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FAMÍLIA E ESCOLA: UMA RELAÇÃO PROMISSORA

Educação

História da família e da escola, problemas causados por uma má relação entre a família e a escola e as possíveis estratégias a serem tomadas, para que a relação entre família e escola seja promissora.

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1. RESUMO

O presente artigo pretende mostrar que a relação entre família e escola é um tema pertinente, e que deve estar sempre presente nas questões voltadas para a melhoria da educação. Através de pesquisa bibliográfica, este trabalho faz considerações sobre a família no decorrer dos tempos, aponta questões resultantes de uma má relação, e apresenta a possibilidade de se obter bons resultados através do envolvimento entre família e escola. O artigo também aborda a importância dos estudos na busca por estratégias bem elaboradas, que encurtem as relações entre família e escola, e que conheçam a diversidade cultural e as particularidades regionais que estão presentes na educação brasileira.

Palavras-chave: Família. Escola. Relação. Educação

2. INTRODUÇÃO

A escola é um espaço de aprendizado em que são produzidos os conhecimentos, tanto para cumprir as exigências que são julgadas necessárias para educação formal, quanto aqueles conhecimentos que serão usados durante toda a vida. Assim como os valores produzidos na escola são levados para casa, valores produzidos em casa serão levados para a escola. Em consequência disso, nota-se que a educação formal regida pelas políticas públicas educacionais, molda seus alunos para fins específicos de acordo com as necessidades da sociedade. Paulo Freire traduz bem esta ação, e a define como “Educação Bancária”: “Dai que a educação bancária, que a eles serve, jamais possa orientar-se no sentido da conscientização dos educandos.” (FREIRE, 1970, p.35). Diz ainda: “Saber que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção.” (FREIRE, 1996, p.21).

A escola que tem como referência os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), nem sempre consegue produzir os conhecimentos para o desenvolvimento pleno de um cidadão capaz de resolver seus desafios vindouros. Com o propósito de proteger e promover o bem estar do menor, o Estatuto da Criança e do Adolescente (Brasil, 1990), prioriza a responsabilidade dos pais pela educação das crianças, ao dispor em seu artigo 22 que aos pais incumbe o dever de sustento, guarda e educação dos filhos menores, cabendo-lhes ainda, no interesse destes, a obrigação de cumprir e fazer cumprir as determinações judiciais.

Para Polonia e Dessen, (2005, p.304) no que se diz respeito aos pais, a socialização da criança é um de seus principais papéis, é através do ensino da língua materna que seus filhos serão inclusos no mundo cultural; na convivência em grupo conhecendo símbolos e regras; e na educação geral com a participação da escola. Porém, ao passo que evolui, a sociedade transfere paulatinamente a responsabilidade de educar da família para o estado. A escola acaba tomando para si, mesmo que involuntariamente, a responsabilidade de educar de maneira totalitária seus alunos sem a participação da família. Para Bógus (2007, p.501), a mãe que por falta de renda, ou por trabalhar fora de casa, não tem disponibilidade de cuidar de seu filho, transfere os cuidados de saúde e educação para os profissionais da creche.

No interior de nossa própria cultura, sem sair de nossa própria cidade nem de nosso próprio bairro, um belo dia observamos nosso ambiente e nos damos conta de que tudo mudou tanto que mal somos capazes de saber como as coisas funcionam. Sentimo-nos, então, desorientados como se tivéssemos viajado para uma sociedade estranha e distante, mas sem esperança de voltar a recuperar aquele ambiente conhecido no qual sabíamos nos arranjar sem problemas. (ESTEVES, 2004, p. 24).

