Relação professor/aluno: importância dos vínculos afetivos ao processo de ensino aprendizagem

Educação

Didática marcada pela afetividade, assume-se como princípio incentivador do aprendizado, de modo a demonstrar que os educadores podem desenvolver uma boa relação com seus alunos, marcada pelo respeito mútuo e pela aquisição da aprendizagem pelos educandos.

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1. RESUMO

Este trabalho tem como tema de discurssão a relevância das relações afetivas, especificamente entre professores e alunos, de modo a evidenciar estas interações como componentes essenciais ao processo de ensino aprendizagem. O estudo desta questão parte da teoria que a afetividade tem forte influência no processo cognitivo dos discentes. Ao ser estabelecido vínculos afetivos sadios entre professores e discentes, a aprendizagem é facilitada, visto que a interação entre os atores do ato educacional passa a ser fundamentada pelo companheirismo, respeito e confiança. Desta forma, o objetivo geral é confirmar que uma didática marcada pela afetividade, assume-se como princípio incentivador do aprendizado, de modo a demonstrar que os educadores podem desenvolver uma boa relação com seus alunos, marcada pelo respeito mútuo e pela aquisição da aprendizagem pelos educandos. A metodologia baseou-se numa pesquisa bibliográfica, firmada primordialmente nas teorias dos seguintes autores: Morales (1998), Aquino (1996), Miranda (2008), Kosloski e Ansai (2008), Freire (1996), Sarmento (2010) e Sarnoski (2014). A partir da revisão de literatura, concluiu-se que o vinculo afetivo é essencial à relação professor/aluno, uma vez que esta beneficia a todos, já que o discente sente-se mais determinado a adquirir conhecimentos e o educador motiva-se a ensinar melhor.

Palavras-chave: Afetividade. Professor. Aluno. Aprendizagem.

2. INTRODUÇÃO

Sabendo-se da importância e necessidade de um bom relacionamento, entre professores e alunos, se faz pertinente e adequado aos educadores a discurssão de como se constitui a interação em sala de aula, sendo que essa interação influencia consideravelmente na trajetória escolar dos estudantes e mais ainda àqueles que estão nos anos iniciais do ensino fundamental, tendo em vista, de que esta etapa é imprescindível em suas carreiras estudantis, pelo fato de que é nessa fase que eles estão adquirindo valores e conhecimentos prévios sobre os assuntos da escola e do mundo.

Sarmento (2010) acredita que o professor ao estimar o discente tem por consequência, uma ajuda na aprendizagem do aluno. E este aluno, que já terá sentimentos de confiança e consideração por seu docente, terá mais pretensão de adquirir conhecimentos, acabando por transformar o espaço educacional num ambiente acolhedor e favorável à edificação do aprendizado.

Na visão de Morales (1998), a ligação mantida com os alunos pode vir a tornar-se o mecanismo pelo qual possibilita a ação de educar, ultrapassando a função de mediar conteúdos didáticos e assim possibilitando aos educandos, a apreensão de valores essenciais para a própria vivência. Isto posto, não prestar atenção ao modo com se estabelece a interação professor/aluno faz surgir à possibilidade de perder-se a conquista de boas relações humana/afetivas.

Objetiva-se com esta revisão de literatura, demonstrar que mais que ensinar conteúdos, é necessário que o educador ofereça ao discente, possibilidades para se alcançar o conhecimento, de forma que o clima educacional seja repleto por ações que promovam o aluno como sujeito ativo e atuante do processo ensino aprendizagem.

A metodologia fundamentou-se na pesquisa bibliográfica baseada no exame de diferentes obras de autores renomados, onde se buscou o estudo dos conceitos apresentados por cada um no que se refere à temática da afetividade e aprendizagem. Os principais autores consultados foram: Morales (1998), Aquino (1996), Miranda (2008), Kosloski e Ansai (2008), Freire (1996), Sarmento (2010) e Sarnoski (2014).

Esta pesquisa está estruturada em diferentes análises e resultados. Em primeiro plano, será discutido a respeito da influência da relação pedagógica professor/aluno em relação à aquisição da aprendizagem, bem como da obtenção por parte dos alunos de condutas e valores advindos da interação docente. Em seguida, são apresentadas posturas didáticas que possibilitam ao educador a concretização de um convívio benéfico com os alunos; ainda nesse contexto, é abordada a relevância da correlação entre afetividade e indisciplina.

