Aparecidinha - Um olhar para o romeiro

Comunicação e Marketing

A história da romaria de Aparecidinha no interior de São Paulo, as características e tradições dos romeiros e a religiosidade que aproxima os mais jovens ao ritual da fé.

índice

1. RESUMO

Este projeto experimental apresenta a produção do livrorreportagem Aparecidinha – Um olhar para o romeiro que tem por base a experiência dos romeiros que participam da Romaria de Aparecidinha na cidade de Sorocaba, interior de São Paulo. A Romaria de Aparecidinha é uma tradição de pelo menos 117 anos, completados em janeiro de 2016. O livro aborda a figura do romeiro: sua fé, suas histórias, sua devoção mariana. Romeiros são aqueles que mantêm a continuidade da tradi- ção, que a renovam, que a fortalecem. Eles são de diferentes idades e realidades e são os personagens principais do livro.

Palavras-chave: Aparecidinha; Romeiro; Romaria; Sorocaba.

2. INTRODUÇÃO

A devoção a Maria, mãe de Jesus, é um fenômeno mundial, denominada marial ou mariana, originária na religião católica. Segundo o último censo do IBGE (Ins- tituto Brasileiro de Geografia e Estatística) realizado em 2010, cerca de 64% dos brasileiros são católicos. Na cidade de Sorocaba, interior de São Paulo, o mesmo censo apontou que 54% da população local é católica.

A cidade tem uma forte devoção mariana que se manifesta em uma tradição bicentenária denominada Romaria de Aparecidinha, que reúne milhares de pessoas em cada uma de suas duas etapas. Estima-se que, em média, 20 mil pessoas participem da romaria no mês de janeiro e 70 mil no mês de julho, segundo pesquisa rea- lizada para nosso TCC (Trabalho de Conclusão de Curso), para o curso de Jorna- lismo, com o título RELIGIOSIDADE NO JORNALISMO LOCAL - Uma análise da cobertura do jornal Cruzeiro do Sul sobre a Romaria de Aparecidinha.

O tema do referido TCC, apresentado em julho de 2016, foi a Romaria de Aparecidinha e para sua realização escolhemos o período de 11 anos (de 2005 a 2015) de cobertura do evento pelo jornal Cruzeiro do Sul.

Ao escolhermos o tema para o presente trabalho, TCC Produto – livrorreportagem - decidimos dar continuidade ao tema Romaria de Aparecidinha, com enfoque nas mudanças ocorridas na figura do romeiro nos últimos 20 anos.

Adotamos o historiador Aluízio de Almeida para explicar o início dessa tradicional romaria. Conta Almeida (1974) que em Sorocaba havia um arraial chamado Piragibú do Meio, que surgiu ao longo de um córrego de nome Piragibú.

O local era parada de tropeiros vindos da região sul do Brasil, que comercializavam seus muares (mulas e burros) na região sudeste do país. Uma das rotas dos tropeiros era o trecho Viamão (RS) - Sorocaba(SP).

Foi assim que, em 1782, numa dessas paradas em Piragibú do Meio, os tropeiros trouxeram uma cópia da imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, semelhante àquela encontrada pelos três pescadores, em Aparecida (1717). Antes de partirem, deixaram a imagem abrigada em um buraco no tronco de uma árvore próxima ao local onde hoje existe um cemitério. A partir de então, a cada parada dos tropeiros no local, eles aproveitavam para fazer seus pedidos de proteção à santa, bem como seus agradecimentos. Os moradores adotaram o costume, que só fez crescer.

Mais tarde, em 1785, o guarda-mor português Antonio José da Silva, devoto de Nossa Senhora Aparecida desde quando residia em Lorena, Minas Gerais, mudou-se para Sorocaba, para o mesmo bairro, Piragibú do Meio.

Antonio José, ainda segundo Almeida (1974), construiu uma capela em taipa de pilão (técnica de construção na qual o barro é compactado horizontalmente, com o auxílio de formas e pilões) para abrigar a imagem trazida pelos tropeiros. A capela construída por Silva é o antigo e singelo Santuário de Aparecidinha.

Hoje, em 2016, o evento está em sua 117ª edição, contados a partir de 1899, quando monsenhor João Soares fixou as datas para a romaria. Dividida em duas etapas, a Romaria de Aparecidinha tem um ritual próprio: na primeira etapa, que ocorre em 1º de janeiro, a imagem da santa segue do santuário de Aparecidinha rumo à catedral de Sorocaba, no centro da cidade. Na segunda etapa, todo segundo do- mingo de julho, a imagem retorna ao santuário, em nova romaria, no percurso con- trário.

Este relatório está dividido da seguinte forma: no primeiro capítulo, temos a Introdução. No capítulo dois, a Metodologia. O capítulo três traz o Processo de Pro- dução do livro e o quarto capítulo apresenta as Considerações Finais, seguido pelo texto na íntegra do livrorreportagem Aparecidinha – Um olhar para o romeiro, já paginado em formato livro (como apêndice A).

3. METODOLOGIA

3.1. Tema

Para melhor compreendermos o tema deste estudo procuramos identificar, primeiramente, o conceito de romaria. Sanchis (2006) define a romaria como o ca- minhar doloroso, penoso, em condições precárias conhecidas e aceitas pelo romei- ro. É um caminho demorado, mas encantador, que remete o romeiro a uma intera- ção com a natureza selvagem e encontros lúdicos durante o caminho, até que o pe- regrino (romeiro) esteja na presença de um Santo, em um santuário próximo ou dis- tante. O Santo reverenciado, sagrado como gente, é alguém com quem o peregrino conversas, efetua a troca de energia, saúde, bens, promessas, alguém com quem se vive por um curto período de tempo. Esse tempo é como uma festa onde há comida, dança, bebidas, encontro que dura até o retorno para um quotidiano transfigurado, no qual o peregrino recomeça a espera pela próxima romaria. Segundo Sanchis (2006), a relação do romeiro com o Sagrado e sua relação com as romarias são pouco reguladas pela igreja. O autor explica que a igreja está, em princípio, revesti- da da missão de representar, apresentar e distribuir à sociedade profana aquilo que é considerado sagrado; esta sociedade profana na qual os homens instauram suas vidas diárias.

Sobre o romeiro, segundo o dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, é o in- divíduo que segue a romaria, o peregrino (HOUAISS, 2010, p.686). Compreende-se por devoção, segundo Pereira (2003), “os sentimentos religiosos que envolvem cul- to, prática religiosa, atitudes que demonstram uma dedicação íntima, uma afeição ou afeto a um ‘objeto’ de especial veneração” (PEREIRA, 2003). Neste trabalho que aborda a religiosidade popular, adotamos o conceito de Frei Luiz Carlos Susin (2012), que diz que “a religiosidade popular está presente no cotidiano do povo. A religiosidade popular está muito ‘colada’ às experiências da vida. Trata-se de ex- pressões, atitudes e gestos que expressam uma relação pessoal com Deus. Beija-se a cruz, faz-se romarias e peregrinações, insere-se elementos culturais nas celebra- ções – a exemplo da missa crioula, ou ainda, busca-se uma cura através de benze- deiras ou padres” (SUSIN, 2012).

3.1.1. Tropeiro

Não podemos nos esquecer do tropeiro, que deu início a tradição de fé soro- cabana. No período do Brasil Colonial, mais especificamente entre os séculos XVII e XVIII, o desenvolvimento econômico contou com homens que faziam o transporte e comércio de animais, os muares (mulas, burros), entre as regiões sul e sudeste do país: eles eram os tropeiros. Assim, o tropeirismo foi responsável pela fundação de várias cidades nos estados de Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

Aluísio de Almeida, em seu livro Vida e Morte de Tropeiro (1971), explica que o tropeirismo surgiu praticamente na mesma época dos Bandeirantes, mas que ha- via uma diferença entre eles: enquanto os Bandeirantes lutavam contra os indíge- nas rebeldes e recuperar escravos fugidos, os tropeiros tinham o objetivo de fazer comércio entre vilas que começavam a se instalar no território brasileiro. Foram pio- neiros nas cidades de Sorocaba, Taubaté, Viamão, Santana do Parnaíba e São Vi- cente, sendo uma de suas rotas o trecho Viamão (RS) - Sorocaba(SP).

A economia da época foi intensificada por esses cavaleiros, que tiveram pa- pel importante no transporte de alimentos, metais preciosos e na dissemina- ção de ideias e notícias entre aldeias e comunidades emergentes, contribu- indo assim para a formação cultural dos paulistas. (ALMEIDA, Vida e Morte de Tropeiro, 1971).

A partir do século XVIII, por causa dos pousos que esses tropeiros faziam pa- ra descansar, trocar e comercializar suas mercadorias começaram a surgir peque- nos povoados ao longo do trajeto feito pelas tropas. Para atender a necessidade das tropas enquanto estacionadas, o comércio local começou a se desenvolver. Foi atra- vés dessa dinâmica que os tropeiros contribuíram para o desenvolvimento das regi- ões, fomentando ainda o intercâmbio cultural entre regiões longínquas do Brasil Co- lônia. Ao pesquisar a vida dos tropeiros encontramos relatos de como era sua rotina, suas longas jornadas e sobre como eles desempenhavam um papel que estava a- lém do econômico: era um papel histórico, cultural e social. Dal Corno e Santos (2014) definem o papel do tropeiro como “um grupo social, já que, em função da constância do ofício, compartilharam hábitos, atividades, rotinas, vestimentas e culi- nárias típicas, além de enraizarem no imaginário social mitos, histórias e ditos que representam sua história e visões de mundo”.

Muitas vezes, os tropeiros percorriam distâncias de 40 km por dia, enfrentando todo tipo de terreno, usando seus chapéus de feltro, geralmente preto, cinza ou marrom. As roupas eram de tecido grosso, resistente. Capa, botas que chegavam até o meio das coxas para aguentar a chuva e terrenos alagadiços.

De acordo com Paes (2001), com a descoberta do ouro nas Gerais, ainda no século XVIII, cresceu a necessidade de transportar os minérios e produtos para subsistência dos trabalhadores, pois não havia estrutura mínima nas proximidades das minas onde trabalhavam:

A região das minas não tinha estrutura para receber a grande leva de pessoas que se dirigiam para lá. Faltava comida e, sobretudo, meios de transporte. Os terrenos não eram muito propícios para a agricultura nas regiões das Minas, além de serem pedregosos, eram muito íngremes. O transporte a cavalo não era um bom negócio porque este tipo de animal não suportava as dificuldades de caminhos inóspitos, falta de água. A princípio, o transporte era feito por escravos, indígenas e africanos. Os indivíduos que para lá se dirigiam não estavam interessados na agricultura, e sim no ouro. Mui- tas foram as pessoas que morreram de fome, por inanição. (PAES, 2001, p.59)

Diante disso, além do comércio de muares os tropeiros passaram a transportar também uma boa variedade de mercadorias. Entre elas: açúcar, aguardente, vinho, bacalhau, azeite, peixe seco, gengibre, marmelada, sabão, carne seca, manteiga, biscoito, tecido, coco, algodão, vidro, sal, pimenta-do-reino, além dos ingredientes usados no conhecido feijão tropeiro, alimentação típica daqueles homens (tor- resmo, bacon, alho, cebola, couve). A cachaça era apenas para ocasiões especiais ou para aliviar picadas de insetos. Para o escoamento dos produtos de mineração foram criados caminhos, rotas para que as tropas de muares fizessem o transporte. Uma dessas rotas passava pela Vila de Sorocaba. Em 1750 foi criado o Registro de Sorocaba, onde os tropeiros pagavam impostos ao passar. Assim, surgiram as feiras de muares, que eram anuais. Sobre isso, diz Almeida (2002):

Quando e como começou a feira de Sorocaba? Respondendo-se ao “como” com o advérbio “insensivelmente” após a criação do registro que era a condição indispensável, tem-se a data mais remota de 1750 (ALMEIDA, 2002, p. 63)

Eis que em 1750 cria-se em Sorocaba o Registro de animais e fixa-se o lu- gar de encontro, aí, entre vendedores e compradores 9ALMEIDA, 1993, p. 64)

O movimento das feiras era tão intenso que a Feira de Muares de Sorocaba cresceu e era sua principal atividade, ao lado da indústria de arreios, redes, chicotes, cintas, correias, calçados, tudo artesanal que também supria as necessidades dos próprios tropeiros. Embora não fosse uma indústria grande, complementava a rotina comercial da vila e da feira de muares. O tropeirismo não serviu apenas ao ciclo do ouro (sec.XVIII) e outros minérios; foi importante também no ciclo do café (sec.XIX e XX). Em 1785, com a inauguração da Estrada de Ferro Sorocabana, viu-se diminuir a importância da Feira de Muares de Sorocaba, que aconteceu pela última vez em 1897.

3.2. Reportagem

Para a produção deste livro, foi necessário compreender os preceitos e con- ceitos do jornalismo, como a reportagem, matriz do produto livrorreportagem.

Segundo Lima (1998), com o surgimento das revistas semanais por volta de 1920, surgiu o gênero jornalístico que ampliava a abordagem, contextualizava e detalhava a notícia: a Reportagem. Livre do compromisso com a atualidade, as repor- tagens nascem de um fato já conhecido e têm maior liberdade para se aprofundar nos assuntos e de contextualizá-los. Lima (1998) afirma que “o instrumento básico para o relato jornalístico é a notícia, forma de comunicação que condensa a repro- dução dos fatos sociais. Mas como há temas que requerem abordagem mais ampla, o jornalismo desenvolveu, ao longo do tempo, uma forma de mensagem mais rica, cujo teor procura redimensionar a realidade sob um horizonte de perspectivas onde não raro existem várias dimensões dessa mesma realidade. Essa forma é a reporta- gem, que nos casos mais felizes oferece, em torno de um núcleo frio que marca a face árida de um acontecimento, todo um contexto embelezado pela dimensão hu- mana, pela tradução viva do ambiente onde ocorrem os fatos, pela explicação de suas causas, pela indicação dos rumos que poderá tomar”.

Apesar da importância do gênero jornalístico que permita um maior aprofun- damento na notícia, observa-se uma falta de flexibilidade do universo jornalístico no que se refere à valorização do gênero reportagem, matéria prima do livrorreporta- gem, conforme analisa Milman (1998). O autor afirma que: “A reportagem é uma modalidade jornalística deprimida nas redações de hoje. Pelo menos na sua forma mais elaborada. Sem a compreensão adequada das condições metodológicas que a tornam possível, a ideia de jornalismo inteligente que ela realiza dá lugar a uma rea- lidade na qual se produz um jornalismo indigente. Por essa razão, para quem se in- teressa, ou faz, ou, sobretudo, pretende fazer jornalismo, discernir entre a metodolo- gia sofisticada da reportagem e a metodologia esquemática do noticiarismo é, tal- vez, saber fazer a mais relevante das distinções” (MILMAN, 1998).

3.3. Livrorreportagem

O fato real é o ponto de partida para o livrorreportagem. Esse fato real, ou factual, pode receber diferentes enfoques, desdobramentos, um cenário melhor contextualizado não visto na imprensa diária. Para conceituar o gênero livrorreportagem, adotamos o olhar de Lima (1995) que diz: “Veículo de comunicação não periódica, o livrorreportagem é um produto cultural contemporâneo bastante peculiar. De um lado, amplia o trabalho da imprensa cotidiana, como que concedendo uma espécie de sobrevida aos temas tratados pelos jornais, pelas revistas, emissoras de rádio e televisão. De outro, penetra em campos desprezados ou superficialmente tratados pelos veículos jornalísticos periódicos, recuperando para o leitor a gratificante via- gem pelo conhecimento da contemporaneidade” (LIMA, 1995).

