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JORNALISMO CULTURAL NA REVISTA ROLLING STONE BRASIL

Comunicação e Marketing

O que é o Jornalismo Cultural e como foi desenvolvido no Brasil, a criação da revista Rolling Stone e a análise de edições publicadas considerando o conteúdo como característico do jornalismo cultural.

índice

1. RESUMO

A monografia a seguir tem como principal propósito analisar os fatores que contribuem que a Rolling Stone Brasil seja uma referência quando se trata de jornalismo cultural atualmente. Serão retomados o contexto histórico da revista, tal como sua origem no movimento contracultural norte-americano no final dos anos 1960 e posteriormente no Brasil, entre os anos de 1971 e 1973. Para a análise foram utilizadas as seis capas de edições publicadas no primeiro semestre de 2016. Nestas observou-se a quantidade de assuntos presentes abordando o cenário musical, o que há de remanescente de sua origem de imprensa alternativa, se a revista pode ser categorizada como revista com temas elitistas ou populistas e a distribuição de reportagens sobre produtos culturais nacionais e internacionais. A monografia concluiu que as capas das edições analisadas apresentam a maioria do seu conteúdo dedicado à música, fazendo jus a imagem de revista musical, além de abordar assuntos que remetem à época quando a publicação fazia parte de um cenário oposto à mídia tradicional. Sobre as pautas ligadas aos dilemas do jornalismo cultural, a pesquisa também constatou que a revista falha ao não abordar estilos mais populares para a cultura nacional, mesmo tendo sua linha editorial baseada no universo pop. Entretanto, a Rolling Stone Brasil utiliza personagens da música e das artes nacionais como forma de reforçar a identidade nacional em seu conteúdo, mesmo se tratando de uma publicação original de outro país.

Palavras-chaves: jornalismo cultural; contracultura; Rolling Stone Brasil

2. INTRODUÇÃO

O jornalismo cultural é claramente uma das áreas de maior apreço popular, e não chega a ser difícil entender o porquê. Basta folhear as páginas de revistas voltadas para este segmento e de espaços dedicados à cultura em jornais impressos e notar que seus principais assuntos são associados ao exercício do lazer do cidadão, como apreciar bons livros, assistir a filmes, séries e peças de teatros bem produzidos ou consumir discos com músicas de qualidade.

As primeiras revistas especializadas em cultura atuavam nos séculos XVIII e XIX com o objetivo de disseminar a reflexão e ensaio de grandes escritores, filósofos e intelectuais da época através desses suplementos culturais com leveza e pouca formalidade. Com o tempo, as revistas culturais conquistaram uma importância ainda maior perante a sociedade a partir da inserção de elementos presentes até os dias atuais em publicações desse ramo, como a crítica, a resenha, o perfil, a entrevista, etc.

Todavia, a maioria das publicações culturais até meados do século XX direcionava seu conteúdo ao público geral, ainda que poucos as acompanhasse na medida em que temas como a filosofia, a literatura e a música clássica cativavam uma parcela mais intelectual e elitista que as demais. Faltava uma revista que falasse para o cidadão jovem, de personalidade forte e fã de música popular como o rock e o pop. Neste contexto, nos anos 1960 surgiu a Rolling Stone para quebrar os paradigmas da imprensa tradicional, utilizando um estilo mais ousado de fazer jornalismo ao abordar a cultura pop. Posteriormente surgiu a Rolling Stone Brasil – o objeto principal para a pesquisa deste projeto.

Nesta presente monografia é analisado como a revista tornou-se um grande exemplo de prática do jornalismo cultural a partir de sua origem na contracultura norte-americana e na imprensa alternativa e seu contexto histórico no Brasil, onde existiu uma versão anterior a atual entre os anos 1971 e 1973.

A escolha deste tema partiu do interesse do pesquisador sobre o tema da música. Ao longo de uma vida consumindo todo e qualquer tipo de estilo musical, foi possível entender um pouco mais da noção de cultura a partir do que havia sido lecionado em sala de aula sobre jornalismo cultural. Após esses ensinamentos, ficou ainda mais evidente o interesse nessa área do jornalismo para a prática da profissão após a fase de aprendizagem dentro da instituição de ensino. Ficou definida assim a escolha da Rolling Stone Brasil como objeto da pesquisa por significar uma revista de relevância para a cultura pop. A associação com a música, como primeira hipótese, contribuiu para facilitar a seleção da revista como objeto para esta monografia.

Primeiramente, é necessário analisar a Rolling Stone Brasil como revista musical, já que o público credita sua imagem e título à banda inglesa The Rolling Stones e assim, a identificando como suplemento especializado em música pop. Esta é a primeira categoria da análise de seis capas publicadas pela revista no primeiro semestre do ano de 2016. Posteriormente, esta monografia tem também como objetivo observar se a publicação, apesar de possuir uma característica adversa a dos anos 1960 (Estados Unidos) e 1970 (Brasil), ainda abre espaço para os elementos do movimento contracultural.

As duas últimas categorias da análise da Rolling Stone Brasil são baseadas nas teorias de Piza (2013) em relação aos dilemas que o jornalismo cultural contemporâneo precisa enfrentar diariamente dentro das redações. Um deles é o conflito entre temas considerados elitistas ou populistas visando para quem o conteúdo da revista é direcionado através da escolha de suas pautas. O segundo dilema a ser apontado pela pesquisa como categorias de análise é a distribuição de pautas nacionais e internacionais pela Rolling Stone Brasil, um problema frequente entre os jornalistas brasileiros que trabalham nas seções culturais da imprensa escrita.

Para a objetividade desta monografia, foi necessário estudar as teorias que envolvem os primórdios do jornalismo cultural no mundo, a chegada do segmento ao Brasil, sua contemporaneidade, os dilemas que acercam a prática da área, a história da Rolling Stone Brasil e o contexto do jornalismo musical no país.

A partir dessa análise, a hipótese deste trabalho é que a Rolling Stone Brasil é uma revista que usa a música como o alicerce de sua linha editorial, e mantenha traços de sua origem na contracultura.

3. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

3.1 BREVE HISTÓRICO DO JORNALISMO CULTURAL

Jornalismo cultural pode ser definido como “o ramo do jornalismo que tem por missão informar e opinar sobre a produção e a circulação de bens culturais na sociedade” (GOMEZ, 2007 p.4).

Segundo Piza (2013), não há uma data concreta que oficialize o surgimento do jornalismo cultural no mundo, mas seu pioneirismo foi marcado no ano de 1711, com o início da revista inglesa The Spectator. Os autores Richard Steele (1672-1729) e Joseph Addison (1672-1719), que possuíam experiência em revistas diárias como The Tattler e The Guardian, decidiram fundar a publicação em conjunto com a finalidade de “tirar a filosofia dos gabinetes e bibliotecas, escolas e faculdades e levar para clubes e assembleias, casas de chá e cafés” (Piza, 2013, p.11).

Piza (2013) conta que durante os quatro anos em que Steele e Addison fizeram a revista, despertou a curiosidade dos então moradores de Londres em saber quem eram os autores por trás das assinaturas CLIO, R, T e X. Steele e Addison tornaram-se famosos pelo que escreviam e fizeram os assuntos serem discutidos nas mesas dos cafés, clubes e casa, como queriam.

A revista falava de tudo – livros, óperas, costumes, festivais de música e teatro, política – num tom de conversação espirituosa, culta sem ser formal, reflexiva sem ser inacessível, apostando num fraseado charmoso e irônico que faria o futuro grão-mestre da ciência Samuel Johnson sentenciar: “Quem quiser atingir um estilo inglês deve dedicar seus dias e suas noites a ler esses volumes”. Podia tratar dos novos hábitos vistos numa casa de café, como temas em discussão e roupas na moda, ou então criticar o culto às óperas italianas e o casamento em idade precoce. Podia citar Xenofonte para satirizar a falta de modéstia dos ingleses e Dom Quixote para atacar a mania de ridicularizar o outro por meio de risadas. (PIZA, 2013, p. 12)

O citado Samuel Johnson (1709-1784) foi o primeiro grande crítico cultural e, assim, conhecido como o pai de todos os críticos. Escrevia para a revista The Rambler que, de acordo com Gomes, “partia da apreciação de uma determinada obra para a discussão de um tema importante do momento” (2007). As resenhas de Dr. Johnson - como era conhecido - de prosas e poesias de autores da época, além de seus ensaios sobre William Shakespeare (1954-1616) fizeram do escritor o “homem de letras mais lido e temido de seu tempo” (PIZA, 2013, p.13).

O ensaísmo utilizado no jornalismo cultural inglês por Addison, Steele, Johnson e William Hazlitt (1778-1830), que escrevia na revista The Examiner, “foi um elemento importante na gestação do Iluminismo francês” (GOMES, 2007 p. 10). Naquele período, o editor-chefe da Enciclopédia, Denis Diderot (1713-1784) foi um grande crítico de arte que, de acordo com Piza (2013), realizava a cobertura de salões e exposições anuais para periódicos nos anos 1760. A mesma tarefa de resenhar salões de pintura também foi desempenhada por Charles Baudelaire (1821-1867), seguidor de Diderot no gênero nos anos 1840.

Outro sucessor de Diderot e Baudelaire foi o francês Charles Augustin Sainte-Beuve (1804-1869), cujas críticas publicadas nos jornais Le Globe e Le Constitutionnel “estabeleceram um padrão para o jornalismo cultural” (PIZA, 2013, p.15). Sainte-Beuve possuía uma coluna semanal no Le Constitutionnel, que popularizou o uso de rodapés literários – algo que é utilizado até hoje em jornais. Depois dele, “o jornalista cultural ganhou status: ele podia desenvolver uma carreira exclusivamente como crítico e articulista, independente de academias ou de uma obra ficcional; a tarefa tinha sua própria dignidade” (PIZA, 2013, p.15).

Ainda na Europa, no século XVIII, o alemão G.E. Lessing (1729-1789) ficou famoso ao escrever para o jornal Berlinische Privilegirte Zeitung como crítico das áreas de teatro, literatura e pintura. Já no século XIX, o também alemão Heinrich Heine (1797-1856) misturava crítica social e polêmica literária – o que, segundo Piza (2013), o fizeram perseguido na Alemanha e popular na França.

O século XIX também marcou a expansão do jornalismo cultural para a América, onde “foi se tornar influente em países como os Estados Unidos e o Brasil” (PIZA, 2013, p.16). Em solo americano, a principal figura foi Edgar Allan Poe (1809-1849).

Hoje famoso por seus contos de mistério e poemas como O Corvo, Poe só era reconhecido em seu país como crítico e ensaísta que modernizou o ambiente intelectual da América. Curiosamente, se tornaria mais respeitado como escrito, polivalente na França, graças ao trabalho de Baudelaire. (PIZA, 2013, p.16)

Outra figura que se destacaria no jornalismo cultural norte-americano foi o romancista Henry James (1843-1916). De acordo com Piza (2013), James foi um grande ensaísta e articulista que escrevia para jornais e revistas da cidade de Nova York, como o New York Tribune.

Ao longo do Século XX, as revistas desempenharam um papel primordial para dar sequência à prática do jornalismo cultural no mundo. Segundo Piza (2013), nas cidades onde a efervescência cultural existia, a presença de publicações que realizassem resenhas, críticas, ensaios, reportagens, perfis, entrevistas – além da apresentação de contos e poemas – era ostensiva.

A grande era da crítica, dos séculos XVIII e XIX, não tinha terminado, apenas se transformado. A adaptação para um mundo cada vez mais povoado por máquinas, telefones, cinemas – para um mundo moderno, marcado pela velocidade e pela internacionalização – mudou o figurino do crítico, mas não tanto sua figura. (PIZA, 2013, p. 20)

Em meio ao cenário modernista da época, o crítico presente em jornais e revistas passou a realizar publicações mais informativas e objetivas, evitando cada vez menos ser moralista e meditativo. Apesar disso, o profissional continuava a exercer uma influência que não apenas servia de referência para os leitores, mas também para intelectuais e artistas de áreas distintas. De acordo com Piza (2013), o crítico tornou-se um “intelectual público” – termo dito por Russell Jacoby no livro Os Últimos Intelectuais.

Nos Estados Unidos surgiu então o que Piza (2013) denomina como “capítulo obrigatório em qualquer história do jornalismo cultural do Século XX” – a revista New Yorker, no ano de 1925. Assim que lançada, a revista tornou-se referência de “classe, incisividade e humor” (PIZA, 2013, p.23), tendo seu modelo copiado por diversas outras publicações ao redor do mundo.

Além de revelar escritores, humoristas, cartunistas e articulistas, a New Yorker também foi responsável por impulsionar o que hoje se conhece por jornalismo literário, que utiliza de recursos e ferramentas literárias para a construção de reportagens, tais como descrições detalhadas e numerosos diálogos. A inclusão do “New Journalism” – termo que surge a partir da mistura de histórias verídicas com narrativas que lembram a ficção – também foi um marco para o jornalismo cultural. A principal concorrente da New Yorker, Esquire, é lembrada por essa técnica através de Gay Talese e Norman Mailer.

Em 1967 surge a revista Rolling Stone, caracterizada como uma das publicações mais importantes e influentes mundialmente em se tratando de cultura pop. Criada por Jann Wenner na cidade norte-americana de San Francisco, a revista teve origem no movimento contracultural – formado por uma juventude que contestava os valores sociais e culturais impostos na época. Foi a partir desse movimento que, segundo Vaz (2008), grupos minoritários como mulheres, negros e homossexuais passaram a buscar cada vez mais espaço em uma sociedade onde apenas figuras masculinas, heterossexuais e brancas predominavam.

Com um início “radical” (característica da contracultura), a Rolling Stone abordava assuntos relacionados à música, tais como lançamentos, entrevistas, resenhas e coberturas de shows, de uma forma que outras publicações da mídia tradicional não realizavam. A presença da revista é fruto do surgimento da chamada imprensa alternativa – que, segundo Silva (2010) vai contra o modelo midiático tradicional (mainstream media) ao atender as necessidades de uma população que se recusa a viver sob as normas e tendências dominantes.

De acordo com Vaz (2008), com o tempo a Rolling Stone passou a publicar matérias com coberturas políticas sob a assinatura de jornalistas famosos como Hunter S. Thompson, criador do chamado jornalismo gonzo. O estilo ousado e irreverente em que o jornalista é apresentado na matéria na primeira pessoa ficou marcado nas páginas da revista de Wenner – que além de música e política, passou a abordar cinema e textos de ficção.