3. IMPORTÂNCIA DO CONVÍVIO AFETIVO NA ATUAÇÃO DOCENTE

A relação afetiva entre alunos e professores passou a ser notória e discutida atualmente. Percebeu-se que o fator afetivo é primordial à aquisição do conhecimento, principalmente na educação infantil e séries iniciais do ensino fundamental, visto que nessa idade, a criança está se desenvolvendo e construído sua mentalidade enquanto sujeito. Isto posto, para que se tenha um melhor aproveitamento escolar por parte dos alunos é indispensável o esforço do professor para que haja um bom relacionamento entre ele e os discentes. Dessa forma, a afetividade surge como um componente fundamental no alcance de uma boa interação. Sobre afetividade, é importante frisar que este fenômeno é

[...] um estado psicológico do ser humano que pode ou não ser modificado a partir de situações [...] tal estado é de grande influencia no comportamento e no aprendizado das pessoas juntamente com o desenvolvimento cognitivo. Faz-se presente em sentimentos, desejos, interesses, tendências, valores e emoções, ou seja, em todas as esferas de nossa vida. [...]. (SARNOSKI, 2014, p.03)

Mediante o pensamento do teórico, verifica-se o quão importante é a afetividade no ambiente escolar. Entretanto, é relevante esclarecer que a afetividade geralmente tem seu significado atribuído apenas a ações como carinho, amor e/ou amizade. Não que os laços afetivos não possam conter esses sentimentos, porém, a afeição vai além a esses conceitos.

Afetividade significa expressão de sentimentos, anseios, intenções, etc. Assim sendo, quando o aluno não sente sentimentos positivos pelo ambiente escolar (como vontade de estar presente ali, de adquirir conhecimento, de sanar dificuldades), ele estará comprometendo seu desenvolvimento afetivo e cognitivo, em razão de que esses aspectos estão intimamente interligados. Em vista disso, é essencial que haja no ambiente de estudo, a presença de sentimentos afetivos entre professor e alunos.

É relevante ressaltar também que devido a tantos problemas existentes na sociedade em geral, qualquer profissional pode está sujeito a ter um mau desempenho no trabalho, e com o educador não é diferente. Por vezes, muitos levam os transtornos vividos fora da escola para dentro da sala de aula. Este e outros erros são cometidos por muitos profissionais, desacertos estes que desfavorecem a boa interatividade entre professores e alunos.

É sabido que infelizmente, a realidade presente nas salas de aula tem seus desafios e barreiras a se derrubar. Existem salas superlotadas, pouco apoio por parte das entidades governamentais e/ou da própria instituição, entre outros entraves que desestimulam o professor.

Moysés apud Barreiros (2008) frisa que a adversidade presente na habilidade didática advém de aspectos deficientes no âmbito educativo, como desatenção com o ensino e falta de preparo para os profissionais docentes. Assim sendo, todas essas adversidades presentes no ambiente pedagógico, caracterizam a falta de estímulo do professor para com a prática docente.

Contudo, o educador necessita conscientizar-se que é, depois da família, o principal responsável pela educação dos menores, cabendo-lhe trabalhar individualmente por cada aluno, e não o tratando como apenas outro educando que está ali para complementar um senso escolar.

[...] o fator afetivo é muito importante para o desenvolvimento e a construção do conhecimento, pois por meio das relações afetivas o aluno se desenvolve, aprende e adquire mais conhecimentos que ajudarão no seu desempenho escolar. (MIRANDA, 2008, p.02)

Comumente a isso, é fundamental que os educadores busquem mecanismos para construir uma imagem positiva aos seus discentes, no intuito de que os estudantes os vejam como pessoas dispostas a ampará-los quando se for oportuno.

É indispensável que o pedagogo vá de encontro ao universo da criança para que ela sinta-se interessada a descobrir novo saberes. Como é de sua natureza, a criança será sincera em demonstrar desinteresse e falta de vontade, por isso, é importante, que o docente saiba comportar-se nas diversas situações em sala de aula, no intuito de conceber no íntimo da criança a existência de um elo afetivo baseada no carinho, na confiança e no respeito.