O autor (LIMA, 2009) explica, ainda, que “dos elementos que compõem o li- vrorreportagem como subsistema do jornalismo, seu catalisador, ou disparador, é a grande reportagem, assim como no jornalismo cotidiano o catalisador é a notícia. São as técnicas da reportagem de que se vale o livro de relato do real para se comunicar. É visando uma narrativa ampliada que o jornalista se propõe a produzir um livrorreportagem. É na expectativa de encontrar a explicação que o jornal não deu ou de ser informado das ações dos bastidores subjacentes à ocorrência relatada na revista, que o leitor pode motivar-se a um aprofundamento na grandeeportagem que o livro propõe” (LIMA, 2009).

De acordo com Belo (2006), livrorreportagem é algo complementar às outras produções jornalísticas. Tem a habilidade de enriquecer temas já abordados pela imprensa diária. Abordando temas como perfis, relatos de acontecimentos, memó- rias, entre outros, o livrorreportagem vem conquistando, cada dia mais, seu espaço no mercado editorial brasileiro: é uma ferramenta de disseminação da informação com teor jornalístico. Não objetiva substituir outros meios de comunicação, apenas complementá-los. A consistência de conteúdo, de informação organizada e a possi- bilidade de contextualizar o assunto abordado, torna o gênero mais rico. Belo ressal- ta que, talvez, apenas o documentário audiovisual possa assemelhar-se ou superar o aprofundamento do tema tratado, quando comparado ao livrorreportagem; defende que o tema abordado pelo livro tenha durabilidade maior que a notícia e que sua forma, dimensão e conteúdo o diferenciem do jornalismo praticado por outros meios. Com relação à mensagem a ser enviada pelo livro, o autor afirma que para que te- nha resultado, deve ser completa, límpida e atrativa.

Sobre a humanização dos relatos como requisito importante para um bom li- vro reportagem, Belo considera o livrorreportagem um produto que contém a essência do jornalismo tradicional: texto com poucos adjetivos e muita informação, mas acredita que tal resultado pode ser alcançado através de uma linguagem mais experimental. Belo (2006) afirma que “é a partir da humanização que a leitura se torna atrativa e mais ‘palatável’”.

3.4. Classificação

Há diferentes tipos de livrorreportagem.

Edvaldo Pereira Lima (1995) nos oferece uma classificação, mas não disponi- biliza uma descrição ou conceituação de cada uma delas. Orienta, ainda, que devemos defini-las analisando as características da obra.

O livrorreportagem classifica-se, segundo Edvaldo Pereira Lima (1995), por uma ordem temática. Ele propõe as seguintes tipificações para o gênero: livrorreportagem-perfil, livrorreportagem-retrato, livrorreportagem-depoimento, livrorreportagem-ciência, livrorreportagem-ambiente, livrorreportagem-novaconsciência, livrorreportagem-história, livrorreportagem-instântaneo, livrorreportagem-atualidade, livroreportagem-antologia, livrorreportagem-denúncia, livrorreportagem-ensaio e livrorreportagem-viagem (LIMA, 1995).

Consideramos Aparecidinha – Um olhar para o romeiro como livrorreportagem-atualidade uma vez que estuda um evento durante os últimos 20 anos para dizer quem é o romeiro de Aparecidinha nos dias atuais.

3.5. Linguagem

Para a obra que produzimos, optamos pela forma narrativa, contrariando a predominância da objetividade que reina na maioria das produções jornalísticas. Considerando que o tema tratado pelo livro é a fé, tema profundamente subjetivo, acreditamos ser correta a ideia de que um texto mais livre, sem preconceitos e regras inflexíveis, expressa melhor a essência do objeto. Assim, julgamos adequado o pensamento de Piza (2008), que aborda a necessidade de inovar e renovar, tanto na escolha dos temas quanto dos gêneros, palavras, estilo, abordagem e linguagem, por parte dos jornalistas: “É preciso [o jornalismo] perder o medo de usar palavras menos óbvias, fugir ao lugar-comum, costurar melhor descrições e argumentos, a- crescentar pitadas de humor, ironia e até lirismo, usar recursos como metáforas, tro- cadilhos e mudanças de andamento. É preciso diversificar os gêneros”.

Ainda segundo Piza (2008) o jornalismo não deve se submeter às versões oficiais e ideológicas sobre os fatos apresentados sem questioná-los ou aprofundar- se neles, assim como a literatura deve ter a disponibilidade de analisar a sociedade (brasileira) em toda sua complexidade e dramaticidade com uma abordagem realis- ta, mas sem medo.

3.6. Jornalismo Literário

Considerando que o livrorreportagem adota, muitas vezes, o estilo literário de escrever a notícia, buscamos o olhar de Hersey (2002) a respeito do estilo do jornalismo literário. Para Hersey, os especialistas afirmam que existem alguns requisitos exigidos para que uma obra possa ser classificada como fruto de Jornalismo Literá- rio. Nas palavras do autor “ela deve ser publicada em um jornal ou revista (a partir dos anos 80, com a diminuição crescente do espaço nos jornais e revistas, alguns autores passaram a publicar reportagens diretamente em forma de livro; no Brasil, essa foi a única maneira de o jornalismo literário sobreviver). Ela precisa estar anco- rada em fatos. Sua matéria prima é o trabalho de grande apuração: muitas entrevis- tas, muito bate pé de repórter, pesquisa em arquivos, exaustiva investigação de fa- tos, levantamento de dados” (SUZUKI Jr. In Hersey, 2002).

O que é jornalismo literário? Pesquisadores em Comunicação, explica Pena (2010), “associam o termo jornalismo literário a três definições, a saber: a prática do jornalismo em seus primórdios, onde a redação cabia a literatas; à crítica literária; e para definir as grandes reportagens mais aprofundadas e com redação aprimorada”.

Jornalismo literário é definido por Pena (2010) como um estilo discursivo que é a marca fundamental da confluência entre jornalismo e literatura. Pena explica que:

[...] ele surge com as características de um jornalismo popularizado, incor- porado à nova lógica capitalista viabilizada pelos anunciantes que financia- vam, através da compra de espaços publicitários cada vez mais caros, tira- gens cada vez mais altas. Publicar narrativas literárias em jornais propor- cionava um significativo aumento nas vendas e possibilitava uma diminuição nos preços, o que aumentava o número de leitores e assim por diante” (PE- NA, 2010, p.6).

3.7. Design Gráfico

Mais que palavras, explica Hendel (1999), um livro abriga a emoção, as ex- periências vividas, os olhares, as falas, os sussurros das conversas, lágrimas e sorrisos. Mas as imagens falam, e muito. Livro é arte e pode ser enriquecido com recur- sos gráficos disponíveis nas mais diversas formas, desde as mais artesanais às mais tecnológicas. Assim, trazemos nesta parte do trabalho, as escolhas gráficas baseadas em estudiosos como Hendel (1999), que define a importância do projeto gráfico:

“Design gráfico é uma arte aplicada, [...] usada para comunicar visualmente uma mensagem específica”. Esta [...] mensagem está tanto na forma de dizer, na maneira como as palavras se apresentam quanto nas palavras em si. Na verdade, às vezes, nem mesmo existem palavras. “O designer gráfico atribui uma atitude às palavras para influenciar a maneira como o leitor as vê e reage a elas”. (HENDEL, 1999, p.4-5).

3.7.1. Fotografia Social

A fotografia é considerada texto, pois carrega consigo uma mensagem, mui- tas vezes, mais contundente que as palavras. Por esta razão, ainda dentro do design gráfico, considerarmos importante o registro da figura do romeiro na manuten- ção desta manifestação popular bicentenária, fizemos uso intenso da fotografia como recurso gráfico.

Segundo Martins (2010), a fotografia tem funções diversas, desde as pura- mente técnicas às puramente artísticas, passando pelas relativas ao lazer e à memória do homem comum. “A fotografia vista como conjunto narrativo de história, e não como fragmento imagético, se propõe como memória dos dilaceramentos, das rupturas, dos abismos e distanciamentos, como recordação do impossível, do que não ficou e não retornará” (MARTINS, 2010).

Destacamos a interessante colocação de Martins (2002) sobre a importância da memória na sociedade:

[...] “Memória do que opõe a sociedade moderna à sociedade tradicional, memória do comunitário que não dura, que não permanece. Memória de uma sociedade de rupturas, e não de coesões e permanências. Memória de uma sociedade de perdas sociais contínuas e constitutivas, de uma socie- dade que precisa ser recriada todos os dias, de uma sociedade mais de es- tranhamentos do que de afetos [...]” (MARTINS, 2002, p.32-45).

4. PROCESSO DE PRODUÇÃO

A primeira etapa que contribuiu para a produção deste Trabalho de Conclusão de Curso - Produto foi a elaboração da monografia Religiosidade no Jornalismo local - uma análise da cobertura do jornal Cruzeiro do Sul sobre a Romaria de Aparecidinha em Sorocaba – SP (2005/2015). Durante as pesquisas feitas para a monografia citada, sentimos falta de um olhar mais apurado, mais próximo e huma- nizado sobre a figura do romeiro.

4.1. A pauta

A escolha do enfoque da pauta se deu pela identificação dos autores com aspectos do tema: religiosidade, fé, cultura através das manifestações populares e folclore. Tem com o objetivo revelar qual é o perfil do romeiro de Aparecidinha hoje, analisando as transformações dos últimos 20 anos. Acreditamos ser importante re- gistrar esta tradição e que o livro possa contribuir, ainda que pouco, para sua valorização.

4.2. Captação

4.2.1. Entrevista

Realizamos todas as entrevistas pessoalmente com todos os personagens (todos romeiros) que participam da romaria de Aparecidinha, de diferentes idades, realidades e perspectivas. Os entrevistados para o livrorreportagem estão abaixo elencados:

  • Padre José Antonio Leite, Reitor do Santuário de Aparecidinha, que contribuiu com o aspecto histórico da Romaria.

  • José Antonio Soares - Diácono do Santuário, também romeiro, indi- cado por alguns entrevistados como um profundo observador da Romaria ao longo dos anos, informação que foi confirmada durante as duas entrevistas por ele concedidas.

  • Três dos homens responsáveis por conduzir o andor de Nossa Senho- ra: Mário Guidolin, 88 anos de idade ( 68 anos como romeiro e condutor do andor); Darci Vallerini, 68 anos de idade (46 conduzindo o an- dor) e João William Marcelo, 62 anos de idade (34 como organizador do andor). Ao longo de quase meio século, esses homens puderam observar as mudanças ocorridas, tanto na romaria quanto no romeiro, cuidando do que pode ser considerado o centro nervoso da peregrinação.

  • Dona Mariínha, como é carinhosamente conhecida, Maria Delfina de Souza é romeira há 40 anos.

  • Ricardo Rocha, 15 anos de idade, fotografa a Romaria de Aparecidinha.

  • Francisco Thyerr, de 18 anos, veio do Piauí e tornou-se romeiro de Aparecidinha.

  • Grupo de jovens da paróquia de Aparecidinha, chamado Eu Sou do Meu Amado, para fundamentar a informação de que eles estão mais presentes na romaria e sobre a influência do Papa a respeito (informa- ção obtida em entrevista com as romeiras e acolhedoras dos romeiros, citadas a seguir)

  • Sandra Maria S. Moraes e Geni Pereira Mendes, ambas com 25 anos como romeiras e há 4 anos na Pastoral da Acolhida.

  • Priscila de Barros e Paulo Sérgio da Silva, um casal com dois filhos que fizeram pedidos e alcançaram graças.

  • Francisco Trettel e Valter Trettel: uma família de Piedade que viaja reunida em Romaria para Aparecidinha (cerca de 33 primos).

  • Lucas Francisco Onofre – jovem que operou por duas vezes um tu- mor no cérebro; é romeiro e devoto.

O enfoque das entrevistas foi: o que mudou na romaria e, principalmente no romeiro, nos últimos 20 anos? Não foram utilizadas perguntas pré-estruturadas e os entrevistados puderam falar livremente.

4.2.2. Observação partipante

Para este livrorreportagem, que trata de sentimentos inerentes ao ser huma- no, seus hábitos e costumes, sua identidade, era inescapável estar inserido no fenômeno a ser estudado. A observação e percepção do próprio repórter de tudo aqui- lo que acontece durante o evento objeto de estudo é indispensável e determinante na qualidade final, na intensidade e fidelidade dos fatos narrados no livrorreporta- gem. Assim, nossa participação na 117ª edição da Romaria de Aparecidinha aconte- ceu em 10 de julho de 2016, desde seu início às 5h na Catedral Metropolitana, no centro de Sorocaba, até seu final, por volta do meio dia, no bairro de Aparecidinha.

Foram percorridos cerca de 14 km do percurso junto com os romeiros, que fo- ram observados e com os quais conversamos. Consideramos como outra forma de Observação Participante nossa inserção na comunidade de Aparecidinha, no bairro, através de conversas com funcionários, visitantes e romeiros que trabalham e/ou frequentam o antigo Santuário de Aparecidinha em várias visitas feitas a estes locais em diferentes dias e horários. Assistimos a três missas nas quais estavam presentes muitos romeiros, em busca de identificar potenciais fontes para o livro e obtivemos bons resultados.

Estivemos no santuário antigo por quatro domingos, durante eventos como a visita de famílias de romeiros de outras cidades e para conviver com o grupo de jovens da paróquia de Aparecidinha.

Outro aspecto a ser considerado é que todo o processo descrito acima permi- tiu contextualização mais profunda da relação dos romeiros com a romaria e perceber que ela está intimamente ligada ao Santuário de Aparecidinha. Sobre observa- ção participante e sua subjetividade, a jornalista Maria Pia Sica Palermo (2001) defende que o trabalho do jornalista pode ser composto não apenas pelo que ele viu e ouviu, mas também pelo que vivenciou. Palermo conceituou em sua dissertação Vi- ver na pele do outro: o uso da observação participante na realização da reportagem:

“[...] O importante é fazer parte do que vai reportar. Como o antropólogo que se desloca e vai a campo buscar informações para seu estudo, o repórter usa o método da observação participante para conviver com a matéria- prima de seu trabalho. Para debruçar-se sobre o material com o qual traba- lha, a ocorrência social, o jornalista vai além da observação e passa a con- viver e experimentar essa realidade sobre a qual vai escrever, cumprindo com sua tarefa informativa e orientativa”. (PALERMO, 2001, p.11).

Para a autora, “a observação participante é um recurso que permite ao jor- nalista ampliar e redimensionar a apreensão daquilo que vai narrar. Torna-se, nesse processo, um repórter-ator, que não apenas observa, mas vive a realidade que vai descrever. Representa um testemunho dos demais personagens, obtendo sua pró- pria vivência e impressões, colaborando para uma maior compreensão do mundo. Ao utilizar a técnica de observação participante, nem sempre o tema estará atrelado ao factual, mas à compreensão de um fenômeno social, que recebe tratamento mais profundo. Não se trata de agrupar os depoimentos num texto, como ocorre no jorna- lismo convencional, mas de reportar o fruto da experiência do repórter, a intensidade do convívio, a intensidade do ambiente. O resultado final, segundo a autora, é a efi- ciência de cunho informativo de uma reportagem que o repórter ‘viveu’, pois seu re- lato não sofre o abalo, graças à sua inserção no meio que deseja estudar. O resulta- do é mais profundo graças ao convívio, tempo e tipo de vivência, do quanto o repór- ter esteve ‘na pele do outro’ que partilha aquela realidade” (PALERMO, 2011).

4.3. Produção

Durante o período de seis meses fizemos contatos com as fontes e levanta- mos dados. Em 10 de julho de 2016 participamos da 117ª Edição da Romaria de Aparecidinha, no retorno da santa ao santuário do bairro. Às 4h30 da manhã saímos de nossa casa em Porto Feliz em direção à Catedral de Sorocaba. Chegamos às 5h, assistimos à missa de acolhida aos romeiros. A seguir, partimos para os 14 km de percurso, que fizemos a pé do início ao fim. Ao longo do caminho, abordamos alguns romeiros e descobrimos que a romaria não é o momento adequado para entrevistá- los, pois eles não se mostram propensos a falar. Estão determinados a caminhar e refletir, fazer suas preces e participar integralmente da romaria.

