FUTEBOL NA OLIMPÍADA RIO 2016: HISTÓRIA E COMUNICABILIDADE NO JORNAL NACIONAL

Comunicação e Marketing

O surgimento da televisão no país, a história do futebol nacional desde a sua origem e relação entre a televisão e o futebol aplicada pela TV Globo com o triunfo brasileiro na Rio 2016.

índice

1. RESUMO

O futebol e a imprensa se caracterizam desde o surgimento da modalidade no país por uma relação de interdependência, ampliada com o advento da televisão e consequente transmissão dos jogos. Este trabalho trata do predomínio do futebol em relação aos demais esportes na repercussão midiática, especialmente televisiva, analisando em retrospectiva o seu impacto no país e o histórico de exibições da TV Globo na área, assuntos coincidentes em diversos momentos ao longo de décadas, principalmente durante as partidas da Seleção Brasileira. Averigua-se de forma destacada a cobertura realizada pela emissora diante da final masculina entre Brasil e Alemanha durante a Olimpíada de 2016, no Rio de Janeiro, e a edição do Jornal Nacional sobre a conquista brasileira, observando por diferentes vertentes, como entrevistando jornalistas envolvidos, a prioridade dedicada ao futebol mesmo em um evento poliesportivo como os Jogos Olímpicos.

Palavras-chave: futebol; Jornal Nacional; Rio 2016; Seleção Brasileira; TV Globo

ABSTRACT

Football and the press have been characterized since the emergence of the sport in the country by a relation of interdependence, amplified with the advent of television and subsequent broadcasts of the games. This monograph shows the predominance of the repercussion of football in relation to other sports in the media, especially television, analyzing in retrospect its impact on the country and the history of TV Globo transmissions in this field, two issues that intersected at various moments over the decades, mainly during the matches of the Brazilian National Team. An analysis of the broadcaster's coverage of the men's final between Brazil and Germany during the 2016 Olympics in Rio de Janeiro is highlighted, as is the Jornal Nacional news show about the Brazilian victory, observing from a number of different angles, for example as interviewing journalists involved, in the priority that was dedicated to football event during a multi-sport event such as the Olympic Games.

Keywords: Brazilian National Team; football; Jornal Nacional; Rio 2016; TV Globo

2. INTRODUÇÃO

Trazido ao Brasil no final do século XIX, o futebol se tornou rapidamente um símbolo nacional para além do seu aspecto competitivo, com a Seleção por muitas vezes representando a essência do país e despertando impressões superlativas na população, o que se acentua durante os grandes eventos, como a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos.

Nas últimas décadas, uma das maiores responsáveis pela difusão da modalidade no Brasil é a TV Globo, que além da exibição regular de partidas e de contar com uma programação diária dedicada ao tema, utiliza-se do Jornal Nacional, seu principal espaço editorial, para a repercussão dos instantes mais marcantes da vida esportiva – e consequentemente futebolística - nacional.

Durante os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, a emissora fez o que considera a maior cobertura da sua história, com diversas atrações, como o JN, sendo apresentadas de um estúdio especialmente instalado no Parque Olímpico. No período do evento, além dos apresentadores habituais, o telejornal foi ancorado também por Galvão Bueno, narrador notório por utilizar a emoção de forma incisiva em suas transmissões, como na final do futebol masculino da Olimpíada de 2016, decidida entre Brasil e Alemanha nos pênaltis.

O objeto de análise concentra-se na cobertura empregada pela TV Globo desde a derradeira cobrança de Neymar, que permitiu a conquista da medalha de ouro pela Seleção Brasileira, observando toda a repercussão subsequente nos comentários e entrevistas levados ao ar ainda durante a transmissão, bem como na edição do Jornal Nacional que a sucedeu.

Para isto, além dos instantes referidos, foi verificado o padrão de narrativa na cobertura do JN ao longo de todo o período olímpico, assim como o tratamento empregado ao tema. A pesquisa contou com referências sobre o histórico do jornalismo esportivo, concentrando-se metodologicamente na significação da enunciação destacada por Fiorin (2004).

Este trabalho organiza-se em três capítulos, sendo o inicial dedicado a resumir brevemente o surgimento da televisão no país, bem como o desenvolvimento da TV Globo ao seu posto de principal rede brasileira, regularmente alinhado com a exibição de grandes coberturas ligadas ao esporte. Recupera-se todo o histórico de transmissões olímpicas do canal desde a estreia em Munique 1972, incluindo-se também a sua postura na única edição em que não possuiu os direitos de exibição dos Jogos, em Londres 2012.

O capítulo seguinte destaca, com o auxílio de diversas publicações, a história do futebol nacional desde a sua origem, com o acompanhamento dos avanços inerentes ao crescimento da modalidade, bem como dos mais relevantes jogadores e clubes do país. A principal narrativa nele presente concentra-se na trajetória da Seleção Brasileira, evidenciando a importância dedicada ao time pelo país em variados instantes, inclusive seguindo a evolução das plataformas midiáticas.

O terceiro capítulo une as temáticas, demonstrando a relação entre a televisão e o futebol aplicada pela TV Globo com o triunfo brasileiro na Rio 2016. Demonstra-se o discurso utilizado pela emissora, versando ainda sobre o simbolismo de determinadas figuras e instituições. Neste trecho, a pesquisa busca referências, como na comparação de tempo dedicado aos diferentes esportes e na análise de profissionais de mídia envolvidos na cobertura, para constatar se a monocultura esportiva brasileira, voltada de forma majoritária ao futebol, foi ou não alterada pela realização dos Jogos Olímpicos no país.

3. A TELEVISÃO NO BRASIL

Eletrodoméstico líder em popularidade no país, presente em mais de 97% dos lares, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios1 de 2015 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)2, a televisão chegou ao Brasil sem atingir de imediato um grande número de telespectadores. Em 18 de setembro de 1950, o público paulista acompanhava a estreia da TV Tupi3, planejada desde o fim da Segunda Guerra Mundial pelo grupo Diários Associados, liderado por Assis Chateaubriand. O sinal, porém, não chegava a todo o estado, sendo forte especialmente na capital e em cidades mais próximas.

Segundo o jornal O Estado de S. Paulo4, apenas poucas centenas de pessoas acompanharam a transmissão inaugural, exibida para cerca de 200 televisores contrabandeados por Chateaubriand. Alguns desses aparelhos foram instalados em vitrines no Centro da capital paulista para chamar a atenção dos curiosos, enquanto outros foram distribuídos entre personalidades notáveis da sociedade, como o jornalista Roberto Marinho (ALVES, 2008, p. 271).

Nos anos 1950, com exibições ainda em preto e branco, a programação limitava-se a duas vertentes básicas, com inspiração no modelo radiofônico, inclusive contratando diversos profissionais oriundos dele, e também nos métodos estadunidenses, tanto na própria televisão quanto no cinema. O conteúdo, voltado majoritariamente ao seleto público elitista com capital econômico para adquirir os aparelhos, ajudava a restringir a audiência inicial, o que não atrapalhava, contudo, na expansão regional das redes, com a inauguração da sucursal carioca da Tupi ocorrendo poucos meses depois.

Naquele tempo, o recurso do videoteipe era inexistente, com as exibições ocorrendo ao vivo, sujeitas a gafes. O livro Chatô, o Rei do Brasil (1994) relata que a primeira transmissão foi repleta de percalços.

Para desespero generalizado, aconteceu o que ninguém poderia imaginar: uma das câmeras pifou. Não é verdadeira a versão de que o defeito tenha sido provocado por uma garrafa de champanhe quebrada na câmera por Chateaubriand, durante a cerimônia da tarde – até porque não houve batismo com champanhe. A suspeita que reinava entre os técnicos era a de que a água-benta espargida sobre as câmeras por Dom Paulo Rolim Loureiro tivesse molhado e danificado alguma válvula. Mas, qualquer que fosse a causa, ninguém localizar o defeito. E tudo tinha sido ensaiado centenas de vezes para ser transmitido por três câmeras, não duas. (MORAIS, 1994, p. 503)

A pouca experiência explicava os problemas. O Brasil era o país primeiro da América Latina a contar com uma emissora e o quarto em todo o mundo, depois apenas dos Estados Unidos, da Inglaterra e da França. A pouca força comercial da plataforma na época tida como “rádio como imagens” era compensada pelo próprio Chateaubriand, que possuía um robusto império midiático sob seu domínio.

Como forma de atrair os anunciantes, os programas ganhavam a inclusão dos patrocinadores em seus nomes, algo que já era comum também no rádio. Foi assim com o Repórter Esso, primeiro espaço dedicado regularmente ao jornalismo na televisão brasileira, com estreia em 1952. O programa era produzido pela agência americana McCann Erickson, que também se responsabilizava pela publicidade da rede de postos de gasolina que o batizava. Tinha diversas edições diárias, marcadas por notícias curtas e rápidas. Assim como no jornalismo televisivo, a Tupi foi igualmente pioneira no entretenimento, inclusive na dramaturgia, que se utilizava melhor de que o jornalismo, esse quase que inteiramente lido, do poder de ilustração do novo meio. Seu primeiro grande sucesso foi a adaptação de uma radionovela para a televisão (SILVA, 2004, p. 24).

Em 1960, a nova capital federal, Brasília, já foi inaugurada com a cobertura de três canais (TV Nacional, TV Alvorada e TV Brasília). Mas foi a antiga sede do poder, o Rio de Janeiro, que evidenciou o poder televisivo ao longo da década, com a consagração da telenovela O Direito de Nascer, que com seu capítulo final lotou ginásios nas duas maiores cidades do país, mostrando a força do novo meio, que ainda era uma novidade para a maioria das famílias5.

Atualmente a maior emissora de televisão da América Latina e do hemisfério Sul6, a TV Globo foi levada ao ar pela primeira vez em 26 de abril de 1965, sendo o mais importante empreendimento do grupo comandado pelo empresário e jornalista Roberto Marinho7, que na época já possuía rádio e jornal homônimos8.

De acordo com reportagem de 2014 da revista The Economist9, 91 milhões de brasileiros sintonizam a rede diariamente. Índices distantes dos da estreia do canal, feita apenas para o Rio de Janeiro às 11 da manhã daquele 26/04, com a exibição do Hino Nacional, seguido por um programa infantil. Nos seus primeiros meses, a Globo seguiria sem empolgar o público. Entre os programas exibidos nessa fase, estava até mesmo o de Silvio Santos – esse, entretanto, restrito somente para São Paulo - que na época ainda não possuía a concessão do seu próprio canal10. Já no primeiro dia de programação, também foi ao ar a telenovela inicial da história da emissora, embora diversos horários da programação fossem ocupados por enlatados estadunidenses11. O lançamento e a consequente ampliação canal aproveitaram uma época de grande expansão da televisão entre os brasileiros, com crescimento constante em alcance de público e em participação no mercado publicitário. O regime militar se aproveitava da popularidade do meio para expandir sua ideologia12, num acordo tácito para a manutenção da ordem vigente, prática que se repetiria também na democracia, com a distribuição de concessões das afiliadas para grupos políticos.

No jornalismo, o primeiro noticiário foi o Tele Globo13, que ia ao ar em duas edições diárias. As informações esportivas eram abordadas também pela atração. Só anos depois surgiria o primeiro espaço exclusivo ao tema, com o Esporte Espetacular14.

Para a emissora, conforme o site institucional Memória Globo, seu primeiro momento significativo para a audiência15 foi a cobertura das enchentes que afetaram a capital fluminense no verão de 1966. Em 1969, o canal já havia se expandido para São Paulo, conseguindo liderar também entre o público paulistano igualmente com a programação jornalística, como na cobertura da chegada do homem à Lua. O sucesso se expandiria conforme o canal se modernizava, passando a adotar rapidamente transmissões a cores, e se interiorizava, ampliando a rede de emissoras para além da região Sudeste, ao que paralelamente também ampliava o modelo com uma grade de programação fixa e diversificada.

3.1. TV Globo e esporte, “tudo a ver”

Em 1º de setembro de 1969, entrou no ar outro marco da TV Globo: o Jornal Nacional. Primeiro noticiário exibido nacionalmente, com duração inicial média de 15 minutos, o JN foi formado por vários nomes egressos da imprensa escrita, especialmente do jornal O Globo, pertencente ao mesmo grupo. Desde o princípio já tinha a transmissão fixada de segunda a sábado, porém começava mais cedo do que atualmente, tendo seu horário postergado ao longo dos anos de acordo com os hábitos dos brasileiros, especialmente pelo trânsito nas metrópoles. Em princípio, a atração diferenciava de forma clara o noticiário nacional, internacional e local. As notícias do exterior ganhavam grande espaço por serem menos sensíveis às restrições impostas pela censura, na época em sua fase mais nociva após a emissão do Ato Institucional nº 5 pelo presidente Costa e Silva16.

Entre outros acordos firmados pouco após a inauguração, a TV Globo se notabilizou historicamente como uma parceira do Comitê Olímpico Internacional (COI) para as transmissões olímpicas. A opção por levar ao ar megaeventos foi uma estratégia da rede para crescer a sua popularidade nacionalmente de forma rápida, aproveitando-se da dimensão desse tipo de competição e seguindo o padrão estrangeiro, em especial estadunidense, que a influenciou por anos, graças ao acordo com a Time-Life, grupo que dava suporte técnico e financeiro nos anos iniciais da Globo.

A emissora transmitiu os Jogos de Munique17 sete anos após a sua criação, depois de ter exibido também a Copa do Mundo de 1970. No primeiro importante momento mundial em solo germânico desde a Segunda Guerra Mundial, algumas das provas foram exibidas ao vivo. O número de transmissões, porém, era reduzido. Na época, a geração do sinal internacional ficava sob o comando de uma emissora do país-sede, assim enfocando basicamente os atletas locais. A boa repercussão garantiu mais espaço ao esporte no noticiário de forma regular, com a criação de uma divisão de esportes fixa a partir de 1973, conforme conta o livro Jornal Nacional: a notícia faz história (2004).

A cobertura olímpica começou a se ampliar a partir dos Jogos de Moscou, em 1980, quando a Globo, na ocasião compartilhando direitos de transmissão com a TV Cultura, começou a enviar grandes equipes de jornalistas ao local do evento. Foi dessa edição em diante que o canal iniciou a cobertura de aspectos mais amplos dos Jogos, motivado por temas como o boicote de dezenas de países para as competições na então União Soviética. Repórteres de outras editorias também foram deslocados para acompanhar o modo de vida dos soviéticos18.

Em 1984, na disputa em Los Angeles, a TV Globo contou pela primeira vez exclusivamente com um satélite seu, que lhe deu possibilidade da transmissão de seis horas diárias de eventos. Essa foi a primeira Olimpíada coberta no local por Galvão Bueno (2015, p. 270), que classifica o evento como “a grande festa do esporte mundial”, ao unir “todos os povos com a filosofia representada pelos cinco anéis entrelaçados”. Ele também fazia entradas no Jornal Nacional comentando sobre os mais importantes resultados. Na época, porém, o principal locutor do canal era Osmar Santos19.

Nos Jogos de Seul, em 1988, os direitos voltaram a ser compartilhados com outras redes, o que causou uma retração da cobertura global, já que Band, Manchete e SBT também transmitiam as competições. Já para a Olimpíada de 1992, em Barcelona, quando retornou a ter transmissão exclusiva, a Globo enviou correspondentes para a Espanha a partir do início do ano, acompanhando os preparativos para o evento, modelo que desde então se repete quando não há repórteres já baseados na sede de uma Copa ou Olimpíada previamente. Em 2017, por exemplo, o repórter Marcelo Courrege foi deslocado para Moscou, onde permanecerá até o Mundial de Futebol da Rússia em 201820.

A competição de 1996 em Atlanta foi a primeira feita também pelo canal por assinatura SporTV21, pertencente ao grupo, o que não reduziu as transmissões na televisão aberta. Galvão Bueno, já com o status de narrador global número um, fez a cerimônia de abertura ao lado de Fátima Bernardes.

Em Sidney, na Olimpíada de 2000, o número de horas no ar chegou diariamente a nove. O fuso horário da Austrália colaborou para que fossem feitas transmissões praticamente ininterruptas ao longo de toda a madrugada.

Para os Jogos de Atenas, em 2004, o grande destaque ficou por conta de um evento realizado em solo brasileiro – e antes do começo das competições. Foi quando a tocha olímpica passou pela primeira vez no Brasil. O percurso do fogo sagrado pelas ruas do Rio de Janeiro como parte do revezamento internacional, que de forma inédita percorria os cinco continentes, foi acompanhado em boa parte do tempo ao vivo pela emissora22, que mostrou a aglomeração de mais de um milhão de pessoas pelas ruas da cidade.

Na Olimpíada de Pequim, em 2008, a rede apostou em replicar o luxo dos anfitriões, construindo estúdios especiais tanto no centro internacional de transmissões no Parque Olímpico, como no Rio de Janeiro. A edição marcou ainda a primeira transmissão olímpica exibida em alta definição ao público brasileiro.

Em Londres, na edição de 2012, pela primeira vez desde que começou a o fazer, a TV Globo não transmitiu os Jogos Olímpicos. A licitação internacional feita pelo COI definiu a Record como dona dos direitos de transmissão exclusivos do evento. O canal carioca se limitou a cobrir o evento protocolarmente, muitas vezes usando fotos para não ser obrigado a creditar a concorrente. Em todos os seus programas jornalísticos que repercutiam de forma factual o universo esportivo, foi lida em tom editorial uma explicação pela limitação.

Na cobertura das Olimpíadas, o Jornal Nacional seguirá as normas do Comitê Olímpico Internacional, que limita o uso de imagens do evento pelos não detentores de direitos de transmissão. (Jornal Nacional. TV Globo. 25 de julho de 2012. Disponível em http://globotv.globo.com/rede-globo/memoria-globo/v/olimpiadas-de-londres-2012/4326788/)

No Globo Esporte23, Tiago Leifert24, então apresentador da edição paulista25 do programa, comentou na edição de 25 de julho de 2012, o primeiro dia de competições do futebol nos Jogos, sobre a situação. Naquela altura, ele confirmou o retorno da TV Globo em 2016, por um acordo de cerca de 200 milhões de dólares26, tendo em vista que a transmissão dos Jogos no Rio de Janeiro já estava definida como compartilhada entre a própria Globo, a Record e a Band27. Essa última já havia sido parceira global em Atenas e Pequim.

Deixa eu conversar um negócio com vocês. Como vocês sabem, hoje é a abertura extraoficial das Olimpíadas de Londres. A abertura oficial é na sexta-feira, com a festa e tal. O futebol começa antes, começa hoje, tem Brasil e Camarões hoje à tarde, a Seleção feminina jogando. Amanhã tem Brasil e Egito, estreia da Seleção masculina.

Vocês sabem também que a Globo não detém os direitos de transmissão dessa Olimpíada de Londres 2012. A gente volta em 2016. Por não deter os direitos, a gente tem que seguir uma série de regras impostas por quem detém os direitos e também pelo Comitê Olímpico Internacional.

Então, a partir de hoje no Globo Esporte, a gente tem o direito de exibir por força contratual, dois minutos de imagens. E é isso que a gente vai fazer. É só isso que a gente pode fazer.

Não é obviamente o que a gente quer, a gente sabe que vocês estão acostumados a assistir a Olimpíada aqui, dessa vez não vai dar. (Globo Esporte SP. 25 de julho de 2012. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=8ZIPOpduWJQ)

A Record, mesmo com a exclusividade, não repetiu os números globais em edições anteriores do evento, com momentos de destaque apenas nos instantes decisivos dos esportes coletivos. Liderou com a decisão do futebol entre Brasil e México28, na qual a Seleção ficou com a prata, guardando a esperada conquista do ouro inédito para o Rio de Janeiro.

O ciclo olímpico da Record incluiu também a Olimpíada de Inverno de Vancouver, em 2010. Foi a primeira grande transmissão do evento na televisão aberta do Brasil29. A Globo acompanhava a versão gelada dos Jogos em reportagens desde 1980, mas jamais havia ousado exibir eventos. Em 2014, todavia, ao retomar os direitos, a emissora mostrou diversos momentos das disputas em Sochi ao vivo30. Dois anos antes, já havia feito também uma cobertura mais generosa dos Jogos Paralímpicos31, apesar de nesse caso não transmitir nenhuma competição em tempo real.

Ao contar de novo com as Olimpíadas em seu portfólio de direitos esportivos, a Globo é detentora de todas as principais competições ao público brasileiro na atualidade, com exceção dos Jogos Pan-Americanos, propriedade exclusiva da Record desde Guadalajara 201132. A rede televisiva da família Marinho, além dos Jogos Olímpicos de Verão e Inverno e da Paralimpíada, possui também os campeonatos mundiais de alguns dos principais esportes coletivos do país, como futebol e vôlei33, e de suas competições nacionais, respectivamente, Brasileirão e Superliga34. Igualmente são da rede os direitos dos mundiais de atletismo e esportes aquáticos, do UFC e da Fórmula 1, além dos torneios internacionais mais grandiosos, como a Liga dos Campeões da Europa e a NBA, liga de basquete dos Estados Unidos.

Figura 1. Capturas da vinheta de abertura das transmissões da Rio 2016 na Globo, intituladas Somos Todos Olímpicos (fonte: reprodução/TV)

Suas transmissões costumam se destacar pela busca em engajar a torcida, se colocando como parte da mesma e assim criando um vínculo na tentativa de garantir a audiência. Em 2016, o mote de toda a cobertura foi o slogan “somos todos olímpicos”, apresentado ao público em um clipe no Show da Virada35, a tradicional transmissão de Ano Novo do canal. A prática já é observada desde o Mundial de 1994, quando o tema escolhido foi “a Globo é mais Brasil”. Em 2010, também na Copa do Mundo, a campanha se baseou na ideia que “nosso esporte é torcer pelo Brasil”, enquanto em 2014 se reforçou a buscada união entre emissora e público identificando que “somos um só”, caracterizando o status de tradição desse sentido.

Ao longo do ano olímpico, essa aproximação entre a realidade esportiva e a dos indivíduos surgiu em campanhas feitas em ocasiões comemorativas, como o Dia da Mulher36 e a volta às aulas. Segundo a Publicação da Direção Geral de Negócios da Globo em outubro de 2015, o projeto buscou “o envolvimento dos brasileiros com o chamado espírito olímpico”, colocando inspiração, educação, admiração e transformação como os pilares básicos do movimento.37

Figura 2. Visão externa do prédio do Grupo Globo no Parque Olímpico (fonte: arquivo pessoal)

Para as transmissões no Rio de Janeiro, a Globo realizou a sua maior estrutura em toda a história38, com a dedicação, por exemplo, de 160 horas de exibições durante o evento39, assim se dimensionando de forma superior inclusive que a da estadunidense NBC, um feito inédito na história olímpica recente. Destacou-se no projeto, que envolveu mais de dois mil profissionais de forma direta nas transmissões, o estúdio de vidro com 500 metros quadrados erguido na área central do Parque Olímpico, de onde foram apresentados programas da TV Globo, do SporTV e do globoesporte.com.

Os dias dos Jogos representaram o ápice de uma ampla cobertura feita desde o momento em que a capital fluminense se tornou cidade olímpica, em 2 de outubro de 2009. Na ocasião, o anúncio da vitória derradeira sobre Madri foi transmitido ao vivo e dominou boa parte dos telejornais do dia, inclusive do Jornal Nacional40, que dedicou quase a totalidade da sua escalada para a repercussão do fato.

2 de outubro de 2009. O mundo conhece a sede dos Jogos Olímpicos de 2016. Rio de Janeiro. Nossos repórteres mostram como foi a votação histórica do Comitê Olímpico Internacional. A emoção da comitiva brasileira na cerimônia em Copenhague. A comemoração dos nossos atletas com a apuração dos votos. As reações ao resultado nas cidades que perderam a disputa. E a festa popular na praia mais simbólica do Brasil. (Jornal Nacional. TV Globo. 2 de outubro de 2009. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=Kcy2V-E7Gn4)

O JN tradicionalmente abre um grande espaço para a cobertura dos Jogos Olímpicos, sendo um dos raros momentos em que o esporte ganha peso suficiente para abrir edições e se sobressair diante das pautas política ou econômica. O fenômeno não é isolado e ocorre ao redor do planeta nas mais diferentes mídias, desde a predominância do jornal impresso.

Apesar disso, até 2016 jamais havia deslocado algum de seus principais apresentadores para cobrir o evento in loco, como faz com as Copas do Mundo desde 1998, algo que simboliza a dimensão de grande importância do futebol para o país.

4. BRASIL, O PAÍS DO FUTEBOL

Entre os muitos estereótipos propagados mundo afora, talvez nenhum identifique tanto o Brasil como o lema de “país do futebol”, apesar do surgimento da modalidade - da forma mais aproximada a como a conhecemos - ter acontecido na Inglaterra. Nenhum outro esporte atinge hoje a dimensão do futebol na vida global. Por exemplo, a Organização das Nações Unidas (ONU) informa possuir 193 países-membros, enquanto a Federação Internacional de Futebol (Fifa), conta com 211 países filiados41, número superior inclusive ao do Comitê Olímpico Internacional (COI), que possui 206 comitês nacionais como membros.

A internacionalização da modalidade é notada inclusive na entrada do futebol no Brasil, sendo trazido da Inglaterra por Charles Miller, um brasileiro descendente de ingleses que deixou o bairro paulistano do Brás rumo à Europa ainda criança, retornando apenas aos vinte anos, após a conclusão dos estudos. Ao voltar, além da primeira bola de futebol a rolar em campos nacionais, ele possuía ainda consciência das regras da modalidade, trazendo em sua bagagem ainda o livro com o conjunto delas42.

Em 1894, o turfe e o remo, eram as modalidades mais destacadas pela imprensa. Somente com a formação de times entre os profissionais das fábricas é que o futebol começou a ganhar atenção, ainda que limitada. O profissionalismo passou a surgir em 1902, com a primeira disputa do Campeonato Paulista43. Apenas cinco equipes participaram da competição, vencida pelo São Paulo Athletic, time formado por descendentes ou filhos de ingleses, em uma final assistida por quatro mil pessoas nas arquibancadas. O clube deixou de integrar o torneio dez anos depois.

Ao longo dos anos seguintes, o futebol foi sendo expandindo, tanto entre as figuras notáveis da sociedade, como entre a população, passando rapidamente a se popularizar também na então capital federal, o Rio de Janeiro. O esporte já passava a ter presença obrigatória nos jornais, também com o surgimento de periódicos específicos. Conforme salientado por Silva e Santos (2006, p. 29), nesse período, com a multiplicação dos campos de várzea pelas grandes cidades, a população mais pobre também começava a fazer parte do universo futebolístico, o que Mario Filho identifica no livro Histórias do Flamengo (2014) como uma das razões para a sua rápida propagação.

Em 1914, formou-se pela primeira vez na história uma Seleção de futebol do Brasil, que cinco anos depois44 conquistaria seu primeiro grande título: o Campeonato Sul-Americano, esboço da atual Copa América, em uma disputa de turno único dos anfitriões contra Argentina, Chile e Uruguai. O time brasileiro se filiou de imediato à Confederação Sulamericana de Futebol (Conmebol) e à Fifa.

De acordo com Napoleão (2006, p. 29), a partida inaugural daquele torneio foi realizada diante de cerca de 25 mil espectadores, estando entre eles o presidente Delfim Moreira. Na goleada de 6 a 0 do Brasil contra o Chile, outras milhares de pessoas cercaram o Estádio das Laranjeiras, então o maior da América do Sul, para tentar observar o confronto subindo em muros e árvores.

A crescente popularização do esporte decepcionava alguns dos seus precursores, mais puristas, que temiam a mistura com outras raças, fruto do pensamento eugenista que dominava parte da sociedade desde a abolição da escravatura, em 1888. Outro medo era o do crescimento de brigas nas arquibancadas, deixando de lado a celebração independentemente do resultado. Nessa época, vaias e xingamentos direcionados para os atletas e árbitros já eram comuns em situações onde a torcida se via desagradada. Em 1925, a Confederação Brasileira de Desportos (CBD), antecessora da atual Confederação Brasileira de Futebol (CBF), não permitiu a escalação de jogadores negros ou mestiços para a disputa do mesmo Campeonato Sul-Americano, então realizado na Argentina, ressaltando o caráter ainda excludente que o futebol possuía na época. Conforme contado por Silva e Votre (2006, p. 42), os anfitriões, contando com negros no elenco, acabaram vencendo a competição.

Diante do crescimento da Seleção, a imprensa especializada começou a se profissionalizar, assim como os clubes de regatas, voltados aos esportes náuticos em suas fundações, passaram a também priorizar o futebol. É o caso do Flamengo, hoje time mais popular do país45, fundado em 1895, mas que somente em 1911 passou a ter um departamento de esportes terrestres46.

Nesse período, o futebol já era uma modalidade olímpica, sendo o segundo esporte coletivo a entrar nos Jogos da Era Moderna, depois somente do polo aquático. A modalidade integrou inicialmente o programa olímpico apenas como exibição nas edições de Paris 1900 e Saint Louis 1904. Em Londres 1908, houve pela primeira vez um torneio oficial de seleções, com a vitória dos donos da casa diante da Dinamarca na final. O pódio foi completado pela Holanda, que ao lado de França, Suécia e Suíça fecha a lista das nações que estiveram na disputa. A participação apenas de nações europeias foi motivada pelos longos deslocamentos da época, com as viagens das equipes de outros continentes sendo possíveis apenas por via marítima.

Em 1924, nos Jogos de Paris, o torneio vencido pelo Uruguai foi responsável por cerca de 30% da receita de toda a competição, levando ao todo mais de 200 mil pessoas aos estádios. Tamanho sucesso motivou a Fifa a decidir em 1928, sob o entusiasmo de Jules Rimet47 durante o congresso da entidade, a criar um campeonato mundial de futebol próprio. Assim surgia a Copa do Mundo, realizada pela primeira vez em 1930 no Uruguai, também campeão do torneio. O país, famoso como a Celeste Olímpica por causa das suas conquistas de medalhas de ouro em 1924 e 1928, parou para acompanhar a final diante da Argentina. Quase 100 mil pessoas assistiram a vitória por 4 a 2 contra os portenhos no Estádio Centenário, em Montevidéu. No dia seguinte, para que a população comemorasse, foi decretado feriado nacional.

O Brasil, que até então jamais havia disputado o futebol nos Jogos Olímpicos, foi um dos 13 participantes da competição - os demais foram, além do Uruguai, Argentina, Bélgica, Bolívia, Chile, Estados Unidos, França, Iugoslávia, México, Paraguai, Peru e Romênia. Na época ainda sem o sistema de eliminatórias, a presença brasileira foi decorrente de um convite dos organizadores. A Seleção ficou em sexto lugar, sendo eliminada na fase de grupos. O time foi ao Uruguai apenas com apenas um rebelde atleta atuante em São Paulo - o atacante Araken, do Santos -, por causa de uma briga entre as federações locais motivada pela supremacia carioca na formação da comissão técnica.

O brasileiro, porém, não acompanhou nenhum desses confrontos ao vivo. Segundo André Ribeiro (2007, p. 76), somente em 1931 seria feita uma transmissão de partida por rádio, no duelo entre equipes representando os estados de São Paulo e do Paraná. As transmissões logo cairiam no gosto popular, se tornando habituais especialmente aos fins de semana.

Em 1938, por exemplo, quatro jornalistas brasileiros foram enviados para cobrir a Copa do Mundo da França, algo inédito. A Seleção começou a despontar para o protagonismo internacional ao alcançar a terceira colocação na disputa, vencida pela Itália. Essa foi a primeira ocasião em que os envolvidos em conflitos estaduais sobre o avanço da profissionalização do futebol sobre o amadorismo, que, segundo Toledo (2000, p. 10), vinha ocorrendo ao longo da década, se apaziguaram e o país foi aos campos franceses com seus melhores jogadores, entre eles o negro Leônidas da Silva, artilheiro do torneio e o primeiro jogador brasileiro a alcançar os status de ídolo nacional.

4.1. 1950: a Copa perdida no Maracanã

Por causa da Segunda Guerra Mundial, a Copa do Mundo seguinte foi disputada somente em 1950, com o Brasil recebendo pela primeira vez o torneio. No intervalo de 12 anos sem Mundiais, as competições continuaram ocorrendo regionalmente na América do Sul, servindo para a consolidação dos atletas e clubes profissionais e a progressiva inserção dos negros, numa forma também de ascensão social (FILHO, 2003, p. 179).

Após o fim da II Grande Guerra, o Brasil obtia bons índices econômicos, com uma média de 8% de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) por ano. Nesse ritmo, o país conquistou o direito de sediar a Copa do Mundo durante o congresso pós-guerra da Fifa em 194648. Seis estádios espalhados pelo país receberam jogos do Mundial, sendo eles o Pacaembu, em São Paulo, o Independência, em Belo Horizonte, a Vila Capanema, em Curitiba, o dos Eucaliptos, em Porto Alegre, a Ilha do Retiro, em Recife, e o Maracanã, palco da final, no Rio de Janeiro. Então com capacidade superior a 150 mil presentes, o Maraca, como é carinhosamente chamado pelos torcedores, hoje leva o nome do jornalista Mario Filho49, um dos maiores entusiastas da sua construção. A inauguração oficial do estádio, o maior do mundo na época, aconteceu somente oito dias antes da primeira partida da Copa.

A população apoiou a empreitada governamental para a construção do estádio, em grande parte motivada pelo apoio da mídia, como do radialista Ary Barroso, que também exercia o cargo de vereador graças à popularidade obtida pela sua atuação narrando partidas de futebol, e do próprio Mario Filho.

O Mundial de 1950 contou novamente com 13 participantes, sendo garantidos previamente o Brasil como sede e a Itália por ser a campeã mais recente. Participaram ainda, oriundas do já vigente sistema de eliminatórias internacionais, Bolívia, Chile, Espanha, Estados Unidos, Inglaterra, Itália, Iugoslávia, México, Paraguai, Suécia, Suíça e Uruguai, que acabaria se sagrando campeão ao superar o Brasil no confronto que ficou eternizado como o Maracanazo.

Antes da decisão, a Seleção empolgava os torcedores. Na estreia no quadrangular final, venceu a Suécia por uma goleada com o placar de 7 a 1. Depois veio outro triunfo com larga vantagem, um 6 a 1 sobre a Espanha, com direito a torcida cantando a marchinha Touradas em Madri das arquibancadas50. No dia da final, lembranças do “campeão” já eram vendidas nos arredores do estádio. O Brasil seria vencedor mesmo com o empate. Diante do bem sucedido estilo ofensivo dos brasileiros e das dificuldades que o Uruguai encontrou em partidas anteriores, a imprensa e o público davam como uma questão de tempo a conquista do título naquele 16 de julho de 1950. A Seleção era cercada inclusive por políticos, como o então presidente Eurico Gaspar Dutra, que utilizava a Copa para marcar sua imagem como líder do país após o forte personalismo da gestão de Getúlio Vargas.

Pouco antes do jogo final, Mendes de Morais, o prefeito do Rio discursou no Maracanã, sendo ouvido, de acordo com Pimentel (2013, p. 19), por aproximadamente 220 mil presentes no estádio, número largamente superior a capacidade prevista, obrigando muitas pessoas a se aglomerarem em pé e de lado, enquanto escutavam suas pouco proféticas palavras51.

