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INFLUÊNCIA DA EDUCAÇÃO FÍSICA NA PROBLEMÁTICA DA VIOLÊNCIA ESCOLAR

Educação Física

Analise sobre a influência da educação física escolar no combate a violência escolar.

índice

1. RESUMO

A violência é um problema mundial que atinge todas as esferas da sociedade. Com as crises econômicas cenas de violência tem se tornado cada vez mais cotidianas mostrando que estas possuem relação direta com os problemas sociais. Na escola a violência acontece como um espelho da sociedade em que está inserida a escola.

Nas aulas de educação física, a violência pode ser ainda mais promovida em decorrência do excesso de competitividade, mas também pode ser combatida através de intervenções do professor. Essa pesquisa buscou compreender como a violência se manifesta na escola e nas aulas de educação física e quais ações do professor podem combatê-la.

Palavras-chave: Violência, Sociedade, Violência na Educação Física, Educação física escolar.

ABSTRACT

Violence is a worldwide problem that affects all spheres of society. With economic crises, scenes of violence have become increasingly daily, showing that they have a direct relationship with social problems. In school, violence happens as a mirror of the society in which the school is inserted. In physical education classes, violence can be further promoted as a result of over-competitiveness, but can also be countered by teacher interventions. This research sought to understand how violence manifests itself in school and in physical education classes and what actions of the teacher can fight it.

Key words: Violence, Society, Violence in Physical Education, School Physical Education.

2. INTRODUÇÃO

A violência é um problema social tão antigo quanto a própria sociedade, desde os primórdios, atos violentos permeiam a sociedade produzindo inúmeras tragédias, guerras e disputas. Mesmo com o desenvolvimento da sociedade de forma organizada e com a criação de leis que punam mais severamente os atos de violência é inegável que esse problema só tem crescido na sociedade atual. Inúmeros fatores socioeconômicos potencializam o crescimento da violência, como as fortes diferenças sociais existentes no país, o aumento no desemprego devido à crise econômica que o Brasil tem passado, entre outros fatores contribuem para que a violência e a criminalidade tenham constante crescimento no Brasil. É importante entender que o contexto social do Brasil em relação à violência exerce total influência sobre o ambiente escolar e que a violência que acontece na escola não tem sua origem no ambiente escolar, mas sim nasce na sociedade violenta e apenas é reproduzida na escola.

Sendo assim é preciso compreender a realidade familiar em que os alunos estão inseridos, saber como são suas famílias e a comunidade em que vivem, pois, para combater a violência escolar é necessário que o corpo docente como um todo conheça a vida que os alunos levam fora da escola. Muitos alunos vivem em cenários violentos e apenas reproduzem na escola os atos agressivos e violentos que presenciam fora dela. Portanto não é possível combater a violência escolar sem buscar entender suas causas externas.

As aulas de educação física podem tanto serem uma importante estratégia pedagógica no combate à violência escolar, como pode também ser um ambiente propicio à manifestação de atos violentos, portanto a forma que o professor conduzirá a aula determinará se ela será um fator de combate à violência ou um cenário de violência. Para auxiliar o combate à violência o professor deve conhecer seus alunos e aplicar metodologias que incentivem a inclusão, cooperação e apoio mútuo entre os alunos.

Diante da violência que tem se manifestado na sociedade atualmente, e consequentemente nas escolas, esta pesquisa se justifica na importância de se compreender como o fenômeno da violência surge nas escolas e de que maneira é possível através de práticas pedagógicas dentro da educação física, reduzir o índice de violência nas escolas. É preciso que se estudem esses fenômenos sociais afim de não apenas compreender como eles ocorrem, mas também buscar estratégias para solucioná-los. Sendo assim esta pesquisa se mostra relevante para professores, coordenadores escolares bem como para todos que buscam minimizar os efeitos destrutivos da violência na sociedade.