[...] a sala de aula precisa ser espaço de formação, de harmonização, onde a afetividade em suas diferentes manifestações possa ser usada em favor da aprendizagem, pois o afetivo e o intelectual são faces de uma mesma realidade, o desenvolvimento do ser humano. (SARMENTO, 2010, p.14)

Partindo da ideia do teórico, é imprescindível que seja oferecida ao estudante um ensino de qualidade, ministrado por educadores preparados e dinâmicos, aptos a receberem os alunos e ajudá-los a evoluir integralmente, independente de suas dificuldades físicas e/ou psicológicas.

Para Miranda (2008), apesar de o professor possuir um elevado grau de conhecimento perante sua disciplina, isso por si só, não o constitui como algo completo. O estilo de conduta, ao qual ele interage com seus discentes, é que estabelecerá não só um bom rendimento escolar, mas também a qualidade da convivência afetiva na classe. Por este motivo, a presença em sala de aula de um professor rígido, autoritário e com o pensamento de “detentor do saber”, pode criar no aluno uma experiência ruim, podendo gerar no mesmo, sentimentos de baixa autoestima, tristeza, medo e insegurança.

[...] dedicar tempo à comunicação com os alunos, a manifestar afeto e interesse (expressar que eles importam para nós), [...] elogiar com sinceridade, [...] interagir com os alunos com prazer... O oposto é a rejeição, à distância, a simples ignorância a respeito dos alunos, o desinteresse... (mostrado ao menos por omissão). (MORALES, 1998, p.54)

É de grande valia que o educador sinta-se preparado a assumir uma postura amigável e receptiva para com seus alunos, no desejo de fortalecer entre todos, a permanência de um local afetuoso, propício para o desenvolvimento cognitivo, visto que, caso contrário, eles não se sentirão estimulados e com interesse em aprender, o que acabará por prejudicar não só a eles próprios, mas também aos demais colegas, no momento que estes passam a comportar-se indisciplinar mente, dificultando o fluxo normal das aulas.

Outro fator a se destacar é a dependência família-aluno-escola. Num mundo tão corrido e apressado como o atual, onde os pais estão cada vez mais preocupados com o trabalho e esquecendo-se dos filhos, não é raro encontrar crianças que tendem a suprir a figura materna e/ou paterna em seus educadores, pelo fato de enxergarem neles, atitudes que faltam em seus progenitores.

A escola não tem condições de suprir todas as carências existentes na formação educacional e cultural dos seus alunos. É claro que se deve exigir professores qualificados e acima de tudo preparados para realidade atual. Todavia, deve-se compreender que o papel da família também é imprescindível no processo ensino-aprendizagem. [...] (RAASCH, 1999, p.04)

Portanto, mais que repassar valores, os professores devem estar aptos a enfrentarem os reflexos desta falta de cuidados, em razão de que, querendo ou não, esta negligência interfere no espaço educativo, e provavelmente de uma forma negativa.

Outro ponto primordial na interação professor-aluno é a consideração do tempo de aprendizagem do discente. O docente precisa conscientizar-se que cada criança tem seu tempo próprio de absorção do conhecimento, igualmente qualquer indivíduo, em qualquer série escolar. É essencial conhecer a fundo cada aluno, com o objetivo de poder buscar métodos adequados de auxiliá-lo em suas dificuldades.

Contemporaneamente tem-se a compreensão de que a carreira de professor é mal recompensada e desvalorizada, o que ocasiona na maioria das adversidades ocorridas pelos profissionais de hoje, desde aqueles que já estão firmados na área, bem como os mais jovens que estão próximos de possivelmente escolher tal ocupação.

Assim, a convivência professor/aluno carece de ser fundamentada em ações afetuosas, visto que, além dessas ações influírem no aprendizado do aluno, essa é uma obrigação do professor enquanto profissional atuante. Por este motivo, é que na maior parte das vezes, o fracasso do aluno é o espelho do fracasso do educador no ato educativo; e mais que um contato afetivo, essa interação é profissional, pois, a execução de um bom exercício docente é a concretização de um bom trabalho, o que gerará bons resultados.

