A INFLUÊNCIA DO PRECONCEITO LINGUÍSTICO NO ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA

Educação

Análise sobre as variações linguísticas, situando o leitor acerca dos trabalhos sociolinguísticos e apresentando-o à Sociolinguística Educacional, que visa uma nova formação ao corpo docente, capacitando-o para saber lidar melhor com seu objeto de estudo, que é a fala.

índice

1. Resumo

O presente trabalho teve como objetivos a descrição dos fatores predisponentes ao preconceito linguístico, tais como os que motivam sua promulgação e como ele pode ser usado como instrumento de opressão; demonstrar como a Sociolinguística Educacional pode ser eficaz na implantação de novos métodos inclusivos de ensino; conhecer conceitos importantes acerca da linguagem e ideologia e a concepção de ensino bancário; reafirmar a indubitável importância da ciência Sociolinguística e a função primordial da escola; discutir o quão prejudicial é a perpetuação do preconceito, que tem relações intrínsecas à formação do aluno como sujeito social, e que pode prejudicá-lo sobremaneira no decorrer das suas relações profissionais. Utilizamos como metodologia uma revisão bibliográfica de autores renomados e a leitura de diversos artigos pertinentes ao tema além de uma pesquisa através de questionários com professores de Língua Portuguesa com intuito de enriquecer esse estudo por meio da análise dos dados coletados, sendo possível, a partir da análise, identificar as visões que os professores têm acerca do papel da escola e da aceitação das variações linguísticas em sala de aula. Esperamos com esse trabalho que os educadores se abram a novas perspectivas e sejam sensíveis aos conhecimentos prévios do educando, sem que haja exclusão do mesmo devido ao preconceito linguístico, e assim, consequentemente, haja uma maior abrangência da educação aos alunos provenientes das camadas sociais de menor prestígio.

Palavras-chave: Preconceito Linguístico; Sociolinguística; Educação.

Abstract

The present work aimed to describe the predisposing factors to linguistic prejudice, such as those that motivate its promulgation and how it can be used as an instrument of oppression; demonstrate how educational sociolinguistics can be effective in implementing new inclusive teaching methods; know important concepts about language and ideology and the conception of banking education; reaffirm the undoubted importance of Sociolinguistic science and the primary function of the school; discuss how harmful is the perpetuation of prejudice, which has intrinsic relations to the student's formation as a social subject, and which can greatly harm him in the course of his professional relationships. We used as a methodology a bibliographical review of renowned authors and the reading of several articles pertinent to the theme and a survey through questionnaires with teachers of Portuguese Language in order to enrich this study through the analysis of the collected data, being possible, from the analysis, identify teachers' views on the role of the school and the acceptance of language variations in the classroom. We hope with this work that educators will open themselves to new perspectives and be sensitive to the student's previous knowledge, without being excluded due to the linguistic prejudice, and thus, consequently, there will be a wider scope of education for students from the social classes. lowest prestige.

Keywords: Linguistic Prejudice; Sociolinguistics; Education.

2. Introdução

A porta principal para os ensinos sociolinguísticos, sem margem de questionamentos, é a escola.  Não há espaço mais palpável de se imaginar as possibilidades de abrangência, expansão e promulgação de conhecimentos do que nela, além de desempenhar um papel social de enorme importância, que é a dificílima missão de formar cidadãos críticos e conscientes que se reconhecem como seres no mundo e as formações sociais e ideológicas que o cercam, sendo possível, dessa maneira, a compreensão de seus papéis na sociedade e de como exercê-los com humanidade, advertidos das injustiças sociais e das imposições governamentais que, em sua maioria, servem ao propósito de desfavorecer as populações marginalizadas para que elas, justamente, continuem à margem de uma ínfima parcela da sociedade. E, uma vez apropriados desse discernimento, consigam lutar de forma justa por direitos igualitários e contra a quebra dos paradigmas preconceituosos.

Ao debatermos os conceitos da Sociolinguística sob a ótica escolar, observaremos os inúmeros fatores controversos existentes que dificultam a evolução dessa ciência e do pensamento crítico acerca da linguagem, e a propagação desses. Dois fatores principais que impulsionam esse resultado são a falta de infraestrutura e a desvalorização do profissional da rede de ensino. No entanto, veremos também como a força de educadores convictos de que uma educação libertadora é a resposta para a melhoria está progressivamente mudando o rumo da educação.

A linguagem é um instrumento valiosíssimo na luta contra as injustiças que afligem às camadas de menor prestígio social. E tão logo o educando obtenha a apropriação da sua língua materna e o domínio da variante de prestígio, obterá uma vantagem imprescindível na sociedade em que vivemos, a de poder falar e ser ouvido.

Nos capítulos que seguem, optamos por um encadeamento lógico e intuitivo a fim de dinamizar a leitura e apresentá-la de forma mais fluida e cativante. De modo que se consiga atingir com precisão educadores e simpatizantes que possam se interessar pelo conteúdo abarcado pelo tema proposto nesta pesquisa. Aos primeiros, por ser somente eles que podem fazer, de fato, a diferença, engajando-se na luta muitas vezes utópica, mas sempre revolucionária da difusão dos conceitos sociolinguísticos. E, aos demais, porque o preconceito linguístico tem raízes profundas na sociedade e precisa ser desconstruído por todos. E, quanto mais pessoas se propuserem a atuar na sua erradicação, maiores chances teremos de alcançar nossos objetivos.

No capítulo intitulado "Palavras Iniciais", buscamos situar o leitor quanto a importância do tema, sua relevância acadêmica, o que é a Sociolinguística e os objetivos deste trabalho, tal qual sua metodologia e bibliografia. 

No segundo capítulo, "Preconceito Linguístico", desdobramos as suas vertentes, desde os motivos de sua existência até sua permanência atualmente. Dividimos esse capítulo em outros dois subcapítulos: no primeiro, reservamo-nos a elucidar o leitor sobre o conceito da "Educação Bancária", introduzido por Paulo Freire e que contribui sobremaneira para a decadência na educação atual, além de discutir alguns outros conceitos de Freire, tais como a "consciência crítica" e a "educação libertadora"; no segundo subcapítulo, concedemos o título de "Norma Padrão", a variante privilegiada e imposta pelas gramáticas, e sua autoritária noção de certo versus errado. Elucidamos os motivos que levaram à sua criação e sua importância para a fundamentação da nossa unidade linguística, como também, e principalmente, os problemas acarretados pelas imposições ideológicas que a colocam como superior usando-a, muitas vezes, como instrumento de opressão.

No capítulo seguinte discorremos sobre Linguagem e Ideologia, baseado nos estudos de José Luiz Fiorin (2009). Introduzimos as questões sobre o discurso e onde ele se insere na sociedade, tal como a ideologia e seu respectivo conceito. Uma parte importantíssima desta pesquisa que norteará questões sociais relativas à linguagem e que são inseparáveis do senso crítico e da educação.

No penúltimo capítulo, apresentamos a Sociolinguística Educacional, em que nos pautamos, primordialmente, embora outros textos tenham contribuído para a construção do capítulo, na sociolinguista Stella Maris Bortoni-Ricardo e em seu livro Educação Em Língua Materna: a Sociolinguística em Sala de Aula (2004). Enfatizo a importância de uma escola crítica, de uma educação libertadora e de educadores com bom senso e, antes de qualquer intuito de apenas transmitir os conhecimentos adquiridos em suas formações, saibam respeitar o aluno como um ser igual, saibam diferenciar as ideias de autoridade e autoritarismo, e sejam professores humanistas aptos a integrarem seus conhecimentos com os dos alunos.

No início deste trabalho, foi feita uma pesquisa através de questionários sobre variação linguística com professores de Língua Portuguesa e, ao final, será exposta, no capítulo intitulado "Análise de Dados", as ponderações feitas com relação às respostas obtidas. 

O intuito principal deste trabalho é a conscientização dos educadores sobre os conceitos da Sociolinguística Educacional, pois acreditamos que somente por meio deles conseguiremos mudar o quadro de preconceito enraizado com o qual lidamos atualmente. Que antes de tudo, esta seja uma leitura proveitosa e que desperte a curiosidade sobre modos diferentes de se praticar o ensino que possam gerar resultados eficientes.

3. PALAVRAS INICIAIS

O tema proposto por este trabalho nos levanta alguns questionamentos, tais como o que se pretende dizer com influência especificadamente, e sobre qual influência estaríamos falando. Vejamos.

Muitos pesquisadores linguistas, ao longo de seus estudos, foram percebendo uma onda crescente de disseminação do preconceito linguístico nas salas de aula. E por qual motivo? Essencialmente, devido à estrutura sistêmica de escolas que fazem a manutenção do estilo bancário[1] de ensino, da falta de especialização do corpo docente, da falta de tempo dos professores por terem de fazer jornadas duplas ou até triplas para complementarem a renda, e dos fatores sociais e estruturais enraizados na nossa consciência[2], a qual dita nossas formações discursivas, a forma como vemos o mundo e o representamos com nossas ações. “Quando um enunciador comunica alguma coisa, tem em vista agir no mundo” (FIORIN, 2009, p. 74).

Ao perceberem essa tendência, estudos foram sendo realizados e direcionados ao ensino de língua materna e para a forma que podemos utilizar a fala do aluno como um meio para sua inserção social e acadêmica. Esses estudos se intensificaram no Brasil com maior importância e relevância devido à nossa estrutura social desigual e de maioria pobre. Dados do IBGE de 2017[3]  confirmam que 25,4% da população brasileira vive em pobreza, e esse percentual é muito maior nas regiões Norte e Nordeste, chegando a  43,5% − regiões essas onde mais têm peso os juízos de valores acerca das variações linguísticas; posteriormente, neste trabalho, serão explicadas as relações do preconceito linguístico com as camadas sociais.

Sendo assim, a Sociolinguística, por ser uma ciência inseparável dos estudos sociais, irá buscar compreender todos os fatores que podem influenciar o preconceito linguístico para, uma vez conhecendo suas causas, ser capaz de combate-lo; e ao conhecer e descrever as variações linguísticas, com base em pesquisas e dados concretos, compreender como aceitá-las no ambiente escolar, por meio da capacitação dos professores, que estarão mais preparados e conscientes para ensinarem a língua portuguesa padrão aos alunos já familiarizados com sua língua materna.

3.1. Dos objetos de estudo

A Sociolinguística é uma área interdisciplinar da Linguística. A Linguística estrutural, apresentada por Saussure em 1916, é uma ciência que estuda a estrutura interna da língua estável no tempo e irá preocupar-se com fatores fonológicos e morfológicos, sintáticos e semiológicos, porém, sem estudar a relação das variações linguísticas e a sociedade. Contudo, já Saussure nos dizia que a língua era a parte social da linguagem, logo, podemos concluir que suas interações sociais merecem destaque, no entanto, como dito acima, esse não era seu objeto de estudo. A Linguística, para ter seu objeto de estudo delimitado, precisou idealizar a língua. Mas lembremos que esse não é o fato, o fato é que, nas línguas, a variação está por toda a parte (MCCLEARY, 2009).

