O Comércio e a inclusão em Barra do Garças: uma análise a partir da visão dos clientes surdos

Comunicação e Marketing

Análise da visão dos clientes surdos em relação ao atendimento no comércio de Barra do Garças.

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1. RESUMO

Este trabalho tem como finalidade atender as exigências do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso – Campus Barra do Garças, no cumprimento da elaboração de um artigo para obtenção do título de Técnico em Comércio. Neste sentido, nosso objetivo neste trabalho é de analisar a partir da visão dos clientes surdos o atendimento no comércio de Barra do Garças. Para tanto, inicialmente será necessário um levantamento bibliográfico acerca do tema, no intuito de ampliar o conhecimento sobre o assunto e, assim, elaborar um questionário que nos permita evidenciar o processo de atendimento disponível à comunidade surda no comércio local. O que se evidenciou através da pesquisa é que o comércio está muito longe de atender as necessidades ou aspirações desta comunidade, haja vista, que nenhum dos entrevistados sugeriu ou destacou um comércio local que apresentasse uma atitude diferenciada com relação à superação das dificuldades dessa comunidade. Assim, destacamos na fala de nossos entrevistados a falta de compromisso, inclusive do poder público, em superar tais condições. Nos cabendo propor ou sugerir algumas atividades que possa minimizar tais evidencias, como: a) elaboração de um material adaptado ao atendimento dos surdos, uma vez compreendido que o surdo é um ser capacitado e que utiliza comunicação espaço-visual; elaboração de um curso de Libras, destinado principalmente aos funcionários dos órgãos públicos que prestam atendimento ao público em geral e; acrescer a este cursos de comunicação espaço-visual nas escolas, onde pequenos grupos possam, por meio do conhecimento, transformar e ampliar a inclusão da comunidade surda.

Palavras-chave: Surdo, Comércio, Atendimento.

2. INTRODUÇÃO

Este trabalho tem como finalidade atender as exigências do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso – Campus Barra do Garças, no cumprimento da elaboração de um artigo para obtenção do título de Técnico em Comércio.

Como alunas do IFMT, no ano de 2017, nos deparamos com a entrada de uma aluna surda. Fato que nos levou a ter contato com uma profissional intérprete, efetiva, no cumprimento das exigências da Lei nº 10.436, de 2002, que trata da inclusão dos surdos de forma ativa na sociedade brasileira. Assim, deste contato com esse profissional e, tendo esse conhecimento disponibilizado das dificuldades dos surdos no cotidiano em se comunicar, como alunas do curso Técnico Integrado ao Ensino Médio em Comércio, despertou-nos a curiosidade, a partir dessas informações e contatos com a aluna, sobre a compreensão de como se dá o atendimento da comunidade surda no comércio local de Barra do Garças.

Neste sentido, nosso objetivo neste trabalho é o de analisar, a partir da visão dos clientes surdos, o atendimento no comércio de Barra do Garças. Para tanto, inicialmente será necessário um levantamento bibliográfico acerca do tema, no intuito de ampliar o conhecimento sobre o assunto e, assim, elaborar um questionário que nos permita evidenciar o processo de atendimento disponível à comunidade surda no comércio local.

Tendo percorrido os caminhos elaborados da pesquisa, almejamos apresentar à sociedade como um todo, as dificuldades encontradas pela comunidade de surdos no comércio, ou não, se este for o resultado da pesquisa. Cabe neste momento salientar, que nosso público alvo para aplicação dos questionários serão alunos e profissionais da rede federal do município de Barra do Garças.

3. REFERENCIAL TEÓRICO

Este item apresenta conceitos pertinentes a temática, apresentando o embasamento legal, as ideias e conclusões de pesquisadores sobre o sujeito surdo, com intuito de compreender o atendimento de clientes surdos no comércio do município de Barra do Garças.

3.1. Breve História do Comércio

A palavra comércio etimologicamente tem sua origem do latim, commercium, da junção de duas palavras “com”, que significa algo como junto ou conjunto e, “merx/merc” que representa mercado ou local de troca. Assim, sua junção designa “local onde as pessoas se reuniam para fazer suas trocas”, ou seja, um local pré-determinado onde as pessoas se encontravam para realizar as trocas de seus excedentes.

