmopolita, a classe dominante da cidade tinha ambições de igualar-se às mais bem-educadas sociedades europeias e por isso mesmo vivia da imitação constante do que considerava paradigma a ser seguido na Europa. Dessa forma é que se pode afirmar que a trajetória machadiana vai do Império (grandeza e declínio do Segundo Reinado) até os primeiros passos difíceis pelos quais passou a República.

Sempre envolvido com as letras, esteve na vanguarda da crítica literária brasileira numa época em que ainda não se estabelecera um padrão literário brasileiro, isto é, ainda não possuía um cânone definidor do que seriam os romances no Brasil. Passou a fazer parte do jornalismo, por meio do jornalismo liberal, e fez amigos influentes ao ingressar no funcionalismo público. Sua esposa era portuguesa e possuía uma boa formação intelectual. Bosi afirma que Machado de Assis, “antes de completar trinta anos, mudara de classe” (BOSI, 2006, p. 34).

Com muita ironia e sempre atento às questões que envolviam a sociedade brasileira, Machado de Assis cria uma obra que dialoga com os fatos locais e internacionais que perpassaram o século XIX.

Sempre usando uma linguagem ultracorreta, argúcia analítica e muitas citações clássicas, que denotam um conhecimento cosmopolita, Machado de Assis expõe o que de fato há por trás do que os donos da riqueza da época procuravam mostrar. No entanto, buscou fazê-lo realçando principalmente os desvios que mais estavam arraigados e, dessa forma, não poderia deixar de mostrar (com bastante enlevo) as contradições que a classe dominante insistia em manter.

Essa trajetória possibilitou a Machado de Assis uma vivência e observações da sociedade de sua época, que possibilitaram abordar questões como os privilégios da elite, a escravatura e a política do favor e cooptação que tanto estava arraigada na política dos proprietários do seu tempo. Conhecedor de tal fato, cria personagens que são basicamente representantes da elite brasileira do século XIX. Há, no entanto, figuras de menor expressão social, pertencentes ao grupo dos escravos ou à classe média, que têm significado relevante nas relações sociais entre os grupos sociais da época.

O gênio de Machado está em trazer para o campo das letras o que até então não era notado no romantismo e nem mesmo no naturalismo, pois as questões que envolviam esses debates, até então, eram tímidas. Qualquer impulso filosófico ficava à margem e a literatura era feita quase que exclusivamente para distrair o espírito. Merquior afirma que:

A grandeza de Machado foi ter posto os instrumentos de expressão forjados no primeiro Oitocentos – a língua literária elaborada por Alencar – a serviço do aprofundamento filosófico da nossa visão poética, em sintonia com a vocação mais íntima de toda a literatura do Ocidente. (MERQUIOR, 2014, p. 249).

Todo o empenho de Alencar em fazer constar em nossos escritos românticos uma língua realmente literária brasileira foi consubstanciado em Machado no sentido de fazer ecoar uma arte contemporânea e filosófica que envolvesse as questões mais íntimas da literatura ocidental.

Na obra de Machado de Assis, homem culto e familiarizado com os jogos de interesses presentes no âmago da sociedade, a controvérsia parece adentrar tanto as relações sociais, que ela se torna mesmo parte constituinte das mediações entre os homens como os interesses que perfazem a condição indispensável para a troca de favores.

Nos romances da primeira fase, considerada por diversos críticos como romântica, há a abordagem da cooptação e do favor que “afloram como temas vivos ora a humilhação enfrentada dignamente, ora a ambição dissimulada de moças que o destino fez viverem na gaiola dourada do favor.” (BOSI, 2006, p. 34). Esta questão foi abordada no capítulo anterior, com uma análise mais aprofundada de três romances da primeira fase machadiana.

Afirma Schwarz que “a despeito de sua inteligência e do engenho, que não vamos esquecer, são quatro romances enjoativos e abafados, como o exigem os mitos do casamento, da pureza, do pai, da tradição, da família, a cuja autoridade respeitosamente se submetem”. (SCHWARZ, 2012, p. 87). Ainda que neste trabalho não tenhamos abordado o romance Ressureição, fica clara a intenção de Machado de Assis de retratar a questão da população abastada, que vivia ociosa, sem planos concretos e que procurava impor sua condição de privilegiada aos que não possuíam bens ou riquezas. A maneira pela qual o fazia estava diretamente relacionada ao favor, refletindo exatamente a época pela qual passavam os novos ricos da sociedade fluminense.

Machado de Assis, nesses primeiros romances, ainda estava ligado a problemas locais. Porém, o autor das Memórias necessitava também de desiludir-se do paternalismo para adentrar por um caminho de maior amplitude que se concretizaria na segunda fase.

Na segunda fase, Machado de Assis parece encontrar-se em uma posição mais consolidada e, portanto, muda a sua perspectiva de composição e de linguagem ao escrever o romance Memórias Póstumas de Brás Cubas. É visível, que, a partir desse momento, o romance de Machado de Assis vai ganhando um tom mais leve, descompromissado, que abusa dos chistes e nas caprichosas intromissões e até chega a denunciar, em vários momentos, uma aberta preferência por simplesmente entreter o leitor em vez de oferecer-lhe uma prosa séria e comprometida com a estética do monumental e da ênfase literária.

O Machado de Assis maduro, em sua trajetória de vida e obra, teria conservado basicamente os princípios trazidos do liberalismo democrático e militante da sua juventude como formativo, constituindo verdadeiro embrião do que seria o salto qualitativo que marca a sua fase madura.

Machado de Assis torna-se o expectador de si mesmo e o homem que há nas sombras, pois surge o homem subterrâneo. Passa a haver uma relação profunda entre o narrador e o autor, pois ao criar um narrador que resolve contar a sua vida depois de morto, Machado de Assis muda radicalmente o panorama da literatura brasileira, considerando que Brás é “como espelho ou voz da sua classe social.” (BOSI, 2006, p. 36). Dessa forma é que expõe de forma irônica os privilégios da elite da época.

