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Sujeito psíquico em instituição do estado: possibilidades de conflitos e impactos psíquicos em policiais militares

Direito

Investigação da realidade dos sujeitos que exercem a função policial militar, com o intuito de analisar as repercussões psíquicas que surgem a partir das especificidades de sua atividade

índice

  1. 1. RESUMO
  2. 2. FUNÇÃO POLICIAL MILITAR: RELEVANTES ASPECTOS SOCIOLÓGICOS, HISTÓRICOS E JURÍDICOS DE SUA INSTITUIÇÃO
    1. 2.1 Sociedade, civilização e estado: algumas propostas de reflexão
    2. 2.2 Reflexões acerca do conceito de polícia
    3. 2.3 Reflexões sobre o delineamento da função policial militar na sociedade brasileira: aspectos sociais, históricos e jurídicos.
  3. 3. REPERCUSSÕES PSÍQUICAS DA FUNÇÃO POLICIAL MILITAR
    1. 3.1 Metodologia utilizada para coleta de dados
    2. 3.2 Metodologia de análise de dados
    3. 3.3 Apresentação dos dados coletados nas entrevistas
    4. 3.4 Dados de observação
    5. 3.5 Análise dos dados colhidos nas entrevistas
      1. 3.5.1 Percepções sobre as diferenças no modo de vida após o ingresso na polícia militar
      2. 3.5.2 Situações recorrentes e estressoras
      3. 3.5.3 Dados sobre possíveis influências da atividade policial militar sobre a saúde mental de seus agentes.
      4. 3.5.4 Função policial e personificação do estado
      5. 3.5.5 Agressividade: percepções dos entrevistados sobre seu manejo e suas repercussões psíquicas
      6. 3.5.6 Análise das percepções sobre a função policial sob o regime militar.
  4. 4. INTERPRETAÇÕES E DISCUSSÕES TEÓRICAS SOBRE OS DADOS DA PESQUISA: ASPECTOS DA FUNÇÃO POLICIAL MILITAR À LUZ DA TEORIA PSICANALÍTICA.
    1. 4.1 Advento da função policial e mudanças comportamentais: reflexões sobre novas percepções do mundo externo e reorganização psíquica
    2. 4.2 O estresse: origens e repercussões
    3. 4.3 Repercussões à saúde mental
    4. 4.4 Função policial e personificação de Estado: o entendimento de uma posição social e suas implicações psíquicas ao sujeito
    5. 4.5 Reflexões sobre o sujeito policial militar e o manejo da agressividade
    6. 4.6 Regime militar: gerenciamento organizacional ou relação de poder?
  5. 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
  6. 6. REFERÊNCIAS
  7. 7. ANEXOS

1. RESUMO

Esta monografia pretendeu investigar a realidade dos sujeitos que exercem a função policial militar, com o intuito de analisar as repercussões psíquicas que surgem a partir das especificidades de sua atividade e a maneira pela qual estes profissionais se reorganizam subjetivamente. Também foram analisadas as formas como os sujeitos se percebem como agentes personificadores do Estado e como lidam com a agressividade nas intervenções em situações de crise e de violência. Viu-se também como os sujeitos entrevistados percebem o gerenciamento militar em sua instituição. Como procedimentos metodológicos da pesquisa, de caráter qualitativo, foram adotadas as entrevistas guiadas, realizadas com quatro profissionais da área. Para análise dos dados coletados na entrevista, realizou-se a análise do conteúdo, mais especificamente a análise temática. As interpretações dos conteúdos analisados foram feitas à luz da teoria psicanalítica. Concluiu-se que a função policial militar traz uma série de repercussões psíquicas que implicam na necessidade de reorganização subjetiva dos policiais militares, tais como a frequente lide com situações de violência, a internalização de valores e normas que a função proporciona e as diferenças comportamentais inerentes ao exercício da atividade policial. Além disso, pode-se ver como tais fenômenos repercutem nos âmbitos familiares e sociais destes profissionais.

PALAVRAS-CHAVE: Policial Militar. Personificação do Estado. Subjetivação. Agressividade. SujeitoPsíquico.

ABSTRACT

This monograph intended to investigate the reality of the subjects who exercises the military Police function, aiming to analyse the psychic repercussions that arise from the especifities of this work and the manner in which these professionals reorganize themselves subjectively. Were also analysed the ways in which the subjects understand themselves as State personifications and how they deal with the aggressiveness at interventions in situations of crisis and violence. Were also viewed how the interviewed subjects understand the military management in their institution. As methodological proceedings of the search were adopted the guided interviews with four professionals of this area. For data analysis, were used the content analysis, more specifically the theme analysis. The interpretations of the contents were made from the psychoanalitical theory. It is considered that military police function brings a lot of psychic repercussions which imply the need of subjective reorganization to the military policeman, such as the frequent handle with situations of violence, the introjection of values and rules provided by their function and the inherent behavioral differences. Furthermore, it is possible to perceive how these phenomena reverberate at family and social spheres.

KEYWORDS: Military police. State personification. Subjectevity. Aggressiveness. Psychic Subject.

Hodiernamente, em todo o país, são cada vez mais frequentes as discussões acerca dos méritos e das consequências das ações policiais militares. Difundem-se através dos mais variados meios midiáticos, tais como internet, televisão e mídia escrita, ações que acirram debates calorosos, projetando à evidência as instituições policiais militares, seus agentes, seu cotidiano e suas reais atribuições. Além disso, discutem-se também o lugar e o papel da referida instituição em um contexto de Estado Democrático de Direito sabidamente recém surgido no Brasil, após algumas décadas sob regime militar ditatorial. Atualmente, projetos que defendem a dissolução das forças policiais militares e a existência de um único corpo policial, de caráter estritamente civil e de responsabilidade da Federação, tramitam com bastante força nas casas do Congresso Nacional.

No cerne de toda esta movimentação, residem ações realizadas por homens e mulheres que, a partir do momento de ingresso na atividade policial militar, personificam e dão ação ao Estado, através do atrelamento institucional, buscando encaminhar e orientar nas situações de crise e na mediação dos conflitos de arbítrios entre os cidadãos e os consequentes choques de direitos. Pode-se perceber a partir disso que os policiais militares – como executores das leis – intervêm como mantenedores do próprio Estado, na observância dos direitos e dos deveres de seus cidadãos e na manutenção de uma ordem, que se baseia na ausência dos conflitos de arbítrios e direitos. Assim, suas intervenções se vinculam as leis previamente estabelecidas no modelo de Estado Democrático vigente. Daí surge a questão que perpassa este trabalho:Como se organizam os policiais militares diante da investidura do Estado que lhes é atribuída e com o encontro com situações de conflitos na sociedade? Visando o que se explana acima, o intuito deste estudo é justamente ir além do entendimento de panoramas sociológicos, históricos e jurídicos, embora seja interessante e necessário aqui perpassá-los. Este estudo tem como escopo os sujeitos que vestem as fardas das polícias militares e que tem como atribuição dar ação às proposições do Estado, assim como preservá-las. Busca-se analisar como os sujeitos que assumem essa função reorganizam sua subjetividade e os possíveis impactos psíquicos originados a partir da instituição da função e da entificação do Estado.

Para dar suporte a este estudo, são perpassados aqui aspectos sociológicos, históricos, antropológicos e jurídicos que influenciam e servem às reflexões sobre o panorama descrito. Tais implicações são necessárias ao entendimento das possíveis repercussões e impactos psíquicos aos sujeitos inseridos no contexto policial militar em um panorama social contemporâneo, apoiadas em referenciais teóricos da Filosofia Política, com a releitura das teorias contratualistas de Rousseau, além de jurídicos – com referências à Constituição brasileira, históricos - a partir de como se formaram as instituições policiais e como elas se desenvolveram na sociedade brasileira - e, por fim, à luz da teoria psicanalítica, na análise das repercussões psíquicas da função aos sujeitos que a exercem.

Além do estudo dos aspectos já elencados, o conteúdo do discurso de sujeitos que exercem a função policial militar também é analisado, servindo como instrumento de aproximação à realidade a qual se visa aprofundar o conhecimento. O caráter qualitativo desta monografia reside justamente na tentativa de aproximação à realidade e às representações que os sujeitos envolvidos no estudo constroem. Como afirma Minayo (2008), a investigação de caráter qualitativo trabalha com os significados, aspirações, crenças e atitudes dos sujeitos, além das representações por eles construídas. É através de seus discursos que se faz possível uma maior inclinação às questões aqui refletidas.

As entrevistas foram realizadas com policiais militares do estado das Alagoas, de diferentes patentes e que desenvolvem atividades operacionais, ou seja, que trabalham nas ruas atuando diretamente junto à população. Os profissionais entrevistados desempenham o policiamento ostensivo, exercendo a vigilância no sentido da prevenção dos crimes, assim como na intervenção em situações de crise e na mediação dos conflitos de direitos entre os cidadãos. Não houve outros fatores restritivos para a escolha dos policiais entrevistados, além da realização da atividade operacional. Entre as patentes escolhidas estão a de Soldado, a de Cabo, de 3º Sargento e a de 1º Tenente, pois estas são as patentes mais comumente encontradas na atividade de rua desta instituição.A pesquisa foi devidamente submetida ao comitê de ética e obteve parecer favorável, sendo inscrita sob o número CAE 34960414.0.0000.5207.

As entrevistas guiadas ou semi-estruturadas delineiam um roteiro em busca de um maior aprofundamento da realidade destes profissionais. Segundo Richardson (2008), utiliza-se entrevistas guiadas ou semi-estruturadas a fim de que se reconheçam variados aspectos de uma experiência que repercutam em mudanças às pessoas que a ela se submetem. Os aspectos a serem pesquisados são previamente conhecidos e, a partir deles, são formulados pontos focais para as entrevistas.

Para a análise dos dados coletados, utiliza-se aqui a Análise do Conteúdo. Através dessa metodologia de análise de dados, busca-se a validação e replicação de inferências sobre aspectos de determinado contexto, por meio de procedimentos especializados e científicos, como afirma Minayo (2013).

O desenvolvimento deste estudo monográfico se deve ao interesse desenvolvido pelo pesquisador através do exercício da função durante aproximadamente quatro anos. A vivência da realidade da função policial militar e o simultâneo curso da graduação em Psicologia fizeram com que surgissem questionamentos e reflexões sobre as experiências vividas naquele contexto. A realização de cursos de aprimoramento profissional da área que se utilizavam de tópicos da Psicologia também foram determinantes para consolidar o interesse surgido. Este trabalho é pertinente, tanto pela contribuição que pode trazer ao conhecimento cientifico sobre o tema, na medida em que há uma exiguidade bibliográfica sobre ele, quanto pela significativa relevância social que a temática proposta carrega. O reconhecimento de fatores psíquicos constituintes de sujeitos que exercem a função policial militar pode promover a compreensão de fenômenos e a proposição de intervenções relativas à promoção de saúde mental, com o intuito de melhorar a qualidade de vida destes agentes, assim como a qualidade dos serviços prestados à sociedade. As atuais discussões acerca das ações policiais militares podem, assim, ganhar uma nova perspectiva a ser analisada: a perspectiva psíquica referente ao sujeito policial militar.

O primeiro capítulo deste estudo busca elaborar um perfil da função do policial militar, levando em consideração aspectos sociológicos como, por exemplo, a idealização einstituição do Estado Democrático de Direito na contemporaneidade através do contrato social. Leva em consideração também fatos históricos, como a transição entre a ditadura militar e o modelo democrático de governo durante a década de oitenta, e os resquícios ainda reconhecidos deste período nas próprias gestões das polícias militares na atualidade. Todos estes fatores desembocam influenciam na constituição da função em questão e, consequentemente, na constituição psíquica de seus agentes.

Os capítulos posteriores têm como substrato as entrevistas realizadas com policiais militares em exercício das atividades operacionais. A partir delas e à luz de um referencialteórico psicanalítico, os estudos se voltam aos modos de subjetivação dos agentes, para a forma com a qual eles lidam com fatores estressores de sua função, para as peculiaridades que esta atividade acaba por trazer às suas vidas psíquicas e as implicações trazidas à sua saúde mental. Além disso, desenvolve-se uma investigação de possíveis conflitos subjetivos que emergem a partir da personificação do Estado em sua atividade. Por fim, o fator agressividade também é abordado neste estudo. Verificou-se, através do conteúdo do discurso dos policiais, de que forma lidam com a agressividade no momento de suas intervenções nas mediações de conflitos e nas situações de crise e de violência.

2. FUNÇÃO POLICIAL MILITAR: RELEVANTES ASPECTOS SOCIOLÓGICOS, HISTÓRICOS E JURÍDICOS DE SUA INSTITUIÇÃO

Neste primeiro capítulo, desenvolvem-se importantes reflexões acerca da formação das concepções de sociedade e Estado, partindo de postulados construídos por teóricos como Rousseau e Freud. A partir das considerações quanto a estas instituições, será possível conceber o lugar e a atribuição das funções policiais, assim como compreendê-las na perspectiva de um panorama social atual. Desenvolver-se-ão também os estudos sobre o conceito de Polícia, sobre aspectos de sua história no Brasil e sobre suas atuais gestões, a partir de onde o foco será dado às Polícias Militares, devido às suas peculiaridades históricas e de gestão institucional.

2.1. Sociedade, civilização e estado: algumas propostas de reflexão

Para que se possa compreender o real lugar da polícia no contexto social atual, faz-se aqui um estudo retrospectivo baseado em reflexões sobre ideias relativas à civilização, sociedade e Estado e sobre como, para a vigência destes, se necessita de uma força limitadora das ações individuais para a manutenção de uma ordem e para a preservação dos sujeitos.

Dentre as mais variadas teorias de contratualismo social de meados do séc. XVIII, em meio ao vigor dos modelos monárquicos de instituição do Estado, que centralizavam o poder e a soberania por muitas vezes nas mãos de uma só pessoa (o rei ou rainha), de uma família ou de uma oligarquia detentora da maioria das riquezas, surgem do filósofo e sociólogo suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), postulados que serviram e servem até hoje como referenciais à instituição de uma sociedade democrática e soberana. Rousseau (2013) postula sobre o que seria a essência de uma sociedade democrática em que o governo, a legislação e a execução das leis fossem regidos pelo que conceituava como vontade geral, à qual atribuía toda a soberania, antes concentrada nos monarcas. Obviamente, sua obra foi inicialmente refutada em boa parte da Europa como, por exemplo, na França e em seu próprio país. As ideias logicamente subversivas ao monarquismo ameaçavam a soberania e a retenção do poder dos monarcas e das oligarquias. É tanto que, por causa de seus escritos, o filósofo suíço teve sua prisão determinada pelo conselho de sua cidade natal, Genebra. O filósofo suíço postula o conceito de pacto social. Em essência, uma associação entre os indivíduos com intuito de sua autoconservação, tendo em vista que o estado de natureza, onde os conflitos de

vontades seriam resolvidos a partir do emprego da força, resultando na subjugação do mais fraco pelo mais forte, não era favorável à subsistência da espécie humana. Assim, Rousseau reflete:

Suponho os homens chegados a um ponto em que os obstáculos prejudiciais à sua conservação no estado de natureza vencem, por sua resistência, as forças que cada indivíduo pode empregar para manter-se nesse estado. Esse estado primitivo, então, não pode mais subsistir, e o gênero humano pereceria se não mudasse sua maneira de ser. (2013, p.32).

O que poderia regular as ações dos homens em um estado primitivo, onde as convenções sociais e o estabelecimento de leis inexistissem?Apenas a força. Nesse estado, a liberdade de um indivíduo se limitaria pela vontade de outro indivíduo, mais forte fisicamente ou com maiores recursos de obter o poder. A partir disso, o autor apresenta uma proposta de substituição do estado de natureza, que corresponderia à liberdade natural, aos impulsos e aos arbítrios dela consequentes. Em meio aos seus ideais políticos, Rousseau volta a refletir quanto a esta questão:

“Encontrar uma forma de associação que defenda e proteja com toda a força comum a pessoa e os bens de cada associado, e pela qual cada um, ao unir-se a todos, obedeça somente a si mesmo e continue tão livre quanto antes.” Esse é o problema fundamental para o qual o contrato social oferece a solução. As cláusulas desse contrato são determinadas de tal maneira pela natureza do ato que a menor modificação as tornaria vãs e de efeito nulo; de modo que, embora jamais tenham sido formalmente enunciadas, elas são em toda parte as mesmas, em toda parte tacitamente aceitas e reconhecidas; tanto é assim que, se o pacto social for violado, cada um volta a seus primeiros direitos e retoma sua liberdade natural, perdendo a liberdade convencional pela qual renunciou àquela. (Ibidem, 2013, p.33; aspas do autor)

Em resumo, o pacto social propõe o pertecimento total, sem reservas, de todos os indivíduos à sociedade. Este pertecimento se traduz na substituição da liberdade natural pela liberdade convencionada sob a associação entre os indivíduos - que lhes garante a preservação da vida e a propriedade privada - e limitada não mais pela força medida nos conflitos de interesse, mas pela vontade geral, instituinte de uma entidade abstrata, que detém a função de dar movimento a este pacto: o Estado.

Para justificar seus postulados, Rousseau afirma que:

Ao que precede, poder-se-ia acrescentar a aquisição, no estado civil, da liberdade moral, a única que torna o homem verdadeiramente senhor de si mesmo, pois o impulso do simples apetite é escravidão, enquanto a obediência à lei a que se está prescrito é liberdade. (Ibidem 2013, p.38)

É sabido que a Filosofia política de Rousseau foi de indubitável influência para o pensamento político contemplado na contemporaneidade. Se à sua época, seus ideais eram vistos como ameaça ao poder monárquico, hoje seus postulados servem como referências às nações e comunidades que se regem pelo modelo de Estado Democrático de Direito. É possível que se note tal influência nas conjunturas políticas das mais diversas nações, que se estabelecem em modelos políticos de democracia, sejam elas diretas ou representativas. Em quaisquer desses, em tese, é a vontade geral do corpo político, ou seja, da sociedade que rege a convivência social e sua própria conservação.

O que também é notório é que tal modelo de organização sociopolítica que se denomina Estado enfrenta, na prática e distante do idealismo de postulados filosóficos, diversas dificuldades em sua manutenção, dadas principalmente pelos impulsos e pelos arbítrios dos indivíduos – os próprios associados desse contrato– e pelos conflitos de força que surgem a partir deles, seja no confronto com outros indivíduos ou com o próprio Estado. A manutenção de uma civilização politicamente organizada é, aparentemente, um complexo empreendimento.

Em sua obra O mal-estar na Civilização, Freud (1930) sinaliza que a convivência harmoniosa e a manutenção de uma civilização politicamente organizada são, aparentemente, um árduo empreendimento aos seres humanos. Os postulados por ele desenvolvidos por si só direcionam a uma reflexão sobre o quanto isto é dispendioso. O ser humano, na visão de Freud, reconhecido com base em suas experiências clínicas e em seus estudos antropológicos e que serve de referencial à construção da teoria psicanalítica, está sujeito às motivações inconscientes, movido por pulsões plenas de desejo – sejam elas de conteúdo erótico ou agressivo – direcionadas estritamente à obtenção do prazer e à evitação do desprazer. Além desses conceitos, que já serviriam à lógica proposta, Freud ainda admite uma hostilidade primária entre os homens. Segundo Freud (1930, p.29):

[...] o elemento por trás disso, elemento que as pessoas estão tão dispostas a repudiar, é que os homens não são criaturas que desejam ser amadas e que, no máximo, podem defender-se quando atacadas; pelo contrário; são criaturas entre cujos dotes instintivos deve se levar em conta uma poderosa quota de agressividade. Em resultado disso, seu próximo é, para eles, não apenas um ajudante em potencial ou um objeto sexual, mas também alguém que os tenta a satisfazer sobre ele sua agressividade, a explorar sua capacidade de trabalho sem compensação, utilizá-lo sexualmente sem o seu consentimento, apoderar-se de suas posses, humilhá-lo, causar-lhe sofrimento, torturá-lo e matá-lo. – Homo homini lupus.

Sobre as asserções de Freud, é interessante perceber que todas as tendências por ele elencadas como constituintes e a serem potencializadas pelos seres humanos são as causas da necessidade de uma contra-força – estritamente superegóica - que se engaja em promover uma convivência harmônica entre eles, o que Freud conceitua como civilização. Justifica-se, portanto, o mal-estar gerado ao sujeito pela necessidade de conviver em sociedade. Justifica-se também, que além de outros dispositivos que servem como limitadores das condutas humanas - como as religiões, por exemplo - surja também o Estado e todos os mecanismos que lhe dão movimento.

Ainda em relação aos homens e suas dificuldades inerentes para o convívio social, Freud (Idem, 1930, p. 29; grifo do autor) segue:

A existência da inclinação para a agressão, que podemos detectar em nós mesmos e supor com justiça que ela está presente nos outros, constitui o fator que perturba nossos relacionamentos com o nosso próximo e força a civilização a um tão elevado dispêndio [de energia]. Em conseqüência dessa mútua hostilidade primária dos seres humanos, a sociedade civilizada se vê permanentemente ameaçada de desintegração. O interesse pelo trabalho em comum não a manteria unida; as paixões instintivas são mais fortes que os interesses razoáveis. A civilização tem de utilizar esforços supremos a fim de estabelecer limites para os instintos agressivos do homem e manter suas manifestações sob controle por formações psíquicas reativas.

Com base no que foi citado acima, esta hostilidade primária e as paixões instintivas inerentes a cada sujeito, colocam-se como forças antagônicas à vida em civilização e à conservação da sociedade.

A partir dessas reflexões, torna-se possível compreender o dispendioso empreendimento dos homens, desde os primórdios, em desenvolver dispositivos reguladores que possam tornar possíveis a consecução de uma sociedade minimamente harmônica. Além disso, torna-se uma tarefa igualmente custosa a manutenção de um estado de latência dos conflitos de arbítrios, das hostilidades e das condutas agressivas, preservando-se dessa forma o contrato social e a garantia de autoconservação tanto dos indivíduos quanto do corpo social. É a partir dessas reflexões que se torna possível começar a entender o lugar da função policial dentro de um contexto social na contemporaneidade.

2.2. Reflexões acerca do conceito de polícia

Faz-se agora, o estudo de variados conceitos de “polícia”, desenvolvidos por diversos autores e que, convergem ou divergem em sentidos a partir de contextos sociais, históricos e culturais.

Para início, a investigação etimológica do termo pode nos direcionar ao sentido projetado ao conceito aqui discutido. Segundo Nascimento (2010, p.1):

Etimologicamente, polícia, assim como política, vem do grego politéia (constituição) que surge juntamente com a Cidade-Estado grega entre os séculos VIII e VII a.C. Este termo remete, por um lado, à idéia de uma instituição específica, a pólis, e, por outro lado, à noção de uma ação que visa a manter a unidade dentro da pólis, o governo. Como forma de estabelecer esta unidade, houve a necessidade de se criar um conjunto de leis e de se ter agentes específicos para garantir o cumprimento das normas.Com isso, já nesse período, observou-se a distinção entre autoridades administrativas que editam as leis, governantes e legisladores, e as que fiscalizam o cumprimento. A derivação etimológica de politéia engendrou uma definição bastante abrangente de polícia. Esta significou, basicamente, tanto na Idade Clássica como na Idade Média, instituições direcionadas para o funcionamento e para a conservação da pólis.

Vê-se que o sentido desenvolvido para o conceito de “polícia” se alicerça, em príncipio, no funcionamento e conservação da pólis(cidade). Esta função administrativa se constitui e, desde então, caracteriza a essência do conceito de polícia. Com pouco esforço, é possível que se analise o sentido de conservação social proposto pela instituição da politéia na Grécia Antiga, sob uma perspectiva análoga ao que propôs (posteriormente, é claro) o contrato social postulado por Rousseau. O que pode ser entendido é que, durante o curso da história, o núcleo a ser conservado pelas forças policiais era o que direcionava suas ações. Assim, entende-se que, por exemplo, na Idade Média, em meio aos regimes absolutistas, as forças de fiscalização policial se voltavam a conservação de um coroa, de um rei. Relembra-se aqui a célebre frase do rei Luis XIV: “O Estado sou eu”. Nos dias atuais, este núcleo, em tese, contempla a sociedade e os cidadãos.O ideal de autoconservação dos indivíduos, devida à instituição de uma liberdade civil e à abdicação do estado de natureza, é o que precede o desejo humano de buscar apaz e a conservação social. A partir de então, faz-se a necessidade de que existam agentes que fiscalizem o cumprimento das normas (leis) e das convenções mantenedoras do convívio social. Como base a estas reflexões, Nascimento (2010, p.1) comenta:

Dentro da modernidade, mais especificamente a partir do século XIX, a polícia adquiriu um significado mais restrito, passando a direcionar suas atividades para proteger a comunidade dos conflitos internos relacionados com a desordem pública, entendidas como aquelas manifestações contrárias ao status quo político-econômico, e com a insegurança pública, entendidas como aquelas ações ameaçadoras da integridade física e da propriedade por parte de eventos naturais e inimigos sociais.

O afunilamento dos sentidos dados ao conceito de polícia ao longo da história enseja tanto sua definição quanto suas funções, não perdendo, entretanto, sua essência funcional de conservação da ordem pública. Surgem, a partir disso, alguns conceitos de polícia que não variam quanto ao caráter de conservação da ordem e da repressão da ameaça de desintegração da liberdade civil. Para Reiner (2004, apud NASCIMENTO, 2010), a polícia é tida como um grupo de profissionais que realizam patrulhamento em espaços públicos no exercício de controle do crime e da manutenção da ordem. Já Monjardet (2003, apud NASCIMENTO, 2010), aponta a polícia como detentora do uso da força a fim de garantir ao governo o controle social. Para Monet (2001, apud NASCIMENTO, 2010), a polícia é uma organização que atua de forma repressora às transgressões das leis e das convenções, assim como na evitação de quaisquer riscos à ordem social.

Um aspecto importante a ser analisado é exposto pelo conceito de Monjardet. O monopólio do uso da força no intuito da conservação social é uma peculiaridade desta instituição. Para ele, o uso da força para o intuito descrito, exercido no âmbito público, é peculiar às forças policiais, pois elas representam a fiscalização deste contrato social. Sendo assim - em um plano ideal - o uso da força exercido pela polícia representaria a força coletiva de coerção ao cumprimento das leis. Tal força, representada pela polícia, já se demonstra, mesmo que embrionariamente, no pensamento de Rousseau (2013, p. 37), quando este coloca que “todo aquele que se recusar a obedecer à vontade geral será forçado por todo corpo a obedecer[...]”. Entende-se que os conceitos de polícia foram sendo moldados através da história e das sociedades que o acolheram. Adiante, ver-se-á como se deu o desenvolvimento das instituições policiais na sociedade brasileira, tendo como foco a instituição policial militar.

2.3. Reflexões sobre o delineamento da função policial militar na sociedade brasileira: aspectos sociais, históricos e jurídicos.

Após as reflexões desenvolvidas, para o intuito de delinear a função policial militar na sociedade brasileira, é necessário que se faça um estudo da gênese destas instituições, a partir da análise de contextos sócio-históricos que se desvelaram desde o Império até a instituição de Estado Democrático de Direito. A compreensão dessas contingências é de suma importância e validade à pesquisa a ser desenvolvida, no que tange à adequação deste modelo institucional vigente à contemporaneidade.

Segundo Rosa (2007, apud RODRIGUES, 2010), a origem das polícias militares no Brasil se deu através de uma perspectiva de controle de Poder por parte do Império. No período de regência, foi criada com a finalidade de ser um corpo de guarda permanente do Império, pelo Padre Diogo Antônio Feijó, a força policial instituída adquiriu uma investidura similar à do Exército Nacional, alicerçadas nos preceitos de Hierarquia e Disciplina. A similaridade quanto à forma de gestão entre a instituição policial militar e as Forças Armadas brasileiras perdura até os dias atuais. Segundo Rosa (2007, apud RODRIGUES, 2010), a estruturação da Polícia Militar no Brasil se deu a partir do modelo francês de instituição policial, definido pelo sentido de conservação do Estado Totalitário, da preservação do déspota (de uma figura que monopolize o poder e que se institua como Estado). É provável que tal modelo de instituição de polícia tenha trazido consigo traços de violenta repressão da violência, que se assemelham ao estado de guerra, ainda mais pela investidura militar que lhe é conferida.