Observando a crescente violência em que mergulha a sociedade em geral e compreendendo que esta mesma violência está refletida no ambiente escolar, foi levantado o seguinte questionamento: Qual a influência da educação física na problemática da violência em ambiente escolar? A partir desta problemática delimitou-se como objetivo geral da pesquisa: Identificar como a educação física influencia no contexto da violência escolar, tanto positivamente quanto negativamente. Com a intenção de responder o questionamento levantado pelo problema da pesquisa e cumprir com o objetivo geral de forma eficaz, delimitou-se os seguintes objetivos específicos: Compreender de que forma a violência na sociedade tem refletido no ambiente escolar; Compreender o que tem tornado a violência na escola algo crescente bem como analisar o papel da escola diante da prevalência da violência na escola; Verificar como a violência se manifesta na aula de educação física e de que maneira o professor de educação física pode contribuir para a redução da violência em suas aulas e na escola.

A presente pesquisa é de natureza descritiva e metodológica, visto que, pretende analisar e descrever a influência da educação física escolar no combate a violência escolar, tema proposto para este estudo. Para a coleta de dados realizou-se um levantamento bibliográfico, realizado em sites de pesquisas acadêmicas indexadas, tais como: Google acadêmico, scielo, Google academic e ministério da educação. Para a realização da pesquisa nas bases de dados citadas acima, utilizou-se palavras chaves especificas para cada etapa da pesquisa, para a construção do primeiro capitulo, utilizou-se “violência e sociedade” e “violência no Brasil”, para a construção do segundo capitulo desta revisão bibliográfica os termos pesquisados foram “violência escolar” e para o terceiro capítulo desta pesquisa utilizou-se “violência e educação física” “competitividade e violência”, utilizando-se obras de caráter acadêmico publicadas a partir de 1986, tendo sido priorizadas obras mais recentes sobre o assunto discutido. Utilizou-se como base para a realização deste estudo a pesquisa bibliográfica. Que segundo Gil (1991 apud KAUARK, 2010, p.28), explica “pesquisa bibliográfica: quando elaborada a partir de material já publicado, constituído principalmente de livros, artigos de periódicos e, atualmente, material disponibilizado na internet”.

3. VIOLÊNCIA NO CONTEXTO ESCOLAR

A palavra violência tem sua origem no latim, violentia e pode ser definida como força violenta ou como uso da força com a finalidade de submeter alguém (RUSS, 1994). A utilização da força se transforma em violência quando o uso dessa força fere os princípios e regras que conduzem as relações sociais (ZALUAR, 2000). A violência humana é um problema social antigo que data de tempos tão primórdios quanto a própria existência humana, na bíblia em suas primeiras páginas já é possível verificar um ato de violência por parte de Caim que mata seu irmão movido por sentimentos de inveja, o que mostra que a violência está presente na sociedade desde o seu início, sendo praticamente inerente a condição humana.

Porem apesar de ser um problema tão antigo quanto a própria sociedade a violência não deixa de ser nociva a vida em comunidade e nem se torna justificado de forma alguma. É notável que mesmo com a sociedade organizada, com a criação de leis, serviços de segurança pública como policias, guardas, exércitos e mecanismos de punição mais severos a violência continua crescente na sociedade.

O ser humano desde a pré-história vivenciou inúmeros avanços e descobertas, desde a descoberta do fogo, a idade da pedra do bronze até os dias atuais onde vivenciamos a idade da informação, onde tudo é virtual, rápido foram muitas conquistas do homem dentro das diversas áreas do conhecimento e evolução da espécie. Em contrapartida a todo esse avanço tecnológico que vivemos na atualidade prevalece a violência que continua existindo de forma tão intensa quanto como se manifestava no homem das cavernas (LEVISKY, 1995).

