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A IMPORTÂNCIA DA QUESTÃO RACIAL NA FORMAÇÃO DO DOCENTE E NO ÂMBITO ESCOLAR

Educação

Reconhecimento do ensino da História e Cultura Africana e Afro-Brasileira nos âmbitos escolares.

índice

1. Resumo

O presente artigo tem como objetivo uma reflexão sobre a formação dos professores referente a diversidade cultural. A implementação das leis 10.639/03, que possuem a finalidade de reconhecimento do ensino da História e Cultura Africana e Afro-Brasileira nos âmbitos escolares. Ao examinar as leis e suas práticas, constata-se ainda a ausência cultural das matrizes africanas e o déficit da qualificação dos docentes em relação ao conteúdo.

Palavras-chave: Cultura africana, movimento negro, formação de professores.

2. Introdução

A educação brasileira está sempre em movimento e evolução para o bem-estar dos educandos. Ela pode, dentre outros fatores, ser considerada como uma das engrenagens essenciais na modificação de uma sociedade. Desta forma, torna-se responsabilidade dos estabelecimentos de ensino, evidenciar a evolução dos educandos de maneira democrática, formando seus valores, praticas habituais e suas condutas.

Quando se trata de questões raciais no campo educacional, vivemos uma dicotomia entre o avanço em aspectos legais e o conservadorismo em aspectos práticos, tanto para instituições quanto para a prática pedagógica. Sucessivas gerações veem se valendo desse conservadorismo, e do silêncio, reproduzindo valores e representações. Segundo Dias:

O fato de educadores reconhecerem a dimensão racial, mais não darem a ela centralidade necessária ao meu ver se deve a maneira á como o brasil construiu sua identidade nacional e o quanto esses educadores não tinham uma posição crítica sobre ela. ( xx )

que dá obrigatoriedade em todo o currículo escolar, do estudo da cultura e história das matrizes africanas e também a inclusão no calendário escolar o dia 20 de novembro como “Dia Nacional da Consciência Negra”, propõe-se, mesmo que ainda restrito ao aspecto legal, uma alternativa para corrigir, parcialmente, a influência positiva da cultura africana na construção da identidade nacional. Não somente em um contexto geral, mas essa abordagem também pode ofertar a oportunidade de reconstruir e fortalecer a identidade dos estudantes afrodescentes.

As questões sobre afrodescência tem tomado um espaço significativo tanto em questões legais quanto em questões pedagógicas.

Propor uma discussão que aborde questões sócio históricas, como evoluiu a condição afrodescente em nosso país, pode embasar todo esse processo. Atrelado a isso, observa-se, a partir de uma gama significativa de pesquisa já realizadas, que a formação continuada de professores, em especial para e com a Lei 10639/03, torna-se imprescindível em toda essa trama.

Desta forma, além de fundamentação teórica que aborda categoricamente a formação continuada de professores, tendo como eixo a conceituada autora Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva2, acrescenta-se a esse estudo um relato de experiência vivido no curso “A presença da cultura afro-brasileira no Sudeste: Jongo, Batuque e Reinado /Congado” realizado no período de 03 a 24 de novembro ,oferecido pela UNIFESP em parceria com o CEFE sob a influência direta do Movimento “AQUI ÓH, SOMOS PRETAS!”, estabelecendo assim um elo entre a proposta desta pesquisa e experiências vivenciadas.

Assim, considerando o professor como um dos possíveis agentes que pode fazer valer a Lei 10639/03, essa pesquisa pretende verificar como se dá a formação deste, pensando os momentos de capacitação, combinado a formação inicial.

3. Evolução sócio-histórico nas relações étnico raciais no Brasil

No decorrer da história do Brasil vários antropólogos, professores e sociólogos como Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes, Fernando de Azevedo, Petronilha Beatriz dentre outros, tiveram suas inquietações a respeito da compreensão da cultura brasileira e a sua multiplicidade. Os autores partilharam da mesma opinião: o Brasil tem como característica marcante a sua diversidade cultural.

