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A INFLUÊNCIA DA TECNOLOGIA NO COMPORTAMENTO DOS INDIVÍDUOS ATRAVÉS DO USO DO SMARTPHONE

Computação

Estudo sobre a influência das novas tecnologias no comportamento dos indivíduos, em especial a tecnologia da comunicação, através do uso do smartphone.

índice

1.   RESUMO

A pesquisa realizada para este trabalho, de conclusão de curso, trata sobre a influencia das novas tecnologias no comportamento dos indivíduos, em especial a tecnologia da comunicação, através do uso do smartphone. Para a compreensão das mudanças sociais é fundamental entendermos como ocorrem às relações sociais entre indivíduos e o uso do smartphone. Segundo, os autores estudados para a elaboração desse texto, o conflito é inerente à sociedade e ao comportamento do indivíduo. Sendo que a questão conflituosa induz a busca de soluções, propiciando o desenvolvimento socioeconômico e tecnológico, gerando mudanças. Para estes autores, as instituições formais, que normatizam e balizam o comportamento dos indivíduos, perderam sua autoridade e eficácia. Os conceitos e categorias do racionalismo científico não mais permitem, por si só, a análise e compreensão do comportamento do indivíduo, inserido em um todo que exerce influência de diversas formas no seu comportamento, porém sem determiná-lo. Os autores entendem que as novas tecnologias exercem substancial influência sobre o comportamento dos indivíduos. Quando a cultura e os conceitos morais são modificados, ocorrem mudanças profundas nas instituições e sociedade.

Palavras-chave: relações sociais; smartphone; desenvolvimento; tecnologia.

ABSTRACT

The research carried out for this work, at the end of the course, deals with new technologies and their influence on the behavior of individuals, especially communication technology, through the use of smartphones. In order to understand social changes, it is essential to understand how social relations between individuals and the use of smartphones occur. Second, the authors studied for the elaboration of this text, the conflict is inherent to society and to the individual's behavior. Since the conflictual issue induces the search for solutions, promoting socioeconomic and technological development, generating changes. For these authors, formal institutions, which regulate and guide the behavior of individuals, have lost their authority and effectiveness. The concepts and categories of scientific rationalism no longer allow, by themselves, the analysis and understanding of the individual's behavior, inserted in a whole that exerts influence in different ways on his behavior, but without determining it. The authors understand that new technologies have a substantial influence on the behavior of individuals. When culture and moral concepts are changed, profound changes occur in institutions and society.

Keywords: social relations; smartphone; development; technology.

2. INTRODUÇÃO

Não é uma tarefa fácil escrever sobre o desenvolvimento tecnológico e a influência das novas tecnologias da comunicação nos conflitos que ocorrem nas relações sociais. Busco compreender as possíveis consequências do uso das tecnologias, no comportamento dos indivíduos na sociedade, em um momento de ocorrências incomuns por que passa a humanidade e especialmente o Brasil.

Esse trabalho não tem a pretensão de estudar o uso das tecnologias de comunicação em si e sim estudar qual a influência das informações e das interações disponibilizadas no mundo digital na acentuação do comportamento conflituoso dos indivíduos em suas relações sociais, na atualidade. Para tanto, foram estudados autores que discutem o conflito no comportamento dos indivíduos; as consequências do desenvolvimento tecnológico e econômico no comportamento dos indivíduos e na composição da sociedade, e a influência das tecnologias da comunicação exercida sobre o comportamento dos indivíduos, através do mundo virtual. Considero assim, necessária a realização de uma pesquisa para validar o pressuposto, com o objetivo de evidenciar empiricamente a influência dos dados e informações sobre as relações sociais dos indivíduos, quando este acessa a internet majoritariamente o smartphone.