Contudo, ainda existem muitos educadores que estão insatisfeitos com o ofício, fazendo da atividade docente algo a se realizar apenas, pelo ato remunerativo. São pessoas que devido a difíceis oportunidades de trabalho e/ou frustações, atuam na educação no exclusivo intuito de se estabelecerem financeiramente, esquecendo-se (ou omitindo-se) do real papel que necessitam desempenhar: o de ensinar, e ensinar com competência.

A profissão docente é desafiadora, e os profissionais deste ofício devem enxergar-se como pessoas essenciais na formação da criança, empenhando-se para dar subsídios cognitivos e emocionais aos estudantes, a fim de torná-los capazes de progredir nos estudos e consequentemente na sociedade.

Logo, é preciso atentar-se de que antes de serem alunos, todos os discentes são pessoas que precisam ser aceitas e compreendidas; por esta razão, é de extremo valor que o professor se empenhe em construir com seus alunos boas relações, as quais sejam propícias ao surgimento de resultados positivos, como companheirismo, respeito, confiança e consequentemente a aprendizagem dos estudantes.

4. O PROFESSOR COMO SUJEITO TRANSMISSOR DE VALORES E CONDUTAS

O professor não é somente um mediador do conhecimento. Ele é visto também, como modelo pelos seus alunos, por isso que é imprescindível que o mesmo passe uma imagem verdadeira e comprometida com o aprendizado dos estudantes.

Querendo ou não, o professor não ensina apenas assuntos referentes ao currículo. Suas ações transmitem valores e condutas, as quais muitas vezes até ultrapassam o conteúdo das matérias. Por conta disso, ele é considerado mais que um profissional como os outros; suas ações influem sobre a dos educandos.  Partindo-se desse pressuposto, surge a necessidade do professor rever suas atitudes, no intuito de refletir se sua ação pedagógica é afetiva e se está contribuindo positivamente ou não, no rendimento educacional.

Como aponta Morales (1998), o ato de ensinar inclui muitos efeitos não desejados inicialmente pelo professor, mas que devido a certas atitudes, passam a existir. A relevância do educador diante do aluno gera reflexos no educando, em seus princípios, crenças, ações, e principalmente em sua autoimagem. Por isso, deve surgir a reflexão de que se é possível realizar tal interferência, cabendo a cada docente, se autoavaliar diante de sua prática docente e humana.

O modo como o aluno caracteriza a si mesmo é fundamental ao processo de ensino aprendizagem, e isso depende muito de como cada aluno é tratado. Isso quer dizer que se no ambiente escolar ele é levado a expressar suas ideias, suas dúvidas e anseios, o mesmo provavelmente sentira-se notado, e dessa maneira, capaz e preparado a adquirir mais conhecimentos. Do mesmo modo, se ele estiver num espaço que não há a expressão de suas opiniões e dificuldades, este terá grandes chances de possuir sentimentos de incapacidade e desvalorização.

A percepção que o aluno tem de si, possibilita a ele o desenvolvimento proveitoso ou não enquanto ser humano e estudante. Soligo (2001, p.05) apoia a concepção de que “Acreditar na própria capacidade é decisivo não só para a aprendizagem escolar, mas também para o desenvolvimento pessoal como um todo”. A escola influencia a autoimagem do aluno, pois o mesmo passa a notar-se impossibilitado de assumir-se enquanto indivíduo capaz de aprender. Esse julgamento de si mesmo pode provocar também conflitos em suas personalidades, aos quais podem dificultar a aprendizagem.

O educador não tem o dever de assumir papéis familiares. Entretanto, o que se ver, é que frequentemente este profissional assume a postura que deveria ser realizada por pais e/ou responsáveis, aos quais por variados motivos esquivam-se de tal obrigação. Por isso, em casos como este, uma simples palavra de carinho e/ou consideração pode fazer o discente sentir-se valorizado por alguém.

No entanto, sabe-se que na atualidade há muitas famílias desestruturadas e problemáticas, e que são justamente destas, que derivam os alunos aos quais necessitam de mais atenção. Por isto, se faz necessário dar estima a esses alunos carentes de atenção, pois frequentemente, essas crianças procuram apoio e confiança em seus professores.