Durante o período de Regime Militar no Brasil, o sentido e, consequentemente, o sentido e a finalidade da Polícia Militar se moldaram de maneira similar aos de sua gênese. O Exército detinha o governo e controle do poder no país e, assim como na Monarquia, durante o regime ditatorial, a guarda permanente novamente se instituiu como principal sentido e função da instituição policial militar. É possível perceber, a partir das intersecções da história geral e brasileira, que os desdobramentos dados à função policial e às gestões nas instituições policiais são consequências de fatores socioculturais no que se referem ao exercício e do sentido da policial e em torno de que ela se desenvolve.

Por fim, chega-se, no Brasil, ao modelo de Estado Democrático de Direito. Com o fim do regime totalitário e a partir da Constituição de 1988, não só se estabelece um novo modelo de organização social, mas também, um novo sentido para a função das instituições policiais – entre elas, a Polícia Militar. Com o que se instituiu no Brasil a partir de uma nova organização do Estado (como Estado Democrático de Direito), houve a necessidade de se ajustar os mecanismos que dão movimento à nova sociedade, entre eles, as instituições policiais.Vê-se, no texto da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, em seu preâmbulo, vetores que direcionam as leis e as convenções para a estruturação de um modelo democrático de sociedade. A Constituição brasileira de 1988 (2014, p.20) dita que:

Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembleia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional. Com a solução pacífica das controvérsias[...]

Então, a partir dos aspectos até aqui elencados, de que forma se constitui a função da instituição policial militar, a partir de um novo contexto, em um Estado Democrático de Direito? O próprio texto constitucional faz esta definição em seu artigo 144. A Constituição de 1988 dita que “às polícias militares cabem a polícia ostensiva e a preservação da ordem pública” (2014, p.58).

Do próprio texto, é possível que se extraiam duas principais reflexões: a primeira consiste na ostensividade da função. Nesse sentido, a instituição policial militar exerce, de certa forma, a função de vigilância social. Para que seja efetiva, é necessário o fator presença. Assim, os policiais militares estão identificados por fardamento, por viaturas caracterizadas, realizando patrulhamento e intervindo em situações de conflitos de direitos e de crise entre indivíduos. Como representantes do Estado, exercem “Poder de Polícia”, que se caracteriza pela atribuição que agentes públicos têm de limitar os direitos dos indivíduos em função do interesse coletivo. Conforme Carvalho (2014, p.126) “na busca do bem estar da sociedade, o Estado pode definir os contornos do exercício do direito de propriedade e, até mesmo, de liberdades e garantias fundamentais, criando-lhes restrições e adequações.” Assim, o Estado abstrato se personifica por seus agentes, entre eles, os policiais militares. É esta posição perante o Estado e à sociedade que norteará os estudos aqui previstos.

A compreensão dos fatores sócio-históricos relacionados à função policial, desde as mais primordiais ideias sobre a formação de uma civilização até a instituição de um Estado Democrático de Direito na sociedade brasileira, perpassando peculiaridades sociais de determinados períodos históricos é de suma importância para iniciar os estudos relativos à posição que ocupa o sujeito policial militar na sociedade atual. Assim como também para investigar as repercussões que tal posição implica ao seu psiquismo. A partir das entrevistas realizadas com estes profissionais, será possível investigar suas ideias com relação a esta posição, assim como também suas próprias percepções em relação às suas vidas psíquicas, à saúde mental e a adequação de sua função ao atual panorama social.

3. REPERCUSSÕES PSÍQUICAS DA FUNÇÃO POLICIAL MILITAR

O presente capítulo deste estudo monográfico contempla a apresentação e a análise dos conteúdos produzidos pelos policiais militares entrevistados. Aqui, foram contemplados os aspectos relevantes a todo o curso da pesquisa, desde o início dos estudos metodológicos até os métodos de execução das entrevistas e das análises contidos no estudo. Além de descrever de maneira detalhada as diretrizes metodológicas da coleta e da análise dos dados, apresentaram-se aqui fragmentos dos relatos dos entrevistados, como forma necessária de ilustração e fundamentação das análises.

3.1. Metodologia utilizada para coleta de dados

O caráter qualitativo deste estudo se baseia nas proposições de Minayo (2008), que aludem a este método a possibilidade de apreensão de uma realidade que não se adequa à quantificação. Destarte, sua utilização se firma no intuito de apreender e interpretar os sentidos e os significados que surgem nas observações realizadas e nos discursos aos quais se teve acesso. A aproximação à realidade estudada, assim, se estabelece de maneira mais rica e efetiva, proporcionando o conhecimento e servindo de ignição para possíveis reflexões e intervenções. Ainda sobre a pesquisa qualitativa e sua relevância, Minayo (2008, p.21) aponta:

[...]ela trabalha com o universo dos significados, dos motivos, das aspirações, dascrenças, dos valores e das atitudes. Esse conjunto de fenômenos humanos éentendido aqui como parte da realidade social, pois o ser humano se distingue não só por agir, mas por pensar sobre o que faz e interpretar suas ações dentro e a partir darealidade vivida e partilhada com seus semelhantes.

Quanto à validade da metodologia qualitativa, em termos de produção do conhecimento, faz-se possível uma reflexão quanto às perspectivas do próprio pesquisador e aos resultados alcançados através dela a partir do que postula Ward-Schofield (1993, apud RICHARDSON, 2008, p.94):

No coração da aproximação qualitativa está a suposição de que a pesquisa está influenciada pelos atributos individuais do investigador e suas perspectivas. A meta não é produzir um conjunto unificado de resultados que outro investigador meticuloso teria produzido, na mesma situação ou estudando os mesmos assuntos. O objetivo é produzir uma descrição coerente e iluminadora de uma situação baseada no estudo consistente e detalhado dessa situação.

A partir do que foi argumentado com relação à metodologia qualitativa, como caminho efetivo para a produção de um modo específico de conhecimento, escolheu-se a entrevista guiada ou semi-estruturada como instrumento de coleta dos dados necessários ao estudo. Tal instrumento serviu à melhor apreensão dos sentidos e dos significados produzidos pelos participantes da pesquisa através de sua livre expressão. Suas aspirações, elaborações, crenças e valores são alcançados através de seus discursos, proporcionando ao pesquisador a devida aproximação à realidade a qual se pretende investigar. A entrevista guiada também foi útil no sentido de permitir ao pesquisador a elaboração de um roteiro que contemplou aspectos previamente conhecidos da realidade pretendida. Segundo Richardson:

A entrevista guiada é utilizada particularmente para descobrir que aspectos de determinada experiência (exemplo, um filme, uma campanha social, um programa de televisão etc.) produzem mudanças nas pessoas expostas a ela. O pesquisador conhece previamente os aspectos que deseja pesquisar e, com base neles, formula alguns pontos a tratar na entrevista. (2008, p.212).

Para a elaboração do roteiro das entrevistas, foram levados em conta determinados aspectos que eram previamente conhecidos e que desencadearam o interesse pela investigação e estudo da realidade dos profissionais policiais militares. Tais aspectos constituíram os “temas” do discurso dos sujeitos e serviram como norteadores para a construção das questões desenvolvidas e feitas aos participantes da pesquisa. O roteiro das entrevistas se encontra nos anexos desta monografia.

Foram entrevistados quatro policiais militares que exercem suas funções no Estado das Alagoas. Utilizou-se como critério inicial para escolha dos policiais a serem entrevistados o desempenho de atividades operacionais, ou seja, policiais que trabalhem nas ruas. A partir deste primeiro critério, foram escolhidos policiais de diferentes patentes (também chamadas graduações), com o intuito de conhecer diferentes realidades dentro da mesma instituição. O projeto inicial previa o relato de seis policiais militares, incluindo duas patentes superiores. Porém, não houve possibilidade de os mesmos participarem das entrevistas. Estes policiais foram nomeados como Policial 1, Policial 2, Policial 3 e Policial 4. Desta forma, acredita-se estar garantida a não identificação do sujeito ao mesmo tempo em que se mantém a proximidade do seu campo de atuação.

As entrevistas foram realizadas após a consecução, por parte dos pesquisadores, da carta de anuência assinada pelo representante da instituição policial militar do Estado das Alagoas, após a apresentação do projeto e devidos esclarecimentos sobre o curso da pesquisa. Os participantes foram previamente contatados para a avaliação das melhores circunstâncias para a realização das entrevistas. Além de todo o processo descrito, os policiais participantes assinaram o TCLE (Termo de Consentimento Livre e Esclarecido), que esclarecia todos os procedimentos realizados durante as entrevistas, explicitando a preservação do sigilo como compromisso ético do pesquisador e a utilização dos dados exclusivamente para finalidades científicas.

As entrevistas foram realizadas no mês de outubro do corrente ano, em um intervalo de dois dias, desde a chegada até a finalização da coleta dos dados. As entrevistas foram realizadas em locais e horários escolhidos pelos participantes e duram em média vinte minutos. Não houve nenhuma intercorrência durante a coleta dos dados.

3.2. Metodologia de análise de dados

Como metodologia de análise de dados deste estudo, foi utilizada o método da análise de conteúdo. Para Bardin (1979 apud MINAYO 2013, p.42)), a análise de conteúdo se apresenta como:

Um conjunto de técnicas de análise de comunicação visando obter, por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição de conteúdo das mensagens, indicadores (quantitavos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/ recepção destas mensagens.

Ainda conforme Minayo (2013), a análise de conteúdo serve ao pesquisador como caminho até deduções universais e válidas sobre dados obtidos quanto a determinado contexto, através de procedimentos técnicos e científicos. Sua lógica de funcionamento hibridiza pressupostos quantitativos e qualitativos para a análise do material colhido em campo. Sobre a operacionalidade da análise de conteúdo, Minayo postula que:

Do ponto de vista operacional, a análise do conteúdo parte de uma leitura de primeiro plano das falas, depoimentos e documentos, para atingir um nível mais profundo, ultrapassando os sentidos manifestos do material. Para isso, geralmente, todos os procedimentos levam a relacionar estruturas semânticas (significantes) com estruturas sociológicas (significados) dos enunciados e a articular a superfície dos enunciados dos textos com os fatores que determinam suas características: variáveis psicossociais, contexto cultural e processo de produção da mensagem. (2013, p.308)

Ainda com o propósito de adequar as análises aos intuitos iniciais do estudo, a análise temática se apresenta como modalidade de análise de conteúdo escolhida. Para Minayo, “A noção de tema está ligada a uma afirmação a respeito de determinado assunto. Ela comporta um feixe de relações e pode ser graficamente apresentada através de uma palavra, uma frase, um resumo.” (Ibidem,2013, p.315). Assim, como as entrevistas foram baseadas no roteiro já mencionado, que contemplava alguns temas inerentes à função policial militar, a análise temática se propõe como metodologia mais adequada à aproximação dos dados colhidos.

3.3. Apresentação dos dados coletados nas entrevistas

Aqui, se inicia a apresentação dos dados coletados nas entrevistadas realizadas. Faz-se necessário estabelecer alguns critérios de apresentação dos textos que foram constituídos atravésde fragmentos dos relatos colhidos, devidamente transcritos e literalizados, à luz do modelo metodológico anteriormente escolhido. Para efeito de apresentação, foram retirados fragmentos das entrevistas que foram identificados em itálico e cognominados do modo já definido no item 2.1.

Com base nos roteiros elaborados para a criação das entrevistas guiadas, também foram desenvolvidas categorias que facilitam o reconhecimento dos fenômenos identificados, assim como a análise dos conteúdos das entrevistas. Palavras, sentenças e períodos contidos nos relatos dos entrevistados e considerados como pontos-chave para a elaboração das análises, foram devidamente destacados em negrito, pois, a partir destes significantes foram desenvolvidas devidas reflexões e interpretações. O primeiro momento da análise consistiu na leitura dos dados das entrevistas com o objetivo de cinscunscrever significantes que alicerçassem a fomentação de uma análise que desse suporte às posteriores interpretações e discussões teóricas.

3.4. Dados de observação

No que tange aos aspectos relevantes contidos nas impressões obtidas pelo pesquisador, ressalta-se o interesse dos entrevistados pelo teor das entrevistas. Em nenhum momento, algum dos participantes demonstrou algum tipo de desconforto ou incômodo com relação a algum questionamento. Em alguns momentos, inclusive, a impressão é de que as questões serviam como a ignição de um processo catártico, dada a veemência das respostas e forma espontânea pela qual se construíam. Porém, o que também deve ser ressaltado é que os participantes procederam de maneira cautelosa, principalmente com relação ao conteúdo da pesquisa, seus objetivos e possíveis implicações que lhes poderiam ser trazidas. Após as devidas explicações relacionadas ao sigilo das informações como dever ético do estudo, aos seus objetivos científicos, sua relevância social e sua metodologia, houve maior abertura por parte dos entrevistados. Em um caráter geral, evidenciou-se que as temáticas abordadas no roteiro das entrevistas realmente contemplavam aspectos importantes da rotina policial militar, pois não houve qualquer desconhecimento ou abstenção por parte dos policiais às perguntas previamente redigidas. Com relação às impressões individuais, foi possível notar que Policial 3 e Policial 1 foram mais objetivos em seus discursos, com respostas um pouco mais sucintas e diretas. Policial 2, o primeiro policial a ser entrevistado, demonstrou-se reflexivo na maior parte do tempo, como quem elaborava cada pergunta realizada e, a partir de então, construía sentidos e respostas que atendiam àquele questionamento. Policial 4, por sua vez, teve a entrevista mais longa entre os participantes. Demonstrou-se falante, com vocabulário de certa prolixidade. Seu discurso, aparentemente, enveredou por aspectos mais técnicos da função policial militar. Contudo, também foi possível captar aspectos subjetivos que atendessem aos demais interesses do estudo.

3.5. Análise dos dados colhidos nas entrevistas

A apresentação e a análise dos dados foram dispostas com base nas temáticas desenvolvidas para a elaboração do roteiro das entrevistas. Numa primeira etapa, os fragmentos foram selecionados, caso a caso, para que se fossem obtidos os conteúdos do singular. Este material que configurou a tabela, que se encontra nos anexos da monografia, permitiu a seleção dos fenômenos que se repetem, obtendo-se assim os conteúdos do conjunto de sujeitos em um primeiro momento de generalização. Isto se compatibiliza com a visão da pesquisa em Psicanálise, no que se refere aos significantes como conteúdos que se repetem e que têm as mesmas direções. Esse conjunto de significantes foi dividido em subtítulos de acordo com cada categoria, facilitando sua exposição. Destarte, a apresentação se inicia com a primeira temática: as diferenças do modo de vida anterior e posterior ao ingresso na atividade policial militar.

3.5.1. Percepções sobre as diferenças no modo de vida após o ingresso na polícia militar

Nesta primeira temática, os quatro policiais entrevistados apontaram diferenças entre os modos de vida, entendendo-se que este é um fator marcante em suas vidas. Chama à atenção a fala do Policial 2, quando justifica a diferença falando da perda da harmonia na vida familiar e da presença atual de agressividade. Três dos quatro policiais - Policial 3, Policial 1 e Policial 4-enfatizaram como principal diferença a restrição da liberdade, dada pela maior necessidade de exercer vigilância e a atenção aos ambientes, como consequência da própria função. Os policiais 3 e 4, muito embora demarquem diferenças nos modos de vida, debitam essas mudanças à própria profissão. Policial 1 relata:

A questão que... antes o cara... é... vivia de uma forma que... poderia frequentar qualquer lugar, né? Assim... sem tá preocupado com quem estava no local, quem não estava. Aí depois que o cara entra na Instituição, tem que selecionar os lugares... tem que selecionar os lugares pro cara tá freqüentando, né? Tem que ser desse jeito. (Policial 1)

Policial 1 completou: Depois que você entra na instituição Polícia Militar, você começa a ver o mundo de outra forma, né?” .Policial 3 corroborou esta colocação afirmando que: “É... se referindo a mim, é mais a perda de... liberdade, né? Você fica uma pessoa mais... digamos assim... mais... mais atenta, mais atenta às pessoas, os indivíduos... ( )em todos os locais que frequentamos.”. Perguntado sobre qual o motivo que ele poderia dar para que essas diferenças ocorressem, respondeu: Eu penso que é inerente à profissão. E elas ocorrem... pelo fato do... do dia-a-dia nosso a gente tá... ter esse... esse... essa mania observatória... essa... essa coisa de observar o que se passa a sua volta.”.

Policial 4 também discorre sobre a questão do aumento da percepção às pessoas e aos ambientes, do aumento da vigilância e de uma sensível mudança de comportamento como consequência da função policial:

Rapaz, o... a percepção, né? A percepção levada pelo conhecimento técnico e empírico, né? Que a gente adquire com a profissão, né? A... a... ( ) o que a gente chamaria de sexto sentido policial, né? Que ele é ativado a partir do momento que você ingressa na... não que ingressa, mas que você gradativamente vai adquirindo ele ao longo da sua jornada... é... laboral aqui na polícia e muda muito o comportamento, né? ( )de um sujeito que... talvez andasse sem... certos pré-requisitos de segurança, você depois que adentra a Polícia Militar e ao longo do período que você vem, gradativamente, andando aí na corporação, você vai adquirindo um perfil de comportamento diferenciado do que você tinha antes de entrar na corporação.(Policial 4)

Quanto ao perfil de comportamento diferenciado referido na resposta anterior, Policial 4 explica:

Atenção. É... a... posso dizer assim, a... atrelado a atenção está a percepção, né? Do ambiente a sua volta. Os níveis de... de... de... de... como é que eu poderia dizer assim, uma palavra que possa definir isso... a percepção total do ambiente, né? Todo fator que possa ser agressivo a você, a sua percepção tá umpouco mais a... um pouco não, bem mais aguçada do que era anteriormente. Você se torna um... um ser bem mais atento ao ambiente. A lógica, pelo menos a lógica do policial é essa, né?(Policial 4)

Ainda com relação à temática inicial, os policiais foram questionados sobre os motivos para que se desenvolvessem as diferenças elencadas. Policial 1 afirma que:

[...]Essa questão de criminalidade e tal, isso aí, quando tá fora da polícia, você não tem noção... é... do índice de criminalidade, como é. Aí você, pra combater, você... sente que, quando você tá lá, o crime é bem mais alto do que você acha assim, que é. Bem mais alto. (Policial 1)

Policial 4 se aproxima da ideia de Policial 1 quando afirma que:

Pelo cenário brasileiro. Ele é bem, bem, bem típico, né? Hoje a gente tá num.. numa esfera que a marginalidade ( ) bem crescente. Isso, se gente for... é... trazer uma modo contextualizado de... de uma... de uma guerra... de uma guerra não, de um comportamento selvagem, né?Eu diria que tá uma relação de caça e caçador, né? Entre presa e predador. Dependendo da sua atenção, você se torna uma presa ou o predador.(Policial 4)

Quanto ao primeiro tema, certamente um dos mais relevantes para o intuito da pesquisa, vê-se que os relatos da maioria dos entrevistados convergem na explicitação de uma nova percepção de mundo que requer maior atenção e vigilância aos ambientes e às pessoas. Esta nova percepção claramente se coloca como impositora de limites – à liberdade, como exemplifica o Policial 3 - e definidora de comportamentos e posturas diante de uma nova realidade. O combate e a consequente aproximação à criminalidade são colocadas como motivo para este fenômeno e são dadas pela assunção de uma posição social. Analisando o texto oriundo de um fragmento da entrevista de Policial 4, percebe-se que os termos “relação de caça e caçador”, “presa e predador”, “guerra” e “comportamento selvagem” indicam sua forma peculiar de percepção, colocando a busca autoconservação como desencadeadora dessas mudanças.

3.5.2. Situações recorrentes e estressoras

O seguinte tema aborda as situações mais recorrentes e que promovem maior estresse aos policiais. No que se refere a esta temática, questões relacionadas à esfera institucional intersectam as questões operacionais. A análise dos fragmentos de fala dos participantes aponta para a percepção de que os aspectos operacionais e organizacionais dentro da instituição policial militar são indissociáveis e, assim, têm o mesmo potencial estressor em seus integrantes.

Sobre situações estressoras em sua função, Policial 1 relatou:

Tem ocorrência que... é... às vezes o cara fica muito estressado mesmo, assim... ...( )tipo de ocorrência, quando... você verbaliza contra uma pessoa que tá cometendo uma infração e... a pessoa não, realmente, obedece o comando que você dá... às vezes a pessoa... é... perde um pouco, assim, é... o seu estado normal, né? Às vezes fica com um tom mais alto de voz, às vezes tem que ter uma atitude mais forte, né? Às vezes até a força pra controlar tal situação... isso aí acaba sobrecarregando muitas vezes o policial.(Policial 1)

Policial 1 seguiu elencando fatores estressores pertinentes a sua função:

As situações que geram mais estresse, é... no cotidiano, acontece dentro da própria instituição, né? Devido à questão de ter muitas graduações e muitas patentes, é meio complicado assim, muitas cabeças querendo coisas diferentes e... cada um quer fazer de um jeito... você às vezes tem que obedecer. Tipo, você fica... é... trabalhando a quantidade de horas excessiva, que... realmente não condiz com... com questão de... dos direitos humanos, tudo isso. Por exemplo, você trabalha numa escala de vinte quatro, aí às vezes você descansa... seis horas numa escala de vinte e quatro. E tem que cumprir. Se não cumprir, vai... é... é... ser notificado porque tem estatuto pra punir, tal, aquela coisa toda. Isso aí às vezes você tem que fazer uma coisa que você não quer, mesmo sabendo que tá ferindo alguns princípios constitucionais. (Policial 1)

E finalizando, Policial 1 constatou o que mais lhe promove estresse em sua função:

[...] Eu, sinceramente, eu acho essa situação a que m... que mais me estressa, essa situação da própria instituição, assim... ...as cobranças que existem, muitas vezes,eu acho que ela acaba sobrecarregando o policial, porque... acontece de forma injusta mesmo, assim... o pessoal sabe que não tá exigindo, é... aquele esforço do policial e quer que ele execute mesmo sobrecarregado, ele.(Policial 1)

Policial 2 falou da falta de apoio que sente ao executar seu trabalho. No texto a seguir, ele se referiu à falta de efetivo e de equipamentos adequados para o desenvolvimento de sua função de forma segura:

Eu acho que... que o que mais acontece na ocorrên... ...é a falta de apoio. Eu achoque isso estressa. Estressa mesmo. E em relação a... ...a ocorrência... é... ...é quando... é quando... quando nós vamos pra uma ocorrência que a gente não tem um efetivo e às vezes a gente não tem os itens de segurança adequados. (Policial 2)

Perguntado sobre como lida com estresse em sua atividade profissional, Policial 2 respondeu: “Eu controlo. Eu tento... me controlar... é... nas ocorrências eu tento ser... ...sou imparcial e... ...eu me controlo. Me controlo... ...é. É isso.”

Policial 3, por sua vez, ressaltou os fatores institucionais como principais fontes estressoras de sua função. Como principal aspecto institucional desencadeador de estresse, o entrevistado colocou a estrutura organizacional e, mais precisamente, a hierarquia. No fragmento a seguir, Policial 3 discorreu:

Eu não posso dizer nem que é o... o trabalho em si, né? Porque... tá acostumado. A gente... se a gente fosse se estressar... né? Desempenhando a função... não teria tanto tempo, né? De serviço... não tinha aguentado. Mas eu creio que é... que é... que é a hierarquia militar. Pra mim, assim... que eu... que tá mais próxima aqui, da minha visão, acho que é a hierarquia. [...]porque na hierarquia... na instituição, você lida com diversas pessoas, né? Dentro da instituição... trabalha vinte e quatro por sessenta e duas e nessas... digamos... em um mês, você vai trabalhar com dez tipos de pessoas diferentes, né? Que cada oficial comanda o serviço diário. (Policial 3)

Policial 4 destaca, na maior parte de suas respostas, aspectos de sua rotina, que mudam em função de sua profissão, de aspectos operacionais e do peso de uma posição que se assume a partir do momento em que veste a farda e os equipamentos. Policial 4 afirma que essa posição o coloca em uma linha tênue entre o acerto e o erro, sendo possivelmente essa a causa do peso que ele diz tirar quando seu serviço se encerra.

[...]A sua rotina não é mais a mesma, lógico. É... isso, muitas vezes, você no seu comportamento até ( ) acaba afetando os seus familiares, porque... seu comportamento muda em virtude de você tá... é... estar ( ) atento a outras coisas que aquelas pessoas não estão, mas por você ser modelado, por você ter a formação... é... policial,você ficar atento a certas coisas que vão trazer sempre a você um nível de estresse, seja ele fora de serviço ou dentro de serviço. É lógico que, dentro de serviço, o nível de estresse ele é bem mais alto. Com certeza. Porque a gente sabe que... a atenção do policial tá... tá... tá ali trav... trilhando uma linha que ela... de um lado tá o erro e do outro lado tá o acerto. É uma linha muito tênue ( )pra que você possa caminhar e você não venha a tá enveredando por um caminho que seja o do erro. Então, a gente, por tá numa linha de ação dessa, eu tenho certeza que o polici... que a... a... a... a função do policial na sociedade hoje, é a mais, se não uma das mais estressantes que possa existir. A gente tra... trabalha numa profissão que a gente entra no serviço, isso você pode perguntar a qualquer policial, o cara assim que sai do serviço, quando ele coloca o equipamento, e ao final do serviço quando ele vai tirar o equipamento, pode perguntar pra qualquer policial, não é só o peso do equipamento que você tira, não. É o peso de um serviço.(Policial 4)

Viu-se através das respostas a esta temática que vários fatores foram observados como desencadeadores de estresse aos policiais militares. Diversas contingências de caracteres organizacionais e operacionais foram destacadas como fatores que propiciam ao estresse e às reações por ele causadas. Surgiram como fenômenos interessantes às interpretações e reflexões teóricas desenvolvidas no capítulo posterior, as rígidas relações institucionais de organização e de conduta alicerçadas pela hierarquia (que também foram discutidas no sexto tema das entrevistas) e as situações de intervenção em ocorrências. Os Policiais 3 e 4 ainda apontam como essas situações podem reverberar nos contextos familiar e social. Palavras como “sobrecarga”, “peso” e “controle”, recorrentes nos textos, foram valiosos significantes encontrados, servindo às posteriores interpretações e construções teóricas.

3.5.3. Dados sobre possíveis influências da atividade policial militar sobre a saúde mental de seus agentes.

Quanto a esta temática, foram abordadas as percepções dos entrevistados sobre sua saúde mental e sobre de que forma os policiais percebiam que sua atividade profissional repercute em suas vidas, nos mais variados âmbitos. Quase que unanimemente, afirmaram-se repercussões na vida familiar e nas demais relações sociais. Os termos “estresse”, “sobrecarga” e “peso” aparecem com certa frequência nas respostas dos policiais. Para ilustrar tal constatação, alguns dos textos extraídos das respostas dos participantes foram destacados.