Foi importante participar para observar, sentir o ambiente, o contexto, ver e ouvir. Conseguimos os meios de contatos de vários romeiros e depois de alguns dias marcamos as entrevistas. Mais receptivos, as fontes se dispuseram prontamente a participar das entrevistas. Curiosamente, quase todas as entrevistas foram marca- das no santuário de Aparecidinha, a pedido dos romeiros. Foi útil, pois agregou in- formação e contexto. Além disso, no ambiente do antigo santuário, os romeiros se sentem seguros, aconchegados, em casa, como pudemos perceber. Ajudou, ainda,porque quando assistimos às missas tanto no antigo quanto no novo santuário, aca- bamos por conhecer outros personagens.

Eles compartilharam suas ideias e percepções sem dificuldade. Durante as visitas ao antigo santuário, conhecemos várias pessoas que podiam contribuir e enriquecer o livro. Nós mesmos captamos as imagens fotográficas que ilustram o livro, mas contamos com a colaboração do fotógrafo Ricardo Rocha, da Pastoral de Comunicação do Santuário de Aparecidinha, que contribuiu com algumas de suas fo- tos, uma delas é a capa desta obra, devidamente identificadas no livro. Embora tenhamos falado com muitas pessoas e feito várias entrevistas, todas pessoalmente, não tivemos dificuldades para a produção do livro. Embora o percurso da romaria seja longo e cansativo, faz parte do processo.

4.4. Edição

Produzimos o livro com base nos preceitos do jornalismo literário: a tipologia textual é narrativa; algumas descrições moderadamente detalhadas em alguns momentos; narrador em primeira pessoa. Decidimos manter os depoimentos nas pala- vras dos próprios personagens devido ao cunho subjetivo de suas narrativas. Ado- tamos o uso de fotografias coloridas de todas as fontes, logo depois de seus depoi- mentos para facilitar a contextualização.

4.5. Estrutura

O livro está organizado em capítulos curtos para tornar a leitura mais leve e dinâmica, com indica a estrutura a seguir:

PREFÁCIO APRESENTAÇÃO

CAPÍTULO 1 - Devoção mariana

CAPÍTULO 2 – Tropeirismo sorocabano

CAPÍTULO 3 - A Romaria

CAPÍTULO 4 - Romeiros e as décadas

CAPÍTULO 5 - Os últimos 20 anos

CAPÍTULO 6 - Papa Francisco

CAPÍTULO 7 - Depoimentos

CAPÍTULO 8 - Jovens romeiros

CAPÍTULO 9 - Conclusão AGRADECIMENTOS

OBRAS CONSULTADAS ANEXOS

4.6. Público Alvo

Não desejamos especificar um público alvo para o livrorreportagem Aparecidinha – Um olhar para o romeiro por entendermos que o tema não oferece restrições. Destina-se a todos que desejarem saber mais sobre o tema.

4.7. Projeto gráfico

Para conceber o livrorreportagem Aparecidinha – Um olhar para o romeiro, pensamos em um produto final que ofereça, em caso de eventual publicação, preço acessível ao maior número de pessoas possível, mas que ofereça uma qualidade física que permita uma durabilidade razoável.

Capa: em papel cartão. Imagem: crédito de Ricardo Rocha.

Formato - A5 (14 x 21)

Título – Aparecidinha – Um olhar para o romeiro

Autora – Sandra Pires

Conceito: registro das mudanças ocorridas com os romeiros nos últimos 20 anos, focado nos romeiros católicos.

Palavras-chave: romeiro, Nossa Senhora, Aparecidinha, Sorocaba

Produto – pretende ser um livro para interessados no tema. Para tanto, espe- ra-se que tenha um custo acessível ao maior número de leitores. Deve ser adquirido muito mais por seu conteúdo que pela qualidade gráfica. Entretanto, esta deve aten- der às expectativas do preço, de seu conteúdo e que permita que ele seja guardado por muito tempo.

Grid – uma coluna - deseja clareza, identidade e eficiência.

Fotos – centralizadas nas páginas, seguidas de texto-legenda em itálico logo abaixo, com os devidos créditos e alinhados à esquerda da foto.

Títulos – centralizados em todas as páginas, corpo 12 em caixa alta

Margens – superior e inferior: 254 mm. Esquerda e direita: 191 mm

Tipografia – Adobe Garamond corpo 12

Entrelinhas – 1,50 cm

Orelha – continuação da capa, sem ilustração, na mesma cor

Quarta-capa – continuação da capa, sem ilustração, mesma cor, com peque no texto centralizado (cerca de 10 linhas) sobre cultura e identidade.

Página de autógrafo – sim (logo após o prefácio) Material da capa – papel Cartão 250mg/m2 Material do miolo – papel Offset

Formato – 14x21cm Acabamento – brochura Cor – colorido

Tiragem inicial – de 01 exemplar para demonstração

Marca páginas - igual á figura utilizada na página de autógrafo (mão carre gando um cajado enfeitado com uma rosa branca).

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Acreditamos que o gênero livrorreportagem pode trazer ao profissional em jornalismo maior prazer para escrever. Utilizando ferramentas e recursos estilísticos adequados ao gênero, o profissional pode promover maior humanização da própria atividade jornalística, do produto final de seu trabalho e, consequentemente, do lei- tor. Assim, foi o recurso escolhido para resgatar parte da memória da Romaria de Aparecidinha. Foi um caminho longo, intenso e prazeroso. Conhecemos muitas pes- soas, olhares e histórias por meio dos depoimentos.

Impossível não lamentarmos a lacuna existente no que se refere à bibliografia especificamente dedicada ao conteúdo histórico da Romaria de Aparecidinha ou à figura de seu romeiro. Também não pudemos evitar, ao longo das entrevistas, ver crescer a ligação com o tema. Por meio de entrevistas olho no olho, feitas mais de uma vez quando se fez necessário, os romeiros deram seus depoimentos, falaram de seus sentimentos, impressões, observações e, assim, construíram o conteúdo deste livro. Algumas pessoas com as quais conversamos na romaria compartilharam suas histórias, mas não desejavam vê-las publicadas. Mesmo que não saibam e não apareçam citadas, contribuíram imensamente para o enriquecimento deste livro.

Consideramos-nos satisfeitos com o resultado e recompensados como jorna- listas, pois as pessoas entrevistadas durante o processo de produção do livro demonstraram alegria em falar sobre o tema. Esperamos que a publicação do material se torne uma realidade, não apenas por nós, mas por elas e todos os interessados.

Que o livrorreportagem que produzimos possa contribuir, ainda que pouco, para suprir a falta de bibliografia a respeito do tema. Que seja o primeiro passo de uma caminhada a qual outros se juntem.

A atividade jornalística deve servir à sociedade. Assim, esperamos ter contri- buído de alguma forma para o registro e valorização da tradicional romaria de Aparecidinha, acima de qualquer outra coisa.

Precisamos destacar o quanto a tecnologia foi uma ferramenta maravilhosa e facilitadora, principalmente, através das redes sociais e aplicativos de mensagem e, claro, durante as pesquisas. O que não sabíamos fazer, tivemos que aprender. Isso enriqueceu sobremaneira nosso aprendizado. Foram quatro meses de entrevistas, editando textos e imagens. Muitas correções, revisões e adequações. Muitos e- mails, telefonemas e mensagens...

Esse processo de produção faz com que os autores e o livro se tornem um só: criadores e criatura. Tanto que, quando terminamos de escrevê-lo, quando não havia mais ninguém a ser entrevistado; nenhuma correção a ser feita, nada mais a ser acrescentado, embora exaustos, ficamos tristes, vazios, órfãos. Com isso, aprendemos que quando se faz algo com amor e respeito profissionais, o trabalho é árduo, mas compensador. Já sentimos a necessidade de nos dedicarmos a um novo livro. Sobre os resultados das entrevistas, embora a pesquisa tenha tido como foco os últimos vinte anos, vale ressaltar que entre as conclusões a que chegamos, veri- ficamos que ainda existem os romeiros mais tradicionais, mais idosos e que, de cer- ta forma, dão o exemplo da tradição católica, mas estão em menor número que há 30 anos, quando eram a maioria.

O romeiro está mais jovem

Houve uma diminuição na faixa etária do romeiro. Pessoas casadas, na faixa dos 30 anos estão frequentando mais a igreja e a romaria, inclusive, trazendo seus filhos. Nos últimos três anos, jovens entre 14 e 25 anos voltaram a viver sua religiosidade, motivados pelo constante chamado do Papa Francisco à juventude. Eles gostam de participar de forma livre, mas também existem aqueles que preferem participar de maneira personalizada, criando uma identidade própria, seja através de grupos de jovens, grupos de oração, usando camisetas criadas por eles e identifica- das com o nome do grupo.

Percebe-se um comportamento de maior liberdade no modo como as pessoas exercitam sua fé. Podemos dizer que a relação das pessoas com sua religiosidade ficou mais leve, mas não menos responsável. Muitas delas não se sentem obrigadas a frequentar a igreja assiduamente para participarem da romaria. Agem de maneira mais autônoma, independente, mas não menos respeitosa aos preceitos da igreja. Apenas desenvolveram seu próprio ritual de fé, adequando-os à sua rotina da vida, imposta pelo trabalho, pelos estudos, pelas obrigações do lar.

Com isso, pessoas que estavam afastadas da vida religiosa, descobriram um modo de vivenciar sua fé, de acordo com sua própria rotina, sentindo-se menos culpadas por não dedicarem mais tempo à religião, e sentiram-se mais motivadas.

Essas são algumas das mudanças observadas no romeiro ao longo das últi- mas duas décadas. A fé é algo dinâmico, vivo, latente e, principalmente, individual e subjetiva. Está sempre em movimento. Sofre a ação do tempo como tudo mais. Cremos que o mais importante é que o ser humano nunca perca a capacidade de acreditar na vida, de manter-se fiel a si mesmo e de estar no controle de sua própria vida.

Estamos nos sentindo profissionais melhores preparados para dar continuidade ao nosso interesse por histórias nas quais os seres humanos sejam os protagonistas e gratificados ao perceber a ansiedade das pessoas pela eventual publica- ção do livro e o orgulho em participar. Sinal de que gostaram! E nós também, com certeza.

6. APÊNDICE A – O Livro

Apresentamos a seguir o texto na íntegra do livro Aparecidinha – Um olhar para o romeiro. Desse modo, a numeração das páginas a partir da próxima, refere-se à paginação do livro.

7. PREFÁCIO

Jornalista José Benedito de Almeida Gomes, Editor-executivo do Diário de Sorocaba e membro do Conselho Consultivo do Museu Arquidiocesano de Arte Sacra “Comendador Luiz Almeida Marins”, de Sorocaba.

“A piedade popular é uma maneira legítima de viver a fé, um modo de se sentir parte da Igreja e uma forma de ser missionários, onde se recolhem as mais profundas vibrações da Améri- ca Latina... Nossos povos se identificam particularmente com o Cristo Sofredor... E também en- contram a ternura e o amor de Deus no rosto de Maria”. (Documento de Aparecida/V Confe- rência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, 2007, nºs. 264 e 265).

As pesquisas desenvolvidas pela jornalista Sandra Pires para a elaboração do presente tex- to jornalístico, que se constitui no seu trabalho de conclusão do curso de Jornalismo, pela Uni- versidade de Sorocaba (Uniso), e oportunamente intitulado “Aparecidinha Um olhar sobre o romei- ro” inserem-se magnificamente nas preocupações pastorais para com a questão, sempre presente no ambiente eclesial, da religiosidade popular e manifestadas outra vez pelos bispos da América Latina e do Caribe em sua V Conferência Geral, realizada em maio de 2007 no Brasil, junto à Basílica Nacional de Aparecida, inclusive com a presença do papa Bento XVI.

Dito isto, destaque-se, de outro lado, a importância de trabalho tão amiúde acerca da reli- giosidade popular presente na região de Sorocaba há quase três séculos e materializada nas tradi- cionais romarias de Aparecidinha. Estava faltando dentro da historiografia sorocabana uma pes- quisa jornalística densa em torno do tema assim como esta de Sandra, aprofundando não só o aspecto histórico em si, mas, sobretudo, debruçando-se sobre a figura do romeiro, devoto anô- nimo que duas vezes ao ano vai às ruas de Sorocaba manifestar sua fé na Senhora Aparecida, a excelsa Padroeira do Brasil, título com que nosso povo escolheu para dirigir-se à Santa Mãe de Deus desde quando, 300 anos atrás (o ano que vem serão celebrados os três séculos do encontro da pequenina imagem de terracota pelos pescadores nas águas do rio Paraíba, na altura da então Vila de Guaratinguetá, na região do Vale do Paraíba, a 12 de outubro de 1717, precedendo milagrosa abundante pesca), a Virgem `apareceu´ em duas partes distintas – tronco e cabeça – nas redes dos humildes pescadores.

Escassa, é verdade, a documentação histórica e escrita principalmente em torno das déca- das iniciais da devoção a Nossa Senhora Aparecida, a não ser esparsos dados colhidos da tradição oral e de um ou outro jornal que circulou na cidade já a partir da segunda metade do século XIX pelo historiador Monsenhor Luiz Castanho de Almeida (Aluísio de Almeida era seu pseudônimo literário), o ‘pai da história de Sorocaba’, podemos dizer assim, reunidos, compilados e publicados quase que sempre com a mesma linha informativa em vários de seus livros e artigos, com desta- que para “Brasil de Nossa Senhora” (1974, Escolas Profissionais Salesianas, São Paulo). O certo, porém, é que tropeiros procedentes das Minas Gerais, passando pelo Vale do Paraíba, receberam das mãos de um dos pescadores da aventura milagrosa a primeira cópia que ele mesmo esculpira da Virgem Aparecida. Trazida a Sorocaba, sede do movimento tropeirista na época e onde se realizavam anualmente as famosas Feriras de Muares, foi inicialmente, conta a tradição oral, colo- cada sobre um simples tronco de árvore no Piragibú do Meio (onde localiza-se hoje justamente o bairro de Aparecidinha). Certo também que em 1785 o português Antônio José da Silva, que fora guarda-mor nas Minas Gerais e provavelmente um dos tropeiros que recebera a imagem durante passagem pela Vila de Guaratinguetá, patrocina a construção da Capela para abrigar a Santinha, hoje Santuário Arquidiocesano de Nossa Senhora Aparecida – descaracterizada por completo em seu estilo colonial original por equivocada reforma ali por volta de 1945, mas felizmente restaura- da no início dos anos 90, por iniciativa do padre Tadeu Rocha Moraes, hoje pároco da Catedral Metropolitana e, na época, titular da Paróquia de Santa Rita de Cássia, de Vila Santana, que tinha Aparecidinha como uma de suas capelas, com o respaldo e orientação técnica de monsenhor Ja- mil Nassif Abid, sacerdote sorocabano que atualmente é o vigário-geral da Diocese de Piracicaba e pároco de sua Catedral de Santo Antônio, um dos mais brilhantes `experts´ em Arte Sacra do Brasil e por anos a fio representante da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) no Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Arquitetônico e Turís- tico do Estado de São Paulo).

As romarias à Aparecidinha também não tardaram a surgir e há registros delas em várias ocasiões durante o transcorrer do século XIX (ou até antes), embora esporádicas e sem datas ou periodicidade pré-estabelecidas. Coube a monsenhor João Soares, em meio à terrível epidemia de febre amarela que dizimava boa parte da população sorocabana, recorrer uma vez mais em súpli- cas a Nossa Senhora Aparecida e fixar, isto em 1899, as datas de 1º de janeiro e do segundo domingo do mês de julho para o traslado para a então Matriz, hoje Catedral Metropolitana, e retor- no da imagem da Santa a seu Santuário de origem, no bairro de Aparecidinha, respectivamente.