Assim, é correto afirmar que o país possui o que se convencionou chamar de “Identidades Brasileiras”. Darcy Ribeiro afirma:

(...)surgimos da confluência, do entrechoque e do caldeamento do invasor português com índios silvícolas e campineiros e com negros africanos, uns e outros aliciados como escravos”.(1995, p.19)

Independentemente da intervenção da cultura européia devido à colonização, essa não conseguiu remover de todo as culturas indígenas e africanas. Ao invés disso, o explorador europeu teve uma grande influência por toda a pluralidade cultural dos nativos e negro. Confirma José Ricardo Oriá:

(...) a cultura tida como dominante não conseguiu, de todo, apagar as culturas indígena e africana. Muito pelo contrário, o colonizador europeu deixou-se influenciar pela riqueza da pluralidade cultural de índios e negros. (FERNANDES,2005, pg.379)

Contudo, prevaleceu na educação e cultura, o modelo inserido pelos portugueses, que detinham o poder político e sociocultural da época.

Apesar de todo o histórico do povo brasileiro, da vasta diversidade e pluriétnica visível, os estabelecimentos de ensino brasileiro ainda não aprenderam a lidar com essa existência. Diversos livros didáticos, principalmente os de história, mostram claramente a cultura de matriz européia, onde os grandes destaques na história brasileira são de pessoas brancas, letradas e do sexo masculino, omitindo a participação das minorias étnicas, principalmente de negros, que quando citados, aparecem de uma forma padronizada e negativa.

A aprendizagem da história do Brasil é iniciada quando os portugueses chegam, desprezando a existência do indígena e elevando o “português” como único agente pela conquista das terras brasileiras. Esse processo esconde todo o genocídio desenvolvido contra a população indígena e camufla as situações calamitosas dos africanos escravizados, classificados como produto. Segundo Oriá :

Ocultasse, no entanto, o genocídio e o etnocidio praticados contra as populações indígenas no Brasil: eram cerca de 5 milhões à época do chamado “ descobrimento “, hoje não passam de 350 mil índios.

Assim, ocorre todo um desprezo à participação dos negros na construção da história brasileira. Quando é preciso abordar os costumes desses grupos étnicos, via de regra a técnica é a de “folclorizar” e empobrecer sua cultura, em detrimento da cultura européia considerada como cultura melhor e educada. Não nos restam dúvidas de que esse movimento, seja ele intencional ou como consequência de outras ações, reflete diretamente na educação.

Como se tem analisado, o Brasil possui vários reflexos sobre o processo escravocrata. Nota-se que a combinação entre os reflexos acima citados e a multiculturalidade da e na composição da sociedade brasileira ainda requer avanços e progressos, sejam eles em aspectos legais e nas relações sociais que envolvem essa combinação.

Caminhando em paralelo a um sistema opressor, ao longo da história movimentos de lutas, e acima de tudo a resistência ocorreram no país. As reivindicações desses movimentos se ramificam nos aspectos sociais, políticos econômicos, e, por conseguinte têm reflexos na educação.

Na final da década 80, a Constituição Federal declara a diversidade como componente histórico do país, evidenciando

Art. 215. O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais.

§ 1º O Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional.

§ 2º A lei disporá sobre a fixação de datas comemorativas de alta significação para os diferentes segmentos étnicos nacionais.

§ 3º A lei estabelecerá o Plano Nacional de Cultura, de duração plurianual, visando ao desenvolvimento cultural do País e à integração das ações do poder público que conduzem à:

I- defesa e valorização do patrimônio cultural brasileiro;

II- produção, promoção e difusão de bens culturais;

III- formação de pessoal qualificado para a gestão da cultura em suas múltiplas dimensões;

IV- democratização do acesso aos bens de cultura;

V- valorização da diversidade étnica e regional. [grifo nosso] (BRASIL, 1988)

Após a implantação da Constituição Federal de 1988, os movimentos negros frisam mudanças em favor de seus direitos de igualdade. Abrindo espaço para a construção da Lei 7.716/893

Art. 1º Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional (...). (BRASIL, 1989)

A partir daí as questões raciais ganham visibilidade e relevância nos debates políticos. A mídia, a sociedade e as escolas dão foco e importância, contribuindo para o fortalecimento desta causa. Manifestações como a “Marcha Zumbi dos Palmares” ocorrida no ano de 1995 em Brasília, tendo como referência 300 anos da morte de zumbi dos Palmares, liderança significativa do Quilombo dos Palmares, ganhou estímulo e reconhecimento da forte presença do racismo no Brasil, sugerindo a discussão e meios de combater essa situação. Esses episódios foram se reforçando no final da década de 80 e início da década de 90, apresentando a desigualdade da população branca com a negra em diversos aspectos como: vagas de emprego, ensino, exclusão social entre outros fatores, deixando explicito o contraste existente na sociedade.