Este abismo formado entre a família e a escola, reflete no aluno a sensação de viver em dois mundos desconectados. O professor assume, mesmo que involuntariamente, o papel destinado aos pais. A falta de diálogo entre o professor e os pais, compromete o desenvolvimento do aluno, que se confunde nas referências de papéis, de acordo com Piaget:

Uma ligação estreita e continuada entre os professores e os pais leva, pois a muita coisa que a uma informação mútua: este intercâmbio acaba resultando em ajuda recíproca e, frequentemente, em aperfeiçoamento real dos métodos. Ao aproximar a escola da vida ou das preocupações profissionais dos pais, e ao proporcionar, reciprocamente, aos pais um interesse pelas coisas da escola chega-se até mesmo a uma divisão de responsabilidades [...] (PIAGET, 2007, p.50)

Há muita reclamação de professores que sempre lembram que nas reuniões marcadas com os pais, estes alegam a impossibilidade de estarem presentes. Segundo Silva “percebemos que em qualquer conversa informal com os professores, a família vem à baila geralmente como vilã pelas mazelas vividas no cotidiano escolar.”(SILVA, 2003, p.187). Desta forma, é necessário que fique bem definido qual é o papel da escola e da família na vida escolar dos alunos, é certo que ambas as instituições têm o papel de cuidar e educar, porém com diferentes funções específicas que tendem a se completar. Para Bhering e Nez (2002, p.64), existem diferenças entre as obrigações da escola e da família, bem como objetivos comuns, e responsabilidades que dizem respeito à socialização, e a educação dos alunos.

O presente trabalho aborda a importância de que relações bem construídas entre a família e a escola podem trazer resultados positivos não apenas na vida do aluno, mas de toda a comunidade. Uma proximidade bem sucedida permitirá que família e escola conheçam suas realidades e limitações e busquem soluções que beneficiarão o processo educativo dos alunos. Para Arroyo:

Os aprendizes se ajudam uns aos outros a aprender, trocando saberes, vivências, significados, culturas. Trocando questionamentos seus, de seu tempo cultural, trocando incertezas, perguntas, mais do que respostas, talvez, mas trocando questionamentos seus, de seu tempo cultural, trocando incertezas, perguntas, mais do que respostas, talvez, mas trocando. (ARROYO, 2000, p. 166).

A primeira parte do estudo abordará a história da família e da escola, bem como suas transformações decorrentes das mudanças provocadas pelas sociedades. A segunda parte tratará dos problemas causados por uma má relação entre a família e a escola. A terceira parte apontará para as possíveis estratégias a serem tomadas, para que a relação entre família e escola seja promissora.

3. Justificativa

Este trabalho tem como justificativa fornecer embasamento teórico para mostrar a importância do relacionamento entre a família e a escola. De acordo com Parolim (2007, p.14), a família está precisando da parceria da escola, sozinha não dará conta da educação e socialização dos filhos. Para Chalita (2001, p.120), a responsabilidade de educar, começa pela família com a participação da escola e de toda a sociedade, é da família a contribuição na formação do caráter e a perpetuação dos valores éticos e morais.

Na escola, o aluno constrói sua identidade, assim sendo, a família tem o direito de opinar na educação de seus filhos. Segundo Castro e Regattieri (2009, p.33), é de grande importância que a escola mantenha interação com a família de seus alunos, pois com a interação da família no ambiente escolar, os alunos se sentem mais seguros e participativos. Osório (1996, p.82) afirma que é comum dizer que a escola ensina e a família educa, desta forma é da família o papel de oferecer a pauta ética para a vida em sociedade, e a escola instruir para as exigências competitivas que virão na luta pela sobrevivência. A escola para ser bem sucedida, deve promover ações educativas com o objetivo de inserir as famílias em seu âmbito. Libaneo diz:

Não dizemos mais que a escola é a mola das transformações sociais. Não é sozinha. As tarefas de construção de uma democracia econômica e política pertencem a varias esferas de atuação da sociedade, e a escola é apenas uma delas. Mas a escola tem um papel insubstituível quando se trata de preparação das novas gerações para enfrentamento das exigências postas pela sociedade moderna ou pós-industrial, como dizem outros. Por sua vez, o fortalecimento das lutas sociais, a conquista da cidadania, depende de ampliar, cada vez mais, o numero de pessoas que possam participar das decisões primordiais que dizem respeito aos seus interesses. (LIBANEO, 2000, p. 9).