No que se refere ao sentimento de baixa autoestima, que pode vir a se desenvolver na personalidade dos discentes, tem suas raízes fincadas na trajetória escolar da criança, a qual pode levar conceitos de inferioridade para a adolescência ou até mesmo para a vida adulta, traduzidos em atitudes como: resistência em apresentar trabalhos expositivos (por medo de errar, de o professor criticar), dificuldade em expressar opiniões próprias (pela inexistência da tomada de posições), sentimento de incapacidade intelectual (intitula-se ‘burra’), etc. Dessa maneira,

O professor pode ensinar mais com o que é do que com aquilo que pretende ensinar; seu modo de fazer as coisas implica mensagens implícitas de efeitos que podem ser positivos ou negativos; se aceitam ou recusam suas atitudes e seus valores, reforça-se o interesse ou o desinteresse pelo aprendido (pode aprender a odiar a matéria). (MORALES, 1998, p.25)

Isto posto, é conveniente destacar também, a influência que o professor tem sobre uma matéria e/ou aula específica. É comum ouvir relatos de pessoas que dizem possuir “traumas” de uma determinada disciplina específica. Apesar disso, ao deter-se às origens de tal acontecimento, verifica-se que muitas vezes não era a disciplina que o aluno temia, mas sim, o educador que a ensinava. Assim, a imagem contrária daquele professor estendia-se a matéria que ele ministrava, o que faz ser verdadeiro a afirmação de que

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[...] o contexto da escola, para além da sala de aula, também ensina. [...] O jeito de as pessoas se relacionarem, as atitudes dos adultos para com as crianças, a relação estabelecida com as famílias e a comunidade, [...] o tipo de sansão que se utiliza. (SOLIGO, 2001, p.06)

Junto com os atos do professor, o clima da instituição escolar também tem sua interferência na edificação de valores do indivíduo. É necessário que se estabeleçam regras igualitárias e que não sejam menosprezadas as aspirações particulares dos estudantes. Outro ponto a se contemplar numa possível desestabilização da autoestima do aluno é o jeito como lhe são dirigidas as críticas. É sabido que os erros são degraus na ‘escada’ do conhecimento, e é justamente por isso, que devem ser encarados pelo educador como mais um passo do discente na conquista do aprendizado. A utilização de críticas construtivas é um excelente recurso para criar no discente o sentimento de capacidade.

De maneira geral, pode-se confirmar que a tarefa docente vai além do ato pedagógico, do ensinar aquilo que está no planejamento semanal. Dar aulas ultrapassa a barreira do apenas ‘ensinar’, pois, isto já lhe é de sua natureza. Como resultado, mais que mediar à classe, o professor deve refletir sobre seus atos, a fim de edificar um relacionamento sadio e próspero com seus alunos, no intuito de torná-los seres autônomos, aos quais acreditam em si próprios e sejam capazes de vencer suas dificuldades.

5. A CONSTRUÇÃO DOS VÍNCULOS AFETIVOS NO AMBIENTE ESCOLAR

O ato de criar laços afetivos com os estudantes é essencial ao processo de ensino aprendizagem, visto que, é partir da confiança estabelecida entre professor e educandos, que se conseguirá alcançar resultados educacionais proveitosos. Porém, construir vínculos não é tão simples, cabendo ao educador ter qualidades como paciência e perseverança, configurando assim, em novas posturas didáticas que podem contribuir na construção dos vínculos afetivos, bem como demonstrar seus efeitos positivos no ambiente educativo.

Morales (1998, p.56) postula que “[...] não se pode aprender seriamente num clima de insegurança, tensão, medo e desconfiança [...]”. Desta forma, é importante destacar que por mais que o educador seja a autoridade máxima da sala, este não deve se impor no sentido de que só ele tem o direito de expor seus pontos de vista, pois isso, só tornaria a sala de aula num local desmotivador.

Diante do exposto, fica evidente que a adoção de determinadas atitudes podem fazer com que o discente sinta-se repreendido e sem ânimo para aprender, porque ele não se verá como aluno, e sim, como uma pessoa que está ali apenas para cumprir ordens e seguir o que diz o seu mestre.

