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A EJA NO CAMPO Educação rural de jovens e adultos no primeiro segmento

Educação

Influência de pensadores no processo de alfabetização de adultos, a evolução de projetos ligados a causa dos povos do campo e a busca pela educação como forma de libertação individual e coletiva.

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1. RESUMO

O presente trabalho é uma pesquisa documental e aborda a temática da escolarização de pessoas adultas e as lutas dos mesmos na busca pelo conhecimento no contexto em que está sendo inserido, o campo. E tem como objetivo identificar a influência de pensadores no processo de alfabetização de adultos, e suas atribuições para a criação do nosso atual sistema educacional voltado para esse público, apontando diferentes situações enfrentados pelos povos do campo no processo de alfabetização, conhecendo assim a evolução de projetos ligados a causa dos povos do campo e sua busca pela educação como forma de libertação individual e coletiva. A educação é direito garantida no texto constitucional de 1988, ela tem estado presente nas lutas de diversos movimentos sociais, esperando acumular e desenvolver dados referentes ao tema e expor, de forma coerente e tematizada, o que foi proposto anteriormente.

Palavras-Chave: EJA. Campo. Pedagogia. Oprimido. Conflitos.

2. INTRODUÇÃO

O presente trabalho traz como assunto a escolarização de povos do campo e para entender é preciso localizar dentro da história do país o início do processo de construção da educação, e dessa forma conhecer os pontos relevantes que moldaram o atual cenário da educação. Traz breves reflexões em torno da Educação do Campo, tomando por base alguns itens para discussão. Aborda elementos da constituição e fundamentos da EJA (Educação de Jovens e Adultos) e da Educação no campo. Essas pessoas, sujeitos de saberes constituído nas experiências vividas/vivas, encontram-se à margem do acesso aos bens culturais, sociais, econômicos e de direitos. No passado como no presente a educação de jovens e adultos sempre compreendeu um conjunto muito diverso de processos e práticas formais e informais relacionadas à aquisição ou ampliação de conhecimentos básicos, de competências técnicas e profissionais ou de habilidades socioculturais. Muitos desses processos se desenvolvem de modo mais ou menos sistemático fora de ambientes escolares, realizando-se na família, nos locais de trabalho, nos espaços de convívio sociocultural e lazer, nas instituições religiosas e, nos dias atuais, também com o concurso dos meios de informação e comunicação à distância. Qualquer tentativa de historiar um universo tão plural de práticas formativas implicaria sério risco de fracasso, pois a educação de jovens e adultos, compreendida nessa acepção ampla, estende-se por quase todos os domínios da vida social.

O texto que segue aborda alguns dos processos sistemáticos e organizados de formação geral de pessoas jovens e adultas no Brasil, conferindo especial atenção à educação escolar. A análise não abrange, portanto, o vasto âmbito das práticas de qualificação profissional, de teleducação, nem a diversidade de experiências de formação sociocultural e política das pessoas jovens e adultas que se realizam fora de processos de escolarização e que, na pesquisa educacional brasileira, vêm sendo abordadas pelos estudos de educação popular. O artigo também não tem a pretensão de compreender todos os níveis e modalidades de ensino, privilegiando a educação básica realizada por meios presenciais e, no seu interior, as etapas iniciais da escolarização. O texto oferece uma rápida visão panorâmica do tema ao longo dos cinco séculos da história posteriores à chegada dos portugueses às terras brasileiras, mas detém o olhar, sobretudo na segunda metade do século XX, em que o pensamento pedagógico e as políticas públicas de educação escolar de jovens e adultos adquiriram a identidade e feições próprias, a partir das quais é possível e necessário pensar seu desenvolvimento futuro.

3. Caminho da EJA- Um breve histórico

A ação educativa junto a adolescentes e adultos não é nova. Sabe-se que já no período colonial os religiosos exerciam sua ação educativa missionária em milhões. O conhecimento é cultivado na memória auditiva dos participantes de uma comunidade. Com a escrita transformam-se as relações entre o indivíduo e a memória social. Segundo Freire os detentores do conhecimento já não são mais os anciãos, mas aqueles que sabem decifrar o mundo da e pela escrita.

