A INVISIBILIDADE DA MULHER COM DEFICIÊNCIA NO MOVIMENTO FEMINISTA

Comunicação e Marketing

Importância da inclusão das mulheres com deficiência tanto no movimento quanto na sociedade, abordando suas necessidades e pautas que precisam ser ouvidas por outras mulheres que fazem parte de movimentos feministas e pela sociedade como um todo.

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Resumo

Esse trabalho de conclusão de curso pretende, com uma série de reportagem para o Jornal do Commércio, dar voz às mulheres que tenham qualquer tipo de deficiência e mostrar o quão importante é a inserção desse grupo de mulheres em movimentos feministas para tratar de assuntos imediatamente relacionados às pessoas com deficiência como: acessibilidade e os temas que são pautas recorrentes no movimento feminista como: mercado de trabalho, sexualidade, violência contra a mulher, (no caso da mulher com deficiência, a violência tem muito mais chances de acontecer dada a condição de vulnerabilidade dessa mulher).

Além das violências sofridas pelas demais mulheres, as com algum tipo de deficiência ainda sofrem daquelas advindas de preconceito e seguidas de discriminação causada pela condição da deficiência em que se encontram. Por isso não são consideradas como violências baseadas no gênero.

Para este trabalho, foram realizadas entrevistas com mulheres com deficiência para falar sobre como as mulheres com deficiência podem acrescentar no movimento feminista.

A pesquisa confirmou não só a invisibilidade da mulher com deficiência no movimento feminista, mas também, por muitas vezes, a mesma invisibilidade na sociedade, de forma geral, ao perceber as dificuldades que essas mulheres têm de, por exemplo, denunciar uma violência.

Palavras-chave: Gênero, reportagem, deficiência, mulher.

Abstract

This final project intends to, with a series of reporting for the Jornal do Commércio, give voice to women who have any type of disability and show how important is the insertion of this group of women in feminist movements to address issues immediately related to people with disabilities such as: accessibility and the themes that are recurring models in the feminist movement as: labour market, sexuality, violence against women, (in the case of women with disabilities, violence has more chances of happen given the condition of vulnerability of this woman).

In addition to the violence suffered by other women, with some type of disability still suffer those coming from prejudice and followed by discrimination caused by the condition of disability in which they find themselves. Why are not regarded as gender-based violence.

For this work, interviews with women with disabilities to talk about how women with disabilities may attach in the feminist movement.

The research not only confirmed the invisibility of women with disabilities in the feminist movement, but too often, the same invisibility in society in General, to understand the difficulties that these women have, for example, report violence. Keywords: gender, report, disability, woman.

1. Introdução

Os estudos sobre a perspectiva feminista e de gênero tem avançado enquanto fala de questões tais como: raça/etnia, orientação sexual, classe social, religião. No entanto, as mulheres com deficiência ainda ficam à margem de discussões do movimento feminista. É notória a falta de diálogo entre o movimento feminista e o movimento das pessoas com deficiência, destacando-se para este estudo, as mulheres com deficiência.

Esse trabalho de conclusão de curso pretende, com uma grande reportagem, dar voz às mulheres que tenham qualquer tipo de deficiência e mostrar o quão importante é a inserção desse grupo de mulheres em movimentos feministas para tratar de assuntos imediatamente relacionados às pessoas com deficiência como: acessibilidade e os temas que são pautas recorrentes no movimento feminista como: mercado de trabalho, sexualidade, violência contra a mulher, (no caso da mulher com deficiência, a violência tem muito mais chances de acontecer dada a condição de vulnerabilidade dessa mulher).

Além das violências sofridas pelas demais mulheres, as com algum tipo de deficiência ainda sofrem daquelas advindas de preconceito e seguidas de discriminação causada pela condição da deficiência em que se encontram. Por isso não são consideradas como violências baseadas no gênero.

A hipótese desse trabalho é de que a mulher com deficiência é invisível na sociedade, invisível no plano pessoal, é invisível coletivamente.

Historicamente os abusos contra esse grupo de mulheres superam os crimes cometidos contra as demais, embora nas delegacias esses números não sejam tão precisos. Segundo pesquisas de organizações nacionais e internacionais, como a ONU Mulheres, que direcionam seus trabalhos para temas relacionados às mulheres, estima-se que, no mundo, cerca de uma em cada cinco mulheres vivem com algum tipo de deficiência e que a taxa de prevalência de deficiência no sexo feminino (19,2%) seja superior à dos homens (12%).