Escola e família são instituições distintas, porém com funções complementares no processo de ensino aprendizagem do aluno, uma funciona com o auxílio da outra. Segundo Lópes (2002, p.77), para ter o conhecimento do processo educativo dos filhos, os pais devem ter um constante contato com os professores, tal conhecimento tornará mais eficaz e adequado à atuação escolar, no que se pretende desenvolver como parte do projeto educacional da escola. Para Castro e Regattieri (2009, p.13), é impossível compreender o aluno, sem considerar o contexto familiar que o mesmo está inserido, de igual modo é impossível dizer quem é o aluno sem conhecer suas circunstâncias sociais. Em nossa sociedade, a educação das crianças e dos adolescentes fica a cargo da família e da escola, estas são vistas como instituições socializadoras.

Em consequência disso, a relação da escola com a família, deve ser um tema sempre presente nas articulações que buscam o sucesso na vida educacional do aluno. Polonia e Dessen, afirma que:

Conhecer os processos que permeiam os dois contextos e suas inter-relações possibilitaria uma visão mais dinâmica do processo educacional e, certamente, intervenções mais precisas e efetivas, e uma ampla discussão de modelos de articulação entre esses dois agentes educacionais, considerando as condições brasileiras. (POLONIA; DESSEN, 2005, p.310).

4. Considerações sobre família e escola

4.1 Considerações sobre a família no decorrer dos tempos

A família é a mais importante instituição e estrutura da sociedade, é um âmbito importante na preparação das futuras gerações nas relações sociais, é na família que as pessoas aprendem a ver o mundo com os olhos da verdade. A origem da palavra “família” deriva do latim “famulus”, cujo significado é escravo ou servo. Para Osório (1996, p.24), as origens da instituição família, remontam aos ancestrais da espécie humana e se confundem com a trajetória da evolução. A organização da família não é exclusividade da espécie humana, é encontrada em outras espécies animais tanto de vertebrados, como de invertebrados. Tanto na espécie humana, quanto entre os outros animais, existem formas distintas de organização familiar. Existem famílias nas quais após o acasalamento a prole é cuidada apenas por um genitor, normalmente pela fêmea, podendo também ficar aos cuidados do macho, como ocorre em algumas espécies de peixe.

Para Ariès (1978, p.225) ”A família transformou-se profundamente na medida em que modificou suas relações internas com a criança”. De acordo com este autor (1978, p.226), as crianças do século XV viviam com outras famílias como aprendizes, era hábito entregar a criança às famílias estranhas para serem servos. A educação se fazia em sua totalidade através da aprendizagem direta e era transmitida de uma geração para outra. A prática ocorria não apenas com famílias menos afortunadas, eram raras as exceções. Era comum acreditar que essa prática traria boas maneiras às crianças. Ariès (1978, p.273) relata que no período da Idade Média, não havia intimidade familiar, adultos, crianças, senhores e criados viviam misturadas umas com as outras, em casas permanentemente abertas às indiscrições dos visitantes.

As grandes mudanças nos campos da cultura, economia e política, possibilitam o surgimento de uma sociedade moderna, que afeta significativamente os aspectos da existência pessoal e social. A família absorve fortemente essas mudanças, tornando-se a grande referência para seus membros. De acordo com Ariès:

A família moderna retirou da vida comum não apenas as crianças, mas grande parte do tempo e da preocupação dos adultos. A mesma correspondeu a uma necessidade de intimidade, e também de identidade: agora os membros da família se unem pelo sentimento, o costume e o gênero de vida. (ARIÈS, 1978, p. 278)

No Brasil, a Constituição de 1988, aborda a questão da família reconhecendo um novo conceito da instituição. Declara a união estável entre homem e mulher e reconhece a comunidade formada por qualquer um dos pais e seus descendentes como um núcleo familiar. A constituição reconhece que direitos e deveres referente à sociedade conjugal devem ser exercidos igualmente.

Art. 227: É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito á vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar comunitária,além de colocá-los a salvo de toda a forma de negligência, discriminação,exploração, violência, crueldade e opressão. (BRASIL).

A família vem sofrendo evidentes mudanças que têm interferido em sua estrutura e dinâmica, segundo Pereira (1995, p.135), estas mudanças estão trazendo um novo padrão de organização.