Talvez seja este o sentido mais exato da alfabetização: aprender a escrever a sua vida, como autor e como testemunha de sua historia, isto é, bibliografar-se, historicizar-se. [...] como ideia animadora toda a amplitude humana da “educação como prática de liberdade”,[...]. (FREIRE.1987. p.10)

Mas para entender o atual cenário da educação em que a EJA está inserida, é preciso conhecer o contexto histórico da formação da educação brasileira, A política educacional no país tem seu primórdio com a vinda família real para o Brasil e moldou-se de lá pra cá na metodologia dos jesuítas.

3.1 Linha do tempo: Alfabetização pela fé: Brasil colônia (1549)

2Os primeiros jesuítas chegaram ao Brasil em missão civilizatória, o ensino era feito em casas de taipas simples anexas às aldeias e com alguma liberdade podem ser consideradas como as primeiras escolas. Crianças, jovens e adultos aprendiam português ou espanhol (havia jesuítas espanhóis também) profissões e operações mentais básicas como contar. O teatro, o canto e outras atividades lúdicas eram usados para catequizar e também para ensinar.

A educação na colônia segue, porém com gastos muito elevados, afinal era preciso conseguir remédios, comidas e roupas para os índios, entre muitos outros gastos. Sem recursos os jesuítas assumem a educação de brancos também – a determinação veio da Coroa Portuguesa. O primeiro colégio surge na Bahia, em 1564, é mais estruturado do que as escolas dos índios propriamente ditas, pois recebe órfãos portugueses e filhos da elite colonial em regime de internato.

A pedagogia dos jesuítas é consolidada. O método? Repetição, memorização e provas periódicas. Ao aluno cabe anotar tudo que o professor fala num caderno. Apesar de organizados, os colégios sofrem com problemas semelhantes ao da escola de índios, um exemplo é a falta de professores. Uns demoram a chegar, outros morrem em naufrágios a caminho da colônia, e outros desapareciam na mata durante passeios. O marquês de Pombal que comanda Portugal de 1750 a 1777, compra várias brigas para fortalecer seu governo absolutista, uma delas é contra a Companhia de Jesus que possuía no Brasil cerca de 670 membros comandando as principais instituições educacionais, os colégios jesuíticos. Em 1759, Pombal expulsa os jesuítas do Império português.

Após a expulsão dos jesuítas, a educação brasileira é organizada pelo Estado pela primeira vez. Os professore concursados, são pagos pelo governo que determina a proibição de livros jesuítas e já cobra impostos e faz leis. Um novo método de ensino é criado e a Imprensa Régia imprime livros didáticos. Nas escolas estudam filhos de fazendeiros, senhores de engenho, farmacêuticos, militares e outras autoridades, como, os filhos do capitão-mor. O objetivo da formação não era o ingresso na Universidade, pois não havia educação superior no país. Do total de estudantes apenas ¼ continua os estudos, indo para a faculdade no exterior. O restante dedicar-se à agricultura, à igreja e ao funcionalismo público.

Em 1827 é criada a Primeira Lei Geral que determinava a criação de colégios nas cidades mais populosas do Império, meninas também passavam a ter acesso e o método Mútuo passava a ser implantado. A separação de turmas não era feita pela idade e sim pelo nível de conhecimento dos alunos.

A repetição e memorização, método usado pelos jesuítas, continuava fortemente impregnado na pedagogia, mas desta vez ganhava cartazes nas paredes com alfabetos e números, como complemento. As mulheres estudavam em escolas separadas para elas, e os meninos da mesma forma.

Em 1889 a efervescência de idéias das décadas anteriores desemboca na proclamação da república. 1820 a nova constituição separa a Igreja e do Estado, laiciza a sociedade e a educação, elimina o voto baseado na renda e institui o voto do cidadão alfabetizado de sexo masculino. Em 1942 a instalação da indústria de base de fabricação crescente, reforça a necessidade de formar mão de obra, diante disso o então ministro da Educação e saúde Gustavo Capena toma uma medida, que cria o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI).

