O ESTEREÓTIPO DO NEGRO NA MINISSÉRIE “SEXO E AS NEGAS”

Comunicação e Marketing

Análise da enunciação do negro na mídia, especificamente na televisão brasileira, considerando a minissérie de televisão “Sexo e as Negas” – da TV Globo, de autoria do ator e diretor de televisão Miguel Falabella – como estudo de caso.

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1. RESUMO

O presente trabalho tem por objetivo analisar a imagem da população negra transmitida pela mídia televisiva e a consequente internalização desse contínuo por parte da sociedade brasileira, visto que o estereótipo da mulher negra mostrada na mídia passou e passa por anos e contínua intacto. A imagem posta da mulata rebolativa só reafirma a representação de um preconceito velado acerca do corpo da mulher negra e de como ela se relaciona com sua vida. O presente trabalho analisa e ressalta alguns dos estereótipos mais recorrentes na história da televisão, e como eles estão presentes na série “Sexo e as Negas” com o intuito de continuar a reafirmar o papel subalterno da população negra e principalmente a hipersexualização da mulher negra na teledramaturgia brasileira. O seriado “Sexo e as Negas” servirá de substrato para se comprovar que, mesmo diante de uma sociedade que evoluiu bastante nas questões raciais, ainda existem problemas relacionados à população negra para serem sanados.

Palavras-chave: Mulher Negra. Racismo na TV. Sexo e as Negas. Estereótipos.

ABSTRACT

This study aims to analyze the image of the black population transmitted by the television media and the subsequent internalization of this continued by the Brazilian society, as the stereotype of black women shown in the media over and goes for years and continued intact. The set image rebolativa mulatta only reaffirms the representation of a veiled prejudice about the body of black women and how it relates to your life. This paper analyzes and points out some of the recurring stereotypes in television history, and how they are present in the "Sex and the Niggaz" series in order to continue to reaffirm the subordinate role of the black population and especially hipersexualização of black women in Brazilian soap operas. The series "Sex and the Niggaz" will serve as a substrate to demonstrate that, even in the face of a society that has evolved considerably in racial issues, there are still problems related to black people to be healed.

Keywords: Black Women; Racism on TV; Sex and Niggaz; Stereotypes.

2. INTRODUÇÃO

O presente estudo tem como enfoque a análise da enunciação do negro na mídia, especificamente na televisão brasileira, considerando a minissérie de televisão “Sexo e as Negas” – da TV Globo, de autoria do ator e diretor de televisão Miguel Falabella – como estudo de caso. A narrativa se passa no subúrbio do Rio de Janeiro, na Cidade Alta de Cordovil e exibe o cotidiano de quatro amigas habitantes dessa região, bem como o preconceito sofrido pelas personagens da minissérie. Focaliza-se ainda nessa pesquisa, a evidenciação da sexualidade associada à mulher negra, como estereótipo construído por meio do discurso televisivo e as consequências possíveis desse foco enunciativo traduzir-se como sobreposição cultural e supressão dos sujeitos representados na mídia de massa, em um produto da indústria cultural. 

O discurso televisivo influencia diversos aspectos da vida cotidiana. A professora Ana Maria Fadul apresenta um estudo demográfico do Núcleo de Pesquisa de Telenovelas da ECA/USP, contemplando suas variações, como as minisséries televisivas. Segundo esse estudo:

A televisão é um elemento importante da vida cotidiana [...], é um fluxo que tem presença determinante; ver televisão contribui para o modo como os indivíduos estruturam e organizam seu dia, com respeito às suas atividades cotidianas e ao tempo, à hora de dormir ou de trabalhar. Atualmente, representa uma tecnologia insubstituível, podendo faltar algum [...] eletrodoméstico, mas a televisão é indispensável (ALVARADO apud SOUZA, 2004, p.23).

As protagonistas nunca estão felizes, sempre algo lhes acontece e provoca um turbilhão de emoções, as quais cada uma delas reage de modo diferente, porém buscando ajuda e confidenciando umas com as outras, mas no final de cada episódio, tudo termina em cenas de sexo como se isso lhes aplacasse a inquietude da alma e como se fosse só isso que elas quisessem. Michel Foucalt aponta sobre a formação de certo tipo de saber sobre o sexo, saber esse associado ao discurso. Na concepção de Foucault:

É justamente no discurso que vêm a se articular poder e saber. E, por essa mesma razão, deve-se conceber o discurso como uma série de segmentos descontínuos, cuja função tática não é uniforme nem estável. Mais precisamente, não se deve imaginar um mundo do discurso dividido entre o discurso admitido e o discurso excluído, ou entre o discurso dominante e o dominado; mas, ao contrário, como uma multiplicidade de elementos discursivos que podem entrar em estratégias diferentes. É essa distribuição que é preciso recompor, como o que admite em coisas ditas e ocultas, em enunciações exigidas e interditas; com o que supões de variantes e de efeitos diferentes segundo quem fala sua posição de poder, o contexto institucional em que se encontra [...] O discurso veicula e produz poder, reforça-o, mas também o mina, expõe, debilita e permite barrá-lo (FOUCAULT, 2009, p. 95-96).

A televisão brasileira busca se aproximar dos temas polêmicos na sociedade e na política nacional, garantindo o melodrama característico das novelas e minisséries divulgadas na mídia e a associação das pessoas com os temas apresentados, de modo a criar uma identificação do público com os personagens e a temática abordada, causando impacto na opinião pública, contudo nesses discursos se dá, de outro ponto de vista, a supressão e abalos na autoestima dos sujeitos representado. E nesses discursos, não se inclui, como consta na reflexão encontrada em Araújo (2004, p. 13). Um discurso mais contemporâneo e, tampouco, um questionamento mais sério e corajoso da questão racial e das relações entre brancos e negros no Brasil, a não ser por meio de algumas tentativas esporádicas e realizadas, frequentemente, com alguns equívocos.

Com base na minissérie “Sexo e as Negas”, considerou-se analisar a partir de 3 episódios da série, que foram ao ar entre os dias 16 de setembro e 16 de dezembro de 2014, considerando-se assim alguns parâmetros que foram observados, como, a linguagem, o figurino e os relacionamentos amorosos das quatros protagonistas. A partir desses parâmetros busca-se evidenciar a presença de um estereótipo da figura do negro no programa exibido pela TV Globo, bem como a relação do negro com a sociedade atual, num país onde o preconceito racial ainda é notável. Esse estereótipo, de acordo com as peripécias vividas pelas protagonistas é retratado na figura da mulher negra como pessoa empobrecida, com baixo nível de estudo, aguerrido, agressivo em algumas situações do cotidiano - mesmo quando não é preciso - e sexualmente disponível.

Considerando o fato de a minissérie só ter tido uma única temporada em decorrência da polêmica racial gerada, e abarcando em menor escala a condição social e pessoal da mulher negra – expondo a sua sexualidade - este estudo problematiza a que esse discurso persistente possa tornar latente a estereotipia da marginalidade e desconstituição do negro na sociedade brasileira. Consubstanciou-se nesse trabalho a verificação da hipótese de uma enunciação estereotipada e preconceituosa acerca do negro e da sexualização associada à mulher negra na minissérie de TV: “Sexo e as Negas”.

Este estudo procurou analisar a relevância da abordagem do negro na televisão brasileira. Considerando a miscigenação como uma das características principais da cultura brasileira e da presença marcante do negro como maioria no Brasil, devido ao histórico de migração involuntária sofrida por esse povo, que capturado em várias regiões da África e obrigado a vir para o Brasil entre os séculos XVI e XIX, para realizarem trabalho escravo.

Ao se analisar a abordagem do negro na mídia e a maneira como este é representado na televisão brasileira, desenvolveu-se o enfoque, ainda, na forma em que isso repercute na sociedade, explorando o modo de como a mídia exibe o negro em suas novelas e minisséries, bem como o tratamento do negro na sociedade e como é abordada a temática do racismo na mídia, especificamente na televisão brasileira.

Apesar da presença marcante da raça negra no Brasil e da importância da mídia no processo de formação de opinião e criação de identidades e manipulação de estereótipos, a relevância desse trabalho se dá a partir do momento em que se evidencia a denotação em representações discursivas na mídia de estereótipos do negro no Brasil em pleno século XXI a despeito da negação de uma estereotipia evidenciada na maioria das vezes pela mídia em diversos programas televisivos.

A despeito do fato de grande parte da população e da cultura brasileira possuírem traços genéticos, históricos e culturais da raça negra, verifica-se que o negro é exibido na mídia de forma inferiorizada, muitas vezes sendo subtraído como indivíduo, em outras pouco percebido, ou simplesmente ignorado.

A partir do momento que ocorre um processo de criação de estereótipos com a figura do negro nas telenovelas e outros segmentos da mídia, a ficção determina uma relação imaginária entre a população negra e branca no Brasil, bem como as características sociais que permeiam essa relação, construindo ou desconstruindo valores pautados nas diferenças sociais ainda muito presentes no país.

O grande dilema da figura do negro nas telenovelas, nas minisséries, enfim, na teledramaturgia brasileira de modo geral, é que se observa uma falta de preocupação e atenção dos autores em construir uma narrativa sob o ponto de vista do negro, não há uma preocupação em se ter uma escuta deste, nos processos que antecedem a criação e concepção do roteiro, com observância a sua evolução e quanto ao desenvolvimento do negro na sociedade, suas conquistas e processos de inclusão social. isso não é pautado e, tampouco repercutido na mídia.

Observa-se que a mídia não busca a inclusão da temática do racismo na televisão brasileira como tema prioritário, considerando os problemas causados pelas diferenças sociais encontradas no Brasil relativas às diferenças sociais intrínsecas à nossa realidade. Desse modo, seria pertinente uma abordagem e inclusão mais significativa do negro e dos problemas encontrados por ele na sociedade vigente. Este fato foi mencionado por (ARAÚJO, 2004):

Ao caracterizar o negro de modo estereotipado, a telenovela traz, para o mundo da ficção, um imaginário que permeia as relações entre brancos e negros no Brasil; revela o universo presente nessas relações, atualiza crenças e valores pautados por esse imaginário que não modernizou as relações interétnicas na nossa sociedade. A telenovela pretende, hoje, representar a moderna sociedade brasileira, discutir temáticas sociais atuais e candentes; entretanto, não inclui nessas temáticas uma imagem mais moderna nem um questionamento mais sério e corajoso da questão racial e das relações entre brancos e negros no Brasil, a não ser por meio de algumas tentativas esporádicas e realizadas, frequentemente, com alguns equívocos. Não parece fazer parte da agenda das emissoras de tevê uma proposta sistemática de contribuir para uma discussão sobre o racismo (ARAÚJO, 2004, p. 13)

Da mesma forma que, em várias esferas, o debate que envolve o preconceito não é considerado um tema prioritário, uma vez que os escritores, autores, diretores e outros formadores de opinião, têm “preconceito de ter preconceito”, dando segmento à falta de coragem em admitir o racismo, considerando que esse problema já foi resolvido no Brasil com as leis impostas na constituição, considerando o racismo como crime (ARAÚJO, 2004).

Na minissérie “Sexo e as Negas”, Miguel Falabella rebate o tema do preconceito num enredo que envolve quatro mulheres negras que enfrentam diariamente a batalha de sobreviver numa sociedade repleta de preconceitos contra sua cor e classe social, visto que além de serem negras, as personagens são camareira e cozinheira, recepcionista e operária, respectivamente.

Além de incitar a temática do preconceito como foco de abordagem, a minissérie “Sexo e as Negas” faz uma crítica às dificuldades encontradas na locomoção dos trabalhadores que se deslocam da periferia para o centro, além da limitação do poder de compra vivida pelos personagens. O autor faz a abordagem do sofrimento dessas mulheres em suas rotinas de dificuldades diárias de forma cômica. O que contribui para gerar uma banalização do público a respeito das pautas dessa faixa da sociedade e de suas demandas e lutas por melhorias sociais.

O racismo é mostrado na minissérie de maneira irônica, como forma de repercutir positiva e reflexivamente, mas sem deixar de exibir a realidade tal e qual ela é na sociedade brasileira, relembrando o telespectador do impacto causado pela diferença de classes e cor, e que muitas vezes passa despercebido ao olhar dos brasileiros, que implicitamente aceitam o preconceito como condição existente e imutável.

Em meio a uma sociedade que tem como característica cultural a ideologia do branqueamento de modo a fazer inexistir a presença do negro no Brasil, representando um dos fatores responsáveis pela ausência da autoestima do negro na sociedade brasileira, convém questionar como a mídia exerce a sua responsabilidade social no sentido de valorizar a cultura negra, ou como a mesma reforça a ideologia do branqueamento como forma de negar as origens afrodescendentes intrínsecas ao Brasil.

Antes mesmo da veiculação da minissérie, já se ouviam vozes, principalmente de grupos e instituições defensoras dos negros, acerca de um suposto conteúdo racista da mesma, coisa que enfureceu Miguel Falabella:

Como é que se tem a pachorra de falar de preconceito, quando pré-julgam e formam imediatamente um conceito rancoroso sobre algo que sequer viram? 'Sexo e as Negas' não tem nada de preconceito. Fala da luta de quatro mulheres que sonham que buscam um amor ideal. Elas podiam ser médicas e morar em Ipanema, mas não é esse meu universo na essência, como autor, o escreveu em sua página pessoal do Facebook[1].

Essa indignação do Autor ocorreu após a Rede Globo ser autuada pela Secretaria Especial da Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), que recebera denúncias através de sua ouvidoria e solicitara informações a respeito da minissérie e acionara o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, continuando Miguel Falabella a comentar:

Qual é o problema, afinal? É o sexo? São as 'negas'? As negas volto a explicar, é uma questão de prosódia. Os baianos arrastam a língua e dizem 'meu nego', os cariocas arrastam a língua e devoram os S. Se é o sexo, por que as americanas brancas têm direito ao sexo e as negras não? Que caretice é essa? O problema é por que elas são de comunidade?[2].

De acordo com o titular da SEPPIR, Carlos Alberto de Souza e Silva Júnior, em entrevista, na época, ao site UOL, "A Ouvidoria da Igualdade Racial vê com estranheza e preocupação qualquer tipo de manifestação que reproduza estereótipos racistas, machistas, que se alicerce na sexualidade das mulheres negras, ou venha a reforçar ideias de inferioridade dessas mulheres, seja nas artes, no cinema ou nas telenovelas e seriados".

Então, pelo que se vê da posição oficial do titular da SEPPIR acerca da minissérie é saber se a questão da sexualidade das personagens reproduz estereótipos racistas e machistas. Esse foi o motivo que levou o SEPPIR a apurar as denúncias acerca do seriado.

Independentemente do debate, as atrizes encaravam o seriado como uma oportunidade de trabalho, contudo, sem esquecer que, como negras, também encaravam o racismo no dia a dia.

Quanto mais visíveis estiverem as pessoas de origem negra, quanto mais destaque obtiver, maiores as chances de sofrerem ataques racistas. Atrizes como Cris Vianna, Taís Araújo e a jornalista Maria Julia Coutinho foram alvo de recentes comentários racistas na internet. E foi pela internet mesmo que amigos e simpatizantes dessas mulheres saíram em defesa das mesmas, a despeito das investigações policiais que tiveram andamento.

No caso da atriz Cris Vianna, esta se manifestou nas redes sociais denunciando não só o racismo que sofreu, mas também os que sofrem as demais pessoas negras:

Não posso me calar. Usarei minha voz por muitos que sofrem este tipo de ataque racista diariamente e voltam para casa, calados, cansados de não serem ouvidos, para chorar sozinhos. A vergonha e a tristeza que sinto hoje são por estas pessoas pequenas, pobres de espírito e de coração vazio. A essa minoria cega e burra, minha pena. Como todos vocês tenho orgulho da minha pele, do meu cabelo, da minha origem e de tudo o que sou[3].

A mídia televisiva acaba por abrir um espaço apto ao exercício de práticas que permitam a participação dos negros, a divulgação de sua cultura e história, e uma mudança de mentalidade, mas o mito da democracia racial, visão daqueles que exercem o poder e a controlam, é um obstáculo às mudanças que possibilitem a extirpação, ou pelo menos a redução do racismo. Com isso a TV passa programas com a presença de negros por que a sociedade exige vê-los na mesma.

O trabalho incorporou a teoria dos estudos culturais, da indústria cultural, de audiovisual e dos gêneros e formatos na televisão brasileira, para consolidar a argumentação ensejada na monografia. A metodologia utilizada na pesquisa é a de análise do discurso, com inspiração nos estudos etnográficos, para incorporar a influência do contexto na obra de arte.

3. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

3.1. A gênese da sobreposição cultural

Refletir sobre os processos culturais, concebendo a cultura como organismo vivo a se manifestar de forma plural é uma premissa dos estudos culturais, teoria aqui tomada de empréstimo para corroborar a argumentação teórica do presente trabalho. Tendo em vista que os estudos culturais consubstanciam uma reflexão e oportunizam uma melhor compreensão da complexa rede das relações sociais e do papel crucial da comunicação na produção e representação de uma cultura.