A presença e o sucesso dos textos pouco convencionais de Thompson e de outros escritores afrouxaram a limitação temática que antes havia causado um grande conflito na redação da revista. Se antes Jann Wenner defendia a restritiva posição de que seus repórteres escrevessem sobre música e o que ela envolve, agora, ele permitia que seus escritores avançassem além dessa barreira. Não havia restrição quanto ao uso de palavras de baixo calão, e a objetividade estava sendo abandonada: a Rolling Stone deveria defender uma posição, era isso que seus leitores desejavam. (VAZ, 2008 p.31)

Ao mesmo tempo em que se tornou referência de qualidade, a Rolling Stone também atravessou mudanças relacionadas ao jornalismo. A começar pela troca da sede da redação de San Francisco para Nova York em 1977. Vaz (2008) explica que, na mesma década, a prática jornalística da revista já não era mais a mesma devido ao padrão de produzir textos mais curtos e com a notável presença de fotografias a partir do lançamento da revista de entretenimento People. Nos anos 1980, a Rolling Stone passou a ser pautada pela MTV, canal de televisão especializado em música que virou um grande fenômeno entre o público jovem. A revista começava a dar espaço para artistas populares que figuravam na MTV, indo contra o pensamento de alguns jornalistas que preferiam a ideia de apresentar novos rostos, distantes do cenário mainstream.

A partir dessas mudanças, a Rolling Stone havia perdido a essência da ousadia e do radicalismo da contracultura para virar, de acordo com Vaz (2008) uma revista comercial e sem qualquer pretensão de inovar. O próprio rock & roll, grande paixão de Wenner, que antes era um movimento social, passou a incorporar o cotidiano da população.

3.2 JORNALISMO CULTURAL NO BRASIL

No Brasil, o jornalismo cultural só ganharia força no final do século XIX, “e dele nasceria o maior escritor nacional, o nosso Henry James, Machado de Assis (1839-1908)” (PIZA, 2013, p.16). Assis começou a carreira como crítico de peças teatrais e polemista literário para folhetins, assim como muitos outros escritores brasileiros da época que passaram pelo jornalismo cultural.

A polêmica literária era comum na época. Nela, dois críticos de jornais diferentes argumentavam contra ou a favor de determinado autor. Ficou célebre em 1856 uma polêmica em que Alencar criticava no Diário a concessão de verba imperial para edição do poema A Confederação dos Tamoios, de Gonçalves de Magalhães, enquanto o patrocínio era defendido no Jornal do Comércio pelo próprio imperador D. Pedro II, a princípio oculto por pseudônimo. Outras vezes a polêmica saía do papel e chegava às vias de fato, como em Florianópolis, quando, após criticar em O Conservador um livro de Eduardo Nunes Pires, Virgílio Várzea foi forçado pelo escritor a engolir o papel onde escrevera a crítica. (GOMES, 2007, p.13)

Na virada para o século XX, o jornalismo cultural começaria a se renovar graças à modernização da sociedade e da arte. Piza (2013) conta que o jornalismo moderno passou a se profissionalizar através de reportagens e relatos de fatos, diferente do período anterior em que apenas se falava de articulismo político e debates sobre livros e arte.

Repórteres de política e polícia passaram a ser os mais importantes dentro das redações. O jornalismo cultural também “esquentou”: descobriu a reportagem e a entrevista, além de uma crítica de arte mais breve e participante. Das conversações sofisticadas de Addison e Steele até as resenhas incividas de Zola, Kraus e Shaw, o jornalismo cultural tomou sua forma moderna. (PIZA, 2013, p. 19)

Com o tempo, vários estágios do jornalismo cultural no Brasil foram exercitados pela imprensa. Gomes (2007) destaca por itens a cronologia da modalidade no país: folhetim, suplemento, e caderno – este último ressaltando a popularização de cadernos especializados de cultura nos periódicos brasileiros.

No século XX, o jornalismo cultural brasileiro passou por diversas transformações. Ballerini (2015) explica que a virada do século abriu espaço para uma discussão que parece ter sido retomada nos dias atuais, que é a baixa qualidade da produção, e cita o crítico literário José Veríssimo (1857-1916) para justificar que a situação em que se encontrava o jornalismo era a falta de figuras como Machado de Assis, e que apenas Euclides da Cunha se destacava. Ballerini (2015) também relata que a prática do jornalismo brasileiro passou a dividir-se em duas correntes.

Os norte-americanos passaram a profissionalizar o jornalismo com treinamento em universidade. Enquanto isso, os europeus rejeitaram a técnica e defenderam o ideal humanista, opinativo, a arte de escrever por vocação. O Brasil, embora historicamente influenciado pela Europa, aos poucos inclinou-se para o estilo de profissionalização dos norte-americanos. (MEDINA, 1982 apud BALLERINI, 2015 p.23)

Ao lado do surgimento de revistas e suplementos culturais como O Cruzeiro, que era um “porta-voz nacional influente por apresentar um visual arrojado, realizar grandes reportagens em série, fazer que os leitores colecionassem as edições e deixar um legado de fotojornalistas de renome por várias gerações” (BALLERINI, 2015 p.24), o século XX também marcou a mudança no jornalismo cultural brasileiro, que deixou de ser apenas literário para agregar novas mídias.

Segundo Ballerini (2015), a sonorização do cinema e a popularização do rádio fez o jornalismo cultural ganhar força, assim impulsionando a indústria fonográfica e o nascimento da indústria cultural brasileira. “Esta, ainda que inicialmente tímida, alimentaria uma sociedade de consumo que só cresceu nas décadas seguintes” (BALLERINI, 2015, p.25). Entretanto, a instauração do período chamado Estado Novo (1937-1945) no Brasil, em 1937, fez com que revistas culturais e jornais fossem censurados. De acordo com Ballerini (2015), publicações pertencentes ao governo, como Carioca e Vamos Ler, tratavam de música, cinema, rádio e literatura de forma superficial. Ainda segundo o autor, a exceção foi a revista Diretrizes, lançada em 1938 sob a direção de Azevedo Amaral (1881-1942) e Samuel Wainer (1910-1980) que conseguia burlar a censura imposta pelo Estado Novo “com muita malícia e fazer um jornalismo cultural de qualidade” (BALLERINI, 2015 p.25).

Mesmo com o jornalismo brasileiro atravessando um momento difícil causado pela instauração do Estado Novo por Getúlio Vargas, os cursos de jornalismo começaram a se disseminar no país a partir dessa época e a especialização em áreas como o jornalismo cultural tornaram-se tendência.

A profissionalização levou mais de 20 anos para se assentar. Isso porque os donos de jornais temiam que a regulamentação forçasse um aumento de salário. Havia também jornalistas da velha guarda que receavam perder o emprego para os novos profissionais. (MEDINA, 1982 apud BALLERINI 2015 p.25)

De acordo com Ballerini (2015), outro exemplo de destaque do jornalismo cultural brasileiro foi o Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, surgido em 1956 e com uma característica mais feminina, que ficou famoso por divulgar o movimento concentrista brasileiro. Com o tempo, o suplemento foi abrangendo temas mais masculinos, principalmente ligados ao cinema. À exemplo do Estado de S. Paulo e da Folha, o Jornal do Brasil substituiu o suplemento pelo Caderno B, que ampliava a cobertura cultural ainda mais.

Uma época obscura, segundo Ballerini (2015), vivida pelo jornalismo no Brasil foi durante o Regime Militar (1964-1985). Assim que foi instaurado, cadernos culturais diários e suplementos passaram a produzir publicações com forte teor político. A intenção, segundo Abreu (1996 apud BALLERINI, 2015), era politizar a população e levá-la a refletir sobre os problemas sociais vividos em um país que atravessava a ditadura através do cinema, do teatro, da literatura e da poesia.

É nesse período que a contracultura, já instalada nos Estados Unidos e espalhado para outros continentes, começa a adquirir visibilidade no Brasil e, assim, abre espaço para o surgimento da chamada imprensa alternativa (a mesma responsável pela criação da Rolling Stone).

Foi a partir de 1968 e nos anos posteriores até 1974 que a contracultura ganhou mais visibilidade no Brasil, exemplificada através de uma série de experiências, tais como: produção e difusão independente da informação escrita (livros, jornais, revistas e panfletos), de espetáculos musicais, teatrais, filmes, histórias em quadrinhos, como alternativa ao asfixiamento imposto pelo esquema burguês e empresarial e principalmente pelo regime militar. (BUENO, 1978 apud BARROS, 2005, p.78)

Segundo Barros (2005), a imprensa alternativa brasileira – também chamada de “underground”, “tropicalista”, “marginal”, “nanica”, “não-alinhada”, “emergente”, “jovem” – possuía uma influência notável no new journalism ao abordar, a partir de um ponto de vista diferente, as mudanças comportamentais e sociais que o mundo atravessava àquele tempo.

A imprensa alternativa surgiu da articulação de duas forças igualmente compulsivas: o desejo das esquerdas de protagonizarem as transformações institucionais que propunham e a busca, por jornalistas e intelectuais, de espaços alternativos à grande imprensa. É na dupla oposição ao regime representado pelos militares e às limitações à produção intelectualjornalística sob o autoritarismo, que se encontra o nexo dessa articulação entre jornalistas, intelectuais e ativistas políticos. (BARROS, 2005 p.79)

Barros (2005) explica que durante 1964 e 1980, o Brasil contou com cerca de 150 periódicos alternativos que surgiram e logo foram encerrados. As publicações tinham em comum a oposição implacável ao regime militar da época. A imprensa underground se concentrava em centros urbanos como Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Belo Horizonte.

Durante os anos 1970, houve também a transformação dos cadernos e suplementos culturais devido à implantação do lide jornalístico em veículos impressos – causando assim o crescimento da notícia e o enfraquecimento da opinião no jornalismo cultural.

Os suplementos deixaram de ser o espaço de veiculação da crítica literária, perderam a função de analistas de qualidade de um livro quanto à sua forma e ao seu conteúdo e se transformaram em meros divulgadores de novos lançamentos editoriais. Os intelectuais, escritores, poetas e artistas foram cedendo lugar ao jornalista profissional, especializado em resenhar obras recém-editadas. (ABREU, 1996 apud BALLERINI, 2015, p.30)

Na ocasião as maiores referências do jornalismo cultural impresso eram os cadernos Ilustrada, da Folha de S. Paulo, e Caderno 2, do Estado de S. Paulo. A primeira, segundo Ballerini (2015) chegou ao final do século XX abusando a controvérsia e utilizando articulistas e críticos polêmicos, como Paulo Francis, Tarso de Castro e Décio Pignatari, mas com o tempo passou a diminuir a frequência de opiniões e deu espaço às agendas culturais.

Já o Caderno 2, segundo Piza (2013), teve auge nos anos 1980 e contava com jornalistas como Wagner Carelli, Zuza Homem de Mello e Enio Squeff. De acordo com Ballerini (2015), enquanto a Ilustrada dava mais espaço ao cinema norte-americano e à música pop, o Caderno 2 abordava literatura, artes plásticas e teatro, algo que atualmente não faz mais parte da essência do caderno.

Assim, ainda segundo Ballerini (2015), os cadernos culturais diários passavam a dedicar espaço maior a roteiros, guias e serviços – como programação de TV, cinema, colunas sociais, horóscopo, palavras cruzadas, quadrinhos, etc. Um outro espaço era reservado para as reportagens, críticas e notas.

Embora suas características principais devam ser as de formador de opinião, informando e, mais do que isso, formando e entretendo o leitor, através de sua bagagem e de seu julgamento crítico, nos últimos anos ele tem virado quase sinônimo de agenda cultural. Os cadernos e seções de cultura de jornais e revistas dedicam -se a divulgar filmes, espetáculos, CDs, livros, grandes eventos supostamente culturais e criar pautas baseadas em releases de assessorias de imprensa. O espaço para análise crítica e reflexão é cada vez menor. Predomina hoje o jornalismo de agenda, onde as o mais importante são os guias de eventos e lançamentos semanais ou mensais (GONZALEZ, 2009 p.2).

Outro fato importante foi o surgimento da revista Bravo!, em 1997, cuja linha editorial era voltada para a agenda cultural, porém com abordagens mais aprofundadas sobre os temas. De acordo com Ballerini (2015), a revista recebia críticas do meio intelectual por estar ligada mais ao entretenimento. Com o fim da Editora D'Ávila, da qual pertencia a Bravo!, a revista foi comprada pela Editora Abril, que a publicou até 2013, extinguindo-a com outras revistas da empresa.

Tal atitude levantou muitas críticas no meio, especialmente pelo fato de a Abril focar apenas no lucro, enfraquecendo assim seu portfólio jornalístico. Tal reação adversa parece-nos coerente, uma vez que o valor simbólico da Abril claramente pede força sem títulos culturais como a Bravo! (BALLERINI, 2015 p.31).

Assim, segundo Ballerini, o mercado de revistas culturais passou então para as mãos da Editora Bregantini, que publicarou desde o final dos anos 1990, a revista Cult – esta menos focada em agenda cultural e voltada para reflexões sobre arte, sociedade, política e filosofia.

A partir dos anos 1950, o jornalismo cultural impresso passou a caracterizar-se pelo aparecimento de suplementos literários. Santiago (1993 apud BALLERINI, 2015) explica que esses suplementos dão ao leitor um lazer inteligente aos finais de semana.

Suplementos são produzidos por jornalistas fixos das redações, mas também por um corpo de colaboradores e intelectuais (filósofos, escritores, acadêmicos e cientistas). Essa “mistura” de textos, escritos por profissionais diversos, já levantou inúmeros debates sobre a clareza e acessibilidade das informações e reflexões dos suplementos (SANTIAGO, 1993 apud BALLERINI, 2015, p.25).

Apesar da crítica em relação à linguagem utilizada em suplementos, Travancas (2001 apud BALLERINI, 2015) conta que estes mesmos suplementos literários servem como uma aversão à “pressão da linguagem jornalística, em que os textos podem ser mais longos, complexos e refinados e menos coloquiais”.

Os suplementos literários transmitem uma ideia de livro e de literatura e significam prestígio para os jornais e status para quem trabalha neles. São frequentes os casos de suplementos literários deficitários, cuja receita de publicidade não chega a cobrir o seu custo. Mas a relação custo-benefício para um jornal, assim como para uma sociedade, não se mede apenas pelo seu valor financeiro. É como se o jornal se valorizasse na valorização do leitor (Travancas, 2001 apud BALLERINI, 2015 p.26).

Segundo Ballerini (2015), o principal caderno cultural da época foi o Suplemento Literário, do Estado de S. Paulo. A publicação foi dirigida durante dez anos por Décio de Almeida Prado e tornou-se referência para os cadernos que depois surgiram. O Suplemento Literário tinha como objetivo evitar o tom excessivamente jornalístico e o excessivamente erudito: “O primeiro abafava a leitura, mas não contribuía para criar hábitos intelectuais, e o segundo abafava o leitor com artigos longos, de leitura penosa”. (BALLERINI, 2015, p.26).

