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Multimodalidade textual: um avanço sociolinguístico no processo comunicativo digital com o uso de emojis, GIFs e figurinhas

Educação

Análise e seleção de conversas informais utilizadas em aplicativos de mensagens em plataformas digitais, a fim de identificar o uso de elementos de comunicação não verbal (emojis, figurinhas, GIFs).

índice

1. RESUMO

Este trabalho analisou o uso de emojis, figurinhas e GIFs no processo de comunicação não verbal via texting, a fim de identificar e examinar estes elementos comunicativos no corpus desta pesquisa. O trabalho buscou analisar as construções comunicativas, de ordem não verbal, na utilização diária em conversas informais via mensagens digitais. Os pressupostos teóricos utilizados como base foram os estudos sobre linguagem e comunicação, desde seus primórdios até sua utilização na era digital, a partir dos conceitos de Martín Serrano (2007), Saussure (2006), Bechara (2006), Buck & Van Lear (2002) e Schlobinski (2012). Além disso, teorias distinguindo linguagem, língua e fala foram utilizadas como aporte teórico para esta pesquisa. O estudo se dá pela necessidade de um olhar mais analítico em relação à utilização da comunicação não verbal dentro do ambiente digital dos aplicativos de mensagens, a fim de responder ao questionamento sobre a influência destes recursos/dispositivos comunicativos no processo comunicativo. A interpretação dos dados mostra que com o advento das novas mídias a comunicação transcende a perspectiva de texto na modalidade escrita da linguagem, bem como transformou a interação verbal em relação ao uso de formas rápidas, práticas e simples de comunicação na atualidade. Conclui-se que, para pesquisas futuras, deve-se investigar acerca dos problemas no uso da comunicação não verbal, assim como a utilização destes elementos de comunicação não verbal dentro de sala de aula, em especial no ensino de Língua Estrangeira.

Palavras-chave: Comunicação não verbal. Texting. Processo comunicativo.

ABSTRACT

This research analyzed the use of emojis, stickers and GIFs in the process of nonverbal communication by texting, in order to identify and verify these communicative elements in the corpus of this research. The research aimed to analyze the communicative constructions, of a nonverbal order, in the daily use in informal conversations via instant messages. The theoretical assumptions used as a basis were studies on language and communication, from its beginnings to its use in the digital age, from the concepts of Martín Serrano (2007), Saussure (2006), Bechara (2006), Buck & Van Lear (2002) and Schlobinski (2012). In addition, theories distinguishing language, idiom and speech were used as a theoretical contribution to this research. The study is due to the need for a more analytical look in relation to the use of nonverbal communication within the digital environment of message applications, in order to answer the question about the positive or negative influence of these elements in the communicative process. The interpretation of these studies is crucial for the development of detailed looks in relation to the use of fast, practical and simple ways of communication today. It is concluded that, for future research, it should be investigated about the problems in the use of nonverbal communication, as well as the use of these elements of nonverbal communication within the classroom, especially in Foreign Language teaching.

Keywords: Nonverbal communication. Texting. Communicative process.

2. INTRODUÇÃO

A comunicação é um ato recorrente entre os humanos, que fazem uso dela para diversos fins. Comunicar-se é fundamental para estabelecer relações entre pessoas e atingir objetivos fazendo uso desta comunicação. O poder que ela exerce entre os indivíduos é alto, e traz à tona as formas de comunicar-se desde as formas mais primitivas até as mais modernas. O fato é que, com o avanço das tecnologias e das linguagens, a comunicação passou a ser mais simples, rápida e com o claro objetivo de facilitar o ato comunicativo entre as pessoas.

O campo de pesquisa da área das formas de comunicação é vasto, e todos têm como objetivo observar e analisar o ato comunicativo e seu poder na facilitação (ou não) deste processo. Além disso, vale ressaltar que não existe apenas um tipo de comunicação, o que possibilita mais objetos de estudo para pesquisas da área comunicativa. Contudo, para entender o que é comunicação, é necessário discursar sobre os conceitos de linguagem, seja ela verbal ou não verbal, e como ocorre este processo dentro da ação comunicativa.

O primeiro passo deste trabalho é referenciar os conceitos de linguagem e comunicação, distinguindo estes conceitos de língua e fala, e preparando o enfoque para o objeto de estudo desta pesquisa. Para isso, os estudos de Saussure (2006) embasam teoricamente tais conceitos e dão norte para o desenvolvimento do trabalho. O conceito universal de linguagem de Bechara (2006) também auxilia no embasamento dos estudos. Porém, é necessária a ampliação o referencial teórico para chegar ao objeto de estudo desta pesquisa, que é o processo de comunicação não verbal, por isso as teorias de Buck e Van Lear (2002) para distinguir as formas de comunicação, sejam elas verbais ou não verbais, simbólicas ou não simbólicas, são importantes para delimitar tais teorias para continuidade deste trabalho.

A escolha do corpus desta pesquisa passou pela análise da comunicação na era digital, tendo em vista que este tipo comunicativo é o mais utilizado na atualidade pela sua praticidade, agilidade e simplicidade para fins comunicacionais. Assim, o objeto de estudo desta pesquisa é a comunicação não verbal utilizada em aplicativos de mensagens, mais especificamente o uso de emojis, figurinhas e GIFs para comunicação.

Com a pesquisa totalmente delimitada em relação ao aporte teórico, este trabalho tem como objetivo geral analisar a influência de elementos não verbais no processo de comunicação na era digital. Como objetivos específicos, tem-se a análise da influência do uso de emojis, figurinhas e GIFs na comunicação digital via aplicativos de mensagens; e a influência positiva deste mesmo uso no processo de comunicação.

A pesquisa possui natureza bibliográfico-interpretativista. O procedimento metodológico utilizado neste trabalho, inicialmente, é o levantamento do aporte teórico e aprofundamento dos estudos relacionados ao corpus desta pesquisa. A partir disso, a análise e seleção do material para consolidação do corpus do trabalho.

O passo a passo do procedimento metodológico desta pesquisa passa inicialmente pela análise e seleção de conversas informais utilizadas em aplicativos de mensagens em plataformas digitais, a fim de identificar o uso de elementos de comunicação não verbal (emojis, figurinhas, GIFs). Foram descartadas conversas que fazem utilização de comunicação verbal, mesmo que utilize de acrônimos ou outros elementos que configurassem uma comunicação digital diferente da norma culta. Após a separação e seleção destas conversas, foi iniciada a análise destas mensagens a fim de comprovar se houve ou não comunicação significativa com o uso destes elementos não verbais, levando em consideração o conceito de comunicação (emissor e receptor). Por último, cabe a esta pesquisa analisar a influência da utilização de emojis, figurinhas e GIFs no processo comunicativo.