Policial 1 relatou que as repercussões de sua atividade são sensíveis em sua vida familiar e como são resultado de sua sobrecarga profissional, caracterizando tais repercussões como um reflexo:

Com certeza. (tossiu) Com certeza ela... ela traz consequências pra vida pessoal, é... até às vezes... na profissional, quando você tá sobrecarregado no estresse, ele traz consequências que, muitas vezes, as pessoas que estão próximos da gente, familiares, amigos, às vezes acaba sofrendo porque... às vezes você fala com um tom diferente daquele que é normal que as pessoas estão acostumados com você. ( ) quando você tá sobrecarregado, às vezes acontece isso. Comigo já aconteceu algumas vezes, sim. Com mãe, com... com namorada, com irmão...aconteceu. Então eu acredito... é... que essa sobrecarga que o policial traz. [...]Comigo já aconteceu várias vezes. É um reflexo...(Policial 1)

Policial 2 também aponta a sensibilidade das repercussões trazidas pela função policial nos âmbitos familiar e social, afirmando sobre este último, que percebe preconceito em função de sua atividade profissional. A fala do Policial 2 em relação a este ponto levanta uma questão importante para as posteriores reflexões, pois aponta para a impressão de que o sujeito policial militar, no atual contexto social, está projetado para fora da sociedade.

Como eu disse... é... ela repercute assim... porque... eu antes... eu... dormia melhor... me relacionava... sim com a minha esposa, melhor... e agora, não. Agora ( ) de uma hora pra outras, às vezes eu tô mal-humorado, é... durmo mal. Às vezes já tomei até... até remédio pra dormir. Fico com aquela insônia, aí ( ) isso é que fica... repercutindo. [...]porque... eu acho assim, que... a ( ) a sociedade... ela vê a gente com outros olhos.É como diz aquele velho ditado, né?A polícia perto incomoda e longe... ela faz falta, né? Porque... hoje, hoje... a população não tá mais respeitando a polícia. E... e como é isso? Quando você ta... ...no meio da sociedade, que às vezes fala que você é policial... às vezes você é até discriminado. Isso já aconteceu comigo, já. (Policial 2)

Policial 3 alude às respostas dadas às perguntas do tema anterior, onde havia antecipado, de certa forma, os impactos causados por sua função em seu meio familiar e no convívio social.

Às vezes a gente se excede em casa, né? Com a esposa, com os filhos... é... a verdade é essa. Acontece comigo. Às vezes, você perde... a calma. É... até diante, até de pequenas situações, dentro de casa. Frequentemente eu sou cobrado em casa... por isso, né? Quando eu me excedo...[...]É. Com os familiares. Até, às vezes, no convívio social, também. Às vezes você... assim... por uma coisa pequena, não é por que... você... ( ) é... sem querer, você joga pra fora, aquela coisa que tá dentro... dentro. Você não aguenta mais, que já tá... no limite... mas não de forma violenta, né? Ah... até na... na discussão... entre pessoas, né? Discutindo, a gente se excede um pouco. Entendeu, né? (Policial 3)

Policial 4 também acredita que a função policial traga ao sujeito repercussões nos meios familiar e social. Comenta que os fatores que se atrelam a sua função interferem no seu relacionamento com esposa e amigos, pelas mudanças de comportamento que explicitou nas respostas anteriores.

Claro. Claro que sim. Claro que sim. Se a gente for fazer uma síntese daquilo que eu tinha... que eu vinha falando anteriormente, a gente vai chegar... vai chegar nesse... nesse cerne aí, vai chegar nesse consenso sobre esse ponto. Porque a... a... a... a atividade policial ela traz pro sujeito um... um... um peso muito grande, né? De responsabilidade e atenção, tudo. Mas que a gente sabe que... que vem... que vem atrelado a nossa função. Isso, na minha vida social, muda. Eu sou o cara que... minha esposa, é... por tantos anos convivendo comigo, ela já se acostumou com esse comportamento. E até alguns amigos meus, também.(Policial 4)

Perguntados se acreditam levar uma vida mental saudável, Policial 3 e Policial 1 afirmaram que não. Policial 1 respondeu: Não, assim... não posso dizer que cem por cento, não. Mas, assim... acredito que, é... eu não levo cem por cento, não. “Ela, ela traz consequências assim pra... ...você não ter a... tranqüilidade que você acharia que deveria ter.Já Policial 3 concluiu:

Não! Não... agora cada um, cada pessoa é que deve buscar oequilíbrio, né? Pra saber que... que... digamos... não vai bem, aí ela tem que fazer uma faxina mental, não é? E isso a gente... ...na atividade... digamos... na folga do policial militar, você desenvolver outras atividades... esporte... viagens, aí sim, porque é necessário descarregar todo esse acúmulo... mental, que... que... que você vai adquirindo, né? No exercício da profissão...(Policial 3)

Policial 4, por sua vez, considera levar uma vida mental saudável. Evidencia-se na fala dele, a recorrência dos termos “equilíbrio”, “carga” e “estresse” e fatores como religiosidade e a prática de outras atividades como alternativa de procura à saúde mental, assim como Policial 3 também já havia relatado.

Cara... creio que sim... creio que sim. Acho que... a grande dificuldade de todo o ser humano hoje é que... a gente possa... encontrar um... equilíbrio, né? É... a gente sabe que... profissões que elas... trabalham com um nível de adrenalina, de estresse é muito alto, a tendência, ultimamente... de inclinar... é... os profissionais pra que eles cometam, ou que ele... que eles entrem, enveredem pelo caminho do distúrbio mental, né? Surtos psicóticos... ou que... é... que enveredem até pelo caminho do suicídio são comuns hoje. E isso a gente sabe que muitas vezes tá sendo movido, impelido pela questão justamente da... carga profissional que o cara não achou esse equilíbrio, né? Que o cara não achou essa linha. Eu... graças a Deus, assim... eu digo sempre que a minha formação religiosa... e... o meu equi... o meu equilíbrio emocional pesa muito nisso, né? O equilíbrio familiar... ...família, graças a Deus, minha... minha família muito bem... constituída... em todos os aspectos, falando. Falando em questões financeiras ( )isso não pesaria tanto, mas por questões emocionais, familiares mesmo... é... muito bem trabalhado nisso... eu, graças a Deus, eu digo sempre que eu... que...trabalho no equilíbrio. Eu... eu consegui achar um equilíbrio, é... desde o... minha formação, eu sempre fui procurar traçando essa linha. Porque, eu... com... a pessoa mentalmente equilibrada, a possibilidade que eu tenho de errar nas decisões em minha profissão diminui consideravelmente. A possibilidade de eu errar no meu convívio familiar ela diminui consideravelmente. A carga de estresse que, muitas vezes, você possa trazer pra casa, o seu equilíbrio mental é que vai condicionar... você a não extrapolar e a não contagiar as outras ou até não descarregar seu estresse em outras pessoas. Trabalhos laborais... é... atividades que... ocupem a minha mente, que não sejam atreladas à profissão... parte esportiva mesmo... futebol, tal... isso é uma forma de escape muito boa que eu encontrei e, graças a Deus, hoje eu posso dizer que eu tenho um equilíbrio... tenho... eu sempre tive, né? Mas quando se trata de... caminhada, né? Uma...uma jornada de trabalho, hoje eu continuo, graças a Deus, tendo. Bem mais maduro, é lógico, do que eu era anteriormente, quando eu adentrei às fileiras da corporação... mas hoje, mentalmente, bem mais equilibrado, se eu já... ( )me considerava equilibrado, hoje eu me considero ainda mais.(Policial 4)

A partir das entrevistas analisadas, viu-se que a função policial trouxe a todos os participantes sensíveis repercussões psíquicas e sociais. As principais queixas são relacionadas ao modo com o qual suas relações sociais e familiares são influenciadas pelas mudanças de percepção e de comportamento, invariavelmente trazidas pela atividade policial militar. O Policial 1 e 2 são mais específicos quanto aos prejuízos à sua saúde mental, quando se referem às variações de humor que chegam a influenciar em seu equilíbrio psíquico. Outra forma de repercussão está no modo como o Policial 2 percebe a visão da sociedade em relação ao seu exercício profissional. Os Policiais 1, 3 e 4 não aprofundam tanto suas falas nesse sentido, apesar de também apontarem repercussões significativas nos âmbitos íntimo e social de suas vidas.Os termos “carga”, “sobrecarga”, “estresse”, “peso”, “acúmulo”, “equilíbrio”, “limite”, entre outros, surgiram como importantes significantes, norteadores das interpretações e reflexões estabelecidas diante dos dados e dispostas no capítulo posterior.

3.5.4. Função policial e personificação do estado

Esta temática traz à discussão como os entrevistados se percebem como representantes do Estado, a partir do momento em que assumem a função policial como atividade profissional. A ideia de Estado que baseia este questionamento foi discutida no capítulo anterior deste estudo monográfico, sendo este um mecanismo de regulação social, que permita a convivência harmônica entre os homens, garantindo-lhes direitos e exigindo-lhes obrigações, limitando suas condutas para a vida em sociedade.

Quanto a esta temática, o que se pode notar foi a existência de diferentes variáveis da percepção de como os sujeitos representam e personificam o Estado. Porém, percebe-se que o que intersecta estas variáveis é a ideia presente nas falas dos policiais de que eles ocupam uma posição diferenciada em um contexto social. Em certos pontos de suas respostas, aparentam entender que ocupam uma posição extra-social. A dissociação entre a função policial militar e o status de cidadão também emerge nos discursos dos policiais entrevistados, quando os entrevistados, por exemplo, apontam diferenças em suas condutas como pessoa e como policiais, representantes do Estado. Este foi um dos fenômenos mais relevantes à observação neste estudo.

Para ilustrar a existência desse fenômeno, ressaltam-se, inicialmente, textos extraídos dos discursos de Policial 3 e Policial 4. Este, quando perguntado como se percebe sendo um agente do Estado, respondeu:

Diariamente, né? Diariamente... acho que... o papel que você exerce na sua comunidade faz com que as pessoas enxerguem em você a justiça... o Estado... a... algo que os aproxime de um poder que possa os... os... ajudar em situações... é... críticas. Por exemplo: na minha comunidade, sempre quando acontece algum crime... é... ou... há uma suspeição de algum indivíduo na comunidade, as pessoas ligam pra mim, na hora. Meus vizinhos ligam pra mim... é... é... meus amigos, quando acontecem situações pontuais com eles, eles também ligam pra mim... ou seja, pra eles eu sou um canal... é... próximo, né? Eu sou o Estado próximo deles. Eu vejo que, pra eles, eu me tornei uma personificação do Estado... em certa forma, lógico, não de maneira total, mas uma maneira que... é... eles enxergam em mim um canal... entre... a... eles e o Estado.E por ser um agente... um agente... um agente... da auto... um agente de segurança estatal, eu percebo que minha conduta dita muito pra eles também, né? Eles percebem em mim, uma fo... uma... uma... uma possibilidade de realmente, de conseguir aquilo que eles desejam, que é um apoio em determinadas situações... e eu vejo sim, vejo sim, que há essa personificação, muitas vezes.” (Policial 4)

A fala de Policial 3 também ilustra a percepção de uma posição social dada pela atividade, que implica a personificação do Estado, exigindo do sujeito posturas e condutas. Vê-se também a dissociação que o entrevistado entre o sujeito e o policial.

Tem sim, porque... ...eu acredito que... tem uma diferença... existe uma diferença entre o eu, né? O (próprio nome), o cidadão, e o policial.Tem muita diferença.[...]Digamos que... é na postura, né? O cidadão... é mais solto. O policial, ele tem que ter uma postura. Assim... diferentemente... numa ocorrência ou... simplesmente numa ronda, né? Você tem que ter uma postura [...]Só voltando um pouco... que a gente não pode ser o tempo todo Sargento e não pode ser o tempo todo... ( ) quando eu “tiver” exercendo... a atividade policial eu não posso ser só, simplesmente, o cidadão (próprio nome). Fazer as coisas, sim. dentro da lei, como todo e qualquer cidadão, mas... tem a diferença... existe.[...]É... vez por outra... é... que a gente se dá com todo... toda espécie de indivíduo, né? “Você... vai numa ocorrência e tem um indivíduo que você vê assim... esse cara não é humano! Né? Esse cara... e você tem vontade, às vezes, de... de se exceder um pouco... aí de fazer o que manda a lei, você... agir como pessoa também. Como pessoa comum...”(Policial 3)

Policial 2, quando questionado sobre este tema, afirma evitar por muitas vezes se identificar como policial, pois afirma perceber preconceitos em relação a sua classe. Credita este preconceito ao descrédito da sociedade em relação ao Estado e à segurança pública, além de apontar sua percepção de que as más condutas atribuídas aos policiais tendem a ser generalizadas.

Não... ( ) acho não... assim... às vezes acontece. É como eu digo: eu quando... eu quando não tô trabalhando, eu evito o máximo me identificar como policial. ( )já falei que às vezes a sociedade... ela... como diz... fica... ( )... é... deixando você de lado, de lado, quando sabe que é policial, porque a população hoje ela não tá mais assim, muita, boa parte de nossa sociedade, ela não tá acreditando mais na... é... no Estado em relação à se... à segurança pública, porque alguns policiais, é.... ...que passam pa o lado da corrupção, ele... como é que diz? .... ...aquelas pessoas... aquelas pequenas pessoas, todos pagam, né?Todos pagam pelo... pelo ato ilícito que um integrante de nossa corporação comete. Isso é... ...por causa de um, todos pagam. Aí isso é que... há um conflito ( ), ahh... da minha pessoa, né? Como... e... quando eu tô representando o Estado. Aí isso ( ) gera um conflito.” (Policial 2)

Policial 1 aponta como causa de conflitos subjetivos o fato de efetuar detenções durante seu serviço, ou seja, de colocar em vigor os mecanismos de manutenção do Estado – normas e leis – restringindo os limites dos indivíduos que cometem infrações e, posteriormente, quando não está de serviço, encontrá-los. Isso, segundo Policial 1, causa-lhe desconforto.

Causa. Com certeza (riso). Causa, porque, é... você... tá trabalhando! Aí você tá lidando com infratores da lei, aí você acaba fazendo um flagrante, prendendo aquela pessoa.Aí, na sua folga, às vezes você, é... vai de encontro àquela pessoa que efetuou uma prisão e tal, aí você, na folga, fica meio desconfor... desconfortável em estar ali, de folga, estar sozinho, porque quando o cara tá de serviço, tá com uma viatura, duas, três, se precisar de apoio, tem um efetivo muito bom, mas quando você tá na folga, você tá sozinho.”(Policial 1)

O que se percebe como intersecção nos fragmentos dos relatos dos entrevistados é a assunção de uma posição social. A representação do Estado, dada por sua entificação, pela concretização de normas e leis abstratas em ações que possam trazer restrições e limitações a indivíduos foram apontados como mais uma variável desencadeadora de conflitos subjetivos relevantes à análise realizada no capítulo posterior.Chamam a atenção a sensação de perigo atribuída à função e o desejo de se desligar da personificação em algumas situações mais estressantes, com a adoção, por exemplo, de comportamentos agressivos.

3.5.5. Agressividade: percepções dos entrevistados sobre seu manejo e suas repercussões psíquicas

A temática referente à agressividade foi inserida neste estudo a partir da difusão de discussões relativas à violência policial, incitada por diversos casos expostos principalmente pela mídia. O interesse, ao esquematizar este tema, era o de compreender como os sujeitos que exercem a função policial militar percebem o fenômeno da agressividade, como a manejam, como lidam com este fator durante o desempenho de suas funções e se de alguma forma já se sentiram incapazes de controlá-la de maneira adequada ao exercício de sua função.

Para inicio das análises sobre este tema, fez-se o recorte da entrevista de Policial 1. O referido entrevistado fala da prerrogativa do uso da força, inerente a sua função, sobre uma experiência na qual já foi agredido em uma ocorrência, e aponta para as questões que limitam a reação proporcional e a violência. Admite que não consegue controlá-la sempre, afirmando que este é um fator muito instantâneo. Policial 1 também sugere que a agressividade se desencadeia de forma reflexiva. Dado que se tornou relevante às discussões.

Entendi. É o que eu falei, eu tento... é... primeiro, a gente tenta contornar a situação de forma verbal, né? Só que... dependendo da situação, por exemplo: eu mesmo já fui agredido, em ocorrências, assim... eu já levei uma paulada, a gente já levou pedrada de populares, assim... porque tava resolvendo... uma ocorrência. Então, assim... a gente tem que usar uma força proporcional. Se o pessoal, é... recebe um comando, você verbaliza... o pessoal às vezes vem, dessa forma que eu falei, eu levei uma cacetada... aí eu também tenho que... é... usar da força pra controlar a situação.Muitas vezes, a gente pode até acabar excedendo, porque depois que... é... você sofre uma agressão, você às vezes acaba perdendo o controle, né? Daquela situação. Então, você não sabe a hora que vai dosar, que vai reagir da mesma forma, agredindo... pra se proteger daquela situação, até onde vai tá bom. Até... assim... muitas vezes, a gente só par ( ) quando tem que imobil... quando consegue imobilizar o... o... o indivíduo lá, né? Até então, se não conseguir imobilizar, você tem que tá controlando, se não vai acabar apanhando aí da população.” (Policial 1)

Policial 1, quando perguntado sobre a forma com a qual lida com a própria agressividade, responde: Nem sempre eu controlo. Às vezes... muitas vezes eu perco o controle. Nem sempre eu consigo controlar, né? Essa questão aí... da agressividade... é muito instantânea assim... é de momento, às vezes você não consegue controlar... é isso.”

Policial 2 também apontou para a questão do controle da agressividade em sua atividade. Também falou sobre a prerrogativa de uso da força proporcional que sua função lhe atribui, mas que por vezes, percebe que extrapola os limites estabelecidos para este uso. Como forma de controle, disse pensar nas consequências dos atos e em sua família. Quando perguntado se já havia excedido sua agressividade, Policial 2 comentou que excedeu certa vez em uma ocorrência onde uma criança foi estuprada, por se projetar na situação, mas que se arrependeu posteriormente.

Eu tento... controlar o próximo... é... ...o máximo; eu controlo o máximo. É isso. Eu uso a força necessária para conter a agressão do... ... ...cidadão infrator. Eu tento... eu tento... é... agir... é... agir com a força proporcional, né? Agir... agir... de forma proporcional, né? Que cada ação causa uma reação. Então eu... e em relação assim às vezes que eu quero ex... extrapolar um pouco, quero ultrapassar um pouquinho assim a minha calma, às vezes, eu tento... ...é como eu disse a você... eu penso nas consequências, né? E também penso na família. Aí eu me controlo. criança.. [...]É como o caso... foi o... o caso do estupro, né? Que... que nós... é... quando chegamos lá tinha... foi uma. aí eu extrapolei assim, porque, nessa hora eu pensei assim: que aquela criança poderia ser um filho meu. Aí... eu... é... “exceci” um pouco a... a... é como se diz: eu fui um pouco agressivo, né? Mas... como diz, é... depois a pessoa vai pensar direitinho e eu me arrependi, né?” (Policial 2)

Policial 3 também abordou os aspectos anteriormente citados pelos outros entrevistados. Destacou que sua forma de atuação em determinada situação acaba sendo reflexiva em relação a como se é recebido. Além disso, indicou sua religiosidade como forma de controle de sua agressividade nos momentos críticos, de atendimento a ocorrências e em situações de crises. Porém, relatou uma situação onde já agrediu fisicamente um indivíduo após ter se sentido afrontado por uma conduta. Perguntando sobre o que sentiu após ter agredido a pessoa, Sargento disse não ter sentido alívio, mas que sentiu satisfeito em poder penalizá-lo antes que o indivíduo fosse penalizado pelas leis.

A gente procura não... não... usando da perspicácia, né? Não deixar que a situação chegue a esse nível, né? Mas... chegando... a gente, primeiro, tenta contornar. Contornar aquela situação. Mas é usar a proporcionalidade. Se você chega numa ocorrência... se você é recebido à força, ou digamos, à bala, aí... eu acho que os princípios, né? Da instituição... diz que você tem que revidar... com o mesmo nível. ( )que você não pode... se você chega numa comunidade e os indivíduos que ali moram não tem civilidade, você não pode ser... agir da mesma for... é... digamos... usar de muita... muita educação, digamos. Assim, a palavra certa que me foge agora. Porque, naquele meio, você não vai encontrar facilidade. O diálogo vai ser difícil. Aí... geralmente... você... você passa a... não é... não é... a agir fora da lei, mas agir com mais rigor, digamos. Com mais austeridade. Se impor... dentro da... naquela ocorrência. Tem que se impor.” (Policial 3)

Entrevistador: E como o senhor lida com a sua própria agressividade? A agressividade que emerge em momentos de situações de crise, de conflito, como é que o senhor lida com sua agressividade?

Acho que... religiosidade. Religiosidade. Que é tudo... é o que vai te dar o controle emocional, nas situações que parecem fugir do controle. ( )medito um pouco e... consegue... consegue... estabilizar o emocional.” (Policial 3)

Entrevistador: No momento mesmo da ocorrência?

No momento mesmo. Você primeiro se acerca, né? Da situação, vê que tá seguro... a partir do momento que você “tiver” seguro, que nem você, nem seus companheiros correm risco algum, aí você... faz aquela... aquele... aquela... ( )digamos uma meditação... rápida. Aí você busca estabilidade emocional, naquele momento.” (Policial 3)

Então, relatou a experiência onde admite ter excedido sua agressividade.

Sim... eu vou citar uma aqui. Eu trabalhando numa cidade aqui do interior de Alagoas, a gente chegou até três, quatro horas da manhã num serviço... ...de uma festa local, né? E... no encerramento dessa festa, um dos componentes da patrulha teve que... finalizado esse evento, a gente teve que esvaziar o local, né? E um indivíduo desse, ele se recusou a sair. Então, um dos membros da patrulha... não usou de força excessiva, mas... é... colocou o indivíduo pra fora do ambiente. E... pra nós, aquilo ali parece que tinha finalizado todo esse incidente. Fomos dormir, né? ( )quando abrimos a porta da delegacia no dia seguinte, na manhã seguinte, a... os pneus da viatura tão todos furados de objeto cortante ( )foi uma faca. Foi uma faca ou punhal. Aí a gente fez uma análise rápida e... concluiu que... só poderia ter sido aquele indivíduo, né? A gente fomos na residência dele lá... cidade pequena... e conseguimos capturar. E... mediante a interrogatório, ele confessou que tinha sido ele, né? Ele até entregou a faca. Aquilo ali foi demais, né? Uma afronta! Não só à pessoa, como a instituição toda e o Estado. Aí, às vezes você, digamos assim... você usa de força... até excessiva, né? Que é o caso da pergunta, né?”(Policial 3)

Entrevistador: Sim. O senhor, no caso, chegou a agredi-lo?

Policial 3: Sim... fisicamente...

Entrevistador: E o que o senhor sentiu na hora?

Policial 3: Não é alívio, né? Não é alívio... mas... assim, é que o cara, e como se ele ti... ele pagou pelo que fez, não é? Antes da lei penalizá-lo, ele sofreu alguma punição. (Policial 3)

Policial 4 iniciou a sua aproximação dos pontos discutidos nesta temática já nas questões anteriores. Quando começou a discorrer sobre os limites de sua função, falou sobre o que sente ao se deparar com uma ocorrência de estupro. Novamente, como na entrevista com Policial 2, percebe-se que Policial 4 se projetou na situação relatada, o que lhe despertou afetos destrutivos que se direcionam ao autor da violência relatada. Surgiram significantes importantes, como “esmagar”, “destruir”, “você quer fazer o que seu instinto manda”, “a raiva aflorar e você detonar o cara”.

Você pega uma situação como um... um...estupro... e o cara pega um... vulnerável, por exemplo. Pega um menor de idade... uma criança... e ele faz uma atrocidade de... de... vili... vilipendiar uma criança... aquela a... ( )for pai, de certa forma, você se projeta naquela cena, né? Do pai que teve sua filha ali pelo ser... pelo ser... totalmente corrompível, corrompido, moralmente falando. E a sua emoção aflora de tal ponto que você quer esmagar o cara. Logicamente, você quer esmagar o cara... você quer destruir os cara... você... você quer fazer o que o seu instinto manda, que é o instinto de... de... de... a raiva aflorar e você detonar o cara.Só que a gente sabe que... é... a... essa ação, ela... por ser ilegal, por ser uma ação totalmente deliberada ( )do emocional, isso trará pro policial um peso, que é o peso da condenação. E a gente sabe que... por mais que possam existir aí as vertentes que condenem a questão da punição dada pela justiça... a nós, não foi dada essa questão de punição. ( )nós não somos responsáveis pela parte punitiva. Existe uma parte punitiva do Estado e essa parte pertence ao judiciário. Só que esse controle emocional, foi o que eu falei pra você, se sua mente “tiver” equilibrada e ela falar mais do que o emocional, você não vai agir, você não vai extrapolar.” (Policial 4)

Policial 4 discorreu sobre a importância que ele dá a racionalidade para o policial militar. Para ele, as emoções que emergem podem prejudicar o profissional desta área. No texto a seguir, Policial 4 ainda refletiu sobre a posição que o policial militar ocupa no contexto social, como entificação do Estado e sobre as consequências disso quanto à repercussão de quaisquer de suas condutas.

Então, a gente percebe que... é... é... importa pro policial ser o mais racional possível, hoje. Ele tenha controle de suas emoções, controle da sua força física, ou seja, que todas as suas ações sejam controladas pela sua razão. Então, pra que isso não extra... pra que não extrapole, pra que não... não... que sua emoção não aflore e você dar... desferir um soco num cara, por exemplo.[...]Só que eu sei que nem todos os policiais vão ser dotados disso. E a possibilidade de ( )essa margem, esse leque que a gente tá vendo aí de pessoas, de policiais, que estão respondendo aí, por causa disso. Agrediram... foram vítimas de agressão... re... re... agrediram da forma que eles sabiam... que talvez fosse a forma mais... é... rude ou comum possível... mas que, pra sociedade que enxerga no Estado, um ente preparado pra neutralizar ações desse tipo, ela não enxergar isso do policial, aí vem as críticas, as condenações sociais e as condenações penais e legais.” (Policial 4)

Sobre esta temática, é possível destacar a partir dos relatos dos entrevistados que o manejo e controle da agressividade se mostram como árduas tarefas. Alguns termos como “controle emocional”, “razão”, “estabilizar o emocional”, indicam a forma pela qual os entrevistados acreditam que se dinamiza esse manejo e que, por vezes, ele pode não acontecer. As produções de sentidos dos entrevistados em torno desta temática encaminharam reflexões teóricas e possíveis interpretações para este fenômeno inerente ao homem e que, neste contexto, adquire contingências ainda mais peculiares. Todos sujeitos relatam a dificuldade em manejar e controlar a agressividade. Os sujeitos 2 e 4 referem tal dificuldade às situações onde lidam com violência com crianças, particularmente a de caráter sexual. Já o sujeito 3 faz referência à uma situação em que a afronta é ao Estado, com o qual ele se identifica a tal ponto de precisar usar a força como forma de punição.