O Suplemento Literário contava com colaboradores ilustres, como Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Sérgio Buarque de Holanda, Lygia Fagundes Teles e João Cabral de Melo Neto. Segundo Lorenzotti (2002 apud Ballerini, 2015, p.26), a prática do jornalismo cultural era bem renumerada e a publicação chegava a pagar até dez vezes mais que jornais concorrentes para proporcionar ao leitor “textos inteligentes, capazes de estimular a reflexão sem cansar o leitor”. De acordo com Ballerini, a publicação chegou ao declínio no começo dos anos 80, devido ao tom acadêmico dos textos que “destoava de um momento de alta do jornalismo cada vez mais rápido e informativo” (2015, p.26). O caderno foi substituído por Cultura, um suplemento que passou a ampliar os assuntos culturais e que durou até o final dos anos 1980, quando, segundo Ballerini, já existia o Caderno 2, dedicado a assuntos da indústria cultural, como: lançamento de discos, peças e livros.

Concorrente do Estado de S. Paulo, a Folha de S. Paulo passou a dar atenção ao jornalismo cultural em 1958 com o surgimento da Folha Ilustrada. Ballerini (2015) conta que a Folha de S. Paulo também contava com o tabloide Folhetim, que publicava resenha de livros e ensaios literários, e que posteriormente foi trocado pelo caderno Letras. Por fim, nos anos 1990 a Folha lançou publicações como o dominical Mais!, Ilustríssima e o Jornal da Resenha. Mas apenas a Ilustrada manteve-se, tornando-se, de acordo com Ballerini, o maior caderno do Grupo Folha e um dos mais lidos do país. Desde o início, a proposta da Ilustrada foi, segundo Strecker (1989 apud Ballerini, 2015) dar prioridade à cultura de massa.

Afinal, o jornal entende a cultura como um fato de mercado; por isso, o cinema, a televisão e a indústria editorial e discográfica têm espaço privilegiado, o que não quer dizer que o caderno não cubra eventualmente assuntos ligados à filosofia, semiologia, história, etc. (BALLERINI, 2015 p. 27)

Segundo Silva (1997 apud Ballerini, 2015), esse perfil foi copiado por diversos outros cadernos culturais a partir dos anos 1950 – mesma época em que, segundo Ballerini, revistas culturais foram criadas, quase todas com vida curta – e homogeneizadas nos anos 1990.

Os suplementos literários, conforme Abreu (1996 apud Ballerini, 2015), eram a oportunidade para jovens talentos da literatura: “Se o artista conhecesse algum colaborador de suplemento literário, conseguiria publicar seu texto, obter alguma paga e ainda abrir caminho para a vida de escritor” (ABREU, 1996 apud BALLERINI, 2015 p.28). Além disso, de acordo com Ballerini, os suplementos eram um produto que aprimorava os jornais e mesmo que não faturasse com publicidade, atraia anunciantes para outros cadernos.

Os segundos cadernos são, de acordo com Piza (2013), mais importantes para as revistas e jornais como eles costumam imaginar. Segundo o autor, não só pelo que as pesquisas realizadas com os leitores apontam, mas é pelo segundo caderno que o leitor “extrai suas referências afetivas, suas pontes cativas com a publicação” (2013, p.63). O autor explica que as páginas culturais formam poderosos vértices de identidade com o consumidor.

Outra característica notável é a presença do colunista mais lido e comentado do jornal no segundo caderno, assim como Paulo Francis esteve na Ilustrada e no Caderno 2 (da Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo), ou como Arnaldo Jabor e Diogo Mainardi são hoje na Folha de S. Paulo e na Veja, respectivamente. Na maioria das vezes, estes mesmos colunistas figuram nas primeiras páginas dos jornais, dando uma visão cultural aos assuntos do cotidiano. Luís Fernando Veríssimo, como cita Piza (2013), assinou coluna diária no primeiro caderno de diversos jornais brasileiros durante anos.

Além disso, os assuntos abordados nesta seção (cinema, moda, música, literatura, entre outros) são obviamente convidativos ao leitor, que se sente seduzido pelas publicações que, de acordo com o autor, antecipa uma reação mais simpática comparada às outras seções do jornal.

Ela não está falando sobre escândalos políticos, dos índices econômicos e da criminalidade assustadora, pelo menos não diretamente daqueles que nos afetam no cotidiano. Está nos indicando, em geral, coisas boas para fazer, como ver um filme, ir a um restaurante, ler um livro – daí a importância das edições de fim de semana (sexta, sábado e domingo), que também usufruem do maior tempo disponível do público para ler o próprio jornal (PIZA, 2013, p.64).

Piza conta que o investimento nestes espaços não significa preenchê-los com numerosas páginas, mas olhá-las de forma particular, respeitando a especificação das publicações.

Significa ter colunistas com recursos literários, que saibam traduzir sensações e opiniões diante das tantas faces da realidade; significa ter uma equipe com preparo intelectual, que faça com exigência e charme as críticas, entrevistas e reportagens; significa permitir pluralidade e criatividade com ainda mais vigor do que nas outras seções (PIZA, 2013, p.64-65).

Nos últimos tempos, o jornalismo cultural tem sido afetado por estes quesitos, assim como o jornalismo brasileiro em relação à economia e à precariedade educacional, de acordo com Piza (2013). As tradicionais colunas já não possuem o mesmo requinte de antes pelo fato dos jornais darem preferência por pessoas mais conhecidas por seus nomes do que seus textos, além de autores profissionais também deixarem de lado assuntos ligados à cultura por fatos do cotidiano em geral. OA resultado é uma diminuição sensível na pluralidade e criatividade.

Além disso, de acordo com Piza (2013), há uma movimentação nas redações jornalísticas nos últimos anos para igualar o jornalismo cultural às outras seções, com dosagens de hard news, o que também seria outro motivo para o enfraquecimento dos suplementos culturais em jornais e revistas.

Decidiu-se, por exemplo, que os títulos deveriam ter verbos, sempre que possível; que a crítica seria sempre um item à parte, raramente apta a abrir a seção ou mesmo uma página interna; que a diagramação também não seria muito diferenciada; que os parágrafos deveriam ser curtos etc. Poucas vezes os cadernos culturais têm ganhado chamadas na primeira página. E, como vivem de quociente maior de colaboradores de fora da redação, têm sofrido também com os cortes de verba, que naturalmente começam pelos terceiros. Basta pensar em como a Ilustrada imprimia a marca da Folha nos anos 80 – ou o Caderno B do Jornal do Brasil nos anos 60ou as páginas culturais da Veja nos anos 70, entre tantos exemplos – para sentir como a força das seções culturais foi reduzida (PIZA, 2013, p.65).

Ainda conforme Piza (2013), os outros meios de comunicação, como rádio e televisão, passam pelo mesmo problema. De acordo com o autor, as rádios noticiosas possuem segmentos para diversos assuntos, menos para os produtos culturais. Já as emissoras de rádio musicais se preocupam em “tocar os sucessos e aquilo que as gravadoras vendem como novos hits não fazem nem sequer um ‘programete’ semanal com análise do momento musical” (PIZA, 2013, p. 66). Segundo o autor, o mesmo não vale para as rádios segmentadas como a Cultura FM, que toca música erudita, e a Nova FM, de MPB.

Em função disso, segundo Piza hoje mesmo os leitores que não são acostumados com textos longos e menos superficiais, levados pelo senso crítico e repertório cultural limitado, acreditam que o jornalismo cultural, na maioria das vezes, “beira ao fútil e o leviano” (PIZA, 2013, p. 63):

[O leitor] vê que os suplementos literários foram fechados ou drasticamente reduzidos, nota a hegemonia das colunas em tom de crônica impressionista, sente que o autor de uma matéria não tem muita familiaridade com o assunto ou então fala apenas aos “iniciados” em seus códigos e gírias (PIZA, 2013, p.63).

Tal percepção dos leitores gera demanda por um jornalismo cultural de qualidade e, para isso, têm surgido websites, inclusive no Brasil, que recriam o perfil vivo e crítico do segmento. Além disso, segundo o autor, as editoras vêm cada vez mais trabalhando com obras de não-ficção, perfis, ensaios, reportagens, biografias e livros de história tendo jornalistas como autores ou utilizando da essência jornalística.

Pode-se dizer que, de certo modo, depois da derrocada dos sistemas ideológicos tradicionais, simbolizada pela queda do muro de Berlim em 1989, e do surgimento de diversas tecnologias que recuperam o passado cultural (CD, DVD, a própria web), a análise cultural ganhou força (PIZA, 2013, p.67).

Esta mudança também seria notada na produção de documentários que podem ser vistos em canais segmentados como Films&Arts e o brasileiro GNT. Segundo o autor, embora não haja publicações com a mesma influência de antes, elas seguem mantendo o padrão de como era na época das revistas The Spectator e New Yorker, de suplementos culturais europeus e tabloides norte-americanos.

Piza (2013) relata que as dificuldades econômicas têm acentuado a queda do jornalismo cultural no Brasil, mas que empecilhos dentro da própria mente precisam ser retirados. De acordo com o autor, há excesso de entrevistas que não contestam o entrevistado e resenhas que desperdiçam o espaço dado com pouca incisividade e sutileza, além de perfis que relacionem o artista com a sua obra.

Tudo depende, no entanto, de ter bons profissionais e estimulá-los a prezar o que fazem, estimular sua criatividade e seu rigor, estimulá-los a estudar, viajar, sedimentar ideias. O fundamental no jornalista cultural é que saiba ao mesmo tempo convidar e provocar o leitor, notando ainda que essas duas ações não raro se tornam a mesma: o leitor que se sente provocado por uma opinião diferente (no conteúdo ou mesmo na formulação) está também sendo convidado a conhecer um repertório novo, a ganhar informação e reflexão sobre um assunto que tendia a encarar de outra forma (PIZA, 2013, p.68).

3.3 DILEMAS DO JORNALISMO CULTURAL CONTEMPORÂNEO

O jornalismo cultural brasileiro passou por diversas transformações ao longo das últimas décadas. E é desde a segunda metade do século XX que, segundo Piza (2013), a prática do jornalismo cultural vive crises de identidades. Isto é, a partir do surgimento dos meios de comunicação de massa, o debate acerca do papel do jornalismo se acentua.

De certa forma, de acordo com o autor, o jornalismo cultural teve uma contribuição importante junto ao aparecimento destas plataformas e da ampliação da indústria cultural – como a multiplicação de revistas culturais nos anos 1920 e a consolidação das seções culturais em periódicos diários e semanais na década de 1950, fazendo do entretenimento em um dos setores mais “ativos e ainda promissores da economia global” (PIZA, 2013, p.44). Entretenimento esse que serviu de base para o estudo da Escola de Frankfurt a partir de seus integrantes: Adorno, Horkheimer e Walter Benjamim.

O entretenimento apresenta-se como um dos valores mais importantes da sociedade da informação. Apesar disso, na área comunicacional, especialmente no jornalismo, não se estabeleceu em objeto de pesquisa. Ele objetiva proporcionar uma válvula de distração, de prazer e de diversão às pessoas, ora ajudando-as a uma ruptura com a vida real (por meio da evasão para uma realidade diferente da vivenciada rotineiramente), ora promovendo a formação intelectual. (GONZALEZ, 2009, p.2)

Na visão dos autores, a indústria cultural – segundo Piza – era uma peça do sistema capitalista utilizada como “porta-voz da ideologia burguesa” (2013, p.44) , servindo como “cortina de fumaça para a realidade social” (2013, p.44) para impor padrões e valores das classes dominantes nas classes inferiores. O que seria o oposto da cultura de massa que, conforme Cabral (2016), os pesquisadores não a viam como uma forma pretensiosa de consumação, uma vez que a cultura de massa é oriunda da regionalização, do povo.

A partir do ensaio A Obra de Arte na Era da Reprodutibilidade Técnica, Walter Benjamin – o mais aberto dos autores, segundo Piza (2013) – afirma que em tempos industriais a arte perdeu sua essência para tornar-se um produto para consumo instantâneo e não mais para um material de reflexão. No entanto, Piza conta que essa ideia acaba esbarrando na verificação de que há sim produtos feitos para grandes públicos com uma proporção tão grande de qualidade quanto obras de arte realizadas em outras épocas. Cabral (2016) ainda afirma que, na visão dos autores da Escola de Frankfurt, a indústria cultural é uma realidade impossível de escapar, mas que a população deve ir atrás de fontes alternativas para o consumo da arte e de produções que provoquem o mínimo de conscientização cultural mesmo pertencendo ao mercado do consumo.

Conforme Piza (2013), o jornalismo, como peça fundamental no acesso desses produtos através dos suplementos culturais e plataformas midiáticas, precisa

Saber observar esse mercado sem preconceitos ideológicos, sem parcialidade política. Por outro lado, como a função jornalística é selecionar aquilo que reporta (editar, hierarquizar, comentar, analisar), influir sobre os critérios de escolha dos leitores, fornecer elementos e argumentos para sua opinião, a imprensa cultural tem o dever do senso crítico, da avaliação de cada obra cultural e das tendências que o mercado valoriza por seus interesses, e o dever de olhar para as induções simbólicas e morais que o cidadão recebe. (PIZA, 2013, p.45)

No entanto, o jornalismo cultural não tem desempenhado tal função com compreensão no momento atual. Piza (2013) afirma que uma das causas é o desentendimento em relação à avaliação de uma produção cultural – diversificada e cada vez mais numerosa – por conta de, segundo o autor, tratar-se de uma polarização grosseira que o jornalismo vem sofrendo.

3.3.1 Elitismo x Populismo

Se existe um dilema bastante presente na vida do jornalismo cultural brasileiro é a definição pública do que é ou não cultura. Isto é, segundo Piza (2013), uma ideia de que a população apenas considera cultura produtos refinados, exclusivos para pessoas intelectuais, que leem muitos livros e possuem alta carga de informações. A partir desta visão, a cultura seria algo inatingível.

No entanto, segundo o autor, o termo elite é distorcido, de forma que acaba sendo entoado de modo pejorativo pela maioria que imagina a palavra elitista como significado de ou “eleitos” ou “privilegiados”. Segundo Piza (2013), “elite” é uma palavra que nada mais é ter qualidade e prestígio em determinado público: “Logo, a música de Pixinguinha – negro, pobre, com pouca educação formal – é elitista, porque se distingue consistentemente das outras por sua força expressiva e elaboração técnica” (PIZA, 2013, p.46).

Conforme o autor, um dos motivos do público achar que a cultura é algo inacessível, é a desistência ao acreditar que não conseguirá tamanha carga intelectual, embora a população deva, sim, olhar a cultura como algo que possa ser alcançado através do esforço, do estudo e da leitura. Mas o problema vai ainda além.

No caso do jornalismo impresso, cada periódico tem o seu público-alvo e de acordo com Piza, seu papel é não deixar de dialogar com ele e muito menos deixar de instruí-lo para um melhor repertório. Por isso, é inviável que um jornal diário, como exemplifica o autor, vá subitamente mudar o seu grau de diálogo com o público para atrair a grande massa com “didatismo e brevidade”.