Então a pesquisa, realizada e apresentada neste trabalho, visa constatar empiricamente como o individuo sente-se em relação uso da internet e do smartphone e como os percebe ao se conectar ao mundo digital. Não existe nessa pesquisa o interesse de estudar o uso do smartphone em si, sua tecnologia ou composição e muito menos como são utilizados os algoritmos ou qualquer outro dado técnico disponível sobre o smartphone e a internet. Sendo assim o leitor vai encontrar, no texto, uma apresentação do estudo sobre o comportamento humano e as influências exercidas por rápidas mudanças que estão ocorrendo no meio social em função do desenvolvimento tecnológico e econômico, que pressionam para que ocorram alterações culturais e morais na sociedade. É preciso para a compreensão das mudanças que, o individuo esteja receptivo a novidade e tenha uma percepção para além do que estamos condicionados e moldados a compreender.

No período em que escrevo, ocorre uma pandemia causada pelo vírus COVID-19, ao mesmo tempo em que são eleitos políticos conservadores ou reacionários dividindo e polarizando o pensamento e comportamento dos indivíduos em todos os segmentos da sociedade, da política à religião.

Podemos observar e constatar a importância fundamental da utilização das novas tecnologias da comunicação no resultado das eleições para presidente do Brasil no ano de 2018.  Quando informações e propagadas publicadas na internet, através das diversas plataformas de comunicação, viabilizaram a eleição de um político sem expressão nacional, sem a base de apoio em um partido consolidado e pouco trabalho realizado. As interações no mundo virtual propiciaram que as pessoas expusessem ideias divergentes de uma forma extremada, sem tolerância e equilíbrio nas discussões, levando o país a estagnação. Esse fenômeno ocorreu nos EUA, no Brasil, entre outros países. Além disso, estas mesmas tecnologias agiram, tanto para o bem quanto para o mal, na divulgação das ações de controle da pandemia da COVID-19.

Governantes, principalmente através de plataformas de comunicação na internet, negam as autoridades científicas, conceitos e instituições há muito estabelecidos e reconhecidos, sem terem nenhum respaldo em um parecer cientificamente validado, que corrobora na defesa da opinião apresentada. Baseando-se em pressupostos inconsistentes, negam a ciência na defesa do que acham ser o mais plausível ou dando ênfase em propaganda na busca de consolidarem apoio aos seus devaneios inconsequentes e irresponsáveis, junto a um público desnorteado.

Em vista dessa situação, entendo que seja oportuno estudar qual a importância do uso do smartphone, que é o meio utilizado para interagir na internet, recebendo e transmitindo informações, como meio do acirramento dos conflitos, no comportamento dos indivíduos, que levam as pessoas a se posicionarem nos extremos ao realizarem um debate seja qual for o tema. O estudo busca saber se a causa desta problemática pode ser o desenvolvimento acelerado, onde o mundo passa por mudanças acentuadas, em função do desenvolvimento tecnológico e científico, não ocorrendo o mesmo no comportamento social. Ou que, conceitos ambíguos, são divulgados e assimilados pelo senso comum como se fossem verdadeiros, independente da sua origem, não sendo necessária a certificação e a validação de uma instituição científica, pois estas não detêm mais autoridade reconhecidamente irrefutável.

Portanto o estudo para a compreensão do uso do smartphone e sua colaboração para o acirramento do conflito e sua influência no comportamento dos indivíduos e na sociedade, é necessário para o entendimento das causas dos fenômenos sociais, bem como é necessário o entendimento da capacidade do individuo de fazer escolhas e promover o desenvolvimento.

Para os autores estudados, o descrédito e a decadência das instituições ocorrem em todo o mundo, onde governantes progressistas são rejeitados e governantes retrógrados, reacionários ou mesmo conservadores, com um apelo ditatorial, sem tolerância, moderação e equilíbrio em sua conduta são eleitos. Isto acarreta o desrespeito aos direitos individuais, pleiteando a alterações nas relações de poder entre as instituições estabelecidas e desestabilizando-as em suas prerrogativas constitucionais.

O descrédito das instituições pode estar relacionado ao desenvolvimento tecnológico e sua influência no comportamento do indivíduo. Quando as novas tecnologias são usadas na educação, na saúde, na segurança, nas diversas formas de trabalho, no lazer, na coleta e análise de dados, na realização de pesquisas, possibilitam que os indivíduos, mesmo fisicamente distantes, questionem e contestem, através do smartphone e individualmente, o posicionamento de uma autoridade ou instituição; em tempo real, via internet, com argumentação imprópria e sem embasamento científico, pressionam as instituições e quebram as hierarquias, enfraquecendo as instituições.