3.5.6. Análise das percepções sobre a função policial sob o regime militar.

Nestas temáticas, os entrevistados são unânimes no que se refere à necessidade de uma organização interna para a instituição. Porém, questionam a forma de hierarquia e como ela permite a execução das relações de poder. Nos relatos dos policiais 3 e 4, a hierarquia e a disciplina são defendidas como formas de manutenção da organização, embora seja possível perceber questionamentos quanto à estes dispositivos como pilares da concentração de poder e da construção de poder. O policial 1 e 2 apontam para a diferença do militarismo como uma forma de gerenciamento organizacional e como um dispositivo de concentração do poder. Policial 1 relata:

[...]ela é... ela é inquisitiva, na verdade, assim... ( )você, ou obedece ou é punido, então... é... muitas vezes... é... fica difícil de contestar algumas coisas na instituição, porque... é... o pessoal acredita que você tá... ponderando e quer punir de certa forma.Então, eu não gosto muito do militarismo por causa disso, porque o pessoal não está muito preocupado com o policial que está na rua, mas com a questão de ele ser disciplinado[...]”. Eles tem o estatuto pra... é... disciplinar, só que muitas vezes acaba prejudicando a pessoa por causa disso.Se você vai de encontro à instituição... ...eles usam, a própria... o próprio sistema da instituição pra lhe prejudicar, de forma, é... entre aspas certa, porque ele acaba transferindo você pra uma cidade que você tá a duzentos, trezentos quilômetros de onde você mora, aí acaba prejudicando. Isso aí acaba até causando um estresse além do normal no policial. Então isso acontece muito... então, às vezes, eu não gosto do militar... do militarismo por causa disso.(Policial 1)

Policial 2 fala da obrigatoriedade da obediência e do despreparo de alguns profissionais que estão em posições superiores e, consequentemente, que o comandam:

Eu acho que a hierarquia atrapalha muito. Eu sou a favor da... ...de acabar com o militarismo dentro da corporação e... ...ser uma polícia desmilitarizada. Eu sou a... eu sou a favor. Porque às vezes, pela hierarquia, às vezes tem comandantes nossos... é... que às vezes não tem a formação que é correta para o cargo. Não tem aquela autoridade mesmo de ser... de... de a gente assim, ser subordinado àquela pessoa. Às vezes a gente... nota que aquele superior, por questão da hierarquia, ele às vezes não tem condições de ser nosso superior, entendeu? Acontece muito isso. Mas... infelizmente, né? Devido à hierarquia, nós temos que obedecer, né? E às vezes, às vezes acontece de ter muitas ordens absurdas, né?Que às vezes você discorda, mas às vezes... você não pode ir de encontro... ...por, às vezes, você, futuramente, você ser perseguido... por esses comandantes e pela própriainstituição.(Policial 2)

Policial 3, por sua vez, destacou a importância da organização militar para a unidade das atividades policiais. Ressalta que a hierarquia é necessária para a organização e para a padronização das ações exercidas pelos agentes da instituição, embora questione a necessidade de todo um escalonamento, o que aparentemente pode dar a entender a quantidade de patentes ou graduações existentes.

[...]eu vejo que... há uma necessidade disso também, sabe? ( )você não pode dispor ( ) de um efetivo de... ( ) numa cidade como a nossa, de cinquenta homens, né? Você não pode colocar todos, né? Na rua... sem comando. Tem que ter um comando. Já tem... agora tenho dúvidas se... tem que ter todo um escalonamento, sabe? Como uma hierarquia policial. Aí eu tenho dúvida sobre isso, mas que tem que ter um comando, tem. E firme! Se não... sai do controle.Porque você não... não... cinquenta pessoas, não é? Elas... não vão agir de uma forma única, as cinquenta pessoas. Então tem que ter um comando que discipline, que oriente a... a... pra toda e qualquer situação, agir de uma forma homogênea. Pra isso a hierarquia é necessária.(Policial 3)

Policial 4 manifesta opiniões convergentes as de Policial 3. O termo “hierarquia” também surge em sua fala. Considera que o militarismo é essencial ao funcionamento da instituição policial. Policial 4 diz: “Sem sombra de dúvidas é hierarquia, né? A... o militarismo ele é a base hierárquica, né? E a base de... regimental que ele nos dá pra que aqui funcione.”. O entrevistado ainda destacou:

Então, a... a... o militarismo há essa distinção clara entre o Exército e a Polícia, e o que ele vai trazer pra mim, como... como... como pessoa, como funcionário do Estado... é a parte organizacional. Sem sombras de dúvidas, a Polícia Militar ela não... vou tirar, vou tirar o nome militar. A Polícia aqui, como fala... como... como... ela não funcionaria dessa forma hoje, se ela não fosse militar. A parte hierárquica, não haveria controle, se não fosse a questão regimental.(Policial 4)

Por fim, Policial 4 aponta para sua percepção de que o regimento militar precisa se adequar aos dias atuais no que se refere a parte disciplinar:

[...]Eu falo do aperfeiçoamento do militarismo. Mas o aperfeiçoamento não da... da... da forma de... de aperto, de arrocho, mas de adequação, de contextualização. A gente precisa dum... a gente precisa pegar o regimento e precisa atualizar ele pros dias de hoje.Pra que haja ordem, pra que haja linha de ação... mas pra que principalmente haja... lógica, haja razão.Porque as punições elas não podem ser punições como eram dadas anteriormente, não. [...]É lógico que isso é baseado no regime militar. Não há sombra de... sem sombra de dúvidas. É... as... as que falam em fim de regime militar, eu discordo. Eu acho apenas que tem ser... aperfeiçoado.(Policial 4)

Quanto à última temática, percebe-se que as produções de sentidosapontam para questionamentos relativos à forma sobre a qual o militarismo acontece. Destacam-se termos como “hierarquia”, “disciplina”, “obediência”, “organização” e “punição”. Tais termos alicerçam os sentidos construídos pelos entrevistados sobre a forma pela qual o regime militar está presente em suas realidades institucionais e de que forma percebem sua adequação à função que exercem, servindo como centros de organização das ideias, dos discursos e das opiniões apresentadas pelos policiais participantes. As palavras destacadas serviram como cerne às discussões sobre este tema, que foram desenvolvidas, assim como os outros, no capítulo posterior.

4. INTERPRETAÇÕES E DISCUSSÕES TEÓRICAS SOBRE OS DADOS DA PESQUISA: ASPECTOS DA FUNÇÃO POLICIAL MILITAR À LUZ DA TEORIA PSICANALÍTICA.

Neste último capítulo, propuseram-se as discussões sobre os aspectos relacionados à função policial militar que emergiram durante todo o processo de pesquisa. Aqui, fez-se a conexão entre os dados, colhidos e analisados, e os referenciais teóricos pretendidos, principalmente com a teoria psicanalítica com ênfase à teoria freudiana, com o intuito de produzir reflexões e inferências que atendessem aos objetivos do estudo proposto. Assim como o capítulo anterior, que contemplou as análises do material colhido, o capítulo das discussões também foi organizado pelo roteiro temático, com o objetivo de interpretar os dados de maneira mais adequada à proposta inicial.

4.1. Advento da função policial e mudanças comportamentais: reflexões sobre novas percepções do mundo externo e reorganização psíquica

As diferenças no estilo de vida após o ingresso na atividade policial militar constituíram a primeira temática abordada nas entrevistas. Os recortes feitos na análise dos dados serviram para ilustrar o surgimento de algumas mudanças comportamentais dos sujeitos entrevistados. Termos, frases e passagens destacadas que recortes aludem ao sentido de aumento da atenção, de percepção aos indivíduos e aos ambientes têm grande incidência nas falas. Policial disse que o sujeito que se torna policial militar passa a ver o mundo de uma outra maneira. Policial 3 e Policial 4 falaram que se tornaram pessoas mais atentas ao que está à sua volta por causa de sua profissão. Policial 1 e Policial 4 apontaram como motivo destas mudanças o combate à criminalidade. Policial 4 se referiu a um contexto de guerra e de comportamento selvagem para explicar como concebe o cenário social brasileiro nos dias atuais. Com o uso de um recurso metafórico, utilizou as expressões “relação de caça e caçador” e “presa e predador”, referindo-se à posição ocupada na sociedade.A questão que surge a partir daí é a seguinte: que inferências tais mudanças comportamentais podem apontar quando dispostas ao referencial psicanalítico?

Para a resposta dessa pergunta, as reflexões se dirigem ao estudo do ego, mais precisamente às suas funções no aparelho psíquico. Para Freud (1930), o ego se estabelece como instância de contato com o mundo externo, com o que é real e concreto. Freud não encerra o ego como instância unicamente consciente, mas postula que é ela é mediadora do aparelho psíquico do sujeito e do mundo externo. Esta estrutura se desenvolve através dos estímulos de fontes de excitação exteriores ao próprio sujeito e, de certa forma, passa a mediar as relações dos conteúdos pulsionais, internos e constituintes do aparelho psíquico, regidos pelo princípio do prazer, e exigências do mundo concreto, tais como, por exemplo, as normas e leis criadas para vida em civilização e as ações dos outros sujeitos. Através desse processo, o ego evidencia tanto sua parte consciente quanto inconsciente da mente, pois sua parte inconsciente se constitui em pulsões de autopreservação. Quanto a esta mediação, Freud postula que:

Sob a influência dos instintos1 de autopreservação do ego, o princípio de prazer é substituído pelo princípio de realidade. Esse último princípio não abandona a intenção de fundamentalmente obter prazer; não obstante, exige e efetua o adiamento da satisfação, o abandono de uma série de possibilidades de obtê-la, e a tolerância temporária do desprazer como uma etapa no longo e indireto caminho para o prazer. (1920, p.2).

Insere-se a partir daí, a realidade como fator preponderante à dinâmica psíquica. A sua inexistência, assim como a inexistência desta mediação realizada pelo ego, impossibilitaria a autopreservação do sujeito. Ainda se refletindo sobre a questão exposta, usa-se o que afirma Freud sobre o desprazer:

A maior parte do desprazer que experimentamos é um desprazer perceptivo. Esse desprazer pode ser a percepção de uma pressão por parte de instintos insatisfeitos, ou ser a percepção externa do que é aflitivo em si mesmo ou que excita expectativas desprazerosas no aparelho mental, isto é, que é por ele reconhecido como um ‘perigo’. A reação dessas exigências instintuais e ameaças de perigo, reação que constitui a atividade apropriada do aparelho mental, pode ser então dirigida de maneira correta pelo princípio de prazer ou pelo princípio de realidade pelo qual o primeiro é modificado. (Ibid,1920, p.3)

As expectativas desprazerosas às quais Freud (1920) se refere podem se caracterizar também por percepções de algum fator externo que possa trazer desequilíbrio e desorganização psíquica, no sentido de elevar as tensões internas, gerando desprazer e sofrimento. Tais percepções são permitidas pelo ego. Ainda sobre o funcionamento do ego:

Quando desempenha suas funções cognitivas e intelectuais, o ego deve considerar as demandas incompatíveis, mas igualmente irreais do id e do superego. Além desses dois tiranos, o ego deve servir a um terceiro mestre – o mundo externo. Assim, o ego tenta constantemente conciliar as exigências cegas e irracionais do id e do superego com as exigências realistas do mundo externo. Ao descobrir-se cercado, pelos três lados, de forças divergentes e hostis, o ego reage de forma previsível – se torna ansioso.[...] (FREUD, 1926, apud FEIST; FEIST, 2008, p.29).

Para refletir sobre possíveis respostas à questão dada acima, pode-se dar à ansiedade produzida pelo ego na tentativa de executar a conciliação das demandas internas e externas um lugar central. Freud (1933, apud FEIST; FEIST, 2008, p.34) afirma que “a ansiedade serve como mecanismo de preservação do ego porque sinaliza algum perigo próximo”.

É possível se inferir que a ansiedade produzida pela sinalização dos perigos referentes ao lide com a criminalidade e com situações de ameaça e perigo e a necessidade de atender às demandas dos impulsos de autopreservação do ego seja desencadeadora dos comportamentos que intersectaram os relatos dos policiais entrevistados. Ainda seguindo os pensamentos de Freud (1920, p. 4, aspas do autor), “A ‘ansiedade’ descreve um estado particular de esperar o perigo ou preparar-se para ele, ainda que possa ser desconhecido.” As inferências relacionadas à ansiedade produzida pelo ego e os fenômenos descritos nas entrevistas se reafirmam quando Policial 3 e Policial 4, por exemplo, não definem um objeto específico como gerador das tensões. Os comportamentos de vigilância relatados pelos policiais entrevistados, dados pela maior atenção e percepção aos indivíduos e aos ambientes se investem de forma geral. A perda de liberdade apontada por Policial 3 e o comportamento relatado por Policial 1, de selecionar os ambientes que deve frequentar, surgem como condutas que podem ser resultantes de um empreendimento psíquico que visa a conciliação dos fatores externos (ações dos outros indivíduos, por exemplo), e das tensões internas (que aumentam devido ao desprazer perceptivo de ameaças e perigos).

Tal ansiedade e os comportamentos surgidos, como a própria restrição de liberdade e a necessidade de vigilância também podem ser entendidas a partir da instituição da função, que se faz necessária para contensão e regulação social. As expressões “relação de caça e caçador e presa e predador”, ditas pelo Policial 4, aparecem como significantes de resíduos destes estados primitivos dos sujeitos nas relações sociais, que a partir daí, necessitam de regimento e controle através de leis e normas de convívio que possam interditar tais estados. Sobre as interdições impostas pela civilização, Freud afirma que:

Se a civilização impõe sacrifícios tão grandes, não apenas à sexualidade do homem,mas também à sua agressividade, podemos compreender melhor porque lhe é difícil ser feliz nessa civilização. Na realidade, o homem primitivo se achava em situação melhor, sem conhecer restrições de instinto. (1930, p.31)

São estas imposições que estes sujeitos passam a entificar em uma sociedade quando exercem a função policial. Como já visto no primeiro capítulo desta monografia, o sentido de polícia, em sua gênese, era o de fiscalização do cumprimento das leis para o funcionamento e conservação da polis. Fazendo uma releitura quanto às teorias utilizadas no primeiro capítulo sobre sociedade e civilização, vê-se que a observância das leis e das normas é necessária à preservação do Estado, pretendido por Rosseau (2013) como associação dos indivíduos para a garantia de sua subsistência. O Estado por sua vez, é um mecanismo de regulação dos indivíduos, que permite a vida civilizada. A civilização é a imposição da cultura e das leis com o intuito de conter os estados primitivos dos sujeitos. Conclui-se então que a incumbência da fiscalização e da coerção certamente trará novas formas de reoganização psíquica aos sujeitos que a exercem, tanto como cidadãos que se subjetivam através da imposição da cultura e da sociedade, quanto como policiais, que exercem função de vigilância e fiscalização das ações dos demais cidadãos.

4.2. O estresse: origens e repercussões

Nesta temática, a partir das análises feitas no capítulo anterior, é possível perceber que a gênese das situações estressoras, que promovem sofrimento e que repercutem nas subjetividades dos sujeitos que exercem a função policial militar se dá através de um mesmo conteúdo essencial: a sujeição às normas e aos limites impostos pela civilização, pela cultura e pela sociedade como Estado, amplificam-se pelas normas de sua instituição e pela função de fiscalizar o cumprimento das leis e intervir em situações de transgressão. Isto se visibiliza, por exemplo, quando Nascimento (2010) reflete sobre as limitações do poder coercitivo das polícias, que são estabelecidos pelas próprias leis e códigos aos quais devem fiscalizar o cumprimento. Os sujeitos entrevistados relataram aspectos organizacionais de sua instituição e experiências do cotidiano operacional como geradores de estresse e sofrimento.Os termos destacados sobrecarga, peso e controle, destacados como significantes na análise, podem sugerir inferências sobre a sujeição às imposições da civilização, da sociedade e do Estado e às repercussões sobre a dinâmica psíquica dos policiais militares. Antes de serem policiais, os sujeitos sofrem inicialmente com a instituição de uma civilização, o que Freud (1932, apud COSTA, 1986, p. 25) já caracteriza como violência. A partir desta violência, os sujeitos se organizam em contato com os estímulos externos e ações dos outros.

Sobre esta instituição, Freud afirma que:

Havia um caminho que se estendia da violência ao direito ou à lei. Que caminho era este? Penso ter sido apenas um: o caminho que levava ao reconhecimento do fato de que à força superior de um único indivíduo podia-se contrapor a união de diversos indivíduos fracos. L’union fait La force (em francês, no original). A violência podia ser derrotada pela união e o poder daqueles que se reuniam representava, agora, a lei em contraposição à violência de um indivíduo só. Vemos assim que a lei é a força da comunidade. Ainda é violência, pronta a se voltar contra qualquer indivíduo que se lhe oponha; funciona pelos mesmos métodos e persegue os mesmos objetivos. A única diferença real reside no fato de que aquilo que prevalece não é mais a violência de um indivíduo, mas a violência de uma comunidade. (1932; apud COSTA, 1986, p.25, grifos do autor)

Refletindo-se sobre o que afirma Freud a partir da realidade dos policiais militares, percebe-se que a essência de sua função já é, por si só, violenta. A fiscalização do cumprimento das leis, que asseguram a conservação do Estado e dos indivíduos em uma civilização, pelo caráter violento de repressão aos estados de primitivos dos indivíduos, exige do ego do sujeito policial a mediação entre as pulsões de desejo e as contingências do mundo externo através da capacidade de ressignificar e agir nas situações de crise e acarretam o que se chama de estresse, mas que também pode ser entendido como ansiedade ou sofrimento. Tal sofrimento que, segundo os Policiais 3 e 4, repercute na subjetividade e nas relações dos policiais, expandindo-se aos âmbitos íntimos (principalmente familiares) e sociais, para além do âmbito profissional.

4.3. Repercussões à saúde mental

Aqui, as discussões se voltam para as repercussões da atividade policial militar no âmbito psicossocial, no que se refere a saúde mental. Os termos carga, sobrecarga, estresse, peso, acúmulo, equilíbrio e limite se puseram como cerne das interpretações sobre como a função policial militar e suas peculiaridades vistas até agora podem incidir na dinâmica psíquica dos sujeitos que a exercem, implicando repercussões à suas formas de organização e constituição no mundo, assim como à qualidade de sua saúde mental.

É unânime entre os sujeitos participantes da pesquisa a percepção de que a função policial militar traz consequências à vida mental e aos âmbitos íntimos e sociais. Todos eles se referem à produção de sintomas em seus meios familiares e pessoas próximas. As variações de humor e por vezes os acessos de agressividade ganham seus contornos, por muitas vezes, no cotidiano familiar dos entrevistados. Policial 2 ainda enfatiza prejuízos funcionais, como a insônia que diz sofrer, além de refletir sobre as consequências do imaginário social da Polícia Militar, que afirma ser de discriminação.

A partir do que se observou nesta temática, as inferências podem se apoiar em reflexões criadas quanto aos mecanismos defensivos do ego, mais precisamente pelo deslocamento, como forma de equilibras as forças mentais que incidem sobre o funcionamento dinâmico do sujeito. Para Feist e Feist, é possível exemplificar o deslocamento da seguinte forma (2008, p.36):

No deslocamento, no entanto, as pessoas podem redirecionar seus desejos inaceitáveis para vários indivíduos ou objetos, para que o impulso original seja disfarçado ou oculto. Uma mulher, por exemplo, que está com raiva de sua colega de quarto pode deslocar sua raiva para seus funcionários, para seu gato de estimação ou um animal de pelúcia.

A partir desse exemplo e dos significantes surgidos de forma geral nas entrevistas, é possível se inferir que o mecanismo defensivo do deslocamento seja um recurso psíquico evidenciado, de forma que o ego em sua tarefa de mediação entre as pulsões e o mundo externo, encontra formas de disfarce, abrandamento e redirecionamento dos impulsos (sejam sexuais ou de agressão) em virtude da impossibilidade de suas manifestações plenas. O que se infere a partir do que foi visto é que, na função policial militar, o desconforto gerado pelas insatisfações das pulsões agressivas, nos momentos das situações de conflito e crise reais, se acumula como tensão (aspecto econômico) interditada justamente pelas leis e normas às quais todos os cidadãos estão regidos e pelas quais eles devem se basear em suas intervenções, para a manutenção tanto de seus direitos, quanto de sua própria preservação. Em uma situação de exposição à violência e transgressão às leis, o policial militar intervém repressivamente em relação ao agente. Porém, reprime os próprios impulsos de agressão que, porventura, venham a tentar se manifestar pois, como agentes de controle estatal, mesmo lhe dando a prerrogativa do emprego de força, vinculam-se ao que está prescrito como lei em todos os seus atos que tendem a preservar a vida e os direitos, inclusive dos cidadãos infratores. Esta sujeição aparece como contingência externa, como realidade que exige do ego a adequação psíquica que pode ser conseguida através deste mecanismo defensivo. O que se discute então é de que formas esse mecanismo pode tomar contornos saudáveis ou patológicos. Apenas um dos policiais acredita levar uma vida mental saudável, por considerar ter encontrado equilíbrio durante sua vida, através de religiosidade e da estrutura familiar. Os outros três policiais não acreditam levar uma vida mental saudável. Policial 3 admite que cada um deve realizar uma faxina mental, para descarregar o acúmulo que se adquire a partir da profissão. Sugere-se que tal faxina signifique novas formas de lidar com o estresse e o sofrimento.

4.4. Função policial e personificação de Estado: o entendimento de uma posição social e suas implicações psíquicas ao sujeito

Para que se possa adentrar a esta nova temática, é necessário que se revisite a teoria do Estado de Rousseau para o entendimento de que o Estado, como associação dos indivíduos, necessita de mecanismos de execução da vontade geral. Para Rousseau (2013, p.71, grifos do autor):

Toda ação tem duas causas que contribuem para produzi-la: uma moral, a vontade que determina o ato, e a outra física, o poder que a executa. [...]O corpo político tem os mesmos motivos, nele também se distinguem a força e a vontade: esta sob o nome de poder legislativo, aquela sob o nome de poder executivo. Nada se faz ou não deve ser feito sem a cooperação de ambos.

E ainda com relação ao entendimento do funcionamento do Estado, Rousseau (2013) postula que este necessita do governo, que é a força que lhe dá movimento. Este governo reúne e executa as leis e as normas definidas pela vontade geral em vigência. É o governo que garante o funcionamento e a preservação do Estado.

Após entender a ideia destes mecanismos e perceber o sentido que deu origem ao termo polícia, como no conceito postulado por Nascimento (2010), entende-se que o agente policial militar assume uma função e, consequentemente, uma posição social. É possível compreender essa percepção dos sujeitos de maneira unânime nas falas dos entrevistados. Tal posição, que sugere uma das várias formas de governo no sentido de manter o poder e a soberania da vontade geral dentro do pacto social, através da fiscalização das leis e da repressão das transgressões, demonstra implicar repercussões psíquicas aos sujeitos.

Policial 4 demonstra, em seus relatos, conceber a ideia de que ocupa uma posição de entificação, dizendo que percebe que as pessoas de sua comunidade enxergam nele a justiça e o Estado. Quando afirma que esta posição que lhe traz implicações subjetivas que se demonstram em uma conduta diferenciada. Policial 3 também fala sobre a adoção de condutas diferenciadas que surgem pelo exercício da função policial militar. No momento em que afirma que o policial deve demonstrar diferenças de conduta em relação ao cidadão, Policial 3 passa a dissociar do policial o status anterior. O que se pode inferir deste recorte da fala de Policial 3 é que a assunção da função policial militar lhe incumbe a tarefa de internalizar valores e normas em sua própria subjetividade, desencadeando no que ele mesmo se refere como posturas diferenciadas. Traça-se aqui uma analogia ao mecanismo egóico da introjeção. Para Feist e Feist (2008, p.37):

Assim como a projeção envolve colocar um impulso indesejado em um objeto externo, a introjeção é o mecanismo de defesa no qual as pessoas incorporam qualidades positivas de outra pessoa em seu próprio ego. [...]Os indivíduos introjetam características que julgam valiosas de modo a se sentir melhor com relação aos outros.

Assim como a criança introjeta a autoridade e os valores exercida pelos pais ou por um deles para uma conseguinte formação superegóica (FEIST FEIST,2008), infere-se que o Policial 3 descreva um processo similar em seus relatos. O sujeito que exerce a função policial introjeta os valores e as normas sociais (a lei),em um processo que aparenta produzir uma reestruturação superegóica. Policial 3 fala: “O cidadão... é mais solto. O policial, ele tem que ter uma postura. Assim... diferentemente... numa ocorrência ou... simplesmente numa ronda, né? Você tem que ter uma postura.[...]” Percebe-se no conteúdo de sua fala que as introjeções surgem como um aspecto de reorganização psíquica que lhe conferem a possibilidade uma melhor adequação subjetiva à necessidade de se tornar um referencial de conduta social. A ansiedade e o sofrimento não se excluem deste processo, pois Policial 3 afirma que, determinadas situações, deseja se exceder aos limites impostos por esta reestruturação superegóica (ensejada pela sujeição aos códigos normativos que restringem suas condutas como agentes de segurança) e de agir como “pessoa comum”, a partir do confrontamentos dos próprios valores introjetados quando, por exemplo, se depara com situações de extrema crueldade ou violência. Na temática relativa à agressividade, foram retomadas as reflexões sobre o processo introjetivo e principalmente sobre a qualidade dos valores introjetados para se interpretar aspectos de seu manejo.

Policial 2, em sua fala, disse que, apesar de sentir orgulho de exercer sua função, procura evitar se identificar como policial por se sentir discriminado socialmente. Policial 2 justifica que paga pelos atos ilícitos cometidos por seus colegas de profissão e que isso lhe gera conflitos subjetivos. Infere-se aqui que o sujeito em questão passou pelo mesmo processo introjetivo dos valores e das normas sociais, porém, o que ele evidencia é a culpa sentida pela internalização da imagem que diz perceber que a sociedade tem do policial militar, que afirma ser de descrédito e que entende ser motivada pelas transgressões exercidas pelos próprios policiais.Tais inferências se apóiam nas ideias de Zimerman (1999), relativas às introjeções e à formação superegóica (ou de um ego-auxiliar) O que se infere, nesse caso, é a que reorganização psíquica advindas de mecanismos introjetivos do Policial 2 promove uma reestruturação superegóica mais rígida, motivadora de culpa e ainda mais repercussora em termos de sofrimento.

4.5. Reflexões sobre o sujeito policial militar e o manejo da agressividade

Nesta temática, percebeu-se que o manejo da agressividade como um dos empreendimentos mais complexos aos policiais militares entrevistados. Viu-se nas análises que os termos como controle emocional, razão e estabilizar o emocional surgiram como significantes que podem direcionar ao entendimento da dinâmica psíquica dos entrevistados. É unânime entre os policiais participantes a percepção de que há a necessidade de controlar os sentimentos e as condutas agressivas diante das situações de intervenção. Para início das discussões quanto ao tema, alude-se ao que Lima postula sobre o conceito de polícia:

A polícia é o instrumento que realiza a prerrogativa do Estado do uso da força. O policial,portanto, representa o Estado como braço armado da lei. Nesse sentido, o policial é aquele que tem o poder de usar a violência comedida para fazer valer a lei e, muitas vezes, para fazê-la valer é levado a exercê-la com seu ato. (2010, p.2)

Refere-se também ao que Lima (2010) afirma sobre a função policial no que tange ao limiar entre a prerrogativa do uso da coerção e a conduta violenta no exercício da função:

O policial transita numa zona limítrofe entre ordem e desordem, lei e transgressão, lei e não-lei. Seu ato é, assim, executado onde a lei não recobre e espera-se que trabalhe nela e com ela, mantendo e fazendo essa linha de demarcação. Entretanto, ocorrem excessos que são geralmente caracterizados pela violência em demasia.(Ibidem, 2010, p.2)

Vê-se que o policial, pela assunção da posição já discutida anteriormente neste capítulo, se dispõe a exercer a repressão e coerção nas situações de transgressão às leis. Contudo, como cidadão que também é, suas ações também são delimitadas por normas e leis que o restringem, impondo limites ao uso da violência necessária à repressão dos arbítrios e da agressividade dos indivíduos. O que se discute neste tema são os empreendimentos psíquicos utilizados pelos sujeitos policiais militares (que, pela função, têm maior contato com situações onde se deflagra a violência) para a contensão da própria agressividade, no intuito de exercer sua função em conformidade às leis. Policiais 2, 3 e 4 falaram sobre a necessidade de pensar na família e nas consequências dos atos, sobre a religiosidade como forma de contensão dos impulsos agressivos e sobre as condenações penais e sociais que o policial pode sofrer ao utilizar de violência demasiada, respectivamente. Tais fatores servem a uma consolidação superegóica que, segundo Freud (1930) se estabelece no reenvio dos impulsos agressivos para o próprio ego, em forma de uma instância repressiva.Para Freud:

Aí, é assumida por uma parte do ego, que se coloca contra o resto do ego, como superego, e que então, sob a forma de ‘consciência’, está pronta para pôr em ação contra o ego a mesma agressividade rude que o ego teria gostado de satisfazer sobre outros indivíduos, a ele estranhos. A tensão entre o severo superego e o ego, que a ele se acha sujeito, é por nós chamada de sentimento de culpa; expressa-se como uma necessidade de punição. A civilização, portanto, consegue dominar o perigoso desejo de agressão do indivíduo, enfraquecendo-o, desarmando-o e estabelecendo no seu interior um agente para cuidar dele, como uma guarnição numa cidade conquistada. (1930, p.36, aspas do autor)

Dessa forma, os policiais entrevistados dizem envidar esforços para conter sua agressividade em situações onde necessitam utilizar somente a força necessária como ferramenta de coerção àquele indivíduo que transgride às leis. Daí se pode entender a frequência dos termos controle, equilíbrio e estabilizar o emocional nos conteúdos que se referem às manifestações agressivas durante o exercício da função policial. Infere-se que a contra-força exercida pelo superego seja equivalente às pulsões de agressão, resultando dinamicamente em uma condição de equilíbrio.