Aproximadamente 40% das mulheres com deficiência já sofreram algum tipo de violência doméstica no mundo. As mulheres com deficiência sofrem mais com a violência doméstica pelo fato de terem mais dificuldade de denunciar os agressores que estão, na maioria das vezes, entre familiares e ou cuidadores. Essas mulheres são duas a três vezes mais propensas a casamentos infantis forçados, a engravidar precocemente, entre outras violações de direitos humanos.

No Brasil, as mulheres com deficiência somam mais de 26 milhões de pessoas. Em sua expressiva maioria, elas encontram a invisibilidade e o silenciamento de suas vozes como barreiras iniciais, inviabilizando o exercício de seus direitos humanos e de cidadania. São alvos de desigualdades de gênero e de discriminação no acesso à saúde, à educação e aos direitos econômicos, políticos e culturais. Nas empresas, elas representam 0.8% dos 2% de trabalhadoras e trabalhadores com deficiência nas 500 maiores empresas no país. Mulheres que possuem algum tipo de deficiência têm maior dificuldade de inserção no mercado de trabalho do que os homens, segundo pesquisa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 2014, a participação das pessoas sem nenhuma deficiência, com idade entre 16 e 64 anos, na população economicamente ativa é de 81,8% dos homens e 61,1% das mulheres. Quando se coloca a questão da deficiência na pesquisa, essa proporção cai de 56,4% entre homens e 43,1% entre as mulheres.

Esse grupo importante da sociedade conta com ações quase inexpressivas no âmbito de atenção à saúde básica. O SUS (Sistema Único de Saúde) não tem profissionais amplamente qualificados para atender as necessidades individuais de cada mulher com deficiência, faltam mamógrafos adaptados e tantos outros aparelhos que deveriam estar disponíveis para melhor atender essas mulheres.

Mulheres com deficiência não têm espaço nos meios de comunicação de massa para falar sobre assuntos que são comuns a todas as mulheres, como filhos, mercado e trabalho, etc. Esse trabalho busca justamente abrir este espaço para esse grupo da sociedade e assim, colocar as pautas defendidas por essas mulheres em debate, cumprindo o papel do jornalismo de informar a população sobre essas pessoas que são, na maioria das vezes, invisibilizadas.

A intersecção da deficiência com o feminismo é um assunto muito complexo e por vezes ignorado dentro do próprio movimento feminista, assim como as pessoas com deficiência, de modo geral, são ignoradas pela sociedade. Estas barreiras, sejam elas físicas ou reflexos de estereótipos, condicionam a entrada de um dos grupos mais vulneráveis da nossa sociedade no movimento feminista que tem como ideologia ser um espaço seguro para todas as mulheres, independente de suas especificidades.

A construção de aspectos ideológicos e a ratificação de valores da sociedade acontecem de forma muito eficaz através dos meios de comunicação de massa.

As novelas são muitas vezes responsáveis por ditar modismos, enquanto o jornalismo dita aquilo que será debatido no nosso cotidiano. Os meios de comunicação vendem o produto que o público pede em contrapartida o público determina aquilo que deve ser noticiado. Mas, onde a problematização da relação entre deficiência e o gênero entra nessa história?

O distanciamento das causas sociais, especialmente da deficiência, é fruto da indiferença da mídia e da sociedade. Por muito tempo essa parcela da sociedade foi marginalizada, tinha que esperar que as outras pessoas fizessem tudo por elas, inclusive ser a voz de suas lutas por direitos. Foram convencidas que não podiam participar ativamente do convívio social, muito menos levantar a voz em movimentos de luta por direitos, como é o caso do movimento feminista. É exatamente por essa postura passiva, cheia de um preconceito histórico da sociedade que temas que vão além da acessibilidade, como a luta das mulheres com algum tipo de deficiência por direitos igualitários, não é posto em discussão pelos meios de comunicação. Assim sendo, esse projeto visa.

A universidade é parte importante do conhecimento da sociedade, e como tal se faz necessário nela o desenvolvimento de estudos sobre a relação de gênero e deficiência para que essa discussão possa ser ampliada para os meios de comunicação através dos estudantes de comunicação, em especial os futuros jornalistas, e assim poder chegar ao maior numero de pessoas em toda a sociedade.