Vale ressaltar que, durante o mapeamento das conversas com comunicação não verbal utilizando emojis, figurinhas e GIFs, foram analisadas apenas situações conversacionais ocorridas no ano de 2020. Os nomes das pessoas envolvidas nas conversas analisadas serão desconsiderados por questões éticas, e capturas de telas (printscreen) foram salvos e selecionados para inserção nesta pesquisa. Eles estarão disponíveis no corpus e no apêndice deste trabalho.

Por fim, este trabalho está dividido em dois capítulos. O primeiro capítulo, que tem por título “Definições de linguagem, comunicação e texting”, traz o embasamento teórico dos estudos relacionados aos atos comunicativos e utilização da linguagem. O segundo capítulo, aborda sobre os aspectos teórico-metodológicos e analisa o objeto de estudo desta pesquisa e o corpus para responder aos questionamentos sobre a presença de comunicação (Buck & Van Lear, 2002) e a interferência dos aspectos sociolinguísticos (Schlobinski, 2012). Por último, temos as considerações finais sobre os resultados encontrados durante este trabalho.

3. CAPÍTULO 1: DEFINIÇÕES DE LINGUAGEM, COMUNICAÇÃO E TEXTING

A evolução humana passou por diversas etapas, sendo estas essenciais para o desenvolvimento do planeta e das civilizações. A descoberta do fogo foi uma delas, que trouxe à raça humana o poder de se impor no topo da cadeia alimentar. O desenvolvimento da agricultura e da criação de animais sanou os problemas de escassez de alimentos e fez com que os humanos se fortalecessem e criassem vínculos regionais para, assim, desenvolver os seus costumes.

Todavia, uma etapa chama mais atenção pela sua importância e revolução no modo de viver que destaca os seres humanos dos demais seres do planeta: a comunicação. Este processo demandou muito tempo para seu desenvolvimento e, na verdade, a evolução da comunicação não vai parar. Desde os primeiros sinais de comunicação por sons, por hieróglifos, por pinturas rupestres, por sinais de fumaça, até os modernos meios de comunicação móvel que, com apenas um clique, você consegue comunicar-se com qualquer outra pessoa, independentemente de onde ela esteja. Essa evolução vem acompanhada do processo de globalização visto que, o ser humano reinventa a sua forma de comunicar-se de acordo com a necessidade atual (Martín Serrano, 2007).

O desenvolvimento da capacidade de comunicação foi fundamental para a ascensão dos seres humanos e da evolução da tecnologia no mundo. Pessoas foram capazes de transformar os sons emitidos pelo nosso aparelho fonador naturalmente em sons que foram sistematizados e transformados em línguas, inicialmente apenas faladas. O avanço das línguas criou sistemas de escritas, com emissão e registro de mensagens que eram utilizadas nas primeiras civilizações humanas não só a fim de comunicar-se, mas também de historiar culturas pelo mundo inteiro. Porém, hoje temos formas mais tecnológicas de comunicação (telefones, televisores, rádios etc.) que revolucionaram a forma de comunicação no século XIX. O século XX veio e com ele os aparelhos celulares e a internet mostraram que era possível comunicar-se sem a necessidade de estarem fixos. Hoje, a comunicação é amplamente digital, com formas rápidas e simples de emitir mensagens (Schlobinski, 2012).

Portanto, os estudos da comunicação trazem à tona um objeto de estudo bastante importante para a compreensão dos processos comunicativos: a linguagem; que no próximo tópico será abordada e referenciada teoricamente para embasar os estudos para posteriores análises das formas contemporâneas de comunicação.

3.1. O que é língua/linguagem? E o que é comunicação?

É necessário entender que a linguagem desempenha papel fundamental no processo de comunicação humana. Contudo, a linguagem é muitas vezes confundida com língua e fala, e isso dificulta seu estudo científico e sua definição. Os estudos de Linguística auxiliam na compreensão destes temas, e uma das obras mais importantes é o Curso de Linguística Geral, de Ferdinand Saussure (2006). Estes conceitos serão referenciados neste tópico, trazendo a compreensão ampla das suas teorias.

Pode-se entender a linguagem como sendo um sistema através do qual o homem comunica suas ideias e sentimentos. Este processo pode ser executado através da fala, da escrita ou de outros signos convencionais. Além disso, a linguagem também pode ser por meio de sons, como acontece na linguagem animal. Antes de evoluir enquanto espécie, os seres humanos comunicavam-se através de sons, constituindo assim uma forma de linguagem primitiva, mas que cumpria o seu propósito de comunicação. A linguagem, de forma mais sistematizada, constitui-se em verbal e não verbal, sendo a primeira formada por palavras, seja na escrita ou na fala; e a segunda não contém palavras, utiliza-se de recursos visuais, tendo como exemplos imagens, placas, linguagem corporal, linguagem sonora (excluindo sons de letras e palavras), gestos etc. A linguagem é o início de qualquer outro processo de comunicação, seja ele complexo ou não. Segundo Bechara (2006), o conceito de linguagem é definido como

“Entende-se por linguagem qualquer sistema de signos simbólicos empregados na intercomunicação social para expressar e comunicar ideias e sentimentos, isto é, conteúdos da consciência. A linguagem se realiza historicamente mediante sistemas de isoglossas comprovados numa comunidade de falantes, conhecidos com o nome de línguas, como veremos adiante. Tal conceituação envolve as noções preliminares do que seja sistema, signo, símbolo e intercomunicação social. ” (Bechara, 2006, p. 16).

Já a língua constitui um sistema mais complexo de comunicação. Línguas são mais variáveis e, empiricamente falando, servem para expressar a cultura e identidade de um povo. Em seu conceito estrutural, foi definido por Saussure (2006) como

“Mas o que é língua? Para nós, ela não se confunde com a linguagem; é somente uma parte determinada, essencial dela, indubitavelmente. É ao mesmo tempo, um produto social da faculdade de linguagem e um conjunto de convenções necessárias, adotadas pelo corpo social para permitir o exercício dessa faculdade nos indivíduos. Tomada em seu todo, a linguagem é multiforme e heteróclita; a cavaleiro de diferentes domínios, ao mesmo tempo física, fisiológica e psíquica (...). ” (Saussure, 2006 [1973], p. 17).