Este trabalho é assim, então, o resgate jornalístico da devoção do romeiro sorocabano, numa transmissão perene que vem se sucedendo de geração em geração há quase 250 anos, a Nossa Senhora Aparecida, num pioneirismo ímpar. Depois de Sorocaba é que a devoção à Vir- gem Aparecida se propagou por todo o Brasil, de norte a sul, de lesta a oeste. Boa leitura a todos!

Sorocaba, 12 de outubro de 2016, Abertura do Ano Mariano pelo Tricentenário do en- contro da pequenina imagem de Nossa Senhora Aparecida/1717-2017.


Acima, na Câmara Municipal de Sorocaba na cerimônia que concedeu ao jorna lista José Benedito de Almeida Gomes, em 12 de agosto de 2016, a Comenda Re ferencial de Ètica e Cidadania por levar informação com ética, responsabilidade e imparcialidade, respeitando e valorizando a cultura e o interesse público. Foto: arquivo pessoal


O sonho é que leva a gente pra frente. Se a gente for seguir a razão, fica aquietado, acomodado.
Ariano Suassuna


Vitral do interior do santuário novo, retratando cena do pouso de tropeiros no então bairro de Piragibú do Meio, durante o qual eles aproveitavam para fazer suas orações à santa deixada no tronco de uma árvore, próximo ao local onde, hoje, existe um cemitério. Foto: Sandra Pires

8. APRESENTAÇÃO

Em julho de 2015, cursando Jornalismo, precisava escolher o tema para meu Trabalho de Conclusão do Curso - Monografia.

Entre tantas possibilidades, a única certeza que tinha era que desejava pesquisar sobre fé, manifestações populares e que fosse um tema regional ou local.

Conversando com meu orientador para o TCC, Walter de Luca, tomei conhecimento da existência de uma romaria secular, nascida na cidade de Sorocaba (SP) dedicada a Nossa Senhora da Conceição Aparecida, Padroeira do Brasil. Achei bastante interessante a sugestão de Walter de Luca e iniciei minhas pesquisas para saber mais sobre o assunto sugerido.

Apaixonei-me pela história e decidi abraçar o tema. As pesquisas científicas resultaram no TCC (Trabalho de Conclusão de Curso), para o curso de Jornalismo, com o título RELIGIOSI- DADE NO JORNALISMO LOCAL - Uma análise da cobertura do jornal Cruzeiro do Sul sobre a Romaria de Aparecidinha. O tema do referido TCC, apresentado em julho de 2016, foi a Roma- ria de Aparecidinha e para sua realização escolhemos analisar o período de 11 anos (de 2005 a 2015) de cobertura do evento pelo jornal Cruzeiro do Sul (Sorocaba).

Quando precisei escolher o tema para elaboração do presente trabalho, TCC Produto – livrorreportagem, decidi dar continuidade ao tema Romaria de Aparecidinha, dessa vez com enfoque nas mudanças ocorridas na figura do romeiro nos últimos 20 anos.

A fé, a cultura e o folclore em suas manifestações populares são temas que estão entre minhas paixões enquanto pessoa e jornalista. Desse modo, foi inevitável ser seduzida pela atmos- fera que envolve a romaria, o bairro de Aparecidinha, onde ficam o antigo e o novo santuário, dedicados à santa de devoção, bem como por seus devotos e romeiros. Tudo está interligado como elos de uma corrente. Fiquei surpresa ao saber, durante as pesquisas, que a Romaria de Aparecidinha conta com mais de duzentos anos desde que começou a acontecer, quando ainda não tinha datas fixas.

Quem era o romeiro há vinte anos? Quem é o romeiro hoje? Muitas entrevistas foram feitas desde então e finalmente, em julho de 2016, participei da 117ª edição da romaria, do início ao fim de seus quase quinze quilômetros de percurso a pé, e admito: é para os fortes! No dia se- guinte, meu marido e eu estávamos doloridos. Mas tudo valeu a pena. Pude caminhar junto aos romeiros, conversando com um e outro, homens e mulheres, jovens e velhos; fotografando, ob- servando, sentindo. Foi possível compreender e dimensionar melhor a força e importância dessa longeva tradição. Assim, estive dedicada ao tema por cerca de dezoito meses, sendo que os últi- mos seis meses foram dedicados ao livro. Embora as histórias de fé alimentem esta obra em muitos momentos, não se trata de um livro sobre religião, ainda que as romarias sejam tradicional- mente um ritual católico.

Soubemos durante as entrevistas que na Romaria de Aparecidinha existem romeiros que são de outras religiões que não a católica. Para esta obra, entretanto, destacamos que nosso foco foram os romeiros mais devotos e católicos.

O livro apresenta-se em pequenos capítulos, com textos seguidos pelas fotos das pessoas que gentilmente compartilharam suas experiências sobre ser romeiro de Aparecidinha. As entre- vistas são apresentadas de acordo com a ordem cronológica em que foram realizadas. Quando as falas são dos próprios entrevistados, ou seja, em primeira pessoa, os textos estão em itálico.

Uma vez que não existe bibliografia mais aprofundada sobre o tema, seria impossível a realização desta obra sem o testemunho dessas pessoas. Assim, este livro é feito, quase que em sua totalidade, pelos depoimentos dessas pessoas. Nada mais justo que estejam muito bem retra- tadas nele e em suas próprias palavras. Sinto-me feliz por narrar, com um pouco mais de profun- didade, a história da Romaria de Aparecidinha e gratificada por trazer à luz os depoimentos dos romeiros com quem conversei. Nos dois primeiros capítulos, abordo o aspecto histórico da ro- maria, fazendo uso de uma linguagem mais objetiva. Nos demais capítulos, as experiências vividas e compartilhadas são tratadas com uma narrativa literária ou, se me permitem, mais humanizada. Quando se convida alguém a falar da romaria, sobre ser romeiro e acerca das mudanças ocorridas ao longo de duas décadas, os olhos brilham e os sorrisos se abrem. Inevitavelmente, as emoções afloram e as lembranças ressurgem. Algumas lágrimas de tristeza também caem, com as recorda- ções... Por todas as experiências vividas durante este um ano e meio em que fiz uma imersão na democrática e eclética Romaria de Aparecidinha, sinto-me privilegiada e particularmente enalteci- da. Muitas foram as reflexões e conceitos revistos, as lembranças revisitadas. As perguntas que eu queria responder eram: Quem é o romeiro de Aparecidinha, hoje? Algo mudou nos últimos vinte anos?

Espero ter respondido às perguntas, atingido o objetivo de contribuir, ainda que pouco, para o registro e valorização desta tradição de fé, de esperança, marcas de um povo que resiste para dar continuidade a uma jornada feita sob sol ou chuva, calor ou frio, em meio ao pó ou na dureza do asfalto, na insegurança dos pedriscos, movido pela força do espírito de romeiro, a cada passo do caminho.

Sobre as fotografias, quero destacar a participação de Ricardo Rocha (foto da capa, por exemplo) e Polimar Pires que contribuíram com algumas de suas imagens e cujos créditos foram devidamente apontados.

Para terminar esta apresentação, gostaria de deixar as palavras de Frei Luis Carlos Susin, ditas em 2012, sobre religiosidade.

A religiosidade popular está presente no cotidiano do povo. Está muito ‘colada’ ás experiências da vida. Trata-se de expressões, atitudes e gestos que expressam uma relação pessoal com Deus. Beija-se a cruz, faz-se romarias e peregrinações, insere-se elementos culturais nas celebrações – a exemplo da missa crioula, ou ainda, busca-se uma cura através de benzedeiras ou padres. Frei Susin


Detalhe do telhado do santuário antigo, ao pôr do sol. Forte sensação de passado... Foto: Sandra Pires


Madrugada fria da 117ª romaria ( julho/2016). Missa de abertura na praça Cel. Fernando Prestes, lotada, apesar da baixa temperatura de nove graus (9°). Foto: Ricardo Rocha


Diferentes imagens artesanais dedicadas a Nossa Senhora, mãe de Jesus, feitas pelos devotos e ofertadas à sala de milagres em Aparecida.
Foto: Sandra Pires

8.1. DEVOÇÃO MARIANA

A devoção à Maria, mãe de Jesus, conhecida como devoção mariana ou marial, é um fenômeno mundial segundo a igreja católica. Muitas nações evocam seu nome ao redor do mundo. Por questões geográficas e culturais, os muitos títulos pelos quais Nossa Senhora é conhecida, vão surgindo baseados em lugares onde o povo acredita que ela tenha aparecido ou onde realizou milagres. Um famoso exemplo é Nossa Senhora de Fátima que, segundo relatos, apareceu na cidade de Fátima, Portugal, para os três pastores: Lúcia, Francisco e Jacinta.

A página oficial do Santuário Nacional de Aparecida (Portal A12.com) foi a fonte utiliza- da para nos ajudar com este capítulo.

A devoção mariana no Brasil é herança deixada pelos portugueses, trazida por Pedro Ál- vares Cabral quando aqui aportou, em 1500. O catolicismo português era profundamente maria- no e fazia parte até mesmo da alta política de Estado. Dom Afonso Henriques, fundador da di- nastia portuguesa (1139), consagrou o reino de Portugal á Mãe de Deus. Em 1.640, Dom João IV ratifica o ato de Dom Afonso Henriques e proclama a Virgem da Conceição padroeira de Portugal e de todas as suas possessões, inclusive o Brasil. Ao longo do processo evangelizador do povo brasileiro, a Virgem Maria era apresentada como a expressão mais sublime da fidelidade. Maria era a representante da piedade da igreja no país. Logo passou a fazer parte da identidade do povo brasileiro.

8.1.1. Brasil

Tal identidade fortaleceu-se ainda mais quando, em 1717, três pescadores que viviam na cidade de Aparecida, interior de São Paulo, receberam a missão de providenciar peixes para a refeição de Dom Pedro de Almeida e Portugal, Conde de Assumar e Governador das províncias de São Paulo e Minas Gerais. Após várias tentativas sem sucesso, os pescadores começaram a se preocupar. Mais uma tentativa e viram em sua rede o corpo da estátua de uma santa e na arremessa seguinte, sua cabeça. Esperançosos, desceram um pouco mais o rio Paraíba e lançaram suas redes na água uma vez mais. Desta feita, conseguiram um grande número de peixes. Os pes- cadores que encontraram as duas partes da imagem dedicada à Virgem Maria eram Domingos Garcia, Felipe Pedroso e João Alves.

Esculpida em terracota, um tipo de argila que é modelada e cozida em forno apropriado, a imagem mede 40 centímetros de altura e ficou enegrecida pelo tempo passado na lama do rio.

Esse episódio deu origem à devoção mariana à santa “aparecida” nas águas do rio Paraíba: Nossa Senhora da Conceição Aparecida. A devoção cresceu a tal ponto que foi construído um novo santuário para absorver a demanda dos devotos e fiéis: o Santuário Nacional de Aparecida, situa- do no Vale do Paraíba, entre São Paulo e Rio de Janeiro. Há 84 anos, em 16 de julho de 1930, o Papa Pio XI declarou a Santa como a Padroeira do Brasil em 16 de julho de 1930.

Em 1980, o Santuário de Aparecida foi consagrado pelo Papa João Paulo II com o título de Basílica Menor. No ano de 1983, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) decla- rou oficialmente a Basílica de Aparecida como Santuário Nacional.

Anualmente, o Santuário recebe cerca de 12 milhões de visitantes em sua Basílica. Atual- mente lá trabalham 33 missionários redentoristas, várias congregações religiosas femininas, mais de 800 voluntários e cerca de 1.500 funcionários.

Assim surgiu e fortaleceu-se a devoção à santa que é Padroeira do Brasil. A segunda mai- or e mais antiga devoção a Nossa Senhora Aparecida em nosso país está na cidade de Sorocaba, interior de São Paulo: trata-se da Romaria de Aparecidinha.


Representação artística do momento em que os três pescadores encontraram a santa Aparecida nas águas do Rio Paraíba em 1717 (acervo do Santuário Nacional de Aparecida)


Movimento intenso na passarela de quinhentos metros que liga as partes nova e velha da cidade de Aparecida – Ao fundo, o Santuário Nacional.
Fotos: Sandra Pires


Imagem “aparecida” nas águas do rio Paraíba, em 1717, encontrada pelos pescadores. Padroeira do Brasil, abrigada em seu nicho no Santuário Nacional de Aparecida: maior e mais antiga devoção mariana no Brasil.
Foto: Polimar Pires


Conhecida como Basílica Velha (acima), a primeira igreja da cidade de Aparecida tem estilo barroco, fica na parte velha da cidade. Construída em 1745, seus degraus estão gastos pela passagem do tempo e dos fiéis que a visitam ao longo dos anos.
Foto: Polimar Pires

8.2. TROPEIRISMO SOROCABANO

Para falarmos sobre como nasceu a Romaria de Aparecidinha, na cidade de Sorocaba (SP), é preciso conhecer uma pequena parte do cenário econômico do século XVIII e a impor- tante figura do tropeiro.

A obra do historiador Aluísio de Almeida, falecido em 28 de fevereiro de 1981, em Soro- caba, nos auxilia neste capítulo. Em seus livros Vida e Morte de Tropeiro (1971) e Sorocaba, 3 séculos de história, (escrito em 1969), edição do ano 2000, Almeida explica que os tropeiros eram homens que transportavam produtos e mercadorias através do país. Conta que os tropeiros eram mais que meros transportadores: eram mensageiros, portadores das notícias, de hábitos e costumes que levavam consigo em suas viagens. Eles não buscavam ouro ou metais preciosos. Segundo Almei- da, esses homens disseminavam ideias, hábitos, notícias entre as comunidades pelas quais passa- vam e nas quais estacionavam, contribuindo sobremaneira para a formação da cultura paulista. Em 1733 passou por Sorocaba a primeira tropa, formada por três mil animais. Quem conduzia a tropa era o português Cristóvão Pereira de Abreu, considerado o primeiro tropeiro da história.

A princípio, os tropeiros conduziam tropas de muares (burros e mulas) para serem co- mercializados. No século XVIII, com a corrida do ouro descoberto em Minas Gerais, foi grande a demanda por transporte para escoamento dos produtos de mineração. Além disso, nas locali- dades próximas às minas não havia estrutura alguma para suprir as necessidades da enorme quan- tidade de pessoas que se dirigiu para elas, em busca do ouro, para trabalhar nas minas. Pessoas morreram de fome na época... E passaram muita privação pela escassez de produtos que garantis- sem sua subsistência. Foi por isso que os tropeiros passaram a transportar alimentos e outras muitas mercadorias através de suas rotas.

8.2.1. A Feira de Muares

Com o passar dos anos e devido ao hábito dos tropeiros de fazerem parada em Sorocaba para estacionarem a tropa para descanso, surgiu uma feira de muares. O gado não era trazido pelos tropeiros, justamente para não interferir na comercialização dos muares. A feira era anual e acontecia nos meses de inverno (abril e julho) ou no final de outubro. Comercializava-se de 30 a 50 mil animais a cada edição da feira e que eram distribuídos pelo país. Segundo Almeida, a feira recebia cariocas, mineiros e nordestinos que compravam e trocavam animais e fomentou o de- senvolvimento de Sorocaba, transformando-a em um grande centro comercial. Atraiu novos moradores, permitindo o desenvolvimento do comércio e indústria locais, tornando popular produ- tos como facas, facões, doces, redes, peças de montaria, todas feitas por cidadãos ourives soroca- banos. Com seus ponchos e botas típicos, os tropeiros desmontavam suas mulas e burros (mua- res) e descansavam à beira do córrego Piragibú. Na ocasião, a localidade era um arraial chamado Piragibú do Meio.