Em consonância com a Constituição Federal de 1988, em 1996 a Lei 9394/96 que estabelece as Diretrizes e Bases para a Educação Brasileira, abordará assuntos como igualdade, união, porém pouco se fala da valorização das raças.

No ano seguinte, é criado também os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) referência para o ensino fundamental e médio que deixa evidente a proposta de temas transversais, dos quais se destaca aqui a “Pluralidade Cultural”, que tem como propósito o respeito a multiplicidade.

Através da resistência e pressão dos movimentos negros e também essa ação dentro do PCN, em 2003 foi sancionada a lei 10.639/03, que modifica a educação Brasileira. O texto lei menciona:

Art. 1 A Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, passa a vigorar acrescida dos seguintes arts. 26-A e 79-B:

Art 26-A Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira.

§ 1 O conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo incluirá o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil.

§ 2 Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras.

Art. 79-B. O calendário escolar incluirá o dia 20 de novembro como ‘Dia Nacional da Consciência Negra [grifo nosso] (BRASIL, 2003).

4. Formação continuada nessa perspectiva do professor

Com a implantação da Constituição Federal de 1988, a LDB de 1996 e a lei 10.639/03 o Brasil visa uma mudança radical onde prevalece a democracia com importância nos direitos e deveres do cidadão brasileiro. Surge então a falta de um conjunto de ideias que direcione projetos que valorizem a cultura afro-brasileira e africana e como a questão étnica racial deve ser inserida no ambiente escolar.

Foi então criada a partir de pesquisas e questionários entregues a pais de alunos, professores que abordam as questões raciais, militantes e grupo de movimentos negro as “Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnicos-Raciais para o Ensino de Historia Afro-Brasileira e Africana” (BRASIL, 2004), afim de que o docente em suas práticas educativas oriente os educandos a reconhecer o negro como cultura nacional ,que ele saiba lidar com o racismo e a discriminação e que sejam capazes de reconstruir a convivência social entre os variados grupos étnicos presentes na sociedade e no ambiente escolar .

Para que haja uma educação com essa qualificação, é indispensável que o professor precise de uma formação inicial ou continuada que reconstrua e valorize os aspectos históricos, culturais onde os conteúdos trabalhados estejam adequados com a realidade do nosso País e que o aluno se encontre através dos conteúdos apresentados no âmbito escolar.

Vale salientar que o assunto não pede uma mudança de foco, no caso deixando a cultura européia de lado e trazendo só a cultura africana, mas sim entrelaçar os ensinamentos para a pluralidade presente na história do Brasil, isso ajudará e possibilitará uma reflexão entre educador e educando independente da etnia.

5. O projeto “África na escola”

Acreditamos que o indivíduo tem a necessidade de se encontrar desde pequenos, para que em seu processo de desenvolvimento saiba o quão fundamental é o seu papel na sociedade. A educação Infantil é essencial para se formar essa identidade (o que eu sou?) e é o início da interação social que o ser humano carregará até o fim de sua vida.

A partir de um projeto chamado “África na Escola” realizado na Obra Social Célio Lemos uma instituição não governamental na zona leste de São José dos Campos/ SP, com o objetivo de trazer essa diversidade brasileira para o âmbito escolar, pois convivendo com os mesmos, notamos a carência deste encontro com a própria identidade e de se identificar negro, e muitas vezes quando surgia a palavra negro na sala de aula, ela vinha como forma pejorativa.

Iniciamos este trabalho sobre a cultura afro-brasileira e africana, apresentando um mundo totalmente diferente, onde cada descoberta desconstruía, ou tentava desconstruir, ideologias já formadas.

As ações realizadas percorreram o seguinte caminho:

- Primeira etapa: Iniciamos a temática com o vídeo “Pindorama – Palavra Cantada”4. Na sequência, os alunos foram questionados em relação ao que mais gostaram e o que entenderam. Apresentei a temática “África no pré II” sempre propondo questionamento como: o que vocês sabem sobre a África? Quem vivia lá? Dentre outras;

- Segunda etapa: Contação de História: Menina Bonita do Laço de Fita (Ana Maria Machado), O cabelo de Lelê (Valéria Belém), Lenda do Baobá, Lenda da Galinha d’angola;

- Terceira etapa: Cantigas Infantis da África e que falam da África (Escravos de jó, África – palavra cantada, sereia);

- Quarta etapa: Exibição do filme “Kiriku e a feiticeira”5;

- Quinta etapa: Roda de conversa sobre a diversidade cultural presente no nosso país, mostrando: batuque de umbigada, Jongo, Capoeira, Moçambique, reinado e congado.