A mídia não pode ser esquecida, pois possui um papel fundamental na promoção de atitudes positivas no sentido da inclusão de pessoas portadoras de deficiência na sociedade. A criação de equipes de mediação de sistemas e a presença de ombudsmen junto aos conselhos de defesa da pessoa deficiente, que mostrem ao governo, à sociedade e à mídia os acertos e desacertos da inclusão social e escolar e seus prognósticos para curto, médio e longo prazo, devem ser consideradas.

2. Objetivos

2.1. Objetivos gerais

Fazer uma grande reportagem para o Jornal do Commércio mostrando a ausência da mulher com deficiência no movimento feminista e falar sobre a importância da inclusão das mulheres com deficiência tanto no movimento quanto na sociedade, abordando suas necessidades e pautas que precisam ser ouvidas por outras mulheres que fazem parte de movimentos feministas e pela sociedade como um todo.

2.2. Objetivos específicos

  • Fazer uma pesquisa exploratória com coletivos feministas e mulheres com deficiência sobre a razão da invisibilidade da mulher com deficiência no movimento feminista e sobre a importância dessa representatividade.

  • Pesquisar assuntos pelos quais esse grupo tem interesse

  • Produzir matérias a partir desses assuntos pesquisados

3. Referêncial teórico

3.1. A História das pessoas com deficiência no Brasil

A trajetória do indivíduo com deficiência é marcada por preconceitos e lutas em favor do direito à cidadania, de acordo com cada cultura dentro das sociedades.

A história brasileira registra referencias diversas a “aleijados”, “enjeitados”, “mancos”. Mas assim como acontecia no continente europeu, a maior parte desses comentários estão relacionados aos pobres ou miseráveis. Portanto, por muitos séculos, também no Brasil as pessoas com deficiência foram marginalizadas, negligenciadas e levadas à categoria de miseráveis.

As questões que envolvem as pessoas com deficiência no Brasil – por exemplo, mecanismos de exclusão, políticas de assistencialismo, caridade, inferioridade, oportunismo, dentre outras – foram construídas culturalmente (Figueira, 2008, p.17. citado por GARCIA 2011).

3.2. População Indígena

Relatos históricos dão conta de práticas e costumes indígenas que provocaram a total eliminação de crianças com deficiência ou exclusão daquelas que adquirissem algum tipo de deficiência ao longo dos anos.

Tal conduta não difere daquelas adotadas por alguns povos medievais onde a deficiência era vista como um mau sinal, castigo dos deuses segundo as crenças desses povos.

Essas crendices e superstições continuaram a acompanhar a história das pessoas com deficiência no país. Assim como o povo indígena, os “negro-feiticeiros” também acreditavam que o nascimento de uma criança com deficiência era um castigo ou punição dos deuses.

3.3. Os Negros Escravos

Longe de ser um mal mandado por deuses, a deficiência física ou sensorial nos negros escravos foi causada, muitas vezes, pelos severos castigos físicos aos quais eram submetidos. A forma como se dava o tráfico negreiro, em embarcações superlotadas e em condições, muitas vezes, desumanas, já significavam alto risco de propagação de doenças incapacitantes, que deixavam sérias sequelas e até causavam a morte de um grande número de escravos.

3.4. Século XIX para a pessoa com deficiência

No século XIX, a questão da deficiência surge de maneira mais recorrente devido aos conflitos militares em que o Brasil se envolveu e que deixaram muitos militares com variados tipos de incapacidade física e sensorial. Foi então inaugurado no Rio de Janeiro, em 29 de julho de 1868, o “Asilo dos Inválidos da Pátria”, onde

seriam recolhidos e tratados os soldados na velhice ou os mutilados de guerra, além de ministrar a educação aos órfãos e filhos de militares (Figueira, 2008, p. 63. citado por GARCIA, 2011).

Apesar da intenção de cunho humanitário, a história registra um quadro de precariedade severa no funcionamento dessa instituição, mesmo assim, e talvez com alguma melhoria, o “Asilo Inválidos da Pátria” continuou com as atividades por 107 anos, sendo fechado somente em 1976.

O avanço da medicina no século XX representou uma atenção maior em relação aos deficientes. Havia uma clara associação entre deficiência e a área médica com a criação de hospitais-escolas, que funcionam até hoje, para a reabilitação e tratamento das pessoas com deficiência. Ainda no inicio do século XIX, com a criação do Imperial Instituto dos Meninos Cegos (1854), era explicita a relação entre doença e deficiência, que permanece até hoje (onde pesa a luta do movimento organizado pelas pessoas com deficiência a partir de 1981 pelo chamado “modelo social” para tratar dessa questão, em contra partida ao modelo médico-clínico).