Porém, também foi unânime a afirmação de que, por muitas vezes, os entrevistados não consideraram ter lidado bem com a agressividade em situações de intervenção. Policiais 2 e 4 falaram sobre situações onde interviram de forma violenta em casos de estupro de vulneráveis. Ambos disseram ter se projetado na situação descrita, se colocando no lugar da criança ou dos pais dela. Neste caso, pode-se remeter novamente às introjeções que o sujeito policial realiza, ou seja, na internalização de valores morais, de normais e leis que norteiam seu exercício profissional. Baseando-se em Zimerman (1999) quanto ao estabelecimento do superego como projetor das pulsões agressivas a um objeto externo ameaçador, deduz-se que o transgressor em confrontamento dos valores internalizados pelo sujeito – como por exemplo, a relação sexual consentida - se torna o objeto a quem se dirige repressão, que pode vir a se realizar pela violência como punição física. Situação semelhante descreveu o Policial 3, que se sentiu afrontado pela ação de um indivíduo e acabou o agredindo fisicamente, como forma de puni-lo pela confrontação de seus valores internalizados. É tanto que, quando perguntado sobre como se sentiu ao agredir o indivíduo, Policial 3 respondeu: “Não é alívio, né? Não é alívio... mas... assim, é que o cara, e como se ele ti... ele pagou pelo que fez, não é? Antes da lei penalizá-lo, ele sofreu alguma punição.” Nesta situação, é possível se perceber que a coerção e o uso da violência deixa de ser legítimo e socialmente, deixando de ser um mecanismo controle do Estado, vinculados às leis, e se tornando mera manifestação de agressividade e violência de um sujeito para outro.

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Fica visível que os empreendimentos de manejo e controle da agressividade se demonstram dispendiosos para os sujeitos entrevistados e, por muitas vezes, difíceis de serem bem sucedidos. E o resultado desses insucessos é, por muitas vezes, a transgressão das leis pelo próprio agente policial, que é executor da vontade geral, portanto, executor de uma das formas de governo do Estado. Isto, para Rousseau (2013), implica na dissolução do Estado e na usurpação da soberania da vontade geral. Vê-se, portanto, que a ação em uma zona limítrofe entre a lei e a transgressão pode trazer repercussões não só ao sujeito policial, mas a toda a sociedade.

4.6. Regime militar: gerenciamento organizacional ou relação de poder?

Neste último tema, foi possível perceber que o regime militar é, unanimamente, tido como alvo de questionamentos. Os entrevistados 1 e 2 convergem em suas falas no sentido de apontar o militarismo como um mecanismo de execução de poder e controle. Os termos e os enunciados que remetem à “obediência” e “punição” incidem constantemente, assim como as ideias referentes à disciplina. Como exemplo, retoma-se a entrevista do Policial 1, no ponto em que falou sobre seu entendimento quanto ao militarismo: “Então, eu não gosto muito do militarismo por causa disso, porque o pessoal não está muito preocupado com o policial que está na rua, mas com a questão de ele ser disciplinado[...].” Além deste trecho, acrescenta-se a ideia de Policial 2 sobre a necessidade de obedecer às ordens de seus superiores hierárquicos para que não haja punição ou perseguição. Sobre a disciplina e o controle dos corpos, diz Foucault (1987, p.165, aspas do autor):

A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados, corpos “dóceis”. A disciplina aumenta as forças do corpo (em termos econômicos de utilidade) e diminui essas mesmas forças (em termos políticos de obediência). Em uma palavra: ela dissocia o poder do corpo; faz dele por um lado uma “aptidão”, uma “capacidade” que ela procura aumentar; e inverte por outro lado a energia, a potência que poderia resultar disso, e faz dela uma relação de sujeição estrita. Se a exploração econômica separa a força e o produto do trabalho, digamos que a coerção disciplinar estabelece no corpo o elo coercitivo entre uma aptidão aumentada e uma dominação acentuada.

A coerção disciplinar afirmada por Foucault (1987) é tida como um mecanismo de sujeição. Consequentemente, traduz uma relação de poder que se movimenta institucionalmente através dos códigos penais militares, que consolidam as formas de punição e impõem a subserviência, juntamente ao preceito da hierarquia. Esta condição de sujeição se revela como um fator desencadeador de estresse aos referidos entrevistados.

Os Policiais 3 e 4também se referiram à esta condição de sujeição à coerção disciplinar. O policial 3 já havia considerado a hierarquia da instituição como um dos principais desencadeadores de estresse relativo à função. Porém, também foi trazida por eles a visão do regime militar como forma eficaz de gerenciamento organizacional. Suas ideias convergiram na necessidade de uma unidade de comando e da homogeneidade das ações dentro do corpo da instituição. Para o entendimento dessa visão, foram visitadas teorias organizacionais, mais precisamente a teoria da burocracia, desenvolvida por Max Weber, no final do século XIX. Esta teoria organizacional é que mais se aproxima do que se encontra no conteúdo dos entrevistados 3 e 4. Nela, se estabelecem mecanismos como A divisão do trabalho, a delegação de autoridade e a amplitude de controle, que são permitidos através de um esquema de supervisão hierárquica. (SPECTOR, 2010). Para os Policiais 3 e 4, é este panorama organizacional que permite a unidade e o funcionamento do corpo institucional ao qual fazem parte. Policial 4 ainda falou sobre a necessidade de aperfeiçoamento do militarismo, em relação à adequação das formas de coerção disciplinar ao contexto sociocultural atual.

O que se pode perceber nessa temática é que existe uma zona limítrofe também no que tange ao militarismo como forma de gerenciamento organizacional e de relações de poder que implicam na sujeição e na docilização dos corpos (dos indivíduos). Esta zona fronteiriça entre a necessidade de eficácia organizacional e a instrumentalização de sujeitos repercute entrevistados, no sentido de reoganização frente às imposições dos códigos de conduta e às normas disciplinares por eles estabelecidas.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir de todos os aspectos contemplados durante a pesquisa, é possível se considerar que a atividade policial militar traz especificidades que implicam na reorganização psíquica dos sujeitos que a exercem. As temáticas abordadas serviram à reflexão sobre como os policiais militares percebem os aspectos peculiares de sua função e como se subjetivam a partir dela. Desde a intenção de elaborar um estudo inicial sobre as contingências históricas, antropológicas, sociais e jurídicas que serviram para a definição da função policial militar até a promoção de reflexões sobre a forma como ela pode incidir na vida psíquica de seus agentes, emergiram fenômenos relevantes não só a mera compreensão do objeto do estudo, mas também às possíveis formas de intervenção por profissionais da área da Psicologia pela inclinação a demandas tão específicas. O presente estudo monográfico se dispôs à aproximação da realidade dos sujeitos policiais militares. E somente por essa aproximação foi possível estabelecer o contato com as experiências, vivências e ideias destes profissionais, que atuam em uma função essencial à sociedade.

Com os estudos iniciais sobre o advento da função policial, é possível se afirmar que, apesar de uma essência permanente de vigilância e repressão às transgressões, seu sentido e suas atribuições se relacionaram com as demandas sociais e com o centro de organização do poder. Percebeu-se isso através das tantas formas que a função policial desvelou durante a história, desde a Idade Clássica, até os tempos atuais. A função policial, em suma, organizou-se e se ressignificou a partir das demandas socioculturais de cada época, de cada período histórico e de seus alicerces ideológicos. Porém, em essência, percebemos que a atividade policial sempre esteve presente, independentemente de suas diferentes facetas ao longo do tempo. Considera-se que, para se entender o funcionamento das instituições policiais, é necessário que se reflita sobre o panorama social que cria e direciona a ela suas demandas.

Com o desenrolar dos procedimentos de pesquisa, desde a coleta de dados até sua análise e interpretações, foi possível se perceber como a função policial militar pode influenciar os processos de subjetivação de seus agentes. Variados fenômenos foram evidenciados, como mudanças comportamentais inerentes à função, a assunção de uma posição que incumbe à entificação e a personificação das leis e das normas, dispositivos do Estado e dos mecanismos de controle social, a forma pela qual se exerce o controle de sua agressividade em intervenções em situações de crises e violência e as repercussões evidentes trazidas pelo exercício da atividade policial militar à saúde mental. Além disso, os entrevistados puderam demonstrar como o regime militar incide em suas vidas e de que forma eles podem compreendê-lo.

De forma panorâmica, todos os temas contemplaram aspectos importantes para reflexões e compreensão da realidade que se propôs estudar. Os estudos não se encerram nesta monografia, pois cada temática traz uma série de questões que podem ser desenvolvidas à luz dos mais variados campos do conhecimento – tais como o Direito e a Sociologia por exemplo - e que servem às propostas de intervenção no intuito de proceder melhorias tanto na qualidade do serviço prestados por estes profissionais de segurança pública, quanto no atendimento e na inclinação às suas demandas. A visibilidade da realidade policial militar se potencializa como um dos principais resultados do desfecho deste estudo monográfico.

A relevância da temática abordada para a ciência da Psicologia também se evidencia no percurso desta pesquisa. À luz do referencial teórico da Psicanálise, foi possível produzir inferências sobre as formas como os sujeitos policiais militares se constituem subjetivamente a partir das especificidades de sua atividade, reorganizando-se através de dispositivos dinâmicos de seu psiquismo. Além disso, também foi possível abordar questões que remetem às repercussões do lide com situações estressoras e de violência a sua saúde mental. A pesquisa proposta dá a possibilidade de que desenvolvam propostas de intervenção na área da Psicologia para este público-alvo, que se demonstram hoje de maneira ainda muito escassa. Por conta de tudo que foi afirmado, acredita-se que os objetivos da pesquisa foram atingidos com êxito e que a pesquisa possa ser ainda mais expandida e aprofundada, a fim de que se possam oferecer formas interventivas dentro da área da Psicologia, contemplando não só os sujeitos que exercem a função policial militar mas também, como consequência, todo um corpo social.

6. REFERÊNCIAS

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CARVALHO, M. Manual de Direito Administrativo. 21. ed. Salvador: Jus Podivm, 2014.

COSTA, J, F. Violência e Psicanálise. 2. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1986.

FEIST, J; FEIST, G, J.Teorias da Personalidade. 6. ed. São Paulo: Mcgraw-hill, 2008.

FOUCAULT, M. Vigiar e punir: o nascimento das prisões. Petrópolis: Vozes, 1987.

FREUD, S. Além do princípio do prazer. 1920. Disponível em: . Acesso em: Nov. 2014.

FREUD, S. O mal-estar na civilização. Texto copiado integralmente da edição eletrônica das obras de Freud. 1930. Disponível em: Acesso em: Maio 2014.

LIMA, F, B. Entre a lei e o ato: considerações acerca da violência policial. [s.l]: Latusa: digital, , n. 42/43, 2010, p.1-7. Disponível em: . Acesso em: Dezembro de 2014.

MINAYO, M. C. de S. Pesquisa social: teoria, método e criatividade. 23. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2004______. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 13. ed. Hucitec. São Paulo. 2013.

NASCIMENTO, T, G. Polícia: do passado ao presente a evolução de um conceito. 2010. Disponível em: . Acesso em: 01 dez. 2014.

RICHARDSON, R.J, Pesquisa social: métodos e técnicas. 3. ed. Atlas, 2008; São Paulo.

RODRIGUES, M, P, R. Gestão da Polícia Militar: cultura institucional como agente limitador da construção de uma polícia cidadã. 2010. 93 f. Dissertação (Mestrado) - Curso de

Executivo em Gestão Empresarial, Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro, 2010. Disponível em: >. Acesso em: Junho de 2014.

ROUSSEAU, J, J. O contrato social. Porto Alegre: L&PM. 2013.

SPECTOR, P. Psicologia nas organizações. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2010.

ZIMERMAN, D. Fundamentos psicanalíticos: teoria, técnica e clínica - uma abordagem didática. Porto Alegre: Artmed, 1999.

7. ANEXOS

ANEXO 01 - TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO

(Elaborado de acordo com a Resolução 466/2012-CNS/CONEP)

Convidamos V.Sa. a participar da pesquisa Sujeito psíquico em instituição do estado: possibilidades de conflitos e impactos psíquicos em policiais militares sob responsabilidade do(a) pesquisador(a) Renato Peixoto Costa orientado(a) pelo(a) Professor(a) Lindair Ferreira de Araújo, tendo por objetivo apontar e analisar possíveis impactos psíquicos em policiais militares, oriundos dos conflitos entre se construir como um cidadão social e adquirir a condição de personificar o Estado, inerentes à função policial.

Para realização deste trabalho usaremos o(s) seguinte(s) método(s): entrevista individual (será utilizado um gravador para registro da entrevista, caso seja permitido).

Esclarecemos que manteremos em anonimato, sob sigilo absoluto, durante e após o término do estudo, todos os dados que identifiquem o sujeito da pesquisa usando apenas, para divulgação, os dados inerentes ao desenvolvimento do estudo. Informamos também que após o término da pesquisa, serão destruídos de todo e qualquer tipo de mídia que possa vir a identificá-lo tais como filmagens, fotos, gravações, etc., não restando nada que venha a comprometer o anonimato de sua participação agora ou futuramente.

Quanto aos riscos e desconfortos, pode ocorrer algum desconforto ou incômodo ao participar das entrevistas, haja vista o tema de pesquisa referir-se a aspectos subjetivos e íntimos. Como forma de minimizar riscos as entrevistas serão realizadas individualmente e em local e horário escolhidos pelo sujeito, resguardando-se sua privacidade. Ainda, a pesquisadora estará atenta a qualquer sinal de desconforto que, existindo, será acolhido e respeitado pela mesma. O familiar tem todo o direito de desistir de participar da pesquisa, se assim o desejar, sem prejuízos para o mesmo, inclusive preservando-se seu anonimato.

Caso você venha a sentir algo dentro desses padrões, comunique ao pesquisador para que sejam tomadas as devidas providencias, podendo optar por não participar da pesquisa, sendo garantida da mesma forma a privacidade quanto aos dados confidenciais fornecidos.

Os benefícios esperados com o resultado desta pesquisa são: refletir quanto à possibilidade de impactos psíquicos relativos ao exercício da função policial militar, no que tange aos aspectos de instituição e personalização do Estado.

O (A) senhor (a) terá os seguintes direitos: a garantia de esclarecimento e resposta a qualquer pergunta; a liberdade de abandonar a pesquisa a qualquer momento sem prejuízo para si ou para seu tratamento (se for o caso); a garantia de que em caso haja algum dano a sua pessoa (ou o dependente), os prejuízos serão assumidos pelos pesquisadores ou pela instituição responsável inclusive acompanhamento médico e hospitalar (se for o caso). Caso haja gastos adicionais, os mesmos serão absorvidos pelo pesquisador.

Nos casos de duvidas e esclarecimentos o (a) senhor (a) deve procurar o (a) pesquisador (a) Renato Peixoto Costa (telefone 87-99612565 ou e-mail renato_costa99@hotmail.com).

Caso suas duvidas não sejam resolvidas pelo (a) pesquisador (a) ou seus direitos sejam negados, favor recorrer ao Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade de Pernambuco, localizado à Av. Agamenon Magalhães, S/N, Santo Amaro, Recife-PE, telefone 81-3183-3775 ou ainda através do e-mail comite.etica@upe.br.

Consentimento Livre e Esclarecido

Eu _____________________________________________________________, após ter recebido todos os esclarecimentos e ciente dos meus direitos, concordo em participar desta pesquisa, bem como autorizo a divulgação e a publicação de toda informação por mim transmitida, exceto dados pessoais, em publicações e eventos de caráter científico. Desta forma, assino este termo, juntamente com o pesquisador, em duas vias de igual teor, ficando uma via sob meu poder e outra em poder do (a) pesquisador (a).

Local: Data:___/___/

___________________________ ___________________________________

Assinatura do Sujeito Assinatura do pesquisador

ANEXO 02 - TERMO DE CONFIDENCIALIDADE

(Elaborado de acordo com a resolução 466/2012- CNS/CONEP)

Em referência a pesquisa intitulada, ” SUJEITO PSÍQUICO EM INSTITUIÇÃO DO ESTADO: POSSIBILIDADES DE CONFLITOS E IMPACTOS PSÍQUICOS EM POLICIAIS MILITARES” eu, Lindair Ferreira de Araújo, e minha equipe composta por Renato Peixoto Costa, comprometemo-nos a manter em anonimato, sob sigilo absoluto, durante e após o término do estudo, todos os dados que identifiquem os sujeitos da pesquisa, usando apenas para divulgação os dados inerentes ao desenvolvimento do estudo. Comprometemo-nos também com a destruição, após o término da pesquisa, de todo e qualquer tipo de mídia que possa vir a identificá-lo, que neste caso, seria a gravação em áudio.

Garanhuns, _____de ________________de 2014.

 

___________________________________________

Assinatura da responsável da pesquisa

 

___________________________________________

Assinatura do aluno pesquisador

ANEXO 03 - CARTA DE ANUÊNCIA DA INSTITUIÇÃO

Aceito o estudante Renato Peixoto Costa, do curso Bacharel em Psicologia – Formação Psicólogo da Universidade de Pernambuco – Campus Garanhuns, a desenvolver a pesquisa intitulada: “SUJEITO PSÍQUICO EM INSTITUIÇÃO DO ESTADO: POSSIBILIDADES DE CONFLITOS E IMPACTOS PSÍQUICOS EM POLICIAIS MILITARES”, sob a orientação da profªMsª Lindair Ferreira de Araújo.

Ciente dos objetivos, métodos e técnicas que serão utilizadas nessa pesquisa concordo em fornecer todo subsídio para seu desenvolvimento, desde que, seja assegurado o que segue abaixo:

. O cumprimento das determinações éticas da Resolução nº466/2012 CNS/CONEP;

. A garantia de solicitar e receber esclarecimentos antes, durante e depois do desenvolvimento da pesquisa;

. Não haverá nenhuma despesa para esta instituição que seja decorrente da participação dessa pesquisa;

. No caso do não cumprimento dos itens acima, a liberdade de retirar minha anuência a qualquer momento da pesquisa sem penalização alguma.

Garanhuns, _____ de ______________ de 2014

_____________________________________________

Responsável pela Instituição

APÊNDICES

APÊNDICE A- ROTEIRO DAS ENTREVISTAS

I – Diferenças no estilo de vida após o ingresso na atividade policial militar; quais as principais diferenças? O que se pensa sobre elas? Por que elas ocorrem?

II – Situações recorrentes e estressoras da atividade policial militar; como se lida com o estresse em ocorrências? Quais as situações mais estressantes vividas em sua atividade?

III- Percepções sobre a própria saúde mental e a influência da atividade policial militar neste aspecto; você acredita que sua atividade repercuta em sua vida pessoal? Se sim, de que maneira você acredita que isso ocorre? Você acredita levar uma vida mental de maneira saudável?

IV – Como se percebem sendo agentes do Estado; se isso lhes causa algum conflito subjetivo; já teve vontade de, no exercício da função, fazer coisas que não estavam vinculadas às leis?

V – Como estes profissionais lidam com a agressividade, tanto a que é dirigida a eles, quanto a que eles possam dirigir aos outros; como você lida com a agressividade que lhe dirigem em determinadas situações? Como você lida com sua própria agressividade? Já passou por situações onde considera não ter lidado bem com a agressividade?

APÊNDICE B – ENTREVISTAS

Entrevista Policial 1

20/10/2014

Entrevistador: O primeiro tema é sobre as diferenças do modo de vida antes do ingresso na atividade policial e depois do ingresso nessa atividade? Quais são as principais diferenças no modo de vida de antes e depois?

Policial 1: A questão que... antes o cara... é... vivia de uma forma que... poderia frequentar qualquer lugar, né? Assim... sem tá preocupado com quem estava no local, quem não estava. Aí depois que o cara entra na Instituição, tem que selecionar os lugares... tem que selecionar os lugares pro cara tá freqüentando, né? Tem que ser desse jeito?

Entrevistador: Mais alguma diferença além dessa?

Policial 1: Não. Assim... basicamente, pra mim, acho que, assim... que eu senti mais foi essa, assim. A questão foi mais essa, né?

Entrevistador: O que o senhor pensa sobre elas e por que o senhor acha que elas ocorrem?

Policial 1: Elas o quê?

Entrevistador: Essas diferenças que o senhor falou.

Policial 1: Não entendi...

Entrevistador: O que o senhor pensa sobre essas diferenças, né? De antes e depois. Por que osenhor acredita que elas ocorram?

Policial 1: Sei... como eu falei, porque depois que você entra na instituição Polícia Militar, você começa a ver o mundo de outra forma, né? Essa questão de criminalidade e tal, isso aí, quando tá fora da polícia, você não tem noção... é... do índice de criminalidade, como é. Aí você, pra combater, você... sente que, quando você tá lá, o crime é bem mais alto do que você acha assim, que é. Bem mais alto...

Entrevistador: Certo. O segundo tema são situações recorrentes e estressoras da atividade policial militar. Como o senhor lida com estresse? Nas ocorrências, no cotidiano...

Policial 1: Depende (risos). Depende da ocorrência. Depende da ocorrência. Tem ocorrência que... é... às vezes o cara fica muito estressado mesmo, assim... ...( )tipo de ocorrência, quando... você verbaliza contra uma pessoa que tá cometendo uma infração e... a pessoa não, realmente, obedece o comando que você dá... às vezes a pessoa... é... perde um pouco, assim, é... o seu estado normal, né? Às vezes fica com um tom mais alto de voz, às vezes tem que ter uma atitude mais forte, né? Às vezes até a força pra controlar tal situação... isso aí acaba sobrecarregando muitas vezes o policial.

Entrevistador: E no cotidiano? Não somente na ocorrência em si, mas no cotidiano policial militar, quais as situações que mais geram estresse?

Policial 1: As situações que geram mais estresse, é... no cotidiano, acontece dentro da própria instituição, né? Devido à questão de ter muitas graduações e muitas patentes, é meio complicado assim, muitas cabeças querendo coisas diferentes e... cada um quer fazer de um jeito... você às vezes tem que obedecer. Tipo, você fica... é... trabalhando a quantidade de horas excessiva, que... realmente não condiz com... com questão de... dos direitos humanos, tudo isso. Por exemplo, você trabalha numa escala de vinte quatro, aí às vezes você descansa... seis horas numa escala de vinte e quatro. E tem que cumprir. Se não cumprir, vai... é... é... ser notificado porque tem estatuto pra punir, tal, aquela coisa toda. Isso aí às vezes você tem que fazer uma coisa que você não quer, mesmo sabendo que ta ferindo alguns princípios constitucionais.

Entrevistador: Quais as situações que lhe expõem ao maior nível de estresse na sua atividade?

Policial 1: Certo. Eu, sinceramente, eu acho essa situação a que m... que mais me estressa, essa situação da própria instituição, assim... ...as cobranças que existem, muitas vezes, eu acho que ela acaba sobrecarregando o policial, porque... acontece de forma injusta mesmo, assim... o pessoal sabe que não tá exigindo, é... aquele esforço do policial e quer que ele execute mesmo sobrecarregado, ele.

Entrevistador: O senhor tem mais algo a falar sobre essa questão?

Policial 1: Não. Basicamente é isso, mesmo.

Entrevistador: Então, vamos ao terceiro tema. As percepções sobre a própria saúde mental e a influência que a atividade policial pode exercer nesse aspecto. Certo?

Policial 1: Certo.

Entrevistador: O senhor acredita que sua atividade, ela possa repercutir na sua vida pessoal, na sua vida social, nos outros âmbitos da sua vida?

Policial 1: Com certeza. (tossiu) Com certeza ela... ela traz consequências pra vida pessoal, é... até às vezes... na profissional, quando você tá sobrecarregado no estresse, ele traz consequências que, muitas vezes, as pessoas que estão próximos da gente, familiares, amigos, às vezes acaba sofrendo porque... às vezes você fala com um tom diferente daquele que é normal que as pessoas estão acostumados com você. ( ) quando você tá sobrecarregado, às vezes acontece isso. Comigo já aconteceu algumas vezes, sim. Com mãe, com... com namorada, com irmão... aconteceu. Então eu acredito... é... que essa sobrecarga que o policial traz.

Entrevistador: O senhor acredita que o estresse e a, por muitas vezes, as situações que acontecem na atividade profissional, possam refletir em certos momentos com a sua família, com as pessoas próximas?

Policial 1: Eu acredito. Comigo já aconteceu várias vezes. É um reflexo...

Entrevistador: Quer descrever essa experiência de alguma forma?

Policial 1: Muitas vezes é você, às vezes tá saindo de serviço... você, é... trabalhou vinte e quatro horas, não descansou bem... aí você chega... às vezes querendo descansar, querendo fazer algo mais que realmente você precisa pra recompor aquele desgaste que você teve, e às vezes tem compromisso, tem outro que é fora sua atividade, mas você já traz aquela sobrecarga que... vai trazer uma consequência na, na sua folga, porque às vezes a folga que o policial, realmente, não é compatível com o que ele trabalha, que às vezes trabalha, é... ...digamos que setenta e duas horas numa semana e você tem que trabalhar no máximo quarenta e quatro, segundo a Constituição, então isso aí tudo é feito um estudo, pra você trabalhar uma quantidade de horas que não tragam uma sobrecarga pra você. Então, quando você faz isso, certamente vai ter consequências na sua vida, é... mental... tudo. Isso vai trazer consequência.

Entrevistador: O senhor acreditar levar uma vida mental saudável?

Policial 1: ... não, assim... não posso dizer que cem por cento, não. Mas, assim... acredito que, é... eu não levo cem por cento, não. Ela, ela traz consequências assim pra... ...você não ter a... tranqüilidade que você acharia que deveria ter.

Entrevistador: Certo. O quarto tema vai mais adiante na função policial. Como o senhor se percebe como agente do Estado? Sendo um agente do Estado?

Policial 1: Certo. Como eu me percebo como agente do Estado. Eu... sinceramente eu gosto muito da função que eu exerço, tô satisfeito em exercer essa função, é... que tenho a dizer que a instituição ela... melhora a cada ano que passa, ela, ela melhora, então assim, eu tô satisfeito e acredito que vá continuar melhorando. A gente já conseguiu muitas conquistas aí. Então... é... acredito que estamos progredindo. Já vivemos tempos piores.

Entrevistador: Conquistas que o senhor fala em que termos?

Policial 1: Questão de... (tossiu) uma escala melhor, questão de uma remuneração melhor, questão de uma alimentação melhor que a gente não tinha. Na verdade, a gente tinha alimentação, só que era alimentação da instituição, era alimentação ruim. Então... hoje a gente tem é... auxílio-alimentação, é... tem incentivos também, você apreende uma arma, você tem, é, uma gratificação por aquilo... é... você vai trabalhar numa escala extra, é... hoje eles já tão começando a gratificar por aquele, por aquela escala extra, né? Então assim... conseguimos muitas coisas, né? Tem ainda outras coisas pra conseguir, mas... aos poucos, a gente tá conseguindo melhorar um pouco a instituição.