Um dia antes, o jornal A Noite trazia uma foto da equipe posando com a manchete “Estes são os campeões do mundo”. Tamanha euforia seria proporcional ao clima de abatimento que tomou conta do estádio. Schiaffino e Ghiggia marcaram contra o gol de Barbosa, que carregou pelo resto da vida a imagem de maior culpado pela derrota, em uma virada do Uruguai por 2 a 1. O Maracanã se calou e os campeões consolaram os vencidos. Para o autor do segundo gol uruguaio, “o silêncio era tão grande, que se uma mosca estivesse voando por lá, ouviríamos o seu zumbido”. O sentimento foi resumido dois dias após a final, em 18 de julho, por José Lins do Rego em crônica no Jornal dos Sports:

Vi um povo de cabeça baixa, de lágrimas nos olhos, sem fala, abandonar o Estádio Municipal, como se voltasse do enterro de um pai muito amado. Vi um povo derrotado, e mais que derrotado, sem esperança. Aquilo me doeu no coração. Toda a vibração dos minutos iniciais da partida reduzida a uma pobre cinza de fogo apagado. (Disponível em http://www.unesp.br/aci/jornal/206/memoria.php)

O goleiro Barbosa, negro, foi considerado um dos maiores culpados pela derrota, reavivando a discussão sobre a integração racial no esporte. O abalo após o insucesso foi tamanho que jornalistas como Mario Filho buscavam consolar a população destacando o sucesso da organização do torneio. Outra consequência do resultado, ainda que indireta, foi o retorno de Getúlio Vargas52 ao Palácio do Catete, então sede do poder Executivo, fruto do descontentamento popular com Dutra.

A derrota, contudo, não abalou o amor do brasileiro pelo futebol. A Seleção retornaria aos gramados somente em 1952, participando pela primeira vez de uma Olimpíada em Helsinque, após vencer os Jogos Pan-Americanos, conquistando o ouro diante do time de juniores do Uruguai, na primeira das incontáveis revanches pelo Maracanazo. O time, com uma média de idade de 19 anos, caiu nas quartas de final do torneio olímpico diante da Alemanha. A equipe vencia a partida por 2 a 1 até o último minuto de jogo, quando ocorreu o empate que forçou a prorrogação. Diante do abalo emocional, o time acabou contabilizando mais dois gols. Três dos jogadores do elenco (Vavá, Humberto Tosi e Zózimo) seriam campeões do mundo em 1958. Diante de outro trauma, a volta ao Maracanã foi mais adiada ainda, acontecendo apenas em 1954. Como efeito dessa derrota, segundo Rubio (2006, p. 115), os holofotes voltaram-se por completo para o atleta Adhemar Ferreira da Silva, que conquistou a segunda medalha de ouro da história do país em Jogos Olímpicos53, no salto triplo.

A camisa amarela, hoje símbolo nacional, foi escolhida em concurso nesse intervalo, em 1953, numa realização em parceria entre a CBD e o jornal Correio da Manhã. Foram enviadas mais de 200 opções, sendo escolhida a proposta de um jovem gaúcho de 18 anos. Ela substituiu o uniforme branco utilizado no Maracanazo, aposentado em definitivo54.

4.2. Enfim campeão do mundo - e por cinco vezes

Foi com o uniforme reserva, na cor azul, que o Brasil superou a Suécia, anfitriã do torneio, na final da Copa do Mundo de 1958, quando conquistou seu primeiro título, numa vitória por 5 a 2 no estádio Rasunda. Os jogadores ficaram preocupados quando ocorreu o sorteio referente uso dos uniformes para a final, já que o amarelo era a cor principal de ambas as equipes, se mostrou favorável aos donos da casa, os dando a prioridade de utilizar a vestimenta principal. Para confortar a equipe brasileira, obrigada a adotar sua segunda opção, relata-se que Paulo Machado de Carvalho55, chefe da delegação, disse que o time seria campeão com a cor do manto de Nossa Senhora de Aparecida, padroeira do país.

Carvalho foi responsável por ajustes significativos na preparação do selecionado brasileiro, com a formação de uma comissão técnica que incluía, de acordo com Carravetta (2012), preparador físico, pedicuro, dentista e psicólogo, além das já habituais presenças de médico, massagista, roupeiro e treinador. Proprietário da TV Record, a primeira emissora a transmitir um jogo de futebol no país, ele traçou com antecedência outros detalhes, como os locais de acomodação na Suécia, permitindo maior tranquilidade ao time.

Antes da Copa, mesmo com a animação de cronistas como Nelson Rodrigues diante do então garoto Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, que havia estreado pelo time principal somente um ano antes, aos dezesseis de idade, o clima de desconfiança era generalizado, no que foi cunhado pelo jornalista como o “complexo de vira-latas” do povo brasileiro, em artigo publicado na revista Manchete Esportiva poucos dias antes da estreia da Seleção no Mundial.

Eis a verdade, amigos: desde 50 que o nosso futebol tem pudor de acreditar em si mesmo. A derrota frente aos uruguaios, na última batalha, ainda faz sofrer, na cara e na alma, qualquer brasileiro. Foi uma humilhação nacional que nada, absolutamente nada, pode curar.

Dizem que tudo passa, mas eu vos digo: menos a dor de cotovelo que nos ficou dos 2x1. E custa crer que um escore tão pequeno possa causar uma dor tão grande. O tempo passou em vão sobre a derrota. [...]

Guardamos, para nós mesmos, qualquer esperança. Só imagino uma coisa: se o Brasil vence na Suécia, e volta campeão do mundo! Ah, a fé que escondemos, a fé que negamos, rebentaria todas as comportas e 60 milhões de brasileiros iam acabar no hospício. [...]

Só uma coisa nos atrapalha e, por vezes, invalida as nossas qualidades. Quero aludir ao que eu poderia chamar de “complexo de vira-latas”. Estou a imaginar o espanto do leitor: “O que vem a ser isso?”. Eu explico.

Por “complexo de vira-latas”, eu entendo a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol. [...]

Eu vos digo: o problema do escrete não é mais de futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo. O brasileiro precisa se convencer que não é um vira-latas e que tem futebol para dar e vender, lá na Suécia. Uma vez que se convença disso, ponham-no para correr em campo e ele precisará de dez para segurar, como o chinês da anedota. Insisto: para o escrete, ser ou não ser vira-latas, eis a questão. (Disponível em http://www.ufrgs.br/cdrom/rodrigues03/rodrigues3.pdf)

A conquista do primeiro título mundial do futebol brasileiro, com gols marcados por Vavá (2), Pelé (2) e Zagallo, ao menos diminuiu o vira-latismo na época. Todavia, o país pode assistir aos lances somente com atraso de dois dias pela TV Tupi através de filmes, devido a inexistência dos videoteipes. Mas ouviu as partidas no pool formado pelas rádios Bandeirantes, Continental, Panamericana, Nacional e as integrantes da rede dos Diários Associados. Em simultâneo, a imprensa escrita batia recordes. No dia seguinte ao título, a Gazeta Esportiva vendeu mais de 400 mil exemplares. Os campeões foram recepcionados com festa em diversas escalas realizadas no país, onde eram saudados pelo povo no trajeto entre os aeroportos e as homenagens oficiais.

Após a vitória, o futebol brasileiro conquistou um espaço significativo diante do mundo, com equipes como o Santos de Pelé excursionando ao redor do planeta. O presidente Juscelino Kubitschek56, no terceiro ano de seu mandato, também explorou ao máximo o triunfo. Ele assistiu a final acompanhado de familiares dos jogadores e depois chegou a beber champanhe na taça Jules Rimet.

Em 1962, a Copa do Mundo voltou ao solo sul-americano, e o Brasil foi bicampeão do torneio, mantendo praticamente a base de quatro anos antes, tendo para Antunes (2004, p. 229) a obrigação de “provar, de novo, que era o melhor para reafirmar-se moralmente”. Pelé se contundiu na segunda partida, deixando para Garrincha o papel de craque da edição. Os gols do 3 a 1 na final sobre a Tchecoslováquia, porém, vieram de Amarildo, Zito e Vavá. Dessa vez, além da Tupi, a transmissão contou ainda com a TV Record. Ambas conseguiram melhores condições técnicas graças a um acordo com a rede mexicana Televisa.

Ao retornar, a Seleção foi recebida na recém-inaugurada Brasília pelo presidente João Goulart. Jango, como era chamado, há havia sido zagueiro nas categorias de base do Internacional de Porto Alegre. A sua nova cidade no Planalto Central ainda não era plenamente habitada na época, porém diversos moradores de Goiás vieram receber os campeões, que desfilaram em carro aberto pelo Eixo Monumental, formando uma multidão estimada em torno de 50 mil pessoas, que de acordo com os relatos da Folha de S. Paulo chegou a invadir os jardins do Palácio da Alvorada.

Pelé, mesmo sem participar da decisão da Copa, seguiu brilhando durante o período57, com conquistas consecutivas junto ao seu clube, o Santos, da Taça Brasil, embrião do atual Campeonato Brasileiro, e mesmo do Mundial de Clubes. Já Garrincha não manteve o sucesso, tendo sua carreira abalada por problemas pessoais, como o alcoolismo.

Ambos, contudo, eram tidos como essenciais para o tricampeonato, que não veio em 1966, na Inglaterra. Com o Brasil já diante do golpe militar58, questões políticas ganharam peso na preparação, dificultando a formação de um time fixo diante de inúmeras convocações para agradar forças locais. A falta de um esquema coletivo permitia que os adversários pudessem facilmente anular Pelé. Diante desse quadro, o Brasil ficou somente em 11º lugar, sua segunda pior colocação na história dos Mundiais.

O mau resultado sucedia uma participação olímpica também aquém das expectativas nos Jogos de Tóquio, em 1964, com uma eliminação ainda na primeira fase, em que pese a proibição da presença de jogadores profissionais no torneio olímpico.

Nos Jogos Olímpicos, o desempenho do futebol dos países comunistas foi arrebatador, ao conquistar todas as medalhas de ouro entre 1952 a 1980. Isso porque, nessa época, não eram permitidos jogadores profissionais, restando às equipes convocarem jogadores amadores. Porém, atletas do bloco oriental eram contratados do governo, como se fossem patrocinados e não profissionais. Com isso, equipes do Leste Europeu iam às Olimpíadas com força máxima, diferentemente dos países ocidentais. (VIDIGAL, 2014, p. 21)

Para a Copa do México, em 1970, a Seleção saiu novamente envolta em desconfiança da população. Na época, o governo militar de Emílio Garrastazu Médici vivia o auge da repressão, o que levou uma parcela dos intelectuais de esquerda a propor o boicote ao time, considerando que os entusiastas da equipe estariam de certa forma prestando apoio ao regime. A ideia não encontrou eco na população, que diante do registro de pleno emprego do período, manifestava apoio ao presidente. O técnico João Saldanha, um notório comentarista esportivo, porém até então com pouco currículo como treinador, era mais questionado que o general na época anterior ao torneio.

Saldanha foi contratado pela CBD, chefiada por João Havelange59, um ano antes do Mundial, não só pelo seu conhecimento de futebol, mas também como uma forma de silenciar as críticas que fazia em sua atividade midiática. Notório militante comunista, ele adotou o pragmatismo, focando exclusivamente em administrar a Seleção durante sua passagem pelo cargo, em que alternou durante a preparação um bom desempenho nas Eliminatórias e insucessos em partidas amistosas.

O treinador, porém, não admitiu a interferência de Médici na convocação, sendo demitido somente três meses antes da Copa, ao negar o chamado ao atacante Dadá Maravilha. De acordo com Guterman (2009, p. 169), ele destacou na entrevista coletiva em que falou sobre a sua saída um diálogo em que teria dito ao presidente que “o senhor escala seu ministério e eu escalo o meu time”. O líder do país era um real fã de futebol, não acompanhando a Seleção somente por questões políticas. Na juventude, por exemplo, chegou a atuar como atacante do Grêmio de Bagé, sua cidade-natal.

Quem assumiu o comando do time às vésperas do Mundial foi Mário Jorge Lobo Zagallo, vitorioso como jogador em 1958 e 1962. Aposentado em 1966, ele prontamente iniciou uma carreira como treinador de juvenis no Botafogo. Na Seleção, passou a convocar Dadá, como era vontade do presidente, apesar de negar em entrevistas ao longo de toda a sua vida que o tenha feito por pressão.

Na Copa, entre telegramas e telefonemas de Médici, a equipe avançou de forma convincente até as semifinais, quando pela primeira vez desde o Maracanazo reencontrou o Uruguai no principal torneio de futebol do mundo. Os campeões de 1950 vinham em franca decadência, inversamente proporcional à ascensão brasileira com seus dois títulos conquistados depois do último confronto entre os países por Mundiais. O Brasil venceu de virada, por 3 a 1, se credenciando a disputar a final diante dos italianos no estádio Azteca.

O governo se aproveitava do clima de união resultante do sucesso da equipe. Pela primeira vez, grandes aglomerações se formavam em cidades como São Paulo para que os torcedores acompanhassem juntos os jogos. Até mesmo a música, com a marchinha Pra Frente Brasil60, era utilizada como forma de persuasão.

♫ Noventa milhões em ação / Pra frente Brasil, no meu coração / Todos juntos, vamos pra frente Brasil / Salve a Seleção! / De repente é aquela corrente pra frente / Parece que todo o Brasil deu as mãos! / Todos ligados na mesma emoção / Tudo é um só coração / Todos juntos, vamos pra frente Brasil / Salve a Seleção! ♫

A Itália, adversária do Brasil na decisão, se tornou finalista depois de um tenso confronto contra a Alemanha, marcado como um dos maiores jogos da história das Copas. Os alemães, que já vinham de uma disputa com tempo extra nas quartas de final contra a Inglaterra, então campeã, entraram em desvantagem física. Sofreram o gol aos oito minutos do primeiro tempo, porém conseguiram o empate aos 47 da segunda etapa, forçando uma nova prorrogação. Sob o calor mexicano, seguiram-se trinta dos mais intensos minutos já vistos em Mundiais. Entre reviravoltas no placar, o marcador final apontou 4 a 3 para os italianos.

Dessa forma, o derradeiro confronto daquela Copa se deu entre duas bicampeãs, assim garantindo ao vencedor da decisão a posse definitiva da taça Jules Rimet. Foi a primeira vez na história em que dois campeões se encontraram numa decisão de Mundial, feito acompanhado por mais de 100 mil torcedores na Cidade do México. A população mexicana, encantada com o futebol brasileiro desde os treinamentos, em grande parte devotava torcida a favor da Seleção, o que se reforçou com eliminação do time local pela Itália nas quartas de final. Pelé, Gérson, Jairzinho e Carlos Alberto Torres corresponderam ao esperado pelo público, goleando os europeus por 4 a 1. Essa equipe foi eleita em enquetes da BBC61 e da revista World Soccer62 como a melhor de todos os tempos entre todos os esportes e países.

Na capa da Folha de S. Paulo no dia seguinte ao título, a constatação de como o triunfo fez bem aos planos presidenciais. A manchete destacava o time, enquanto os três tópicos inferiores faziam relação direta com a política, frisando também a decretação de feriado nas repartições federais de Brasília e do Rio de Janeiro para a recepção aos campeões. Sob a chamada “Médici participa do entusiasmo do povo”, foi reproduzida uma declaração oficial do presidente.

Na hora em que a Seleção nacional de futebol conquista definitivamente a Copa do Mundo, após memorável campanha, na qual só enfrentou e venceu adversários do mais alto valor, desejo que todos vejam, no presidente da República, um brasileiro igual a todos os brasileiros.

Como um homem comum, como um brasileiro que, acima de todas as coisas, tem um imenso amor ao Brasil e uma crença inabalável neste país e neste povo, sinto-me profundamente feliz, pois nenhuma alegria é maior no meu coração que a alegria de ver a felicidade do nosso povo, no sentimento da mais pura exaltação patriótica. [...]

Nesse momento de vitória, trago ao povo minha homenagem, identificando-me todo com a alegria e a emoção de todas as ruas, para festejar, em nossa incomparável seleção de futebol, a própria afirmação do valor do homem brasileiro. (Disponível em http://www.biblioteca.presidencia.gov.br/presidencia/ex-presidentes/emilio-medici/discursos/1970/16)

O jornal relata que o presidente chegou a descer a rampa do Palácio do Planalto enrolado na bandeira nacional logo após a conquista, fazendo inclusive embaixadinhas. Ao falar por telefone com Pelé, o chamou de “imperador terceiro do Brasil”. Todos os jogadores ganharam 25 mil cruzeiros da Caixa Econômica Federal, o que hoje equivale a cerca de nove mil reais.

Com o poder do futebol evidenciado, o governo não tardou em pedir à CBD para que criasse uma disputa coincidente com seu plano de integração nacional, já que a maior disputa da época, o torneio Roberto Gomes Pedrosa, abarcava apenas os times das regiões Sul e Sudeste, excetuando-se o Espírito Santo. Assim, em 1971 surgia pela primeira vez o Campeonato Brasileiro, com 20 times na disputa, que foi sofrendo um progressivo inchaço motivado por questões políticas, beirando a presença de 100 equipes no final da década. A popularização dos clubes pelo país, entretanto, não coincidia com uma boa fase da Seleção, que ficou sem Pelé a partir de 1971, quando ele se aposentou da equipe em um amistoso contra os iugoslavos aos gritos de “fica, fica, fica” de 138 mil torcedores no Maracanã, segundo o jornal O Globo.

Para a Copa de 1974, Zagallo seguiu como técnico, enquanto o comando do país já havia passado ao general Ernesto Geisel, menos afeito ao futebol. O time manteve parte da base de 1970, que já envelhecida não conseguiu ir além do quarto lugar, mesma posição conseguida na Olimpíada de Helsinque, em 1976.

No Mundial de 1978, a ditadura mais decisiva foi a da Argentina, sede do torneio. O formato da competição diferia do atual, com somente a final sendo disputada como um verdadeiro mata-mata. Naquela ocasião, quem avançava da fase inicial se dividia em dois novos grupos, cujo líderes formariam o confronto decisivo pelo título. Brasil, Argentina, Peru e Polônia ficaram no mesmo grupo. Os gigantes sul-americanos venceram seus primeiros jogos e empataram no confronto direto, chegando igualados em pontuação na última rodada. As partidas finais, porém, não eram em horário coincidente. A Seleção jogou primeiro, vencendo a Polônia por 3 a 1, e conseguindo cinco gols de saldo acumulado. Entrando em campo somente três horas depois e sabendo exatamente do que precisava para avançar à final, os argentinos conseguiram aplicar 6 a 0 no Peru, que até então fazia razoável campanha, com vitórias sobre a Escócia e o Irã, e derrotas por placares bem menos elásticos, como o 3 a 0 sofrido diante do Brasil. A Argentina acabou campeã pela primeira vez superando a Holanda em partida no estádio Monumental de Buenos Aires, enquanto o Brasil, diante da estranha coincidência e por ser o único time invicto na competição, se proclamou “campeão moral”.

Na década seguinte, reforçando o papel cada vez maior dos clubes no cotidiano da sociedade, as duas equipes com mais torcedores no país foram marcantes para o futebol nacional não somente pelo gigantismo dos seus aficionados.

O Flamengo consolidou no futebol brasileiro o primeiro atleta após Pelé a ser comparado ao até hoje único jogador tricampeão mundial63, como se tornaria hábito com as revelações do esporte no país nas décadas seguintes. Arthur Antunes Coimbra, o Zico, foi também o primeiro craque de alto nível em gramados nacionais a ser desenvolvido de acordo com os preceitos mais modernos do futebol europeu. O garoto inicialmente franzino se desenvolveu fisicamente no clube, sendo o líder de uma série de conquistas da equipe, iniciadas pelo Campeonato Carioca em 1978, título que se repetiu nos dois anos seguintes. Em 1980, com coadjuvantes como Júnior e Leandro, a conquista foi nacional, sendo o ano posterior marcado pela glória de vencer a Taça Libertadores da América e o Mundial de Clubes, título ganho sobre os ingleses do Liverpool, com gols de Nunes e Adílio na decisão vencida por 3 a 0, representando o retorno do Brasil ao topo do futebol mundial, como foi percebido na festa popular nas ruas do Rio de Janeiro, narrada pelo jornal O Globo como um “Carnaval na madrugada”, devido ao fuso horário, já que o jogo foi realizado em Tóquio, no Japão. O presidente João Batista Figueiredo também se pronunciou sobre o triunfo, que, segundo a Folha de S. Paulo, foi mais comemorado na capital fluminense que o título da Seleção em 1970.

Juntamente com a torcida brasileira, acompanhei com entusiasmo a partida na qual o Flamengo representou, com brilho invulgar, o talento e a maestria dos milhares de jogadores brasileiros de futebol. [...]

Os meus mais efusivos parabéns pela merecida vitória, que traz para os brasileiros o campeonato mundial de clubes.

Já o Corinthians vivia uma fase sem grandes conquistas em campo, porém de extremo significado graças ao modelo proposto pelos jogadores, liderados por Sócrates, para a administração da equipe, com atletas, comissão técnica e dirigentes tendo votos de peso igual nas decisões do clube. O publicitário Washington Olivetto, diretor do time, capitaneou a ideia, batizando o movimento como Democracia Corintiana. O clube chegou a entrar em campo com faixas trazendo textos de incentivo ao regime democrático. Ao também utilizar a camisa para as mensagens políticas, o time ainda abriu espaço para a futura comercialização do espaço, de maneira já feita em outras modalidades, como o vôlei.

Com Sócrates e Zico, além de outros jogadores como Falcão e Toninho Cerezo, a Seleção foi ao Mundial de 1982, na Espanha, contando com um grande otimismo da torcida. Treinado por Telê Santana64, o time era tido como favorito para a conquista do tetracampeonato, impressão reforçada após vencer a Argentina, num 3 a 1 marcado pela expulsão da então promessa Diego Maradona. Na partida seguinte, bastava o empate diante da Itália para avançar às semifinais, em um dos mais tradicionais clássicos das Copas, que já havia ocorrido também na decisão de terceiro lugar da edição anterior do torneio, em jogo vencido pelo Brasil.

Paolo Rossi, que retornava ao futebol após dois anos de suspensão motivados por um escândalo de combinação de resultados, marcou os três gols italianos na vitória por 3 a 2 diante da Seleção, num jogo que ficou marcado como a “tragédia do Sarriá”. O apelido foi uma referência ao estádio onde aconteceu a partida, que alterou os rumos do futebol mundial, com o pragmatismo dos resultados dos que saíram vencedores daquela edição da competição, donos de um estilo defensivo que buscava anular a habilidade dos adversários, influenciando as décadas seguintes, em detrimento ao espetáculo do chamado futebol-arte brasileiro. Falcão (2012) relata no livro Brasil 82 - o time que perdeu a Copa e conquistou o mundo que os italianos se mostraram de certa forma até constrangidos com o resultado. Além da vitória no confronto direto entre os times, o consequente título da Itália ainda rendeu outro incômodo ao Brasil, que deixou de ser o único tricampeão mundial. Em sua reação, o presidente Figueiredo finalizou o telegrama direcionado aos jogadores de forma lacônica: “Ânimo forte. Outras Copas virão”.

O desastre no estádio Sarriá, como relatado pela mídia esportiva nos dias seguintes à peleja, acentuou a percepção de crise por que o país passava. A abertura democrática começava a ser ensaiada, com o voto direto da população passando a eleger os governadores dos estados. Diante da insatisfação com o regime militar, as urnas, que contaram com uma participação massiva dos eleitores, elegeram opositores em unidades da federação importantes, como Leonel Brizola no Rio de Janeiro e Tancredo Neves em Minas Gerais.

No ano seguinte, os clubes seguiram se destacando no crescimento do futebol no Brasil. O Flamengo já era tricampeão nacional, marcando uma supremacia naquele começo de década, e o Grêmio superou por 2 a 1 os alemães do Hamburgo na decisão do Mundial de Clubes. Mas o esporte no país sofreu também duros baques. Um deles foi a perda da taça Jules Rimet, que era guardada sem maiores cuidados na sede da então já CBF, no Centro do Rio de Janeiro. Pesando quase quatro quilos de ouro, a taça possuía um valor inestimável para a população, que acompanhou por semanas as investigações da Polícia Federal sobre o caso, repercutido de forma ampla também na imprensa internacional. Ela jamais foi recuperada e o roubo, que entrou no imaginário popular, chegou a ser reconstituído décadas depois pelo programa Linha Direta, da TV Globo.

O crime foi planejado pelo representante do Atlético Mineiro na CBF, Sérgio Pereira Ayres, o Sérgio Peralta. Ele era assíduo frequentador do prédio da entidade e sabia que a taça Jules Rimet original estava exposta numa vitrine, com vidro à prova de balas, mas amparado por uma moldura de madeira, pregada na parede. Enquanto isso, inexplicavelmente, uma réplica do troféu era mantida, em segurança, no cofre. Peralta arregimentou os comparsas no Bairro do Santo Cristo, zona portuária do Rio, onde morava. Na noite de 19 de dezembro de 1983, o ex-policial Francisco José Rocha Rivera, o Chico Barbudo, e o decorador José Luiz Vieira da Silva, o Luiz Bigode, dominaram com facilidade o único vigia do prédio, arrombaram a moldura, provavelmente com uma chave de fenda, e removeram o vidro inquebrável. Além da Jules Rimet, outras três taças foram levadas. O crime só foi desvendado por causa do ladrão Antonio Setta, conhecido como Broa, considerado pela polícia o melhor arrombador de cofres do Rio de Janeiro. Ele tinha sido convidado por Sérgio Peralta, para cometer o crime, mas recusou por razões sentimentais. A polícia descobriu que a taça foi comprada e derretida em seguida pelo comerciante de ouro Juan Carlos Hernandez, um argentino que vivia no Brasil desde 1973. No decorrer do processo, o ouro apreendido com os acusados, que seria o resultado do derretimento da taça, foi roubado pela polícia. A sentença só veio em 1988. Peralta, Barbudo e Bigode foram condenados a nove anos de cadeia. (Linha Direta. TV Globo. 1 de junho de 2006. Disponível em http://redeglobo.globo.com/Linhadireta/0,26665,GIJ0-5257-228151,00.html)

Outra perda sentida pelos brasileiros em 1983 foi a de Garrincha, o principal jogador do título de 1962, que tinha apenas 49 anos. Apelidado como “alegria do povo”, o craque sofria com a dependência do álcool, chegando a ser internado por seis vezes nos anos antecedentes ao falecimento. No Jornal Nacional, Sérgio Chapelin destacou a comoção com o óbito: “a morte de Mané Garrincha está em grandes manchetes, grandes como as emoções que ele desperta”. O velório, realizado no Maracanã, formou extensas filas ao redor do estádio. Em Pau Grande, sua cidade-natal, onde o corpo foi enterrado, a Folha de S. Paulo reportou que gritos de “ei, Garrincha é nosso rei” foram ouvidos durante o sepultamento, em referência à ausência de Pelé nos funerais.

Após uma nova retração acentuada do PIB, evidenciando a tendência daquela que seria considerada a “década perdida”, o ano seguinte marcou o fortalecimento da campanha por eleições diretas também para a Presidência da República, aclamada pela população como as Diretas Já. Os atletas não se engajaram de forma maciça como outros setores da sociedade, destacando-se mais a imprensa esportiva. Segundo Guterman (2009), Osmar Santos, um dos principais narradores do país, apresentou diversos comícios do movimento em São Paulo. A emenda não avançou de imediato no colégio eleitoral, mas obteve um apoio expressivo.

Em 1985, mesmo com a eleição sendo indireta, a escolha dos congressistas por Tancredo Neves como o primeiro presidente civil do país foi comemorada entre a população, com uma celebração que fazia lembrar na ocasião os festejos nos períodos de Copas de Mundo, de acordo com os registros dos jornalistas. Ele, porém, nem chegou a ser empossado no cargo, vítima de uma infecção intestinal que o internou no dia anterior ao da posse, numa agonia compartilhada com o Brasil por semanas, até o falecimento em 21 de abril. Assim, foi sob o comando de José Sarney, eleito como vice de Tancredo, que o país acompanhou o Mundial de 1986, iniciado em 31 de maio.

O nacionalismo dos tempos de regime militar já estava em queda também no futebol, com os principais jogadores da América do Sul, incluindo os brasileiros, atuando na Europa em variados momentos da década. A Itália era o principal mercado da época, recebendo craques como Zico, na Udinese65, diante de uma grande festa por toda a região, relatada por Nunes (2006, p. 199), e Falcão, na Roma. Na Copa, a equipe novamente treinada por Telê Santana, marcada pela experiência anterior, não jogava mais para encantar, mas para vencer. E o fez com relativa facilidade na fase de grupo e nas oitavas de final. Nas quartas, porém, diante de uma França ainda pouco tradicional, o empate em 1 a 1, e a subsequente eliminação nos pênaltis.

Dois anos antes, na Olimpíada de Los Angeles, o Brasil já havia perdido justamente para os franceses na final do futebol, subindo pela primeira vez ao pódio no torneio com a conquista da prata. O time de vôlei masculino, que havia conseguido lotar o Maracanã em partida amistosa contra os soviéticos em 1983, também ficou em segundo lugar nos Jogos, sendo de Joaquim Cruz, nos 800 metros rasos, o único ouro brasileiro.

Em 1988, o torneio olímpico de futebol de Seul trouxe uma nova prata ao futebol, dessa vez com a derrota diante da União Soviética, em partida decidida por 2 a 1 na prorrogação. Mais uma vez, o país conquistou apenas um ouro, o de Aurélio Miguel no judô.

Na Copa de 1990, contudo, a chegada à decisão ficou distante do time brasileiro, eliminado pela Argentina, que seria vice-campeã em final contra a Alemanha, ainda nas oitavas de final. O time treinado por Sebastião Lazaroni não era o único alvo de protestos na época, com o governo de Fernando Collor, o primeiro presidente eleito de forma direta após a ditadura militar, também envolto em uma série de notícias negativas, tanto pelos maus resultados da economia, como por escândalos de corrupção. Em 1992, ele acabaria sendo alvo de impeachment. Nesse ano, a Seleção nem mesmo se classificou para disputar o futebol na Olimpíada de Barcelona, marcada pelo primeiro ouro do país em esportes coletivos, o do vôlei masculino.

A Seleção de futebol, por sua vez, vivia uma profunda crise, com o time correndo pela primeira vez o risco de não se classificar para o Mundial. Romário, o principal jogador do país na época, não era convocado por causa de uma briga com o treinador Carlos Alberto Parreira. Diante da possibilidade de ficar fora da Copa, porém, o presidente da CBF Ricardo Teixeira forçou o chamado do então atleta do Barcelona, que marcou os dois gols na vitória diante do Uruguai dentro do Maracanã no duelo decisivo das Eliminatórias, num contexto descrito pelo próprio Baixinho, como foi apelidado o hoje senador, em depoimento ao jornal O Estado de S. Paulo, como o ponto de virada do elenco para o tetracampeonato.

Eu estava meio fora da Seleção desde 1992, quando tive um problema com o Zagallo e também com o Parreira num amistoso contra a Alemanha. Depois daquilo, eles me esqueceram e nunca mais fui chamado. Até teve gente que falou na época que eu não queria mais ser convocado para a Seleção porque não tinha aceitado ficar no banco, mas isso é mentira.

Na verdade, fiquei irritado por ter ido para o banco contra a Alemanha, mas não pedi para não ser mais chamado. Foram eles que não me quiseram mais lá.

Mas eu tenho certeza de que se o Brasil tivesse vencido o jogo contra o Uruguai sem mim, eu não iria para a Copa dos Estados Unidos e talvez nunca mais voltasse para a Seleção. Ocorre que eles precisaram de mim. Eu sabia que era um jogo em que eles não tinham outra opção e que eu era a última esperança. Só que quem me convocou mesmo foi o Ricardo Teixeira. Descobri isso depois.

Então, até por isso, tinha uma responsabilidade maior do que os outros atletas. O chefe me botou lá, né? O engraçado é que mesmo assim eu me preparei como se fosse um jogo qualquer. [...]

O Maracanã estava lotado, com mais de 100 mil torcedores, mas eu estava tranquilão. Sabia que ia fazer coisas diferentes naquele jogo. Logo nos primeiros minutos, percebi que ia matar a pau. [...]

No segundo tempo, a bola ia entrar. Sabia disso. E foi o que aconteceu. No meu primeiro gol, eu fui esperto. O Jorginho lançou na direita para o Bebeto. Enquanto ele corria pela lateral, eu fui para a área e tentei me posicionar em um espaço onde ninguém estava me marcando. [...]

No segundo, eu acabei marcando um golaço, um dos mais bonitos da minha carreira, mas a jogada que eu queria fazer não era bem aquela. Foi coisa de momento o que fiz. [...]

Por tudo que aconteceu antes e durante aquele jogo, quando acabou, eu fui para o vestiário tendo a certeza de que a gente estava começando a ganhar a Copa do Mundo. O sentimento era de dever cumprido pela vitória e porque as pessoas começaram a acreditar naquilo que eu falava. (Disponível em http://infograficos.estadao.com.br/jogo_da_minha_vida/romario)

Em 1994, um país sem tradição no futebol recebeu a Copa do Mundo pela primeira vez na história. A escolha dos Estados Unidos como sede do torneio foi motivada por questões comerciais, que então já influenciavam o futebol de forma ampla, inclusive internamente, com a participação cada vez maior da televisão nos rumos do esporte.

Não é exagero dizer que a televisão mudou o futebol. Com as novíssimas tecnologias de transmissão, possibilitando a generalização dos jogos ao vivo (inclusive intercontinentais) e enormes audiências, o que implica em gordas receitas publicitárias, não surpreende que as emissoras tenham investido pesado no futebol. O futebol virou um espetáculo em muito para a televisão. Não por acaso, as emissoras conseguem influenciar na formatação do espetáculo esportivo, a exemplo de os horários mais esdrúxulos para a transmissão dos jogos, não se preocupando se isso vai influenciar na qualidade da partida, trará algum prejuízo à saúde dos jogadores/torcedores ou fará reduzir o público nos estádios. [...] (FARIAS, 2014, p. 148)

Os anfitriões de 1994 cruzaram o destino da Seleção nas oitavas de final, realizadas em um 4 de julho, dia da Independência norte-americana, sendo eliminados pelo magro placar de 1 a 0, suficiente para uma equipe que mantinha a essência do futebol de resultados.

Treze dias depois, os italianos encontraram os brasileiros na final. Tal como em 1970, o vencedor do jogo se tornaria isoladamente o maior campeão da história das Copas. O Rose Bowl seria palco da festa de um tetracampeão independentemente do resultado, que nos primeiros 120 minutos de bola rolando foi um empate em 0 a 0, motivado em grande parte pela inspiração dos goleiros Taffarel e Pagliuca. Na primeira decisão de Mundial resolvida nas penalidades máximas, o arqueiro brasileiro triunfou, defendendo o chute de Massaro e contando com a sorte para assistir as bolas disparadas por Baresi e Roberto Baggio irem para fora. Após 24 anos de jejum, toda uma geração comemorou a conquista como se fosse a primeira. Pedro Bial, ex-apresentador do Fantástico, define a edição daquele domingo como “uma das mais arrebatadoras da história” do programa66. O dominical foi aberto por Sandra Annenberg e Cláudia Cruz67, que fizeram uma retrospectiva dos fracassos anteriores, entre o tri e o tetracampeonato.

O domingo do tetra foi um dia que demorou vinte anos para chegar e jamais será esquecido. Em 74, foi a Holanda que atrapalhou tudo. Em 78, o Brasil caiu numa armadilha da tabela da Copa. Em 82, quem não se lembra, foram aqueles três gols do italiano Paolo Rossi numa tarde de Sol em Barcelona. Em 86, o drama de tantos pênaltis perdidos contra a França. Em 90, aquele passe de cinema de Maradona. Mas hoje, hoje foi o dia do brasileiro lavar a alma, depois de 120 minutos de sofrimento. Nesse 17 de julho, cada brasileiro se sentiu como se tivesse entrado em campo na Califórnia. Cada brasileiro sofreu como se fosse o goleiro na hora do pênalti. Cada brasileiro pode finalmente soltar o grito preso na garganta há 24 anos: eu sou tetracampeão! A taça do mundo é nossa! Uma vitória que todos os jogadores dedicaram ao campeão Ayrton Senna. (Fantástico. TV Globo. 17 de julho de 1994. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=yf6QsNvMrNA)

Exatos onze domingos antes da conquista do tetracampeonato, o país havia sido paralisado pela morte de Ayrton Senna da Silva, o ídolo brasileiro mais celebrado no universo esportivo. Após bater forte na curva Tamburello, durante o Grande Prêmio de San Marino68, o piloto sofreu um profundo dano cerebral, sendo declarado morto horas depois. Pelo país inteiro, os estádios de futebol, lotados naquele 1º de maio, e já habituados aos conflitos mais acirrados entre torcidas, silenciaram. No Morumbi, que recebeu o confronto entre o São Paulo e o Palmeiras, os fãs das duas equipes se uniram para homenagear o ídolo declaradamente torcedor do Corinthians. No Maracanã, mais de 100 mil flamenguistas e vascaínos também se juntaram nos gritos de “olê, olê, olá, Senna, Senna”. Dias depois, o cortejo do caixão entre o aeroporto de Guarulhos e a Assembleia Legislativa de São Paulo reuniu 300 mil pessoas.