O livro marca um tom cáustico e o novo estilo na obra de Machado de Assis, bem como audácia e a inovação temática no cenário literário nacional. A forma livre adotada pelo autor em Memórias Póstumas de Brás Cubas rompe com a narração linear para retratar o Rio de Janeiro e a sua época com pessimismo e indiferença, fazendo uso de um humor reflexivo e inaugurando o que alguns críticos literários passaram a consignar como fase realista da ficção machadiana.

O Brasil, que era um país em formação, possuía uma classe dominante que aspirava aos mais altos estamentos e por isso é possível ver em Brás Cubas um almejar constante da glória e de um alto cargo na República, como o de ministro de Estado. É o narrador volúvel que traça metas e objetivos que jamais se concretizaram, pois não há foco em uma vida abastada e cheia de enfado.

Brás, portanto, representa muito bem essa classe já que, menino mimado de uma família abastada e conservadora, faz um curso de direito sem objetivos relevantes em Coimbra. Além disso, o defunto-autor nos apresenta as viagens feitas pela Europa, as aventuras eróticas precoces, uma paixão adúltera, tédios e saciedade e a sede de glória, os quais se conjugam em projetos malogrados como o emplasto e a cadeira de deputado, até chegar à velhice que se resume em nada de concreto. (BOSI, 2006, p. 08).

A própria forma livre adotada por Machado explica-se pela dubiedade ideológica brasileira, que se encontrava entre o patriarcal e o burguês no Brasil Império. Essa dubiedade também estava presente em Brás Cubas. Há apenas uma ressalva que é ressaltada por Schwarz em Um mestre na periferia do capitalismo: o amor. Nesta condição, é feita por Schwarz a observação de que:

É como se nas circunstâncias brasileiras, caracterizadas no caso pela preeminência da volubilidade, fosse o amor a única forma disponível de plenitude, as outras manifestações do espírito ficando condenadas ao amesquinhamento. (SCHWARZ, 2012, p. 64).

Perfazendo a condição de proprietário rico e desocupado, Brás possuía as necessárias exigências para “um esquema ideológico e psicológico, pré-formando as demais faculdades e ditando-lhe os seus modos de ser, pensar, sentir e dizer. Forma narrativa bizarra, desgarre, humor, tédio e nonsense seriam efeitos simbólicos do modo de vida de Brás Cubas.” (BOSI, 2006, p. 43). Dessa forma, o texto romanesco engendrado por Machado de Assis imita a vida social e esta é verificável em Brás Cubas.

Brás não realiza nenhum dos seus intentos e nenhum grande feito, como atesta o fracasso do protagonista e como afirma o próprio narrador nas Memórias: “Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento” (ASSIS, 2012, p.256). A sua força crítica, todavia, não se exerce somente em uma direção. Ela é lançada sob vários prismas, incluindo aí os traços do rentista, mas o que de fato se sobressai é “uma dialética de memória e distanciamento cético do narrador em relação a si próprio.” (BOSI, 2012, p.44). Este narrador poderia perfeitamente ser considerado frívolo e inverossímil quando faz a confissão das negativas, mas em Brás é necessário que se observe algo além do dito, que nesse caso podem ser entendidas ou “como sátira objetiva e pontual de um tipo, ou autoanálise humorística.” (BOSI, 2012, p.45).

Sátira ou autoanálise humorística, o fato é que toda a situação vivida pelo protagonista de Memórias Póstumas está relacionada a determinado segmento da sociedade brasileira e o Machado crítico, que é também o defunto autor, desvela sob o manto do humor a ironia dessa realidade.

Machado também é universal e quando se atém às críticas locais não deixa de transladar as conclusões. Por isso, a afirmativa de Bosi de que “Machado brasileiro é universal.” (BOSI, 2012, p.46). Quando faz menção ao delírio de Brás, atinge o progressismo brasileiro, mas não só brasileiro, também o universal. O positivismo então em voga é parodiado no Humanitismo e ironizado por Machado de Assis, na voz de Quincas Borba, que ao explanar sua filosofia afirma que humanista é “o princípio das coisas” (ASSIS, 2012, p. 212) e que estaria ligado a todas as coisas antes da criação, o começo das coisas, no aparecimento do homem e que ainda teria uma outra fase que é a “absorção do homem” (ASSIS, 2012, p. 2013).

Com essa explanação de Quincas Borba, percebe-se um Machado de Assis afinado com o seu tempo. “A mente de Machado ultrapassa os limites geográficos da periferia.” (BOSI,2012, p. 46).

Ao ultrapassar os limites impostos pelo Atlântico, Machado o faz também na questão histórico-social que envolve o liberalismo, a escravidão, o paternalismo e a política do favor. Isso além das ideias europeias que, segundo Schwarz, ao serem trazidas para o Brasil soavam falsas, e que “refletem a disparidade entre a sociedade brasileira, escravista, e as ideias do liberalismo europeu.” (SCHWARZ, 2012, p. 12).

A partir de citações e alusões a momentos históricos e autores diversos, o romance torna-se coeso e verossímil, pois o estudo biográfico de pelo menos um tipo social permite, segundo Schwarz (2012), tal perspectiva. Essa perspectiva verossímil e continuada é acompanhada por uma descontinuidade vertical do narrador volúvel, que não tem propósitos e não alcança, em sua trajetória, nenhum fim. Por isso é possível afirmar que há, em Memórias Póstumas de Brás Cubas, uma continuidade paralela a uma descontinuidade.

Contudo, mesmo diante de uma descontinuidade verificável, o romance tem seguimento e perfaz um ciclo. Nesse sentido afirma Schwarz:

Algo como um movimento de movimentos, que forma sentido: um ritmo em que o interesse do narrador, das personagens, bem como do leitor, passa por ciclos constantemente renovados de animação e fastio, sendo que o conjunto desliza da vivacidade para a saciedade e a morte, tudo sempre aquém de um propósito durável. As Memórias como os demais romances da maturidade terminam em nada. (SCHWARZ, 2012, p. 67).

Portanto, o leitor está sempre aguardando que algo se concretize, mas é sempre frustrado pelas mudanças de percurso que ocorrem no romance. O próprio narrador, em um trabalho de excelente metalinguagem, insiste na frouxidão composicional do romance afirmando que não há “nenhuma juntura aparente, nada que divirta a atenção pausada do leitor: nada” (ASSIS, 2012, p.48).