[…] Queda da taxa de fecundidade, devido ao acesso aos métodos contraceptivos e de esterilização […] tendência de envelhecimento populacional […] declínio do número de casamentos e aumento da dissolução dos vínculos matrimoniais constituídos, com crescimento das taxas de pessoas vivendo sozinhas […] aumento do número de famílias chefiadas por uma só pessoa, principalmente por mulheres, que trabalham fora e têm menos tempo para cuidar da casa e dos filhos (PEREIRA, 1995, p. 135).

Para Polonia e Dessen, (2005, p.304), a família é uma das instituições fundamentais que emergem no desencadear dos processos evolutivos das pessoas, atuando como propulsores ou inibidores do seu crescimento social, intelectual e físico.

4.2 Considerações sobre a escola no decorrer dos tempos

O termo “escola” descende do latim “schola”, entre suas significâncias quer dizer descanso, folga, era entendido como o momento ócio onde as pessoas poderiam conversar sobre os mais diversos assuntos, com o tempo acabou tomando o significado de lugar onde se estuda. Segundo Ribeiro (1987, p.19) foi com a chegada dos jesuítas, liderados por Manuel da Nóbrega ao Brasil em 1549, que se iniciou a fase jesuíta de escolarização colonial. O objetivo da missão era a conversão dos índios à fé católica através da catequese e da instrução. A domesticação do índio não o faria apenas mão de obra escrava, mas o destituiria de sua cultura. Freire explica:

A luta pela humanização, pelo trabalho livre, pela desalienação, pela afirmação dos homens como pessoas, como “seres para si”, não teria significação. Esta somente é possível porque a desumanização, mesmo que um fato concreto na história, não é porém, destino dado, mas resultado de uma “ordem” injusta que gera a violência dos opressores e esta, o ser menos.(FREIRE, 1970,p.16)

Ribeiro (1987, p.22) afirma que, com o desenvolvimento da colônia, surgiu uma classe formada pela nobreza e pela burguesia, como os jesuítas eram os únicos educadores de profissão, o sistema educacional elaborado por Manoel de Nóbrega com a finalidade de atingir os índios, precisaria ser modificado e ampliado para atender as novas demandas. Ainda, de acordo com Ribeiro (1987, p.25) a educação jesuíta preparava índios, negros e mestiços para os trabalhos manuais; a educação feminina limitava-se a prendas domésticas e boas maneiras; e a elite era preparada para o trabalho intelectual. Para Ariès(1978, p.192) a condição social determinava o tipo ideal de educação, sem dúvida as famílias burguesas e a nobreza, representavam o núcleo principal da população escolar.

Apesar das constantes transformações ocorridas ao longo dos séculos, a educação escolar sempre serviu aos interesses e as necessidades do poder capitalista, determinando o quê e quem deve aprender. Freire diz:

Na visão “bancária” da educação, o “saber” é uma doação dos que se julgam sábios aos que julgam nada saber. Doação que se funda numa das manifestações instrumentais da ideologia da opressão – a absolutização da ignorância, que constitui o que chamamos de alienação da ignorância, segundo a qual esta se encontra sempre no outro.Poderá dizer-se que casos como estes já não sucedem nas escolas brasileiras. Se realmente estes não ocorrem, continua, contudo, preponderantemente, o caráter narrador que estamos criticando. (FREIRE, 1970, p.33)

Castro e Regattiere (2009, p.20) afirmam que, somente em 1889, com a instituição da República, surge, no Brasil, a escola como conhecemos hoje, uma escola contemporânea, marcada pelo ideário da civilização e do progresso para todos, uma escola considerada fundamental para a construção da sociedade. Para Freire (1996, p.21) a sala de aula é um espaço onde alunos devem ter a liberdade para fazer suas indagações e despertarem suas curiosidades, e o professor ensinar ao invés de transferir conhecimento.

A Constituição de 1988, em seu Art.205, estabelece que a educação é direito de todos, cabendo ao Estado e a família esta obrigação. A sociedade participará promovendo e incentivando o pleno desenvolvimento da pessoa; sua qualificação para o trabalho e o exercício de sua cidadania. O Art. 206 garante que o ensino será ministrado com princípios de igualdade de condições para o acesso e permanência na escola.