A fala é um modo de linguagem para estabelecimento de comunicação que, com certeza, foi a primeira forma mais relevante de “comunicação moderna” (tendo em vista o arco temporal da evolução humana). Saussure (2006) define que a fala é um processo individual de comunicação, em que o indivíduo faz o uso da língua de forma pessoal, a fim de comunicar-se com o receptor da mensagem. Em sua obra, o autor afirma que

“A fala é, ao contrário, um ato individual de vontade e inteligência, no qual convém distinguir: as combinações pelas quais o falante realiza o código da língua no propósito de exprimir seu pensamento pessoal; o mecanismo psicofísico que lhe permite exteriorizar essas combinações. ” (Saussure, 2006 [1973], p. 22).

Fazendo a análise comparativa, Saussure (2006) afirma que há uma diferença entre língua e fala. Língua trata-se do conjunto de todas as regras que determinam o emprego dos sons, das formas e das relações sintáticas necessárias para a produção dos significados, sendo comparada a um dicionário, acrescido de uma gramática, cujos exemplares tivessem sido distribuídos entre todos os membros de uma sociedade. Já a fala não possui caráter social, pois sua natureza é individual, tendo em vista que se trata de uma parcela concreta e individual da língua. Para distinguir linguagem de língua, Saussure (2006) afirma que

“Enquanto a linguagem é heterogênea, a língua assim delimitada é de natureza homogênea: constitui-se num sistema de signos onde, de essencial, existe a união do sentido e da imagem acústica, e onde as duas partes do signo são igualmente psíquicas. ” (Saussure, 2006 [1973], p. 23).

A verdade é que todos esses processos descritos, diferenciados e referenciados, mesmo que tão distantes em termos teóricos uns dos outros, têm um objetivo em comum: a comunicação. O ser humano utiliza diariamente a linguagem, a língua e a fala para comunicar-se com outros seres, sejam eles humanos ou não. De fato, o que é comunicação? Este processo compreende a interação entre dois ou mais sujeitos a fim de expressar uma mensagem. A comunicação é uma via de mão dupla, em que o emissor e o receptor precisam estar cientes e compreender o processo. Todo emissor envia uma mensagem com um significado e cabe ao receptor decodificar e dar sentido a esta mensagem. Sendo assim, a comunicação abrange aspectos espontâneos, não simbólicos e também simbólicos da linguagem. Em sua obra, Buck & Van Lear (2002) trazem algumas definições próprias e de outros autores, afirmando que

“Algumas definições de comunicação excluiriam influências transmitidas por via espontânea e comportamento não simbólico. Assim, Weiner, Devoe, Rubinow e Geller (1972) definiram comunicação como envolvendo necessariamente um sistema de símbolos socialmente compartilhado, ou código, que é de natureza simbólica. ” (Buck & Van Lear, 2002, p. 522, tradução nossa).

Nesta concepção, a comunicação só ocorre quando o emissor e o receptor compartilham ou têm conhecimento do mesmo sistema de linguagem, seja ele simbólico ou não. Na prática, só ocorre comunicação quando a pessoa que recebeu a mensagem entende o que a pessoa que mandou a mensagem quis dizer. Por exemplo, um indivíduo que não tem conhecimento da língua portuguesa ouve uma pergunta ou comentário de um brasileiro, em português. Neste caso, há emissão de mensagem, mas não há comunicação, pois, o receptor não entendeu o que foi falado, ou seja, não decodificou a mensagem.

Dito isto, vem à tona duas formas de comunicações usadas com frequência: a comunicação verbal e a comunicação não-verbal. Nas próximas seções serão apresentados seus conceitos e sua diferenciação.

3.2. Comunicação verbal

Como foi abordado anteriormente, a comunicação pode ocorrer, de forma mais geral, em duas maneiras. Para compreender melhor o conceito de comunicação verbal, é necessário relembrar o que é linguagem verbal. Também chamada de linguagem verbalizada, ocorre quando a expressão da linguagem é feita por meio de palavras, sejam elas escritas ou faladas. Exemplos de utilização da linguagem verbal são as conversações, os livros, as revistas e todo e qualquer modo de comunicação que exija o uso de signos por meio da fala e da escrita.

Adentrando o âmbito da comunicação verbal, tem-se a utilização das palavras escritas e faladas a fim de comunicar-se com outra pessoa. Através da comunicação verbal, pessoas são capazes de manifestar o seu pensamento usando palavras, sendo necessária a compreensão destas palavras por meio do receptor da mensagem. Mesmo em tempos modernos, a utilização da comunicação verbal é realizada de forma majoritária, pois há no ser humano a necessidade de se expressar utilizando a sua língua. Porém, o não conhecimento de uma língua, por exemplo, acarreta na falha no processo de comunicação verbal, sendo o indivíduo forçado a utilizar outros métodos de linguagem para tentar estabelecer comunicação com o receptor.

Além disso, o processo de comunicação verbal está ligado a fatores biológicos. Não só a verbal, mas também a não verbal está ligada a processos que ocorrem em determinado lado do cérebro. Buck & Van Lear (2002) afirmam que

“Em uma revisão útil, Andersen, Garrison e Andersen (1979) relacionaram a comunicação não verbal ao processamento associado ao hemisfério cerebral direito (RH) e à comunicação verbal ao processamento do hemisfério esquerdo (LH). Eles sugeriram que um “esquema de codificação não verbal subjacente” é analógico, não linguístico e está associado ao processamento de RH (p. 83).” (Buck & Van Lear, 2002, p. 524, tradução nossa).

Sendo assim, a verbalização do ato de comunicar-se revela que o processo de comunicação é bastante complexo, e compreende línguas, símbolos linguísticos e desenvolvimento neural para que seja estabelecido este tipo de comunicação, e ainda necessita de compreensão por parte do receptor para que seja consolidada. De maneira geral, podemos definir a comunicação verbal como utilização de símbolos para comunicar-se.

3.3. Comunicação não verbal

Seguindo a mesma sistemática do objeto anterior, a comunicação não verbal também compreende um processo de comunicação, mas, desta vez não sendo necessária a utilização de palavras. Este tipo é mais amplo e abrangente, utilizando diversas formas de linguagem com o intuito de estabelecer comunicação.

Comunicação não verbal é aquela em que palavras não estão presentes, e que são utilizados gestos, recursos visuais, expressões faciais, sons, ruídos (exceto os de letras e palavras) e posturas que auxiliem o processo de comunicação entre emissor e receptor. Os recursos simbólicos e a simbologia são utilizadas neste tipo de comunicação para estabelecer a relação entre a pessoa que envia a mensagem e a pessoa que a recebe.