A ação do personagem principal é constantemente interrompida de forma regular, ou seja, há uma descontinuidade nas ações e uma continuidade nas interrupções e as explicações para a volubilidade são as mais diversas, passando pela psicológica, mecânica, cristã ou naturalista. No entanto, a continuidade é marcada no livro pelos acontecimentos narrados em que, tomando a sociedade escravocrata e patriarcal e que se apresenta como liberal e moderna, o narrador machadiano estrutura a narrativa.

Pode-se notar tais assertivas na convivência diária e familiar em que vive Brás e nos acontecimentos que envolvem as pessoas à sua volta. Conforme a sociedade da época, há, na convivência familiar, escravos, agregados, obrigações filiais e relações clientelistas, caracterizando de forma linear e contínua os modos e as tradições da sociedade.

Schwarz afirma que “fica clara, assim, a intenção de sintetizar um tipo representativo da classe dominante brasileira através das relações que lhe são peculiares.” (SCHWARZ, 2012, p. 71). Para dar uma melhor verossimilhança e enlevo a Brás, Machado de Assis traz uma galeria de figuras sociais e marca o romance com passagens históricas nacionais e internacionais. A história nacional é uma forma de significá-la por meio de referências ora explicitas ora escondidas.

Essas referências mostram que os caracteres são representações da sociedade da época de Brás. Considerando que o romance se passa entre os de 1805 e 1869, é feita menção a Napoleão I quando, no capítulo X, o tio João enxerga no recém-nascido Brás um certo olhar de Bonaparte. Nesse caso uma citação recente, pois Napoleão fizera-se imperador um ano antes.

O capítulo XII comemora a queda de Bonaparte (1814). No capítulo CXL, Quincas o cita como quem é queimado pela paixão do poder e no CXLVI serve de exemplo do Humanitismo, que compara a guerra de seus soldados a uma luta de cabras, com a diferença de que os primeiros sabiam que iam morrer, ao passo que as cabras não sabiam.

Também está presente no romance a satirização da obra A origem das espécies, de Darwin, publicada em 1859. A sátira se dá através de Quincas Borba. Esta, exposta no capítulo do mesmo nome, pode ser resumida da seguinte forma: Humanitas é o princípio das coisas, o mesmo homem repartido por todos os homens. Tem três fases: estática (anterior à criação do mundo); expansiva (correspondente ao começo das coisas) e dispersiva (surgida com o aparecimento do homem). Acrescenta-se a essas uma quarta fase: a contrativa, ou seja, a absorção de tudo.

Os homens são distribuídos pelas diferentes partes do corpo de Humanitas, nos termos da grande lei do valor pessoal: descender do peito e dos rins é ser um forte, ao passo que descender dos cabelos ou da ponta do nariz é ser um fraco. A vida é o maior benefício do universo e só existe uma desgraça: não nascer.

O amor é um sacerdócio e a reprodução é um ritual. Se o homem é o próprio Humanitas reduzido, daí tem a necessidade de se adorar. O frango almoçado é o resultado de uma multidão de esforços e lutas, executados com o único fim de matar a forme. A dor é pura ilusão. (ASSIS, 2012, p.212).

E, para fechar o círculo da continuidade em que as intenções do narrador iniciam-se e têm uma completude, seja na ironia ou no cômico, no capítulo “Teoria do benefício” lê-se o seguinte: “Quem pratica um benefício o faz por vaidade, sente-se gratificado. Quem o recebe, sente-se satisfeito de uma privação e guarda na memória a esperança de outros benefícios para satisfazer outras privações”. (ASSIS, 2012, p. 247). Nesse ponto a completude se dá quando Quincas devolve o relógio que havia roubado e afirma que seu sistema filosófico retifica o espirito humano, suprime a dor, assegura a felicidade e enche de glória o país.

Embora seja uma sátira a uma questão cientifica, há no capítulo Humanitas uma continuidade em que o autor se propõe a expor uma ideia e o faz do início ao fim.

Segundo Schwarz os princípios do Humanitismo “afirmam a luta de todos contra todos, à maneira do darwinismo social”. (SCHWARZ, 2012, p.164). Para compreender tal afirmação é necessário entender que, dentre os princípios estabelecidos por Darwim para a evolução, está o da luta pela vida, o qual resulta na luta pela existência. Há, portanto, uma luta ativa ou passiva que envolve os organismos vivos por espaço e comida em que os melhores equipados tendem a sobreviver e os pior equipados estão destinados a perecer.

No capítulo “Os cães”, em que há uma briga de cães por um osso, é exemplificado um dos elementos da teoria do Humanitismo: a luta pela vida.

Ainda no aspecto da verossimilhança e da continuidade e sem entrar em detalhes como no caso do Humanitismo, Machado trabalha personagens e episódios da História do Brasil tais como: D. João VI e a família real no Brasil, a partir de 1808; a Independência Política e o Primeiro Reinado, de 1822 a 1831; a abdicação de Pedro I em 1831, o período regencial e o início do Segundo Reinado, sendo este somente em parte, uma vez que Brás Cubas morreu em 1859.

No entanto, estas citações históricas e até mesmo a sátira à ciência da época (feita por um narrador volúvel que conduz o leitor sem pressa e por vezes com indelicadeza), são arbitrárias e têm a função, segundo Schwarz, de “convenção literária” (SCHWARZ, 2012, p. 72) e funcionarão como substituta da vítima real que são os desvalidos.

Os humildes, nesse caso, não são considerados, pois o que conta são os caprichos dos ricos, que agiam de acordo com o que fosse necessário para manterem as suas vantagens. Nesse caso, o interesse que leva o rico a não abrir mão de nenhuma vantagem é mostrado por Machado de Assis quando reflete sobre uma sociedade que não abandona as ideias escravocratas e o agregado, mas que insiste em imitar as ideias liberais europeias.