Ayrton era um aficionado por futebol. Duas semanas antes do acidente fatal, deu o pontapé inicial para um amistoso entre a Seleção e um combinado dos times franceses do Paris Saint-Germain e Bordeaux. O piloto chegou a brincar que também mirava o tetra, já que havia vencido por três vezes o campeonato mundial de Fórmula 1. Mesmo com a partida sendo na França, terra de Alain Prost, seu grande rival nas pistas, ele foi aplaudido pelo estádio inteiro. Após a final da Copa do Mundo, os jogadores carregaram uma faixa com a frase “Senna... Aceleramos juntos, o tetra é nosso!” ainda no gramado do Rose Bowl. Ao longo de todo o Mundial, torcedores brasileiros já levavam cartazes com menções à Senna para as arquibancadas.

No ciclo seguinte, o auxiliar técnico Zagallo foi novamente efetivado como treinador após a saída de Parreira. Sem Romário, o ainda jovem Ronaldo despontava como maior craque da nova geração para a Copa da França, em 1998, sendo para Caldeira (2002, p. 220) “peça fundamental do time”. A atuação do jogador na final daquele Mundial, contudo, é um dos episódios mais controversos da história do futebol brasileiro. O atacante supostamente teve uma convulsão horas antes do jogo, mas foi bancado pela comissão técnica, com o aval dos médicos, para entrar em campo. Jogou abaixo da média, como toda a equipe, que foi vencida por 3 a 0 pelos anfitriões, campeões do mundo pela primeira vez.

Já para o comando da Seleção, Vanderlei Luxemburgo foi a opção da CBF após a saída de Zagallo. A passagem do técnico, porém, não foi duradoura, com a demissão sendo fruto da eliminação do Brasil para Camarões nas quartas de final do torneio olímpico de 2000, em Sydney. A saída dos Jogos foi selada pelo placar de 2 a 1, conquistado pelos africanos, que atuavam com dois jogadores a menos, na prorrogação, então adepta do sistema de gol de ouro, em que o primeiro time a conseguir o desempate no tempo extra era o vencedor do jogo. Na Olimpíada anterior, em Atlanta, a queda também ocorreu diante de uma equipe da África, a Nigéria, porém aconteceu somente nas semifinais, e o time ainda conquistou a medalha de bronze.

Ainda em 2000, na final da Copa João Havelange, um acidente marcou a partida de volta entre Vasco e São Caetano, realizada no estádio de São Januário. Cerca de 170 pessoas ficaram feridas após a queda do alambrado69. Para o atendimento aos vitimados, o gramado foi tomado por ambulâncias e helicópteros e o jogo acabou cancelado. Houve um grande abalo de credibilidade dos organizadores da partida por uma das causas do incidente ser o overbooking, com a venda de ingressos em quantidade superior à capacidade das arquibancadas. Em campo, o time carioca passava por um bom momento, tendo sido meses antes vice-campeão mundial, ao perder nos pênaltis para o Corinthians em duelo no Maracanã.

Para conduzir a imagem do futebol brasileiro no novo milênio e garantir a classificação na Copa do Mundo de 2002, a primeira realizada em um continente que não o europeu ou americano, a CBF escolheu Luiz Felipe Scolari, que durante as Eliminatórias formou uma equipe em que priorizava o sentimento de união ao grupo, com o elenco acabando conhecido como a “família Scolari”. Felipão, como ficou mais notabilizado, levou o time a passar sem percalços por adversários menos conhecidos, até que a Inglaterra surgiu como a rival nas quartas de final. Os inventores do futebol foram superados por 2 a 1, com os gols brasileiros oriundos dos pés de Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo, que junto de Ronaldo, então recém-recuperado de uma grave lesão, formaram um trio de “erres” que encantou o país. Graças ao fuso horário, diversos jogos aconteciam durante a madrugada, quebrando o hábito de reunião das pessoas, e assim proporcionando índices de audiência gigantescos mesmo para o padrão de uma Copa. Na ocasião, a TV Globo, foi a única detentora dos direitos de transmissão em rede aberta70.

Da Copa de 2002, o jogo inesquecível foi aquele em que cometi uma pequena loucura – Brasil e Inglaterra, quartas de final. No horário brasileiro, a partida começava às três horas da madrugada. Foi talvez a única vez na televisão que uma transmissão deu cem por cento de share, 63 pontos de audiência, e a concorrência, zero – traço, como se diz na linguagem de TV. Emanuel Castro gritava no meu ouvido: “Ô maluco, os outros estão dando traço, vamos fazer história!”. O helicóptero da Globo começou a sobrevoar São Paulo e eu pedi que as pessoas apagassem e acendessem as luzes de casa. Coisa de maluco. Já pensou a vergonha se ninguém acendesse e apagasse a luz? De repente, a câmera aberta lá de cima, e milhares e milhares de casas no bairro da Casa Verde e ao redor, perto da marginal do Tietê, apagando e acendendo as luzes, uma loucura. Esse é o poder da Seleção Brasileira e da Rede Globo. (BUENO, 2015, p. 43)

Os números reforçam a prática quadrienal do brasileiro em alterar a sua rotina para acompanhar o torneio.

Uma vez a cada quatro anos, o Brasil é um país quieto e vazio. As ruas das cidades, grandes e pequenas, calam seus muitos decibéis de buzinas e motores, os pedestres apressados desaparecem. Os vendedores ambulantes, sem compradores, somem das ruas. Portas metálicas fecham as entradas de lojas e bancos. Apenas alguns ônibus, cumprindo sua obrigação, percorrem seus itinerários em vão. Andando pelas ruas desertas, ouve-se o vento do inverno tropical soprar folhetos de propaganda, decorados com bolas de futebol e bandeiras brasileiras, anunciando as ofertas de ocasião. Olhando para o alto, as fachadas desertas de edifícios de apartamentos exibem para ninguém sua decoração feita de bandeiras nacionais e grandes faixas de pano verde e amarelo tocadas pelo vento indiferente.

De modo difuso, parece vir de todos os apartamentos, casas, escritórios e bares, uma textura indistinta feita das vozes metálicas de diversos locutores esportivos, nos rádios e televisores ligados, transmitindo um único evento, falando de uma bola e dos jogadores que a conduzem, vestindo uniformes com as cores da bandeira nacional. [...] Em frente a cada televisor ou rádio ligados, um grupo de brasileiros escuta, calado, tenso, em transe, à espera do desenlace dos fatos do jogo. [...]

Uma Copa do Mundo representa para os brasileiros o verdadeiro momento ritual de celebrar a nacionalidade. [...] (GASTALDO, 2002, p. 19-20)

Após superar a Turquia na semifinal, a Seleção se viu diante da Alemanha, que buscava igualar-se como tetracampeã, na decisão do Mundial de 2002. Ronaldo, quatro anos antes o símbolo da derrota, dessa vez converteu os dois gols da partida, que marcou a conquista do pentacampeonato, condição até hoje alcançada somente pelo Brasil. Foi a primeira vez desde 1986 em que o time campeão não passou por nenhuma prorrogação ao longo do torneio. O feito foi celebrado por meio milhão de pessoas nas ruas de Brasília no retorno da equipe ao país, como destacou reportagem da capa do caderno especial da Folha de S. Paulo em 3 de julho de 2002.

“Deixa a vida me levar”. Zeca Pagodinho, recurso motivacional na Ásia, foi levado a sério pela Seleção pentacampeã mundial, que desembarcou ontem em Brasília.

Jogadores, dirigentes e até mesmo o técnico Luiz Felipe Scolari deixaram-se levar pela farra em que transformou a maior comemoração popular dos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso.

Cerca de 500 mil pessoas, segundo a Polícia Militar, algo próximo a 25% da população do Distrito Federal, foram às ruas.

O ano de 2002 trouxe ainda o primeiro título mundial do vôlei masculino brasileiro, numa hegemonia que prosseguiria em 2006 e 2010, com a modalidade firmando-se na posição que outrora foi do basquete, como segundo esporte preferido dos brasileiros. Ou primeiro, como na interpretação do ex-jogador Bernard, em que “no Brasil o futebol não é esporte, é religião. Então o vôlei pode ser considerado como o esporte número 1". O time comandado por Bernardinho conquistou ainda a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Atenas 2004 e nos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro 2007, o primeiro de uma série de grandes eventos esportivos sediados pelo Brasil71.

Nos campos, após ficar de fora da Olimpíada na Grécia, o Brasil chegou favorito ao Mundial de 2006, após eliminar os alemães e golear os argentinos um ano antes, quando venceu a Copa das Confederações, torneio preparatório para a Copa do Mundo realizado pela Fifa. A fase brasileira no esporte era boa, com Ronaldinho Gaúcho sendo o melhor jogador do mundo e o São Paulo tendo conquistado o Mundial de Clubes em 2005. A força do talento nos gramados recuperava a imagem do futebol nacional depois da tragédia envolvendo o zagueiro Serginho, do São Caetano, que sofreu uma parada cardiorrespiratória em jogo contra o São Paulo pelo Campeonato Brasileiro de 2004, falecendo no hospital horas depois. O jogador tinha problemas cardíacos detectados por exames e não devia mais exercer o futebol profissionalmente, mas a sua família alega que ele jamais foi comunicado sobre as restrições. Aquele Brasileirão já era disputado em pontos corridos, formato adotado desde 2003, e o jogo foi suspenso aos treze minutos do segundo tempo, quando estava empatado sem gols.

Não havia na época em nenhum modelo uma disputa consolidada do campeonato entre clubes também no futebol feminino, mas as mulheres brasileiras surgiram com destaque na modalidade graças ao bom desempenho da Seleção na Olimpíada de Atenas, onde a equipe conquistou a medalha de prata, que se repetiu em Pequim 2008. Comandado por Marta, melhor jogadora do mundo entre 2006 e 2010, o Brasil ainda foi vice-campeão da Copa do Mundo feminina em 2007, ano em que conquistou o ouro na categoria no Pan do Rio, diante de um Maracanã com quase 70 mil torcedores presentes72. A falta de um grande título global, contudo, foi empecilho para a popularização do futebol feminino no país.

4.3. O Brasil no centro das atenções

Nas Copas de 2006 e 2010, os homens tiveram campanhas de menor expressão se comparados com os feitos recentes do time feminino, sendo eliminados nas quartas de final por França e Holanda, respectivamente. A derrota na África do Sul gerou grande preocupação após o país ter sido eleito em 2007 como sede do Mundial de 2014, numa decisão regulamentar e unânime do Comitê Executivo da Fifa, já que o Brasil chegou ao dia decisivo como candidato único, angariando o apoio dos postulantes anteriores, como Argentina, Chile e Colômbia. Até essa escolha, a federação promovia um rodízio de continentes para a seleção do país-sede da Copa.

Nos dois anos seguintes, dezoito capitais brasileiras travaram um intenso combate político para a definição das subsedes do Mundial. A única opinião unânime era sobre a final no Rio de Janeiro, com o Maracanã tornando-se o segundo estádio do mundo a receber duas decisões de Copa, depois somente do Azteca, no México. O governo primeiramente convenceu a Fifa de que a melhor opção para as dimensões continentais do Brasil era espalhar o torneio por doze cidades, número acima do recomendado pela federação. A quantidade garantiu na lista das escolhidas algumas praças sem times locais presentes nas principais divisões do futebol brasileiro.

Belo Horizonte (Mineirão), Brasília (Estádio Nacional), Cuiabá (Arena Pantanal), Curitiba (Arena da Baixada), Fortaleza (Castelão), Manaus (Arena da Amazônia), Natal (Arena das Dunas), Porto Alegre (Beira-Rio), Recife (Arena Pernambuco), Rio de Janeiro (Maracanã), Salvador (Fonte Nova) e São Paulo (Arena Corinthians) foram as doze anunciadas em 2009, embora nem todas com projetos de estádios definidos até então. A capital paulista, por exemplo, tinha o estádio do Morumbi como escolha mais óbvia, porém o risco de perder o direito de sediar o jogo de abertura levou pela opção de um novo espaço. No mesmo período, Grêmio e Palmeiras também inauguraram arenas próprias de acordo com os preceitos de construção modernos, marcando uma etapa de maior segurança no ambiente futebolístico, evitando acidentes como o ocorrido na Fonte Nova em 2007, quando sete pessoas morreram após o desabamento de parte da arquibancada superior. Porém, antes da finalização dos estádios, durante as obras da Copa, as condições de trabalho nos canteiros foram alvo de questionamentos dos órgãos de fiscalização. Em 2013, dois operários morreram após a queda de uma grua da construção do estádio do Corinthians73.

As obras sofreram sucessivos atrasos, de certo modo disfarçados pelo Comitê Organizador Local com diversos lançamentos inerentes ao gigantismo do Mundial, como o slogan (“Juntos num só ritmo”) em maio de 2012, a bola (brazuca) em setembro e o mascote (Fuleco) em novembro do mesmo ano. Ou seja, todos antecedendo também a Copa das Confederações, torneio para o qual para a preparação teve complicações que o marketing assim tentava desviar, trazendo para as manchetes fatos neutros e positivos em busca de divisão de espaço com as notícias de viés negativo.

O alcance global, o poder de apelo e a adesão magnética fazem do futebol um veículo ideal da mercadoria em seu estado de irradiação onipresente. Mais do que todos os outros fenômenos de massa, o futebol é centrífugo e centrípeto: atinge as bordas mais distantes e reporta-se ciclicamente a ritos centralizados, em escala regional, nacional e mundial. Assim, além de o marketing ter invadido campo, bola, frente e dorso das camisas, calções, chuteiras, placas em torno do gramado, uniformes do juiz e dos bandeirinhas [...], uma elite de jogadores é chamada a se converter em suporte privilegiado. [...] (WISNIK, 2008, p. 351)

A propaganda, vinda das instâncias midiáticas, empresariais e governamentais, todavia, não conseguiu poupar as obras de severos atrasos, que puseram várias sedes sob ameaça. O Maracanã, por exemplo, foi reinaugurado apenas treze dias antes do começo da competição, evento que além do Brasil reuniu também Espanha, Itália, Uruguai, Nigéria, México, Japão e Taiti.

O Brasil venceu o jogo de estreia contra os japoneses, realizado na capital federal, por 3 a 0. A Seleção, novamente sob o comando de Felipão, chamado pela CBF após a demissão de Mano Menezes, motivada pelo insucesso olímpico com a derrota para os mexicanos na decisão nos Jogos de Londres 2012, após o bronze em Pequim 2008, avançou de forma tranquila pelos jogos seguintes. Pode ser apontado como o primeiro grande confronto da equipe a semifinal diante do Uruguai no Mineirão, vencida por 2 a 1.

A final do torneio, diante da Espanha, foi no Maracanã, que antes já havia sido palco também da conquista da Copa América de 1989, quando o Brasil venceu o Uruguai por 1 a 0. Em 2013, confrontando com os então bicampeões da Europa, invictos há 29 jogos74, o placar foi mais elástico: 3 a 0. Foi uma noite em que tudo deu certo. Fred marcou logo no primeiro minuto de jogo. Os espanhóis, atordoados, tardaram a esboçar qualquer reação. Pedro até tentou finalizar, mas David Luiz tirou a bola em cima da linha. Neymar, o grande craque brasileiro da década, sendo o primeiro desde Kaká75 a figurar entre os três melhores do mundo, foi o responsável por ampliar o placar, que se transformou em goleada com novo gol de Fred. Os gritos de “o campeão voltou”, mesmo com o Brasil tendo vencido o torneio também em 2009, quando superou os Estados Unidos, resumiam o sentimento da torcida, que presumia ter diante dos seus olhos uma nova família Scolari, já imaginando a continuação do enredo no ano seguinte. Um dia depois, o Jornal Nacional narrou em reportagem de Renato Ribeiro o que chamou de “noite mágica” no principal estádio do Brasil.

Já foi um gigante. Era conhecido como o maior do mundo. Uma reforma o encolheu para 78 mil lugares. Há quem diga que esse não é aquele Maraca, é outro estádio, mas a alma do velho Maracanã permaneceu. Visual do século XXI, coração do século XX. Ele encolheu no tamanho, mas não na sensação que provoca. [...]

O Maracanã ignora protocolos. Se o Hino não é tocado até o fim, os alto-falantes naturais do estádio dão conta de tudo. O Maraca é cruel com os adversários, incansável. Não houve sossego para a Espanha. O famoso toque de bola tinha uma trilha sonora (vaias). E quando era o Brasil que tocava a bola, os espanhóis viram tudo se inverter. O toureiro virou touro. Olé.

O Maracanã cria ídolos, faz carinho em quem merece. Ontem foram muitos. David Luiz, Júlio Cesar, Hulk, Neymar... O gigante acordou. Os gigantes acordaram, juntos, o Maracanã e o time. [...]

Assim é o Maracanã, uma massa de pessoas juntas, dando forma e vida ao concreto. Ah, se o Maraca falasse... O que ele diria? Talvez, “obrigado”. O campeão voltou, voltou para casa. (Jornal Nacional. TV Globo. 1 de julho de 2013. Disponível em http://g1.globo.com/jornal-nacional/videos/t/edicoes/v/maracana-um-gigante-de-alma-viva-renovado-e-com-muitas-vozes/2666415/)

4.3.1. A Copa das Copas

A Seleção chegou embalada para jogar a Copa do Mundo em casa após 64 anos. Era considerada favorita mesmo pelos demais países. Carlos Alberto Parreira, então coordenador técnico, sentenciou em maio que o Brasil já estava “com uma mão na taça”, discurso repetido pelo técnico Felipão durante o Mundial76, com um time que em nenhum momento do torneio chegou a encantar o país. Na estreia diante da Croácia, um 3 a 1 de virada, com o primeiro gol da Copa sendo contra, do lateral brasileiro Marcelo, aos 10 minutos de partida. O segundo jogo trouxe um empate sem gols com o México, adiando a classificação para o mata-mata, que veio somente com a goleada por 4 a 1 sobre Camarões, a equipe mais fraca do grupo, que deixou a competição sem pontuar.

O país viveu de forma intensa o clima de Copa do Mundo, sem protestos como na Copa das Confederações, em grande parte pela presença massiva de estrangeiros, especialmente de outros países latino-americanos, apesar da propagação de notícias negativas que antecedeu o Mundial. O expediente anteviu o padrão ocorrido igualmente na Olimpíada, em que a tensão prévia não causou impacto significativo no número de visitantes. No Mundial, os estadunidenses também apareceram em grandes grupos, assim como ineditamente se reuniram no próprio país para acompanhar os jogos77, em aglomerações que lembravam as Fan Fests instaladas nas doze sedes. Nos campos, a primeira fase contou com ingredientes como goleadas e zebras que ajudaram a empolgar os fãs de futebol. Aliado aos demais elementos, o calor da torcida, que participava ativamente mesmo dos confrontos tidos como mais desinteressantes, ajudou que muitos passassem a identificar a edição de 2014 como a “Copa das Copas” antes mesmo do seu fim78.

Nas oitavas de final, o Brasil se encontrou com o Chile, antes freguês histórico, em jogo no Mineirão. A partida empatou em 1 a 1, indo para a prorrogação e os pênaltis, com direito aos rivais acertando uma bola na travessão nos instantes finais do tempo extra. Júlio César, que defendeu as cobranças de Pinilla e Alexis Sánchez e ainda viu a trave do Mineirão novamente ser decisiva diante do chute de Jara, garantiu a classificação.

Novamente um rival sul-americano surgiu diante da Seleção nas quartas de final: a Colômbia. O desempenho foi ligeiramente mais animador, com uma vitória por 2 a 1 em Fortaleza. Mas não houve tanto entusiasmo ao redor do país após o jogo. Para a disputa da semifinal, a Seleção perdeu Neymar, contundido por uma agressão do colombiano Zúñiga. Thiago Silva, o capitão, que havia ficado aos prantos antes dos pênaltis no jogo anterior, pedindo ao técnico para não fazer parte dos cobradores, foi suspenso. Sem dois titulares absolutos, Felipão escalou Bernard e Dante como substitutos para a semifinal contra a Alemanha, tentando manter as características básicas da equipe diante dos outros adversários. Essa formação jamais havia atuado junta antes.

Em 8 de julho, a Seleção entrou em campo no Mineirão repetindo o modelo de pressão que vinha desde o ano anterior, já decorado pelos adversários. O time anfitrião ditou o ritmo durante os primeiros instantes. E só. A partida definiu-se em outros minutos, mais precisamente sete. Foram eles constatados aos 9, 22, 24, 25 e 29 minutos do primeiro tempo e aos 23 e 33 minutos do segundo tempo. Nessas frações de tempo registradas, Müller, Klose79, Kroos, Khedira e Schürrle marcaram os sete gols que deixaram o Brasil atônito. Foi a pior derrota da história não apenas da Seleção, mas de qualquer campeão mundial. Nas Copas, jamais uma equipe havia levado cinco gols na primeira meia-hora de jogo80. No dia seguinte, o Jornal Nacional trouxe a imensa repercussão midiática do desastre em Belo Horizonte.

Os jornais dessa quarta-feira triste registram para a história a goleada sofrida pela Seleção Brasileira. O jornal O Globo trouxe três palavras: vergonha, vexame e humilhação; e falou sobre a atuação de um time confuso. A Folha de S. Paulo disse que a Seleção sofreu a pior derrota da história e destacou as vaias e o olé dados pelos torcedores. O Estado de S. Paulo estampou “humilhação em casa” e afirmou que o mundo viu uma Seleção Brasileira descontrolada. A manchete do jornal Zero Hora de Porto Alegre foi “fiasco”. Junto, fotos de torcedores incrédulos. O Estado de Minas disse que foi a maior vergonha do futebol brasileiro e que foi errado não reforçar o meio de campo. No Correio Braziliense, “um vexame para a eternidade”, lembrando que a derrota na final de 1950 ficou menor. [...] (Jornal Nacional. TV Globo. 9 de julho de 2014. Disponível em http://g1.globo.com/jornal-nacional/videos/t/edicoes/v/imprensa-nacional-destaca-a-vergonhosa-derrota-do-brasil-para-a-alemanha/3487313/)

Até os jogadores alemães demonstraram espanto após o jogo. Mesut Özil publicou que “vocês (brasileiros) tem um país lindo, pessoas maravilhosas e incríveis jogadores. Essa partida não deve destruir seu orgulho”, coro engrossado por Bastian Schweinsteiger, que em coletiva se disse surpreendido pela elasticidade do resultado: “Eu gostaria de me desculpar com o Brasil. Não esperávamos um placar desses. Tentamos ser respeitosos jogando futebol e fazendo gols”. Lukas Podolski81, maior ícone da boa relação que vinha sendo existindo entre os germânicos e os anfitriões antes do duelo, ao exaltar por diversas vezes ícones da cultura nacional durante a estadia alemã em um resort no interior da Bahia, publicou a declaração mais apaixonada.

Respeite a amarelinha com sua história e tradição. O mundo do futebol deve muito ao futebol brasileiro, que é e sempre será o país do futebol.

A vitória é consequência do trabalho, viemos determinados, todos nós crescemos vendo o Brasil jogar, nossos heróis que nos inspiraram são todos daqui. Brigas nas ruas, confusões, protestos não irão resolver ou mudar nada.

Quando a Copa acabar e nós formos embora, tudo voltará ao normal. Então, muita paz e amor para esse povo maravilhoso, um povo humilde, batalhador e honesto. Um país que eu aprendi a amar. (Disponível em https://www.instagram.com/p/qO7Q64OJ65/)

Dessa forma, os algozes da semifinal conseguiram ganhar a torcida brasileira no Maracanã durante a final, em muito por causa da rival com que confrontaram: a Argentina, dona da vaga na decisão após eliminar a Holanda, que por sua vez novamente goleou o Brasil na disputa do terceiro lugar. Alemães e argentinos repetiram as finais de 1986 e 1990, com uma vitória para cada lado até então. Em 2014, a conquista europeia, a primeira em solo sul-americano, veio dos pés do jovem Mario Götze, reserva do time, que havia entrado 42 minutos do segundo tempo. Aos sete da segunda etapa da prorrogação, ele marcou o gol que fez do seu país o terceiro a ser tetracampeão mundial, após Brasil e Itália. O Fantástico daquele 13 de julho se dedicou a resumir o torneio, com enfoque ainda nos efeitos do Mineirazo para a Seleção. No dia seguinte, a CBF demitiu o técnico Felipão82.

O que foi essa Copa? Foi muito melhor do que podia se imaginar. Cheia de surpresas desde o início e com a maior surpresa vinda de um dos menores países: Costa Rica, grande, melhor defesa, só levou dois gols. Foi superior a três campeões mundiais e só foi desclassificada nos pênaltis. [...]

A imagem da glória. O novo tetracampeão. Nossos carrascos, os simpáticos e elegantes alemães. Mas, certamente, quando alguém falar sobre a Copa de 2014, nós, brasileiros, vamos pensar naquela semifinal. Nada foi tão impressionante. O maior campeão vivendo sua maior humilhação. Nós queríamos tanto outra Copa no Brasil para esquecer o fantasma de 50. Conseguimos da pior forma possível.

Na Copa de 50, foi um trauma porque tínhamos um timaço, éramos favoritíssimos, só precisávamos de um empate no último jogo, fizemos o primeiro gol, mas levamos a virada no segundo tempo. Esperamos, então, 64 anos. Nesse tempo, nos tornamos o país do futebol. O mundo mudou absurdamente, em uma velocidade cada vez maior. E, 64 anos depois, não estávamos no Maracanã. Aliás, inaceitavelmente, nós não jogamos nenhuma vez no nosso principal estádio. Agora, era o Mineirão.

Veio um gol. Bom, um gol é coisa do jogo. Mas quando veio o segundo gol, foi disparado o cronômetro da loucura. Os craques de salários milionários não sabiam para que lado correr. Ídolos de milhões de pessoas, agora frágeis, indefesos. Ninguém sabia o que fazer, ninguém sabia o que falar. Apenas assistimos. E os alemães fizeram outros três gols em um espaço de exatos 6 minutos e 40 segundos.

Esperamos 64 anos para ver nossa esperança morrer em 6 e 40. Depois disso, nada mais fazia sentido. Só piorou! Foi 3 a 0 para a Holanda. Dez gols em dois jogos. E aquele 7 a 1, a maior humilhação da história, não só do futebol, do esporte brasileiro. [...] (Fantástico. TV Globo. 13 de julho de 2014. Disponível em http://g1.globo.com/fantastico/videos/t/edicoes/v/copa-de-2014-foi-cheia-de-surpresas-desde-o-inicio-segundo-tadeu-schmidt/3495192/)

Assim como em 1950, o sucesso na realização do torneio seguiu sendo lembrado como consolação. Foi desse modo na Retrospectiva da TV Globo,em dezembro de 2014, que rememorou de forma destacada “o maior evento esportivo da história, com 32 países, mais de 700 jogadores e um milhão de estrangeiros”. O jornalístico, apresentado por Sérgio Chapelin e Glória Maria, brincou com o bordão “imagina na Copa”, utilizado antes do Mundial para definir a preocupação com o atraso das obras e a instabilidade do país, afirmando que “foi mesmo uma Copa inimaginável, em que durante 31 dias o mundo olhou para nós e gostou do que viu”. Após o Mundial, outra frase se popularizou pelo Brasil. A expressão “gol da Alemanha” passou a ser designada para reforçar os grandes problemas nacionais, com os insucessos brasileiros, não apenas no esporte, sendo seguidamente creditados como suposto um oitavo gol alemão.

Para boa parte da opinião púbica, por exemplo, a opção da Confederação Brasileira de Futebol pelo comando da Seleção novamente por Dunga foi mais um “gol da Alemanha”. Treinador do time na África do Sul, o capitão do tetra teve uma segunda passagem ruim pelo comando da equipe. Na Copa América de 2015, foi eliminado pelo Paraguai nas quartas de final. Em 2016, quando se disputou uma edição extraordinária do torneio para a celebração do centenário da Conmebol, a saída foi ainda antes, na primeira fase, em um grupo que contou com Peru, Equador e Haiti como adversários. As duas edições foram vencidas pelo Chile, ambas com a Argentina perdendo a final, tal como em 2014 no seu Maracanazo particular.

Visando impedir o mesmo insucesso nas Eliminatórias para a Copa do Mundo da Rússia, a CBF contratou Tite83, então campeão brasileiro pelo Corinthians. Com uma sequência invicta em seus primeiros jogos, o treinador garantiu o Brasil no Mundial com quatro rodadas de antecedência, sendo o primeiro país a conquistar a classificação para o evento de 2018 após os anfitriões84. Já na Olimpíada do Rio de Janeiro, que será aprofundada no próximo capítulo, o comando do selecionado foi de Rogério Micale, que treinava o time brasileiro na categoria sub-20.

4.4. Chapecoense e o luto pela maior tragédia do futebol

Em 2016, porém, os olhos do mundo do futebol se voltaram ao Brasil não somente pela inédita conquista do ouro olímpico. Além da decisão dourada no Maracanã, uma final nunca realizada atraiu a atenção de todo o planeta. O motivo do cancelamento do jogo foi a maior tragédia da história do esporte mundial, que acertou em cheio uma das mais jovens equipes da elite do futebol no país.

Fundada em 1973, a Associação Chapecoense de Futebol, time do interior de Santa Catarina, traçou de 2009 a 2013 uma meteórica ascensão da quarta até a primeira divisão do Campeonato Brasileiro, sendo ao lado de Flamengo, Santos, São Paulo e Cruzeiro uma das poucas equipes jamais rebaixadas no torneio. Naquele ano, a Chape, dona até então somente de títulos estaduais85, chegou pela primeira vez em uma final continental, a da Copa Sul-Americana. No caminho para a decisão, eliminou rivais de expressão, como os argentinos Independiente86 e o San Lorenzo, esse último o adversário numa épica semifinal. No jogo de volta, em Chapecó, a classificação foi assegurada pelo pé direito do goleiro Danilo, que defendeu o chute do argentino Blandi no último minuto de jogo. O empate em 0 a 0 bastou para a formação do confronto com o Atlético Nacional, campeão da Libertadores em 2016.

Danilo foi um dos dezenove jogadores mortos no acidente aéreo com o voo da companhia Lamia fretado pela Chapecoense para a ida até Medellín, palco do primeiro jogo da final. Ao todo, 77 pessoas embarcaram na aeronave. 71 faleceram, incluindo vinte jornalistas brasileiros87. Todos foram lembrados no encerramento de uma edição especial do Jornal Nacional, que foi terminada com aplausos da redação enquanto eram exibidas no telão imagens das vítimas fatais do desastre aéreo, logo após um emocionado discurso de Galvão Bueno.

Todos nós sabemos como o esporte provoca emoção e paixão. Os atletas são os grandes protagonistas de tantas histórias inesquecíveis. São eles, os técnicos e os dirigentes que fazem o espetáculo. Mas quem leva a você a emoção que o futebol provoca são os jornalistas, das TVs, das rádios, dos jornais impressos e da internet.

É absolutamente simbólico, e muito triste, que seja esse acidente a nos lembrar, de forma tão explícita, essa ligação. Só nos resta então uma última homenagem para os jogadores, a comissão técnica e os dirigentes da Chapecoense. E para os jornalistas de todos os veículos que nos deixaram nesta terça tão tragicamente. (Jornal Nacional. TV Globo. 29 de novembro de 2016. Disponível em http://g1.globo.com/jornal-nacional/videos/t/edicoes/v/jn-presta-homenagem-as-vitimas-da-queda-do-aviao-da-chapecoense/5482774/)

Durante aquele 29 de novembro, a mídia brasileira acompanhou as informações sobre o acidente desde os primeiros relatos, ainda desencontrados, sobre o fato, que traziam animadoras especulações sobre sobreviventes feridos, sem precisar números. Ainda nesse ambiente de esperança e apreensão, a TV Globo encurtou seus telejornais locais matinais de noventa para quinze minutos, ampliando a duração do noticiário nacional, dedicado por horas ao desastre que pouco depois teve as suas dimensões confirmadas pelas autoridades colombianas88. Galvão Bueno, que na semana seguinte narraria a partida de volta da final da Sul-Americana, integrou-se à cobertura no Bom Dia Brasil, que foi exibido em conjunto para todo o país, com a programação derrubando o respeito então vigente aos fusos locais em áreas das regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste, especialmente durante o horário de verão.

Por toda a semana, os gestos simbólicos em homenagem à Chapecoense vieram de várias partes. A CBF decretou luto no futebol nacional, adiando a decisão da Copa do Brasil e a última rodada do Campeonato Brasileiro. Pela Copa da Liga Inglesa, a torcida do Liverpool silenciou um estádio lotado89, enquanto os espanhóis Barcelona e Real Madrid prestaram homenagens durante os seus treinamentos. Ao redor do mundo, monumentos foram iluminados de verde, a cor da Chape. Na internet, a hashtag com desejos de “força” ao time liderou os assuntos mais comentados em diferentes idiomas90.

O presidente Michel Temer, efetivado no cargo após o impeachment de Dilma Rousseff, decretou três dias de luto oficial e o ministro das Relações Exteriores José Serra deixou Cuba, onde acompanhava os funerais de Fidel Castro, para ir à Colômbia, onde a torcida prestou uma grande homenagem aos brasileiros no estádio Atanásio Girardot, que seria o palco do jogo. O público, vestido de branco, lotou os 44 mil lugares disponíveis. Outras dezenas de milhares de pessoas se aglomeraram com flores, velas e cartazes nas ruas próximas, estabelecendo uma ligação condecorada pelo Brasil com a Ordem do Rio Branco91 para autoridades colombianas e pela Fifa com o prêmio Fair Play ao time do Atlético Nacional. O discurso do chanceler brasileiro emocionou os presentes.

Muito obrigado, Colômbia. De coração, muitíssimo obrigado. Nesses momentos de grande tristeza para as famílias e para todos nós, as expressões de solidariedade que aqui encontramos, como a solidariedade que traz cada um de vocês, colombianos e torcedores do Atlético Nacional, aqui no Atanásio Girardot, nos oferece um grau de consolo imenso, uma luz na escuridão, quando todos estamos tentando compreender o incompreensível.

Nós, brasileiros, não esqueceremos jamais a forma como os colombianos sentiram como seu o terrível desastre que interrompeu o sonho dessa heroica equipe da Chapecoense. Uma espécie de conto de fadas com final de tragédia.

Assim como não esqueceremos a atitude do Atlético Nacional e de todos seus torcedores, que pediram para que se conceda o título da Copa Sul-Americana à Chapecoense. Um gesto que honra o esporte, o esporte de toda parte e o colombiano, e que honra essa querida cidade de Medellín e que torna os verdolagas ainda maiores.

Depois do ocorrido nessa fatídica noite, o Brasil acordou perplexo para a dura realidade de uma festa que não houve, para uma expectativa frustrada de uma partida histórica para Chapecó, que já não poderá ser realizada. Para a dor imensa de uma perda. Talvez não seja uma coincidência que as cores da Chapecoense, assim como as do Atlético Nacional, sejam verde e branco: esperança e paz.