Em “Estudos Culturais – uma abordagem prática”, obra organizada pela professora Tatiana Amendola Sanches, estudiosa da cultura, está ensejada que:

Por meio dos processos culturais, a articulação das várias esferas sociais coloca questões importantes para o homem contemporâneo, como as que envolvem as noções de corpo, identidade, gênero, ou as relacionadas à fotografia, ao cinema, à televisão, às mídias sociais e à própria internet. Esses estudos, que se dedicam a fazer uma análise das práticas culturais, buscam assim apreender o ser humano em seu fazer cotidiano (SANCHES, 2011, p. 7).

Ao longo de toda a história mundial pode-se constatar um processo de objetivação do negro. Seus deslocamentos de espaço promoveram diásporas culturais que impactaram os sujeitos em processos de hierarquização cultural e de perdas indentitárias e de autoestima relevantes.

No Brasil, os relatos do negro e de sua trajetória de libertação do regime de escravidão são contados a partir da narrativa dominante. Nos livros didáticos está posta uma liberdade concedida e consentida pela Princesa Isabel, em 13 de maio de 1888, há 127 anos. O negro foi posto em liberdade, mas sem nenhum viés de planejamento de sua inclusão na sociedade. Sua posição à margem está consolidada, tal qual o índio, como subcultura.

A voz subalterna – seus levantes e revoltas – foram pormenorizados. Personagens de destaque como Zumbi dos Palmares, são uma sombra, um detalhe, somado a saberes e tradições do povo africano, valorizado mais como curiosidade e menos como uma cultura de grande relevância e importância na constituição do povo brasileiro. No desenvolvimento de algumas cidades brasileiras, o negro é posto na periferia. Seu protagonismo lhe é negado, como narrado em documentário do grupo Racionais MC’s, sobre o processo de branqueamento da cidade de São Paulo, quando de seu desenvolvimento, no qual os negros ali instalados foram banidos para a periferia e dados pela voz oficial como mortos em vista de seu próprio processo de degradação pelo álcool e drogas. Uma inverdade, mais tarde refutada pela voz subalterna.

Quando da libertação dos negros, de acordo com Romão (2005) não foram criadas e nem implementadas quaisquer medidas em apoio à finalidade dessa lei que os inserissem como homens livres naquela sociedade arcaica, patriarcal e escravocrata e menos ainda foram criados mecanismos capazes de obrigá-la a aceitar e absorver os recém-libertos.

Ainda de acordo com Romão (2005), não se preparou sequer essa sociedade para absorvê-los como homens livres, sujeito de direitos e obrigações e não foram criadas as condições necessárias para que a mesma se tornasse, com o passar do tempo, igualitária, fundada no direito, capaz de corrigir suas próprias distorções e contradições, incorporando o negro como cidadão.

A sociedade brasileira saiu do Brasil Império e seguiu República afora imutável, hierárquica, elitizada, branca e, podemos até dizer, traumatizada com a Abolição, mantendo em seu cerne e modus vivendi a herança e costumes escravocratas, não mudando o seu modo de ver e tratar os negros, não lhes deu as oportunidades acessíveis apenas aos brancos, o que fomentou o recrudescimento das desigualdades sociais e raciais antes mascaradas e tornadas invisíveis pela relação Senhor/Escravo, que escondia, nas fazendas e senzalas, a realidade de pobreza e submissão do negro.

Então, liberto, não assimilado e sem oportunidade de construir uma identidade, uma imagem, e recuperar sua cultura num País que ainda se pretende branco e que não o queria, o negro, livre, mas sem acesso à educação e agora ocupando as periferias das grandes cidades, veio engrossar aquela parcela da população pobre, subempregada e marginalizada, de modo que deixou de servir a um senhor para servir a todos, aí representados não só pelos seus antigos senhores, mas também pelos comerciantes, e demais atores da economia de mercado:

O drama humano intrínseco à Abolição condenou a massa dos ex-escravos e dos libertos à própria sorte, como se fossem um simples bagaço do antigo sistema de produção. O advir da República, vinculada à desagregação da produção escravista e da ordem social correspondente, não serviu para toda a sociedade brasileira. Seus limites históricos eram fechados, não assimilavam o negro e o liberto como categorias sociais. Tratava-se de um novo regime das elites, pelas elites, para as elites (FERNANDES, 1989, apud FERNANDES, 2007, p. 22).

Não se deveria então classificar tal diversidade humana em raças diferentes, pois a variabilidade do ser humano é um fato empírico incontestável que como tal merece uma explicação cientificada para assim poder contextualizar os conceitos e classificações nas quais servem de ferramentas para operacionalizar o pensamento (MUNANGA, 2003).

Ainda de acordo com Munanga (2003), essa classificação da humanidade em raças hierarquizadas, acabou desembocando numa teoria pseudocientífica, a raciologia, que ganhou muito mais espaço no inicio do século XX, trazendo consigo um conteúdo mais doutrinário do que científico, no qual seu discurso serviu mais para justificar e legitimar os sistemas de dominação racial do que explicação da variabilidade humana.

Cada indivíduo é único e se distinguem de todos os outros passados, presentes e futuros, e não apenas no plano morfológico, imunológico e fisiológico, mas também em planos comportamentais, em uma sociedade que deseja maximizar as vantagens da diversidade genética de seus membros devem sempre ser iguais, oferecer aos diferentes indivíduos a possibilidade de escolha entre diversos caminhos, meios e modos de vivência, levando em consideração os contextos naturais de cada um (MUNANGA, 2003).

Levar em consideração a igualdade perfazendo assim o respeito do indivíduo naquilo que tem de único, como a diversidade étnica e cultural e o reconhecimento do direito que se tem toda pessoa e toda cultura de cultivar sua inextensibilidade, fazendo com que assim contribuam para o enriquecimento quanto à diversidade cultural da humanidade.

Assim, todas essas práticas de cultura e forma de representação acaba por vez ter como tema central o negro, colocando assim o problema da identidade cultural em questão. Identidade na qual não é tão transparente ou mesmo sem problemas como pensa, ao invés disso deve-se tomar essa identidade por um fato, aonde uma vez consumada em seguida passa a ser representado por novas práticas, deve-se talvez pensar em uma produção que não se completa ou que está sempre em processo (HALL, 2003).

Segundo o mesmo Hall (2003), possuir uma identidade cultural nesse sentido é estar em contato com um núcleo imutável e atemporal, ligando ao passado o futuro e o presente numa linha interrupta, no qual, ‘esse cordão umbilical’ é o que se chama de tradição, cujo este de sua fidelidade às origens, sua presença consciente diante de si mesma, sua autenticidade.

É inegável que a sobrevivência se ancora em manter-se a esperança em algo, mas quando se trata de pensar nas influências da diáspora na identidade cultural é preciso delimitar que:

Nossas sociedades são compostas não de um, mas de muitos povos. Suas origens não são únicas, mas diversas. Aqueles aos quais originalmente a terra pertencia, em geral, pereceram há muito tempo dizimados pelo trabalho pesado e a doença [...] longe de constituir uma continuidade com nossos passados, nossa relação com essa história esta marcada pelas rupturas mais aterradoras, violentas e abruptas (HALL, 2003, p. 30).

As identidades culturais são como pontos de identificação, pontos instáveis de sutura feitos no interior dos discursos da cultura e da história, outro aspecto no qual esta relacionada à questão quanto ao caráter da mudança na modernidade tardia, esse processo de globalização vivenciado a cada dia pelo indivíduo, e seu impacto sobre a identidade cultural. 

Marx e Engels (1973, apud HALL, 2003, p. 14) argumentam sobre essa mudança:

É o permanente revolucionar da produção, o abalar ininterrupto de todas as condições sociais, a incerteza e movimento eterno [...] todas as relações fixas congeladas, com seu cortejo de vetustas representações e concepções, são dissolvidas, todas as relações recém-formadas envelhecem antes de poderem ossificar-se. Tudo que é sólido se desmanchando no ar.

A partir deste vê-se uma sociedade diferente do que muitos autores já descreveram, não mais como um todo unificado, e ou, bem delimitada, aonde se produzia através de mudanças evolucionarias a partir de si mesma, observa-se um constante desenvolvimento dessa identidade cultural a cerca da raça. Não importando o quão diferentes sejam seus membros, independente de termos de classe, gênero ou etnia, uma cultura nacional busca unificar essa identidade para representar todos como pertencentes a uma mesma cultura.

Estima-se ter culturas que escapam de toda essa globalização e se posicionam como resistência ao processo do mesmo, construindo assim diversamente tanto no conjunto da população negra como na branca, e é partindo da tomada de consciência dessas culturas de resistências que se constroem as identidades culturais. Pois são essas identidades que evocam as tantas discussões sobre identidade nacional e introdução do multiculturalismo na educação cidadã (MUNANGA, 2003).

Observando a distribuição geográfica do Brasil e de sua realidade etnográfica, percebe-se que não existe apenas uma cultura negra ou somente outra branca, vê-se uma variedade de culturas em todas as regiões do Brasil. Com isso o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no Censo realizado em 2010, revelou que mesmo sendo maioria, a população negra sofre com a desigualdade racial e que comparado ao Censo de 2000, o percentual de pardos, que estão mais presentes nas regiões Norte e Nordeste, cresceu de 38,5% para 43,1% (82 milhões de pessoas), o de negros, que são mais encontrados na região Nordeste, subiu de 6,2% para 7,6% (15 milhões).

Ainda de acordo com o IBGE, na Bahia, o percentual dos que se autodeclararam negros saltou para 17,1% (2,4 milhões de pessoas) e no Pará, o Censo 2010 mostrou que 69,5% se declararam pardos.

No mesmo período, o percentual dos brasileiros que se autodeclararam brancos caiu de 53,7% para 47,7% (91 milhões de pessoas):

E em 2014, segundo o IBGE, os negros (pretos e pardos) eram 53,6% da população e os brasileiros que se declararam brancos eram 45,5%.

Esse quadro apontado pelo IBGE sinaliza que há uma mudança na mentalidade dos brasileiros no sentido de aceitação de suas origens africana, e que nesse sentido há também uma mudança cultural em curso, a qual, ainda de acordo com o IBGE, é observada desde Censo de 1991.

Segundo o IBGE de 2014 foi apurado que entre os que se consideram ricos, apenas 17,4% eram negros. Entretanto, aquele censo de 2010 mostrou um dado que se mantém constante, que os brancos têm mais acesso ao estudo e recebem salários maiores dos que aqueles recebidos pelos negros e pardos.

Mas em 2010, a situação salarial de negros e brancos era a seguinte:

Mesmo assim, o Censo de 2010 mostrou que as desigualdades sociais brasileiras ainda estão associadas à cor da pele e que os negros têm menos expectativa de vida em razão das condições sociais a que estão submetidos.

Quanto ao racismo, objeto de apuração na minissérie, é praticado diariamente, independentemente de ser o negro famoso ou não. E atualmente, com a popularização das redes sociais, ele encontrou uma nova vertente de manifestação, a internet, pois aqueles que manifestam seu racismo acham que a rede mundial de computadores lhes confere anonimato e impunidade.

Essa situação contribuiu para criar na sociedade brasileira uma forma bem específica de se ver o negro, de representá-lo, numa visão estereotipada. A palavra estereótipo origina-se do grego “stereos” e “typos” compondo "impressão sólida" e se refere à placa metálica utilizada para impressão em lugar da prensa de tipos móveis. Da mesma forma, a palavra de origem francesa “clichê” também faz referência à superfície de impressão do estereótipo. Esse termo começou a ser usado no sentido de impressão como aquela que alguém ou algo nos causa, por volta de 1798.

Estereótipos não são sinônimos de preconceito e envolvem crenças, pressupostos e suposições genéricas e categóricas, sem conhecimento de causa, normalmente preconceituosas e socialmente compartilhadas a respeito de fatos, etnias, condutas e pessoas de determinada categoria social. O estereótipo reitera o discurso colonial, no que tange às questões de ordem racial. Homi Bhabha, em “O local da cultura”, reflete que:

Um aspecto importante do discurso colonial é sua dependência do conceito de “fixidez” na construção ideológica da alteridade. A fixidez, como signo da diferença cultural/ histórica/ racial no discurso do colonialismo, é um modo de representação paradoxal: conota rigidez e ordem imutável como também desordem, degeneração e repetição demoníaca. Do mesmo modo, o estereótipo, que é sua principal estratégia discursiva, é uma forma de conhecimento e identificação que vacila entre o que está sempre “no lugar”, já conhecido, e algo que deve ser ansiosamente repetido... como se a duplicidade essencial do asiático, ou a bestial liberdade sexual do africano, que não precisam de prova, não pudessem na verdade ser provadas jamais no discurso. [...] Isto porque é a força da ambivalência que dá ao estereótipo colonial a sua validade: ela garante sua repetibilidade em conjunturas históricas e discursivas mutantes; embasa suas estratégias de individuação e marginalização; produz aquele efeito de verdade probabilística e predictabilidade que, para o estereótipo, deve sempre estar em excesso do que pode ser provado empiricamente ou explicado logicamente. Todavia, a função da ambivalência como uma das estratégias discursivas e psíquicas mais significativas do poder discriminatório – seja racista ou sexista, periférico ou metropolitano – está ainda por ser mapeada (BHABHA, 2003, p. 105-106).

O que este estudo apresenta como proposição derivada do foco central é um olhar crítico sobre o modo de representação da alteridade. A preocupação aqui instaurada é evidenciar no discurso colonial dominante, ainda em prática, uma tentativa de normalidade. A ancoragem em Bhabha auxilia a exploração do território a ser investigado, que é a narrativa do negro na mídia de massa. Bhabha analisa o discurso sobre a alteridade da seguinte forma:

Não pretendo desconstruir o discurso colonial para revelar seus equívocos ou repressões ideológicas, para exultar diante de sua auto-reflexividade ou tolerar seu excesso” liberatório. Para compreender a produtividade do poder colonial é crucial construir o seu regime de verdade e não submeter suas representações a um julgamento normatizante. Só então torna-se possível compreender a ambivalência produtiva do objeto do discurso colonial – aquela “alteridade”  que é ao mesmo tempo um objeto de desejo e escárnio, uma articulação da diferença contida dentro da fantasia da origem e da identidade. [...] A construção do sujeito colonial no discurso e o exercício do poder colonial através do discurso exigem uma articulação das formas da diferença – raciais e sexuais. Essa articulação torna-se crucial se considerarmos que o corpo está sempre simultaneamente (mesmo que de modo conflituoso) inscrito tanto na economia do prazer e do desejo como na economia do discurso, da dominação e do poder (BHABHA, 2003, p. 106-107).

Não é novidade o fato de a enunciação da alteridade racial ter sido marginalizada. A articulação da diferença é, na contemporaneidade, marcada pela subjugação do negro. Ainda hoje o sujeito negro é representado como uma população de tipos degenerados com base na origem racial. O ato de estereotipar está circunscrito ao processo discursivo dominante e pode apresentar-se de forma subliminar:

O ato de estereotipar não é o estabelecimento de uma falsa imagem que se torna o bode expiatório de práticas discriminatórias. É um texto muito mais ambivalente de projeção e introjeção, estratégias metafóricas e metonímicas, deslocamento, sobredeterminação, culpa, agressividade, o mascaramento e cisão de saberes “oficiais”e fantasmáticos para construir as posicionalidades e oposicionalidades do discurso racista (BHABHA, 2003, p. 125).

3.2. A comunicação da cultura

As culturas de hoje se encontram mescladas, dialogando entre si e para muitos pesquisadores tem se tornado homogeneizado, deixando de ser possível referir-se a ela como uma coisa heterogênea, fazendo com que este fosse possibilitado pela intensificação do processo de globalização que proporcionou o encurtamento das distâncias na propagação da narrativa dos meios de comunicação, ora grandes responsáveis por ligarem pessoas das mais variadas partes do mundo.

Em meio às grandes mudanças que revolucionaram o século XX, uma das mais importantes foi indubitavelmente o avanço dos meios de comunicação, sobretudo o rádio e a televisão. Os novos meios de interação com as pessoas e principais divulgadores de notícias e informação modificaram intensamente as relações na sociedade.  Um dos defensores do entrelace entre comunicação e cultura, na premissa relacional e dialógica, visando a positivação da mesma como direito humano fundamental, está inscrita nas páginas do livro Comunicação e Cultura: as ideias de Paulo Freire, de Venício A. de Lima. Segundo Lima:

Os conceitos de comunicação e cultura em Freire se complementam mutuamente, uma vez que se acham relacionados diretamente com a liberdade e libertação humanas. A comunicação distorcida – “falsa palavra” ou mutismo – é característica de uma cultura em que o homem é alienado, uma cultura do silêncio. A verdadeira comunicação entre sujeitos implica reciprocidade dialética mediante a qual um homem livre transforma o mundo e cria o universo simbólico e abrangente da cultura no processo permanente de sua própria libertação (LIMA, 2011, p. 140).

