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Niilismo e a Pedagogia Tecnicista

Educação

O conceito de Niilismo segundo Nietzsche, o aprofundamento acerca das questões que envolveram a Pedagogia Tecnicista, a crítica filosófica relacionada à educação brasileira atual e o desenvolvimento do conceito de Niilista Educacional.

índice

1. Resumo

O objetivo do presente trabalho é levantar questionamentos acerca da Pedagogia Tecnicista, utilizando o conceito de Niilismo, descrito por Nitzsche, como uma forma de crítica ao modelo educacional citado. Questionamentos esses que se inicia no momento da elaboração da Pedagogia Tecnicista, no desenvolvimento de sua prática e no impacto que a mesma causa na aprendizagem dos educandos. Fazendo uma conexão entre o Niilismo e estes questionamentos. Porém sem a intenção de determinar um modelo educacional superior a Pedagogia Tecnicista.

Palavra – Chaves: Niilismo, Pedagogia Tecnicismo, Meritocracia

2. Introdução

Ao realizar este trabalho proponho uma reflexão filosófica a partir do conceito de Niilismo, desenvolvido por Nietzsche. Fazendo uma conexão do conceito com a Pedagogia Tecnicista, desenvolvida por Anísio Teixeira, e seu legado deixado na organização escolar brasileira. Que apresenta como suas principais caraterísticas ser: multidisciplinar, técnica, sistematização do ensino, excludente e idealizada.

A multidisciplinaridade se caracteriza pela separação das disciplinas de forma que uma não dialogue com a outra, impedindo que haja maior aproveitamento do aprendizado. A técnica se dá no dia a dia escolar, em que o professor segue um roteiro de aula pré-determinado e passa o conteúdo para seus alunos seguindo este roteiro. A sistematização do ensino, que promove uma escala de conteúdos a serem repassados em sala. A exclusão ocorre em consequência da sistematização do ensino e técnica utilizada nas salas de aula. O aluno que não alcança o resultado desejado é considerado incapaz. A idealização escolar é o maior legado deixado pela Pedagogia Tecnicista. É através da educação que muitos acreditam poder chegar a uma ascensão social.

A Pedagogia Tecnicista desenvolvida no Brasil por Anísio Teixeira introduziu nas instituições escolares uma nova maneira de lecionar. Ela trouxe um currículo definido, em que o professor deveria portar-se de determinada forma com relação a seus alunos, seguindo uma programação nas aulas, e os educandos tinham que ser preparados para o mercado de trabalho. A Educação Tecnicista foi uma promessa de melhoria social.

A Educação Tecnicista propôs a sociedade uma nova forma de pensar a escola e a educação. As aulas passaram a ser programadas, com conteúdos preparados em forma de sistema para que fossem repassados aos estudantes. As disciplinas passaram a ter caráter formativo, ou seja, era ensinado o que poderia a vir a ser utilizado futuramente em uma profissão. Os professores deveriam agir como meros reprodutores de saber, sem manter nenhum vinculo com os estudantes. Que eram preparados tanto de forma escolar quanto de forma institucional para o mercado de trabalho.

O filosofo alemão Friedrich Nietzsche traz em suas obras diversas criticas a educação e a sociedade ocidental. Além de o conceito de Niilismo, segundo o autor a crítica a um ideal criado pelo homem. Ideal este que é depositado em diversas esferas da vida do homem da cultura ocidental. Mas aqui trabalharemos com o ideal criado pelo homem sobre a educação que faz com que o mesmo abdique de suas vontades e necessidades em função desta ideia.

O niilismo é pois o conhecimento do longo desperdício da força, a tortura que se ocasiona esse “ em vão”, a incerteza, a falta de oportunidade de se refazer de qualquer maneira que seja, de tranquilizar-se em relação ao que quer que seja. (Nietzsche, s/d, , p.88)

Nietzsche traz em suas obras outros conceitos importantes para a reflexão que será apresentada ao longo do trabalho, como por exemplo, o “valor superior”. Que são valores morais ou princípios impostos pela sociedade. Trazendo este conceito para o âmbito da educação pode-se dizer que este valor superior seria a dedicação exclusiva aos estudos, a obtenção de boas notas ou a abdicação de sua vontade em prol de se tornar um bom aluno.

Por isso questionar a Pedagogia Tecnicista e os conceitos educacionais desenvolvidos por Anísio Teixeira e seus desdobramentos até a atualidade. Requer entender também o caráter político e social do momento em que este modelo educacional chegou ao Brasil. Ter senso crítico de perceber que dentro deste conceito há também interesse políticos para a manutenção de uma escala social.

O objetivo é percorrer a imensa, longínqua e recôndita região da moral – da moral que realmente houve, que realmente se viveu – com novas perguntas, novos olhos: isto não significa praticamente descobrir essa região? (Nietzsche, 1999, ,p.13)

A partir disso o objetivo deste trabalho não é criar um novo modelo educacional que seja melhor ou menos técnico do que o citado a cima. Mas sim levantar questionamentos, e até mesmo hipóteses, do por que a Pedagogia Tecnicista criada na década de 30 e que foi implantada nas escolas na década de 70, tem vigorado, mesmo que de forma mais camuflada, até os dias de hoje nas instituições de ensino.

Julgando importante o ato de se pensar nos problemas que envolvem a educação. Porém não olhando apenas para o presente, mas buscando respostas também no passado e na história da mesma. Uma educação que forma para o trabalho delimita a capacidade crítica de todo aquele que passa por seu ciclo. Levantar críticas a esse modelo educacional faz pensar em mudanças que podem ser feitas no mesmo e nos que nele estão envolvidos.

A pesquisa biográfica feita neste trabalho se dá através do fichamento de textos e resenhas de livros dos autores Anísio Teixeira e Friedrich Nietzsche. Além de a busca por documentos curriculares referentes Pedagogia Tecnicista.

Sendo dividida em quatro capítulos. O primeiro fará uma discrição do conceito de Niilismo, segundo Nietzsche. O segundo um aprofundamento a cerca das questões que envolveram a Pedagogia Tecnicista. O terceiro a critica filosófica mais aprofundada relacionada à educação brasileira atual. O quarto o desenvolvimento do conceito de Niilista Educacional.

3. Niilismo

O conceito de niilismo deriva da palavra nihil, que significa “nada”. Tendo como significado no senso comum da filosofia uma forma de conduzir a vida sem ideais, valores superiores ou princípios. Porém quando é descrito por Nietzsche o faz de forma contrária. O niilismo descrito pelo autor é aquele que pauta a vida em valores superiores e princípios morais. Que nega a sua vida, seus afetos e suas próprias vontades em virtude de um ideal ou valor superior a ser seguido.