3.2 Ler para compreender o mundo (1962)

As décadas de 50 e 60 são marcadas por projetos voltados à alfabetização de adultos. O objetivo é capacitar o povo brasileiro para uma participação ativa na vida social e política do país. As experiências mais bem sucedidas nessa área são conduzidas por Paulo Freire. O resultado mais expressivo é obtido quando o educador alfabetiza cortadores de cana no interior do Rio Grande do Norte em apenas 45 dias. Essa conquista dá visibilidade a seu trabalho. Paulo Freire então recebe um convite do governo para reformular alfabetização de adultos no país.

Mas no auge da repressão do Regime Militar, movimentos de defesa da escola pública e da ampliação da educação, assim como movimentos sociais, são duramente reprimidos e Paulo Freire é exilado em 1964.3

Para a educação de adultos é elaborado outro método, dessa vez pelos militares. O MOBRAL (Movimento Brasileiro de Alfabetização) foi criado oficialmente em 1967, mas somente três anos depois começou a receber verbas para sua efetivação, conseguiu estender suas ações por todos os municípios do Brasil, sua tarefa era executar o processo de alfabetização de adultos desde o recrutamento de professores até a construção de salas de aula e distribuição de material didático elaborado pelos militares. O MOBRAL foi criticado pelo pouco tempo destinado à alfabetização e pelos critérios empregados na verificação de aprendizagem. Mencionava-se que, para evitar a regressão, seria necessária uma continuidade dos estudos em educação escolar integrada, e não em programas voltados a outros tipos de interesses como, por exemplo, formação rápida de recursos humanos. Criticava-se também o paralelismo da gestão e do financiamento do MOBRAL em relação ao Departamento de Ensino Supletivo e ao orçamento do MEC. O MOBRAL durou 15 anos e foi extinto em 25 de novembro de 1985 pelo presidente José Sarney diminuiu apenas 2,7% o índice de analfabetismo no país.

3.3 Formação da EJA no Brasil

A educação de adultos das classes pobres sempre foi vista pela classe dominante como desnecessária e até “prejudicial” à felicidade desses trabalhadores. O discurso da elite naturalizava a condição financeira; assim, os menos favorecidos deveriam aceitar a posição à qual foram destinados na sociedade. Na verdade, o que se escondia por trás dessa ideia é que a educação seria subversiva e poderia criar indivíduos perigosos: capazes de entender seu papel enquanto cidadãos, questionadores, insubordinados, “inimigos da sociedade” estabelecida. O trabalho na agricultura ou mesmo na indústria era braçal e dependia de um treinamento mínimo. Seria um desperdício gastar energia e dinheiro com alfabetização de adultos já inseridos no mercado de trabalho, sendo melhor investir na educação de base – a educação infantil.

Essa política de adestramento foi dominante até pouco tempo. A história da EJA no Brasil é, portanto, uma história recente. Com o desenvolvimento industrial e a reorganização do processo do trabalho, iniciou-se uma mudança de postura e interesses da elite em relação à formação do trabalhador. A partir daí, houve valorização da educação de adultos, buscando a capacitação profissional desses trabalhadores. Novas iniciativas têm surgido a fim de garantir umas metodologias adequadas as discentes com esse perfil.

A importância da EJA passou a ser reconhecida em vários países devido às conferências organizadas pela Unesco nos anos 1990. A partir de então, surgiu no Brasil uma mobilização nacional no sentido de diagnosticar metas e ações de EJA. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (BRASIL, 1996) garante igualdade de acesso e permanência na escola e ensino de qualidade, além da valorização da experiência extraescolar. Garante ainda Ensino Fundamental obrigatório e gratuito, inclusive para os que não tiveram acesso a ele na idade própria. O antigo ensino supletivo passou a se chamar Educação de Jovens e Adultos – EJA – e ganhou um sentido mais amplo: preparar e inserir ou reinserir o aluno no mercado de trabalho.

Os objetivos da educação no país são revistos, cabendo agora à escola a responsabilidade de formar o adulto trabalhador. Recentemente, novas iniciativas, como a EJA e o Proeja, têm surgido a fim de garantir metodologias adequadas as discentes com esse perfil.

