Formação Do Ethos Discursivos nos Discursos de Luís Inácio Lula da Silva

Educação

Os ethos discursivos concebidos em dois discursos de Luís Inácio Lula da Silva.

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1. RESUMO

MARINHO, Daciléia Pereira. Formação do Ethos Discursivo nos discursos de Luís Inácio Lula da Silva. Belém, 2010. Trabalho de Conclusão de Curso, Escola Superior da Amazônia – Belém.

O objeto de estudo desta pesquisa são dois discursos de Luís Inácio Lula da Silva, inseridos em diferentes momentos históricos, tendo como principal objetivo analisar os ethos discursivos concebidos em cada discurso. O primeiro datado de 17 de abril, de 1980, proferido à classe dos trabalhadores, especificamente, metalúrgicos do ABC paulista, conclamando a greve geral dos sindicalistas. Nesse momento, o Brasil vivenciava um processo político conturbado, pois, o país estava imerso em uma ditadura militar, e isso refletiu diretamente nos sindicatos, porque o Governo passou a considerá-los na ilegalidade; e em função dessa ilegalidade houve a intervenção nos sindicatos dos trabalhadores. É em meio a esse cenário político que se configurou o primeiro discurso do sindicalista Luís Inácio Lula da Silva. O segundo discurso, datado de 24 de junho, de 2005, está inserido no âmbito da candidatura de Lula ao segundo mandato presidencialista. No primeiro discurso, observou-se um Lula presidente do sindicato dos metalúrgicos e um dos fundadores do partido dos trabalhadores, (PT). Nesse sentido, a fundação do partido reflete a vida do próprio Lula, uma vez que essa organização partidária surgira da emergência de se ter um partido que militasse as causas trabalhistas. No segundo discurso, notou-se um Lula concorrendo às reeleições presidencialistas, aqui, há um encontro entre Lula e a classe de trabalhadores, Lula inseriu-se como um dos candidatos às eleições presidencialistas, para isso teve como principal meta conseguir novamente a confiança dos interlocutores, que, aqui se observou serem os trabalhadores brasileiros. Nesse cenário, percebera-se um candidato do Partido dos Trabalhadores tentando apagar a má imagem, que de certa maneira, o partido vivenciara; em função de alguns escândalos envolvendo o alto escalão deste, o que abalou de uma forma ou de outra a confiança dos trabalhadores nesse partido. Para dirimi essa impressão, o candidato apropriou-se de programas políticos efetuados em seu primeiro governo, os quais beneficiaram à população mais carente. esses programas governamentais, segundo o discurso, voltaram-se para a classe mais humilde e, assim, Lula fora construindo seu discurso alicerçado nessa argumentação: de ter feito um bom governo, senão nas palavras do próprio Lula, o melhor governo do Brasil, único a lançar um olhar para essa classe, que, de acordo com ele, estivera esquecida antes de seu governo. São nesses aspectos que se encontravam os discursos analisados. É relevante observar que os discursos propostos se construíram em função de seus interlocutores e, para isso, o locutor se apropriou de argumentos eficazes capazes de interagir com os interlocutores, haja vista a necessidade do locutor em persuadi-los. O estudo está alicerçado numa abordagem teórica do universo da Análise do Discurso de linha francesa. O foco da pesquisa é fazer uma análise qualitativa que abarque as concepções que serviram como fundamentação teórica.

Palavras-chave: AD. Atos de fala. Discurso. Ethos discursivo. Persuasão

2. INTRODUÇÃO

O objetivo principal da presente pesquisa é trazer para o cerne do trabalho uma abordagem sobre ethos discursivos presentes nos discursos analisados, estes discursos pertencem a Luís Inácio Lula da Silva, que os proferiu em diferentes momentos de sua trajetória política. O primeiro discurso data do dia 17 de abril, de 1980, e o segundo, do dia 24 de junho, de 2005.

De acordo com a pesquisa, observou-se que, para cada discurso, Lula criou um tipo de ethos, haja vista a necessidade de interação, posto que todo discurso se modifica através do tempo.

Para essa abordagem, é relevante observar que a imagem do ethos constrói-se no âmbito do próprio discurso. Nessa perspectiva, de construção de uma imagem de si, os antigos designam por esse termo uma imagem que consiga garantir um desempenho capaz de persuadir os ouvintes/interlocutores.

Com a referida pesquisa, pretende-se descortinar os argumentos imbuídos nas entrelinhas dos discursos analisados capazes de persuadir os interlocutores, que, aqui, se configuram como a classe dos trabalhadores.

A pesquisa foi direcionada a fazer um estudo que versa sobre essa construção e quais os efeitos dessa imagem nos interlocutores, uma vez que essa imagem é construída em função dos ouvintes/interlocutores.

Para tanto, antes de se adentrar propriamente em ethos discursivo, é imprescindível fazer um estudo conciso sobre a Análise do Discurso de linha francesa, pois a pesquisa foi sedimentada teoricamente nessa linha de conhecimento.

Tendo em vista o que fora mencionado, a pesquisa fora estruturada de acordo com a proposta do trabalho: que é fazer uma abordagem pertinente sobre a Análise do Discurso, dado que fora o elemento motivador para a concepção desse trabalho, haja vista seu vasto acervo organizado em torno da linguagem, especificamente, em análise de textos, de uma feita que todo texto é na verdade um discurso, e como discurso é permeado por ideologias, ademais dessas perspectivas trabalharemos com concepção de sujeito, locutor e ideologia, concepções essas relevantes para a Análise do Discurso (AD).

Falar em Análise do Discurso é trazer para o escopo da pesquisa temas centrais que norteiam e sedimentam a análise do discurso. Por isso, procurou-se de maneira concisa abordar esses temas, em decorrência de sua relevância à pesquisa.

A pesquisa volta seu olhar para uma concepção teórica que servira como alicerce e fundamentação para a composição do trabalho, sem a qual o trabalho não teria razão de ser, porque fora a grande norteadora dos mais diversos assuntos abordados no transcurso da pesquisa.

Dentre as fundamentações, têm-se os principais autores que iniciaram a Análise do Discurso, desde sua mais tenra aceitação no campo de conhecimento científico. Por isso, trabalhar-se-á com as noções de Jean Dubois, Michael Pêcheux, Althusser e Michael Foucault, isso em função de suas significativas participações no terreno fértil que fora a AD.

Em Dubois e Pêcheux, têm-se os expoentes norteadores e fundadores da AD francesa. Respectivamente, um lexicólogo que direcionara sua pesquisa, para a lexicologia histórica e discursiva, e um filósofo, o qual direcionara sua pesquisa para o estudo sobre discurso, sujeito e ideologia.

É importante mencionar que a AD tem caráter interdisciplinar, pois se convergem saberes das mais diversificadas áreas de conhecimento. Dentre essas, salienta-se a filosofia, sociologia, história e a psicanálise, as quais contribuíram para o alicerçamento da AD.

Ainda, nessa perspectiva, vê-se Althusser e Foucault. Em Althusser há uma releitura da obra de Marx e Engels, para quem era imprescindível a luta de classes, pois somente dessa maneira chegar-se-ia a uma sociedade mais justa. Nessa proposta, Althusser menciona que há uma estrutura que representa o Estado, para a qual ele denominou de Aparelho Ideológico do Estado (AIE), e Aparelho Repressivo do Estado (ARE), essas seriam responsáveis pela manutenção do Estado no poder.

Em Foucault, observa-se que o sujeito é o lugar para onde ele lançará seu olhar, seja como objeto de estudo, seja enquanto objeto de saber, ou enquanto objeto de construção de uma identidade, é esse sujeito que Foucault trabalhará em sua obra: um sujeito histórico. Vê-se, também, a concepção de formação discursiva e ideológica, como local que conduzirá o discurso desse sujeito histórico, isso porque seu discurso será mediado por essa formação discursiva e ideológica, além da condição de produção, pois ela será responsável pelo que o sujeito pode ou deve dizer a partir de um dado local. Nesse sentido, Mussalim (2005, p.137) afirma que “o sujeito pode/deve ou não dizer, a partir do lugar que ocupa e das representações que faz ao enunciar, não é preestabelecido antes que o sujeito enuncie o discurso, mas este jogo vai se construindo à medida que se constitui o próprio discurso”

Para tanto, todo discurso é permeado por significações, e nessa proposta trabalhar-se-á com os atos de fala, posto que todo discurso é perpassado por uma força ilocucionária responsável pelo discurso, ou seja, são os recursos linguísticos que o locutor se apropriará para a realização do discurso, aportado, nessa perspectiva, observa-se os respectivos atos de fala: locucionário, ilocucionário e perlocucionário. A referida abordagem está sedimentada teoricamente dentro da proposta de Austin, por ter sido o grande expoente dessa teoria, “para quem todo dizer é um fazer”, ou seja, a linguagem é compreendida como forma de ação.

No início, falou-se na concepção de ethos discursivo, e nessa abordagem percebera-se a necessidade de se fazer um breve estudo diacrônico, nas mais diversas visões de ethos, dentre essas concepções trabalha-se com a visão do filósofo grego Aristóteles, por entender a relevância de seu estudo sobre ethos.

Segundo Aristóteles, o conceito de ethos está intrinsecamente relacionado aos seguintes aspectos: ETHOS, que se estrutura no âmbito do discurso, ou seja, no caráter do orador, LOGOS, para quem todo discurso está sedimentado nessa característica e o PATHOS, direcionado a causar os mais diversos sentimentos na plateia/ouvinte/ interlocutores.

Ademais da abordagem de Aristóteles, trabalhou-se com uma visão interacionista da imagem de si construída no discurso, na perspectiva de Goffman, passando pela visão da semântica pragmática, na concepção de Ducrot, até desaguar na visão de ethos discursivo proposto por Maingueneau.

No decorrer da pesquisa, perceber-se-á a maneira como se concebeu a pesquisa proposta, até a concretude do material analisado, isto é, os discursos de Luís Inácio Lula da Silva, pois, esses discursos foram o alvo do referido trabalho.

3. CAPÍTULO 2

Este capítulo tem como objetivo desvelar o campo emblemático e produtivo que se constituíra a Análise do Discurso, e qual a contribuição das diversas teorias que serviram como base para o alicerce dessa área de conhecimento, a qual surgira com o objetivo de delinear as entrelinhas que compõem os discursos.

Procurara-se evidenciar o terreno no qual AD fora fundada, e qual a contribuição de outras ciências sociais para esse campo de estudo, e quais suas especificidades.

3.1. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

A Análise do Discurso surgiu na França, no final, da década de 60, principalmente, em torno da obra de Michel Pêcheux e Jean Dubois, com o objetivo de explicitar os mecanismos discursivos que deram embasamento à produção de sentido.

Falar em Análise do Discurso é adentrar em um instigante campo do conhecimento relacionado à linguagem, é desnudar o caráter discursivo que perpassa todo enunciado, de uma feita que no momento que se pronuncia tem-se a finalidade de persuadir o interlocutor, uma vez que no ato da fala, o locutor faz uso de mecanismos para interagir com quem o ouve. Fora em meio a esse complexo jogo de linguagem que se inseriu uma nova linha de pesquisa à Análise do Discurso.

A Análise do Discurso, doravante AD, fora influenciado pelo linguista norte americano Z. S. Harris, que assim se pronunciara:

Análise do discurso dá uma multiplicidade de ensinamentos sobre a estrutura de um texto ou de um tipo de texto, ou sobre o papel de cada elemento nessa estrutura. A linguística descritiva descreve apenas o papel de cada elemento na estrutura da frase que o contém. A AD nos ensina, além disso, como um discurso pode ser construído para satisfazer diversas especificações, exatamente como a linguística descritiva constrói refinados raciocínios sobre os modos segundo os quais os sistemas linguísticos podem ser construídos para satisfazer diversas especificações.1 (Harris, 1952 apud MAZIÉRE, 2007, p.07).

Antes de adentrar no campo de estudos da AD, faz-se necessário expor de maneira clara e objetiva as nuanças que compõem essa linha de pesquisa, que desde o limiar de suas pesquisas teve um caráter interdisciplinar, logo é indispensável compreender a gênese desse estudo.

As condições de produção propiciaram o florescimento da AD, posto que a Análise do Discurso desenvolveu-se em um espaço histórico permeado pela emergência de grandes mudanças no contexto da linguística, assim como da sociedade como um todo.

Segundo Maldidier (1994 apud MUSSALIM, 2006, p.101) os precursores da Análise do Discurso foram Jean Dubois, um linguista lexicólogo, que direcionara suas pesquisas para compreender os meandros da linguística e o filósofo Michel Pêcheux, que direcionara seus estudos a partir de uma releitura da obra de Karl Marx feita pelo, também, filósofo Althusser. Tem-se dentro dessa abordagem o próprio Althusser, que, em 1970, apresenta uma releitura de Karl Marx, em “Ideologias e Aparelhos Ideológicos do Estado”.

Althusser (1970 apud MUSSALIM, 2006, p.110) faz uma divisão da produção das ideologias em teorias: “Teoria das ideologias particulares” e “Teoria da ideologia em geral”. Para Althusser, a segunda deveria dar conta de evidenciar os mecanismos pelos quais as ideologias particulares se apropriam, pois são essas ideologias que determinam as relações de produção comum a todas as ideologias. É importante salientar que o filósofo Michel Foucault teve uma participação significativa no estudo da obra de Marx, todavia os teóricos concebiam sua obra com viés distinto. É da concepção Foucaultiana a formação discursiva ou FD, isto é, o desempenho da linguagem em cada enunciado e formação ideológica, doravante FI. É em meio a esses diálogos políticos e ideológicos que a AD amplia seus estudos.

Ademais, das teorias explicitadas acima, têm-se outras áreas de conhecimento que serviram para sedimentar a abordagem proposta pela AD, menciona-se, aqui, a psicanálise Lacaniana. Para Lacan (1998 apud MUSSALIM, 2006, p.109), que, no primeiro momento de sua pesquisa, teve como subsídio a obra de Freud, na qual o conceito visto por Lacan de sujeito vem se moldando no decorrer de suas pesquisas, isto em função da descoberta do inconsciente por Freud, sendo assim, Lacan fizera uma releitura da obra do referido psicanalista, como forma de direcionar suas pesquisas.

Lacan (1998 apud MUSSALIM, 2006, p.109) cunha de Freud a concepção de consciente e inconsciente, isto é, o sujeito é visto como clivado, dividido entre um ser que é consciente e o ser inconsciente. Lacan recorre, também, à linguística estruturalista defendida por Saussure, além disso, o autor trabalha com o viés linguístico do também linguista Jakobson, numa tentativa de desvelar com bastante precisão o inconsciente, e esse inconsciente é percebido na maioria das vezes como uma entidade misteriosa e abissal.

Para Lacan (1998 apud MUSSALIM, 2006, p.109), o inconsciente estrutura-se como uma linguagem, ou seja, como uma cadeia de significados que vai repetindo-se e interferindo em um dado discurso, isto é, para o psicanalista sempre haverá outro discurso, no qual, o outro vai materializar-se no discurso, que para Lacan é o Outro.

É em volta a essas concepções diferentes para cada autor, que aparece a figura do analista do discurso, o qual vem para sistematizar cada abordagem que se materializara por meio dos discursos, ou seja, terá que trazer à tona o que, verdadeiramente, constitui cada enunciado; isso porque, para o analista do discurso estudar as frases soltas não é relevante, uma vez que para o analista, agora, importa analisar o contexto político histórico que se constitui cada discurso; importa, nesse momento, estudar o dizível e o não dizível, como maneira de elucidar os enunciados de cada discurso.

É importante mencionar-se, que, para AD, a psicanálise contribuíra com a formação de sujeito; e esse mesmo sujeito clivado será abordado no cerne dos estudos da Análise do Discurso francesa em uma de suas fases, uma vez que o discurso para AD é sempre movido pela ideologia, e essa ideologia direcionar-se-á ao sujeito, que a absorve, e ao absorvê-la fica entrelaçado a ela; desta forma, tem-se um sujeito que está inserido no espaço histórico social, e a partir dele decide sobre os sentidos e as possibilidades enunciativas, isto é, percebe-se que o sujeito terá de fazer escolhas; e uma vez que o sujeito pode falar algo de uma maneira, e não de outra, esse sujeito torna-se preso a esse espaço ideológico, logo o sujeito não é verdadeiramente livre para produzir seus discursos.

Maingueneau (1997) aponta de maneira clara que a linguística opõem-se a um núcleo “rígido” a uma periferia de contornos instáveis, que está em contato com a sociologia, psicologia, história, filosofia, isto é, esse núcleo se ocupa com o estudo da língua como se ela fosse simplesmente um conjunto de regras e propriedades formais, não levando em consideração o espaço e o momento histórico que essa língua está inserida.

O autor apresenta uma segunda abordagem, na qual a Análise do Discurso está inserida, porque a AD considera a linguagem à medida que esta faz sentido para sujeitos inscritos no espaço social histórico.

Além de evidenciar as concepções que perpassaram o estudo da AD, ressalta-se, aqui, as contribuições de Harris que foram significativas para a AD francesa. Harris (1969 apud MUSSALIM, 2006, p.114) sedimenta seus trabalhos a partir de um viés estruturalista, contudo, ele procura ampliar a unidade de análise, levando em consideração o texto; e assim concebe tal análise, como um estudo, que vai além dos limites dos enunciados, agora, Harris não leva em consideração somente os elementos que compõem o texto, mas direcionara seus trabalhos para o próprio enunciado. Esse método funda-se na linearidade do discurso.

O autor propõe que se leve em consideração o que ocorre entre os enunciados a partir dos conectivos, isto na tentativa de equacionar essa linearidade em classes de equivalência. No entanto, Harris limita-se a uma concepção de discurso como uma sequência de enunciados. Todavia, essa definição fora insuficiente para os propósitos da AD, a concepção Harresiana contribuíra com a AD no primeiro momento, porém, a AD buscava reintegrar uma teoria do sujeito e uma teoria da situação.

Salienta-se, aqui, os estudos de Chomsky (1957 apud MUSSALIM, 2006, p.116), que contribuíram com a AD; isso porque, Chomsky questiona o método norte americano, que voltara suas pesquisas para o estruturalismo. Chomsky postula a existência de um sistema; e esse sistema seria responsável pela geração das sentenças.

Para a AD, a proposta de Chomsky traria a possibilidade de produzir uma análise que apontaria um caminho para a Análise do Discurso, como uma maneira de reintegrar as teorias do sujeito e da situação.

Deste modo, propõe-se a noção de condições de produção responsável pela geração dos discursos. Esse conceito, segundo Orlandi (2003), é básico para a AD, pois elas “caracterizariam o discurso, o constituem e como tal são objetos de análise”. Para a AD, portanto, a enunciação não é um desvio; mas um “processo constitutivo da matéria enunciada”, afirma a autora2.

Até o momento, explicitaram-se as principais concepções que serviram como alicerce para a estruturação da AD e teorias que foram pertinentes ao campo da AD. No presente momento, desnudar-se-á as principais fases da AD, pois, compreende-se que essas fases são significativas para depreensão dos sujeitos compostos pela AD.

A primeira fase da Análise do Discurso, doravante (AD-1), trabalha uma análise de discursos mais “estabilizados”, isto é, aqui, evidenciam-se discursos não tão polêmicos, uma vez que os discursos têm uma carga menor de significados, ou seja, uma menor abertura no que tange a variação do sentido, isto porque ocorre um silenciamento do outro. Nessa fase, eclodiu a noção de máquina ideológica, na qual cada processo é gerado por essa máquina, que por sua vez é responsável pela geração de um processo discursivo, assim surge diversificados processos discursivos os quais se materializam por meio de: manifesto comunista, manifesto liberal, isso serve para corroborar com o conceito de máquina discursiva, por conseguinte ela é responsável pela formação dos processos discursivos.

Não obstante, a segunda fase da AD, (AD-2), o conceito de uma máquina de estrutura fechada começa a dirimir-se; nesse mesmo momento, inicia-se o conceito de formação discursiva, doravante FD, pinçada do filósofo Foucault (1969 apud MUSSALIM, 2006, p.133), no qual esse processo vai desaguar na transformação da concepção do objeto de Análise do Discurso. Para Foucault (1969 apud MUSSALIM, 2006, P.119), a formação discursiva é “um conjunto de regras anônimas no tempo e no espaço que definiram uma época dada, e para uma área social, econômica, geografia ou linguística dada, as condições de exercício da função enunciativa”.