5. A falta de envolvimento entre família e escola

5.1 A culpa é da família?

De acordo com Ariès (1978,p.225), a família ao longo da história mudou significativamente a sua relação com os filhos, nutriu-se uma necessidade de intimidade e uma preocupação maior com a educação. Conforme o autor, tal preocupação levou a aprendizagem tradicional, a ser substituída pelo aprendizado na escola. Aos país ou responsáveis coube a responsabilidade de matricular seus filhos na rede regular de ensino, essa determinação foi regulamentada em lei pela LDB de 1996 em seu Art. 6º.

As necessidades impostas pela sociedade à família, a levou na busca às instituições capazes de auxiliá-la nos cuidados com seus filhos. Para (Bhering e Nez, 2002, p.68), a creche surge com a proposta de resolver grande parte dos problemas causados pela necessidade de falta de tempo dos pais nos cuidados com seus filhos. A creche é vista pela maioria das famílias como uma solução e alternativa para sua sobrevivência. Bhering e Nez afirmam:

Fazendo uma analogia com a prática assistencialista: a creche, por ser uma iniciativa voluntária, “doa” um serviço (aos pais) cuidando e guardando as crianças. Desta forma, a família continua na posição de ‘necessitado’ que recebe (numa postura passiva) e precisa (incondicionalmente) deste donativo (os serviços oferecidos pela creche) sem questionar (ou avaliar) se o que está sendo oferecido responde as suas expectativas, as de seus filhos (desenvolvimento integral) de modo a perceber o que e como ele se desenvolve e suas necessidades. (BHERING; NEZ, 2002, p.68)

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Segundo Castro e Regattieri (2009, p.28), por conta de uma longa história de emancipação da família, esta passou a ser o foco de sistema educativo. Se por um lado as crianças foram deslocadas da periferia para o centro da família, a educação dos filhos necessitou de auxílio de outras instituições. Para Osório(1996, p.21) a sociedade dita as regras e influencia a família, os pais influenciam os filhos, e o comportamento dos filhos é condicionado as atitudes dos pais.

Para Castro e Regattieri (2009, p.31), ocorreu uma transferência das funções educativas da esfera familiar para a estatal. Nessa transferência, o saber familiar, principalmente das famílias menos favorecidas, tornou-se desqualificado. As funções educativas adotaram uma conotação profissional, a responsabilidade da família precisou ser revista e reorganizada. A escola foi inserida nas funções educativas.

Osório (1996, p.81) afirma que existe a necessidade de definir bem o papel dos pais na vida educacional de seus filhos. A participação da escola não isenta os pais nas obrigações sociais com seus filhos. Ainda, segundo o autor, “Não se deve delegar à escola tarefas que continuam sendo da família. Cabe a esta oferecer a criança e ao adolescente a pauta ética para a vida em sociedade” (1996, p.82).

Castro e Regattieri (2009, p.32), citam que os pais com longas jornadas de trabalho; pouca escolarização e pouco tempo para acompanhar a vida escolar de seus filhos, não conseguem sequer ajudá-los nas tarefas das lições de casa trazidas da escola. Esse fato como exemplo mostra que a tentativa de divisão de responsabilidades oferecida pela escola, se torna eficaz.

5.2 A culpa é da escola?

Segundo Piaget (2007, p.35) a educação é um direito, e a forma social de atingir os melhores processos de formação é através da escola. Conforme o autor a educação é uma só, desde o nascimento até o final da adolescência. Esta constitui um dos dois fundamentais fatores necessários à formação moral e intelectual, cabendo à escola uma parte significativa na responsabilidade referente ao fracasso ou ao sucesso do indivíduo em sua adaptação à vida social, e na realização de suas próprias possibilidades.