O domínio do conhecimento é um requisito importante para a formação humana, para a construção da cidadania, para a vivência democrática e para a transformação da realidade, Magda Soares diz:

Do ponto de vista social, o alfabetismo não apenas, nem essecialmente, um estado ou condição pessoal; é sobretudo uma prática social: o alfabetismo é o que as pessoas fazem com as habilidades e conhecimentos de leitura e escrita, em determinado contexto, e é a relação estabelecida entre essas habilidades e conhecimentos e as necessidades, os valores e as práticas sociais. (SOARES. 2013.p. 62)

O mundo é do tamanho do conhecimento que se tem dele, ampliar o conhecimento tem consequência direta com aumentar o tamanho do mundo de cada um. Por tanto é notável a importância de se ter conhecimento sobre os instrumentos da cultura letrada que podem contribuir para que mais pessoas possam participar das diferentes esferas da vida social, para a inserção no mundo de trabalho e partindo de um saber inicial apropriar-se de novos e mais densos saberes, tornando assim a educação continuada à luz para os mais escuros caminhos de dominação, livrando-se das amarras do passado e do peso posto nos ombros da chamada herança histórica que intitula rótulos e marginaliza sujeitos a seus verdadeiros direito e deveres dentro da sociedade, negando-lhes a vida, pois não educar-se para a vida, educar-se a vida.

4. O que é educação no campo? O sujeito do campo e o conhecimento

A educação no campo tem-se constituído a partir das reflexões feitas pelos sujeitos envolvidos com a vida do campo, nas mais variadas práticas estabelecidas nas organizações e movimentos sociais que integram a articulação por uma educação do campo. Todo esse entendimento gira na importância que a educação tem. Para corroborar tal ideia, Freire afirma em sua obra (1987,p.62) “Homens espectadores e não recreadores do mundo. Concebe a sua consciência como algo especializado neles e não aos homens como “corpos conscientes”. Na visão de Freire a educação apassiva e adapta os homens ao mundo.

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[...] outros aspectos que envolvem sua falsa visão de homens. Aspectos ora explicitados, ora não, em sua prática. Sugere uma dicotomia inexistente homens-mundo. Homens simplesmente no mundo e não com o mundo e com os outros. Homens espectadores e não recriadores do mundo. Concebe a sua consciência como algo especializado neles e não aos homens como “corpos conscientes”. A consciência como se fosse alguma seção “dentro” dos homens, mecanicistamente compartimentada, passivamente aberta ao mundo que irá enchendo de realidade. (FREIRE. 1987. p. 62).

Existem alguns fatores que levam à exclusão social de sujeitos trabalhadores do campo, como o pensamento de que para trabalhar no campo não precisa de nenhum estudo. Até 1888 havia predomínio do trabalho escravo no campo e o analfabetismo era quase generalizado. Diante da pobreza e da concentração de renda, uma grande parcela de jovens insere-se no trabalho desde cedo. Reside aí um dos fatores que contribuiu para repetência e desistência escolar. Uma frágil formação articula-se a uma difícil prática educacional, com isso abre-se para a reprodução da prática educacional “bancária” essa desestimulava os educandos principalmente àqueles que estudavam no período noturno.

A concentração de renda e terra nas mãos de poucos torna o cenário ainda mais crítico, marcado pela exclusão e desigualdade sociais. E para entender essa desigualdade é necessário puxar na memória alguns exemplos históricos da origem dessas desigualdades: direitos diferentes para senhores de escravos, proibição do voto à pessoa analfabeta, seleção das pessoas votantes em função da renda anual líquida, discriminação etc.

Na história do país, a educação sempre esteve nas mãos da classe dominante. Mais do que ninguém é a classe dominante que sabe a importância que o processo de educação, bem como a apropriação dos conhecimentos historicamente acumulados e a construção de novos saberes, tem para manter-se no poder. No campo a situação de dominação é ainda mais visível, a mutilação é mais cruel, criando-se a cultura de que o trabalhador do campo para trabalhar na roça e pegar na enxada não precisa de estudo. Apenas quando o morador das áreas rurais tinha a intenção de sair do campo para a cidade é que surgia a exigência da escolaridade, o que reforça o estereótipo de que a cidade é o lugar merecidamente mais desenvolvido.