Os estudos sociolinguísticos são particularmente recentes. Alguns estudiosos, por volta de 1950, já discutiam alguns conceitos pertinentes a essa área de estudo, ou seja, já conseguiam identificar algumas mudanças pertinentes à fala e como elas encontravam-se intimamente relacionadas com o meio social no qual estavam inseridas; mas, foi William Labov, linguista estadunidense, que em meados de 1960, iniciou pesquisas minuciosas acerca do tema, introduzindo de maneira formal a Sociolinguística no contexto acadêmico como um ramo da Linguística. Ela foi primordialmente subdividida em três grandes áreas: a Sociolinguística Variacional, de William Labov, que vai se incumbir dos estudos da língua e suas variações dentro da sociedade; a do linguista John Joseph Gumperz, chamada Sociolinguística Interacional, que se alia à análise do discurso para estudar como os falantes criam significados através das interações sociais; e por último, mas não menos importante, introduzida pela linguista brasileira Stella Maris Bortoni-Ricardo, a Sociolinguística Educacional, que propõe que o foco seja introduzir os estudos sociolinguísticos aos docentes, por meio de formações continuadas, para melhoria do ensino de língua materna, pois ela subentende, através de estudos específicos acerca do tema, que o aluno sente-se muito mais propenso ao ensino da variante padrão quando tem suas variantes linguísticas respeitadas.

É importante dizer que os filólogos e linguistas sempre estudaram as variações entre uma língua e outra e as mudanças dentro de uma mesma língua durante o tempo, faziam tais análises a partir de textos escritos. Comparavam as formas de diferentes épocas, de diferentes regiões, contudo, formas, maioritariamente, escritas por um determinado grupo, geralmente homens cultos da nobreza. Para analisarmos a língua viva, em constante mutação, as muitas variações que ocorrem de uma região para outra, de um grupo social para outro etc. foi primordial o advento do gravador. Assim, foi possível gravar os diversos registros para os estudarmos até a compreensão dos fenômenos. A Sociolinguística estuda essas variações. Quais suas causas, funções, qual a relação entre o uso social e determinada variedade? Este é o centro dos estudos sociolinguísticos, como diz McCleary (2009, p. 17) “onde não há fatos linguísticos que dizem exclusivamente respeito à estrutura interna das línguas, mas onde tudo tem uma causa ou um efeito na sociedade”.

Partindo dos pressupostos acima, é necessária uma elucidação do que vem a ser preconceito linguístico. É o nome que se dá ao ato de excluir, diminuir e menosprezar a fala do outro. Segundo Scherre[4]:

Preconceito linguístico é o julgamento depreciativo, desrespeitoso, jocoso e, consequentemente, humilhante da fala do outro ou da própria fala. O problema maior é que as variedades mais sujeitas a esse tipo de preconceito são, normalmente, as com características associadas a grupos de menos prestígio na escala social ou a comunidades da área rural ou do interior. Historicamente, isso ocorre pelo sentimento e pelo comportamento de superioridade dos grupos vistos como mais privilegiados, econômica e socialmente.

Esse trecho, além de elucidar o conceito de preconceito linguístico, norteia o papel que a classe dominante exerce perante as classes menos favorecidas. Para erradicar de uma vez por todas o preconceito linguístico é necessária a erradicação do preconceito social, que se iniciou com a desigualdade entre as classes – divididas em superiores e inferiores. Sabendo disso, a função do educador é desmistificar, ao longo de todo o processo escolar do aluno, os estigmas relativos a esse processo. É como Bagno (2007, p. 29) graciosamente diz: “são simplesmente diferenças de uso – e diferença não é deficiência nem inferioridade.”

O tema preconceito linguístico nas salas de aula vem sendo abordado nas últimas décadas com veemência, contudo ainda podemos vislumbrar fortes resquícios de um ensino conservador dentro desses ambientes que fazem perpetuar conceitos antiquados e ultrapassados. Por esse motivo, fazem-se necessárias as constantes publicações acerca do tema com fins de exposição e ampliação das ideias sociolinguísticas com intuito de desarraigar o preconceito linguístico que como qualquer outro, é de um sem fim de julgamentos infundamentados – principalmente, nas salas de aula, pois nelas terão um impacto diretamente na formação de cidadãos.

Isso dito, o tema do trabalho apresentado, embora bastante discutido em certos meios, ainda é de extrema pertinência, uma vez que o seu conceito ainda não está completamente formalizado em todo o contexto escolar. Possenti (2012, p.16) irá dizer, acerca das teses aparentemente óbvias concernentes ao tema, que: "se elas ainda precisam ser ditas é porque, por razões que seria interessante explicitar, elas não são difundidas." É imprescindível uma conscientização do corpo docente sobre os estudos sociolinguísticos devido a urgência de combatermos as desigualdades do nosso sistema sociopolítico e econômico através de uma educação conscientizadora.

3.2. Dos objetivos

O objetivo central deste trabalho é discorrer sobre as variações linguísticas, situando o leitor acerca dos trabalhos sociolinguísticos e apresentando-o à Sociolinguística Educacional, que visa uma nova formação ao corpo docente, capacitando-o para saber lidar melhor com seu objeto de estudo, que é a fala, tendo assim, discernimento para auxiliar os alunos mais necessitados, aqueles provenientes das classes sociais menos favorecidas, a compreenderem sua língua materna e seus usos na sociedade, pois "o problema do ensino do padrão só se põe de forma grave quando se trata do ensino do padrão a quem não o fala usualmente, isto é, a questão é particularmente grave em especial para os alunos das classes populares" (POSSENTI, 2012, p. 17-18).

Analisaremos também e com exaustão os fatores predisponentes ao preconceito linguístico, promovendo e discutindo hipóteses explicativas que sirvam ao propósito de desmistificá-lo, fazendo o levantamento de questões de como ele pode influenciar negativamente o interesse do aluno em querer aprender a língua portuguesa não encontrando motivos para aprendê-la.

Com crescente pesquisa na área educacional sobre a influência que o preconceito linguístico exerce no ensino de Língua Portuguesa aos alunos, é consideravelmente importante elucidar pontos cruciais da Sociolinguística Educacional e seus benefícios quando inseridos na prática docente, e desmistificar as variações linguísticas, tentando, assim, romper com o preconceito. Redizendo as palavras de Possenti (2012, p. 17) para que não ocorram julgamentos prévios errôneos, que fique registrado no início desta pesquisa que: "sem qualquer dúvida o princípio (quase evidente) de que o objetivo da escola é ensinar o português padrão, ou, talvez mais exatamente, o de criar condições para que ele seja aprendido" (grifo do autor).

3.3. Metodologia

O trabalho elaborado foi pautado em natureza de pesquisa aplicada, com o objetivo de explorar o tema proposto, expondo os problemas acerca da realidade de ensino e, assim, gerando possíveis debates com hipóteses de solução, com intuito de constatação da ocorrência do preconceito linguístico nas salas de aula, e futura melhoria na qualidade do aprendizado e do acesso ao ensino de língua portuguesa à população infanto-juvenil. Quanto a sua abordagem, fizemos um levantamento quantitativo de dados, visando estabelecer alguns números como quantidade de professores favoráveis às variações linguísticas em sala e qualitativo, visando uma reconstrução e análise das respostas dadas com fins de estudo e reflexão, de acordo com pesquisa feita através de questionários aplicados a professores de Língua Portuguesa do primeiro e segundo segmentos por intermédio do canal e-mail. Foi feita uma minuciada revisão bibliográfica com autores conceituados no assunto em questão tais como Marcos Bagno, José Luiz Fiorin, Stella Maris Bortoni-Ricardo, Fernando Tarallo, Paulo Freire, Marta Scherre, Sírio Possenti etc, além da leitura de diversos artigos sobre o tema com a finalidade de analisar outros pontos de vista para a construção deste trabalho. Em caráter exploratório e descritivo, a seguinte pesquisa almeja, por meio da descrição dos fatos observados e da releitura de autores consagrados, trazer uma nova visão sobre preconceito linguístico, variações linguísticas, o ensino da norma padrão nas escolas e como o preconceito linguístico tem impacto nas formações sociais.

4. PRECONCEITO LINGUÍSTICO

Desde a época colonial escravagista, a prática de desmerecer o outro e de inferiorizá-lo revelava-se uma ferramenta largamente utilizada justamente por obter os resultados de opressão e subordinação esperados.

Portanto, caracterizar a fala do outro como errada e inferior serve ao propósito da grande elite de controlá-lo eficazmente no interior dos domínios sociais, e, simultaneamente, de construir uma justificativa legitimadora para a manutenção e a perpetuação do preconceito. Sendo assim, a ideia que construímos acerca do "outro" não é, senão, indissolúvel da ideia que construímos de nós mesmos. "Este 'outro' é inseparável de mim; eu só sou o que sou na relação com o outro. Mas, o outro significa que, justamente, ele não sou eu, por isso é preciso reconhecê-lo e respeitá-lo na sua diferença."[5].

Principiemos com a premissa de que a fala do outro não deve ser considerada errada se conseguimos entender a mensagem que ela deseja transmitir. Em seu perfil do Facebook, o professor de língua Eraldo Maia (2019) nos traduz essa mensagem:

Toda alteração fonética se dá num plano inconsciente. Quem opera a mudança não se apercebe de que está realizando o vocábulo de modo diferente daquele que tantos outros falantes e, ao dizer "tauba", não tem a percepção de que esteja falando algo diferente de "tábua". E, quando ouvimos "tauba", sabemos (nós, que dizemos "tábua") que se trata de uma representação do mesmo referente, não havendo problema algum na comunicação.

É a partir desse conceito que o estudo da Sociolinguística vai revogar o uso de certo versus errado, primeiro porque essa dicotomia irá perder seu sentido dependendo do local e de com quem se está falando. Por exemplo: o diretor da empresa “Y” falará de maneira formal com seus funcionários, porém, num estádio de futebol, com seus amigos, veremos em sua maioria, a ocorrência coloquial. Segundo porque pode ser considerado errado a fala, a grafia, porém, o fenômeno que ocorre, estruturado por leis internas, é plenamente explicável, tornando a ocorrência de "tauba" legítima − ainda que não de acordo com a gramática normativa − pela explicação já exposta na citação: não ocorre nenhum problema na comunicação.

Torna-se claro, assim, que ao invés de tentar refreá-lo das mais diferentes formas no que diz respeito aos usos inerentes a seu sistema internalizado de língua materna, fazendo com que ele pondere nunca conseguir atingir o ápice do aprendizado da sua própria língua, com efeitos irreversíveis a longo prazo, devemos interpretar o aluno e corrigi-lo no âmbito escolar de forma a lhe explicar que, em determinados contextos, a forma coloquial se torna inadequada e pede mais monitoramento, como em entrevistas de emprego, no trabalho, em escritas de documentos, artigos etc. e, que em outros, nem tanto. Incontestavelmente, podemos afirmar que nenhum especialista linguístico fala ou pronuncia o tempo inteiro de acordo com a norma padrão, mesmo monitorando a fala, chega-se somente perto do imposto gramaticalmente, pois em algum momento haverá um “deslize”, ou seja, acabará cedendo às forças internas que se reproduzem inconsciente e imperceptivelmente. Isso nos retoma o fato de que o que vem sendo cobrado nas escolas transforma-se, senão inteiramente, ao menos, em algo quase impossível de se alcançar. 