Além da tragédia que vitimou também jornalistas e membros da tripulação, as inúmeras manifestações de carinho à Chape no Brasil, na Colômbia e no mundo todo, são testemunhos da importância da nobreza do esporte como catalisador dos melhores sentimentos humanos, como arma para combater a intolerância, como instrumento para construir um mundo melhor. [...] (Disponível em http://www.itamaraty.gov.br/discursos-artigos-e-entrevistas-categoria/ministro-das-relacoes-exteriores-discursos/15353-discurso-do-ministro-jose-serra-por-ocasiao-da-homenagem-a-chapecoense-medellin-30-de-novembro-de-2016)

Um dos cânticos adotados pela torcida colombiana no evento diz “que se escute, por todo o continente, sempre recordaremos a campeã Chapecoense”. O time solicitou que a Conmebol concedesse o título da Sul-Americana aos brasileiros imediatamente, pedido atendido dias depois. A conquista garantiu aos catarinenses a inédita vaga na edição de 2017 da Taça Libertadores da América. O impacto do luto, porém, se replicou de forma massiva não apenas continentalmente, como destacado por William Waack e Jorge Pontual no Jornal da Globo.

O choque pela gravidade do acidente foi muito além das fronteiras brasileiras ou da América do Sul ou mesmo do mundo do futebol. Houve uma comoção, pode se usar essa palavra sem o menor receio de cometer um exagero. A mídia mundial repercutiu, e repercutiu bem, o caso. [...]

Um dos porta-vozes do presidente Obama disse que os Estados Unidos estendem profundas condolências às famílias daqueles que morreram no trágico acidente na Colômbia. “Nossos pensamentos e orações vão para os sobreviventes e integrantes da Chapecoense, assim como todos que foram tocados por essa tragédia. O povo americano está com o povo brasileiro nesse momento difícil”, essa é a nota da Casa Branca. Os estrangeiros mal conseguem pronunciar corretamente “Chapecoense”, mas todos se uniram na dor e na solidariedade.

Foi uma das principais manchetes do dia no mundo. [...] No Washington Post, “tragédia de enormes proporções: momento de glória de time brasileiro termina em acidente aéreo fatal”. No The Wall Street Journal, “cidade de Chapecó de luto pela perda de seu amado time”. No francês Le Monde, “a dor terrível do Brasil após o acidente aéreo na Colômbia”. [...]

O papa Francisco mandou uma mensagem através do bispo da região onde o avião caiu. Ele pede ao bispo que transmita seus pêsames aos parentes e todos que choram essa perda, junto com expressões de afeto, solidariedade e consolo. (Jornal da Globo. 29 de novembro de 2016. Disponível em http://g1.globo.com/jornal-da-globo/videos/t/edicoes/v/midia-do-mundo-todo-repercutiu-o-caso-da-queda-do-aviao-da-chapecoense/5482887/)

No dia 3 de dezembro, foi a vez da Arena Condá, em Chapecó, ser palco da homenagem aos mortos, com o velório coletivo de cinquenta das vítimas. Desde cedo, as principais emissoras brasileiras transmitiram a chegada dos aviões da Força Aérea Brasileira com os caixões, recebidos com honras militares. Galvão Bueno encerrou a cobertura ao vivo a classificando como “uma das mais importantes e mais tristes da história da TV Globo”, que transmitiu as homenagens das 7h45 às 15h, com uma duração maior não somente que a de outras transmissões de funerais, como as do piloto Ayrton Senna e dos integrantes do grupo Mamonas Assassinas, como também se comparada com a cobertura de eventos da magnitude dos atentados terroristas de 11 de setembro de 200192.

Foi um desfile de homenagens e emoções. Chapecó é uma cidade pequena do interior de Santa Catarina. Mas hoje foi como se os 200 milhões de brasileiros tivessem se mudado para lá. Assim como nossos queridos amigos colombianos, abraçamos Chapecó e a Chapecoense.

Do profundo sentimento de tristeza, renasceu uma solidariedade meio esquecida pelos brasileiros. A famosa e dolorida frase “vida que segue”, ela ganha aqui um novo significado. Vida que segue, sim, mas uma nova vida, repleta de respeito e de amor ao próximo. Não à toa que a cor da Chape é verde. Que a esperança e que a paz e o conforto alcancem todas as famílias que perderam seus entes queridos. A solidariedade está vencendo a dor. Um abraço, amigos. Seremos diferentes, seremos melhores a partir de hoje. (O Adeus em Chapecó. TV Globo. 3 de dezembro de 2016. Disponível em https://twitter.com/diogo_cc/status/805099932206170112/video/1)

A abertura do Jornal Nacional se referiu ao sábado como um dia em que “o Brasil parou e se emocionou”. No telejornal, outros trechos da narração de Galvão foram destacados. Mas ele também silenciou em muitos instantes: "Não há discurso mais forte, mais emocionante ou mais contundente que essas imagens". Entre os presentes no estádio, que recebeu os esquifes aos gritos de “o campeão voltou”, estavam o técnico da Seleção e os presidentes do Brasil, da Fifa e da Conmebol. O embaixador da Colômbia no Brasil foi a autoridade mais aplaudida, sendo homenageado pelo prefeito de Chapecó, que vestiu a camisa do Atlético Nacional durante seu discurso.

Os colombianos voltaram a ser aplaudidos num amistoso diante da Seleção Brasileira realizado no Engenhão cerca de dois meses depois. “No futebol em geral, a emoção gira sempre em torno da bola. Dessa vez, ela foi apenas coadjuvante”, relatou Tino Marcos na reportagem do Jornal Nacional sobre o duelo, batizado pela CBF como Jogo da Amizade93. O narrador Rafael Henzel e os jogadores Jackson Follmann, Alan Ruschel e Neto, sobreviventes da tragédia, entraram no gramado. O locutor depois subiu para as cabines de transmissão, algumas batizadas com nomes de vítimas, gesto repetido em diversos estádios do país, de onde transmitiu o jogo ao lado de Galvão Bueno. A CBF abriu o sinal da partida, vencida por 1 a 0 pelo Brasil para as emissoras não detentoras de direitos, totalizando mais de uma dezena de canais na transmissão simultânea.

Dias antes, a Chapecoense, com um elenco inteiro contratado em poucas semanas, já havia feito sua reestreia na Arena Condá em amistoso contra o Palmeiras, o último rival de antes do acidente. O duelo, marcado pela entrega das medalhas dos campeões da Copa Sul-Americana aos parentes das vítimas, ficou empatado em 2 a 2. Em abril, um novo momento de emoção. O estádio recebeu o Atlético Nacional94 no Jogo da Gratidão, válido pela ida da Recopa Sul-Americana. Brasileiros e colombianos ficaram juntos nas arquibancadas, com a vitória da Chape por 2 a 1 - o placar agregado com a partida da volta em Medellín foi 5 a 3 para o Atlético Nacional95 - tendo aplausos mesmo no gol dos rivais, considerados irmãos. Os presidentes dos times e os prefeitos das cidades falaram ao público, assim como os quatro sobreviventes brasileiros, que destacaram a memória das vítimas, sempre celebradas no estádio aos 26 minutos do segundo tempo, o septuagésimo primeiro dos jogos, em referência ao número de mortos no desastre. Todos lembraram que a possibilidade da disputa de um novo título só existia por causa dos falecidos, como resumiu o Follmann: “Queria que todos dessem uma salva de palmas aos irmãos que se foram. Porque sem eles, a gente não estaria aqui hoje disputando uma final inédita de Recopa. Então tudo que acontece hoje é graças a eles”. O pedido foi, claro, prontamente atendido. A emoção da celebração foi resumida pelo jornal colombiano El Tiempo.

O acaso, ou o destino, quis que a Chapecoense e Atlético Nacional compartilhassem cores e essa terça-feira a cidade do sul do Brasil é mais verde e branco do que nunca, unida na memória daqueles que foram antes de disputar com seus irmãos o duelo que a tragédia os roubou.

Quatro meses depois do jogo que nunca chegou, ambos se encontraram no duelo de ida da Recopa Sul-Americana em que pouco interessava o resultado.

O que interessava eram os passos firmes pelo gramado do ex-goleiro Follmann com sua prótese, a agilidade recuperada de Ruschel, a tenacidade de Neto e a voz enérgica do jornalista Rafael Henzel. [...]

A Arena Condá lotou para aplaudir emocionada e de branco aos representantes dessa cidade colombiana que nessa terça voltou a ser brasileira. O futebol, viria depois. (Disponível em http://www.eltiempo.com/deportes/futbol-internacional/chapeco-y-medellin-volvieron-a-ser-una-sola-en-sentido-homenaje-74894)

Em seu discurso na ocasião, o prefeito de Medellín disse que “a fraternidade que nasceu dessa grande tristeza é indestrutível”. Tanto quanto as emoções despertadas pelo esporte mais popular da “pátria de chuteiras”, como dizia Nelson Rodrigues, numa trajetória que atravessa séculos e formas de poder e, mais do que se explica por si só, ajuda também a explicar o Brasil como o conhecemos.

5. O OURO INÉDITO NA RIO 2016: HISTÓRIA E NARRATIVIDADE NO JN

Na rica história do futebol brasileiro, a disputa dos Jogos Olímpicos foi ao longo de décadas marcada pelo desinteresse. O país, que acumula títulos mundiais nas categorias de base, sendo tricampeão no sub-17 e pentacampeão no sub-20 nos torneios da Fifa, jamais havia subido ao lugar mais alto do pódio até a Rio 2016, sendo medalhista de prata nos torneios das Olimpíadas de 1984, 1988 e 2012 e de bronze em 1996 e 2008.

A CBF raramente executou um planejamento da equipe para a competição ao longo de todo o ciclo, tratando o evento com certo desdém e revezando o comando do time entre treinadores menos experientes, dos juniores, e os mesmos da equipe principal. Para a competição no Rio, por exemplo, a ideia inicial visava a separação entre as equipes olímpica e principal, após o insucesso da dupla jornada de Mano Menezes em Londres. Alexandre Gallo, coordenador da base, era projetado como o nome para treinar o selecionado olímpico96. Em 2015, porém, após desempenho aquém das expectativas no Sul-Americano sub-20, ele foi dispensado, sendo substituído por Rogério Micale, um especialista em jogadores mais jovens, que um mês após assumir a equipe a levou ao vice-campeonato mundial. O comando da Seleção para a Olimpíada, contudo, passou a ser acumulado por Dunga, então técnico do time principal.

Dois meses antes dos Jogos, o capitão do tetracampeonato mundial foi demitido após o fraco desempenho na edição de centenário da Copa América97, realizada nos Estados Unidos. Foi substituído por Tite, que tinha a opção de assumir de imediato o time olímpico, porém considerou mais justo deixar a função para Micale, dizendo em entrevista98 pouco após o convite da CBF que treinar a equipe com a qual não trabalhou anteriormente “seria muito egoísta da minha parte e não seria o melhor para o Brasil”. O treinador do time olímpico, que nem mesmo conhecia Neymar antes de convocar a equipe para os Jogos, brincou em coletiva antes da estreia na Olimpíada dizendo que era mesmo o nome mais desconhecido do time, que tinha muitos dos jogadores sub-23 como titulares em seus clubes. Os três nomes acima dessa idade escolhidos, o limite permitido pela regra, foram os do próprio jogador do Barcelona, o capitão da equipe, do goleiro Fernando Prass e do meio-campo Renato Augusto. A presença de Neymar, um jogador do primeiro escalão do futebol mundial, é rara nos Jogos Olímpicos, já que a Fifa não obriga que os times cedam seus jogadores às seleções para o torneio. Pela pressão da competição em casa, a CBF negociou diretamente com o clube catalão a liberação do brasileiro em troca de que ele ficasse de fora da Copa América Centenário99. A lista de veteranos, porém, precisou ser alterada antes mesmo da estreia, com a contusão do arqueiro palmeirense durante os treinamentos. Para o seu lugar, foi chamado Weverton, do Atlético Paranaense, que se juntou à equipe formada também pelos jovens Uilson, Zeca, Douglas Santos, William, Rodrigo Caio, Marquinhos, Luan Garcia, Rafinha, Walace, Rodrigo Dourado, Thiago Maia, Felipe Anderson, Luan Guilherme, Gabriel Barbosa e Gabriel Jesus somente quatro dias antes da estreia contra a África do Sul.

O primeiro jogo do time foi um empate em 0 a 0 na capital federal. Para Galvão Bueno, que comentou o jogo na abertura do Jornal Nacional, “não foi do jeito que todo mundo esperava”. Eric Faria, que fez a reportagem sobre a partida para o JN, lembrou que diante do cenário da Seleção perfilada ao som do Hino Nacional, era “difícil não passar um filme da Copa na cabeça do torcedor brasileiro”, mas frisou que o Brasil teve um dia “pouco inspirado”.

O placar igualado sem gols repetiu-se no segundo jogo, esse contra o Iraque, novamente em Brasília. No Bom Dia Brasil, a apresentadora Fernanda Gentil mostrou surpresa com o desempenho: “Quem diria... Um ataque com Neymar, Gabriel Jesus e Gabigol (Gabriel Barbosa), a gente tanto falou dos três aqui, saiu mais uma vez em branco”. A matéria de Abel Neto mostrou o time sendo vaiado durante e após o jogo, definido como “o fundo do poço” da campanha pelo especial Um Sonho de Ouro, programa exibido em dezembro no horário nobre global para relembrar a trajetória do selecionado olímpico de futebol, o único a ganhar essa rememoração de forma exclusiva. A atração destacou os gritos da torcida por Marta durante o jogo da equipe masculina. Naquela altura, era real o risco de eliminação dos homens ainda na primeira fase. Os jogadores ainda deixaram o campo sem falar com a imprensa, o que revoltou o narrador Galvão Bueno durante a transmissão ao vivo do confronto.

A Seleção Brasileira vai saindo ali debaixo de vaias. [...] Aplaudidíssimo o time do Iraque. Tudo isso, gente, isso é uma simbologia. É claro que o torcedor não ficou satisfeito com o empate de 0 a 0 do Brasil com o Iraque. Mas as vaias para a Seleção Brasileira e os aplausos para o Iraque mostram claramente o sentimento do torcedor com aquilo que é o bem maior do esporte brasileiro, a paixão maior, e sempre foi: a Seleção Brasileira. Dói, incomoda, machuca. [...]

É um pouco diferente do que a gente está acostumado a ver. Isso é uma Olimpíada, isso não é um time de futebol onde os salários são gigantescos, ou uma Seleção Brasileira em que vem esses jogadores e disputam um torneio profissional. Isso é uma Olimpíada. Existe um espírito olímpico, existe uma forma, como uma vez chegou, eu fiz essa narração em 1984, de uma suíça que chegou ao final da maratona, a Gabrielle Andersen, que vinha quase desmaiando, mas se negava a ser batida pelo cansaço, se negava a ser batida pelo esforço físico ou pela falta de condições de chegar ao final da maratona. [...]

As milhões de pessoas que estão em casa tem direito sim de ouvir o seu ídolo, o seu jogador, aquele que joga com a camisa da Seleção Brasileira. É feio, é muito feio, não é profissional, não é ético e não é correto e se negar o time inteiro a falar. [...] (Somos Todos Olímpicos. TV Globo. 7 de agosto de 2016. Disponível em https://globoplay.globo.com/v/5218689/)

Ao evocar a sua trajetória como referência para corroborar seu discurso na situação, assim enriquecendo o conteúdo na visão de Barros (2011), Galvão exalta seu ethos100, utilizando a experiência para imprimir credibilidade ao que diz. A busca por confiabilidade pode ser aferida em momentos eufóricos e disfóricos, quando denota preocupação e alterações no seu tom de voz e expressão facial. Em sua obra sobre jornalismo esportivo, Paulo Vinicius Coelho (2009) destaca aspectos profissionais do narrador no exercício de sua função.

É fácil malhar Galvão Bueno. Dono de uma das vozes mais brilhantes entre os locutores brasileiros, ele é tecnicamente perfeito. E, se irrita, irrita mais pela superexposição do que pelos supostos erros que comete. Ele está lá para levar o torcedor ao delírio. O comentarista e o repórter é que tem a obrigação de analisar friamente o que está ali, na cara do espectador. (COELHO, 2009, p. 64)

Contra a Dinamarca, no último jogo da fase de grupos, o confronto ocorreu na Fonte Nova, em Salvador. O atacante Luan Guilherme foi inserido como titular, formando um quarteto ofensivo na equipe. Quatro também foram os gols marcados no jogo, um do próprio Luan, dois de Gabriel Barbosa e um de Gabriel Jesus. Neymar, que completou o ataque, atuou bem, sendo decisivo nos passes. Segundo o técnico Rogério Micale, o time se uniu diante da dificuldade do momento, em que o Brasil chegou a ser a única equipe sem marcar gols no torneio masculino, que contava com países de pouca tradição no futebol, como Fiji e Argélia. Na manhã seguinte, Chico Pinheiro destacou no Bom Dia Brasil que “a Seleção de futebol cumpriu o seu papel. E cumpriu bem”. Para Galvão Bueno, “uma grande vitória sempre proporciona uma reconciliação do torcedor com a Seleção. Foi o que aconteceu”. Os três pontos conquistados ajudaram o Brasil a ser o primeiro colocado do grupo, o credenciando a enfrentar a Colômbia nas quartas de final.

Na época, antes da união despertada pelo acidente aéreo com a equipe brasileira da Chapecoense em solo colombiano, os países vinham em uma rivalidade crescente, com cenas de violência nos embates desde o confronto na Copa do Mundo, quando os vizinhos foram eliminados no jogo marcado pela agressão que tirou Neymar do Mundial. Em 2015, os times se reencontraram na Copa América do Chile, com vitória dos rivais e nova saída de cena de Neymar, dessa vez expulso em uma confusão generalizada ao fim da partida. Na Olimpíada, o clima não foi diferente. Os adversários marcaram pesado, com faltas agressivas, sendo depois revidadas pelos brasileiros. O árbitro, porém, não realizou expulsões mesmo diante de agressões de ambos os lados. No intervalo, até mesmo as comissões técnicas esboçaram uma briga física. Quando teve a bola no pé, porém, o Brasil repetiu a boa atuação coletiva da partida anterior, vencendo por 2 a 0 na Arena Corinthians, em São Paulo, com gols de Neymar e Luan Guilherme.

O jogo seguinte, já pelas semifinais, marcou o encontro da Seleção com a cidade olímpica, o Rio de Janeiro, e seu principal estádio, o Maracanã. Com a empolgação pelo crescimento no desempenho futebolístico aliada ao clima de ânimo no município desde a bem sucedida cerimônia de abertura dos Jogos, mais de cinquenta mil torcedores foram ao Maraca, confiantes na equipe masculina do Brasil, que passava a concentrar todas as expectativas, numa inversão ocorrida durante a Olimpíada nas duas principais modalidades do país. No dia anterior, o time feminino de futebol havia sucumbido nos pênaltis diante da Suécia, rival que goleou na primeira fase. No vôlei, as mulheres favoritas ao tricampeonato olímpico, invictas na fase de grupos, também caíram no tie-break contra a China, enquanto a equipe masculina, que assim como a do futebol chegou a estar a um passo da eliminação na fase inicial, igualmente ia traçando seu caminho rumo ao ouro. A mudança nos rumos entre os gêneros foi o ponto que baseou o espaço dedicado ao futebol dentro da Retrospectiva 2016 da TV Globo. No programa especial, a Olimpíada do Rio ganhou quase o dobro do tempo dedicado ao noticiário político, marcado pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff, que foi concretizado no Senado Federal entre o encerramento das competições olímpicas e o início da Paralimpíada.

Na pátria de chuteiras, o futebol foi mesmo uma caixinha de surpresas. Elas batendo um bolão... Cada lance! Cristiane Alves, recordista: catorze gols em Olimpíadas, mais que qualquer homem ou mulher. Até “Santa Bárbara” fez milagre.

Já eles, nossos craques, eram vaiados. Não faziam gols nem contra os times sem tradição. A torcida pedia Marta. Mas o jogo virou. Elas se despediram da Olimpíada, eles desencantaram. E golearam! Gol relâmpago. [...] (Retrospectiva 2016. TV Globo. 30 de dezembro de 2016. Disponível em https://globoplay.globo.com/v/5547119/)

A vaga para a final tinha os hondurenhos pelo caminho, em jogo no maior palco do futebol do futebol mundial. Mas o Brasil se impôs desde o primeiro minuto. Ou melhor, desde o décimo quarto segundo, quando Neymar fez o gol mais rápido da história da Seleção Brasileira e dos Jogos Olímpicos. Gabriel Jesus ainda marcou duas vezes, enquanto Marquinhos e Luan Guilherme fizeram um gol cada. No outro extremo temporal do jogo, aos 46 minutos do segundo tempo, Neymar novamente converteu, finalizando com uma cobrança de pênalti a goleada por 6 a 0. O time chegou à decisão, sua quarta na história, a segunda consecutiva, com a defesa zerada, enquanto o ataque, após o mau começo, já tinha doze tentos marcados. Após a partida, o meio-campo Renato Augusto lembrou que “se não fizermos um grande jogo sábado, tudo isso será apagado”. Na ocasião, Gabriel Barbosa, quando questionado sobre as inevitáveis lembranças da semifinal da Copa do Mundo contra a Alemanha, que seria a rival na decisão, disse que “não tem como a gente mudar o passado, tem como escrever o futuro”.

Os alemães também tinham uma campanha irregular, com empates contra México e Coreia do Sul e goleadas contra Fiji e Portugal. Na semifinal, derrotaram os nigerianos por 2 a 0. Mas o país também teve o seu momento de glória no Maracanã, com a vitória por 2 a 1 da equipe feminina na disputa do outro contra as suecas, diante de um expressivo público novamente em torno dos cinquenta mil presentes.

5.1. Um sábado histórico no Maracanã

O inédito topo do pódio no centro do gramado do estádio que dias antes foi o alvo de bilhões de olhares ao redor do planeta durante a cerimônia inaugural dos Jogos, que na sexta, 19 de agosto, foi uma realização europeia, no dia seguinte era o sonho do Brasil, obstinado na busca do último título de expressão a ainda não constar na galeria de conquistas da Seleção, como destacou a capa do caderno de esportes da Folha de S. Paulo naquele sábado. A publicação traçou diversos paralelos com o confronto de dois anos antes no Mineirão, como o de que os jogadores se mostraram menos ativos nas redes sociais do que durante a Copa. Lembrou ainda que entre os dezoito convocados do time alemão para a Olimpíada, apenas o zagueiro Ginter estava também no elenco campeão do Mundial no Brasil. O Jornal Hoje, exibido pela TV Globo horas antes do jogo, lembrou que, independente do metal, seria a sexta medalha olímpica do futebol masculino brasileiro. A partida da conquista dourada foi definida pelo jornal espanhol El País como um dos grandes momentos da Olimpíada e da história recente do futebol mundial.O diário mencionou também a influência midiática do principal canal do país e como a vitória da Seleção ajudou no seu discurso.

Os Jogos do Rio serviram para que os brasileiros confirmem que seu jogo será sempre o menos olímpico dos Jogos. Dois gols de Neymar atenuaram os efeitos depressivos do Mundial de 2014, em uma final que o destino reservou para Brasil e Alemanha, mais uma vez protagonistas da festa, que se decidiu nas cobranças de pênaltis. Uma partidaça no Maracanã, ao calor da multidão que pouco a pouco entrou em estado febril. Nunca nessas três semanas tantos brasileiros se mostraram mais entusiasmados diante de um evento olímpico. Nem a cerimônia inaugural, nem Bolt, nem Phelps, nem a pira olímpica da Candelária, por mais que o COI se empenhe. Nada faz vibrar tanto os habitantes desse país como seu velho futebol.

O grande futebol é ilusão. Cada vez mais é difícil assistir uma partida bem jogada. O negócio dá sintomas de inflação, no melhor dos casos. Os elencos mais festejados decepcionam com frequência. Nem na Liga dos Campeões, nem na Eurocopa, nem na Copa América os aficionados assistiram a nada verdadeiramente singular esse ano. Algo assim como o que, de repente, se manifestou na final olímpica. O mais improvável dos torneios. Ali onde Brasil e Alemanha, com duas equipes quase produtos da improvisação, repletas de garotos que recém atravessaram a fronteira do profissionalismo, ofereceram uma final memorável. Um pouco do que podia ser o futebol de primeiro nível se não fosse corrompido pelos interesses mesquinhos dos responsáveis de administrar, treinar e jogar.

Treinador da base por toda a vida, Rogério Micale, o técnico do Brasil juvenil, nunca dirigiu uma equipe na primeira divisão. A pressão que carregou sobre os ombros, sem dúvidas, foi colossal. O Rio era o epicentro do torneio. A final se resolveria no santuário do Maracanã. Praticamente questão de Estado, depois dos fracassos seguidos no Mundial de 2014 e nas seguintes Copas América. O reforço de Neymar impunha mais obrigações que privilégios. [...] O Brasil só podia se permitir ao êxito absoluto. Assim propagavam os grandes conglomerados midiáticos do país. No ar espalhava-se essa ideia sutilmente difundida nas transmissões da TV Globo: o Brasil é uma potência mundial e seus habitantes são uma nação feliz que habita um território, [...] como diz o refrão: “abençoado por Deus”.

Nenhum estádio no mundo acrescenta melhor condição de ressonância. Um grito de espanto no Maracanã duplica sua sonoridade. Cada nota se exalta. Os agudos se enfatizam. [...] Quatro pênaltis foram marcados tanto pela Alemanha quanto pelo Brasil. No quinto alemão, debaixo de uma chuva de decibéis, Petersen não mirou o suficiente e foi parado pelo goleiro Weverton. Quando os duzentos mil olhos se voltaram ao encarregado de marcar, ali estava Neymar. Sozinho em meio da expectativa de toda a gente. Tomou uma corrida de dez metros, pegou com a alma e correu para se ajoelhar.

Neymar chorou abraçado por seus companheiros no meio da festa colocada. Acabava de cumprir com o dever de se converter no herói brasileiro por excelência nos Jogos do Rio. (TORRES, Diego. El País. 21 de agosto de 2016. Disponível em http://deportes.elpais.com/deportes/2016/08/21/actualidad/1471732767_660882.html)

O bom nível técnico da partida, que contou com grandes chances para ambos os lados, foi ponto destacado também no capítulo dedicado ao jogo no especial Um Sonho de Ouro, intitulado como “a prova dos sete”.

Dois anos depois do 7 a 1, uma final olímpica contra a Alemanha e em casa. A mesma Alemanha que se sentiu em casa na Copa e foi campeã no Maracanã. [...]

Era um sábado. Daqui a 100 anos, muita gente vai garantir que foi ao Maracanã, mesmo os que não foram. Muitos vão jurar que viram o brilho do ouro nos olhos dos jogadores na hora do Hino. Se bem que, sinceramente, eu acho que o Brasil inteiro estava dentro do Maracanã mesmo. [...]

A Alemanha tinha batido cinco pênaltis e perdido um, o Brasil quatro e feito todos. Era a bola da vez, era a bola de ouro. A bola estava com o Neymar. [...] Neymar pressionado, Neymar do Brasil, Neymar humano. Brasil, medalha de ouro no futebol masculino nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. [...] Uma conquista eternizada na pele de alguns e no coração de todos os brasileiros. (Um Sonho de Ouro. TV Globo. 21 de dezembro de 2016. Disponível em https://globoplay.globo.com/v/5529206/)

No Esporte Espetacular do dia seguinte ao confronto, Glenda Kozlowski chamou a crônica de Tino Marcos sobre um “jogo que vai ficar marcado na memória como uma das mais lindas lembranças dessa Olimpíada”. Meses depois, o programa exibiu dentro da série Um Dia Dourado, que relembrou os ouros brasileiros conquistados no Rio de Janeiro, um episódio dedicado ao futebol masculino, com o goleiro Weverton como o principal personagem da reportagem.

Nos jogos da Seleção, o Hino brasileiro vem sempre no início. Dessa vez também, só que nesse caso era o início não de um jogo, mas de uma era. O brado retumbante, o canto emocionado, era a celebração solene do fim de um tabu.

Então, tira o pé do chão quem é pentacampeão. E quem é ouro e campeão. [...] Milhares de pessoas viram tudo ali, de perto. Testemunharam e influenciaram diretamente na festa, precedida de muita tensão. Era uma vez um tornozelo direito, que quase afastou o Neymar ainda no início da Olimpíada. Pois deram nele, o tornozelo direito. [...] Neymar foi Neymar, um capitão que comandou o time e depois anunciou que vai pedir à Tite para não ser o dono da braçadeira na Seleção principal. [...]

Que baita ambiente na tarde-noite épica do Maracanã. Roteiros do esporte costumam ser cruéis. Dessa vez colocou uma Alemanha no caminho, logo ela e seus sete bons motivos para ser temida. Foram três bolas alemãs na trave. O time de melhor ataque da Olimpíada soube ser frio, organizado e no segundo tempo conseguiu acuar a Seleção. Deu nisso. Era o fim de 508 minutos da Seleção sem tomar gol, estava zerada desde o início da competição. [...]

Não pare agora... Tem mais depois da publicidade ;)

Então, prorrogação. O Brasil de três finais olímpicas perdidas, o Brasil que ainda junta os cacos do 7 a 1. O grito de ouro preso há décadas na garganta de gerações de narradores. Ô, sofrimento... Imagine o que passava pela cabeça de Rogério Micale, o técnico que não estaria ali se Dunga não tivesse caído, o técnico que fez carreira nas divisões de base, longe dos holofotes. [...]

A decisão para corações em dia seria finalizada em dez angustiantes cobranças de pênaltis. Depois de um jogo de alto nível técnico, pênaltis muito bem batidos. Ginter, Renato Augusto, Gnabry, Marquinhos, Brandt, Rafinha, Süle e Luan... E vem, vem, Petersen. O roteiro agora reserva um lugar para um herói do Acre, um goleirão do Brasil. Weverton deixou o caminho aberto para Neymar. Um chute só era tudo que ele precisava. Partiu, bateu, acabou! É ouro, é ouro, é ouro para o Brasil! Nem era preciso ver o rosto de Neymar. O que ele chorava era com o corpo todo, um vulcão de emoções, certamente as maiores da carreira. A família Micale, as famílias ao redor... Todo mundo mergulhou no mesmo vulcão de ouro. [...] O Brasil é, enfim, campeão olímpico de futebol. Não falta mais nada ao currículo.

Minutos depois da apoteose, [...] restava apenas o Maracanã. Silencioso, agradecido. O estádio que foi planejado para o Brasil ser campeão mundial em 1950 e não conseguiu. Reapareceu remodelado, para tentar de novo em 2014, deu Alemanha. Mas o Maraca é nosso, aha, uhu! Amarelo cor de Brasil, amarelo cor de ouro. E se você não era um dos torcedores, tente sentir-se lá, que você será muito feliz. (Esporte Espetacular. TV Globo. 21 de agosto de 2016. Disponível em http://globoesporte.globo.com/esporte-espetacular/videos/t/edicoes/v/esporte-espetacular-brasil-campeao-olimpico-de-futebol-2016/5507674/)

Os jornais impressos também repercutiram amplamente a conquista do “ouro inédito”, como frisava a manchete da Folha de S. Paulo. Os “meninos de ouro” ocuparam toda a primeira página do Correio Braziliense, enquanto o The New York Times não podia ser mais direto, ao colocar a foto do pódio como destaque no dia do encerramento dos Jogos: “Soccer Gold for Brazil”. Os estadunidenses atribuíram um público próximo aos oitenta mil presentes no Maracanã101.

A repercussão da conquista foi ampla especialmente no meio televisivo, em uma rara transmissão simultânea por diversos dos canais detentores dos direitos de transmissão, como Globo, Record, Band, SporTV, Fox Sports, ESPN Brasil e BandSports. A exibição do jogo na TV Globo foi definida pelo crítico Maurício Stycer, do portal UOL, como “uma das transmissões mais emocionantes” da carreira de Galvão Bueno102, a quem se atribuiu até mesmo uma linguagem própria, o “galvanês”. Lucas Tieppo, do Torcedores.com, o classifica como “protagonista” da conquista.

Neymar, Weverton, Rogério Micale e vários outros jogadores tiveram participação importante na conquista do inédito ouro olímpico, mas o fim do jejum teve outro protagonista. Ele não fez gols, deu passes ou fez grandes defesas, mas Galvão Bueno é sim parte da medalha de ouro.

O principal narrador da TV Globo é sempre uma grande atração nos jogos da Seleção, mas ganhou ainda mais destaque na campanha que terminou com a vitória nos pênaltis sobre a Alemanha.

Com o poderoso microfone da Globo na mão, Galvão começou a campanha com desabafos e críticas aos jogadores da equipe após os empates sem gols contra África do Sul e Iraque. O alvo principal foi o capitão Neymar. [...] Galvão reclamou do silêncio do camisa 10 e chegou a dizer que ele não é nada perto de Marta após o empate com o Iraque. [...]

Vieram as vitórias sobre Colômbia e Honduras e as grandes atuações fizeram com que Galvão voltasse a elogiar o desempenho do camisa 10. Na final, o amor entre Galvão e Neymar já existia novamente, então foi a hora do narrador admitir a emoção e o choro com a medalha de ouro. [...]

Alguma dúvida de que Galvão foi também protagonista na conquista do ouro inédito? (Disponível em http://torcedores.uol.com.br/noticias/2016/08/bronca-desabafo-e-choro-galvao-e-protagonista-no-ouro-inedito-do-futebol)

As falas de Galvão e dos comentaristas e repórteres apenas dentro da exibição do futebol, descontando o prolongamento do assunto no Jornal Nacional, tomaram quase quatro horas da programação da TV Globo, entre 16h59 e 20h54, tornando o evento uma das mais longas coberturas da história olímpica da rede, que foi continuada imediatamente depois pelo JN, sendo finalizada de fato apenas às 22h40. O intervalo final dessa sequência, a partir do momento da conquista da medalha de ouro com o pênalti convertido por Neymar e a repercussão da conquista até o derradeiro clipe da última edição especial do JN sobre a Olimpíada do Rio é o alvo principal dessa análise.

Figura 3. Visão interna do prédio do Grupo Globo no Parque Olímpico (fonte: arquivo pessoal)

A preparação do público para a final, porém, não foi feita apenas pelo jornalismo. A partida recebeu o horário de um programa de entretenimento, o Caldeirão do Huck, que na ocasião foi inteiramente adaptado para tratar apenas sobre os Jogos, com muitas de suas pautas reforçando a imagem não apenas das competições, mas também da emissora, como quando a humorista Dani Calabresa mostrou ao vivo o lounge do estúdio montado pelo canal no centro do Parque Olímpico. O tenista Gustavo Kuerten, um dos condutores da tocha olímpica na cerimônia de abertura ao lado da jogadora de basquete Hortência e do maratonista Vanderlei Cordeiro de Lima, compareceu ao palco do programa. Guga, como é mais conhecido, também esteve na cabine do Maracanã horas depois, juntando-se à equipe de comentaristas que auxiliou o narrador, formada ainda pelo ex-árbitro Arnaldo Cezar Coelho e pelos ex-jogadores Ronaldo, Júnior e Walter Casagrande. O repórter Tino Marcos, que tradicionalmente acompanha a Seleção de futebol, mas no começo da Olimpíada concentrou suas matérias nas competições de judô e vela, foi integrado ao pré-jogo, que destacou a animação na chegada dos torcedores ao Maracanã, complicada por uma leve chuva, além dos rigorosos procedimentos de revista para a segurança do público. Ainda dentro do estádio, Mauro Naves e Eric Faria, que acompanhavam o selecionado olímpico desde a preparação para os Jogos, fizeram entradas de outros pontos.

Antes da autorização do árbitro para o início da partida, Galvão fez questão de dissociar o confronto da semifinal da Copa do Mundo de 2014, mas enquanto a bola rolava, ele próprio acabou por rememorar o jogo, terminado em 7 a 1 para os alemães, por diversas oportunidades. Como quando Neymar abriu o marcador no Maracanã e o narrador lembrou que o atleta não estava presente no duelo em Belo Horizonte pelo Mundial. Na ida para o intervalo, ele classificou o jogo até então como “bom demais”, mas vaticinou que 1 a 0 “é um placar perigoso”, como depois comprovaria o empate alemão. Nessa ocasião, a entrada ao vivo de uma área externa foi do Boulevard Olímpico, instalado no Centro do Rio, que também reunia milhares de torcedores assistindo ao jogo por telões, situação repetida na área de convivência do Parque Olímpico, espaço esse mostrado durante a pausa entre o término do tempo regulamentar e o início da prorrogação. No começo do período extra, Galvão ainda saudou Tino e Arnaldo pela parceria que estabelecem há 27 anos nas transmissões da Seleção. Para ele, “uma vida”. O agradecimento foi após a dupla ter seguido no ar enquanto o locutor deixou brevemente a cabine “para respirar um pouquinho”. Ele disse que a emoção de um jogo entre Brasil e Alemanha trazia “uma gigantesca grandeza para essa decisão olímpica do torneio de futebol”, assim como também utilizou superlativos para comentar a participação direta da torcida, considerando que “um Maracanã lotado impressiona qualquer um”. Ao longo do tempo adicional, o público foi informado sobre as alterações na grade de programação da TV Globo, com duas novelas e os telejornais locais deixando de ser exibidos, o que gerou a situação objeto desta pesquisa, com a conexão direta entre a transmissão do futebol e o Jornal Nacional.