Freire defende a libertação como um processo social, que se inicia com a liberdade dos outros. A opressão discursiva dos meios de comunicação de massa é tida por Freire como poder obstacularizante à constituição do ser livre. Segundo Freire, as sociedades opressivas são todas aquelas em que as classes dominantes tornam a práxis impossível para os oprimidos. (LIMA, 2011, p. 147). E os mass media concebem no poder simbólico do entretenimento uma reverberação e uma desconstrução dos sujeitos, expandindo uma cultura do silêncio, pela caracterização representativa de uma raça. De acordo com Lima:

A maior preocupação de Freire, contudo, é com as pessoas que se encontram mergulhada na cultura do silêncio, com todos aqueles que – apesar de sujeitos criativos e transformadores – não tem voz própria, postura crítica, sofrem de dualidade existencial, de um senso de autodepreciação, e se caracterizam pela submissão e pelo silêncio. Ele se volta para o ser humano que vive submerso em meio aos mitos da cultura do silêncio (LIMA, 2011, p. 140).

Visto que na sociedade de comunicação em massa e de pleno consumo a propagação de valores morais manipulados se dá aos mais diversos âmbitos da vida cotidiana e a necessidade de sobrevivência suplanta completamente a possibilidade de resistência de uma subjetividade enfraquecida, dito em um dos maiores perigos ocasionado por tal envasamento do sujeito por sua incapacidade de análise crítica perfazendo assim o potencial político que a penetração estética e propagandística da cultura aceita sem reservas (BHABHA, 2003).

Alguns pesquisadores argumentam quanto ao hibridismo – fusão entre diferentes tradições – este sendo fonte grandiosa de criatividade, produzindo assim novas formas de culturas mais apropriadas à modernidade. Bhabha (2003) fundamenta em seus estudos sobre essa cultura de hibridismo sendo um processo agonístico e antagonístico, resultante do conflito e da tensão quanto à diferenciação cultural, resultando assim da contestação do discurso hegemônico dominante, exigindo assim que suas diferenças culturais sejam observadas.

Ao propor um debate sobre as teorias da modernidade e da pós-modernidade, Canclini (1995) se ocupa tanto dos usos populares quanto do culto, tanto dos meios massivos de comunicação quanto dos processos de recepção e apropriação dos bens simbólicos. O entrelaçamento desses elementos veio a engendrar o que ele designou como “culturas híbridas”. Para abordá-las, o mesmo autor defende a necessidade da adoção de um enfoque que também poderia ser chamado de híbrido, pois resulta da combinação da antropologia com a sociologia, da arte com os estudos das comunicações.

Hall (2003) por sua vez observou a experiência diaspórica vivenciada por Caribenhos rumo a Grã Bretanha que a hibridização acontece no contexto e processo da tradução cultural aonde os indivíduos vivenciam para se adaptarem as matrizes culturais diferentes de sua origem. Hall (2003, p. 74) ainda enfatiza sobre o hibridismo:

O hibridismo não se refere a indivíduos híbridos, que podem ser contrastados como “tradicionais e modernos”, como sujeitos plenamente formados. Trata-se de um processo de tradução cultural, agonístico uma vez que nunca se completa, mas que permanece em sua indecidibilidade. 

Contextualizando a análise, não se pode dizer que o hibridismo é um processo no qual traz o sujeito à sensação de completude ao dialogar com outras culturas, é um momento onde o sujeito percebe que sua identidade está sendo reformulada num jogo constante de assimilação para com o outro, indeciso sobre qual matriz cultural o mais representa.

3.3. O poder da televisão

A televisão tem seu poder reconhecido na esfera social, sendo responsável por manipular a informação, bem como por criar e desconstruir identidades sociais através das telenovelas, com o uso de personagens que expressam e representam a identidade brasileira, o que culmina na criação de estereótipos sociais. José Marques de Melo ampara-se em Adorno para reiterar a grande importância da televisão no universo lúdico das pessoas. O autor discorre que:

[...] a televisão ocupa um papel excepcional, pela possibilidade que tem de cercar e capturar a consciência do público por todos os lados, aproximando-se daquela meta que Adorno define como “a totalidade do mundo sensível em uma imagem que alcança todos os órgãos, o sonho sem sonho” (MELO apud SOUZA, 2004, P.23).

No que concerne à televisão, muitos estudiosos afirmam que a revolução nos meios de comunicação causou impacto na cultura. Segundo Giovanni Sartori, a televisão culminou na transformação do homo sapiens no homo videns, ou seja, o homem que antes baseava suas concepções de mundo a partir da leitura, agora é o homem que, assistindo à televisão, as constrói a partir da imagem (SARTORI, 2001, p. 21).

No artigo o pesquisador revela os dados de uma pesquisa realizada em 1994 por Mauro Porto, Professor do Departamento de Ciência Política da Universidade de Brasília, sugere que as pessoas criam suas concepções sobre a realidade sócio-política não só pelos meios de comunicação informativos, como os telejornais, mas também através de telenovelas.

De acordo com Porto (1994), para compreender o papel da mídia, na política e na sociedade, deve-se analisar também os programas enquadrados na categoria do entretenimento, como é o caso das novelas no Brasil:

Portanto, para entender o papel da mídia na política não basta analisar os programas explicitamente políticos ou a parte do noticiário dedicado às questões politicas, mas devemos entender inclusive o papel de programas tradicionalmente reduzidos a categoria de entretenimento, como as telenovelas. As novelas assumiram, no caso brasileiro, um papel absolutamente central na discussão de temas políticos, constituindo para muitas pessoas a principal forma de contato com o mundo da politica (PORTO, 1994, p. 83).

Segundo Jesús Martín-Barbero (1987, p. 1), a telenovela não se tornou somente a base do desenvolvimento industrial da televisão no Brasil e na América Latina, mas também é considerada, legitimamente, a maior preferência da população dentre todas as categorias de programas exibidos na televisão. Além disso, a partir da década de 70, as telenovelas e os telejornais adquiriram o status de programas de maior audiência.

No tocante à audiência das telenovelas, que possuem alcance mundial, já em 2007 o Jornal O Estado de São Paulo veiculava em sua versão para a internet, na matéria O planeta tem 2 bilhões de noveleiros, que:

[...] Atualmente as telenovelas movimentam US$ 70 milhões por ano e alcançam uma plateia de 2 bilhões de pessoas pelo planeta. A informação vem de Mauro Alencar, doutor em Teledramaturgia – Brasileira e Latino-Americana – e membro da Asociación Latino-americana de Investigadores de La Comunicación[4].

Essa preferência dá ao telespectador das telenovelas o poder de mudar os rumos da história ficcional, pois além de ser um potencial mercado consumidor dos produtos comerciais veiculados nas entre partes das mesmas, ele também se identifica com personagens, sua história, cor, classe social e origem, de forma que, ao se enxergar no personagem que lhe é simpático, passa a refletir sobre as injustiças de que também é vítima, transpondo, assim, a ficção para a realidade e esse fato leva a vontade do telespectador a ser levada em conta nos rumos do folhetim.

Então, se é possível ao telespectador, que se reconhece no personagem, influenciar e mudar os rumos da telenovela, intervindo na história e, por conseguinte, na sociedade ficcional da trama, pedindo por correção de injustiças, punição de comportamentos e condutas, é possível também, na sociedade real, fazer a mesma coisa. E assim, telenovela se tornou cultura e fonte de mudança cultural.

Dada à importância das telenovelas no Brasil, cabe salientar que os negros sempre tiveram presença nas telenovelas e em todos os gêneros de ficção e outras vertentes de programas de entretenimento no Brasil desde o instante em que as telenovelas davam indício de que seriam o primeiro produto cultural no país, no que concerne à audiência.

Diante à grande audiência dada as telenovelas, surgiu junto as mesmas as primeiras minisséries televisivas, que eram curtas e com cerca de pouco mais de 15 capítulos e a princípio apresentadas durante alguns dias da semana.

Rondini (2007, p. 1-2), por sua vez afirmava que existiam três ordens de considerações quanto ao formato dessas minisséries que as caracterizava, sendo: a) o número de capítulos: mais de um e bem menos do que uma novela; b) aberto ou fechado quanto a escrita (estar ou não concluído quando a minissérie esta sendo exibida); c) temáticas ligadas a realidade nacional, construídas por meio de textos originais ou adaptados, e o horário e período de exibição.

Já Balogh (2005, p. 193-194) afirma de um modo mais específico quanto a esses formatos:

A minissérie constitui o formato mais fechado de todos os demais formatos de ficção que a tradição televisiva consagrou: séries, seriados, unitários e telenovelas. A minissérie só vai ao ar quando inteiramente terminada. A novela, pelo contrário, mais parece um grande gerúndio em processo de gestação enquanto é exibida, passível de mudanças e modulações, caracterizada por uma cotidianidade próxima àquela da vida do espectador. Todas estas características tornam a novela um texto bem mais poroso e vulnerável às inserções de merchandising, tanto político quanto social, além do comercial propriamente dito. O texto da minissérie devido à sua clausura poética é o que mais se aproxima do universo literário, até mesmo em termos de extensão, que no Brasil é muito mais longa que no estrangeiro, se presta admiravelmente para a transposição de romances. A mesma clausura do texto torna o formato bem mais impermeável do que os demais a qualquer tipo de inserção estranha ao texto, sobretudo de merchandising.

Conforme aponta Reimão (2004, p. 28), outro ponto importante com relação às minisséries é o fato de muitas delas serem adaptações de obras literárias, como:

Nos anos 1980 e 1990, pode-se dizer que, especialmente na TV Globo e Manchete, há uma mudança de orientação no que tange ao formato básico da ficção seriada televisiva baseada em literatura de autores nacionais — esse filão se fará presente basicamente em minisséries. Entre 1980 e 1997 a Globo, a Manchete e a Bandeirantes realizaram mais de vinte minisséries deste tipo. Ou seja, do conjunto das cerca de 70 minisséries produzidas de 1982, ano em que esse formato se consolidou (com Lampião e Maria Bonita, Globo), até fins de 1997, 37 % delas (26) foram adaptações de romances de autores brasileiros.

Ainda que as minisséries dependam de um telespectador mais assíduo e, até certo ponto, mais crítico e apto a lidar com temas polêmicos e variados, elas caracterizam-se por ser um produto mais bem elaborado, que recebe um cuidado diferenciado e possibilitam também uma maior experimentação e ousadia de seus produtores.

A principal diferença entre as novelas e as minisséries é o fato de que as primeiras são mais longas, são exibidas de segunda a sábado, permitem que o telespectador perca alguns capítulos e ainda possa voltar a assisti-las, sem grande prejuízo para a compreensão da trama. As minisséries, por sua vez, são mais concentradas, necessitam de um público mais fixo, pois a perda de um único capítulo pode comprometer o entendimento do seu enredo (REIMÂO, 2004).

As primeiras minisséries exibidas pela TV brasileira começaram por volta de 1982 com a Rede Globo, na qual a mesma exibiu Lampião e Maria Bonita, Avenida Paulista e Quem Ama Não Mata, baseando-se nos modelos ingleses de contar histórias seriadas, sendo exibidas diariamente no horário nobre, mas com poucos capítulos e com apenas um tema central.

A Globo não foi a única a apresentar na TV minisséries, outras emissoras também passaram a exibir em seus canais minisséries assim como as novelas. Tais como a Manchete, Bandeirantes, Canal Viva, Record e Tv Cultura.

Algumas minisséries fizeram muito sucesso no decorrer da história da telemartugia brasileira, uma dessas foi a pioneira na TV, que foi Lampião e Maria Bonita (1982), baseada na vida do icônico cangaceiro brasileiro, com 8 capítulos escritos por Aguinaldo Silva e Doc Comparato. A obra apresentou um novo formato para a teledramaturgia brasileira que resultaria nas mais férteis e qualificadas produções culturais da nossa televisão. Nelson Xavier, Tania Alves, José Dumont, Regina Dourado e Jofre Soares estão irretocáveis em suas interpretações dos tipos nordestinos. Com pesquisa minuciosa, apresentando cenários, figurinos e música (o grande sucesso foi 'Mulher nova, bonita e carinhosa' de Amelinha) rigorosamente fiéis à região Nordeste, virou referência e sempre quando reapresentada é um grande sucesso.

Por isso o modelo brasileiro de televisão segue o desenvolvimento dependente cultural, econômica, política e tecnologicamente, sendo assim, além de divertir e instruir, a televisão favorece aos objetivos capitalistas de produção, tanto quando oportuniza novas alternativas ao capital como quando funciona como veículo de valorização dos bens de consumo produzidos, através das publicidades transmitidas. Além de ampliar o mercado consumidor da indústria cultural, a televisão age também como instrumento mantenedor da ideologia e da classe dominante.

3.4. A construção identitária do negro pela TV

Uma mudança estrutural nas sociedades modernas vem evidenciando uma descentração dos indivíduos tanto no que concerne ao seu lugar no mundo quanto a si mesmo. As concepções de identidade vigoradas até então dão vez ao sujeito pós-moderno, e ao invés de uma identidade fixa passa-se a dispor de uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades, com as quais nos identificamos temporariamente (HALL, 2003).

A TV já faz parte do cotidiano do brasileiro desde os anos de 1950, mas assim como hoje, antigamente não era diferente, em relação a aparição do negro na televisão, os mesmos ainda têm suas aparições muito limitadas quando se fala em novelas, séries, propagandas ou qualquer outro tipo de produto televisivo.

Em virtude dos estereótipos que a mídia mostra, percebe-se que apesar de estarmos em um século modernizado, a atuação de negros na TV ainda é muito banalizada, pois o que se vê é o negro atuando como bandido em um núcleo violento, morador de favela, como empregado doméstico, porteiro, motorista. São raras às vezes que os negros atuam em um papel de destaque ou protagonizando na TV.

De acordo com Pereira et al (2011) esta identidade é criada a partir de um estereótipo de ser socialmente invisível, incapaz de se fazer representar nas demandas sociais, de feiura, pobreza, inclusive a intelectual, de ser dado à luxuria e ao sexo, de ser ligado à criminalidade e à vagabundagem. Essa é a realidade estereotipada do negro brasileiro na sociedade. Enfim, é a impressão que a sociedade branca e ainda escravocrata criou para o negro brasileiro.

A cerca da mulher negra, o estereótipo, além daqueles elencados para os homens negros, supervaloriza o aspecto sexual, caracterizando-a não como esposa desejável, mulher de família, parideira, mas sim como amante submissa, poligâmica, desintelectualizada, orgiástica e disponível.

Com o advento e popularização da televisão como meio de entretenimento usando as telenovelas, as tensões sociais e a realidade cotidiana foram emuladas na tela. Desse modo, com a criação das telenovelas, cada um dos representantes da sociedade brasileira, os atores sociais, foram ali transpostos, mostrando suas virtudes e mazelas, o que tornou possível a observação e a crítica não só da realidade apresentada, mas também de toda a sociedade.

Então, se a sociedade deve ser representada na tela através dos diversos segmentos que a compõem, certamente os negros, ainda com os estereótipos característicos que essa mesma sociedade lhe impinge, também deveriam sê-lo. Ver-se representado na telenovela contribui para o aprimoramento da visão crítica acerca da realidade cotidiana, o que nos leva, enquanto público, a tomar partido e a exigir mudanças nos rumos do folhetim ainda mais quando o que é retratado é por demais desagradável.

Em vista disso, o dia a dia do negro, na tela, também é visto por outros negros e pelos que lhes são simpáticos à causa. Em tese isso também deveria influir na tomada de rumos melhores no destino dos personagens negros nas telenovelas e por tabela, contribuir para acabar com os estereótipos ou minimizá-los, conscientizando as pessoas da nocividade da manutenção desses padrões. Mas não é o que ocorre, pois a telenovela torna visível o cotidiano e o drama do negro, mas longe de contribuir para mudanças (que seriam mudanças de grande monta), excepcionalmente padroniza e naturaliza as condições nas quais o personagem negro se insere.

É que a televisão, assim como as demais tecnologias de comunicação, está sob o controle não dos oprimidos e explorados, mas sim dos representantes de estruturas e arranjos a quem interessam repetir, manter, popularizar e naturalizar os padrões da dominação vigentes, para tanto, mantendo o mito da Democracia Racial e ideologia do branqueamento (relações afetivas inter-raciais), minimizando o espaço do ator negro na telenovela com papéis desinteressantes, próximos daqueles ocupados na sociedade pelo populacho e contando sua história sob a perspectiva daqueles que por muitas vezes passam por subordinados em tais papéis.