A dificuldade crucial que se enfrenta, atualmente, é que muitos pertencentes ao corpo docente, além da pouca instrução sobre as teorias sociolinguísticas, têm uma repulsa quase instintiva em aceitar quão sérias são as implicações advindas do preconceito linguístico, por mais sutis que possam parecer, em relação às construções sociais e, principalmente, no que afeta diretamente ao aluno e à sua evolução escolar.

E por terem essa dificuldade em assumir ou compreender as implicações dessas ideias, atrapalham sobremodo a promulgação e a difusão das políticas favoráveis ao ensino das teorias sociolinguísticas por não entenderem ou não darem a devida importância ao fato de que o desmerecimento da fala do aluno pode causar danos permanentes e algumas vezes irreversíveis na formação do seu caráter, transformando-o ou ajudando-o a se tornar um possível reprodutor das ideologias dominantes sem que haja um questionamento crítico prévio.

Pesquisadores e linguistas vêm realizando um trabalho que demonstra que é pedagogicamente incorreto usar a incidência do erro do educando como uma oportunidade para humilhá-lo (BORTONI-RICARDO, 2004, p. 38), precisamente por remetê-lo a um discurso ideológico preconceituoso e primitivo, tornando-o incapaz de se desvencilhar dos prejuízos adquiridos por esse método de ensino. Precisamos de uma pedagogia sensível, atenta às diferenças de uso existentes, tanto em seu seio cultural, quanto no ambiente escolar, e, também, que mostre meios efetivos ao professor de como conscientizar os educandos sobre essas diferenças.

As diversas variedades linguísticas são ricas em normas internas que já foram esmiuçadas por diversos pesquisadores conceituados. Compete-nos, como professores de língua, o ensino apurado sobre a adequação e a inadequação dessas variedades nos mais diferentes ambientes, além de uma pedagogia consciente e crítica. Deter-nos-emos em entender como aplicar aos nossos alunos a variante padrão da língua sem que eles se sintam afastados ou excluídos toda vez que fizerem uso de uma recorrência de sua língua materna diferente da do padrão, e, para fazer isso, necessitamos de atenção redobrada para não reproduzirmos atitudes excludentes e preconceituosas. Pois no interior da comunidade de fala daquele aluno, o considerado “errado” seria a gramática normativa, devido ao fato de ela ser estranha a esse grupo, onde a familiaridade é com a variante não padrão.

Pois bem, é esse abismo cultural desigual que temos que enfrentar para que consigamos – sem que haja exclusão – trazer o educando para o universo da língua padrão e, assim, mostrar-lhe os benefícios que essa tem dentro das nossas formações sociais de maior status econômico, ou seja, a classe dominante.

O mito da língua única é muito antigo, criado com objetivo de sustentar uma idealização da língua perfeita, sem alterações, falada por uma pequena parte aristocrática e, sendo assim, criou raízes na nossa sociedade, fazendo nascer um preconceito fortemente opressivo contra todo tipo de diferença linguística. Hoje, ao depararmo-nos com uma variante não padrão da nossa língua, o primeiro instinto é do da discriminação, com julgamentos preestabelecidos. Um dos principais alicerces da Sociolinguística é, justamente, desconstruir o preconceito proveniente desse e de tantos outros mitos, permitindo-nos conhecer a fundo o porquê de cada ocorrência não padrão. 

É um dito importante e por isso reforçamos aqui, como disse Bagno (2009) que toda língua varia, em seus mais diversos campos, seja no fonético, no sintático, no lexical, no semântico e no uso.

O preconceito é algo totalmente ultrajante, arcaico e sem fundamentação. O processo de mudança é inerente a todas as línguas, que “mudam com o tempo e variam no espaço[6] ” (BAGNO, 2014, p. 22).

4.1. Educação bancária

Convém salientar aqui que algumas classes mais conservadoras, não raramente, reproduzem o discurso de que a consciência crítica é algo perigoso de se adquirir, pois pode conduzir o povo à desordem. Todavia, Paulo Freire, em seu ensaio Pedagogia do Oprimido (2010, p. 24) irá deixar explícito que:

Não é a conscientização que pode levar o povo à ‘fanatismos destrutivos’. Pelo contrário, a conscientização, que lhe possibilita inserir-se no processo histórico, como sujeito, evita os fanatismos e o inscreve na busca de sua afirmação.

A consciência crítica que Freire menciona, nada mais é senão a educação escolar baseada e atrelada às normas sociais perante à realidade imposta e às ideologias dominantes possibilitando, dessa forma, a construção de cidadãos críticos. Freire conceitua a oposição à consciência crítica como “medo da liberdade”[7]. No entanto, integrantes dessas classes raramente assumem uma posição transparente de temor à liberdade; contrariamente camuflam o receio de se libertarem com palavras estratégicas para se passarem, ao invés de opositores, como defensores dela.

Falar da realidade como algo parado, estático, compartimentado e bem-comportado, quando não falar ou dissertar sobre algo completamente alheio à experiência existencial aos educandos vem sendo, realmente a suprema inquietação desta educação (FREIRE, 2010, p. 65).

A educação bancária que, infortunadamente, mantém-se vigente em muitas instituições de ensino, é pautada na memorização das narrativas do sujeito-professor aos seus ouvintes – os alunos. São aplicados conteúdos engendrados e totalmente fora da realidade palpável. O educador é a voz indiscutível; não há construção do saber, tampouco educação transformadora, há transmissão de conteúdos vazios, pois, uma vez que não se conceitue sua aplicabilidade no mundo real ou, ao menos, que haja uma tentativa de localizar a real importância desses conteúdos, eles se tornam dispensáveis ao educando. “Eis aí a concepção ‘bancária’ da educação, em que a única margem de ação que se oferece aos educandos é a de receberem os depósitos, guardá-los e arquivá-los” (FREIRE, 2010, p. 66). Isto é, o educador é o depositante e o aluno um recipiente vazio. Não existe transformação, nesse processo, do aluno. Não existe aproveitamento dos seus conhecimentos prévios, tampouco de sua bagagem cultural, se não se dá importância ao meio social de onde o jovem provém e nem há espaço para a criatividade, tão importante na desenvoltura da aplicação das práticas pedagógicas em aula. “Na visão ‘bancária’ da educação, o ‘saber’ é uma doação dos que se julgam sábios aos que julgam nada saber” (FREIRE, 2010, p. 67). 

É inegável a tremenda evolução do corpo docente referente às práticas conservadoras. Contudo, tal conscientização dificilmente é vista em ação, na prática. Os educadores mostram-se ainda receosos, com “medo da liberdade” e de uma possível desordem advinda dos discentes. Porém é demasiadamente gratificante saber que a educação libertadora, aquela que concilia os saberes do educando aos do educador, vem sendo amplamente divulgada por aqueles empenhados com a causa. 

Salientamos as palavras de Freire (2010), que disse o quanto os professores humanistas e revolucionários, devido à estrutura social que nega o diálogo, têm dificuldades de reproduzir, de fato, uma educação libertadora, pois ficam reduzidos e algumas vezes impedidos ao terem de se engendrar no sistema educacional capitalista vigente. Dessa forma, uma proposta possível seria levar às salas de aula o debate de como a fundamentação estrutural em que vivemos, a de uma sociedade que suprime o diálogo até torná-lo fraco e pouco difundido dificulta extremamente os esforços de promover uma educação libertadora. Freire (2010, p. 93) questiona: “como posso dialogar se alieno a ignorância, isto é, se a vejo sempre no outro, nunca em mim?”. Posta a frase, o princípio da educação libertadora é o diálogo, e “não é possível a pronúncia do mundo, que é um ato de criação e recriação, se não há amor[8]  que a infunda” (FREIRE, 2010, p. 92, grifo do autor).

4.2. Norma padrão

Temos, dentro da inumerabilidade de variantes, uma estipulada para ser o modelo padrão, a norma “culta”[9]. Cabe-nos entender os motivos de sua existência e criação, e como utilizá-la a favor dos alunos, e não contra, como vem acontecendo indiscriminadamente na maioria dos ambientes educacionais, apesar de todos os estudos publicados acerca do tema. O índice de desistência por incompatibilidade ao ato de aprender é alto, e isso se deve, em parte, ao menos no ensino de língua, ao grande preconceito propagado em nossa sociedade, que quase inconscientemente exclui os falantes das variantes de menor prestígio social, exigindo a memorização de normas que não são explicadas, algumas que até perderam seu significado ou que ganharam outros, porém ainda não foram atualizadas, e não dando um objetivo prático e real para o aprendizado da norma padrão ao aluno, em grande parte, periférica, utilizando práticas escolares inconsistentes com a realidade dos discentes, ratificando os estudos de Freire no que tange ao medo de proporcionar uma consciência crítica aos educandos e também a tese de que a nossa sociedade não estimula o diálogo. “É muito triste ouvir tanta gente inteligente dizer: ‘eu não sei falar português’. Se não soubesse, não teria produzido essa simples frase” (BAGNO, 2014, p. 73).

Uma vez imposta a norma padrão elitizada e proposta para a população privilegiada e nobre de determinada sociedade, e a que poucos têm acesso, cria-se uma mistificação e um isolamento das variantes usadas pelos falantes em geral. Vivemos inseridos num sistema capitalista, numa sociedade dividida por classes sociais, em um dos países com maior nível de desigualdade social e pior educação; logo, a variante padrão, que é perpassada diante uma boa educação, rede de apoio como transporte, alimentação e suporte psicológico provenientes de boas escolas e de um círculo social restrito, na maioria das vezes, não chega às classes mais pobres e afastadas, gerando assim um incômodo a essas pessoas quando adentram no contexto escolar e, também, aos professores que, sem preparo e integração às novas políticas pautadas na inclusão linguística, os depreciam por causa da maneira como falam, gerando um desestímulo e possível abandono aos estudos.

A imposição do português padrão surgiu junto com as invasões territoriais e com a necessidade de assim como a detenção de outras áreas de poder obter-se uma língua única que simbolizasse o novo regime. Teve correspondência direta com as camadas sociais mais privilegiadas e com o contexto geográfico onde elas habitavam. O peso cultural, político e econômico fez com que uma variedade fosse escolhida para ser a padrão em detrimento de outras e a ela foi dado todo investimento em veiculação, tornando as demais variantes faladas periféricas e marginalizadas, o que se mantém até o presente, sobrecarregando os falantes dessas variantes com o peso desses adjetivos. 

Entre alguns mais conservadores, circula o mito de que a Sociolinguística e a pauta do preconceito linguístico existem com pretensões de ensinar o aluno a “falar errado” uma vez que se abre mão de ensiná-lo a gramática normativa. Essa informação é conflitante, posto que em qualquer manual sociolinguístico se encontrará base para contradizer essa invenção. Como dito anteriormente, o modo como é elaborado atualmente na maioria das instituições escolares, isto é, um ensino mecanicista das normas sem aplicações práticas aos alunos e sem explicações passíveis de entendimento real, não funciona. Não significa que nós não devamos aprender a ensiná-los de outra maneira. É importantíssimo frisar essa conclusão, prioritariamente, para os conservadores da língua, que julgam a Sociolinguística sem conhecê-la, pois estão condenando uma ciência sem base de informações concretas que fundamentem o seu parecer.