É difícil determinar exatamente quando essas atividades deram seu início. Contudo, na antiguidade percebe-se nos relatos históricos que com o fim das atividades coletoras e início da atividade produtora, algumas pequenas comunidades e/ou famílias desenvolveram certas habilidades, tais como: pesca, agricultura e pastoril – e, dessa forma, trocavam seus excedentes entre si.

Com a permuta de mercadorias, essas comunidades ou famílias atingiram o ponto crucial para seu desenvolvimento, pois ao trocar seus excedentes por aquilo que necessitava, garantia sua sobrevivência. Essa atividade hoje é conhecida como escambo.

No entanto, com o passar do tempo, as relações vão se tornando cada vez mais complexas e, a relação mercadoria e valor e acrescendo a logística, torna as atividades por escambo cada vez mais difícil de serem mensuradas. Tal necessidade fez com que as pessoas da época na tentativa de facilitar a troca de mercadorias, parametrizar as negociações por um único meio de pagamento. Assim, surgiram as primeiras moedas.

A criação da moeda propiciou aos comerciantes um maior poder de negociação, haja vista, que antes da criação das moedas estes deviam transporta grandes quantias de mercadorias por longos estradas perigosas. Outro fator importante devido a expansão do comércio, foi a vantajosa e lucrativa cobrança de taxas na comercialização das mercadorias. Tal fato levou os nobres, no surgimento dos mercados regionais nas cidades em torno de castelos, a construção de estradas e garantir a segurança dos comerciantes.

E o que eram mercados regionais passou a se transformar em lojas, o que permitiu um avanço social e econômico das cidades, pois ao se fixarem nas cidades, além do estabelecimento do comerciante e a geração de impostos, como recursos àquela comunidade, esses também iniciaram a contratação de funcionários, fazendo girar mais recursos dentro da comunidade. Neste momento histórico é que surgem os profissionais especializados – artesões, como: alfaiates, padeiros, joalheiros, ferreiros e etc.

Atualmente, a troca de um produto/serviço é feita por diferentes formas de pagamento, tais como: dinheiro, cartão de crédito/débito, biticoins e outros, que é uma referência para tornar as trocas mais dinâmicas e agradável aos clientes, ou seja, proporcionar um ambiente de maior conforto para os clientes, pois, afinal, como exemplifica Dantas (2012, p. 44): o cliente é a razão da existência da empresa.

Desta forma, na atualidade, ao nos remetermos ao comércio de Barra do Garças será perceptível a vasta quantidade de empreendimentos e oportunidades de negócios oferecidos pelos produtos, valores e atendimentos. Mas, como todo polo comercial, o comércio de Barra do Garças se destaca pela concorrência, o que atrai as pessoas dos municípios vizinhos, possibilitando um aumento exponencial na carteira de clientes de lojas especializadas e, aqueles que se destacam pela qualidade no atendimento.

3.2. O Ato de Negociar e suas Implicações

O ato ou atividade de negociar faz parte do cotidiano das pessoas o tempo todo, mesmo quando não há escambo de mercadorias e dinheiro, pois sempre existe uma demanda, necessidade ou carência por obter algum benefício individual ou coletivo. No comércio, o termo negociação é compreendido como o processo para se alcançar determinado objetivo – a venda e/ou prestação de serviço. Contudo, a negociação baseia-se em uma decisão em parceria, na captação de objetivos mútuos por meio da comunicação e da compreensão do perfil do consumidor.

Assim, segundo Karsaklian (2009, p.20) “o estudo de comportamento de consumo é uma ciência aplicada que tem por objetivo compreender os comportamentos de consumo adotando uma perspectiva pluridisciplinar”, fator crucial para estruturação das estratégias da empresa. Conforme a autora (apud GOLLO, KREBS, SILVA e PAVAN, 2017, p. 4) o “ser consumidor” é uma parte do ser humano, pois ser consumidor é alimentar-se, vestir-se, divertir-se, resumindo, ser consumidor é viver, ou seja, todo consumidor é dotado de personalidade, o que faz com que tenham preferências por diferentes tipos de produtos, tendo diferentes percepções da realidade.