As telenovelas se tornaram um hábito popular e fazem parte do cotidiano brasileiro, havendo atores negros de grande destaque nesse processo de mudança cultural no país. Desde a telenovela “Direito de Nascer”, que foi ao ar durante nove meses, entre os anos de 1964 e 1965 é baseada na radionovela do cubano Félix B. Caignet, e foi um grande sucesso na América Latina.

A telenovela “Direito de Nascer” representou um marco na televisão brasileira, após o sucesso conquistado no rádio na década de 40, consagrada como um dos momentos mais relevantes na história da radionovela no Brasil, mobilizando uma verdadeira emoção popular.

Dentre os personagens, saiu consagrada a Dolores, apelidada carinhosamente de “Mamãe Dolores”, interpretada pela atriz negra Isaura Bruno. Marcelo Mansfield descreve a repercussão causada pela personagem “Mamãe Dolores” na sociedade brasileira naquela época:

Em cada salão de barbeiro, em cada mercearia, em cada ponto de ônibus, só se falava dela e de sua emocionante performance. Se alguém chorava, a chamavam de Mamãe Dolores. Se alguém tinha um ataque de sinceridade, outro alguém gritava: “Está bom, Mamãe Dolores” [...] As revistas vasculhavam sua vida: o que gostava, o que lia, qual a sua música favorita, a que horas dormia, a que horas acordava, qual sua filosofia de vida. A tudo, ela respondia, gostava de paz, de sossego e de boas amizades. Lia Orígenes Lessa e Érico Veríssimo. Gostava de qualquer música, em especial de “O homem sem Deus” [...] Dava opiniões bombásticas, como ser a favor do divórcio quando o brasileiro jurava que só a morte separava (MANSFIELD apud ARAÚJO, 2004, p. 85). 

Isaura Bruno consagrou-se depois da interpretação dessa mãe de criação que se dividia entre dois estereótipos: o da mãe negra tradicional, figura tradicional da literatura e teatro brasileiro desde o período da abolição dos escravos no Brasil e pela devoção extrema ao filho e rejeição de qualquer tipo de relacionamento amoroso ou social, estereótipo tipicamente americano.

Todavia, a empatia popular despertada pela personagem negra e a coincidência de ter sido o primeiro sucesso da telenovela brasileira, não representou nenhum indício de que a partir desse grande sucesso, haveria uma associação entre a exibição das telenovelas e a inclusão de atores e atrizes negros em suas tramas.

O que ocorre na televisão brasileira é justamente o contrário do que se esperava desde o sucesso de audiência de “Direito de Nascer”. Após sua exibição, verificou-se um sinal oposto: a escassez de oportunidades para os atores negros, pois a despeito do sucesso de Isaura Bruno e sua posterior participação nas novelas O Preço de uma Vida, O Anjo e o Vagabundo e A Cabana do Pai Tomás, dentre os 47 atores ídolos nacionais na primeira década da telenovela, não havia nenhum negro ou mulato (ARAÚJO, 2004, p. 88).

Ainda de acordo com Araújo (2004, p. 305), mesmo sendo os anos 80 e 90 um período de ascensão do negro na teleficção, das 98 novelas produzidas pela Rede Globo que não tiveram como tema a Escravidão, em 28 delas não foi encontrado nenhum afrodescendente, em 29 o número de negros ultrapassou 10% e em nenhuma delas o total de negros e mulatos chegou a ser 50%.

A despeito desses reveses, os atores negros e mulatos sempre empreenderam uma batalha constante por espaço para dar segmento às suas carreiras artísticas, sempre sonhando em ocupar lugares de destaque na televisão.

Convém analisar e identificar como se deu o processo de representação dos afrodescendentes nas telenovelas, considerando o desenvolvimento do processo histórico, econômico e cultural desde a presença do negro no Brasil, verificando como esse desenvolvimento pode ter refletido na criação dos processos da identidade africana em meio à sociedade brasileira.

O racismo é um elemento presente na sociedade brasileira mesmo após a abolição da escravatura e das leis constitucionais que tipificam o preconceito racial de qualquer etnia, como crime. O racismo é bem descrito por Ella Shohat:

O racismo é a tentativa de estigmatizar a diferença com o propósito de justificar vantagens injustas ou abusos de poder, sejam eles de natureza econômica, política, cultural ou psicológica. Embora membros de todos os grupos possam ter opiniões racistas – não há imunidade genética nesses casos – não é todo grupo que detém o poder necessário para praticar o racismo, ou seja, para traduzir uma atitude preconceituosa em opressão social”1. E uma vez que a opressão é tanto material quanto simbólica, podemos percebê-la também na própria literatura, uma forma socialmente valorizada de discurso que elege quais grupos são dignos de praticá-la ou de se tornar seu objeto (SHOHAT apud ARAÚJO, 2004, p. 88).

O autor Joel Zito Araújo, em seu livro “A Negação do Brasil – O Negro na Telenovela Brasileira” (2004) busca uma discussão sobre o que pode ter prejudicado o processo de autoafirmação do negro nas telenovelas:

Nas proximidades da comemoração de cinquenta anos de existência desse gênero da cultura popular consagrado pelos brasileiros, é mais do que tempo de se efetuar um balanço a partir de um recorte racial. É necessário discutir as distorções que possam ter prejudicado os processos de afirmação da autoestima da população de origem negra neste campo de batalha simbólico, que se trava cotidianamente no nosso mais importante meio de comunicação de massa, a televisão (ARAÚJO, 2004, p. 21).

Ao observar os personagens representados pelos atores negros, convém analisar como eles eram exibidos e caracterizados dentro dos enredos e sua necessidade dentro da trama e sua conexão com a temática principal, ou seja, como se davam as suas aparições nas novelas e a tipificação dos seus personagens, ou seja, se apareciam como confidentes, protagonistas, ou simples personagens.

Araújo (2004) cita alguns elementos retirados de pesquisas feitas a cerca de como os entrevistados veem o meio de comunicação representar o negro na TV.             

Viu-se que os pontos principais que mais se ouviu falar foram quanto aos estereótipos negativos em que os negros são representados. Outro ponto foi em relação à invisibilidade, quando se há uma ação positiva relacionada ao negro. Em terceiro argumento, foi de que a cultura negra é vista como um elemento de diversão do branco, e por fim de como o negro é apresentado nos noticiários como pobre e favelado.

Nesse sentido a afirmação de estudiosos e sociólogos, que estudam sobre a raça, cita a falta da representação do negro na TV seja influenciada diretamente na constituição da identidade do mesmo, e na forma como é vista por outras pessoas.

A televisão não é um meio de alegação do real, mas sim da construção do real. Assim o modelo da identidade negra que a mídia irradia acaba criando um imaginário de rejeição e reforçando os estereótipos sobre o negro em meio à sociedade.

Como relata a professora de antropologia da ECA-USP Solange Martins Couceiro de Lima, no artigo “A personagem negra na telenovela brasileira: alguns momentos” (Revista USP, 2001), a telenovela transpassa visões que acabam sendo veiculado à representações pela sociedade, são elas que atualizam as crenças e os valores providos do imaginário dessa mesma sociedade. Quando a telenovela persiste em retratar o negro como submisso no mundo da ficção, acaba fazendo com que se crie um aspecto de realidade com a situação social do negro na vida cotidiana. Mas por outro lado revela um imaginário, um universo simbólico que não modernizou as relações interétnicas na nossa sociedade.

Desde o inicio das telenovelas na TV brasileira, a evolução quanto à inserção de atores e atrizes negras não evoluiu. Nessa época dos anos de 1960, os negros atuavam apenas em papeis de total subalternidade, em que a mulher sempre aparecia como empregada doméstica ou escrava, e os homens como motoristas ou escravos. As telenovelas da época sempre procuravam confirmar a utopia da democracia racial e da convivência harmônica entre raças.

Nos anos seguintes as novelas começaram a mostrar os conflitos e dramas vividos pelos brasileiros na luta contra a hegemonia social. Mas foi somente nos anos 90 que uma atriz negra fez um papel de protagonista na TV brasileira, em Xica da Silva com Taís Araújo. No ano de 2004, a mesma atriz também fez outro papel principal, só que dessa vez na Rede Globo, em Da Cor do Pecado, foi a primeira vez que uma atriz negra atuou na emissora como protagonista.

Devido ao alcance de público, as telenovelas e séries, bem como as propagandas, são responsáveis por elaborar e propagar modelos de identidade que serão referência para o espectador. Por isso, é necessário que haja uma igualdade racial e papéis de atores e atrizes em contextos mais positivos.

3.5. Manifestação da identidade negra

As manifestações da identidade negra são facilmente passíveis de observação, visto que é muito usual entre os afrodescendentes, a busca pelo pertencimento a um grupo social, para garantir um sentimento de proteção e como alternativa de combater o sentimento de exclusão inerente na sociedade brasileira. Entre os objetivos comuns, é frequente o engajamento em grupos de oposição ao racismo.

Em todas as sociedades, existem vários tabus e mitos envolvendo a sua cultura e o seu processo de desenvolvimento histórico.

Na sociedade brasileira, em termos raciais, existe uma ideologia do branqueamento e o mito envolvendo a democracia racial, que culmina no objetivo de “limpar” a herança africana. Essa ideologia é responsável pela dificuldade de se promover a autoestima dos afrodescendentes, pois afirma ser a miscigenação e a assimilação dos valores brancos o caminho para alcançar a condição de um povo homogêneo, mais puro, dissolvendo gradativamente o sangue negro do ex escravo e seus descendentes e consequentemente resolvendo um aludido problema étnico racial (CORREA, 2001).

A ideologia do branqueamento é um conjunto de pressões socioculturais hegemônicas brancas que consiste, além da pressão para que o negro negue suas origens e assuma valores brancos, na tese de que o intercurso sexual entre negros e brancos deva produzir indivíduos mais claros do que o pai ou mãe negros, nunca o contrário, de forma que esse branqueamento torne as famílias dos negros menos suscetíveis ao racismo, enfim que as diferenças raciais que impossibilitam a formação de um povo homogêneo, branco, sejam amenizadas, se não forem, ao longo do tempo, suprimidas.

Desde a década de 80, surgiram estudos com o objetivo de compreender as origens da ideologia do branqueamento no Brasil (ARAÚJO, 2004):

Na virada para o século XXI, passados mais de cem anos do início do movimento eugenista, negros e índios continuam vivendo as mesmas compulsões desagregadoras de uma autoimagem depreciativa, gerada por uma identidade racial negativa e reforçada pela indústria cultural brasileira, a qual insiste simbolicamente no ideal de branqueamento, sendo um dos seus corolários o desejo de euro-norte-americanização (ARAÚJO, 2004, p.36 ).

A publicidade possui grande influência na sociedade como ferramenta de transformação de cultura e de valores, instigando o consumo e determinando comportamentos, dessa forma, “a publicidade oferece aos nossos desejos um universo subliminar que insinua que a juventude, a saúde, a virilidade, bem como a feminilidade, dependem daquilo que compramos” (TOSCANI, 2000, p.28).

Na mídia brasileira se verifica um baixo percentual de negros em comparação aos brancos, principalmente que concerne à programação das redes televisivas e propagandas divulgadas de todas as maneiras, pois a ideologia do branqueamento é também uma estética de branqueamento que se tornou referência para a telenovela brasileira.  Considerando que a parcela dos negros na população brasileira é representada pela metade, esse percentual é muito desproporcional.

Segundo uma pesquisa realizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Pesquisa e Estatística), no ano de 2005, metade da população brasileira era considerada negra. De acordo com Joel Zito Araújo:

Os interditos do tabu racial, que rejeitam a negritude e promovem a branquitude, com seus modelos de estética e bom gosto calcados nas construções do mundo branco, trouxeram também problemas discriminatórios no meio e na imagem da televisão... ...Além da telenovela, podemos ver os reflexos dessa realidade nos comerciais de tevê. Aí percebemos as consequências do desinteresse histórico da elite brasileira em formar um mercado consumidor amplo, em seu próprio país, e da preferência pela imigração da mão-de-obra europeia no período final da escravidão, em detrimento do trabalhador negro. Empresários, publicitários e produtores de tevê, como norma, optam pelo grupo racial branco, nos processos de escolha de modelos publicitários, na estética da propaganda e até mesmo nos critérios de patrocínio ou apoio a projetos culturais. É uma constante a negativa de incentivo cultural aos programas de tevê voltados para a população afro-brasileira, normalmente sob a alegação de não haver retorno comercial. O empresário brasileiro, em sua grande maioria, não acredita que o negro seja uma força econômica. Na lógica dessa maioria, preto é igual a pobre, que é igual a consumo de subsistência (ARAÚJO, 2004, p. 38-39).

Na década de 60, considerada o marco dos primeiros anos da televisão brasileira ocorreu um grande desastre e prejuízo para a memória da televisão nacional em decorrência da perda de centenas de filmes e tapes filmados em função de um incêndio que atingiu a TV Tupi e a TV Globo, que culminou na destruição de registros das telenovelas e filmes reproduzidos nessa época.

O registro dessas reproduções ficou gravado apenas na memória de alguns atores, técnicos, autores, e diretores que permanecem vivos até os dias atuais, além do público pertencente a essa época e teve a chance de assistir aos filmes e telenovelas da década mencionada acima.

Isso prejudicou a realização de uma análise sobre a distribuição de papéis para os atores e atrizes negras. Todavia, é presumível que durante esse período, marcado pela reprodução de melodramas latino-americanos, foi marcado pela ausência de papéis para negros na televisão.

Ainda que as novelas no Brasil tenham sido consolidadas no mesmo ano do golpe de estado (1964), elas foram reproduzidas de modo completamente alienado aos acontecimentos políticos no país no período mencionado, mantendo as velhas estruturas tradicionais e o padrão norte-americano televisivo (ARAÚJO, 2004, p.41).

Foi assim que as primeiras novelas que podem ser consideradas como marcos iniciais da presença de atores negros reproduziram histórias e estereótipos de outros países da América Latina, como A gata, lançada pela TV Tupi em maio de 1964, uma adaptação de Ivani Ribeiro de um texto de Manuel Muñoz Rico e que trouxe o tema da escravidão através de uma história centrada nos problemas dos escravos das Antilhas, no século XIX, ignorando a realidade escravista brasileira. E como destacou Ismael Fernandes: “Mesmo as transformações feitas pelos autores mantiveram-se longe das modificações políticas por que passava o Brasil”.

Sabe-se que muitas novelas que foram ao ar se basearam em romances literários, sobretudo nos anos 70, como Helena (1975), Senhora (1975), O Feijão e o Sonho (1976), Cabocla (1979), Olhai os Lírios do Campo (1980), As Três Marias (1981), dentre outras.

Todavia, observa-se que majoritariamente, os personagens do romance brasileiro contemporâneo são de raça branca, com presença 10 vezes maior, comparado à presença de negros na mesma categoria. A tabela 1 a seguir ilustra a o arranjo dos personagens de acordo com a cor.

Fonte: DALCASTAGNÈ, Regina (2005). “A personagem do romance brasileiro contemporâneo: 1990- 2004”, p. 45.

3.6. O corpo da mulher negra como demarcação

De acordo com a história oficial, que não leva em conta o papel do negro na sua própria libertação, a Escravidão foi abolida por ato unilateral de quem detinha o poder em 13 de maio de 1888, ou seja, há 127 anos. Em termos humanos, este tempo é longo, mas visto pelos dados históricos e da perspectiva do país e da sociedade como um todo, não ocorreu há tanto tempo assim.

Contudo de acordo com Du Bois (2001, p. 12-14) já se dizia elucidada quanto à diversidade estética de negros que compreendiam os países africanos, considerando a tonalidade da pele, a textura do cabelo, a robustez dos corpos, a altura e a cor dos olhos.

Com isso deve-se refletir quanto às questões sobre os traços fenótipos das negritudes implicando assim uma reflexão mais ampla à questão dos corpos negros, onde esse é cada vez mais entendido como uma categoria social.

Onde frequentemente as pessoas fazem desta reflexão um problema de modo a exercerem vigilância principal sobre as mulheres negras ao que se diz em relação aos modos que devem performar sua aparência, fazendo assim cobranças quanto à maneira de usar os cabelos, a roupa que vai vestir e os acessórios, para não ocasionar vulgaridade, tentando de alguma maneira estar assim à mulher negra em seu autocontrole de sua aparência física.

Mesmo a mulher negra estando em controle consigo mesmo, a visão que é feita dela geralmente não se condiz com que realmente é, na maioria as pessoas julgam o corpo da mulher negra apenas por acharem conveniente, mas a realidade por trás é que fazem isso por preconceito quanto a cor da pele da mesma. Pois em momento algum se olha o quanto de valor ela possui, de qual lugar na sociedade ocupa, ou até em relação aos seus ideais.