8.2.2. A imagem trazida pelos tropeiros

Mais tarde, em 1782, os tropeiros fizeram uma de suas já costumeiras paradas em Piragibú do Meio. Trouxeram uma imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, cópia daquela encontrada pelos três pescadores, em Aparecida (1717). Ao partirem, decidiram deixar a imagem abrigada em um buraco no tronco de uma árvore próxima ao local onde hoje existe um cemitério. A partir de então, a cada parada, aproveitavam para fazer seus pedidos de proteção à Santa, bem como seus agradecimentos. Os moradores adotaram o costume, que só fez crescer. O arraial se tornou vila e passou a chamar-se Aparecidinha.

Em 1785, o guarda-mor português Antonio José da Silva, devoto de Nossa Senhora Apa- recida desde quando residia em Lorena, Minas Gerais, mudou-se para Sorocaba, para o então bairro Piragibú do Meio.

Apenas para esclarecer, guarda-mor era um oficial, comandante de vinte arqueiros da guarda real; chefe da polícia marítima alfandegária ou ainda um indivíduo que representava o fis- co a bordo dos navios ancorados num porto.

Antonio construiu uma capela, em taipa de pilão, para a imagem trazida pelos tropeiros. Taipa de pilão é uma técnica de construção na qual o barro é compactado horizontalmente, com o auxílio de formas e pilões. A capela construída por Silva é o antigo e singelo Santuário de Apa- recidinha. Outras duas obras foram publicadas por Monsenhor Luis Castanho de Almeida, nome original de nosso historiador Aluísio de Almeida. Tais obras fundamentam o estudo do Tropeirismo em Sorocaba: Tropeirismo e a feira de Sorocaba (1968); História de Sorocaba (1969).

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Nos campos do Rio Grande do Sul era abundante o gado muar. Pelo Caminho das Tropas ou Estrada da Mata, eles eram trazidos para o Paraná/PR e também Sorocaba/SP, para as fazendas de invernagem. A Estrada Real, conhecido como Caminho de Viamão e a mais utili zada, tinha como ponto de partida Viamão (RS) e atravessava os campos de cidades como Vacaria, Lages (SC), Correia Pinto, Curitibanos, Santa Cecília, Papanduva, Monte Castelo, Mafra, Rio Negro, Campo do Tenente, Lapa, Palmeira, Ponta Grossa (PR), Castro, Piraí do Sul, Jaguariaíva, Sengés, Itararé para, finalmente, chegar à Sorocaba. Fonte: tropeirosdasgerais.com.br


Feira de Sorocaba – Tropeiro / Ilustração de Getúlio Delphin representando tropa estacionada em Sorocaba. Com o surgimento e funcionamento das estradas de ferro e, mais tarde, as estradas de rodagem, o tropeirismo viveu seu declínio. Felizmente, sua inegável contribuição e influência sobre a cultura paulista está presente, ainda, em algumas comunidades. Afinal, ser tropeiro era um modo de vida! Fonte: cubocultural.com

9. A ROMARIA

Com cerca de 15 mil habitantes, o bairro de Aparecidinha pertence à cidade de Sorocaba, São Paulo, fica na zona leste da cidade. Faz divisa com as cidades de Itu, Mairinque e Alumínio. Também faz divisa (internamente) com os bairros do Éden (ao norte), Brigadeiro Tobias (ao sul) e está cerca de 14 Km do centro de Sorocaba. Suas principais avenidas são a Três de Março e a Jerome Case. A rodovia José Ermírio de Moraes (conhecida como Castelinho) corre lateralmente ao bairro sendo seu principal acesso. Ao longo dos anos, bairros como Jardim Joseane, Vila Ama- to e outros foram surgindo ao redor de Aparecidinha, que cresceu muito. Construções históricas em taipa de pilão são um marco do bairro, como a Capela de Aparecidinha, que é o segundo san- tuário mais antigo do Brasil dedicado a Nossa Senhora Aparecida e o Casarão de Aparecidinha (construção mais antiga do bairro, com cerca de 250 anos). No largo Antonio José da Silva, onde se encontra o antigo santuário, havia um chafariz (fundido em 1885 e lá colocado em 1886), vá- rias casas construídas por escravos da época, além de um coreto.

A devoção àquela imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, deixada no bairro pelos tropeiros, cresceu e deu origem a uma romaria tipicamente sorocabana: a ‘Romaria de Apa- recidinha’. Muito sobre a romaria é transmitido por tradição oral, ou seja, contatado pelas pessoas envolvidas, de geração a geração. Há quem diga que a romaria existe desde 1804, mas de forma não organizada, não contínua e sem datas fixas. Sendo assim, teria 212 anos de história. Que a Romaria de Aparecidinha ocorre desde o século XIX ninguém discorda, mas está em sua 117ª edição desde que teve as datas fixadas por monsenhor João Soares, em 1899.

Para me ajudar a contar esta parte da história pedi a colaboração do Padre José Antonio Leite, há 8 anos Reitor da Paróquia/Santuário Arquidiocesano de Nossa Senhora da Conceição Aparecida ou, simplesmente, Santuário de Aparecidinha.

Quando a cidade enfrentava momentos difíceis como secas, epidemias, enchentes, o povo vinha à Apareci- dinha buscar a santa e pedir sua intercessão e, conta-se, eram atendidos. Um surto de febre amarela afetou o país inteiro em 1897 e Sorocaba lutou contra a doença. Muitas pessoas morreram. Naquele tempo, monsenhor João Soares, então pároco da Matriz Nossa Senhora da Ponte, tentou combater a doença junto com a população. Por causa da fé do povo de que a santa os socorria em momentos de dificuldade, criou-se o costume de transportar a imagem até a cidade para assegurar o bem estar também do povo que ali morava. No final de 1899, um segundo surto de febre amarela aconteceu. Foi quando monsenhor João Soares abriu uma unidade de isolamento no ginásio Diocesano para atendimento aos doentes, momento em que decidiu organizar e fixar as datas para a romaria.

Monsenhor dividiu a romaria em duas etapas: na primeira, que ocorre em 1º de janeiro, a imagem da santa segue da igreja de Aparecidinha, rumo à igreja Matriz. Na segunda etapa, todo segundo domingo de julho, a imagem retorna à igreja de Aparecidinha, em nova romaria, no percurso contrário. O trajeto feito pelos romeiros a cada romaria tem cerca de quinze quilômetros. O objetivo era que a cidade toda fosse beneficiada pelas bênçãos de Deus, por meio da intercessão da santa. Monsenhor João Soares acabou por contrair a febre amarela, vindo a falecer em 21 de fevereiro de 1900. Felizmente, seu legado permanece, pois a romaria de Aparecidinha reúne milhares de pessoas a cada ano. De acordo com a página oficial do Santuário de Aparecidinha, cerca de vinte mil pessoas par- ticipam da romaria em janeiro e no mês de julho estima-se que sejam cerca de cem mil.


Padre José Antonio Leite, sempre correndo entre uma obrigação e outra, explica que a Romaria de Aparecidinha está em processo de tombamen to pelo CMDPH (Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Histó rico) desde 2007, para que a centenária tradição seja oficializada como patrimônio imaterial de Sorocaba. Foto: Sandra Pires


Largo Antonio José da Silva, onde fica o antigo Santuário de Aparecidinha. O bairro precisa de um olhar mais atento por parte do poder público em todos os aspectos. De forma especial, na preservação de seu patrimônio histórico material e imaterial. Foto: Sandra Pires


Um dos raros momentos em que não se vê carros estacionados na frente do antigo santuário. O local é muito movimentado. Esta foto foi feita em uma manhã de domingo. Assim defino o Antigo Santuário de Aparecidinha: simples e sincero. Há algo nele que cativa... Foto: Sandra Pires


Interior do santuário antigo, construído em taipa de pilão. Em breve irá passar por reforma do telhado, que está em situação precária. Foto: Sandra Pires


Novo Santuário de Aparecidinha, construído para suprir a falta de espaço para os fiéis no santuário antigo: tem 750m², abriga cerca de 600 pessoas sentadas e outras 500 em pé. Fica próximo ao cemitério, onde a imagem foi deixada pelos tropeiros. Curiosamente, o novo santuário é bem maior do que aparenta externamente. Foto: Sandra Pires


A missa no santuário novo, aos domingo de manhã, costuma ser lotada. Os vitrais vindos de Minas Gerais dão uma beleza única ao santuário, com seus efeitos que variam de acordo com a incidência da luz. Foto: Sandra Pires


Imediações do santuário antigo: rua Quirino de Mello, em paralelepípedo, como a maioria das ruas. Foto: Sandra Pires

10. ROMEIROS E AS DÉCADAS

Quem é o romeiro de Aparecidinha, hoje? Alguma coisa mudou nos últimos 20 anos?

O universo que envolve a Romaria de Aparecidinha é bastante eclético. Na verdade, uma comunidade se formou a partir dessa tradição que completou 117 anos em 2016, desde que fo- ram fixadas as datas para que ela ocorresse, por monsenhor João Soares, em 1899.

Durante as várias entrevistas feitas, conversei com pessoas que assistiram a essas mudan- ças, digamos, ‘de camarote’ e por diferentes perspectivas.

Essas pessoas são jovens, velhos, homens e mulheres, negros, brancos, pardos, ricos, po- bres... São professores, estudantes, donas de casa, médicos, advogados, jardineiros... São padres, diáconos, funcionários, fiéis da igreja, voluntários, trabalhadores das pastorais... O que elas têm em comum? São romeiros que compartilharam suas experiências para que pudéssemos conhecer tais mudanças e o perfil do romeiro de nossos dias. É o caso de José Antonio Soares, diácono do santuário de Aparecidinha, morador do bairro. Conhecido pelos mais próximos como profundo observador da romaria há dezessete anos. É ele quem, gentilmente, colabora nesta parte do livro.

Considero importante explicar o que significa ser um diácono, pois acredito que ajudará o leitor a entender melhor nosso entrevistado e seu olhar para os romeiros. José Antonio esclare- ceu:

Diácono é um homem que se dedica à igreja católica, a uma vida religiosa mesmo sendo um leigo. Não e- xiste a necessidade de fazer votos de celibato se ele for casado ou viúvo. Se for solteiro, precisa abraçar o celibato. No caso de homens casados, é necessário um consentimento por escrito de sua esposa. A família do diácono também deve levar uma vida condizente com os valores cristãos e seu matrimônio precisa ter pelo menos cinco anos. Trata-se de um ministro religioso que está no último dos sete anos de estudo necessários para celebrar alguns sacramentos como batismos, abençoar casamentos, pregações e homilias.

Desse modo, José Antonio circula entre os dois mundos: o da igreja e dos homens co- muns, do clero e do povo. Sempre correndo entre um compromisso e outro, José Antonio, um homem miúdo e elétrico, conversou comigo em duas ocasiões: num agradável fim de tarde de quarta-feira e dias depois, numa manhã de domingo. Tive que correr atrás dele quando entrava no carro para se dirigir a outra igreja onde cumpriria mais uma de suas obrigações.

Chamei seu nome. Ele voltou-se para mim e expliquei rapidamente do que se tratava. Perguntei se poderíamos marcar uma entrevista. José Antonio fechou a porta do carro, voltou para dentro do santuário de Aparecidinha, sentou-se e colocou-se à disposição.

José Antonio é uma dessas pessoas simples, que têm compaixão no olhar. Revelou uma visão apurada, um olhar atento para a vida da comunidade do bairro de Aparecidinha, de seus moradores, de seus romeiros.

Usando um blazer que lhe conferia certa formalidade, contou:

Na década de 80, homens e mulheres idosos eram a grande maioria na romaria. Eles eram católicos, tra- ziam seus terços e rezavam contritos durante todo o trajeto, de cabeça baixa em oração. A motivação deles era a fé genuína.

Já no início da década de 90, a faixa etária da maioria dos romeiros diminuiu. Era notório o aumento do número de recém-casados, na faixa dos 30 anos. Pessoas que constituíram suas famílias; estavam conquistando bens materiais, tendo filhos, se firmando na vida.

O cenário mudou nos anos 2000, quando pessoas que não frequentavam a igreja ou frequentavam muito pouco passaram a acompanhar a romaria, motivadas por circunstâncias da vida, num gesto concreto em busca de uma resposta a um pedido.

Como elas não se dedicam à fé no dia a dia, procuram fazer algo como forma de compensação, para se sentirem melhor consigo mesmas. Tem romeiro que traz cesta básica e doa para a igreja distribuir, mas não vem à missa. Outros entram no santuário no meio da tarde e oram sozinhos; uma oração breve, mas sempre fazem isso; desenvolvem um hábito, um ritual solitário.

Hoje, é possível ver claramente que aumenta cada vez mais o número de romeiros que participam da ro- maria por força das circunstâncias, como a atual crise que o país atravessa; também por problemas em família, doenças, entre outros.

Outro fenômeno notável de nossa época são os grupos com identidade própria, como, por exemplo, o grupo da Renovação Carismática que aderiu à Romaria de Aparecidinha. Os integrantes participam usando a camiseta do grupo no qual vivenciam sua fé a seu modo.


Diácono José Antonio Soares: “Também é sabido que na Romaria de Aparecidinha não participam apenas católicos. A presença de pessoas espíritas, do candomblé e de várias outras crenças é um fato”. 
Foto: Sandra Pires


Romaria de Aparecidinha – década de 80 – O percurso era praticamente todo em terra batida.
Foto: acervo do Santuário de Aparecidinha


Chegada do andor ao bairro de Aparecidinha, no final da romaria (10/07/2016) para a missa de encerramento.

Foto: Sandra Pires


Primeiras horas da manhã na romaria de julho de 2016.
Foto: Ricardo Rocha

11. OS ÚLTIMOS VINTE ANOS

O andor é o coração da romaria. Todos os olhos se voltam para aquele que sustenta a i- magem da santa de devoção. Pelo mesmo motivo, aqueles que carregam o andor têm o apreço dos romeiros.

O primeiro andor, feito em madeira, pesava cerca de 48 quilos antes de ser adornado.

Depois de receber todos os enfeites, flores e a imagem da santa, pesava cerca de 80 quilos.

Atualmente, o andor é feito de alumínio, pesa 25 quilos antes de adornado e aproxima- damente 50 quilos, depois de pronto para a Romaria. Ele é colocado sobre os ombros dos romei- ros que o carregam por meio de hastes feitas em suas extremidades. No centro, há uma base re- tangular, elevada, onde fica a imagem da santa.

Ao longo da romaria, os romeiros pedem as pétalas de rosas, as flores... Eles também co- locam coisas no andor, como cartinhas, bilhetes, objetos de uso pessoal... Alguns só querem tocar nele, nas flores ou na santa. Outros querem ter a chance de carregá-lo. Quem controla toda a dinâmica que envolve o andor são homens que, mais que carregá-lo, são responsáveis por ele. Três deles se dispuseram prontamente a colaborar com essa obra. São eles: Mário Guidolin, João William Marcelo e Darci Vallerini. Todos eles são romeiros de Aparecidinha que dedica- ram décadas de suas vidas a carregar o andor.


Da esquerda para a direita: João William, Mário e Darci (ao fundo). Andor de alumínio, depois da romaria, já desmontado, no casarão do antigo santuário de Aparecidinha 
Foto: Sandra Pires


Acima, é possível ver Darci na parte detrás do andor, sobre seus ombros. É possível perceber que algumas flores já foram retiradas e dadas aos romeiros. 
Foto: Sandra Pires

Eles contam suas experiências, mas não é fácil lembrar-se de datas, nomes e sobrenomes. Ninguém se preocupava muito com isso. Apenas queriam viver a emoção de estar na romaria, de serem devotos, romeiros. Assim, explica-se a falta desses dados no decorrer das narrativas e re- força a necessidade de registrarem-se acontecimentos importantes. Seja para nós mesmos ou para a coletividade; para o presente ou futuro. Com a responsabilidade de levar o andor sobre os om- bros, nossos entrevistados sempre puderam observar os romeiros de perto. Ouviram seus pedi- dos, agradecimentos, suas dores e alegrias... Os três têm muitas histórias para contar e é impor- tante conhecê-las para melhor perceber sua estreita ligação com Nossa Senhora, com a romaria, com o andor, com o romeiro.