- Sexta etapa: Vivência: Grupo de Jongo Mistura da Raça.

Facilidade: Houve uma aceitação total da sala na realização do projeto.

Dificuldade: Encontrar todo o material didático

Após o termino do projeto, a diferença na sala foi notável, quando algo desagradável era pronunciado, automaticamente os outros já corrigiam, e os alunos negros começaram a encontrar sua identidade e se ver como negros, a forma de desenhar a si mesmo mudou.

6. Movimento Negro: “COLETIVO, AQUI OH, SOMOS PRETAS”

Na elaboração desse relato de experiência, temos como vivência a participação efetiva da autora Flávia Moreira Ribeiro6 e Jaíne Lima Pereira7 integrante do movimento. Destaca-se ainda que os relatos na íntegra compõe esta pesquisa e está presente no Apêndice A.

Dentre as discussões para organização e estruturação desse trabalho, destacou-se seguinte trecho do depoimento acima mencionado:

Divido minha vida como antes e depois de me aceitar negra, e quando afirmei minha identidade como cidadã negra, muitas coisas mudaram.

Foi como nascer de novo, fui atrás da minha verdadeira história, pois o que a escola me ensinou foi que o meu povo tinha sido escravo aqui no Brasil.

Dentre várias pesquisas e o problemas que foram historicamente enfrentados por meus antepassados percebi que não podia deixar essa história, a minha história morrer, senti a necessidade compartilhar para as pessoas que a minha princesa era Aqualtune8 e não Isabel, mostrar toda a história que foi oprimida e omitida pela sociedade e mostrar o outro lado da história, e como isso é importante não só para a minha afirmação mas para a afirmação de todo negro brasileiro.. (sic)

Dando continuidade a análise do depoimento, evidencia-se ainda:

Nessa trajetória de autoconhecimento conheci o jongo, uma dança de origem africana, da qual participam homens e mulheres, significando divertimento e firmação e identidade onde meu coração resolveu fazer morada: “olha eu sou africano, mas nasci foi no Brasil, me criei lá na senzala , onde todos os preto” viu minha gente eu sou o jongo , foi negro que me criou , cantando e batendo palma e tocando o tambor” (ponto de jongo da comunidade de são José dos campos) fui também convidada a participar da Marcha Nacional das Mulheres Negras que aconteceu em Brasília em 2015, reunindo mais de 50 mil mulheres negras que lutavam contra o racismo e a desigualdade social. Foi emocionante, conheci pessoas com o mesmo objetivo que o meu, que passaram por situações que eu também passei, inúmeras mulheres negras viviam ou vivem o que eu vivi, voltando para São José dos Campos no final de 2015, eu e mais quatro amigas resolvemos agir e então nasce um movimento de mulheres negras no Vale do Paraíba: “Aqui oh, somos pretas! ”. Um movimento que visa o empoderamento da mulher negra, pois quando uma mulher negra avança, todos avançam juntos.

Em meios aos nossos encontros mensais e em nossas discussões sobre representatividade percebemos que diversas crianças negras inclusive a minha irmã ,não sabem quem são, que não se vêm nas história, na televisão ou nos brinquedos, que não se veem como negras, eu como atuante na área da educação , ouvia diariamente dos meus alunos que eles não gostavam de ser negros e que se pudessem escolher queriam ser brancos dos cabelos lisos .Observando cada relato das mães nas rodas de conversa preocupadas com a aceitação dos seus filhos e juntando com o relato dos meus aluninhos ,eu precisava fazer algo , para que tentasse transformá-los e eles pudessem ter um olhar positivo , sobre os negros , sobre o continente africano , que eles pudessem encontrar a identidade deles e firmar com orgulho o que eram.(sic)

Continuando os relatos, ressalta-se que:

Existe uma necessidade da preservação da cultura afro nos espaços, a iniciar pela escola. Toda e qualquer etnia tem o direito de saber sobre as riquezas de sua cultura, suas origens e costumes. Lutar pelo fim do esvaziamento da cultura é um dos meios de enriquecer e preservar o que há de belo, um pedaço da África está no Brasil e não pode ser mais ignorados. O Eurocentrismo ainda prevalece num país de diversidades, riquezas e com vastas manifestações culturais. Meu papel ao lado dessas pessoas é exatamente esse, ocupar espaços que antes disseram que não eram pra nós. Reconhecer quem somos, e perceber que não somos apenas escravizados e sim um povo sem oportunidades, onde colhemos o fruto da desigualdade. Com a escola ao nosso lado, é um grande passo para combater a falta de representatividade e a inclusão de uma cultura rica em conhecimento e beleza. Assim muitas meninas como eu deixariam diversos complexos de lado e cresceriam de forma mais saudáveis e confiantes acreditando e auto afirmando de onde vieram e tendo orgulho dos ancestrais que lutaram por nós no passado.

7. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Concluímos que é fundamental o papel da escola e do educador para que os educandos se encontrem, essa mudança pré vista na escola começa pelo educador presente em sala de aula, pois é ele que é o agente de mudança dos seus alunos , o corpo docente precisar se conscientizar ,pois de nada adianta as secretarias promoverem cursos de extensão, vivências ou palestras , sendo que o profissional da educação não abordará os problemas a respeito das questões raciais no cotidiano escolar , o professor precisa ter uma boa relação com seus alunos para que no ambiente escolar o respeito prevaleça maior que os preconceitos.

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8. REFERÊNCIAS

BRASIL, 2003 – LEI 10639/03 Presidência da República. Lei 10.639 de 9 de janeiro de 2003. “Altera a Lei 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática Cultura Afro-Brasileira”, e dá outras providências. Disponível em: <http://www. Planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/L10.639.htm>. Acesso em:

BRASIL, Ministério da Educação. Diretrizes curriculares nacionais para a educação das relações étnico - racias e para o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana. Brasília: MEC/Secretaria Especial de Políticas de Promoção de Igualdade Racial/Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade, 2004.

RIBEIRO, 1995

FERNANDES, 2005

BRASIL, 1988 – CONSTITUIÇÃO FEDERAL

BRASIL, 1989 – LEI 7716/89

BRASIL, 1996 – LDB

BRASIL. Presidência da República. Lei 9.394 de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9394.htm>. Acesso em: 13/05/2017

BRASIL, 1998 - PCN

APÊNDICE A – RELATO DE EXPERIÊNCIA VIVENCIADO POR FLÁVIA MOREIRA RIBEIRA A RESPEITO DA PARTICIPAÇÃO NO MOVIMENTO “COLETIVO, AQUI OH, SOMOS PRETAS”

Relato colhido e registrado em 13/05/2017

“Todo ser humano já se perguntou pelo uma vez na vida, o que será que eu faço aqui? Porque eu vim? E comigo não foi diferente, eu só comecei a dar importância realmente a ela depois de um bom tempo de vida. Acredito que perdi muito tempo, ou talvez o tempo soubesse o que realmente estava planejando. Recordar a infância é viver de novo , é aquela sensação boa de “eu era feliz e não sabia” , são flashes guardados em nossa memória , falar da infância é falar da sua trilha sonora e isso é bom , é gostoso reviver , a minha infância não foi tão diferente disso , porém só hoje eu percebo o quanto eu não me conheci , não me aceitei , não me via como negra ,e eu não quero isso para essa nova geração , se autoconhecer é essencial , encontrar sua identidade e ter orgulho disso é maravilhoso e necessário. Uma criança que encontra sua identidade será um cidadão que lutará pelos seus direitos e pelo o que querem nessa sociedade que vivemos.