Há também casos em que o professor aplica regras rígidas para os alunos cumprirem, como deixa-los sem recreio, sem conversas etc. Porém, há vezes de o educador não os explica o porquê de tais atitudes, o que acaba causando a impressão de que aquilo é apenas um ato de demostrar poder/autoritarismo (e não autoridade). Para Miranda (2008), a execução de tais ações autoritárias, tem como consequência, a reação negativa por parte dos discentes, que procuram expressar seu descontentamento com atos rebeldes e revoltosos. 

Contudo, o que ocorre é que a maioria dos profissionais saem da faculdade sem a devida preparação para a sala de aula, o que os faz deparar-se com fatos conflituosos imprevisíveis de ocorrer em suas docências. Sobre a ligação entre teoria e prática,

[...] os conhecimentos adquiridos terão que ser “postos” dentro de sala de aula em condições muitas vezes precárias e insuficientes. O desenvolvimento profissional torna-se um desafio constante, o professor precisa ter domínio de conteúdo, domínio de sala, de competências, habilidades e atitudes para enfrentar as adversidades da luta diária pelo aprendizado do aluno.

(SARMENTO, 2010, p.24)

Entretanto, é notório que na atualidade os professores enfrentam dia a dia, inúmeros impasses internos e externos ao espaço escolar, como desinteresse dos alunos, falta de apoio da gestão, excessivo número de alunos por turma, o que compromete negativamente a realização de suas funções com eficiência.

Nas palavras de Miranda (2008, p.02), “Ser professor não se constitui em uma simples tarefa de transmissão [...], pois, vai mais além e também consiste em despertar no aluno valores e sentimentos como o amor do próximo e o respeito [...]”. Portanto, mais que repassar conhecimentos didáticos, o educador possibilita também no aluno, a construção de princípios individuais e o incentivo às práticas de convivência universais, como o respeito e a tolerância.

Por isso, é importante que educador e estudantes reflitam a respeito de como andam suas relações e se o convívio entre eles está equilibrado e propicio a manutenção de um ambiente favorável ao êxito escolar.

É viável que professor e discentes proponham-se a investigar e desenvolver soluções para que se continue e/ou venham a existir vínculos afetivos entre os mesmos. Com isso, espera-se que os alunos despertem o entusiasmo pelo espaço escolar; entretanto, caso ocorra o contrário, deverá haver a busca pelo educador de recursos que favoreçam um relacionamento positivo entre ele e os discentes, e consequentemente, facilite a aprendizagem dos alunos.

Um dos pontos a se melhorar no vínculo educativo é a avaliação, pelo docente, do modo em que ele possibilita o desenvolvimento da autonomia do aluno em aprender. Assim,

[...] o respeito à autonomia e à dignidade de cada um é imperativo ético e não um favor que podemos ou não conceder uns aos outros. [...] O professor que desrespeita a curiosidade do educando, o seu gosto estético, a sua inquietude, [...] transgride os princípios fundamentalmente éticos de nossa existência.

(FREIRE, 1996, p.66)

Dessa maneira, suprimir a liberdade do aluno em querer estudar, privando-o de expor-se enquanto um ser curioso e inquieto é cortar as possibilidades de seu alcance ao sucesso. Cada aluno é heterogêneo e tem suas especificidades próprias, portanto, cabe ao educador trabalhar essas especificidades de modo a utilizá-las a favor do discente.

Por mais que se deseje, não há um educador perfeito, o que existe são professores aos quais carregam adjetivos que os tornam notáveis. Baseando-se nisso, Morales (1998) assevera que há características que fazem alguém ter traços de um bom professor; sem a necessidade de nenhuma pesquisa comprobatória, ele crê que os educadores prepotentes e recuados têm menos avaliações positivas que outros aos quais denotam compreensão e proximidade.

Vasconcelos et al. (2005, p.03) propõe que “o diálogo é de suma importância para a interação professor-aluno no fator psicológico, sendo vínculo entre o cognitivo e as ações concretas.” Assim, é um momento que aluno e professores comunicam-se abertamente, e onde são abertos caminhos para o alcance de soluções positivas, que levam ao sucesso escolar e uma boa relação em sala de aula. Por isso, compete ao pedagogo estar disposto a enfrentar possíveis transtornos em seu exercício didático, visto que

[...] a relação professor e aluno nem sempre acontece harmonicamente e nem sempre é um relacionamento tranquilo, portanto, cabe ao professor fundamentar a ação docente de modo a diminuir as tensões ocasionadas deste relacionamento. (KOSLOSKI e ANSAI, 2008, p.16)

No entanto, apesar do esforço de vários educadores para manter uma interação benéfica, de respeito e troca de conhecimentos com seus discentes, infelizmente ainda existem casos em que essa relação não acontece, e isso advém de fatores variados. Uma das causas de tal fato sucede da maneira em que ocorre o trato familiar, o qual por vezes, não cumpre seu papel da transmissão de valores, impondo à escola, a tarefa de atender esses estudantes, que na maioria das situações, são indisciplinados.

