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O FUTEBOL COMO COMPONENTE DA CULTURA BRASILEIRA

Educação Física

Análise sobre o futebol enquanto componente da cultura brasileira.

índice

1. RESUMO

Este estudo busca discutir o futebol enquanto componente da cultura brasileira. É uma contribuição sucinta, pois alguns trabalhos de qualidade, como o de Daolio (2006) e Freire (2011) já discutem essa questão com maior amplitude. O futebol é parte integrante da formação motriz dos estudantes, sua aplicação técnica nas aulas de educação física e a discussão acerca do que ainda precisa ensinar a respeito do futebol. Abordaremos, neste estudo, um breve histórico desse esporte, sua abrangência no meio social, sua importância e influência no ambiente escolar e as discussões levantadas por especialistas acerca dessa abordagem.

Palavras-chave: Futebol; Representação social; Pedagogia do Futebol; Cultura; Educação Física.

2. INTRODUÇÃO

O artigo faz levantamento bibliográfico acerca da discussão do futebol como componente da cultura brasileira, bem como a importância dessa modalidade nas aulas de Educação Física. O trabalho, portanto, enquadra-se no referencial de Gil (2002), que afirma que “a pesquisa bibliográfica é desenvolvida com base em material já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos”. O objetivo do trabalho é apresentar a importância da cultura nas expressões corporais e como um esporte de massa – pertencente à cultura- pode fazer parte das aulas de Educação Física.

A cultura brasileira é mundialmente conhecida no aspecto musical com o samba, nas festas populares com o carnaval e no esporte com o futebol. É importante afirmar nossa ciência acerca do fato de que não apenas esses três elementos – samba, carnaval e futebol – expressam a cultura de nosso país, já que nossa vasta extensão territorial revela, naturalmente, uma complexidade significativa de costumes e tradições. O futebol como aspecto cultural – nosso objeto de estudo – tem grande relevância internacional, visto que há atletas brasileiros jogando na maioria das ligas e nos mais diversos países do mundo sendo, inclusive, premiados nos grandes eventos da FIFA[3]ou de confederações representantes de cada continente. Sobre isto, escreveu Bitencourt (apud PACHECO NETO, 2013, p. 126) ‘o futebol é, assim, um dos mais importantes marcadores de nossa identidade’.

Neste aspecto, somos conhecidos como ‘PAÍS DO FUTEBOL’. Segundo Pacheco Neto (2013), esta alcunha é disseminada ao redor do mundo desde os tempos de Garrincha, de Pelé, até tempos mais recentes com Romário e Ronaldo ‘Fenômeno’.

O futebol das milionárias transmissões televisivas, das imponentes arenas, dos gramados meticulosamente cuidados, das chuteiras e bolas fabricadas com tecnologia de ponta, dos contratos de atletas e comissão técnica valendo centenas de milhões em dinheiro, não reflete, como síntese impar, o futebol no Brasil. Aqui, o esporte em pauta, embora conte com clubes abastados economicamente, não está, de forma alguma, no mesmo nível financeiro que a Europa, especialmente no nível de países como Inglaterra, Alemanha, Espanha e França. Nesses lugares privilegiados economicamente, as crianças, não raro aprendem o esporte em escolinhas especializadas, em ginásios e quadras sofisticadas. Sabemos que no Brasil isso também ocorre com os integrantes da elite, mas não é, de forma alguma, a situação predominante. Aqui, o futebol tem conotação distinta, é parte integrante da cultura da nossa sociedade. É ensinado e aprendido nos campinhos de várzea, nos becos e vielas, é jogado na rua. A criança chega à escola com uma rica motricidade advinda da prática do futebol. Entretanto, o conhecimento empírico nem sempre está aliado ao conhecimento técnico, de cunho científico, que deve ser trabalhado pelo professor de Educação Física na escola.

3. ASPECTO HISTÓRICO CULTURAL

O futebol, da forma como é praticado, teve origem na Inglaterra, como tantos outros esportes criados pelos ingleses a partir da metade do século XIX. O futebol chegou ao Brasil no mesmo período que o rúgbi e o críquete, entretanto, somente o futebol teve grande aceitação popular no decorrer dos anos, (REIS, 2006).