Havia os interesses da classe dominante e um total desinteresse desta pelos seus dependentes e Machado de Assis vislumbrou com profundidade este fato, demonstrando-o nas Memórias. O autor procura aventar fatos históricos que trazem verossimilhança ao texto e completam os ciclos narrativos, mas não deixa de fora do romance a volubilidade de Brás Cubas, que representa a volubilidade da própria sociedade - já que era possuidor de riquezas que o levavam a indefinições e à falta de objetividade, impedindo que qualquer projeto fosse concretizado.

Machado, ao criar o narrador de Memórias Póstumas, cria também possibilidades de desdobrar-se em autoconsciência, podendo analisar as questões sociais com total liberdade, pois o distanciamento favorece os seus intentos sendo esta a maior marca de qualidade dessa nova fase do romance machadiano.

Dessa forma, Machado de Assis consegue fazer uma crítica analítica da sociedade do século XIX, algo sem precedentes na história literária. Isso corrobora com a ideia de que o romance machadiano reflete de perto a ambivalência em que vivia a elite de seu tempo. Machado, na transposição do que vê e vive, ouve e sente, vai além do romancista e procura imbuir-se também do espírito de pesquisador, intérprete e crítico do meio em que vive. Ele dilui os acontecimentos sociais em sua ficção, mostrando um estamento privilegiado que tenta imitar uma classe burguesa europeia. Ele também mostra uma outra classe de desfavorecidos agregados, que vivem da cooptação e do favor e que possuem poucas possibilidades de ascensão social.

5.1 As ideias fora do lugar em Memórias Póstumas de Brás Cubas

O Brasil do século XIX possuía uma sociedade que vivia um contrassenso, representado na disparidade de possuir um sistema escravista e, ao mesmo tempo, imitar as ideias liberais europeias.

Roberto Schwarz, em As ideias fora do lugar, aborda essa questão deixando claro que “por sua mera presença, a escravidão indicava a impropriedade das ideias liberais;” (SCHWARZ, 2012, p.15), ou seja, as ideias que eram colocadas em prática na Europa estavam desfocadas no Brasil.

A contradição brasileira fica perceptível na abordagem feita por Roberto Schwarz (2012) quando, analisando Memórias Póstumas de Brás Cubas, a faz trazendo para o campo de discussão a realidade brasileira do século XIX em que traz à baila a questão de uma evolução às avessas. Isso ocorreu porque o mundo europeu chegava à industrialização enquanto o Brasil, jovem nação, não se preocupava sequer com o fim com a escravidão. O ideário burguês europeu que não se coaduna com a escravidão; e o ideário do capitalismo, agindo frente à relação desigual e paternalista, tornam toda a mímica do proprietário um fator de controvérsia.

Há no Brasil, quando muito, uma “ideologia de segundo grau. Sua regra é outra, diversa da que denominam; e da ordem do relevo social, em detrimento de sua intenção cognitiva”. (SCHWARZ, 2012, p. 18). As tentativas de seguir uma ideologia europeia ocorrem porque há no Brasil uma intenção da sociedade abastada em ser vista como superior e por isso essa sociedade procura viver uma realidade que não é a sua.

Para explicar melhor, podemos afirmar que o liberalismo na Europa corresponderia às aparências num contexto onde prevalecia o trabalho livre e a igualdade perante a lei. Já no Brasil, onde o trabalho escravo era dominante e, consequentemente, as relações materiais de força eram normais, a exploração se revelaria sem subterfúgios. Mas aqueles que não eram escravos se relacionavam, para além da força, por meio do favor e, dessa maneira, afirmavam sua condição de homens livres.

Procurava-se uma autenticidade europeia nos modos e nos títulos que eram empregados, até mesmo nas residências buscava-se tal proximidade. As ideias europeias “eram adotadas também com orgulho, de forma ornamental, como prova de modernidade e distinção”. (SCHWARZ, 2012, p.26).

Essa proeza brasileira é refletida em todos os recantos da sociedade e traz consigo o fingimento, o dualismo, a falta de uma essência realmente brasileira. Traz a relevância de um mundo irreal, mas real porque visto e materializado muitas vezes no concreto erguido pelos escravos que carregavam a elite nas costas. Se havia uma parede erguida por escravos também havia uma decoração europeia. Se o senhor era servido à mesa pelo negro escravo, isso seria feito com objetos refinados como cristais e talheres europeus, além de um formalismo que soava falso, já que era advindo do exterior.

Roberto Schwarz cita Quincas Borba como exemplo dessa sociedade, considerando que Machado de Assis, nos primeiros capítulos do romance Quincas Borba, faz menção a essa tentativa de imitação. Ele afirma que Rubião é um novo rico e, como tal, procura atualizar-se, fazendo mudanças em sua casa por sugestão de Palha. No capítulo III de Quincas Borba, o narrador afirma que “Rubião pegou na xícara e, enquanto lhe deitava açúcar, ia disfarçadamente mirando a bandeja, que era de prata lavrada” (Assis, 2014, p. 51), para logo afirmar que o que, de fato, causava impressão era o bronze por ser matéria de preço. “Não gostava de bronze, mas o amigo Palha disse-lhe que era matéria de preço, e assim se explica este par de figuras que aqui está na sala, um Mefistófeles e um Fausto”. (ASSIS, 2014, p. 52). Eram, portanto, as duas faces de uma sociedade dúbia e sem personalidade, mas que vivia de aparências e exposição.

Além do viés escravista que impugna a ideologia liberal, ainda há no Brasil a figura do homem livre que se torna dependente do possuidor de riqueza, pois “nem proprietários e nem proletários, seu acesso à vida social e a seus bens depende materialmente do favor, indireto ou direto, de um grande” (SCHWARZ, 2014, p. 51).

No próximo item será abordada essa questão do favor.

5.2 O favor em Memórias Póstumas de Brás Cubas

Na condição de livres, mas sem recursos, a leva de dependentes fazia com que girasse a roda dos favores, que impregnava todos os cantos da sociedade brasileira.

O Brasil fez algo singular ao incorporar o favor ao liberalismo, ou seja, ao passar a fazer parte das ideias e práticas que regulam as relações entre os homens livres, o liberalismo seria incorporado ao favor.