Pode-se afirmar que este ato, principalmente quando ligado à utilização de gestos, é espontâneo (Buck & Van Lear, 2002, p. 524), e compreende mais complexidade na recepção. Fazendo uma apologia temporal, a comunicação não verbal foi muito utilizada nos primórdios da civilização humana, tendo como a representação da comunicação por meio de gestos, sons, pinturas e outros meios de linguagem que estabeleciam comunicação entre os seres. Na contemporaneidade, a utilização desta forma de comunicar-se tem sido ampliada com a necessidade de agilizar, facilitar e simplificar a comunicação.

Assim como a comunicação verbal e como já anteriormente discutido, o processo de estabelecimento desta comunicação é um processo ligado a fatores biológicos, mais precisamente ao desenvolvimento neural dos seres humanos. A comunicação não verbal está ligada ao processamento associado ao hemisfério cerebral direito (Buck & Van Lear, 2002, p. 524). Além do esforço neural, também há o esforço físico na utilização deste modo de comunicar-se, tendo em vista que o indivíduo precisa de mais articulação física para fazer a utilização de, principalmente, gestos.

3.4. O processo de comunicação na era digital

O exercício da comunicação passou por diversos processos de evolução com o tempo. Novos tipos de comunicação foram surgindo e aperfeiçoando o ato comunicativo objetivando facilitar e agilizar os meios de transmitir mensagens entre indivíduos. Neste tópico abordaremos como acontece o processo comunicativo na atualidade, mais precisamente no que chamaremos de era digital, na qual os aparelhos tecnológicos exercem função fundamental para a comunicação. Dentro deste processo, abordar, também, o uso das mensagens instantâneas como fim comunicativo e sua facilitação da comunicação simples e rápida entre as pessoas. Para uns com o intuito de reduzir o espaço/tempo e celeridade na comunicação; outros por acreditarem que é preciso uma troca dos termos escritos por símbolos, e formas que transmitam a mesma ideia, sem a necessidade do uso incisivo desta palavra escrita (Schlobinski, 2012).

A era digital surgiu para facilitar a vida das pessoas de várias maneiras. Acesso à educação, comunicação, locomoção e outros aspectos foram democratizados a partir do surgimento desses processos. Para se ter uma ideia da dimensão do que isso significa, a comunicação entre pessoas que estavam distantes umas das outras só era possível através de cartas, em que a pessoa redigia e enviava uma mensagem, aguardava dias até que essa carta chegasse ao destinatário e mais dias para que a resposta chegasse até a sua casa em uma nova carta. Indo mais além, tinha-se também o demorado processo de chamada telefônica, em que o indivíduo ligava para uma central de telefonia para que um telefonista encaminhasse a ligação para quem ele desejava completar. Um processo que, mesmo sendo considerado rápido para aquela época, meados dos anos de 1880, o que não se compara em nada com a facilidade e rapidez do atual processo de comunicação na era digital.

Atualmente, quase toda a comunicação é feita através de aparelhos móveis de telefonias (celulares ou smartphones) e da internet. Ainda hoje existem os telefones fixos, porém, dispensando as centrais telefônicas, podendo-se ligar diretamente a quem se deseja. Mesmo assim, o uso de telefones fixos é extremamente incomum nos nossos dias, pois a facilidade dos aparelhos móveis é bem superior. Basta apenas alguns toques em algumas teclas, ou na tela, aguardar alguns segundos e sua chamada telefônica é iniciada. Além de utilizar os serviços de telefonia, também é possível realizar chamadas a partir do uso da internet, sendo um processo ainda mais rápido, tendo em vista que internet se conecta à rede de usuários de forma mais ágil, rápida e indistintamente.

Um outro método, sendo este o mais utilizado atualmente para comunicação, é o envio de mensagens instantâneas (Schlobinski, 2012). O termo, em inglês, texting, refere-se ao ato de comunicar-se através de mensagens. Porém, este processo de envio, que será abordado no próximo tópico, também sofreu evolução e foi modificado com o passar dos anos, mesmo que o intervalo de tempo destas alterações tenha sido tão curto.

3.5. Texting aplicado como ferramenta de comunicação verbal e não verbal

A forma escrita na era digital, chamada texting, causou uma revolução na forma de comunicação. Onde antes só se era possível enviar mensagens escritas via cartas, o envio de mensagens instantâneas trouxe a democratização no processo de comunicação rápida entre os indivíduos. Seja realizada através de, inicialmente, computadores (via e-mail) ou, posteriormente, dispositivos móveis (via SMS), o texting demonstra o quanto a comunicação rápida conecta pessoas que, mesmo distantes, conseguem estar interligadas.

Da língua inglesa, o texting tem como definição, segundo o Dicionário de Cambridge, “o ato de enviar a alguém uma mensagem de texto”[1] (tradução nossa). Estas mensagens, atualmente, são enviadas através de telefones e outros dispositivos móveis próprios para o envio de mensagens. Schlobinski (2012, p. 150) afirma que “enviar mensagens SMS ou tuitar são formas muito específicas de comunicação que se caracterizam pela concisão – no máximo 160 ou 140 caracteres, respectivamente. São mensagens curtas para combinar algo, dizer oi, relatar algo de maneira marcante e breve, etc.”. Isto demonstra que estas mensagens servem para uma comunicação rápida e fácil, com o objetivo de estabelecer conexão com outra pessoa através da rede de telefonia ou da rede de internet.

A comunicação via texting aborda dois tipos de comunicação que foram estudadas nesta pesquisa: verbal e não verbal. Inicialmente, era o envio de mensagens instantâneas que dispensavam o uso de elementos não verbais. Porém, devido à necessidade de agilização temporal do processo de comunicação entre as pessoas, estes elementos foram introduzidos no uso do texting. Além dos recursos não verbais, o uso de acrônimos também facilita a comunicação, ainda verbal, entre os indivíduos, pois não há a necessidade de teclar mais vezes para enviar a mesma mensagem, com o mesmo objetivo. Schlobinski (2012) afirma que “respectivamente, as mensagens de texto são simples e parcialmente reduzidas. As formas linguísticas são adaptadas ao número de caracteres disponíveis e otimizadas do ponto de vista da linguagem. ” (p. 150). Todavia, vale ressaltar que o processo de comunicação só ocorre quando o receptor e interlocutor compartilham do conhecimento relacionado àquele estilo de comunicação. No texting não é diferente e, quando se utiliza dos elementos linguísticos de facilitação da comunicação (acrônimos e elementos não verbais, por exemplo), é necessário o conhecimento e interpretação destes elementos para que seja estabelecida a comunicação.