Desde que o futebol chegou ao Brasil ao fim do século XIX, trazido pelo anglo-brasileiro Charles Miller (1874-1953), especificamente no ano de 1894 (REIS, 2006), ele foi assimilando à cultura brasileira. Na Inglaterra, como no Brasil, o futebol foi inicialmente praticado pela aristocracia e pela pequena nobreza, motivado apenas pela condição de deslocamento entre uma região e outra para jogar futebol, (REIS, 2006). Com a industrialização crescente na Inglaterra, o futebol tornou-se um esporte de massa, promovido e jogado pelas classes sociais mais baixas, principalmente por operários das fábricas inglesas. [...] “O futebol inglês era assim, jogado majoritariamente por gente pobre.” (GUTERMAN, 2010, p. 17).

“No Brasil, por outro lado, o pedigree elitista do futebol permeara tudo, inclusive a estrutura do esporte”, (GUTERMAN, 2010, p. 17). Por aqui o futebol foi elitizado, sendo praticado por brasileiros e estrangeiros de várias partes do mundo que moravam nas cidades de Rio de Janeiro e São Paulo. A elite praticava o futebol e impunha, até então, severas restrições à participação popular.

Com papel de diplomacia entre os praticantes, o futebol não tinha competição profissional e nem mesmo rivalidades acirradas entre os jogadores. Por estar restrito à elite, era comum que a aristocracia brasileira estivesse presente nos jogos. Os campos de futebol tornaram-se um local de atração para a elite que, com damas e cavalheiros bem vestidos, faziam banquetes regados a champanhe após cada partida de futebol, (GUTERMAN, 2010).

Com o começo da popularização do futebol no início do século XX, houve a necessidade de criar regras mais claras, clubes de futebol com estatuto, campeonatos com competições regulares e alguns jogadores começaram a receber prêmios para jogar algumas partidas. Na Inglaterra o futebol também ganhou regras específicas, que ajudaram a coibir possíveis atos de violência entre os jogadores profissionais. Com o aumento da população sem ocupação no mercado de trabalho inglês, estes jovens tinham mais tempo para a prática do futebol, culminando com a profissionalização do atleta como contratado nos clubes de futebol (REIS, 2006).

Quando o futebol transpôs os muros do racismo e preconceito impostos pela elite brasileira, o mesmo ganhou os primeiros tons de abrasileiramento. O esporte, antes praticado de forma diplomática pela elite, ganhou espaço nos campos em que operários e a massa pobre da sociedade começava a gostar do ‘novo esporte estrangeiro’ e com mais ares de competição. As primeiras torcidas começaram a frequentar o estádio e a vaiar jogadores e árbitros. O jornal da época Jornal do Commercio, no ano de 1904, tratou de reprimir a postura de alguns torcedores; “[...] temos que fazer uma grave censura a grande parte dos espectadores que assistiram ao match de ontem. Esses assistentes, por diversas vezes, vaiaram jogadores e juiz. [...} Esperamos que tão reprováveis cenas não se repitam”, (apud GUTERMAN, 2010, p. 25). Este esporte desperta diversas emoções no espectador, visto que, o resultado nem sempre depende de uma partida espetacular da equipe vencedora e, o jogo só é delimitado pelo tempo cronometrado, sem um marcador específico de pontos como em outros esportes, não havendo necessidade de apontar um vencedor quando as equipes empatam, exceto em situações de competições eliminatórias, em que o vencedor, no tiro livre, garantirá vaga na fase seguinte da competição. Para Reis (2006) o gol é período de prazer do jogo e, o período que o antecede, é extremamente excitante para o torcedor.

Entre as classes sociais mais baixas, o futebol era jogado de forma extremamente rústica. Usavam-se campos de pastagens dos equinos e muares. As bolas eram feitas de bexigas de bois devido à bola de futebol ser importada do Reino Unido a altos custos. Na cidade de São Paulo, o futebol era jogado por operários na região da Várzea do Carmo, por isso o termo ‘futebol de várzea’ ficou conhecido por designar qualquer prática amadora do futebol; (GUTERMAN, 2010).

O futebol teve, talvez, a mais significativa afronta à elite brasileira no começo do século XX, com o jogador miscigenado Arthur Friedenreich. Este jogador, filho de mãe negra e pai branco nascido na Alemanha, foi um dos melhores da sua época, tornando-se refência do futebol nacional. Fried, como era conhecido, “foi um fenômeno extraordinário no futebol”, MAZZONI (1950 apud GUTERMAN, 2010, p. 40).