Que absolutamente não existe verdade: que não há uma modalidade absoluta das coisas, nem “coisas em si” – Isto propriamente nada mais é do que o niilismo, e o mais extremo niilismo. Ele faz consistir o valor das coisas precisamente no fato de que nenhuma realidade corresponde nem correspondeu a tais valores, os quais são nada mais que um sintoma de força por parte dos que estabelecem escalas de valor, uma simplificação para conquistar a vida. (Nietzsche, s/d, p. 87)

Nietzsche critica a negação da vida em nome de um ideal a ser alcançado. Em sua leitura do conceito de Niilismo ele aponta Platonismo, que faz uma divisão do mundo entre sensível e inteligível. Ele os descreve, não só como também, na alegoria da caverna em “A República”, livro VII. Em que o mundo sensível é onde se encontram os escravos amarrados dentro de cavernas, vivendo de sombra e ilusão. Este é um mundo relativo. Já o mundo inteligível encontra-se fora da caverna, onde estão os filósofos. Que conseguiram libertar-se de suas amarras e podem ver o mundo real, como ele verdadeiramente é. Este mundo é absoluto e real.

Platão descreve mundo sensível como um mundo que não é bom. Ele é apenas para os fracos, para aqueles que não têm o conhecimento e que não são capazes de enxergar a suas amarras. Já o mundo inteligível é descrito como o mundo perfeito. Em que apenas os sábios estão. Os que são possuidores de conhecimento e assim conseguiram libertar-se de suas amarras. Em suma, os filósofos.

- O filosofo grego passava pela vida com o sentimento secreto de que havia muito mais escravos de que se imaginava – ou seja, de que era escravo todo aquele que não fosse filosofo; seu orgulho se inflava, ao considerar que também os mais poderosos da terra contavam entre esses escravos seus. Também esse orgulho nos é estranho e impossível; nem metaforicamente a palavra “escravo” tem para nos a sua plena força. (NIETZSCHE, 2002, , p.68 – 69)

Para Nietzsche, Platão é um niilista. Pois para deixarem o mundo sensível e adentrarem ao mundo inteligível, os filósofos precisariam negar a vida, as suas vontades e sua percepção. Já que no mundo inteligível todas as coisas são absolutas e concretas.

Nietzsche também faz referências a Aristóteles. Este defendia a ideia de que o cosmos controlava o universo. Que o cosmos era o próprio universo que transcende a vontade do homem. Agindo de acordo com aquilo que á estava destinado a acontecer. O filosofo desvalorizava o caos da vida em nome de um ordenamento do universo. Acreditava que todo aquele que se se submete a este ordenamento universal era o que levaria a melhor vida. Ou seja, do aquilo que era de vontade de vida e que não se encaixava na ordem do universo deveria ser negado.

Para Nietzsche, ao fazer essa defesa, Aristóteles tornava-se também um niilista. Pois ele negava a vontade de vida do homem, em função de uma ideia de que era o próprio universo que conduzia toda a vida humana da melhor forma. E que o homem não poderia se envolver neste processo.

A crítica feita por Nietzsche ao niilismo inicia ainda na mitologia grega, em que Zeus, como cosmos, controla o universo entra em conflito com os Titãs, como o caos da vida. Estendendo-se até o cristianismo, em que Deus controla a vida e promete ao homem um mundo melhor para viver após a sua morte. O homem então nega a si próprio e suas vontades a fim de alcançar a dádiva de viver neste novo mundo.

A partir do momento em que tanto a idéia de Cosmos, quanto a crença em Deus caem em descrédito para a sociedade. O homem, segundo Nietzsche encontra novas formas de continuar a praticar o niilismo. Ao desenvolver ideias como a democracia e os direitos humanos, o homem passa a acreditar em uma sociedade utópica, em que tudo funcionará perfeitamente.

Por isso Nietzsche compara os comunistas aos cristãos. Os comunistas vivem em função de alcançar a sociedade ideal para todos, uma sociedade sem classes. Enquanto que o cristão busca a vida ao lado de Deus, em um novo e perfeito mundo.

Mas de quando em quando me concedam – supondo que existam protetoras celestes, além do bem e do mal – uma visão, concedam-me apenas uma visão, de algo perfeito, inteiramente logrado, feliz potente, triunfante, no qual ainda haja o que temer! De um homem que justifique o homem, de um acaso feliz do homem, complementar e redentor, em virtude do qual possamos manter a fé no homem! (Nietzsche, p.35, , 1999)

4. Niilismo e educação

O niilismo descrito por Nietzsche em suas obras pode ser associado a diferentes áreas da sociedade. A educação escolar, por exemplo, é uma delas. Que desde seu inicio traz a ideia de mudança de vida e ascensão social a partir da participação na mesma.

A educação escolar que seapresenta com a função de “domesticar” o homem e forma-lo para viver em sociedade. Alguns dos que por ela passaram conseguiram ser vistos melhor socialmente por terem apresentado bons modos nos mais diversos ambientes e conseguirem manter um bom nível de conversa. Com o passar dos anos e as novas necessidades da sociedade a educação escolar passar a ter não só o objetivo de domesticar o homem para a sociedade, mas também forma-lo para o mercado de trabalho de acordo com suas necessidades.

Na década de 70, o educador Anísio Teixeirai2 traz para o Brasil uma nova concepção de organização escolar: a Pedagogia Tecnicista. Tendo como principal função servir ao mercado industrial, que naquele momento apresentava grande defasagem de mão de obra.

Essa nova concepção escolar trouxe junto com ela a falsa promessa de mudança de vida e uma possível ascensão social, para aqueles que se dedicassem intensamente aos seus estudos. Trouxe também princípios a serem seguidos.

A Pedagogia Tecnicista foi uma das responsáveis por reafirmar na sociedade brasileira o niilismo descrito por Nietzsche. Ela incorporou-se a sociedade regada de valores e princípios a serem seguidos. Criou-se um ideal a ser seguido e alcançado dentro da educação.

Se a promessa desta era mudar a vida e progredir financeiramente, era necessário que fossem seguidos algumas “regras”. Para que prometida ascensão social fosse alcançada. Em suma, negar as suas vontades para adequar-se em um padrão, a fim de alcançar um ideal: a ascensão social.

5. A técnica se dá no dia a dia escolar

O educador Anísio Teixeira trouxe ao Brasil um novo e renovado modelo de educação, que estava associado a uma concepção filosófica da construção de uma ideia democrática. Em que tinha como objetivo fundamentar uma educação baseada na experiência, no desenvolvimento científico e técnico. Com o dever de ser formadora de uma visão experimental. Assim ficaria para a escola a função de preparar o aluno para o mercado de trabalho, porém visando formar cidadãos mais democráticos. Para isso a escola deveria ser uma pequena sociedade, pois a mesma deve ser feita segundo como o local em que se vive e não para a preparação do viver. Nesse sentido a escola é organizada de modo a que venha, de forma gradual, dar uma nova ordem a sociedade. A escola desenhada pelo educador não tem só a função de educar, mas a de politizar seus educados.

Trata-se de um “modo de viver” que a escola pode ajudar a construir, fazendo do individuo um scius, um membro efetivo da sociedade. Nesse sentido, a instituição escolar deveria estar organizada como espaço de reconstrução da experiência e de formação de novos hábitos, que necessariamente tem efeitos políticos. (MOREIRA, 2007, pág ?)