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Em relação a comunicação não verbal existente no texting, a utilização de imagens se sobressai entre as demais. Este envio de imagens não se resume apenas à utilização de fotos ou imagens baixadas da internet e enviadas como anexo nas conversas, outros elementos foram criados a fim de estabelecer a comunicação não verbal mantendo a qualidade de interpretação dos indivíduos. Entre eles, destacam-se os emojis, os GIFs e as figurinhas (stickers, originalmente em inglês). No próximo tópico serão apresentados estes elementos e suas funções e usos dentro do ambiente de envio de mensagens instantâneas.

4. CAPÍTULO 2: A INFLUÊNCIA DO USO DE EMOJIS, GIFS E FIGURINHAS NO PROCESSO COMUNICATIVO DIGITAL

Neste capítulo abordamos a construção dos aspectos teórico-metodológicos que serviram de base para o desenvolvimento desta pesquisa. Além disso, as análises dos dados obtidos a partir da pesquisa realizada para este trabalho estão descritas também nesta parte. O objetivo é descrever o uso e a influência do texting via emojis, figurinhas e GIFs no processo de comunicação na linguagem digital. Para a realização desta análise, foram utilizados como base bibliográfica todos os teóricos citados nos capítulos anteriores, que trazem conceitos-chave para fundamentar cientificamente os dados obtidos.

4.1. Emojis/GIFs/figurinhas usado como forma de comunicação não verbal

Antes de iniciar a discussão sobre a utilização destes recursos dentro do processo de comunicação não verbal no ambiente digital, mais especificamente com o uso do texting, deve-se entender melhor o que são estes três elementos. Todos têm como objetivo principal expressar uma ideia ou sentimento por meio de mensagem de forma simples e rápida, que não através do uso de palavras, e sim elementos gráficos. Sendo necessária a interpretação por parte dos interlocutores destes elementos para inferir significância e entendimento da mensagem.

Desta forma, os emojis serão os primeiros abordados nesta pesquisa. De acordo com o Dicionário de Cambridge, os emojis são definidos como “uma imagem digital adicionada à uma mensagem na comunicação eletrônica com objetivo de expressar uma ideia ou sentimento particular”[2] (tradução nossa). Comumente chamadas de “carinhas” dentro do ambiente digital, estas imagens foram criadas em 1999 pelo designer japonês Shigetaka Kurita, e foram desenvolvidas para a plataforma de Internet móvel NTT Docomo. Os emojis são usados com o intuito de demonstrar como a pessoa está se sentindo em relação à uma situação ou à uma mensagem anteriormente enviada. Estes emojis indicam surpresa, amor, tristeza, felicidade, e muitos outros sentimentos, como o exemplo de emoji na (figura 1 abaixo), que também está disponível no apêndice desta pesquisa. O emoji utilizado, como a própria imagem apresenta, traz o sentimento de paixão representado pelos corações que rodeiam a imagem com traços avermelhados nas bochechas – compreensão livre nossa. É comumente utilizado para expressar o sentimento de ter amado algo que foi enviado anteriormente pelo interlocutor, ou até mesmo para iniciar uma conversa com uma pessoa a quem se ama. Mesmo havendo outras figurinhas semelhantes a esta, ela se sobressai entre as demais pela explanação do seu sentido, como comentamos acima.

Figura 1 – Exemplo de emoji  Fonte: Whatsapp Messenger/Google Images
Figura 1 – Exemplo de emoji
Fonte: Whatsapp Messenger/Google Images

Seguindo com os elementos substitutos em detrimento da comunicação verbal, temos os GIFs. Estes são mais parecidos, em termos de formatação, com as figurinhas. A definição de GIF é, segundo o Dicionário de Cambridge, “um tipo de arquivo de computador que contém uma imagem estática ou em movimento. GIF é a abreviação para ‘Formato de Intercâmbio Gráfico’”[3] (tradução nossa). Os GIFs são animações (ou vídeos curtos) em formatos mais leves criados em 1987 pela CompuServ, nos Estados Unidos, para serem de envio rápido em mensagens de texto. Alguns GIFs podem apresentar elementos verbais, como símbolos, letras e até palavras da língua a que se refere para auxiliar no processo de interpretação, porém, a maior parte utiliza-se apenas da linguagem não verbal, uma animação/imagem mais adequada ao que a palavra escrita em si teria. Usamos abaixo um exemplo de GIF (figura 2). O GIF em questão traz uma ideia de não entendimento em relação ao contexto da conversa apresentada anteriormente pelo interlocutor, tendo em vista que ele é caracterizado por um ponto de interrogação que se move e um boneco representando um indivíduo com expressão de dúvida (mãos se mexendo próximas ao queixo). Para isso, o elemento verbal de ponto de interrogação e a expressão do desenho da imagem são determinantes para demonstrar esta ideia ou sentimento de dúvida – interpretação livre nossa; consentindo-se compreensão entre as partes.

Figura 2 – Exemplo de GIF  Fonte: Google Images
Figura 2 – Exemplo de GIF
Fonte: Google Images

Por fim, em nossa análise dos termos substitutivos da palavra escrita temos as figurinhas, do inglês stickers[4]. Tratam-se de colagens de imagens enviadas instantaneamente via aplicativo de mensagem. Este novo elemento de comunicação não verbal dentro do ambiente do texting é o mais atual deles e surgiu inicialmente nos aplicativos de envio de mensagens instantâneas, em 2018 e foram criadas pelo Whatsapp Messenger, já os demais surgiram inicialmente nos serviços de envio de mensagens das principais redes sociais. As figurinhas são amplamente usadas para expressar, com mais clareza, na maioria das vezes, um sentimento ou ideia momentânea do emissor da mensagem.

Além disso, as figurinhas, diferente dos emojis e GIFs, trazem elementos verbais mais marcantes, como frases e textos contidos na imagem. Estes formatos imediatos de textos podem ser usados para emitir a própria mensagem, ou até mesmo para auxiliar na compreensão da interpretação da mensagem enviada anteriormente pelo interlocutor, mantendo a conexão do diálogo, sem a necessidade de usar uma só letra digitada. Apresentamos abaixo (figura 3) dois exemplos de figurinhas, um apenas com comunicação não verbal e outro com elementos verbais. Outros exemplos de figurinhas podem ser visualizados no apêndice desta pesquisa.