Para Mowen (2010) o comportamento do consumidor envolve a análise de unidades que compram através do processo de troca na aquisição, consumo e disponibilidade de mercadorias, serviços, experiências e ideias. Já na visão de Schiffman (2015, p. 01), o comportamento do consumidor focaliza como os indivíduos tomam decisões para utilizar seus recursos disponíveis (tempo, dinheiro e esforço) em itens relativos ao consumo.

Já conforme Dantas (2012, p. 34), o atendimento ao cliente é a ponta de todo o planejamento de marketing, porque necessita de atenção e consideração para resultar em uma boa assistência ao seu mercado alvo. Para tanto, é imprescindível que as empresas criem um vínculo sólido e estável com seus clientes, o que torna a comunicação indispensável. Segundo Kotler (2009), “o processo de comunicação tem início pelo emissor, que é quem escolhe o código para expressar sua mensagem, dirigida ao receptor, que, por sua vez, decodifica a mensagem”.

Kotler e Keller (2012, p.512) caracterizam a importância da comunicação, ao expressar que esta “... representa a voz da empresa e de suas marcas; é o meio pelo qual ela estabelece um diálogo com seus consumidores e constrói relacionamentos”.

Nesse sentido, empresários e profissionais da área de marketing devem estar atentos aos meios de comunicação e processos utilizados em sua idealização, no intuito de minimizar ações negativas no tocante ao atendimento aos clientes e, num sentido positivo, estimular o aumento da carteira de clientes.

3.3. A Inclusão Oportunidade de se Conquistar Novos Clientes

Conforme Susin, Ribeiro e Oliveira uma organização inclusiva é aquela que acredita e confia no valor da diversidade humana e que passa, de certa forma, a admitir as diferenças individuais (2014, p. 68). Ademais, a formalização de práticas administrativas pode ser um dos objetivos. De fato, empreender mudanças tais como: adaptações no ambiente físico, no comportamento e nas metodologias de trabalho propicia um maior acesso as pessoas. Isto posto, segundo SASSAKI (2006) é essencial que se possa treinar a organização na questão da inclusão social, a fim de que as pessoas possam ser reunidas em torno de uma ideia principal, além de integrar as equipes, com o propósito de atingir um único grande objetivo, a inclusão social (Apud, SUSIN, RIBEIRO e OLIVEIRA, 2014, p. 68).

Além disso, dados do IBGE obtidos pela PESQUISA NACIONAL DE SAÚDE (PNS), realizada em 2013, em 64 mil domicílios, pessoas com deficiência auditiva representam 1,1% da população brasileira.

Em nível municipal, conforme o site da Prefeitura Municipal de Barra do Garças, em dezoito de fevereiro de dois mil e dezesseis, noticiou o encontro do prefeito municipal Sr. Roberto Farias e um grupo de deficientes auditivos, onde esses pleiteavam uma ajuda para implantação do Instituto de Promoção Social, Cultural e Educacional dos Pais e Amigos dos Surdos do Vale do Araguaia (IPASVA). Cabendo, neste momento salientar, a fala da Presidente do IPASVA Sra. Karoline Neves Paiva ao afirmar há existência de um contingente de 902 pessoas com deficiência auditiva no munícipio. O que, conforme as estimativas do IBGE para a população de Barra do Garças para 2016, representa 1,49% da população, ou seja, valor superior ao citado acima com relação a população brasileira.

3.4. A Comunidade Surda

Antes de expor um breve relato da história da comunidade surda, vamos inicialmente desmistificar os termos “deficientes auditivos” e “surdos”. Conforme Susin, Ribeiro e Oliveira, a maneira pela qual as pessoas são chamadas reflete-se na visão que se tem sobre elas, e, em alguns casos, este primeiro julgamento pode gerar uma concepção preconceituosa a respeito de determinados fatores que tornam o indivíduo diferente dos demais (2014, p. 69). O termo “deficiente auditivo” muito utilizado entre os profissionais ligados à educação de surdos é alvo de várias críticas, com relação ao seu emprego, haja vista, que o termo traz consigo certo grau de preconceito, assim, partindo do ponto de vista que devemos tratar o termo deficiente não como incapaz, mas como um déficit, ou seja, algo que não está em sua totalidade e impõe limitações.