Segundo Arroyo, os coletivos do campo buscam por meio de movimentos sociais lutam por direitos no próprio campo. Buscam o reconhecimento de suas propriedades sejam elas quilombos, comunidades ribeirinhas, florestas, vilas, assentamentos, enfim que sejam reconhecidos como legais de direitos.

Os coletivos em movimento sociais afirmam sua diversidade, tornam presentes suas diferenças. Não apenas se sabem tratados em nossa história como desiguais, inferiorizados porque diferentes, mas se afirmam e reconhecem diferentes. Fazem-se presentes com presenças incômodas, nas ocupações, nas ruas, nas escolas, desocultam-se e se mostram existentes, visíveis. (ARROYO.2012.p.11)

Um traço forte de libertação desses sujeitos passa, por mostrar, que nessa história colonizadora não ficaram passivos, resistiram, foram sujeitos de história de resistência à ocupação de seus territórios e à desconstrução de seus modos de produção da vida, da cultura.

5. Articulações e movimentos ligados a educação no campo

A articulação por uma educação do campo nasce como resultado de uma caminhada que se iniciou em julho de 1997, quando Movimento dos trabalhadores Rurais sem terra (MST) realiza o I Encontro Nacional de Educadores da Reforma Agrária (I ENERA), em parceria com organizações como o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) a Confederação Nacional dos Bispos (CNBB) e a Universidade de Brasília (UNB). A conferência contou também com a participação de sujeitos de escolas do campo, de ONGs, de sindicatos, associações e de outras entidades que tinham vinculação com o trabalho de educação e o compromisso com esta construção. Nos compromissos assumidos na Conferência, foi ratificado quem eram os sujeitos envolvidos na construção de uma proposta de educação do campo.

Esta primeira conferência foi uma semente plantada que deu frutos. Disseminando, pelos cadernos escritos, os resultados das discursões os resultados das discursões travadas, o debate se multiplica pelos estados e municípios gerando cada vez mais a necessidade de pensar, com mais responsabilidade, as especificidades existentes no campo. Para os movimentos sociais, o terreno da educação do campo é o espaço de vida, não somente de produção e geração de lucro. É espaço de formação e subjetivação de seres humanos que fazem parte do meio ambiente, e que nesse espaço compartilham da produção, em prol da vida e de sua continuidade, como afirma FREIRE (1987,p.62) A educação “bancária” em cuja prática se dá a inconciliação educador-educando, rechaça este companheirismo.

Isto é, na inclusão dos homens e na consciência que dela têm. Daí que seja a educação um quefazer permanente. Permanente, na razão da inclusão dos homens e do dever da realidade. O objetivo da Educação de Jovens e Adultos, diferentemente de outras políticas de alfabetização de adultos, não deve ser apenas a certificação ou o treinamento para o mercado de trabalho; deve, sim, oferecer formação profissional continuada. Deve ter significação maior, possibilitar uma formação geral do indivíduo, dando a ele o direito de entender e intervir na sociedade na qual está inserido, o direito de tornar-se cidadão. Deve também possibilitar o desenvolvimento de talentos. Para Freire (1987), esta é uma das funções da educação dirigida a jovens e adultos; ela humaniza o homem. Torna livre.

6. Legalidade dos direitos dos sujeitos do campo:

A EJA, marcada em sua história por políticas assistencialista, populistas e compensatórias, avança, embora lentamente, no caminho para a efetivação de políticas que assegurem o direito à educação, contemplando o acesso, a permanência e o êxito do estudante.

[...] A educação de jovens e adultos será destinada àqueles que não tiveram acesso ou continuidade de estudos no ensino fundamental e médio na idade própria.

§1°- Os sistemas de ensino assegurarão gratuitamente aos jovens e aos adultos, que não puderam efetuar os estudos na idade regular, oportunidades educacionais apropriadas, consideradas as características do alunado, seus interesses, condições de vida e de trabalho, mediante cursos e exames.