Tendo em vista os ditos anteriores podemos observar que essas perspectivas vêm de um processo histórico, no qual, de acordo com Silva (2009, p. 71) é possível perceber que as mulheres negras são:

Marcadas pelo estigma da escravidão, à elas permanecem destinados os trabalhos sem qualificação, trabalhos que dispensam inclusive a educação e a instrução, sobre elas pesam além das diferenças de gênero também as de raça. O que observamos é que com papeis sociais naturalmente diferenciados como adequados, os nexos explicativos da condição da mulher negra remetem, primeiramente a sua condição de escrava. Sobre elas recaem tanto as representações em relação ao uso de seu corpo enquanto objeto sexual como aquelas que a vêm adequado ao trabalho doméstico.

Percebe-se que a demarcação dada ao corpo da mulher negra acaba por vezes sem referência, alienando entre o prazer e o trabalho, que se vê aprisionada a certos tipos de visões preconceituosas (SILVA, 2009).

Levando em vista o processo histórico no qual observamos desde muitos anos, ainda na escravidão, pesquisas feitas através de jornais, internet e revistas, mostram o quanto à mulher negra vem sendo discriminada, passando por vários processos de aprisionamento, dilaceramento, inferiorizarão e até mesmo quanto a sua classificação, tudo para que assim a sociedade se sinta satisfeita em relação a suas opiniões.

O racismo e o preconceito por parte do “homem branco” para com a cor negra vêm de herança de um chamado cativeiro que atravessara gerações em torno de nossa existência, perfazendo uma sociedade “branca” cheia de tabus e preconceitos, desempenhando assim um papel submetido a modelos construídos por essa sociedade.

A luta de um povo negro por sua independência seja ela financeira ou moral, pois se faz com vontade e desejos pela própria vida, na qual mulheres e homens buscam mudanças para que possam viver a realidade idealizada.

Carneiro (2002, p. 181) aponta tal papel em que a mulher negra vive na sociedade no que condiz a sua condição:

A condição de mulher e negra, os papéis históricos que as mulheres negras desempenham nas suas comunidades, a comunidade de destino colocada para homens e mulheres negras pelo racismo e pela discriminação impedem que os esforços de organização das mulheres negras possam se realizar dissociados da luta geral de emancipação do povo negro. Portanto, o ser mulher negra na sociedade brasileira se traduz na tríplice militância contra os processos de exclusão decorrentes da condição de raça, sexo e classe. Isto é, por força das contradições que o ser mulher negra encerra, recai sobre ela a responsabilidade de carregar politicamente bandeiras históricas e consensuais do movimento negro e do movimento de mulheres e somarem-se ainda aos demais movimentos sociais voltados para a construção de outro tipo de sociedade, baseada nos valores da igualdade, solidariedade, respeito à diversidade e justiça social.

Com isso, pode-se perceber que historicamente o corpo da mulher negra sempre esteve em discussão. O mesmo deixou de estar na condição de humano e passou a uma condição coisificada, perfazendo a vontade de seus senhores, servindo e alimentando toda perversidade sexual que tinham.

Observando a respeito do quanto à sensualidade e erotização na qual as mulheres negras foram submetidas, pensa-se assim na construção do estereótipo[5] da mulata. Este é conceituado pelos autores Gillian e Gillian (1995) como sendo o símbolo da sensualidade negra, originando-se a construção de uma imagem quanto à mulher brasileira.

O “ser mulata” no Brasil, assim como o “ser negro”, passa por algumas variáveis, como região, idade, entre outros. Esta caracterização e hierarquia passam também, claramente, por fatores estéticos. A beleza, pelos padrões brasileiros, está sempre associada à branquitude. A “mulata” apresenta traços brancos que a fazem desejável sexualmente, porém ostentam a imagem de libertinagem sexual relacionada à negritude, tornando-se assim o perfeito objeto sexual dentro do imaginário da brasilidade. A imagem da negra hipersexualizada no Brasil criou a imagem da “mulata”, este estereótipo ganhou ainda mais força na década de 1970 com o apresentador Oswaldo Sargentelli, que se autodenominava “mulatólogo” (especialista em “mulatas”).

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Em seu programa, ele apresentava bailarinas, sambando de biquíni, e criou o termo “mulatas tipo exportação” para designar as mulheres que se encaixavam em seu padrão estético. Foi com os “shows de mulatas” que este termo deixou de designar somente mestiçagem e passou a determinar um tipo de mulher, e uma ocupação, existem mulheres que se denominam e encontram gratificação como “mulatas profissionais” (GILLIAM e GILLIAM, 1995).

Para a mulher negra, o estereótipo, além daqueles elencados para os homens negros, supervaloriza o aspecto sexual, caracterizando-a não como esposa desejável, mulher de família, parideira, mas sim como amante submissa, poligâmica, desintelectualizada, orgiástica e disponível. Devido a esse passado histórico em que fora marcado pela desumanização quanto ao corpo da mulher negra, teve como consequência um obstáculo quanto à individualidade social, direcionando assim um processo de indivíduo comprometido.

De acordo com Rodriguez (1983) o corpo funciona como marca dos valores sociais e nele a sociedade fixa seus valores e sentidos, onde o mesmo ainda enfatiza que a “utilidade do corpo como sistema de expressão não tem limites”. Já para Schwarcz (1996) o conceito do corpo negro vai além de ser só um corpo, ele diz que o corpo é “uma peça ou coisa”, onde a dualidade apresentada perpassa por perspectiva onde não se pode ignorar que sempre houve resistência quanto ao povo negro.

Perante a essa luta para se fazer respeitar na sociedade a mulher negra construiu em si a premência de lutar e de resistir, no qual coube a ela estar inserida na busca de melhores condições, clareza e respeito em momentos diferentes e distintos de sua vida.

Nesse sentido Gonzalez (1982, p. 104) destaca a mulher negra como:

É a mulher negra anônima, sustentáculo econômico, afetivo e moral de sua família, aquela que desempenha o papel mais importante. Exatamente porque, com sua força e corajosa capacidade de luta pela sobrevivência, transmite a suas irmãs mais afortunadas, o ímpeto de não nos recusarmos à luta pelo nosso povo. Mas, sobretudo porque, como na dialética do senhor e do escravo de Hegel – apesar da pobreza, da solidão quanto a um companheiro, da aparente submissão, é ela a portadora da chama da libertação, justamente porque não tem nada a perder.

Por outro lado, vê-se a sexualidade da mulher como um campo diverso e subjetivo, e com isso nada a seu respeito é unânime, e a construção da sexualidade de cada pessoa é única. Mas, visto de outro lado, a resposta da sociedade com relação a esse erotismo feminino costuma-se ser obsoleto, pois enquanto esse sistema de organização social subjuga as mulheres, o quadro é especialmente complicado para as mulheres negras.

Na sociedade brasileira as manifestações da identidade negra são facilmente passíveis de observação, visto que é muito comum entre os afrodescendentes, a busca pela entrada a um grupo social, para garantir apoio e como alternativa de combater o sentimento de recusa inerente há sociedade brasileira. Entre os objetivos comuns, é frequente o engajamento em grupos de oposição ao racismo.

Hoje na sociedade brasileira o racismo existe tanto na força econômica quanto na cultura em que o preconceito de cor possui grau de interdição muito mais elevado do que o preconceito do gênero. Sendo assim, tem-se a ideia da mulher como ser inferior e incapaz de ser protagonista social e cultural de sua própria história, acabando-se por vez ser transportada através dos séculos.

O fato de grande parte da população e da cultura brasileira possuir traços genéticos, históricos e culturais da raça negra, verifica-se que o negro é exibido na mídia de forma estereotipada, muitas vezes negativa, outras delas pouco percebido, ou é simplesmente ignorado.

A exploração sexual das mulheres negras, ou mesmo o abuso transformou-se em uma espécie de tradição social histórica, difícil de ser rompida. Para Bobo (1995), no entanto, a imagem da violência sexual contra a mulher negra nunca foi um símbolo forte de opressão racial. Na realidade, este contínuo abuso foi legitimado e impune, mostrando estas mulheres como coniventes ou, de certa forma, responsáveis por sua própria exploração sexual.

Tornando realidade a colocação de que “as mulheres brancas podem perder a honra pelo comportamento delas, porém esta lhes é atribuída a priori; as mulheres negras têm que lutar para adquiri-la” (GILLIAM e GILLIAM, 1995, p.530). Esta imagem da mulher negra como objeto sexual sobrevive através de diversos meios, formando um ciclo que se repete entre a perpetuação de uma imagem pela mídia e reflexão desta imagem no ideário social.

Nos dias de hoje pode-se ver e perceber que a importância que a mulher negra tem na sociedade se designa quanto à questão estética, no qual a mulher é vitima de uma forte desvalorização e desrespeito quanto a sua imagem, a começar pelos mercados que produzem produtos de beleza específicos à sua raça, ainda é pouco desenvolvido, e com isso não é dado aprofundamento necessário às características negras como símbolo de beleza.

Outro exemplo de dificuldade para mulheres negras é o fato de terem o cabelo crespo e por isso não conseguir se adequar ao padrão de beleza, depois da cor da pele o cabelo é o maior símbolo estético de estigma, sofrendo desvalorização evidente, que por muitas vezes são vítimas de racismo, sendo chamadas de “cabelo ruim”. Visto os avanços tecnológicos, maiores são as opções para as mesmas quanto ao tratamento dado aos cabelos, mas ainda assim para as mulheres negras esses tratamentos ainda costumam ser delimitados.

Alguns modelos de belezas específicos a mulheres têm traços e características estilos europeias, grupo de mulheres afrodescendentes que se destacam como símbolos de beleza são comuns, ainda que elas tenham cor mais clara e feições menos africanas podem ter como exemplo disso a trajetória das mulheres negras nas telenovelas brasileiras, no qual duas grandes atrizes negras da atualidade em nosso país, Camila Pitanga e Taís Araújo, possuem algumas características físicas menos africanizadas, Camila Pitanga possui cabelo naturalmente ondulado, e Taís Araújo, embora tenha apresentado diversos tipos de penteados em sua carreira em novelas, mostra-se com cabelos cacheados.

Atualmente, a ação da mídia parece indicar uma maior visibilidade da feminilidade negra em propaganda e revistas feministas, todavia nem sempre o que está por trás é o respeito às diferenças, com isso as mesmas continuam gerando embates violentos e provocando conflitos raciais, no qual esses mesmos conflitos são mascarados por discursos perversos, sendo estes motivados pelo pensamento de senso comum do que seria correto.

O fato é que seria incoerente analisar a sexualidade da mulher negra com a mesma ótica que observamos a mulher branca. Há fenômenos socioculturais específicos de uma população negra, especialmente dentro de um contexto de segregação e classe social – e essas especificidades podem funcionar, ao mesmo tempo, como opressoras e emponderadoras para mulheres negras.

3.7. Enunciação do negro

Do século XVI até o fim do século XIX, os negros eram tratados como animais, seres repulsivos, ignorantes e desprovidos de história. Mesmo na República, supostamente igualitária, continuam excluídos. Com algumas exceções, sua imagem coletiva é negativa, fruto do desdém com que são tratados pela cultura dominante. Foi por isso que, ao longo nas últimas décadas do século XX, intelectuais e ativistas negros resolveram assumir o "poder de enunciação" por muito tempo monopolizado por aqueles a quem se atribuía um papel preponderante na produção do saber (GUIMARÃES, 2004).

Eles ao apropriarem novamente do discurso, da imagem dos negros e de sua memória, reinterpretaram os fatos históricos para tentar eliminar as representações culturais negativas dos negros e suas consequências sociais, como a discriminação nos locais de trabalho, buscando criar uma identidade coletiva positiva, livre das injunções da cultura dominante. Esse movimento provocou forte polêmica com um grupo de intelectuais famosos que veem nisso a iminência de um conflito aberto entre brancos e negros. O reapropriamento do discurso representa uma novidade, já que um número crescente de intelectuais negros fala cada vez mais em seu próprio nome (GUIMARÃES, 2004).

Fernandes (1972, p. 25) refere-se a essas culturas do negro como: “através dos processos de mudança psicossocial e socioculturais reais e sob certos aspectos profundos e irreversíveis, subsiste uma larga parte da herança cultural, como se o indivíduo se condenasse na esfera das relações raciais, a repetir o passado no presente”.

O essencial não era a ascensão social de certa porção de negros, nem a igualdade racial, mas sim a hegemonia da raça, ou seja, a eficácia das técnicas de denominação racial que mantinham o equilíbrio dessas relações, e que asseguravam a continuidade da ordem.

Porém, ao tomar a palavra em pé de igualdade, munidos de argumentos, eles interpelam aqueles que detinham o monopólio do saber e que jamais se haviam confrontado com um contra discurso produzido por intelectuais negros, representando um segmento populacional secularmente ignorado, depreciado e considerado incapaz do ponto de vista moral e intelectual. Levando-se em conta os argumentos acima, seria mais judicioso, sem dúvida, utilizar doravante a expressão “tomada do poder de enunciação” em lugar do termo “reapropriamento”, o qual subentende uma retomada de posse de alguma coisa, no caso presente, de um discurso, de uma imagem e de uma memória (GUIMARÃES, 2004).

Por “tomada do poder de enunciação” designa-se, antes de tudo, que se trata de mais que a retomada de um simples discurso existente, também não se trata apenas da tomada de posse dos discursos estabelecidos, mas igualmente de uma reação, de uma releitura e de uma crítica que permitem a ocupação do "território intelectual" por outras concepções do discurso. É nesse sentido que se faz necessário compreender a expressão do "poder de enunciação" com um exercício relacional que se inscreve na esfera da política.

A reinterpretação por artistas, escritores e intelectuais afrodescendente dos cânones de beleza que privilegiavam a estética helênica em detrimento da pluralidade de concepções do que é belo e do que é feio, participa do poder de enunciação que vem a estimular mediante as reivindicações políticas novas práticas sociais e culturais. O mesmo se faz quando se colocam em evidência fragmentos esquecidos da história dos descendentes de escravos africanos e afro-brasileiros. Essas reinterpretações são também tomadas de posição que devem ser compreendidas como intervenções num debate intelectual por muito tempo fechado à crítica contrastada dos intelectuais negros (GUIMARÃES, 2004).

A partir daí se pode compreender que o tom alarmista utilizado pelos adversários das políticas de ação afirmativa decorre não dos pretensos conflitos e ódios raciais que delas resultariam, mas da ascensão dessas novas concepções do discurso, da imagem e da memória que eles atacam e, acima de tudo, mas da desestabilização de sua convicção e do enfraquecimento do monopólio do discurso intelectual. Em suma, é seu pensamento intelectual que está em jogo ao ser submetido ao questionamento não apenas daquilo que é a nova nação brasileira emergente, mas de sua ideia de nação forjada anteriormente sem a participação dos afro-brasileiros e dos povos indígenas.

A partir disso Bourdieu (2003, p. 20) tem seu próprio esclarecimento quanto ao assunto:

Dado o fato de que é o princípio de visão social que constrói a diferença anatômica é que esta diferença socialmente construída que torna fundamento e a caução aparentemente natural da divisão social que a alicerça, caímos em uma relação circular que encerra o pensamento na evidência de relações de dominação inscritas ao mesmo tempo na objetividade, sob a forma de divisões objetivas e na subjetividade, sob a forma de esquemas cognitivos que, organizados segundo essas divisões, organizam a percepção das divisões objetivas.

Sendo assim, no momento de julgar ou pensar sobre as relações raciais confundem o que é biológico com o que é social, cultural, ou manipulam politicamente essas dimensões complementares, mas não revolutivas.

4. FUNDAMENTAÇÃO METODOLÓGICA

Esse trabalho teve como ponto de partida uma pesquisa bibliográfica com autores, tais como: Manhães (2006), Foucault (1992), entre outros, que certamente contribuíram para dizer como a Análise do Discurso dialoga com a minissérie “Sexo e as Negas”. Sendo na mídia que os cidadãos buscam inteirar-se de informações acerca da realidade na qual se insere com o intuito de saber o que acontece ao seu redor, é passível de consideração refletir sobre o discurso dessa mídia.

Sendo assim esse estudo encerra em seu discurso uma proposta de analisar o modo que a série “Sexo e as Negas” contribui para a manutenção/construção da imagem da mulher negra no Brasil. Ou seja, a análise do discurso que permeia a relação entre o que a referida série mostra e o que ela pode provocar na formação do conceito e preconceito em relação à mulher negra no Brasil. Para Manhães (2006), a discursividade implica a compreensão de que a mensagem é construída no interior de uma conversa e é a concretização de um ato. O ato, no caso presente, pode ser considerado a manutenção do estereótipo construído ainda no Brasil Colônia, que mostra a mulher negra como sempre disponível para a sexualidade, sempre em busca de proporcionar prazer sexual, na mesma medida que o tem.

Diferentes autores que tratam da análise do discurso defendem que há duas diferentes abordagens de análise do discurso: francesa e a anglo-saxã. A primeira diz respeito a uma perspectiva ideológica e enfatiza o assujeitamento do emissor que no entendimento de Manhães (2006) se expressa mediante a incorporação de discursos sociais já instituídos: o religioso, o científico, o filosófico, o mitológico, o poético, ou o jornalístico, o publicitário, o corporativo e outros.