Primeiro, a imprensa escrita não tem o apelo da TV, senhora dos hábitos da maioria (calcula-se que, em média, a população dos EUA veja quatro horas de TV por dia), e ao mesmo tempo pode se diferenciar da TV justamente por sua natureza de aprofundamento, de argumentação. Segundo, a imprensa escrita corre o risco de, na banalização, perder o público qualificado que possui, que não se contenta com explicações maniqueístas, com escândalos tratados de forma vulgar e leviana, com a fofocaiada que faz a fortuna dos tabloides sensacionalistas em muitos países ricos (PIZA, 2013, p.47).

No entanto, mesmo com a televisão levando vantagens sobre o jornalismo impresso com a sua instantaneidade e impacto (Piza, 2013), a mesma continua por utilizar a imprensa escrita como pauta, fora a relevância que os periódicos possuem em pessoas na tomada de decisões na sociedade. Piza afirma que este tipo de indivíduo costuma ler uma imprensa escrita “séria, mais equilibrada e instrutiva” (2013, p.47).

São esses fatores que inviabilizam o populismo nestes periódicos. De acordo com Piza (2013), esta característica pode ser prejudicial à essas publicações que já possuem um público mais qualificado, além de distorcer algumas ideias relacionadas à realidade cultural.

Um dos seus motes diz que “se uma coisa faz sucesso, é porque é boa”. Há dois equívocos aí. Primeiro, é preciso definir o que é coisa boa. Se uma coisa boa for aquela que tem qualidades intrínsecas, que não dependem de modismo, então muita coisa de sucesso não é boa, porque é esquecida em alguns meses e substituída por outra. O outro equívoco é supor que não existam várias modalidades de sucesso (PIZA, 2013, p.48).

Em contrapartida, ainda segundo Piza (2013), é preciso ter em mente que o morador das grandes cidades é atraído por inúmeras ofertas culturais, mas que, em sua maioria, não possui tempo para aproveitar o que lhe é ofertado e acaba tendo que selecionar o que irá degustar – se é um livro, um disco, um filme, etc. Entretanto, o autor indica que o jornalismo tem falhado em filtrar esses produtos em “método e eficácia” e, portanto, passam a ser transigentes em relação à maioria das produções culturais. Piza conclui que esta prática é resultado de um critério de escolha motivado por características “extra-artísticas”, como o gênero.

Há indivíduos que só leem romance policial, os que só ouvem jazz, os que só querem saber de cinema “de arte”, os que só gostam de livro de autoajuda etc. Não resta dúvida de que esse critério é nocivo, pois limita e vicia a sensibilidade. O mesmo vale para outro motivo que costuma determinar as escolhas de programa cultural: há os que não gostam de filmes “tristes”, os que não gostam de livros grandes, os que só ouvem música dançante. Todas essas opções têm mais a ver com juízos prévios, fundamentados não na experiência passada, mas no estilo de vida. Há ainda os inúmeros indivíduos que escolhem o que ver por causa dos atores ou cantores em questão baseados na lógica da fama. E nem é necessário falar nos mais diversos preconceitos – diferenças bairristas, políticas, sexuais etc. – o que fecham a mente para outras visões do mundo (PIZA, 2013, p.48-49).

Nesse contexto, Piza (2013) explica que as publicações possuem uma seleção de conteúdos para propor aos leitores “não só um recorte da agenda de eventos culturais, mas também o de um conjunto de olhares sobre as tendências do momento em relação ao passado, seus ganhos e perdas” (PIZA, 2013, p.49). A revista The New Yorker, como o autor cita, possui um nível de exigência maior a certos tipos de publicações, como as revistas de bordo, mas não pode ser caracterizada como elitista pelo fato de eleger o que o leitor-alvo da revista está interessado em saber com clareza e fundamento. Já as publicações que visam lucros ou especificamente segmentadas, segundo Piza (2013), não têm a necessidade de ignorar um conteúdo que pareça estranho ao seu público.

Podem muito bem tomar um candidato ao sucesso [...] e mostrar, se for o caso, que ali há mais coisas do que normalmente o consumidor aprende, concentrado que costumar estar na “historinha humana” que é contada. E podem muito bem apresentar para esse público algo que se supõe muito sério ou complexo para ele, afinal a cultura é cheia de exemplos de produtos [...] que fizeram muito mais sucesso que o esperado (PIZA, 2013, p.49).

No entanto, há problemas que devem ser ressaltados. Segundo Piza (2013), o jornalismo cultural é submisso ao cronograma de eventos, já que o público é submetido à leitura sobre discos e outros produtos em época de lançamento ao mercado e cada vez menos sobre como estas obras significaram para sociedade enquanto trilharam carreira – seja por curto período ou não. Além disso, de acordo com o autor, os suplementos culturais estão cada vez mais superficiais e tendem a valorizar o mundo das celebridades, destacar o colunismo e realizar reportagens veladas de apresentações de eventos, fora os assuntos que são de preferência do público, como o cinema norte-americano, a televisão brasileira e a música pop.

A palavra “pop”, segundo Piza (2013) é associada à música comercial pós-rock, mas possui um sentido diferenciado.

Seus defensores costumam dizer que ela significa toda manifestação cultural de alcance imediato, que dispensaria conhecimentos prévios, camadas explicativas. A própria palavra, onomatopaica, sugere algo que salta aos olhos, como pipoca explodindo do milho ou bola de chiclete estourando (PIZA, 2013, p.54).

O movimento da arte pop surgiu na Inglaterra dos anos 1960 e, conforme o autor, era caracterizada como “arte de massa” ao ser constantemente reproduzida em jornais, histórias em quadrinhos, programas de TV e em produtos de supermercado. Seu maior propagador, o norte-americano Andy Warhol, falava em democratizar a arte moderna levando estética e ironia às massas, retratando celebridades da época (Piza, 2013).

Ainda segundo Piza (2013), Warhol supôs que o mundo erudito não possuía o mesmo apelo instantâneo que as produções de massa – o que o autor classifica como visão errada. Entre os anos 1920 e 1950, o jazz – usado como exemplo pelo autor – assim como o rock nas décadas seguintes, era visto como um fenômeno pop pelos milhares de discos vendidos na época, as inúmeras execuções nas rádios e a atuação sobre o comportamento da sociedade urbana. Outro ponto em que o autor classifica como visão equivocada é no que se define o termo “pop”, em não exigir conhecimentos prévios. Isto é visível em resenhas sobre música pop nos jornais e nas revistas especializadas, onde “se sente a mediação de um código específico, cheio de termos e normas, não raro sem o menor esforço de se aproximar do ‘leigo’” (PIZA, 2013, p.55). O autor ainda explica que as referências são passadas adiante sem uma devida explicação, e acaba deixando uma parcela do público que desconhece o que está em evidência sem qualquer apoio.

A consequência irônica é que muitas vezes essa visão também confunde o que seria o pop e o que é popular. Se o pop for o tipo de música que o canal MTV costuma apresentar [...], a diluição do rock’n roll de linhagem anglo-americana na formação básica de voz, guitarra, baixo e bateria, então esse pop nem sempre é popular. Uma lista dos discos mais vendidos no Brasil, por exemplo, é uma prova: quem a domina são os românticos (leia-se “bregas) e sertanejos (ou “popnejos”), na maioria nacionais (PIZA, 2013, p.55).

Ainda segundo o autor, a definição do que é pop não deve ser menosprezada e sim, ampliada para que o significado deste termo não passe a ideia de superioridade ou inferioridade. Piza (2013) conta que a chamada música erudita representa apenas 2% da indústria musical – o que mostra ser pouco relevante para o mercado. No entanto, o autor exemplifica que

Um concerto de Nelson Freire em São Petesburgo pode ter um efeito multiplicador, pode lhe conferir uma importância histórica, que não se mede apenas em números, embora ele tenha seu público fiel, que lota as salas e esgota os discos (PIZA, 2013, p.55 e 56).

Um outro dilema listado por Piza (2013) nas publicações é a subdivisão de gêneros musicais, da qual o autor define como “tribalização e guetização”. Piza explica que a música atual não é mais dívida entre a entre o erudito e o pop. Ela agora é segmentada com vários termos (rap, blues, tecno, metal, etc.) e os simpatizantes de cada gênero tendem a não conversar entre si, já que seus comportamentos são condizentes com o estilo de suas preferências e não parecem demonstrar interesse pelos demais gêneros. Por conta disso, o aturo encara essa situação como um desafio a ser superado pelo jornalismo cultural brasileiro.

Afinal, se a diversidade é um fator cultural e mesmo socialmente positivo, a tribalização a distorce, dando-lhe sentido mais empobrecedor. A mesma sensibilidade pode conter espaço para Pixinguinha, Schubert e Costello, para Caymmi, Mozart e Beatles. É melhor que seja assim porque assim ela afasta preconceitos, preservando a independência de julgamento, e porque enriquece a percepção, ao enxergar os nexos entre os estilos e as artes. A música brasileira é grande exemplo deste segundo ponto. Há o samba, o pagode, a bossa-nova, a MPB, o rock e outros rótulos em curso como se nada tivessem a ver um com o outro. Mas o fato é que uma característica que chama a atenção para a música brasileira é a quantidade de elementos comuns entre eles. O chamado rock brasileiro dos anos 80, por exemplo – aquele feito por Cazuza, Lobão, Paralamas do Sucesso, Legião Urbana –, estava tão próximo da MPB (Jobim, Caetano, Jorge Bem, etc.) quanto do pop-rock anglo-americano, ainda que este o tenha influenciado bastante. (PIZA, 2013, p.56)

3.3.2 Nacional x Internacional

Um outro dilema presente no cenário do jornalismo cultural brasileiro é a abordagem de assuntos nacionais e internacionais. Conforme Piza (2013), varrer as notícias de eventos no exterior ou sobre produtos importados das páginas das publicações da grande imprensa afeta a riqueza do jornalismo. Para o autor, o preconceito contra assuntos internacionais “alimenta a falsa noção” de que o jornalismo cultural é limitado por serviços, guias e roteiros, quando, na verdade, a própria matéria jornalística é um produto cultural “para um consumo que às vezes se esgota em si mesmo” (PIZA, 2013, p.59).

No entanto, de acordo com Piza (2013), a causa desse tipo de notícia não ser abordada vem muito da ideia de que priorizar relatos e análises de eventos culturais internacionais é uma atitude de “colonizados”, que possa significar uma certa submissão dos jornalistas ao renderem-se a esse exemplo de matéria. Ainda segundo o autor, de acordo com essa lógica, a publicação não deve concentrar suas atenções sobre acontecimentos culturais do exterior pois apenas importa o que é produzido em território nacional. Piza enfatiza que esse raciocínio da grande imprensa faz pensar que as culturas através do mundo não se comunicam, quando na verdade tudo depende da abordagem.

Se a abordagem for como a que até hoje se vê na crítica de música pop, daquela que rejeita por atacado os grupos nacionais, então a crítica tem sua razão. Mas não se pode, especialmente num país onde a cultura (nacional ou internacional) ainda é tão pouco valorizada, virar as costas para as muitas obras de qualidade que são feitas em tantas partes (PIZA, 2013, p.60).

3.4 JORNALISMO MUSICAL

Para Ballerini (2015), de todas as expressões artísticas, a música é a que mais vem sofrendo com drásticas mudanças, não apenas em sua cobertura jornalística, mas em seu caráter industrial. O autor cita a popularização da internet nos anos 1990 e o surgimento das redes de compartilhamento e downloads como o início de uma significativa transformação na indústria fonográfica. Porém, com a propagação do formato MP3 e a criação dos iPods – aparelhos minúsculos capazes de armazenar milhares de canções – o mercado musical sofreu um golpe. O que revolucionou o acesso à música, no entanto, segundo Ballerini, mexeu com os padrões de distribuição e captação – quase inexistentes nos dias atuais.

O papel do jornalismo no cenário musical também passou por mudanças ao longo do tempo – ao ponto de acompanhar com atenção este que, conforme Ballerini (2015), talvez seja o momento mais efervescente de seu objeto de cobertura.

Findos são os tempos em que os jornalistas musicais eram convidados para viagens internacionais para cobrir o lançamento do novo disco de uma banda, hospedando-se em hotéis de luxo e tendo acesso a shows em primeira mão e entrevistas exclusivas com os músicos. Findos também são os tempos em que essas mesmas bandas ganhavam uma fortuna com a venda de discos, CDs e DVDs. Agora, para sobreviver, cantores e bandas precisam pôr o pé na estrada e correr o mundo para fazer shows, pois as vendas do produto físico são tão pífias que ninguém imagina mais viver apenas disso. Obviamente, essas mudanças têm impacto direto na cobertura da imprensa (BALLERINI, 2015, p.149).

Segundo Ballerini (2015), a música, assim como a literatura e as artes visuais, é objeto de cobertura da imprensa brasileira desde o século XIX. Os jornais da época abordavam as apresentações de música erudita nos poucos teatros que havia no país. A música clássica internacional também ocupava espaço em seções opinativas constantemente. Mas conforme o autor, foi a popularização do rádio – surgido no final do século, mas de alcance público décadas mais tarde – que influenciou a criação de revistas especializadas em cobertura musical.

Entre a maior parte dos séculos XIX e XX, Ballerini (2015) explica que a imprensa brasileira cobria apenas eventos ligados à música clássica europeia, ignorando as manifestações culturais do Brasil. O autor dá como exemplo a revista Phono-Arte, do Rio de Janeiro – a primeira especializada em música lançada em 1928 e que divulgava majoritariamente a música erudita. Ao lado dela, a revista Clima, que não abordava apenas música, também possuía como característica cobrir música clássica. Já a partir dos anos 1930, com o rádio fazendo parte das casas brasileiras, houve o surgimento de revistas que falassem da programação (não apenas musical) do então novo veículo de comunicação, como A Voz do Rádio, Cine-Rádio Jornal, Guia Azul e a Revista da Rádio – esta circulada entre 1948 e 1970 e que, segundo Ballerini, além de programação musical, divulgava informações da vida dos artistas.

A forma com que a imprensa cobria o cenário musical no Brasil começou a mudar a partir dos anos 1950, com o surgimento da bossa nova. Segundo Ballerini, a Revista da Música Popular tornou-se um ato pioneiro de integrar a cultura popular brasileira para dentro da imprensa nacional que “há um século e meio ainda estava habituada a repetir o que a mídia internacional considerava válido” (2015, p.150). Apesar de sua curta duração (dois anos e quatorze edições), a revista teve o apoio de nomes como Manuel Bandeira, Cruz Cordeiro, Ary Barroso e Rubem Braga e seus exemplares, conforme o autor, tornaram-se peças de colecionador. Desde então, a imprensa passou a introduzir aos poucos o termo “música popular brasileira” em suas publicações.