Meus pais sempre não me deixaram faltar nada, não tínhamos muito, mas o suficiente, e eu me lembro de um episódio que estávamos indo embora da casa da minha vó e uma moça no ônibus perguntou a minha mãe se ela era minha babá , minha mãe com toda a sua educação disse que “ela é minha filha nasceu de mim “foi neste dia que eu percebi que eu e minha mãe éramos diferentes , eu a olhei , ela ficou com aquela de quando eu fazia bagunça , e foi o resto da viagem em silêncio .Um pouco mais crescida , participei de um sorteio para estudar numa escola de classe social média , e me lembro como se fosse ontem quando uma mãe chegou até a minha e perguntou se eu era adotada , minha mãe como toda a sabedoria, o meu marido é negro ela é igualzinha ao pai , raça forte . E eu me lembro que questionei a ela: raça forte porquê? e ela me disse “vocês negros são mais forte que nós” , e eu sem entender muito bem apenas concordei .Eu ainda me sentia igual ,e que era normal eu ter uma mãe branca e um pai preto , oras porque não .Até que eu comecei a crescer e as perguntas desagradáveis começaram a ser constante já direcionadas a mim ,não mais a minha mãe .Estudei durante 8 anos da minha vida nesta escola que passei , recordo-me agora que eram três negros na minha sala, quando mais velha vieram as primeiras paixõezinhas , e eu me lembro como se fosse ontem também que eu gostava de um menino e ele me disse que eu era feia e ficou com a minha amiga branca , loira e magra. Isso me magoou, mas eu relevei, achei que era só um amorzinho de criança que não tinha dado certo e que não era pra ser. Sempre fui a amiga de todos , a pessoa mais legal para sentar e conversar , tanto dos meninos e das meninas , a ultima ser escolhida em uma dança , a ultima da fileira por ser alta demais , a ultima a ser escolhida para namorar ,e aceitei isso , como se o destino me desse aquela capa e eu aceitei de bom grado sem reclamar. Cresci assim, sem reclamar, sem questionar, eu não gostava de me olhar no espelho , eu não gostava do que via ,porque o meu cabelo não era igual das minhas amigas , porque eu era diferente delas, porque minha boca era grande e meu nariz largo, porque eu não era delicada , mas eu nunca me questionava porque eu era negra , eu odiava falar disso , se eu não falasse quem ia perceber a diferença né ?! Eu andava com eles, era igual a eles, se eu não mencionasse a minha cor , eu ia passar despercebido e ia continuar com a galera. E assim foi ,até que um dia ,minha professora separou grupos para fazer um trabalho , e um colega que eu nem ficava muito perto porque eu não gostava dele caiu comigo , e ele se recusou a fazer o trabalho comigo , e ele gritava : eu não vou fazer o trabalho com essa pretinha !e ele tocou num ponto que eu jamais queria que tocasse , eu fiquei indignada dele ter percebido essa diferença e então eu virei um soco nele , fomos para diretoria , minha professora explicou o acontecido e chamaram meus pais , e meu pai assinou minha advertência sem reclamar ,e pela primeira vez meu pai me falou , “somos pretos mas com orgulho ! Minha filha não está errada não”. E eu vim embora com ele, matutando aquela frase, “somos pretos com orgulho”, então meu pai gosta de ser preto, mas porque ele nunca disse ?! . não questionei nada com ele , meu pai sempre foi muito fechado para dialágos , dizia que eu era menina precisava conversar só com a minha mãe .E assim continuei , imagina eu negra , o máximo que eu era é um pouquinho mais escura que os meus amigos e que ninguém mais ia perceber se eu não falasse nada relacionado.me silenciei por muitos anos , não era de expressar minha opiniões e questionamentos , nem em casa e nem fora de casa , mudei de escola no ensino médio , não quis ir para nenhuma particular , e minha mãe concordou que eu estudei por muitos anos longe de casa e que agora eu podia estudar pertinho , vivi uma outra realidade , escola estadual ,quando eu entrei na sala e eu me deparei com mais de dois alunos negros foi um choque , eu me lembro muito bem, éramos muitos , na minha sala , na outra sala , na escola toda , não éramos mais pontinhos insignificantes , de todos os jeitos ,um novo mundo ,uma nova realidade que eu desconhecia , fiz amizades que tenho até hoje , e o que não esperava aconteceu , um menino estava afim de mim , adolescente tem essas bobeiras né , quando me contaram quem era , eu só disse não quero ! Esse “não” me dói até hoje , e eu sei que não fiquei com ele porque ele era negro . Final do ensino médio , começando a se preparar para os vestibulares ,estudava muito , prestei os vestibulares , passei na federal do maranhão , tudo se encaminhando , ia embora estudar , quando me deparei com a noticia que mudou o rumo da minha história toda , minha mãe gravida , após essa noticia , mudei muitas opiniões e até mesmo o curso que tinha escolhido pra mim ,fiquei por aqui mesmo e ajudei minha mãe com a minha irmãzinha , ela é minha alegria e foi meu grito de liberdade , ela com tão pouco tempo de vida me ajudou com muitas questões ,até muitas ela mesmo quando começou a falar me deixou encurralada em muitas delas , lembro de uma vez que minha irmã chegou da creche e disse que queria alisar o cabelo , e eu disse porque maria , você é linda do jeito que é , oxalá te fez assim e ela me disse , você gosta tanto do meu cabelo e não usa o seu ! aquilo pra mim foi um tapa na cara , realmente eu não usava o meu , vivia sempre escondido nos meus dreads e com aquela frase eu cortei os mesmos e relembrei como era meu cabelo , e eu percebi que ele não era duro como minha mãe vivia falando , ele não era difícil de pentear como minha vó sempre falava , e quando eu olhei no espelho naquele dia eu gostei do que eu vi e me amei .Amei minha cor , meus cabelos , meu nariz , minha boca , eles eram lindos do jeito que são e trazem uma historia , a minha história , a historia do meu povo.