Figura 4. Integrantes da cobertura da TV Globo na final olímpica do futebol masculino (fonte: reprodução/TV)

“Depois de 42 anos de profissão e de emoções, transmitindo Mundiais [...] e tantas medalhas de ouro, [...] eu confesso que não achava que ia passar por um sufoco tão grande numa decisão”, relatou o narrador quando foi confirmada a disputa do ouro nas penalidades máximas. Galvão então relembrou outras ocasiões em que a Seleção foi bem sucedida nas cobranças de pênaltis, evocando o retrospecto especialmente da Olimpíada de Seul, em 1988, quando o time brasileiro eliminou a Alemanha Ocidental na semifinal. Ele ainda destacou o peso da conquista, até então conseguida apenas em três oportunidades pelos anfitriões. Foi com essa euforia que não somente o locutor global, como diversos outros, ao exemplo de Milton Leite no SporTV, Téo José na Band, Lucas Pereira na Record e Gustavo Villani na Fox Sports narraram o derradeiro pênalti cobrado por Neymar, que garantiu o título olímpico ao Brasil. Abaixo, segue a transcrição de algumas falas que ecoaram por milhões de lares brasileiros naquele sábado.

Neymar vai bater o pênalti que pode ser o gol da medalha de ouro. Ele beijou a bola. O público em pé no Maracanã. Toma longa distância o Neymar, ele contra Horn. Autorizado o capitão brasileiro. Partiu o Neymar, com paradinha. Lá vem ele, a batida... Gol! De ouro! Gol de ouro! O Brasil finalmente conquista a medalha de ouro! Com drama, nos pênaltis! Neymar bate a última cobrança! O Brasil é medalha de ouro no futebol!

Acabou a fila! Agora é chorar! O Brasil leva finalmente a medalha de ouro! Os jogadores choram de alegria, os alemães choram de tristeza. Neymar faz o último gol. Weverton, o herói que pegou a última penalidade da Alemanha. O Brasil faz 5 a 4 nas cobranças de pênaltis. (LEITE, Milton. SporTV. 20 de agosto de 2016. Disponível em https://drive.google.com/file/d/0B-TTI4lP-KwwWllEb2dqdEx0UTA/view)

Ah, Neymar! Vamos fazer agora, Neymar! Que responsabilidade, hein. Olha, se o Neymar fizer agora, o Brasil é medalha de ouro no futebol. Vamos lá! Capricha, Neymar! Vale o ouro inédito, vale sair da fila, vale sair do sofrimento, Neymar. Vamos lá, Neymar! Vai para a cobrança, pé direito, bateu... É ouro! O Brasil saiu da fila! Quem disse que o Brasil não ia ser campeão olímpico? O Brasil é campeão olímpico! O Brasil saiu da fila! É ouro! Quem disse que seria fácil? Não foi fácil! Foi no último pênalti e o Brasil consegue esse título inédito, era o único que faltava. Os jogadores caem no chão, os jogadores caem no gramado. O Rogério Micale, emocionado, chora. Uma conquista inédita para o Brasil dentro do Maracanã! Um Maracanã lotado, a festa é completa. (PEREIRA, Lucas. Record. 20 de agosto de 2016. Disponível em https://drive.google.com/file/d/0B-TTI4lP-KwwTmVycE5lVGJzUVE/view)

Posiciona a bola o Neymar. Ele e o Timo Horn. Se fizer, acabou. O Neymar toma muita distância. Autorizado! Aperta o play, Neymar! Essa é a nossa hora, Neymar! Vai para bola o Neymar, com paradinha. Correu, bateu... O ouro é nosso! O ouro é nosso! O Brasil é campeão, é campeão, é campeão! O ouro é nosso! Explode coração na maior felicidade! Explode o Maracanã! O Neymar é abraçado. O torcedor olha para ele e fala que o melhor lugar do mundo é dentro desse abraço. Faz a festa o Micale, chora o Micale. Chegamos lá!

Batemos na trave três vezes, agora o Maracanã é nosso, o ouro é nosso. O Brasil finalmente é medalha de ouro no futebol. O Brasil sofreu, sofreu muito, mas os deuses do futebol sabem o que fazem, esperaram até o último momento, esperaram para essa emoção sua, Micale. Obrigado, Micale! A nossa essência está voltando, o futebol de quatro atacantes, o futebol de volante que sabe jogar, o futebol que busca a rede, o futebol que faz essa festa. Essa comemoração, ela tem um sentido muito maior. Não é só uma medalha de ouro, é o verdadeiro futebol brasileiro voltando, a nossa essência. E deixa essa galera gritar que está lindo demais! É campeão, é campeão, é campeão. (JOSÉ, Téo. Band. 20 de agosto de 2016)

A maior estrela da Olimpíada, lá vem o camisa 10... É fazer e comemorar o ouro inédito, Neymar! Desafoga o povo brasileiro! Paradinha, Neymar, para o gol! É ouro! Fim do jejum! O Brasil é campeão olímpico pela primeira vez! Não tem mais nada que falte na nossa galeria! O Brasil campeão do mundo, da Copa América, da Copa das Confederações, é também campeão olímpico em casa! O que é o mundo do futebol? Ele é redondo, ele dá voltas! Um dia Alemanha, o outro Brasil. Desafoga, torcedor brasileiro, o ouro é seu! (VILLANI, Gustavo. Fox Sports. 20 de agosto de 2016. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=Fal9eAmd358)

Galvão Bueno, porém, como faz há décadas com os momentos mais destacados do esporte brasileiro, mesmo os tristes, como visto com os funerais da delegação da Chapecoense, eternizou em sua voz o registro mais marcante do evento.

Bora, Neymar! Bora, Neymar, que é do ouro! Beija a bola! Ele e o Horn. Autoriza o árbitro. Ele não tem pressa, vai dar aquela paradinha dele, deu. Partiu, bateu, acabou! É ouro, é ouro, é ouro para o Brasil! Cinco a quatro, nos pênaltis! O Weverton vestiu a roupa do Taffarel, foi lá para pegar. Olha, quantos e quantos anos esperando por essa conquista.

Na primeira final, em 84, a França foi melhor, ganhou por 2 a 0. Depois, na final de 88, a União Soviética foi melhor. Na final de 12, o México foi melhor. Só que hoje o Brasil foi muito melhor que a Alemanha.

O Neymar chora, o Renato Augusto chora, muita gente chora. Foi absolutamente merecida essa conquista dessa final. Se agigantou na última cobrança o goleiro Weverton, e o Neymar teve a frieza de definir. Sobe o som que eu quero ouvir a torcida brasileira! É campeão, é campeão, é campeão.

Eu deixo sempre Copa do Mundo em separado de Olimpíada. Mas é um pouco evidente que não dá para dizer que não seja um momento especial. Há 66 anos, esse estádio não era esse. Foi mantida a parte externa, ele foi reconstruído, mas viveu uma grande frustração, a perda da Copa de 50. Não é a mesma coisa, claro, mas vive 66 anos depois uma alegria esfuziante na conquista do ouro olímpico. Escutem mais uma vez o torcedor brasileiro. O campeão voltou, o campeão voltou, o campeão voltou. (BUENO, Galvão. TV Globo. 20 de agosto de 2016. Disponível em https://drive.google.com/file/d/0B-xHhJylKrIFQWNNMkRnN1pQWE0/view)

As declarações de Galvão Bueno revelam a sua facilidade em não só descrever e narrar o que acontece em campo, como também auxiliar, de modo exitoso, na formação de uma atmosfera persuasiva para que ocorra a adesão do telespectador ao discurso que profere. Para isso, vale-se do conhecimento que tem a respeito do futebol e de sua história, como ao dizer de que maneira costumam se portar em campo os jogadores mais expressivos. Ele se aproxima do público televisivo através do vocabulário coloquial, como quando a expressão “bora” substitui o “vamos”. Utiliza-se também do pedido de “eu quero ouvir a torcida brasileira” para amplificar o momento eufórico no estádio para os demais torcedores da Seleção. Com naturalidade, simula falar com os telespectadores como se estivesse emitindo ali, em plena narração, sendo capaz disso, um recado para Neymar. Percebemos também em variados momentos a eficácia do emprego da metáfora, figura de linguagem capaz de gerar aproximação histórica, apontando o time olímpico como capaz de um renascimento da Seleção Brasileira também com seu time principal.

As falas que mostram como o narrador se coloca na posição de conhecedor do esporte embutem também certo preparo ao público, numa presunção da familiaridade do telespectador com aspectos históricos do futebol. Apesar de se manifestar pessoalmente, o discurso de Galvão é acompanhado por todo o simbolismo da empresa que representa. Ao ser mais ouvido que a soma de seus concorrentes diretos, sua visão se impõe com certo oficialismo. Na transmissão em que a Globo fez 38,4 pontos de audiência na Grande São Paulo segundo os dados da Kantar Ibope, Record e Band somadas não chegaram a atingir metade desse índice em nenhum instante. O jornalista Daniel Castro, no site Notícias da TV, afirma que mesmo em momentos com fatos transcorrendo ao vivo, todo o conteúdo do JN, onde Galvão prosseguiu seu discurso pouco depois, é avalizado pela cúpula do jornalismo da emissora103.

O Jornal Nacional [...] é extremamente amarrado. Tudo o que veicula, até mesmo uma nota pelada (como são chamadas as notícias lidas pelos apresentadores, sem imagens), passa pelo crivo de Silvia Faria, diretora nacional de jornalismo, e Ali Kamel, diretor responsável por seu conteúdo. (Disponível em http://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/opiniao/analise-amarrado-jornal-nacional-nao-sabe-correr-contra-o-tempo-15200)

Diante da responsabilidade em se pronunciar sob forte emoção para milhões de telespectadores por todo o país, Galvão evoca a historicidade, se colocando como um sabedor do passado para assim apoiar a sua fala no presente. Ele, porém, não se apresenta de maneira superior por causa desse conhecimento. Ao não apenas ter de convencer o público, mas também o seduzir, numa clara técnica manipulativa, o narrador opta em mostrar proximidade. Essa característica já havia sido identificada pela fonoaudióloga Claudia Cotes em entrevista ao portal UOL104 em novembro de 2013, quando a especialista apontou que “a fala dele hoje é mais natural, mais próxima da fala espontânea”, ao fazer uma comparação sobre o estilo do narrador ao longo de suas três décadas de carreira.

Figura 5. Inserções visuais da TV Globo durante a final olímpica do futebol masculino (fonte: reprodução/TV)

Na final olímpica, Galvão prosseguiu a narrativa sendo descritivo, reproduzindo obviedades evidenciadas nas imagens, que eram geradas de forma igual pela OBS (Olympic Broadcast Services) para todas as emissoras detentoras dos direitos de transmissão. A decisão do futebol masculino, por exemplo, pelo confronto entre duas equipes tradicionais, teve transmissão em televisão aberta em diversos outros países, como a China e a Argentina.

Figura 6. Globo, Band, Record e SporTV retransmitem o sinal gerado pela OBS na final do futebol masculino (fonte: reprodução/TV)

Uma evidência sutil do diálogo com um público que não é leigo no assunto acontece ao evocar “aquela” paradinha por parte do Neymar, demonstrando o acompanhamento de outras cobranças do jogador, que habitualmente utiliza essa tática antes das cobranças de pênaltis. Outro momento em que Galvão reforça sua imagem sabedora sem necessidade de alongar o conteúdo para isso é ao comparar os goleiros Weverton e Taffarel. Na simples referência, o locutor retoma ao público de forma implícita outros momentos decisivos da Seleção Brasileira em circunstâncias similares. Em um instante anterior, o narrador já havia feito a junção entre os nomes ao clamar antes da cobrança: “sai que é sua, Weverton!”, relembrando o bordão utilizado por ele próprio nos anos 1990, quando Taffarel fez decisivas defesas na Copa do Mundo dos Estados Unidos (contra a Itália, na final) e da França (contra a Holanda, na semifinal).

Outro ponto peculiar da performance se dá ao Galvão gritar no instante mais consagrador pelo “ouro”, assim situando o telespectador habitual do futebol ao clima da competição olímpica, diferenciando a conquista das demais, em que o festejo costuma ser entoado destacando o “campeão”. O narrador admitiu em entrevista à revista Istoé, em julho de 2010, após a Copa do Mundo da África do Sul, que prioriza o sentimento em suas transmissões.

É o que sempre digo, sou um vendedor de emoções. O meu produto é o esporte e tenho que vendê-lo com a maior paixão possível. Mas ando sempre no fio de uma navalha. De um lado a paixão, do outro a realidade. [...] Sou a voz da Globo no esporte nos últimos 30 anos. Isso é uma coisa que pesa muito, para o bem e para o mal. [...] (Disponível em http://istoe.com.br/86786_TIVE+VONTADE+DE+BATER+MAIS+/)

Figura 7. Jogadores e técnico da Seleção Brasileira choram após a conquista do ouro olímpico (fonte: reprodução/TV)

Ao fazer a retrospectiva sobre as trajetórias da Seleção Brasileira em Jogos Olímpicos e até mesmo do estádio do Maracanã, Galvão amplia o elemento histórico. É como se demonstrasse o quanto a chegada ao simulacro de Olimpo, no caso, o topo do pódio, foi árdua, mas com merecimento, o que faz questão de frisar, num momento em que julga não apenas o resultado, mas o mérito que considera ter levado até ele. Porém, como relatado pelo próprio “vendedor de emoções”, sua visão vai além dos fatos. Se valendo das cenas exibidas, ele destaca as lágrimas dos atletas e da comissão técnica, usando da figuratividade para buscar envolver o telespectador no ambiente do estádio, muitas vezes deixando a imagem falar por si, como quando, como referido, silencia para que o público ouça o som dos gritos emitidos pelos milhares de torcedores. Na cerimônia de abertura, ele repetiu essa prática por diversas vezes para que fosse destacado o acompanhamento dos presentes aos shows musicais realizados. Dessa forma, o locutor referenda o seu sentimento, mostrando que ele é compartilhado por muitos outros, numa forma de convite ao público para que ele se sinta igualmente parte dos festejos. É por isso que Fiorin (2004, p. 5), defende uma teoria particular para as mídias, já que, segundo ele, “ao contrário dos textos verbais, os textos midiáticos são produzidos por diferentes enunciadores”, como se constata regularmente nas transmissões esportivas, especialmente nas de grande porte, tal qual a exemplificada por uma final olímpica. Para Nascimento (2002, p. 50), “a comunicação humana tem múltiplos e variados aspectos que não podem ser apreendidos senão no processo enunciativo”. O futebol amplia essa percepção em diversos sentidos, já que igualmente é construído a partir de vários outros elementos.

O esporte é um fenômeno processual, social, econômico, cultural e historicamente construído. Por conta das feições e significados sociais que o esporte apresenta na sociedade atual, como uma atividade física universal presente na maioria dos povos e culturas, independente de língua, cor, credo, posição social, sexo e idade, tem se popularizado cada vez mais, e com essa aceitação e apropriação redimensionado sua estratégia para a mercantilização e espetacularização. (RIBEIRO, L., 2007, p. 132)

Figura 8. Público no Maracanã durante a final olímpica do futebol masculino (fonte: arquivo pessoal)

Em seu prosseguimento do discurso que consagrava o momento durante os festejos, quando afirmou que “há muito tempo não se juntavam tantos milhões de brasileiros em frente a uma televisão para assistir a Seleção Brasileira”, Galvão constatou o poder influenciador da equipe, dizendo que “não interessa se politicamente a coisa anda muito complicada, muito esquisita, mas a instituição Seleção Brasileira, ela é muito forte. Não os homens que a dirigem, mas a instituição”, realçando assim a importância do time nacional de futebol para o país. Os números de audiência foram indicados por ele como “uma resposta imediata” exemplificando que “o torcedor estava esperando que a Seleção voltasse a jogar com esse empenho”. Quando a vice-campeã equipe alemã foi fortemente aplaudida pela torcida, ele também direcionou seu foco para os críticos do modo brasileiro de torcer. Tino Marcos ressaltou que o jogo foi disputado com “muita lisura por parte também dos alemães, num roteiro perfeito”.

Da Praça Mauá, a repórter Mônica Sanches trouxe ainda a informação do recorde de público do Boulevard Olímpico, com a presença de 200 mil pessoas no espaço num “dia para gente guardar para sempre”, como definiu Tino ao chamar a entrada ao vivo. A aglomeração foi considerada “a maior festa da Olimpíada”, ao que Galvão ponderou que “uma Olimpíada pode chegar ao seu final, mas as Olimpíadas não chegam ao fim. O espírito olímpico continua sempre”. No instante da subida da Seleção ao ponto mais alto do pódio, uma nova observação temporal: “foram 120 anos para que essa medalha saísse”. Logo depois, o Hino Nacional, já habitualmente entoado pelo Maracanã no começo dos jogos, dessa vez ficou reservado também como o momento de apoteose, com o estádio ainda em sua lotação máxima. O final do Hino foi a deixa para que Galvão anunciasse “uma edição absolutamente especial do Jornal Nacional, que hoje fecha suas três semanas de cobertura olímpica”.

5.2. As semanas olímpicas no Jornal Nacional

O Jornal Nacional é a principal vitrine do telejornalismo da Globo, em que a emissora apresenta os seus pronunciamentos editoriais e interesses comerciais, exibidos em horário nobre105. Para o seu apresentador e editor-chefe William Bonner (2009), o alcance é tamanho que “o JN está disponível a todos os brasileiros com acesso à energia elétrica e uma televisão diante dos olhos”.

Embora em queda contínua, o JN ainda tem uma audiência significativa, continuando a ser o telejornal mais popular do país. Em 20 de agosto de 2016, dia da final olímpica do futebol, por exemplo, embalado pela excelente entrega de audiência, foram 35,4 pontos de audiência de acordo com a Kantar Ibope106. Cada ponto equivalia a 67.113 lares na Grande São Paulo em 2016. Ao longo do ano, somente a edição de 29 de novembro, dia do desastre aéreo da Chapecoense107, chegou perto, com 33,9 pontos.

Ressalve-se que o JN costuma se sobressair em ocasiões assim, porém vem tendo uma perda de relevância média expressiva nas edições do cotidiano. Em 2000, possuía 39,2 pontos habitualmente. Em 2010108, eram 29,8. Em 2015, 24,8. O movimento de migração do público para outras plataformas vem afetando toda a televisão aberta, sendo eventualmente mais sentido pela Globo de forma proporcional pelo efeito comparativo com seu largo monopólio de outrora. Em 2000, o canal fechou com 23,5 pontos de média anual em sua programação como um todo. O número era de 17,4 em 2010 e 13,8 em 2015.

Com esses índices, o telejornal se porta como a principal referência no telejornalismo do Brasil, não tendo nenhuma outra atração do gênero em rede nacional diariamente, nem mesmo dentro da própria da TV Globo, com números próximos, o que automaticamente o coloca num patamar de grande alcance diante de toda a população, já que, de acordo com a mais recente edição da Pesquisa Brasileira de Mídia, realizada em 2016 pelo Ibope a pedido da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, 89% dos brasileiros enxergam a plataforma como uma das maiores fontes de informação no cotidiano. Para 77%, a audiência diante do aparelho televisor é diária. Os números resultam uma amostra com maiores de 16 anos de todas as classes sociais nas 27 unidades da federação, com a realização de 15.050 entrevistas domiciliares. Entre outras questões levantadas, a maioria dos brasileiros apontou espontaneamente a TV Globo como a emissora preferida.

A TV é o meio de comunicação mais acessado pelos entrevistados, sendo mencionada pela quase totalidade da amostra. Pouco mais de três quartos dos entrevistados assistem TV todos os dias da semana. O acesso é mais frequente entre segunda e sexta-feira, e o tempo médio de acesso supera as três horas diárias. As emissoras da TV aberta são as mais assistidas, principalmente a Rede Globo. [...]

Também foi avaliado, no presente estudo, o grau de confiança nas notícias que circulam nos diferentes meios de comunicação; mais da metade dos entrevistados que assistem TV confiam sempre ou muitas vezes nas notícias veiculadas por esse meio. [...] (Disponível em http://www.secom.gov.br/atuacao/pesquisa/lista-de-pesquisas-quantitativas-e-qualitativas-de-contratos-atuais/pesquisa-brasileira-de-midia-pbm-2016.pdf/view)

Criado no auge do regime militar, justamente na busca da criação de uma rede nacional para a difusão de notícias, o Jornal Nacional busca falar com todos os brasileiros, do Oiapoque ao Chuí, sem distinções de gênero ou classe social, por exemplo. Por sua influência, chega a ser definido como “uma espécie de relógio social que organiza as rotinas, destaca os rituais e enfatiza os papéis na vida familiar” (PIRES, 2009, p. 51).

A forma de enunciação do JN pode ser tida como um discurso unificador, em que o receptor poderá acessar as principais informações de que necessita, ao menos na opinião dos seus editores, que praticam seguidamente teorias como a do agendamento, como visto com a preparação de diversos materiais que anteciparam elementos da cobertura olímpica. A atração suscita isso de forma confiável, utilizando uma linguagem culta, porém acessível. É um produto pensado e realizado de forma macro para que seja facilmente compreensível pelo brasileiro médio.

Na edição de 20 de agosto de 2016, o dia alvo desta pesquisa, o noticiário foi apresentado por Renata Vasconcellos109, do estúdio do Parque Olímpico, e Galvão Bueno, que seguiu no Maracanã, o palco da final do futebol masculino.

O narrador mais popular do país é uma referência110, sinônimo de relevância para determinadas ocasiões111, já que há décadas presencia todos os principais eventos esportivos, especialmente Copas do Mundo e Jogos Olímpicos. Em 2014 e 2016, passou a acumular, além da narração das transmissões, a co-apresentação do Jornal Nacional durante os grandes eventos, agregando a sua imagem ao telejornal.

A credibilidade do telejornal é influenciada diretamente pela confiança que os espectadores depositam nos seus apresentadores. Embora possam ser considerados, como em qualquer outro formato televisual, a “cara” do programa que comandam, os apresentadores do telejornal, diferentemente dos profissionais que desempenham este papel em outros gêneros, constroem sua imagem numa constante tensão entre a propalada exigência de “objetividade” e imparcialidade da prática jornalística e a autopromoção e glamourização inerentes à televisão. Se, antes, os apresentadores primavam pela discrição em relação à sua vida pessoal, hoje, muitos deles se comportam como celebridades, sendo objeto frequente de revistas, sites e programas de TV dedicados aos “famosos” ou a fofocas do meio artístico. (FECHINE, 2008, p. 69)

A relevância dos eventos para o qual Galvão é escalado vem crescendo desde os anos 1990, quando ele destacou pelo acompanhamento de dois fatos que entraram para a história brasileira no intervalo de poucas semanas. Foi por sua voz que o Brasil acompanhou o acidente fatal que tirou das pistas para sempre o tricampeão mundial de Fórmula 1 Ayrton Senna. Pouco depois, no mesmo ano de 1994, seus gritos acabaram por embalar a conquista do tetracampeonato mundial de futebol. Sua imagem se tornou conhecida mundialmente graças a companhia sempre frequente de ídolos brasileiros. Nessa edição do torneio, acabou mostrado por TVs de todo o mundo, que desejavam exibir a reação de Pelé ao quarto título mundial da Seleção.

Em 2014, se tornou alvo das câmeras por estar acompanhado de Ronaldo quando esse foi superado por Miroslav Klose, que durante a semifinal da Copa do Mundo (Alemanha 7, Brasil 1) ultrapassou o brasileiro e se tornou o maior artilheiro da história do torneio. No Mundial anterior, realizado na África do Sul, ficou comprovada a falta de unanimidade em torno de Galvão, com uma campanha no Twitter112 pedindo por seu silêncio. O episódio foi tratado em programas da própria Globo.113 Dois anos depois, conforme relatado no capítulo inicial, a TV Globo não transmitiu os Jogos Olímpicos pela primeira vez em quatro décadas, mas nem por isso ele ficou distante de Londres, comandando um programa especial no canal por assinatura SporTV.

Durante os Jogos Olímpicos, ele costuma acompanhar os mais variados eventos. Em 2016, narrou conquistas brasileiras na ginástica e no boxe e seguiu os passos de estrangeiros, como Michael Phelps e Usain Bolt, respectivamente na natação e no atletismo, além das cerimônias de abertura e encerramento, fora a apresentação do Jornal Nacional, que passou a fazer desde 1º de agosto, marcando o início do mês dos Jogos Olímpicos. No dia, a principal matéria do telejornal foi um perfil sobre a atacante Marta, da Seleção feminina, fechando uma série especial do repórter Pedro Bassan114 sobre alguns dos atletas com mais chances de conquistar medalhas. A reportagem sobre a jogadora encerrou a sequência para demarcar o fim da cobertura dos preparativos e expectativas, já que no dia seguinte se iniciariam, justamente com a estreia do selecionado de futebol das mulheres brasileiras, as competições de fato.

As matérias, longas para o padrão do jornalismo factual, com até dez vezes mais tempo de exibição que outras, tinham edição diferenciada. A produção da série de dezesseis reportagens demandou, de acordo com a emissora, 21 viagens e 170 horas de gravação ao longo de um ano. Além de Marta, foram exibidos perfis sobre os seguintes atletas:

  • Marcelo Melo e Bruno Soares – tênis (duplas)

  • Leandrinho – basquete

  • Duda Amorim – handebol

  • Serginho – vôlei – ouro em Atenas 2004 e na Rio 2016, prata em Pequim 2008 e Londres 2012

  • Isaquias Queiroz – canoagem – duas pratas e um bronze na Rio 2016

  • Larissa – vôlei de praia – bronze em Londres 2012

  • Robert Scheidt – vela – ouro em Atlanta 1996 e Atenas 2004, prata em Sidney 2000 e Pequim 2008, bronze em Londres 2012

  • Thiago Pereira – natação – prata em Londres 2012

  • Fabiana Claudino – vôlei – ouro em Pequim 2008 e Londres 2012

  • Sarah Menezes – judô – ouro em Londres 2012

  • Fabiana Murer – atletismo (salto com vara)

  • Ana Marcela Cunha – maratona aquática

  • Marcus Vinicius D'Almeida – tiro com arco

  • Yane Marques – pentatlo moderno – bronze em Londres 2012

  • Arthur Zanetti – ginástica artística (argolas) – ouro em Londres 2012 e prata na Rio 2016

Nenhum perfil de atleta do futebol masculino foi exibido na série de preparação olímpica, já que a proposta original do formato surgiu exclusivamente para a categoria, na Copa do Mundo de 2002, sob a nomenclatura de Família Scolari, referindo-se ao então técnico do time. Desde então, o projeto repete-se em todas as Copas, sendo somente na Rio 2016 expandido pela primeira vez para outras modalidades.

Figura 9. Renata Vasconcellos e Galvão Bueno no estúdio da TV Globo no Parque Olímpico (fonte: reprodução/TV)

A partir da edição de 24 horas depois, em 2 de agosto, o foco da cobertura passou a ser factual, destacando os principais eventos relacionados aos Jogos Olímpicos, fossem eles ligados ou não ao esporte, assim continuando até o dia 20, de forma a completar dezessete edições analisadas nessa relação direta com a Olimpíada. A prática de concentrar as atenções em temas históricos é defendida por William Bonner em seu Jornal Nacional – Modo de Fazer (2009).

Você sabe: o Jornal Nacional é visto por muitos milhões de pessoas – e as pessoas são muito diferentes entre si. Assim, mesmo que a audiência do JN cresça, nessas ocasiões, é também muito comum recebermos críticas ao tempo que dedicamos a eventos de grande porte. [...] A queixa mais frequente é quanto à suposta traição do nosso compromisso: “Será que não acontece mais nada no Brasil enquanto se disputa uma Copa do Mundo?”. [...]

O motivo das críticas é o fato de a proporção de tempo entre os assuntos dessas edições fugir completamente da rotina. São as edições atípicas. Mas o que procuramos fazer, por exemplo, numa Copa do Mundo, é trazer ao público as principais informações do evento. [...] E é exatamente isso que a maioria dos telespectadores espera de nós: que o Jornal Nacional seja uma espécie de diário daquele evento. [...]

Isso fica evidente quando a análise de conteúdo do Jornal Nacional se dá com um filtro eficiente: a história de nosso tempo. Vale, de novo, aquela pergunta que nos fazemos todos os dias no JN: daqui a meio século, ao vasculhar nossos arquivos, o que será que um historiador estará procurando na edição de hoje? (BONNER, 2009, p. 185-187)

O interesse comercial também foi notório nesse período, com investimento direcionado de marketing sobre a temática olímpica nesse período. No caso da TV Globo, dois terços das patrocinadoras da cobertura também são também do COI, mostrando uma presença maciça no meio esportivo ao longo de todo o ciclo. Essas empresas possuíam prioridade no direito de compra. Pela aquisição do espaço, elas foram as únicas marcas exibidas em todos os intervalos dos eventos esportivos, com alterações eventuais apenas de ordenação e representação. Nos telejornais e programas regulares que exploravam a temática olímpica, como o Jornal Nacional, todavia, o intervalos eram divididos com os anunciantes tradicionais das atrações.

Empresa

Marca

Patrocinador oficial dos Jogos?

Utilizou temática dos Jogos?

Procter & Gamble

Pantene

Sim

Não

Coca-Cola

Coca-Cola

Sim

Sim

Nestlé

Kit Kat

Não

Não

NET/Claro/Embratel

Claro

Sim

Sim

Fiat

Fiat

Não

Não

Bradesco

Bradesco

Sim

Sim

Tabela 1. Relação entre marcas patrocinadoras da TV Globo e da Rio 2016 (fonte: elaborada pelo autor)

Na terça, 3, um dos destaques no JN foi chegada do fogo olímpico ao Rio de Janeiro, após o acompanhamento por parte do telejornal de forma diária ao longo dos três meses de revezamento da tocha pelo país, sendo essa, por exemplo, a única pauta não relacionada com a vida política nacional a ser exibida pelo telejornal em 12 de maio, dia em que Dilma Rousseff foi afastada pelo Senado Federal da Presidência e Michel Temer assumiu de forma provisória o cargo. Na ocasião, nem mesmo a previsão do tempo foi ao ar. A repórter Lilia Teles acompanhou o trajeto do veleiro pela Baía de Guanabara até a recepção na cidade do Rio de Janeiro, em matéria de 2m03s. Já o VT sobre a estreia da Seleção feminina de futebol, uma vitória por 3 a 0 contra a China em jogo com público considerável no Engenhão, marcando o evento inicial com brasileiros competindo na Rio 2016, ganhou alguns segundos a mais na reportagem de Maíra Lemos. Na quarta, 4, a estreia foi da Seleção masculina de futebol, que empatou em 0 a 0 com a África do Sul em jogo no Mané Garrincha, estádio de Brasília, abriu a edição em uma reportagem de Eric Faria. 6m02s foram dedicados ao futebol na ocasião, exatamente o mesmo tempo dedicado a repercutir o retorno da tocha olímpica para a cidade do Rio de Janeiro após parte do revezamento ocorrer em localidades próximas. O trecho mais destacado na matéria de 2m01s feita por Hélter Duarte foi a condução da tocha por Mário Jorge Lobo Zagallo, mesmo com o ex-jogador e técnico da Seleção, então aos 84 anos, não se encontrando na plenitude de sua saúde. Perguntado se “vamos ganhar o ouro (no futebol masculino) dessa vez?”, ele fez o prenúncio da conquista: “tem que ser, uma hora vai chegar”. O restante do tempo sobre a chama ficou para um clipe que encerrou a edição ao som de Vida de Viajante, de Luiz Gonzaga, a música oficial do trajeto da tocha olímpica pelo Brasil, num exemplo de junção de diversos enunciadores para a criação de um objeto comum. O clipe, que destacou paisagens das diferentes regiões do país, mostrando a integração nacional buscada desde o surgimento do JN, contou também com rápidos depoimentos de condutores e espectadores.

Figura 10. Capturas do clipe do Jornal Nacional sobre o revezamento da tocha olímpica (fonte: reprodução/TV)

A tocha tá viajando pelo Brasil há 95 dias, percorreu 327 cidades, foram mais de 26 mil quilômetros de muita emoção.

Falta só 1 dia para a cerimônia de abertura. Quantas cenas lindas a gente viu nessa viagem da tocha, quanta gente feliz. [...]

♫ Lauê, lauê, lauê, lauê / Minha vida é andar por esse país / Pra ver se um dia eu descanso feliz / Guardando as recordações / Das terras onde passei / Andando pelos sertões e dos amigos que lá deixei ♫ / Indescritível esse momento / Para gente, é uma alegria muito grande / Uma coisa que ficou marcada, vai ficar marcada para sempre / Muito emocionado / É tudo muito grandioso / Um pedido inesperado e eu tô muito feliz / Esse espírito todo, de união e fraternidade, a tocha representa a união dos povos, né? Então acho que isso pega na gente / Essa chama é um sonho humano, é de Zeus. A Olimpíada vem de quatro em quatro anos nos lembrar quais são os nossos ideais como comunidade humana / E eu deixo aqui uma mensagem: que o mundo inteiro se envolva na paz, na harmonia, numa prosperidade mútua de todos os povos do mundo / ♫ Chuva e sol, poeira e carvão / Longe de casa, sigo o roteiro/ Mais uma estação / E a alegria no coração / Minha vida é andar por esse país / Pra ver se um dia descanso feliz / Guardando as recordações / Das terras onde passei / Andando pelos sertões e dos amigos que lá deixei ♫ / Carregar somente mensagens positivas. Acho que isso é a coisa mais bonita dos Jogos / Alegria, paz, carinho, responsabilidade / Viva o Rio / Somos todos olímpicos! (Jornal Nacional. TV Globo. 4 de agosto de 2016. Disponível em http://g1.globo.com/jornal-nacional/videos/t/edicoes/v/veja-os-melhores-momentos-do-trajeto-da-tocha-olimpica/5213011/)

Encerramentos musicais no JN são absolutamente raros, até mais do que finalizações silenciosas sinalizando o luto por mortes de personalidades ou pelo acontecimento de grandes tragédias, evitando-se romper a seriedade imposta pelo fechamento da edição. A inclusão da música denota a tentativa de se estabelecer uma atmosfera de adesão do telespectador em relação ao evento.

A sexta, 5, ficou marcada com uma apresentação ao vivo do Maracanã, por Bonner e Renata, com a edição começando excepcionalmente às 19h, funcionando como um pré-show da cerimônia de abertura, que começaria uma hora depois. A edição antecipou detalhes sobre o evento, sendo que em seu final trouxe um furo de reportagem, revelando ao público brasileiro um dos segredos mais bem guardados da cerimônia, inclusive aos próprios presentes no estádio, revelando, mesmo que ainda de forma indireta, quem iria acender a pira olímpica: o maratonista Vanderlei Cordeiro de Lima, que foi definido por Galvão Bueno como “um nome acima da cor das medalhas”, resumindo, para ele, o significado do espírito olímpico. Galvão apresentou a cerimônia na Globo ao lado de Glória Maria, Marcos Uchôa e Renato Ribeiro. No dia seguinte, sábado, 6, 13m14s foram dedicados para a repercussão do evento no JN. Bonner (2009, p. 148) explica que esse tipo de cobertura “esmagadoramente majoritária” é atípico, sendo reservado para fatos de “altíssima relevância”.