A sociedade da época em que viveu Machado de Assis estava francamente fundamentada em três categorias, que eram: o latifundiário rico, o escravo e o branco livre, mas pobre, que dependia dos favores praticados pelo abastado. Neste último estamento é que se encontra toda a gama de acontecimentos que envolvem o favor, a política de dominação vigente na sociedade brasileira que pode ser denominada de paternalista.

Há também no paternalismo uma política de domínio própria, pertinente ao poder que envolve todo um ritual de afirmação, de domínio e de práticas de dissimulação. Nesse sentido, o favor foi um dos meios utilizados pela elite para a continuidade da dependência dos homens livres aos seus desígnios. A troca de favores é embasada na desigualdade social e na política elitista que não permitia que membros de diferentes classes sociais fizessem parte da mesma ordem.

A dependência nacional está presente na literatura de Machado de Assis e já é possível verificá-las em seus primeiros romances, ou seja, nos romances da primeira fase.

Em a Mão e a Luva, Iaiá Garcia e Helena, Machado de Assis mostra toda essa desigualdade social. Em famílias pequenas e com princípios rígidos, as protagonistas precisam do favor para galgarem um novo patamar na sociedade em que vivem.

Não só nos primeiros romances é possível verificar essa dependência, mas também nos romances da segunda fase. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas a figura de Dona Plácida é um exemplo de agregada dependente do favor. Pobre e sem recursos, busca fazer todas as atividades laborais que pode para não morrer de fome. Ao fim, contudo, termina por tornar-se alcoviteira, uma vez que só o faz por necessidade, já que é uma defensora da moral e dos bons costumes familiar.

Schwarz, fazendo menção aos sofrimentos e lutas de Dona Plácida afirma que:

Do mesmo modo, apesar de incansavelmente trabalhadora, chega o momento em que se vê obrigada a buscar a proteção de uma família de posses, à qual se agrega, o que tampouco impede que morra na indigência. Em suma, a vida honesta e independente não está ao alcance do pobre, que aos olhos dos abastados é presunçoso quando a procura, e desprezível quando desiste, uma fórmula, aliás, do abjeto humor de classe praticado por Brás e exposto por Machado de Assis. (SCHWARZ, 2012, p. 107).

É o que resta para os desfavorecidos agregados da sociedade oitocentista: servir aos interesses dos que possuem bens e, desta forma, fazer parte da roda capitalista, para depois ser esquecido sem nenhum reconhecimento social.

5.3 A volubilidade do narrador Brás Cubas

Machado de Assis, ao escrever o romance Memorias Póstumas de Brás Cubas, muda completamente a visão do romance brasileiro e expõe de forma irônica os privilégios da elite brasileira. A narração é feita em primeira pessoa e postumamente, ou seja, o narrador se autointitula um defunto-autor, um morto que resolveu escrever as suas memórias. Assim, temos toda uma vida contada por alguém que não pertence mais ao mundo terrestre. Com esse procedimento, o narrador consegue ficar além de nosso julgamento terreno e, desse modo, pode contar as memórias da forma como melhor lhe convém. 

Com a narração em primeira pessoa, a história é contada partindo de um relato do narrador-observador e protagonista, que conduz o a partir da sua visão de mundo, dos seus sentimentos e do que pensa da vida. Dessa maneira, as memórias de Brás Cubas nos permitem ter acesso aos bastidores da sociedade carioca do século XIX.  Para fazê-lo, Machado cria o personagem Brás Cubas que nasce em uma família abastada e é um garoto mimado que tem em toda a sua vida objetivos que se iniciam e não terminam.

Não há na vida de Brás Cubas objetivos consistentes e sua trajetória está calcada em uma volubilidade constante. O privilégio da classe em que está inserido permite ao narrador machadiano uma vida de fastio, onde as ideias surgem e logo são abandonadas. Esta volubilidade nada mais é do que uma consequência de bens materiais e por não ter necessidades financeiras, Brás Cubas insere-se também na classe dos que não tinham objetivos realmente autênticos. Ao analisar o protagonista de Memórias Póstumas, Schwarz afirma que:

no lugar do Estudo temos alguns anos de folia em Portugal; no da Poesia, os ademanes literários de um viúvo recentíssimo; e no da Política, um discurso parlamentar sobre a conveniência de diminuir em duas polegadas as barretinas da Guarda Nacional de modo a torna-las mais leves e maneiras. (SCHWARZ, 2012, p.63)

Uma superficialidade constante que não denota outra coisa senão o amesquinhamento em que se encontrava a classe dominante no Brasil e que era representada por este personagem tão singular no romance brasileiro.

O núcleo da história está no defunto autor e é de dentro da morte que vem a fala de Brás. A partir do ponto de vista de Brás é que se estabelece a diferença radical, já que ele está entre os mortos e o leitor entre os vivos. Brás, então, tem a possibilidade de ser franco sem a necessidade de agradar a ninguém. Não precisa se ater a convenções sociais e por isso pode até mesmo quebrar todas.

Brás pode trazer para discussão todas as questões que lhe forem convenientes e o faz de uma maneira inusitada e antitradicional. Schwarz comenta essa questão relacionando-a à volubilidade de Brás Cubas e afirma que: “com seu expansionismo sem fronteiras a volubilidade traz ao romance a dinâmica antitradicional própria à sociedade contemporânea”. (SCHWARZ, 2012, p. 64). Machado inova o romance brasileiro e consegue a liberdade necessária para expor a mazelas e as contradições da sociedade.

Como não há uma continuidade nos propósitos de Brás Cubas, há episódios comandados pela volubilidade e que não seguem uma necessidade, ou seja, são episódios amenos, levados de maneira frouxa e sem grandes tensões. O próprio Brás Cubas, percebendo a melancolia em que estava envolta a sociedade elitizada, sem objetivos e projetos claros, mas ociosa e vivendo no fastio, se propõe a inventar um emplasto anti-hipocondríaco e expõe sua ideia no capítulo II das Memórias: “Essa ideia era nada menos que a invenção de um medicamento sublime, um emplasto anti-hipocondríaco, destinado a aliviar a nossa melancólica humanidade.” (ASSIS, 2012 p.30).