O grau de desconhecimento da sociedade sobre as deficiências e suas potencialidades, no entanto, permaneceu alto pelo menos até a primeira metade do século XX, o que se registra pela grande quantidade de deficientes mentais tratados como doentes mentais.

3.5. Lei de Cotas e mercado de trabalho

A lei 8.213/91, conhecida como lei das cotas de deficientes, conseguiu aumentar a participação de pessoas com deficiências no mercado de trabalho, todavia, esta participação ainda é tímida, apenas cerca de 4,6% das vagas encontram-se ocupadas
E não é só a lei 8.213/91 que busca a diminuição dos tratamentos discriminatórios às pessoas deficientes no mercado de trabalho, hoje no Brasil existem normas constitucionais tratando do tema, entre elas podemos elencar o artigo 7º, inciso XXXI que garante proibição de desigualdade salarial quanto ao trabalhador com deficiência.

Observa-se que passados mais de 20 anos de vigência da lei 8.213/91, muitos empregadores ainda sofrem autuação pelo Ministério Público do Trabalho por não preencherem o mínimo necessário de contratação de pessoal com deficiência e os trabalhadores com deficiência, por outro lado, não têm suas formações levadas em conta na hora de uma contratação.

A Lei de Cotas não vem sendo usado pelos empregadores como deveria, em muitos casos as empresas contratam o trabalhador para alcançar a quantidade exigida de pessoas com deficiência numa empresa, mas não direcionam o empregado para a sua função de formação.

3.6. Políticas Nacional de Atenção à Saúde da Pessoa com Deficiência

Essa política é voltada para a inclusão das pessoas com deficiência em toda a rede de serviços do Sistema Único de Saúde (SUS), caracteriza-se por reconhecer a necessidade de implementar o processo de respostas às complexas questões que envolvem a atenção à saúde das pessoas com deficiência no Brasil.

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Entre as diretrizes dessa política pública está a “Atenção Integral à Saúde”, que visa assegurar o direito da pessoa com deficiência atendimento na rede pública de saúde pelo SUS (sistema único de saúde), desde os Postos de Saúde e Unidades de Saúde da Família até os serviços de reabilitação e hospitais,

Mas, o que se vê atualmente no sistema público de saúde brasileiro é uma alta incidência de negligência principalmente em relação à saúde da mulher com deficiência. Há muita reclamação por parte do público feminino com deficiência em relação à ausência de aparelhos acessíveis para a realização de exames importantes para a prevenção de doenças que atingem a saúde da mulher como também a ausência de tradutores de libras.

3.7. Convenção dos direitos das pessoas com deficiência

A trajetória de quando a pessoa com deficiência era segregada começa a ter fim no ano de 1981, declarado pela ONU como o Ano Internacional da Pessoa Deficiente (AIPD).

A partir daquele ano, o grupo de pessoas com deficiência passou a ter uma postura mais política pelos seus próprios direitos, tendo consciência de si e consequentemente passou a ser notado socialmente, atingindo importantes objetivos ao longo dos anos de militância percorridos até o momento.

A palavra chave do AIPD foi mesmo a “conscientização”, em vista as muitas manifestações para alertar sobre a própria existência e contra a invisibilidade dessas pessoas no meio social.

Esse movimento atinge a legalização da Convenção sobre os Direitos das pessoas com Deficiência (CDPD) pelo Brasil, dando-lhe status de emenda constitucional. A participação ativa dos deficientes na elaboração da Convenção foi fruto de grande fortalecimento desse grupo populacional que sobreviveu e passou a exigir os seus direitos políticos, sociais e econômicos.

3.8. Início do movimento Feminista no mundo e no Brasil

O documentário She Is Beautiful When She’s Angry” (2014), mostra o início da luta das mulheres nos Estados Unidos (EUA) pelo direito ao trabalho, educação, pelo direito ao corpo e por melhores salários, contudo como em tudo o que se refere ao Movimento Feminista, as mulheres com deficiência não são citadas durante todo o filme.