Entrevistador: O senhor que, entre a sua função como policial e o senhor como pessoa, como sujeito, realmente, a sua função policial lhe causa algum conflito subjetivo? Algum conflito psicológico?

Policial 1: Causa. Com certeza (riso). Causa, porque, é... você... tá trabalhando! Aí você tá lidando com infratores da lei, aí você acaba fazendo um flagrante, prendendo aquela pessoa. Aí, na sua folga, às vezes você, é... vai de encontro àquela pessoa que efetuou uma prisão e tal, aí você, na folga, fica meio desconfor... desconfortável em estar ali, de folga, estar sozinho, porque quando o cara tá de serviço, tá com uma viatura, duas, três, se precisar de apoio, tem um efetivo muito bom, mas quando você tá na folga, você tá sozinho. Então você, indo de encontro assim, ou passando em locais que aquelas pessoas estão que você prendeu, você fica meio desconfortável, assim, na sua folga é meio assim... é meio chato assim, essa situação, por causa disso.

Entrevistador: O senhor, no exercício da função, já teve vontade, já se sentiu impulsionado a fazer alguma coisa que não fosse vinculada à lei, que transgredisse a lei?

Policial 1: Rapaz, assim... nunca não, né? Porque, assim, a situação que, às vezes, a pessoa pode... é... encontrar é a situação que a população vê diferente. Muitas vezes, a população pode achar que ali, você feriu a lei. Mas assim... diante do que... é... nós estamos acostumados nas situações de ocorrências, a gente tenta ao máximo, é... usar a força necessária para controlar as situações. Então assim... questão de infringir a lei, eu acredito que... da minha parte, nunca, né? A... questão é essa. Se alguém pode ver diferente, a sociedade... dos preceitos legais... mas assim, da minha parte, acredito que até agora tá tudo tranquilo, assim...

Entrevistador: Certo. O penúltimo tema é a agressividade. Como esses profissionais lidam com a agressividade, tanto a que é dirigida a eles, quanto a que eles possam dirigir aos outros. Como o senhor lida com a agressividade que lhe dirigem em determinadas situações? Seja no cotidiano, seja nas ocorrências em si, nas situações de crise? Como o senhor lida com a agressividade que as pessoas exercem com relação ao senhor?

Policial 1: Entendi. É o que eu falei, eu tento... é... primeiro, a gente tenta contornar a situação de forma verbal, né? Só que... dependendo da situação, por exemplo: eu mesmo já fui agredido, em ocorrências, assim... eu já levei uma paulada, a gente já levou pedrada de populares, assim... porque tava resolvendo... uma ocorrência. Então, assim... a gente tem que usar uma força proporcional. Se o pessoal, é... recebe um comando, você verbaliza... o pessoal às vezes vem, dessa forma que eu falei, eu levei uma cacetada... aí eu também tenho que... é... usar da força pra controlar a situação. Muitas vezes, a gente pode até acabar excedendo, porque depois que... é... você sofre uma agressão, você às vezes acaba perdendo o controle, né? Daquela situação. Então, você não sabe a hora que vai dosar, que vai reagir da mesma forma, agredindo... pra se proteger daquela situação, até onde vai tá bom. Até... assim... muitas vezes, a gente só par ( ) quando tem que imobil... quando consegue imobilizar o... o... o indivíduo lá, né? Até então, se não conseguir imobilizar, você tem que tá controlando, se não vai acabar apanhando aí da população.

Entrevistador: Como o senhor lida com a própria agressividade que surge nesses momentos, que pode emergir nesses momentos?

Policial 1: Nem sempre eu controlo. Às vezes... muitas vezes eu perco o controle. Nem sempre eu consigo controlar, né? Essa questão aí... da agressividade... é muito instantânea assim... é de momento, às vezes você não consegue controlar... é isso.

Entrevistador: A última pergunta desse tema: o senhor já passou por situações onde considera não ter lidado bem, controlado sua agressividade, dentro da atividade ou fora dela, mas que tenha alguma ligação com a função?

Policial 1: Não, não. Eu sempre tive um estado meio... é... constante assim, nunca tive muitas alterações não, assim, com relação a isso.

Entrevistador: Nunca... (continuaria a pergunta, indagando se ele não se lembrava de nenhuma situação em que tivesse sido agressivo em sua função)

Policial 1: Não! Nunca perdi o controle não, assim...

Entrevistador: O último tema, um tema menos extenso, com uma pergunta só, é com relação ao militarismo. Como você percebe o regime militar regendo a função policial?

Policial 1: Certo. Questão da instituição, né?

Entrevistador: Isso.

Policial 1: Entendi. Eu, sinceramente, eu não gosto do militarismo. Nunca, nunca gostei, né? É... gosto da instituição, só que a forma que o militarismo acontece eu não gosto, porque... ela é... ela é inquisitiva, na verdade, assim... ( )você, ou obedece ou é punido, então... é... muitas vezes... é... fica difícil de contestar algumas coisas na instituição, porque... é... o pessoal acredita que você tá... ponderando e quer punir de certa forma. Então, eu não gosto muito do militarismo por causa disso, porque o pessoal não está muito preocupado com o policial que está na rua, mas com a questão de ele ser disciplinado, entre aspas, pra eles, né? Que eles acham que disciplina é você dar um comando e aquela pessoa obedecer. Mas, nem sempre, o comando que existe na questão do militarismo, a maioria concorda. Porque muitas coisas vai de encontrar à própria Constituição. É... ...o estatuto mesmo, ele é infraconstitucional e muitas vezes ele vai de encontro à Constituição, aí você tem que ingressar com uma ação contra a instituição pra querer aquele direito que foi interrompido, que você tinha, e o pessoal... é... às vezes usa a instituição, transferindo você pra uma cidade bem longe porque você ingressou com uma ação contra a instituição, contra aquele que provocou... algum dano moral contra você. Eles tem o estatuto pra... é... disciplinar, só que muitas vezes acaba prejudicando a pessoa por causa disso. Se você vai de encontro à instituição... ...eles usam, a própria... o próprio sistema da instituição pra lhe prejudicar, de forma, é... entre aspas certa, porque ele acaba transferindo você pra uma cidade que você tá a duzentos, trezentos quilômetros de onde você mora, aí acaba prejudicando. Isso aí acaba até causando um estresse além do normal no policial. Então isso acontece muito... então, às vezes, eu não gosto do militar... do militarismo por causa disso.

Entrevista Policial 2

20/10/2014

Entrevistador: Bom, Policial 2! Quais diferenças no estilo de vida que o senhor pode reconhecer, de antes de entrar na função policial militar e após o ingresso na polícia militar, o senhor pode me falar um pouco sobre a diferença no seu estilo de vida, no modo como o senhor vive?

Policial 2: É grande! É grande, Renato, a diferença. Porque antes, eu tinha uma... uma vida que não era muito estressante. E depois que eu entrei na atividade policial... é... eu fiquei ... ...me irritando, assim... com pouca... com pouca coisa eu já me irrito. Eu fiquei muito estressado. Às vezes, pra dormir... às vezes já foi necessário até fazer uso de... de... de medicamentos.

Entrevistador: Quais as principais diferenças que o senhor pode elencar, assim, com relação a sua vida antes e depois da Polícia Militar.

Policial 2: É o seguinte... ...foi uma coisa que eu abracei... porque... foi também uma falta de oportunidade... de... de emprego, porque eu nunca pensava de entrar nessa... nessa profissão, né? Nunca pensei em entrar. Mas, devido ao mercado de trabalho que tava escasso, né? Sem... sem emprego. Aí eu resolvi. Prestei o concurso, onde... ...e tô gostando... da atividade policial militar. Agora... o que eu não gosto às vezes é porque a gente não tem apoio. Porque é uma coisa: foi uma profissão que eu pensei que era uma coisa e quando eu entrei, é outra... ...porque quando tem uma ocorrência mais séria, você precisa dos nossos superiores, eles viram as costas. E quem é? Só somos nós pra, pra enfrentar todas as dificuldades.

Entrevistador: Certo. O que, o que o senhor pensa com relação a, a essas diferenças no estilo de vida, né? O senhor pensa que isso pode repercutir na sua vida?

Policial 2: Sim, ( ) pode... repercutir... assim que às vezes, eu... eu vivia com a minha esposa... ...vivia mais assim, tinha mais harmonia. Mas, às vezes, devido ao... ao estilo do... de trabalho, às vezes eu chego em casa e às vezes eu fico um pouco agressivo. Agressivo porque eu fico estressado e eu fico me irritando facilmente, às vezes com coisa que não era... que não era... com coisas às vezes que não... como é que se diz?... Me irrito facilmente com coisas que não era pra se irritar. Aí quando eu chego, chego... mal-humorado. Aí a mulher ( ): ouxi! O que é que tá acontecendo com você? ( ) não, nada não. Que eu sou... me... é... como é? Assim, eu... eu fico estressado. Fico estressado quando chego em casa.

Entrevistador: Certo. O tema dois é: Quais são as situações mais recorrentes e mais estressoras da atividade policial militar? Quais são as situações que o senhor acha que mais acontecem, que mais estressam o policial militar?

Policial 2: Eu acho que... que o que mais acontece na ocorrên... ...é a falta de apoio. Eu acho que isso estressa. Estressa mesmo. E em relação a... ...a ocorrência... é... ...é quando... é quando... quando nós vamos pra uma ocorrência que a gente não tem um efetivo e às vezes a gente não tem os itens de segurança adequado.

Entrevistador: Certo. Como o senhor lida com o estresse no momento da ocorrência? No momento da sua intervenção como policial. Como o senhor percebe que o senhor lida com ele?

Policial 2: Eu controlo. Eu tento... me controlar... é... nas ocorrências eu tento ser... ...sou imparcial e... ...eu me controlo. Me controlo... ...é. É isso.

Entrevistador: Certo. O senhor pode me falar sobre as situações mais estressantes dentro da atividade?

Policial 2: Eu acho que é... ...dirigir. Dirigir... porque é muito cansativo, muita responsabilidade... ...porque, qualquer coisa, se... se por acaso... acontecer alguma... colisão... às vezes... você fica preocupado em uma perseguição, de... danificar a viatura... porque com isso você vai responder... aí tudo isso influencia.

Entrevistador: Certo...

Policial 2: ...e eu sou motorista, né? Muitos anos... tá com doze anos que eu sou motorista. Isso é ( )... isso é o que é mais estressante ainda.

Entrevistador: O tema três são as percepções sobre a saúde mental. O senhor ( ) até já falou um pouco na... na... na primeira pergunta. Eu queria saber como o senhor percebe a sua saúde mental? Como o senhor percebe que a atividade policial ela repercute na sua saúde mental?

Policial 2: Como eu disse... é... ela repercute assim... porque... eu antes... eu... dormia melhor... me relacionava... sim com a minha esposa, melhor... e agora, não. Agora ( ) de uma hora pra outras, às vezes eu tô mal-humorado, é... durmo mal. Às vezes já tomei até... até remédio pra dormir. Fico com aquela insônia, aí ( ) isso é que fica... repercutindo.

Entrevistado: Certo. O senhor já respondeu a minha próxima pergunta, que é se o senhor acredita que a sua atividade repercute na sua vida pessoal. O senhor tem mais alguma coisa a dizer?

Policial 2: Repercute. Repercute, é... ...porque... eu acho assim, que... a ( ) a sociedade... ela vê a gente com outros olhos. É como diz aquele velho ditado, né? A polícia perto incomoda e longe... ela faz falta, né? Porque... hoje, hoje... a população não tá mais respeitando a polícia. E... e como é isso? Quando você ta... ...no meio da sociedade, que às vezes fala que você é policial... às vezes você é até discriminado. Isso já aconteceu comigo, já.

Entrevistador: Quer falar um pouquinho sobre?

Policial 2: Não, às vezes assim, eu evito... eu evito até às vezes me identificar como policial. Eu me... geralmente... eu me identifico como funcionário público. Já aconteceu vários casos assim, de ser discriminado ( ) cê fala que é policial, alguma parte das pessoas deixa você de lado. Aí isso... isso já aconteceu comigo.

Entrevistador: Certo, Policial 2.Vamos pra o quarto tema: como o senhor se percebe sendo agente do Estado?

Policial 2: É... ...a partir do momento, né... que nós estamos fardados, nós estamos representando o Estado. Eu me sinto orgulhoso... ...mas como... eu... eu já lhe disse, né? Infelizmente... a gente não tem apoio. Aí isso é que deixa triste. Eu fico muito triste com isso. Porque o apoio é muito importante e quando acontece qualquer problema, os nossos superiores “vira as costas”. Isso é que mais me revolta na polícia.

Entrevistador: O senhor fala em superiores dentro da própria instituição, ou em um âmbito geral?

Policial 2: É no âmbito geral. Agora sendo principalmente dentro da nossa instituição, né? Agora no âmbito geral acontece isso.

Entrevistador: Certo, Policial 2. A função policial militar lhe causa algum conflito psicológico entre sujeito pessoal e o sujeito personificando o Estado? Causa-lhe algum conflito psicológico?

Policial 2: Não... ( ) acho não... assim... às vezes acontece. É como eu digo: eu quando... eu quando não tô trabalhando, eu evito o máximo me identificar como policial. ( )já falei que às vezes a sociedade... ela... como diz... fica... ( )... é... deixando você de lado, de lado, quando sabe que é policial, porque a população hoje ela não tá mais assim, muita, boa parte de nossa sociedade, ela não tá acreditando mais na... é... no Estado em relação à se... à segurança pública, porque alguns policiais, é.... ...que passam pa o lado da corrupção, ele... como é que diz? .... ...aquelas pessoas... aquelas pequenas pessoas, todos pagam, né? Todos pagam pelo... pelo ato ilícito que um integrante de nossa corporação comete. Isso é... ...por causa de um, todos pagam. Aí isso é que... há um conflito ( ), ahh... da minha pessoa, né? Como... e... quando eu tô representando o Estado. Aí isso ( ) gera um conflito.

Entrevistador: Certo. A última pergunta: o senhor já teve vontade de, no exercício da função, fazer coisas que não estavam vinculadas às leis? Coisas que não eram permitidas, não eram esperadas por um integrante da instituição?

Policial 2: Já... já aconteceu, já. É... às vezes querer fazer justiça com as próprias mãos. Mas... eu... pensei direitinho ( )é melhor o quê? Pense na minha família, e é melhor... é... seguir a lei.

Entrevistador: Certo. O senhor, como é que eu posso dizer? Em algum momento, já extrapolou os limites legais, de ter, ter feito alguma coisa que não fosse esperada? Que não seja permitida no exercício da função?

Policial 2: Já. Já aconteceu de uma vez... em relação a um estupro, é... ...eu cheguei até a... ...agredir o acusado de cometer o estupro. Mas depois eu pensei direitinho e... ( ) e errei, né? De ter feito isso, porque, é... ... tem que fazer, ter que ser a... tem que agir de acordo com as leis e com a justiça. Aí eu... extrapolei um pouco quando eu... eu tentei agredir o acusado.

Entrevistador: E o senhor acha que por que o senhor extrapolou esses limites?

Policial 2: É... ...eu acho que é... foi meu lado emocional ... ...eu tentei nesse momento ser imparcial, mas não consegui ser imparcial, aí tomei as dores da vítima. Aconteceu isso... ...mas me arrependi, né? De ter feito isso...

Entrevistador: Vamos ao quinto tema. A gente fala agora um pouco sobre agressividade, Policial 2. É... como o senhor lida com a agressividade em geral? Tanto aquela agressividade que lhe é dirigida, que as pessoas dirigem ao senhor, quanto aquela que o senhor possa dirigir aos outros. Como o senhor lida com ela?

Policial 2: Eu tento... controlar o próximo... é... ...o máximo; eu controlo o máximo. É isso. Eu uso a força necessária para conter a agressão do... ... ...cidadão infrator. Eu tento... eu tento... é... agir... é... agir com a força proporcional, né? Agir... agir... de forma proporcional, né? Que cada ação causa uma reação. Então eu... e em relação assim às vezes que eu quero ex... extrapolar um pouco, quero ultrapassar um pouquinho assim a minha calma, às vezes, eu tento... ...é como eu disse a você... eu penso nas consequências, né? E também penso na família. Aí eu me controlo.

Entrevistador: Certo. Então o senhor já respondeu mais ou menos a próxima pergunta que seria como o senhor lida com a própria agressividade. O senhor já passou por situações onde considera não ter lidado bem com a agressividade? Se sim, o senhor poderia descrever?

Policial 2: É como o caso... foi o... o caso do estupro, né? Que... que nós... é... quando chegamos lá tinha... foi uma criança... aí eu extrapolei assim, porque, nessa hora eu pensei assim: que aquela criança poderia ser um filho meu. Aí... eu... é... “exceci” um pouco a... a... é como se diz: eu fui um pouco agressivo, né? Mas... como diz, é... depois a pessoa vai pensar direitinho e eu me arrependi, né?

Entrevistador: Certo. E com relação ao regime militar? Quais são suas percepções sobre o regime militar para essa função.

Policial 2: Eu acho que a hierarquia atrapalha muito. Eu sou a favor da... ...de acabar com o militarismo dentro da corporação e... ...ser uma polícia desmilitarizada. Eu sou a... eu sou a favor. Porque às vezes, pela hierarquia, às vezes tem comandantes nossos... é... que às vezes não tem a formação que é correta para o cargo. Não tem aquela autoridade mesmo de ser... de... de a gente assim, ser subordinado àquela pessoa. Às vezes a gente... nota que aquele superior, por questão da hierarquia, ele às vezes não tem condições de ser nosso superior, entendeu? Acontece muito isso. Mas... infelizmente, né? Devido à hierarquia, nós temos que obedecer, né? E às vezes, às vezes acontece de ter muitas ordens absurdas, né? Que às vezes você discorda, mas às vezes... você não pode ir de encontro... ...por, às vezes, você, futuramente, você ser perseguido... por esses comandantes e pela própria instituição.

Entrevistador: E como o senhor se sente nesses momentos em que o senhor discorda mas necessita obedecer às ordens, obedecer às regras?

Policial 2: Já aconteceu muitas vezes de eu... pedir por escrito. Quando eu vejo que a ordem é... realmente absurda, eu peço, eu peço por escrito, mas acontece que nosso superior não quer. E, às vezes, como já aconteceu, de ( )... de... de eu exigir e eu ser perseguido dentro da própria instituição.

Entrevistador: O senhor poderia me dizer de que forma o senhor foi perseguido?

Policial 2: Porque, às vezes tem a... ...nós estamos aqui em uma cidade, aí às vezes tem um nosso comandante imediato, às vezes quer... quer fazer por exemplo, vamos fazer uma “blitz”... é... numa rodovia federal, que é uma coisa ilegal. Mas às vezes o quê? Você tem que... é obrigado você ir, pra não ficar sendo perseguido. Mas já aconteceu de eu me recusar e eu ser perseguido, naquela... pela aquele comandante. Agora, o imediato, né? O da guarnição. ( ) aconteceu já, uma vez... e eu fiquei... ...decepcionado, né? Porque, eu querendo agir correto, mas fiquei sendo perseguido. Tanto por ele, tanto por alguns colegas dele, da mesma graduação dele.

Entrevistador: E essa perseguição se deu de que forma?

Policial 2: É... ficava... me transferiu do... agrupamento, né? Me transferiu. Colocou pra outro GPM, é... atribuindo... algumas... algumas calúnias... né? Algumas coisas que eu não tinha cometido e... ...querendo... denegrir a minha imagem perante os outros colegas... da corporação. Já aconteceu muito isso.

Entrevistador: E como o senhor se sentiu nessa situação?

Policial 2: Eu fiquei... um pouco revoltado, né? Não com a Instituição, mas com alguns componentes, né? Que “faz” parte dela. Aí isso, eu fiquei desmotivado... é... sempre procurei... aí depois que aconteceu isso, aí eu procurei estudar mais e... cada dia eu pensava em outro concurso, para deixar essa atividade policial.

Entrevistador: Certo, Policial 2! Eu lhe agradeço, então, pela entrevista.

Policial 2: Por nada! Tô às ordens!

Entrevista Policial 3

20/10/2014

Entrevistador: Policial 3, boa tarde!

Policial 3: Boa tarde.

Entrevistador: O senhor está há quanto tempo na Polícia Militar?

Policial 3: Eu tenho vinte e seis anos trabalhados, agora em fevereiro completo vinte e seis... mas eu tenho um tempo averbado, aí totaliza vinte e oito anos.

Entrevistador: Quais são as principais diferentes no modo de vida de antes da Polícia Militar e depois da Polícia Militar? Depois de entrar na atividade policial.

Policial 3: É... se referindo a mim, é mais a perda de... liberdade, né? Você fica uma pessoa mais... digamos assim... mais... mais atenta, mais atenta às pessoas, os indivíduos... ( )em todos os locais que frequentamos.

Entrevistador: O que o senhor pensa sobre essas diferenças e por que o senhor acha que elas ocorrem?

Policial 3: Eu penso que é inerente à profissão. E elas ocorrem... pelo fato do... do dia-a-dia nosso a gente tá... ter esse... esse... essa mania observatória... essa... essa coisa de observar o que se passa a sua volta.

Entrevistador: Vamos ao tema dois: Como o senhor lida com o estresse na sua atividade? Nas ocorrências e no cotidiano, de uma maneira geral?

Policial 3: É. Durante a atividade a gente procura não... não se estressar. A verdade é essa. É preciso manter o controle emocional. E esse estresse a gente coloca pra fora, geralmente, quando chega em casa.

Entrevistador: De que forma, Policial 3?

Policial 3: Às vezes a gente se excede em casa, né? Com a esposa, com os filhos... é... a verdade é essa. Acontece comigo. Às vezes, você perde... a calma. É... até diante, até de pequenas situações, dentro de casa. Frequentemente eu sou cobrado em casa... por isso, né? Quando eu me excedo...

Entrevistador: Com os familiares?

Policial 3: É. Com os familiares. Até, às vezes, no convívio social, também. Às vezes você... assim... por uma coisa pequena, não é por que... você... ( ) é... sem querer, você joga pra fora, aquela coisa que tá dentro... dentro. Você não aguenta mais, que já tá... no limite... mas

não de forma violenta, né? Ah... até na... na discussão... entre pessoas, né? Discutindo, a gente se excede um pouco. Entendeu, né?

Entrevistador: Quais as situações mais estressantes vividas na sua atividade profissional? No caso, a sua atividade policial militar.

Policial 3: Repita.

Entrevistador: Quais as situações mais estressantes vividas na sua atividade policial militar?

Policial 3: Eu não posso dizer nem que é o... o trabalho em si, né? Porque... tá acostumado. A gente... se a gente fosse se estressar... né? Desempenhando a função... não teria tanto tempo, né? De serviço... não tinha aguentado. Mas eu creio que é... que é... que é a hierarquia militar. Pra mim, assim... que eu... que tá mais próxima aqui, da minha visão, acho que é a hierarquia.

Entrevistador: É o que mais lhe estressa? O que mais lhe incomoda?

Policial 3: Positivo.

Entrevistador: De que forma, Policial 3, o senhor se incomoda com relação a isso?

Policial 3: ...porque na hierarquia... na instituição, você lida com diversas pessoas, né? Dentro da instituição... trabalha vinte e quatro por sessenta e duas e nessas... digamos... em um mês, você vai trabalhar com dez tipos de pessoas diferentes, né? Que cada oficial comanda o serviço diário. E a gente ( ) trabalha... tra... no caso, se eu trabalhei ontem, eu pego um oficial. Daqui a três dias, vou pegar mais um e assim... daqui um mês é que eu vou pegar um oficial que eu trabalhei no serviço anterior... né? Então você lida com... diversos... é... diversos pro... diversas pessoas, que tem seus métodos diferentes de trabalho.

Entrevistador: Certo. Policial 3, vamos para o terceiro tema: o terceiro tema são as percepções sobre a própria saúde mental e a influência da atividade policial militar nesse aspecto. O senhor acredita que a sua atividade, ela repercuta de alguma forma na sua vida pessoal, na sua saúde mental.

Policial 3: Sim...

Entrevistador: De que forma?

Policial 3: É porque... o... o estresse, né? Ela traz... a profissão traz o estresse. Né? E... é mais ou menos o que eu tenho a responder é mais ou menos o que eu tinha respondido agora, anteriormente...

Entrevistador: O senhor acredita que o senhor leve uma vida mental saudável?

Policial 3: Não! Não... agora cada um, cada pessoa é que deve buscar o equilíbrio, né? Pra saber que... que... digamos... não vai bem, aí ela tem que fazer uma faxina mental, não é? E isso a gente... ...na atividade... digamos... na folga do policial militar, você desenvolver outras atividades... esporte... viagens, aí sim, porque é necessário descarregar todo esse acúmulo... mental, que... que... que você vai adquirindo, né? No exercício da profissão...

Entrevistador: O senhor pratica alguma atividade, faz alguma coisa...?

Policial 3: Esportes.

Entrevistador: Pratica esportes?

Policial 3: Esportes. É. Futebol... basquete, jogo também...

Entrevistador: Policial 3, a gente vai pra o quarto tema. O tema é: como o senhor se percebe sendo um agente do Estado, né? Como o senhor se percebe como sendo uma pessoa que representa o Estado?

Policial 3: Isso aí a gente só vai tendo noção com o passar do tempo, né? Você... entra na Polícia muito jovem... principalmente no tempo que eu entrei, né? Que você não tinha esse tipo... tipo de instrução, né? Você só vai perceber quando... quando vai passando um certo tempo na atividade policial. Acho que até diferentemente do que é hoje, que eu vejo, né? ( )o pessoal que é formado hoje, eles já tem uma visão mais ampla. É... quando eu entrei, eu não sabia nem o que era instituição policial. Aí com... digamos... com... uns dez anos, mais ou menos, foi que eu comecei a ver mesmo, onde era que eu estava. Onde eu tava situado.

Entrevistador: Eu queria saber se a função policial militar ela causa algum conflito psicológico no senhor? Se existe algum conflito entre a pessoa, sua pessoa e o Policial 3, o representante do Estado, como policial militar.

Policial 3: Tem sim, porque... ...eu acredito que... tem uma diferença... existe uma diferença entre o eu, né? O J.B, o cidadão, e o policial, Policial 3. Tem muita diferença.

Entrevistador: Como é que o senhor pode falar sobre essa diferença?

Policial 3: Digamos que... é na postura, né? O cidadão... é mais solto. O policial, ele tem que ter uma postura. Assim... diferentemente... numa ocorrência ou... simplesmente numa ronda, né? Você tem que ter uma postura...

Entrevistador: Policial 3, a próxima pergunta...

Policial 3: Só voltando um pouco... que a gente não pode ser o tempo todo Policial 3 e não pode ser o tempo todo... ( ) quando eu “tiver” exercendo... a atividade policial eu não posso

ser só, simplesmente, o cidadão B. Fazer as coisas, sim. Dentro da lei, como todo e qualquer cidadão, mas... tem a diferença... existe.

Entrevistador: Policial 3, o senhor já teve vontade, ou alguma emoção que tenha lhe feito sentir vontade, no exercício da função, como Policial 3, de fazer alguma coisa que transgredisse a lei, que fosse contrária à lei, que não estivesse vinculada à lei, às leis?

Policial 3: É... vez por outra... é... que a gente se dá com todo... toda espécie de indivíduo, né? Você... vai numa ocorrência e tem um indivíduo que você vê assim... esse cara não é humano! Né? Esse cara... e você tem vontade, às vezes, de... de se exceder um pouco... aí de fazer o que manda a lei, você... agir como pessoa também. Como pessoa comum...

Entrevistador: Mas o senhor fala agir como pessoa comum. Como o senhor pode me descrever como agiria como pessoa comum.

Policial 3: Falando ( ) de pessoa comum da sociedade brasileira... é... demonstrar a revolta, né? Com tudo que a gente vê na área de segurança do país.