Machado de Assis ironiza a precariedade da ciência de sua época, em que qualquer pessoa poderia ser autorizada a inventar um medicamento e, no caso, um remédio para cura espiritual (a melancolia), apenas por dinheiro e vaidade. No entanto, já no capítulo III, o narrador volúvel passa a tratar do aspecto genealógico, abordando questões relativas à família.

No entanto, a mudança de foco se dá por uma mentira da genealogia do narrador que é usada para melhorar a imagem familiar. Assim sendo, ocorre a transformação de tanoeiro em herói de guerra e há a tentativa frustrada de apropriação de um sobrenome famoso.

Mas a vida de Brás Cubas está rodeada por outras personagens, que seguem seus destinos às voltas do capricho e dos interesses que vão definindo e dando verossimilhança ao romance. Assim, Brás se metamorfoseia de acordo com as necessidades que vão surgindo em função das demais personagens.

Assim, no tocante aos escravos de que judia, Brás aparece como o menino diabo. Uma agregada velha, que não tem onde cair morta, encontrará nele o protetor, cheio de pensamentos escarninhos. À moça pobre, filha ilegítima, corresponde o rapaz bem-nascido e aproveitador. Um cunhado negocista, ex-traficante de escravos, tem nele o parente compreensivo, capaz de justifica-la e até de intermediar fornecimentos à Marinha (uma roubalheira da época). Para a menina casadoura, cujo o pai é uma influência política, Brás representa numa só pessoa o noivo escolhido pela família e o futuro deputado. (SCHWARZ, 2012, p. 69.)

São mudanças de perfis com as quais Brás se apresenta, mas que servem somente às conveniências do narrador volúvel.

Ainda significativa em relação a volubilidade de Brás Cubas é a relação que ele tem com Eugênia. Um moço abastado que se envolve com uma moça não propriamente pobre, mas que também não é rica. Eugênia, que possui certa educação e com possibilidades de fazer um bom casamento, não realiza este intento, mas termina pedindo esmola, pois a dependência de algum rico é imperiosa e não se concretiza na vida da moça. No dizer de Schwarz “o seu acesso aos bens da civilização, dada a dimensão marginal do trabalho livre, se efetiva somente através da benevolência eventual e discricionária de indivíduos da classe abonada”. (SCHWARZ, 2012, p. 88).

Brás Cubas, em sua volubilidade, nada mais faz do que aproveitar convenientemente o que lhe interessa em relação a Eugênia que, por fazer parte dos dependentes, sofre a humilhação comum aos desprovidos.

Assim, após roubar um beijo de Eugênia, esta é retirada de cena, pois a volubilidade do narrador e a condição social que o coloca em superioridade em relação aos que nada possuem permitem tal ação. A volubilidade é, inclusive, usada para se virar contra o leitor. No capítulo XXXIV de Memórias Póstumas de Brás Cubas, o narrador se dirige ao leitor, defendendo-se de ser chamado de cínico e no capítulo XXXVI a sorte de Eugênia é relatada sem rodeios:

Tu, minha Eugênia, é que não as descalçaste nunca; foste aí pela estrada da vida, manquejando da perna e do amor, triste como os enterros pobres, solitária, calada, laboriosa, até que vieste também para esta outra margem...O que eu não sei é se a tua existência era muito necessária ao século. Quem sabe? Talvez um comparsa de menos fizeste patear a tragédia humana. (ASSIS, 2012, p. 108).

Nesse capítulo, Brás Cubas, ao referir-se às botas que lhe trazem prazer ao calçá-las, opõe o prazer de calçá-las ao desprazer da vida de Eugênia.

Há outros personagens que participam da volubilidade de Brás Cubas e que fazem com que toda a característica social seja trazida para dentro do romance, “ou seja a volubilidade-aqui está enraizada em terreno social claro, de que ela é uma expressão capital. “ (SCHWARZ, 2012, p. 103).

Dessa forma, temos ainda a já mencionada Dona Plácida, que é um retrato vivo do ser humano marcado pela miséria e que se corrompe moralmente para evitar a mendicância. É, portanto, mais um exemplo de indivíduo desprovido de bens materiais que precisa da ajuda de um grande. Defensora dos bons costumes morais e da moralidade familiar, se torna alcoviteira e posteriormente busca a proteção de uma família que possui bens tornando-se agregada.

Na mente dos ricos, pessoas como Dona Plácida nasceram com uma finalidade, que é a de servi-los. Por isso mesmo há uma afirmação feita por Brás Cubas de que a resposta do porquê da existência de Dona Plácida seria:

Chamámos-te para queimar os dedos nos tachos, os olhos na costura, comer mal, ou não comer, andar de um lado para o outro, na faina, adoecendo e sarando, com o fim de tornar a adoecer e sarar outra vez, triste agora, logo desesperada, amanhã resignada, mas sempre com as mãos no tacho e os olhos na costura, até acabar um dia na lama ou no hospital; foi para isso que te chamámos, num momento de simpatia (ASSIS, 2012, p.161).

Esse é um momento de extremo pessimismo machadiano: a vida como um pecúlio de misérias que se manifesta como alguns que detêm a riqueza e outros que estão à margem da sociedade, tão somente para servir os que possuem bens. São as consequências advindas da ordem social vigente e bem aproveitadas por Brás Cubas em sua volubilidade.

Já Prudêncio surge como a representação de como os escravos poderiam servir aos caprichos das famílias ricas da época e mostra o tamanho do desprezo pelo ser humano negro, que estava incrustrado na mente da sociedade elitista do século XIX.

O cunhado de Brás Cubas, Cotrim, é um comerciante contrabandista de escravos que busca ficar rico de qualquer maneira e Machado usa essa personagem para mostrar como alguns indivíduos faziam fortuna com práticas baixas e inescrupulosas, que eram perfeitamente justificadas. Essas pessoas eram consideradas pessoas de bem mesmo que mandassem “com frequência escravos ao calabouço, donde eles desciam a escorrer sangue”. (ASSIS, 2012, p. 221).