No Brasil, o Movimento Feminista tem início na época da ditadura militar, como citado por Cyntia A. Sarti no artigo “O início do feminismo sob a ditadura no Brasil: o que ficou escondido”

O feminismo no Brasil surge como consequência da resistência das mulheres à ditadura militar, depois da derrota da luta armada e no sentido da elaboração política e pessoal desta derrota (SARTI,1998).

A presença da mulher na luta contra a ditadura militar significava não apenas se levantar contra a ordem política vigente, mas também uma profunda rebeldia com o que era designado à época para a mulher. Sem uma proposta feminista definida, as militantes se opunham ao lugar tradicionalmente atribuído à mulher ao assumirem um comportamento sexual que colocavam em questão a virgindade e a instituição do casamento, “comportando-se como homens”, pegando em armas com êxito.

Entre os dois períodos ditatoriais vividos pelo Brasil, algumas conquistas se destacam, como: a criação da Fundação das Mulheres do Brasil, aprovação da lei do divórcio, e a criação do Movimento Feminino Pela Anistia no ano de 1975, considerado como o Ano Internacional da Mulher, realizando debates sobre a condição da mulher. Nos anos 80 foi criado o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, que passaria a Secretaria de Estado dos Direitos da Mulher, e passou a ter status ministerial como Secretaria de Política para as Mulheres.

A partir da década de 60, o movimento incorporou questões que necessitam melhoramento até os dias de hoje, entre elas o acesso a métodos contraceptivos, saúde preventiva, igualdade entre homens e mulheres, proteção à mulher contra a violência doméstica, equiparação salarial, apoio em casos de assédio, entre tantos outros temas pertinentes à condição da mulher.

3.9. Vertentes do Feminismo

O feminismo ganhou força no Brasil durante o período da ditadura militar, hoje o movimento feminista está mais amplo e se dividiu em várias vertentes dentro de um mesmo movimento.

O feminismo radical nasceu entre os anos 60 e 70, a partir de obras de Shulamith Firestone e Judith Brown. Essa vertente é contra a pornografia e a prostituição. Na visão desse grupo, essas situações exploram o corpo feminino e também existe a problematização da moda e maquiagem.

O feminismo liberal busca assegurar a igualdade entre homens e mulheres na sociedade por meio de reformas políticas legais.

As feministas liberais acreditam que as mulheres podem vencer a desigualdade social, política e econômica gradativamente através de leis mais justas e com cada vez mais representatividade política e social.

O fenômeno Beyoncé e a campanha “#HeForShe”, liderada pela atriz Emma Watson, que visa incorporar os homens à luta por igualdade, são exemplos de feminismo liberal.

O feminismo negro chegou ao Brasil nos anos de 1980, coincidentemente com o fortalecimento do movimento negro no país.

Essa vertente surge a partir da ideia que a mulher negra, por sofrer de dupla opressão, não é representada no movimento feminista. O feminismo negro aborda pautas que geralmente não são debatidas em “outros feminismos”, como a intolerância religiosa, a valorização das religiões de matrizes africanas e a violência contra a juventude negra, no caso do movimento no Brasil.

Audre Lorde, Suely Carneiro e Angela Day são algumas das formuladoras desta corrente do feminismo.

O feminismo interseccional busca contemplar todas as mulheres e conciliar as demandas de gênero com as de outras minorias, considerando classe social, religião, orientação sexual, raça e, teoricamente, a deficiência. Teoricamente, porque com tantas demandas, muitas vezes as mulheres com deficiência acabam silenciadas, mesmo que as outras minorias não percebam, por todas as demandas existentes nessa vertente.

3.10. Movimento Feminista e a mulher com deficiência

Trazendo a discussão de deficiência para a convergência com o gênero, é perceptível que dentro do grupo das pessoas com deficiência estão as mulheres, duplamente atingidas pelos estereótipos e práticas que as discriminam por causa do gênero e da deficiência. Essa junção discriminatória gera uma série de barreiras atitudinais, onde são impostas ideias como: não podem trabalhar, não podem cuidar da casa, são impedidas de vivenciar experiências sexuais e de maternidade, enfrentam dificuldades maiores do que qualquer outra mulher para ingressar no ensino básico, no ensino superior e posteriormente no mercado de trabalho, e quando conseguem serem inseridas no mercado de trabalho essas mulheres são remuneradas de forma incompatível com suas formações profissionais, chegando a receber menos do que uma mulher sem nenhum tipo de deficiência.