Então, é necessário confirmar se o pressuposto apresentado é válido, se existem mesmo extremos conflitantes nas relações sociais, se existe uma deterioração das instituições, qual a influência da utilização do smartphone no comportamento dos indivíduos e como tudo isso se reflete no todo ao qual o indivíduo está inserido. Saber se a causa pode ser a influência do desenvolvimento tecnológico, em especial das tecnologias da comunicação e das informações transmitidas via internet nas interações realizadas no mundo digital.

É necessário, para a compreensão dos conflitos sociais, suas causas e consequências, a leitura de autores de diversas matizes de pensamento, que apresentam percepções diferentes ou complementares no entendimento do que ocorre nas relações sociais. Sendo assim na busca de um melhor entendimento sobre o conflito, a leitura sobre o que autores como John Stuart Mill, Georg Simmel, Anthony Giddens e Zygmunt Bauman escrevem e pensam sobre o tema foi de fundamental importância.

Giddens (1999) diz que o conflito é inerente ao convívio social e Bauman (2011) que as relações sociais são líquidas em razão da superficialidade e rapidez com que ocorrem na atualidade, atendendo principalmente o desejo individual, sem um compromisso duradouro com o outro, fomentando o conflito. Assunto ao qual Simmel (1983) fala que, o conflito é uma sociação, pois representa uma interação entre indivíduos, sendo que o conflito é que propiciará as soluções das divergências; e para Stuart Mill (2017) a divergência só será resolvida quando houver tolerância dos envolvidos na busca da solução da questão conflituosa.

Segundo os autores, as relações sociais geram conflitos, porém esses conflitos necessariamente não seriam entrave ao desenvolvimento de uma sociedade. Ao contrário, ele poderia promover e alavancar o desenvolvimento, desde que, os indivíduos envolvidos na disputa da questão, realizem discussões com equilíbrio, moderação e tolerância, buscando soluções adequadas para o conflito e não se empenhado, prioritariamente, em defender seus pontos de vista polarizados, que inviabiliza qualquer possibilidade de consenso.

Talvez o que esteja ocorrendo seja consequência da maior capacidade de criação e de divulgação das informações, através do uso das novas tecnologias da comunicação, em tempo real, como pensa Lévy (1999). Já Bauman (2011) entende que nem sempre o indivíduo estará devidamente capacitado para compreender e absorver tamanha carga de dados disponibilizados, podendo assim gerar maior conflito ao não compreender corretamente a informação ou pior, ser induzido a compreender a informação conforme o interesse do outro.

Entendendo o conflito como inerente ao convívio social, é preciso compreender as possíveis causas do agravamento do conflito e a polarização de ideias, nas discussões e percepção sobre o comportamento e relações sociais do ser humano. A leitura de autores como Bruno Latour, Francis Fukuyama e Ulrich Beck permite uma visão ampla das possibilidades de entendimento das possíveis causas dos fenômenos sociais contemporâneos.

A visão particular de cada autor sobre o comportamento dos indivíduos no convívio social é ímpar. Passa tanto pela ideia de falta de conceitos e categorias para a percepção e compreensão de todos os fatores envolvidos nas relações humanas, quanto pela percepção do enfraquecimento das instituições e suas regulamentações, principalmente a família e o desrespeito aos limites naturais do meio ambiente, levando a uma crise climática. Para Fukuyama (2000) existe uma ruptura com as normas e conceitos impostos. Já para Beck (2018) o mundo está em uma transformação profunda, na verdade uma metamorfose onde as medidas acertadas só serão tomadas a partir da percepção dos erros cometidos ao não se perceber e evitar a crise climática global. Porém, para Latour (1994), o que falta é a compreensão da influência da totalidade, em que a humanidade está inserida no comportamento dos indivíduos.