Figura 3 – Exemplo de figurinha  Fonte: Whatsapp Messenger/Google Images
Figura 3 – Exemplo de figurinha
Fonte: Whatsapp Messenger/Google Images

Quanto ao uso destes elementos dentro do ambiente do texting, é importante ressaltar que aspectos pessoais e sociais influem para a utilização destes elementos. O repertório linguístico conforme Schlobinski (2012) está ligado a alguns fatores linguísticos específicos de cada indivíduo, como ele afirma

“Informações não verbais e prosódicas precisam ser compensadas, sendo emuladas por meios grafoestilísticos (^_^). O repertório linguístico depende do conteúdo dos diálogos, da idade (projetada) e do gênero do interlocutor, da identidade dos papeis, etc. Resumindo: fatores sociolinguísticos desempenham um papel importante e o espaço de variação é estruturado em diferentes dimensões. ” (Schlobinski, 2012, p. 150).

Sendo assim, estes fatores sociolinguísticos são os determinantes do uso e influem no processo de interpretação da mensagem. Como já dissemos, a mensagem precisa ser decodificada pelo interlocutor e, para isso, ambos devem compartilhar do conhecimento daquela mensagem para haver comunicação (Buck & Van Lear, 2002). Provavelmente indivíduos que apresentem divergências quanto aos aspectos sociolinguísticos terão dificuldades no processo de comunicação. Isto não quer dizer que não haja comunicação, mas que o processo de compreensão se torna mais difícil e necessita de mais tempo ou até mesmo mais explicações por parte do interlocutor da mensagem para que a comunicação seja eficientemente estabelecida.

Após o levantamento de todos esses estudos relacionados aos tipos de comunicação e aos elementos utilizados no texting, é possível analisar conversas entre indivíduos que utilizam este tipo de comunicação para estabelecer conexão com outros.

4.2. Aspectos teórico-metodológicos da investigação

A metodologia de toda pesquisa é a base para a compreensão e análise de determinado tema através da construção de conhecimento científico. O objetivo do processo metodológico é explicar e discutir um fenômeno baseado na verificação de uma ou mais hipóteses. Segundo Galliano (1986, p. 26), “ao analisar um fato, o conhecimento científico não apenas trata de explicá-lo, mas também busca descobrir suas relações com outros fatos e explicá-los. ” Sendo assim, a construção desta pesquisa se dá através dos conceitos-chave do desenvolvimento metodológico científico.

A natureza desta pesquisa é bibliográfica-interpretativista, tendo em vista que se trata de uma análise que passa pela interpretação dos dados a partir das teorias estudadas no trabalho. O primeiro passo foi estudar as teorias ligadas ao campo de estudo do objeto desta pesquisa, tendo como base os conceitos de língua, linguagem e fala de Saussure (2006); significado de linguagem de acordo com Bechara (2006); conceito de comunicação e diferenciação entre comunicação verbal e não verbal dos estudos de Buck & Van Lear (2002); e, por último, os fatores sociolinguísticos da comunicação digital segundo Schlobinski (2012). A partir do levantamento do aporte teórico, analisamos a comunicação verbal na era digital, tendo em vista que o objeto desta pesquisa são os emojis, figurinhas e GIFs. Sendo assim, pesquisamos o significado e a origem destes elementos.

Seguindo com o processo metodológico, analisamos e selecionamos conversas informais utilizadas em aplicativos de mensagens instantâneas em plataformas digitais, a fim de identificar o uso de elementos de comunicação não verbal (emojis, figurinhas, GIFs). Mesmo quando utilizados acrônimos ou outros elementos que configurassem uma comunicação digital diferente da norma padrão, foram descartadas conversas que utilizassem comunicação verbal. Durante o mapeamento das conversas que utilizassem emojis, figurinhas e GIFs, foram analisadas situações conversacionais ocorridas no ano de 2020, considerando que quanto mais atualizados fossem os dados, mais precisão teríamos no resultado esperado. Para levantar e arquivar os dados, foram utilizadas capturas de telas (printscreens) como instrumento de coletas de dados e elas estarão disponíveis no corpus e no apêndice deste trabalho. Por questões éticas, os nomes das pessoas envolvidas e algumas partes das conversas foram suprimidas da análise.

Foram selecionadas seis conversas entre pessoas que utilizaram aplicativo de envio de mensagens instantâneas para diálogo, usando os elementos de comunicação não verbais emojis, figurinhas e GIFs. As conversas foram numeradas (de 1 a 6) e as pessoas foram identificadas apenas como emissor/emissora e receptor/receptora. Os emissores são as pessoas cujas mensagens estão nas caixas de cor verde-claro (à direita nas imagens), e os receptores têm suas mensagens nas caixas de cor branca (à esquerda nas imagens).

Após o mapeamento e seleção das conversas, a análise foi realizada utilizando como base dois questionamentos teóricos:

  1. De acordo com o conceito de Buck & Van Lear (2002), houve comunicação na conversa analisada?
  2. Os aspectos sociolinguísticos, a partir dos estudos de Schlobinski (2012), interferiram no processo de comunicação na conversa em análise?

Cada análise expõe a interpretação do autor acerca das conversas, tomando como base a resposta aos dois questionamentos e o aporte teórico desenvolvido nesta pesquisa. Para concluir os estudos desta pesquisa, discorremos, no capítulo seguinte, acerca das considerações finais.

4.3. Análise de dados da pesquisa

A análise destas mensagens busca comprovar se houve ou não comunicação significativa com o uso destes elementos não verbais, levando em consideração o conceito de comunicação (Buck & Van Lear, 2002). Para isso, marcas de expressão de entendimento ou desentendimento foram buscados dentro das conversas. Esta análise é importante para a resolução do questionamento desta pesquisa, pois se constatado que não houve comunicação significativa, teríamos como resultado um déficit de comunicação quando utilizada a linguagem não verbal dentro do contexto comunicacional. Também foi utilizado como base teórica o conceito de Schlobinski (2012) que relaciona os aspectos sociolinguísticos ao contexto de interpretação de mensagens.

Analisamos se a utilização de emojis, figurinhas e GIFs é considerada eficaz ou não no processo de comunicação via texting. A sua eficácia na comunicação vai depender de comunicação significativa, dos aspectos sociolinguísticos. Para isto, a análise interpretativa do autor, considerando todo aporte teórico levantado, fora realizada a partir dos dados obtidos nas conversas em que a comunicação não verbal foi utilizada. A análise será realizada sob a ótica dos elementos de demonstração de avanço no processo comunicativo quando utilizada a comunicação não verbal via multimodalidade textual. Também serão levados em consideração os aspectos sociolinguísticos dentro dessa abordagem com o objetivo de não excluir as situações em que as conversas aconteceram entre os indivíduos.