Desta forma, a surdez fica sujeita há um tratamento médico, que tem por função diagnosticar seu nível de perda auditiva e, aos indivíduos constatados de tal infortuno ser denominados de “deficientes auditivos”. Contrária, tal situação, o termo “surdo” adjetivo utilizado pelos indivíduos surdos, para referirem-se a si mesmos, e, seus semelhantes, que não conseguem ouvir nem utilizando aparelhos auditivos. O que, segundo Behares (1993), diferenciar os surdos de ouvintes é muito importante, pois aqueles indivíduos possuem características individuais próprias, como, por exemplo, fatores culturais, além de características próprias de suas línguas nativas.

Neste contexto, o termo que vem sendo mais aceito pela comunidade de surdos e críticos do termo deficiente auditivo é o termo “surdo”, pois, dessa forma, o indivíduo é caracterizado como diferente ao invés de deficiente. Para Sanchez (1990) e Ferreira Brito (1993), esta diferença é individual e pode ser decisiva para o desenvolvimento, assim como o desempenho do indivíduo que se enquadra neste termo.

Em um documento a Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos, denominado “A educação que nós surdos queremos”, destaca a diferenciação entre os termos “deficiente auditivo” e “surdo”, conforme segue abaixo:

Substituir o termo de “deficiente auditivo” por “surdo”, considerando que o deficiente auditivo e o surdo não têm a mesma identidade: o deficiente auditivo usa a comunicação auditiva, tendo restos auditivos que podem ser corrigidos com aparelhos; o surdo usa comunicação visual (línguas de sinais) e não usa comunicação auditiva (FENEIS, 1999, p.5)

Desta forma, a expressão “comunidade surda” refere-se a um grupo de pessoas, que se identifica por fazerem uso de uma mesma língua. Segundo Strobel (2008) e, Padden e Humphries (2000), o fato de o membro ser ouvinte ou não se torna irrelevante, já que o simples fato de o indivíduo, neste caso, por exemplo, o intérprete, aderir e lutar pelos objetivos gerais da comunidade surda já o tornara um membro (Apud, SUSIN, RIBEIRO e OLIVEIRA, 2014, p. 70).

Conforme Susin, Ribeiro e Oliveira, “A comunidade surda possui uma cultura característica. Por serem indivíduos que não escutam, fazem uso de uma comunicação de modalidade espaço-visual que, neste caso, trata-se do principal meio de conhecer o mundo em substituição à audição e à fala (2014, p.70). No Brasil, os surdos utilizam a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) para se estabelecer a comunicação e compreensão surdo-surdo e surdo-ouvinte. É uma língua própria, apesar de uma grande parte da comunidade acreditar ser uma adaptação da língua portuguesa, a LIBRAS é uma língua natural, com estruturas sintáticas, semânticas, morfológicas, etc.

Seu reconhecimento legal de comunicação e expressão no Brasil, foi instituído por meio da Lei nº10.436, de 24 de abril de 2002 que dispõe sobre a LIBRAS e dá outras providências. A lida diária do surdo é facilitada com o acompanhamento de um intérprete da LIBRAS.

Em Barra do Garças, conforme o censo do IBGE de 2017, habita em média 75 surdos e 548 pessoas com dificuldade auditiva. É pouco comum o serviço público/privado que disponibiliza o intérprete, que é reconhecido por lei como uma forma de comunicação e expressão. O Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Mato Grosso - campus Barra do Garças, conta com 3 intérpretes que se intercalam para orientar os alunos surdos que estudam na instituição.

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4. METODOLOGIA

Este trabalho tem por finalidade atender os requisitos de conclusão do Curso Técnico Integrado ao Ensino Médio em Comércio, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso – IFMT, Campus Barra do Garças, para obtenção do título de Técnico em Comércio.

Para tanto, a metodologia adotada foi o estudo de caso, que de acordo com Patton (2002), “consiste em reunir informações detalhadas e sistemáticas sobre um fenômeno” (Apud FREITAS, JABBOUR, 2011, p.10). Com relação a abordagem essa consiste em uma natureza qualitativa descritiva, tendo como objetivo a análise a partir da visão dos clientes surdos o atendimento no comércio de Barra do Garças e, público alvo estudantes e profissionais pertencentes ao quadro da rede federal de Barra do Garças.