Essas opiniões apoiadas em caracterizações de gênero e dos impedimentos ocasionados pela situação de deficiência comprometem o contexto social da vida das mulheres deficientes, fazendo-as se sentirem afastadas e esquecidas perante o olhar julgador da sociedade.

Assim sendo, as mulheres com deficiência têm necessidades iguais às que não convivem com limitações físicas ou sensoriais e, portanto, deveriam estar mais representadas no movimento feminista contemporâneo. Afinal, foram as feministas que começaram a debater sobre a aceitação do corpo feminino em suas mais variadas formas, isso deve incluir até mesmo, e principalmente, a mulher com deficiência, dada toda a sua vulnerabilidade e a dificuldade que essa mulher tem de se encaixar no que é imposto pela sociedade a respeito de um corpo feminino perfeito.

Nesse sentido é imprescindível que a mulher com deficiência seja incluída nesse espaço de luta social que busca a quebra desses paradigmas que atingem todas as mulheres, e a mulher deficiente com muito mais força.

Com o avanço das diversas formas de informação é inegável que esteja acontecendo alguns avanços em relação aos direitos das mulheres com deficiência, como relatam dados das Nações Unidas:

Na condição de indivíduos, estão começando a compartilhar oportunidades iguais com homens na mesma situação que eles [...] estão se fortalecendo e conscientes de seu papel social enquanto mulheres. No que se refere à maternidade, cada dia muito mais mulheres com todos os tipos de deficiências estão experienciando a maternidade
(Nações Unidas, 2008, p.1 citado por de ALMEIDA).

No entanto ainda há muito que melhorar em todos os ambitos para a mulher deficiente para alcançar o que diz o artigo 6° da Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, ratificada no Brasil pelo decreto n. 6.949/2009,

  1. Os Estados Partes reconhecem que as mulheres e meninas com deficiência estão sujeitas a múltiplas formas de descriminação e, portanto, tomarão medidas para assegurar às mulheres e meninas com deficiência o pleno e igual exercício de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais

  2. Os Estados Partes tomarão todas as medidas apropriadas para assegurar o pleno desenvolvimento, o avanço e o empoderamento das mulheres, a fim de garantir-lhes o exercício e o gozo dos direitos humanos e liberdades fundamentais estabelecidos na presente Convenção (BRASIL,2009 citado por DE ALMEIDA).

Diante de toda a vulnerabilidade e a busca necessária de empoderamento da mulher com deficiência se faz necessária a inclusão dessa mulher no movimento feminista, pois tal movimento tem em sua filosofia os mesmos objetivos de empoderamento feminino e igualdade social, política e econômica.

3.11.  Maria da Penha: símbolo da mulher com deficiência

Quando se fala em violência contra a mulher no Brasil, lembramos rapidamente da figura emblemática de Maria da Penha Maia Fernandes, a Maria da Penha, que dá nome à lei n°11.340, de 7 de agosto de 2006, que visa proteger as mulheres da violência sofrida por essa parte da população brasileira.

Maria da Penha sofria agressões constantes do ex-marido e em decorrência disso teve sequelas graves que ocasionaram uma deficiência física, deixando-a numa cadeira de rodas.

Mesmo sendo um símbolo da luta do movimento feminista contemporâneo no Brasil, o fato de Maria da Penha ser, por causa da violência sofrida, uma mulher com deficiência não é devidamente reconhecido pelo movimento feminista, isso acaba de certa forma, colaborando para o silenciamento da mulher com deficiência no movimento feminista e por consequência, muitas vezes, na sociedade.

A Lei Maria da Penha veio também para auxiliar e proteger a mulher deficiente, a mais vulnerável também em relação à violência doméstica, praticada geralmente por parentes próximos e/ou cuidadores.

3.12. Série de reportagem

É uma sequência periódica de reportagens veiculadas em jornais escritos ou televisivos que trata de um assunto em particular durante determinado intervalo de tempo, que pode ser diário, semanal ou mensal.

Jornal - É um meio de comunicação impressa e tem como característica: o uso de "papel de imprensa" - mais barato e de menor qualidade que os utilizados pelas revistas -, as folhas geralmente não são grampeadas, os jornais mais importantes possuem periodicidade diária.

4. METODOLOGIA

4.1. Delineamento da pesquisa

Este trabalho visa fazer uma pesquisa exploratória com mulheres com deficiência e coletivos feministas com o objetivo de buscar uma resposta para a falta de representatividade e inclusão da mulher com deficiência no movimento feminista.