Mário Guidolin é o mais velho deles: tem 88 anos. Completou 68 anos ao lado do andor, que há alguns anos já não carrega nos ombros por causa da idade. Mas não se engane, prezado leitor! A mente e o espírito deste homem, pequeno em estatura, cabelos bem branquinhos, estão em dia. Lúcido, esse sorridente personagem tem memória de elefante e um humor inabalável. Com seus atentos olhos azuis. Vamos conhecer parte de sua história, contada por ele:

Cláudio Caserta foi um dos primeiros romeiros a carregar o andor. Tinha o Alfredão, também, que car- regou o andor por uns cinquenta e cinco anos e morreu ano passado (2015). Em 1965 sofri um acidente de jipe com minha filha, Nilcéa, então com 17 anos. No acidente, Nilcéa fraturou seis costelas e teve que extrair um dos rins.

Lembro-me que ela chegou praticamente morta ao hospital, segundo o médico que a atendeu. O padre che- gou a dar a extrema unção e considerou seu caso como sem esperança. Então, pedi a Nossa Senhora por ajuda e forças. Prometi não cortar cabelo nem barba até minha filha melhorar. Depois de dezesseis dias, saí com minha filha, curada, do hospital. Hoje, Nilcéa está com sessenta e oito anos, tem filhos e netos. Nunca se queixou de nada!

Meu filho Nilton Hugo e eu escapamos de um acidente de caminhão na Rodovia Anchieta. Meu filho es- tava ao volante. Ao perceber que o caminhão estava sem freios disse para eu saltar do veículo. A intenção era fazer com que o caminhão batesse somente do lado do passageiro, já que a batida era inevitável. Não precisei saltar. O caminhão foi parando aos poucos, reduzindo a velocidade até encostar no barranco, depois de uns cinquenta metros. Escapamos ilesos! Não tenho a menor dúvida de que Nossa Senhora Aparecida intercedeu naquela hora. Eu estava com a imagem dela naquele dia... Estou sempre com ela... Não largo nunca!

De repente, Guidolin se levanta como quem se lembra de algo importante, curioso. De pé, ilustrando a cena com gestos, ele explica que em 1972, alguém teve a ideia de colocar a santa sobre o caminhão durante a romaria: O povo não aceitou! Foi praticamente uma revolta. Ameaçaram tom- bar o caminhão, pois a santa tem que ser carregada pelo povo. E assim ficou até hoje. Eh! Tenho várias passagens para contar... Daria um livro! Há alguns anos, as pessoas mais ricas iam à romaria cheias de joias, com os dedos cheios de anéis de ouro, não chegavam perto do andor nem interagiam com os romeiros. Hoje, essas mesmas pessoas cumprimentam o pessoal do andor, conversam com os outros romeiros. Mudou muito!

O maior e mais jovem do grupo, João William Marcelo, tem 62 anos. Esse ‘gigante gentil’ está há trinta e quatro anos como organizador do andor:

Em 1987, faleceu Cláudio Caserta, o responsável pelo andor. Na ocasião, Alfredão, Guidolin, Toninho Gaúcho e demais responsáveis me convidaram para assumir o andor e até hoje estou á frente dessa missão. Nessa trajetória, escutei muitas histórias dos romeiros, milagres acontecidos, agradecimentos...

Com sua fala cuidadosa, que se contrapõe a seu tamanho, conta que em 1968 a igreja de Aparecidinha pertencia à Paróquia de Santa Rita, na Vila Santana:

Foi de lá que, em 1972, cerca de quinze pessoas partiram de caminhão rumo à Romaria, debaixo de muita chuva. Ao chegarmos à Aparecidinha, saímos em peregrinação com o andor de madeira, pesado, sobre os ombros. Na época, o percurso feito era dividido em trechos que eram numerados e chamados de Águas. Na ocasi- ão, ao chegarmos ao local chamado de Segunda Água, enfrentamos uma inundação que chegava até a cintura. Seguimos em frente, nos segurando uns nos outros, atravessamos a enchente e chegamos ao bairro Alto da Boa Vista, onde hoje é a prefeitura. Lá, um grupo de pessoas esperava por nós, ansioso para conduzirem o andor até a catedral, no centro da cidade. Foi um emocionante vê-los lá, esperando a gente, depois de tanto esforço para chegar- mos.

Aconteceu uma coisa engraçada no ano anterior (1971). Ao levarmos a santa para Aparecidinha, colo- camos São Benedito atrás do andor de Nossa Senhora e desde então, toda vez que colocamos São Benedito atrás da santa, chove logo em seguida. Na romaria de janeiro de 2012, na vinda para a catedral, chegando na ponte Maurício Delosso, decidi fazer uma coisa diferente. Conversei com meus companheiros de romaria, de andor, e eles acharam uma boa ideia. Então, parei o andor e anunciei que daquele ponto em diante as mulheres que quisessem iriam levar o andor. Enquanto ajudava a posicionar as mulheres, uma senhora com cerca de 80 anos, negra, se aproximou. Ela me disse que se não fosse minha atitude ela iria morrer sem carregar o andor, desejo antigo da velha senhora. Fui surpreendido e desabei. Comecei a chorar. Tive que parar e pedir a outros romeiros para aju- darem com o andor. Só consegui dizer: o andor não é meu... É dos romeiros!

A cada ano tem mais e mais gente na romaria. Elas pedem emprego e saúde. Pessoas com ótimas condi- ções financeiras, como empresários e comerciantes, hoje, estendem faixas agradecendo por graças alcançadas e são mais próximos da romaria.

Vemos mais demonstrações e manifestações de fé. Também os jovens, hoje, se aproximam mais do andor e antes não era assim. O andor antigo, de madeira está guardado no museu Arquidiocesano de Arte Sacra de Sorocaba, instalado precariamente nas galerias superiores da catedral. Por ora, o museu está fechado à visitação pública por falta de espaço seguro para acolhê-lo. Hoje, o andor é de alumínio. Foi a família Migliorini que ajudou os romeiros a solucionarem o problema, custeando o novo andor, mais leve. Só posso agradecer a todos que me ajudam e aos meus familiares que me apoiam. Também ao Padre José Antonio por eu continuar no comando do andor, onde estou há 34 anos. Muito obrigado!

O menos falante e mais tranquilo dos entrevistados é Darci Vallerini - 68 anos de idade

– há 46 anos acompanha a Romaria. Há 40 anos dedica-se ao andor de Nossa Senhora Aparecidinha:

Uma das passagens de que me lembro é que há alguns anos, durante a visita feita à Santa Casa durante a romaria, uma senhora estava com seu filho internado há 15 dias sem falar, sem abrir os olhos ou se mover. Ela pediu a Nossa Senhora que lhe desse um sinal para saber se o filho sobreviveria. Quando entramos com a santa no quarto do rapaz, ele abriu os olhos na mesma hora. A emoção foi muita! A santa atendeu ao pedido daquela mãe. Todo mundo ficou admirado e emocionado.

Minha esposa teve um câncer maligno no útero. Fiz uma promessa para que minha esposa sarasse e al- cancei a graça. Hoje, depois de 28 anos, minha esposa continua bem. Minha filha tinha dificuldades para engra- vidar. Fizemos uma corrente, pedimos ajuda a santa e hoje ela tem seus filhos, também graças a pedidos de inter- cessão feitos à santa. Meu filho tinha problemas de saúde e pedi a intercessão da Santa para ele também. Correu tudo bem e hoje ele está casado e leva vida normal.

De repente, o rosto de Darci fica pesaroso com uma lembrança:

Quando eu estava com 46 anos comecei a ter dores nas costas e precisei colocar 6 pinos na coluna. Foi quando meu médico disse que eu teria que deixar a romaria por causa do esforço físico envolvido. Fiquei inconfor- mado! Procurei outro médico que me avaliou e disse que eu poderia continuar a carregar o andor. Nossa, foi uma alegria! Até hoje estou aqui. Tenho 4 filhos saudáveis, todos formados e que nunca me deram problemas. Agradeço por tudo isso a Nossa Senhora Aparecida. Meu lugar é na parte de trás do andor e eu não quer mudar de lugar.

Eu controlo a retirada de rosas, a colocação de objetos, pedidos, cartas, bilhetes de agradecimentos que os romeiros trazem para colocar no andor.

Os romeiros querem as rosas para fazer chá com as pétalas e usam para várias enfermidades e finalida- des, como lavar os olhos, por exemplo. Acho que os romeiros estão com mais fé. Tem gente de muitos lugares: Piedade, Porto Feliz, Tietê, Cerquilho, enfim. Tem gente até de São Paulo! A gente nota que quando a situação financeira está ruim, eles se aproximam mais da romaria.

Quando a situação melhora, alguns se afastam. Muitos, então, viajam em janeiro e abandonam a roma- ria. Mas não são todos, é claro!


Da esquerda para a direita: João William Marcelo, Mário Guidolin e Darci Vallerini, no Coreto, em frente o antigo santuário, no bairro de Aparecidinha. Amigos para sempre. Foto: Sandra Pires


Darci com o filho Marcos Rogério pagando promessa para a santa na Romaria de Aparecidinha (década de 70).
Foto: arquivo pessoal


João William Marcelo na Romaria, em julho de 2016, no momento em que as mulheres que desejarem carregam o andor.

Foto: Sandra Pires

Maria Delfina de Souza Dona Mariínha - é considerada baluarte do santuário e, con- sequentemente, da romaria. Essa mulher miúda, de caminhar tranquilo, mora no bairro há qua- renta anos:

Não tinha nada aqui além do santuário, umas casinhas e a fábrica na qual meu marido veio trabalhar. Por causa disso, pedimos à pessoa que cuidava do santuário na época, que abrisse o local e deixasse as mulheres rezarem no santuário. Foi assim... Começou a aparecer mais pessoas para rezar com o grupo. Com o passar do tempo, aumentou a procura por amparo religioso e espiritual no santuário. Assim, passou a ter mais missas no local. Eu assisti algumas mudanças como a passagem de diferentes padres que cuidaram do santuário ao longo dos últimos 20 anos.

Hoje, com quarenta anos de dedicação à romaria, aos romeiros e ao Santuário de Apare- cidinha, essa senhora de semblante calmo, com aquela sabedoria que só a maturidade traz, enfati- za que o crescimento do número de romeiros nos últimos vinte anos é muito grande.

Confirmando os relatos dos outros entrevistados, disse que o crescimento do santuário antigo contribuiu para o da romaria e vice versa. Ambos estão intimamente ligados.


Dona Mariínha: “ Muita coisa aconteceu, mas continuo firme como uma rocha. Passei a ajudar em tudo que podia na paróquia. Sou pau para toda obra! Ajudo em qualquer coisa”. 
Foto: Sandra Pires

Geni Pereira Mendes e Sandra Maria Oliveira de Santana Morais trabalham na Pas- toral da Acolhida dos romeiros de Aparecidinha. Geni é romeira de Aparecidinha há 22 anos e Sandra há 25 anos. As duas concordam em suas observações, têm as ideias sincronizadas e con- tam, sempre com um sorriso no rosto:

Temos percebido um aumento no número de casais, principalmente na faixa dos trinta anos de idade. E- les pedem por saúde, pela família. Mas, o mais impactante é a volta do jovem à vida religiosa, em comunidade. A presença deles é bem maior na romaria nos últimos três anos. Até mesmo nas tarefas voluntárias desenvolvidas nas igrejas, nas paróquias a presença deles é maior.

Os jovens romeiros pedem pedacinhos das fitas e das rosas que enfeitam o andor. Eles afirmam que usam as pétalas para fazerem um chá que serve para curar muitas enfermidades. Ao final da romaria, o andor está cheio de cartinhas de agradecimentos, fotos, objetos colocados por eles em devoção a Nossa Senhora, como pedidos ou agradecimentos. Os jovens conversam com a gente e nos contam que pedem emprego, um curso superior, saúde. A- queles que alcançam a graça vêm agradecer.


Sandra
(à esquerda) e Geni: “Acreditamos que a presença dos jovens em maior número na romaria, principalmente nos últimos 3 anos, deve-se à influência do Papa Francisco” Foto: Sandra Pires

12. O PAPA FRANCISCO

Vale a pena dedicarmos um espaço para conhecermos um pouco do perfil de Jorge Mario Bergoglio, uma vez que seu nome surgiu mais de uma vez durante as entrevistas, como responsá- vel pela volta dos jovens à vida religiosa (católica).

Para compreendermos melhor a relação entre o papa argentino e os jovens, coletamos in- formações na página oficial Jovens Conectados (Comissão para a juventude CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – jovensconectados.org.br).

Nascido em Buenos Aires (Argentina), foi anunciado Papa da Igreja Católica em 13 de março de 2013. Adotou o nome Francisco quando assumiu a missão aos 76 anos de idade.

O sacerdote da Companhia de Jesus (Jesuítas) é o primeiro Papa latino-americano. Ao re- dor do mundo, o Papa Francisco dirige-se à juventude com frequência. Suas mensagens são de incentivo. Numa delas, ele diz:

A verdade é outra, queridos jovens, não viemos a este mundo para vegetar ou para passa-la comodamente, para fazer da vida um sofá no qual adormecemos. Ao contrário, viemos para deixar uma marca.

Ou ainda, em convocações, como:

O tempo que estamos vivendo hoje não necessita de jovens-sofás, mas de jovens com sapatos. Melhor ainda, com as chuteiras calçadas. Só aceita jogadores titulares na quadra, não há espaço para substitutos.

No Brasil, na Festa da Acolhida dos jovens na praia de Copacabana (RJ), em 25 de julho 2013, o Papa disse:

Queridos jovens, se queremos que nossa vida tenha realmente sentido e plenitude, digo a cada um e a cada uma de vocês que ‘bote fé’ e a vida terá um sabor novo. Terá uma bússola que indica a direção. ‘Bote esperança’ e todos os seus dias serão iluminados. Seu horizonte já não será escuro, mas luminoso. ‘Bote amor’ e sua existência será como uma casa construída sobre a rocha, o seu caminho será alegre, porque encontrará muitos amigos que caminham com você. ‘Bote fé, bote esperança, bote amor!

Durante uma vigília de oração com os jovens, no Rio de Janeiro, em 27 de julho de 2013, o Papa pede à juventude que tome as rédeas de suas próprias vidas:

O coração de vocês, coração jovem, quer construir um mundo melhor. Os jovens nas estradas querem ser protagonistas da mudança. Por favor, não deixem que outros sejam os protagonistas da mudança. Vocês são aque- les que têm futuro! Através de vocês, entra o futuro no mundo.

Talvez, uma das frases mais contundentes do Papa Francisco dirigidas aos jovens, tenha sido sobre sexualidade, proferida aos jornalistas no voo de volta para Roma, em 28 de julho de 2013.

Francisco referia-se explicitamente às lições ensinadas no Catecismo (doutrina oficial do Magistério da Igreja) quando fez a seguinte declaração:

Se uma pessoa é gay e procura Jesus, e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la? O Catecismo diz que não se deve marginalizar essas pessoas por isso. Elas devem ser integradas à sociedade. O problema não é ter esta tendência. Devemos ser irmãos.


Papa Francisco

Foto: Getty Imagens

13. DEPOIMENTOS

Nesse capítulo conheceremos alguns dos romeiros que formam esse lindo mosaico colo- rido que é a romaria. Cada um tem sua própria história, sua dor, sua alegria. São lembranças e sentimentos que os mantém na peregrinação movida pela fé.

Priscila Bueno de Barros tem 33 anos, casada com Paulo Sérgio da Silva, de 31 anos. O jovem casal tem dois filhos pequenos: Maria Eduarda (2 anos e meio) e Miguel (4 meses). Priscila tem aquele jeitinho de quem nasceu para a maternidade.