Os autores têm a percepção em comum de que o desenvolvimento tecnológico e especialmente, o desenvolvimento da tecnologia na comunicação, aqui representada pelo smartphone, levam ao aumento do conflito em virtude do relativismo individualizado, onde “eu” escolho, defino a minha realidade, ou seja, o que é a verdade, o que é bom, segundo o “meu” entendimento. Para tanto o uso de novas tecnologias, principalmente o smartphone é de fundamental importância, sendo necessário um estudo mais aprofundado sobre isso.

Pode se observar a existência da influência do uso das novas tecnologias no comportamento social dos indivíduos, especialmente na utilização de aparelho de comunicação móvel, o smartphone, que na atualidade, substitui o relógio, a máquina fotográfica, a agenda, o televisor, os mapas, os livros, os rastreadores e até lanterna, transmitindo em tempo real, em quase todos os lugares do mundo, a mensagem, o fato, a ação e reação, em redes sociais, em grupos de mensagens ou em mensagens privadas. Podendo se dizer que não existe mais privacidade garantida.

Sobre, o uso das novas tecnologias da comunicação e as consequências do uso destas no comportamento dos indivíduos e na sociedade, foi realizada a leitura de livros dos autores Pierre Lévy e Manuel Castells. Castells (2013) pensa que, agora todos estão conectados, sendo a rede uma realidade na vida cotidiana em todas as partes do planeta, ligando instantaneamente, pessoas, empresas, culturas e os meios de comunicação. Estamos em uma sociedade digital e temos que reavaliar os conceitos existentes, pois estamos em outro contexto. Já Lévy (1999) entende que a gestão dos interesses pessoais é algo que existe antes das ferramentas digitais. É necessário que exista uma disciplina na utilização destas, pois a sobrecarga de informações não ocorre somente no meio digital, em uma biblioteca existe uma quantidade de livros e variedades de temas que deixariam o indivíduo atordoado se não soubesse sobre qual tema deseja obter conhecimento e informação. É preciso ter foco e responsabilidade, assumindo compromisso consigo, em escolher o livro pertinente ao tema que deseja aprimorar o conhecimento.

Vislumbra-se uma grande influência do desenvolvimento tecnológico, na vida humana, na leitura de textos do autor Klaus Schwab (2016), que apresenta a possibilidade de significativa mudança no comportamento, convívio social e relações de trabalho, onde devem ocorrer dilemas e oportunidades, sendo que a inovação tecnológica deve servir prioritariamente às pessoas e ao desenvolvimento da humanidade.

Para obter informações objetivas e empíricas sobre a influência das novas tecnologias e do mundo digital no comportamento dos indivíduos, em especial à dependência e influência do smartphone nas relações sociais, e também, como são recebidas e percebidas as informações publicadas no mundo digital, via internet, realizei uma pesquisa online, com o envio de 5.000 formulários de pesquisa, em diversas plataformas, buscando um esclarecimento sobre a questão apresentada. Os dados referentes à pesquisa serão apresentados e analisados em seguida.

3. CONJUNTURA

Vivenciamos momentos totalmente anormais, no sentido de que a normalidade seja viver em uma sociedade em que ocorra um relacionamento tolerante e equilibrado sem embates graves e comprometedores, não é isso que ocorre na sociedade brasileira e em várias outras localidades do mundo atual. Para uma devida contextualização sobre o período em que escrevo esse texto e os fenômenos que atormentam a sociedade, é interessante saber que hoje é o dia 17 de agosto de 2020, ano em que o mundo enfrenta uma pandemia do vírus COVID-19; e que até o dia 14 de agosto de 2020 já ceifou a vida de 751.154 pessoas, infectando um total de 20.730.456 pessoas em todo o mundo (OPAS/OMS, 2020). No Brasil, até o dia 17 de agosto de 2020, são 3.363.235 casos de infecção por COVI-19 confirmados e destes 108.654 pessoas foram a óbito (G1, 2020).