De consonância com que fora abordado acima, uma formação discursiva (FD), é responsável pelo que pode ou não ser dito, isto porque parte de um lugar determinado socialmente. Desta feita, uma FD é formada por uma certa regularidade, uma vez que concebe regras de formação, que por sua vez é um mecanismo de controle (FOUCAULT, 1969 apud MUSSALIM, 2006, p.133)3, que vai determinar o interno, isto é, o que pertence, e o externo, ou seja, o que não pertence a uma formação discursiva. Compreende-se que uma FD é sempre interpelada por outra FD, tem-se, aqui, que toda FD pertence a um espaço construído, isto é, os discursos que vieram de outros lugares.

Para tanto, não se pode conceber a ideia de estrutura fechada, entendendo que o espaço de uma formação discursiva é sempre permeado por outras formações discursivas. Nesta fase, percebe-se que a preocupação, portanto, passam ser as relações entre as “máquinas discursivas”.

Neste construto teórico. Há a terceira fase da AD, (AD-3), enquanto tem-se, na primeira fase o início de construção de máquinas discursivas e amplia-se esse conceito na segunda fase; na terceira fase, vê-se a desconstrução dessa máquina discursiva, que por sua vez adota a perspectiva segundo a qual, os discursos que atravessam a FD, não se constituem independentemente um do outro, uma vez que, aqui, os discursos são regulados por outros discursos. É essa relação interdiscursiva entre o discurso e o interdiscurso que estrutura a identidade das FD.

Aportado no fora mencionado até aqui, questões pertinentes a AD serão desveladas, compreendendo que essas questões são imprescindíveis para a concretude do terreno fértil que a AD suplantou em sua linha de pesquisa.

3.2. CONCEPÇÃO DE DISCURSO / LOCUTOR / IDEOLOGIA

Este tópico tem por objetivo apresentar alguns conceitos básicos, os quais estão imbricados à AD, e que servem como norteadores para o desempenho de seus trabalhos e suas concepções até sua materialização. Isto porque, não se pode conceber um trabalho de Análise do Discurso sem se depreender o posicionamento de cada item explicitado acima.

3.2.1. Discurso

Para Foucault (1986 apud GREGOLIN, 2006, p.95), discurso é um conjunto de enunciados que está inserido no fator tempo; e o sujeito é responsável por esse discurso; e esse discurso estará historicamente situado em um determinado período histórico. O discurso é um conjunto de regularidades enunciativas, que considera o homem na sua história; os processos e as condições de produção da linguagem, pois a linguagem é influenciada por fatores externos.

Foucault (1969 apud GREGOLIN, 2006, p.95) salienta que discurso é um conjunto de enunciados que tem seus princípios e regularidades em uma formação discursiva; a análise de uma formação discursiva consistirá na descrição dos enunciados que a compõem.

Já para a “escola francesa de análise do discurso” “discurso” é compreendido como uma dispersão de textos cujo modo de inscrição histórica permite definir como um espaço de regularidades enunciativas.

Segundo Orlandi (2003, p.49),

o discurso não é fechado em si mesmo e nem é do domínio exclusivo do locutor: aquilo que se diz significa em relação ao que não se diz, ao lugar social do qual se diz, para quem se diz, em relação a outros discursos. De modo que o discurso é heterogêneo e se constitui na perspectiva do outro. A palavra do outro é condição de constituição de qualquer discurso.

3.2.2. Locutor

Designando, na origem, a pessoa que fala, isto é, aquela produz um ato de linguagem em uma situação de comunicação oral (alguns estudiosos não empregam esse termo para designar aquele que escreve). O locutor projetar-se-á no interior do discurso, dependendo da necessidade de convencer seus interlocutores a aceitarem o que está sendo proferido por ele – locutor.

Cabe ressaltar, no que se refere a locutor, que todo locutor é na verdade um orador, e como orador é imprescindível uma oralidade capaz de envolver de maneira eficaz quem o ouve. Para Aristóteles (ARISTÓTELES, 2005, p.160) um orador eficaz é aquele que consegue persuadir com eficiência sua plateia, para tanto, é indispensável que esse orador tenha as seguintes características: a Phronesis ou prudência, Aratê ou virtude e Eunoia ou benevolência. Segundo Aristóteles

Quanto aos oradores, eles inspiram confiança por três razões; as que efetivamente, à parte as demonstrações, determinam nossa crença: a prudência (phronesis), a virtude (aratê) e a benevolência (eunoia). Se, de fato, os oradores alteram a verdade sobre o que dizem ou aconselham, é por causa de todas essas coisas de uma só vez ou de uma dentre elas: ou bem, por falta de prudência, eles não são razoáveis; ou, sendo razoáveis, eles calam suas opiniões por desonestidade; ou, prudentes e honestos, não são benevolentes; é por isso que podem, mesmo conhecendo o melhor caminho a seguir, não o aconselhar.

3.2.3. Ideologia

Segundo Aron (1968 apud CHARAUDEAU; MAINGUENEAU, 2006, p.267), ideologia “é um sistema global de interpretação do mundo social”. Já para Althusser (1965 apud CHARAUDEAU; MAINGUENEAU, 2006, p.267), ideologia é “como sistema de representações que se distingui da ciência pelo fato de que nela a função prático social predomina sobre a função teórica (o conhecimento)”.

Segundo o mesmo autor, “a ideologia está ligada ao inconsciente pelo viés da interpelação dos sujeitos”. Não obstante, para Andréia Galvão, a ideologia é tratada com outro viés, de acordo com o próprio Althusser (Galvão, 2007, p. 36, tradução da autora):

1) a ideologia não é neutra: exprime posições de classe; 2) as ideologias das classes dominantes influenciam as ideologias das classes dominadas; 3) a ideologia das classes dominantes é incorporada pela classes dominadas - a despeito de contrariar seus interesses- na medida em que, como afirma Althusser (1980) alude ao real ao mesmo tempo em que oculta interesses de classe, conseguindo, por isso, iludir as classes dominadas4

3.3. CONCEPÇÃO DE SUJEITO PARA ANÁLISE DO DISCURSO

Neste tópico, evidenciar-se-á como os diferentes tipos de sujeitos são concebidos em cada fase da AD. À medida que, cada fase percebe o sujeito de maneira distinta, ou seja, o sujeito está inserido em um espaço histórico-social, e desse espaço, projetar-se-á de acordo com a fase de inserção.

A AD concebe o sujeito como aquele carregado de subjetividade; logo, esta subjetividade é o motor condutor para o posicionamento de cada sujeito inserido no discurso.

Na visão da AD-1, cada processo é fomentado por uma “máquina discursiva” fechada, na qual, o sujeito é visto como indivíduo que fala, ou seja, o sujeito é fonte do próprio discurso. Para a AD-1, o sujeito é visto como assujeitado a essa máquina que controla seu discurso, uma vez que esse discurso é submetido às regras de enunciação. Segundo Orlandi (2003, p. 32), esse sujeito é:

Pensa que sabe o que diz, mas não tem acesso ao controle sobre o modo pelo qual o sentido se constitui nele. Por isso é inútil, do ponto de vista discursivo, perguntar o que o sujeito quis dizer qual disse “X” (...). O que ele sabe não é suficiente para compreendermos que efeitos de sentido estão ali presentificados.

À medida em que, a AD-2 percebe o sujeito, como um sujeito que não possui uma unicidade; logo, este sujeito ocupará diferentes posicionamentos que dependerá das diversas posições que ele estiver inserido no espaço interdiscursivo.

O sujeito, aqui, apresenta-se com a ideia de função, ou seja, vigora o posicionamento que o sujeito está inserido em mais de uma ideia. Conquanto, assim como na AD-1, o sujeito não está verdadeiramente livre para falar de qualquer maneira, haja vista que ele sofrerá influência de uma formação ideológica (FI). Cada sujeito se pronunciará de acordo com o lugar que ele ocupa, e esse lugar influenciará no seu discurso, isto porque este lugar está determinado por uma formação ideológica. Sua fala é produzida em um determinado lugar e tempo, de modo que o sujeito é essencialmente histórico e ideológico. Segundo Brandão (1997, p. 49), “sua fala é um recorte das apresentações de um determinado tempo histórico social.” Dessa forma, como ser projetado no espaço e no tempo orientado socialmente, o sujeito situa seus discursos em relação ao discurso do outro.

Não obstante, para AD-3, o sujeito é essencialmente heterogêneo, clivado, dividido. Essa nova vertente desenvolvera-se em torno dos trabalhos de Authier-Revuz5, que evidenciara em seu trabalho a ideia de sujeito clivado, dividido. O trabalho direcionara-se, não mais para o consciente, todavia, o que é evidenciado nessa teoria é a noção de inconsciente, na qual aportou seu trabalho.

3.4. PRECURSORES DA ANÁLISE DO DISCURSO

Este tópico objetiva apresentar e descrever de forma sucinta e clarividente os pressupostos teóricos defendidos por Jean de Dubois; Michel Pêcheux e Althusser, e suas respectivas contribuições para sedimentação do campo fértil que fora a AD francesa.

3.4.1. Jean Dubois

De 1967 a 1972, Jean Dubois, professor na Universidade de Paris X – Nanterre introduz o sintagma “análise do discurso” e assim possibilita o desenvolvimento “Da Escola Francesa de Análise do Discurso”.

Com sua tese, Le vocabulaire politique et social em France de 1869 a 1872 (1962), desta forma, Dubois inscrevia-se na tradição filológica francesa de estudos do vocabulário, que surgira com F. Brunot, e repensada por J. Wagner a partir da noção de “uso”, posta em ato pelo Centtre de Recherche de Lexicologie Politique da École Normale Supérieure de Saint- Claud- em suma, nas pesquisas lexicológicas, históricas e discursivas. Essa tradição fora, à época, solicitada pela “mecanização” em Nancy e Besançon (criação de índices, tradução automática), pela estatística em Estrasburgo, pela informática matemática em Grenoble e também em Paris, no instituto Blaise-Pascal, primeiro centro dedicado aos “automatismos”, e no Instituto-Henri-Poincaré, onde Dubois lecionara linguística quantitativa.

Em Nancy, em 1964, durante o primeiro Colloque Internacional de Linguistique Apliquée dedicado à tradução automática e que se intitulava: “La résolutiondes polysémies dans lês textes écrits et structuration de l’enoncé”, Dubois aborda a questão da singularidade das economias linguísticas - em outros termos, dos particularismos linguísticos. Segundo o mesmo autor, para garantir a conservação do sentido nos elementos a traduzir, ele afirmava a necessidade de descrições exaustivas dos ambientes imediatos, ou seja, os microtextos, ou do recurso a associações de termos que constituiriam o “tema do texto”, que fora resumido por Dubois em “microglossário”.

É importante mencionar que, ao falar de microtexto e microglossário, Dubois passara da análise em língua à análise em uso. Ao tratar do sentido em referência à distribuição, ele abandonara “a palavra” dos lexicólogos em proveito da construção sintagmática.

Dubois, para propagar suas ideias arregimentara professores pesquisadores para desenvolver o departamento de linguística de Nanterre, que à época se iniciara; ele fora coordenador da revista editorial na revista Larousse, onde publicara gramáticas “estruturais” e dicionários; e, assim, Dubois participara da difusão das pesquisas por meio desses veículos, que mais tarde viera a dominar o mercado editorial: langages, que fora lançada pelo autor, em 1966, e Langue Françoise, cujo lançamento participara também. Dubois fora membro e militante do partido comunista francês.

Em virtude do contexto em que a linguística se inseriu, essa área de conhecimento dominara as ciências humanas por seus princípios e métodos, a intervenção social e o combate político eram evidentes. Dubois inscreve-se com os seus métodos e introduz novos modos de pensar a modernidade “estrutural” linguística, e isso contra o legado filológico da “explicação de texto”. E assim, surge a “Escola de Nanterre” em análise do discurso, entre 1969 e 1972, e desta maneira se configura o primeiro círculo de pesquisadores em AD, com a publicação de teses (efeitos acadêmico e editorial) e com uma atitude militante (trabalhos sobre texto político).

3.4.2. Michel Pêcheux

Sua obra está fundamentada teoricamente no projeto do filósofo Althusser, Pêcheux, que fora aluno de Althusser, reestruturou a obra de seu mestre. Em Pêcheux, pode-se ler as teses mais radicais da fase do Althusserianismo, pois Pêcheux mobilizara sua obra para reflexão sobre discurso, a ideologia, o sujeito e o sentido.

É importante evidenciar que, no decorrer de sua vida, Althusser revera alguns de seus posicionamentos e redirecionara sua obra, porquanto, Michel Pêcheux desenvolvera seus estudos para a fase maior contundência de seu professor; por isso é evidente as ratificações e as mudanças, também, refletidas na obra de Pêcheux.

Na obra de Michel Pêcheux, evidencia-se a busca de se construir a Análise do Discurso, e nela estão envolvidas a língua, os sujeitos e a História6. A obra do autor está fortemente centrada na construção desse campo; deste modo, ele dialoga constantemente com a Linguística por meio de uma relação um tanto quanto tensa com a obra de Saussure, Marx e Freud. Logo, se percebe uma tríplice aliança que acompanhara a construção de uma teoria materialista do discurso aliada a um projeto político de intervenção da luta de classes, isto dar-se em função das teorias adquiridas althusserianas – marxismos – leninismo.

Concebendo a teoria fortemente vinculada à prática, Pêcheux tinha, ao mesmo tempo, uma busca metodológica que se materializara na tentativa de construir um método para, a AD, a qual ele chama de “análise automática7”.

Com base nas pesquisas e contribuições de Pêcheux, a uma formulação da Semântica do Discurso, ao que se chama de Análise, a AD pôde desenvolver algumas categorias de Análise do Discurso de linha francesa; a AD desenvolvera dentro dessa perspectiva uma Análise Crítica do Discurso ou a própria Análise do Discurso.

é nesse contexto que nasce o projeto da AD de Michel Pêcheux. Apoiado numa formação filosófica, Pêcheux desenvolveu o questionamento crítico sobre a Linguística e, diferentemente de Dubois, não pensou a instituição da AD como progresso natural permitido pela Linguística [...] a instituição da AD, para Pêcheux, exige uma ruptura epistemológica, que coloca o estudo do discurso num outro terreno em que intervêm teorias relativos à ideologia e ao sujeito (MUSSALIM (2006, p.105).

3.4.3. Althusser

As teorias althusserianas alicerçam seus estudos e perspectivas na obra de Karl Marx, o filósofo fizera uma releitura da referida obra, e dela extraíra o conceito central para sua obra, isto é, sedimenta seu trabalho em direção à ideologia e aparelhos ideológicos do Estado. Althusser concebera a ideologia “como uma relação imaginária que os homens mantêm com suas condições reais de existência”, pois, para Althusser a ideologia solidifica as relações sociais, tornando-as suportáveis para seus diversos atores.

Para Althusser, a ideologia no plano institucional é difusão da classe dominante que é assegurada pelo que Althusser denomina de Aparelho Ideológico do Estado (AIE), que para o autor estão representados por: discurso religioso, escolar, familiar, jurídico, político, sindical, de informação, de entretenimento, etc., isto é, estas seriam as entidades disseminadas por todo o tecido, que divulga a mensagem da ordem estabelecida, funcionando primordialmente pela persuasão, e também assessorada pela coerção. Para o autor, há na sociedade, um “campo ideológico” que agrega dois tipos diferentes de ideologia:

  1. As ideologias práticas, que para ele seriam: (religiosas, morais, estéticas, regras de prudência, cortesia, etc.), de função imediatamente útil do ponto de vista da conduta de seus sujeitos.

  2. As ideologias teóricas estão no plano da: filosofia especulativa, e as “ciências” ditas humanas, que são: (direito, econômica, sociologia, etc.). Com pretensão cognitiva e que de fato, pode servir de matéria prima para o processo de conhecimento ou mesmo dar origem a ciências novas, por intervenção de um corte epistemológico.

O papel central dedicado à ideologia, na proposta althusseriana, deriva daquilo que Althusser denomina “o anti-humanismo teórico de Marx”, isto é, o fato de Marx haver mostrado que o conceito de “homem” é contemporâneo da ascensão da burguesia como classe dominante. A elaboração teórica das teses althusserianas propõe que é possível uma ciência dos modos de produção, com um alto grau de abstração, formalização, generalização, com sistema de causalidade estrutural. Nessa ciência, não há lugar para o sujeito concebido pelos humanistas burgueses, ele é visto como “suporte das relações implícitas na estrutura e as formas de sua individualidade são efeitos determinados da estrutura” (BALIBAR 1990 apud FOUCAULT; PÊRCHEUX, 2006, p.44).

Junto com o sujeito, toda a concepção historicista é rechaçada: há a decomposição das temporalidades a construção de uma totalidade articulada em torno de relações pertinentes numa teoria geral. O sujeito e a história foram substituídos pela estrutura (DOSSE 1993 apud FOUCAULT; PÊCHEUX, 2006, p. 44) Essa estrutura é vinculada ao conceito de ideologia, tornando-se mais complexo aquilo que na obra marxista é denominado de “instrumento da classe dominante”. A ideologia se torna um conceito tão central em Althusser que alça ao status de uma estrutura trans-histórica. Pela tese da interpelação (“os indivíduos são interpelados em sujeitos pela ideologia”), ela é transformada em “novos sujeitos da história” (DOSSE 1993 apud FOUCAULT; PÊCHEUX, 2006, p. 44). Althusser contribuira de forma significativa com a estruturação da Análise do Discurso, com sua abordagem de ideologia e formação dos aparelhos ideológicos, os quais interpelam os sujeitos inscritos nos mais variados discursos.

O arcabouço teórico das obras de Althusser estão fincadas no projeto de construção da Análise do Discurso, dando à obra de Michel Pêcheux sua sustentação filosófica e política.

3.4.4. Michel Foucault

Assim como, Pêcheux, Foucault sedimenta sua obra em uma “tríplice aliança”, Nietzsche, Freud e Marx, diferentemente da obra de Pêcheux, a qual está baseada em uma teoria do discurso. Foucault direciona sua obra para as relações entre os saberes e os poderes na história da sociedade ocidental, posteriormente a essa sedimentação, Foucault vai delineando sua obra para uma teoria do discurso.

Foucault buscara compreender a transformação histórica dos saberes, o que possibilitou o surgimento das “ciências humanas”, isto pode ser percebido na sua fase denominada “arqueológica”, ao compreender as articulações entre poder e saber.

Na fase denominada “genealógica”, investigara a construção histórica das subjetividades humanas em uma “ética e estética” da existência. Foucault não apenas promove um diálogo conflituoso com a filosofia, a história, etc.; mas, desloca sua obra para as disciplinas e os saberes. Portanto, as ciências humanas estão no cerne de seu trabalho. Em outro momento de seu trabalho – intitulado genealogia e poder – Foucault voltar-se-á para as práticas do poder e as relações que se estabelecem entre saber e poder. E esses poderes que serão analisados por ele, é denominado: “nas sociedades disciplinares”, nas quais, as instituições foram criadas para controlar os corpos, entende-se como corpos os sujeitos, que seriam controlados nas prisões, nas fábricas, nas escolas, etc.

Foucault direcionara sua obra para as “técnicas de si”, a “governamentabilidade”, ou seja, os procedimentos de subjetivação que constituem para os sujeitos a ideia de identidade8.

Para tanto, o sujeito é o lugar para o qual o autor lançará seu olhar na concepção de sua obra, isto é, para ele esse é seu objeto, enquanto objeto de saber e poder na construção de uma identidade. Foucault (1982 apud FOUCAULT; PÊCHEUX, 2006, p. 54), assim se expressa:

Gostaria de inicialmente dizer qual foi o objetivo do meu trabalho nos últimos vinte anos. Não foi o de analisar os fenômenos do poder, nem de lançar as bases para uma tal análise. Procurei acima de tudo produzir uma história dos diferentes modos de subjetivação do ser humano na nossa cultura; tratei, nessa ótica, dos três modos de objetivação que transformam os seres humanos em sujeitos. Existem em primeiro lugar os diferentes modos de investigação que procuram aceder ao estatuto de ciência; penso, por exemplo, na objetivação do sujeito falante na gramática geral, na filologia e na linguística. Ou também, sempre neste primeiro modo, na objetivação do sujeito produtivo, do sujeito que produz, em economia e análise das riquezas. Ou ainda, para tomar um terceiro exemplo; na objetivação devida ao simples fato de existir na vida, na história natural ou na biologia. Na segunda parte do meu trabalho, estudei a objetivação do sujeito naquilo que designarei de ‘práticas divergentes’. O sujeito é quer dividido no interior dele mesmo, quer dividido dos outros. Esse processo faz dele um objeto. As partilhas entre o louco e o homem são de espírito, o doente e o indivíduo com boa saúde, o criminoso e o “bem comportado”, ilustra esta tendência. Enfim, tenho procurado estudar – é esse o meu trabalho em curso – a maneira um ser humano se transforma em sujeito; tenho orientado minhas pesquisas na direção da sexualidade, por exemplo – a maneira com o ser humano tem aprendido a reconhecer-se como sujeito de uma “sexualidade”. Não é, portanto, o poder, mas o sujeito, que constitui o tema geral das minhas investigações.