É relevante reafirmar que o sujeito central do processo educacional é o aluno: ele tem por direito na constituição, uma educação de qualidade e isso cabe não só as instituições de ensino em si, mas também à perspectiva própria de cada educador, que leva consigo os objetivos a serem alcançados por ele, no intuito de levar o discente ao êxito.

5.1. Afetividade e a indisciplina

A indisciplina é um dos principais problemas existentes na educação, e a afetividade (ou a falta dela) pode ser um grande contribuinte na existência de uma prática educativa favorável ao processo cognitivo. Os atos indisciplinares são um fator que dificultam a construção de vínculos com os discentes, podendo influenciar no modo como se estabelece o convívio entre professor e aluno.

Aquino (1996, p.53) postula que “[...] Horror pedagógico, a indisciplina é representada também como um desvio de conduta que [...] deve ser submetido a uma ação corretiva implacável para que não se alastre (o tumulto)”. Deste modo, nota-se o quão o estudo desse fenômeno é importante, visto que, é impossível falar-se em sala de aula sem tocar no aspecto comportamental. Assim, a ‘correção’ de um problema indisciplinar é necessário, para que a ação não vire um mau exemplo e transforme a classe numa desordem.

Quando um aluno não gosta de seu professor, não desperta o interesse pelo conteúdo, nem tampouco pela escola. No caso de um aluno indisciplinado, a indiferença ao professor, o motiva a fazer de tudo para não aprender, no intuito de desafiar o educador.

Os episódios de indisciplina requerem preparo e firmeza do educador, em razão de que não se resolvem rapidamente, sendo preciso calma e um intenso trabalho diário sob o aluno; logo, a afetividade assume um papel central na busca de um melhor convívio em sala de aula, já que o vínculo afetivo pode atuar como ferramenta primordial na transformação do discente afastado. Por esta razão,

A afetividade desperta a confiança do aluno para com o seu professor. Neste sentido, constata-se que a afetividade é fundamental no processo de ensino-aprendizagem, pois, todo o processo do desenvolvimento humano passa pelo aspecto social juntamente com a cognição [...]. (KOSLOSKI e ANSAI, 2008, p.11)

Por outro lado, quando o aluno tem uma interação sadia com o educador, tende a respeitá-lo, e baseado no afeto que sente por ele, passa a obedecê-lo, desse respeito, surge o entusiasmo pelo aprender, e a conduta do estudante fundamentar-se em não decepcionar o docente, visto que para esse aluno, seu professor assume um papel a ser reproduzido e ser valorizado.

O professor deve esforçar-se para conhecer seu aluno: seu modo de pensar, suas características individuais, seus gostos etc. Só assim, o docente conseguirá tornar-se próximo do educando, tendo a possibilidade de desenvolver a partir da afetividade, uma relação livre de desavenças e transtornos.

Uma das maneiras de se estabelecer com o aluno um contato inicial harmonioso é a utilização do contrato didático no inicio do ano letivo. O chamado contrato didático “[...] representa o conjunto de condutas específicas que os alunos esperam dos professores e que estes esperam dos alunos, e que regulam o funcionamento da aula e as relações professor-aluno-conhecimento.” (SOLIGO, 2001, p. 06). Assim sendo, o estabelecimento deste acordo, traz para o aluno a imagem de um educador comprometido com ele e com a aprendizagem; já para o professor, a afirmação desse acordo, define-se como um estímulo para a concretização dos objetivos. Desta maneira, alunos e professores terão um referencial de condutas, que pode ser consultado e/ou lembrado sempre que ocorrer conflitos em sala de aula.