Eu queria muito ser mãe! Depois de quatro anos de casados, eu não conseguia engravidar. Certo dia, con- versei com minha mãe, Paula Ferrari de Barros, sobre o assunto. Minha mãe me aconselhou a pedir a intercessão de Nossa Senhora Aparecida. Eu não era devota nem participava da romaria. Pensei a respeito e conversei com meu marido. Decidi seguir o conselho de minha mãe. Atravessei o bairro Vila Amato para chegar ao outro lado e esperar a passagem da romaria.

Quando o andor foi se aproximando, ele veio em minha direção... Só vi que ele parecia aumentar cada vez mais e mais de tamanho e uma sensação muito forte tomou conta de mim. Um homem veio caminhando em minha direção e me deu uma fita de Nossa Senhora... Era o William do andor. Foi na romaria do mês de julho de 2013. Dois meses depois, em setembro, eu engravidei de Maria Eduarda e dois anos depois fui à romaria agra- decer à santa. Há 4 meses, tive meu segundo filho, Miguel. A felicidade está completa!


É impressionante como é forte a presença de Nossa Senhora!” – diz Priscila, referindo-se à sua participação na romaria, em julho de 2013. Acima, Priscila com Maria Eduarda no colo e o marido, Paulo Sérgio, com Miguel. Foto: Sandra Pires

13.1. Família Trettel

Francisco Trettel tem 51 anos e acompanha a romaria há 45. Sorri o tempo todo en- quanto fala sobre sua devoção a Nossa Senhora e à romaria. Conta com orgulho que a família sempre foi muito devota e romeira:

É uma tradição de nossos pais. Eles nos ensinaram desde pequenos o valor de rezar o Santo Rosário em família e principalmente na igreja. A fé em Nossa Senhora vem desde muito pequeno. Quando ouvia meus pais rezando, achava aquilo muito bonito e fui me interessando cada vez mais.

Fui me apaixonando por Nossa Senhora e por tudo aquilo. Fiquei com o costume de ser romeiro guarda- do no coração por causa dos meus pais. Não largo a tradição!

Depois de adulto minha fé aumentou ainda mais ao ver que a santa à qual eu peço auxílio nunca me fal- tou, pois sempre fui atendido em meus pedidos. Minha devoção é a Nossa Senhora em primeiro lugar. Mas, em especial, sou devoto de Nossa Senhora da Conceição Aparecida: padroeira do nosso querido Brasil.

Decidi convidar a família toda, os muitos primos que tenho, para criar uma romaria para Aparecidinha especialmente para a família Trettel. Os parentes abraçaram a ideia de imediato. Esta é nossa primeira romaria familiar, hoje, 14 de agosto de 2016, um domingo.

Viemos em trinta e três primos, tios, esposas, ao Santuário de Aparecidinha.

Os romeiros mais velhos da nossa família aguentam firmes e dão o exemplo. Através dos anos, ensinando as crianças de nossa família, procuramos manter e valorizar a tradição.

Ser romeiro é uma forma que eu encontrei de falar com Deus mais de perto e buscar orientação do alto.

Eu me sinto leve, agraciado e muito feliz vivendo assim.


Francisco Trettel – “Quando um romeiro coloca os pés na estrada, desapega das coisas do mundo. Deixa para trás o conforto e facilidades a que está acostumado. Por esta atitude, graças começam a acontecer”. Foto: Sandra Pires

Valter Trettel tem 66 anos, é primo de Francisco. Comecei a frequentar a Romaria de Aparecidinha aos seis anos de idade, no colo de meu pai que tinha quatorze filhos. Ele ia à romaria para pedir proteção para todos nós. Agradecia pelos bens que conseguia adquirir com seu trabalho, pensando em nosso futuro.

Ser romeiro é tradição de família e vamos dar continuidade.


Em sessenta anos de romaria, observei que o número de romeiros só aumenta a cada ano”.
Foto: Sandra Pires


Família Trettel – Tradição de mais de meio século na Romaria de Aparecidinha. Na foto acima, a primeira edição da romaria familiar criada por Francisco Trettel ao antigo Santuário de Aparecidinha, em 14 de agosto de 2016, na qual, romeiros de todas as idades estão representados. 
Foto: Sandra Pires

14. JOVENS ROMEIROS

No decorrer das entrevistas, fiquei feliz ao saber do aumento do número de jovens na romaria. Foi uma grata surpresa, em um mundo no qual alguns valores parecem extintos. Ao procurá-los para fazerem parte do livro, encontrei vários deles nas missas, nos eventos e reuniões do grupo de jovens da paróquia de Aparecidinha. Eles superam as dificuldades que a vida lhes apresenta no dia a dia e vivem sua juventude alegres e cheios de energia. Por essa razão, decidi dedicar um capítulo especial para esses jovens. Creio que depois de ler, o leitor irá compreender e concordar. Eu os apresento na ordem cronológica em que os conheci.

Ricardo Rocha

Ele tem 15 anos de idade e descreveu como se deu o começo de sua vida como romeiro: Por volta dos 5 anos de idade eu acompanhava meu pai a São Paulo, ao trabalho dele. Durante o caminho, ele me contava sobre parecidinha, a romaria e sua tradição. Antes que eu percebesse, já nascia em mim um desejo de saber mais sobre esta linda demonstração de fé que Sorocaba tem.

Em 2009, minha família mudou-se para a Vila Amato, bairro vizinho à Aparecidinha. Da rua para a qual nos mudamos era passível ver os dois últimos quilômetros do percurso da romaria, a última subida. No dia 11 de julho de 2010, ao sair à rua para brincar com meus amigos, logo de manhã, vi aquela multidão subindo. Imediatamente, lembrei-me do que meu pai dizia quando passávamos pela ‘Castelinho’. Naquele dia, fiquei impressionado com o número de fiéis e com gostinho de querer saber mais a respeito. Eu nem imaginava, mas já era o primeiro chamado da Mãe Aparecida.

No ano de 2011, quando saía à rua para brincar e olhava aquela multidão toda, já sentia pulsar em meu coração o amor que Maria leva aos seus filhos. Deixei meus amigos e subi um barranco para ver melhor a multidão passar. Não me cansava de ver as pessoas passando por mim, ao contrário, me alegrava. Fiquei lá por horas, observando. Os rojões que foram soltos em frente à igreja de Aparecidinha me fizeram sair de mim mesmo, despertar. Percebi que mesmo sem participar da romaria, aquilo tudo me alegrava. Corri para casa e pedi ao meu pai que me levasse à igreja de motocicleta. Eu queria ver Nossa Senhora Aparecida. Quando chegamos à igreja, não tivemos sucesso, devido ao enorme número de pessoas. Mais tarde, consegui ver a santa sendo levada ao santuá- rio, depois da missa de chegada e me dei por satisfeito. Aos poucos comecei minha contínua caminhada na igreja. Lembro-me que nessa época eu ia à igreja uma ou duas vezes ao mês, aos domingos de manhã.

Já em 2012, decidi, com meu jeito de criança, ver de perto a santa passando ao meu lado. Decidi partici- par da romaria e acompanhar a santa da minha casa até a igreja. E assim foi: vi a imagem chegar à igreja e assis- ti uma parte da missa em frente a igreja nova. Depois, subi até a feirinha feita pelos comerciantes e acabei por ganhar dois santinhos e um terço de um devoto que estava doando. Isto foi mais que suficiente para começar minha caminhada com mais fé e dedicação. Minha mãe, minha tia e eu decidimos acompanhar a romaria em 2013. A- proveitei cada segundo daquele momento maravilhoso. Com esse amor pela Virgem Aparecida, decidi participar mais da igreja e, em agosto, entrei para a Catequese Pastoral dos Coroinhas. Fui muito bem acolhido por todos na paróquia de Aparecidinha, que representa uma avenida para meu caminhar. De julho de 2013 a julho de 2014 fui subindo um degrau a cada dia, participando da vida da igreja mais e mais. Em julho de 2014, fui à romaria trabalhando pela paróquia. Eu fotografava tudo! Mal sabia eu que aquelas fotos e meu desejo de saber mais sobre a romaria e o santuário me fariam um dos agentes de Comunicação Social da paróquia. A cada edição da romaria eu fotografava e divulgava mais e mais. Lamentei o fim da queima de fogos em janeiro de 2016, pois eles me lem- bram do dia em que seu som me despertou. Para mim, não tem momento mais importante que ouvir a voz do padre animando o povo para a romaria logo de manhãzinha.


Ricardo Rocha dedica grande parte de seu tempo ao trabalho voluntário na divulgação dos eventos da paróquia de Aparecidinha, em especial, da romaria. 
Foto: arquivo pessoal

14.1. Francisco Thyerr

Natural de Campo Maior, no Piauí, Francisco tem 18 anos, um rosto maduro e olhar de menino. Conta, sorrindo, suas brincadeiras de infância e fala sobre vocação. Atualmente, Francis- co está percorrendo os caminhos necessários para tornar-se padre e está tendo sucesso em cada uma das etapas. Ele contou:

Por volta dos 7 anos, eu já brincava de celebrar casamentos porque sempre queria ser o padre.

O tempo passou, eu cheguei a namorar, a vida tomou outro rumo. Há quatro anos, minha família mu- dou-se para o bairro de Aparecidinha. Ao conhecer o antigo santuário, senti uma identificação imediata!

Gosto muito da história da Igreja Primitiva. Ao conhecer a história da santa, do santuário, da romaria, me apaixonei por tudo! Comecei a frequentar a paróquia, o que reavivou antigas lembranças e senti minha vocação ressurgir.

Apesar de minha família não ser muito religiosa, comecei a participar das atividades da paróquia, a visitar o seminário, a ajudar o Padre José Antonio, o ‘Padre Zé’.

Convivendo na paróquia, comecei a conhecer a realidade dos padres, as rotinas da vida religiosa, a entender os sacramentos e tudo mais. A cada dia meu interesse crescia. Adotei Nossa Senhora da Conceição Aparecida como minha mãe espiritual: é a ela que recorro em momentos de dúvida. Criei um laço forte com Nossa Senhora Aparecida. Mas, devo dizer que minha devoção é, em especial, a Nossa Senhora Aparecida, ‘esta aqui, de Aparecidinha’. Minha família não apoia minha decisão. Eles preferem que eu me case, lhes dê netos e continue o nome da família. Mas estou decidido: quero ser padre e estou trilhando meu caminho.


Francisco Thyerr está passando pelas etapas necessárias para formar-se padre. Está indo bem! Mas não dispensa o cafezinho de ‘Dona Nila’, no santuário antigo Foto: Sandra Pires

14.2. Grupo de Jovens: Eu sou do meu amado

O grupo de jovens da paróquia de Aparecidinha, cuja sigla é Esma, é formado por pré- adolescentes, adolescentes, jovens e até alguns adultos com espírito jovem que desejem participar! Seus componentes também são romeiros de Aparecidinha. Um de seus coordenadores e nosso entrevistado é Guilherme Joaquim dos Santos, de 23 três anos. Ele disse:

O objetivo da criação do grupo não tem nada de excepcional. A intenção é dar ritmo novo nas paróquias do bairro. Resgatar algo antigo que se perdeu. Ajudar os jovens a evitar ou sair das drogas, dos problemas da iniciação sexual precoce e sem informação, entre outras ações. Mobilizar a comunidade a se envolver e ajudar. Des- de que decidimos criar o grupo e começamos as atividades, as coisas foram se encaminhando. Pretendemos continu- ar! Não queremos começar algo que logo vai ter um fim, como acontece muito.

O grupo também trata da missão do jovem com o futuro da igreja e do próprio país. Concordamos que o Papa Francisco deu novo fôlego, novo ritmo a relação do jovem com a religião, com a igreja católica. Quem não frequentava a igreja, quem estava afastado, não sabia nada sobre o Papa. Mas, ele renovou as ideias da igreja sem mudar os preceitos, seus fundamentos.

Geovanna Rayssa dos Santos, 14 anos: Eu gostaria de frequentar mais a romaria, mas como tenho pres- são baixa e o percurso é longo, acabo passando mal. A forma que encontrei de servir e participar foi trabalhando na chegada dos romeiros, aqui no bairro. Assim, me sinto melhor.

Bianca Campos, 15 anos. Eu achava muito chato ficar na missa. Não gostava de vir! Depois de algum tempo, resolvi participar da romaria e senti algo que me fez voltar a frequentar a igreja. Hoje, eu adoro!

Isabella Lima de Souza, 14 anos: Eu achava um tédio participar da missa e outras atividades da igreja. Não sei por que, mas não fazia sentido para mim. Um dia eu decidi vir à missa e me senti diferente. Foi diferente. Hoje eu adoro vir á missa e trabalhar na romaria.


Da esquerda para a direita: Geovanna, Bianca, Isabella e Guilherme. Assim como os demais participantes do gru- po, estão sempre alegres, bem dispostos para desenvolver as atividades propostas pelo grupo. Mas, se alguém não está bem, é logo auxiliado pelos companheiros.

Foto: Sandra Pires

Ana Eloísa da Silva: é uma das coordenadoras do grupo de jovens. Ana tem 21 anos. O público da romaria sempre for composto mais por adul- tos e idosos, tradicionalmente. Com o passar do tempo, o crescimento da cidade retirou dos jovens o interesse por sua cultura. Sempre tem outras coisas para fazer em vez de ir á missa ou á igreja que, antigamente, era um lazer para os jovens. Vivemos o desafio de despertar nos jovens o interesse, o comprometimento com as tradições católicas de uma maneira interessante. É preciso muito jogo de cintura. Sempre trabalhamos a importância da perseverança e pouco a pouco fomos levando os jovens a se encontrar com as coisas relacionadas à igreja. Em

2016 tivemos a oportunidade de servir juntos na romaria e vimos outros jovens, que não eram da paróquia de Aparecidinha, caminhando juntos. Isso os motivou, pois viram que não estão sozinhos e que a “cara” do jovem existe dentro da Igreja. Fizemos um encontro com o tema Santos de Calças Jeans. O encontro foi fundamen- tado nas palavras do Papa João Paulo II e os marcou muito!

A seguir, trago o texto ao qual Ana Eloísa se refere: Mensagem aos jovens do Papa Jo- ão Paulo II – Carta aos jovens:

Precisamos de Santos sem véu ou batina. Precisamos de Santos de calças jeans e tênis. Precisamos de San- tos que vão ao cinema, ouvem música e passeiam com os amigos. Precisamos de Santos que coloquem Deus em primeiro lugar, mas que se “lascam” na faculdade. Precisamos de Santos que tenham tempo todo dia para rezar e que saibam namorar na pureza e castidade, ou que consagrem sua castidade. Precisamos de Santos modernos, Santos do século XXI com uma espiritualidade inserida em nosso tempo. Precisamos de Santos comprometidos com os pobres e as necessárias mudanças sociais. Precisamos de Santos que vivam no mundo, se santifiquem no mundo, que não tenham medo de viver no mundo. Precisamos de Santos que bebam Coca-Cola e comam hot-dog; que usem jeans, que sejam internautas, que sejam disc-men. Precisamos de Santos que amem a Eucaristia e que não tenham vergonha de tomar um refrigerante ou comer pizza no fim de semana com os amigos. Precisamos de Santos que gostem de cinema, de teatro, de música, de dança, de esporte. Precisamos de Santos sociáveis, abertos, normais, amigos, alegres, companheiros. Precisamos de Santos que estejam no mundo e saibam saborear as coisas puras e boas do mundo, mas que não sejam mundanos. “Jovens do mundo inteiro, tenham a santa ousadia de serem os santos do novo milênio”. (Papa João Paulo II, Congresso da Juventude Feminina de Schoesntatt, Londrina/PR, 2000).