No ano de 1910, foi fundado o Sport Club Corintian Paulista[4], um dos mais importantes clubes da época, formado apenas por populares, excluindo a elite. A idealização e fundação de um clube do povo e para o povo, ficou claro no primeiro estatuto feito pela diretoria da época. “Seus estatutos previam que o clube seria um local aberto a todos ‘não se observando nacionalidade, religião ou política’.” (GUTERMAN, 2010, p. 49). Ao mesmo tempo em que o novo clube tinha abertura à pluralidade, também tinha intenção de não ser mais um time de várzea, por isso criou sede própria e estatutos similares aos clubes elitizados de remo, velódromos, entre outros.

No Rio de Janeiro o The Bangu Athletic Club, fundado em 1904, já tinha operários nos seus times, mas com uma diferença do Corinthians, todo o time era financiado pelos industriais da região. O Vasco da Gama, então clube de remo, fundiu-se com o clube Lusitânia e formou uma equipe de futebol, tendo o primeiro presidente negro da história do futebol brasileiro no ano de 1904 e, incluindo ainda, vários jogadores negros na equipe. Essa inclusão – se assim pode ser dito – afirma o futebol como componente cultural do Brasil, a partir do pluralismo étnico do país nesta época, cuja miscigenação ainda é marca étnica do Brasil.

O futebol foi crescentemente massificado no Brasil. O caráter diplomático e amador deixou de ser símbolo deste esporte, com a criação dos campeonatos e dos novos clubes com jogadores contratados. Em São Paulo foi criado o Campeonato Paulista no ano de 1902, e a Liga Metropolitana de Football no Rio de Janeiro, em 1905. No Rio de Janeiro, em 1911, foi criada a equipe de futebol do Clube de Regatas Flamengo[5]. No ano de 1914 foi fundado em São Paulo o clube Palestra Itália, cujo nome foi trocado para Sociedade Esportiva Palmeiras em 1942.  

Com as medidas tomadas no começo do século XX e a consolidação do profissionalismo no futebol no ano de 1933, apareceram, efetivamente, os primeiros jogadores registrados como funcionários dos clubes e com remuneração mensal, antes disso, os jogadores eventualmente recebiam pagamentos por alguns jogos, (REIS, 2006).

Com a popularidade do futebol, fez-se necessário construir novos estádios e, com as competições da FIFA ganhando força no mundo, o Brasil foi eleito país sede para a Copa do Mundo de Futebol no ano de 1950. Para as competições nacionais e para copa do mundo, convém destacar a construção do estádio Paulo Machado de Carvalho, o Pacaembu, em São Paulo no ano de 1940. No Rio de Janeiro, foi construído, em 1950, o estádio Jornalista Mario Filho, o Maracanã. Ambos os estádios foram de suma importância para a afirmação do futebol como componente da cultura brasileira. O estádio Maracanã foi por muitos anos o maior estádio de futebol do mundo, ganhando, assim, o apelido de “Templo do Futebol”, codinome comum no vocabulário da mídia especializada e disseminado entre toda a população aficionada.

No começo da década de 1950, a televisão em preto e branco chegou ao Brasil, e aos poucos começou a transmitir partidas de futebol. Este novo meio de comunicação contribuiu para a ‘divulgação, a popularização e a mercantilização desse esporte, (REIS, 2006). O Brasil foi vice-campeão na Copa do Mundo de 1950. Apesar do desfecho considerado infausto, o futebol brasileiro ganhou notoriedade internacional. Oito anos mais tarde o Brasil sagrava-se campeão mundial de futebol, na copa da Suécia, apresentando um futebol vistoso e ousado, comandado por Garricha e pelo ainda menino Pelé, que se tornaria um dos maiores futebolistas da historia, para muitos, o maior de todos os tempos. O Brasil ainda seria campeão, com Pelé como protagonista, das copas de 1962 (Chile) e 1970 (México). Pelé e Garrincha são exemplos de jogadores que aprenderam a jogar futebol na rua, de maneira informal, improvisando espaços para a prática do esporte. O menino Edson Arantes do Nascimento ganhou o apelido de Pelé porque era fã do goleiro Bilé do Vasco da Gama e, ao tentar pronunciar o nome do jogador nas brincadeiras de criança, sempre falava Pilé. O apelido pegou e desta forma é um dos nomes mais populares entre esportistas de todo o planeta, inclusive em dias atuais.