O que a escola proposta por Teixeira buscava de fato, eraa adequação da sociedade a modernização que necessitava ser feita no Brasil. O país carecia de mão de obra, uma vez que desejava implantar em seu território indústrias e consequentemente novos maquinários, precisava também de trabalhadores que soubessem manipular tal equipamento. Por isso a necessidade de preparar o mais rápido possível o povo para que este pudesse trabalhar. Tal escola trazia para seus educandos a possibilidade de libertação da pobreza. Trazia ao povo um ideal a ser alcançado. Ideal este desejado por todos.

O mundo verdadeiro, inalcançado, indemonstrável, improferível, mas já enquanto pensado, um consolo, uma obrigação, um imperativo. (Nietzsche, 2014, , p.31)

O mundo inalcançado citado por Nietzsche pode ser entendido aqui como uma possível ascensão social prometida através da Pedagogia Tecnicista. Que o aluno deseja alcançar através da educação. Tornando-se então um consolo para tudo que ele passa em sua vida escolar e uma obrigação, uma vez que ele dedica-se intensamente a isso.

Em função de ser voltada para o mercado de trabalho a Pedagogia Tecnicista, introduziu novos métodos de ensino mais técnicos e sistematizados. Utilizados em sala de aula, a fim de seguir a organização industrial. Para isso era necessário treinar os professores para que estes fossem capazes de dar andamento as aulas.

O ensino escolar deveria ser organizado a fim de criar diversas condições de estímulos a serem feitos pelo professor, utilizando-se do sistema de recompensas. Há uma busca pelo controle comportamental do aluno em variadas situações, esperando sempre um previamente estabelecido.

A aprendizagem baseia-se na psicologia de Skinner, em que há motivação ou retenção, que resultam em um comportamento condicionado. Em que quando o aluno dá uma resposta esperada, ele é motivado, porém se der uma resposta errada é retido.

As etapas básicas de um processo ensino-aprendizagem são: a) estabelecimento de comportamentos terminais, através de objetivos instrucionais; b) análise da tarefa de aprendizagem, a fim de ordenar sequencialmente os passos da instrução; c) executar o programa, reforçando gradualmente as respostas corretas correspondentes aos objetivos. O essencial da tecnologia educacional é a programação por passos seqüenciais empregada na instrução programada, nas técnicas de microensino, multimeios, módulos etc. (LUCKESI, Tendências Pedagógicas)

Ao professor cabe apenas o papel de transmissor de conhecimento. Ele transmite o conteúdo ao aluno, que recebe, aprende e fixa. Professor e aluno não mantem uma relação de diálogo, eles são apenas componentes do sistema escolar. Essa técnica escolar acaba prejudicando não só o rendimento do educando, mas também sua autoestima.

A matéria escolar, para uso do professor, no ponto de vista que assumimos, será organizada em bases, que, segundo o conselho de Kilpatrick, devem obedecer a seguinte ordem (FoundationsofMethod, p.361): 1.Descrição clara da teoria, salientando-se os objetivos novos, o que visa seu ensino.
2. Projetos diversos, descritos em detalhes, para mostrar o que se deve esperar, e por que, de um ensino por meio de atividades e empreendimentos com um fim em vista. Indicação de resultados obtidos.
3. Lista de projetos em número superior aos que possam ser praticamente usados, como referencia de material e aparelhagem necessários.
4. Indicação dos resultados que se devem esperar com relação a matéria, pondo-se maior relevo na aquisição de hábitos e atitudes, geralmente esquecidos na escola tradicional. Essa indicação servirá para que os professores e os alunos meçam e estimem o progresso que estão fazendo.
5. Material para os alunos se exercitarem nesse ou naquele ponto de estudo. (TEIXEIRA, 2007, p. 85 - 86)

O professor que se concentra exclusivamente em passar aos seus alunos o conteúdo das disciplinas, não consegue perceber os problemas que cercam a sala de aula. Ele contribuiu, mesmo que sem querer, para transformar o educando em um ser humano padronizado. A Pedagogia Tecnicista se preocupa exclusivamente em preparar um futuro trabalhador, não torna o estudante um sujeito crítico. Trata-se de uma aprendizagem controladora, que impede o crescimento pessoal do aluno.

No campo da educação, entretanto, o ímpeto renovador demorou a fazer-se sentir. Os sistemas educativos são, de sua índole, conservadores. A carapaça da rotina os envolve e paralisa. (LIMA, s/d, P.70)

A Pedagogia Tecnicista mostra-se como um modelo educacional inovador quando lançado no país. Pois neste período a educação brasileira era vinculada aos conceitos da Igreja Católica. Este novo modelo educacional se apresentava como laico e gratuito para todos. Porém a Pedagogia Tecnicista repassa para os seus alunos as mesmas ideias já construídas, formuladas e rotineiras, não deixando espaço para novas criações e debates. Como Lima cita acima, a rotina envolve e paralisa o estudante, o deixando com uma falsa sensação de crescimento intelectual, quando na realidade ele está onde se espera que ele esteja. Essa sensação aumenta a cada novo nível alcançado pelo aluno e que o faz crer ser mais sábio do que os que estão abaixo dele.

Na linha desse pensamento, descobriu Anísio o fio condutor de um saber operativo adequado a localizar e definir dificuldades, a utilizar dados e conhecimentos autorizados de conclusões aceitáveis porque experimentalmente comprovadas. Então, o saber reverte-se de qualidade específica. É saber por que resolve. Emergente de atividades originária de uma situação de perplexidade encerra-se pelo desfecho conclusivo de uma resposta. (LIMA, s/d, p.76)

Pode-se entender que a Pedagogia Tecnicista, baseava-se nas necessidades sociais para se desenvolver. Após o reconhecimento de um desfalque para determinada área de produção, criava-se uma nova área de ensino totalmente baseada nas futuras tarefas deste trabalhador. Tarefas essas, que já estavam definidas pelo cargo que ocuparia ao terminar sua formação. Sendo assim, esperava-se obter resultados específicos não levando em consideração variações do mesmo.

Lima deixa claro em sua fala, que Anísio Teixeira fixava apenas em obter saberes que poderiam ser utilizados para solucionar problemas, descartando saberes diferenciados e que fugiam a este propósito. Este é para minha pesquisa o traço mais importante da Pedagogia Tecnicista. É nele que percebemos o quanto este modelo educacional é excludente e autoritário para com seus alunos. Ao obrigar o educando a fixar-se em apenas uma meta, limita-se sua capacidade de pensar, refletir e elucidar diante das situações do dia a dia. Criando não só um trabalhador que futuramente será como uma máquina, limitado a fazer apenas a sua função e saber apenas aquilo que lhe é designado. Mas cria-se também um ser humano pouco capaz de lhe dar com as dificuldades e variações que a própria vida humana lhe impõe. Deixando-o então despreparado para a própria vida e prisioneiro de apenas um ideal de vida.