A segunda abordagem está numa perspectiva pragmática e caracteriza-se, no entendimento desse autor em utilizar pragmaticamente as palavras para fazer coisas, embora ele não descarte o fato de o sujeito estar obrigado a obedecer a imperativos linguísticos, o que implica um relativo assujeitamento.

Entretanto, afirma ele, o sujeito é movido para uma razão que visa a fins específicos em situações específicas, datadas e determinadas. Nesse sentido Maingueneau (1998), observa que nos Estados Unidos a análise do discurso é marcada pela antropologia, e na França pela linguística e pela psicanálise. Identifica-se que no Brasil, a Análise de Discurso é marcada por uma nova dinâmica, assinalando outros tempos e revelando novas maneiras de ler as materialidades. Isso é colocado como uma construção disciplinar - bem específica - no interior dos programas de formação de pesquisadores das principais universidades brasileiras.

Segundo Fonseca Jr (2014, p. 29):

Para compreender, de forma completa, a esfera comunicacional, é necessária a compreensão do método da análise de conteúdo (AC). Essa técnica, de forma geral, busca, ordenadamente e sistematicamente, em algum contexto específico, expressões ou ideias pouco claras, as quais, muitas vezes, passam despercebidas, porém, suficientemente capazes de passar uma determinada mensagem. Embora o seu primeiro uso, pelo menos o primeiro registro, tenha ocorrido no século XVIII – busca por heresia em hinos religiosos -, essa metodologia só foi claramente utilizada no século XX.

Considerando que a análise do discurso é um método cujo objetivo principal, além de compreender uma mensagem, é reconhecer nela qual a intencionalidade que conduz o seu sentido, ou seja, o seu valor e sua dependência com um determinado contexto. Nesse sentido diz-se que a análise do discurso pode ser considerada como estudo de palavras e expressões: tanto a forma quanto o uso no contexto, bem como, dos significados ou interpretações de práticas discursivas. Com esse olhar, Manhães (2006, p. 305) afirma que:

A noção de discurso é uma consequência da premissa hermenêutica de que a interpretação do sentido deve levar em conta que a significação é construída no interior da fala de um determinado sujeito; quando um emissor tenta mostrar o mundo para um interlocutor numa determinada situação, a partir de seu ponto de vista, movido por uma intenção.

A análise do discurso é um método cujo objetivo é não somente compreender uma mensagem, mas reconhecer qual é o seu sentido, ou seja, o seu valor e sua dependência com um determinado contexto, análise do discurso como sendo o estudo de palavras e expressões.

O autor revela nesse texto que a partir da hermenêutica que encerra em si mesma o compromisso com a interpretação do sentido da mensagem a ser passada deve-se levar em conta o que diz Manhães (2006, p. 306): [...] a significação é construída no interior da fala de um determinado sujeito, quando um emissor tenta mostrar o mundo para um interlocutor, numa determinada situação, a partir do seu ponto de vista, movido por uma intenção.

Enfim, pretende-se ao final desse estudo levantar questões e promover reflexões referentes ao papel da TV na manutenção/construção de valores, contribuindo para a formação de opinião da imagem estereotipada do negro e em especial, da mulher negra no Brasil.

Pretende ainda, mostrar que em um significativo número de programas de televisão o negro, quase sempre tem sido representado inserido num contexto de conformismo com sua condição de negro e pobre, figurando, portanto, naqueles papéis que lhe são cabíveis: porteiro, zelador, motorista de ônibus, lixeiro, chofer de empresário, morador de subúrbio, pai suburbano, aposentado e socialmente conformado da mulata sexy e disponível.

Um olhar mais acurado mostra que a TV caricatura o negro, ela o apresenta como um alienado ou alguém ostensivamente engraçado, piadista, alguém que forçosamente se insere no contexto da trama, sem entender a sua real condição. Ele está ali para divertir, para mostrar o quanto o negro pode rir da sua condição de pobre, sem se dar conta disso e achar tudo normal, pois na sociedade real, que as novelas pretendem imitar é normal alguém sempre levar a pior, pois isso faz parte do comportamento da sociedade.

A forma como esse importante meio de comunicação vem tratando o negro, ao longo de sua história, contribui, de forma marcante, para que o negro cresça se colocando como mero coadjuvante na história do país e muitos tem vergonha em se afirmarem negros, pelo fato de não conhecerem sua história, que não é disciplina obrigatória nas escolas e também por não se veem na TV.

Diante disso o que se pretende nesse estudo é analisar, a partir da Análise do Discurso feito por meio de imagens e texto e contexto, veiculados na série o Sexo e as Negas, na tentativa de identificar de que forma o discurso pode interpelar o indivíduo através de sua sensibilidade que está ligada ao seu contexto, contribuindo dessa maneira, com a manutenção do preconceito contra a mulher negra no Brasil.

Esse estudo deverá levar em conta que a sensibilidade dos sujeitos define-se a partir do que ao longo de sua vida se torna importante e aguça seus sentimentos. Com isso, pretende-se identificar também se o discurso apresentado na série expressa a mesma capacidade ideológica que o discurso verbal, sabendo-se da vantagem de a TV atingir o indivíduo esteticamente, o que pode render muito mais rápido e de forma mais sólida, garantindo o sucesso do discurso nela aplicado.

Com a análise de aspectos do discurso pode-se chegar ao mais importante: o sentido. Vale lembrar que o sentido do discurso não é fixo, por inúmeros motivos o contexto, a estética, a ordem de organização do discurso e pela sua forma de construção. Enfim, espera-se com esse estudo levantar questões e promover reflexões referentes ao papel da TV na manutenção/construção da imagem estereotipada do negro e em especial, da mulher negra no Brasil.

Para Fachin (2006), todo trabalho científico deve ser baseado em procedimentos metodológicos, os quais conduzem a um modo pelo qual se realiza o conhecer, o agir e o fazer. Assim, pode-se considerar a metodologia como o conjunto de métodos e técnicas utilizados para a realização de uma pesquisa existindo duas abordagens: a qualitativa e a quantitativa.

Do ponto de vista da sua forma será Qualitativa, em que, se preocupa com uma realidade que não pode ser quantificada. Ela trabalha com o subjetivo dos sujeitos, Também pode trabalhar com dados, porém o tratamento não deve envolver somente a estatística, mas a busca pela compreensão, visando proporcionar maior familiaridade com o problema, com vistas a torná-lo mais explícito com o estudo de caso.

Para o presente estudo, foi realizada uma pesquisa qualitativa na categoria Análise do Discurso, já que a mesma tem exercido um papel significativo no estudo das ciências sociais contemporâneas (HOWARTH, 2000). Esta análise tem sido frequentemente utilizada em estudos antropológicos e literários. Considerando o tema desta pesquisa, acredito que este tipo de análise seja a mais apropriada para este estudo.

Levando em consideração que para esta pesquisa, usei como referência bibliográfica a análise de vários autores a respeito da participação do negro na mídia e da consequente utilização de estereótipos dos personagens representados por eles, antes de tudo, fez-se necessário uma recusa às explicações clichê e ao preconceito generalizado sobre o tema, dessa forma, a Análise do Discurso contribuirá para uma avaliação concreta, evitando equívocos de linguagem.

Para uma Análise do Discurso eficiente, será necessária uma tentativa de desprendimento do aprendizado e dos preconceitos adquiridos ao longo da vida e em meio a uma sociedade predominantemente negra, e ao mesmo tempo racista. A Análise do Discurso contribuirá de forma expressiva para uma análise perspicaz, levando em conta, uma perspectiva histórica e cultural do meio social vigente.

Para evitar análises distorcidas da realidade apresentada hoje na mídia brasileira no que concerne à imagem veiculada do negro e da existência ou não de estereótipos que contribuem para uma formação de opinião equívoca na sociedade, com a consequência negativa de criação de conceitos e preconceitos contra o negro na sociedade, a Análise do Discurso de toda a leitura bibliográfica será bastante eficaz.

Considero de grande importância, a escolha feita por mim, em utilizar o método de Análise do Discurso para este projeto, para que se possa fazer uma análise profunda das críticas e estatísticas apresentadas com relação à presença do negro na mídia e as suas articulações nas telenovelas e demais categorias de entretenimento.

Tendo em vista que o presente estudo sobre o negro na mídia pode ser categorizado como um estudo de gênero e também antropológico, visto que busco traçar um paralelo histórico e cultural acerca do processo de desenvolvimento e evolução do negro na sociedade brasileira, a Análise do Discurso se torna muito plausível numa pesquisa referente à participação da raça negra na mídia brasileira.

Pode-se afirmar que não há melhor maneira de compreender a realidade de forma objetiva, ignorando a construção de uma realidade existente dentro de uma trama discursiva. Sendo assim, a Análise do Discurso possui fundamental importância no entendimento da realidade tal como ela é.

Nesta pesquisa foram examinados e estudados, os diferentes papéis exercidos pelos negros na mídia, bem como a evolução histórico-cultural da atuação dos mesmos nas novelas e outras categorias de entretenimento, que fazem parte de forma intrínseca da cultura brasileira, como as minisséries. Será utilizada como estudo de caso a minissérie “Sexo e as Negas” de autoria do Miguel Falabella.

Em História da Sexualidade, o pensador Foucault evidencia a existência de um condicionamento mútuo e duplo com relação às práticas discursivas e não discursivas, mantendo permanente a ideia de que o discurso será uma constituição da realidade e, dessa forma, produziria múltiplo saberes.

...gostaria de mostrar que o discurso não é uma estreita superfície de contato, ou de confronto, entre uma realidade e uma língua, o intrincamento entre um léxico e uma experiência; gostaria de mostrar, por meio de exemplos precisos, que, analisando os próprios discursos, vemos se desfazer os laços aparentemente tão fortes entre as palavras e as coisas, e destacar-se um conjunto de regras, próprias da prática discursiva. (...) não mais tratar os discursos como conjunto de signos (elementos significantes que remetem a conteúdos ou a representações), mas como práticas que formam sistematicamente os objetos de que falam. Certamente os discursos são feitos de signos; mas o que fazem é mais que utilizar esses signos para designar coisas. É esse mais que os torna irredutíveis à língua e ao ato da fala. É esse “mais” que é preciso fazer aparecer e que é preciso descrever (Foucault, 1986, p.56)

4.1. Considerações sobre a análise de conteúdo

A análise de conteúdo atualmente pode ser definida como um conjunto de instrumentos metodológicos, em constante aperfeiçoamento, que se presta a analisar diferentes fontes de conteúdos (verbais ou não-verbais). Quanto à interpretação, a análise de conteúdo transita entre dois polos: o rigor da objetividade e a fecundidade da subjetividade. É uma técnica refinada, que exige do pesquisador, disciplina, dedicação, paciência e tempo. Faz-se necessário também, certo grau de intuição, imaginação e criatividade, sobretudo na definição das categorias de análise. Jamais esquecendo, do rigor e da ética, que são fatores essenciais (FREITAS, CUNHA, & MOSCAROLA, 1997).

A condução da análise dos dados abrange várias etapas, a fim de que se possa conferir significação aos dados coletados (ALVES-MAZZOTTI; GEWANDSZNAJDER, 1998). No que tange às diferentes fases inerentes à análise de conteúdo, autores diferenciam o uso de terminologias, entretanto, apresentam certas semelhantes (TRIVIÑOS, 1987). Tendo em vista tamanha diversidade, mas ainda assim, aproximação terminológica, optou-se por tomar como balizador, deste estudo, as etapas da técnica propostas por Bardin (2006). Essas etapas são organizadas em três fases: 1) pré-análise, 2) exploração do material e 3) tratamento dos resultados, inferência e interpretação.

A primeira fase, pré-análise, é desenvolvida para sistematizar as ideias iniciais colocadas pelo quadro referencial teórico e estabelecer indicadores para a interpretação das informações coletadas. A fase compreende a leitura geral do material eleito para a análise, no caso de análise de entrevistas, estas já deverão estar transcritas. De forma geral, efetua-se a organização do material a ser investigado, tal sistematização serve para que o analista possa conduzir as operações sucessivas de análise. Sendo que esta fase compreende: a) Leitura flutuante: é o primeiro contato com os documentos da coleta de dados, momento em que se começa a conhecer os textos, entrevistas e demais fontes a serem analisadas; b) Escolha dos documentos: consiste na definição do corpus de análise; c) Formulação das hipóteses e objetivos: a partir da leitura inicial dos dados; d) Elaboração de indicadores: a fim de interpretar o material coletado.

É importante ressaltar que a escolha dos dados a serem analisados, obedeça a orientação das seguintes regras:

  • Exaustividade: refere-se à deferência de todos os componentes constitutivos do corpus. Bardin (2006) descreve essa regra, detendo-se no fato de que o ato de exaurir significa não deixar fora da pesquisa qualquer um de seus elementos, sejam quais forem as razões.
  • Representatividade: no caso da seleção um número muito elevado de dados, pode efetuar-se uma amostra, deste que o material a isto se preste. A amostragem diz-se rigorosa se a amostra for uma parte representativa do universo inicial (Bardin, 2006).
  • Homogeneidade: os documentos retidos devem ser homogêneos, obedecer critérios precisos de escolha e não apresentar demasiada singularidade fora dos critérios.
  • Pertinência: significa verificar se a fonte documental corresponde adequadamente ao objetivo suscitado pela análise (Bardin, 2006), ou seja, esteja concernente com o que se propõem o estudo.

Tendo sem vista as regras de seleção do corpus de análise, que é composto por todos os documentos selecionados para análise durante o período de tempo estabelecido para a coleta de informações, como: falas de informantes-chaves, relatórios, regimentos, normas e rotinas, registros, ofícios - todos observados criteriosamente pelo investigador, com total consentimento dos sujeitos da pesquisa. Ressalta-se a necessidade de preparação do material, a qual constitui-se como uma fase intermediária, que compreende a reunião de todo material para tratar as informações coletadas (gravações, observações, etc), com vistas à preparação formalizada dos textos. É importante destacar que as observações, realizadas pelo analista, têm um cunho enriquecedor quando da análise dos textos, considerando que estas também expressam com fidedignidade outros cenários de comunicação.

Concluída a primeira fase, acima descrita, parte-se para a exploração do material, que constitui a segunda fase. A exploração do material consiste na construção das operações de codificação, considerando-se os recortes dos textos em unidades de registros, a definição de regras de contagem e a classificação e agregação das informações em categorias simbólicas ou temáticas. Bardin (2006) define codificação como a transformação, por meio de recorte, agregação e enumeração, com base em regras precisas sobre as informações textuais, representativas das características do conteúdo.

Nessa fase, o texto das entrevistas e de todo o material coletado é recortado em unidades de registro. Tomar-se-ão, como unidades de registro, os parágrafos de cada entrevista, assim como textos de documentos, ou anotações de diários de campo. Desses parágrafos, as palavras-chaves são identificadas, faz-se o resumo de cada parágrafo para realizar uma primeira categorização. Essas primeiras categorias são agrupadas de acordo com temas correlatos, e dão origem às categorias iniciais. As categorias iniciais são agrupadas tematicamente e originando as categorias intermediárias e estas últimas também aglutinadas em função ocorrência dos tema resultam nas categorias finais. Assim o texto das entrevistas é recortado em unidades de registro (palavras, frases, parágrafos), agrupadas tematicamente em categorias iniciais, intermediárias e finais, as quais possibilitam as inferências. Por este processo indutivo ou inferencial, procura-se não apenas compreender o sentido da fala dos entrevistados, mas também buscar-se-á outra significação ou outra mensagem através ou junto da mensagem primeira (FOSSÁ, 2003).

A terceira fase compreende o tratamento dos resultados, inferência e interpretação, consiste em captar os conteúdos manifestos e latentes contidos em todo o material coletado (entrevistas, documentos e observação). A análise comparativa é realizada através da justaposição das diversas categorias existentes em cada análise, ressaltando os aspectos considerados semelhantes e os que foram concebidos como diferentes.

Torna-se importante ressaltar que para fins desta pesquisa, adotou-se a sequência de passos, para realização da análise de conteúdo preconizada por Bardin (2006), tendo em vista sua ampla utilização e popularidade nas pesquisas em administração, entretanto, ressalta-se que outros autores também propõem formas de análise de conteúdo semelhantes a proposta por Bardin (2006), e que se forem seguidas com rigor, poderão conduzir a resultados profícuos e confiáveis.

Destaca-se também, que a análise de conteúdo, enquanto conjunto de técnicas de análise de comunicações, ao longo dos anos, sofreu reformulações desde os primeiros preceitos até os dias atuais, com uma análise mais contemporânea, influenciada pelo uso do computador. Hoje em dia, existem alguns softwares que auxiliam, principalmente, nos processos de organização do material e codificação dos dados.