§2°- O poder público viabilizará e estimulará o acesso e a permanência do trabalhador na escola, mediante ações integradas e complementares entre si. (BRANDÃO.1965. p.98)

A EJA é, com isso, o direito assegurado à classe trabalhadora que durante o dia confia seus filhos e ou familiares à escola pública e à noite busca esta mesma escola para exercer seu direito à educação. Ampliar o acesso, assegurar a permanência e garantir a continuidade são desafios cotidianos enfrentados pelas esferas de gestão seja no nível central, intermediário ou local, uma vez que os direitos estão assegurados por lei e deve ser cumprido.

As políticas voltadas à implementação e a práticas da Educação de Jovens e Adultos precisam ser pensadas não só de modo a possibilitar treinamento e certificação dos adultos analfabetos, mas sim oferecer a essas pessoas a chance de obter formação integral. Trabalhadores bem preparados, capazes de pensar sua realidade são necessários para que haja desenvolvimento da ciência e da tecnologia do país. A perspectiva é de que ainda durante um bom tempo serão necessários investimentos em políticas democratizadoras como a EJA e o Proeja.

6.1 Um novo caminho para a EJA no Brasil

4O que é esperado mediante as informações que se seguiram neste trabalho? É uma nova reflexão sobre o caminho que a EJA está seguindo em nosso país. O trabalho voltado a este público deve ter seu foco na humanização do sujeito atingido pela educação, esta que tem sido negada em sua integridade a muitos cidadãos que moram no campo e que preferem abrir mão da liberdade ofertada pela politização educacional, do que abrir mão da cultura de opressão que passa de geração em geração e que serve de eixo norteador para que cada peça do “tabuleiro da vida opressora e oprimida” permaneçam em seus lugares.

Esta é a hora de se construir um novo caminho para a educação rural de jovens e adultos, através de uma nova visão que busque atender as especificidades dos estudantes do campo valorizando o conhecimento cultural característico da realidade do campo e, desta forma, articulando os eixos do currículo ao contexto de agricultura familiar, economia solidária, cooperativismo e sustentabilidade.

7. REFERÊNCIAS

ARROYO, Miguel G. Outros Sujeitos, Outras Pedagogias/ Miguel G. Arroyo.-Petrópoles, RJ: Vozes, 2012.

BRANDÃO, Carlos da Fonseca, 1965- LDB passo a passo: Lei de Diretrizes e Bases da educação Nacional (Lei n° 9.394/96), comentada e interpretada, artigo por artigo/Carlos da Fonseca Brandão.-3.ed.atual- São Paulo: Editora Avercamp, 2007.

FREIRE,Paulo. Pedagogia do oprimido, 17°ed.Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1987.

LIBÂNEO, José Carlos. Educação Escolar: políticas, estruturas e organizações/ José Carlos Libâneo, João Ferreira de Oliveira, Mirza Seabra Toschi – 10. ed. Ver. E ampl.- São Paulo: Cortez, 2012.-(Coleção docência em formação: saberes pedagógicos/ coordenação Selma Garrido Pimenta)

LUIZ,Êda.Papo de Mãe. Disponível em: <http://tvbrasil.ebc.com.br/papodemae/episodio/maes-na-escola>. Acesso em: 12 mai.2016.

MORAES, Carmem. Beabá do Brasil – De Cabral ao Enem: um rápido panorama da história da educação brasileira. Disponível em: <http://educarparacrescer.abril.com.br/historia-educacao/index.shtml>. Acesso em: 06 abr.2016.

SOARES,Magda. Alfabetização e letramento/ Magda Soares. 6. ed.,reimpressão.-São Paulo: Contexto, 2013.

Disponível em: <http://www.mst.org.br/quem-somos/#full-text>.Acesso em:15 abr.2016.

Disponível em: <http://www.pnud.org.br/NossosProjetos.aspx>.Acesso em: 28 mar.2016.

8. ANEXO

A menina do vento que confiou no tempo

A pisada era firme no chão, da batida

do coração à distancia do caminho

apertando junto ao peito com o maior carinho

um grande tesouro que acabara de receber.