Divido minha vida como antes e depois de me aceitar negra, e quando afirmei minha identidade como cidadã negra, muitas coisas mudaram.

Foi como nascer de novo, fui atrás da minha verdadeira história, pois o que a escola me ensinou foi que o meu povo tinha sido escravo aqui no Brasil.

Dentre várias pesquisas e o problemas que foram historicamente enfrentados por meus antepassados percebi que não podia deixar essa história, a minha história morrer, senti a necessidade compartilhar para as pessoas que a minha princesa era Aqualtune e não Isabel ,mostrar toda a história que foi oprimida e omitida pela sociedade e mostrar o outro lado da história, e como isso é importante não só para a minha afirmação mas para a afirmação de todo negro brasileiro. Nessa trajetória de autoconhecimento conheci o jongo, uma dança de origem africana, da qual participam homens e mulheres, significando divertimento e firmação e identidade onde meu coração resolveu fazer morada: “olha eu sou africano , mas nasci foi no Brasil , me criei lá na senzala , onde todos “o preto” viu , minha gente eu sou o jongo , foi negro que me criou , cantando e batendo palma e tocando o tambor” (ponto de jongo da comunidade de são José dos campos) fui também convidada a participar da Marcha Nacional das Mulheres Negras que aconteceu em Brasília em 2015, reunindo mais de 50 mil mulheres negras que lutavam contra o racismo e a desigualdade social. Foi emocionante, conheci pessoas com o mesmo objetivo que o meu, que passaram por situações que eu também passei, inúmeras mulheres negras viviam ou vivem o que eu vivi , voltando para São José dos Campos no final de 2015, eu e mais quatro amigas resolvemos agir e então nasce um movimento de mulheres negras no Vale do Paraíba: “Aqui oh, somos pretas !”. Um movimento que visa o empoderamento da mulher negra, pois quando uma mulher negra avança, todos avançam juntos. Em meios aos nossos encontros mensais e em nossas discussões sobre representatividade percebemos que diversas crianças negras inclusive a minha irmã ,não sabem quem são, que não se vêm nas história,na televisão ou nos brinquedos, que não se veem como negras, eu como atuante na área da educação , ouvia diariamente dos meus alunos que eles não gostavam de ser negros e que se pudessem escolher queriam ser brancos dos cabelos lisos .Observando cada relato das mães nas rodas de conversa preocupadas com a aceitação dos seus filhos e juntando com o relato dos meus aluninhos ,eu precisava fazer algo , para que tentasse transforma-los e eles pudessem ter um olhar positivo , sobre os negros , sobre o continente africano , que eles pudessem encontrar a identidade deles e firmar com orgulho o que eram. No final do ano passado, surgiu pela Unifesp em parceria com o CEFE um cursinho sobre a cultura afro-brasileira do sudeste , a partir deste curso montei um projeto nomeado África na escola , apliquei com a minha turminha ,e foi bem sucedido , notei a diferença das crianças antes e depois da implantação do projeto me senti como missão comprida .Acredito que a herança da humanidade é a cultura ,e ela precisa ser compartilhada, mostrada , vivida, necessita ser sentida na pele , pois quando eu falo de mim, falo de um lugar que só eu conheço.”

Relato colhido e registrado em 28/05/2017

A nossa história só sobrevive quando é contada por nós mesmos, mais do que é isso é necessário ter a consciência da importância da nossa busca interior para afirmar quem somos, me chamo Jaíne Pereira Lima, 21 anos sou joseense de berço.

Quando somos pequenos lidamos com situações diversas, temos fases em que questionamos tudo e todos, há fases nas quais apenas aceitamos o que é proposto sem ao menos questionar os porquês. É nesse sentido no qual nós negros nos deparamos quando falamos em representatividade nos espaços nos quais habitamos meu questionamento encontrei na solidão. Durante a adolescência entrei em conflito e nada mais fazia sentido eu havia achado que perdi minha essência, mas que na verdade nunca havia lidado diretamente com ela.