Além disso, foi eleito para presidente do Brasil Jair Bolsonaro um político, sem nenhuma expressão política em nível nacional, sem base e apoio de um partido político consolidado, com ideais ditatoriais, conservador na moral, reacionário nos costumes e ultraliberal na questão econômica. Coloca em risco a democracia, ao estimular o uso de armas por civis, ao questionar o direito dos outros poderes, ao colocar a opinião pública contra a imprensa e a liberdade de expressão. Sendo constantemente truculento e belicoso em suas falas, tenta desestabilizar a ordem democrática e constitucional instituída.

Como uma pessoa assim ascendeu ao cargo de presidente da República do Brasil? São várias as respostas para, que navegam, do desgosto de eleitores progressistas que se sentiram traídos por governantes anteriores, aos eleitores reacionários e conservadores que desejam manter e perpetuar suas conquistas até liberais que desejam uma mínima participação do Estado, na vida pública e privada dos indivíduos. Foi à internet o fator fundamental para que estes elementos se tornassem perspectivas possíveis através da ideia de um mito, criado no mundo digital, onde características consideradas ideais para um bom governante lhe foram atribuídas, fazendo dos eleitores descontentes em busca de mudanças, presas fáceis de serem cooptadas para se engajarem e participarem da campanha desse candidato nas redes sociais, no mundo digital, permitindo-lhe a eleição, coisa antes inconcebível.

Portanto, percebe-se que o uso das tecnologias da informação exerce grande influência no comportamento dos indivíduos, principalmente quando estes estão acéfalos e sem um norte a ser seguido. Isto tornou o conflito, que a princípio é inerente ao convívio em sociedade, em algo que devasta o equilíbrio entre as instituições constituídas, prejudicando o desenvolvimento de todos, promovendo a estagnação da nação brasileira e ferindo mortalmente a democracia. Quando não existem mais tolerância e convergência nas discussões da questão conflituosa, não mais é possível adotar medidas, criar objetos, desenvolver técnicas, tecnologias e definir conceitos que viabilizem a compreensão do fenômeno social, inviabilizando o desenvolvimento.

4. O CONFLITO NAS RELAÇÕES SOCIAIS

Não tenho nenhuma pretensão de fazer, aqui, um estudo sobre o conflito, e sim, baseado no pensamento de alguns autores, apresentar como é percebido o conflito nas relações sociais podendo ser esse o motivador de mudanças ou não. Estas mudanças possibilitam o desenvolvimento em todas as áreas do conhecimento quando existe convergência das ideias e objetivos dos indivíduos que buscam o bem estar social para todos, sendo necessário, que exista uma disposição da parte deles para que isso ocorra.

Na busca do entendimento do conflito, foi realizada a leitura de textos dos seguintes autores, Georg Simmel, Anthony Giddens e Jonathan Turner, Zygmunt Bauman e John Stuart Mill, que pensam o conflito como algo próprio das relações sociais. Faz-se necessário entender que, a falta de tolerância nas discussões das questões conflituosas, impede o desenvolvimento além de possibilitar que informações dúbias sejam criadas e transmitidas, levando o individuo a individualizar e relativizar a sua forma de perceber e agir. Em seus pensamentos e análises, os autores, entendem que o conflito pode ser causa de desenvolvimento ou estagnação da sociedade, sempre possibilitando mudanças que podem ser sociais, econômicas e tecnológicas.

Para estes autores o conflito é inerente às relações sociais dos indivíduos, que são os atores, que interagem e divergem constantemente entre si. Isso ocorre em razão de que os indivíduos possuem aptidões, capacidades, qualificações e desejos diversos, fazendo as escolhas, conforme o que lhes for mais conveniente e ao realizarem suas escolhas podem gerar conflitos, pois ao se relacionarem e defenderem seus interesses pessoais ou de grupos de indivíduos, questões divergentes surgem. As questões conflituosas devem ser contornadas em uma discussão ampla, com tolerância e equilíbrio, onde se apresente argumentação objetiva, moderada e validada, tendo como objetivo solucionar as divergências, observando as normas e conceitos básicos estabelecidos em um campo específico do conhecimento que contemple a elucidação da questão em discussão.