3.5. ATOS DE FALA

A Teoria do Ato de fala surgira no âmbito da filosofia da linguagem, posteriormente perspectivada pela visão da linguística pragmática, que conceberam-na como um estudo relevante para a depreensão de mecanismos que interferem na linguagem humana.

Essa abordagem fora desenvolvida em torno dos trabalhos do filósofo J. L. Austin, seguido por outros estudiosos, que direcionaram suas pesquisas tendo como embasamento a obra de Austin. Para citar-se alguns estudiosos que perspectivaram seus trabalhos nessa direção: Searle, Strawson dentre outros, que assim como Austin, entenderam a linguagem como forma de ação, para os quais, “todo dizer é um fazer”, na abordagem dos referidos autores. Desta maneira, passaram a refletir sobre os mais diversificados tipos de ações humanas que se realizam por meio da linguagem, aqui, inserem-se: os atos de fala, atos de discurso ou atos de linguagem.

Dentro da proposta defendida pelo filósofo, estabelecem-se distinções entre três tipos de atos. É importante notar que os atos de fala estão diretamente elencados aos discursos, uma vez que o locutor faz uso desse recurso da linguagem para interagir com seus interlocutores.

O ato locucionário consiste na emissão de um conjunto de regras que está organizado de acordo com os sons da língua (fonética, gramática e semântica), este ato está relacionado ao ato de produzir sons, combinar palavras.

Segundo Searle (1969 apud KOCH, 2006, p.18), esse ato constitui-se como um ato de referência e um ato de predicação. Salienta-se que, por meio do ato de referência, designa-se uma entidade extralinguística; e por meio do ato de predicação, destina-se a essa entidade certa propriedade, caracterizando estado ou comportamento.

O ato ilocucionário é aquele que se realiza pelo próprio ato de dizer, é o que determina uma força, seja ela de pergunta, de asserção, de ordem ou de uma promessa. Segundo a perspectiva de Searle (1969 apud KOCH, 2006, p.18), todo ato de fala teria uma fórmula, que o referido autor denominara de: f (s), em que p estaria relacionado ao conteúdo proposicional, e f a força ilocucionária.

O ato ilocucionário tem sua base fundante àquilo que Austin denominou de performativos, ou seja, enunciados nem verdadeiros nem falsos, isto porque há enunciados que não servem para descrever estados de coisas, os quais não se podem atribuir um valor verdadeiro. Como pode ser observado:

1. Eu batizo este navio Queen Elizabeth.

Enunciados como esse citado acima, não relatam absolutamente nada, uma vez que não são verdadeiros nem falsos, simplesmente relata uma execução de uma ação. Fica evidente que ao falar-se eu batizo, não é descrever de maneira clara o que se está realizando, nem é afirmar categoricamente o que faz, é fazê-lo.

Para o ato de se realizar algo, Austin (1962 apud CERVONI, 1989, p.85) chama de constatativos (o “verbo viera do inglês to perform, que significa realizar”, “efetuar”), ou seja, está sedimentado em uma força que fora denomina de forma implícita, isto é, sem a presença dos performativos. Ao fazer-se uso do segundo caso, seria sempre possível recupera os performativos que estiveram implícitos, como pode ser observados nos respectivos exemplos:

2. A terra é redonda. Eu assevero que a terra é redonda.

3. A terra é redonda? Eu pergunto se a terra é redonda.

4. Retire-se! Eu ordeno que você se retire.

O Ato perlocucionário é aquele destinado a exercer influência sobre seus interlocutores, sobretudo, de maneira a interagir com eles, convencê-los em aceitar o que está sendo dito. É importante salientar que nem sempre o efeito é efetivado nos interlocutores, podendo ou não aceitar o que o locutor estar a falar, contudo, ao sedimentar esses atos em direção aos interlocutores, os locutores agirão de maneira a persuadir de uma forma ou de outra seus ouvintes. No entanto, isso pode não causar efeito, uma vez que um ato de persuasão pode não necessariamente persuadir, assim como, um ato de ameaça pode não ameaçar.

Pode-se fazer uma relação entre o ato de fala ilocucionário e o perlocucionário. O ato ilocucionário em detrimento do segundo é o ato que nomeia, pelo simples fato de ser o próprio enunciado, ou seja, ele realiza a ação, é a própria força ilocucionária. Para ser mais objetivo, o ato ilocucionário está centrado nos performativos. Já o ato perlocucionário deveria ser sempre explicitado por meio de um performativo, pois quando se deseja convencer, assustar ou agradar determinada pessoa, não é suficientemente dizer “eu (te) convenço”, “eu (te) assusto” “eu (te) agrado”, sobremaneira, porque a persuasão, o temor, a satisfação dependerão daquilo que é dito.

Vale frisar, que todo ato de fala é, na verdade, um ato locucionário, ilocucionário e perlocucionário, se fosse diferente não seria considerado um ato de fala; haja vista que, todo ato de linguagem está imbuído os respectivos atos, de maneira que não se pode depreendê-los separadamente, isso porque, uma vez que se interage por meio da língua, o enunciado é permeado de uma força que produzirá no interlocutor determinado(s) efeito(s), mesmo que esses efeitos sejam contrários aos propostos pelo locutor.

Evidenciando tudo que fora mencionado até o presente momento sobre a Teoria do Ato de fala, é imprescindível acrescer que nem todo ato ilocucionário é determinado por um performativo:

Em primeiro lugar, nem sempre a força ilocucionária é explicita, muitas vezes, ela se apresenta com certa ambiguidade, pois, quando se diz; “Saia”, pode se tratar de uma ordem, um pedido, solicitação ou mesmo uma súplica, o que vai diferenciar os enunciados propostos são as entonações, os gestos, as expressões que o locutor fará, para que deste modo seu interlocutor consiga captar sua verdadeira intenção.

Outra explicação, é que nem sempre existirá na língua um performativo adequado à explicitação que consiga abarcar a força ilocucionária, ou seja, há tipos de atos que não existe um performativo correspondente, caso exista, nem sempre seu emprego é habitual. Como pode ser observado nos seguintes exemplos:

5. “Eu (te) censuro”,

Ora, ninguém jamais iniciaria uma censura desta maneira, uma vez que a censura é algo muito mais velado. Da mesma maneira que:

6. “eu (te) saúdo”,

Dificilmente alguém cumprimentaria um amigo assim, embora isso seja possível em algumas situações ritualizadas.

Tendo como princípio que todo ato de fala realiza-se por intermédio de uma ação, ou seja, todo dizer é um fazer, logo se pode depreender que os performativos são convenções para que se possam realizar algumas dessas ações, além do que, a preformatividade faz-se presente em todo ato de linguagem.

Ainda, de acordo com a abordagem sobre atos de fala, faz-se necessário discorrer sobre atos de fala direto e indireto, para que assim se possa, de maneira sucinta, falar como um todo sobre os atos de fala que perpassam a linguagem humana, segundo perspectivado por Austin (1962 apud KOCH, 2006, P.20).

O ato de fala direito esse ato é considerado direto quando está relacionado a formas linguísticas especializadas para tais fins: aqui, observam-se certos tipos ou modos verbais, assim como, dadas expressões estereotipadas e determinados tipos de entonação. Exemplo, há uma entonação para determinadas perguntas, assim como, ocorre em determinada língua a inversão do sujeito e verbo; além disso, há partículas que indicam uma interrogação; assim como, usa-se o imperativo para dar ordens, asseverando que (em certo casos usa-se o futuro do presente e o infinitivo); observa-se que em determinadas situações usa-se expressões como: por favor, por gentileza, etc. para fazer-se pedidos ou solicitações. Como segue o exemplo:

7. Que dia é hoje? (ato de pergunta)

8. Deixem-me só!

9. Ao levantarás falso testemunho. (ato de ordem)

10. Por favor, traga-me um café. (ato de solicitação)

O ato de fala indireto (ou deriva) é aquele que é realizado através de recursos e formas típicas de outro tipo de ato. Nesse ato, o que estará envolvido é o conhecimento de mundo das pessoas, que permitirá com que elas sejam capazes de perceber a força ilocucionária que perpassa o enunciado. Como se observa nos exemplos que seguem:

11. Você tem um cigarro?

12. Quer fechar a janela?

Ao observa-se os exemplos mencionados acima, fica evidente que em (11), a pessoa não está a perguntar se pode ou não dar um cigarro, e nem se deseja ou não fechar a janela, sobretudo esperando que o interlocutor compreenda o enunciado e passe-lhe um cigarro, assim como, compreenda que (12) é feche a janela. Assim como em:

Está tão abafado aqui dentro!

Ora, aqui, não se está fazendo uma constatação, sobretudo, solicitando que seja providenciado que o ambiente seja climatizado como forma a amenizar o calor.

Ao se trabalhar com atos de fala, percebera-se a relevância do interlocutor, pois, é o alvo principal, seja capaz de depreender ou captar a intenção do locutor. Caso isso não ocorra, o ato não terá surtido o efeito desejado, tornando-se, assim, seu uso insignificante, sem motivo para se trabalhar atos de fala.

Procurou-se evidenciar de maneira clara e objetiva os atos de fala ou de linguagem, para a depreensão dos mecanismos que fazem parte da linguagem humana, que dentro dessa proposta, tem como principal característica labutar os enunciados, para que sejam capazes de persuadir seus interlocutores.

4. CAPÍTULO

Com o presente capítulo, pretende-se desvelar as concepções de ethos discursivo em uma abordagem diacrônica, e como esse ethos é percebido nos discursos em que está inserido, e qual a imagem projetada.

4.1. CONCEPÇÃO DE ETHOS DISCURSIVO

Para os antigos, ethos designara a construção de uma imagem destinada a garantir o sucesso do empreendimento oratório. Barthes (1970 apud AMOSSY, 2005, p.10) define ethos como “os traços de caráter que o orador deve mostrar ao auditório (pouco importando sua sinceridade) para causar boa impressão: é o seu jeito [...]. O orador enuncia uma informação e ao mesmo tempo diz: sou isto, não aquilo”.

Desta maneira, o autor retoma as ideias de Aristóteles, que afirmara em sua Retórica: “É [...] ao caráter moral que o discurso deve, eu diria e quase todo o seu poder de persuasão”

Privilegiando o emprego do enunciado em situação e a força da palavra, as diferentes correntes da Análise do Discurso e da Pragmática, hoje, reencontram a Retórica definida como a arte de persuadir. À maneira de Aristóteles, procurando compreender e explicar como o discurso torna-se eficaz. Descrevem usos verbais e modalidades de interação das quais se extraem uma regulação; dedicam-se a construir modelos.

Evidenciar ethos discursivo é retomar a perspectiva aristotélica, tendo em vista que fora por ele conhecido em seus estudos, para quem ethos está diretamente ligado ao caráter do orador. Diferentemente de Aristóteles, os romanos concebem por ethos, um dado preexistente que se apoia na autoridade individual e institucional do orador, ou seja, o termo estaria ligado à reputação de sua família, seu estatuto social, e o que se sabe de seu modo de vida.

A concepção de ethos romanos, inspira-se em Isócrates (436 – 338 a.C), já em Aristóteles esse termo apoiara-se pertencente à esfera do caráter. Para Quintiliano, o argumento exposto pela vida de um homem tem mais peso que suas palavras. Dentro dessa perspectiva, Cícero define o bom orador como o vir boni dicendi peritus, ou seja, um homem que une ao caráter moral a capacidade de bem manejar o verbo.

De acordo com o que fora mencionado até o presente momento, é importante trazer para o escopo do trabalho perspectivas que são pertinentes à concepção de ethos. Evidencia-se, nesse momento, a visão de ethos pelo viés de Aristóteles, para quem o discurso estivera centrado em três perspectivas: o ethos é, portanto, o discurso, o logos, fala ou discurso, ou seja, o exercício da razão e o pathos, que segundo o filósofo, agirá em direção aos interlocutores suscitando em ambos a emoção, paixão e o próprio ato de persuadir, o pathos é responsável em agir diretamente nas emoções de quem ouve o orador, entende-se como orador, o locutor responsável em proferir seu discurso em direção a uma determinada plateia, com o objetivo maior de interagir com essa plateia. Como segue:

O que o orador pretende ser, ele o dá entender e mostra: não diz que é simples ou honesto, mostra-o por sua maneira de se exprimir. O ethos está, dessa maneira, vinculado ao exercício da palavra, ao papel que corresponde ao seu discurso, e não ao indivíduo “real”, (apreendido) independentemente de seu desempenho oratório: é, portanto o sujeito da enunciação uma vez que enuncia que está em jogo. (AMOSSY, 2005, p.31)

Em conformidade com a abordagem centrada na Retórica clássica, “1. O orador convencerá por argumentos, se, para bem dizer, ele começa por pensar. 2. Ele agradará pelos seus modos, se, para pensar bem, ele começa por viver bem”.

Aristóteles, diferentemente dos teóricos de sua época, os quais compreendiam que a persuasão não está no cerne dos estudos sobre ethos, uma vez que o ethos, segundo esses teóricos, não contribuiria para persuasão, lançou seu olhar para a persuasão. No entanto, Aristóteles diferencia-se dos demais, ao inserir em sua abordagem sobre ethos a persuasão, argumento fortemente dissecado na Retórica de Aristóteles. E nesse contexto, o filósofo emprega o termo epieikeia, que fora traduzido inicialmente por Doufour, por “honestidade”. De acordo com esse conceito, o orador que clarifica em seu discurso um caráter honesto pareceria mais digno de crédito aos olhos de seu auditório.

É imprescindível mencionar-se que no decorre de sua obra intitulada Retórica I e II, Aristóteles, gradativamente distanciara-se desse aspecto de ethos centrado unicamente no caráter, o filósofo em uma passagem de sua obra afirma que “um homem rude não poderia dizer as mesmas coisas nem dizê-las da mesma maneira que um homem culto” (ARISTÓTELES, 2005, p.258).

Com isso, Aristóteles, assim como, para a antiguidade clássica, afirma que os temas e os estilos escolhidos devem ser apropriados (oikeia) ao ethos do orador, o que ele chama de héxis, ao seu habitus, ou seja, ao seu tipo social, esse termo é encontrado, também, na sociolinguística interacionista.

De acordo com o que fora abordado até o momento da visão de Aristóteles sobre ethos, é importante evidenciar que Aristóteles trabalhara com duas perspectivas distintas, uma centrada no termo ethos, o que significara de sentido moral e, por conseguinte, fundada na epieikeia, a qual engloba atitudes e virtudes como honestidade, benevolência ou equidade; tem-se a segunda abordagem de sentido neutro ou “objetivo” que está direcionado a héxis, aqui, reúnem-se termos como hábitos, modos e costumes ou caráter.

Descortinaram-se duas concepções distintas de ethos na visão de Aristóteles, agora, é interessante notar que ambas completam-se em qualquer processo de atividade argumentativa, essas abordagens não se excluem, sobretudo, porque em um dado momento elas se imbricarão sem ter como separá-las no discurso, uma vez que ambas caminham em direção ao interlocutor.

O ethos, proposto pelo referido autor, voltara-se para a persuasão de seus interlocutores, nesse prisma, Aristóteles enumera três características relevantes que o orador (locutor) deveria ter para conseguir, com eficácia, direcionar seus discursos, que, por conseguinte, deveriam estar centrados no pathos, posto que essa característica, segundo o mesmo autor, é quem sobressai em seus interlocutores ou expectadores. Pois, são essas características que inspirariam confiança: – a saber, phrônesis, a aratê e a eúnoia – “ter ar ponderado” (para phrônesis), “apresentar-se como homem simples e sincero” (araté) e dar “uma imagem agradável de si” (eúnoia).

Os oradores inspiram confiança por três razões que são, de fato, as que, além das demonstrações (apódeixis), determinam nossa convicção: (a) prudência/sabedoria prática (phrônesis), (b) virtude (areté) e (c) benevolência (eúnoia). Os oradores enganam [...] por todas essas razões ou por uma delas: sem prudência, se sua opinião não é correta ou, se pensando corretamente, não dizem – por causa de sua maldade – o que pensam; ou, prudentes e honestos (epieikés), não são benevolentes; razão pela qual se pode, conhecendo-se a melhor solução, não a aconselhar. Não há outros casos. (ARISTÓTELES, 2005, p.160)

Notara-se, no decorrer do trabalho, sobre ethos discursivo que as traduções prudência, virtude e benevolência são de Doufour, porém, pode-se encontrar, também, uma explicação mais moderna:

Os oradores inspiram confiança, i – se seus argumentos são sábios e razoáveis, ii – se argumentam honesta e sinceramente, e iii – se são solidários e amáveis com seus ouvintes. Para tanto, as características desveladas acima, podem ser depreendidas das respectivas maneiras, segundo a abordagem proposta até aqui.

A phrónesis (que faz parte do LOGOS) e a araté (que é “virtude” do ETHOS) expressam as disposições ou habitus positivos, a eúnoia pertenceria ao PATHOS, pois se trata de um afeto que mostra ao ouvinte que o orador é bem-intencionado para com ele.

É interessante, ressaltar que a palavra eúnoia não há uma equivalecência em outra língua. Sobretudo, se considera as passagens da Retórica e a ética a Nicômaco em que Aristóteles trata desse afeto, uma ideia bastante clara se esboça a eúnoia constitui na verdade, com cháris e philia, ou seja, com a obsequidade e a amabilidade, um campo semântico, tendo sua base comum não só na expressão de uma simpatia para com o outro, “mas também de uma disposição ativa para prestar serviços ao outro, caso necessite” (AMOSSY, 2005, p.35).

Além de Aristóteles, Gadamer, em seu estudo sobre a hermenêutica filosófica, Vérité et methode, trabalhara com um viés que a phrônesis não constitui um saber dogmático, dedutível e aplicável independentemente da situação concreta: “Was rechit ist Z.B., ist nicht unabhängig von der situation, die das rechte von mir verlongt, voll bestimmbar”9.

Certamente, segundo o que fora mencionado até aqui, um orador mostra a phrônesis se consegue encontrar argumentos eficazes e conselhos razoáveis, ou seja, apropriados a uma problemática concreta e, por princípio, única. O orador persuadirá mais à proporção que o interlocutor tiver convicção de que ele (orador) parece expor esses argumentos com “virtude”, isto é, honesta e sinceramente.

Lembra-se, aqui, que a palavra definida, na Ética, por Nicômaco, como uma disposição adquirida para encontrar a justa medida: “A virtude é uma disposição adquirida para fazer escolhas deliberadas (hexis prohairetiké); ela se nos apresenta como uma posição intermediária que é definida pela razão como um homem razoável (phrônimus) o faria”.

Já para Aristóteles, a coragem e a generosidade convertem-se em virtudes éticas e se referem “as paixões e as ações humanas”, que segundo o autor, há excesso, falta e a justa medida. A justa medida, assim com os extremos são hexis, para tanto, disposições que jamais denotam o comportamento fixo; isto porque, ao contrário, elas só se mostram nas escolhas efetuadas in actu. Isto é, falar que alguém é covarde significa, portanto, não somente que esse alguém tenha essa disposição, porém, constitui uma espécie de teoria adivinhadora que ele se comportará dessa ou daquela maneira em uma situação que exija sua intervenção e os extremos, ou seja, é o fato de elas serem sempre uma expressão de escolha, que pode ser deliberada e razoável, isto é, estarem ligadas à phrônesis. Isto pode ser percebido na descrição de coragem:

O homem corajoso mostra um sangue-frio inabalável, como homem. Ele também temerá, portanto, o que supera as forças humanas [...]. Por outro lado, pode acontecer que exista uma gradação no medo que sentimos e até mesmo que temamos o que não é efetivamente temível. Os erros que cometemos nesse caso provêm ou de que fazemos o que não se deve fazer, ou de nossos enganos sobre a maneira e as circunstâncias de nossa ação [...]. [...] o homem corajoso é o que suporta e teme o que convêm, para o fim, a maneira e o tempo justos, e o que mostra confiança nas circunstâncias comparáveis. [...] ele age, portanto, conforme a situação merece e a razão exige. ((AMOSSY, 2005, p.35)

Com a citação que segue, pode-se observar que toda hexis ética determina não somente, nosso comportamento, para com os outros e a comunidade, mas também as maneiras de sentir nosso corpo:

A virtude do ethos ter estreita afinidade com as paixões sobre vários aspectos. A demais, a phrônesis está intimamente ligada a virtude do ethos e, inversamente, esta à aquela, uma vez que os princípios da phrônesis são conformes às virtudes éticas e o que é justo nestas últimas é determinado por ela. Mas como as duas também estão ligadas às paixões, elas podem se aplicar somente a um ser compósito [...] isto é, composto de um corpo de um espírito; e as virtudes de tal ser compósito são puramente humanas. (AMOSSY, 2005, p.35)

Depreender-se-á, para tanto, que Aristóteles possa dizer simplesmente: toda ação “se realiza pela phrônesis e pela virtude” (EN VI, 12 – 1144a 7).