Castro e Regattieri (2009, p.30) afirmam que quando o aluno se comporta adequadamente, tira boas notas e aprende, professores e pais se sentem como agentes complementares e responsáveis pelo sucesso. A vitória é compartilhada com louros. Todavia, quando os resultados são negativos, com indisciplina, ou com baixo rendimento escolar, inicia-se uma disputa para apontar o possível responsável pelo insucesso do aluno. Para estes autores:

O insucesso escolar deveria suscitar a análise de causas dos problemas que interferiram na aprendizagem, avaliando o peso das condições escolares, familiares e individuais do aluno. O que se constata é que, em vez disso, o comportamento mais comum diante do fracasso escolar é a atribuição de culpas, que geralmente provoca o afastamento mútuo.(CASTRO; REGATTIERI, 2009, p.30)

De acordo com Silva (2003, p.190) existe um conflito na relação entre escola e família. Tornar a família cúmplice e aliada da escola tem sido uma das grandes bandeiras levantadas pela educação, mas, no entanto, esta se encontra perdida sem estratégias definidas, sem saber como trazer a família para o âmbito da escola. Para Parolin (2007, p.68) apesar de a prática educativa ser embasada por teorias, é nos testemunhos inflamados observados em suas pesquisas com pais e alunos, que se observa uma realidade bem diferente das preconizadas pelas teorias.

Segundo Castro e Regattieri (2009, p.30) para garantir o cumprimento do Estatuto da Criança e do Adolescente, surgem novos atores como o Conselho Tutelar, e o Ministério Público. Estes passam a agir como interlocutores das famílias e dos agentes educacionais. Apesar dos esforços desses atores para garantir o direito à educação para crianças e adolescentes, as mediações exercidas pelos mesmos, afetam o equilíbrio das relações de poder entre escolas e famílias; das famílias; e dentro das escolas. Os conflitos que anteriormente eram tratados na esfera privada, passam a ganhar um grande destaque, e os rigores da esfera pública.

Apesar dos cuidados que se deve ter para evitar possíveis desvios de funções das instituições, Pereira (1995, p.111), destaca que é necessária uma parceria entre as esferas públicas e privadas, ou seja, uma parceria entre a família, a sociedade e o Estado. Esse autor deixa o alerta para não se cometer sérios equívocos, como o de definir a família atual, como a mesma família de cinquenta anos atrás. É preciso considerar suas configurações atuais e seus modos de convivência. Afirma:

Hoje em dia devolver para a família os cuidados com crianças, idosos, enfermos e deficientes, em nome da descentralização das funções do Estado e da parceria, é regredir na história das conquistas sociais e destituir direitos a duras penas conquistados (PEREIRA, 1995, p.111).

6. Uma relação promissora

6.1 Uma família que vai a escola

De acordo com Castro e Rigattieri (2009, p.13) no mundo escolar as crianças são alunos, e no mundo familiar são filhos. A passagem de filho para aluno não ocorre de maneira automática, a distância entre o universo escolar e o universo familiar, é determinante para que essa passagem não seja traumática. No interior da escola a condução dos alunos é feita por um responsável direto: o professor, um adulto que também passou por um processo de formação para alcançar a função de educador profissional.

Para Castro e Rigattieri (2009, p.13) ”As crianças que chegam à escola são membros-dependentes de um núcleo familiar que lhes dá um nome e um lugar no mundo.” É papel do professor, estando este conectado ou não com o lugar social do aluno, lhe garantir o direito educacional. Para tanto a comunidade escolar além de ter como membros os professores; os funcionários; coordenadores pedagógicos e diretores, tem como membro indispensável a família. Esta deve participar deliberando sobre os diversos aspectos do projeto escolar.

Segundo Piaget (2007, p.50) “toda pessoa tem direito à educação, é evidente que os pais também possuem o direito de serem senão educados, ao menos, informados no tocante à melhor educação a ser proporcionada a seus filhos.” Castro e Rigattieri (2009, p.14) afirmam que desde o momento em que a criança é matriculada no estabelecimento de ensino, a relação entre família e escola está presente de forma compulsória. Esta relação continua atuante e viva na intimidade da sala aula, ocorrendo de forma direta ou indireta.