A moral contranatural, isto é, quase toda moral que até agora foi ensinada, venerada e pregada, dirige-se, ao contrário, precisamente contra os instintos de vida – ela é, por vezes secreta, por vezes ruidosa e insolente, condenação desses instintos. (Nietzsche, 2014, p. 36)

O homem que se forma a partir destes ideais de vida, não é capaz de ceder as suas próprias vontades. Ele nega sua vontade de viver, mesmo que de forma inconsciente, em função do que se pode chamar aqui de moral contranatural, citada acima por Nietzsche. Se esta moral é tudo que lhe foi ensinado, e a este homem foi apenas ensinado a seguir regras, padrões e obter respostas produtivas, ela nega seus instintos de vida. Já que para isso, ele teve que abdicar de suas vontades humanas. Vontades estas, que não podem jamais ser listadas em conteúdos preparatórios para um futuro trabalhador. Pois um bom trabalhador deve focar-se primeiramente em sua função. Preparar-se gradualmente para isso, passando mais tempo dentro de seu ambiente de trabalho e dedicando-se o máximo puder. Para que futuramente ele possa ser reconhecido e possível promovido. E assim ficar em uma camada social acima dos que antes eram seus colegas.

É exatamente esta lógica que vigora nas instituições escolares com a Pedagogia Tecnicista. Cria-se um aluno padronizado, focado e disciplinado. Assim como, cria-se um professor padronizado, focado e imparcial com relação aos seus estudantes. Formula-se um conjunto social, dentro da instituição escolar, que tem como objetivo principal obter resultados específicos. Conjunto social este, baseado em uma metodologia científica industrial de caráter invariável em sua busca.

Ele admirava a instrumentalidade cientifica industrial que movia a civilização, com ela convivera nos Estados Unidos, seu maior figurino, e manifestava a confiança de que o homem soube-se servir-se de suas possibilidades para libertar-se da pobreza, da ignorância e da opressão. (LIMA, s/d, p. 83)

Segundo Lima, pode-se entender que Anísio Teixeira acreditava que este era o caminho mais natural para que o homem pudesse não só evoluir socialmente. Mas libertar-se do que o próprio homem produziu: a pobreza, ignorância e a opressão. Mesmo que seu sistema de ensino não fosse nada mais do que um modo de manutenção destes problemas sociais.

Assim, caberia à escola ajudar a preparar os alunos para um mundo marcado pela ciência e pela indústria, mas tendo como meta a construção de uma sociedade cada vez mais democrática. Não se tratava, contudo, de transmitir teorias sobre a democracia, mas de formar cidadãos com o espirito da pesquisa, da busca do conhecimento; socializa-los da forma que pudessem desenvolver hábitos compatíveis com os ideais de uma sociedade moderna e democrática. Para isso, a escola deveria ser transformada em uma “sociedade em miniatura”, em que fosse possível aprender partindo da experiência. (TEIXEIRA, 2007, p.16)

Ao sugerir que a escola se transforme em uma sociedade em miniatura, Anísio Teixeira sugeria também que os problemas encontrados na grande sociedade invadissem o ambiente escolar. Como, por exemplo, as segregações por classes sociais, acesso a cultura, qualidade de vida e conhecimentos gerais. O que torna todo o modelo da Pedagogia Tecnicista, um modelo contraditório. Pois ao montar um sistema de aulas para o professor e retirar dele o poder de socialização com os alunos. Como se pode então tornar a escola um ambiente democrático, se o primeiro feito deste modelo é colocar o professor como figura detentora do saber dentro da sala de aula? E como abrir diálogos e canais de socialização entre os estudantes se o objetivo final é obter uma única resposta/ resultado na formação deste individuo?

O ambiente social é fundamental na escola. Ele propicia o desenvolvimento da personalidade. A civilização técnico-industrial de nosso tempo acelerou de tal maneira as transformações sociais e complicou de tal modo o processo de transmissão direta e atual da cultura que a escola deve aparelhar-se quantitativamente e qualitativamente para acompanhar a estabilidade e continuidade do processo social numa civilização em mudanças. (LIMA, s/d, p. 81)

A Pedagogia Tecnicista busca construir uma sociedade democrática partindo ainda da escola, mas esta mesma Pedagogia induz os envolvidos nela a se envolverem cada vez mais em um processo de padronização, competição e exclusão no ambiente escolar. Que se estende por toda a vida dos indivíduos chegando até a grande sociedade, porém em uma escala muito maior do que se vê dentro dos ambientes escolares. Ela deseja acompanhar as mudanças sociais. Porém à medida que a sociedade se torna cada vez mais competitiva e individualista a escola se torna também. A escola passa a ser uma pequena sociedade hierarquizada e individualista.

Podemos perceber a nova finalidade da escola, quando refletimos que ela deve hoje preparar cada homem para ser um individuo que pense e que se dirija por si, em uma ordem social, intelectual e industrial eminentemente complexa e mutável. (TEIXEIRA, 2007, p.36)

A escola de Anísio Teixeira ao preparar o homem que “se dirija por si” faz dele um homem que encontra apenas em si a verdade, mesmo que está tenho sido incumbida a ele. Não traz forma o educando em um cidadão autônomo, mas em um cidadão individualista. Ao propor que este pense por si em ordem social, ele propõe também a sua localização social. Mesmo que esta ordem seja mutável, ela ainda será complexa, o que faz com que a ordem seja difícil de ser modificada. O autor propõe ao seu educando, futuro cidadão, que ele pense primeiro em seu lugar social, seu nível de intelectualidade e sua utilidade industrial. Ele denomina uma série de níveis para que cidadão penso de forma hierarquizada.

6. A exclusão ocorre em consequência da sistematização do ensino e técnica utilizada em sala

A Pedagogia tecnicista contribuiu para que a separação social ocorra cada vez mais cedo na vida dos indivíduos. Ao esperar dos estudantes um resultado pré-determinado, aqueles que não alcançam tal resultado são considerados incapazes e consequentemente inferiores aos que conseguiram.

Ao sistematizar o ensino escolar, ao organiza-lo de forma escalar e hierárquica retira-se uma grande parcela de conteúdos que poderiam ser trabalhados em sala, como as artes e música. E ao fixar-seemuma técnica ou “roteiro” organizado perdem-se novas possibilidades de aprendizagem dentro das salas de aula.

A organização escolar proposta por Teixeira, em que há uma hierarquização entre, organização de conteúdo, professor e aluno, nesta ordem, disfarçada de modelo social e democrático traz aos seus envolvidos mais fracassos do que sucessos. Fracassos esse que ocorrem em consequência de tal organização.

Fracassos esses que tomam grande espaço dentro das instituições escolares. Um aluno que consegue compreender a matéria, mas não responde ao professor da maneira esperada é desconsiderado. Este aluno é forçado a pensar como o preparador do programa de seu professor pensou, para então chegar a uma resposta. Ele tem seu pensamento moldado segundo aqueles padrões. Ao contrário do aluno que segue a lógica ensinada pelo professor e chega à resposta deseja sem nenhuma variação, é considerado mais sábio do que o outro.

Ao intitula-lo de sábio, o coloca em uma posição superior a dos demais estudantes e assim o incentiva a dedicar-se mais a sua vida estudantil. Em que este começa a optar pelos seus sonhos escolares, do que pela sua vida juvenil. A este estudante é ensinado que quanto mais ele dedica-se a escolaridade, mais sucesso ele obterá no futuro de sua vida. Ele é então impregnado por essa verdade. E a coloca como prioridade em sua vida, mesmo que sem perceber o que está fazendo.