É importante ressaltar que a Sociolinguística não foi originada para ensinar os demais a falar errado. Muito pelo contrário, é uma ciência estruturada com um conjunto de assuntos abordados com o intuito de explicar, coerente e cientificamente, o porquê de ocorrerem tantos fenômenos variáveis na fala, e, ao elucidar-se sempre isso ao aluno, torna-se muito mais didático o seu aprendizado. 

Não é que não devamos ensinar o português padrão aos alunos, mas sim entender e analisar, de outra perspectiva, a situação e o meio onde estão inseridos para podermos tratar com empatia sua bagagem linguística e termos base de apoio para fazê-los assimilarem a importância do português padrão. Temos primeiro que nos conscientizar acerca das desigualdades e dificuldades de acesso que esses alunos têm para podermos oferecer uma educação completa, abarcando as suas variedades linguísticas, que são essenciais e riquíssimas, e contemplando a norma padrão, primordial para o crescimento social na formação do cidadão. Ratificando, antes de ensinarmos o português padrão aos nossos alunos, temos que nos capacitar para entendermos a lógica existente no português não padrão para assim explicitá-la com exemplos simples aos alunos, para que eles se identifiquem e não se afastem.

“Os professores, administradores escolares e psicólogos educacionais tratam o aluno pobre como um ‘deficiente linguístico’, como se ele não falasse língua nenhuma, ” (BAGNO, 2014, p. 29) excluindo a bagagem linguística que o aluno já traz, como se ele chegasse à escola sem saber falar sua própria língua, quando, pelo contrário, ele é um falante pleno de português. 

Por isso a luta contra o preconceito linguístico é tão mais profunda do que mostra a superficialidade; vai muito além de simplesmente corrigir alguém que usa o pronome oblíquo mim como pronome pessoal do caso reto, ou quando, por exemplo, faz uso do fenômeno chamado rotacismo e, ao invés de problema, usam “pobrema”. São fenômenos estruturais da sociedade e que demandam longo tempo para se dissipar. É um trabalho de “formiguinha”, e que devemos insistir constante e incessantemente até que o conceito esteja impregnado e os docentes reproduzindo-o com eficiência. As variedades linguísticas não são um inimigo em comum, e sim, fruto de distintos fenômenos linguísticos, internos ou externos à fala, que devem ser vistos como uma riqueza cultural tal como a variante padrão deve ser ensinada e, o porquê do seu uso e aprendizado serem tão importantes, bem explicados.

“Tudo aquilo que é considerado erro no PNP[10]  tem uma explicação científica, do ponto de vista linguístico ou outro, lógico, pragmático, psicológico” (BAGNO, 2014, p. 35). Em seu livro A Língua de Eulália, Bagno discursa sobre algo interessante: se tantas pessoas cometem esses “pequenos erros”, se apropriam – os chamados falantes "cultos" da língua – das recorrências informais, como “para mim fazer”, o tempo todo, por que falamos em erro comum e não em acerto comum?  E conforme os eventos se encaminham, onde as variedades não padrão estão imergindo cada vez mais os círculos formais, quanto tempo demorará até que uma reforma gramatical seja feita? Nada nos impede de formular hipóteses. A língua é viva, e tudo que hoje discriminamos pode vir a ser o certo da próxima década, como já ocorreram tantas vezes em nossa língua. O erro, até virar acerto, foi considerado erro por muito tempo.

Ambos o português padrão e o português não padrão seguem uma coerência lógica em suas formulações. Esse fato permite que o falante da variante não padrão, consiga apreender e assimilar as normas do português padrão, ainda que em sua lógica interna a variante não padrão do português seja bem mais simplificada e natural que a norma padrão, pois segue as tendências naturais da língua e talvez por isso, o português padrão possa causar estranhamento inicial aos falantes acostumados a essas tendências quando vão aprender as normas sofisticadas, algumas pautadas em arcaísmos que carecem de explicações coerentes no tempo e espaço atuais. Por esse motivo que a capacitação imanente dos nossos profissionais deve proporcionar uma base linguística fortalecida, para poderem lidar com o ensino da norma padrão de maneira mais eficaz e inclusiva.

Posto que as similaridades entre o PP (português padrão) e o PNP (português não padrão) são muito maiores que as diferenças, fazemos o questionamento do porquê de as pessoas enfatizarem tanto essas diferenças. Bagno (2014, p. 38) diz que as pessoas “não enfatizam as diferenças linguísticas, mas sim as diferenças sociais”. E devido a nossa estrutura social preconceituosa, isso está tão enraizado que fazemos e nem nos apercebemos. Assim, é de extrema importância que nos atentemos sempre às novas informações acerca do assunto para não veicularmos preconceito, mas sim que possamos contribuir para a sua extinção.

Um fato curioso e pertinente é que as línguas românicas, como a nossa, foram derivadas do latim vulgar, próprio das classes mais baixas na cadeia social, falado pelos comerciantes e pessoas comuns, reservando-se o latim clássico aos nobres da monarquia e clero, aos poetas e filósofos. Constamos com essa informação que não importa por quem determinada língua é falada, o que importa é o valor que a classe dominante atribui a ela. Uma vez que a formação social dominante coloque status em algo, esse irá vigorar em detrimento dos outros. Exemplo disso foi o uso – uma vez consagrado como língua oficial – da língua portuguesa, derivada do latim vulgar na obra de Camões Os Lusíadas, considerada até hoje o marco da língua portuguesa e exemplo da mais prestigiada escrita. E para ratificar esse pensamento, Bagno (2014, p. 41) nos aponta que:

Algumas das características do PNP já estão sendo encontradas nas variedades usadas por falantes cultos, plenamente escolarizados. Isso deixa claro que, por mais que sejam refreadas, as forças de mudança interna da língua nunca param de agir.

Bagno (2009) declara que existe uma tendência natural na língua conhecida como rotacismo, que consiste basicamente em transformar o /r/ em /l/ nos encontros consonantais. Temos um registro na obra Os Lusíadas, onde Camões faz uso de dois registros de uma mesma palavra: ingrês e inglês. Nos tempos antigos havia essa possibilidade de usar as duas formas sem que nenhuma fosse considerada errada. Isso ocorreu até que um desses registros foi definido como padrão. O que mudou foi a aceitação das pessoas: se antes havia a possibilidade de duas ocorrências – ingrês e inglês – sem discriminação, hoje, com a sistematização da norma padrão, faz-se graça de quem utiliza a norma considerada não padrão, que segue, basicamente, a tendência natural da língua. Contudo, a falta de informação, de ensino sociolinguístico nas escolas e de disseminação do assunto faz com que a manutenção desse preconceito seja sempre atualizada.

No lugar do riso, da discriminação, por que não olhamos para essas ocorrências com outros olhos, os de cientistas, exploradores, pesquisadores, e busquemos entender o fenômeno ocorrido (para assim podermos ensinar o padrão politicamente aceitável) em vez de julgarmos e excluirmos os falantes, não oferecendo a eles a oportunidade de se apropriarem do português padrão para que alcancem seus objetivos pessoais e profissionais?

Outro fator que também contribuiu e ainda contribui para o preconceito linguístico é que na tentativa desenfreada de se estipular um padrão único de escrita que seria reproduzido por todos, deu-se pouca ou quase nenhuma ênfase ao fenômeno da fala. Nos livros didáticos vemos os autores exaltando de toda forma a língua escrita como bela, pura, certa, enquanto a língua oral é cheia de vícios e deturpações (BAGNO, 2009). Querem nos obrigar até a falar identicamente como se escreve. Descaracterizaram tanto a língua oral que hoje é muito mais difícil, beirando o impossível, desmistificar todos esses preconceitos.

A língua escrita serve como registro permanente[...] é usada para a transmissão do saber e da cultura, e muitas vezes é até interessante que ela permaneça sem muitas mudanças, para que a gente possa ler com facilidade documentos antigos e textos impressos há muito tempo. O que não podemos admitir é que ela seja usada como um “instrumento de tortura” ou uma “prisão” para a língua falada (BAGNO, 2014, p. 87).

Como encontramos nos manuais sociolinguísticos e livros sobre variação linguística, “as coisas que acontecem na nossa língua são muito mais sutis e complexas do que as ideias autoritárias de ‘certo’ e de ‘errado’” (BAGNO, 2014, p. 99). Em consequência, é inaceitável utilizarmos a dicotomia certo versus errado para menosprezar ou exaltar a atitude de um aluno referente ao uso da língua. Principalmente com alunos advindos das camadas sociais mais baixas onde em sua maioria convivem com uma comunidade falante semianalfabeta e que só faz uso da variante não padrão. A pergunta a ser feita é: estão falando certo ou errado de acordo com o quê e com quem? E essa pergunta deve ser respondida e esclarecida aos alunos no ambiente acadêmico. Os alunos se encontram diminuídos e menos propensos a aprender quando se sentem incapazes, perdendo quaisquer vestígios de interesse ao que vem sendo ensinado. Dessa forma, é de extrema importância nos atentar sempre ao que estamos ensinando nas salas de aula e de que forma, para que no lugar do preconceito, sejamos capazes de propagar o incentivo e o interesse aos educandos sobre o conhecimento da sua própria língua, reforçando sempre a proposição de que a linguagem é poder.

Como exemplo podemos considerar uma variável no português não padrão e seu devido fenômeno linguístico, explicado. Apresentamos dois grupos de palavras, expostas nos quadros abaixo.

Quadro 1 - Palavras iniciadas com /bo/

   boato  

   boneca  

   bocado  

   borracha  

   bodega  

   botão  

   bolacha  

   boteco  

Fonte: Adaptado de Bagno (2014, p. 100)

Quadro 2 - Palavras iniciadas com /mo/

   mocambo  

   moleque  

   moeda  

   moqueca  

   moela  

   morango  

   molambo  

   mostarda  

Fonte: Adaptado de Bagno (2014, p. 100)

Podemos perceber, facilmente, que, nessas palavras, tudo que é escrito inicialmente com /bo/ e /mo/ pronunciamos /bu/ e /mu/. 

Nesse fenômeno, ocorre a redução da vogal /o/ em /u/ frente a uma consoante bilabial – que, no nosso exemplo, são o /b/ e o /m/ – e a isso se dá o nome de harmonização vocálica. Como os fonemas /b/ e /m/ são bilabiais e para pronunciarmos a vogal /o/ precisamos de um arredondamento muito grande da boca para melhor fluidez e por maior aproximação, os lábios “espremem” esse /o/ em um /u/, que é mais fechado que a vogal /o/ (BAGNO, 2009).

As mudanças, variações e evoluções no aparelho fonador que correspondem à maneira como reproduzimos os sons são extremamente sutis e naturais, mas, mesmo assim, podem corroborar com a constituição de alguns valores que são ditados pela ideologia dominante, presente em uma determinada formação social, sobre os demais membros da sociedade.