Teoricamente a sociedade democrática atual garante igualdade de direitos e deveres a todos, porém a verdade é que a estrutura da sociedade atual, com prazos, regras, cobranças vem ocasionando um aumento das tensões na sociedade, tensões essas que geram cenas de desrespeito, humilhação, frustrações, agressividade, e outros sentimentos que servem de ingrediente para que surja pôr fim à violência física e moral no contexto da sociedade moderna (LEVISKY, 1995). Segundo Freire Costa (1986): “a violência é um artefato da cultura e não o seu artífice”... “Ela é uma particularidade do viver social, um tipo de ‘negociação’, que através do emprego da força ou da agressividade visa encontrar soluções para conflitos que não se deixam resolver pelo diálogo e pela cooperação”. Seguindo o pensamento de Freire a violência que surge no ambiente da sociedade contemporânea nada mais é do que uma resposta comportamental para as tensões existentes nesta sociedade apontadas por Levisky.

3.1 VIOLÊNCIA NO BRASIL

De mod geral a sociedade brasileira atual sofre constantemente com o aumento da violência, roubos, corrupção, desrespeito e segregação. Estes atos de violência podem ser vistos diariamente em qualquer jornal e retratam o atual estado da sociedade (LATERMAN, 2000). Segundo Adorno (2002), é possível identificar nas últimas décadas pós-regime militar no Brasil quatro tendências que indicam o aumento da violência no contexto nacional, são elas: O aumento da delinquência urbana como roubos, sequestros e assassinatos; crescimento do crime organizado, em especial o tráfico de drogas que constitui um grave problema social por incluir crianças e jovens muito cedo no mundo das drogas; violações dos direitos humanos e; conflitos e brigas entre vizinhos que podem ocasionar em fatalidades. Pode-se acrescentar a esta lista a crise econômica que o país tem enfrentado que tem gerado cada vez mais desemprego e aumentando assim a os crimes contra o patrimônio como roubos, furtos etc.

A sociedade brasileira, egressa do regime autoritário, há duas décadas, vem experimentando, pelo menos, quatro tendências: a) o crescimento da delinquência urbana, em especial dos crimes contra o patrimônio (roubo, extorsão mediante sequestro) e de homicídios dolosos (voluntários); b) a emergência da criminalidade organizada, em particular em torno do tráfico internacional de drogas, que modifica os modelos e perfis convencionais da delinquência urbana e propõe problemas novos para o direito penal e para o funcionamento da justiça criminal; c) graves violações de direitos humanos que comprometem a consolidação da ordem política democrática; d) a explosão de conflitos nas relações intersubjetivas, mais propriamente conflitos de vizinhança que tendem a convergir para desfechos fatais.

Nas últimas décadas o país tem enfrentado uma onda crescente de violência, inúmeros fatores são responsáveis por esse crescimento, dentre eles podemos destacar a mudanças na sociedade e nos padrões convencionais de delinquência e violência: a forma com que a sociedade se organiza econômica e politicamente mudaram muito nos últimos 50 anos. Desde a maneira com que as empresas investem e administram seu capital, as estratégias de acumulo de capital, as novas tecnologias, bem como as mudanças políticas que o país passou nas últimas décadas com o fim da ditadura. Todas essas mudanças refletem também no mundo do crime e na forma com que ele se organiza na sociedade, atualmente as facções criminosas são organizadas como empresas o que transforma a realidade de como a violência ocorre na sociedade. b) crise do sistema de justiça criminal: a lentidão dos processos criminais, superlotação dos presídios, despreparo do sistema prisional, falta de agilidade da justiça e das forças policiais para capturar e condenar criminosos faz com que a violência, e outros crimes aconteçam livremente em todo país, visto que não há punição devida aos criminosos. c) desigualdade social e segregação urbana: este é o terceiro fator apontado por adorno como responsável pelo aumento da violência no Brasil. A grande diferença existente na distribuição de renda no país. Segundo Monteiro e Zaluar (1998) o risco de crianças e adolescentes serem vítimas de violência letal dobra quando a família dessa criança possui renda per capita inferior a um salário mínimo, o risco é ainda maior quando essa família vive em favelas. Estes são os três principais fatores responsáveis pelo aumento da violência no Brasil apontados por Adorno (2002).