A bossa nova foi um grande divisor de águas na imprensa, pois, embora houvesse quem a detestasse, o sucesso de alguns músicos – João Gilberto, Vinícius de Moraes, Tom Jobim e outros, que tinham cada vez mais êxito internacional – tornou sua cobertura inevitável. Assim, as músicas regionais ganharam algumas linhas nos jornais e os leitores passaram a saber da existência de ritmos como frevo, maracatu, forró, baião, xaxado, xote, lundu, maxixe, etc. Frisa-se a expressão “saber da existência” porque é aí que reside o preconceito da imprensa musical, que continua até hoje a ignorar muitas dessas manifestações (BALLERINI, 2015 p.150).

Ballerini (2015) conta que o surgimento de novos movimentos musicais fez a cobertura musical efervescer, como a Jovem Guarda – fortemente influenciada pelo rock norte-americano dos anos 1960 – tendo artistas como Roberto Carlos, Wanderléa, Erasmo Carlos e Ronnie Von na linha de frente.

Na mesma época, mas de lado oposto, estava a Tropicália que, conforme o autor, era influenciada pelo pop rock, pelo concretismo e pelas artes plásticas da época. O tropicalismo contribuiu para a formação de artistas como Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gal Costa, Gilberto Gil, Tom Zé e Os Mutantes, e durou até os anos 1970 quando as canções de protesto contra a ditadura militar entraram em cena. Nos anos 1980, o rock brasileiro renasceu após a redemocratização do país. Para isso, conforme o autor, surgiram revistas especializadas para o gênero do qual destacou bandas como, como a Bizz - “inspirada na versão internacional da Rolling Stone, que mais tarde desembarcaria no Brasil” (2015, p.151).

Segundo Ballerini (2015), ao longo do século XX era comum as gravadoras controlarem excessivamente as pautas do jornalismo cultural musical. Para a divulgação de um disco, as empresas enviavam releases, imagens do artista e até mesmo o produto a ser lançado no mercado – dependendo do porte do veículo – para a imprensa em troca de um espaço nas páginas de jornais e revistas musicais.

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Feito isso, as gravadoras agendavam com os principais veículos (ou os de seu interesse) entrevistas com os cantores ou com os produtores do disco. As conversas poderiam ser pessoalmente em coletivas de imprensa, viagens nacionais e para o exterior, por telefone, etc. Conforme o autor, as próprias gravadoras estipulavam a duração das entrevistas ao ponto de controlar o jornalista, evitando que se tocasse em assuntos que não pertencessem ao trabalho, como a vida do artista ou banda.

Muitos estudiosos da imprensa consideram essa prática uma forma de jabá – presentinho dado ao jornalista (disco, hotel cinco estrelas, jantares, festas, etc.) em troca de uma “boa” cobertura de novo produto. E por “boa” entende-se elogiosa, o que não raro gerava de fato matérias e até críticas viciadas, focadas na experiência do jornalista e não na qualidade musical da obra (BALLERINI, 2015, p.151)

Já no século XXI, a relação entre imprensa e gravadora foi se desgastando. Ballerini (2015) conta que as novas tecnologias digitais fizeram as gravadoras sofrerem baixas. Nos dias atuais, segundo o autor, a estratégia de controlar a publicação de entrevistas e críticas logo e somente após o lançamento de um disco é perda de tempo, uma vez que com a internet as informações correm mais rápido. Atualmente, inúmeros veículos de comunicação não esperam a data de lançamento de um trabalho musical para publicar uma matéria ou uma crítica, principalmente quando este trabalho é divulgado sem permissão na internet e gera assunto entre o público: “a imprensa não pode mais ignorar o tema e precisa escrever sobre o produto e o artista sob o risco de ser furado pelos próprios leitores” (2015, p.152), já que blogues e portais de notícias baixam um disco inteiro em segundos e publicam suas críticas no mesmo dia.

Além disso, segundo Ballerini (2015), não é necessário esforço para encontrar informações sobre um disco, uma vez divulgados em portais internacionais ou sites oficiais e redes sociais de artistas. De acordo com o autor, essa prática tem derrubado as gravadoras, já que os artistas não se veem presos a elas.

Um exemplo disso é o caso da Madonna, que em 2009 encerrou contrato com a Warner – que gerenciou sua carreira por 26 anos – e agora trabalha apenas com uma empresa que agenda seus shows. Ou seja, se uma profissional do porte de Madonna agora é uma “artista sem gravadora” - algo absolutamente pejorativo no século XX –, isso se torna uma alternativa positiva para qualquer artista, de pequeno ou grande porte. Eles não precisam mais de intermediários. Por outro lado, tampouco têm acesso a canais de distribuição mundial de seus discos – canais nesses que também coletavam fortunas para eles. A saída, portanto, são os shows (BALLERINI, 2015 p.152).

Apesar da bossa nova ter mudado a forma de como a cobertura musical é realizada no país, ainda há preconceitos explícitos. De acordo com Ballerini (2015), a imprensa do Sudeste pouco se esforça para dar espaço aos ritmos oriundos das regiões Norte e Nordeste. Mesmo quando alguns desses estilos musicais fazem sucesso, o público em geral leva meses para descobri-los, ainda que as bandas estejam realizando shows com lotação máxima por onde passam. A Banda Calypso, como cita o autor, é uma banda do estado do Pará que chegou a vender mais de 15 milhões de discos no país – o que é expressivo nos moldes do século XXI –, mas a imprensa do Sudeste levou anos para aceitar o sucesso do grupo e introduzi-lo nas páginas de jornais e revistas. Para Ballerini, o preconceito causado pelo fato da banda ser vista como “brega pop”, embora que seu estilo faça parte de uma mistura de ritmos típicos da região Norte, como o merengue e o carimbó, além da cúmbia latino-americana.

Apesar disso, segundo o autor, o preconceito não se restringe apenas aos ritmos da parte de cima do país, mas os estilos musicais populares na própria região Sudeste também sofrem com a falta de espaço. O sertanejo, apesar de ser o ritmo mais popular e rentável no momento, é vítima do preconceito da imprensa – o mesmo pode se dizer de gêneros como o funk, o pagode e o rap. A atitude, para Ballerini (2015), resulta em uma cobertura superficial focada apenas no pop-rock internacional (de origem norte-americana) e nacional. Para Dapieve (2001 paud Ballerini, 2015), o próprio rock já foi alvo de preconceito a partir da ideia de que o estilo não pudesse fazer parte da cultura brasileira.

As pessoas achavam que era impossível fazer rock no Brasil porque rock só podia ser cantado em inglês, era uma forma necessariamente imperialista, americana ou inglesa, de tratar das coisas. Já os roqueiros da minha geração encontraram eco em jornalistas que tinham a idade deles ou até um pouco mais, e que tinham crescido com a cabeça feita pelos ideais da década de 1960 que passaram pelo rock, fossem Beatles, Bob Dylan ou Grateful Dead, mas que tinham uma coisa em comum: o rock era um dado contracultural, não necessariamente uma manobra das gravadoras americanas para impingir um tipo de música à juventude do resto do mundo e lobotomizá-la (DAPIEVE, 2001 apud BALLERINI, 2015 p.154).

Este tipo de cobertura era visto em revistas dos anos 1980 e 1990, como a Bizz, que segundo Ballerini (2015), era pautada pelo sucesso e a popularização do canal MTV – cuja a programação era baseada em videoclipes de artistas norte-americanos como Michael Jackson, Madonna, entre outros e que exercia a formação de ídolos para os adolescentes da época –, e que frequentemente falava mal de grupos de rock nacionais que, de certa forma, foram importantes para o cenário musical brasileiro, como Kid Abelha, Paralamas do Sucesso e Blitz.

A forma severa com que as revistas lidavam com grupos recém-surgidos e veteranos e gêneros musicais, conforme Ballerini (2015), causava a ira de artistas que queriam distância da imprensa especializada. As matérias da época, segundo o autor, pouco abordavam o trabalho realizado pelo artista já que os jornalistas preferiam usar adjetivos pejorativos para se referirem aos cantores, mais pela sua personalidade do que pela qualidade das canções. Ballerini conta que as revistas musicais entraram em crise na segunda metade dos anos 1990. Os veículos de grande porte mantiveram-se, já outros projetos como a Pop Brasil foram extintos junto com a prática de abordagem de novos artistas, bandas e gêneros. O cenário só viria a mudar a partir da criação de blogues e portais especializados em música, graças à popularização da internet, que viria a suprir a falta que as revistas musicais faziam no mercado.

Com isso, o ciclo da cobertura jornalística de música tornou-se ainda mais curto. Se com a “despopularização” dos CDs já não há um intermediário que alongue a experiência do jornalista com o novo produto, agora quem cobre música precisa estar muito atento à enxurrada de novos lançamentos, sempre se confrontando com o dilema de o que priorizar, uma vez que acompanhar o ritmo do próprio leitor é cada vez mais difícil. A mídia tradicional às vezes prefere focar em fenômenos musicais em vez de artistas ou lançamentos específicos, como foi o caso da Tropicália nos anos 1960, do mangue beat e do rap nos anos 1990, do samba-rock nos anos 2000 e, em menor grau, do sertanejo universitário a partir de 2010 (BALLERINI, 2015, p.155)

Segundo Ballerini (2015), uma vez que mídias como o CD vêm perdendo relevância, os shows ganham espaço importante no cenário musical. Conforme o autor, não apenas como uma das últimas formas de renda dos artistas, mas como um jeito de mudar a cobertura do jornalismo cultural. A música passa a ganhar um espaço maior nas páginas de jornais e revistas quando o Brasil recebe um artista em turnê mundial ou quando festivais de música são realizados em território nacional. No entanto, Ballerini explica que a imprensa nem sempre consegue fazer uma distinção entre o fanatismo e a adoração do público, uma vez que a situação é benéfica financeiramente, porém prejudicial ao ponto de vista jornalístico.

Perguntemo-nos quantas coberturas jornalísticas de fato analisaram o desempenho ao vivo, os instrumentos, a voz, as letras, as melodias e o contexto de shows do U2, de Madonna, de Paul McCartney e de Bon Jovi – só para citar alguns exemplos que causaram frisson nos fãs e receberam pouca cobertura jornalística que privilegiasse o aspecto musical e não a idolatria de um artista (BALLERINI, 2015, p.157).

3.5 ROLLING STONE BRASIL

A história da revista Rolling Stone Brasil começou no início dos anos 1970. Segundo Barros (2005), Luiz Carlos Maciel, jornalista, dramaturgo e filósofo, adquiriu a concessão para a publicação da marca junto à matriz graças a Mick Killingbeck, inglês que veio ao país para trabalhar como físico nuclear, “mas que cultivava intimamente um amor pelo rock’n-roll” (BARROS, 2005 p.81). Maciel, que, de acordo com Rocha (2010) já havia experimentado trabalhar com música na coluna Underground, do jornal O Pasquim, pôde tornar-se o editor-chefe da revista no Brasil.

A edição de número zero da Rolling Stone brasileira saiu em novembro de 1971, por Luiz Carlos Maciel e Gabriel O. Meara. Segundo Barros (2005), o objetivo da marca no país não era apenas publicar informações em torno dos astros da música pop nacional e internacional, mas de ampliar o leque de assuntos culturais como a literatura, o cinema e a filosofia, além de abordar temas que refletiam a mentalidade rebelde da época como comportamento, sexualidade e drogas.

O número zero saiu em 1971, contendo uma longa matéria escrita por Maciel sobre a vinda do grupo de rock Santana ao Brasil, uma crítica de Mick ao show FA-TAL, de Gal Costa, uma saudação à volta de Caetano ao Rio de Janeiro através de uma poesia de Maciel, e entrevistas com o próprio Caetano e Jorge Mautner. No mesmo número, matérias sobre astros internacionais e nacionais da música, como Alice Cooper, Edgard Winter, Carole King, Bob Dylan, Pink Floyd; havia também uma matéria sobre a apresentação conjunta de João Gilberto, Gal Costa e Caetano Veloso em um programa especial gravado pela TV Tupi em São Paulo, outra assinada por Jorge Mautner, sobre cabelos, um símbolo muito forte de rebelião juvenil e, finalmente, duas a respeito de teatro; a primeira comentando sobre o trabalho de José Celso Martinez Correia, e outro sobre o Living Theater. (BARROS, 2005 p.81).

Assim como a versão norte-americana, a Rolling Stone “era voltada para a rebelião juvenil e o contexto da contracultura” (BARROS, 2005 p.81). Rocha (2010) explica que, na mesma proporção das publicações originais, a versão brasileira da revista surgiu de um contexto cultural bem específico, conhecido como Tropicalismo.

A tentativa de universalizar a música brasileira - trespassando-a de deliciosos ruídos evocados pela guitarra elétrica - provocou polêmicas, destruiu antigas concepções reacionárias sobre música “boa” e música “ruim”, além de ter aberto toda uma nova conjuntura editorial que privilegiava um jornalismo que trouxesse abordagens relevantes desse fascinante novo contexto. (ROCHA, 2010 p.4)

Em fevereiro de 1972, foi publicada a edição de número um da revista, tendo como destaque uma reportagem especial sobre uma banda de rock brasileiro chamada A Bolha, em que, segundo Oliveira (2011), descreviam as dificuldades do grupo em busca de afirmação no mercado musical da década em questão. Em julho do mesmo ano a Rolling Stone, que Barros (2005) afirma ser uma das precursoras do gênero no país, passa a ter tiragens semanais ao invés de mensais.

Da mesma forma que outros periódicos alternativos, a Rolling Stone também teve vida curta. A começar pela perda dos direitos pelo não-pagamento de royalties à matriz norte-americana – o que, segundo Rocha (2006 apud VAZ, 2008), fez os editores passarem a publicar a revista sob a alcunha “pirata”, que passou a ser estampada abaixo do logotipo. A prática durou até janeiro de 1973, quando Maciel e Meara decidem encerrar as atividades da Rolling Stone no país. Rocha (2010) explica que o fim precoce da revista (a Rolling Stone Brasil teve apenas 36 edições) acabou deixando um “vácuo editorial” que logo mais tarde foi preenchido por outras revistas como Geração Pop e Bizz.

A ressurreição da Rolling Stone Brasil viria três décadas mais tarde – mais precisamente em outubro de 2006, quando a marca passa a ser de responsabilidade da editora Spring (Souza, 2016). A primeira edição dessa nova fase da revista trouxe na capa a modelo de fama internacional, Gisele Bündchen, sob o título de “maior popstar brasileira”.

Na ocasião, a revista veio composta da seguinte maneira: editorial, depoimentos de personalidades da cultura pop sobre a volta da revista, várias pequenas reportagens sobre música, calendário de concertos, uma seção de novidades da nova música brasileira chamada “Acontece”, personalidades da cultura pop fazendo publicidade, fotos de celebridades em uma espécie de colunismo social “cool”, reportagens sobre TV, Internet, uma grande matéria de política intitulada Brasília: um circo sem festa, e finalmente a matéria de capa. Três matérias seguidas de música pop, celebridade, política e guia RS (discos, DVD e livros). No fim, o Top 5, onde o guitarrista do Audioslave, Tom Morello, escolhe seus discos/músicas favoritos. (ROCHA, 2010, p.5).