No período do Governo Militar, que se iniciou no ano de 1964, o futebol foi usado como ferramenta de mobilização em massa. A Copa do Mundo de Futebol de 1970 foi vencida pela Seleção Brasileira de Futebol, tendo no poder o presidente Emilio Garrastazu Médici, que governou o país de 1969 a 1974. O presidente era ávido torcedor de futebol e aliou a ideia de grandeza do Brasil com os feitos da Seleção, tentando assim, popularizar o seu governo, aproveitando-se da massificação do esporte. O futebol, paixão nacional, ganhou ainda mais notoriedade midiática, com frequentes aparições da seleção brasileira tricampeã junto ao governo ditatorial, que punha o futebol como expoente máximo da propaganda do ‘Brasil potência’. Na época, algumas frases ditas pelo presidente foram incluídas na marchinha ‘Prá Frente Brasil’, do compositor Miguel Gustavo,  que enaltecia os feitos da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1970 (GUTERMAN, 2010).

Se em 1970 o futebol foi instrumentalizado ideologicamente pela ditadura militar, nos anos da década de 1980, quando havia fortes movimentos no Brasil em busca da democracia e de eleições diretas, a modalidade em pauta serviu de alicerce para uma empreitada de afirmação democrática que se tornou famosa, tendo o Corinthians Paulista como protagonista. O time em questão, liderado pelo jogador Sócrates, implantou uma forma de gestão descentralizada, que foi denominada “Democracia Corinthiana”. Além de Sócrates, outros jogadores tiveram papel importante naquela nova forma de gestão futebolística. Entre eles, destacaram-se Casa Grande (hoje comentarista da Rede Globo), Wladimir e Zenon, cumprindo, ainda, acrescentar o relevante papel exercido pelo diretor de futebol da equipe na época, o sociólogo Adilson Monteiro Alves, que tinha como hábito ouvir muito os jogadores do time. Vários atletas da equipe acabaram se engajando na luta pela derrubada do regime militar, que encontrava-se em seu final. Sócrates chegou a subir em palanques ao lado de políticos de esquerda, reforçando a luta pelas eleições diretas para presidente da república, sob o conhecido slogan “diretas já”.

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No decorrer da história do futebol no Brasil, a música foi parte integrante deste esporte. O samba tornou-se parte do ‘estilo brasileiro’ de jogar futebol. Os jogadores da seleção brasileira são comumente chamados de “The Samba Boys” em jornais britânicos, numa tradução direta, como meninos do samba, o que sintetiza a influência que o futebol tem na cultura brasileira e, muitos consideram que a ginga nos gramados é oriunda dos passes realizados nas rodas de samba. Compositores como Adoniran Barbosa, Bezerra da Silva, Cartola, Noel Rosa, dentre outros, imortalizaram o futebol nas suas composições ou nas rodas de samba.  O cinema, o teatro e as telenovelas também se enfeitiçaram pelo futebol, dando mais graça e brasilidades às suas tramas.

4. O FUTEBOL NA EDUCAÇÃO FÍSICA

O futebol tem uma demanda motora importante para executar movimentos singulares, visto que é um esporte que exclusivamente, com exceção do goleiro que pode usar as mãos, é praticado com os membros inferiores, deixando de fora o uso dos membros superiores para a fluência do jogo. Para Freire (2011) este esporte torna-se único, a partir da limitação de membros que participam diretamente do jogo, ao tocar a bola. As habilidades manuais foram as principais responsáveis pela técnica de expressão e produção cultural do homem e, neste esporte, ela não é predominante. O autor ainda ressalta, “as mãos são, provavelmente, os principais órgãos associados ao cérebro na organização da inteligência” (FREIRE, 2011, p. 17). Entretanto, o futebol não utiliza estes membros, que tem distinção qualitativa, quando comparado aos membros inferiores. Nesta conotação, o futebol “pode ser elevado à categoria de arte”.

O futebol é eleito, pela popularidade, como o esporte representante do Brasil. “Cada povo escolhe seu esporte e o transforma em paixão nacional: beisebol nos Estados Unidos, hóquei no Canadá, futebol no Brasil”, (FREIRE, 2011 p. 27). Por isso, é importante abordar as questões relacionadas ao futebol e como este esporte chega às aulas de Educação Física. A escola tem papel importante na manutenção da cultura, senão vejamos:

O resgate e a valorização dos jogos da cultura popular por meio das aulas de educação física podem auxiliar na transmissão desses elementos de nossa cultura às futuras gerações. No futebol é importante mantermos viva a tradição de brincar de golzinhos, gol de cabeça, rebatida, gol a gol e outras brincadeiras, (DARIDO & SOUZA JÚNIOR, 2007, p. 31).