Esses fatores nos ajudam a compreender a crescente onda de violência no país, que vem se destacando ainda mais nos últimos anos em decorrência da crise econômica e política que o país vem enfrentando. É preciso salientar que a violência que ocorre no contexto escolar apenas reflete aquilo que ocorre na sociedade, por isso é de suma importância que se compreenda a violência na sociedade para poder combatê-la no ambiente escolar.

4. VIOLÊNCIA NO CONTEXTO ESCOLAR

A violência no ambiente escolar apenas reflete a realidade apresentada na atual sociedade brasileira, que está cada vez mais violenta. As crianças desde muito novas são expostas ao medo e a insegurança que a sociedade em geral sofre devido à crescente violência no país. Brincadeiras de rua, tão comuns a algumas décadas atrás hoje estão se tornando cada vez mais raras devido a crescente violência. Sendo assim as crianças já vão para a escola levando consigo marcas da violência na sociedade. Muitas crianças sofrem ou presenciam cenas de violência doméstica, com pais usuários de drogas e de álcool que agridem os filhos e as suas mães o que faz com que tais crianças cresçam tendo atos violentos como algo natural. Segundo Viana (2002), para compreender a violência é preciso conhecer suas causas. A violência escolar surge motivada por fatores externos não sendo um comportamento que começa e termina na escola é apenas um espelho da violência em que o estudante vivencia constantemente: violência verbal, familiar, social, física, entre outras, o aluno apenas reproduz transmite na escola as violências que vivencia fora dela (ROCHA, 2007).

A falta de regras de convivências mais claras contribui para que a violência ganhe espaço no ambiente escolar, tem se tornado comum ver nas escolas cenas de violência como vandalismo, roubos, humilhações, furtos, uso de drogas, porte de armas e brigas entre alunos e entre alunos e professores (ABRAMOVAY E RUA 2002, p. 399).

4.1 BULLYING NA ESCOLA

Uma das formas de violência mais comuns nas escolas da atualidade é o Bullying (BATSCHE, 1997). E apesar de ser um comportamento agressivo causado pelo preconceito gerando exclusão social, é importante ressaltar que o bullying é visto em diversos contextos sociais e locais, indiferente ao poder aquisitivo, gênero ou idade e ocorre em escolas públicas e privadas. (Crothers e Levinson, 2004; Olweus, 1977, 1993).

A origem da palavra bullying é inglesa e denomina agressões e abusos psicológicos, físicos e sociais que são praticados contra uma pessoa em decorrência de ser considerada diferente ou inferior aos colegas. O bullying é uma grave problemática que acomete a grande maioria das escolas na atualidade estando presente em todas as esferas da sociedade sendo caracterizado por situações de humilhação pública constrangimento e agressão. O bullying é classificado de duas formas, o bullying direto onde a vítima é agredida fisicamente ou verbalmente, com insultos, apelidos constrangedores, entre outros que são feitos pessoalmente à vítima. O bullying indireto ocorre quando a vítima é excluída de um grupo ou ambiente sem que haja necessariamente agressões explicitas, são considerados bullying indiretos, fofocas, boatos, divulgação de fotos e vídeos pessoais com objetivo de envergonhar, humilhar, manipular a vítima (olweus, 1993; smith e sharp, 1995).

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O bullying é a forma de violência mais comum nas escolas, essa violência aflige milhares de estudantes no Brasil e no resto do mundo. Lopes Neto e Saavedra (2003) classificam os alunos envolvidos com o bullying em 4 categorias: Os alvos, que são as vítimas do bullying e que não reagem a violência sofrida. Os autores, que são alunos que praticam as agressões. Os alvos/autores são alunos que ora são vítimas do bullying e ora são agressores, esses alunos procuram alunos ainda mais frágeis para descontar a violência que sofrem. E as testemunhas, que são alunos que vivenciam cenas de agressões a outros alunos e não se manifestam com medo de se tornarem alvos. (FANTE, 2005).