Eu não aceitava meus cabelos, não aceitava minha cor, meu corpo era algo que me fazia fugir do espelho, é muito duro quando nos deparamos nessa situação por sermos tão jovens e sermos considerados apenas rebeldes sem causa. Me rebelei! Eu neguei tudo que antes fora o que fazia ser quem eu era até então, vivemos com a sensação de que sempre nos falta algo e faltava.

Precisamos refletir sobre tudo que passamos até chegar onde estamos atualmente, e ai então que chegamos no primeiro estágio em convívio com a sociedade, a escola. Recordo-me que quase nunca havia negros junto na mesma turma também teve diversos questionamentos e situações nas quais me fez me esconder de quem eu era, meu cabelo não era bom o suficiente, a minha inteligência era questionada, pois onde já se viu gente da minha cor sendo boa em matemática?

A gente cresce, as situações continuam mas é pior durante a adolescência já não temos a mesma inocência de outrora, no meu caso quis realmente apagar minhas origens não haviam incentivos em saber da onde vim e sim havia uma vergonha vim de um povo escravizado sem estudo, marginalizado e vitimas de estereótipos.

Aos 17 anos, em uma longa conversa com amigos, percebi que ali havia um colega que sempre exaltava a cultura negra e fez crescer em mim a vontade de buscar de fato quem eu era e qual meu papel em sociedade. E pela primeira vez sem vergonha eu me via negra , de pele clara mas com a mesma essência de uma retinta, eu assumi meus cabelos e desde então busquei pelo meu passado que anteriormente não havia escutado na escola e em nenhum outro lugar.

Essa busca ficou maior quando aos 19 anos encontrei pessoas em meu caminho com a mesma sede de busca, nasce a partir daí o coletivo Aqui óh somos pretas, um coletivo com necessidade de se auto firmar e lutar por todo e qualquer preconceito existente. Existe uma necessidade da preservação da cultura afro nos espaços, a iniciar pela escola. Toda e qualquer etnia tem o direito de saber sobre as riquezas de sua cultura, suas origens e costumes.

Lutar pelo fim do esvaziamento da cultura é um dos meios de enriquecer e preservar o que há de belo, um pedaço da África está no Brasil e não pode ser mais ignorados. O Eurocentrismo ainda prevalece num país de diversidades, riquezas e com vastas manifestações culturais. Meu papel ao lado dessas pessoas é exatamente esse, ocupar espaços que antes disseram que não eram pra nós. Reconhecer quem somos, e perceber que não somos apenas escravizados e sim um povo sem oportunidades, onde colhemos o fruto da desigualdade.

Com a escola ao nosso lado, é um grande passo para combater a falta de representatividade e a inclusão de uma cultura rica em conhecimento e beleza. Assim muitas meninas como eu deixariam diversos complexos de lado e cresceriam de forma mais saudáveis e confiantes acreditando e auto afirmando de onde vieram e tendo orgulho dos ancestrais que lutaram por nós no passado.

1 Lei n. 10.639, de 09 de janeiro de 2003 que altera a Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira", e dá outras providências. (BRASIL, 2003)

2 De Porto Alegre, Petronilha Beatriz Gonçalves e silva é graduada em Letras na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, licenciada em francês, português. Doutora em ciências Humanas, com pós-doutorado em Teoria da Educação na University of South África, possui uma trajetória desde de docência a coordenação pedagógica em todo o âmbito da educação. Participa da coordenação do Núcleo de Estudos afro-brasileiros/UFSCar, militante em diversos movimentos negros.

3 Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989 que define os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor.

4 Clipes musicais, lançado no ano 2000, o clipe conta a história do Brasil, desde a chegada dos portugueses e convívio social com os índios.

5 Na África, nasce kiriku, um menino minúsculo com dons especiais, com o destino de enfrentar uma poderosa Feiticeira chamada Karabá, que amaldiçoara sua aldeia, comendo todos os homens e secando toda a agua da mesma. Para isso kiriku embarca em uma aventura cheia de perigos, para tentar salvar sua aldeia da maldição.

6 Joseense, nascida em 1993, trabalha como educadora numa Obra Social, estudante de pedagogia atua como militante em diversos movimentos negro.

7 Jaíne Pereira Lima, 21 anos, estudante de publicidade, joseense, designer gráfico e fotografa.

8 Uma princesa no Congo, trazida para o Brasil no período da escravidão, avó de Zumbi dos Palmares


Publicado por: flavia moreira ribeiro

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