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A moral contranatural, isto é, quase toda moral que até agora foi ensinada, venerada, e pregada, dirige-se, ao contrário, precisamente contra os instintos de vida – ela é por vezes secreta, por vezes ruidosa e insolente, condenação desses instintos. (Nietzsche, 2014, p. 36)

Pode-se comparar esta verdade a moral contranatural citada por Nietzsche. Ela é ensinada aos estudantes, venerada por alguns deles e pregada por todos aqueles que nela acreditam. Sendo também ruidosa, pois soa em cada âmbito da sociedade. É esta moral que prega para todos que ao dedicar-se absolutamente aos seus estudos e debruçar-se sobre livros por horas de seu dia, todos alcançaram um novo caminho em sua vida. É também insolente, pois soa para aqueles que por algum motivo não podem dedicar-se com tanto afinco aos seus estudos, culpando então a eles mesmos.

Essa moral é contra todo e qualquer instinto de vida. Condena aqueles que privam por suas vontades e necessidades, sejam elas quais forem. E exalta todo aquele que a venera, que nega a si mesmo em sua função. Em função de uma suposta ascenção de vida.

Moral conforme foi entendida até agora – conforme, em ultima instância, foi formulada por Schopenhauer enquanto “negação da vontade de vida” – é o próprio instinto de décadence, que faz de si um imperativo: essa moral diz: “pereça!” – ela é o juízo dos condenados... (Nietzsche, 2014, p. 37)

Coloca-se a possibilidade de ascensão de vida, como um único objetivo a se cumprir, coloca o como um bem maior. Em função dele nega-se seus desejos, vontades e instintos. Nega-se sua vontade de vida. Negação essa que se enraíza cada vez mais profundamente nas instituições escolares e na sociedade. O educando que nega a si mesmo enquanto jovem, negará a si mesmo quando adulto e passará adiante sua própria negação de vida. Seu próprio Niilismo.

A partir disso cria-se o Niilista educacional, que teve desde sua infância o ensinamento a dedicar-se aos seus estudos, e quando crescer levará consigo essa verdade. O niilista é aquele que tem sua vida pautada em valores superiores, valores morais e princípios. Ele nega o mundo da vida em nome da verdade absoluta, cuja qual, ele acredita. O niilista é um resultado da moral contranatural.

O niilista educacional é considerado superior dentro da instituição escolar. Ele é supervalorizado pelos seus professores, é visto com um melhor que os demais. Ele é um mecanismo do mesmo sistema que excluí aqueles que não o seguem. Aqueles que não dedicam grande parte de seu tempo aos estudos ou que não tem a aprendizagem conforme se espera.

A Pedagogia Tecnicista espera de seus educando aprofundamento total em seus estudos, em seu aprendizado e um perfeito resultado. Espera um aluno padronizado, que responde aos seus incentivos da maneira esperada, um aluno que negue a si mesmo. Aqueles que fogem a este padrão, que não respondem esses incentivos, são excluídos em sala de aula. São comparados aos niilistas que acabam sendo considerados superiores aos demais.

Assim começa a exclusão escolar. O aluno que não obtêm um bom aprendizado sente-se diminuído perante os demais, aquele não adequa-se a rotina e ao comportamento escolar é mal visto por seus professores e pelos seus próprios responsáveis, aquele que por motivos variados não pode dedicar-se com afinco aos estudos é visto como desinteressado. Enquanto que o niilista educacional é exaltado por todos, até mesmo pelos que não são como ele.

Todos os envolvidos neste processo são parte do sistema escolar da Pedagogia Tecnicista. O professor que é treinado para dar aulas, o aluno que não responde como o esperado, a sociedade que cobra de cada educando e principalmente o niilista exaltado por todos. Pois neste modelo educacional busca-se criar um homem dentro de padrões, um homem que irá portar-se exatamente como se espera, um homem que não fará muitas coisas de sua vida, que apenas viverá em função de um ideal a ser alcançado.

Sairemos dessas origens para chegarmos, afinal, ao homem educado, que não é outro senão aquele que sabe ir e vir com segurança, pensar com clareza, querer com firmeza e executar com tenacidade, o homem que perdeu tudo que era desordenado, informe, impreciso, secundário em sua personalidade, para tê-la, nítida, disciplinada e lúcida. (TEIXEIRA, 2007, p.22)

Exclui-se então aquele jovem que não se deixa modelar, padronizar. Aquele jovem que ainda guarda em si a capacidade de pensar por sua própria cabeça, que tem ideias diferenciadas, que consegue enxergar muitos caminhos para um só destino. Este jovem é considerado um mau elemento de comportamento e mau estudante. Ele é negado. E então o próprio exclui-se do sistema por não se achar bom o suficiente. Quando na realidade ele é um jovem capaz de ver e viver além do sistema que não só a Pedagogia Tecnicista impõe as escolas, mas que também está impregnado em toda a sociedade.

Porém ao excluir-se do sistema, este jovem se coloca como inferior aos demais. Ele se enxerga como alguém incapaz, que não merece investimentos, enxerga-se como um inadequado para dar continuidade aos seus estudos. O que causa neste jovem uma profunda marca em sua trajetória de vida.

Estão condicionados como castigo, como pagamento por algo que não fizemos, por algo que não deveríamos ter sido universalizando de forma impudente por Schopenhauer em uma proposição na qual a moral aparece como aquilo que ela é, vale dizer, como autentica envenenadora e caluniadora da vida: “toda grande dor , seja corporal, seja espiritual, exprime o que merecemos; pois ela poderia não nos acontecer, se não a merecêssemos”. (Nietzsche, 2014, p. 45)

Este jovem castiga-se pelo seu falso fracasso, colocando em cima de si mesmo, a culpa por não obter tais resultados esperados. Ele não vê que castigar a si mesmo é um grande erro. Como cita Nietzsche, se esta condicionado ao castigo por algo que não fizemos. Sob a justificativa de que ele não aconteceria se não o fosse merecido.

O castigo que aplicado a si mesmo é tão doloroso quanto receber um castigo. Um aluno que não estudou, recebe como castigo uma nota baixa. Porém essa nota baixa e mais do que um castigo, mas é colocar sobre ela a culpa pela sua nota, mesmo que ele tenha estudado e apresente dificuldades.

Assim como para o jovem que se excluí do sistema escolar. Ele recebe o castigo por não ser um bom aluno, não dedicar-se aos estudos. Mas ele castiga-se muito mais, se culpa pelo seu fracasso. Menospreza ao seu próprio eu.

O castigo teria o valor de despertar no culpado o sentimento de culpa, nele se vê o verdadeiro instrumentum dessa reação psíquica chamada “má consciência”, “remorso”. (Nietzsche, 1999, p. 70)

O niilista educacional é visto quase que como um herói. Pois é ele quem abre mão de sua juventude, de sua força, de sua vontade de viver, em função de sua vida escolar. É ele que nega a si mesmo visando um bem maior a ser alcançado em um futuro prometido. É um homem como ele que o mercado de trabalho espera receber um dia. Um homem que se aprofunda em seus objetivos, que não mede esforços para alcança-lo, que abre mão da vida em função deste. Um homem formado e programado para viver exatamente como a sociedade espera.