Partindo do que fora abordado até o presente momento, poder-se-ia compreender o segundo termo da fórmula phrônesis, araté, eúnoia, isto é, a honestidade, como uma disposição que se mostra pelas escolhas deliberadas. Deve-se compreender dessa forma, pois em todos os contextos em que Aristóteles fala sobre o ethos do orador é a presença do termo epieikéia ou epieikés que fora traduzido, em geral, também por “honestidade” desta feita, araté é substituída por epieikés, Aristóteles emprega epieikéia como sinônimo de ethos:

Persuadimos pelo ethos, se o discurso é tal que torna o orador digno de crédito, pois as pessoas honestas (eipieikés) os convencem mais e mais rapidamente sobre todas as questões em geral [...]. Não é preciso admitir [...] que a eipieikéia do orador não contribui em nada para a persuasão, muito ao contrário, o ethos constitui praticamente a mais importante das provas (ARISTÓTELES, 2005, p.96).

A pergunta que deve se fazer, é se o ethos do orador estaria verdadeiramente centrado na honestidade? Para os latinos, assim como para os modernos, essa seria a principal característica do orador, essa visão fora defendida até o século XVII, pois, concebiam-na dessa maneira, e assim estabelecera-se o ideal de homem - honnête homme -. Ora, essa abordagem está sedimentada em uma sociedade patriarcal em que uma elite “aristocrática” domina e dirige a sociedade.

Aristóteles empregou o mesmo termo epieikeia, como termo jurídico no que tange à equidade. Ele o define em sua discussão sobre o gênero judiciário, como pode ser percebido:

Os atos nos quais é preciso mostra indulgência se relacionam à equidade (epieikeia); somos equânimes se não avaliamos os erros, os crimes e também os males da mesma maneira [...]. Ser indulgente para com as fraquezas humanas é ser também equânime; e, em seguida, considerar não a lei, mas o legislador; não a letra da lei, mas o espírito do legislador; não a ação, mas a intenção (proaíresis); não a parte, mas o todo; não o que o outro é hoje, mas o que foi sempre ou foi na maior parte do tempo. Ser equânime é também se lembrar mais do bem que do mal sofrido, e mais dos benefícios recebidos que dos serviços prestados. É saber suportar a injustiça. É consentir que as divergências sejam resolvidas mais pelo discurso que pela ação (ARISTÓTELES, 2005, p.95).

De acordo com a referida citação, não há dúvida de que há um imbricamento entre a phrônesis e a epieikeia. É relevante fazer-se a seguinte pergunta em que uma difere da outra?

A phrônesis não tem a priori uma dimensão ética, denotando a verdade e a qualidade do discurso “em conhecimento de causa”; a epieikeia seria a disposição ética por excelência, garante que os conselhos sejam justos, equânimes e apropriados a cada situação. Como segue:

Os oradores inspiram confiança, (a) se seus argumentos e conselhos são sábios, razoáveis e conscientes, (b) se são sinceros, honestos e equânimes e (c) se mostram solidariedade, obsequiedade e amabilidade para com seus ouvintes. (ARISTÓTELES, 2005, p. 160).

Procurou-se mostrar de maneira clara e objetiva, como o filósofo grego, Aristóteles concebera a concepção de ethos discursivo; assunto presente em suas retóricas.

Como fora mencionado no início deste capítulo, a necessidade de se trabalhar com uma visão diacrônica da concepção de ethos discursivo, tornara-se imprescindível, sobretudo, porque se precisa evidenciar, além, da visão aristotélica de ethos, outras concepções da formação de ethos discursivo, que para alguns fora conhecido, somente, como uma imagem de si.

4.1.1. Uma visão interacionista da Imagem de Si

Essa concepção está no cerne do trabalho do sociólogo Erving Goffman para quem toda interação social é definida como uma influência recíproca que os parceiros exercem sobre suas ações respectivas quando estão em presença física uns dos outros (GOFFMAN, 1977 apud AMOSSY, 2005, p.12).

Segundo a respectiva abordagem, exige-se que seus autores – entende-se por esse termo as pessoas envolvidas no discurso – forneçam por seu comportamento voluntário ou involuntário, certa precisão de si mesmos que contribua para influenciar seus parceiros de modo desejado.

Goffman (1977 apud AMOSSY, 2005, p.12), para falar de tal influência que um parceiro exerce sobre outro, cria o que ele chama de metáfora teatral, ou seja, é uma representação, que para ele seria a totalidade da atividade que determinaria o indivíduo em uma dada ocasião, e isso se daria com o objetivo de influenciar, de uma maneira ou de outra, os participantes envolvidos nesse processo. Ainda, nessa mesma abordagem, o autor fala de papel, o que para ele seria cota ou rotina, que o autor define como modelo de ação que já estariam preestabelecidos e desenvolvidos em uma dada representação, e que poderia ser apresentada e utilizada em várias situações.

O autor cita para essas rotinas apresentadas, modelos de comportamento preestabelecidos que o diretor de uma empresa adota em uma reunião com os empregados, cita ainda, que o juiz aplica em uma seção do tribunal, que a enfermeira segue nos contatos com doentes, etc. Com isso, Goffman quer mostrar o grau de influência que um parceiro exerce sobre o outro, sobretudo, porque toda e qualquer troca verbal é submetida a uma regulamentação sociocultural, uma vez que ela supera largamente a intencionalidade do sujeito que fala e age.

Tendo em vista, a concepção de imagem de si formulada pelo sociólogo Erving Goffman, a autora Kerbrat-Orecchioni redefine de maneira sucinta a noção goffmaniana de face como: “o conjunto das imagens valorizantes que durante a interação, tentamos construir de nós mesmos e impor aos outros” (KERBRAT-ORECCHIONI, 1989 apud AMOSSY, 2005, p.12), o essencial, aqui, é o face-work, figuração, ou seja, tudo que uma pessoa faz para não perder a face para ninguém, nesse contexto, a pessoa inclui, também, sua face. Nessa ótica, a autora elabora uma psicossociologia centrada no trabalho que consiste em estabelecer o equilíbrio em uma interação convencional por táticas evasivas ou de reparação.

Essas perspectivas retomadas pelo autor em seus estudos dos comportamentos na vida cotidiana foram retomadas pela descrição das trocas verbais, na qual elas permitem destacar que “as interações jogam, antes de mais nada, com relação interpessoais, ritualizadas socialmente” (KERBRAT-ORECCHIONI, 1989 apud AMOSSY, 2005, p.14).

Kerbrat-Orecchioni (1989 apud AMOSSY, 2005, p.14), em sua obra, menciona o caso em que um dado locutor é confrontado a exigências conflitantes; a autora cita como exemplo: em que um conferencista hesita entre passar por pedante ao pronunciar corretamente uma palavra estrangeira, e ao mesmo tempo parecer incompetente se sua pronúncia for ruim. A autora estuda a saudação usada pelo locutor que, ao esforçar-se para agradar o outro, dá uma imagem positiva de si, e desta feita conseguir causar uma boa impressão no outro. Com isso, a autora retoma o princípio de gerenciamento de face para mostrar como ele governa na língua, os fatos estruturais e as formas convencionais.

Segundo essa abordagem, passa-se da interlocução à interação, por entender que “falar é trocar, é mudar trocando”, “ao longo de uma troca comunicativa qualquer”, os diferentes participantes, que passam a ser chamados de ‘interactantes, exercem uns sobre os outros na rede de influências mútuas”

A função da imagem de si e do outro construída no discurso se manifesta plenamente nessa perspectiva interacional. Logo, falar que os participantes interagem é supor que a imagem de si construída no e pelo discurso participa da influência que um exerce sobre o outro.

É importante mostrar que os trabalhos realizados pelo sociólogo Erving Goffman, direcionaram-se para a produção de uma imagem de si, cujas pesquisas sobre apresentação de si e os ritos de interação exerceram profunda influência na análise das conversações.

Para a análise conversacional há uma união entre os estudos dos fenômenos de língua propriamente dito (morfemas especializados, tipos de modalizadores, enálages de pessoas: a gente ou nós por eu e você, etc.) às interações no interior das quais a imagem que o locutor constrói de si e do outro é capital.

4.1.2. Ethos na semântica pragmática de Ducrot

Essa teoria de Oswald Ducrot está sedimentada na teoria da polifonia da enunciação, isto é, em uma pragmática semântica, a qual o termo fora inserido. Aqui, Ducrot evita relacioná-la preliminarmente a uma fonte localizada, a um sujeito falante (DUCROT, 1984 apud AMOSSY, 2005, p.15).

Para Ducrot (1984 apud AMOSSY, 2005, p.15), é o próprio enunciado que fornecera as interações sobre “os autores”, e eventos de enunciação. Também é importante não confundir as instâncias internas do discurso, que para o autor são ficções discursivas, com o ser empírico que se situa na linguagem. Sendo assim, a pragmática-semântica abandona o sujeito falante real para se interessar pelas instâncias discursivas do locutor, porém, coloca em xeque sua unidade. Dentro dessa proposta, a pragmática-semântica diferencia locutor (L) do enunciador (E) que para ela é a origem das posições expressa pelo discurso e é responsável por ele; ela divide o locutor em “L”, ficção discursiva, e em “λ”, ser do mundo, ou seja, aquele de quem se fala (“eu” como sujeito da enunciação e o “eu” como o sujeito do enunciado).

Analisar o locutor (L) segundo essa perspectiva, consiste não em ver o que ele diz de si mesmo, mas em conhecer a aparência que lhes conferem as modalidades de sua fala. E é em função disso que Ducrot (1984 apud AMOSSY, 2005, p.15) recorre à noção de ethos, haja vista “O ethos está ligado a L, o locutor como tal: é uma origem da enunciação que ele se vê investido de certos caracteres que em contra partida, tornam essa enunciação aceitável ou recusável” (DUCROT, 1984 apud AMOSSY, 2005, p.15)

A noção de ethos na pragma-semântica trata-se, na verdade, de uma teoria que enfatiza a fala como ação, que visa a influenciar o parceiro. É importante mencionar que Ducrot não desenvolvera suas pesquisas em direção a concepção do termo ethos propriamente dito, a julgar que o autor enfatiza em seu trabalho os enunciados como sendo responsável pelo posicionamento do locutor inserido nesse processo.

4.2. Ethos na concepção de Dominique Maingueneau

Maingueneau (1997) volta sua pesquisa para uma reflexão enunciativa de ethos, segundo o autor o ethos está crucialmente ligado ao ato de enunciação, mas não se pode ignorar que o público constrói também representações do ethos do enunciador antes mesmo que ele fale.

Em consonância com a proposição do autor, há uma diferença entre ethos discursivo e pré-discursivo. O ethos discursivo está embasado na perspectiva de Aristóteles, e o ethos pré-discursivo é a concepção que os interlocutores fazem ao locutor, antes mesmo que este se pronuncie.

Percebe-se, nessa respectiva abordagem, que além da persuasão, já que segundo Aristóteles essa é uma característica presente no ethos, mais especificamente naquilo que ele denominou pathos, a noção de ethos permite de fato, refletir sobre o processo mais geral da adesão de sujeitos a uma certa posição discursiva.

Em conformidade com a abordagem proposta por Maingueneau (1997), o ethos pode ser relacionado e se manifestar por meio daquilo, que o autor chamara de “voz”, que segundo o autor poderá estar relacionada a uma situação de comunicação oral ou escrita.

Nessa perspectiva, o autor afirma que todo discurso escrito possui uma vocalidade específica, e essa vocalidade permite relacionar o discurso a uma fonte enunciativa, e isso acontece por meio de um tom que vai indicar quem o disse, é nessa perspectiva que o autor afirmara que o tom está presente em textos escritos e orais.

Aportado à noção de ethos na obra de Maingueneau (1997), percebera-se que ao integrar o ethos retórico à Análise do Discurso, o autor concebera uma noção de ethos que consiste em o enunciador conferir a seu interlocutor certo status, para legitimar seu dizer, isto é, o enunciador outorga no discurso uma posição institucional marcante: sua relação com o saber.

Para Maingueneau (1997), o ethos discursivo é uma noção discursiva; é a imagem do próprio sujeito enunciador no discurso.

No trabalho de Maingueneau (1997), os estudos sobre ethos desenvolveram-se articulado de forma à cena de enunciação, na qual cada tipo de discurso aborda uma distribuição preestabelecida de papéis, aqui, o locutor pode escolher mais ou menos livremente sua cenografia.

5. CAPÍTULO

Este capítulo tem como objetivo principal mostrar passo a passo o que fora feito para a concretude desta pesquisa, e de que forma conduziu-se a realização deste trabalho e como se chegou ao material analisada, isto é, os discursos do sindicalista Luís Inácio Lula da Silva. Os discursos apresentados estão inseridos em tempos diferentes.

O primeiro está datado de 17 de abril de 1980, dirigido aos sindicalistas, do ABC paulista. O segundo, datado de 24 de janeiro de 2005, feito à convenção dos trabalhadores

De cada discurso, serão analisadas as diferentes concepções de ethos discursivos. Os discursos serão analisados individualmente, pois se pretende dar uma visão concisa, porém, pertinente de cada discurso proposto, visto que ambos fazem parte de períodos históricos marcados por singularidades.

6. METODOLOGIA

Nesta pesquisa, analisou-se dois discursos do ex-sindicalista e atual Presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva, essas análises terão como base fundamental, o ethos discursivo na percepção do filósofo grego Aristóteles, sedimentado na obra retórica I e II, para quem ethos corresponde ao caráter do orador, e em função desse caráter o orador será capaz de persuadir seus interlocutores:

Três são as causas que tornam persuasivos os oradores, e sua importância é tal que por elas nos persuadimos sem necessidade de demonstração: são elas a prudência, a virtude e a benevolência. Quando os oradores recorrem à mentira nas coisas que dizem ou sobre aqueles que dão conselhos, fazem-no por todas essas causas ou por algumas delas. (ARISTÓTELES, 2005, p. 160)

Sedimentado na elaboração de ethos discursivo trabalhar-se-á com atos de fala, que tem como principais expoentes: Austin e Searle, para quem “todo dizer é um fazer”. Neste sentido, Cervoni (1989, p. 21) afirma que, “para a questão dos atos de linguagem, parece que não podemos dispensar uma apresentação da teoria de Austin. Ela é referência obrigatória de qualquer forma da linguagem”.

Com a referida análise, tentar-se-á descortinar, nos discursos propostos, o caráter persuasivo que está imbricado em todo discurso, uma vez que ao se pronunciar, os diferentes tipos de ethos têm como característica principal dirigir-se aos interlocutores com o objetivo de convencê-los. Nessa perspectiva, trabalhar-se-á com atos de fala. Que segundo Osakabe (2002, p.56) “discutir os atos de linguagem dentro do quadro do discurso constitui não apenas uma questão de fidelidade às preocupações centrais de Austin, mas também um questionamento e uma testagem de sua própria proposta”.

A pesquisa teve como base de análise metodológica qualitativa, a partir de uma pesquisa bibliográfica com base em: Cervoni (1989), Amossy (2005); Motta e Salgado (2008); Osakabe (2002), Maingueneau, (1997).

Foram coletados dois discursos, em diferentes épocas, do presidente Luís Inácio Lula da Silva. O primeiro discurso, datado de 17 de abril de 1980, fora dirigido aos sindicalistas, conclamando a greve dos metalúrgicos. O Segundo discurso, datado de 24 de janeiro de 2005, fora proferido na convenção de trabalhadores. Os respectivos discursos foram extraídos da dissertação de mestrado, da mestra em Comunicação Eloah Iriart Janssen, da Faculdade de Comunicação Social.

Os textos foram escolhidos em virtude da proposta da pesquisa: fazer uma diferença dos tipos de ethos encontrados, dado que todo e qualquer discurso modifica-se em uma escala de tempo. Nenhum discurso permanece inalterado, isto porque todo discurso está alicerçado na condição de produção. Aqui, o sujeito tem ilusão de que controla o próprio discurso, quando na verdade é movido por uma máquina discursiva, assim, para a AD, “o sujeito, por não ter acesso às reais condições de produção de seu discurso devido à inconsciência de que é atravessado e ao próprio conceito de discurso com o qual trabalha a AD” (MUSSALIM, 2006, p. 136)

De cada discurso fora investigado com se forjou o ethos discursivo e como esses ethos foram percebidos pelos interlocutores, é importante frisar que cada ethos pesquisado apresenta-se em uma cena de enunciação distinta, logo o locutor projetar-se-á de maneira diferente, tendo em vista o posicionamento do locutor uma escala de tempo distinta, por conseguinte seu discurso apresentara-se modificado.

O próximo passo fora investigar nos referidos discursos as modificações que perpassaram a linguagem envolta ao discurso.

Foram trabalhados excertos dos discursos, e nesses discursos evidenciar-se-ão como o presidente se projetara nas diferentes cenas de enunciação, proferindo seus discursos, seja no primeiro e/ou no segundo discurso sua intencionalidade sempre fora persuadir seus interlocutores a aderirem a suas ideias políticas.

O primeiro discurso é de um sindicalista. No decorrer do trabalho, fora percebido o tipo de ethos discursivo e qual sua intenção e como se projetou nesse discurso o sindicalista Luís Inácio Lula da Silva e como os interlocutores perceberam esse ethos.

A base de pesquisa teve os discursos de 17 de abril de 1980, e respectivamente o discurso de 24 de janeiro de 2005, nesses discursos trabalhou-se com os textos percebendo quais as reais intenções que estão nas entrelinhas dos discursos, e como o homem que emergiu da classe trabalhadora conseguira chegar ao mais alto cargo de um país.

No segundo discurso, percebera-se um candidato concorrendo à reeleição presidencialista, e para essa reeleição seu discurso modificara-se sistematicamente visando a uma aceitação dos interlocutores, nesse momento, trabalhara-se com a persuasão segundo perspectiva de Aristóteles. Que assim se expressa:

Persuade-se pelo caráter quando o discurso é proferido de tal maneira que deixa a impressão de o orador ser digno de fé. Pois acreditamos mais bem e mais depressa em pessoas honestas, em todas as coisas em geral mas sobretudo nas de que não há conhecimento exacto e que deixam margem para dúvida. É, porém, necessário que está confiança seja resultado do discurso e não de uma opinião prévia sobre o caráter do orador; pois não se deve considerar sem importância para a persuasão a probidade do que fala como alguns autores desta arte propõem, mas quase se poderia dizer que o caráter é o principal meio de persuadir (ARISTÓTELES, 2005, p.96)

Segundo a perspectiva mencionada acima, o discurso está diretamente ligado ao caráter do orador/locutor, que direcionará seu discurso de maneira a persuadir os interlocutores de tal forma que eles concebam o discurso do locutor como sendo parte intrínseca de seus próprios discursos.

Trabalhar com a linguagem, que permeia o discurso e suas modificações, é adentrar em um campo instigante do saber; é desnudar que todo discurso tende a ser modificado através do tempo, pois nenhum discurso permanece inalterado, posto que o sujeito, como provedor desse discurso, é responsável por essa modificação.

Por isso, é importante descortinar como as modificações aconteceram no interior do discurso. E qual o real papel do sujeito dentro dessas modificações?

Entende-se que o papel desse sujeito é mostrar que um locutor inserido numa cena de enunciação precisa ser capaz de convencer seus interlocutores; é ver que a linguagem não é um simples ato de comunicação, mas sobretudo é uma maneira que o locutor encontra para interagir com os interlocutores, e assim convencê-los em aceitar o que está sendo proferido pelo orador/locutor.