A novidade era tanta que apagava da lembrança

a triste realidade de seu duro viver,

Era apenas uma menina tão pequena e franzina quem nem dava gosto de ver.

Perdida em meio a pensamentos imaginando o momento do próximo encontro acontecer, a escola era longe sim, [mas ela jamais desistiria por um motivo tão fraco assim.

E o teto de palha as paredes de barro e o chão de areia, apagaria a chama que dentro da alma o caminho dela [clareia?

Era o que todos diziam a respeito da sina daquela criança.

Que encontrou em um livro um verdadeiro caminho cheio de esperança.

Afirmavam assim: - não se pode mudar o destino daquele que pobre nasceu, ainda mais essa, que veio de um [pobre nascido na roça criado na roça e que na roça morreu.

E seguia ela caminhando ligeiro, e trazendo junto ao peito o melhor companheiro.

Não se importava com nada era apenas resquício de um povo dominado que não queria deixar de ser.

Já distante no caminho, avistou a vozinha no meio do terreiro junto ao portão, acenando, ligeiro com o balaio na [mão.

Que lhe disse: - filhinha preste muita atenção tudo isso vai passar e o que lhe restar é seu por direito, só espero [que esse vento que chamam de conhecimento não seja assim tão espreito, que não te surpreenda nem te [pregue uma prenda do lado esquerdo do peito.

E encostando a mão na menina continuou a dizer:

-Que não te leve pra longe onde a lua se esconde e estrelas não se ver. Olha filha querida esse tal conhecimento [é o desalento de quem não sabe ler, mas se assim ele não fizer, e te formar uma livre mulher...

...Me dê apenas o gosto de poder te ver.

Seja forte... e tenha sorte, antes que um abraço na morte eu tenha que oferecer.

Finalizou a vozinha apertando a netinha sem as lágrimas conter.

E o vento mudou a sina, daquela pequena menina pelo hábito de conhecer, mas o tempo não foi fiel e uma nova [estrela pro céu tratou logo de colher, e que hoje uma livre mulher não pôde ver.

(Aldiná costa Santos Pontes)

 

O PESO DA CANGAIA

Ô senhor te trouxe a cangaia, mas vou logo avisando

Confia muito não vice, vai acabar te derrubando

Égua é égua, mas não guenta peso e espora.

Ela vai até andar senhor, mas não mais de uma hora.

A bicha é bonita até que não arrebita dá até gosto de vê ó!

Judia dela não doutor, vai de vagar tô até com dó.

Olhe, coluna envergada e pelo bonito essa ta prenha,

Ta... ta prenha sim! Confie doutor...vá por mim.

Escola não frequentei mas, dessas coisas da vida eu sei

É melhor nem sair vice, vai chover o céu ta limpo né?! mas vai!

Isso é vento menor, aquele que traz toró, pra regar a terra

Ah se eu tivesse estudado...quem me dera

Seria assim igual o senhor, moço afeiçoado mas...

Estudar? Como teria estudado? Esse negoço de estudo né pra nós não

Nosso negócio é mexer com o Chão.

Isso é ideia do tempo do zangaia né

Melhor mesmo é produzir minhas cangaias.

(Aldiná Costa Santos Pontes)

1Graduandos do Curso de Pedagogia da Faculdade Anhanguera de Brasília. Artigo Científico apresentado como quesito total para aprovação na disciplina Trabalho de Conclusão de Curso II (TCC), sob orientação do(a) Professor(a) Olyver Tavares de Lemos Santos.

2Linha do tempo extraída do site: <http://educarparacrescer.abril.com.br/historia-educacao/index.shtml > e modificada de acordo com o tema abordado.

3 O Mobral finaliza a linha do tempo iniciada no tópico 2.1 p.4 .

4[...] O mundo é do tamanho do conhecimento que se tem dele, ampliar o conhecimento tem consequência direta com aumentar o tamanho do mundo de cada um (2016,p.08).

 

Por Aldiná Costa Santos Pontes


Publicado por: Aldiná Costa

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