O modelo da Pedagogia Tecnicista traz junto de si a noção de mérito, em que todos estão recebendo educação igualitária, mas só os que verdadeiramente se dedicaram serão recompensados, alcançaram o mérito, por isso. Ou seja, acredita-se que todos os alunos têm as mesmas possibilidades, porém ignoram-se as especificidades de cada um. Ignora-se a vida do estudante fora do ambiente escolar. Supõe-se que ele não tem uma.

Aprender já não significava apenas decorar, memorizar. Anísio Teixeira traz de Dewey a noção de que o aprender pode ser associado à formação de hábitos, a modos de proceder e agir, tendo como motor desse processo o interesse de quem aprende. (Teixeira, 2007, p. 17)

A partir disso surge em toda a esfera social o conceito de meritocracia, onde se acredita que todos partem de bases iguais, mas só os mais aptos alcançaram o objetivo final. A meritocracia é mais evidente nas instituições escolares e no mercado de trabalho. Visto que a Pedagogia Tecnicista forma seu educando com o objetivo de que esse seja rapidamente inserido no mercado. E o mercado de trabalho por sua vez espera um futuro funcionário que esteja disposto a alcançar todos os méritos por isso. A escola e o mercado de trabalho esperam um niilista.

O niilista que não só irá abdicar de suas vontades e necessidades. Que vai negar aos seus instintos de vida. Que vai negar sua vontade de viver. Que vai acreditar em um modelo ideal para seguir acima de qualquer outra coisa. A escola e o mercado esperam o niilista que vai julgar-se acima dos outros, acima daqueles que não creem no que ele crê. Que não irá medir esforços para alcançar seu ideal. Ele se julgará um homem superior aos demais.

É neste cenário que a competitividade e a meritocracia se fazem valer ainda mais. Tornam-se ainda mais evidentes e permanentes entre aqueles que estão envolvidos na situação. É exatamente este cenário que a Pedagogia Tecnicista cria nas instituições escolares e consequentemente o recria nos ambientes de trabalho. Exalta aqueles que vivem em função de seu bem maior, os niilistas, e excluí e desqualifica aqueles que não negam a si mesmos.

A chamada teoria da educação nova é a tentativa de orientar a escola no sentido do movimento, já acentuado na sociedade, de revisão dos velhos conceitos psicológicos e sociais que ainda há pouco predominam.
Essa revisão, longe de representar concessões a um conceito de vida menos sério ou menos forte, exprime tão somente a correção, no sentido dessa sociedade, dos valores em que ela, verdadeiramente, se deve basear. Talvez, mas do que tudo, a idéia de que educação, ou melhor, auto-educação – por que só a própria pessoa se educa – é antes de tudo, o resultado de se assumir direta e integralmente a responsabilidade dos próprios atos e experiências.( Teixeira, 2007, p.17)

O autor trabalhar com o conceito de auto-educaçãoque apenas reforça a competição interna nas escolas e a meritocracia existente na mesma. Anísio Teixeira coloca sobre o estudante a responsabilidade por educar-se, por seguir o que é esperado. Fazer parte de uma ordem. Ao lhe dar essa responsabilidade, o aluno é colocado no centro do programa escolar. Essa centralidade torna-se negativa, pois o interesse em aprender deveria ser totalmente da criança, mesmo que essa não conseguisse ver sentido no aprendizado.

1. A escola deve ter por centro a criança e não os interesses e a ciência dos adultos;
3. O ensino deve ser feito em torna da intenção de aprender da criança e não da intenção de ensinar do professor;
4. A criança, na escola, é um ser que age com toda a sua personalidade e não uma inteligência pura, interessada em estudar matemática ou gramática;
5. Os seus interesses e propósitos governam as escolhas das atividades, em função de seu desenvolvimento futuro; (Teixeira, 2007, p.90)

A partir do trecho acima é possível entender que caso a criança não demonstre interesse o professor não deve lhe ensinar. Porém, não cabe ao professor lhe passar o conteúdo, que como já foi citado é pré-determinado? Não é papel de o professor mostrar-lhe as diversidades escolares?

O modelo proposto por Anísio Teixeira sugere construção de um cidadão crítico, preparado para o mercado de trabalho, para as atividades industriais, para a vida em sociedade. Mas não se preocupa com a construção totalitária do individuo. Com um cidadão versátil, que tenha a capacidade de se adaptar as variações da vida. Aquele que se mostra versátil, com possibilidades de variação, que não constrói sempre as mesmas respostas é desqualificado. É excluído. O modelo seria contraditório?

7. Pedagogia Tecnicista e o niilista educacional

Mesmo que a Pedagogia Tecnicista tenha resistido no Brasil durante pouco tempo, sendo considerada pelo próprio governo que a implantou um fracasso, é sabido que a mesma deixou grandes heranças e fardos na organização escolar brasileira. Entre eles: a ideia de ascensão social, o niilista educacional e a organização escolar.

Com o passar dos anos a pretensão de progredir socialmente através da formação acadêmica tem se enraizado cada vez mais na sociedade. O discurso meritocrático é utilizado como justificativa para a segregação, fracasso e abandono escolar. É preciso avaliar este discurso em suas profundas raízes e consequências.

Ao reproduzir o discurso meritocrático, imaginando que ele é aplicado em uma sociedade de igualdade e justiça, quando na realidade ele está inserido em plena desigualdade social e econômica, criam-se niilistas educacionais. Pode ser considerado outra herança da Pedagogia Tecnicista.

O Niilista educacional é, como já foi descrito neste trabalho, aquele que nega o mundo da vida em nome da verdade absoluta, que pode ser entendida aqui como a garantia de ascensão social em função da formação educacional.

Este niilista faz parte do sistema político inserido de forma oculta da Pedagogia Tecnicista. Que mantém a manutenção da ordem social. Quanto mais niilistas são criados, mais esta ordem é mantida.

Ao desenvolver a Pedagogia Tecnicista, Anísio Teixeira esperava transformar a sociedade, via na sociedade uma mudança constante, porém com um objetivo a se alcançar. Uma sociedade dita moderna e cientifica, com novas diretrizes, nova filosofia de vida. A sociedade da industrialização, ou a idade da máquina. (TEXEIRA, 2007, p. 23).

É com esse pensamento que Anísio Teixeira não à denomina somente de Escola Progressiva, como era chamada nos Estados Unidos, mas de Escola Nova. Pois a mesma trazia junto dela não só um novo formato escolar, mas uma nova forma de vida, de sociedade e de civilização.

É progressiva, por quê? Por que se destina a ser a escola de uma civilização em mudança permanente (Kilpatrick) e porque, ela mesma, como essa civilização, está trabalhada pelos instrumentos de uma ciência que initerruptamente se refaz. Com efeito, o que chamamos de “escola nova” não é mais do que a escola transformada, como se transformaram todas as instituições humanas, à medida que lhes podemos aplicar conhecimentos mais precisos dos fins e meios a que se destinam. (TEIXEIRA, 2007, p. 24)

Em sua viagem aos EUA, quando o autor teve contato com John Dewey3, ele viu esta transformação acontecer em solo americano. Quando conheceu um dos idealizadores da Escola Progressiva, que como o próprio nome já diz, traria a ideia de progresso para a sociedade.