Porquanto, foi o comportamento dessa comunicação que perpassara o trabalho, até a sua concretude nas transformações que ocorridas nos discursos.

7. CAPÍTULO

Com o presente capítulo, pretende-se descortinar os discursos em análise, trazer para o escopo do trabalho as concepções ideológicas que nortearam os discursos, em virtude de que todo discurso é movido por uma ideologia.

Para essa análise, é relevante para pesquisa falar sobre o papel social do discurso, e nessa perspectiva abordar-se-á concepção de Discurso e Poder, segundo a concepção dos Estudos dos Críticos de Discurso, que tem como um dos principais expoentes o professor Teun Van Dijk, para quem:

Se as ações envolvidas são ações comunicativas, isto é, o discurso, então podemos de forma mais específica tratar do controle sobre o discurso de outros, que é uma das maneiras óbvias de como o discurso e o poder estão relacionados: pessoas não são livres para falar e escrever quando, onde, para quem, sobre o que ou como elas querem, mas são parcial ou totalmente controladas pelos outros poderosos, tais como o Estado, a polícia, a mídia ou uma empresa interessada na supressão da liberdade da escrita e da fala (tipicamente crítica) (VAN DIJK, 2008, p.18).

É nesse âmbito que se insere o discurso do sindicalista, Luís Inácio Lula da Silva, que fora sempre movido por uma ideologia, ainda que essa ideologia seja, segundo o próprio sindicalista, do povo e para o povo. É interessante observar que essa ideologia é de resgate ao povo de um servilismo, do qual sempre estivera preso. É nesse contexto social, que o sindicalista Luís Inácio Lula da Silva fundara o Partido dos Trabalhadores (PT), para quem seus discursos foram direcionados, em razão de que o povo fora o grande alvo do sindicalista, e em função desse o alvo, seus discursos foram moldando-se, isso ocorreu de acordo com a necessidade de interagi com seus ouvintes, que na perspectiva abordada serão intitulados de interlocutores.

7.1. DISCURSO DIRIGINDO-SE AOS SINDICALISTAS EM 17 DE ABRIL DE 1980

Esse discurso fora proferido em meio a uma turbulência instaurada no Governo. Nesse momento, o Brasil era governado pelo último presidente militar, e nesse contexto, havia uma perspectiva da população brasileira em relação à abertura política, isto porque todo e qualquer direito de o cidadão se expressar fora cassado.

O interesse maior em analisar tal discurso, é mostrar os diferentes tipos de ethos discursivo, dado que cada cena enunciativa será responsável por um determinado tipo de ethos, pois o ethos não se apresenta diferente da cena de enunciação.

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Nessa abordagem, Maingueneau (1997, p. 47) afirma que:

Não basta eu falar de “lugares” ou de “dêixis”, a descrição dos aparelhos não deve levar a esquecer que o discurso é inseparável daquilo que poderíamos designar muito grosseiramente de uma “voz”. Esta era, aliás, uma dimensão bem conhecida da retórica antiga que entendia por ethé as propriedades que os oradores se conferiam implicitamente, através de sua maneira de dizer: não que diziam a propósito deles mesmos, mas o que revelavam pelo próprio modo de se expressarem.

Aportado naquilo que Maingueneau (1997) afirma sobre ethos, é relevante frisar-se que o ethos é uma noção discursiva construída no interior de cada discurso.

O discurso analisado é um discurso político, e nessa relação observar-se-á as representações sociais que o sujeito/locutor impõe a cada discurso, aqui se observa o que ele deve e pode dizer em um dado momento, fica nítido, também, a maneira como ele pode e deve se representar.

Nesse primeiro discurso, o ethos apresenta-se como o homem do povo disposto a lutar com o povo e pelo povo. Ao utilizar esse tipo de argumento, o locutor consegue com muita perspicácia conclamar o povo, que nessa perspectiva apresenta-se como seus interlocutores, ou seja, a quem o locutor direcionara seu discurso a aderirem a greve.

Nesse discurso, observa-se que o locutor utilizou-se dos mecanismos linguísticos, mais propriamente dos atos de fala, designado de ilocucionário e perlocucionário. Como pode ser observado: “Vamos bater um papo aqui como nós sempre fizemos. Vocês sabem tanto quanto eu sei que, mais dia ou mesmo dia, isso viria acontecer”.

Nota-se que o locutor se inseriu na mesma cena de enunciação que seus interlocutores, porque ambos participam da mesma cena enunciativa, isto é, uniu-se a eles para que seu poder de argumentação se tornasse muito mais convincente, uma vez que seus interlocutores aproximam o discurso do locutor com suas realidades. Salienta-se, ainda, que o locutor representa uma imagem de si, já que pressupõem que seus interlocutores identificam-se com essa imagem.

Nesse âmbito, o locutor faz uso do ato de fala perlocucionário, ou seja, os argumentos utilizados por ele para suscitar em sua plateia/interlocutores o espírito de revolta com a conjuntura política e social que permeava o país naquela época.

Em relação ao ato ilocucionário, é a própria estrutura do discurso, isto é, a forma como o discurso fora constituído de modo a interagir com seus interlocutores. Nesse sentido, Osakabe (2002, p.80) se expressa da seguinte maneira: “O discurso aí é considerado, na sua individualidade, como uma manifestação que é a do locutor. Enquanto o ato de argumentos, o discurso é da responsabilidade desse sujeito e é nele que se afirma”.

Consoante a perspectiva de Osakabe (2002), esse procedimento utilizado pelo locutor serve para colocar em evidência o papel que tem o locutor no processo de construção e manipulação dos sentidos com o principal foco em atingir seus interlocutores; e nessa perspectiva, salienta-se a prioridade ao papel subjetivo de um discurso em que no fundo, o locutor não deseja falar por si mesmo, mas, sobretudo, expressar-se em nome da coletividade.

No decorrer do discurso, o locutor faz uso de outros discursos, consequentemente tais discursos movidos por diferentes ideologias. “Porque no Brasil historicamente, todas às vezes que os sindicatos que começam a andar. A partir de 64 o governo conseguiu o que queria”.

Ao fazer uso desse recurso linguístico, o locutor apropria-se de um novo discurso, o que caracteriza na perspectiva de Maingueneau (1997), a heterogeneidade mostrada, ou seja, um discurso que pode ser recuperado, basta reportar-se ao golpe militar de 1964, e de lá trazer a superfície do discurso, o discurso outro, caracterizando, assim, a alteridade.

Segundo Maingueneau (1997), ele faz diferença entre dois tipos de heterogeneidade, que se constitui em: mostrada e constitutiva.

A heterogeneidade mostrada e a seguir, a heterogeneidade constitutiva; a primeira incide sobre as manifestações explícitas, recuperáveis a partir de uma diversidade de fontes de enunciação, enquanto a segunda aborda uma heterogeneidade que não é marcada em superfície, (...). (MAINGUENAU, 1997, p.75).

O ato de convencer seus interlocutores em acreditarem no que o locutor, que para Fiorin (2008) é simplesmente enunciador, está proferindo; Fiorin relata que o locutor faz uso das figuras de pensamento com o objetivo de fazer os interlocutores crerem em tudo que o locutor diz. Observa-se o que fora mencionado no seguinte trecho: “(...) nós temos que sair aí pra esse corredor com os dentes abertos, arreganhados, porque temos nós temos que mostrar otimismo pros trabalhadores”.

No discurso, nota-se uma única cena de enunciação, mesmo o locutor estando proferindo seu discurso para três sindicatos de cidades diferentes, esse discurso foi proferido em frente à sede de um dos sindicatos, marcando desta forma o espaço físico do discurso.

E nessa cena de enunciação, o locutor ora apresenta um discurso conciliador, ora um discurso agressivo, mas com um único objetivo: ganhar a confiança dos interlocutores.

Nessa mesma perspectiva Fiorin (2008, p. 86) afirma que:

No seu fazer persuasivo, o enunciador procura criar efeitos de estranhamento com a finalidade de chamar a atenção do enunciatário para sua mensagem. Para isso, utiliza-se de recursos retóricos. Assim, o enunciatário, por meio de uma percepção inédita e inesperada, pode atentar melhor para certos elementos que estão sendo comunicados e aceitar mais facilmente o enunciado.

Até o presente momento, procurou-se trazer para o escopo da pesquisa as movimentações pelas quais passaram o discurso proposto. É importante ressalvar, que no decorrer do discurso o locutor utilizou-se dos dêiticos, que consequentemente remete aos interlocutores à cena de enunciação. Os dêiticos, cuja série mais representativa é: eu, tu, aqui e agora, são palavras que designam, dentro do enunciado, os elementos constitutivos de toda a enunciação, que são locutor, o alocutário, o lugar e o tempo da enunciação (CERVONI, 1989, p. 23).

No discurso, os dêiticos ficam caracterizados nos seguintes trechos: “Eu vou dizer (...)”, “(...) eu já disse pra você, (...)”, “(...) eu terei a coragem de dizer que lá está o sindicato em São Bernado do Campo e Diadema, (...)”, “Eu estou dizendo que se um dia vocês estiver na beira da represa, amanhã, pescando, (...)”.

Os dêiticos mencionados acima, marcam a primeira pessoa, nesse sentido, Cervoni (1989, p. 25) fala:

Vamos insistir nesse ponto: dizer que eu designa o locutor, tu o alocutário, constitui uma descrição incompleta. O que convém sublinha é que eu (ou uma outra forma primeira pessoa) é o nome que locutor se dá quanto toma a si mesmo com objeto de discurso, quanto é de si que ele fala; (...).

Nesse sentido, o locutor do discurso é a mesma pessoa que fala, logo terá um papel ativo no discurso, e a pessoa de quem se falou, ou para quem se falou obtêm um papel passivo no discurso.

É pertinente mencionar que todas as pessoas envolvidas no discurso têm, na verdade, um papel comum: servem para apresentar um objeto de fala.

É interessante observar, na estrutura do discurso, o locutor faz uso da primeira pessoa do plural com o objetivo primeiro de se inserir, de se englobar em meio aos interlocutores, como um mecanismo de interação social. O fato é observado em vários momentos do discurso, como segue: “Nós fizemos em três anos”, “Vamos bater um papo aqui como nós sempre fizemos”, “Cada um de nós aqui, cada um de nós, o Lula (...)”, “Nós temos que decidir o que é mais importante”.

Percebe-se no exemplo proposto a marca do sujeito no entrelaçamento do discurso com seus interlocutores, que na perspectiva de Aristóteles, esses são chamados de plateia, com quem o locutor interage. Nesse âmbito, o sujeito/locutor é responsável pelo dizer e pelo acontecimento da enunciação; e nesse sentido, ele é identificado no discurso por essa marca linguística, que está marcada com os pronomes pessoais eu e nós, e a presença do pronome oblíquo me; caracterizando desta forma as marcas dêiticas no discurso. “Eu me sinto muito mais orgulhoso, eu me sinto mais orgulhoso com a atitude de vocês, (...)”.

É imprescindível mencionar as marcas de tempos verbais que perpassaram o discurso. Encontrou-se no decorrer da análise, de maneira preponderante, a marca do tempo presente do indicativo, o que caracteriza argumentos convincentes e incontestáveis, favorecendo aos interlocutores a possibilidade de aderirem ao discurso, além do que, o conteúdo do discurso não é uma possibilidade, mas uma ordem, ainda que essa ordem seja proferida de maneira velada, o que contribuiu para que os interlocutores não a percebam. Como pode ser observada nas seguintes passagens: “Vocês sabem perfeitamente (...)”, “Vamos bater um papo (...)”, “(...) como os filhos da gente entendem (...)”, “(...) aqui que devem estar lembrados quantas vezes (...)”, “(...) não saiam si quer a rua (...)”, “saiam pra vir as assembleias”, “São vocês aqui que têm que meditar, (...)”, “Vocês já são adultos, (...)”.

Ademais do tempo verbal característico do discurso, é pertinente ressaltar os dêiticos de tempo e lugar que ficam nítidos no discurso, caracterizando o tempo e o espaço do enunciado, ou seja, os interlocutores encontram-se em um espaço determinado e no tempo em que ocorreu o discurso, que para Cervoni (1989), os mais representativos são: eu, tu, aqui, agora, que são as palavras que designam, dentro do enunciado, os elementos constitutivos de toda a enunciação, que são o locutor, os interlocutores, o lugar e o tempo da enunciação.

Referente ao mencionado acima, Cervoni (1989, p. 23) se expressa da seguinte maneira:

Isso quer dizer que, em cada ocorrência de eu, esta palavra só pode designar o indivíduo que disse eu para falar de si mesmo; tu, só pode designar o indivíduo a quem o locutor se dirige para falar dele, alocutário; aqui e agora só podem designar o lugar e o tempo da ocorrência do enunciado de que fazem parte.

No decorre do desenvolvimento dessa análise, observou-se que há uma semelhança patente entre os atos de fala propostos por Austin (1962 apud ARMENGAUD, 2008, p.103) que estão imbricados ao discurso e as características propostas por Aristóteles, no decorrer de suas retóricas que são: Logos, pathos e o ethos. Discini (2008, p. 33) se expressa da seguinte maneira:

(...) para a imagem do enunciador, o ethos; para a imagem do leitor, pathos; lá, um sistema de estratégias para fazer crer no mundo construído; aqui, o feixe de expectativas, disponibilidades e paixões provocadas no auditório. Como articulação entre ethos e pathos, o logos indica o próprio discurso, pelo que ele demonstra ou parece demonstrar.

Se para Austin, o discurso está relacionado ao ato ilocucionário, para Aristóteles esta característica relaciona-se ao logos, para quem o logos materializar-se-á através do discurso. É interessante notar que os argumentos utilizados pelo locutor para interagir com os interlocutores, e na perspectiva de Aristóteles plateia, tem a mesma finalidade. Para o primeiro trata-se do que ele denominou de ato perlocucionário, enquanto o segundo designara de pathos, ambos com a mesma intencionalidade: suscitar nos interlocutores/plateia, à comoção, à aceitação, à euforia e a paixão, pois, são essas características que fazem os interlocutores/plateia aderirem e a aceitar o discurso do locutor, que para Aristóteles denomina-se orador.

Os referidos autores estão em um espaço de tempo totalmente diferente, contudo defendem de maneira distinta, mas com a mesma finalidade, os discursos e os sujeitos inseridos nesse discurso.

A proposta da análise fora desvelar argumentos utilizados pelo locutor para persuadir e interagir com os interlocutores, trazer à tona a formação do ethos discursivo, e como o locutor se percebe nesse discurso.

Percebera-se que a figura do ethos é de um homem do povo, um trabalhador, logo tornando mais eficiente seu discurso, dado que há uma identificação entre os interlocutores e o locutor, ambos inseridos no discurso.

A imagem que o ethos tem de si, é uma imagem que conseguirá ajudar os sindicalistas a vencerem uma disputa com governo vigente à época, nesse sentido o ethos torna-se o ser capaz de se sacrificar, pelos seus, caso fosse necessário. Tem-se um discurso massificado pelo locutor, que fala como homem do povo, um trabalhador brasileiro que precisa ser respeitado como os demais trabalhadores.

Desta feita, procurou-se mostrar de maneira clara e concisa, como um locutor/orador é capaz de persuadir seus interlocutores, e os mecanismos que ele utilizara para conseguir convencê-los a aderirem às suas ideias políticas, haja vista que no decorrer dessa análise percebera que o discurso analisado é de âmbito político.

7.2. DISCURSO NA CONVENÇÃO NACIONAL DO PT EM 24 JUNHO DE 2005

A proposta em analisar o referido discurso, é mostrar que nenhum discurso permanece inalterado, visto que o discurso está submetido à condição de produção, está situado historicamente, além do que os discursos são perpassados pelas formações discursivas e ideológicas. Como segue:

Uma formação discursiva, apesar de heterogênea, sofre as coerções da formação ideológica em que está inserida. Sendo assim, as seqüências linguísticas possíveis de serem enunciadas por um sujeito já estão prevista, porque o espaço interdiscursivo se caracteriza pela defasagem entre uma e outra formação discursiva. Explicando melhor: as seqüências linguísticas possíveis de serem enunciadas por um sujeito circulam entre esta ou aquela formação discursiva que compõem o interdiscurso. (MUSSALIM, 2006, p. 131)

De acordo com a citação mencionada acima, AD propõe voltar-se o olhar, não para o sujeito em si, haja vista que esse sujeito é interpelado por uma ideologia, por tanto, é o lugar ideológico de onde enunciam os sujeitos que é relevante para a AD.

É nessa perspectiva, que o discurso de um candidato à reeleição vai construindo-se, e essa construção ocorrerá mediante a necessidade que o locutor terá em interagir com seus interlocutores, diante dessa necessidade de comunicação, o locutor fez uso de mecanismos linguísticos para consegui aproximar seu discurso às expectativas dos interlocutores.

Outra abordagem mencionada é como o ethos discursivo percebe-se na cena de enunciação, ao mesmo tempo em que seus interlocutores. O discurso é conduzido de maneira a suscitar em seus ouvintes o interesse por esse discurso. A linguagem utilizada pelo locutor é suficientemente propícia para que isso ocorra, e como isso acontece?

O locutor inicia seu discurso, de maneira a chamar a atenção dos trabalhadores, ou seja, interlocutores. O termo utilizado pelo locutor para essa aproximação é: “Companheiras e companheiros”. Ao fazer uso desse vocativo, o que locutor pretende é trazer para si o apoio feminino e posteriormente masculino, porque sugere-se que as mulheres são muito mais sensíveis aos apelos que os homens.

O locutor insere em seu discurso o pronome pessoal do caso reto, vocês, o que serve como um elemento do discurso, a quem o locutor vai reporta-se todas às vezes que pretender chamar a atenção ou alertar para algo. Como pode ser observado no seguinte trecho: “Vocês sabem, muito bem o quanto custou a cada um de nós chegar até aqui.”.

Com o respectivo argumento, o locutor aproxima seu discurso com o discurso de todos os interlocutores, como se eles tivessem feito parte intrínseca de seu primeiro mandato; o momento que o locutor se inclui com os demais, ele tem a intencionalidade de ganhar a confiança de todos, por isso os insere ao seu discurso como se eles tivessem participação no governo.

Ao referir-se ao argumento, Aristóteles ressalta que esse é o elemento central da persuasão, portanto, os argumentos do locutor têm esse caráter persuasivo, à medida que fez uso de estratégias para ganhar a confiança dos interlocutores. Esses argumentos foram percebidos no decorrer do discurso, para citar alguns exemplos: “Vocês sabem como foi difícil realizar aquele sonho que parecia impossível: ter um trabalhador na Presidência do Brasil”, “Juntos, conseguimos mostrar que esse sonho não apenas era possível, como era justo e necessário.

Com esse pronunciamento, o locutor chega definitivamente junto aos interlocutores, isso porque leva a cada um deles que assim como ele, que emergiu da classe dos trabalhadores conseguiu chegar ao mais alto cargo público de uma nação, todos são capazes de alcançar a mesma proeza histórica.

Esse talvez tenha sido o argumento mais convincente nesse discurso, ora, todo trabalhador, nesse momento, identificou-se com o locutor, aponto de um dia querer estar na mesma posição que ele. Desta maneira, o discurso vai moldando e caracterizando-se até chegar ao seu verdadeiro objetivo: é interagi de maneira eficaz com os interlocutores.

No discurso proposto, o locutor faz uso dos dêiticos para caracterizar seu papel dentro do discurso, assim como, marcar a presença dos interlocutores e o papel que cada um representa no discurso. Essas características ficam evidentes em várias partes do discurso: “Hoje eu estou aqui para dizer a vocês que o sonho não acabou e a esperança não morreu.”. Hoje eu estou aqui para dizer a vocês que aceitei, mais uma vez, o chamamento.”, “Hoje eu estou aqui para anunciar que sou, mais uma vez candidato à Presidência da República.”

Nessa perspectiva, Maingueneau (1997) afirma que: “O ato de enunciação supõe a instauração de uma ‘dêixis’ espaciotemporal que cada discurso constrói em função de seu próprio universo.”

É pertinente desvelar que além do discurso analisado ter um caráter persuasivo, e mediante a essa persuasão consegue adquirir a confiança dos interlocutores, a ponto de oportunizarem ao locutor um segundo mandato, o discurso tem um caráter fortemente nacionalista e ufanista, além dessas características, o locutor cria em seu discurso um país dos sonhos. Extraiu-se do discurso algumas passagens que confirmam o que foi perspectivado acima:

O chamamento para continuar a luta de um Brasil mais justo e independente, onde cada brasileiro possa fazer três refeições todos os dias; possa ter emprego, educação e saúde; possa viver e um país cada vez mais moderno e humano; e possa, acima de tudo, ter esperança de um futuro cada vez melhor”.