Entrevistador: Vamos pra o quinto tema. É o penúltimo. Como esses profissionais lidam com a agressividade. Tanto a que lhes é dirigida pelas pessoas, quanto a que eles possam dirigir aos outros. Como o senhor lida com a agressividade que lhe dirigem em determinadas situações do seu cotidiano de trabalho?

Policial 3: A gente procura não... não... usando da perspicácia, né? Não deixar que a situação chegue a esse nível, né? Mas... chegando... a gente, primeiro, tenta contornar. Contornar aquela situação. Mas é usar a proporcionalidade. Se você chega numa ocorrência... se você é recebido à força, ou digamos, à bala, aí... eu acho que os princípios, né? Da instituição... diz que você tem que revidar... com o mesmo nível. ( )que você não pode... se você chega numa comunidade e os indivíduos que ali moram não tem civilidade, você não pode ser... agir da mesma for... é... digamos... usar de muita... muita educação, digamos. Assim, a palavra certa que me foge agora. Porque, naquele meio, você não vai encontrar facilidade. O diálogo vai ser difícil. Aí... geralmente... você... você passa a... não é... não é... a agir fora da lei, mas agir com mais rigor, digamos. Com mais austeridade. Se impor... dentro da... naquela ocorrência. Tem que se impor.

Entrevistador: E como o senhor lida com a sua própria agressividade? A agressividade que emerge em momentos de situações de crise, de conflito, como é que o senhor lida com sua agressividade?

Policial 3: Acho que... religiosidade. Religiosidade. Que é tudo... é o que vai te dar o controle emocional, nas situações que parecem fugir do controle. ( )medito um pouco e... consegue... consegue... estabilizar o emocional.

Entrevistador: No momento mesmo da ocorrência?

Policial 3: No momento mesmo. Você primeiro se acerca, né? Da situação, vê que tá seguro... a partir do momento que você “tiver” seguro, que nem você, nem seus companheiros correm risco algum, aí você... faz aquela... aquele... aquela... ( )digamos uma meditação... rápida. Aí você busca estabilidade emocional, naquele momento.

Entrevistador: O senhor já passou por situações onde considera não ter lidado bem com a agressividade? Onde considera ter excedido. Ter, de alguma forma, ter perdido o controle da sua agressividade?

Policial 3: A... Algumas vezes. Eu não posso dizer que foram muitas, mas algumas vezes, sim.

Entrevistador: O senhor poderia descrever alguma dessas situações?

Policial 3: Sim... eu vou citar uma aqui. Eu trabalhando numa cidade aqui do interior de Alagoas, a gente chegou até três, quatro horas da manhã num serviço... ...de uma festa local, né? E... no encerramento dessa festa, um dos componentes da patrulha teve que... finalizado esse evento, a gente teve que esvaziar o local, né? E um indivíduo desse, ele se recusou a sair. Então, um dos membros da patrulha... não usou de força excessiva, mas... é... colocou o indivíduo pra fora do ambiente. E... pra nós, aquilo ali parece que tinha finalizado todo esse incidente. Fomos dormir, né? ( )quando abrimos a porta da delegacia no dia seguinte, na manhã seguinte, a... os pneus da viatura tão todos furados de objeto cortante ( )foi uma faca. Foi uma faca ou punhal. Aí a gente fez uma análise rápida e... concluiu que... só poderia ter sido aquele indivíduo, né? A gente fomos na residência dele lá... cidade pequena... e conseguimos capturar. E... mediante a interrogatório, ele confessou que tinha sido ele, né? Ele até entregou a faca. Aquilo ali foi demais, né? Uma afronta! Não só à pessoa, como a instituição toda e o Estado. Aí, às vezes você, digamos assim... você usa de força... até excessiva, né? Que é o caso da pergunta, né?

Entrevistador: Sim. O senhor, no caso, chegou a agredi-lo?

Policial 3: Sim... fisicamente...

Entrevistador: E o que o senhor sentiu na hora?

Policial 3: Não é alívio, né? Não é alívio... mas... assim, é que o cara, e como se ele ti... ele pagou pelo que fez, não é? Antes da lei penalizá-lo, ele sofreu alguma punição.

Entrevistador: Policial 3, a última questão é questão do regime militar. Como o senhor percebe o regime militar regendo a função policial? Qual a sua percepção sobre o militarismo dentro da instituição policial.

Policial 3: Na verdade... eu não me aprofundei ainda nesse tema, mas... a gente vai muito pelo momento que se vive, né? Muitos debates sobre isso, né? Aqui no nosso país já se falou tanto em unificação, em mudança no sistema... acabar com hierarquia, essas coisas... eu vejo que... há uma necessidade disso também, sabe? ( )você não pode dispor ( ) de um efetivo de... ( ) numa cidade como a nossa, de cinquenta homens, né? Você não pode colocar todos, né? Na rua... sem comando. Tem que ter um comando. Já tem... agora tenho dúvidas se... tem que ter todo um escalonamento, sabe? Como uma hierarquia policial. Aí eu tenho dúvida sobre isso, mas que tem que ter um comando, tem. E firme! Se não... sai do controle. Porque você não... não... cinquenta pessoas, não é? Elas... não vão agir de uma forma única, as cinquenta pessoas. Então tem que ter um comando que discipline, que oriente a... a... pra toda e qualquer situação, agir de uma forma homogênea. Pra isso a hierarquia é necessária.

Entrevista Policial 4

20/10/2014

Entrevistador: Policial 4, o primeiro tema é: o modo de vida dentro da instituição e fora da instituição. Há quanto tempo o senhor é policial militar?

Policial 4: Oito anos. Há um pouco mais de anos.

Entrevistador: O senhor pode me elencar algumas diferenças no modo de vida que o senhor tinha antes de ser policial militar e de agora, sendo policial militar, exercendo a função policial militar?

Policial 4: Rapaz, o... a percepção, né? A percep... percepção levada pelo conhecimento técnico e empírico, né? Que a gente adquire com a profissão, né? A... a... ( ) o que a gente chamaria de sexto sentido policial, né? Que ele é ativado a partir do momento que você ingressa na... não que ingressa, mas que você gradativamente vai adquirindo ele ao longo da sua jornada... é... laboral aqui na polícia e muda muito o comportamento, né? ( )de um sujeito que... talvez andasse sem... certos pré-requisitos de segurança, você depois que adentra a Polícia Militar e ao longo do período que você vem, gradativamente, andando aí na corporação, você vai adquirindo um perfil de comportamento diferenciado do que você tinha antes de entrar na corporação.

Entrevistador: Certo. E esse perfil de comportamento, como é o que senhor poderia me descrever?

Policial 4: Atenção. É... a... posso dizer assim, a... atrelado a atenção está a percepção, né? Do ambiente a sua volta. Os níveis de... de... de... de... como é que eu poderia dizer assim, uma palavra que possa definir isso... a percepção total do ambiente, né? Todo fator que possa ser agressivo a você, a sua percepção tá um pouco mais a... um pouco não, bem mais aguçada do que era anteriormente. Você se torna um... um ser bem mais atento ao ambiente. A lógica, pelo menos a lógica do policial é essa, né?

Entrevistador: O que o senhor pensa sobre essas diferenças? E qual o motivo que o senhor acredita que elas ocorrem.

Policial 4: Pelo cenário brasileiro. Ele é bem, bem, bem típico, né? Hoje a gente tá num.. numa esfera que a marginalidade ( ) bem crescente. Isso, se gente for... é... trazer uma modo contextualizado de... de uma... de uma guerra... de uma guerra não, de um comportamento selvagem, né? Eu diria que tá uma relação de caça e caçador, né? Entre presa e predador. Dependendo da sua atenção, você se torna uma presa ou o predador. Isso numa lógica de que... de repulsa de... de... agressão. Não que o policial vá ser um... um... um ente agressivo na sociedade, não ( ) não dessa maneira. A forma que eu falo aí é só atenção pra que nas situações quando se trata... se trata de coisas ( ) de um policial, como por exemplo, um agente agressor, se você não tiver atenção você é uma presa. Se você tiver atenção, você pode ser o... a... o caçador, em outras palavras, falando assim... ...a gente pode dizer que a sua atenção vai preponderante pro seu papel nessa relação aí de caça e caçador, né?

Entrevistador: Certo. Policial 4, quais as situações mais recorrentes e mais estressoras dentro da atividade policial militar?

Policial 4: Acho que a... nova... no... o dia-a-dia em si, né? Ele, em si, como eu disse a você, a atenção, isso eu falei sobre a atenção que a gente adquire, né? A... O trabalho... é... mental que a gente vem adquirindo ao longo do... do tempo da polícia... é bem empírico isso, né? Bem, algo bem sensível mesmo. A experiência sensível que você tem com o dia-a-dia. Isso traz pra você fatores estressantes. A sua rotina não é mais a mesma, lógico. É... isso, muitas vezes, você no seu comportamento até ( ) acaba afetando os seus familiares, porque... seu comportamento muda em virtude de você tá... é... estar ( ) atento a outras coisas que aquelas pessoas não estão, mas por você ser modelado, por você ter a formação... é... policial, você ficar atento a certas coisas que vão trazer sempre a você um nível de estresse, seja ele fora de serviço ou dentro de serviço. É lógico que, dentro de serviço, o nível de estresse ele é bem mais alto. Com certeza. Porque a gente sabe que... a atenção do policial tá... tá... tá ali trav... trilhando uma linha que ela... de um lado tá o erro e do outro lado tá o acerto. É uma linha muito tênue ( )pra que você possa caminhar e você não venha a tá enveredando por um caminho que seja o do erro. Então, a gente, por tá numa linha de ação dessa, eu tenho certeza que o polici... que a... a... a... a função do policial na sociedade hoje, é a mais, se não uma das mais estressantes que possa existir. A gente tra... trabalha numa profissão que a gente entra no serviço, isso você pode perguntar a qualquer policial, o cara assim que sai do serviço, quando ele coloca o equipamento, e ao final do serviço quando ele vai tirar o equipamento, pode perguntar pra qualquer policial, não é só o peso do equipamento que você tira, não. É o peso de um serviço. Porque além de tá atrelado a certas coisas que são emocionais, psíquicas, você ( ) aquela questão emocional: Eita! Vou voltar pra minha casa, né? Tô terminando meu serviço são e salvo. Ou então a... o fator psíquico, né? Pô, bicho! Graças a Deus, mais um serviço bom aí. Atuei bem, tal... ...mostrei... mostrei... é... meu bom desempenho... isso eleva o seu... a sua autoestima como... terminei mais um serviço, fiz prisões, isso tudo. Isso são coisas atrelado a isso, mas... isso são coisas pertinentes ao serviço policial militar, isso só quem é policial pra identificar isso, saber exatamente ou entender ou... saber... é... entende exatamente o que é que eu tô falando sobre isso, né? Então, é basicamente isso. O nível de estresse é bem aumentado. Consideravelmente aumentado durante o serviço. Situações pontuais... e... a gente sabe de ocorrências que envolvam armas de fogo... e... ocorrências que envolvam homicídios e tentativas, até às vezes homicídios consumados, né? Em saber que o agente, é... que o agente causador... é... daquele crime, ele pode estar na área... isso eleva a nossa atenção, o nosso nível de estresse, pela... pela procura, pela... pela... pela busca do elemento, até muitas vezes situações que os elementos disparam contra... reagem, né? Com fogo, com arma de fogo contra a guarnição, aí o nível de estresse, como a gente diz, vai pro espaço, né? A adrenalina vai a mil.

Entrevistador: Para reiterar, quais as situações mais estressantes vividas em sua atividade?

Policial 4: Ah, com certeza, essas que eu citei anteriormente aí, da... das que envolvam um pouco... um grau a mais de... de... de técnica, né? Não só a técnica, mas o coração. Eu digo sempre que o policial é movido não só pela ra... não só pelo... não só pelo conhecimento é... que ele possa ter... técnico e empírico, né? Sua ra... racionalidade... mas situações que envolvam a emoção dele. Envolvam as situações que possam... é... são ( ) que o combustível principal é a adrenalina, diria. Elas são situações bem pontuais, são situações que... o raciocínio pra quem passa, o raciocínio... ele acelera... mas a sua decisão, ela não pode ser baseada no seu raciocínio acelerado e sim num conjunto de fatores que você tem que ter... ali... digamos assim... “enraigados” dentro de você, né? Dentro do seu conhecimento. Seja os conhecimentos técnicos e empíricos e principalmente os emocionais também. Só que os emocionais, nessas horas, eles não podem se “sobrepor” não. Tem que se sobrepor os racionais. Então é aí que a gente tem que utilizar a razão pra saber o momento de agir, o momento certo de intervir, o momento certo de fazer a ação pra que, principalmente eu e a guarnição que chega comigo esteja resguardada. Porque importa que o policial esteja vivo pra fazer. E ( ) com a atitude deliberada dele, muitas vezes movido pelo emocional venha a o levar a óbito e ele, um policial morto, apenas vai... só deixar o saudosismo nos seus companheiros. E pra mim mais importa ter um policial vivo ao meu lado e comigo trabalhando do que um policial que eu venha a lamentar pela morte dele.

Entrevistador: Vamos ao terceiro tema, que é a saúde mental do policial militar. As percepções sobre a própria saúde mental e a influência da atividade policial nesse aspecto. O senhor acredita que sua atividade repercuta na sua vida pessoal, na sua vida como sujeito?

Policial 4: Claro. Claro que sim. Claro que sim. Se a gente for fazer uma síntese daquilo que eu tinha... que eu vinha falando anteriormente, a gente vai chegar... vai chegar nesse... nesse cerne aí, vai chegar nesse consenso sobre esse ponto. Porque a... a... a... a atividade policial ela traz pro sujeito um... um... um peso muito grande, né? De responsabilidade e atenção, tudo. Mas que a gente sabe que... que vem... que vem atrelado a nossa função. Isso, na minha vida social, muda. Eu sou o cara que... minha esposa, é... por tantos anos convivendo comigo, ela já se acostumou com esse comportamento. E até alguns amigos meus, também. Eles sabem que eu entro em uma... quando eu entro em um determinado ambiente, eu entro olhando porta de saída, eu entro olhando onde é que tá o caixa, eu entro olhando se tem câmera de vigilância, eu entro olhando porta de escape, porque se tiver algum tumulto ou coisa do tipo, se tiver um assalto... onde é que é o melhor posicionamento pra eu ficar caso haja uma reação de assalto, que eu possa atirar e não lesionar pessoas que estejam ( )no ambiente... as pessoas que me cercam sabem que eu faço isso. Só que... esse automatismo que vai sendo feito, que vai sendo criado em você, faz com que você se torne uma pessoa meio que diferente das demais, né? Isso traz peso pra você, fora da... da... da... da... da profissão, por quê? Porque as pessoas que cercam... que cercam você, por mais que elas aprendam a conviver com isso, esse peso da profissão é, de certa forma, compartilhado com elas. Elas não vivem a minha profissão, mas em contrapartida, elas sofrem certos pesos, que é outro exemplo de certos ambientes que minha esposa, muitas vezes eu... meus amigos querem ir, frequentar, tipo restaurantes ou ambientes que sejam mais públicos, por exemplo. E eu sei que determinado ambiente é freqüentado por pessoas que, na sociedade, desempenham um papel muito negativo, criminoso, eu não vou frequentar esses ambientes. E muitas vezes, eu tendo que omitir aquela informação... que eu sei daquele ambiente, porque é uma coisa sigilosa, uma coisa pertinente ao serviço policial, eu não posso compartilhar com outras pessoas, mas eu me abstenho de ir. Isso, muitas vezes, essa abstenção gera um problema dentro de casa, porque... ou na relação com os amigos, porque as pessoas não vão entender. Eu não posso compartilhar determinadas informações, mas em contrapartida, as pessoas se negativam comigo, com a polícia, porque acham porque eu sou um policial, é... é... eu me tornei um cara chato. E de certa forma, pra eles, eu sou um cara chato. Mas porque eles não tem a visão e a interpretação de certos ambientes e de certas situações que eu tenho. Isso é um peso. Realmente é um peso que muitas vezes incomoda até a mim mesmo. Eu sinto que incomoda até amigos meus que são policiais também, que... é... compartilham desse mesmo problema dentro de casa. Que é de você se abster de ir pra certos locais que você... talvez anteriormente até freqüentasse... de maneira tranquila, mas que hoje você sabe que não tem condições mais de ir.

Entrevistador: Certo. Policial 4, o senhor acredita que leva uma vida mental saudável?

Policial 4: Cara... creio que sim... creio que sim. Acho que... a grande dificuldade de todo o ser humano hoje é que... a gente possa... encontrar um... equilíbrio, né? É... a gente sabe que... profissões que elas... trabalham com um nível de adrenalina, de estresse é muito alto, a tendência, ultimamente... de inclinar... é... os profissionais pra que eles cometam, ou que ele... que eles entrem, enveredem pelo caminho do distúrbio mental, né? Surtos psicóticos... ou que... é... que enveredem até pelo caminho do suicídio são comuns hoje. E isso a gente sabe que muitas vezes tá sendo movido, impelido pela questão justamente da... carga profissional que o cara não achou esse equilíbrio, né? Que o cara não achou essa linha. Eu... graças a Deus, assim... eu digo sempre que a minha formação religiosa... e... o meu equi... o meu equilíbrio emocional pesa muito nisso, né? O equilíbrio familiar... ...família, graças a Deus, minha... minha família muito bem... constituída... em todos os aspectos, falando. Falando em questões financeiras ( )isso não pesaria tanto, mas por questões emocionais, familiares mesmo... é... muito bem trabalhado nisso... eu, graças a Deus, eu digo sempre que eu... que...trabalho no equilíbrio. Eu... eu consegui achar um equilíbrio, é... desde o... minha formação, eu sempre fui procurar traçando essa linha. Porque, eu... com... a pessoa mentalmente equilibrada, a possibilidade que eu tenho de errar nas decisões em minha profissão diminui consideravelmente. A possibilidade de eu errar no meu convívio familiar ela diminui consideravelmente. A carga de estresse que, muitas vezes, você possa trazer pra casa, o seu equilíbrio mental é que vai condicionar... você a não extrapolar e a não contagiar as outras ou até não descarregar seu estresse em outras pessoas. Trabalhos laborais... é... atividades que... ocupem a minha mente, que não sejam atreladas à profissão... parte esportiva mesmo... futebol, tal... isso é uma forma de escape muito boa que eu encontrei e, graças a Deus, hoje eu posso dizer que eu tenho um equilíbrio... tenho... eu sempre tive, né? Mas quando se trata de... caminhada, né? Uma...uma jornada de trabalho, hoje eu continuo, graças a Deus, tendo. Bem mais maduro, é lógico, do que eu era anteriormente, quando eu adentrei às fileiras da corporação... mas hoje, mentalmente, bem mais equilibrado, se eu já... ( )me considerava equilibrado, hoje eu me considero ainda mais.

Entrevistador: Certo. Vamos pra o quarto tema, que é um dos temais centrais da discussão do projeto, que é a personificação do Estado. Como o senhor se percebe como sendo um agente do Estado? Como sendo um representante do Estado?

Policial 4: Diariamente, né? Diariamente... acho que... o papel que você exerce na sua comunidade faz com que as pessoas enxerguem em você a justiça... o Estado... a... algo que os aproxime de um poder que possa os... os... ajudar em situações... é... críticas. Por exemplo: na minha comunidade, sempre quando acontece algum crime... é... ou... há uma suspeição de algum indivíduo na comunidade, as pessoas ligam pra mim, na hora. Meus vizinhos ligam pra mim... é... é... meus amigos, quando acontecem situações pontuais com eles, eles também ligam pra mim... ou seja, pra eles eu sou um canal... é... próximo, né? Eu sou o Estado próximo deles. Eu vejo que, pra eles, eu me tornei uma personificação do Estado... em certa forma, lógico, não de maneira total, mas uma maneira que... é... eles enxergam em mim um canal... entre... a... eles e o Estado. E por ser um agente... um agente... um agente... da auto... um agente de segurança estatal, eu percebo que minha conduta dita muito pra eles também, né? Eles percebem em mim, uma fo... uma... uma... uma possibilidade de realmente, de conseguir aquilo que eles desejam, que é um apoio em determinadas situações... e eu vejo sim, vejo sim, que há essa personificação, muitas vezes.

Entrevistador: Essa personificação do Estado e a existência de um sujeito, além do policial, isso lhe causa algum conflito subjetivo?

Policial 4: É... é... é... algumas vezes, né? Algumas vezes... situações, por exemplo, que... envolvam amigos... em que... a pessoa pela amizade... é... situações... ( ) situação... vou exemplificar pra você: uma situação de trânsito, por exemplo. Uma colisão... de trânsito. É... noventa e nove por cento das vezes que a gente vai pra uma... que eu vou atender a uma ocorrência que... é... ela seja de colisão de trânsito, nenhuma das partes quer estar errada, né? Todo mundo quer... ahh... as partes envolvidas querem ter sua razão. E aí, você vai... ( ) como um agente do Estado... e você sabe... vai devidamente... digamos assim, lapidado sobre esse tipo de situação, ( ) com a sua base em estudos, né? ( )ter estudado sobre aquilo, você vai ter uma percepção de quem... ali... cometeu aquilo que gerou aquele sinistro, por exemplo. Em situações que sejam seus amigos, pessoas conhecidas ou próximas de você, ou que tenham algum tipo de contato com você, elas vão esperar de você que você faça o melhor por elas... e aí... eu sou um agente do Estado, um cara que tem que ser imparcial, um cara que tem que ser justo, um cara que tem que ser correto em suas ações. E, algumas vezes, ( )situações dessas em que... o agente causador era pessoas próximas e eu tive de dizer pra ele: “oia,

bicho! Tu tá errado, cara. Infelizmente, aí... pelas normas de circulação do, de... brasileiras de trânsito, você tá equivocado, cara. Tá errado.” E isso trouxe um impasse, depois, social pra mim porque aquela pessoa, de certa forma, ficou meio que... dizendo: Olha! O cara... eu não quero conversa com ela não...”, se afastou... ”porque ele não pode me ajudar”. A... a minha percepção é bem... bem certa do que é... do que é o Estado e do que sou eu, como policial e do que sou eu como pessoa, como cidadão, é... é... é... fora do meu... da minha rotina diária de trabalho, né isso? Pra mim tá bem clara, mas pras outras pessoas, não. Elas acham que... o... o... o policial aqui é o Estado que é amigo deles. E o amigo tem que fla... agradar eles em todos os momentos. Essa percepção, pra mim, tá trabalhada, mas pro ( ) das pessoas que me cercam, não.

Entrevistador: O senhor já teve vontade, de no exercício da função, fazer coisas que não estavam vinculadas às leis? De exceder, de extrapolar o que é legal, o que é limitado pela lei? O senhor já teve vontade de se exceder em alguma situação?

Policial 4: Aquilo que eu falei pra você, né? A... o emocional ele fala com você, né? Ele... ele... suas... suas emoções, elas vão aflorar em determinadas situações, né? Não tem pra onde correr. Seja... medo, seja coragem, seja emoção... parte emotiva eu falo questão de choro, seja questão de... de alegria, seja questão de raiva... elas afloram. Não tem pra onde correr. É... é... é... impossível. Eu sempre converso com algumas pessoas que... é... quando me perguntam se o policial tem medo: “rapaz, você não tem medo, não?” Tenho medo! Todo mundo tem medo. Agora o meu medo não pode ser limitador... e... total. O medo, ele me limita porque eu me tro... eu me torno prudente. Toda pessoa que tem medo, ela é prudente. Eu não posso ser covarde. Eu... eu tenho que ter atos de coragem, mesmo sabendo, dentro de mim existindo medo, que eu posso falhar e que eu posso vir a sucumbir, e que eu posso vir a morrer... esse medo existe em todos os policiais. Eu tenho certeza. Agora... esse medo não pode ser um congelador, né? Ele não pode me resfriar a tal ponto que eu não faça as minhas ações, que sejam necessárias, que a sociedade espere. Aí entra a coragem. Todo ser corajoso, ele tem medo. Todo ser covarde é alguém que foi dominado pelo medo. Então é isso que eu sempre trago pra mim. E quando você falou questão de extrapolar, é claro que... há possibilidades. Por exemplo: to... todos os policiais que... que passam por essas situações sabem o que eu tô falando. Você pega uma situação como um... um...estupro... e o cara pega um... vulnerável, por exemplo. Pega um menor de idade... uma criança... e ele faz uma atrocidade de... de... vili... vilipendiar uma criança... aquela a... ( )for pai, de certa forma, você se projeta naquela cena, né? Do pai que teve sua filha ali pelo ser... pelo ser... totalmente corrompível, corrompido, moralmente falando. E a sua emoção aflora de tal ponto que você quer esmagar o cara. Logicamente, você quer esmagar o cara... você quer destruir os cara... você... você quer fazer o que o seu instinto manda, que é o instinto de... de... de... a raiva aflorar e você detonar o cara. Só que a gente sabe que... é... a... essa ação, ela... por ser ilegal, por ser uma ação totalmente deliberada ( )do emocional, isso trará pro policial um peso, que é o peso da condenação. E a gente sabe que... por mais que possam existir aí as vertentes que condenem a questão da punição dada pela justiça... a nós, não foi dada essa questão de punição. ( )nós não somos responsáveis pela parte punitiva. Existe uma parte punitiva do Estado e essa parte pertence ao judiciário. Só que esse controle emocional, foi o que eu falei pra você, se sua mente “tiver” equilibrada e ela falar mais do que o emocional, você não vai agir, você não vai extrapolar. As possibilidades são grandes. Como eu disse, ( )traça numa linha tênue muito... muito grande. Muitas vezes, o policial peca, extrapola, por desconhecimento... ...em certas ações. Por não saber que aquela ação ali era uma ação que ele não podia fazer. Ou até, às vezes, movido pelo emocional... um dia... uma carga de estresse que ele tinha tido fora do trabalho, quando se acumula com a carga de estresse do trabalho dele... faça com que ele venha a... a.. deixar a aflorar a emoção e a emoção falar mais que a razão. Claro que pode acontecer. Mas a possibilidade ( ) dele cometer um equívoco, que um erro, é... irrigante (?), ou seja, de uma coisa que estava controlada, nas suas mãos, é o que eu sempre digo a... ao pessoal que trabalha comigo... que a ocorrência ela jamais pode sair da sua mão. Você jamais pode perder o controle dela. Porque a... a partir do momento que você perder o controle dela e você depender de agentes externos pra que ela se concretize, a coisa fica complicada pra você. Porque você, de um dominador da situação, você se torna um refém. E aí, você se complica. E as chances de você... é... é... enveredar pelo caminho... é... é... de uma futura punição, que a... hoje.. a... num falo nem só punição do judiciário... punição penal, legal... a que é cabível... é a punição social que o policial possa ter por qualquer ato agressivo dele. Sabe hoje que a mídia hoje cobre muito bem quando se trata de... é... erros exarcebados aí, de policiais, caras que extrapolam e tem... pesa muito nisso. E o controle emocional é, com certeza, movido pela razão, pelo controle emocional que o cara tem que ter nessas situações, se não a possibilidade de extrapolar é gigante.

Entrevistador: Como o senhor lida com a agressividade que lhe dirigem em determinadas situações?

Policial 4: Isso, um agente externo... exercendo agressividade pra gente?

Entrevistador: Isso. Exatamente. Um agente externo exercendo agressividade, lhe sujeitando à agressividade dele.

Policial 4: Isso... durante o exercício da profissão ou fora dela?

Entrevistador: Isso. Durante o exercício da profissão. E fora dele também. Em todas as formas.