A cerimônia de abertura da Olimpíada foi comentada hoje ao redor do planeta. A Rio 2016 mostrou ao mundo uma grande festa, uma festa linda, admirada inclusive pela beleza e pela organização.

Um espetáculo impecável contou ao mundo do Brasil, levou mensagens de amor e respeito ao meio-ambiente e também uma identidade e um charme bem brasileiros. (Jornal Nacional. TV Globo. 6 de agosto de 2016)

A cobertura do Jornal Nacional retornaria na segunda, 8, já que aos domingos o principal espaço do jornalismo na TV Globo fica com o Fantástico. Nesse dia, a notícia mais importante para o JN foi a conquista da medalha de ouro pela judoca Rafaela Silva, com 17m23s reservados a comemorar a primeira vitória dourada do Brasil na Rio 2016. Além da matéria de Tino Marcos sobre o feito, a própria Rafaela foi entrevistada, ao vivo, no estúdio da emissora no Parque Olímpico.

Na terça, 9, houve a exceção entre esses dias de cobertura. Apesar da totalidade de pautas olímpicas ter seguido abrangendo a maior parte da duração do telejornal, o assunto específico a aparecer de forma mais intensa foi a sessão de pronúncia do Senado Federal, que autorizou o julgamento no plenário da então presidente Dilma Rousseff por crimes de responsabilidade.

A quarta, 10, trouxe como fato de maior espaço no JN uma notícia ligada ao Rio de Janeiro olímpico, mas sem ligação com o esporte. O assunto foi o ataque contra um carro da Força Nacional após ele entrar por engano na Vila do João, localidade controlada por traficantes. Exatos quatro minutos foram dedicados para o tema.

Na quinta, 11, novamente o brilho das conquistas nos tatames retomou o espaço do esporte. A judoca Mayra Aguiar conquistou a medalha de bronze. Com tempo mais enxuto, 5m44s, foi repetido o esquema adotado com a colega de modalidade, Rafaela Silva, iniciando o fato com uma reportagem e depois trazendo a convidada para uma entrevista ao vivo no estúdio. Alguns outros detalhes se repetiam de forma diária, como a presença de um clipe com imagens marcantes do dia e a agenda das competições seguintes que teriam transmissões na televisão, geralmente mais ao final da edição. A sexta-feira, 12, também foi dia de bronze no judô, com Rafael Silva, o Baby, mas ganhou grande espaço na edição do dia (2m42s), a matéria de José Roberto Burnier sobre o clima de harmonia entre brasileiros e argentinos nas arquibancadas, contrariando expectativas das forças de segurança.

No dia seguinte, o sábado, 13, pautas mais generalistas também seriam fortes, com destaque ao acompanhamento do trajeto dos torcedores ao Parque Olímpico e ao trabalho dos jornalistas de todo o mundo nas instalações. Foram 5m59s aos temas, abordados respectivamente por Lília Teles e Carlos de Lannoy. A matéria sobre o transporte mostrou a aprovação ao sistema de metrô, destacando o recorde histórico do sistema de mais de 1 milhão de passageiros levados no dia anterior. A mesma abordagem com dados grandiosos foi utilizada para se referir ao trabalho dos cerca de 25 mil profissionais de imprensa credenciados. Um dos destaques foi o estúdio da rede estadunidense NBC na praia do Leme, que acabaria por se tornar também um ponto de encontro na orla.

Na edição de segunda-feira, 15, 6m18s foram reservados para celebrar a medalha de prata de Arthur Zanetti nas argolas. Depois do JN, a noite da segunda traria ainda a conquista máxima de Thiago Braz no salto com vara, largamente repercutida na edição do dia 16, terça-feira, com 10m29s dedicados ao tema. A entrevista com ele, porém, ocorreu via link, do Engenhão, onde o atleta subiria ao lugar mais alto do pódio para receber a medalha de ouro, em momento exibido ao vivo ainda dentro do telejornal, com Galvão Bueno demonstrando extrema empolgação pela conquista.

O que esse menino fez foi uma coisa inédita. Eu, em toda minha vida, nunca vi ninguém superar 10 centímetros de uma vez, da melhor marca que ele tinha na vida. [...]

Nós queremos agradecer o que você fez. Eu narrei muitas medalhas de ouro na vida, mas talvez tenha sido a mais fantástica que eu vi, não tive a possibilidade de fazer a narração. (Jornal Nacional. TV Globo. 16 de agosto de 2016)

Na quarta-feira, 17, o futebol, que havia tido dessa vez a partida decisiva à tarde, para não coincidir com o jogo brasileiro pelas quartas de final do vôlei masculino, voltou a ser destaque. Na tabela da Olimpíada, feita pelo COI em acordo com as emissoras detentoras dos direitos de transmissão, as duas modalidades mais populares do Brasil foram priorizadas pela TV Globo para o horário mais nobre, depois do JN e da novela das 21h, então Velho Chico, visando audiência nas exibições ao vivo. Nesse dia, após golear Honduras por 6 a 0, o Brasil se garantiu na final do torneio olímpico de futebol masculino pela quarta vez em sua história. Foram 4m27s dedicados para o time entre a reportagem de Eric Faria e a participação ao vivo de Mauro Naves da entrada do hotel em que se acomodava a delegação.

Já a quinta-feira, 18, foi da vela e da natação. Mas por motivos bem distintos. A vitória da dupla Martine Grael e Kahena Kunze na classe 49erFX, por apenas 2 segundos de diferença sobre a dupla da Nova Zelândia, ganhou 6m32s. Menos da metade dos 17m45s dedicados ao escândalo envolvendo os nadadores americanos supostamente roubados em um posto de gasolina na região da Barra da Tijuca. Reportagem de Bette Lucchese mostrou a normalidade na ação dos presentes no ambiente, descartando a ideia da ação de criminosos no local. Outra matéria, de Paulo Renato Soares, exibiu a reação com vaias e gritos de “mentiroso!” em inglês aos nadadores após saírem do depoimento prestado na Delegacia de Atendimento ao Turista. Foram revelados ainda trechos do depoimento em que os colegas de Ryan Lochte o colocam como responsável pela divulgação da mentira. Um terceiro VT sobre o mesmo assunto, algo raro, foi dedicado para Felipe Santana repercutir de Nova York a reação da imprensa estrangeira, que inicialmente havia atacado o esquema de segurança brasileiro ao acreditar na farsa. Foi mencionada a transmissão ao vivo pela CNN da coletiva das autoridades brasileiras desmentindo a versão dos nadadores.

O tema foi prolongado na sexta-feira, 19, porém dividiu espaço com mais uma conquista dourada de dupla brasileira. Dessa vez a de Alison Cerutti e Bruno Schmidt no vôlei de praia. Foram 5m03s para os campeões, pouco a mais que os 3m50s sobre a expectativa da Seleção Brasileira pelo jogo do dia seguinte contra a Alemanha, na final do futebol masculino. No dia anterior, 1m24s já haviam sido reservados para a elaboração da tensão sobre o duelo. A edição desse dia, porém, teve uma das menores audiências do JN ao longo do período olímpico, conforme mostra a tabela abaixo, baseada em números do instituto Kantar Ibope na Região Metropolitana de São Paulo. Conste-se que as sextas habitualmente possuem os índices mais baixos de televisões ligadas, devido ao maior número de pessoas que saem de casa nesse dia.

Data

Pauta principal do Jornal Nacional

Audiência

3/8

Chegada da tocha ao Rio de Janeiro

Estreia da Seleção feminina de futebol

28,3

4/8

Revezamento da tocha

Estreia da Seleção masculina de futebol

27,0

5/8

Expectativa pela cerimônia de abertura

26,2

6/8

Repercussão da cerimônia de abertura

27,5

8/8

Medalha de ouro – Rafaela Silva (judô)

30,5

9/8

Sessão do Senado sobre o impeachment

27,0

10/8

Ataque contra carro da Força Nacional

29,1

11/8

Medalha de bronze – Mayra Aguiar (judô)

29,9

12/8

Medalha de bronze – Rafael Silva (judô)

Harmonia entre torcidas do Brasil e da Argentina

28,8

13/8

Sistema de transportes no Rio de Janeiro

Trabalho da imprensa internacional na Olimpíada

26,4

15/8

Medalha de prata – Arthur Zanetti (ginástica)

30,5

16/8

Medalha de ouro – Thiago Braz (atletismo)

26,5

17/8

Vitória da Seleção masculina de futebol

28,3

18/8

Medalha de ouro – M. Grael e K. Kunze (vela)

Farsa do assalto dos nadadores norte-americanos

30,8

19/8

Medalha de ouro – Alison e Bruno (vôlei de praia)

Expectativa pela final do futebol masculino

26,2

Tabela 2. Audiência do Jornal Nacional na Grande São Paulo durante a Rio 2016 (fonte: Kantar Ibope Media)

5.2.1. 20 de agosto de 2016, um dia de ouro

Depois de uma tão intensiva cobertura preparatória, o JN não ficou de fora do momento de maior holofote dos Jogos, quando o Maracanã lotou com mais de setenta mil eufóricos torcedores presentes na espera do título olímpico, o único ainda não conquistado pela Seleção Brasileira. Os numerosos índices de audiência da transmissão da final, que antecedeu o telejornal, foram destacados pelo narrador Galvão Bueno, que relembrou os dados, considerados “estratosféricos” por ele, em uma retrospectiva promovida ao fim do ano pelo Globo Esporte, quando os locutores do canal durante a Olimpíada rememoraram as medalhas brasileiras que narraram na Rio 2016.

Qualquer coisa que se possa narrar em uma Olimpíada é emocionante, é marcante. Uma Olimpíada é diferente de tudo, ainda mais quando nós temos uma Olimpíada no nosso país. [...]

O futebol, claro, todo mundo esperava, há quanto tempo... E veio aquele script perfeito, aquela coisa que o gol não sai, que vai para prorrogação, que vai para os pênaltis e o goleiro pega o pênalti. A explosão do Maracanã, da torcida no Maracanã, a audiência bombando na estratosfera, a adrenalina ali tomando conta de todo mundo no ouro olímpico do futebol masculino. Autoriza o árbitro. Ele não tem pressa, vai dar aquela paradinha dele, deu. Partiu, bateu, acabou! É ouro, é ouro, é ouro para o Brasil! Cinco a quatro, nos pênaltis! [...] (Globo Esporte. 28 de dezembro de 2016. Disponível em http://globoesporte.globo.com/globo-esporte/videos/t/edicoes/v/retrospectiva-2016-glenda-e-galvao-elegem-momentos-mais-marcantes-dos-jogos-olimpicos/5541229/)

A audiência da final do futebol masculino foi, por larga margem, a maior entre as transmissões das medalhas de ouro conquistadas pelo país nos números das exibições da TV Globo, exemplificando a tese de Savenhago (2011, p. 30) sobre o poder persuasivo da modalidade, em que “a tendência da relação comercial futebol-televisão é permanecer por período indeterminado”. Galvão Bueno relata em sua biografia que é fissurado em conhecer os dados desde o início de sua carreira.

Consegui quebrar uma regra de ouro na TV Globo, a de que números de audiência eram um segredo de Estado. O Boni trancava os números a sete chaves. Internamente, eu consegui que nas minhas transmissões, a cada cinco ou dez minutos, a audiência do momento fosse informada à equipe. Não só para mim. Para os comentaristas que estavam comigo na cabine, os repórteres em campo, o pessoal das áreas técnicas. Já cansei de ver o pessoal do áudio ou os caras da produção vibrarem ao saber que aquilo que eles estavam fazendo estava atraindo telespectadores. Isso fez muito bem a todos. [...] (BUENO, 2015, p. 23)

Conquista de medalha de ouro pelo Brasil115

Audiência

Rafaela Silva (judô)

16,0

Robson Conceição (boxe)

27,0

Martine Grael e Kahena Kunze (vela)

13,1

Alison Cerutti e Bruno Schmidt (vôlei de praia)

14,6

Futebol masculino

38,4

Vôlei masculino

25,5

Tabela 3. Audiência da TV Globo na Grande São Paulo durante as transmissões de medalhas de ouro brasileiras na Rio 2016 (fonte: Kantar Ibope Media)

Assim, o público, elemento essencial para a enunciação, sendo na visão greimasiana não somente o enunciatário, mas também o co-enunciador, equivalendo o realizado por um meio de comunicação massivo como a TV Globo com as relações humanas diretas, mostra ter adotado o discurso da rede sobre a importância dos Jogos. Cabe lembrar que essa situação não versa apenas sobre o discurso linguístico, mas sobre todos os demais elementos narrativos que foram construídos desde a escolha do Rio de Janeiro como sede e se destacaram progressivamente após a Copa do Mundo, especialmente no ano anterior à Olimpíada.

Os atores da enunciação, imagens do enunciador e do enunciatário, constituem simulacros do autor e do leitor criados pelo texto. São esses simulacros que determinam todas as escolhas enunciativas, sejam elas conscientes ou inconscientes, que produzem os discursos. Para entender bem o conjunto de opções enunciativas produtoras de um discurso e para compreender sua eficácia é preciso apreender as imagens do enunciador e do enunciatário, com suas paixões e qualidades, criadas discursivamente. (FIORIN, 2004, p. 29)

A enunciação aqui estudada é definida por Barros (2011, p. 86) como “mediadora entre o discurso e o contexto sócio-histórico”. Greimas (2008, p. 167) aprofunda o conceito, o colocando como “o lugar do exercício da competência semiótica”. Essa visão coloca a enunciação ao mesmo tempo como produtora e mediadora na situação comunicacional, sendo uma instância de mediação entre as estruturas discursivas e narrativas. A narrativa é habitualmente colocada como antagonista ao discurso na teoria, porém são práticas complementares, que podem coexistir.

Observa-se que a estrutura narrativa não sobre grandes alterações com o passar dos tempos, especialmente na imprensa. O século transcorrido entre os textos dos jornais impressos sobre as primeiras conquistas brasileiras no futebol e a cobertura televisiva da Olimpíada de 2016 não alterou a forma com que o esporte é enxergado de forma significativa, por exemplo, como pode ser elencado no capítulo anterior desta monografia com os variados pontos em comum observados na abordagem com a Seleção em diferentes décadas. As semelhanças, contudo, podem ser ampliadas ao se observar num aspecto mais amplo até mesmo a história da humanidade.

Se, na Antiguidade, eram os mitos as grandes narrativas estruturantes da civilização, atualmente os grandes produtores de narrativas são os media. Responsáveis pelo modo como organizamos o mundo, como geramos imagens do real, como articulamos e lemos a sua complexidade, as narrativas midiáticas – ficcionais ou factuais – produzem crenças sociais, ditam estereótipos e fornecem-nos imagens dos outros. (PEIXINHO; ARAÚJO, 2017, p. 10)

Com a boa audiência inicial recebida naquele sábado, 20 de agosto de 2016, a maior duração em formato normal na história recente do JN116, os quinze primeiros minutos – dos 95 de conteúdo totalizados na edição - prosseguiram o que já vinha sendo feito há quatro horas: o intensivo acompanhamento do futebol, que mesmo no instante em que o país estava mais favorável a mudar sua monocultura esportiva, se impôs como destaque, de maneira perceptível já na escalada.

A festa no Maracanã. Partiu, bateu, acabou. É ouro, é ouro, é ouro para o Brasil! O Brasil passa pela Alemanha e conquista o ouro inédito no futebol olímpico. Quantos e quantos anos esperando por essa conquista. Nossos repórteres mostram tudo sobre essa final. É campeão! É campeão! É campeão!O fenômeno da canoagem. Isaquias Queiroz ganha a prata com Erlon de Souza e se torna o primeiro brasileiro a conquistar três medalhas em uma edição olímpica. O fenômeno das pistas. Usain Bolt vence o revezamento 4x100 e se torna o primeiro atleta a ser três vezes tricampeão no atletismo. A seleção de vôlei arrasa os russos e entra com força total na final contra os italianos. Os números, os nomes e as imagens que dominaram as competições da Rio 2016. Veja também: os atletas brasileiros que conquistaram o carinho e o reconhecimento da torcida; os recordes mundiais quebrados na Olimpíada. E exclusivo: o nadador americano Ryan Lochte fala ao Jornal Nacional sobre o falso assalto no posto de gasolina no Rio. Ele admite que exagerou, mas insiste que não mentiu e finalmente pede desculpas ao povo brasileiro. (Jornal Nacional. TV Globo. 20 de agosto de 2016)

Em comparação sobre a cobertura do JN em outros momentos de grande de repercussão, a edição de 11 de setembro de 2001, data autoexplicativa, teve 57 minutos de duração. Mais recentemente, a cobertura dos funerais das vítimas do acidente com o voo da equipe da Chapecoense, levou a um JN de 64 minutos em 3 de dezembro de 2016. A edição não contou com nenhuma reportagem que não fosse sobre os Jogos Olímpicos, outro feito. No 11/09/2001, por exemplo, além dos atentados nos Estados Unidos, repercutiu-se ainda o assassinato de Toninho do PT, então prefeito da cidade paulista de Campinas. Também foi uma das raras vezes desde a construção do estúdio-redação, no ano 2000, em que ele não foi utilizado. As outras haviam sido na cerimônia de abertura da Rio 2016 e na morte do então candidato à Presidência Eduardo Campos117, reforçando a especialização do JN em coberturas de eventos grandiosos.

Mas, hoje, o fato é que quando um grande evento se dá, o público não espera outra coisa do Jornal Nacional. [...]

Nosso papel, no JN, como deve ser em toda a imprensa de qualidade, é registrar diariamente os fragmentos daquilo que, um dia, poderá ser um capítulo da História. É um dos aspectos mais bonitos do jornalismo como profissão. (BONNER, 2009, p. 173)

A longa duração, com quase cem minutos, permitiu a inserção de outros temas olímpicos além do futebol, como mostrado na escalada, especialmente por uma característica da grade de programação. No dia seguinte, o Fantástico seria reduzido por causa da transmissão da cerimônia de encerramento. Sendo assim, coube ao JN realizar em horário nobre as pautas com o balanço da Rio 2016, mesmo antes de seu fim completo. A listagem de assuntos mostra que a atração sabe de forma a quem se dirige, alternando elementos mais técnicos com outros pontos subjetivos, de apelo emocional e popular, conseguindo demonstrar ao enunciatário uma forma de entretenimento, algo que Barbeiro e Rangel (2006, p. 45) consideram especialmente inerente ao esporte, sem que seja perdido o sentido informacional.

Foram, por exemplo, 7m23s para celebrar a terceira medalha de Isaquias Queiroz na canoagem, dessa vez em dupla ao lado de Erlon de Souza. Ernesto Paglia conduziu a reportagem sobre a conquista do dia na Lagoa Rodrigo de Freitas, uma prata. Os vice-campeões olímpicos, derrotados pela dupla alemã por menos de 1 segundo de diferença, foram recebidos no estúdio, destacando a grandeza da campanha da canoagem brasileira nessa edição dos Jogos. A primeira medalha de Isaquias quatro dias antes havia sido também a primeira da modalidade para o país na história olímpica.

Outros 6m35s foram usados para lembrar que não somente atletas brasileiros encantaram o país ao longo da Rio 2016. Uma animação projetada no lado de fora do estúdio representou os norte-americanos Michael Phelps e Simone Biles, além do jamaicano Usain Bolt, como os superatletas da edição. Outro segmento reforçou a ideia de superação dos limites, destacando os 25 recordes mundiais quebrados ao longo da Olimpíada.

Um resumo dos feitos brasileiros, com as conquistas de 19 medalhas de ouro, prata e bronze, também chamou atenção na edição, em reportagem de José Roberto Burnier. Além das medalhas já citadas nos detalhamentos de audiência das edições anteriores do JN e das transmissões em que o país foi campeão olímpico, ainda chegaram ao pódio os seguintes atletas e equipes nacionais:

  • Prata – Felipe Wu (tiro esportivo), Ágatha e Bárbara (vôlei de praia), Diego Hypólito (ginástica artística – solo)

  • Bronze – Poliana Okimoto (maratona aquática), Arthur Nory (ginástica artística – solo)

O bronze de Maicon Siqueira no taekwondo foi a única medalha a ser conquistada ao vivo dentro do Jornal Nacional, que não exibiu a maior parte do combate, iniciando a transmissão, narrada por Rembrandt Júnior, quando restavam apenas dois segundos para o fim da luta e o brasileiro se encontrava já em vantagem. Ao mostrar também a comemoração do atleta indo ao encontro dos torcedores, foram 2m23s com imagens da Arena Carioca 3.

Tempo similar aos 2m32s sobre as 12 medalhas conquistadas por atletas brasileiros ligados às Forças Armadas. A reportagem de Carlos de Lannoy detalhou o programa feito por Exército, Marinha e Aeronáutica para apoiar os competidores, que em troca representam o país também em disputas militares. Outros 2m08s ficaram para os brasileiros que não chegaram ao pódio, porém obtiveram marcas expressivas em seus esportes. Os exemplos dados na matéria de Marcelo Canellas foram, entre outros, os de Caio Bonfim, quarto colocado na marcha atlética, com um tempo que lhe deu o recorde nacional, e Fernando Reis, quinto no levantamento de peso, que se tornou o recordista das Américas na modalidade.

Para o telejornal, não foram apenas os recordistas que saíram felizes da Olimpíada. Em 3m46s, Lilia Teles destacou a felicidade coletiva que tomou conta do Rio de Janeiro no período dos Jogos, ressaltando ainda o alcance global do evento, trecho evidenciado ao mostrar na passagem as bandeiras dos países participantes instaladas no Parque Olímpico.

Passou rápido demais. Cidade transbordando de gente feliz. Durante duas semanas, o mundo dos outros prestou atenção no mundo da gente. E nesse tempo tudo o que aconteceu está registrado na memória de cada um, com uma etiqueta escrita assim: festa inesquecível.

E o que cabe em duas semanas? Cabem o coração e o orgulho de todas as torcidas. Cabem as lágrimas do esforço, as cores misturadas, as fantasias imaginadas com cuidado. A paixão explícita pelo país, as fotos calculadas, comemoradas. A beleza de todos os ângulos, o revezamento do sol e da lua, a dança como ritual da felicidade. [...] O que os olhos viram, os corações vão guardar para sempre. (Jornal Nacional. TV Globo. 20 de agosto de 2016)

Figura 11. Reportagem do Jornal Nacional sobre a repercussão internacional da Rio 2016 (fonte: reprodução/TV)

O apontamento desse sucesso por parte da mídia estrangeira também ganhou menção, reforçando a prática habitual de buscar embasamento em seu discurso com base também nos emissores estrangeiros. A chamada feita por Renata Vasconcellos para a matéria de 3m06s da correspondente Carolina Cimenti retrata essa necessidade: “nas últimas semanas [...], a imprensa internacional mudou o tom da cobertura, das previsões alarmistas ao reconhecimento do sucesso”.

No Rio, mais do que nunca, o olhar crítico se deslumbrou com a nossa simples elegância. Nas TVs, na internet e nos jornais, o tom mudava. [...]

O Rio e os cariocas ajudaram a conquistar o coração dos visitantes. [...] A rede britânica BBC diz que em dois anos o Brasil conseguiu sediar com sucesso dois grandes eventos esportivos internacionais, a Copa e os Jogos. [...]

Nas pistas e nas quadras do Rio, 116 recordes foram quebrados. Mas fora delas, e aqui fora do Brasil, os Jogos e cobertura mais ampla sobre o país ajudaram a mudar a imagem do Brasil. (Jornal Nacional. TV Globo. 20 de agosto de 2016)

Houve espaço até para a celebração do sucesso do mascote Vinicius, cujo nome, uma homenagem ao poeta Vinicius de Moraes, foi escolhido em votação promovida na internet pela própria TV Globo, com resultado anunciado no Fantástico. No JN, ele foi definido na chamada da reportagem de 2m11s de Danilo Vieira sobre a sua boa aceitação como “um astro diferente desses Jogos”.

Os “quinze dias incríveis, que passaram voando”, como Renata Vasconcellos definiu o período dos Jogos Olímpicos, foram o tema de reportagem de Paulo Renato Soares, que destacou os trunfos do evento, como a cerimônia de abertura, exibindo cenas dos momentos de maior empolgação popular no Maracanã, entre eles o desfile da modelo Gisele Bündchen ao som de Garota de Ipanema e a interpretação de Jorge Ben Jor de País Tropical, acompanhada em coro pelos presentes. O VT de 4m20s também mostrou as melhorias apontadas na cidade com a realização do evento, mostrando depoimentos de torcedores como comprovações das afirmações.

Quatro milhões de visitantes e o espaço de três quilômetros de extensão virou o novo point da cidade. Foi o mais visitado do Rio. O espírito olímpico invadiu a cidade inteira, é só olhar nas ruas. No Rio de tantos cartões-postais, a Olimpíada ajudou a criar mais um ponto turístico. A área antes abandonada na região do Porto virou um Boulevard. Filas intermináveis só para levar uma recordação. O espírito irreverente e acolhedor de cariocas e brasileiros deixou visitantes se sentindo em casa. [...]

No Parque, a porta estava estreita demais. Uma espera enorme para entrar. Faltou comida, faltou bebida. Aí os organizadores correram para resolver os problemas. Melhorou e resolveu. [...] As janelas do ônibus em que estavam jornalistas estrangeiros foram quebradas no caminho das arenas. Mas a presença de policiais e militares na cidade reforçou a sensação de segurança, mesmo depois de um caso grave: o policial Hélio Andrade, de 35 anos, morreu na Vila do João. Traficantes fuzilaram um carro da Força Nacional.

Teve metrô novo: quase um milhão e meio de passageiros. Mas também teve muita fila de madrugada, na hora de voltar para casa. Depois, melhorou. Teve BRT, teve trem, a maioria respeitou as faixas olímpicas. Foram muitas interdições, com engarrafamentos. O Aeroporto Internacional nunca viu tanta gente: 960 mil passageiros. E funcionou.

O presidente do Comitê Olímpico Internacional chegou a dizer em outras entrevistas que a Olimpíada no Rio era um teste de estresse. Hoje elogiou o compromisso dos brasileiros. Afirmou que a Olimpíada não foi realizada numa bolha, que a vida real continuou, numa cidade com problemas sociais. Segundo Thomas Bach, isso foi bom para todos. “A primeira Olimpíada na América do Sul foi exemplar, icônica”, ele completou. Quando perguntado se pudesse voltar no tempo, disse que faria tudo de novo, no Rio. [...] Para a cidade, é como estar no alto do pódio. (Jornal Nacional. TV Globo. 20 de agosto de 2016)

Na sequência, foi recebido no estúdio do JN o prefeito do Rio de Janeiro. Eduardo Paes, que estava no final do seu segundo mandato e por isso não concorreu nas eleições municipais de 2016, foi entrevistado por Renata Vasconcellos durante 4m56s. As questões feitas foram simples, pedindo a ele uma atribuição de nota aos Jogos, e o apontamento do que funcionou e não funcionou, além de indagações sobre o legado e o risco de que alguma das arenas viesse a se tornar um “elefante branco”. Na pergunta final, se “valeu a pena?” realizar os Jogos, Paes reagiu positivamente, fazendo uma brincadeira sobre o protocolo de transição para a capital japonesa na cerimônia de encerramento: Muito, muito. Dá trabalho fazer Olimpíada, mas amanhã tenho que entregar a bandeira para a governadora de Tóquio e tem gente dizendo para eu sair correndo [...] e deixar a Olimpíada no Rio.

A expectativa pela cerimônia de encerramento dos Jogos foi lembrada também em matéria de 2m02s de Mônica Teixeira, para quem “depois de todos esses dias, só falta a apoteose”, numa das diversas chamadas realizadas para a programação do dia seguinte, viés embutido mesmo na previsão do tempo, que destacou o clima no derradeiro dia olímpico para a cidade do Rio de Janeiro. Dentro desse contexto, os apresentadores do Fantástico Tadeu Schmidt e Poliana Abritta ainda foram anunciar os destaques da atração. Houve também outro momento, como era comum nos dias anteriores118, dedicado a repassar a agenda de transmissões, enfatizando entre elas a disputa pelo ouro no voleibol masculino. A espera pela decisão contra a Itália foi alvo de 2m05s de reportagem de Marcelo Courrege, quase a metade do tempo dedicado ao futebol no dia anterior com uma situação equivalente, de véspera da final.

Em outro agrupamento, foram feitas notas rápidas sobre questões delicadas a respeito de atletas estrangeiros, como a descoberta de um trambique promovido por nove atletas australianos, que inseriram por conta própria letras adicionais em suas credenciais para entrar em áreas aos quais não estavam aptos a frequentar. Cada um deles foi multado em dez mil reais como condição para extinção do processo que retinha seus passaportes. No caso dos nadadores dos Estados Unidos envolvidos na farsa do suposto assalto ao posto de combustíveis, a menção referiu-se à interpretação do Ministério Público de que a multa de 35 mil reais pela falsa comunicação de crime foi financeiramente baixa. O caso foi ampliado com uma entrevista exclusiva de Ryan Lochte ao correspondente Felipe Santana, em reportagem de 3m35s. Realizado nos estúdios da TV Globo em Nova York, o diálogo mostrou o nadador com aparência diferente ao exibido nos Jogos e ainda negando ter mentido, mesmo confrontado com as imagens, preferindo dizer somente que “exagerou”.

Mais uma intervenção para tratar sobre estrangeiros, essa ao vivo, foi realizada por Luis Ernesto Lacombe do Engenhão, o palco das provas do atletismo, para noticiar o triunfo da sul-africana Caster Semenya na disputa feminina dos 800 metros. Antes dos Jogos, ela precisou provar ao COI que é mulher para poder competir, já que seu corpo produz naturalmente índices de testosterona bastante elevados.

5.2.2. Apontamentos da narrativa do JN

Uma pauta em especial prevaleceu na edição do Jornal Nacional em 20 de agosto de 2016, como acontece na vida esportiva brasileira há mais de 100 anos: o futebol. O grande destaque do noticiário da primeira manchete da escalada até a última cena do clipe de encerramento foi a decisão masculina entre Brasil e Alemanha. A estratégia justifica-se pela presença da modalidade no imaginário do cidadão, sendo a primeira imagem ligada ao esporte para os brasileiros.

Figura 12. Inserções visuais da TV Globo sobre seu prédio no Parque Olímpico em 20 de agosto de 2016 (fonte: reprodução/TV)

Após as mais de quatro horas no ar anteriormente com a transmissão do jogo, Galvão iniciou sua participação no telejornal se desculpando pelas falhas da voz. “Passei até um pouco do ponto, mas era para passar mesmo”, contemporizou ele sobre a sua situação vocal.

120 anos aguardando essa conquista. O Brasil é apenas o quarto país a conseguir conquistar a medalha de ouro do futebol jogando na sua própria casa. Começou mal, as críticas foram duras, os jogadores reagiram e mostraram a competência. E foram melhorando cada vez a partir em que os jogos foram acontecendo. E se existe um script perfeito para mexer com o coração, é uma decisão nos pênaltis. Ainda mais quando o goleiro pega o último. (Jornal Nacional. TV Globo. 20 de agosto de 2016)

Figura 13. Eric Faria entrevista Weverton, Rogério Micale, Marquinhos e Renato Augusto (fonte: reprodução/TV)

Essa foi a deixa para que Eric Faria iniciasse uma série de entrevistas ao lado do gramado do Maracanã com os campeões olímpicos, agora já com as medalhas no peito. O primeiro a falar nessa sequência foi justamente o goleiro Weverton, que lembrou sua aproximação em todos os chutes alemães, classificados por ele como fortes e firmes: “o primeiro passou perto, o segundo muito mais ainda. [...] Deus preparou o quinto na hora certa, na hora certa aconteceu”. Logo depois, sob intensos elogios de Galvão Bueno, Rogério Micale foi entrevistado. O repórter chegou a dividir o ponto com o técnico para que ele ouvisse diretamente do narrador as congratulações pelo ouro, quando ele reforça sua visão em diferentes pontos, felicitando o treinador não apenas pela conquista, mas pelo seu caráter pessoal e pela forma com que buscou a vitória, ao qual atribui valores por ele considerados como a melhor forma de se jogar futebol. Nesse raro contato direto, já que Galvão não realiza entrevistas habitualmente, nota-se a sua posição de autoridade mesmo sem o exercício de um cargo oficial.

GB: Micale, parabéns acima de tudo. Você me encantou quando teve a hombridade de pedir desculpas depois daqueles dois primeiros jogos. Mas acima de tudo por jamais ter desistido de sua filosofia, de acreditar num futebol ofensivo, num futebol corajoso, jogado para cima dos adversários. Parabéns, Micale.

RM: Obrigado, Galvão. Um prazer falar com você novamente. É um momento de muita felicidade nas nossas vidas, o momento desse ouro olímpico inédito. Eu nem sei ter palavras para falar. A emoção é muito forte. Tenho só a agradecer todo o povo brasileiro, vocês, ao Maracanã lotado lindo, que nos motivou a todo momento, mesmo nos momentos difíceis contra a grande equipe da Alemanha. Mas eu saio daqui com um sentimento de realização, sou muito feliz por tudo que aconteceu. E agora é comemorar.

O zagueiro Marquinhos disse “que hoje era para ser a gente, a história pedia, aqui no Maracanã”. Para o jogador, o jovem grupo se uniu diante da grande pressão externa. Com Renato Augusto, o único atleta nascido na cidade do Rio de Janeiro presente na Seleção, Eric Faria recordou que ele passava em frente ao estádio do Maracanã na infância. Já Gabriel Barbosa foi lembrado como o autor do primeiro gol da equipe, “que abriu a porteira” após os empates zerados nos jogos iniciais.

Figura 14. Cabine da TV Globo acima das demais posições da imprensa no Maracanã (fonte: arquivo pessoal)

Da cabine, Galvão Bueno relembrou o desempenho da Seleção na partida, dizendo que o time “podia ter ganho no tempo normal, podia ter ganho no tempo de prorrogação”. Ao chamar novamente os comentaristas, Júnior, que disse ter se reconciliado com o futebol brasileiro, reavivando seu orgulho pelo selecionado, elencou a trajetória da equipe como a de “time da superação”, enquanto Casagrande se mostrou emocionado ao traçar o paralelo da conquista com a sua trajetória pessoal e a história do Brasil, realçando a importância do futebol. Para Paulo Vinicius Coelho (2009, p. 63), “nenhuma matéria está assim tão escancarada diante do jornalista quanto o evento esportivo”. A postura de se colocar como proprietário da verdade, ao fazer afirmações com grau de certeza mesmo diante de possibilidades, chega a ser vista como mais própria à seara do Judiciário do que na prática jornalística.

Esse sujeito [...] assume um ethos específico, isto é, o ethos daquele que está no alto, do indivíduo autorizado. [...] Ele é aquele que enuncia algo que prescinde de negociação, como uma tese, uma verdade. [...] Assim, nesse tipo de enunciação, o sujeito enunciador, segundo Maingueneau, coincide com o sujeito no sentido jurídico e moral: alguém que se põe como responsável, afirma valores e princípios perante o mundo. (SIMIS, 2014, p. 17-18)

Esse primeiro bloco de notícias futebolísticas foi finalizado com participações das jornalistas Flávia Januzzi e Ana Luiza Guimarães ao vivo de dos arredores do Maracanã, comentando sobre os festejos da torcida. O metrô chegou a liberar as catracas diante do grande fluxo de pessoas, algo que não aconteceu nem mesmo após a cerimônia de abertura, que por limitações impostas pelo maior número de autoridades e jornalistas presentes, além da montagem de um palco em parte das arquibancadas, levou cerca de 20 mil pessoas a menos ao estádio que a decisão do futebol masculino. Flávia chegou a brincar com um dos mais famosos bordões de Galvão Bueno.