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Um outro exemplo é a explicação da variedade de verbos iniciados com a vogal /a/ no português não padrão, como: alembrar, ajuntar, alumiar etc. Esses verbos assim construídos advêm do fato de que na formação da língua, precisamente na formação de alguns verbos em latim, fazia-se a junção da preposição ad, usada como prefixo, à palavra: ad + préndere = apprendére (aprender); ad + flúere = afflúere (afluir) dentre outros. Assim, iniciou-se uma “generalização” do uso. Começou-se a usar essa regra para criar verbos indiscriminadamente, perdendo a evidência do motivo daquele prefixo estar presente. Os filólogos e literatos de Portugal, que almejavam estabelecer um conjunto de regras e normas para a língua portuguesa "culta", aquela que se transformara no idioma oficial do país, decidiram eliminar da norma padrão o prefixo ad (/a/) de alguns verbos, ou porque não correspondiam a nenhum verbo original latino ou já não mais mantinham o sentido original que o prefixo impunha (BAGNO, 2009). E foi por esse motivo que, no português moderno, os verbos citados no início do parágrafo perderam o prefixo /a/ de acordo com a gramática normativa. Todavia, como o português não padrão é regido por regras internas e naturais e de uma tradição majoritariamente oral, muitas pessoas continuaram a pronunciar a forma antiga de alguns verbos, perpetuando a preposição /a/ em tal cenário.

Vemo-nos inseridos num contexto linguístico que nos obriga a ir na direção contrária à fala, a falar de maneira artificial, robótica, por imposições que não fazem mais sentido. Somos ensinados a pronunciar a forma escrita fielmente ainda que sejamos naturalmente induzidos às manifestações naturais das mudanças da fala no decorrer dos tempos. É preciso uma revisão dessas normas, uma flexibilização e atualização do que é imposto e a maneira como nos é imposto. É de vital importância uma base normativa para a unidade linguística dos falantes de um determinado país, contudo, os já estudados dialetos nos provam que é impossível restringir a língua portuguesa a somente uma variação ou ocorrência. Temos que encontrar meios de coexistir com essas variantes sem que uma seja vista como superior a outra. Com maior prestígio social, sim, todavia, não significativamente melhor. Ensinar o aluno a falar de acordo com a variante padrão, mas, principalmente, a escrever de acordo e não o repreender de forma ridicularizante quando usar ocorrências resultantes de forças internas e provenientes do meio que veio e que vive, encorajando-o a adequar sua fala a cada ambiente, ensinando-o e fortalecendo-o frente às demandas sociais.

5. LINGUAGEM E IDEOLOGIA

Este capítulo nos auxiliará a entender a complexidade do discurso e suas implicações. Norteará o conceito defendido no capítulo anterior que diz que o preconceito linguístico, sobretudo, é um preconceito social. 

Para compor este capítulo, tomamos por base a obra de José Luiz Fiorin, Linguagem e ideologia (2009) que irá descrever as manifestações no nível da linguagem e suas implicações ideológicas.

Fiorin (2009, p.7) afirma que o objetivo de seu trabalho não é falar mais do óbvio acerca das variedades linguísticas e como a variedade padrão é aquela utilizada pelas classes de maior prestígio social e tida como “culta” e, em contraponto, as utilizadas pelas classes mais desfavorecidas se reservam às ridicularizações, pois dirá que isso já é óbvio.

Embora o exposto pelo autor faça algum sentido, devido às experiências que vivenciamos em salas de aula, percebemos ainda o imenso distanciamento que existe entre algumas pessoas no que diz respeito ao entendimento dos problemas acima apontados. A falta de compreensão deságua em argumentos e refutações insustentáveis, que se explicam na falta de conhecimento e na falta de um ensino linguístico apropriado. O objetivo é, então, “verificar qual é o lugar das determinações ideológicas neste complexo fenômeno que é a linguagem”. (FIORIN, 2009, p.7)

Precisamos abarcar a ideia de que a linguagem é um elemento de estudo único em suas especificidades; ela é individual em sua estrutura interna e social ao mesmo tempo. A linguagem é acometida por fatores sociais, mas também específica em sua condição. Ou seja, a linguagem sofre determinações sociais e mantém certa autonomia em relação as mesmas. São dicotomias: a linguagem é pluralidade: social e individual, física e psíquica (FIORIN, 2009).

É necessário se fazer algumas distinções para melhor compreensão do tema. No sistema de linguagem teremos alguns níveis. Fiorin diz que “o sistema é a rede de relações que se estabelece entre um conjunto de elementos linguísticos” (2009, p. 11). Dentro desse sistema, teremos o nível abstrato, que podemos chamar de língua, e dentro dessa teremos duas divisões: o discurso e a fala. O discurso é todo o sentido, a conotação, os sentimentos expressos pelo veículo “fala”.  A fala é como um canal, a título de exemplo, visualize um megafone por onde sai nossa voz e por onde expressamos nosso discurso no mundo. A voz, ao entrar por uma abertura do megafone é uma e, ao sair, transforma-se no discurso, pois, nesse momento já será uma formação discursiva carregada das formações ideológicas reproduzidas em sua formação social. A fala é natural, estrutural e individual. O discurso sempre será coletivo. 

Dito isso, a linguagem é integrada à dicotomia individual x social, pois neste estudo a dividimos em nível de fala e discurso. Sendo assim, o sistema goza de certa e não total autonomia em relação às formações sociais posto que um nível se relaciona com o coletivo e o outro é reservado à individualidade.

É importante frisar que o sistema da fala, maioritariamente, sofrerá alterações internas, fonológicas, e que são esses fenômenos já estudados e explicados que darão base científica para o estudo das variações linguísticas. Explicitar, portanto, essas alterações, não são o foco deste trabalho, mas sim como as implicações que os preconceitos advindos dessas variações afetam significativamente o ensino, uma vez que desrespeitar a fala de alguém é desrespeitar sua identidade como pessoa. E para combater o preconceito linguístico, somente o conhecimento.

Logo, que as línguas sofrem alterações internas ao seu sistema fonológico, em geral, é inegável, contudo, o fato de um termo cair em desuso em detrimento de outro, por exemplo, está intrinsecamente ligado a um fato externo, social. Os gêneros (feminino, masculino e neutro) no latim correspondiam a uma visão mítica das coisas, portanto, os nomes das árvores eram femininos porque o termo estaria relacionado à reprodução, fertilidade, ao ato de dar o fruto (FIORIN, 2009). Temos, todavia, um exemplo de como o discurso advindo das formações sociais em que estão inseridos os povos em determinada época, também influenciará em algumas determinações variacionais. Distinguimos que, “é no nível do discurso que devemos, pois, estudar as coerções sociais que determinam a linguagem” (FIORIN, 2009 p. 16).

Revisaremos no âmbito do discurso dois conceitos: a sintaxe discursiva e a semântica. A primeira terá certa autonomia quanto às coerções sociais embora também se utilize de elementos para veicular conteúdos determinados pela estrutura social. Citemos um exemplo: ao utilizarmos a ordem direta em uma oração, sujeito mais predicado, implicitamente queremos dizer algo com aquilo. Vejamos nas sentenças “Eu achei a bola ali”, ou “A bola, eu achei ali”. A segunda frase, por exemplo, ao inverter a ordem direta, coloca uma ênfase maior ao item lexical modificado − a bola, ao introduzir primeiro a ideia para depois dizer o que se pretende a respeito dela, uma curiosidade é gerada. No caso citado a ordem sintática afetou o modo como o discurso foi reproduzido.

É o campo semântico, porém que irá se incumbir dos estudos dos fatores sociais ocorrentes no mundo numa determinada época. Dependendo mais diretamente de tais fatores, o discurso irá surgir a partir desses elementos, inevitavelmente, pois constitui a visão de mundo da personagem inserida na sociedade. Tais determinações sociais vão constituindo a consciência do homem ao longo dos anos e algumas ideias vão se perpetuando até que alguns conceitos fiquem tão enraizados que não temos nem mais explicações para elas. Como exemplo podemos considerar as frases que viraram bordões na sociedade, como: a mulher é mais frágil que o homem, dinheiro não traz felicidade etc.

5.1. Ideologia

É necessário entender um pouco o que é ideologia para projetarmos onde se insere o discurso na realidade. As formações sociais são divididas em dois níveis da realidade: um da aparência e outro da essência. Ou seja, um nível aparenta as coisas como são na superfície e que, por isso, dita as regras sociais da comunidade em que está inserido, e o outro, o profundo, que é ocultado parcialmente pelo primeiro, tendo que ser feita uma análise mais intensa para o desvendarmos.

É no primeiro nível que as ideias e o conjunto de representações que explicam determinada ordem social são chamados de ideologia. A ideologia é tida como “falsa consciência”, posto que é formada a partir do nível superficial da realidade, contudo, são muitas visões de mundo dentro de uma determinada formação social, e muitas formações sociais, por conseguinte; então é justo dizer que algumas visões de mundo ou ideologias ficaram presas à forma da aparência, mas outras podem ultrapassá-la chegando até o nível essencial. Assim sendo, nem toda ideologia é “falsa consciência”, todavia, “no modo de produção capitalista, a ideologia dominante é a ideologia burguesa” (FIORIN, 2009, p. 31).

Sendo assim, todo o discurso reproduzido no mundo, em sua essência, será um discurso que privilegie às classes burguesas, camuflando o real problema que enfrentamos, que é a desigualdade social. É extremamente cômodo, e atende às necessidades das altas classes, continuar subordinando o aluno periférico para que se crie um vínculo sem fim de opressão e uma cultura do “emburrecimento”. Ao colocarmos um aluno que cresceu cercado de privilégios e por falantes da norma padrão ao lado do aluno marginalizado, sem acesso ao básico, teremos um gritante desconforto imanente, e ao incitarmos o preconceito linguístico, por mera desinformação e despreparo, sem levar em conta nenhuma condição social que rege as nossas vidas e as vidas dos educandos, estaremos contribuindo com o propósito maior do regime autoritário burguês de manter essa parcela da população completamente alienada.

À vista disso, chegamos ao ponto principal do nosso estudo. É muito mais fácil, simples e natural para uma criança burguesa se inserir no contexto escolar, se adaptar e aprender as normas da língua. Elas já provêm desse âmbito, já estão familiarizadas com falantes "cultos". As crianças pobres não, pelo contrário, essas vêm de um contexto totalmente diferente, e são as que mais necessitam de compreensão e de uma metodologia inclusiva no ensino. Ao se depararem com professores imodestos, prontos para tratar com despreparo as variações linguísticas, têm como primeiro impulso se fecharem internamente, se fecharem para o aprendizado, criando obstáculos próprios como "o português é muito difícil", "nunca aprenderei a falar assim", "são muitas regras para decorar" etc. Tornamos o ensino um martírio. Essas crianças sentem-se excluídas, incitamos isso, proposital ou inconscientemente, quando não advertimos um colega ao rir do outro por não pronunciar determinada palavra de acordo com a norma padrão, por não os conscientizar acerca das variações e seu embasamento científico. 

Precisamos ser ativos na desconstrução do preconceito, pois ele vai muito além da superfície e afeta drasticamente a formação desses alunos, em como eles serão inseridos no mercado de trabalho e em como serão vistos nas formações sociais.