Volto a ser candidato porque os pobres estão menos pobres e poderão continuar melhorando de vida, caso sejam mantidos e aprofundados os programas sociais que implantamos”.

Volto a ser candidato porque melhoramos a educação, e vamos melhorá-la mais ainda, (...)”, “Volto a ser candidato porque abrimos as portas para o século 21, lançando projetos que farão nosso país dar o grande salto nas áreas de energia, (...)”, “Volto a ser candidato porque o Brasil é hoje uma nação mais respeitada internacionalmente (...)”, “Volto a ser candidato porque amo o Brasil, amo o meu povo e não tenho ódio no peito.”.

As passagens de amor à Pátria e ao povo são inúmeras no decorrer do discurso. Com essa atitude, o locutor desnuda para seus interlocutores que ele é o candidato ideal para permanecer no governo, pois seu governo é do próprio povo e para o povo.

Com esse procedimento, o locutor orienta os interlocutores em suas decisões referentes ao futuro da nação, uma vez que o auditório/interlocutores/ouvintes, aqui, caracterizado pelo povo, é a meta de todo o processo de convicção, logo o interlocutor é necessariamente o juiz, portanto, alvo maior do locutor/orador.

No decorrer do discurso, observou-se que o ethos se vê como um homem bom e corajoso, capaz de dar continuidade ao que ele enuncia de bom no governo, mas para que isso aconteça é necessário que os interlocutores/povo deem credibilidade ao governo, que se comprometera com os ouvintes/interlocutores/povo. Nessa perspectiva, Aristóteles afirma que, “os oradores inspiram confiança, (a) se seus ouvintes, argumentos e conselhos são sábios, razoáveis e conscientes, (b) se são sinceros, honestos e equânimes e (c) se mostram solidariedade, obsequidade e amabilidade para com os ouvintes” (ARISTÓTELES, 2005, p.160)

O locutor trás para a estrutura do discurso, como parte da argumentação, a presença do outro, que é caracterizado na presença da terceira pessoa do plural. Como segue: “Pensam que o povo esqueceu o que eles fizeram com o nosso país”, “Pensam que o povo esqueceu o tamanho do buraco que eles deixaram”, “(...) o povo está dizendo que não os quer de volta”.

Essas afirmativas são analisadas pelo locutor, que, nesse momento, coloca-se no papel do interlocutor/povo e fala por eles, isto é, dando a “voz” aos interlocutores.

O locutor vai mais além, quando afirma que essa não pessoa (eles) não respeitou o povo/interlocutores, pois não levaram em consideração as necessidades dos interlocutores/povo. Como pode ser observado: “Mas eles nunca escutaram a voz do povo”.

Até o momento, percebeu-se um ethos que fez a seguinte imagem de si: um homem capaz de tirar o Brasil da inércia que fora antes de seu governo; apresenta-se como uma espécie de “salvador da pátria”, o redentor dos menos favorecidos, pois, o ethos se vê como um homem pobre que estudou pouco e, por esse motivo, compreende a classe dos não favorecidos.

Citar-se-á alguns trechos do discurso, no qual pôde ser observado o que fora mencionado acima:

Melhoria de vida se mede, principalmente, pela capacidade de consumo da população pobre, não pelo consumo sofisticado dos mais ricos. E hoje o brasileiro, em especial o brasileiro pobre e de classe média, tem melhor capacidade de consumo.”.

Hoje muitos brasileiros pobres estão comendo melhor, porque ganham mais e têm alimento mais baratos (...)”.

(...) podem comprar sua geladeira, seu fogão e sua televisão, porque a renda melhorou e o crédito está mais acessível.”.

Ademais dos elementos encontrados na estrutura do discurso, é interessante notar que o locutor mostra um país utópico, pois, nesse momento, constitui-se como um ethos sonhador, que conseguira criar um país maravilhoso, que na verdade, são argumentos pertinentes os quais serviram para corroborar com uma maior aceitação por parte dos interlocutores. Como segue:

É como se um país inteiro de miseráveis tivesse levantado a cabeça e saído a caminhar em busca de um destino melhor.”.

Isso só ocorre porque temos, hoje, no Brasil, alguns dos maiores e mais eficientes programas de transferência de renda do mundo.”.

Não estamos dando esmola. Estamos transferindo renda, garantindo o direito à alimentação e ampliando cidadania.”.

Por minha histórica pessoal e formação política sou um homem que defendo a cultura do trabalho.”.

Procurou-se, até o momento, desvelar o caráter persuasivo do discurso proposto; e como o ethos forjou-se nesse âmbito político concernente ao discurso.

É pertinente, nessa proposta, identificar outras características necessárias para a composição do referido discurso, haja vista o discurso ser, na sua totalidade, inesgotável de sentido, porque todo discurso é analisado dentro de uma perspectiva. Logo, cabe ao analista de discurso analisá-lo dentro de uma perspectiva relevante para o material pesquisado.

O principal foco dessa análise está constituído em descortinar a mudança do ethos discursivo em uma cena de enunciação com espaço e tempo delimitado pelos dêiticos, pois, são esses elementos que caracterizam o tempo do enunciado.

No discurso em análise, notou-se que esse fato ocorrera em vários momentos. Como pode ser percebido nos seguintes trechos: “Hoje através de medida (...)”, “Hoje eu estou aqui (...)”, “Hoje eu estou aqui para anunciar que sou, (...)”.

Tendo como base o que fora mencionado acima, além de fazer uso dos dêiticos para marcar o tempo e o espaço do discurso, o locutor se apropria do ato ilocucionário, isto é, o próprio ato de argumentar, já que seu discurso está sedimentado em uma argumentação pertinaz; e desta maneira o locutor suscita em seus interlocutores/povo as mais diversificadas emoções, tornando-os militantes e defensores desse país dos sonhos forjado pelo locutor.

É importante salientar, nessa análise, que o locutor se beneficia de seus projetos políticos para persuadir seus interlocutores, a assim ganhar a confiança deles, esses argumentos foram encontrados nos seguintes trechos:

Eles formam uma grande rede de promoção e proteção social cuja cabeça é o Fome Zero; e o principal, o Bolsa Família.

O Fome Zero é, na verdade, um grande guarda-chuva de cidadania que integra ações de combate à fome, transferência de renda, acesso a alimentos mais baratos e fortalecimento da agricultura familiar.”.

Além da ajuda financeira a 11 milhões de famílias, o Bolsa Família está hoje integrado, entre outros programas com o Brasil alfabetizado. Com o Pronaf em ações na área da agricultura familiar, com o Peti, que o programa de erradicação do trabalho infantil e com o Sentinela, que combate a exploração sexual da criança e do adolescente.

Ao mencionar tais feitos, o locutor acrescenta, ainda, que: “Não estamos dando esmola.”, ou seja, eu/locutor não quero que vocês/interlocutores compreendam, porque o locutor faz, para o bem de todos.

Observou-se que no decorrer da pesquisa o locutor fez as respectivas imagens de si:

  • Sou um homem pobre, pois vim da classe dos trabalhadores, ou seja, sou um homem igual ao povo;

  • Consegui fazer o melhor governo de todos os tempos, pois antes do meu governo o Brasil vivia no total esquecimento;

  • O meu governo é bom e tem de continuar;

  • Eu sou a pessoa mais capaz para dar continuidade ao governo desse país.

Portanto, o ethos se vê como um homem competente o suficiente para continuar construindo o país que os interlocutores esperavam, e por esses motivos precisam confiar nele.

Diante do que fora abordado até o presente momento, Osakabe (2002, p. 179) analisa da seguinte maneira:

Esse procedimento coloca em evidência o papel que tem o locutor nos processos de construção e manipulação do efeito de sentido que visa atingir no ouvinte e, nessa medida, evidencia e dá prioridade ao papel da subjetividade de um discurso em que, no fundo, o locutor não pretende falar por si mesmo, mas em nome da função e do papel exterior a sua própria individualidade.

É importante observar que o discurso do locutor é permeado pelos atos de fala, locucionário, ilocucionário e perlocucionário, assim como os argumentos propostos na Retórica I e II, que são: ethos, logos e pathos, pois de acordo com a análise o discurso apresenta tais características que serviram como base para sua construção, haja vista a intencionalidade do discurso, porque todo dizer é um fazer.

Foram observadas as seguintes semelhanças entre atos de fala e os argumentos encontrados na obra de Aristóteles:

  • Locucionário - Estrutura do discurso;

  • Ilocucionário - Logos/Discurso/Argumentos;

  • Perlocucionário - Pathos/Ouvintes/Emoções.

Como pôde ser percebido, os atos de fala proposto por Austin (1962), convergem em direção aos argumentos de Aristóteles. (2005). Propôs-se analisar o discurso, levando em consideração os mecanismos linguísticos que o locutor se apropriou para proferir tal discurso, como esse discurso foi observado pelos interlocutores e qual o tipo de ethos formado no interior do discurso.

8. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao iniciar essa pesquisa, percebera-se a importância de se ter mais trabalhos direcionados a essa linha de conhecimento, pois é um campo vasto de saber que precisa ser desnudado, porque a linguagem humana é permeada de significações.

Os discursos que foram analisados não se esgotam nessa primeira análise, visto a importância de seu conteúdo. Procurou-se levar uma pesquisa consistente e pertinente, que venha contribuir para outros trabalhos científicos com interesse nessa linha de pesquisa.

Em suma, analisar os discursos de Lula sempre será muito instigante, visto que ele conseguiu construir um imaginário popular. Não se analisou o político e suas ideias políticas, mas a linguagem que permeou os discursos analisados, procurando aproximar esses discursos às expectativas dos que sempre o ouviu e deram a ele credibilidade para que conseguisse alcançar esse posto político.

Esses discursos são inesgotáveis de sentido, podendo ser trabalhado por outro viés, porém, o objetivo maior dessa pesquisa fora trazer à tona as concepções ideológicas que moveram tais discursos e quais os diferentes tipos de ethos que foram constituídos no interior dos discursos.

De modo que é interessante observar na referida pesquisa a presença de elementos linguísticos os quais serviram de sedimentação para que os discursos alcançassem seu objetivo: entrar em contato com os interlocutores e suscitá-los a acreditarem em tudo o que o locutor proferira, para isso o locutor apropriou-se de argumentos eficazes, assim conseguindo adentrar no mundo subjetivo dos interlocutores, ao término da pesquisa, percebeu-se o povo como grande foco do locutor.

É importante observar que uma pesquisa está sempre em aberta, uma vez que há possibilidade de outras reinterpretações, tendo em vista o campo vasto de conhecimento que perpassa os discursos em análise, sobretudo porque os enunciados de um discurso têm mais significações a serem desveladas do que somente as propostas nessa pesquisa, no entanto, o objetivo desse trabalho fora dar início às descobertas do que está nas entrelinhas dos discursos em questão.

9. BIBLIOGRAFIA

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ANEXOS

ANEXO A: Discurso de Lula dirigindo-se aos sindicalistas, em 17 de abril de 1980

Pessoal:

Vamos bater um papo aqui como nós sempre fizemos. Vocês sabem tanto quanto eu sei que, mais dia menos dia, isto viria a acontecer. Vocês sabem que em todas as reuniões que nós fizemos na porta da fábrica, aqui no sindicato, naquele estádio, a gente dizia pra vocês uma única coisa: o que esta impossibilitando os patrões de darem o aumento pra gente não é aumento. Não são os 15%, nem seriam até mesmo os 30%. O que estava na cabeça de cada empresário, o que está ainda na cabeça de cada empresário, o que esta na cabeça do governo é a derrubada da diretoria deste sindicato. Foi dito pra vocês que eles jogaram muito alto nisto; e quantos discursos foram feitos naquele campo dizendo pra vocês que eles estavam apostando nisto. Por quê? Porque no Brasil, historicamente, todas às vezes que os sindicatos que começavam a andar. A partir de 64 o governo conseguiu o que queria. Conseguiu transformar cada sindicato deste Brasil num posto de atendimento médico e odontológico. Vocês sabem perfeitamente bem que, há dois anos atrás, pra conseguir um sócio pro sindicato, a gente era obrigado a prometer médico, dentista e colônia de férias. E os trabalhadores só entravam pro sindicato por causa disso. A partir de 77 São Bernardo mudou, mudaram-se as coisas. Pra entrar como sócio do sindicato não precisava mais querr médico e dentista, não precisava querer colônia de férias, precisava ter um pouco de fibra e ter disposição de brigar.

Aí as coisas começaram a mudar. Houve as regras de 78, houve a campanha pela reposição salarial em 77, houve a greve de 79, houve a greve de 1980. E quantos de vocês talvez não tenham ficado putos da vida comigo porque eu não deixei vocês recomeçarem a greve naquele famoso 13 de maio. É importante que cada um de vocês tenha na cabeça que a medida mais fácil pra diretoria do sindicato, e pra mim pessoalmente naquele instante, era chegar pra vocês e pediir para começarem a greve na segunda-feira. Era a medida mais fácil e mais cômoda.

Por que era a mais cômoda? Porque existia um respeito total do governo e da opinião pública ao nosso movimento. Se a gente continuasse em greve, com o esquema de massacre que estava montado, a greve continuaria mais dois ou três dias. E a gente voltava a trabalhar, quem sabe, embaixo de bordoada.

Vocês sabem o quanto custou pra eu pedir pra vocês voltarem a trabalhar. Quantos dos companheiros que estão aqui hoje, quantos d vocês foram vanguarda naquela greve e são vanguarda agora – e por isso estão aqui dentro – me chamaram de filho da puta. Quantos companheiros chegavam aqui no sindicato e falavam: Lula, a barra está pesada. Na ferramenta da Ford está acontecendo isto. Na funilaria da Mercedes está acontecendo isto. Na funilaria de não sei onde disseram que você se vendeu. Na linha de montagem da Volkswagen está escrito no banheiro que você se vendeu. Não sei onde estão dizendo que você ganhou um Fiat. E eu tinha certeza, como tenho a certeza de que estou vendo vocês aqui, de que mais dia menos dia, era uma questão de tempo, os trabalhadores iriam entender o que eu estava fazendo, como os filhos da gente entendem quando a gente bate neles. Quando a gente dá um tapa na bunda do filho da gente, podem ter certeza de que ele fica com raiva, e na cabecinha dele passa: ‘’Oh pai filho da puta!’’ podem ter certeza disso. Mas, em compensação, ele também tem a certeza de que o pai não bateu nele à toa. Tem certeza de que o pai bateu nele para o seu bem.

Vocês sabem, e tem companheiros aqui que devem estar lembrados quantas vezes eu saí daqui carregado daquele palanque. E aquilo não me deixava tão orgulhoso como me sinto agora. Não me deixava, porque agora a gente percebeu que o nível de consciência do trabalhador não permite que ele faça uma greve festiva. E o que é mais importante – o nível de consciência tem demonstrado isso – os trabalhadores parecem um bando de formigas. Das 9 horas às 10 e meia chegam ao campo, e do meio-dia ao meio-dia e vinte foram todos embora para casa. Eu me sinto muito mais orgulhoso, eu me sinto muito mais orgulhoso com a atitude de vocês, com o procedimento de vocês agora do que no ano passado. Porque, hoje, a consciência política que tomou conta de cada um dos metalúrgicos é algo que vai ensinar muitos cientistas políticos que precisaram agora refazer seus cursos e terão com professores, quem sabe, trabalhadores metalúrgicos.

Agora há uma coisa mais séria que eu quero dizer companheiros. Há uma coisa ainda muito séria. Foi dito naquele campo durante 20 dias que a greve tem que continuar, aconteça o que acontecer. Foi dito isso pra vocês. E eu vou dizer pra vocês uma coisa. Se vocês, amanhã ou terça-feira, voltarem a trabalhar de cabeça baixa, talvez a gente demore mais 30 anos pra fazer o que nós fizemos em três anos. Sou importante, eu já disse isso pra vocês, e já saiu também um boletim do sindicato, que a greve é um de consciência permitiu que 100 000 trabalhadores ficassem parados 17 dias, sendo que, 90 000 não saiam sequer à rua. Só saiam pra vir às assembléias. O que eu quero pedir pra vocês agora, e que vai me deixar muito orgulhoso se vocês me atenderem, não é partirmos pro quebra-quebra com a polícia se ela chegar aqui, não. Isso não vai me deixar orgulhoso. O que vai me deixar muito orgulhoso é, mesmo que os caras me prendam, vocês continuarem em greve até a vitória final. Este é um pedido que eu faço. Vocês não precisam se preocupar comigo.

Entendam bem uma coisa. Entendam bem, por favor! Cada um de nós aqui, cada um de nós, o Lula, o Ratinho, o jornalista, o metalúrgico, individualmente não vale porra nenhuma. Não vale. A categoria como um todo vale muito. E o que nós precisamos preservar é a categoria. O que nós precisamos preservar é todo o trabalho que foi montado desde o dia primeiro de abril. É por isso que eu vou fazer um pedido pra vocês. Durante 15 dias, eu pedi pelo microfone que os companheiros viessem para o sindicato. O pedido que eu faço hoje é o contrário. E eu gostaria que vocês entendessem que nem é um pedido, é uma súplica. É que cada um de vocês será muito mais importante, amanhã de amanhã, numa Rua do ABC, conversando com os companheiros pra não irem trabalhar. Imaginem se eles colocarem aqui nessa Rua 5000 dos caras do Exército, interditar o sindicato como interditaram no ano passado, e a gente ficar aqui dentro preso. O que será da nossa greve? O que será da nossa greve se todos os companheiros que estão aqui, que é a vanguarda, não estivessem lá fora pra dizer pro pessoal que não é para trabalhar, que houve intervenção no nosso sindicato? São vocês que tem que meditar, e ver onde vocês são mais importantes.

Eu já disse para vocês que o sindicato não é esse prédio. O sindicato é cada um de vocês, nada mais do que vocês. O sindicato é cada um de vocês na rua. O sindicato é cada um de vocês onde vocês estiverem. Se um de vocês estiver pescando na represa amanhã, eu terei a coragem de dizer que lá está o sindicato de São Bernardo do Campo e Diadema. Entretanto, se 5 000 furadores de greve estiverem aqui, eu não terei coragem de dizer que aqui está o sindicato de São Bernardo do Campo e Diadema. Veja a inversão das coisas, gente! Eu estou dizendo que se um de vocês estiver na barreira da represa, amanhã, pescando, vocês será muito mais sindicato do que 10 000 furadores de greve aqui dentro. É por isso que eu apelo aos companheiros. Meditem! Meditem! A minha opinião pessoal é que nós temos que decidir o que é mais importante. Nós temos que decidir o que é mais importante. Para mim o mais importante é os trabalhadores ficarem em greve e voltarem a trabalhar com uma vitória. Porque, se voltarem a trabalhar com uma vitória, no ano que vem teremos outra vitória.

Eu não estou precisando de proteção. Eu acho que DEUS protege cada um de nós. Entretanto, existem alguns milhares de trabalhadores aí na rua que precisam de proteção daqueles que tem consciência. E vocês têm consciência e têm que ir lá fora dar consciência para esse pessoal. A vitória de nossa greve, a vitória do nosso movimento será a capacidade de decisão que vocês tiveram. E vocês vão ter que fazer uma opção: ou ficam aqui dentro ou vão às 3 horas da manhã parar o pessoal lá fora, o que acho que é muito importante. Quem for favorável a ficar lá fazendo o que nós fizemos durante 15 dias, quem achar que isso é mais importante, levante a mão.

Pessoal, depois da decisão de vocês, eu tenho um pedido pra fazer. Nada de ficar dormindo até as nove. Eu tenho um pedido pra vocês: levantem às 3 da manhã, façam o que tem que ser feito, não marquem bobeira. Depois, voltem pra casa, durmam até a hora da assembléia e venham para a assembléia. Isso eu tenho pedido para vocês durante esses 15 dias. Graças a DEUS vocês deram uma demonstração de consciência quando aprovaram que é melhor estar na rua às 3 da manhã do que estar aqui dentro. É o que eu disse na assembléia hoje. Não sei se todo mundo me ouviu bem, porque a minha voz está como duas folhas de lixa grossa raspando uma na outra.