Você que sempre fala para gente que haja coração, a gente quase morreu do coração. Deu um descompasso esquisito hoje, um nervosismo, um sofrimento. E o fantasma alemão quase matou a gente de susto, mas eu posso garantir para vocês que já é Carnaval fora de época. (Jornal Nacional. TV Globo. 20 de agosto de 2016)

Enquanto no primeiro momento os lances reprisados foram os da partida, como os gols e as finalizações mais perigosas, no retorno de Galvão, já sem o auxílio dos comentaristas, o Jornal Nacional repetiu os instantes mais decisivos da disputa de pênaltis: a defesa realizada por Weverton e o derradeiro gol de Neymar, destacando as lágrimas compulsivas do jogador. Antes, imagens ao vivo do então capitão da Seleção nos Jogos já haviam sido levadas ao ar, como o abraço dos torcedores no maior nome da equipe, que admitiu que no começo da preparação “além de companheiro, era um ídolo” para os colegas de elenco, mas contemporizou dizendo que “aprendi mais com eles do que eles comigo”. Na entrevista, ele ainda admitiu a informação já antes antecipada de que estava abrindo mão da capitania, que desde então passou a ser escolhida em sistema de rodízio na equipe principal.

Figura 15. Torcedores acompanham a final olímpica do futebol masculino em telões (fonte: reprodução/TV)

Ao longo do telejornal, em entradas ou reportagens de cerca de um minuto cada, foi mostrado como o público acompanhou o jogo em diferentes pontos, como no Parque Olímpico, no Boulevard Olímpico, na praia de Copacabana e em Berlim, a capital alemã. Rodrigo Alvarez estreou visivelmente de forma antecipada como correspondente da TV Globo na Alemanha com essa reportagem.

Novamente da Praça Mauá, onde foi instalado o Boulevard dos Jogos, Mônica Sanches mostrou ao vivo o prosseguimento da festa no espaço. A comemoração no Parque Olímpico, por sua vez, foi registrada em reportagem de Guilherme Pereira.

No fim da tarde, todos os caminhos pareciam levar para a área de convivência do Parque Olímpico. Ali as pessoas começaram a se reunir. Valia de tudo, até abrir mão do ingresso comprado para ginástica rítmica.

E assim, na última noite do Parque Olímpico, essa área comum, de convivência, acabou se transformando na maior arena de todas nesse lugar. Milhares de pessoas se juntaram aqui, já que em campo estava a Seleção Brasileira de futebol.

No primeiro tempo, a primeira explosão. Gol do Brasil. Depois do empate da Alemanha, o nervosismo tomou conta de um lugar que nos últimos quinze dias foi sempre feliz. Neymar se preparou para cobrança. Todos no aguardo para comemorar no Parque Olímpico o primeiro ouro olímpico do futebol do Brasil.

O lugar que encantou gente do mundo inteiro não poderia passar a última noite de forma melhor. [...] (Jornal Nacional. TV Globo. 20 de agosto de 2016)

Renata Capucci, ao vivo de Copacabana, também descreveu a alternância no comportamento da torcida, que informou ter ficado quieta com a tensão do jogo, mas após a conquista mostrava grande felicidade. O local foi definido por Renata Vasconcellos ao chamar o link como “a praia mais animada do mundo, [...] que desperta fascínio nos turistas que visitam o Rio”. No Recreio dos Bandeirantes, Abel Neto mostrou a expectativa por um festejo que ainda iria acontecer: um jantar no hotel em que a equipe estava concentrada, abrindo espaço também para amigos e familiares dos jogadores e da comissão técnica.

Mas nem toda a cobertura foi baseada em material produzido durante ou após a partida. Destacou-se uma reportagem de gaveta, como são chamados os conteúdos previamente gravados para exibição oportuna, em que Tino Marcos refez a trajetória olímpica da Seleção Brasileira, com o encerramento daquela que Galvão Bueno descreveu como “uma incômoda escrita”. O VT teve duração de 2m47s.

Eles são muitos. Várias e várias gerações unidas pelo quase. Gente famosa, consagrada. A Olimpíada já disse não para Júnior, o maestro. A Olimpíada disse não para Ronaldo, o fenômeno. [...] E com Ronaldinho Gaúcho em 2008? Bronze também.

O primeiro quase foi em Los Angeles 84. Vitória da França na final. 2 a 0 sobre um Brasil formado quase todo por jogadores do Internacional. [...] O choro de prata se repetiu quatro anos atrás. Neymar e companhia perderam para o México na decisão por 2 a 1.

O quadro de medalhas histórico do futebol mostra o Brasil em 19º lugar. Nada a ver com o país cinco vezes campeão do mundo. [...] Em cada ano, diversos caminhos e circunstâncias para o quase. Hoje, fim do tabu. O time do técnico Rogério Micale foi a redenção de tantas gerações olimpicamente frustradas. Ah, e o ouro de hoje já faz o Brasil subir para a sexta posição do ranking histórico, um pouco mais de acordo com a nossa tradição. (Jornal Nacional. TV Globo. 20 de agosto de 2016)

A edição foi terminada com um clipe que relembrou alguns dos momentos mais marcantes dos Jogos Olímpicos, tanto nas competições, como nos bastidores das transmissões da TV Globo, igualando implicitamente o sucesso da Olimpíada para ambos. A significação do conteúdo o denota uma isotopia em que o discurso fica menos uniforme, se descentralizando e permitindo múltiplas interpretações. Na chamada do material, Galvão Bueno saudou Renata Vasconcellos por “desfrutar da sua competência e da sua simpatia”, estendendo os cumprimentos para toda a equipe do telejornal. O narrador disse se sentir emocionado por ter contado “histórias de uma Olimpíada que só acontece uma vez na vida”, referindo-se ao fato do Brasil ter sediado o evento. A apresentadora retribuiu o gesto, destacando que a Rio 2016 foi a nona Olimpíada da carreira do locutor. Na sequência, ela mencionou que “a gente encerra essa edição do Jornal Nacional com imagens dos trabalhos das nossas equipes que mostraram para você o maior evento esportivo do planeta”. A trilha sonora utilizada ao fundo do VT de 2m50s foi uma versão instrumental da música Somos Todos Olímpicos, o tema oficial do evento desenvolvido pela emissora.

♫ Você vai ver / Que todo o caminho para uma conquista se constrói / Vem que você vai ver / Gente de carne e osso virando super heroi / Você vai ver, você vai ver / Quase milagres, feitos na terra, água e ar / Vem que você vai ver / Que é bem possível, que o impossível pode se realizar / Você vai ver que dá / Que somos todos olímpicos / Que existe algo no ar / Dizendo, inspirando e motivando você a chegar lá / Somos todos olímpicos / Você vai ver, você vai ver / Garra e vontade, força e coragem / De onde vem? / Na Globo você vai ver / Gente tentando, se superando, gente indo além / Você pode mais, você pode mais / Você também é capaz / Você vai ver que dá / Que somos todos olímpicos / Que somos todos olímpicos / Que existe algo no ar / Dizendo, inspirando e motivando você a chegar lá / Somos todos olímpicos! ♫ (Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=u-UHN4qUtvI)

Figura 16. Capturas do clipe de encerramento do Jornal Nacional em 20 de agosto de 2016 (fonte: reprodução/TV)

Nas imagens, se destacou a repetida exibição do estúdio da emissora no Parque Olímpico, que chegou a ser definido como “um novo pódio” na Retrospectiva do canal, denominação motivada pela frequente presença dos medalhistas brasileiros no espaço. O ambiente foi descrito como “a casa dos âncoras dos telejornais” em matéria de José Roberto Burnier no Fantástico de 31 de julho, a última edição antes do começo da Olimpíada. Foram revezadas ainda cenas genéricas de tomadas aéreas da cidade do Rio de Janeiro, assim como de ambientes dos bastidores do trabalho jornalístico, a exemplo da redação e do switcher. Nesses instantes, não havia uma clara referência aos Jogos, o que se faz quando são mostradas imagens de atletas e jornalistas recebendo cumprimentos dos torcedores no local. Muitas vezes, o assédio aos profissionais de imprensa era até superior, especialmente em relação aos identificados simultaneamente com a cobertura esportiva e local do Rio de Janeiro, como Alex Escobar e Fernanda Gentil.

Figura 17. Capturas do clipe de encerramento do Jornal Nacional em 20 de agosto de 2016 (fonte: reprodução/TV)

Há ainda diversas referências internas, que podem passar despercebidas ao público em geral diante dos breves segundos da edição. Uma delas mostra um momento de carinho entre os apresentadores William Waack e Cristiane Dias no encerramento da cobertura do Jornal da Globo. Para Maurício Stycer, jornalista especializado em televisão do portal UOL, o momento foi um auge da “novelinha da crise”, expressão que utilizou para definir as constantes demonstrações de agressividade entre eles119. Figuras do topo da hierarquia do jornalismo do canal igualmente ganharam registros, mesmo que suas funções não fossem explicitadas ao público. É o caso de Ali Kamel, diretor-geral da área, flagrado aparentemente sem perceber enquanto utilizava o celular. A visita do presidente do COI Thomas Bach ao espaço também foi destacada.

Em alguns curtos instantes, foram sobrepostos diante da trilha trechos de narrações da TV Globo durante o evento, fazendo o que Greimas (2008, p. 291) aponta como uma sempre complexa operação, que é a metalinguagem, de forma a qualificar a narrativa. A tática serviu como uma maneira de chamar a atenção do público para determinadas cenas. Ao ser exibida a comemoração de Usain Bolt pelo seu tricampeonato olímpico nos 100 metros rasos, por exemplo, colocou-se a fala da transmissão ao vivo em que Galvão Bueno aponta que o jamaicano “é gênio, é uma fera, é uma lenda do esporte”. Quando as imagens foram das areias de Copacabana na conquista do ouro de Alison Cerutti e Bruno Schmidt no vôlei de praia, o momento resgatado da fala de Luis Roberto foi a afirmação de que “o sonho dourado se faz realidade”.

O momento de encerramento do clipe, e consequentemente da edição do Jornal Nacional de 20 de agosto de 2016, sonorizou as imagens da cobrança de pênalti convertida por Neymar e da comemoração da torcida e dos colegas de elenco com a narração de Galvão Bueno naquele instante: “partiu, bateu, acabou! É ouro, é ouro, é ouro para o Brasil!”. A imagem final foi marcada ainda mais simbolismo, unindo diversos dos elementos anteriormente citados, com a valorização simultânea da cidade, com a exibição de seu mais notório cartão postal, o Cristo Redentor; do país, com as cores nacionais iluminando o monumento no alto do Corcovado; dos Jogos Olímpicos, com a representação virtual da medalha de ouro marcando a glória máxima possível; e da própria TV Globo, que demonstra a força do seu departamento visual ao mesmo tempo em que reforça a sua marca no imaginário popular como presente nos grandes momentos de união do Brasil.

Figura 18. Selo de encerramento do Jornal Nacional em 20 de agosto de 2016 (fonte: reprodução/TV)

Todos os pontos convergem no futebol, já explicitado como um dos maiores ícones da identidade nacional, numa corroboração da tese de Fiorin (2004, p. 13), sobre a amplitude constante do campo comunicacional, em que todos os elementos da indústria cultural são postos como emissores de significados. Nesse caso, por exemplo, verde e o amarelo que iluminavam o Cristo Redentor são mais vistos nas ruas do Brasil e mesmo em órgãos oficiais120 durante os períodos de Copa do Mundo do que em qualquer comemoração pátria, como os festejos anuais da Independência e da Proclamação da República. A modalidade une a representação do próprio Rio de Janeiro, com o Maracanã, também destacado na imagem, sendo um dos pontos brasileiros mais conhecidos internacionalmente, e da TV Globo, que possui o futebol como alicerce de sua programação em torno de duas vezes por semana, numa dimensão que, como visto, amplia-se de forma notável em grandes eventos, mesmo quando eles são poliesportivos, caso dos Jogos Olímpicos.

A impressão sobre o predomínio do futebol sobre os demais esportes é presente também em parcela significativa dos profissionais da imprensa que lidam com a cobertura do tema. Foi questionada para esta monografia a opinião de apresentadores, repórteres e comentaristas com experiência na área esportiva, especialmente em Jogos Olímpicos, optando como forma de recorte apenas por figuras do meio televisivo e de contato direto com o público, sobre se consideram que “o Brasil aproveitou os Jogos Olímpicos para diversificar a sua cultura esportiva”. Seguindo-se a ordem alfabética dos nomes, eis subsequentemente a conclusão dos profissionais:

Ana Luiza Guimarães, apresentadora do RJTV 2ª edição (TV Globo): Acho que sim, aproveitamos para falar de muitas modalidades esportivas diferentes, algumas pouco conhecidas pelo público em geral. O esporte é um instrumento precioso de inclusão social. O belo desempenho de atletas brasileiros em modalidades como o boxe, o salto com vara, certamente vai inspirar as novas gerações.

André Tal, correspondente da Record na Inglaterra, cobriu os Jogos de Olímpicos de Inverno em Vancouver 2010 e Sochi 2014 e de Verão em Londres 2012: O Brasil organizou belos Jogos, mas perdeu uma enorme oportunidade de incentivar o esporte no país. O legado olímpico, esse sim é um fracasso. Estruturas abandonadas e população sem usufruir do enorme investimento. O oposto ao que acontece em Londres, onde jovens de todas as classes sociais hoje praticam esportes nos locais de competição de 2012. Uma prova de respeito.

Carol Barcellos, repórter da TV Globo, apresentou o Balada Olímpica durante a Rio 2016: Infelizmente, não acho que o Brasil tenha aproveitado a oportunidade não. Não vejo legado nem físico, nem social. Uma pena. Perdemos uma grande chance de provar que esporte não é lazer. É muito mais! É essencial para a educação e formação da sociedade.

Chico Pinheiro, apresentador do Bom Dia Brasil (TV Globo): Aproveitou durante os Jogos. Mas não sei se a diversificação irá perdurar.

Eric Faria, repórter da TV Globo, acompanhou o futebol masculino na Rio 2016: Acho que não aproveitou, infelizmente. Em termos de estrutura e também em termos de fomentar modalidades nas escolas e cidades mais afastadas dos grandes centros. Perdemos uma grande oportunidade. Não sei se teremos outra tão boa. Acho que não.

Fábio Porchat, apresentador do Programa do Porchat (Record), participou das transmissões da cerimônia da abertura e da final do futebol masculino na Rio 2016: Acho que o Brasil perdeu a chance de mudar muita coisa. Uma delas foi não aproveitar o evento para reforçar o interesse do brasileiro por outros esportes que foi gerado pelas Olimpíadas.

Felipe Andreoli, apresentador do Esporte Espetacular (TV Globo), participou do Extraordinários (SporTV) durante a Rio 2016: Claramente o Brasil, mais uma vez, não aproveitou o momento. Tudo foi abandonado no momento seguinte ao fim dos Jogos. A monocultura do futebol, infelizmente, continua e continuará.

Felipe Santana, correspondente da TV Globo nos Estados Unidos: Não posso falar profundamente sobre esporte, mas acho que é evidente que não, né. Alguns medalhistas de modalidades em que não temos tradição despertaram interesse imediato e passageiro. O que espero é que tenham inspirado principalmente jovens com seus valores.

Fred Caldeira, correspondente do Esporte Interativo na Inglaterra, apresentou o Caderno de Esportes durante a Rio 2016: É difícil falar de legado olímpico quando vemos, por exemplo, o estado criminoso das instalações esportivas que poderiam ser aproveitadas pelo Rio de Janeiro. Porém, respondendo o prisma da sua questão, acredito que é possível que vejamos daqui a uns anos os efeitos dessa diversificação esportiva criada pela proximidade do público brasileiro com os Jogos Olímpicos. Não sou muito otimista, afinal, qual foi o legado do Pan 2007 na nossa cultura?

Gustavo Villani, narrador da Fox Sports, acompanhou o futebol masculino na Rio 2016: Infelizmente, não. Nosso legado é quase inexistente. Em todos os sentidos. Infraestrutura, apoio aos esportes olímpicos...

Maíra Lemos, apresentadora do Globo Esporte MG, acompanhou o futebol feminino na Rio 2016: Acho que sim. É um dos poucos momentos em que a grande mídia dá visibilidade aos outros esportes, além do futebol masculino.

Marcelo Courrege, correspondente da TV Globo na Rússia, acompanhou o vôlei na Rio 2016: Acho que os brasileiros passaram a olhar com mais carinho para modalidades que ficavam pra escanteio por aqui... A canoagem, principalmente, por causa dos resultados do Isaquias Queiroz. Outra modalidade que ganhou muita exposição e eu senti que causou impacto no público foi o tiro com arco. Se os nossos dirigentes soubessem aproveitar esse momento, essas modalidades poderiam crescer muito nos próximos anos. Mas legados físicos e esportivos não são o forte dos nossos cartolas. Uma pena.

Paloma Tocci, apresentadora do Jornal da Band: Acho que a Olimpíada ajuda sim nesse sentido, mas não acredito que tenha sido um dos motivos mais fortes. Até porque o Brasil não é uma potência esportiva, investe pouco na formação de novos atletas. Acredito mais na importância de sediar o maior evento esportivo do planeta. A importância turística e econômica. Além de receber pessoas, autoridades, atletas do mundo inteiro.

Rafael Henzel, narrador de futebol da Rádio Oeste Capital: Vejo pela nossa cidade (Chapecó), com 210 mil habitantes. Como em qualquer evento massificado, gera o interesse de muitas pessoas. Em praticar também. No entanto, a estrutura não melhorou absolutamente nada. Ou seja, apenas a disposição não é suficiente. Faltam aparelhos para ginástica, pistas de atletismo, para bicicletas... Como não houve esse investimento no país, apenas centralizado, as crianças e até os adultos, partem para as modalidades tradicionais como o futebol [...].

Reinaldo Gottino, apresentador do Balanço Geral SP (Record), acompanhou o atletismo e a ginástica na Rio 2016: O Brasil infelizmente não aproveita nada. Os legados são abandonados, os investimentos são perdidos. Nossas conquistas são esforços individuais.

Rodrigo Bueno, comentarista de futebol da Fox Sports: Não acredito que o Brasil tenha diversificado muito sua cultura esportiva, mas uma Olimpíada, ainda mais em casa, inspira sim a prática ou mesmo o conhecimento de algumas modalidades pouco populares no país. Tais esportes dificilmente terão outro patamar no Brasil, mas é possível que um ou outro atleta desponte com sucesso em algum tempo na esteira da Olimpíada. É um legado pequeno nesse sentido, mas sempre pode aparecer algum fenômeno isolado.

Téo José, narrador da Band, acompanhou o handebol e o futebol na Rio 2016: Não, esta cultura não tem como pegar para valer em 21 dias. Mais um evento que fizemos no Brasil e desperdiçamos. O legal seria termos agora os locais dos jogos e treinos com gente em atividade. Mas, como sempre, este legado não ficou. A maior parte está abandonado e nem um projeto foi feito, colocado em prática depois. O que se vê é abandono e muitos escândalos em várias federações e atletas perdendo seus patrocínios.

Tiago Maranhão, apresentador do Troca de Passes (SporTV), acompanhou o atletismo na Rio 2016: O Brasil não perde uma chance de provar e reiterar que somos o país das oportunidades perdidas. Pela minha natureza otimista e muito ingênua, cheguei a acreditar que poderia ser diferente com as Olimpíadas. Não foi.

Vinícius Dônola, repórter da Record, acompanhou o judô e a vela na Rio 2016: Acredito que houve falhas graves no planejamento do chamado legado olímpico. Em decorrência disso, herdaremos da Rio 2016 algo muito aquém do que o prometido. Não creio que teremos diversificação nos moldes desejados antes da realização dos Jogos. Infelizmente, perderemos, parcialmente, a oportunidade de fomentar a cultura esportiva, apesar da relevância internacional do evento sediado.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A realização de um evento que concentrou as atenções de todo o planeta para o Brasil por si só já é uma fonte de diversas pesquisas acadêmicas, incluindo-se obviamente a área comunicacional, buscando compreender como a imprensa se organiza em momentos diferenciados, como foi o caso dos Jogos Olímpicos, realizados ineditamente em solo nacional em 2016, na cidade do Rio de Janeiro. Este trabalho optou por abordar o esporte de maior repercussão interna, o futebol masculino, que consolidou a posição preferencial com o avanço da Seleção Brasileira até a decisão do torneio diante da Alemanha, alcançando pela primeira vez uma medalha de ouro olímpica.

Para discorrer sobre o acompanhamento midiático da equipe masculina de futebol, a escolha foi pela cobertura da TV Globo, incluindo o seu mais destacável espaço editorial, o Jornal Nacional, o que permitiu uma amplitude da análise motivada pela antiguidade de exibições da emissora na área esportiva, comprovando a historicidade da diferença de tratamento entre as modalidades. A preferência por abordar a emissora líder de audiência no país referendou ainda a observação de números de audiência elevados.

Investigou-se, contudo, que o envolvimento com o futebol, mesmo diante de toda a sua notoriedade descrita, não ocorre na mesma escala em outras competições, notabilizando também o feito da emissora em envolver os telespectadores na Rio 2016 como evento, percepção ampliada quando se vê que a expectativa de momento dos brasileiros, o pathos, ou seja, a receptividade para celebrar, era baixa por causa do contexto de crise política e econômica. O grupo de mídia, de forma expandida também em suas outras plataformas, inverte a lógica, frisando justamente que o sucesso olímpico era um motivo de alegria, conseguindo unir pessoas de diferentes correntes e classes no sentimento comum pelo Brasil, uma tática quase sempre infalível, ao que se observa que uma das principais canções entoadas voluntariamente pela torcida nas arquibancadas frisa o orgulho e amor pela nacionalidade. De certo modo, pode se dizer que o know-how global nesse tipo de evento fez com que a sua equipe previsse de forma certeira o que o público gostaria de ouvir, culminando numa sinergia em que as partes, a grande enunciadora que utiliza diversos narradores e seus milhões de enunciatários pelo país, mostram uma simultaneidade de pensamento. Essa forma tida como uma cooperação, em que os papéis dos envolvidos no ato enunciativo se encontram como se tivessem desde o princípio o objetivo em comum é considerada uma grande representação mútua.

Com a repetição de diversos elementos empregados pela TV Globo ao longo dos ciclos de grandes eventos esportivos, este trabalho, mesmo se dedicando de forma mais detalhada ao tratamento dedicado pela emissora aos temas em apenas uma ocasião, na data de 20 de agosto de 2016, referencia toda a prática da emissora sobre o futebol e em Olimpíadas, fazendo o registro histórico deste recorte temporal, com base a permitir atualizações futuras e comparações sobre a manutenção ou a alteração da postura ao longo dos anos.

A conquista da medalha de ouro em circunstâncias especiais, ocorrendo no mais tradicional estádio brasileiro, contra um rival histórico e somente nas penalidades máximas, colaborou com o sucesso do discurso da TV Globo, emitido ao vivo de forma mais incisiva por Galvão Bueno, porém, como natural em uma cobertura deste porte, era seguido também um planejamento já era anteriormente estabelecido, como constatado com a produção de reportagens prévias e a presença de profissionais em diferentes pontos para a cobertura dos eventuais festejos, que se confirmaram. Ou seja, mesmo que o esporte trate do imponderável, existe uma percepção antecipada do que é ideal a ser agendado para o momento, numa abordagem imediatista. Frise-se que o JN não destoa do padrão de outros telejornais ou mesmo daquele encontrado em plataformas distintas, permitindo o retorno para esta base temática em outras ocasiões por diferentes ângulos.

Comprova-se que mesmo com um tempo de edição significativamente maior do que o habitual, não se altera a proporção que privilegia o futebol, o que significa consequentemente numa menor exibição para as demais modalidades, que com a visibilidade reduzida no período quadrienal em que teoricamente receberiam maior destaque, perdem a chance de se popularizar. Fica registrado, inclusive com a concordância de profissionais envolvidos de forma direta com a cobertura televisiva da Rio 2016, que o Brasil, representado pela sua mídia, que no caso deste trabalho foi a TV Globo com seu Jornal Nacional, desperdiçou a oportunidade de ampliar as suas opções esportivas e diversificar a monocultura em vigor na atualidade.

7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALVES, Vida. TV Tupi: uma linda história de amor. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2008.

ANTUNES, Fatima Martin Rodrigues Ferreira. “Com brasileiro, não há quem possa!”: futebol e identidade nacional em José Lins do Rego, Mario Filho e Nelson Rodrigues. São Paulo: Editora UNESP, 2004.

BARBEIRO, Heródoto; RANGEL, Patrícia. Manual do jornalismo esportivo. São Paulo: Contexto, 2006.

BARROS, Diana Luz Pessoa de. Teoria semiótica do texto. São Paulo: Ática, 2011.

BONNER, William. Jornal Nacional – Modo de Fazer. Rio de Janeiro: Editora Globo, 2009.

BUENO, Galvão. Fala, Galvão! São Paulo: Globo Livros, 2015.

CALDEIRA, Jorge. Ronaldo: glória e drama no futebol globalizado. Rio de Janeiro: Lance!; São Paulo: Editora 34, 2002.

CARRAVETTA, Elio. Futebol: a formação de times competitivos. Porto Alegre: Sulina, 2012.

COELHO, Paulo Vinicius. Jornalismo esportivo. São Paulo: Contexto, 2009.

FALCÃO, Paulo Roberto. Brasil 82 - o time que perdeu a Copa e conquistou o mundo. Porto Alegre: AGE, 2012.

FARIAS, Airton de. Uma história das Copas do Mundo: futebol e sociedade, volume 2. Fortaleza: Armazém da Cultura, 2014.

FECHINE, Yvana. Performance dos apresentadores dos telejornais: a construção do ethos. Revista FAMECOS: mídia, cultura e tecnologia. Nº 36. Porto Alegre: EdiPUCRS, 2008.

FILHO, Mario. Histórias do Flamengo. Rio de Janeiro: Mauad X, 2014.

FILHO, Mario. O negro no futebol brasileiro. Rio de Janeiro: Mauad, 2003.

FIORIN, José Luiz. Semiótica e Comunicação. Galáxia - Revista Transdisciplinar de Comunicação, Semiótica, Cultura. Nº 8. São Paulo: EDUC, 2004.

GASTALDO, Édison. Pátria, chuteiras e propaganda: o brasileiro na publicidade da Copa do Mundo. São Paulo: Annablume; São Leopoldo: Editora Unisinos, 2002.

GREIMAS, Algirdas Julien. Dicionário de Semiótica. São Paulo: Contexto, 2008.

GUTERMAN, Marcos. O futebol explica o Brasil - uma história da maior expressão popular do país. São Paulo: Contexto, 2009.

Jornal Nacional: a notícia faz história. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.

MORAIS, Fernando. Chatô, o rei do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

NAPOLEÃO, Antônio Carlos. Seleção Brasileira, 1914-2006. Rio de Janeiro: Mauad X, 2006.

NASCIMENTO, Patrícia Ceolin. Jornalismo em revistas no Brasil: um estudo das construções discursivas em Veja e Manchete. São Paulo: Annablume, 2002.

NUNES, Marcus Vinícius Bucar. Zico, uma lição de vida. Brasília: Thesaurus, 2006.

PEIXINHO, Ana Teresa; ARAÚJO, Bruno. Narrativa e media: géneros, figuras e contextos. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2017.

PIMENTEL, Luís. Almanaque Brasil de todas as Copas - 100 anos da Seleção canarinho de futebol. Rio de Janeiro: Mauad X, 2013.

PIRES, Giovani de Lorenzi. “Observando” o Pan Rio 2007 na mídia. Florianópolis: Tribo da Ilha, 2009.

RIBEIRO, André. Os donos do espetáculo: histórias da imprensa esportiva no Brasil. São Paulo: Terceiro Nome, 2007.

RIBEIRO, Luiz. Futebol e globalização. Jundiaí: Fontoura, 2007.

RUBIO, Katia. Medalhistas olímpicos brasileiros: memórias, histórias e imaginário. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2006.

SAVENHAGO, Igor José Siquieri. Futebol na TV: evolução tecnológica e linguagem de espetáculo. Verso e reverso. Vol. XXV, nº 58. São Leopoldo: Editora Unisinos, 2011.

SILVA, Carlos Alberto Figueiredo da; VOTRE, Sebastião Josué. Racismo no futebol. Rio de Janeiro: HP Comunicações, 2006.

SILVA, Francisco Carlos Teixeira da; SANTOS, Ricardo Pinto dos. Memória social dos esportes - futebol e política: a construção de uma identidade nacional. Rio de Janeiro: Mauad X, 2006.

SILVA, Patricia Alves do Rego. TV Tupi, a pioneira na América do Sul. Rio de Janeiro: Secretaria Especial de Comunicação Social da Prefeitura, 2004.

SIMIS, Anita. Comunicação, cultura e linguagem. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2014.

TOLEDO, Luiz Henrique de. No país do futebol. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.

VIDIGAL, Lucas Corrales. Total: projeto de cobertura de entorno em grandes eventos esportivos. Monografia (Comunicação Social – Jornalismo). Brasília: Universidade de Brasília, 2014.

WISNIK, José Miguel. Veneno remédio: o futebol e o Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

1 O índice é correspondente a cerca de 66 milhões de domicílios. Disponível em: http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv99054.pdf. Acesso em: 09 jun. 2017.

2 Em 2000, a porcentagem era de 87,2%, ainda ligeiramente inferior aos números referentes ao rádio. Disponível em: http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2012-04-27/ibge-pela-1-vez-domicilios-brasileiros-tem-mais-tv-e-geladeira-d.html. Acesso em: 11 mar. 2017.

3 O primeiro canal do país ficaria no ar ao longo de trinta anos. Disponível em: http://fernandomorgado.com.br/artigo/tupi-a-historia-completa-da-tv-pioneira. Acesso em: 08 jun. 2017.

4 A afirmação foi feita em um especial sobre as seis décadas da primeira transmissão. Disponível em: http://cultura.estadao.com.br/noticias/televisao,ha-60-anos-era-inaugurada-a-tv-tupi-primeira-emissora-de-tv-do-brasil,611809. Acesso em: 29 mar. 2017.

5 Pelo país, a trama tinha a audiência de cerca de 75% dos televisores existentes. Disponível em: https://economia.uol.com.br/blogs-e-colunas/coluna/reinaldo-polito/2015/08/13/o-direito-de-nascer-50-anos-memoria-de-um-garoto-que-conheceu-os-astros.htm. Acesso em: 12 mai. 2017.

6 A emissora figura também entre as maiores do mundo. Disponível em: http://www.jb.com.br/heloisa-tolipan/noticias/2012/05/09/globo-sobe-em-ranking-e-torna-se-segunda-maior-emissora-do-mundo/. Acesso em: 09 mar. 2017.

7 Ele acompanhou todo o processo de fundação do jornal em 1925. A rádio seria fundada apenas em 1944. Disponível em: http://www.robertomarinho.com.br/vida/trajetoria/empreendedor.htm. Acesso em: 09 mar. 2017.

8 Atualmente, o Grupo Globo figura entre os principais conglomerados de mídia do mundo na somatória de todas as suas plataformas. Disponível em: http://oglobo.globo.com/economia/grupo-globo-o-17-maior-conglomerado-de-midia-do-mundo-16159426. Acesso em: 09 mar. 2017.

9A publicação lembra que esse número expressivo é atingido apenas somente por um canal anualmente nos Estados Unidos. Disponível em: http://www.economist.com/news/business/21603472-brazils-biggest-media-firm-flourishing-old-fashioned-business-model-globo-domination. Acesso em: 29 mar. 2017.

10 O animador seguiria na TV Globo até 1976. Disponível em: http://memoriaglobo.globo.com/programas/entretenimento/auditorio-e-variedades/programa-silvio-santos/formato.htm. Acesso em: 09 mar. 2017.

11 Entre eles, filmes, séries e desenhos animados. Disponível em: http://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/televisao/ha-50-anos-globo-ensaiou-estreia-mas-so-ficou-famosa-com-tragedia-7574. Acesso em: 29 mar. 2017.

12 O lema de integração nacional buscado pela Globo era coincidente aos interesses do governo militar. Disponível em: http://mundoestranho.abril.com.br/historia/como-era-a-vida-no-brasil-da-ditadura/. Acesso em: 09 mar. 2017.

13 Ele é considerado o precursor do atual Jornal Nacional. Disponível em: http://cartaodevisita.r7.com/conteudo/1238/em-1965-surgia-o-tele-globo-o-precursor-do-jornal-nacional-nos-lares-nacionais. Acesso em: 09 mar. 2017.

14 A atração inicialmente também dependia de muito conteúdo estrangeiro, demorando alguns anos para adotar a tendência da programação de valorizar o conteúdo nacional. Segue veiculada até hoje nas manhãs de domingo, sendo apresentada por Fernanda Gentil e Felipe Andreoli. Disponível em: http://terceirotempo.bol.uol.com.br/que-fim-levou/esporte-espetacular-4961. Acesso em: 09 mar. 2017.

15 Antes, o canal chegou a exibir em videoteipe uma partida de futebol amistosa entre Brasil e União Soviética ainda no ano da sua fundação. Disponível em: http://globotv.globo.com/rede-globo/memoria-globo/v/esporte-espetacular-transmissao-do-primeiro-jogo-de-futebol-pela-globo-em-1965-2015/3877033/. Acesso em: 04 mar. 2017.

16 Baixado em 1968, o AI-5 é considerado o momento mais duro da ditadura militar brasileira. Disponível em: http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/FatosImagens/AI5. Acesso em: 12 mai. 2017.

17 O ataque terrorista do grupo Setembro Negro acabaria por marcar a edição dos Jogos. Disponível em: http://torcedores.com/noticias/2016/07/saiba-qual-foi-primeira-olimpiada-transmitida-ao-vivo-para-o-brasil. Acesso em: 04 mar. 2017.

18 Robert Feith, então correspondente em Londres, foi o principal encarregado desse perfil de matéria. Disponível em: http://memoriaglobo.globo.com/programas/esporte/eventos-e-coberturas/olimpiada-de-moscou-1980/transmissao-e-cobertura.htm. Acesso em: 04 mar. 2017.

19 Osmar seguiria sendo privilegiado com as principais transmissões ao longo de toda a década, como também em 1986, durante a Copa do Mundo da Espanha. Disponível em: http://uolesportevetv.blogosfera.uol.com.br/2014/05/29/de-comentarista-ao-calaboca-relembre-galvao-bueno-copa-a-copa/. Acesso em: 04 mar. 2017.

20 Antes das Copas de 2006 e 2010, esse papel coube a Renato Ribeiro, hoje diretor-executivo de esportes da TV Globo. Disponível em: https://www.instagram.com/p/BPv5zBQA0fg/. Acesso em: 04 mar. 2017.

21 O canal por assinatura foi lançado em 1991 sob a marca Top Sports, alterada para o nome atual somente em 1995. Disponível em: http://sportv.globo.com/site/noticia/2011/05/sobre-o-sportv.html. Acesso em: 04 mar. 2017.

Possui em atividade fixamente três canais, no qual o primeiro é dedicado majoritariamente ao futebol. Frequentemente sinais da transmissão pay-per-view são abertos excepcionalmente e nominados também como canais SporTV quando há uma grande coincidência de eventos ao vivo.

O caso mais notório ocorreu nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, quando foram 16 canais exibidos na televisão e até 40 sinais na internet na mais ampla cobertura olímpica já feita por um meio de televisão brasileiro. Disponível em: http://sportv.globo.com/site/programas/rio-2016/noticia/2016/07/sportv-entrega-maior-cobertura-dos-jogos-olimpicos-rio-2016.html. Acesso em: 04 mar. 2017.

Um dos mais vigorosos braços da Globosat, a programadora de TV por assinatura do Grupo Globo, que detém ainda outras marcas como Multishow, Viva e GNT, é atualmente um dos 10 canais mais assistidos entre os abertos e fechados. Disponível em: https://tvefamosos.uol.com.br/noticias/ooops/2016/11/08/em-outubro-audiencia-da-tv-aparecida-supera-multishow-discovery-e-warner.htm. Acesso em: 04 mar. 2017.

22 O canal fez flashes durante a programação mostrando os principais instantes do revezamento. Disponível em: http://textual.com.br/case/cob-e-prefeitura-do-rio-revezamento-da-tocha-olimpica-de-atenas-2004-no-rio-de-janeiro/. Acesso em: 04 mar. 2017.