Karol Józef Wojtyla - Papa João Paulo II Foto: cançãonova.com


Grupo de Jovens - voluntários nas romarias. Acima, eles aguardam a chegada da romaria ao bairro de Aparecidinha.
Foto: arquivo página do Facebook/ grupo Esma


Acima, momento de espiritualidade, durante o qual compartilham experiências vividas durante a semana e conversam sobre temas pertinentes à juventude, à igreja, à sociedade. Foto: Sandra Pires

Gostaria de encerrar este capítulo dedicado aos jovens, com o depoimento de Lucas Francisco Onofre, de 17 anos, também devoto e romeiro de Aparecidinha. Sua história de vida, ape- sar de tão jovem, é intensa e dramática. Por isso, apesar de já ter encerrado a fase de entrevistas quando conheci Lucas, decidi publicá-la. A palavra para definir este jovem é Superação! Lucas con- ta sua história:

Quando eu tinha uns 8 anos de idade, sofri um acidente na escada da casa de minha tia. Bati a cabeça e fui levado ao hospital. Ficou tudo bem, fui para casa. Daí, começaram os desmaios. Eu desmaiava do nada. Tive quatro episódios de desmaio em casa. Então, minha mãe me levou ao médico, que fez um RX e descobriu que eu tinha um tumor do tamanho de uma laranja grande.

Ao saber do meu caso, o diretor da escola onde eu estudava, o Sérgio, me encaminhou ao GPACI de So- rocaba (Grupo de Pesquisa e Assistência ao Câncer Infantil). Comecei a passar em consulta com Dr. Gustavo e iniciei o tratamento com quimioterapia leve por cerca de dois anos. Fiz novo RX e o médico me internou na Santa Casa de Sorocaba para a primeira cirurgia. Eles não removeram o tumor todo nesta cirurgia por causa do meu estado delicado, com risco de morte. Precisei tomar algumas bolsas de sangue, fiquei inconsciente.

Quando acordei, havia perdido a visão do olho esquerdo e memória também estava muito prejudicada. Minha perna e braço direitos também estavam estranhos... Os movimentos estavam diferentes. Eu não conseguia mantê-los levantados. Aos poucos, fui recuperando a memória... E eu já não sabia ler ou escrever; não reconhecia as letras. Por volta dos 12 anos, fiz a segunda cirurgia. Desta vez foi em São Paulo, com um médico japonês, que retirou mais uma parte do tumor, mas deixou um pequeno pedaço. Fiquei internado por 10 dias dessa vez. Quan- do acordei, me lembrava de algumas coisas, de algumas pessoas. Voltei para casa, em Sorocaba.

Agora, estou em tratamento e observação contínuos. A cada ano, preciso voltar ao hospital para verificar se não tem água se formando no local da cirurgia, onde havia o tumor. Os médicos me avisaram que eu não posso inalar fumaça, tomar sol, ficar nervoso, presenciar brigas e discussões, lugares abafados. Já tive mais de cinquenta convulsões! Tomo Tegretol e um calmante todos os dias para controlar os nervos e tentar evitá-las.

Quando começaram a me passar de ano na escola sendo que eu nem sabia ler ou escrever, pois havia es- quecido tudo, minha mãe ficou brava e reclamou na escola. Por orientação do GPACI, minha mãe começou a procurar sala especial para mim. Mas, segundo eles, eu não tenho deficiência e, assim, não tenho como frequentar salas especiais. Então, estou na escola regular, numa sala normal, mas cursando o segundo ano primário. Apren- dendo tudo de novo, numa sala cheia de crianças. Também já tive convulsões na escola... É complicado...

Quando me recuperei mais um pouco, comecei a vir com uma amiga, a Dona Benedita, ao Santuário an- tigo, para as missas. Ela gostava de frequentar, então, eu vinha com ela, pois minha família não é muito religiosa.

De imediato me senti muito bem acolhido por todos. Lembro que o Ricardo Rocha estava sempre aqui e me recebeu muito bem. Por causa disso, comecei a vir todos os dias para o Santuário antigo e frequento o Santuário novo também.

Quando eu tinha 14 anos, uma outra amiga, a Mazé, pagou pra mim uma viagem ao Santuário Na- cional de Aparecida. Fui com a turma toda.

Depois disso, tive dois sonhos com Nossa Senhora Aparecida, mas só me lembro do primeiro: estávamos todos numa igreja lotada, mas não sei qual era a igreja. Alguém disse bem alto que um fogo santo e abençoado desceria sobre todas as almas ali. Então, uma mulher dentro de uma luz, desceu com tudo e eu acordei na hora! Certa vez, quando tinha uns 15 anos, cheguei muito cedo ao santuário novo para preparar as coisas para a missa. Gosto de chegar cedo. Eu estava sozinho... Tive um princípio de convulsão, quase desmaiei... Meu coração dispa- rou, mas ficou tudo bem. Minha mãe se preocupa muito porque eu deveria ficar mais em casa, mas não adianta! As pessoas me mandam embora para casa porque ficam preocupadas comigo, pois fico muito na igreja. Eu gosto de estar na igreja e ajudar. Me sinto acolhido, me sinto bem. A santa de Aparecidinha é minha mãe espiritual. Meu sofrimento com a doença , o acolhimento que tive no santuário e esses dois sonhos que tive reforçaram minha ligação com a santa.


Ignorando as recomendações do médico, Lucas já fez todo o percurso em duas romarias: 2015 e 2016. Apesar de devoto e romeiro, ele nunca fez pedido ou promessa a sua santa de devoção. Foto: Sandra Pires


Foto de vitral do interior do santuário novo, retratando o costume de levar a santa sobre os ombros, em romaria.

Foto: Sandra Pires

15. CONCLUSÃO

A atividade jornalística deve servir à sociedade. Assim, espero ter contribuído de alguma forma para o registro e valorização da tradicional Romaria de Aparecidinha, acima de qualquer outra coisa.

Entretanto, não posso deixar de compartilhar minhas próprias percepções, enquanto jor- nalista, sobre a experiência única de escrever uma obra sobre tradição e fé. Vamos falar de a- prendizado.

Primeiramente, gostaria de destacar que eu, formanda aos 52 anos de idade, não posso negar o quanto a tecnologia foi uma ferramenta maravilhosa e facilitadora, principalmente, atra- vés das redes sociais e aplicativos de mensagem. Obviamente, durante as pesquisas, a Internet também foi de enorme valia. O que eu não sabia fazer, tive que aprender e me virar nos 30 (ou nos 52)?! Bem, o que importa é que eu fiz!

Mas, sem dúvida, o capital agregador da produção do conteúdo do livro que ora tem em mãos, foi o capital humano. Graças às pessoas que compartilharam comigo suas vivências, pude compreender as mudanças ocorridas com o romeiro de Aparecidinha, nas últimas duas décadas. De outra forma, seria impossível. Sempre valorizei o ser humano em meus trabalhos, mas produ- zir o livro reforçou a importância do elemento humano no processo de informação, não como um meio apenas, mas como um fim.

Participei da romaria do começo ao fim. Falei com tantas pessoas. Ouvi tantas histórias. Capturei tantas imagens. Houve sorrisos e lágrimas. Incomodei as pessoas várias vezes, depois de entrevistá-las, para perguntar ou confirmar informações pendentes... Fui a pedra no sapato deles por algum tempo! Jornalista torra a paciência! Aproveito para pedir desculpas... Mas não posso prometer que nunca mais vai acontecer...

Foram 4 meses de entrevistas, editando textos e imagens. Muitas correções e adequações.

Muitos e-mails, telefonemas e mensagens...

Esse processo de produção vai fazendo com que você e o livro se tornem um só. Tanto, que quando terminei de escrevê-lo, quando não havia mais ninguém a ser entrevistado, nenhuma correção a ser feita, nada mais a ser acrescentado, embora exausta, fiquei triste. Me senti vazia, órfã.

Embora a pesquisa tenha tido como foco os últimos 20 anos, vale ressaltar que, entre as conclusões que cheguei através das entrevistas realizadas, verifiquei que ainda existem os romeiros mais tradicionais, mais idosos e que, de certa forma, dão o exemplo da tradição católica, mas estão em menor número que há 30 anos, quando eram a maioria.

O romeiro está mais jovem

Houve uma diminuição na faixa etária do romeiro. Pessoas casadas, na faixa dos 30 anos estão frequentando mais a igreja e a romaria, inclusive, trazendo seus filhos.

Nos últimos 3 anos, jovens entre 14 e 25 anos voltaram a viver sua religiosidade, motiva- dos pelo constante chamado do Papa Francisco à juventude. Eles gostam de participar de forma livre mas também existem aqueles que preferem participar de maneira personalizada, criando uma identidade própria, seja através de grupos de jovens, grupos de oração, usando camisetas criadas por eles e identificadas com o nome do grupo.

Percebe-se um comportamento de maior liberdade no modo como as pessoas exercitam sua fé. Boa parte das pessoas passou a frequentar a igreja e a romaria a seu modo, dentro de sua própria conveniência. Assim, elas não se sentem obrigadas a frequentar a igreja assiduamente para participarem da romaria. Agem de maneira mais autônoma, independente, pessoal, mas não menos respeitosa aos preceitos da igreja; apenas desenvolveram seu próprio ritual de fé, ade- quando-os à sua rotina da vida, imposta pelo trabalho, pelos estudos, pelas obrigações do lar. Com isso, pessoas que estavam afastadas da vida religiosa, descobriram um modo de vivenciar sua fé, de acordo com sua própria rotina, sentindo-se menos culpadas por não dedicarem mais tempo á religião, e sentiram-se mais motivadas. Porém, a motivação dessas pessoas também mu- dou. Já não é apenas aquela fé genuína que predominava há 30 anos. São motivadas, também, por circunstâncias adversas que a vida lhes apresenta e que precisam superar, como doenças, crises, desemprego etc. Sinais dos tempos?

Gostaria de ressaltar que é louvável perceber que o envolvimento dos romeiros de Apare- cidinha vai muito além da Romaria: eles vivem em comunidade, como uma família. Estão sempre na igreja, cantam nas missas, nos eventos, comemorações, nas festas e tudo mais que acontece na paróquia. Há um gripo de mulheres da comunidade rezam o terço, os jovens participam das tare- fas da paróquia e voluntários ajudam a manter o santuário aberto e em condições de receber as pessoas do bairro e visitantes de outras localidades, próximas ou distantes. Essas são algumas das mudanças observadas no romeiro ao longo das últimas duas décadas. A fé é algo dinâmico, vivo, latente e, principalmente, individual e subjetiva. Está sempre em movimento. Sofre a ação do tempo como tudo mais. Creio que o mais importante é que o ser humano nunca perca a capaci- dade de acreditar na vida, de manter-se fiel a si mesmo e de estar no controle de sua própria vida.

Quanto a mim, sinto-me uma profissional melhor preparada para dar continuidade ao meu interesse por histórias nas quais os seres humanos sejam os protagonistas.

16. AGRADECIMENTOS

Polimar Tadei Pires, meu marido, que esteve comigo durante todo o caminho percorrido na romaria, fotografando, apoiando, incentivando e, principalmente, acreditando no projeto.

Cláudia Jefferson – secretária do antigo Santuário de Aparecidinha. Sempre solícita, esclarecendo alguns pontos ou providenciando do- cumentos necessários, sempre de boa vontade.

José Benedito Almeida Gomes: jornalista e historiador que compar- tilhou seus conhecimentos e material publicado pelo jornal Diário de Sorocaba, um dos mais respeitados da cidade, que enriqueceram as pesquisas.

Nila Teixeira de Carvalho - Cuida do Santuário de Apareci- dinha há 21 anos. É meio que ‘mãe de todo mundo’. Dá aquela bronquinha quando precisa... Foi a única pessoa com quem falei a lembrar-se de que havia uma banda, há uns dez anos ou mais, que recebia a romaria logo depois da Santa Casa: Eles tocavam o hino nacional. Era emocionante... Tenho saudade. Sou grata pela for- ma como todos sempre me recebeu no santuário: com carinho, um sorriso e um cafezinho. Obrigada por nossas conversas no bucólico e singelo bairro de Aparecidinha.


Imagem de Nossa Senhora Aparecida deixada pelos tropeiros no tronco da árvore; imagem peregrina da tradicional romaria.

Foto: Sandra Pires

Um olhar para o romeiro

Eu não sou romeiro, não...
Mas tenho inveja de quem é
Percorrem com toda coragem
Estradas de pó, a pé!

Eu não sou romeiro, sabe?
Mas bem que seria ser
Só que precisa ter fé
Levantar ao amanhecer
Pra ser romeiro de verdade
É preciso força e ação

Mas não é força do braço
É força de coração
Caminhar longas distâncias
O corpo todo a suar
O cansaço vai chegando
Mas nem pensa em parar!

Lá em Aparecidinha
Vejo o romeiro passar
Com muita admiração
Lanço pra ele um olhar
É um olhar de respeito
Olhar de admiração
Faz eu me sentir pequeno
Com tanta determinação

O romeiro some na poeira
Eu fico ali, a olhar...
Penso se ele foi em frente
Ou subiu para o altar
Onde fica sua santa
Que não costuma faltar
A quem ele devota amor
Mesmo que sinta dor
Nunca deixa de amar
(Por Sandra Pires)

17. OBRAS CONSULTADAS

ALMEIDA, Aluisio. História de Sorocaba, Sorocaba/SP. Ottoni, 2002

BELTRÃO, Luis. Folkcomunicação: Teoria e Metodologia, São Bernardo do Campo/SP. U- mesp, 2004.

BRUSTOLONI, Julio. História de Nossa Senhora da Conceição Aparecida: imagem, o santuá- rio e as romarias (p. 43-48). 10ª edição ver. e ampl. – Aparecida, SP: Editora Santuário, 1998.

CIPOLINI, Pedro Carlos. A devoção mariana no Brasil. Teocomunicação, Porto Alegre, v.40, n.1, p.36-43, jan/abr. 2010. Disponível em:<http://revistaeletrônica.pucrs.br/ojs/index.php/teo/article/viewFile/7774/5519>. Acesso em: 14/02/2016

MARQUES DE MELO, José (org). Mídia e Folclore. O estudo da folkcomunicação segundo Luis Beltrão. Maringá: Unesco/Umesp/Fac. Maringá, 2001.

MORAES, Vaniucha de. Jornalismo cultural não valoriza tradições. Disponível em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/jornalismo_cultural_nao_valoriza_tradic oes. Acesso em: 12/02/ 2016.

PALERMO, Maria Pia Sica. Viver na pele do outro: o uso da observação participante na reali- zação da reportagem. Tese de mestrado, São Paulo: Universidade de São Paulo, 2001.

PIRES, Sandra Regina Cordeiro. Religiosidade no jornalismo local - Uma análise da cober- tura do jornal Cruzeiro do Sul sobre a Romaria de Aparecidinha em Sorocaba – SP. TCC curso de Comunicação Social – Jornalismo – Universidade de Sorocaba, 2016. Orientação: Prof.Dr. Walter de Luca.

SANCHIS, P. Peregrinação e romaria: um lugar para o turismo religioso - Artigo científico - Ciencias Sociales y Religión/Ciências Sociais e Religião, Porto Alegre, ano 8, n. 8, p. 85-97, outubro de 2006. Disponível em:<http://www.seer.ufrgs.br/index.php/CienciasSociaiseReligiao/article/view/2294> Acesso em 08/03/2016.

SUSIN, Frei Luiz Carlos. A religiosidade popular na vida do povo e da Igreja. Site. Disponí- vel em: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/514195--a-religiosidade-popular-na-vida-do-povo- e-da-igreja-entrevista-com-o-frei-luiz-carlos-. Ano 2012. Acesso em 21/05/2016.

18. ANEXOS

18.1. Sobre tombamento do santuário

18.2. Sobre tombamento imaterial da romaria

18.3. Oficialização da romaria de Aparecidinha

18.4. Autorização para a construção do novo santuário


18.5. Decreto da criação da paróquia de Aparecidinha


Publicado por: Sandra Regina Cordeiro Tadei Pires

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