Quando há interesses da classe rica, todas as mazelas que eram praticadas na época passam a ser justificadas. Até mesmo a escravidão e o tráfico ganham justificativas atenuantes por parte de Brás Cubas, que, volúvel, em um momento de fastio, procura Cotrim para pedir conselhos sobre um possível casamento com Nhã Loló, sobrinha deste.

Até mesmo o pretenso casamento é apenas uma solução encontrada por Brás para sair da vida adúltera. Schwarz afirma que: “o leitor sabe igualmente que Brás não dá um tostão pela harmonia familiar, e que seu motivo é o cansaço da vida adúltera, ou por outra, o desejo de gozar as regalias da conformidade”. (SCHWARZ, 2012, p. 117).

Justificativas diversas que tão somente confirmam a volubilidade do narrador. Desde o seu nascimento, Brás Cubas esteve cercado de condições que favoreceram tal volubilidade, que vai de uma educação frouxa até a não necessidade de trabalho.

Quanto às personagens femininas que passam pela vida de Brás Cubas, o qual não tinha apegos sociais ou morais, estas são descritas como interesseiras, dissimuladas, eróticas, traiçoeiras e caprichosas, mas é necessário avaliar que o romance apresenta as opiniões e julgamentos do próprio Brás Cubas.

Dessa forma as mulheres descritas por Brás lhe fazem jus e há em Marcela uma mulher promíscua, amante dos valores financeiros e sem escrúpulos.

Virgília, por sua vez, é faceira, pueril, interesseira e mentirosa, enquanto Nhã-Loló é perfeita para um possível casamento, mas adoece e morre. Eugênia é coxa e vítima do seu próprio preconceito, sempre triste e melancólica.

Em seus caprichos amorosos, Brás estava cercado por parentes que apresentavam uma personalidade para a sociedade, mas mantinham outras intenções. Esse era o caso do tio cônego que “não era homem que visse a parte substancial da igreja; via o lado externo, a hierarquia, as preeminências, as sobrepelizes, as circunflexões”. (ASSIS, 2012, p.54). Brás, também no amor, não se realiza e toda a narrativa cai na mesmice, com traços de melancolia que a volubilidade traz para o espírito de Brás Cubas, com “sinais de dissolução, e vai e vem como uma peteca” (SCHWARZ, 2012, p. 147), para, ao fim de sua vida, não concluir nada dos projetos que idealizara na juventude.

6. CONCLUSÃO

Machado de Assis, enquanto romancista, possui dois momentos literários, sendo o primeiro momento romântico e o segundo momento realista crítico.

O autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas, que se encontrou nos dois bem definidos estamentos da sociedade brasileira, amealhou subsídios para compor seus romances, abarcando a temática de uma sociedade que era escravocrata e que, portanto, tinha as relações materiais de força como algo comum em que a exploração se mostrava sem subterfúgios.

A primeira parte deste trabalho procurou analisar as opiniões de alguns críticos a respeito da obra machadiana mostrando as possíveis leituras e conclusões a respeito de sua obra. Mostrou-se que é possível ler a supramencionada obra do seu aspecto metafisico ao satírico, que pode ser comparado à sátira menipeia.

No entanto, ainda que Machado de Assis seja considerado um autor de duas fases, já na produção da fase romântica é possível identificar a questão do paternalismo e do favor, que viria a ser refinada na segunda fase do autor.

Entre o proprietário e o escravo existia o agregado que, por não possuir bens, vivia da dependência e do favor. Roberto Schwarz, afirma que “o senhor e o escravo, o latifúndio e os dependentes, o tráfico negreiro e a monocultura de exportação permaneciam iguais, em contexto local e mundial transformado”. (SCHWARZ, 2012, p. 36). Isto delimita o que de fato acontecia no Brasil do século XIX, já que, em busca de seguir um liberalismo europeu, a sociedade mantinha uma forma escravocrata em todas as suas nuances e incluía nesse processo o favor e a cooptação. Por isso é que as ideias estavam fora do lugar.

Portanto, a base era assegurada pela força, mas a multidão dos homens livres era mantida de uma forma ou de outra pelo favor, que atravessou eras e podia ser encontrado nas mais diversas atividades. Está presente nas relações de comércio, na política, na indústria, na vida urbana, na corte, ou seja, estava arraigado no Brasil que há muito tempo o praticava.

Apresentamos uma abordagem feita por Alfredo Bosi em que o autor sustenta as três leituras possíveis da obra machadiana, deixando claro que, por ser um defunto- autor, Brás Cubas podia expressar-se com maior liberdade. Além disso, também é clara a hipocrisia da sociedade aristocrata da época, já que Brás Cubas, representante desta sociedade, por ser um rico aristocrata, manipulava e não se envolvia de fato com a classe desfavorecida de sua época, mas servia-se de suas necessidades.

As três vertentes foram analisadas no item 2.3, mostrando que é possível fazer uma leitura das Memórias pela ótica satírica e compará-la à sátira menipeia, à obra Diálogos dos mortos de Luciano de Samósata, ficando clara a influência de outras leituras na produção de Machado de Assis.

Nos estudos dessas influências apresentamos também a aproximação feita ao o Homem do Subsolo de Dostoiévski, notando-se a semelhança que alguns tópicos que a narrativa machadiana possui com a obra do escritor russo.

Bosi sustenta também que Machado de Assis trata a questão por um outro ângulo em relação aos escritores anteriores e que este autor inova na forma de fazer romance.

A volubilidade do narrador foi tratada no capítulo 3, onde são analisadas as questões sociais e políticas que levam a considerar Brás Cubas um narrador volúvel. Para isso foi considerada a questão das ideias fora do lugar, que podem ser constatadas ao observar-se a grande contradição em que estava envolvido o país no campo político-sociológico que fora observado por Machado de Assis.

Mesmo com a existência do escravismo, o parlamento procurava manter um estilo europeu e liberal. Sendo assim Schwarz (2014), com bastante perspicácia, procurou ver nessas contradições de ideias determinado movimento que tornava singular o país e, para isso, apresentou uma explicação histórica e sociológica para esse deslocamento.

Havia no país uma relação de produção e parasitismo, além da dependência econômica e hegemonia intelectual da Europa, que já se encontrava absorta no industrialismo.