 O futebol pode ser trabalhado na escola pela gama de habilidades e capacidades motoras que pode agregar ao desenvolvimento motriz, cognitivo e social do aluno. É um importante elemento na construção motriz da criança, que é o processo de alteração do movimento humano através da interação entre a genética e a cultura (Gabbard, 1998). É relevante lembrar que a aprendizagem motora é necessária para criar soluções a desafios impostos na execução de determinadas tarefas. Para (apud DAOLIO, 2006, p. 19) “aprendizagem motora é uma mudança interna no individuo, deduzida de uma melhoria relativamente permanente em seu desempenho, como resultado da prática”.

 “O gol é o objetivo maior do jogo”, (FREIRE, 2011, p. 29), logo, a finalização pode ser considerada uma das habilidades específicas mais importantes do futebol, visto que, é nesta habilidade que está o objetivo final do jogo. O aluno chega à aula de Educação Física com bom conhecimento do futebol, tanto na parte sociocultural, quanto nas regras intrínsecas deste esporte e suas formas adaptadas às brincadeiras lúdicas, que eles próprios fazem ao jogar nas ruas, becos, vielas, varandas ou garagens de casas. Observe-se que: “[...] a história de vida será fundamental para a organização motora e intelectual da criança.” (FREIRE, 2011, p. 21). Para o professor de Educação Física, em termos predominantes – não absolutos –, ensinar futebol é menos complexo do que ensinar outros esportes, devido ao aspecto cultural porque tem maior aceitação entre os alunos, mesmo que, seus fundamentos tenham exigências motoras complexas, o fator cultura é determinante para a motivação à prática deste esporte. O corpo é produto da cultura em que está inserido, se desenvolvendo, por conseguinte, a partir desse condicionamento. Noutros termos, é dentro do aspecto cultural que o corpo desenvolve sua identidade motriz. Segundo Daolio (2006, p. 21), “o corpo é expressão da cultura, portanto cada cultura vai expressar diferentes corpos, porque se expressa diferentemente como cultura” (apud Kofes, 1985). Entretanto, o professor precisa estar capacitado para ensinar, não basta ter apenas conhecimento a partir de jogos transmitidos na TV ou pelo conhecimento adquirido na prática em ligas amadoras, ou mesmo, se o professor foi jogador profissional. O professor precisa estar munido de conhecimento epistemológico e pedagógico que permeia o futebol, para que consiga ensinar corretamente. “Não basta ensinar; tem que ensinar bem” (FREIRE, 2011,  p. 9). Para Freire (2011), o professor, além da formação acadêmica, também deve se especializar em futebol para ensinar. Não basta apenas ter conhecimento empírico.

É necessário pensar que o professor tem que ensinar o futebol a todos, não somente ao aluno que tem melhor desempenho motriz, que é mais inteligente taticamente ou que, geneticamente, pode ter melhor desempenho para determinada função em campo. Para Darido & Souza Júnior (2007, p. 29), é importante que o professor defina o futebol como um esporte para todos e que, “o princípio básico para a tomada de decisões sobre o jogo deve considerar que os alunos são diferentes”. Neste aspecto, os autores recomendam conversar com os alunos para conhecer a vivência de cada um com o futebol.

O futebol tem que ser ensinado de forma agradável. O aluno precisa gostar do que está sendo ensinado, pois aprenderá um esporte que poderá ser praticado por toda a vida:

“ [...] se ensinarmos com brincadeiras, com diversão, com carinho, com atenção, com liberdade, possivelmente isso ficará para sempre, sem precisarmos enganar os alunos com promessas de um futuro glorioso”. (FREIRE, 2011, p. 10).

A aprendizagem motora ocorre em fases e é importante que o professor identifique em qual delas o aluno se encontra. Daolio (2006, p. 20) cita as três fases do processo de aprendizagem motora:

[...] “cognitiva ou inicial, em que o iniciante tenta entender a tarefa e o que ela requer; fase associativa ou intermediária, em que ocorre maior organização e padronização dos movimentos já aprendidos; e fase autônoma ou final, na qual as habilidades requerem menos processamentos e o individuo pode ocupar-se como outros aspectos da performance ou mesmo realizar outras habilidades simultaneamente.” (apud Fitts, 1965).