4.4. Categorias de análise

A partir de agora trataremos de algumas análises dos elementos não verbais dentro da linguagem digital. Analisar conversas requer muita sensibilidade quanto aos aspectos de definição de linguagem e comunicação, e também aos aspectos sociolinguísticos estudados e abordados nesta pesquisa. Sendo assim, neste tópico faremos a análise de seis conversas entre pessoas que utilizaram um aplicativo de envio de mensagens instantâneas para se comunicar usando os elementos de comunicação não verbais estudados nesta pesquisa: emojis, figurinhas e GIFs. Numeramos as conversas de 1 a 6, e iremos identificar as pessoas apenas como emissor/emissora e receptor/receptora. Os emissores são as pessoas cujas mensagens estão nas caixas de diálogos de cor verde-claro (à direita nas imagens), e os receptores têm suas mensagens nas caixas de cor branca (à esquerda nas imagens). Com isto, faremos a análise da primeira conversa a seguir.
 

Figura 4 – Conversa 1  Fonte: Whatsapp Messenger
Figura 4 – Conversa 1
Fonte: Whatsapp Messenger

Nesta primeira conversa podemos identificar uma situação de uso dos emojis entre dois indivíduos. O objetivo do uso destes emojis é complementar as mensagens verbais da conversa, com alguns emojis também usados de forma avulsa para expressar uma mensagem diferente. Podemos ver que os corações são utilizados para expressar o amor entre os dois que estão se despedindo um do outro, porém, temos a presença de mãos que indicam fé, mostrando que a receptora da mensagem é uma pessoa religiosa. Há o estabelecimento de comunicação significativa (Buck & Van Lear, 2002) pois os indivíduos, além de serem membros da mesma família, compartilham do conhecimento destas informações. Aspectos sociolinguísticos (Schlobinski, 2012) não interferiram neste caso pois são pessoas que convivem entre si e, mesmo que não tenham a mesma idade, compartilham de muitos aspectos em comum.
 

Figura 5 – Conversa 2  Fonte: Whatsapp Messenger
Figura 5 – Conversa 2
Fonte: Whatsapp Messenger

A segunda conversa traz também o elemento não verbal emoji, sendo esta com o uso mais delimitado destas figuras. Ao contrário da primeira imagem, esta não gerou uma comunicação imediata, pois o receptor da mensagem não compreendeu o que foi enviado pela emissora, sendo necessária mais explicação para que a mensagem em forma de emoji fosse decodificada (Buck & Van Lear, 2002). Sendo assim, a emissora não conseguiu enviar uma mensagem clara por meio de emojis, comprometendo a comunicação, sendo reestabelecida com esclarecimentos. Não há influência dos aspectos sociolinguísticos (Schlobinski, 2012) nesta situação conversacional pois os interlocutores compartilham de mesma faixa etária e região geográfica, porém a linguagem não verbal foi insuficiente para construção de sentido entre os interlocutores, assim, para efetivação de sentido da comunicação, um dos interlocutores precisou usar a linguagem verbal por meio de texto escrito.
 

Figura 6 – Conversa 3  Fonte: Whatsapp Messenger
Figura 6 – Conversa 3
Fonte: Whatsapp Messenger

Os elementos utilizados nesta conversa são as figurinhas, sendo neste caso todas elas constituídas apenas de imagens, dispensando elementos verbais. Mesmo assim, a comunicação foi estabelecida de forma eficiente (Buck & Van Lear, 2002), tendo em vista que emissor e receptor interpretaram as mensagens enviadas e inferiram sentido a elas. Neste contexto, os indivíduos compartilham de aspectos sociolinguísticos (Schlobinski, 2012), mesmo que tenham idades adversas. A comunicação foi iniciada pelo emissor com um gesto de carinho via figurinha que não foi aceita/retribuída pelo receptor da mensagem. A última figurinha demonstra a tristeza do emissor diante deste ato, tendo em vista que a imagem em questão relata um garoto com feições tristes puxando um carrinho com objetos. Aqui podemos ver que a comunicação eficiente não necessita de elementos verbais, desde que as pessoas envolvidas nas conversas compartilhem do conhecimento necessário para interpretação destas mensagens. Isto comprova a eficiência da utilização destes elementos não verbais e demonstra uma comunicação que foi estabelecida de maneira ágil e simplificada, apenas por meio de imagens que são facilmente compartilhadas e interpretadas pelos indivíduos.

Figura 7 – Conversa 4  Fonte: Whatsapp Messenger
Figura 7 – Conversa 4
Fonte: Whatsapp Messenger

Temos nesta outra conversa a utilização das figurinhas, porém com elementos verbais incluídos nas imagens. Neste caso, há duas figurinhas com frases, sendo uma composta apenas de texto (a primeira) e outra com presença de texto para auxiliar no processo de interpretação da imagem (a última). Esta conversa também teve comunicação eficiente estabelecida (Buck & Van Lear, 2002), tendo em vista que emissor e receptor compreenderam o contexto conversacional. Além disso, os interlocutores compartilham de aspectos sociolinguísticos semelhantes (Schlobinski, 2012), como faixa etária e região geográfica similares. Os elementos verbais foram primordiais para a análise deste caso, pois a partir deles a comunicação se desenrolou, visto que, o receptor da mensagem iniciou a conversa com um texto via figurinha e o emissor rapidamente interpretou com tristeza a mensagem.

Figura 8 – Conversa 5  Fonte: Whatsapp Messenger
Figura 8 – Conversa 5
Fonte: Whatsapp Messenger

Esta conversa também traz figurinhas como elemento de comunicação não verbal. Porém, neste caso, a comunicação foi iniciada apenas com a presença de elementos verbais, via palavras escritas. O receptor lança a mensagem com uma informação e a emissora exprime, através de uma figurinha, o seu sentimento de que amou a informação. Logo após, o receptor se mostra não muito contente em relação a sua própria informação, desta vez também por meio de figurinha. A comunicação foi estabelecida de forma eficiente (Buck & Van Lear, 2002) neste caso também, não havendo interferência dos aspectos sociolinguísticos (Schlobinski, 2012) na construção das mensagens devido à proximidade e compartilhamento de conhecimentos entre as pessoas envolvidas na conversa.