Anísio Teixeira esperava trazer para o Brasil o mesmo progresso e processo civilizatório implantando a sua Escola Nova. O país passava por um período político e social conturbado. Formando cenário perfeito para que as ideias trazidas pelo autor fossem colocadas em prática nas escolas.

O homem esperado neste contexto social e histórico deveria ser responsável, patriota, independente, culto, respeitador, trabalhador. Tudo o que a Pedagogia Tecnicista ansiava por formar, mesmo que em longo prazo. O homem que ao longo de sua preparação escolar viria a tornar-se um niilista.

É essa nova atitude espiritual: a ciência tornou possível o bem do homem nesta terra e nos temos a responsabilidade de realiza-lo pela revisão completa da velha ordem tradicional do “vale de lágrimas”. Esse homem, independente e responsável, é o que a escola progressiva deve vir a preparar. (Teixeira, 2007, p. 32)

O anseio da transformação social e educacional de Anísio Teixeira não foi consumado de fato. Porém deixa seus registros na sociedade brasileira. A formação escolar e superior tem se tornado cada vez mais o objetivo de vida de inúmeras crianças e jovens. Criam-se múltiplos ideias e vontades em torno deste. Ao mesmo tempo em que ambas tornam-se cada vez menos eficazes para o alcanço de tais ideias. Esta realidade coopera para a multiplicação dos niilistas educacionais.

O niilismo enraíza-se ainda mais na vida dos estudantes, criando um ciclo vicioso, em que estes estão sempre abdicando de suas vidas. Sempre em nome de um valor, de um ideal. Abdicam de suas vontades, de suas vontades de vida. Em nome de um mundo verdadeiro, quase que inalcançado.

Ao deixar nas mãos dos estudantes o controle de seus estudos coopera-se para que haja a relação: niilistas e não-niilistas, o sábio e o não-sábio. Coopera-se como discurso meritocrático e as relações de poder dentro de sala da sala de aula. Constroem-se ainda mais desigualdades.

As escolas veem mantendo em suas estruturas escolares algumas características da organização escolar da Pedagogia Tecnicista, associando a elas o discurso da possibilidade de uma escola em que se respeite o aluno, aulas não conteudistas, em que o aluno possa escolher o que deseja aprender. Quando a mudança escolar foi proposta por Anísio Teixeira ela não foi pensada para ser feita de forma abrupta, mas de forma gradual.

Não podemos mudar da noite para o dia. A própria organização da escola e o exercício do seu ministério pelo professor só teriam a perder com uma modificação súbita.
Podemos, talvez, iniciar o movimento.
- Primeiro, fundando escolas experimentais, cujo número iria aumentando com os professores convenientemente preparados,
- Segundo, retirando do dia escolar uma hora ou meia hora, em que se tente o novo método, mesmo nas escolas tradicionais. A criança, devidamente guiada, escolherá a sua atividade e, nessa hora, aprenderá sob o principio do trabalho com um fim em vista, (TEIXEIRA, s/d, p. 91 – 92)

Esse modelo de organização escolar traz em seu formato a noção de que o estudante pode escolher aquilo que mais lhe interessa estudar e assim desenvolverá mais interesse pelo assunto. Formato muito semelhante ao descrito por Teixeira, em que a criança escolhe determinada área de atividade em função de seus interesses.

A partir disto, é depositada no educando a responsabilidade pela sua própria organização escolar, pela sua dedicação aos estudos, pelos seus resultados acadêmicos. Ignoram-se as diferenças entre os alunos, as dificuldades enfrentadas por cada um em seu dia a dia, entre tantos outros pontos. É exatamente neste momento que há o fortalecimento do niilista educacional. Este é ainda mais exaltado, mais apreciado, é denominado o sábio.

O povo vê como sábios esses emudecidos, sérios, sacrificados homens “de fé”, ou seja, como tendo adquirido saber, como “seguros”, em relação a sua própria insegurança: quem gostaria de lhe negar essa palavra e a reverencia? (NIETZSCHE, 2002, p. 245)

O niilista educacional é visto como no trecho acima: sério e sacrificado, seguro em sua insegurança. É sacrificado por demandar tanto tempo de sua vida e tantos esforços em função dos estudos. É seguro de si, por que conhece bem a si mesmo. E sempre lhe é dada reverencia, sempre lhe é dedicado um pouco mais de atenção.

O educando ovacionado, dado como exemplo, tido como o melhor, o sábio, aquele que é idolatrado. Tem total consciência das opções que fez para chegar até este momento. Sabe de tudo o que negou, que abdicou. Sente-se orgulhoso portal feito. Ele sente-se recompensado. Este educando sabe que é niilista, e adora o fato. Pois mais lhe vale a idolatria e o reconhecimento do que a vida que ele nega.

O niilismo é um sintoma: revela que os deserdados não tem mais consolação: que destroem para serem destruídos, que afastados da moral, não tem mais razão para “se resignarem”, que se colocam no terreno do principio oposto e que querem também a potencia do seu lado, forçando os poderosos a transformarem-se em seus carrascos. (NIETZSCHE, s/d, p. 94)

Segundo o autor o niilista seria aquele que já não tem mais condições para se libertar, para reaver sua vontade de vida, para ter novamente o controle de seus instintos. Por isso, ele torna-se cada vez mais niilista, e faz que isso seja ainda mais apreciado. Ele alimenta o niilismo na sociedade. A sociedade aprecia e como consequência as forças de poder dominantes da mesma de fortalecem. Como na formação escolar: o niilista reforça o niilismo, os envolvidos sentem-se satisfeitos com isso e a ordem é social é mantida.

A Pedagogia Tecnicista induz a todos os envolvidos em seu sistema a praticarem o niilismo. Ela traz o ideal de ascensão social através da formação escolar, coloca o professor como mero transmissor de conhecimento, apto a reconhecer como saber apenas aquilo que é pré-determinado. Coloca o educando como uma forma maleável e adaptável, com a obrigação de alcançar um determinado padrão, por mérito próprio. E destina a ele a obrigação de ser responsável por seu próprio aprendizado e desenvolvimento escolar.

É neste processo que se formam os niilistas. O educando que mais se dedica, o que mais estuda, o melhor da turma, o que será um exemplo, o que é o ideal de aluno. Não constroem cidadãos como seu programa prevê. Constroem pessoas que estarão conformadas, adaptadas, pré-determinadas a seguir em seu lugar na sociedade. Este rastro vem sendo deixado na educação brasileira e intensificado ano apos anos e implantado nas mais diversas classes sócias e não mais apenas na classe trabalhadora.

Os niilistas educacionais tem se tornado grande maioria nas salas de aula, o que significa que a escola tem formado apenas para o trabalho e não o cidadão crítico, com capacidade de pensar e de reconhecer.