Policial 4: Eu sempre digo assim, que... é... é... o conhecimento, a medida que você adquire ele, as portas elas se abrem, as... as alternativas, elas se abrem. E nesse caso do que se trata de agressão física, um conhecimento de artes marciais, um conhecimento que você possa ampliar em defesa pessoal, vai dar... opções pra você. Vai aumentar... o seu leque de opções numa ocorrência. Naquilo que você possivelmente poderia utilizar uma arma de fogo, você vai saber utilizar uma imobilização, vai saber utilizar uma... uma... uma... uma... ponto de pressão. Um ponto de ataque que você neutralize o alvo, um... um golpe ou algo do tipo, mas que não seja necessário o uso da arma de fogo. Essa gradação de uso de arma... o uso progressivo da força, esse conhecimento técnico que isso possa trazer pra o policial vai dar condições de ele repelir

a injusta agressão de maneira legal, gradando de uma imobilização, de um... dum ataque físico, duma contrapartida de um ataque físico, é lógico, ao uso da arma de fogo. É esse conhecimento. Tem que tá baseado no conhecimento. É lógico que numa emoção, por exemplo, um cara desferiu um soco contra o policial. Isso, no campo teórico, a gente vai encontrar nos apostilas, nos livros, nas instruções, a devida ação, né isso? De o cara imobilizar, tal. Mas a gente sabe, como todo ser humano que é agredido, o ímpeto que a gente tem de não apenas imobilizar e de retrucar com outra pancada pra que o cara sinta a força que você possa ter. No caso o policial... a gente sabe que se... um cara agrediu um policial... aconteceu muito, houve muitas manifestações em São Paulo com câmeras, não com aquela que passavam nas mídias, mas de câmeras de pessoas que cercavam ali... enquanto o cara agredia o policial, dava dedo, o cara proferia palavrões... aí quando o policial puxava o bastão, a imagem que era veiculada nas mídias aí, é a do policial puxando o bastão e não da agressividade que ele... foi vítima. Então, a gente percebe que... é... é... importa pro policial ser o mais racional possível, hoje. Ele tenha controle de suas emoções, controle da sua força física, ou seja, que todas as suas ações sejam controladas pela sua razão. Então, pra que isso não extra... pra que não extrapole, pra que não... não... que sua emoção não aflore e você dar... desferir um soco num cara, por exemplo. Num... numa... num cidadão infrator que venha contra você e você possa imobilizar e mostrar que a sua força tá no seu conhecimento. Defesa pessoal, por exemplo. Só que eu sei que nem todos os policiais vão ser dotados disso. E a possibilidade de ( )essa margem, esse leque que a gente tá vendo aí de pessoas, de policiais, que estão respondendo aí, por causa disso. Agrediram... foram vítimas de agressão... re... re... agrediram da forma que eles sabiam... que talvez fosse a forma mais... é... rude ou comum possível... mas que, pra sociedade que enxerga no Estado, um ente preparado pra neutralizar ações desse tipo, ela não enxergar isso do policial, aí vem as críticas, as condenações sociais e as condenações penais e legais.

Entrevistador: Certo. Como o senhor lida com a sua própria agressividade que emerge em determinadas situações?

Policial 4: Maturidade, né? Maturidade! Não tem pra onde... não tem pra onde andar não. Não tem outra explicação, não. Eu tava falando que sobre o conhecimento... ( ) os conhecimentos racionais que a gente possa... os conhecimentos intelectuais que a gente possa adquirir ao longo da nossa jornada... da... do controle emocional que a gente possa ter... mas esse... quando... quando se trata de controle emocional, nada fala mais alto dentro de um policial do que a sua maturidade. E... o exercício da profissão... é... o compartilhar de informações que os mais antigos traçam pra você... que você possa absorver dos mais antigos... é... é... vão ajudar você a perceber que, em certas situações, o caminho, ele não pode seguir o caminho da... da... da... aquele caminho que você talvez, seu instinto fale, né? Que é o instinto do revide... o cara vem agredir você e você revidar com outra agressão... e a gente aprende que... no... é... ao longo da nossa jornada, com maturidade mesmo... porque... é uma coisa como você é... lida... é... um exemplo. Vou exemplificar. Quando eu entrei solteiro... eu entrei solteiro na polícia. Num era casado e... a... a minha linha de ação era uma linha bem mais... eu falo mui... agressivo, sem ter ( ) não no campo da violência, mas agressivo no... no... no campo do... do ataque à marginalidade. Eu procurava todas as vertentes possíveis pra atacar a marginalidade de alguma forma. Eu tinha que atrapa... eu tinha que tra... eu tinha que atrapalhar. Ou prender, ou atrapalhar o tráfico. Eu tinha que fazer alguma coisa pra atrapalhar os caras. Eu fazia numa velocidade... assim, numa intensidade muito grande. Me expunha a certos riscos algumas vezes até desnecessários. E esses riscos desnecessários, hoje, eu não os cometo mais. Por quê? Porque eu aprendi que... é... em certas situações, a nossa razão tem que falar tão alto, pra que a gente não corra esses riscos e não arrisque nossa vida de maneira desnecessária, porque mais importa, que nem eu disse a você, um policial vivo do que um morto. E isso controlado por minha maturidade. É lógico que a maturidade atrelada a seu controle emocional. Ele só alimentado por isso. Pela maturidade. Uma das coisas na... só por isso não... uma das coisas que alimentam seu controle emocional é a maturidade que você adquire ao longo da sua profissão.

Entrevistador: O senhor já passou por situações onde não considera ter lidado bem com a agressividade?

Policial 4: Claro! Claro que sim... quando eu falo a questão de... de gradar e de conhecimento e de maturidade... a maturidade ela começa, né? A gente, quando é criança, a gente... é... um exemplo: a gente sabe que... é... começa a aprender que certos caminhos não são corretos, né? Por exemplo, uma criança quando vai colocar o dedo numa tomada. ( )não pode. Mas, muitas vezes, as crian... as crianças acham que aquilo é... uma... uma... uma... uma besteira ou pai e procura, e vai e acaba cometendo aquele erro, aquela falha. E você percebe que... a criança começa a perceber que ali realmente o pai tinha razão ( ) é basicamente isso que acontece também na nossa profissão. As pessoas muitas vezes nos orientam: “oia, cara! É melhor... segura um pouquinho da tua força, contém teu ânimo, aí, não deixa a emoção aflorar não, porque você pode cometer falhas.” Muitas vezes, no início da nossa profissão, a gente aprende isso da maneira mais... é... abrupta possível, né? Que é de você realmente deixar, sua emoção aflora, você percebe que a ocorrência saiu da sua mão e você: “Pô! Cometi uma falha aqui. Um erro que não era meu, um erro que tava acontecendo alheio a mim, eu era só um agente que tinha neutralizar o alvo, acabei... a neutra... neutralizar a... a... a agressão, neutralizar a ação que vinha, contrária... e eu acabei enveredando pelo campo... do campo já da agressividade. Eu me tornei mais agressivo do que o cara... acabei... você acaba, talvez... ( ) até lesionando aquela outra pessoa, e de uma ocorrência simples, você acaba se prejudicando e isso realmente acontece... mas, como eu disse a você, tem que haver essas gradações e conhecimento do policial, pra que ele não possa... é... permanecer nessa linha. Que ele possa... a... aprender a distinguir e perceber que aquele caminho não é o correto e o caminho... é... é... mais legal possível é o caminho em que você possa e seja um ente neutralizador e não agressor.

Entrevistador: O último tema dessa entrevista é relacionado ao militarismo. De que forma o senhor percebe o militarismo para a função policial militar?

Policial 4: Sem sombra de dúvidas é hierarquia, né? A... o militarismo ele é a base hierárquica, né? E a base de... regimental que ele nos dá pra que aqui funcione. Sem sombra de dúvidas. É... mas o... eu percebo o militarismo, por exemplo, o militarismo, é... é... nós... nós somos originários do exército, né? Nós somos forças auxiliares... mas é um militarismo... você percebe um militarismo... um militarismo bem mais aprofundado nos quartéis do Exército do que nos quartéis da Polícia Militar. Até pelo tipo de serviço que é prestado, né? As funções lá no Exército são bem claras, os escalões são bem definidos, bem diferenciados. Os agentes a... é... que... é... que executam os serviços tão... tão... tão... bem... bem definidos. Já na Polícia, não. Hoje na Polícia nós temos, por exemplo: uma guarnição policial militar, ela é formada por um Cabo e três soldados. Uma guarnição de rua, que vai pra rua pra fazer o serviço de patrulhamento. E existe a guarnição que é formada pelo Policial 4, um Cabo, um Sargento e um Soldado, por exemplo. Ou seja, o Policial 4 executando a mesma função de um Cabo, comandante de guarnição... na rua... a mesma! Ou seja, os serviços se assemelham em determinado ponto, tornando a... o Sargento, o Cabo e o Soldado muito mais próximos de um Policial 4. Porque ali não tá a parte regimental de você dizer “faça isso ou faça aquilo”, ali tem defesa de vida. Ali tem que ter companheirismo, ali tem que ter... é... é... corporativismo, ali você tem que confiar no cara que tá do seu lado, não porque ele Cabo, porque ele é Sargento ou porque ele é Soldado, mas porque ele é um homem, confia em você, respeita você. Você tem que respeitar o cara como pessoa para que o cara... possa defender sua vida. E esse vínculo que tem que existir nas guarnições... é o vínculo do respeito. Independente da... questão funcional, hierárquica, tem que haver o respeito. O cara tem que tá ali, respeitando, não porque eu seja Policial 4, mas sim porque eu seja um cara de... de bem... um cara que ele confia em mim, sabe que eu vou defender a vida dele, quando for necessário. Porque eu tenho que confiar nele também que ele vai defender a minha quando for necessário. Então, a... a... o militarismo há essa distinção clara entre o Exército e a Polícia, e o que ele vai trazer pra mim, como... como... como pessoa, como funcionário do Estado... é a parte organizacional. Sem sombras de dúvidas, a Polícia Militar ela não... vou tirar, vou tirar o nome militar. A Polícia aqui, como fala... como... como... ela não funcionaria dessa forma hoje, se ela não fosse militar. A parte hierárquica, não haveria controle, se não fosse a questão regimental. Alguns a... falam da desmilitarização. Eu não. Eu falo do aperfeiçoamento do militarismo. Mas o aperfeiçoamento não da... da... da forma de... de aperto, de arrocho, mas de adequação, de contextualização. A gente precisa dum... a gente precisa pegar o regimento e precisa atualizar ele pros dias de hoje. Pra que haja ordem, pra que haja linha de ação... mas pra que principalmente haja... lógica, haja razão. Porque as punições elas não podem ser punições como eram dadas anteriormente, não. Punições tinham que ser punições mais exemplar, exemplares, no sentido de que o agente que possa transgredir suas ações dentro da Polícia Militar, ele possa realmente raciocinar daquilo que ele fez. E é isso que tem que ser visto... e hoje o militarismo, eu digo sempre que, é o que faz funcionar a Polícia... por isso que há essa distinção clara entre Polícia Civil e Polícia Militar. Por isso que as pessoas, quando atrelam a imagem da Polícia Civil, atrelam como bagunça, como coisa desorganizada, e quando atrelam à Polícia Militar, elas atrelam ( ) como organização, com respeito, né? É lógico que isso é baseado no regime militar. Não há sombra de... sem sombra de dúvidas. É... as... as que falam em fim de regime militar, eu discordo. Eu acho apenas que tem ser... aperfeiçoado.

APÊNDICE 02 - Tabela de Análise de Conteúdo

Tema

Policial 1

Policial 2

Policial 3

Policial 4

Diferenças no modo de vida antes e depois no ingresso na Instituição

ver o mundo de outra forma”; “você tem que selecionar os lugares pra tá frequentando.”

antes o cara... é... vivia de uma forma que... poderia frequentar qualquer lugar, né?” “criminalidade” Aí você, pra combater, você... sente que, quando você tá lá, o crime é bem mais alto do que você acha assim, que é. Bem mais alto...

É grande! É grande, Renato, a diferença. Porque antes, eu tinha uma... uma vida que não era muito estressante. E depois que eu entrei na atividade policial... é... eu fiquei ... ...me irritando, assim...” “eu vivia com a minha esposa... ...vivia mais assim, tinha mais harmonia. Mas, às vezes, devido ao... ao estilo do... de trabalho, às vezes eu chego em casa e às vezes eu fico um pouco agressivo

perda de... liberdade, né?Você fica uma pessoa mais... digamos assim... mais... mais atenta, mais atenta às pessoas, os indivíduos... ( )em todos os locais que frequentamos.”

Eu penso que é inerente à profissão.” “essa mania observatória.”

essa coisa de observar o que se passa a sua volta.”

percepção levada pelo conhecimento técnico e empírico, né? Que a gente adquire com a profissão, né?”

Atenção. É... a... posso dizer assim, a... atrelado a atenção está a percepção, né? Do ambiente a sua volta.”

a percepção total do ambiente, né?”

Você se torna um... um ser bem mais atento ao ambiente.”

 

Tema

Policial 1

Policial 2

Policial 3

Policial 4

Situações recorrentes e estressoras na função policial militar.

As situações que geram mais estresse, é... no cotidiano, acontece dentro da própria instituição, né? Devido à questão de ter muitas graduações e muitas patentes, é meio complicado assim, muitas cabeças querendo coisas diferentes e... cada um quer fazer de um jeito... você às vezes tem que obedecer. Tipo, você fica... é... trabalhando a quantidade de horas excessiva, que... realmente não condiz com... com questão de... dos direitos humanos, tudo isso. Por exemplo, você trabalha numa escala de vinte quatro, aí às vezes você descansa... seis horas numa escala de vinte e quatro. E tem que cumprir. Se não cumprir, vai... é... é... ser notificado porque tem estatuto pra punir, tal, aquela coisa toda.”

[...]...as cobranças que existem, muitas vezes, eu acho que ela acaba sobrecarregando o policial, porque... acontece de forma injusta mesmo, assim... o pessoal sabe que não tá exigindo, é... aquele esforço do policial e quer que ele execute mesmo sobrecarregado, ele.

Quanto à maneira como lida com o estressa, diz que se controla. Que tenta manter o controle’“Eu acho que é... ...dirigir. Dirigir... porque é muito cansativo, muita responsabilidade... ...porque, qualquer coisa, se... se por acaso... acontecer alguma... colisão... às vezes... você fica preocupado em uma perseguição, de... danificar a viatura... porque com isso você vai responder... aí tudo isso influencia.”

 

Durante a atividade a gente procura não... não se estressar. A verdade é essa. É preciso manter o controle emocional. E esse estresse a gente coloca pra fora, geralmente, quando chega em casa.”. Às vezes a gente se excede em casa, né? Com a esposa, com os filhos... é... a verdade é essa. Acontece comigo.” sem querer, você joga pra fora, aquela coisa que tá dentro... dentro. Você não aguenta mais, que já tá... no limite...

Relata uma mudança na rotina; Diz que essa mudança acaba afetando os familiares; Atenção à coisas ou pessoas que outras não pessoas não atentam; “A gente tra... trabalha numa profissão que a gente entra no serviço, isso você pode perguntar a qualquer policial, o cara assim que sai do serviço, quando ele coloca o equipamento, e ao final do serviço quando ele vai tirar o equipamento, pode perguntar pra qualquer policial, não é só o peso do equipamento que você tira, não. É o peso de um serviço. Porque além de tá atrelado a certas coisas que são emocionais, psíquicas,”“[...]pela busca do elemento, até muitas vezes situações que os elementos disparam contra... reagem, né? Com fogo, com arma de fogo contra a guarnição, aí o nível de estresse, como a gente diz, vai pro espaço, né? A adrenalina vai a mil.”

 

 

 

 

 

 

Tema

Policial 1

Policial 2

Policial 3

Policial 4

Percepções sobre o policial como personificação do Estado.

Causa. Com certeza (riso). Causa, porque, é... você... tá trabalhando! Aí você tá lidando com infratores da lei, aí você acaba fazendo um flagrante, prendendo aquela pessoa. Aí, na sua folga, às vezes você, é... vai de encontro àquela pessoa que efetuou uma prisão e tal, aí você, na folga, fica meio desconfor... desconfortável em estar ali, de folga, estar sozinho[...]”

É... ...a partir do momento, né... que nós estamos fardados, nós estamos representando o Estado. Eu me sinto orgulhoso......mas como... eu... eu já lhe disse, né? Infelizmente... a gente não tem apoio.”Não... ( ) acho não... assim... às vezes acontece. É como eu digo: eu quando... eu quando não tô trabalhando, eu evito o máximo me identificar como policial.( )já falei que às vezes a sociedade... ela... como diz... fica... ( )... é... deixando você de lado, de lado, quando sabe que é policial, porque a população hoje ela não tá mais assim, muita, boa parte de nossa sociedade, ela não tá acreditando mais na... é... no Estado em relação à se... à segurança pública,porque alguns policiais, é.... ...que passam pa o lado da corrupção, ele... como é que diz? .... ...aquelas pessoas... aquelas pequenas pessoas, todos pagam, né? Todos pagam pelo... pelo ato ilícito que um integrante de nossa corporação comete. Isso é... ...por causa de um, todos pagam. Aí isso é que... há um conflito ( ), ahh... da minha pessoa, né? Como... e... quando eu tô representando o Estado. Aí isso ( ) gera um conflito.

[...]quando eu entrei, eu não sabia nem o que era instituição policial. Aí com... digamos... com... uns dez anos, mais ou menos, foi que eu comecei a ver mesmo, onde era que eu estava. Onde eu tavasituado.”“eu acredito que... tem uma diferença... existe uma diferença entre o eu, né? O J.B, o cidadão, e o policial, Sargento. Tem muita diferença.”

Digamos que... é na postura, né? O cidadão... é mais solto. O policial, ele tem que ter uma postura. Assim... diferentemente... numa ocorrência ou... simplesmente numa ronda, né? Você tem que ter uma postura...”

Só voltando um pouco... que a gente não pode ser o tempo todo Sargento e não pode ser o tempo todo... ( ) quando eu “tiver” exercendo... a atividade policial eu não posso

ser só, simplesmente, o cidadão B.Fazer as coisas, sim. Dentro da lei, como todo e qualquer cidadão, mas... tem a diferença... existe.”

É... vez por outra... é... que a gente se dá com todo... toda espécie de indivíduo, né? Você... vai numa ocorrência e tem um indivíduo que você vê assim... esse cara não é humano! Né? Esse cara... evocê tem vontade, às vezes, de... de se exceder um pouco... aí de fazer o que manda a lei, você... agir como pessoa também. Como pessoa comum...

Falando ( ) de pessoa comum da sociedade brasileira... é... demonstrar a revolta, né? Com tudo que a gente vê na área de segurança do país.”

[...] acho que... o papel que você exerce na sua comunidade faz com que as pessoas enxerguem em você a justiça... o Estado...”

E por ser um agente... um agente... um agente... da auto... um agente de segurança estatal, eu percebo que minha conduta dita muito pra eles também, né?[...] e eu vejo sim, vejo sim, que há essa personificação, muitas vezes.

"Aquilo que eu falei pra você, né? A... o emocional ele fala com você, né? Ele... ele... suas... suas emoções, elas vão aflorar em determinadas situações, né? Não tem pra onde correr. Seja... medo, seja coragem, seja emoção... parte emotiva eu falo questão de choro, seja questão de... de alegria, seja questão de raiva... elas afloram.”E quando você falou questão de extrapolar, é claro que... há possibilidades.

Tema

Policial 1

Policial 2

Policial 3

Policial 4

 

Percepções sobre o manejo da agressividade

Muitas vezes, a gente pode até acabar excedendo, porque depois que... é... você sofre uma agressão, você às vezes acaba perdendo o controle, né? Daquela situação. Então, você não sabe a hora que vai dosar, que vai reagir da mesma forma, agredindo... pra se proteger daquela situação, até onde vai tá bom.”

Nem sempre eu controlo.Às vezes... muitas vezes eu perco o controle. Nem sempre eu consigo controlar, né? Essa questão aí... da agressividade... é muito instantânea assim... é de momento, às vezes você não consegue controlar...é isso.”

Eu tento... controlar o próximo... é... ...o máximo; eu controlo o máximo. É isso. Eu uso a força necessária para conter a agressão do... ... ...cidadão infrator.”Que cada ação causa uma reação.”[...]às vezes que eu quero ex... extrapolar um pouco, quero ultrapassar um pouquinho assim a minha calma, às vezes, eu tento... ...é como eu disse a você... eu penso nas consequências, né? E também penso na família. Aí eu me controlo.” “É como o caso... foi o... o caso do estupro, né? Que... que nós... é... quando chegamos lá tinha... foi uma criança... aí eu extrapolei assim, porque, nessa hora eu pensei assim: que aquela criança poderia ser um filho meu. Aí... eu... é... “exceci” um pouco a... a... é como se diz: eu fui um pouco agressivo, né? Mas... como diz, é... depois a pessoa vai pensar direitinho e eu me arrependi, né?

Acho que... religiosidade. Religiosidade. Que é tudo... é o que vai te dar o controle emocional, nas situações que parecem fugir do controle. ( )medito um pouco e... consegue... consegue... estabilizar o emocional.”

(descrição de situações)Sim... eu vou citar uma aqui. Eu trabalhando numa cidade aqui do interior de Alagoas, a gente chegou até três, quatro horas da manhã num serviço... ...de uma festa local, né? E... no encerramento dessa festa, um dos componentes da patrulha teve que... finalizado esse evento, a gente teve que esvaziar o local, né? E um indivíduo desse, ele se recusou a sair. Então, um dos membros da patrulha... não usou de força excessiva, mas... é... colocou o indivíduo pra fora do ambiente. E... pra nós, aquilo ali parece que tinha finalizado todo esse incidente. Fomos dormir, né? ( )quando abrimos a porta da delegacia no dia seguinte, na manhã seguinte, a... os pneus da viatura tão todos furados de objeto cortante ( )foi uma faca. Foi uma faca ou punhal. Aí a gente fez uma análise rápida e... concluiu que... só poderia ter sido aquele indivíduo, né? A gente fomos na residência dele lá... cidade pequena... e conseguimos capturar. E... mediante a interrogatório, ele confessou que tinha sido ele, né? Ele até entregou a faca. Aquilo ali foi demais, né? Uma afronta! Não só à pessoa, como a instituição toda e o Estado. Aí, às vezes você, digamos assim... você usa de força... até excessiva, né? Que é o caso da pergunta, né?

(agredi-lo?)Sim... fisicamente...

(sentiu na hora?):Não é alívio, né? Não é alívio... mas... assim, é que o cara, e como se ele ti... ele pagou pelo que fez, não é? Antes da lei penalizá-lo, ele sofreu alguma punição.

Por exemplo: to... todos os policiais que... que passam por essas situações sabem o que eu tô falando. Você pega uma situação como um... um...estupro... e o cara pega um... vulnerável, por exemplo. Pega um menor de idade... uma criança[...]você se projeta naquela cena, né? Do pai que teve sua filha ali pelo ser... pelo ser... totalmente corrompível, corrompido, moralmente falando. E a sua emoção aflora de tal ponto que você quer esmagar o cara. Logicamente, você quer esmagar o cara... você quer destruir os cara... você... você quer fazer o que o seu instinto manda, que é o instinto de... de... de... a raiva aflorar e você detonar o cara. “ação totalmente deliberada ( )do emocional, isso trará pro policial um peso, que é o peso da condenação.” “E o controle emocional é, com certeza, movido pela razão, pelo controle emocional que o cara tem que ter nessas situações, se não a possibilidade de extrapolar é gigante.” “Maturidade, né? Maturidade! Não tem pra onde... não tem pra onde andar não. Não tem outra explicação, não.”

Eu tava falando que sobre o conhecimento... ( ) os conhecimentos racionais que a gente possa... os conhecimentos intelectuais que a gente possa adquirir ao longo da nossa jornada... da... docontrole emocional que a gente possa ter...mas esse... quando... quando se trata de controle emocional, nada fala mais alto dentro de um policial do que a sua maturidade.

[...]o caminho, ele não pode seguir o caminho da... da... da... aquele caminho que você talvez, seu instinto fale, né? Que é o instinto do revide... o cara vem agredir você e você revidar com outra agressão..[...]

 

 

 

Tema

Policial 1

Policial 2

Policial 3

Policial 4

Percepções sobre o regime militar e a função policial

[...]Eu, sinceramente, eu não gosto do militarismo. Nunca, nunca gostei, né? É... gosto da instituição, só que a forma que o militarismo acontece eu não gosto, porque... ela é... ela é inquisitiva,[...]

[...]porque o pessoal não está muito preocupado com o policial que está na rua, mas com a questão de ele ser disciplinado, entre aspas, pra eles, né?[...]

Eles tem o estatuto pra... é... disciplinar, só que muitas vezes acaba prejudicando a pessoa por causa disso. Se você vai de encontro à instituição... ...eles usam, a própria... o próprio sistema da instituição pra lhe prejudicar,[...]

Eu acho que a hierarquia atrapalha muito. Eu sou a favor da... ...de acabar com o militarismo dentro da corporação e... ...ser uma polícia desmilitarizada. Eu sou a... eu sou a favor. Porque às vezes, pela hierarquia, às vezes tem comandantes nossos... é... que às vezes não tem a formação que é correta para o cargo.”

Devido à hierarquia, nós temos que obedecer, né? E às vezes, às vezes acontece de ter muitas ordens absurdas, né? Que às vezes você discorda, mas às vezes... você não pode ir de encontro... ...por, às vezes, você, futuramente, você ser perseguido... por esses comandantes e pela própria instituição.

Aqui no nosso país já se falou tanto em unificação, em mudança no sistema... acabar com hierarquia, essas coisas... eu vejo que...

há uma necessidade disso também, sabe?( )você não pode dispor ( ) de um efetivo de... ( ) numa cidade como a nossa, de cinquenta homens, né? Você não pode colocar todos, né? Na rua... sem comando. Tem que ter um comando.Já tem... agora tenho dúvidas se... tem que ter todo um escalonamento, sabe?”“[...]mas que tem que ter um comando, tem. E firme! Se não... sai do controle. Porque você não... não... cinquenta pessoas, não é? Elas... não vão agir de uma forma única, as cinquenta pessoas. Então tem que ter um comando que discipline, que oriente a... a... pra toda e qualquer situação, agir de uma forma homogênea. Pra isso a hierarquia é necessária.”

Sem sombra de dúvidas é hierarquia, né? A... o militarismo ele é a base hierárquica, né? E a base de... regimental que ele nos dá pra que aqui funcione.”você percebe um militarismo... um militarismo bem mais aprofundado nos quartéis do Exército do que nos quartéis da Polícia Militar. “Até pelo tipo de serviço que é prestado, né? As funções lá no Exército são bem claras, os escalões são bem definidos, bem diferenciados.”

A Polícia aqui, como fala... como... como... ela não funcionaria dessa forma hoje, se ela não fosse militar. A parte hierárquica, não haveria controle, se não fosse a questão regimental. “Alguns a... falam da desmilitarização. Eu não. Eu falo do aperfeiçoamento do militarismo. Mas o aperfeiçoamento não da... da... da forma de... de aperto, de arrocho, mas de adequação, de contextualização. A gente precisa dum... a gente precisa pegar o regimento e precisa atualizar ele pros dias de hoje. Pra que haja ordem, pra que haja linha de ação... mas pra que principalmente haja... lógica, haja razão. Porque as punições elas não podem ser punições como eram dadas anteriormente, não.Punições tinham que ser punições mais exemplar, exemplares, no sentido de que o agente que possa transgredir suas ações dentro da Polícia Militar, ele possa realmente raciocinar daquilo que ele fez.”Por isso que as pessoas, quando atrelam a imagem da Polícia Civil, atrelam como bagunça, como coisa desorganizada, e quando atrelam à Polícia Militar, elas atrelam ( ) como organização, com respeito, né? É lógico que isso é baseado no regime militar. Não há sombra de... sem sombra de dúvidas. É... as... as que falam em fim de regime militar, eu discordo. Eu acho apenas que tem ser... aperfeiçoado.”

1Ressalta-se a melhor adequação dos termos “impulsos” ou “pulsões” à tradução dos textos freudianos.       


Publicado por: Renato Peixoto Costa

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