Após um levantamento bibliográfico com múltiplas fontes, que inclui dados de observações de especialistas e trabalhos acadêmicos acerca do assunto, o sistema de coleta de dados dessa pesquisa foi elaborado, com perguntas abertas para que o entrevistado se sinta confortável para adicionar as informações, em forma de questionário (Apêndice A).

Em seguida, convidamos o intérprete do IFMT – Campus Barra do Garças, para nos auxiliar nos sucessivos momentos de entrevistas, pois nosso conhecimento sobre Libras ainda é limitado e poderia ocorrer alguma interpretação errônea.

5. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

A pesquisa contou com a participação de 3 respondentes, os quais se enquadram no perfil predefinido como população alvo da amostra, ou seja, surdos estudantes da rede federal, residentes preferencialmente em Barra do Garças. Como, também predefinimos que os entrevistados não seriam tratados por seus nomes, serão aqui denominados de A, B e C.

Assim, inicia-se a análise e discussão a partir da segunda pergunta do questionário onde você reside?

- Estudante A: Barra do Garças;

- Estudante B: Aragarças;

- Estudante C: Barra do Garças.

Devido a proximidade de Barra do Garças, com Pontal do Araguaia – MT e Aragarças – Go, tendo um tempo estimado de 5 minutos para deslocar entre as cidades consideramos todos como elementos de Barra do Garças, pois a rede federal apesar de suas sedes estarem localizadas em Barra do Garças – MT, atende a alunos dessas localidades.

A segunda pergunta nos permitiu adentrar nas relações sociais vivenciadas nas escolas aos questionar sobre: Você estuda? Onde?

- Estudante A: IFMT;

- Estudante B: IFMT;

- Estudante C: Mestrado na UNB.

Apesar de nossa metodologia prevê alunos no âmbito da rede federal de Barra do Garças, as respostas coletadas com a estudante C foram muito importantes, haja vista, que a estudante é professora de libras da rede federal de Barra do Garças, além de residir no município e, é aluna de um curso de pós-graduação, o que irá contribuir muito com nosso trabalho.

Com a perspectiva de rompimento das barreiras entre entrevistado e entrevistador, a próxima pergunta já explora o lado das dificuldades iniciais vividas nas escolas pelos entrevistados. Quais dificuldades você encontrou na escola?

- Estudante A: É difícil a interpretação e tradução da Língua Portuguesa;

- Estudante B: Com alguns professores;

- Estudante C: Não existia inclusão de intérprete de libras no colégio. Fiz amizade com as colegas e elas aprenderam o alfabeto manual e aos poucos os sinais de libras. Também usava comunicação oral.

Pelas colocações expostas nas respostas podemos condicionar a análise em duas situações, a primeira de acordo com Susin, Ribeiro e Oliveira:

Na Língua Portuguesa, são utilizadas diversas formas de entonações de voz para formulação de deferentes frases, sendo elas afirmativas, interrogativas, negativas, entre outras. Já, em Libras, essas características para diferenciação das frases se dá através das expressões corporais. Ambas as línguas possuem gramáticas diferentes e sofrem alterações com o passar do tempo. Por este motivo, a língua de sinais é considerada como um dos fatores essenciais na cultura surda e vem se adequando às mudanças na cultura, bem como às da sociedade (2014, p. 70)

A esses fatores, acrescenta-se ainda que os sinais em Libras podem variar de região para região. Fato que possivelmente dificultou a compreensão ou entendimento dos alunos A e B. Com relação ao exposto pelo estudante C, cabe salientar, que decorrido mais de uma década da implantação da lei sobre a inclusão da língua de sinais, o que se nota é uma evolução muito lenta no processo de implantação e implementação de pessoas surdas nas escolas regulares e nas empresas.

A próxima questão que se segue procurou revelar o lado descontraído ao mesmo tempo que se explorou na opinião dos surdos entrevistados entre 16 e 30 anos, quais opções o município e região oferecem para a comunidade surda. Você sai muito aos fins de semana? Que lugar você costuma ir para se divertir?

- Estudante A: Sábado à noite saio para passear na praça da matriz, tomo uma coca. Não gosto de festa e me reúno com os surdos e tomo tererê.

- Estudante B: Sim, na casa dos meus amigos e na praça da matriz.