Figura 9 – Conversa 6
Figura 9 – Conversa 6
Fonte: Whatsapp Messenger

A última conversa analisada nesta pesquisa traz o elemento não verbal GIF como instrumento de comunicação. Por se tratar de uma imagem com movimento, pode se perder os efeitos de sentido devido, não ser possível ao deslocamento da imagem no texto. Assim, ampliaremos a sua interpretação através da descrição deste elemento. No GIF em questão, há duas pessoas num ambiente hospitalar, sendo uma, enfermeira e o outro, paciente. A imagem mostra que a enfermeira aplica uma injeção ou vacina no paciente com força absurda, fazendo-o cair ao chão. Esta mensagem foi enviada em uma conversa de grupo, no qual vários participantes podem compartilhar suas mensagens.

É necessário relacionar a situação da conversa ao contexto temporal, cuja pandemia da Covid-19 está acontecendo. A mensagem tem o intuito de causar medo a quem recebe a mensagem, mas ao mesmo tempo divertir por se tratar de uma imagem engraçada, que traz entretenimento. Nota-se que o objetivo do emissor da mensagem é estabelecido pois a mensagem seguinte de uma outra receptora traz uma figurinha com risos, comprovando que a pessoa se divertiu ao ver o GIF. Neste caso, a comunicação imediata foi efetivamente estabelecida (Buck & Van Lear, 2002) entre os indivíduos envolvidos nas conversas por compartilharem dos mesmos aspectos sociolinguísticos (Schlobinski, 2012) e os conhecimentos necessários para a interpretação das mensagens.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante da análise dos dados das conversas desta pesquisa, podemos afirmar que os elementos não verbais emojis, figurinhas e GIFs trazem influência positiva no estabelecimento de comunicação entre indivíduos via aplicativos de mensagens instantâneas. Através dos questionamentos com base nos estudos de Buck & Van Lear (2002) e Schlobinski (2012), uso destes elementos de comunicação não verbal apresentam mais avanço do que retrocesso no processo comunicativo. Com o advento das novas mídias, muda-se também as formas de comunicação e adequação da linguagem, e isso se configura em avanço no uso da linguagem. Levando em consideração os aspectos sociolinguísticos e regionais, pudemos perceber que a comunicação é exercida com eficiência também com o uso dos emojis, figurinhas e GIFs, o que traz um fortalecimento linguístico para a linguagem regionalizada.

 Devido à globalização e democratização do acesso às mídias digitais, não observamos os aspectos sociolinguísticos atuando no processo de dificultar a interpretação das mensagens, sendo a falta de elaboração da mensagem por parte do emissor, que implicou na necessidade de utilização de linguagem verbal para estabelecimento de comunicação, a causa da única situação em que não houve comunicação significativa. Os textos multimodais trouxeram simplificação e agilidade no estabelecimento da comunicabilidade sem perda de significado, sendo estas ferramentas importantes no processo interativo de comunicação entre os indivíduos. Dentro do contexto atual, mensagens de rápida interpretação são instrumentos de facilitação pela necessidade de comunicação entre pessoas, e os elementos estudados nesta pesquisa demonstraram que seu uso cumpre seus objetivos sem que a comunicação seja comprometida, desde que o interlocutor seja comedido.

Este trabalho contribui para a área da pesquisa de comunicação visual digital, agregando aos estudos linguísticos um olhar mais minucioso para os elementos de comunicação não verbal que são amplamente utilizados por indivíduos sem distinção sociolinguística, tendo em vista que pessoas de diversas regiões, idades, etnias e outros aspectos sociolinguísticos fazem uso destes elementos diariamente para se comunicar com outras pessoas.

Conclui-se que, para pesquisas futuras, deve-se investigar acerca dos problemas e dificuldades no uso da comunicação não verbal dentro de outros contextos que transpassarem o ambiente digital. Outro estudo importante a ser utilizado como tema em próximas pesquisas é a utilização da multimodalidade textual dentro de sala de aula, em especial no ensino de Língua Estrangeira.

6. REFERÊNCIAS

BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. 37. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.

BUCK, R., & VAN LEAR, C. A. Verbal and nonverbal communication: Distinguishing symbolic, spontaneous, and pseudo-spontaneous nonverbal behavior. Journal of Communication. 2002, 52(3), 522–541.

CAMBRIDGE DICTIONARY. Cambridge University Press. Emoji. Disponível em: . Acesso em: 15 de out. de 2020.

CAMBRIDGE DICTIONARY. Cambridge University Press. GIF. Disponível em: . Acesso em: 17 de out. de 2020.

CAMBRIDGE DICTIONARY. Cambridge University Press. Texting. Disponível em: . Acesso em: 22 de out. de 2020.

CAMBRIDGE INTERNATIONAL DICTIONARY OF ENGLISH. Cambridge, UK: Cambridge University Press, 1995.

GALLIANO, Alfredo Guilherme. O método científico: teoria e prática. São Paulo:Harbra, 1986.          

GOOGLE IMAGES. Google.org, USA. Disponível em: . Acesso em: 05 de nov. de 2020.

MARTÍN SERRANO, Manuel. Teoría de la comunicación. La comunicación, la vida y la sociedad. Madrid: McGraw-Hill/interamericana de España, 2007.

SAUSSURE, Ferdinand. Curso de Linguística Geral. 27. ed. São Paulo: Cultrix, 2006. (Data do original: 1973).

SCHLOBINSKI, Peter. Linguagem e comunicação na era digital. São Paulo: Pandaemonium ger. [online]. 2012, vol.15, n.19, pp.137-153.

Voxel Digital. Como fazer figurinhas de Whatsapp para sua estratégia digital. Disponível em: < https://www.voxeldigital.com.br/blog/figurinhas-de-whatsapp-estrategia-digital/#:~:text=Os%20stickers%20s%C3%A3o%20da%20fam%C3%ADlia,essa%20funcionalidade%20virasse%20um%20sucesso.>. Acesso em: 05 de dez. de 2020.


[1]The activity of sending someone a text message”.

[2]A digital image that is added to a message in electronic communication in order to express a particular idea or feeling”.

[3]A type of computer file that contains a still or moving image. GIF is the abbreviation for ‘Graphic Interchange Format”.

[4] “Os stickers são da família dos emoticons e dos GIFs, outras duas formas disponíveis no WhatsApp para não depender apenas do texto escrito. A possibilidade de qualquer um criar suas próprias figurinhas por meio de apps fez com que essa funcionalidade virasse um sucesso”.   


Publicado por: Alex Sandro Peixoto Medeiros

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