Desta forma para Castro e Rigattieri (2009, p.14) quando a escola se perguntar, que medidas precisam ser tomadas para apoiar seus professores na relação com seus alunos, surgirá de forma imprescindível a necessidade de interagir de alguma forma com a família. Para que esta interação ocorra de maneira positiva e consistente, cabe aos sistemas de ensino a elaboração de políticas e programas que auxiliem as escolas na interação com as famílias, apoiando assim o processo desenvolvido pelos professores junto aos alunos.

Polonia e Dessen (2005, p.304) afirmam que a escola não pode ignorar a a colaboração dos pais na história e no projeto escolar dos alunos. A escola deve auxiliar as famílias no exercício de seu papel na educação dos filhos. Segundo Polonia e Dessen (2005, p.305) a escola que reconhece os valores e crenças que são transmitidos pela família, desfrutará dos benefícios estabelecidos de maneira ordenada, entre os processos de aprendizagem e desenvolvimento.

Ainda convém lembrar que tanto em casa como na escola, se faz necessária uma participação efetiva dos pais na educação de seus filhos. Para tanto a escola deve respeitar a disponibilidade que os mesmos possuem. Atividades voluntárias e decisões que são tomadas na escola, precisam ter o envolvimento dos responsáveis. Os meios necessários para uma relação bem sucedida, além de levarem em conta a realidade dos pais e dos alunos, devem também levar em conta a realidade dos professores e da direção da escola. (POLONIA; DESSEN, 2005, p.307)

6.2 Uma escola que vai a família

Segundo Arroyo (2000, p.124) o educador carrega a função que exerce, que é e a imagem que interioriza. Para o autor, a autoimagem docente tem sua formação em diversos espaços e tempos, em diversas vivências, como resultado das circunstâncias sociais e psicológicas que influenciam sua docência. Para Freire (1996, p.51) o educador que se fecha aos outros e ao mundo, se torna transgressor ao impulso natural da incompletude. Por outro lado o educador que se abre aos outros e ao mundo, inicia com sua atitude a relação dialógica que se confirma com curiosidade e inquietação, como inconclusão em movimento contínuo na História. Freire diz:

Certa vez, [...] visitei uma sala em que se expunham fotografias das redondezas da escola. Fotografias de.ruas enlameadas, de ruas bem postas também. Fotografias de recantos feios que sugeriam tristeza e dificuldades. Fotografias de corpos andando com dificuldade, lentamente, alquebrados, de caras desfeitas, de olhar vago. [...] dois professores faziam comentários em torno do que lhes tocava mais de perto. De repente, um deles afirmou: “Há dez anos ensino nesta escola. Jamais conheci nada de sua redondeza além das ruas que lhe dão acesso. Agora, ao ver esta exposição de fotografias que nos revelam um pouco de seu contexto, me convenço de quão precária deve ter sido a minha tarefa formadora durante todos estes anos. Como ensinar, como formar sem estar aberto ao contorno geográfico, social, dos educandos?” (FREIRE, 1996, p.51)

De acordo Castro e Rigattieri (2009, p.10) as escolas buscam por diferentes meios uma aproximação das famílias de seus alunos. Estão procurando conhecer suas condições de vida, e inseri-las na produção de resultados educacionais positivos. Práticas inovadoras, projetos, ideias e visita domiciliar são ações que nascem em iniciativas isoladas de professores, nos gabinetes das Secretarias e nas salas de aula.

Todavia, a constatação da correlação estreita entre mundo familiar e mundo escolar, não é suficiente para mudar a situação tão antiga, mas tão presente da conversão das desigualdades sociais em desigualdades escolares. A escola deve ser capaz de garantir aos seus alunos o direito de aprender, independente das condições de seu grupo familiar. Porém o Brasil é diverso e muito grande, para caber em uma única receita ou fórmula. (CASTRO; RIGATTIERI, 2009, P.14)

Para Polonia e Dessen (2005, p.308) a escola deve compreender e buscam soluções para os fatores que levam os pais à pouca frequência na instituição de ensino. Segundo os autores as barreiras culturais que existem entre pais e professores devem ser consideradas um ponto importante a ser vencido. Dizem ainda:

A integração do ambiente escolar e familiar não é uma tarefa fácil e não deve ser encarada de forma amadora ou ‘idealística’. Urge que dados empíricos sejam gerados, permitindo a identificação de fatores que facilitam ou dificultam esta interação. (POLONIA; DESSEN, 2005, p.310)