A maioria das cenas de violências vivenciadas na escola tem uma origem social que está além do contexto escolar, a escola funciona como um repetidor do que acontece nas famílias, nas ruas, na mídia entre outros. Assim, o bullying que acontece na escola, não tem origem na escola, ele surge muitas vezes na casa do aluno agressor que sofre violência doméstica, ou assiste cenas de violência praticadas pelo pai contra a mãe ou irmãos, esse aluno que convive com a violência às vezes por anos, passa a ver a violência como algo natural e reproduz na escola aquilo que presencia diariamente em casa. Da mesma forma as vítimas do bullying são crianças que possuem a autoestima baixa, se sentem inseguras, excluídas, e muitas vezes não possuem voz ativa em suas casas para denunciar a violência que sofrem na escola, e por não serem ouvidas em casa se sentem inseguras e desprotegidas para denunciar na escola as agressões que sofrem nas aulas.

São muitas as consequências da violência escolar, e essas consequências variam conforme o nível de violência sofrido, e de como a família e a escola lidarão com a situação de violência. Nas vítimas de violência escolar, é possível verificar quadros depressivos, baixo desempenho escolar, desmotivação, medo, insegurança, ansiedade, não são poucos os casos de suicídio de adolescentes motivado pelo bullying nas escolas (Lopes Neto e Saavedra, 2003). Nos agressores, as consequências do bullying são a de cresceram com sérios problemas comportamentais, violentos, agressivos, briguentos, com a possibilidade de se tornarem criminosos quando adultos (Lopes Neto e Saavedra, 2003).

A escola, a fim de criar uma identidade de valores morais em seus alunos a escola não deve ignorar a violência ocorrida em ambiente escolar e precisa discuti-la em sala de aula e buscar criar através do diálogo e na compreensão valores e princípios morais justos nos estudantes. Assim como a escola reflete a sociedade ao reproduzir os atos violentos vistos fora da escola, a sociedade também pode refletir a escola se a mesma conseguir inserir em seus alunos valores morais capazes de modificar seus comportamentos violentos, levando-os a se tornarem cidadãos justos.

5. VIOLÊNCIA NA EDUCAÇÃO FÍSICA E INTERVENÇÕES DO PROFESSOR

A educação física possui características esportivas, herdadas principalmente do modelo militarista, higienista e tecnicista de décadas passadas, onde visando propagar o esporte de alto rendimento e a preparação de atletas resumia a educação física em um nível altíssimo de competitividade e excluía os menos capazes. Ao manter essas influencias de décadas passadas a educação física favorece um ambiente de alta competição e busca de resultados o que acaba por dificultar o ensino de valores importantes para a vida em sociedade que são a cooperação, solidariedade, saúde e lazer. (BRITO 2010, p. 03). Esse ambiente excessivamente competitivo dá vazão para o surgimento de uma série de atos de violência, como por exemplo, a humilhação do time perdedor, agressões verbais e até mesmo físicas dos alunos menos favorecidos fisicamente e/ou em habilidades motoras.

“A educação física é uma disciplina que não tem sido poupada pelas manifestações de violência e as brigas geralmente começam por motivos banais, como uma discussão por causa de uma rixa desportiva. No Rio de Janeiro, um triste exemplo a lembrar é o do estudante de classe média que, na saída de um jogo de um campeonato intercolegial de futebol, sacou uma arma e descarregou-a contra seus ex-colegas do colégio em que estudara e que o provocavam. Mais recentemente, em São Paulo, um estudante de 15 anos matou um colega dando prosseguimento a um desentendimento que começou durante a aula de educação física [...]” (Faria Junior e Faria, 1999: 376).

Os exemplos dados pelos autores acima mostram como a violência presente nas aulas de educação física pode chegar a casos extremos, um dos grandes motivadores desse tipo de comportamento é o excesso de competição nas aulas cujas práticas trabalhadas são as esportivas.