5. ESTUDO DE CASO

A minissérie “Sexo e as Negas” foi exibido pela TV Globo no ano de 2014 tal produção teve inspiração do seriado norte-americano “Sex and the City”[6], pois as personagens brasileiras são amigas e todas vivenciam uma vida afetiva atribulada, da mesma forma que ocorre com as personagens do seriado estrangeiro, porém, ao contrário das bem sucedidas protagonistas norte americanas, as brasileiras são negras, pobres e suas profissões são subalternas, mas o que diferencia o seriado brasileiro do americano é a inclusão, ao final do episódio, de um pequeno musical no qual as protagonistas se vestem como cantoras da década de 1960 e interpretam, em língua portuguesa, clássicos da música negra norte-americana.

Essas personagens são: Zulma, a camareira, Soraia, a cozinheira, Lia, a recepcionista e Tilde a operária, interpretadas pelas atrizes Karin Hils, Maria Bia, Lilian Valeska e Corina Sabbas, que se consideram cantoras e têm experiência em teatro musical e, além disso, já trabalharam com Miguel Falabella.

Com isso recorre-se a Araújo (2008) quando o mesmo faz comparação do papel do negro na ficção televisionada norte americana e como este modelo foi adaptado para a ficção brasileira. O autor ainda argumenta que muitos estereótipos sobre os negros foram criados pelo cinema estadunidense e logo levados à televisão daquele país e sucessivamente até chegar ao Brasil.

No que tange às telenovelas, os estereótipos simplificam a caracterização dos personagens bem como os comportamentos, além de transmitir ideias cristalizadas e ideologias na qual de certa forma, são compartilhadas pela emissão com a recepção, no mesmo tempo em que a estereotipia[7] participa do processo cognitivo do ser humano (ARAÚJO, 2008).

Em coerência com a mesma situação que existe em nossa sociedade quanto à desigualdade, observa-se que a presença de negros no cinema brasileiro é um tanto quanto desigual se considerado o tamanho e a riqueza étnica e cultural da herança africana (ARAÚJO, 2008).

Por sua vez o mesmo autor Araújo (2008) não está preocupado com a visão pessoal que é passada pelos responsáveis por fazer o cinema, telenovelas, seriados, ou, livros etc., e sim nos sistemas de valores sociais ou coletivos aos quais determinam a formação dos estereótipos sustentados pela ideologia conforme os pensamentos cinematográficos praticados nos anos passados.

Quando Fanon fala do posicionamento do sujeito no discurso estereotipado do colonialismo, ele fornece ainda mais suporte a meu argumento. [...] O estereótipo não é uma simplificação porque é uma forma presa, fixa, de representação. (BHABHA, 2003, p. 117).

Em entrevista à revista Caras, uma delas, Karin Hills, intérprete da camareira Zulma, afirmou a respeito da polêmica sobre o racismo embutido no seriado e da discriminação que sofre por ser negra:

- O que achou das críticas e denúncias de racismo que o seriado vem recebendo? Achei a polêmica maravilhosa! No início fiquei chateada. Não acompanhei muito, porque estou em uma correria tremenda por causa do ritmo de gravações. Mas chegou um momento em que tive que parar para ver o que estava acontecendo. Tenho certeza que por causa dessa polêmica o Ibope vai ser maravilhoso. Mas achei uma besteira enorme. Essa polêmica, sim, é um preconceito no sentido mais estrito da palavra, já que quem a criou nem sabe do que trata a série, nem viu ainda. Em nenhum momento o nome te incomodou? Claro que não! Não vi tanto peso nesse nome, achei hiperdivertido, não sinto a minha identidade como mulher corrompida com esse título. Isso é dramaturgia, quero que as pessoas vejam, porque diferente do que estão pensando, o seriado também trata de questões sociais, mas com o olhar do Miguel, que é leve. São mulheres que apesar das dificuldades são positivas, bonitas, se vestem da melhor maneira que podem, prezam pela família. Mulher é mulher seja negra, rica, branca, ou pobre. Não tem nada de racismo e olha que de racismo eu entendo.

Já se sentiu discriminada? Claro que já me senti discriminada. No Brasil, isso está enraizado, grande parte da população é negra, mas o Brasil não se vê negro. Eu já sofri muito preconceito. No início da minha carreira, ainda quando fazia parte do grupo Rouge, que era direcionado para o público infantil, virei até boneca, e quando fui ver minha boneca era quase branca. Eu fiquei muito sentida, muito dolorida com aquilo. As crianças negras e mulatas tinham um lugar dentro daquele grupo, elas se sentiam representadas, diferente da minha época, quando eu queria ser Paquita, mas não me via nelas. Eu fiquei muito chateada quando vi a boneca que não era nada igual a mim, e lutei para que houvesse uma mudança, mas não foi como eu queria. Já fui discriminada em hotel de luxo no Rio de Janeiro, quando estava fazendo Pé na Cova, em várias ocasiões. Eu sei o que é preconceito[8].

Ao fazer seus comentários, a atriz revelou aquilo que todo mundo já sabe: que a despeito do racismo e da ideologia de branqueamento em voga na sociedade brasileira, a maioria de nossa população é negra ou descende de negros, mas que não se sente representada. O discurso dela mostra um conformismo e uma aceitação da representação branca acerca do negro. Agora não se pinta o ator branco para interpretar o negro, mas se pinta, por meio da narrativa audiovisual, com suas mensagens subliminares, uma ideia de negritude, que subtrai a mulher negra e “coisifica” o negro na nossa sociedade.  A atriz parece aceitar e incorporar um discurso acerca do negro que não a inclui, mas o avaliza, colocando-se em uma posição subalterna e numa perspectiva colonialista, acatando o estereótipo incutido a si.

Quanto mais a vida social se torna mediada pelo mercado global de estilos, lugares e imagens da mídia e pelos sistemas de comunicação globalmente interligados, mais as identidades se tornam desvinculadas – desalojadas – de tempos, lugares, histórias e tradições específicos e parecem “flutuar livremente”. Somos confrontados por uma gama de diferentes identidades (cada qual nos fazendo apelos, ou melhor, fazendo apelos a diferentes partes de nós), dentre as quais parece possível fazer uma escolha. Foi à difusão do consumismo, seja como realidade, seja como sonho, que contribuiu para esse efeito de “supermercado cultural” (HALL, 2003, p. 75).

Acredita-se que a polêmica em torno do seriado foi reforçada, pois a questão racial assumiu no decorrer dos anos uma importante dimensão cultural, politica e ideológica no Brasil, partindo dos debates públicos que tem sido cada vez mais ampliado nos meios de comunicação atuais, fazendo com que muitas vezes esses papéis destinados aos negros passem para a sociedade estereótipos influenciando quanto ao preconceito.

Nessa perspectiva observa-se a história do cinema brasileiro desde muito tempo é conhecido por cineastas e historiadores como uma série de fases que sucedem sem linhas de continuidade. E esses mesmos cineastas e historiadores apresentaram essa concepção de descontinuidade por causa da decorrência das dificuldades em se manter a produção de longas metragens (ARAÚJO, 2008).

Mesmo depois das diversas dificuldades e exigências para a exibição desses filmes não tenham proporcionado um ambiente mais adequado para o desenvolvimento da indústria cinematográfica estável, viu-se uma sequência de outros decretos no qual reafirmaram obrigatoriedade quanto à exibição e por fim deram algum alento para essa continuidade do cinema.

Veem-se logo novas medidas propostas para as cotas em novas mídias, principalmente a televisão, pois por mais sedutora que possa aparentar, se estas não estiverem inseridas em um projeto integrador, o resultado de uma avaliação atual da situação do audiovisual dificilmente fasear-se-á com que o desenvolvimento deste mercado cresça forte e estável (ARAÚJO, 2008).

Assim, Lima (2014) faz o seguinte questionamento:

Comumente os profissionais da mídia dizem que ela retrata a realidade social do Brasil e que se os negros não estão na publicidade e se ocupam papeis subalternos na ficção e tv é porque esta é a sua situação na sociedade brasileira. Seria isso uma verdade? Os produtos da mídia, como a telenovela, a publicidade, são realmente retratos fieis da realidade?[9]

Depois de muito se falar a respeito do seriado, diversos grupos de comunidades negras repudiaram o mesmo acusando-o de “reproduzir estereótipos racistas e machistas” sobre a mulher negra e mostrar mais uma vez o negro como morador de subúrbios ou favelas. Mas segundo o autor, Miguel Falabella, a ideia do programa era fazer com que refletisse um pouco a dura vida daquelas pessoas, além de empregar e trazer para o protagonismo mais atores negros.

Diante a isso, diferentemente do seriado norte-americano, no qual sexo e homens eram um dos principais assuntos e as protagonistas eram bem sucedidas, na série brasileira, tudo se resume a sexo e homens, incluindo até o problema da mobilidade urbana e transporte público, pois uma das primeiras frases ditas no inicio do seriado foi: “o problema do transporte acaba atrapalhando a vida amorosa da gente”, fala na qual mostra duas das personagens conversando dentro do metro lotado, onde nota-se que não há discussão a respeito do assédio nem mesmo o que poderia se fazer quanto à questão da grande lotação, o que importava mesmo era como elas iriam conseguir arrumar um namorado.

Portanto por mais que as protagonistas sejam trabalhadoras, guerreiras e que não levam desaforo pra casa, no fundo elas só querem um homem para banca-las e garantir um bom futuro, pois por mais que mostrem que as mulheres negras ascendam socialmente, tenham sonhos e lutem por eles sempre haverá alguém para dizer onde é exatamente o lugar delas.

Com isso, o retrato da mulher negra hoje na televisão tem relação direta com a imagem da mulher negra forjada no período da escravocrata, apenas com poucas diferenças, ao chamarem de moralistas as críticas questionando: qual o problema em associar negras ao sexo? Mas as pessoas esquecem que no Brasil as chances de as mulheres negras serem vítimas de diversos tipos de violência são grandes, e sempre pelos mesmos motivos, o preconceito e o racismo, pois são essas mesmas pessoas que acabem por olhar para as mulheres negras apontando-as como promíscuas, lascivas e provocadoras.

Percebemos ainda que a mulher negra é extremamente sexualizada por nossa cultura que a coloca na maior parte das vezes é vista apenas como uma relação amorosa exótica, e ao mesmo tempo em que é sedutora, é pecadora, que não é vista como mulher decente, ou ainda que não seja mulher pra casar.

Na série uma das protagonistas chama atenção pela excessiva voluptuosidade e mais sexualizada, por usar roupas curtas e justas, e decotes grandes, e ainda a todo o momento a personagem busca por um parceiro sexual, insinuando-se para quase todos os homens com os quais convive ou se encontra, e por usar o cabelo na cor vermelho, cor na qual representa a paixão e luxúria.

A partir disso Coutinho (2010, p. 66) afirma que depois da cor da pele o cabelo é o maior símbolo da raça negra, podendo assumir uma postura indenitária:

Os cabelos da mulher negra representam um exemplo das dificuldades de adequação a um padrão de beleza europeizado. Na realidade o cabelo é um dos principais focos de preocupação estética entre as negras, e é tópico de extensa discussão, podendo ser considerado como símbolo de uma posição política. Cabelo dos negros é, depois da cor da pele, o maior símbolo estético de estigma, sofrendo uma desvalorização evidente.

Um dos vários estereótipos que recaem sobre o negro e do subúrbio que estão presentes no seriado é que tudo acaba em festa, neste caso por ser um subúrbio do Rio de Janeiro tudo acaba em funk, e ainda segundo o seriado é possível notar que todos os dias têm festa na comunidade de Cordovil, onde se passa a história, e que sempre todos os personagens estão presentes em todos os bailes.

A trama gira em torno dessas quatro mulheres e do quanto as mesmas buscam por parceiros, no qual, as satisfaçam sexualmente. As protagonistas sempre se encontram em um bar que pertence a uma amiga em comum delas, Jesuína, que no decorrer da trama é quem conta a história da minissérie.

Já no primeiro episódio - Moto Contínuo - é possível notar uma sexualização muito grande em relação à mulher negra. As protagonistas que são mulheres negras aparecem representadas a partir de estereótipos perceptíveis: pois todas sempre aparecem maquiadas, usando roupas curtas e justas, para que assim as mesmas possam realçar suas curvas, e andam como se estivessem desfilando e ainda rebolando muito, fazendo com que se reafirme o estereótipo da ‘’Mulata Rebolativa’’.

Apesar de o autor ressaltar que o protagonismo é das quatro amigas negras, a história é contada por Jesuína (Cláudia Jimenez), uma radialista da comunidade do Cordovil, e dona de um bar onde as personagens principais sempre se encontram. O fato de Jesuína ser uma mulher branca já demonstra outro preconceito. Ou seja, nem mesmo em uma série aonde seu criador diz que tem o objetivo de demonstrar a visibilidade das atrizes negras, as mesmas não são protagonistas de suas histórias - ainda que estereotipadas e controversas.

Ainda no primeiro episódio aparecem falas de alguns inserts de personagens aonde esses expressam sua opinião sobre acontecimentos da narrativa. O primeiro insert é de Zulma, no qual se refere acerca do transporte público e do direito de ir e vir; logo em seguida Big, (Rafael Zulu) um garçom do bar da Jesuína, diz em uma fala machista: “As mulheres querem casar. Branca, preta, amarela. Elas todas têm a mesma coisa na cabeça. Arrumar quem pague as contas”.

Durante todo o primeiro capítulo da série é possível notar nas atitudes e falas dos personagens preconceitos machistas e raciais. Visto que a mulher negra sofre ainda mais com a opressão do machismo, por estar em uma condição social inferior a mulher branca. O personagem Big reafirma esse preceito do patriarcado em uma de suas falas, aonde o mesmo diz que a mulher deve ser preparada para o matrimônio, sem escolha. Assim o que nos vem ensinando patriarcado é que toda mulher deve se casar, não obstante, e que as mulheres que não fazem essa escolha não são bem vistas pela sociedade, passando a imagem de que para a mesma estar completa sentimentalmente ela deve casar-se e ter filhos. Nos dias de hoje essa visão, vem mudando, apesar de ainda encontrar muitos setores conservadores na sociedade que mantêm essa visão das mulheres.

O patriarcado é um sistema social no qual o homem (no papel de marido ou de pai) é o ator fundamental da organização social, e exerce a autoridade sobre as mulheres, os filhos e os bens materiais e culturais. Para justificar a submissão da mulher, muitas vezes se fez uso da biologia, elucidando uma repressão de característica social. Haja vista que no mundo patriarcado dos homens, eles apenas pensam em como medir tudo, incluindo as mulheres, pois as julgam e definem-nas por algum tipo de padrão. O mundo pertence aos homens. As mulheres eram o “outro” não essencial.

Logo em seguida a fala do personagem Big, outro personagem aparece, é Adilson Brascia – Vinagre (Frank Borges) pedreiro, que completa a frase com mais uma reflexão machista: “A única coisa que bota o cara na cadeia no Brasil é não pagar pensão alimentícia. Resultado; primeira coisa que elas fazem é arrumar um filho”.

A observação do personagem Adilson nos chama a atenção, pois vê-se através de dados acerca dessa questão, que  muitos homens não assumem a responsabilidade pelas crianças que ajudam a colocar no mundo. E, em consequência disso, conforme uma pesquisa do IBGE realizada em 2012, aproximadamente de 38% das famílias brasileiras são comandadas por mulheres, sendo que a maioria das mulheres abandonadas grávidas é formada por negras.

Soraia já no primeiro capítulo aparece em uma cena de sexo dentro do carro com um mecânico, nua. A cena é extremamente erótica, chegando a lembrar a Pornochanchada[10] da década de 1970. As curvas do corpo da personagem são deixadas à mostra e o seu parceiro não passa de um mero coadjuvante que mal aparece em frente às câmeras.

Soraia por sua vez é uma empregada doméstica que trabalha na casa de um jovem casal. Na cena ela aparece em seu local de trabalho e fica subentendido que a personagem mantém um caso amoroso com seu patrão. Essa forma de representação remete à violência sofrida no passado no qual as mulheres eram escravas e por isso tinham que servir sexualmente ao seu senhor. As escravas eram obrigadas a prestar favores sexuais a seus patrões e a quem mais eles desejassem, já que eram tratadas como objetos. Muitas dessas mulheres engravidavam e eram obrigadas a abortar seus filhos, ou a mantê-los em sigilo, dando origem ao estigma de “mãe solteira”.

Zulma, ainda no primeiro capítulo, aparece por mais algumas vezes em cena de sexo, assim como as de Soraia, são bastante eróticas, com certas diferenças: o parceiro de Zulma, interpretado pelo ator Rafael Zulu - um homem negro e também muito sexualizado em todas as cenas em que ele aparece. As cenas acontecem em contraluz, marcando e acentuando as linhas do corpo dos personagens.