A proposta do que viria ser a Rolling Stone Brasil veio publicada em forma de editorial na primeira edição da revista por Ricardo Franca Cruz.

A Rolling Stone apresenta mensalmente um conjunto equilibrado de artigos e matérias produzidas no Brasil e conteúdo extraído diretamente da matriz norte-americana. Música é o pilar fundamental de nossa linha editorial, mas não é de maneira nenhuma nossa única área de atuação, que também engloba cultura e entretenimento (perfis de personalidades, novas tendências nas áreas da literatura, cinema, tecnologia, TV e novas mídias), política (análises, denúncias, investigações, acompanhamento crítico do governo, cidadania, tráfico de drogas, ecologia, distribuição de renda), comportamento(moda, estilo, sexo) e consumo (lançamentos do mercado brasileiro e internacional). (CRUZ, 2006 apud VAZ, 2008, p.35)

De acordo com Souza (2016), o formato da nova fase da revista no Brasil segue o padrão do que é publicado pela versão norte-americana como assuntos do entretenimento e da cultura pop, além de artigos divulgados pela matriz traduzidos para o português. Mensalmente, a Rolling Stone nacional realiza a agenda de conteúdos da atualidade como filmes a serem lançados ou artistas musicais em evidência por conta de discos novos ou turnês mundiais. “Hoje, quase dez anos depois da primeira edição, [a Rolling Stone Brasil] firmou-se como uma das principais referências editoriais do país, conquistando importantes prêmios no mercado editorial” (OLIVEIRA, 2016, p.11).

4. ASPECTOS METODÓLOGICOS

4.1 CARACTERIZAÇÃO DA PESQUISA

A pesquisa será realizada a partir de é basear-se em uma análise descritiva. Entende-se que um trabalho desta natureza tenha a finalidade de descrever em detalhes o conteúdo apresentado pelo objeto da pesquisa, relacionando-o às ideias citadas pelos principais autores que compuseram a base teórica deste trabalho no capítulo anterior assim chegando em conclusões a partir dos resultados obtidos e reflexões sobre o conteúdo. Além disso, a pesquisa também se caracteriza como análise qualitativa. Esta forma de pesquisa apresenta

[...] certas características particulares. É válida, sobretudo, na elaboração das deduções especificas sobre um acontecimento ou uma variável de inferência precisa, e não em inferências gerais. Pode funcionar sobre corpus reduzidos e estabelecer categorias mais descriminantes, visto não estar ligada, enquanto análise quantitativa, a categorias que deem lugar a frequências, suficientemente elevadas, para que os cálculos se tornem possíveis (BARDIN, 1977 p.115).

Na ocasião, o objeto a ser analisado é a revista Rolling Stone Brasil. A prática deste trabalho é observar o que se aborda sobre o cenário musical a partir da sua circulação nos dias atuais – já que esse segmento da arte foi o ponto de partida para o surgimento da matriz norte-americana em 1967, e da primeira versão brasileira em 1971 (Barros, 2005). Estudar e observar como a revista distribui os assuntos ligados à cultura pop de forma em que a música apareça em primeiro plano. A análise deste trabalho também consiste em verificar se a característica radicalizada e rebelde que marcava as páginas das primeiras edições da Rolling Stone ainda faz parte da linha editorial da revista atualmente.

Como complemento a esta pesquisa, será analisada também a divisão da revista entre assuntos nacionais e internacionais; e o embate entre o elitismo e o populismo presente no jornalismo cultural contemporâneo, de acordo com Piza (2013).

A estrutura deste projeto consiste na forma intencional, de acordo com o interesse despertado pelo pesquisador. A forma não-probabilística pode ser considerada, segundo Gil (2008), representativa com base nas informações disponíveis.

4.2 TÉCNICAS E INSTRUMENTOS DE COLETA DE DADOS

As técnicas para o estudo deste projeto são baseadas em pesquisas bibliográficas. De acordo com Gil (2008), pesquisa bibliográfica é desenvolvida através de livros, artigos científicos e outros materiais elaborados, embora a maioria dos estudos exige algum tipo de trabalho desta natureza. Apesar disso, segundo Gil (2008), há pesquisas que são desenvolvidas a partir de fontes bibliográficas.

A principal vantagem da pesquisa bibliográfica reside no fato de permitir ao investigador a cobertura de uma gama de fenômenos muito mais ampla do que aquela que poderia pesquisar diretamente. Esta vantagem se torna particularmente importante quando o problema de pesquisa requer dados muito dispersos pelo espaço. Por exemplo, seria impossível a um pesquisador percorrer todo o território brasileiro em busca de dados sobre a população ou renda per capita; todavia, se tem à sua disposição uma bibliografia adequada, não terá maiores obstáculos para contar com as informações requeridas. A pesquisa bibliográfica também é indispensável nos estudos históricos. Em muitas situações, não há outra maneira de conhecer os fatos passados senão com base em dados secundários (GIL, 2008 p. 50).

Para este trabalho, pesquisas bibliográficas foram realizadas para entender o contexto histórico acerca do jornalismo cultural, a chegada ao Brasil, os primeiros profissionais que contribuíram na disseminação dessa área, os dilemas e a contemporaneidade a partir da evolução digital. Além disso, assuntos como a prática do jornalismo cultural no cenário musical, a história e origem da revista Rolling Stone e o impacto cultural que a envolve foram fundamentais para o prosseguimento desta análise dos conteúdos da revista.

4.3 TÉCNICAS DE ANÁLISE DOS DADOS

A metodologia de pesquisa deste trabalho será baseada na análise das capas das edições do primeiro semestre de 2016 da revista Rolling Stone. Esta técnica servirá primeiramente para identificar e examinar os materiais publicados pela revista e suas atribuições linguísticas ao que se refere os temas propostos para esta análise.

Belerson define análise de conteúdo como “uma técnica de investigação que, através de uma descrição objetiva, sistemática e quantitativa do conteúdo manifesto das comunicações, tem por finalidade a interpretação destas mesmas comunicações” (1952 apud GIL, 2008 p.152).

Segundo Badin, a análise de conteúdo é desenvolvida em três etapas: a pré-análise, que envolve os primeiros contatos com o material de leitura; a exploração deste material, tendo como objetivo “administrar sistematicamente as decisões tomadas na pré-análise” (1977 apud GIL, 2008 p.152); e o tratamento dos dados, a interferência e a interpretação, que tornam válidos os dados consultados.

4.4 CATEGORIAS DE ANÁLISE

Em um primeiro momento, será preciso identificar as características da Rolling Stone Brasil que, nos dias atuais, ainda é vista pelo grande público como uma revista especializada em música, sendo parte remanescente da contracultura norte-americana. Assim, as duas primeiras categorias desta pesquisa são “a Rolling Stone como revista musical” e “a Rolling Stone como contracultura”.

Em um segundo momento, será necessária a análise de dois dilemas do jornalismo cultural contemporâneo citados por Piza (2013), chamados “elitismo x populismo” e “nacional x internacional”, sendo estas as duas últimas categorias desta análise.

4.5 AMOSTRA

Para a proposta da pesquisa, foi decidido analisar a capa das primeiras seis edições da Rolling Stone Brasil já publicadas no ano de 2016, em um período entre janeiro e junho. O foco principal da análise será a escolha das pautas da publicação e a forma de como elas são distribuídas e apresentadas na primeira página da revista.

Durante a análise será realizada a descrição do que as capas do primeiro semestre de 2016 apresentam ao público para posteriormente, ser feita a reflexão sobre os temas apresentados de acordo com as categorias escolhidas.

5. ANÁLISE DA ROLLING STONE BRASIL

Neste capítulo serão apresentadas as capas escolhidas para a análise do conteúdo da Rolling Stone Brasil e, ao longo desta divisão, será feita uma breve descrição dos assuntos abordados pela revista em sua primeira página. Para maior aprofundamento deste material, serão observadas também as reportagens incorporadas nas edições para melhor entendimento da apresentação.

5.1 EDIÇÃO 113 – JANEIRO DE 2016


Figura 1 - capa da edição 113 da Rolling Stone Brasil

Na edição de número 113, publicada em janeiro, a revista apresenta na capa o casal de atores brasileiros Lázaro Ramos e Taís Araújo aparentemente nus e abraçados um ao outro sobre um fundo escuro. Classificados pela própria Rolling Stone Brasil como “casal nº 1 da TV”, a capa reproduz a frase “o país vive a ressaca da euforia. A conta chegou” – uma amostra da entrevista especial que ocupa oito páginas da publicação falando sobre o casamento, arte, preconceito e discriminação.

Na lateral da capa, a Rolling Stone Brasil destaca outras duas pequenas manchetes sobre política. A primeira, “Alckmin x estudantes”, representa a uma matéria presente na seção Política Nacional – um espaço reservado para a publicação de reportagens, análises e reflexões sobre o caótico cenário político do Brasil. Nessa edição, a Rolling Stone Brasil fez uma publicação sobre como o projeto de reorganização escolar do atual governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, transformou-se, segundo a matéria, na maior derrota política de seu governo. A reação ao projeto de lei resultou na onda de ocupações de escolas por estudantes da rede pública estadual. Já a segunda, intitulada “DARKNET: O crime prospera na web”, é uma reportagem investigativa realizada pela Rolling Stone norte-americana e enviada para as suas sucursais ao redor do mundo. Na matéria batizada de “Rede Sombria”, o jornalista David Kushner apresenta um ambiente online que abriga ativistas, porém acabou se tornando um espaço para venda ilegal de drogas e armas e hackers. O jornalista também enfatiza que o Darknet foi financiado pelo governo dos Estados Unidos na época de seu surgimento.

A cultura pop se faz presente na mesma lateral que abriga curtos tópicos sobre os principais conteúdos da publicação. Os três primeiros tópicos, “Iron Maiden”, “Tarantino” e “Gal Costa” são apresentados isoladamente, sem sequer abordar do que se trata cada assunto, apenas indicando o que há no recheio da revista. Apenas ao ler a matéria descobrimos que as entrevistas com Iron Maiden e Gal Costa têm algo em comum: ambas fazem uma alusão às décadas de carreira percorridas por cada um em seus respectivos estilos musicais. No caso de Gal, uma das principais artistas da música popular brasileira (MPB), a jornalista cita o movimento de renovação musical em seus discos mais recentes (Recanto, de 2011, e Estratosférica, de 2015) junto a uma reflexão de meio século na estrada. Já sobre Iron Maiden, é apresentado o legado da banda durante 40 anos de carreira e a trajetória durante esse período impulsionada pelo lançamento do trabalho mais recente, The Book of Souls (2015), e a mais nova turnê mundial do grupo. Já a matéria sobre Quentin Tarantino trata-se de uma entrevista pingue-pongue de duas páginas com o diretor sobre o seu filme mais recente, Os Oito Odiados.

Além disso, nesta edição o cenário musical é destacado por trazer a tradicional lista dos “melhores do ano” da revista. Na lateral esquerda, logo abaixo do logotipo do veículo, há um selo em formato quadricular impresso na capa indicando o “Top 50” das melhores canções e discos de 2015. Dentro da revista, percebe-se que a escolha dos editores dividiu a lista em 50% entre lançamentos nacionais e internacionais. Entre os álbuns e canções brasileiras, a Rolling Stone deu o primeiro lugar para a veterana cantora Elza Soares, com o disco “A Mulher do Fim do Mundo” e a canção “Maria de Vila Matilde”. Ao longo da lista é notável a mistura de gêneros musicais como o rock, a MPB, o rap e a música eletrônica. Porém, é visível que poucos desses discos alcançaram o público de forma ampla e geral, visando apenas uma camada mais segmentada. Já no ranking dos melhores discos e canções internacionais, o dono dos primeiros lugares foi o rapper norte-americano Kendrick Lamar com o disco To Pimp a Butterfly e a canção “King Kunta”. Neste caso, nota-se uma presença maior de grandes nomes do pop e do rock mundial conhecidos do grande público, como Adele, Florence + the Machine, The Weeknd, Björk, Bob Dylan e David Gilmour.

5.2 EDIÇÃO 114 – FEVEREIRO DE 2016


Figura 2 - capa da edição 114 da Rolling Stone Brasil

A capa da edição de fevereiro de 2016 da revista Rolling Stone é emblemática. Trata-se de uma homenagem ao cantor David Bowie (1947-2016), falecido no mês anterior. A manchete traz o nome do artista destacado do lado esquerdo da página indicando uma matéria especial com 16 páginas dedicadas à vida e à carreira do artista britânico. A foto de capa traz a imagem de Bowie de corpo inteiro, segurando uma guitarra e usando trajes que lembram um dos inúmeros personagens e estilos do cantor deu nos anos 1970.

Ao lado direito da capa, todas as curtas manchetes e tópicos são referentes à cultura pop, entre música e cinema. Quatro se destacam pela existência de descrições abaixo das chamadas resumindo o conteúdo das reportagens. A primeira, “Rolling Stones”, possui a seguinte descrição: “Em fotos, os anos de formação da banda” – o que se trata de uma forma da revista falar sobre a turnê que a banda britânica fez no Brasil entre os meses de fevereiro e março de 2016. A segunda chamada, “Marina Lima”, acompanha a frase “Essa é a minha voz. Não tenho nada para lamentar”, dita pela própria cantora brasileira sobre o lançamento do disco No Osso – Ao Vivo (2015) – o primeiro em quase 40 anos de carreira em que Marina apresenta canções regidas apenas pelo violão. A entrevista também repassa um perfil da artista sobre a sua vida artística e pessoal.

O terceiro destaque da capa, “Leonardo DiCaprio”, reproduz a seguinte chamada: “Ele quer salvar o planeta”. A frase pretensiosa se refere ao caráter ativista do ator norte-americano, engajado em causas ambientais. Já a última manchete de destaque se chama “Discografia”, sendo esta uma seção fixa nas publicações da Rolling Stone Brasil em que os editores escolhem os principais discos sobre algum tema, grupo ou estilo musical. Na edição de nº 114, a revista escolheu a Vanguarda Paulista, um movimento musical independente dos anos 1980 surgido em São Paulo onde seus músicos não se preocupavam em figurar nas tabelas musicais e paradas de sucesso, como o tema desta edição. Segundo a reportagem, a sonoridade deste grupo variava entre estilos musicais diversos, como MPB, samba, rock e choro. Nessa discografia destacam-se Clara Crocodilo (1980) de Arrigo Barnabé e a Banda Sabor de Veneno, Pássaros na Garganta (1982) de Tetê Espíndola, Caprichoso do grupo Rumo, entre outros.

Abaixo dessas curtas manchetes, há cinco tópicos: “Chico Science”, “Guns N’ Roses”, “Tim Burton”, “Ryan Reynolds” e “Cage The Elephant” – indicando a presença de matérias, reportagens e artigos sobre esses assuntos.