O educador precisa estar preparado constantemente, seja com relação ao domínio de conteúdos ou quanto à mediação de possíveis atos indisciplinares. Em consonância a isso, Aquino (1996, p. 97) afirma que “O professor [...] precisa ter segurança tanto teórica quanto do manejo disciplinar — o que equivale à noção de respeito”. Logo, o respeito pelo professor, surgirá como resultado da visão dos alunos, de um sujeito preparado tanto do ponto de vista conceitual (que saber ensinar) e relacional (que sabe intervir e propor soluções).

O educador precisa mostrar ao aluno indisciplinado que os seus atos são prejudiciais ao processo de ensino aprendizagem, tanto aos seus colegas como a ele próprio. Sendo assim, o diálogo com este educando possibilita colocá-lo em confronto com suas atitudes errôneas em sala de aula. Entretanto, se isto não resolver, é vital que o sejam aplicadas punições ao estudante, de maneira que sirvam como exemplo para não tomada de atitudes similares.

Geralmente, como aponta Morales (1998), os discentes que se encontram desmotivados e indisciplinados, recebem críticas e mais desmotivações por parte do educador. Isto se configura como um aspecto negativo na relação professor-aluno, uma vez que a estes alunos ‘difíceis’, deve ser dada mais atenção, visto que a indiferença os torna ainda mais distantes, o que não soluciona o problema. É preciso transmitir-lhes apoio e confiança para que possam sentir-se capazes, e não apenas como aqueles só provocam bagunça.

Dado o exposto, constata-se que não há uma receita pronta para a não existência da indisciplina. Não se pode esquecer que a mesma é produto de outros fatos distintos (como problemas familiares, dificuldades de aprendizagem etc.), os quais demandam estudo e busca de soluções pelo educador. Assim, é eficaz que o docente procure a origem destes fatos, para que possa concretizar com os discentes, a efetivação de um ambiente propicia ao diálogo, a afetividade, e consequentemente, ao conhecimento.

6. CONCLUSÃO

A partir do que foi abordado durante todo este trabalho, reafirma-se que uma boa relação professor/aluno é aquela em que os vínculos didático-pedagógicos são constituídos de confiança, respeito e humildade. Assim sendo, construir relações pedagógicas baseadas na afetividade, configura um passo essencial para que professores e alunos mantenham-se em constante harmonia, facilitando assim, o processo de ensino aprendizagem.

Assim sendo, é perceptível que a relação professor/aluno efetiva-se com mais qualidade quando fundamentada pela confiança mútua entre docente e estudantes.  Reitera-se aqui, o caráter amplo da relação professor/aluno, ressaltando-se mais uma vez que afetividade não quer dizer falta de limites, pelo contrário, ela constitui-se como um aspecto que pode ser usado para minimizar os atos indisciplinares, aos quais devem ser punidos adequadamente quando necessário.

Portanto, cabe ao docente possibilitar ao aluno formas de mediar a informação, não a tornando algo privativo, visto que sua função é auxiliar os discentes a terem capacidade de adquirir conhecimentos. Ao passo que os docentes agem de forma cordial e motivadora, aumentam-se as chances de os discentes sentirem-se mais determinados a frequentarem as aulas, que passam a ser interativas e dinâmicas. Feito isso, esses estudantes despertarão o gosto pelo aprender, o que só virá a fortalecer o vínculo afetivo sadio entre eles e o professor, o que ocasionará no êxito escolar de ambos os atores do processo educativo.

7. REFERÊNCIAS

AQUINO, Julio Groppa. CONFRONTOS NA SALA DE AULA. UMA LEITURA INSTITUCIONAL DA RELAÇÃO PROFESSOR ALUNO. São Paulo: Summus, 1996.

BARREIROS, Jaqueline Lopes. FATORES QUE INFLUENCIAM NA MOTIVAÇÃO DE PROFESSORES. 2008. 105 f. Monografia — Curso de Psicologia do UniCEUB. FACULDADE DE CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO E DA SAÚDE. Brasília, 2008. Disponível em: http://repositorio.uniceub.br/bitstream/123456789/2581/2/20312042.pdf. Acesso em: 24 Jan. 2017.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática pedagógica. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

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Publicado por: Francisco de Assis Queiroz

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