No que tange o aprendizado motriz, “o professor de educação física precisa saber como o aluno aprende para melhor poder ensiná-lo”, (DAOLIO, 2006, p. 21).

Conhecendo o futebol e o considerando importante para a aula de Educação Física, o professor pode ministrar aulas mais criativas e lúdicas, tornando-as mais atrativas ao aluno e fugindo da conotação do futebol de alto rendimento. Algumas brincadeiras são comuns nos campinhos de várzea e também pode ser aplicada aos alunos na Educação Física. A finalização, como já observado, é a ápice das habilidades do futebol, pois dela resulta o gol, que é objetivo principal do jogo. Dentro da capacidade motora no ato de finalizar, temos: equilíbrio, força empregada ao chute, velocidade do chute. (FREIRE, 2011). Apresentam-se ainda, intrinsecamente – no ato de finalizar –, habilidades outras, tais como: correr, apoiar-se, chutar (FREIRE, 2011). Algumas atividades de caráter lúdico auxiliam na construção da capacidade de finalização do aluno praticante do futebol, tais como “gol a gol”, “controle”, “rebatida”, “pivô”, “corrida sob a corda e chute”, “cometa de Halley”, “boliche”. (FREIRE, 2011). Estas atividades ensinam a finalização de forma prazerosa para o aluno e mantém o seu interesse no futebol. Os fundamentos de passe, controle de bola, condução da bola, desarme, drible, lançamento, cruzamento, cabeceio, também podem ser ensinados usando jogos simples e atrativos aos alunos.

Algumas capacidades motoras básicas para o futebol podem ser trabalhadas na aula de Educação Física. São apontadas por Freire (2011): equilíbrio, motricidade fina, velocidade de reação, força no chute, velocidade de chute, velocidade de deslocamento, agilidade, força geral, força de salto vertical, força de salto horizontal. Dessa maneira, o futebol tem habilidades que podem ser desenvolvidas de forma individual ou coletiva no contexto escolar. É sempre pertinente lembrar que o futebol não deverá ser ensinado com o objetivo de formar craques, e sim como uma proposta de apresentação e trabalho de uma modalidade que poderá ser, enfatizemos, praticada ao longo de toda a vida.

5. DISCUSSÃO

As expressões corporais são essencialmente culturais. A escola é, parece não restar dúvida, um ambiente de propagação e valorização cultural. O futebol faz parte da cultura e também deve fazer parte do currículo escolar, mesmo que a escola não tenha espaço suficiente para um campo com medidas oficiais. Mesmo que não em termos ideais, a modalidade pode ser ensinada em espaços reduzidos. A ênfase de ensinar futebol na escola é pautada na demanda motriz desse esporte, bem como no seu importante papel como elemento cultural.

Como já expressado, o aluno pode aprender a pedagogia do esporte em ambiente escolar, mesmo que para muitos professores seja comum acreditar que o futebol ‘anda sozinho’, por ser um esporte popular, amplamente disseminado. Nesta conjuntura, é um erro pensar que o ensino e o aprendizado do futebol sejam suficientes pela prática fora do ambiente escolar. Freire (2011, p. 7) ressalta que mesmo que haja virtudes consideráveis no futebol de rua, “a pedagogia da rua é muito suscetível tanto às coisas boas como às coisas ruins”. Para o autor, o futebol de rua não tem uma pedagogia dirigida e é excludente, visto que elimina os mais fracos e os menos habilidosos.

O Referencial Curricular da Rede Estadual de Ensino do Estado de Mato Grosso do Sul (2012), com suas proposições ainda em vigência para os ensinos fundamental e médio, prevê a prática desportiva sem enunciar modalidades especificas. Ressalta, porém, a importância de desenvolver competências e habilidades que são fundamentais no futebol, tais como cooperação e respeito às regras. Também contempla a necessidade de desenvolvimento de habilidades motoras básicas, tais como correr e saltar. No ensino médio, o referencial prevê a importância do esporte como componente cultural, e neste aspecto o futebol tem predominância a outras modalidades desportivas visto que é parte da expressão cultural do povo brasileiro, como já abordamos anteriormente.