5.1 COMPETITIVIDADE E VIOLÊNCIA

Grande parte dos problemas de violência nas aulas de educação física é decorrente do excesso de estimulo a competição, que ocorre com muita frequência nas aulas, principalmente quando o conteúdo aplicado são os esportes. No Brasil, a educação física escolar recebeu grande influência da visão tecnicista e higienista propagadas pelos militares e visava proporcionar saúde para a população visando possíveis guerras e também descobrir novos talentos esportivos para representar o país nas competições nacionais e internacionais. Essa visão tecnicista da educação física escolar fez com que o esporte no meio escolar se tornasse mera repetição das competições vistas no alto rendimento o que torna o ambiente seletivo e prejudicial à aprendizagem.

Mesmo findado o período militar, o esporte continua exercendo forte influência sobre a educação física escolar, porém o esporte possui características que são prejudiciais ao processo de aprendizagem se não forem trabalhados de forma adaptada à realidade escolar. Betti (1991) afirma que o esporte é caracterizado pela alta competição, alto rendimento, recordes e pela busca constante por melhores desempenhos, assim ele movimenta uma indústria milionária de pesquisas que aperfeiçoem o rendimento dos atletas, indústria de matérias esportivas, canais de entretenimento, entre outros. Quanto melhor o desempenho dos atletas nas competições mais recursos ele traz. Devido à grande competitividade existente no meio esportivo, a cobrança por alto rendimento os atletas muitas vezes se submetem a treinos extremos, por muitas horas, mesmo quando lesionados o que pode resultar em prejuízo para a saúde dos atletas tanto física quanto psicológica.

Com o fim da ditadura militar, a educação física escolar passou a possuir uma abordagem mais pedagógica, enxergando o aluno não mais como um atleta em potencial visando apenas suas habilidades físicas, mas sim como um ser humano integral e pleno, que deve vivenciar as práticas corporais não apenas visando adquirir competências físicas e técnicas esportivas, mas sim para conhecer o próprio corpo e o corpo do outro, aprender a ser social, a respeitar e ser respeitado, a ganhar e a perder de forma digna, entre outras aprendizagens importantes para a formação de um ser humano pleno e capaz de exercer sua cidadania.

Devido à grande influência da mídia, os alunos reproduzem o esporte na escola como o veem na televisão e na internet, e jogam com o mesmo afinco e desejo de ganhar que observam seus ídolos jogarem. Essa reprodução do esporte na escola é um grande facilitador da violência nas aulas de educação física, porque os alunos deixam de visualizar o jogo como instrumento de aprendizagem e prazer e o veem como uma guerra, onde o colega deixa de ser um companheiro de aprendizagem e passa a ser o adversário a ser vencido. Até mesmo companheiros de equipe podem ser vítimas de violência durante as aulas de educação física, quando não possuem o desempenho esperado pelos colegas pode ser ofendido e humilhado. A competição elevada leva os alunos a excluírem os menos habilidosos, a humilhar os perdedores, gerando diversas formas de violência, que vão desde a exclusão dos alunos menos habilidosos dos meios de prática, agressões verbais, chegando até a violência física em casos mais graves. Em jogos esportivos na escola é muito comum em momentos onde o jogo se encontra mais intenso presenciarmos cenas de empurrões, socos e palavrões.

Para Bracht (2003) a fim de cumprir com objetivos da educação física e desenvolver essas habilidades nos alunos é preciso parar de reproduzir o esporte na escola que é extremamente competitivo e dificultam relações de respeito e aprendizagem inclusiva e criar o esporte da escola, capaz de incluir todos os alunos e proporcionar mais cooperação, respeito, compreensão entre os estudantes.