A conclusão niilista (a crença no não valor) consequência da avaliação moral: - perdemos o gosto do egoísmo (embora reconheçamos que não existe ato não-egoista); perdemos o gosto da necessidade (embora reconheçamos a impossibilidade do livre – arbítrio e da “liberdade inteligível”). Compreendemos que não alcançamos a esfera onde colocamos nossos valores – mas, por esse fato, a outra esfera, aquela onde vivemos, nada ganhou em valor: ao contrário, estamos fatigados, por que perdemos nosso estimulo principal. “Em vão até agora!” (NIETZSCHE, s/d, p. 91)

Assim como Nietzsche cita no texto acima, encontram-se todos “fatigados”, cansados, exaustos. Todos correm atrás de um ideal, que não é alcançado. Um ideal que se encontra sempre distante, ainda que se vá a sua direção constantemente. Esse ideal é inalcançado, inalcançável. Como que fosse feito para que se passe a vida inteira em sua função. Porém todos os esforços parecem ser sempre em vão, gastos sem utilidade. Esforços sempre cansativos e desgastantes.

8. Considerações finais

Diante do estudo e desenvolvimento deste trabalho é possível perceber que a associação do conceito de Niilismo descrito por Nietzsche, que denomina aqueles que negam a vida e suas vontades em nome de valores superiores com a Pedagogia Tecnicista é possível de ser feita e que o estudo da Filosofia da Educação é importante para as críticas a educação.

A Pedagogia Tecnicista foi desenvolvida com a intenção de realizar uma reforma não só nas escolas, mas também na sociedade brasileira. Trazendo um novo conceito de organização social, econômica e escolar, prometendo aos seus envolvidos não só uma ascensão social, mas também reconhecimento através do mercado de trabalho. Faz uma importante conexão com o niilismo. Os conceitos de valores superiores, negação da vontade de vida, estão presentes nos dois, com a mesma finalidade: um ideal a ser alcançado.

Repensar nesses conceitos é repensar o modelo educacional que tem sido construído no dia a dia escolar. A relação escola - professor; professor – aluno; aluno – aluno e escola – responsáveis. Repensar as relações de poder que tem se constituído dentro deste ambiente que é intensamente transpassado pelas demandas da sociedade em que se encontra.

Ao desenvolver o modelo da Pedagogia Tecnicista, Anísio Teixeira trouxe para dentro dos ambientes escolares demandas que ainda estavam fora da escola sendo pertencentes apenas ao mercado de trabalho. Como, por exemplo, a preparação para o mesmo.

Esses conceitos têm estado presentes na educação como uma herança não só da Pedagogia Tecnicista, mas também das dinâmicas sociais que se infiltraram nos ambientes escolares. A criação dos niilistas tem aumentado cada vez mais nesses, e os mesmo tem levado consigo, para fora da escola, estes idéias.

Ao repensar a Pedagogia Tecnicista, outros modelos educacionais e organização escolar que se construiu ao longo dos anos. É possível perceber que não há um ou outro modelo que seja melhor ou pior do que outro. Que a Pedagogia Tecnicista, mesmo que tenha sido considerada fracassada, não pode ser eternamente rejeitada e comparada a outros modelos. A educação é uma mudança constante, perpassada pelas demandas sócias e pessoais de cada sujeito nela inserido. Pensar a educação é pensar também a sociedade.

Uma pesquisa educacional jamais encontra um resultado definido e se encerra por completo. Uma pesquisa educacional necessita, em favor dos educando, ser sempre revista, refeita e continuada.

Esta pesquisa não se encerra aqui. Não define que a Pedagogia Tecnicista é o pior modelo educacional a ser implantado nas escolas. A pesquisa apenas o repensa e o critica. Também não denomina um modelo superior e mais eficaz que este. Esta pesquisa estará em continuidade. Para que as instituições escolares estejam sempre renovadas e atendendo as demandas que lhe são exigidas.

9. Referencias

Abaggnano, Nicolau. Dicionário de Filosofia. São Paulo, Editora Martins Fontes, 2007.

FOULCAULT, Michael. Micrifísica do Poder. 8.ed. Rio de Janeiro. Editora Graal. 1989.

LIMA, Hermes. Anísio Teixeira Estadista da Educação, Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1978.

Luckesi, Cipriano. Tendências Pedagógicas na Prática Escolar, Filosofia da Educação. São Paulo, Editora Cortez, 1994. p. 53 – 74.

NIETZSCHE, Friedrich.A Gaia Ciência. Trad. Paulo César de Souza, São Paulo, Editora Schwarcz, 2002.

Nietzsche, Friedrich. Crepúsculo dos Ídolos ou Como se filosofa com o martelo, Trad. Jorge Luiz Viesenteiner, Petrópolis, Editora Vozes, 2014.

NIETZSCHE, Friedrich. Vontade de Potência, Trad. Mário D. Ferreira Santos, Editora Tecnoprint S.A., s/d.

NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da Moral, Trad. Paulo César de Souza ,São Paulo, Editora Schwarcz, 1999.

TEIXEIRA, Anísio. Pequena Introdução à filosofia da educação: a escola progressiva ou a transformação da escola, Rio de Janeiro, Editora UFRJ, 2007.

1Friedrich Wilhelm Nietzsche nasceu na cidade de Rockeb (Alemanha) em 15 de outubro de 1844. Vindo a tornar-se um filósofo, escrito, poeta, filólogo e músico alemão. Considerado um dos mais influentes e importantes pensadores modernos do século XIX. Aos 25 anos ele tornou-se professor de Filologia na Universidade de Basiléia, assumindo assim a nacionalidade suíça. A área filosófica passou a lhe despertar interesse após ter contato com obras de Schopenhauer. Em seus escritos, ele fez críticas a cultura, religião e filosofia ocidentais. Em 3 de janeiro de 1889, o filósofo sofreu uma "crise de loucura" que o colocando-o sob a tutela da sua mãe e de sua irmã. Até a sua morte que ocorreu na cidade de Weimar (Alemanha) em 25 de agosto de 1900.

2Anísio Spínola Teixeira nasceu em Caetité na Bahia em 12 de julho de 1900. Estudou no Instituto São Luís na mesma cidade. Mudou-se para o Rio de Janeiro onde ingressou no curso de Ciências Jurídicas do Rio de Janeiro, tornando-se Bacharel em Direito no ano de 1922. Quando recebeu o convite do Governador Góes Calmo para assumir em 1924 a Direção da Instrução Pública. Em 1927 viaja para os Estados Unidos e em 1928 faz um curso de pós-graduação na Universidade de Columbia, onde conheceu John Dewey (1852-1952), de quem foi aluno e acabou sendo influenciado por suas ideias educacionais. Tornando-se divulgador de suas teorias no Brasil.

3John Dewey nasceu em 20 de outubro de 1859 em Burlington, no estado de Vermont, Estados Unido. Cursou artes e filosofia e tornou-se professor da Universidade de Minnesota. Vindo a tornar-se professor após estudar na Universidade Johns Hopkins, em Baltimore. Fundou e dirigiu uma escola-laboratório em Chicago onde teve a oportunidade de aplicar novas ideias e métodos pedagógicos. Tendo em sua filosofia uma prática docente baseada na liberdade do aluno para elaborar as próprias certezas, os próprios conhecimentos, as próprias regras morais. Morreu em 1952, aos 93 anos.


Publicado por: Gabrielle Cooper Almeida

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