4.2. Universo da pesquisa

Mulheres com deficiência e páginas de coletivos feministas nas redes sociais.

4.3. Procedimentos de coleta e análise de dados

Entrevista jornalística com mulheres com qualquer tipo de deficiência para saber sobre as pautas que elas têm para colocar em discussão nos movimentos feministas e porque precisam ser ouvidas por outras mulheres que já estão inseridas nele.

4.4. Estrutura e composição do produto

Grande reportagem, num suplemento de seis páginas diagramadas e impressas, abordando temas como:

  • Mercado de trabalho

  • Sexualidade

  • Direitos da mulher com deficiência

  • Violência contra a mulher

4.5. Limites e limitações da pesquisaI

A pesquisa tem como objetivo explorar apenas e especificamente o motivo das mulheres com deficiência não estarem incluídas no movimento feminista.

A pesquisa só obteve resposta de um coletivo feminista e dezoito mulheres com deficiências diferentes até o presente momento.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A pesquisa realizada confirmou a hipótese sobre a invisibilidade das mulheres com deficiência no movimento feminista e constatou que isso se deve à falta de inclusão dessa parcela da população na sociedade.

O estudo mostrou que é importante, para o aperfeiçoamento dos movimentos sociais e para uma sociedade mais justa e inclusiva, ouvir essas mulheres que são um dos grupos mais vulneráveis socialmente, pelo gênero e pela situação de deficiência.

O distanciamento das causas sociais, especialmente da deficiência, é fruto da indiferença da mídia e da sociedade. Por muito tempo essa parcela da sociedade foi marginalizada, tinha que esperar que as outras pessoas fizessem tudo por elas, inclusive ser a voz de suas lutas por direitos. Foram convencidas que não podiam participar ativamente do convívio social, muito menos levantar a voz em movimentos de luta por direitos, como é o caso do movimento feminista. É exatamente por essa postura passiva, cheia de um preconceito histórico da sociedade que temas que vão além da acessibilidade, como a luta das mulheres com algum tipo de deficiência por direitos igualitários, não são postos em discussão pelos meios de comunicação.

6. REFÊRENCIAS

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Sejamos todos feministas, 2014.

As pessoas com deficiência na história do Brasil. GARCIA, Vinicius Gaspar disponível em < http://www.bengalalegal.com/pcd-brasil > acessado em Maio de 2017.

A. SARTI, Cynthia O início do feminismo sob a ditadura no Brasil: o que ficou escondido. In XXI Congresso Internacional da LASA (Latin American Studies Association), The Palmer House Hilton Hotel, Chicago, Illinois, 24-26 de setembro de 1998. Universidade Federal de São Paulo, Brasil<http://lasa.international.pitt.edu/LASA98/Sarti.pdf> acessado em Maio de 2017. p 3.

BRASIL. Secretária de Direitos Humanos. Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência. Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. – Decreto Legislativo nº 186/2008 – Decreto nº 6.949/2009. 4a Edição Revista e Atualizada Brasília 2012.

DE ALMEIDA, Haynara Jocely Lima. Vulnerabilidade de mulheres com deficiência que sofrem violência. 2012. 55f. Monografia (Bacharelado em Ciências Sociais). Universidade de Brasília - UNB. Instituto de Ciências Humanas, Departamento de Serviço Social.

DE ALMEIDA, Welita Gomes. GÊNERO E DEFICIÊNCIA: A EXCLUSÃO SOCIAL DE MULHERES DEFICIENTES. In II Seminário Nacional de Gêneros e Práticas Culturais. Culturas, leituras e representações, 2009, Paraíba. Universidade Federal da Paraíba – UFPB.

DINIZ, Debora. Modelo Social Da Deficiência: a crítica feminista. In VII Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, em julho de 2003, Brasília. Universidade de Brasília- UNB.

DE ALMEIDA, Haynara Jocely Lima. Vulnerabilidade de mulheres com deficiência que sofrem violência. 2012. 55f. Monografia (Bacharelado em Ciências Sociais). Universidade de Brasília - UNB. Instituto de Ciências Humanas, Departamento de Serviço Social.

SOUZA, Jorge Pedro. Elementos de Jornalismo Impresso, Porto 2001.

DORE, Mary. KENNEDY, Nancy. She’s beautiful when she’s angry, Salt Lake City, 2014.

Sarah Gavron. As Sufragistas, 2015.


Publicado por: Natália Rosa

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