Outro fato que merece a devida atenção, diz respeito às pesquisas relacionadas à família e a escola. Estas são, em sua maioria, oriundas da cultura europeia e norte-america, o que de certa forma condiz com suas normas e crenças na relação família-escola. Um contexto bem diferente da realidade e da cultura brasileira. Este fato não significa que tais pesquisas devem ser desconsideradas, pelo contrário, elas ajudam a identificar idiossincrasias e similaridades com a população brasileira. (POLONIA; DESSEN, 2005, p.310)

Todavia, para Polonia e Dessen (2005, p.310) é imprescindível a implantação de projetos que se identificam com o contexto da cultura brasileira, tendo em vista este contexto, é preciso estimular a relação família-escola levando em consideração as diferenças regionais e sociais que caracterizam a nossa cultura. O Conhecimento dos contextos e das inter-relações da família e escola brasileiras, possibilitará uma dinâmica visão do processo educacional, e sem dúvida alguma intervenções mais efetivas e precisas, possibilitará ainda uma discussão ampla de modelos de articulação entre a família e a escola, considerando a realidade brasileira.

7. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Família e escola, não diferente de outras instituições, têm sofrido enormes transformações no decorrer da história. Tais transformações influenciam a dinâmica escolar e a estrutura das famílias. O fato dos pais ou responsáveis terem que trabalhar mais para garantir o sustento do lar transfere as tarefas educativas, que deveriam ser suas, para a escola. (Silva, 2003, p.187). Osório corrobora: “Não se deve delegar à escola tarefas que continuam sendo da família. Cabe a esta oferecer a criança e ao adolescente a pauta ética para a vida em sociedade”.(OSÓRIO, 1996, p.82)

Para López (2002, p.8) em se tratando de um tema tão complexo como é o da educação, é impossível elaborar estratégias sem a participação efetiva das duas mais importantes instituições educacionais da sociedade atual: família e escola. Para o autor família e escola devem unir esforços na busca por objetivos e estratégias comuns. “A eficácia da educação escolar depende do grau de implicação, enfim, do grau de participação dos pais”. (LÓPEZ, 2002, p.82).

Além disso, de acordo com Parolin (2007, p.36) para que ocorra um bom andamento no processo de aprender e ensinar do aluno, e o seu bem viver em ambas instituições, a relação entre escola e família deve ter qualidade. Segundo Pereira (1995, p.112) para uma promissora parceria bem sucedida entre família e escola, o Estado não deve ignorar as constantes transformações que a família vem sofrendo ao longo da história. Pereira diz:

O objetivo da participação dos Estados (...) no processo de valorização da família deve, portanto, ser de incentivar a solidariedade familiar e a proteção primária que só a família pode oferecer — não importa a configuração que tenha assumido —, mas preservando sempre a margem de manobra e o desenvolvimento pessoal de todos os seus membros para poder competir em pé de igualdade no novo cenário mundial ora em evidência (PEREIRA, 1995. p.112).

Por outro lado, para Castro e Regattieri (2009, p.60) não se pode dizer que as condições necessárias para que o aluno alcance o sucesso na educação escolar está nas mãos da família, seria o mesmo que admitir que somente alunos que já vêm educados de casa, poderiam aprender, visto que somente os tais a escola seria capaz de ensinar. De acordo com Piaget (2007, p.34) assegurar o direito da pessoa humana à educação, é uma pesada responsabilidade que vai além das possibilidades de escrita, leitura e cálculos.

As pesquisas no campo da relação família-escola mostram que ainda existe um deficiente conhecimento sobre os alunos e suas condições de vida. Portanto o trabalho que vem sendo desenvolvido nas escolas pode estar sendo desarmonioso, não levando em conta as reais necessidades e diversidades das famílias. A relação família escola não deixa de ser um tema complexo, os assuntos são polêmicos e extensos tornando esta uma efetiva discussão. (CASTRO; REGATTIERI, 2009, p.12)

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Publicado por: Elio Correa de Freitas Júnior

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