- Estudante C: Viajando para o estudo do mestrado, visitas com minha família para Goiânia, palestras, congressos e etc.

Percebe-se que no tocante ao oferecimento de algo por parte do município e região reflita numa ação de acolhimento ou inclusão desta comunidade, na opinião destes não foi evidenciado, pois alguns referiram se aos encontros na praça da matriz ou com colegas e amigos, enquanto um atarefado por seus compromissos de estudo, os momentos de diversão são no cumprimento do mesmo ou nos encontros com a família.

O destaque da próxima questão foi a ênfase dada às relações pessoais, com o intuito de compreender o perfil destas pessoas e as tendências que possam sugerir fatores de consumo de mercadorias ou serviços. Você conhece muita gente? Tem muitos amigos?

- Estudante A: Poucas pessoas surdas e ouvintes. Conheço no futebol, trabalho e outras cidades.

- Estudante B: Sim, tenho.

- Estudante C: Sim, muitos amigos surdos e ouvintes, professores surdos no Brasil das universidades e escolas estaduais, municípios e, também intérprete de libras.

Dentre os modelos de consumidor citados anteriormente pelos autores Karsaklian (2009), Mowen (2010), Schiffman (2015) e Dantas (2012), o perfil mais evidente apresentado pelos entrevistados foi o da visão de Schiffman (2015, p. 01), o comportamento do consumidor focaliza como os indivíduos tomam decisões para utilizar seus recursos disponíveis (tempo, dinheiro e esforço) em itens relativos ao consumo.

No intuito de levantar as dificuldades encontradas pela comunidade surda no comércio de Barra do Garças, procuramos inicialmente verificar as dificuldades nas suas relações interpessoais. Como é seu relacionamento com surdos e ouvintes? E qual sua maior dificuldade com os ouvintes?

- Estudante A: Converso com os surdos que sabem libras e os que não sabem a gente só desenha. Com os ouvintes consigo me comunicar quase sempre, é bem legal.

As vezes eles falam e eu não consigo acompanhar, mas consigo ler os lábios quando falam devagar.

- Estudante B: Com surdos é bom, mas com os ouvintes é difícil, já que eles não sabem libras.

A maior dificuldade é eles não saberem libras.

- Estudante C: Normal. Alguns não sabem libras, então podemos usar escrita no papel para nos comunicar. Com surdos, depende de cada um: nível de libras, grau de escolaridade e etc.

Quando os ouvintes não conhecem bem a comunidade surda, não respeitam as diferenças. Empresas, secretarias de fazenda, ministério público estadual, hospitais e fórum de justiça parecem nunca ter contato com os surdos, fica mais difícil a comunicação.

Para análise desta questão iremos permanecer com o comentário da estudante C, pois este reflete na integra as dificuldades e meios como elas ocorrem.

Afunilando nosso intuito, tocamos diretamente no ponto com essa questão: quando você precisa de algo é você mesma que compra ou é outra pessoa (quem?) por que?

- Estudante A: Minha mãe vai junto quando saio às compras e quando tenho problema no carro é meu pai ou irmão que resolve.

- Estudante B: Minha mãe vai junto, pois as pessoas não me entendem, ou seja, não sabem libras.

- Estudante C: Compro sozinha, tenho autonomia.

Percebe-se que tanto o setor de serviços, quanto o de varejo, não enxerga estas pessoas como um potencial no quesito de reforçar suas vendas ou propor um diferencial no atendimento da empresa, o que torna a atividade de ir as compras um ato sufocante, haja vista, que o estudante B, mais jovem, talvez o que mais tem a tendência de acompanhar a moda, não consegue ser compreendida e, o mais velho, o estudante A deixa a cargo de sua mãe prover o que ele precisa. Em suma, todos trazem em suas argumentações um certo desconforto no ato da compra ou contratação de serviços.

No intuito de abrandar a discussão, a próxima questão retorna a atividades cotidianas do entrevistado na busca de estabelecer novamente um ambiente confortável e fecundo a pesquisa. Você trabalha? Onde? Faz o que?

- Estudante A: Sim. Friboi. Fiscal de produção, da parte do dianteiro. Onde procuro verificar se está tudo limpo, vacinado e carimbado.