6. SOCIOLINGUÍSTICA EDUCACIONAL

Por volta dos anos 1970-1980, ocorreu um significante crescimento da população escolar brasileira, resultado de uma política educacional implantada após a revolução de 1964. A circunstância fez com que os professores, acostumados a lecionar para uma pequena parcela de alunos “cultos” e letrados, se encontrassem num “caos linguístico” ao se depararem com alunos oriundos de diversas classes sociais, que traziam consigo as variantes não padrão da língua portuguesa. O acontecimento, que atualmente para nós é familiar, – representou uma enorme dificuldade para os educadores daquela época adaptarem suas metodologias e didática para atender a outra parcela da sociedade.

Para se desconstruir uma ideologia dominante demanda-se excessivo tempo, e a conduta de ensino voltada às classes de maior prestígio perpassou muitos anos. Junte-se a isso o fato de sermos uma sociedade fundamentalmente conservadora e teremos como resultado a persistência da dificuldade que encontramos outrora. Não obstante, a nova geração de educadores e pesquisadores vem trabalhando com afinco para desmantelar esses valores ultrapassados que só prejudicam o ensino-aprendizagem.

Se os estudos sociolinguísticos são relativamente recentes em nossa sociedade, as iniciativas de divulgação e promulgação desses estudos são ainda mais. Principalmente os objetivos de estudo da Sociolinguística Educacional. Somente há pouco tempo que publicações voltadas para um público maior começaram a ser feitas e, além disso, de fato iniciadas ações transformadoras com relação a conectar teoria e prática que vem a ser a real intenção da Sociolinguística Educacional: conscientizar os professores e ensiná-los novas táticas aplicáveis em sala de aula para lidar com a bagagem linguística do educando, sem menosprezar sua fala. 

Em seu livro Educação em Língua Materna – a Sociolinguística em Sala de Aula – Bortoni-Ricardo propõe diversas atividades lúdicas e didaticamente atrativas para serem utilizadas pelos professores no processo de ensino-aprendizagem, para desenvolver as mais completas e ricas competências linguísticas dos alunos. Mais à frente falaremos aqui sobre uma ou duas dessas atividades, trazendo um vislumbre do que pode ser feito em sala de aula para contribuir com o ensino dessas competências.  

Como já posto em um outro momento, sabemos o quão importante é a influência do que é dado pelo professor em sala de aula a seus alunos pois isso pode comprometer todo o futuro desse educando, desde a maneira como ele vê a língua – o modo como ele se apropriará ou se afastará dela – até suas relações profissionais.

A criança, em seu processo de aquisição da linguagem, estará exposta a três ambientes de sociabilização essenciais, aos quais Bortoni-Ricardo (2004) chamará de domínios sociais, que seriam: a família, os amigos e a escola.

Na disciplina Linguística Aplicada ao Ensino da Língua Portuguesa, aprendemos algumas concepções de gramática. Para nosso estudo, precisamos entender melhor três destas, que seriam a gramática normativa, que é aquela baseada no uso de regras preestabelecidas e que só admite como certa a variante padrão da língua − essa é a gramática que ensinamos nas escolas, que está nos livros didáticos e nos dicionários; a gramática descritiva, que é a gramática utilizada pela linguística cujo objetivo é descrever as línguas como são faladas, ou seja, se baseia nos usos reais da língua. Utiliza o conceito de adequado e inadequado, visando o uso do termo “erros de português” como inadequado e preconceituoso, “erros de português são simplesmente diferenças entre variedades da língua” (BORTONI-RICARDO, 2004, p. 37). A gramática descritiva verá o erro baseada em outros quesitos, relacionados a problemas no aparelho fonador que impossibilitem a compreensão ou dificuldades na decodificação de uma palavra. A gramática descritiva se atém às regras de funcionamento interno das variações linguísticas, preservando, no sentido gramatical, tudo aquilo que é passível de entendimento e compreensão. E como terceira concepção, temos a gramática internalizada, que é aquela que apreendemos no decorrer das nossas relações sociais de linguagem, seja no seio familiar ou fraterno. Postas tais diferenciações, uma proposta para melhor apreensão do nosso aluno no ensino das regras impostas pela gramática normativa – e que muitas vezes inclinam os alunos a cogitarem que nunca irão aprendê-las devido à tamanha complexidade, e não se veem atraídos a aprender uma nova forma de se comunicar completamente diferente da qual eles já estão habituados  – seria elucidar a esse aluno a importância de se dominar todas as variantes, contudo, essencialmente a de prestígio, por ser ela quem abrirá portas em sua vida social, profissional, financeira etc.

Podemos, como uma opção didático-pedagógica diferente da atual, começar a adaptar o uso inverso dessas concepções de gramática em sala de aula no ensino de língua materna. Por exemplo, começando com a gramática internalizada, seguindo para a descritiva e, por último, a normativa. O modo como é feito atualmente é o contrário, lutamos para embutir a gramática normativa sem antes nos apercebermos de que o educando primeiramente possui uma gramática interna, que o acompanha até a escola, e trata como erro toda sua bagagem cultural linguística.

Entendidas as concepções, fica compreensível o papel dos domínios sociais na vida das crianças provenientes das classes menos privilegiadas. No domínio social familiar ou fraterno ela desenvolverá a gramática internalizada; ao longo da sua vida, por meio das relações sociais de fala, exercitará a gramática descritiva; e, ao chegar no domínio escolar, terá contato com a variante padrão da língua, tendo acesso à gramática normativa.  

Ao seguir a direção contrária das gramáticas nas salas de aula, teríamos o seguinte processo: internalizada – descritiva – normativa. A criança internaliza a gramática por exposição aos dados; portanto, a exposição à variante padrão facilitaria a aprendizagem através de leitura, escrita, narrativa oral, debate e interpretação. Como tratar o “erro”? Não façamos correção imediata e compreendamos que não se eliminam tais “problemas” por exercícios estruturais (análise sintática, memorização das regras de acentuação e classes gramaticais etc), eles desaparecem com a prática, e para isso precisamos conquistar o aluno, despertar o interesse e a curiosidade dele. Vejamos ao analisar a frase “Os pessoal já foi tudo pra casa”, conseguiríamos utilizar a gramática descritiva e discutir a aceitabilidade dessa frase em um contexto informal e a adequação para um contexto de domínio social formal, como o trabalho, atualizando-a de acordo com a gramática normativa.

Verificamos então na escola a aplicabilidade das três gramáticas: a produção do aluno reflete o que ele sabe – gramática internalizada; comparar as formas sem preconceito – gramática descritiva; discutir aceitação e rejeição social – gramática normativa.

Para desconstruirmos o preconceito linguístico é necessária uma profunda reflexão acerca dos valores morais e éticos expostos no processo de sociabilização. A reprodução do preconceito em sala de aula é, antes de tudo desleal, uma vez que encontramos uma enorme variedade linguística no discurso docente, o próprio que irá discriminar a fala do aluno sem embasamento científico para isso, tornando o ensino um suplício. Bortoni-Ricardo expõe um relato em seu livro sobre uma colega recém-chegada de uma zona rural da Paraíba à um colégio da zona urbana que, ao fazer o seguinte questionamento: "Que palavra é aquela lá em riba?" à sua professora, na época, teve sua fala ridicularizada em frente aos colegas (2004, p. 25).

Essa é uma atitude muito comum reproduzida por professores, embora gostaríamos que não fosse. Pelo relato temos comprovação do quanto uma reprimenda humilhante engendra marcas ao ponto de a pessoa lesada ter recordações por toda sua vida. É preciso um cuidado extra e uma atenção redobrada quando nos encontramos numa posição hierárquica acima do outro, no caso, a de professor, cuja função é auxiliar na formação de cidadãos, pois podemos causar desistência ou não desenvolvimento pleno das competências comunicativas por medo da repressão, levando essas marcas durante toda a vida.

Outro exemplo que a Bortoni-Ricardo (2004) nos oferece é o de que muitos professores, advindos das regiões Norte e Nordeste, muitas vezes sofrem preconceito devido a seus dialetos regionais ao tentarem emprego nas metrópoles de outras regiões. A variedade que ganhou prestígio devido ao grupo pelo qual é falada nada tem de melhor, linguisticamente falando, do que as outras. O poder atribuído a ela é puramente ideológico. "Lembre-se de que a pluralidade cultural e a rejeição aos preconceitos linguísticos são valores que precisam ser cultivados a partir da educação infantil e do ensino fundamental" (BORTONI-RICARDO, 2004, p. 35). Esses juízos de valor geram preconceitos gravíssimos que devemos combater. Um professor ser discriminado por ser proveniente de determinada região geográfica e afirmarem que sua fala pode influenciar negativamente os alunos é de uma perversidade tamanha. 

O ciclo de preconceito linguístico se perpetua há muito tempo. Ainda no tempo presente, a maioria das pessoas não dá a devida importância ao fato, chegando alguns até a menosprezar os estudos sociolinguísticos, afirmando que são exagerados no que se referem à influência que o preconceito linguístico exerce na educação e justapondo que a escola é um lugar para aprender regras rígidas e não um local de entretenimento. Ora, é verdade que progredimos bastante em quesitos metodológicos inclusivos e didáticos; contudo o ensino de língua continua sendo tratado como um estigma. À filiação, talvez, dos colonizadores, nos falte o sentimento de individualidade e a necessidade de se manter uma língua tão próxima quanto possível da de nossos invasores seja ainda algo predominante, é possível que na mentalidade de alguns a variante padrão se equivalha à identidade linguística do povo brasileiro. É um fator controverso e que precisa ser revisto, pois somos justamente um país decorrente da miscigenação que nos proporcionou uma rica pluralidade cultural.

Na sala de aula assim como na vida social "há eventos que são conduzidos com mais formalidade e mais monitoração linguística que outros" (BORTONI-RICARDO, 2004, p. 26). Logo, é essa dicotomia que precisamos trabalhar com nossos alunos para eles saberem distinguir quando usar o estilo monitorado e o não monitorado. E isso fazemos com acesso à leitura e produção de textos. 

Uma atividade interessante que podemos realizar é levar um gravador para a sala de aula e gravar ocorrências da fala de nossos alunos em momentos diversos, e, em concomitância, pedir para que eles produzam um texto; depois disso, podemos fazer uma comparação sobre as variantes aplicadas à fala, quando não estão monitorando o estilo, contraponto com o estilo monitorado do texto. Eles visualizarão que é possível dominar diversas variantes simultaneamente. (BORTONI-RICARDO, 2004).

A capacidade que temos de nos adaptar é admirável. Logo toda vez que alguém reproduz o discurso de que se permitirmos variação linguística em sala de aula tal feito poderá influenciar para que o aluno não aprenda a variante padrão deve ser considerado incabível. Nós mesmos, o tempo todo, alternamos o estilo monitorado com o não monitorado. O que precisamos fazer é incentivar a escrita e a leitura como hábitos intrínsecos para que, a cada dia, o educando esteja mais familiarizado com a variante padrão para poder utilizá-la nos ambientes formais onde se faz necessária.