O Brasil era um país agrário e independente, mas que dependia do trabalho escravo e também do mercado externo. Portanto, a ideologia liberal, em par com a escravidão, tornava-se desconexa, ainda que necessária. Ou seja, as ideias liberais não se podiam praticar não sendo ao mesmo tempo descartáveis.

Com o monopólio da terra, a elite precisava dos escravos. Ao mesmo tempo, tinha ao seu redor o homem livre que, na verdade, era um dependente, sendo que com este último ocorria a relação de favor explanada por Schwarz (2012) e a que se refere Machado de Assis em sua obra literária.

Ao passar a fazer parte das ideias e práticas que regulam as relações entre os homens livres, o liberalismo seria incorporado ao favor e ao paternalismo conservador que reflete a sociedade da época. Como foi apresentado nesta análise, ele foi incorporado aos romances machadianos da primeira fase juntamente com a desigualdade social.

Ao abordar a literatura machadiana em sua segunda fase, fase realista para alguns críticos, Roberto Schwarz trata do narrador volúvel presente na obra Memórias Póstumas de Brás Cubas. O romance é, sem dúvidas, uma virada, não somente na obra de Machado de Assis, mas em toda a literatura brasileira.

Considerando que a sociedade brasileira do século XIX era volúvel, procurou-se mostrar, no último capítulo, a relação entre a sociedade deste século e a mais famosa obra machadiana. Verifica-se nas Memórias o mesmo favor e o mesmo paternalismo da primeira fase, acrescidos da volubilidade do narrador Brás Cubas.

Conhecedor do sistema em que estava inserido, Machado de Assis cria um narrador volúvel que expressa a sociedade em que está imbuído, retirando-lhe a máscara com a qual tentava mostrar-se e revelando o que de fato existia por trás das aparências sociológicas e políticas.

O morto Brás Cubas escreve suas memórias, localizando-se na eternidade, isto é, fora do tempo. A técnica da narrativa é incomum na tradição dos escritores do romance brasileiro. A narração é constantemente interrompida para digressões, comentários eruditos, literários, históricos, filosóficos e para diálogos com o leitor.

Roberto Schwarz observa em O princípio formal do narrador volúvel que a conduta de Brás perfaz uma conduta de classe. A cada momento (frase ou capítulo) o narrador vai mudando de estilo, de tom de máscara (mundano, moralista, cronista...), buscando a cada vez uma superioridade qualquer em relação ao leitor, (SCHWARZ, 2012, p. 29). Já nesse ponto é possível verificar algo de expressivo e inerente à classe dominante, que é a condição de mando de imposição de suas vontades.

Basta que verifiquemos a vida de Brás Cubas para identificarmos as características de um rico cheio de caprichos, com projetos nunca concluídos. Brás Cubas, apesar da riqueza que sempre possuiu, foi um fracasso e nada realizou de importante, frustrando-se em todos os seus planos. A ideologia do rentista estaria de acordo com a sociedade abastada da época, que possuía objetivos, mas não os realizava por estar ligada a uma forma histórica e ultrapassada tanto econômica quanto política.

Essa condição leva a conclusão de que

a gênese das características de pensamento, composição narrativa e estilo do Machado maduro (o humorismo, o ceticismo, a mistura joco-séria, a livre interlocução com o leitor) é identificada com a ideologia de um personagem – narrador burguês posto em um contexto escravista e patriarcal. (BOSI, 2006, p. 36).

Há uma quebra ou descontinuidade entre os romances da primeira fase e da segunda fase, mas também há um amadurecimento de Machado de Assis, que transpôs os limites do romantismo e do realismo para tornar-se um realista crítico. A novidade está no narrador, que denota a sua volubilidade ao “desdizer e descumprir a todo instante as regras que ele próprio acaba de estipular.” (SCHWARZ, 212, p.222).

Com tantos fracassos e com a falta de objetividade de Brás Cubas, percebe-se que o narrador representa a sociedade elitizada da época e que o autor faz uma crítica forte a ela. Em vez de falar sobre a elite pelo lado de fora, Machado faz isso a partir de um personagem que está inserido nela, que não precisa trabalhar, pois possui uma herança suficiente para se manter e que, por este motivo, traz consigo a verossimilhança. Desse modo, o autor Machado de Assis tornou-se um grande inovador na forma de escrever romance no Brasil.

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______. Helena. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

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BOSI, Alfredo et al. Machado de Assis. São Paulo: Ática, 1982.

______. Brás Cubas em três versões: estudos machadianos. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Memórias do subsolo. São Paulo: Ed. 34, 2000.

FAORO, Raymundo. Machado de Assis. A pirâmide e o trapézio. São Paulo: Cia ed. Nacional. 1974.

FAORO, Raymundo. O espelho e a lâmpada. In: BOSI, Alfredo et al. Machado de Assis. São Paulo: Ática, 1982.

MERQUIOR, José Guilherme. De Anchieta a Euclides: breve história da literatura brasileira. 4. ed. São Paulo: Realizações Editora. 2014.

MEYER, Augusto. A chave e a máscara. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1994.

MEYER, Augusto. O romance machadiano: O homem subterrâneo. In: BOSI, Alfredo et al. Machado de Assis. São Paulo: Ática, 1982.

MIGUEL PEREIRA, Lucia. História da literatura brasileira: Prosa de ficção (1870-1920). Rio de Janeiro: J. Olympio/MEC, 1973.

MOTA, Carlos Guilherme e LOPEZ, Adriana. História do Brasil. São Paulo: Editora

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PEREIRA, Astrojildo. Machado de Assis. 2. ed. Belo Horizonte: oficina de livros,1991, p. 93.

SCHWARZ, Roberto. Ao vencedor as batatas. 6. ed. São Paulo: Editora 34, 2012.

______. As ideias fora do lugar. São Paulo: Penguin Classics/ Companhia das Letras, 2014.

______. Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis. 2. ed. São Paulo: Duas Cidades; Editora 34, 2012.

SOUZA, Ronaldes de Melo e. O romance tragicômico de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Ed. UERJ, 2006.


Publicado por: Edson Victor

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