23 O programa é o espaço regular do esporte na grade de programação da Globo desde 1978, quando substituiu o Copa Brasil, que era dedicado apenas ao futebol. É essencialmente exibido de segunda a sábado na hora do almoço desde 1983. Disponível em: http://memoriaglobo.globo.com/programas/esporte/programas-esportivos/globo-esporte/evolucao.htm. Acesso em: 04 mar. 2017.

24 A atração paulista atualmente é comandada por Ivan Moré, que substituiu o próprio Tiago Leifert, quando esse, a exemplo de outros jornalistas da TV Globo, como Zeca Camargo, Fátima Bernardes e Patrícia Poeta, optou em migrar para o entretenimento. A edição do Rio de Janeiro, que responde como rede nacional (ver nota abaixo), é apresentada por Alex Escobar. Disponível em: http://globoesporte.globo.com/sp/noticia/2015/07/de-volta-do-esporte-espetacular-ivan-more-assume-o-globo-esporte-sp.html. Acesso em: 04 mar. 2017.

25 Desde 2009, o Globo Esporte passou a se regionalizar, mirando na época a reversão de uma crise de audiência em São Paulo. Disponível em: http://torcedores.com/noticias/2015/07/globo-esporte-de-tiago-leifert-ajudou-audiencia-da-atracao-a-se-recuperar-de-crise. Acesso em: 04 mar. 2017.

A partir de então, outros estados passaram a ir seguidamente ganhando edições próprias para que pudessem otimizar a duração de cerca de 30 minutos com as coberturas locais.

Atualmente há versões integralmente próprias do programa em todos os estados do Sul e Centro-Oeste, além de Bahia, Pernambuco, Ceará, Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, sendo que a edição carioca segue como a de exibição nacional fixa para as praças que não possuem um GE inteiramente local, assim como para totalidade do Brasil em eventos marcantes, como nos Jogos Olímpicos e nos dias subsequentes ao desastre aéreo da Chapecoense. Disponível em: http://natelinha.uol.com.br/colunas/2016/11/30/como-a-televisao-cobriu-o-tragico-acidente-que-ficara-marcado-na-historia-103692.php. Acesso em: 04 mar. 2017.

26 Os direitos dos Jogos de 2012 custaram 60 milhões de dólares para a Record. Disponível em: https://olimpiadas.uol.com.br/noticias/2015/12/10/globo-assegura-direitos-de-transmissao-das-olimpiadas-ate-2032.htm. Acesso em: 12 mai. 2017.

27 Globo e Band celebraram a aquisição dos direitos de forma conjunta em rara medida. O habitual é que o canal carioca sublicencie suas compras junto aos paulistas. Disponível em: http://oglobo.globo.com/cultura/revista-da-tv/proposta-conjunta-da-globo-band-vence-disputa-pelas-olimpiadas-de-2016-3137429. Acesso em: 04 mar. 2017.

28 Diante de finais envolvendo o Brasil também no vôlei feminino e no boxe masculino, a Record foi líder de audiência em 11 de agosto de 2012 das 7h até pouco depois das 18h. Disponível em: http://entretenimento.r7.com/famosos-e-tv/noticias/record-conquista-lideranca-isolada-em-audiencia-com-olimpiadas-20120812.html. Acesso em: 04 mar. 2017.

29 O ineditismo da Record foi recompensado na ocasião por celebrados números de audiência. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=TV7wQgR8F5s. Acesso em: 04 mar. 2017.

30 Foi criado ainda um programa diário ao fim de noite com o resumo das competições. Disponível em: http://redeglobo.globo.com/novidades/esportes/noticia/2014/02/sochi-2014-siga-cobertura-dos-jogos-olimpicos-de-inverno-na-globo.html. Acesso em: 04 mar. 2017.

31 O modelo de boletim noturno replicou a ideia já utilizada na Paralimpíada de Londres. Disponível em: http://globoesporte.globo.com/paralimpiadas/noticia/2012/08/boletim-paralimpico-traz-o-resumo-do-dia-de-disputas-em-londres.html. Acesso em: 04 mar. 2017.

32 Os direitos são válidos até a edição do Pan em Lima, em 2019. Disponível em: http://exame.abril.com.br/marketing/recorde-compra-direitos-de-exlcusividade-do-pan-2019/. Acesso em: 04 mar. 2017.

33 As modalidades aparecem entre as 10 mais assistidas pelos brasileiros dentre as mais de 40 disputadas nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Disponível em: http://exame.abril.com.br/marketing/os-10-esportes-mais-assistidos-pelos-brasileiros-na-rio-2016/. Acesso em 04 mar. 2017.

34 Entre clubes e seleções, a Globo transmite aproximadamente 90 jogos de futebol e 15 de vôlei por ano, excetuando-se os grandes eventos.

35 A apresentadora Mariana Gross definiu o fato da realização dos Jogos Olímpicos como o início de “um ano muito especial”. Disponível em: https://youtu.be/MEyQ7duBaF0?t=1455. Acesso em: 04 mar. 2017.

36 Nessa chamada, foi utilizado o elenco feminino do time de comentaristas do canal para os Jogos Olímpicos. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=KFaKsVEumao. Acesso em 04 mar. 2017.

37 Na publicação, o diretor Renato Ribeiro lembrou que o envolvimento do público com as modalidades ocorre em grande parte por causa desses ideais (inspiração, educação, admiração e transformação). Disponível em: http://comercial2.redeglobo.com.br/biponline/BIP/BIP_609.pdf. Acesso em 04 mar. 2017.

38 Cerca de 100 horas foram de transmissões ao vivo. Disponível em: http://www.grupoglobo.globo.com/noticias/empresas_grupo_globo_preparam_maior_cobertura_esportiva_da_sua_historia.php. Acesso em: 09 mar. 2017.

39 A decisão acarretou no cancelamento eventual de diversos programas da grade. Disponível em: http://zh.clicrbs.com.br/rs/entretenimento/tv/noticia/2016/08/olimpiada-muda-programacao-da-globo-e-tira-velho-chico-do-ar-na-proxima-sexta-feira-7105463.html. Acesso em: 09 mar. 2017.

40 A TV Globo acompanhou desde cedo, com o Bom Dia Brasil, o discurso do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva em defesa da candidatura do Rio de Janeiro. Mais tarde, interrompeu a primeira edição dos telejornais locais para exibir as rodadas que eliminaram Chicago e Tóquio da disputa. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=GlIs5AFooUo. Acesso em: 04 mar. 2017.

O anúncio oficial veio durante uma edição especial do Jornal Hoje, ancorada por Sandra Annenberg do estúdio habitual em São Paulo e por Alex Escobar, de um especialmente montado para a ocasião no Rio de Janeiro.

O JH daquele 2 de outubro de 2009 rendeu 16 pontos de audiência, recorde do ano, superando os 14 pontos da edição de 1º de junho, quando ocorreu a tragédia aérea com o voo 447 da Air France. Disponível em: http://veja.abril.com.br/blog/radar-on-line/rio-2016-um-sucesso-de-audiencia/. Acesso em: 04 mar. 2017.

Além do correspondente fixo em Tóquio, a Globo deslocou enviados especiais para Copenhague, na Dinamarca, onde aconteceu a reunião do Comitê Olímpico Internacional, e para as demais cidades derrotadas, Chicago e Madri.

41 A Fifa, desde o primeiro mandato do brasileiro João Havelange, em 1974, adotou um critério de globalização flexível, que considera diversos territórios sem autonomia política como países. Disponível em: http://exame.abril.com.br/mundo/20-paises-que-fazem-parte-da-fifa-mas-nao-da-onu/. Na ONU, foram 51 os países fundadores, incluindo o Brasil, com o número também sendo ampliado ao passar das décadas. Disponível em: https://nacoesunidas.org/conheca/paises-membros/. Acesso em: 25 abr. 2017.

42 Ao deixar a breve carreira como jogador, Charles Miller ainda foi árbitro por diversos anos. Disponível em: http://trivela.uol.com.br/craque-artilheiro-tecnico-cartola-sensacao-na-europa-charles-miller-nao-foi-so-o-pai-do-futebol-no-brasil/. Acesso em: 15 mar. 2017.

43 Desde então, o torneio é organizado anualmente de forma ininterrupta. Disponível em: http://2016.futebolpaulista.com.br/Clubes/Todos+os+Campe%C3%B5es. Acesso em: 25 abr. 2017.

44 O torneio foi adiado em um ano por causa da epidemia de gripe espanhola. Disponível em: http://esportes.terra.com.br/futebol/copaamerica2007/interna/0,,OI1558695-EI8897,00.html. Acesso em: 15 mar. 2017.

45 Segundo o Datafolha, o time possui a preferência de 17,2% dos torcedores brasileiros. Disponível em: http://globoesporte.globo.com/futebol/noticia/2010/06/ibope-aponta-flamengo-como-maior-torcida-e-sport-em-ascensao.html. Acesso em: 16 mar. 2017.

46 O time já estrearia no Campeonato Carioca no ano seguinte. Disponível em: http://www.flamengo.com.br/site/noticia/detalhe/11289/relembre-a-genesis-do-futebol-do-flamengo. Acesso em: 15 mar. 2017.

47 O francês, terceiro presidente da Fifa, passou a batizar a taça do Mundial a partir de 1946. Disponível em: http://terceirotempo.bol.uol.com.br/que-fim-levou/jules-rimet-5556. Acesso em: 13 abr. 2017.

48 O país, que já sonhava em receber um Mundial desde 1942, foi candidato único na ocasião. Disponível em: http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticia/2007/10/em-1950-brasil-tambem-foi-candidato-unico-a-pais-sede-1663071.html. Acesso em: 25 abr. 2017.

49 O jornalista, além de fomentar o desenvolvimento do futebol carioca, foi o responsável pela criação dos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro. Disponível em: http://globoesporte.globo.com/Esportes/Noticias/Futebol/0,,MUL587551-9825,00-HA+ANOS+NASCIA+MARIO+FILHO+O+CRIADOR+DAS+MULTIDOES.html. Acesso em: 13 abr. 2017.

50 Naquela altura da Copa, a Espanha era mais temida pelos torcedores que o Uruguai. O jogo registrou o maior público do futebol mundial até então, sendo pouco depois superado pela partida final. Disponível em: https://copadomundo.uol.com.br/noticias/redacao/2013/06/30/goleada-em-1950-consagrou-a-marcha-de-carnaval-touradas-em-madri-ouca.htm. Acesso em: 13 abr. 2017.

51 Ele disse que o país não possuía rivais em todo o hemisfério, já saudando aos presentes como vencedores. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/especial/fj1804201008.htm. Acesso em: 25 abr. 2017.

52 Presidente entre 1930 e 1945, quando foi derrubado pelos militares, notabilizou-se pelos avanços nas leis trabalhistas em seu primeiro mandato. Suicidou-se em 1954, quatro anos após ser reconduzido ao cargo pelo voto popular. Disponível em: https://educacao.uol.com.br/biografias/getulio-dornelles-vargas.jhtm. Acesso em: 13 abr. 2017.

53 A primeira foi do atirador Guilherme Paraense em 1920, nos Jogos da Antuérpia, sucedendo conquistas de prata e bronze na mesma edição, todas no tiro esportivo, esporte em que o Brasil só voltaria a subir ao pódio em 2016, com a prata de Felipe Wu. Disponível em: http://www.surtoolimpico.com.br/2016/05/surto-historia-guilherme-paraense-o.html. Acesso em: 13 abr. 2017.

54 Na estreia do novo uniforme, o Brasil venceu o Chile por 2 a 0 em partida das Eliminatórias. Disponível em: http://esportes.estadao.com.br/noticias/futebol,camisa-amarela-da-selecao-foi-escolhida-em-1953-apos-concurso,1516599. Acesso em: 13 abr. 2017.

55 Apelidado como o “marechal da vitória”, ele anos depois passaria a nomear o estádio do Pacaembu, em São Paulo. Disponível em: http://www.lance.com.br/todos-esportes/conheca-historia-paulo-machado-carvalho-marechal-vitoria.html. Acesso em: 13 abr. 2017.

56 Presidiu o Brasil entre 1956 e 1961. Logo depois, se elegeu senador, tendo os direitos políticos cassados pelo golpe militar de 1964. Morreu em 1976 num acidente rodoviário tratado pela Comissão da Verdade da Câmara Municipal de São Paulo como “atentado político”. Disponível em: http://istoe.com.br/338611_COMISSAO+DA+VERDADE+DE+SP+DECLARA+QUE+JUSCELINO+KUBITSCHEK+FOI+ASSASSINADO+PELA+DITADURA+MILITAR/. Acesso em: 14 abr. 2017.

57 Em 1969, durante jogo diante do Vasco no Maracanã, ele marcou o seu milésimo gol. Disponível em: http://acervo.oglobo.globo.com/em-destaque/pele-marcou-seu-milesimo-gol-no-maracana-num-penalti-contra-vasco-10811259. Acesso em: 25 abr. 2017.

58 O presidente João Goulart foi destituído em 31 de março de 1964. Disponível em: http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/FatosImagens/Golpe1964. Acesso em: 14 abr. 2017.

59 Atleta de esportes aquáticos nas Olimpíadas de 1936 e 1952, ele dirigiu diversas entidades esportivas, incluindo a Fifa, da qual foi o primeiro não europeu presidente, entre 1974 e 1998. No fim da vida, porém, envolto em revelações de escândalos de corrupção, renunciou aos postos honorários que tinha na federação e no Comitê Olímpico Internacional. Morreu aos 100 anos, durante a Olimpíada do Rio. Disponível em: http://globoesporte.globo.com/futebol/noticia/2016/08/joao-havelange-ex-presidente-do-coi-e-da-fifa-morre-no-rio-de-janeiro.html. Acesso em: 14 abr. 2017.

60 Composta por Miguel Gustavo, a música era originalmente o jingle de uma cervejaria. Disponível em: http://acervo.oglobo.globo.com/em-destaque/copa-jingles-na-ditadura-pra-frente-brasil-marcou-selecao-do-tri-no-mexico-12531642. Acesso em: 14 abr. 2017.

61 Sete das dez primeiras equipes mencionadas na lista são de futebol. Disponível em: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/story/2005/12/051225_selecaotp.shtml. Acesso em: 14 abr. 2017.

62 Nessa mesma pesquisa, o jogo entre Alemanha e Itália no Mundial de 1970 foi eleito a melhor partida da história. Disponível em: https://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas/2007/07/09/ult59u125308.jhtm. Acesso em: 14 abr. 2017.

63 Em 2000, na votação de atleta do século da Fifa, Zico ficou atrás somente de Pelé e Garrincha entre os jogadores brasileiros. Disponível em: http://en03.touri.com/Berichte/FIFA-Spieler/MalePlayer.pdf. Acesso em: 13 abr. 2017.

64 Entre outras conquistas como jogador e treinador, ele comandou o São Paulo nos títulos dos Mundiais de Clubes em 1992 e 1993. Disponível em: http://oglobo.globo.com/esportes/confira-os-titulos-de-tele-santana-4588411. Acesso em: 14 abr. 2017.

65 Em 2017, o jogador foi homenageado pelo time e pela torcida durante as comemorações dos 120 anos de fundação do clube. Disponível em: https://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas-noticias/2017/02/19/zico-e-ovacionado-por-torcida-da-udinese-em-homenagem-inesquecivel.htm. Acesso em: 15 abr. 2017.

66 O depoimento foi dado para a série Domingos Inesquecíveis, que comemorou os 30 anos do programa. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=VrOcpirmXvU. Acesso em: 25 abr. 2017.

67 A jornalista apresentou diversos programas da TV Globo ao longo da década de 1990, sendo conhecida também como a voz padrão da companhia telefônica do Rio de Janeiro, que na época era presidida por Eduardo Cunha, com quem viria a se casar e envolver em escândalos de corrupção. Disponível em http://oglobo.globo.com/brasil/a-historia-de-amor-entre-cunha-claudia-cruz-17873007. Acesso em: 14 abr. 2017.

68 No mesmo fim de semana, antes da morte de Senna, Rubens Barrichello já havia sofrido um grave acidente nos treinos livres, enquanto o austríaco Roland Ratzenberger morreu durante o treino de classificação para a corrida, que não foi cancelada nem após o acidente envolvendo Ayrton. Disponível em: http://www.ayrtonsenna.com.br/piloto/formula-1/temporada-1994/grande-premio-de-san-marino-1994/. Acesso em: 14 abr. 2017.

69 As imagens dos torcedores caindo uns por cima dos outros foram transmitidas ao vivo pela TV Globo. Disponível em: http://globoesporte.globo.com/bau-do-esporte/videos/v/em-2000-vasco-0-x-0-sao-caetano-pela-final-da-copa-joao-havelange/1556595/. Acesso em: 15 abr. 2017.

70 A estreia da Seleção no torneio conseguiu a melhor audiência de partidas de Copas do Mundo desde o início da medição, em 1986, com 64 pontos de média e picos de 73. Disponível em: http://www.terra.com.br/exclusivo/noticias/2002/06/03/024.htm. Acesso em: 15 abr. 2017.

71 A equipe feminina, sob o comando de José Roberto Guimarães, também acumulou expressivas vitórias. Entre elas, as medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos de Pequim 2008 e Londres 2012, em que o time foi eleito como o melhor da competição entre todas as modalidades. Disponível em: https://esporte.uol.com.br/volei/ultimas-noticias/2014/11/07/selecao-feminina-de-volei-recebe-premio-por-campanha-em-londres-2012.htm. Acesso em: 15 abr. 2017.

72 A conquista veio com uma goleada por 5 a 0 sobre os Estados Unidos. Disponível em: http://globoesporte.globo.com/PAN/Noticias/0,,MUL79560-3873,00.html. Acesso em: 15 abr. 2017.

73 As construções em Brasília e Manaus também registraram acidentes, totalizando oito mortos na preparação para o torneio. Disponível em: http://espn.uol.com.br/noticia/399860_para-nao-esquecer-os-oito-operarios-mortos-da-copa. Acesso em: 14 abr. 2017.

74 O time espanhol não era derrotado em partidas oficiais desde a estreia na Copa do Mundo de 2010, quando conquistou o título mundial pela primeira vez em final contra a Holanda. Disponível em: https://esportes.terra.com.br/futebol/espanha-continua-invicta-ha-3-anos-e-29-jogos-em-competicoes-oficiais,19b0b78c2b28f310VgnCLD2000000ec6eb0aRCRD.html. Acesso em: 15 abr. 2017.

75 O jogador foi o último a ser eleito melhor do mundo antes do começo de uma supremacia com o posto sendo revezado entre o argentino Lionel Messi e o português Cristiano Ronaldo. Disponível em: http://extra.globo.com/esporte/sou-ultimo-bola-de-ouro-que-nasceu-neste-planeta-diz-kaka-17530346.html. Acesso em: 16 abr. 2017.

76 A declaração veio antes do jogo das quartas de final contra a Colômbia. Disponível em: http://espn.uol.com.br/noticia/422981_felipao-selecao-continua-com-a-mao-na-taca. Acesso em: 15 abr. 2017.

77 Os jogos do time local na Copa renderam as maiores audiências da história do futebol na televisão dos Estados Unidos, equiparando-se com as finais da NBA, o torneio nacional de basquete. Disponível em: http://exame.abril.com.br/estilo-de-vida/audiencia-de-jogo-dos-eua-foi-recorde-no-pais/. Acesso em: 15 abr. 2017.

78 A competição foi considerada a melhor Copa do Mundo de todos os tempos para 38,5% dos jornalistas. Disponível em https://copadomundo.uol.com.br/noticias/redacao/2014/06/30/pesquisao-uol-copa-para-imprensa-estrangeira-brasil-sedia-melhor-mundial.htm. Após a queda da Seleção, o termo foi utilizado até mesmo pela presidente Dilma Rousseff, que em carta ao time disse que “nós, brasileiros, não levamos a taça, mas fizemos a Copa das Copas [...]. Vocês – e o futebol brasileiro – são maiores que quaisquer resultados passageiros”. Disponível em: http://esportes.estadao.com.br/noticias/futebol,copa-do-mundo,nao-levamos-a-taca-mas-fizemos-a-copa-das-copas-diz-dilma,1528049. Acesso em: 15 abr. 2017.

79 Nessa partida, ele marcou seu décimo sexto gol na história das Copas do Mundo, se tornando artilheiro histórico da competição de forma isolada, ao ultrapassar o brasileiro Ronaldo. Disponível em: http://globoesporte.globo.com/futebol/copa-do-mundo/noticia/2014/07/klose-marca-novamente-e-supera-ronaldo-como-artilheiro-das-copas.html. Acesso em: 14 abr. 2017.

80 Também foi o maior placar já imposto na fase semifinal do torneio. Até esse jogo, a Seleção Brasileira jamais havia perdido da Alemanha por uma diferença superior a dois gols. E desde 1920, quando perdeu por 6 a 0 do Uruguai, não era derrotada por uma margem tão grande. Disponível em: https://www.theguardian.com/football/2014/jul/09/world-cup-records-germany-brazil. Acesso em: 15 abr. 2017.

81 Em entrevista ao Fantástico após o Mundial, o polonês naturalizado alemão garantiu que as postagens foram espontâneas. Disponível em: http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2014/07/animacao-do-povo-brasileiro-me-conquistou-diz-podolski.html. Acesso em: 15 abr. 2017.

82 A TV Globo noticiou a queda de toda a comissão técnica em um boletim extraordinário ainda na madrugada, antes do anúncio oficial dos dirigentes. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=0uFSeWwc_io. Acesso em: 15 abr. 2017.

83 O treinador já teve seu nome cantado pela sua torcida no terceiro jogo invicto à frente da Seleção, quando o time goleou a Bolívia por 5 a 0 na Arena das Dunas, em Natal. Disponível em: http://esportes.estadao.com.br/noticias/futebol,tite-se-diz-surpreso-com-o-rendimento-da-selecao-brasileira,10000080769. Acesso em: 14 abr. 2017.

84 Após a classificação, uma pesquisa chegou a indicar a predisposição de 15% dos brasileiros em votar no técnico da Seleção para a Presidência da República. Disponível em: http://www.lance.com.br/selecao-brasileira/quase-dos-brasileiros-votariam-tite-para-presidente-brasil.html. Acesso em: 15 abr. 2017.

85 A Chapecoense foi a campeã catarinense de 2016, repetindo as conquistas de 1977, 1996, 2007 e 2011. Disponível em: https://chapecoense.com/pt. Acesso em: 15 abr. 2017.

86 O confronto pelas oitavas de final do torneio foi decidido nas cobranças de pênaltis, em que o goleiro Danilo defendeu quatro das oito cobranças do time argentino. Disponível em: http://espn.uol.com.br/noticia/634812_danilo-defende-quatro-cobrancas-chapecoense-bate-independiente-nos-penaltis-e-avanca. Acesso em: 15 abr. 2017.

87 Também morreram membros da comissão técnica, incluindo o técnico Caio Júnior, o presidente do time Sandro Pallaoro e o vice-presidente da CBF Delfim Pádua, além de integrantes da tripulação. Disponível em: http://especiais.g1.globo.com/mundo/2016/lista-de-mortos-na-queda-de-aviao-da-chapecoense/. Acesso em: 15 abr. 2017.

88 O Bom Dia Brasil teve praticamente quatro horas de duração, mais que o dobro do seu tempo habitual. Por esse motivo, o Mais Você e o Bem Estar foram cancelados. Disponível em: http://odia.ig.com.br/diversao/televisao/2016-11-29/cobertura-da-globo-sobre-acidente-aereo-fez-audiencia-crescer-45-no-rio.html. Acesso em: 14 abr. 2017.

89 Os presentes no estádio ainda entoaram, direcionando aos torcedores da Chapecoense, a música com a frase, em tradução livre, “vocês nunca vão andar sozinhos”. Disponível em: https://twitter.com/LFC/status/803689786611499008. Acesso em: 15 abr. 2017.

90 No dia seguinte, jornais de todo o mundo, como o argentino Clarín, o inglês The Times, o espanhol El País e o estadunidense The New York Times trouxeram o desastre aéreo como principal destaque em suas capas. Disponível em: http://territoriodeideias.blogspot.com.br/2016/11/forcachape-nos-jornais.html. Acesso em: 15 abr. 2017.

91 Entre os homenageados, destaca-se o garoto Johan Alexis Ramírez Castro, que ficou conhecido como o “anjo da Chapecoense”. Morador de região próxima ao local da tragédia, ele auxiliou as primeiras equipes de resgate na locomoção até o local do acidente durante a madrugada chuvosa. Disponível em: http://www2.planalto.gov.br/acompanhe-planalto/noticias/2016/12/governo-condecora-colombianos-que-ajudaram-no-resgate-da-chapecoense. Acesso em: 15 abr. 2017.

92 Essa transmissão ocorreu de forma ininterrupta das 9h52 às 14h, sendo que durante a tarde foram ao ar apenas boletins nos intervalos comerciais da programação com atualizações sobre os ataques. Disponível em: http://memoriaglobo.globo.com/programas/jornalismo/telejornais/jornal-hoje/atentados-aos-eua.htm. Acesso em: 14 abr. 2017.

93 As iniciativas em torno da partida renderam cerca de cinco milhões de reais em doações para a reconstrução da Chapecoense. Disponível em: http://www.jb.com.br/esportes/noticias/2017/01/26/jogo-da-amizade-rende-cerca-de-r-5-milhoes-a-chapecoense/. Acesso em: 15 abr. 2017.

94 O time colombiano recebeu diversas homenagens durante sua estadia na cidade, sendo qualificado como “campeão do mundo em respeito e solidariedade”. Disponível em: http://esporte.ig.com.br/futebol/2017-04-03/atletico-nacional-homenagens-chapeco.html. Acesso em: 15 abr. 2017.

95 A Chape, contudo, já conquistou seu primeiro título de expressão após a tragédia. Dono da melhor campanha do torneio, o time aproveitou a vantagem do empate no placar agregado e foi campeão catarinense pela segunda vez consecutiva em final diante do Avaí. Disponível em: http://esportes.estadao.com.br/noticias/futebol,chapecoense-e-campea-catarinense-e-leva-primeiro-titulo-apos-tragedia,70001767122. Acesso em: 13 mai. 2017.

96 Ele treinou as Seleções sub-23 e sub-20 entre janeiro de 2013 e maio de 2015. Disponível em: http://globoesporte.globo.com/futebol/selecao-brasileira/noticia/2015/05/gallo-e-demitido-e-rogerio-micale-e-o-novo-tecnico-da-selecao-sub-20.html. Acesso em: 16 abr. 2017.

97 O Brasil foi eliminado na primeira fase, o que não acontecia desde 1987. Disponível em: http://globoesporte.globo.com/futebol/selecao-brasileira/noticia/2016/06/apos-reuniao-na-cbf-dunga-e-demitido-do-comando-da-selecao.html. Acesso em: 16 abr. 2017.

98 A declaração foi concedida ao programa Seleção SporTV. Disponível em: http://sportv.globo.com/site/programas/selecao-sportv/noticia/2016/06/tite-da-apoio-micale-e-diz-que-seria-egoista-se-assumisse-time-olimpico.html. Acesso em: 16 abr. 2017.

99 O imbróglio perdurou por meses, com a confederação alentando a possibilidade de que o jogador pudesse atuar pelos dois torneios. Disponível em: http://globoesporte.globo.com/futebol/selecao-brasileira/noticia/2016/04/barca-afirma-que-neymar-jogara-olimpiadas.html. Acesso em: 21 abr. 2017.

100 Fiorin (2004, p. 18) cita Aristóteles para definir esse conceito, apontando que “é o ethos leva à persuasão, quando o discurso é organizado de tal maneira que o orador inspira confiança”.

101 De acordo com a publicação, os presentes ao Maracanã no instante dos gritos de “campeão!” eram 78 mil. Disponível em: https://www.nytimes.com/2016/08/21/sports/olympics/soccer-brazil-germany-neymar-live-score.html. Para o argentino Clarín, que citou uma mistura de “alívio, revanche e orgulho”, eram mais de 80 mil. Disponível em: https://www.clarin.com/juegos-olimpicos-rio-2016/latente-brasil-alemania-definen-futbol_0_SkV987Uc.html. Acesso em: 22 abr. 2017.

102 O texto disserta também sobre os clichês realizados durante a cobertura. Disponível em: https://olimpiadas.uol.com.br/noticias/redacao/2016/08/20/galvao-chora-ao-final-de-transmissao-dramatica-e-recheada-de-cliches.htm. Acesso em: 22 abr. 2017.

103 Cosme Rímoli, do R7, menciona especificamente o narrador: “Galvão Bueno não fala uma palavra no Jornal Nacional sem autorização da direção da emissora”. Disponível em: http://esportes.r7.com/blogs/cosme-rimoli/a-cruel-vinganca-de-marco-polo-del-nero-acabou-com-a-exclusividade-da-globo-sobre-a-selecao-brasileira-esta-extinto-o-monopolio-da-emissora-carioca-a-propria-cbf-vai-transmitir-os-jogos-com-novos-29052017/. Acesso em: 30 mai. 2017.

104 Para ela, o narrador se modernizou ao longo de sua trajetória. Disponível em: https://uolesportevetv.blogosfera.uol.com.br/2013/11/08/veja-o-antes-e-o-depois-de-narracoes-de-galvao-em-3-decadas-e-compare-fases/. Acesso em: 27 mai. 2017.

105 Por exemplo, a polêmica edição do debate presidencial do segundo turno de 1989 com o favorecimento de Fernando Collor em detrimento de Luiz Inácio Lula da Silva ocorreu somente no telejornal noturno. Horas antes, o Jornal Hoje havia mostrado uma versão mais neutra do mesmo confronto. Disponível em: http://memoriaglobo.globo.com/programas/jornalismo/telejornais/jornal-nacional/as-eleicoes-e-o-debate-collor-x-lula.htm. Acesso em: 29 mar. 2017.

106 A edição foi encerrada somente às 22h40, outro feito histórico. Disponível em: http://veja.abril.com.br/blog/radar-on-line/jornal-nacional-teve-maior-audiencia-de-2016-no-sabado/. Acesso em: 04 mar. 2017.

107 Nesse dia, a TV Globo começou a cobrir o acidente desde às 4h10. Toda a programação foi alavancada pela repercussão da tragédia. Disponível em: http://kogut.oglobo.globo.com/noticias-da-tv/audiencia/noticia/2016/11/no-dia-da-tragedia-da-queda-do-aviao-da-chapecoense-jornal-nacional-marca-34-pontos-no-rio-e-33-em-sp.html. Acesso em: 04 mar. 2017.

108 No ano, a atração pela primeira vez ficou abaixo dos 50% de share, a proporção de telespectadores sintonizados entre os aparelhos ligados. Disponível em: http://entretenimento.r7.com/famosos-e-tv/noticias/jornal-nacional-encerra-2010-com-pior-audiencia-da-historia-20110105.html. Acesso em: 08 jun. 2017.

109 Ancora o Jornal Nacional desde outubro de 2014, quando substituiu Patrícia Poeta. Antes do JN, foi apresentadora do canal de notícias Globo News, do Bom Dia Brasil e do Fantástico. Disponível em: http://globotv.globo.com/rede-globo/memoria-globo/v/jornal-nacional-estreia-de-renata-vasconcellos-2014/3757042/. Acesso em: 04 mar. 2017.

Não tinha grande identificação com o esporte no período anterior aos Jogos Olímpicos, tendo como coberturas mais destacadas na época as da editoria geral, como no período em que cobria as férias das então titulares e apresentou o Jornal Nacional durante duas grandes tragédias no mês de janeiro. Em 2011, indo até as cidades mais atingidas pelas chuvas que mataram centenas na Região Serrana do Rio de Janeiro. E em 2013, do estúdio, no dia seguinte ao incêndio da boate Kiss, em Santa Maria. Disponível em: http://natelinha.uol.com.br/colunas/2014/09/16/renata-vasconcellos-ja-era-a-sucessora-natural-de-fatima-bernardes-79845.php. Acesso em: 04 mar. 2017.

110 Ele costuma ser escolhido não somente por fins de audiência, mas também quando a emissora pretende se posicionar institucionalmente. Disponível em: http://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/televisao/narrador-vira-reserva-de-galvao-bueno-e-desconta-bronca-na-equipe--10704. Acesso em: 04 mar. 2017.

111 Coube a Galvão, entre outros eventos peculiares, a transmissão da virada do milênio, o Réveillon entre 1999 e 2000. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ari-fEmS6Vw. Acesso em: 04 mar. 2017.

112 A dimensão da campanha fez com que ela se tornasse pauta em grandes veículos da imprensa internacional, como o The New York Times. Disponível em: http://www.nytimes.com/2010/06/16/nyregion/16about.html. Acesso em: 04 mar. 2017.

113 Ele comentou o episódio durante a Central da Copa, programa especial conduzido por Tiago Leifert nos dias de jogos da Seleção Brasileira no Mundial de 2010. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=jdyftxYdbfU. Acesso em: 04 mar. 2017.

114 Bassan conduziu todas as reportagens, porém com alterações no restante da equipe entre os VTs. Durante a edição da série, Pedro Ivo Salles, responsável por alguns deles, morreu em um acidente de trânsito no Rio. Ari Júnior, cinegrafista que acompanhou 10 dos 16 perfis, também faleceria meses depois na tragédia com o voo da Chapecoense. Disponível em: http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2016/07/serie-perfis-comeca-nesta-segunda-no-jn-com-o-campeao-arthur-zanetti.html. Acesso em: 12 mar. 2017.

115 Na conquista de Thiago Braz no salto com vara, o canal exibia originalmente no horário o jogo entre Brasil e França no vôlei masculino, que marcou 20,1 pontos de média, sendo interrompido por diversas vezes conforme o brasileiro avançava no atletismo.

116 A edição de 20 de junho de 2013, durante o auge das manifestações populares no país no período da Copa das Confederações, durou mais de três horas, porém iniciou-se como um boletim do jornalismo, que foi repetidamente estendido de forma não programada pela relevância dos acontecimentos ao vivo, sendo transformado em JN de fato apenas às 20h30, horário habitual do telejornal, com as informações sendo dadas pelos mesmos apresentadores e do mesmo estúdio anteriormente. Disponível em: http://g1.globo.com/jornal-nacional/videos/t/edicoes/v/v/2646538/. Acesso em: 04 mar. 2017.

117 Na ocasião, os apresentadores titulares William Bonner e Patrícia Poeta estavam em Brasília para entrevistar a então candidata à reeleição Dilma Rousseff, enquanto Heraldo Pereira ancoraria as demais notícias do dia do estúdio habitual no Rio de Janeiro. Devido ao acidente aéreo que vitimou Eduardo Campos, a sabatina com a presidente foi cancelada, mas não houve tempo hábil para o retorno dos âncoras, que acabaram apresentando toda a edição com os destaques sobre a tragédia no litoral paulista dos estúdios dos telejornais locais do Distrito Federal. Disponível em: http://natelinha.uol.com.br/colunas/2014/08/14/jornal-nacional-abandona-estudioredacao-pela-primeira-vez-desde-2000-78444.php. Acesso em: 04 mar. 2017.

118 Outro tópico de exibição diária era dedicado ao quadro de medalhas dos Jogos, destacando os primeiros colocados e a posição brasileira.

119Ambos afirmam que as alegadas celeumas eram apenas brincadeiras. Disponível em: http://mauriciostycer.blogosfera.uol.com.br/2016/08/20/cris-dias-e-waack-encerram-novelinha-da-crise-de-relacionamento-com-beijo/. Acesso em: 07 mai. 2017.

120 Em 2014, prédios como os do Palácio do Planalto, da Esplanada dos Ministérios e do Congresso Nacional foram iluminados de verde e amarelo durante o Mundial. Disponível em: http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2014/06/02/interna_cidadesdf,430574/brasilia-verde-a-amarela-monumentos-da-capital-se-iluminam-para-a-copa.shtml. Acesso em: 08 mai. 2017.


Publicado por: Lucas Rodrigues Félix

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do site por meio do canal colaborativo Monografias. O Brasil Escola não se responsabiliza pelo conteúdo do artigo publicado, que é de total responsabilidade do autor. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.