Compreendendo que a alta competitividade e a busca desenfreada por rendimento não são saudáveis para seus praticantes e considerando a grande influência que o esporte de rendimento possui sobre a sociedade é preciso discutir de que maneira o esporte deve ser inserido no ambiente escolar. Bracht (2003) aponta então, a diferença entre o esporte “na” escola e o esporte “da” escola, na primeira colocação o esporte na escola aparece como mera imitação do esporte de rendimento, criando um ambiente altamente competitivo que é prejudicial à aprendizagem, causando a exclusão de alunos menos habilidosos e familiarizados com a modalidade que está sendo aplicado, já no esporte “da” escola, o esporte é adaptada para a realidade escolar, diminuindo a competitividade e a exigência por técnicas e habilidades, facilitando o acesso e a inclusão de todos os alunos.

O professor deve a fim de reduzir esse excesso de competição que por vezes acaba por gerar atos de violência, metodologias que promovam o espírito de integração entre os alunos, como “gincanas de solidariedade” que podem estreitar relações e sensibilizar para valores humanos (ORLICK, 1989). A Educação Física deve ser voltada para a construção da cidadania dos alunos e precisa analisar criticamente o modelo competitivo que tem reproduzido pois a competição, os estereótipos, o egoísmo, a discriminação, e a intolerância às diferenças, acabam por reforçar os atos de violência dentro e fora da escola (RESENDE E SOARES, 1997, p.33).

Jogos lúdicos e cooperativos, danças, teatros, capoeira, entre outros são capazes de produzir uma melhor relação entre os alunos, ninguém joga ou se diverte sozinho, um jogo onde todos estão cooperando mutuamente é muito mais educativo do que outro onde há oposição e disputa (BROTO, 2001). Os jogos cooperativos podem ser uma importante estratégia para a superação dos conflitos ligados à violência (AMARAL, 2004, p.13).

Devido à grande aceitação da Educação Física entre os alunos “indisciplinados” ela se torna uma importante ferramenta pedagógica para a diminuição da violência na escola. Pois é durante a aula de educação física que os alunos vivenciam atividades que os possibilita interagir uns com outros, cooperar, brincar, correr, jogar e também é onde o aluno pode aprender a respeitar regras e à autoridade do professor (OLIVEIRA, 2004).

6. CONCLUSÕES

A violência é um problema social antigo, tão antigo quanto a própria existência humana, em tempos de crise econômica e diversos problemas sociais que surgem e decorrência das diferenças na distribuição de renda e oportunidades, a violência que sempre esteve presente fica ainda mais evidenciada.

Na escola a violência funciona como um espelho que reflete a violência na sociedade, os alunos imitam as cenas de violência que presenciam em suas casas, bairros, nas ruas e que veem nas mídias. A violência escolar pode trazer graves consequências para seus envolvidos como problemas psicológicos, como ansiedade, pânico e depressão em suas vítimas, além de dificuldades no processo de aprendizagem, bem como na formação do caráter e da personalidade, certas consequências poderão perdurar por toda a vida. Muitos alunos que testemunham ou são vítimas de violência não se sentem seguros para falar sobre a mesma, portanto é importante que a escola esteja atenta a tudo que acontece em seu ambiente.

Quando se trata de Educação Física essa atenção deve ser ainda mais considerada pelo professor, visto que a disciplina herdou muitas características do esporte de rendimento que incentivam a competição. Essa competição por sua vez, se não devidamente trabalhada pelo professor pode criar um ambiente propicio para manifestações de violência durante as aulas.

Para evitar que isso aconteça o professor deve ficar atento a qualquer manifestação de violência e também promover debates sobre a mesma. Outra opção interessante é a promoção de atividades que não tenham cunho competitivo, incentivando a cooperação e a integração entre todos os alunos.

Foi possível observar que a aula Educação Física pode tanto ser um ambiente onde a violência escolar acontece e pode ser estimulada através do excesso de competição de algumas aulas e atividades, como também pode ser um momento de combate à violência, agressões e discriminações, cabe ao professor estimular o diálogo e a inclusão para que isso aconteça.

É necessário ressaltar pôr fim a necessidade de realizarem mais pesquisas a respeito da violência na escola e de forma mais especifica nas aulas de Educação Física, a fim de combatê-la.

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Publicado por: JOAO PAULO ARAUJO SANTANA

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