Ao professor não cabe somente ensinar a variante padrão, mas antes ser sensível aos conhecimentos linguísticos prévios dos educandos, empenhando-se em conscientizá-los acerca dos usos adequados das variantes linguísticas, permitindo a eles o direito de lutar pela cidadania ao se apropriarem da norma padrão usufruindo da variante falada pela classe dominante. 

Daremos mais alguns exemplos de atividades que podem ser trabalhadas em salas de aula, porém, concomitantemente, iremos retomar alguns conceitos explicativos que se fazem necessários.

Sabemos que a variação linguística estará presente, intrinsecamente, em quaisquer lugares, e que ela decorrerá de vários fatores (gênero, status social, região etc). Dito isso, podemos e devemos utilizar tais fatores a favor da educação linguisticamente inclusiva, ao inserir atividades que sejam pertinentes a cada uma dessas condições no contexto escolar. 

Uma atividade que causa bastante interesse em sala de aula é aquela consistida em solicitar que os alunos façam uma comparação entre as variantes faladas por seus pais e avós (ou quaisquer tutelares cuja idade seja substancialmente superior ao do tutelado, para que possam ser verificadas as variações diacrônicas) com a que eles usam atualmente. Essa atividade conceitua diferenças sociolinguísticas intergeracionais, ou seja, que ocorrem através de gerações, e exemplifica um fator sociolinguístico proveniente de grupos etários. Podemos aplicar essa mesma atividade no que tange o vocabulário de homens e mulheres, por exemplo. Perceberemos que às mulheres reserva-se um vocabulário mais tenro, com predominância de diminutivos como gracinha, fofinho etc., e aos homens uma linguagem mais chula. Ao pesquisarmos a fundo o motivo dessas ocorrências, veremos que também a fala é fruto intrínseco das relações sociais e o léxico que compõe o discurso de determinado grupo social é fruto das ideologias dominantes presentes. Sendo assim, à mulher, devido à estrutura e as consequências de uma sociedade patriarcal, fica reservada uma linguagem que tem “a função de obter aquiescência e concordância do interlocutor” (BORTONI-RICARDO, 2004, p.47), e o homem, para manter seu papel social, se apropria de uma linguagem bruta. Esse fator é relacionado ao gênero. Outros fatores como status socioeconômico, grau de escolarização, mercado de trabalho e rede social estão intimamente ligados. Vejamos:

Todos esses fatores representam os atributos de um falante: sua idade, sexo, seu status socioeconômico, nível de escolarização etc. Podemos dizer que esses atributos são estruturais, isto é, fazem parte da própria individualidade do falante. Há outros fatores que não são estruturais, mas sim funcionais. Resultam da dinâmica das interações sociais. Podemos, então, dizer que a variação linguística depende de fatores socioestruturais e de fatores sociofuncionais (BORTONI-RICARDO, 2004, p. 49).

Por conseguinte, a rede de relações sociais influi diretamente na forma como nos comunicamos e no nosso repertório léxico. Ao compararmos o vocabulário de um homem versus o de uma mulher, ambos migrados de uma área rural para a urbana, ambos com pouca escolaridade e nível social similar, teremos reservado ao homem um vocabulário mais vasto com menos usos dos traços característicos dos falares rurais, enquanto à mulher, reservar-se-á um vocabulário e um sotaque quase sem alterações. Isso se dá pelo fato de que as mulheres dessa comunidade rural e patriarcal, se restringem a um círculo social abreviado, cercado por familiares e amigos próximos, e o homem, pelo fato de expandir sua rede de sociabilidade, tem mais contato com as variantes urbanas, e consequentemente mais facilidade de reproduzi-las e internalizá-las.

Vimos que a atividade de comparação entre as variantes é uma opção abundante para aplicação em sala de aula e, também, que a variação linguística advém de diversos fatores presentes na sociedade, sendo um estudo complexo justamente devido a seus substratos sociais.

Utilizemos, como outro fator explicativo, a marcação redundante do plural na norma considerada padrão. Ela ditará que, de acordo com a gramatica normativa, cada elemento de uma frase deverá ser flexionado de acordo com a indicação de número – singular ou plural – gerando assim uma redundância que, em termos práticos, não se faz necessária, enquanto nas variantes tipicamente orais, flexionamos somente um elemento da frase, costumeiramente, o que não impede que compreendamos, com clareza, que se trata de uma frase com uma marcação de número no plural. 

Podemos utilizar como atividade para treinamento do monitoramento estilístico dos alunos frente às variações linguísticas o debate, com textos variados, onde é possível identificar marcações redundantes e marcações enxutas de plural nas sentenças; peça-os para trazerem letras de suas canções preferidas, pois com elas terão acesso às variações linguísticas cotidianas para conhecerem e enriquecerem seus repertórios vocabulares. 

É sempre estimulante contrapor os estilos – monitorado versus não monitorado, –  pois isso torna evidente a incrível capacidade que temos de alternar os estilos facilmente, e também salienta a importância de dominarmos a variante padrão (inferimos que a variante não padrão seja parte inerente da população), nos contextos que a pedem, justamente para facilitar essa alternância quando necessária. Nas palavras de Bortoni-Ricardo (2004, p. 60) “é preciso que os alunos que usam a variante sem redundância na sua linguagem oral, espontânea, aprendam a se monitorar para usar a variante com plurais redundantes nos estilos monitorados.” 

Após vermos algumas atividades que podem nos auxiliar a tornar o processo do ensino de língua mais inclusivo, vamos, agora, breve e superficialmente, esclarecer e iluminar os conceitos defendidos neste projeto, perscrutar acerca da competência comunicativa, favorável aos seres humanos, um conceito defendido pelo linguista, sociolinguista, antropólogo e folclorista Dell Hymes, que complementa a ideia de competência elaborada por Chomsky. 

O linguista Ferdinand de Saussure, em seus estudos, propôs uma distinção entre língua e fala, reservando à primeira o conceito de abstrata e que, para ganhar uma realidade concreta, precisaria do segundo elemento, a fala. Somente através da fala a língua ganharia concretude. Pois bem, anos depois, Noam Chomsky, um linguista americano, retomou essa distinção, no entanto, propondo uma dicotomia diferente, que seria a competência versus o desempenho. Da mesma forma que a dicotomia de Saussure, à competência se reservava a noção de abstração e ao desempenho o caráter de concreticidade. O estudo gerativista de Chomsky nos ensinou que a competência é o conjunto dos saberes de regras sistêmicas da fala que o falante internaliza e que lhe permite produzir sentenças bem formadas. De acordo com Chomsky, sentenças bem formadas são aquelas que estão de acordo com as regras morfossintáticas e semânticas impostas pelo sistema comunicativo que o fazem compreender infinitas sentenças. No outro polo, o desempenho é o inverso da competência, que consiste no conhecimento internalizado das regras. Já o desempenho é o uso efetivo da língua pelos falantes. 

Ainda na vertente dessas teorias, o linguista Dell Hymes acrescentou os conceitos de adequação e viabilidade, introduzindo o juízo de competência comunicativa. "A competência comunicativa de um falante lhe permite saber o que falar e como falar com quaisquer interlocutores em quaisquer circunstâncias" (BORTONI-RICARDO, 2004, p. 73).

Logo, de acordo com as explicações postas, fica-nos claro a habilidade que cada ser tem de produzir sentenças bem formadas, relembrando que sentença bem formada não tem nenhuma relação com o conceito de certo e errado prescrito pela gramática normativa. Uma sentença produzida por traços graduais por um falante advindo do meio rural é considerada bem formada, pois ela respeita as regras internas de entendimento já citadas, independentemente se segue o padrão imposto ou não.

Dito isso, é a questão da adequação que temos que trabalhar com nosso aluno. Somos perfeitamente capazes de alternar estilos a qualquer momento uma vez que temos acesso a todas as variantes. Concomitante a esse quesito, temos o conceito de viabilidade que, de acordo com Hymes, está associado a fatores sensoriais e cognitivos como audição e memória, ou seja, fatores que estão interligados com o ato da comunicação, portanto a proposta seria:

Uma teoria linguística que seja integrada com uma teoria de comunicação e cultura, e que, portanto, deve abranger (I) o que é formalmente possível, (II) o que é viável, considerando os modos de implementação disponíveis, (III) o que é contextualmente apropriado, e (IV) o que é de fato realizado pelos membros da comunidade (ALMEIDA, 2010, v. 35, p. 44).

Bortoni-Ricardo faz uma outra associação a esse conceito em seu livro, que relaciona a viabilidade "à noção de recursos comunicativos de diversas naturezas: recursos gramaticais, de vocabulário, de estratégias retórico-discursivas etc."(BORTONI-RICARDO, 2004, p. 74).

Sendo assim, o presente trabalho visa apresentar-se como um elo de reforço na luta contra a reprodução e perpetuação do preconceito linguístico que consequentemente provoca o afastamento dos educandos do processo de aquisição e expansão de seus recursos comunicativos, provendo vias amplas para que eles possam conhecer e enriquecer seu repertório cultural. É função primordial do educador propiciar uma experiência educacional intuitiva e prazerosa, indo na direção inversa ao mito de que a escola, impreterivelmente seja um martírio. Ademais, Bortoni-Ricardo exprime:

É papel da escola, portanto, facilitar a ampliação da competência comunicativa dos alunos, permitindo-lhes apropriarem-se dos recursos comunicativos necessários para se desempenharem bem, e com segurança, nas mais distintas tarefas linguísticas (2004, p. 74).

Ao término deste capítulo, obtivemos a oportunidade de refletir sobre os conteúdos que vêm sendo ensinados nos tempos atuais, às crianças e aos jovens, e a maneira como fazemos. Longe de supor que este trabalho venha a ser um manual sociolinguístico ou de educação em língua materna, nem que venha a suprir às necessidades do campo educacional, contudo, senão uma porta de entrada, um lampejo que possa despertar a curiosidade para o campo enorme e incrível da ciência linguística e todas as suas correntes. 

A Sociolinguística Educacional segue na luta, com muitas pesquisas e publicações de pesquisadores corajosos e revolucionários, que explicam e exemplificam as ocorrências caracterizadas como erros pelos conservadores prescritivistas. 

Na pior das hipóteses, que este trabalho nos permita refletir sobre a língua viva que falamos para que tenhamos o poder e o embasamento crítico para conscientizar também nossos alunos acerca dos usos concretos da fala, incentivando-os a se apropriarem com maestria da variante padrão para que consigam desenvolver plenamente suas competências linguísticas e se sobressaiam na sociedade comandada pela aristocracia. É de extrema importância e a nossa luta é para isso, que o aluno tenha plena consciência de que a linguagem é uma arma poderosíssima para combater a desigualdade social.

Por mais degradado que o sistema escolar nos pareça e nos demonstre estar, algumas vezes, ele definitivamente deve continuar sendo nosso alvo principal quando pensamos em implementação de atitudes que propaguem e promovam os ideias sociolinguísticos, pois ela é a única instituição que nos permite divulgar tais conceitos às nossas crianças em formação, ajudando-as a construir e desenvolver pensamentos críticos e conscientes acerca das variações linguísticas, principalmente, as diastráticas, por serem o cerne do preconceito propagado pela sociedade, tentando vagarosa e insistentemente a erradicação das ideias preconceituosas sobre a linguagem.