Outro fator a ser considerado na série também é quanto aos papéis de vilãs: Gaudéria Brascia – Gaúcha (Alessandra Maestrini) e Bibiana Brascia (Alessandra Verney), ambas brancas. Nas as cenas em que as personagens aparecem, alguma forma sempre estão inferiorizando e subjugando as personagens negras, realçando a rivalidade entre negros e brancos, de modo a reforçar esses comportamentos, os quais devem ser rechaçados, a fim de combater o racismo.

O terceiro episódio da série com nome de Narciso Negro, e tem como tema visibilidade e narcisismo, a dicotomia entre se ver e viver. No começo do capítulo apresenta-se a história de Narciso[11] e logo é feita uma ligação com a moda do narcisismo atualmente na pós-modernidade, com o advento das tecnologias e a supervalorização da própria imagem nas redes sociais.

O tema visibilidade entra na série a partir da personagem Zulma, que no capítulo anterior teria sido exposta pelo seu parceiro sexual que foi responsável por disseminar comentários machistas a respeito das relações sexuais que os mesmos mantiveram: “Você é um babaca sabia? Um bosta. A gente se curtiu numa boa, e você fica pagando de otário contando pros caras que me comeu aqui no teatro? Olha, só estou me dando o trabalho de vir aqui falar contigo que é pra deixar bem claro que a partir de hoje pra mim você é invisível, eu não te vejo mais, vou te olhar através. Psiu, e tem mais; quem te comeu, fui eu. Quem tem a boca, meu amor, sou eu”.

Também entra como assunto nesse episódio o Porn Revenge[12].  Em um vídeo inserido em meio ao seriado, aparece uma moça falando de uma experiência vivenciada por ela de violência machista: “Eu tive que sair da faculdade por causa de um vídeo que meu namorado postou na internet. A gente estava transando, e ele gravou sem eu saber”. O que mais chama a atenção nesse depoimento é a forma plácida com que a garota fala da violência vivida. É possível ver que ao colocar uma mulher que acabou de ter sua intimidade exposta, e ser obrigada a largar seus estudos, e ainda falando sobre a violência que sofreu com uma naturalidade é impressionante, uma vez que houve novamente uma tentativa de naturalização do porn revenge, uma violência machista e covarde, que só vem crescendo ao passar dos anos.

Zulma, que é camareira, é vítima de racismo pela sua chefa, uma famosa atriz de teatro: “Aproveite esse momento de fama Zulma!... Então sua boba aproveita, a peça acaba daqui a um mês, você não tem nada a perder. Eu se fosse você experimentava, mas enfim, se eu fosse você eu não seria estrela... (Ela olha Zulma da cabeça aos pés, com desprezo) seria camareira”.

Nesta cena Zulma é menosprezada pela sua chefa que subentende que ela jamais chegaria a ser uma estrela e que seu lugar é como camareira onde ela estava no momento. Como é recorrente no histórico de cenas de racismo em produtos audiovisuais exibidos pela rede Globo, a vítima não se defende, pelo contrário, permanece calada e carrega aquela opressão como se fosse normal.

Matilde da Silva, a única das quatro protagonistas que está desempregada, vive um relacionamento complicado com o pedreiro Adilson Brascia também chamado de Vinagre, um homem branco, que apesar de se relacionar com Tilde, a mantém bem longe dos amigos, a trata como uma colega e não assume o relacionamento em público, por vergonha de estar com uma mulher negra. Este relacionamento entre Tilde e Vinagre apresenta resquícios escravistas claros; era muito comum, homens brancos manterem mulheres negras como amantes, longe das vistas da grande sociedade burguesa/racista que abominava esse tipo de relação.

Essas mulheres eram mantidas em casas longe da cidade, pagas pelo seu amante/senhor que fazia visitas regulares a elas. Mais um local de subordinação colocado aos negros centenas de anos atrás, é reafirmado nesta série; “- Eu já saquei que toda vez que tu ta com teus amigos tu me trata como seu eu fosse tua amiga. - Para com isso, não tem nada a ver! - Claro que tem Vinagre! Agora mesmo. Tu só me ve quando te interessa Vinagre. Só quando te interessa”.

Como no primeiro capítulo, nesse capítulo também estão presentes diversas cenas de sexo. Dessa vez quatro casais aparecem em cenas alternadas, todas abusando do erotismo e de uma forte sexualização. Em uma das últimas cenas desse capítulo, as quatro protagonistas estão passeando de carro quando se avista uma blitz policial, elas torcem para não serem paradas: “Quatro pretas dentro de um carro há essa hora, não precisa nem ter dúvida que vão nos parar. Essa hora a gente tem visibilidade de qualquer jeito”, diz Zulma.

O quinto capítulo da série, se chama Puro Preconceito. O episódio se inicia com as quatro protagonistas indo às compras. Elas entram e saem de lojas e em todas são mal atendidas por serem negras. Na última loja em que elas entram, Soraia leva um vestido até o closet para experimentar, e quando está saindo da loja demonstra interesse e deixa seu cartão com o segurança que a destrata: “Se tu quiser me ligar qualquer hora dessas. Cadê o vestido!? (...) O vestido que você levou para o provador, eu vou precisar olhar sua bolsa”.

Depois de uma discussão na loja, todas vão para delegacia prestar queixa de racismo, e são acompanhadas pela chefa de Zulma, Leonor, uma famosa atriz de teatro, que é quem, na saída da delegacia dá entrevista a uma rede de televisão que cobria o caso. O mais intrigante é que novamente, o protagonismo é tirado da vítima de preconceito racial. São as quatro mulheres que sofrem o preconceito, porém, é a chefe de uma delas quem é entrevistada, nessa cena a repórter em questão, nem se dirige a nenhuma das protagonistas, que se mantém ao fundo da cena. O caso de racismo é deixado para segundo plano na notícia. A primeira informação presente na fala da repórter, se da pelo fato de uma atriz famosa ter acompanhado as vítimas, e não pelo ato de preconceito cometido contra as moças, preconceito esse que nem é denominado pela repórter.

Logo em seguida, aparecem alguns inserts de vídeos de personagens da trama falando sobre preconceito. O que mais chama atenção é o de Gaúcha; “Eu acho que as pessoas sofrem mais preconceito por ser preta, Né? Porque o pobre tem como melhorar, mas já o preto não pode embranquecer. Só se for o Michael Jackson”.

Mais uma vez é possível ver a presença do racismo em um texto de um personagem da série. As palavras de Gaúcha partem do pressuposto de julgamento de todos a partir do modelo de beleza eurocêntrico, de que a beleza só está no ser branco, alto, loiro e de olhos claros. Ela usa o verbo “melhorar” como se a melhoria de vida da população negra estivesse em se embranquecer, e não em ter suas diferenças respeitadas e colocadas em lugar de igualdade para com todos.

Depois de perder seu emprego, Soraia sai à procura de um novo trabalho, e já na entrevista é vítima de racismo por parte de sua possível futura chefa: “Adorei você Soraia, acho que vamos nos dar super bem. Só tem uma coisa: Eu quero que você fale pouco, sabe assim o mínimo possível, e tudo você resolve comigo, só comigo, tá bom? É que eu tenho filhos em fase de formação, e não quero que eles aprendam a falar errado”.

O fato de acreditar que pessoas negras são menos inteligentes, que não negros já foi até tema de algumas teorias. O biólogo americano James Watson disse ao jornal britânico The Sunday Times que estava preocupado com o futuro da África, afirmando que “todos os testes de inteligência” negam a ideia de igualdade intelectual entre brancos e negros. Depois, o próprio cientista se desculpou, explicando que a ideia de superioridade racial não tem comprovação científica.

O estigma da mulata rebolativa também entra na série, e recai sobre uma das protagonistas. Tilde, que é a única desempregada e está prestando trabalhos para uma empresa de festas, é contratada para participar de um evento vestida de passista e sambando: “Essas mulatas são seu grupo, agora senta ai, coloca o biquíni e vá se maquiar! E se você me deixar na mão Tilde, comigo você não trabalha mais, nunca mais! Ah, e é bom que você saiba sambar, é meu amor, sambar ! Toda mulata sabe sambar, nunca te disseram!?”.

Tilde é obrigada a dançar para diversas pessoas vestidas de passistas e sambando. Mas o que mais chama atenção na cena é o fato de mesmo ter ido contra a vontade Tilde sabe sambar (e muito bem) e gosta de se apresentar para as pessoas. Mais uma vez a mulher negra é representada como atração carnavalesca, ‘’para gringo ver’’ e anulada de todas suas vontades, já que apesar de tudo, Tilde, no primeiro momento se coloca contra a ideia de se apresentar para várias pessoas seminuas e sambando. Na cena seguinte, Tilde é discriminada pelo seu ex-namorado, o Vinagre, por estar com aquelas vestes ele não a respeita; “Vem cá, me responde uma coisa; você ta comprando aqueles panos de pratos e aqueles lençóis pra que? Pra ficar rebolando pra gringo? Sabe o nome que se dá a isso lá no sul?”.

Tilde é desrespeitada pelo seu ex-namorado que a ataca com palavras machistas pela pouca roupa que ela está vestida. Uma atitude misógina, pois ele acredita que uma mulher deve estar “bem vestida” para merecer o respeito de um homem, e por esse motivo a desrespeita e ainda deixa subentendido que Tilde estaria se prostituindo.

Em uma das últimas cenas desse capítulo, Zulma é convidada por um dos atores da peça em que ela trabalha para ir a uma festa. Zulma aceita o convite, e é vitimada pelo preconceito racial e social também. Uma das convidadas pede ajuda a Zulma na composição de um papel no qual ela será uma “favelada, drogada e prostituta”, deixando entender que nas periferias todas as pessoas se encaixam nesse padrão. Zulma sussurra algo no ouvido da mulher e deixa a festa.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Mesmo que não seja bem representada nas mídias, a população negra do Brasil continua lutando contra o preconceito racial que subjuga e fere a alma das pessoas que passam por esta situação todos os dias.

A população negra só terá uma representação digna na televisão brasileira quando enfim os espaços sociais disponíveis para a mesma estiverem em igualdade. No entanto no seriado analisado por este estudo, nenhum dos diretores ou roteiristas são negros. O seriado trata de brancos falando para os negros como eles devem ou não ser, pois o protagonismo não é dado em nenhum momento às quatro mulheres, ainda que controverso, no qual se dizia que viria para dar visibilidade a população negra.

Para desmontar esse sistema de exploração, compreende-se que é preciso construir uma comunicação que de fato retrate as minorias de maneira condizente com sua realidade e de modo em que a democratização dos meios de comunicação seja alvo de uma atenção especial daqueles que lutam pela equiparação das etnias, então uma questão estratégica e de enfoque fundamental.

O racismo existente no Brasil é construído e reproduzido pela sociedade e, a continuar com a evidenciação do descaso notável para com as formas de representação do negro na mídia, estas, impostas ao indivíduo negro, e pela falta de respeito e escuta a suas demandas alteritárias, continuaremos a assistir a expropriação de sua dignidade pelos meios de comunicação de massa.

Há que se pensar em incluir o negro - o qual reclama uma atenção e conclama o repúdio às práticas racistas no cotidiano – nas lutas por voz representativa nas narrativas da mídia. A responsabilidade por extirpar de nosso meio todo preconceito social em relação ao negro é uma bandeira e também um processo desafiador e legítimo

A representação do negro que está posta a partir da visão da Rede Globo no seriado, ainda que essa não represente os anseios dessa população, é uma visão estereotipada. E se torna fácil a sua reverberação, na premissa da desqualificação, isso oportunizará uma visão distorcida, e excludente do negro. Permeará nas mentes de todos os brasileiros que assistem, assimilam e acreditam nessas ideologias reproduzidas pela Rede globo de televisão.

O seriado “Sexo e as Negas” não é a afirmação da identidade, nem da cultura e muito menos da beleza do povo negro. “Sexo e as Negas” é mais uma vez a reprodução de um lugar e de um papel que só se acumula para a burguesia. Não é assim que queremos nos ver na televisão. Essa série não representa os anseios das mulheres negras, trabalhadoras e lutadoras.

Não dá para dizer que o seriado tinha como objetivo chocar os telespectadores e colocá-los para refletir o racismo. Isso porque quando se coloca estereótipos regionais poucos são aqueles que param para refletir a existência dos estereótipos, param no máximo para dar risada. Além disso, com o passar do tempo os estereótipos vão se tornado verdades para a maioria das pessoas, chegando ao ponto de existir uma boa quantidade de telespectadores que realmente acreditam no que esta assistindo.

No caso do negro então, os estereótipos foram tão bombardeados pela televisão, desde décadas, e por isso muitos já os tomam como verdadeiros. Justamente por isso não é difícil encontrar pessoas dizendo que o cabelo crespo do negro é ruim, que o negro tem cheiro forte, entre outros.

Assim, faz-se necessária a atuação do Estado, utilizando-se da igualdade material abarcada pela Constituição e do Estatuto da Igualdade Racial, estabelecendo medidas que possam amenizar ou acabar com esse quadro dentro da televisão brasileira, pois a reiteração desses padrões influencia as relações do negro em todos os âmbitos da sociedade. Ou seja, desde a busca de um emprego decente, no qual os empregadores podem não enxergar o negro ocupando posições de destaque dentro de uma empresa por ter um imaginário do negro totalmente negativo, à manifestação de um racismo de forma direta.

Assim, a inserção do negro na TV brasileira vai nesse sentindo. Busca-se, com a inserção, defender a integridade da forma de vida e também de suas tradições. Busca-se mostrar o Brasil como ele de fato é. E não simplesmente pintá-lo apenas com a participação de uma elite branca, retirando os outros grupos que também compõem o país, de forma a não representar a diversidade brasileira.

Diante disso, a luta pela inserção do afrodescendente em ambientes nos quais sua exclusão que é notória se dá por conta da presença de um grupo dominante que passa certas imagens internalizadas pelos telespectadores. Essa luta do negro pela sua presença na TV, sem estereótipos, insere-se em um contexto da luta pela preservação da multiculturalidade.

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[1] Disponível em acesso em 04/12/2015.

[2] Idem 1.

[3] Disponível em Acesso em: 04/12/2015.

[4] PADIGLIONE Cristina. O planeta tem 2 bilhões de noveleiros. Disponível em acesso em 28/09/2015.

[5] São generalizações que as pessoas fazem sobre comportamentos ou características de outros. Estereótipo significa impressão sólida, e pode ser sobre a aparência, roupas, comportamento, cultura etc. Estereótipo são pressupostos sobre determinadas pessoas, baseados em generalizações de situações que aconteceram anteriormente, mas sem ligação com a atual, e muitas vezes eles acontecem sem ter conhecimento sobre grupos sociais ou características de indivíduos, como a aparência, condições financeiro, comportamento, sexualidade etc. (Dicionário Informal - ).

[6] Sex and the City: (O Sexo e a Cidade) é uma premiada série de televisão americana baseada num livro com o mesmo nome de Candace Bushnell, Scott B. Smith e Michael Crichton. Foi originalmente transmitida nos Estados Unidos pela cadeia HBO, de 6 de junho 1998 a 22 de fevereiro de 2004.

[7] Estereotipia se estabelece na relação profissional/paciente quando o vínculo não é visto como estrutura, e não é estabelecido pela totalidade da pessoa. O enquadre do sujeito como paciente contribui para a cristalização da relação como diria Guattari(1981), a relação torna-se molar em vez de molecular. A relação se dá através de partes estereotipadas - condutas rígidas frente à tarefa de “cura” motivada pela ativação dos medos básicos frente à situação de mudança. Seria como se repetisse um script na conduta fechada de repetição, sem atividade crítica. Dicionário Informal. Disponível em . Acesso em: 23 mai. 2016.

[8] FACCINI, Flávia. Protagonista de 'Sexo e as Negas', Karin Hils fala sobre polêmica: "Achei uma besteira". Disponível em . Acesso em: 04 dez. 2015.

[9] LIMA, Ana Cora. "Sexo e as Negas" recebe denúncias de racismo e TV Globo é autuada. Disponível em , acesso em 04 dez. 2015.

[10] A pornochanchada é um gênero do cinema brasileiro comum na década de 1970. Ela é chamada assim por conter uma dose alta de erotismo e por esse fato chegou a ser censurada no país (Dicionário Informal - ).

[11] Um belo rapaz que passava os dias contemplando sua própria beleza num lago. Era tão fascinado por si mesmo que certo dia caiu dentro do lago e morreu afogado. No lugar onde caiu, nasceu uma flor que chamaram de narciso. Diz à lenda que Narciso morreu, vieram as Oréiades deusas do bosque e viram o lago transformado, de um lago de água doce, num cântico de águas salgadas,

(Disponível em ).

[12]A pornografia de vingança (em inglês, revenge porn) é uma expressão que remete ao ato de expor na internet fotos e/ou vídeos íntimos de terceiros sem o consentimento dos mesmos, geralmente contendo cenas de sexo explícito que mesmo quando gravadas de forma consentida, não tinham a intenção de divulgá-las publicamente (Disponível em ).   


Publicado por: Rogineiri Reis

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