- Estudante B: Não. Estudante.

- Estudante C: Sim. UFMT, Campus Universitário do Araguaia/ICHS. Professora da disciplina Língua Brasileira de Sinais.

Com o intuito de minimizar os efeitos da questão anterior, ao trazer o entrevistado para o mundo do trabalho percebemos que estes novamente se sentiram seguros e confiantes. O que, demonstrou o quão forte são os laços construídos dentro deste ambiente, reforçando o perfil profissional ou de relações interpessoais como fator de decisão na hora da contratação de serviços e compra de mercadorias.

Estabelecida novamente os estados de animosidade entre os entrevistados, novamente tocamos em questões difíceis, tais como: Qual a sua maior dificuldade ao ter que sair para adquirir algo? E, se tivesse alguém surdo no comércio, como você se sentiria?

- Estudante A: É difícil a comunicação no hospital e no dentista, mas minha mãe acompanha. Seria mais fácil!

- Estudante B: Comunicação!

- Estudante C: Hospitais e bancos são os locais mais difíceis de ir sozinha, pois a comunicação é precária. Me sentiria muito feliz, pois a comunicação seria muito mais fácil, e seria bom para o desenvolvimento de ambas as partes.

Observe que além dos especialistas chamarem atenção dos profissionais de marketing para a comunicação, nossos entrevistados são unanimes em solicitar ajuda ou um compromisso por parte de comerciantes e representantes para implementação na contração de intérpretes em locais como: hospitais, bancos e outros diversos setores públicos, ou seja, que tem como função o atendimento ao público em geral.

Para terminar foi questionado aos entrevistados: sua opinião sobre Libras?

- Estudante A: A Língua de Sinais ajuda muito. Porém, tenho dificuldade na interpretação de placas escritas em português e com sinais.

- Estudante B: Não respondeu.

- Estudante C: Eu amo libras. É valioso para minha vida, pois eu consigo enfrentar as coisas e melhorar cada vez mais.

O destaque de libras como uma forma de linguagem, também está condicionado ao grau de conhecimento ou estudo do usuário, assim, negar este conhecimento é não prover ou propiciar a um número expressivo de brasileiros, a falta de comunicação plena garantidas por lei.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Após interpretação e análise dos dados, cabe salientar, que está pesquisa abrange de forma peculiar uma abordagem muito maior que o nível onde nos encontramos de conhecimento, mas esperamos ter dado os primeiros passos no tocante ao tema em nosso município.

Assim, com intuito de desenvolver uma análise em relação ao atendimento da comunidade de surdos no comércio local, de Barra do Garças, podemos afirmar que tal atitude está muito longe de atender as necessidades ou aspirações desta comunidade, haja vista, que nenhum dos entrevistados sugeriu ou destacou um comércio local que apresenta uma atitude diferenciada com relação a superação das dificuldades dessa comunidade. Assim, destacamos na fala de nossos entrevistados a falta de compromisso, inclusive do poder público, em superar tais condições.

Neste sentido, acreditamos ser relevante propor ou sugerir algumas atividades que possam minimizar tais evidencias, como: a) elaboração de um material adaptado ao atendimento dos surdos, uma vez compreendido que o surdo é um ser capacitado e que utiliza comunicação espaço-visual; b) elaboração de um curso de Libras, destinado principalmente aos funcionários dos órgãos públicos que prestam atendimento ao público em geral e; c) acrescer a estes cursos de comunicação espaço-visual nas escolas, onde pequenos grupos por meio do conhecimento possam transformar e ampliar a inclusão da comunidade surda.

Contudo, devemos ter muito claro que tais atitudes devem ser de inclusão, ou seja, em espaço abertos a todos/todas, pois a restrição não atinge o objetivo primordial da inclusão, que é o de agregar e construir espaços de superação das diferenças.

Terminamos está singela explanação com nossos agradecimentos ao IFMT – Campus Barra do Garças, na figura de todos profissionais da educação, pois sem eles este trabalho não poderia ter acontecido, dessa forma, nosso muito OBRIGADO!

7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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MOWEN, J. C. & MINOR., M. Comportamento do Consumidor. Editora Atlas. São Paulo. 2010.

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Publicado por: Flávia Silva Lourenco

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