Um outro assunto destacado na capa da edição de fevereiro da Rolling Stone Brasil é sobre a penitenciária norte-americana de Guantánamo. Com um selo em laranja estampado no lado esquerdo da revista e abaixo do logotipo da empresa, o assunto gera aflição e a curiosidade do leitor ao reproduzir a frase: “Tortura e descaso na prisão onde não existe lei”. A reportagem é importada da matriz norte-americana.

5.3 EDIÇÃO 115 – MARÇO DE 2016


Figura 3 - capa da edição 115 da Rolling Stone Brasil

A edição de março de 2016 da Rolling Stone Brasil é uma edição especial para o colecionador da revista, como indica na barra acima do logotipo. Sem qualquer manchete tradicional ou tópicos, a edição de número 115 é uma homenagem aos 40 anos de carreira da banda punk norte-americana Ramones. A representação gráfica na capa é preenchida em preto junto ao escudo oficial do grupo em cores brancas.

Dez páginas são reservadas para a análise e apresentação de histórias sobre a origem da banda em Nova York e a carreira trilhada durante décadas, além de uma reflexão sobre o impacto da banda na cultura pop mundial e no surgimento da música punk.

5.4 EDIÇÃO 116 – ABRIL DE 2016


Figura 4 - capa da edição 116 da Rolling Stone Brasil

A capa da edição de abril da revista Rolling Stone Brasil estampa o rosto do cantor norte-americano Adam Levine, vocalista da banda Maroon 5. A frase “a vida de luxo e suor do líder do Maroon 5, o mais infame bon-vivant da música pop” acompanha o seu nome destacado no lado direito da capa. Nesta edição da revista, há apenas uma chamada com descrição presente. Intitulada “Sexo e religião – A maior comunidade poligâmica dos Estados Unidos está à beira de uma guerra civil”, a manchete localizada no lado direito da capa trata-se de uma reportagem importada da versão norte-americana sobre Warren Jeffs, líder da Igreja Fundamentalista de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, que mesmo preso – acusado de abuso sexual e de promover casamentos entre homens adultos e meninas – ainda consegue comandar a seita.

A cultura pop está presente em tópicos no lado esquerdo da capa. O primeiro, “George Martin”, se refere à seção Discografia – presente em todas as edições da revista. No mês de março, o produtor musical morreu, aos 90 anos, e a edição de abril da Rolling Stone Brasil o homenageou apresentando uma lista de discos que tiveram a participação de Martin. O segundo tópico, intitulado “Alexandre Nero”, é sobre uma entrevista com o ator brasileiro presente em P&R, outra seção fixa da revista, sobre sua carreira e a crise política no país. Os três últimos nomes, “Macklemore”, “Max Cavalera” e “Céu”, são de cantores de diferentes estilos musicais e que ganham espaço dentro da revista em diferentes proporções. No caso de Macklemore, o rapper norte-americano dá uma entrevista falando sobre as inspirações para o seu segundo disco em parceria com o produtor Ryan Lewis, This Unruly Mess I’ve Made (2016), além de rever seu lugar dentro do hip-hop norte-americano sendo branco. Já Max Cavaleira, cantor e ex-integrante do grupo de heavy metal Sepultura, fala em entrevista sobre incluir a família na sua paixão, que é a música pesada. Por último, Céu, cantora brasileira de MPB, é representada na edição da revista pela crítica de seu mais recente disco, Tropix (2016), obtendo quatro estrelas de cinco possíveis segundo o critério da revista – o que significa que o disco foi bem avaliado pelo jornalista.

Por fim, abaixo desses tópicos há um selo retangular em preto com os dizeres “Especial Motos” na cor amarela. Trata-se de uma publicação especial de sete páginas sobre motocicletas, visando leitores que possuem admiração por este meio de transporte.

5.5 EDIÇÃO 117 – MAIO DE 2016


Figura 5 - capa da edição 117 da Rolling Stone Brasil

A capa da edição de número 117 da Rolling Stone Brasil também não possui qualquer tipo de manchete, chamada ou escrita exceto o logotipo da revista. A edição de maio traz na capa uma foto do cantor norte-americano Prince usando um figurino roxo e um penteado que referencia sua imagem. A capa é uma forma que a revista encontrou de homenagear o cantor, morto aos 57 anos em 21 de abril de 2016.

Dentro da revista há um especial de 15 páginas realizando um perfil da vida pessoal e da carreira de Prince, resgatando as entrevistas concedidas às inúmeras edições da Rolling Stone norte-americana, tributos de pessoas ligadas ao cantor e os últimos instantes enquanto vivo.

5.6 EDIÇÃO 118 – JUNHO DE 2016


Figura 6 - capa da edição 118 da Rolling Stone Brasil

A edição de junho da revista Rolling Stone estampa em sua capa a atriz brasileira Maitê Proença. O aviso de exclusividade acima de seu nome é acompanhado da frase: “Se eu soubesse como as coisas seriam hoje, não teria escolhido uma vida pública” dão ênfase à reportagem principal da revista, da qual trata sobre polêmicas que a artista nacional foi protagonista, tanto na profissão quanto na vida pessoal, como nudez, feminismo e tragédias familiares.

A capa do exemplar desse mês dá espaço à tecnologia, assunto não abordado nas publicações anteriores. “A realidade virtual vai mudar a humanidade? ” é a pergunta apresentada abaixo do logotipo da revista ao lado esquerdo da página e que apresenta ao leitor uma hipótese sobre o surgimento dos óculos de realidade virtual (originalmente chamado de Oculus Rift) iniciarem uma nova era digital.

Os assuntos sobre cultura pop se fazem presente na revista através de nomes de personalidades indicando a presença de reportagens sobre cada um deles. Nessa edição, há quatro: “Projota”, “Marisa Monte”, “Tom DeLonge” e “José Loreto” – este último sendo o único que não possui vínculos com o cenário musical, já que o ícone se trata de uma entrevista com o ator brasileiro José Loreto sobre o filme Mais Forte Que o Mundo – A História de José Aldo (2015), do qual é protagonista. Já sobre assuntos musicais, a primeira reportagem da revista é sobre o rapper brasileiro Projota, que é apresentado pelo jornalista como “o nome mais pop do hip-hop nacional” em aversão à artistas como Criolo e Emicida, que também puseram o rap brasileiro de volta ao gosto popular. O segundo item presente na capa é o nome da cantora brasileira Marisa Monte que, em reportagem, diz não ter planos para lançamentos inéditos eu um futuro próximo. A declaração é baseada no lançamento do disco Coleção (2016) – o primeiro com uma compilação de músicas que fizeram parte de sua carreira de quase três décadas. O terceiro e último tópico traz o nome de Tom DeLonge, ex-membro do grupo de punk-rock norte-americano Blink-182. Única personalidade internacional presente na capa da edição de junho, DeLonge fala em curta entrevista sobre a vida distante dos palcos, mais próximo de sua família e o gosto que criou por OVNIs e itens espaciais. Na edição de junho, a Rolling Stone Brasil listou e publicou na capa os quarenta maiores discos da música punk, todos internacionais e com bandas conhecidas, como Ramones, Nirvana, Green Day e Sex Pistols.

Por fim, a revista deu destaque ao atual momento da política brasileira. “Política – dois lados e o legado do caos” é a manchete presente na capa que indica a reportagem da seção fixa “Política Nacional”. Na matéria, é abordado o clima de divisão popular na opinião sobre o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, que havia sido apenas afastada até a data de publicação da revista.

6. REFLEXÕES SOBRE A ANÁLISE

6.1 ROLLING STONE COMO REVISTA MUSICAL

Após uma breve descrição do que a Rolling Stone Brasil apresenta aos seus leitores nos exemplares do período entre janeiro e junho de 2016, nota-se que os assuntos ligados à música são ampla maioria nas seis capas analisadas neste trabalho. Quatro das seis capas apresentam ícones do cenário musical estampados como destaques principais. Esta percepção remete ao principal motivo do surgimento da revista por Jann Wenner nos anos 1960, que visara criar uma revista que falasse de música como nenhuma outra (Vaz, 2008). Apesar de, ao longo do tempo, agregar outros assuntos como cinema, política e comportamento, a Rolling Stone sempre teve a música como principal destaque da revista – estratégia essa que foi trazida ao país a partir do lançamento da versão brasileira da Rolling Stone, em outubro de 2006. No interior da publicação, o então editor-chefe Ricardo Franca Cruz, fez uma publicação declarando que a música era o pilar fundamental da linha editorial da revista, mas não a única área de atuação (VAZ, 2008).

Como já imaginado previamente à análise, nem todas as reportagens principais da Rolling Stone se baseiam em algo do ramo musical. Isto é, de forma aleatória, a revista não trata de colocar artistas necessariamente identificados com cenário musical na capa como, por exemplo, as edições dos meses de janeiro (nº 113) e junho (nº118) de 2016, que levam o rosto de atores brasileiros na publicação. No entanto, essas mesmas edições abordam a temática musical nas capas com as mesmas características citadas anteriormente, dividindo espaço com outros assuntos entre tópicos e chamadas. Curiosamente, as duas edições trazem na capa listas de produtos musicais criadas por editores da revista – esta prática citada por Piza (2013) como uma das práticas do jornalismo cultural da atualidade – para o interesse do leitor. Como visto durante a descrição das revistas, a edição de janeiro traz na capa a seguinte chamada: “Top 50 – Os melhores discos e músicas de 2015”, tratando-se dos álbuns e canções que se destacaram ao longo do ano anterior e julgados como melhores perante aos jornalistas da revista. Já na edição de junho, a Rolling Stone apresenta “Os 40 maiores álbuns do punk” - uma lista criada por jornalistas da versão norte-americana baseada nos mesmos critérios.

As listas voltam a fazer parte da construção da revista em Discografia – uma seção permanente da Rolling Stone onde em cada edição, um movimento cultural histórico, gênero musical ou artista com décadas de carreira é escolhido e tratado a partir de uma seleção de discos que formaram um legado para um desses exemplos. Na capa da Rolling Stone Brasil, esta seção está presente na edição de fevereiro (nº 114).

A seção Discografia também está presente na capa da edição de abril (nº 116), entretanto, apenas com o nome do produtor musical George Martin, sem qualquer indicação de que se trata da seção em si. Na seção desse mês, a Rolling Stone Brasil presta uma homenagem ao ex-produtor do grupo britânico Beatles, morto no mês de março de 2016. A seleção de discos foi baseada nas participações de Martin em álbuns de diversos artistas ao longo do século XX.

A partir dessa análise, é impossível não relacionar essas publicações às afirmações de Piza (2013) sobre os dilemas do jornalismo cultural contemporâneo. Segundo o autor, atitudes como a da Rolling Stone, de fazer reflexões sobre discos e outros produtos que significaram algo à sociedade e obtiveram impactos culturais em anos, são cada vez mais raras na medida em que a imprensa apenas presta serviço aos lançamentos atuais. Além disso, o autor também cita a submissão da imprensa aos cronogramas e agendas culturais, o que é pouco visto na revista.

Ao mesmo tempo em que a Rolling Stone tenta se diferenciar dos demais suplementos da imprensa cultural, todavia não consegue ir além. Isso porque outra característica citada por Piza (2013) é a predileção de jornais e revistas em pautar assuntos como o cinema norte-americano, a televisão brasileira e a música pop – que de fato são os temas preferidos do público. Essas afirmações do autor encaixam-se perfeitamente na linha editorial da Rolling Stone Brasil, já que entre as capas analisadas todas tratavam ora de ídolos pop e rock stars, ora falava de atores nacionais e astros do cinema hollywoodiano.

Das quatro capas onde a música é tratada em primeiro lugar, três delas possuem temáticas curiosamente semelhantes. Por coincidência, as edições de fevereiro (nº 114), março (nº 115) e maio (nº 117) tratam de homenagens à grandes ícones da música internacional, como David Bowie (fevereiro), Ramones (março) e Prince (maio), trazendo diversas páginas sobre suas histórias e êxitos na carreira. As capas da Rolling Stone que possuem Bowie e Prince estampados têm um significado maior ao conteúdo da revista, já que ambos faleceram no ano de 2016 e suas imagens preenchem a página completa na vertical ao ponto da revista mostrar ao leitor que aquela edição se trata de um tributo aos que tanto contribuíram para a música pop.

6.2 ROLLING STONE COMO CONTRACULTURA

Como visto em capítulos anteriores, as primeiras publicações da Rolling Stone eram dedicadas unicamente a servir de alternativa ao resto da imprensa tradicional norte-americana. O viés mais radical de seu criador, Jann Wenner, representava o pensamento e as atitudes de uma geração envolvida com a contracultura – movimento que se instalava nos Estados Unidos dos anos 1960. Posteriormente, a contracultura chegou ao Brasil em uma época delicada para a imprensa em geral: o regime militar (BARROS, 2005). A visibilidade do movimento abriu portas para que suplementos culturais independentes e alternativos surgisse para se opor à censura da época, e com isso, fez nascer a primeira versão da Rolling Stone Brasil no início dos anos 1970. Durante o seu sucesso inicial entre o final dos anos 1960 e começo dos anos 1970, a Rolling Stone acabou adotando em suas publicações matérias e reportagens de cunho político e como forma de denúncia com o pioneirismo de Hunter S. Thompson, criador do chamado jornalismo gonzo (VAZ, 2008).

Tendo em vista esse histórico, foi observada a linguagem com que a versão atual da Rolling Stone Brasil se comunica com o leitor através das capas analisadas. Além do contexto musical estudado no tópico anterior, as seis publicações escolhidas serviram também para certificar se há ou não características da contracultura em sua comunicação atualmente e se ainda cabe espaço este tipo de radicalismo na imprensa em 2016.

Vaz (2008) havia explicado que a Rolling Stone norte-americana havia mudado sua linha editorial ao longo dos anos, na medida em que novos estilos de fazer jornalismo para a massa consumidora de cultura pop haviam surgido. Com isso, seu estilo havia se padronizado e ingressado à mídia tradicional que tanto relutava nas épocas de contracultura. Este estilo atual acabou permanecendo e sendo vendido a vários países, incluindo o Brasil.

Hoje, analisando as revistas da Rolling Stone nacional, é possível perceber que temas que acabam exercendo a reflexão e o senso crítico do leitor são frequentes nas publicações como, por exemplo, a política – sendo esta apresentada no editorial da primeira edição da Rolling Stone Brasil, por Ricardo Franca Cruz, tratando-a a partir de reportagens que abordam análises, denúncias e até distribuição de renda. Das capas analisadas, duas apresentam conteúdo ligado ao sistema político do país. São elas, as edições de janeiro e junho. As publicações fazem parte de uma seção não-permanente chamada Política Nacional. Nela, jornalistas da Rolling Stone dedicam páginas da revista para o exercício da reflexão sobre o momento político do Brasil, junto à entrevistas e opiniões.