É importante que vocês entendam bem uma coisa. O governo está apostando no esvaziamento da greve, está apostando nisso. Ele acha que terça-feira a gente não agüenta mais e volta a trabalhar. Prestem atenção numa coisa. Talvez eles me prendam. Prestem atenção! Ninguém fala nada. Talvez eles me prendam como prenderam o Olívio Dutra no Rio Grande do Sul. E vocês sabem que se eu estiver preso e tiver notícia que a greve acabou porque eu estava preso, eu vou ficar puto da vida com vocês. Agora, se eu estiver preso e ficar sabendo que vocês estão em greve, podem me segurar dez anos lá dentro. O que é importante e que vai satisfazer a gente é saber que os de São Bernardo do Campo e Diadema só voltaram a trabalhar quando a classe empresarial se ajoelhou seus pés. Tem muitos companheiros, tem muitos deputados aqui dentro. Tem muita gente amiga da gente que está aqui para dar proteção pra mim e pra diretoria do sindicato. O que eu queria agora era fazer um pedido pra vocês, dar um aviso importante. O sindicato tem 178 funcionários. Eu não sei qual vai ser a atitude dos funcionários do sindicato porque, como presidente do sindicato, eu não posso orientar os funcionários pra fazer isso ou pra fazer aquilo. Eu acho que é uma decisão deles, como fazer greve foi uma decisão nossa. Cada companheiro tem que ter um funcionário como amigo. Cada companheiro tem que saber que cada funcionário do sindicato que está aqui dentro é um amigo, e, enquanto eles estiverem aqui dentro, vocês podem ter a certeza de serem bem informados, podem ter a certeza de que trarão vocês com o máximo de respeito e o máximo de dignidade. Pode ter a certeza de que esses funcionários que o sindicato confia, como confia em cada em cada um de vocês.

Dito isso, eu queria, antes de dar a palavra pro Djalma, relembrar o esquema que esta montando e que vocês já sabem. Se eles interditarem o campo no sábado, a gente vai pro Paço Municipal; se eles interditarem o Paço Municipal, a gente vai pras igrejas, pras matrizes de cada cidade e de cada bairro. Cada membro da comissão, enquanto estiver solto – Deus queira que estejam sempre soltos – vai falar com vocês. Um dia se acontecer de não poderem falar dentro de uma orientação dos trabalhadores e não da orientação do próprio do deputado ou do padre. Se vocês tiverem de fazer assembléias nas igrejas, se vocês tiverem assembléias em cada igreja de seu bairro, cada padre terá um comunicado único. Em todas as igrejas terá um comunicado único pra vocês saberem o que cada companheiro está ouvindo em outra igreja. Um companheiro que estiver numa igreja do bairro Assunção, em São Bernardo, estará recebendo a mesma mensagem que um companheiro que estiver no bairro Assunção, em Santo André. A ordem é a seguinte: só voltar ao trabalho com vitória nunca com derrota.

Amanhã vai sair o jornal, vocês estão lembrados daquele jornal que sustentou a gente o ano passado, o ABCD jornal? Estão lembrados de que quando estiveram no sindicato, a gente distribuiu trezentos mil ABCD? Então, o ABCD, Já está pronto e, amanhã, nas igrejas, nos bares, já estará sendo distribuído ABCD jornal, que passa a ser, enquanto não sair a próxima Tribuna Metalúrgica, o jornalzinho com as palavras de ordem do sindicato, da diretoria do sindicato, do comando de greve e da comissão de salário. Amanhã já sai esse jornal.

O que vocês têm de saber e fazer o que o companheiro falou: fazer a operação graxa. Amanhã de manhã é pra isso. É importante que depois das palavras do Djalma, cada um de nós reflita.

Eu não sei se vocês perceberam, nos dias que vocês estavam aí e eu estava reunido com a diretoria do sindicato, que eu dizia pra diretoria: olha seu bando de filhos da puta, nós temos que sair aí pra esse corredor com os dentes abertos, arreganhados, porque nós temos que mostrar otimismo pros trabalhadores. Então, eu acho que cada um de nós tem que sair daqui, hoje, com um sorriso, um sorriso que será muito maior ainda no dia em que a gente voltar a trabalhar com o aumento no bolso e com o respeito dos trabalhadores.

E nada, nada de trabalhador ficar aí acabrunhado, com carinha fechada porque há intervenção no sindicato. Nós temos de ir pra rua mostrar otimismo. Eles podem cassar 20, mas nós somos 142 000, e eles jamais vão conseguir cassar 140 000. Então, eu peço pra vocês o seguinte: eu não quero ninguém de carinha amarrada, eu quero todo mundo sorrindo, assim como aquele companheiro. Todo mundo sorrindo, porque isso que está acontecendo hoje é uma das passagens da nossa luta, e se a gente tem que mostrar aí pra televisão, pra fotografia, que nós estamos rindo porque isso que aconteceu não vai acabar com a nossa luta.

ANEXO B: Discurso de Lula proferido na Convenção Nacional do PT em 24 de junho de 2005

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou durante convenção do PT em Brasília, sábado, 24 de junho de 2005, sua candidatura à reeleição. Seu vice na chapa é novamente José Alencar (PRB).

‘’Companheiras e companheiros,

Vocês sabem, muito bem, quanto custou a cada um de nós chegar até aqui. Quanta batalha foi preciso vencer, quanto preconceito foi preciso remover, quanta armadilha foi preciso desmontar.

Vocês sabem como foi difícil realizar aquele sonho que parecia impossível: o sonho coletivo de ter um trabalhador na Presidência do Brasil.

Juntos, conseguimos mostrar que este sonho não apenas era possível, como era justo e necessário. Juntos, mostramos ao mundo que um trabalhador tem condições de dirigir com competência um país da importância do Brasil. Que pode fazer isso governando para todos e sem trair os interesses da população mais pobre.

Hoje eu estou aqui para dizer a vocês que aceitei, mais uma vez, o chamamento. O chamamento que vem de vocês, mas que vem, também, do fundo do meu coração.

O chamamento para continuar a luta de construção de um Brasil mais justo e independente, onde cada brasileiro possa fazer três refeições todos os dias; possa ter emprego, educação e saúde; possa viver em um país cada vez mais moderno e humano; e possa, acima de tudo, ter esperança de um futuro cada vez melhor.

Hoje estou aqui para dizer a vocês que decidi submeter meu nome e meu governo, humildemente, ao julgamento dos meus irmãos brasileiros.

Hoje eu estou aqui para anunciar que sou, mais uma vez, candidato à Presidência da República.

E mais uma vez e acompanha, nesta jornada, o meu querido companheiro José Alencar.

Companheiros e companheiras,

Sou outra vez candidato não por ambição, mas porque o projeto de mudança do Brasil tem que continuar. Volto a ser candidato porque o Brasil, hoje, está melhor do que o Brasil que encontrei três anos e meio atrás, mas pode – e precisa – melhorar muito mais.

Volto a ser candidato porque os pobres estão menos pobres e poderão continuar melhorando devida, caso sejam mantidos – e aprofundados – os programas sociais que implantamos.

Volto a ser candidato porque conseguimos recuperar uma economia que encontramos profundamente fragilizada. Porque provamos que é possível garantir, ao mesmo tempo, estabilidade, crescimento e distribuição de renda. Porque provamos que é possível ter crescimento econômico com geração de empregos e inclusão social. E porque queremos provar que é possível ampliar estas conquistas ainda mais.

Volto a ser candidato porque demos às classes mais pobres um alto índice de crescimento de renda e de poder de consumo. E porque tenho a certeza de que podemos continuar reduzindo a desigualdade social que ainda é grande no nosso país.

Volto a ser candidato porque melhoramos a educação, e vamos melhorá-la mais ainda, oferecendo ensino de qualidade em todos os níveis e fazendo com que a universidade seja cada vez mais acessível para os mais pobres.

Volto a ser candidato, porque abrimos as portas do Brasil para o século 21, lançando projetos que farão o nosso país dar o grande salto nas áreas de energia, infra-estrutura e pesquisa cientifica. E esses projetos precisam ter continuidade e apoio nos próximos anos.

Volto a ser candidato porque o Brasil é hoje uma nação mais respeitada internacionalmente e, se mantiver o rumo certo, poderá ampliar cada vez mais o seu papel no mundo.

Volto a ser candidato porque me sinto ainda mais maduro e preparado, pois aprendi bastante nos últimos anos, muitas vezes com sofrimento e injustiças.

Volto a ser candidato para ampliar o que está dando certo, corrigir o que houve de errado e fazer muita coisa que ainda não pôde ser feita.

Volto a ser candidato porque amo o Brasil, amo meu povo e não tenho ódio no peito. Porque tenho feito e continuarei a fazer um governo capaz de unir os brasileiros.

Companheiras e companheiros,

Meu mandato só acaba em 31 de dezembro. Mas se acabasse hoje, eu poderia dizer: não fizemos tudo que queríamos, porém fizemos muito mais do que certa gente imaginava.

Tenho certeza de que só frustrei profundamente dois tipos de pessoas: aquelas que pensavam que meu governo seria um caos – e torciam para isso – e aquelas que com paixão e ingenuidade, imaginavam que eu poderia resolver todos os problemas do Brasil em apenas quatro anos.

O que conseguimos?

Além de ter tirado o país da beira do abismo, recolocamos o Brasil nos trilhos, iniciando um ciclo duradouro de desenvolvimento sustentado.

No início do governo, eu disse a vocês que iria primeiro fazer o necessário; depois o possível; para enfrentar, mais tarde, o impossível.

Por causa das dificuldades agudas que enfrentamos, tivemos, às vezes, de fazer tudo isso simultaneamente. Algumas vezes erramos e sofremos derrotas. Mas, graças a Deus, o saldo tem sido muito positivo. É este saldo favorece a todos os brasileiros, sem distinção.

E qual é a base deste projeto que teremos implantado, nos últimos três anos e meio?

É a integração do social e do econômico, buscando que o social seja o eixo do progresso social.

Nosso objetivo nunca foi alcançar apenas o superável na economia, mas, sim, uma meta mais difícil: o superável social. A economia é transitória, muda com as circunstâncias. As conquistas sociais são definitivas.

Superável social, para mim, é a oferta justa, a todos os brasileiros, de bens e serviços de qualidade. E de meios para que todos possam crescer e progredir.

Para que desapareça da nossa paisagem o triste desenho da fome, da miséria, do desemprego, do analfabetismo, da má assistência à saúde e da falta de segurança.

Da cabeça erguida, posso olhar para vocês e dizer que obtivemos muitos avanços nesta luta, e como me sinto em condições de fazer muito mais, quero continuar à frente do governo de todos os brasileiros.

Eu me sentiria frustrado se, nesta altura do meu governo, só pudesse mostrar bens indicadores macroeconômicos, sem que eles se refletissem na melhoria da vida do cidadão comum.

Graças a Deus, o Brasil está conseguindo fazer da política econômica e da política social duas faces de uma mesma moeda. Por isso nossos indicadores sociais e os números da nossa economia são os melhores dos últimos dez anos.

Companheiros e companheiras.

Hoje, as vozes do atraso estão de volta. E como não têm uma boa obra no passado e nem propostas para o futuro, fazem da agressão e da calúnia as suas principais armas.

Pensão que o povo esqueceu o que eles fizeram com o nosso país. Pensam que o povo esqueceu o tamanho do buraco que eles cavaram, e que só não engoliu o Brasil porque o Brasil era muito maior do que o abismo que eles construíram.

nos lares, nas praças, nas fábricas e nos campos, o povo está dizendo que não os quer de volta. Mas eles nunca escutaram a voz do povo, e, obviamente, não vão querer escutá-la agora.

Porém, por mais que nos provoquem, não usaremos os mesmos métodos, pois temos armas limpas e poderosas. Uma delas é a comparação do que eles fizeram em oito anos de governo com o que nós estamos em apenas três anos e meio.

Todos se lembram do final do governo deles, quando a economia encolhida, o emprego diminuía e a pobreza aumentava. Era o tempo da instabilidade e da vulnerabilidade econômica. Era a época da insensibilidade social e do sucateamento da infra-estrutura. Era o tempo dos grandes apagões. Era o final da sanha privatista que dilapidou o patrimônio público. Era a época da desesperança e da baixa estima.

Começamos a trabalhar sem tréguas. Não nos queixamos da realidade, nem nos deixamos paralisar pela herança recebida. Iniciamos o processo de mudança e de reconstrução do Brasil que continua ainda hoje.

O caos que anunciaram que seria meu governo não aconteceu. Cumprimos contratos, negociamos com altivez nossas pendências, zeramos nossos débitos com o FMI e voltamos a crescer com justiça social.

Os números e os fatos demonstram que seguimos o caminho certo. Vamos começar comparando alguns números da economia.

Quando assumimos o governo, o país estava à beira da falência, com uma divida externo de 210,7 bilhões de dólares e um risco Brasil de quase 2000 pontos.

Em três anos e meio, zeramos nossa divida com o FMI, diminuímos a dívida restante para 161 bilhões de dólares e derrubamos o risco Brasil para os patamares mais baixos desde que é medido. Hoje ele está em 260 pontos.

Enquanto, com eles, a relação da dívida externa líquida com o PIB aumentou de 17,4% para 35,9%; conosco ela diminuiu de 35,9% para apenas 9,4%.

Na época deles, nossas reservas internacionais diminuíram de 37,9 bilhões de dólares para 16,3 bilhões. A economia ficou bastante vulnerável, o que era uma ameaça à nossa soberania.

No tempo deles, o saldado comercial acumulado sofreu um déficit de 8,6 bilhões de dólares. No nosso, tivemos um superávit de 118,7 bilhões de dólares e nossas exportações cresceram 106%. Um índice de crescimento muito acima da média mundial.

Eles prometem, agora, baixar os juros da noite para o dia. Mas no governo deles, a taxa selic chegou a alcançar um pico de 85% ao ano.

Não estou satisfeito com a taxa de juros praticada no país. Mas já conseguimos baixá-la para 15,25% e criamos condições macroeconômicas para que ela continue diminuindo de forma equilibrada e consciente.

Eles prometem agora reduzir os impostos. Mas nos oito anos deles, foi grande o aumento da carga tributária. Nosso aumento de arrecadação, ao contrário, se deu fundamentalmente pelo crescimento da economia e a melhoria da máquina arrecadadora. Além do mais, desoneramos produtos de consumo popular e setores produtivos estratégicos.

Tudo isso, somado, significa uma economia sólida, capaz de garantir o crescimento de forma sustentada e com força para resistir aos solavancos externos.

Acabou-se o tempo em que um leve resfriado nos mercados globalizados significava uma grave pneumonia no Brasil.

Porém, mais importante que os indicadores macroeconômicos são os benefícios concretos na vida das pessoas.

Melhoria de vida se mede, principalmente, pela capacidade de consumo da população pobre, não pelo consumo sofisticado dos mais ricos. E hoje o brasileiro, em especial o brasileiro pobre e de classe média, tem melhor capacidade de consumo.

Hoje muitos brasileiros pobres estão comendo melhor, porque ganham mais e têm alimento mais barato; podem construir ou reformar sua casa, porque baixamos os impostos e o preço do material de construção diminuiu; podem comprar sua geladeira, seu fogão e sua televisão, porque a renda melhorou e o crédito está mais acessível.

Hoje vivemos uma feliz combinação de inflação baixa, melhor poder aquisitivo das classes mais pobres e melhor acesso ao crédito.

Nos nossos três anos e meio de governo, o salário mínimo teve o maior aumento dos últimos dos 12 anos. Como a inflação é baixa, a oferta de compra do salário mínimo aumentou fortemente em relação à cesta básica.

Ao mesmo tempo, praticamos uma verdadeira revolução no crédito, abrindo suas portas para amplos setores da população que nunca tiveram acesso a ele.

Ou seja, melhorou o Brasil e a vida dos brasileiros também melhorou.

Companheiras e companheiros.

Sei que muito ainda precisa ser feito para diminuir a pobreza e a desigualdade social. Mas estamos no caminho certo. E aqui me permitam fazer uma nova comparação com o passado recente.

O valor do índice Gini, que mede a desigualdade social, foi o menor dos últimos 29 anos, Repito: o menor dos últimos 29 anos.

Conforme a Pnad, entre 2003 e 2004, a miséria teve uma redução de 8 % e 3 milhões e 200 mil pessoas saíram da linha de pobreza.

É como se um país inteiro de miseráveis tivesse levantado a cabeça e saído a caminhar em busca de um destino melhor.

Isso só ocorre porque temos, hoje, no Brasil, alguns dos maiores e mais eficientes programas em busca de um destino melhor.

Isso só ocorre porque temos, hoje, no Brasil, alguns dos maiores e mais eficientes programas de transferência de renda do mundo.

Eles formam uma grande rede de promoção e proteção social cuja cabeça é o Fome Zero; e o principal braço, o Bolsa Família.

O fome Zero é, na verdade, um guarda-chuva de cidadania que integra ações de acontecer de combate à fome, transferência de renda, acesso a alimentos mais baratos a fortalecimento da agricultura familiar.

O bolsa família é o programa de mais visibilidade do Fome Zero. Porém, a sociedade ainda não conhece todas as suas facetas.

Além da ajuda financeira a 11 milhões de famílias, o Bolsa Família está hoje integrado, entre outros programas, com o Brasil alfabetizado; com o Pronaf em ações na área da agricultura familiar; com o Peti, que é o programa de erradicação do trabalho infantil, e com o Sentinela, que combate a exploração sexual da criança e do adolescente.

Não estamos dando esmola. Estamos transferindo renda, garantindo o direito à alimentação e ampliando a cidadania.

Hoje, nossos programas de transferência de renda beneficiam a população de todos os estados brasileiros. Eles melhoram a vida dos mais pobres e, ao mesmo tempo, ativam a economia de milhares de municípios, gerando renda e emprego para toda a comunidade.

Nos nossos três anos e meio de governo, transferimos para as famílias carentes um volume de recursos 36% maior, em proporção ao PIB, que nos oito anos do governo deles.

Por minha história pessoal e minha formação política sou homem que defendo a cultura do trabalho. E sei que somente com emprego e educação uma pessoa pode, definitivamente, melhorar devida.

É por isso que o eixo do nosso governo une o econômico, o social e o desenvolvimento tecnológico. Programas de transferência de renda convivem com políticas públicas de desenvolvimento e emprego. Equilíbrio macroeconômico é pano de fundo para o avanço social. Políticas de longo prazo interagem com ações emergências no cotidiano. E o apoio a grandes indústrias e ao grande setor de serviços ocorre junto com um vigoroso suporte ao pequeno e médio empreendedor.

Como exemplo do apoio ao pequeno empreendedor, quero citar o grande avanço que conseguimos na agricultura familiar.

O crédito triplicou: enquanto no último ano de governo eles investiram 2,4 bilhões de reais no Pronaf, nós investimos 7,5 bilhões na safra 2005-2006.

Demos um salto, além disso, na implantação da reforma agrária, aumentando os assentamentos o crédito e a assistência técnica. Já assentamos 260 mil novas famílias e aumentamos o orçamento do setor em 255%.

Eu quero encerrar este capítulo, comparando os resultados na área mais delicada e de mais forte demanda no mundo, que é a área do emprego.

Nos oito de governo deles, a taxa de desemprego aberto aumentou 41%. Nos nossos três anos e meio, a taxa de desemprego aberto diminuiu 13,7%.

E o mais importante; enquanto eles criaram, em média, 8,3 mil empregos por mês, nós estamos criando uma média de 102 mil empregos mensais.

Por isso, já criamos mais de quatro milhões de empregos com carteira assinada, um montante superior ao que eles criaram nos seus oito longos anos de inércia.

Se somarmos as vagas abertas no mercado informacional e no setor público, o número de empregos criados por nós é de 5 milhões e 600 mil.

Para não cansá-los com outros números, resumo o restante numa frase: fizemos em 42 meses mais que eles em 8 anos. Porém, mesmo que tivéssemos feito o dobro, ainda seria pouco, frente a imensa dívida social deixava por séculos de descaso com os mais pobres deste país.

Companheiros e companheiras,

Permitam-me, agora, conversar um pouco com meus convidados especiais. Com estes amigos que são a cara deste Brasil belo e sofrido. Deste Brasil que é a razão da minha existência e ao qual jurei dedicar a minha vida.

Meu caro Arnaldo Pereira: melhor do que ninguém, eu posso medir a sua alegria e de sua família quando o programa luz para todos levou energia elétrica para a propriedade de vocês, lá no Vale do Ribeira, em São Paulo.

Em boa parte da minha infância, Arnaldo, eu não tive luz em casa. Era difícil para minha mãe cozinhar e costurar com a luz de candeeiro.