6. CONCLUSÃO

O futebol é o maior expoente esportivo da cultura brasileira, tornando-se referencial para designar assuntos relacionados ao nosso país. Alcunhas como “País do Futebol”, “The Samba Boys”, dentre outros, são comuns atualmente quando se referem ao Brasil em mídias internacionais. É comum que seja tão aclamado pelo cinema, pela música, nas rodas de conversas, na política, nas escolas de samba durante o carnaval, nas grandes torcidas e principalmente entre as crianças que, por vezes, também têm verdadeira idolatria aos jogadores de futebol.

Faz-se necessário aproveitar o aspecto cultural do futebol e aplicá-lo na escola como disciplina curricular, ensinando aos alunos sua história e sua importância social. O futebol traz consigo, além do já assaz mencionado componente cultural, uma densa, valiosa e altamente salutar demanda motora.

Ao professor, é necessário adquirir conhecimento pedagógico e ensinar em conformidade com a necessidade de cada criança, respeitando suas particularidades de aprendizagem em relação ao futebol. A escola deve ensinar e, posteriormente estimular, constantemente, a prática do futebol. Não pode deixar de ser dito que essa modalidade deverá ser ministrada no contexto de uma totalidade pedagógica mais abrangente, que deverá incluir outras modalidades, outras vivências corpóreo-motoras, assim buscando concretizar a tão defendida ideia de oferta de um vasto repertório motor na escola. O futebol tem muito a contribuir para a consecução desse louvável intento, dado o seu caráter significativamente dinâmico, em termos motrizes.

7. REFERÊNCIAS

DAOLIO, J. Cultura: educação física e futebol. 3ª ed. – Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2006.

DARIDO, S. C, SOUZA JÚNIOR, O.M. S. Para ensinar educação física: Possibilidades de intervenção na escola. - Campinas, SP: Papirus, 2007.

FREIRE, J. B. Pedagogia do futebol. 3. ed. – Campinas, SP: Autores Associados, 2011.

GIL, A.C. Como elaborar projetos de pesquisa. 4ª ed. – São Paulo, SP: Atlas, 2002.

G. O. Trad. Luciana N de A. Jorge, Maria Rita Secco Hofmeister. Psiquiatria psicodinâmica: baseado no DSM-IV. 2.ed. Porto Alegre : ArtMed, 1998. 419 p.

GUTERMAN, M., O futebol explica o Brasil: uma historia da maior expressão popular do país. 1. Ed., 1ª reimpressão. – São Paulo: Contexto, 2010.

PACHECO NETO, MANUEL. O futebol como aspecto cultural do povo brasileiro: investigação e docência na área da Educação Física. In: LORO, A. P., VINHA, M., GOLIN, C. H. (Organizadores). Educação Física: enfoques contemporâneos. Dourados-MS: Ed. UFGD, 2013. p. 111-139.

REIS, H. H. B., ESCHER, T. A. Futebol e sociedade – Brasília: Liber Livros, 2006.

SECRETARÍA DE EDUCAÇÃO DO ESTADO DE MATO GROSSO DO SUL - Referencial curricular da rede estadual de ensino de Mato Grosso do Sul. Campo Grande-MS, 2012. Disponível em: http://www.sed.ms.gov.br/ acessado em: 05 de Junho de 2017.

Ezequiel Pedroso Mira[1]

Manuel Pacheco Neto[2]


[1] Acadêmico do 7º semestre do curso de Educação Física da UFGD

[2] Professor do curso de Educação Física da Universidade Federal da Grande Dourados.

[3] FIFA- Fédération Internationale de Football Association (Francês), ou Federação Internacional de Futebol Associação (Português). É a instituição que dirige o futebol internacional. Fundada em Paris no dia 21 de maio de 1904 e tem sede em Zurique na Suíça.

[4] O nome foi inspirado no Corinthian FC, clube Inglês da cidade de Londres que fazia excursões pelo mundo para jogar futebol, na ocasião da fundação, o time inglês fazia excursão no Brasil. A palavra era escrita sem a letra “s” no final, diferentemente da forma em que é escrita hoje: Corinthians.

[5] O Clube de Regatas Flamengo foi fundado em 17 de novembro de 1895 para a prática e disputas de campeonatos de remo, somente no ano de 1911 que o clube criou uma equipe de futebol. 


Publicado por: Ezequiel pedroso mira

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