7. ANÁLISE DE DADOS

O corrente capítulo objetiva a análise dos dados coletados mediante uma pesquisa realizada através de questionários[11] enviados por e-mail a professores de língua portuguesa, de diversos segmentos, sobre variação linguística. Almejamos expor dados qualitativos e quantitativos, que referenciaram o que foi discutido neste trabalho, e buscaram elucidar as respostas concretas de professores de língua em um contato real com o corpo discente e as manifestações da fala. Para fins de elucidação, as perguntas contidas no questionário estarão disponíveis no final deste capítulo.

Entendemos que, por ser uma pesquisa primeiramente aberta, isto é, os informantes sabiam plenamente do que se tratava o objeto de estudo e, por esse motivo, a veracidade das respostas possa ser posta em dúvida, nosso objetivo foi justamente o de avaliar o comportamento (com base nas respostas) dos professores com experiências vividas em sala de aula relativo à linguagem.

Observamos, após análise, que todos os entrevistados foram unânimes nas respostas favoráveis à variação linguística, mostrando-se receptivos às inovações sociolinguísticas e conscientes acerca das implicações que discriminar um aluno por sua fala podem gerar. Afirmações à parte, sabemos o quanto a teoria foge à prática por motivos já apontados e discutidos no presente trabalho, todavia, a noção de consciência da unanimidade dos docentes se concretiza numa conquista consideravelmente satisfatória. Mais de 60% dos entrevistados acreditam que a substituição da dicotomia certo versus errado por adequado e inadequado possa ajudar o aluno a inserir-se com mais desenvoltura no contexto escolar, e os outros 40% preferem continuar fazendo uso de certo x errado por concluírem que são termos engendrados em nossa realidade que facilitam o discernimento concernente ao que deve e o que não dever ser feito. 

Com relação à função da escola dentro da sociedade, relativo ao ensino de língua, todos demonstraram conhecimento de sua importância dentro dos desígnios sociais, no entanto, as respostas foram rasas, atendo-se somente ao que é aparentemente tangível sem se preocuparem com as precariedades que permeiam o ensino e que têm a maior parte de contribuição no desempenho, positivo ou negativo, do educando.

Como salientado no segundo parágrafo deste capítulo, a aplicação do questionário não tinha a pretensão de averiguar profundamente os conhecimentos sociolinguísticos dos professores, mas, sim, de obter um norteamento com as respostas obtidas em relação a quantidade de educadores simpatizantes com a ideia da inclusão do estudo e da participação das variações linguísticas em sala de aula.

Ademais, vimos muito presente a influência inquisidora que a norma padrão ainda impõe. Devido à falta de informação, professores acabam por repelirem quase inconscientemente as variantes de menor prestígio colocando-as abaixo da norma padrão, como se fossem inferiores, o que sabemos não ser uma verdade absoluta, embora, sim, mantenham uma superioridade no quesito prestígio social, porém, essas são imposições ideológicas que devem ser debatidas e esclarecidas. Além disso, algumas respostas nos indicaram que alguns ainda nutrem a crença de que a escola é um lugar de apreensão de conteúdos e somente isso, no entanto, sabemos que à escola reservam-se funções sociais muito mais complexas, atuando diretamente na formação do sujeito como indivíduo e como ser social.

Quadro 3 – Questionário para professores de Língua Portuguesa.

Nome

Idade

Cidade

Ano que se formou ou se formará

Atualmente, ministra aulas para qual segmento?

Há quanto tempo ministra aulas de português?

Participa de cursos, seminários, palestras, lê novas publicações sobre educação, artigos, livros etc. regularmente para manutenção do saber?

Aceitar as variações linguísticas no contexto escolar seria desistir de ensinar a gramática normativa e confirmar a falência do atual modelo escolar? Explique sua resposta.

Combater a dicotomia certo x errado, trocando-a por adequado e inadequado pode de alguma forma ajudar o aluno a se inserir no contexto escolar? Explique sua resposta.

Qual a função da escola dentro da sociedade, relativo ao ensino de língua?

Fonte: Adaptado de Guilherme Cardozo (2014, p. 55-67)

8. Conclusão

O presente trabalho nos proporcionou a percepção, através da exposição e da discussão dos aspectos relativos aos dois cernes propostos, de que estamos diante de uma forte influência, nociva, chamada preconceito linguístico e reforçou a necessidade de se repensar o ensino da Língua Portuguesa, além da necessidade de integralização dos ideais sociolinguísticos educacionais, a fim de que se tenha uma prática docente mais consciente acerca dos valores éticos que, na construção de sujeitos ativos no mundo com direitos iguais à ascensão social, tornam-se mais importantes, em primeira instância, do que embutir análises sintáticas que não se internalizarão. 

Não visualizamos outra forma que possa ser mais eficaz para a melhoria do ensino de língua materna, mais inclusivo e equilibrado, com consequente esforço para erradicação do preconceito, que não fosse iniciada pela própria escola. A escola, como instituição deverá ser a primeira a oferecer os recursos necessários para uma luta justa e digna, exercendo as práticas da educação libertadora, cujo objetivo principal é o de formar cidadãos críticos e conscientizados, consequentemente aptos a adquirirem as competências linguísticas necessárias para seu ápice social.

Ao debatermos todos os pontos exibidos nesta pesquisa, devemos nos perguntar o que é mais importante para a formação do aluno como sujeito no mundo e tentar equilibrar as respostas, apresentando a ele a maior quantidade de possibilidades que forem possíveis. Lembrando que a educação e a escola são entidades sobretudo sociais e que não podem se desvincular da sociedade. Portanto, devemos entender que a discussão acerca dos debates sociais e do preconceito se tornam mais relevantes que dar ênfase no ensino primeiro de gramática. Pois ao tentarmos fazer isso, o ensino de língua continuará sendo ineficaz, todavia, devemos propor que a configuração inversa ao que vem sendo feito possa apresentar resultados significativos.

Desse modo, podemos insistir na ideia de que com a implementação de novas políticas educacionais voltadas para a inclusão dos estudos sociolinguísticos, que pensem primeiro no uso para depois pensar nas regras é em primeira instância o método com maiores e melhores chances de se combater o preconceito linguístico, com uma mudança no atual modo com o qual estamos habituados a ensinar.

O objetivo deste trabalho foi concluído, ao elucidar os conceitos previamente estipulados tais como o preconceito linguístico e seus impactos sociais, o atrelamento intrínseco de linguagem e ideologia e os preceitos da Sociolinguística Educacional, que embora ainda uma semente, vem criando raízes profundas de grande impacto social positivo.

Que ao término desta leitura o pensamento crítico se estabeleça e que possamos refletir sobre o que vem sendo construído, como estamos lidando com as limitações que nos são impostas e o que podemos fazer, mesmo que refreados, para melhorar o quadro atual. A verdadeira revolução advém do conhecimento profundo sobre as mazelas sociais e a constante luta para pôr em prática as teorias.

9. Referências

ALMEIDA, Virgílio Pereira de. Competência comunicativa e abordagem comunicativa: Dell Hymes fragmentado. Signo, Santa Cruz do Sul, v. 35, ed. 59, p. 44-57, 2010. Disponível em: http://online.unisc.br/seer/index.php/signo/index. Acesso em: 9 out. 2019.

Bagno, Marcos. A língua de Eulália: Novela sociolinguística. 17. ed. São Paulo: Contexto, 2014.  123 p.

Bortoni-Ricardo, Stella Maris. Educação em língua materna: A sociolinguística na sala de aula. 2. ed. São Paulo: Parábola Editorial, 2004.

Cardozo, Guilherme Lima. O preconceito linguístico proveniente das páginas de O Globo: Uma visão positivista e superada do ensino de línguas nas escolas. Aquila, Rio de Janeiro, v. 10, p.  55-67, 2014.

Fiorin, José Luiz. Linguagem e ideologia. 8. ed. São Paulo: Ática, 2009. (Princípios).

Freire, Paulo. Pedagogia do oprimido. 49. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2010.

MAIA, Eraldo (Eraldo Maia). Toda alteração fonética se dá num plano inconsciente. Quem opera a mudança não se apercebe de que está realizando o vocábulo de modo diferente daquele de tantos outros falantes e, ao dizer "tauba", não tem a percepção de que esteja falando algo diferente de "tábua". E, quando ouvimos "tauba", sabemos (nós, que dizemos "tábua") que se trata de uma representação do mesmo referente, não havendo problema algum na comunicação. Rio de Janeiro, 18 de agosto. 2019. Facebook: eraldo.maia.509. Disponível em: https://www.facebook.com/eraldo.maia.509. Acesso em: 10/09/209.

Mccleary, Leland. Sociolinguística. Florianópolis, 2009. Monografia (Letras-Libras) - Universidade Federal de Santa Catarina.

OLIVEIRA, Nielmar de. IBGE: 50 milhões de brasileiros vivem na linha de pobreza. Rio de Janeiro, 15 dez. 2017. Disponível em: http://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2017-12/ibge-brasil-tem-14-de-sua-populacao-vivendo-na-linha-de-pobreza. Acesso em: 5 nov. 2019.

possenti, Sírio. Por que (não) ensinar gramática na escola. 2. ed. São Paulo: Mercado de Letras, 2012.

SCHERRE, Marta. O preconceito linguístico deveria ser crime. Rio de Janeiro: Revista Galileu, 5 nov. 2019. Disponível em: http://revistagalileu.globo.com/Revista/Galileu/0,,EDR87198-7962,00.html. Acesso em: 5 nov. 2019.


[1]Será exposto profundamente o conceito de educação bancária mais a frente nesse trabalho.

[2]Veja mais sobre consciência no capítulo Linguagem e ideologia deste trabalho.

[3]Disponível em: http://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2017-12/ibge-brasil-tem-14-de-sua-populacao-vivendo-na-linha-de-pobreza. Acesso em: 09/09/2019.

[4]Artigo publicado pela revista Galileu de nome: O preconceito linguístico deveria ser crime. Disponível em: http://revistagalileu.globo.com/Revista/Galileu/0,,EDR87198-7962,00.html. Acesso em: 09/09/2019.

[5]Trecho retirado do repositório online de cursos da faculdade UFRGS: Imagens para Pensar o Outro, construído pela professora Tatiana Engel Gerhardt. Disponível em: https://lumina.ufrgs.br/. Acesso em: 09/10/2019.

[6]A frase contida neste trabalho, anteriormente no singular, foi alterada para o plural a fim de atender as demandas da linguagem.

[7]Para mais detalhes sobre o conceito de “medo da liberdade”, consulte o livro Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire.

[8]Para mais detalhes sobre o conceito de amor e educação, consulte o livro Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire.

[9]O termo culto e suas variações estarão entre aspas neste trabalho por entendermos que o termo incita o preconceito, subordinando as demais variantes à condição de incultas.

[10]Português não padrão

[11]O questionário utilizado foi adaptado do originalmente elaborado por Guilherme Cardozo em seu artigo: O preconceito linguístico proveniente das páginas de: O Globo: Uma visão positivista e superada do ensino de línguas nas escolas. Ver referências.



Publicado por: Lorraine Souza Bezerra

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