É por isso que uma das minhas maiores alegrias como presidente é já ter levado energia elétrica para 3 milhões e 300 mil de pessoas, nos pontos mais remotos do país. E quero ir além: quero ser o presidente que vai apagar a última lamparina da casa mais humilde do Brasil.

Sabe por que Arnaldo? Entre outras coisas, para poder ouvir histórias como a de uma companheira nossa, lá do sertão do Ceará, que nos primeiros dias em que a energia chegou à sua casa, ficou acendendo a luz do quarto a noite inteira. O marido perguntou por que ela estava fazendo aquilo. E ela respondeu: ‘’É porque eu nunca tinha visto a cara do meu filho dormindo de noite’’.

São emoções como esta, Arnaldo, que fazem valer a pena ser presidente. Eles amenizam algumas injustiças que a gente sofre e nos mostram o tamanho do equivoco daqueles que acham que os programas que favorecem os mais humildes, como o luz para todos, são investimentos desnecessários e mal feitos.

A mesma coisa, dona Maria, eles dizem do Bolsa Família, que beneficia a senhora e toda a sua família, aqui em formosa. Eles são incapazes de ver a importância que tem este programa para as 11 milhões de famílias que hoje são beneficiadas por ele.

Vejo ali a Priscila de Jesus, do Rio de Janeiro, que está podendo cursar a universidade porque conseguiu uma das 203 mil bolsas do Prouni.

Saiba Priscila, que o Prouni é apenas um aspecto da grande transformação que estamos fazendo na educação.

Além do aumento de verbas que fizemos nos primeiros anos de governo, enviamos ao Congresso – em junho de 2005 e espero que seja votado logo – um projeto de lei criando o Fundeb, em fundo que, nos próximos três anos, vai aumentar em dez vezes o investimento federal nos setores mais carentes do ensino.

Estamos criando as bases para investir em todos os níveis de ensino, Priscila, porque sabemos que os pobres, os trabalhadores e a classe média, merecem ter uma universidade moderna e uma pós-graduação de excelência.

Já criamos quatro universidades federais, transformamos seis faculdades em universidades e levamos 42 extensões universitárias para o interior do país.

E estamos fazendo uma reparação histórica: a garantia de vagas, nas universidades públicas e no Prouni, para afros descentes, além da concessão de bolsas universitárias para índios.

Além disso, temos vários outros programas na área da educação e da formação profissional, como o PROJOVEM, que assegura a conclusão do curso fundamental e o aprendizado de uma profissão. Ele já beneficiou 95 mil jovens, como você, Priscila, em todo o Brasil. E mais 112 mil acabaram de se inscrever para a nova etapa.

Este esforço na educação tem que continuar Priscila. Pois educação não é apenas instrumento de promoção social e economia, mas, também, de cidadania. E somente através do conhecimento poderes fazer a verdadeira revolução que o Brasil precisa.

Quero também saudar Antonio Klein, este gaúcho de fibra, batalhador do nosso campo. Em sua pessoa, quero homenagear todos heróis anônimos que colocam comida barata na mesa do brasileiro e ajudam a melhor a vida dos seus compatriotas.

Sei da importância do trabalho de vocês, Antônio. Foi isso que quase triplicamos o volume de recursos do Pronaf. Foi por isso criamos o seguro agrícola para a agricultura familiar, e que fizemos a repactuação e o alongamento de dívidas do crédito rural, tirando mais de 500 mil produtores rurais da inadimplência.

Mas eu quero comentar com meu amigo. Enfoque Lopes, as profundas mudanças que estamos fazendo no crédito popular no Brasil.

Já concretizamos mais de 17 milhões de operações de microcrédito, com taxa de juros máxima de 2%, num total de R$ 3 bilhões emprestados.

Ampliamos, também, o crédito direto ao consumidor, criando formas de crédito direto ao consumidor, criando formas de crédito consignado para trabalhadores da ativa e aposentados.

Para facilitar a vida das pessoas com baixos recursos, autorizamos, ainda, a abertura de 6 milhões de contas bancárias simplificadas, isentas de tarifas.

E você, Ana Cristina Rodrigues,que está concretizando seu sonho da casa própria, saiba que duplicamos os recursos federais para a habitação e aumentamos, para 397 mil, a média anual de unidades financiadas pelo governo federal. Tudo isso para que pessoas pobres,e da classe média, possam ter seu próprio teto.

E deixei você por último, Alex Oliveira, porque sua história é singela e comovente. Sua vida foi salva por causa do atendimento rápido e eficiente do Samu, aqui em Brasília. Saiba que o Samu está implantado, hoje, em 647 municípios brasileiros, beneficiando, diariamente,milhares de pessoas.

Sei que a saúde pública precisa ainda melhorar muito. Sei que muitas pessoas ainda morreram sem atendimento no nosso país. Mas temos trabalhado muito para melhorar isso.

Entre 2003 e 2005, o repasse do SUS para Estados e municípios cresceu 35%. O programa agente comunitário de saúde foi reforçado com mais de 38 mil agentes; o programa Saúde da Família aumentou o número de equipes, de municípios beneficiados e de beneficiários.

E o programa Brasil Sorridente, pelo qual tenho uma simpatia toda especial, já possuí 13.408 equipes e 383 centros de especialidades odontológicas em operação, minorando o sofrimento e aumentando a auto-estima de milhões de brasileiros que agora podem sorrir melhor.

Sem falar do programa Farmácia Popular do Brasil, que já tem 149 unidades em 117 municípios, e 1719 pontos de vendas em farmácias privativas, comercializando medicamentos por preço até 90% inferior ao de mercado.

Uma oferta, meu caro Alex, que melhorar ainda mais agora, com o estímulo que temos dados à venda de medicamentos fracionados, o que vai baixar o custo do remédio e evitar desperdício.

Companheiras e companheiros,

Se reeleito presidente do Brasil, pretendo modificar por completo o que não funcionou. E, com muita ênfase, manter e ampliar o que deu certo.

Para nossa felicidade, os principais caminhos de um futuro governo já estão abertos, em especial na área do desenvolvimento.

Nosso governo não mudou apenas a cara da política social a da política econômica. Mudou, especialmente, o modelo de desenvolvimento do país.

A linha mestra do nosso modelo de desenvolvimento é a do crescimento sustentável, com distribuição de renda, geração de emprego e redução das desigualdades.

Este novo modelo está nos abrindo novas vertes estratégicas, como a da nova matriz energética; e implantando vetores de futuro como TV digital, e as indústrias de semicondutores, software, fármacos, biotecnologia e nanotecnologia.

Meu possível futuro governo conciliará, de forma contundente e irreversível. Uma eficiente ação social com uma política de alto desenvolvimento tecnológico. Vai conjugar, ainda mais fortemente, uma política de redução das desigualdades sociais com uma política de redução das desigualdades regionais.

Hoje, através de medidas vigorosas, estamos queimando etapas para transformar o Brasil na maior potência energética mundial.

Nenhum país no mundo tem condições de produzir, em quantidade e qualidade, combustível alternativos como o Brasil. E isto não é mais um sonho distante, e sim uma realidade.

Depois da experiência pioneira, nas décadas passada, com o etanol chegamos agora a era revolucionária do biodisel e do Hbio, este último uma maravilhosa invenção brasileira, fruto da competência técnica da Petrobras.

Parte disso só foi possível porque nos últimos três anos e meio, a Petrobras deu um salto sem precedentes. Alcançou nossa auto-suficiência em petróleo, aumentou sua presença no exterior e seu valor de mercado saltou de R$ 60 bilhões em 2002 para R$ 204 bilhões no início de 2006.

Nosso modelo de desenvolvimento também incorpora, em todas suas ações, a defesa do meio-ambiente. Não foi por acaso que conseguimos reduzir, em 2005, 31% do índice de desmatamento na Amazônia, a maior marca dos últimos nove anos.

Não foi por acaso que criamos 19,6 milhões de hectares de áreas protegidas, quase metade de tudo que tinha sido feito, nesta área, em toda nossa história. E não foi por acaso que nos transformamos no primeiro país da América Latina a adotar um plano nacional de recursos hídricos.

Nosso modelo de desenvolvimento tem também por base uma forte política de diminuição das desigualdades regionais. E ela se traduz em projetos estruturantes como a refinaria de Pernambuco, a ferrovia Transnordestina, o pólo siderúrgico do Ceará, a BR-101 do Nordeste, a BR-163 e o pólo petroquímico do Rio de Janeiro.

É para garantir a continuidade e ampliação destes e de muitos outros projetos que queremos continuar á frente do governo.

Mas se tivesse que destacar uma só área de prioridade máxima, para um próximo governo, eu citaria a educação. Se reeleito, pretendo intensificar ainda mais o esforço que estamos fazendo para revolucionar a qualidade da educação no Brasil.

O Brasil só poderá ocupar seu verdadeiro papel no mundo se formar melhor a sua juventude, se aperfeiçoar seus quadros técnicos, se criar novas gerações pensantes.

Para isso não basta que nosso jovem tenha o direito de entrar na escola, mas que tenha a felicidade de sair dela bem formado, preparado para sua vida e em condições de competir no mercado de trabalho.

Prioridade na educação significa, também, cultura. Cultura erudita e popular. Apoio e incentivo às artes, à música, ao teatro, ao cinema, à dança, ao livro e a todas as manifestações culturais do nosso povo.

Já disse que estudei menos do que gostaria. Exatamente por isso, quero ser o presidente que mais fez pela educação no Brasil. Ele terá prioridade absoluta.

Companheiras e companheiros,

A síntese de nosso possível futuro governo será a distribuição de renda para que haja crescimento; o crescimento acelerado com estabilidade; e responsabilidade fiscal para manter a estabilidade.

Conseguiremos isso porque vamos ampliar, ainda mais, a sólida parceria que firmamos com amplos setores da população. Nos últimos três anos e meio, mudamos a relação do Estado com a sociedade, fazendo o governo de maior participação popular da história e de mais respeito aos movimentos sociais.

Se reeleitos, continuaremos fazendo um governo0 de seriedade, responsabilidade e equilíbrio. Continuaremos fazendo um governo de seriedade, responsabilidade e equilíbrio. Continuaremos honrando nossos acordos e cumprindo, de forma sagrada, nossos compromissos nacionais e internacionais. Mas nosso compromisso mais especial continuará sendo com o povo brasileiro.

Dedicarei meu segundo governo, também, para resolver uma questão difícil e delicada: a qualidade do gasto público. Se não fizemos assim, a carga tributária inevitavelmente aumentará. Isso ninguém quer e não é bom para a economia.

Por isso, vamos investir mais nas reformas e enfrentar o problema do desperdício e das falhas de controle, em especial na Previdência Social.

Uma das características que pretendo manter num segundo governo é a de continuar lutando por mudanças que melhorem a vida da nação.

A reforma política, por exemplo, não poderá mais ser adiada. Ela é fundamental para aperfeiçoarmos nossa vida institucional e corrigir graves defeitos que ainda persistem.

Esta reforma, que deve ser a nossa prioridade institucional imediata, e terá por base a fidelidade partidária, fundamental para dar suporte as demais reformas que deveremos implantar.

Muitas das crises no Brasil tem enfrentado, ao longo deste ano, não teriam ocorrido se já houvéssemos modernizado nosso sistema eleitoral, nosso sistema partidário e algumas particularidades do nosso sistema representativo. Isso terá que ser feito, nos próximos quatro anos, sob pena de comprometermos seriamente a nossa evolução política.

A reforma agrária precisa ter continuidade, com a implantação de novos assentamentos e a garantia de infra-estrutura. Tudo feito com respeito às normas e às leis.

A reforma urbana precisa se tornar uma realidade, com ênfase na regularização fundiária e na infra-estrutura das áreas mais pobres, em especial das regiões metropolitanas. Neste processo será também fundamental rediscutir a problemática da segurança. A constituição federal estabelece que a segurança pública á de responsabilidade dos Estados. Não quero criar um álibi legal para afastar-me do dever de considerar este um dos mais sérios problemas do Brasil.

Quero estabelecer mecanismos solidários e de cooperação com todas as unidades federativas, para dar segurança à sociedade, que não pode ser acuada pelo medo e pelo crime organizado, com centrais de comando nas penitenciárias.

A luta contra o crime só pode ser vencida com o trabalho persistente de toda a sociedade, ela envolve tanto uma ação de vigilância e repressão, como, em especial, uma luta contra a pobreza e as desigualdades.

Nos últimos três anos e meio, tomamos muitas medidas para melhorar a segurança pública. Ampliamos e modernizamos a Polícia Federal, com um aumento de 74% no seu orçamento e um crescimento de 33,7% no seu efetivo.

Criamos a força nacional de segurança, que tem atuado com eficiência em graves casos de perturbação da ordem pública.

Implantamos o sistema único de segurança pública e consolidamos o banco de dados digital de informações criminais, numa parceria da polícia federal e com as polícias estaduais.

Estamos concluindo duas penitenciárias federais e outras três ficam prontas no próximo ano, obras, aliás, que estavam previstas desde 1984 e nunca tinham saído do papel.

Promovemos a campanha do desarmamento, principal responsável pela primeira queda na taxa de homicídios desde 1992.

Estas medidas trouxeram bons resultados. Mais elas precisam ser ampliadas. Isso é também uma tarefa fundamental para um segundo mandato.

Queridas companheiras e companheiros,

Ao longo de sua história, ao PT tem enfrentado muitas lutas e muitas dificuldades. Mas, sem dúvida, nunca enfrentaremos uma crise como a que se abateu sobre nós no ano passado.

O importante é que não perdemos o rumo nem esquecemos nossos ideais, e o partido iniciou um processo de autocrítica que deve continuar.

A oposição aproveitou-se de algumas condutas equivocadas para generalizar culpas e tentar destruir o partido mais autenticamente popular do Brasil; o único construído, de baixo para cima, com os sonhos e a dor de milhões de brasileiros.

Nossos adversários tentaram se aproveitar de algumas situações, para passar a falsa idéia de que nosso governo compactuava com atos ilícitos.

Mais a sociedade entendeu o que se passou e sabe que se determinados fatos afloram é porque este foi o governo que mais apurou-e puniu-a corrupção em toda a história.

Respeitamos a independência do ministério publico, e reforçamos a controladoria geral da união e imprimimos uma nova dinâmica à polícia federal. O resultado é que nunca se apurou tanto e com tanta liberdade.

Repito aqui o que já disse antes: depois de apurar todas as responsabilidades, a justiça deve punir quem tiver culpa comprovada. Eu serei o primeiro a apoiar e aplaudir.

Os que me atacarem injustamente, e tentaram me destruir, se esqueceram que em toda minha a história eu convivi, da forma mais democrática possível, com a divergência e a diversidade. Dentro do sindicato, eu tinha oposição das mais diversas facções e isso continuou na vida política.

Lembro de quantas divergências e disputas internas enfrentamos na campanha pela redemocratização do país. Mais havia uma grande diferença de qualidade. Ali eu tinha embates francos, e limpos, com homens como João Amazonas, Leonel Brizola, Miguel Arraes e Ulysses Guimarães.

Que falta, companheiros , homens com estes fazem ao Brasil!!

Pessoas com as quais podíamos divergir, mas que sabíamos que combatiam o bom combate. Defendiam os verdadeiros interesses nacionais.

Pessoas que não queriam destruir ninguém, mais fazer prevalecer o que julgavam melhor para o país.

Os tempos que vivemos hoje são muito diferentes e isto é muito triste.

Não quero pousar de vítima ou herói. Quero apenas poder cumprir com meu dever, honrar a confiança do povo e terminar meu governo em paz. E, se os brasileiros quiserem continuar aprofundando o trabalho de mudança do nosso querido Brasil.

Para continuar este trabalho, queridas companheiras e queridos companheiros, precisamos nos aperfeiçoar cada vez mais.

Precisamos continuar convivendo com a divergência e nos abrindo, sempre, para os setores que querem, de verdade, construir um Brasil moderno, independente e justo.

No campo partidário, mais que nunca nossas alianças têm que estar fundadas em princípios programáticos. Sempre buscamos isso, mais agora temos que buscar ainda mais.

O Brasil precisa do PT para seguir em frente e o meu governo precisa do PT para governar.

Mas o PT sabe, melhor do que ninguém, que precisamos fazer um segundo governo melhor do que o primeiro e buscar coalizões sólidas para dar sustentação sem indecisões, ao programa do governo.

Não tenho dúvida que temos todas as condições de fazer um governo ainda melhor.

Se com a inexperiência que tínhamos, e com a tormenta política que enfrentamos, conseguimos recuperar o Brasil, imaginem o que não poderemos fazer, num segundo governo, com mais experiência e com pleno conhecimento da máquina?

Imaginem o que não poderemos fazer depois de termos ampliada e renovada a confiança popular?

Se reeleito, quero fazer um governo que reúna o que tiver de melhor na sociedade brasileira para mudarmos, ainda mais, o Brasil.

Quero fazer um governo que amplie nossos compromissos com os mais pobres, pois o melhor caminho de servir melhor a todos é atender primeiro os que mais necessitam.

Muito obrigado e viva o Brasil!

1 Z. S. Harris, Discourse Analysis: A Sample Text, in: Language, vol. 28, n. 4, 1952.

2 Orlandi (1987) faz uma comparação entre as diferentes formas de a Sociolinguística, a teoria da enunciação e Análise do Discurso trabalharem com a exterioridade. Aponta que a Sociolinguística visa a relação entre o social e o linguístico; a teoria da enunciação trata da determinação entre o funcional (enunciação) e o formal (enunciado); a AD “procura estabelecer essa relação de forma mais imanente, considerando as condições de produção (exterioridade, processo histórico social) como constitutivas da linguagem” (Orlandi, E.P. Op. Cit., p.111).

3 Remetemo-nos também o leitor a Gerald (1993), que faz uma esclarecedora apresentação dos mecanismos de controle – internos, externos e dos sujeitos – de que fala M. Foucault e ao capítulo “Língua e ensino: políticas de fechamento”, que também aborda estes mecanismos.

4 Segundo Galvão (p. 36, 2007), em seu livro: Neoliberalismo e Reforma trabalhista: A definição de Althusser é bastante polêmica, tendo sido criticado inclusive por ex- colaboradores desse autor. Essas críticas, em linhas gerais, referem-se ao fato de que o filósofo francês estabelece uma oposição entre ciência e ideologia, e opera com diferentes registros, definindo uma teoria de ideologia em geral (da qual subtrai a luta de classes) e uma teoria de ideologias particulares (na qual introduz a luta de classe). Não nos aprofundaremos nessas controvérsias. O que nos interessa reter do trabalho do autor é o mecanismo de alusão/ilusão acima mencionado.

5 Ver Authier-Revuz (1982).

6 Maldidier (1990) chama nossa atenção o fato de que essa construção da Análise do Discurso foi “uma aventura a várias vozes”, já que Pêcheux trabalhava coletivamente. Assim, apesar de nos referirmos a Pêcheux, deve ser entendido que sua produção foi elaborada a partir de uma troca constante com o grupo que estava sempre em torno dele, composto por P. Henry, M. Plon, F. Gadet, C. Fuchs, J. Leon, A. Badiou, J. J. Courtine, C. Normand, D. Maldidier, J. Authier e etc.

7 “Michel Pêcheux não é nem o homem da tábula rasa, ‘o inventor’ de uma linguística materialista, nem o eclético, aquele que fez seu mel de todas as flores. É um filósofo que se tornou linguista, sem deixar de seu filósofo. Seu pensamento é sempre pensado a partir dos outros, com ou contra os outros. Ele não parou de ler ou de reler, não importa o quê. Ele ultrapassou a surdez de sua geração, abrindo a outros horizontes” (MALDIDIER, 1990)

8 Em entrevista a Rabinow e Dreyfus, em 1983, perguntado sobre o “projeto genealógico” que compõe a sua obra, Foucault afirma: “três domínios da genealogia são possíveis. Primeiro, uma ontologia histórica de nós mesmos em relação à verdade através da qual nos constituímos como sujeitos de saber; segundo, uma ontologia histórica de nos mesmos em relação a um campo de poder através do qual nos constituímos como sujeitos de ação sobre os outros; terceiro, uma ontologia histórica em relação à ética através da qual nos constituímos com agentes morais”. Trad. bras. Dreyfus e Rabinow (1995).

9 Tradução: “o que é justo, por exemplo, não se deixa apreender e definir independentemente da situação que exige um julgamento justo de minha parte” Gadamer, 1972, p. 300. 


Publicado por: DACILÉIA MARINHO RIBEIRO

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