A partir dessa descrição é possível analisar que, apesar de mais centrado e menos radical, assuntos políticos ainda fazem parte da linha editorial da Rolling Stone e acredita-se que o leitor-alvo também aprove ler o ponto de vista de uma revista que se autointitula como de entretenimento sobre a política nacional. A visão opinativa sobre esse cenário também é exercida por artistas entrevistados pela Rolling Stone. Como as capas de janeiro e junho trazem atores brasileiros, a abordagem desse assunto acaba facilitando a identidade brasileira dentro de uma revista importada de outro país.

Na apresentação da revista ao país, Ricardo Franca Cruz também citou o comportamento e suas variantes (como moda, estilo e sexo) como alguns dos diversos assuntos tratados pela Rolling Stone Brasil. Curiosamente, a primeira versão da Rolling Stone também falava sobre comportamento e sexualidade como temas que, segundo Barros (2005) refletiam a mentalidade rebelde dos anos 1960 e 1970. Considerando esse fato histórico e teórico sobre a linha editorial da revista, a partir da análise realizada foi possível identificar a presença de diálogos desse nível tanto em matérias somente sobre comportamento quanto em entrevista com artistas, ainda que pouco representativa nessa pesquisa. Das capas estudas, apenas uma realizou chamada para uma reportagem que envolvia temas como sexo, religiosidade e crime: a manchete “Sexo & religião – A maior comunidade poligâmica dos Estados Unidos está à beira de uma guerra civil” está presente na edição de abril (nº 116) da revista. Em um outro cenário, a capa da edição de junho traz a atriz Maitê Proença trajando collant transparente, fazendo alusão à uma imagem sensualizada da artista. A matéria dentro da publicação trata sobre nudez e sexo em frente às câmeras e durante a vida pessoal.

6.3 ELITISMO X POPULISMO

Com o estudo acerca das capas da Rolling Stone Brasil escolhidas para este trabalho foi possível perceber alguns detalhes que envolvem um dos maiores dilemas vividos pelo jornalismo cultural brasileiro, o elitismo e o populismo. A partir das afirmações de Piza (2013), da definição ao entendimento do que se trata um conteúdo considerado de elite ou para a grande massa, esta análise passou a observar e deduzir que tipo de público a revista está querendo atingir com seu material.

Primeiramente, é preciso ressaltar o fato de que a Rolling Stone se considera “a maior revista de entretenimento do mundo” – termo encontrado no índice de cada edição – e isso pode previamente acabar com a possibilidade do conteúdo da revista ser considerado elitista. A falta de formalidade nas chamadas e nos textos, além dos personagens escolhidos para estampar as capas da publicação, revela a acessibilidade com que a revista possui para atrair um público que não requer uma carga cultural refinada. Os artistas que estampam as capas analisadas para este trabalho, todos são de fato conhecidos do grande público – o que conta para a chamar a atenção de um popular acostumado a acompanhar esses artistas, seja como e onde for.

Entretanto, vale ressaltar também que a Rolling Stone é uma revista especializada em cultura pop em geral, oferecendo textos, entrevistas, reportagens, opiniões e análises sobre obras passadas e presentes sobre o que há no mundo do entretenimento de forma completa. Isto acaba diminuindo a procura do público conhecido como “de massa”, já que, segundo Piza (2013), esse mesmo público é acostumado a consumir serviços e agendas culturais devido ao conteúdo superficial de suplementos culturais nos periódicos impressos nos dias atuais.

Na questão que envolve o cenário musical, a representatividade da música pop é imensa. Entretanto, como afirma Piza (2013), a sociedade vive de dividir o consumo musical a partir da criação de subgêneros. Com isso criou-se a ideia de que determinados estilos musicais, como o jazz, a MPB e a música erudita, são ligados a um público elitista, enquanto os demais gêneros populares fazem o caminho inverso.

Nas quatro capas em que artistas musicais aparecem estampados é notável perceber a contemplação ao legado ou impacto cultural que estes personagens obtiveram na música pop. David Bowie e Prince, mortos em 2016, ganham páginas e capas especiais em suas homenagens reverenciando o tamanho da contribuição à música popular em geral. Ramones, banda que encerrou as atividades em 1996, também foi venerada por ser pioneira do movimento punk. Adam Levine, ainda vivo e líder da banda pop Maroon 5, é apresentado na edição de abril como “o mais infame bon-vivant da música pop”, não pelo seu impacto na cultura musical, mas por seu perfil perante ao público.

Entre os brasileiros citados nas capas da revista, há uma variação entre os estilos musicais. Indo da MPB, passando pelo heavy metal e chegando ao rap nacional. Entretanto, as variações acabam por aí, não se vê representantes de outros gêneros tipicamente brasileiros nas páginas da revista Rolling Stone, como o sertanejo, funk, axé, forró, etc.

Dentro deste contexto, Ballerini (2015) é enfático ao afirmar que a imprensa da região sudeste faz pouco esforço para abrir espaço os ritmos tanto de regiões distantes como o Norte e Nordeste quanto os estilos populares na mesma região. O sertanejo, por exemplo, segundo o autor é o ritmo musical mais popular da atualidade e também mais rentável. Já o funk, criado no Rio de Janeiro e marginalizado, quase não ocupa espaço na imprensa nacional.

Na edição de janeiro, a revista fez uma lista indicando os melhores álbuns e músicas do ano de 2015. Na seleção, nota-se que os donos das primeiras colocações são a brasileira Elza Soares e o rapper norte-americano Kendrick Lamar. Os dois possuem semelhanças curiosas: negros, são artistas de gêneros que tiveram a origem marginalizada e acabaram se tornando popular. Para Piza (2013), o termo elite nada mais é que ter a qualidade e prestígio em determinado público. Logo, Elza Soares e Kendrick Lamar realizaram trabalhos em 2015 dignos de aclamação popular com os álbuns A Mulher do Fim do Mundo e To Pimp a Butterfly respectivamente, fora que suas carreiras também são bem avaliadas pelos críticos especializados em música.

6.4 NACIONAL X INTERNACIONAL

Por fim, a análise das capas da Rolling Stone Brasil permitiu também caracterizar a distribuição de assuntos nacionais e internacionais na revista. Esse outro dilema levantado por Piza (2013) revela que por vezes a grande imprensa rejeita abordar assuntos de outros países para não significar que os jornalistas sejam submissos aos produtos culturais que vem do exterior. O que não é o caso da Rolling Stone, já que a própria revista é um produto importado de sua versão original, feita nos Estados Unidos.

O que se percebeu ao longo da análise é que a boa parte do conteúdo da revista é fabricado por jornalistas da matriz norte-americana, que foram apenas traduzidas para o português; a reportagem sobre a prisão de Guantánamo (presente na edição nº 114), Darknet (na edição nº 113), uma seita religiosa onde a poligamia é praticada (edição nº 115) e o futuro da realidade virtual (edição nº 118).

Além disso, alguns perfis e reportagens especiais de astros da música pop e atores de Hollywood citados na capa também são obras de editores da Rolling Stone norte-americana que acabam vendidas para as sucursais ao redor do mundo, o que previamente pode dar a entender que a Rolling Stone, como revista importada, apenas reproduz para as matérias feitas em território americano para a língua portuguesa.

Entretanto, essa visão acaba ficando equivocada quando se percebe que a revista também trabalha com temas nacionais. Nas capas do mês de janeiro e junho, por exemplo, a revista traz a imagem do casal de atores Lázaro Ramos e Taís Araújo e da atriz Maitê Proença respectivamente. Dessa prática, é possível cogitar que a Rolling Stone, mesmo sendo uma publicação importada, queira deixar uma identidade brasileira forte em cada edição. Afinal, esta era uma das propostas para a publicação afirmadas por Ricardo Franca Cruz no posicionamento da revista, na edição de outubro de 2006. Inclusive em quatro das seis revistas analisadas, há nomes de artistas brasileiros chamando o leitor para conhecer o que há anexado às páginas das publicações, além de reportagens de comportamento e política ambientadas em território nacional.

Outro fato que define essa caracterização da revista em trabalhar ora com assuntos internacionais ora nacionais está presente na edição de janeiro da Rolling Stone. A lista dos melhores discos e músicas de 2015, indicada na capa e presente nas páginas seguintes. Na chamada, não antecipa os critérios de escolha evidentemente. Folheando a revista, o leitor chega à matéria especial e absorve o método escolhido para estar na seleção dos discos e canções que destacaram além dos demais naquele ano. O “top 50”, utilizado na capa, é na verdade a escolha de álbuns e músicas nacionais e internacionais divididos em 25 cada.

Esse caráter de escolha da Rolling Stone se opõe a uma afirmação de Piza (2013) sobre o raciocínio das redações de jornais e revistas em relação a abordagem dos assuntos nacionais e internacionais. O que o autor enfatiza é que a partir da escolha de não tratar assuntos internacionais, imaginamos que as culturas ao redor do mundo não se comunicam, quando a abordagem é o que importa. Entretanto, há um contraponto na própria afirmação de Piza (2013), que chega a citar que esse raciocínio chega a ter razão quando se refere às críticas preconceituosas da imprensa em relação à música pop brasileira, no qual a imprensa em geral rejeita até hoje.

O fato da prática da Rolling Stone contrariar tal afirmação, pois mesmo tendo que reproduzir as reportagens realizadas por jornalistas norte-americanos, a revista faz o máximo para atrair a raiz brasileira para dentro de suas publicações, faz a cultura pop enriquecer englobando assuntos ao redor do mundo e unindo-os dentro de um único suplemento e da mesma proporção.

7. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como foi possível observar ao longo desta monografia, a Rolling Stone surgiu no cenário cultural no final dos anos 1960 se opondo ao tradicional modo de realizar jornalismo. Seu objetivo principal era tratar de música se comunicando com um público rebelde que ansiava por um veículo que representasse o modo de pensar e de agir, de acordo com a fase da contracultura que eclodia nos Estados Unidos naquela época.

Conforme o sucesso da Rolling Stone crescia, outros assuntos passaram a ser abordados como política e comportamento, nomes de peso passaram a integrar a redação da revista na cidade norte-americana de San Francisco e um novo estilo na realização de entrevistas e reportagens foi adotado, de modo que a revista passou a se tornar uma das mais influentes para a cultura pop ocidental. Entretanto, a sociedade é movida por fases e épocas distintas, e isso faz parte para a construção da humanidade. O mesmo se aplica ao jornalismo cultural, que desde seus primórdios no século XVIII até a idade contemporânea passou por mudanças drásticas e significativas para a prática desse segmento da imprensa. A Rolling Stone não ficou por fora e viu seu trabalho ser remodelado nas décadas seguintes. Seu público inicial já havia mudado e os jovens dos anos 1980 e 1990 possuíam o canal de televisão MTV como principal porta-voz da juventude. Com isso, a revista deixou a ousadia de lado para se tornar uma publicação comum e padronizada como as demais do mercado.

Apesar da publicação ter perdido sua identidade com o passar dos anos, a Rolling Stone jamais deixou de ser uma referência para o jornalismo cultural. Atualmente, a revista conta com versões internacionais valorizando o cenário cultural de cada país e abordando assuntos sobre a indústria da música pop mundial, como a sucursal brasileira, lançada em 2006 – sendo esta o objeto principal deste trabalho.

A partir daí, foi analisada a revista Rolling Stone a partir dos critérios como revista musical, como contracultura e baseada nos dilemas entre o elitismo e o populismo e nacionalismo e internacionalismo. Assim é possível afirmar que a revista quebra essa previsibilidade da imagem da imprensa cultural brasileira, permitindo a realização de textos mais aprofundados e reportagens de qualidade. Evidentemente, é necessário ter em mente que se trata de uma revista e que por lógica possui um espaço considerável para tal atividade.

Um dos principais objetivos deste trabalho e, consequentemente, um dos fatores que levaram à realização do projeto foi analisar a Rolling Stone Brasil como revista musical, já que o grande público a vê deste modo acreditando que o título tenha alguma associação direta com a banda inglesa The Rolling Stones. Dentro desse contexto, observou-se que revista de fato cumpre o papel de abordar o universo musical dedicando suas capas a falar de assuntos ligados a música, mesmo quando não há astros do pop estampados nela. Isso inclui perfis sobre cantores, análises sobre algum movimento musical que fez história e dedicatórias para artistas que construíram um legado para cultura musical universal.

Outra questão envolvendo este trabalho foi observar se ainda há conexão da Rolling Stone atual com suas edições na época da contracultura hippie e da imprensa alternativa. O que pode se notar é que apesar de não haver espaço para textos e manchetes rebeldes ou pelo fato de ter incorporado à imprensa tradicional, existem elementos remanescentes desta época, como a forma de abordar a política como forma de denúncia e opinião, além de falar abertamente sobre sexo e outros comportamentos conhecidos e identificáveis ao público jovem. De fato, é possível afirmar que não há espaço para ousadias radicalistas, mas há para o jornalismo que trabalha como informalidade e qualidade sobre assuntos que exercitem o senso crítico do leitor.

O estudo desta monografia também fez refletir e analisar os dilemas com que a imprensa cultural brasileira tem vivido, e isso reflete no modo de leitura e interpretação do público. Um desses dilemas analisados foi a percepção do conteúdo das Rolling Stone Brasil ao identificá-los como publicações elitistas ou populistas.

Como hipótese inicial, seria fácil afirmar que a revista não possui veias elitistas em suas edições pelo fato de apresentar personagens da mídia que fazem sucesso entre o grande público, como atores de novelas brasileiras ou cantores de rock. Entretanto, é impossível ter certeza dessa suposição se for levado em conta os gêneros musicais abordados pela revista. Mesmo que a cultura pop esteja presente, não se vê abordagens dedicadas ao sertanejo ou o funk, por exemplo, que são os principais ritmos musicais brasileiros atualmente – o que configura um preconceito por parte da imprensa aos estilos musicais com maior apelo popular no Brasil.

Outro dilema bastante pertinente no cotidiano do jornalismo é saber separar as publicações entre assuntos nacionais e internacionais. Divergências de ambos os lados, o fato é que a Rolling Stone Brasil consegue distribuir seus conteúdos de modo que não haja pré-julgamentos por se tratar de uma revista importada de outro país e que reproduz matérias traduzidas, mas que realiza um trabalho de qualidade para inserir a identidade brasileira entre as suas páginas.

Assim, mesmo que esta pesquisa não se esgote com este trabalho, é possível apontar que a Rolling Stone cumpre o seu papel diante das hipóteses supracitadas. Seu trabalho como revista especializada em cultura popular e entretenimento certamente é uma das que ainda sustentam um mercado cada vez menor para o jornalismo impresso, como observado pelos autores que fizeram parte da construção desta pesquisa.

8. REFERÊNCIAS

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Publicado por: Estevan Farias Gonçalves

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