Para Simmel (1983), o conflito é uma sociação, pois representa uma interação entre indivíduos, sendo dissociação e causas de conflitos, o ódio, a inveja, a necessidade e o desejo. Ocorre que o próprio conflito é que propiciará as soluções das divergências. “O conflito está assim destinado a resolver dualidades divergentes;” (SIMMEL, 1983, p.122).

Segundo Simmel (1983); antecedem ao estabelecimento de uma unidade de compreensão, para o indivíduo; que não é conquistada somente com uma harmonização excessiva, pautadas por costumes, leis e instituições há que somos submetidos; que o conflito e o contraditório são uma constante na vida do indivíduo e nas relações entre indivíduos. Não existindo na realidade um grupo de indivíduo absolutamente harmonioso, todavia o conflito será oneroso para as relações sociais quando for motivado por forças interiores belicosas.

“Mas quando o conflito é determinado exclusivamente por sentimentos subjetivos, quando as energias interiores só podem ser satisfeitas através da luta, é impossível substituí-la por outros meios; o conflito tem em si mesmo seu propósito e conteúdo e por essa razão libera-se completamente da mistura com outras formas de relação. Tal luta pela luta parece ser sugerida por um certo instinto de hostilidade que às vezes se recomenda à observação psicológica.” (SIMMEL, 1983, p.134)

Para tanto, se faz necessário proporcionar soluções que viabilizem uma convivência viável dos indivíduos em grupos sociais. Giddens e Turner, na obra Teoria Social Hoje (1999) argumentam que:

“Não raro se apresenta o fato de o estudo do comportamento humano ser necessariamente uma causa litigiosa: apenas numa sociedade totalitária poderia existir um único esquema incontestável de análise da conduta social humana.” (GIDDENS e TURNER, 1999, p.10)

Segundo Giddens e Turner (1999), se assim não fosse, viveríamos em um estado de uniformidade e determinismo, em uma sociedade com regime rígido ditatorial na forma de compreender a conduta humana, sem liberdade individual. É imprescindível preservar a diversidade dos indivíduos e evitar que ocorra uma deterioração das relações sociais entre os atores, pois a discussão teórica das questões sociais está constantemente “em estado de fermentação intelectual” (GIDDENS e TURNER, 1999, p.21). Sendo que, para algumas pessoas, esse entendimento não surpreende, chegando a ser considerado inquestionável, porém existem as pessoas que entendem que esse entendimento só leva à confusão e à estagnação.

Segundo Bauman (2011), o desenvolvimento tecnológico na comunicação possibilita que uma maior quantidade de informações sejam criadas e divulgadas, utilizando para isso as plataformas existentes na internet. Sendo que nem sempre, as informações são úteis e verdadeiras, dificultando que sejam filtradas, adequadamente, as informações necessárias das que são inúteis. Esta variedade de informações pode ser percebida como algo “normal” mesmo sendo desnecessária e tirando-nos o foco da compreensão do que é pertinente para o aprendizado e desenvolvimento, possibilitando o conflito quando a informação não é verdadeira.

 “O mundo que chamo de “líquido” porque, como todos os líquidos, ele jamais se imobiliza nem conserva sua forma por muito tempo. Tudo ou quase tudo em nosso mundo está sempre em mudança: as modas que seguimos e os objetos que despertam nossa atenção (uma atenção, aliás, em constante mudança de foco, que hoje se afasta das coisas e dos acontecimentos que nos atraíam ontem, que amanhã se distanciará das coisas e acontecimentos que nos instigam hoje); as coisas que sonhamos e que tememos, aquelas que desejamos e odiamos, as que nos enchem de esperanças e as que nos enchem de aflição.” (BAUMAN, 2011, p.7)

Pensamento apropriado para definir o comportamento social dos indivíduos na atualidade, em que os atos e as relações refletem os modismos, e como uma paixão, ocorre de modo fugaz, impetuoso e inconsequente, não existindo comprometimento e responsabilidade com as consequências das ações, por parte dos atores. Não existindo tolerância e compromisso em solucionar as divergências nas discussões, sobre as causas dos conflitos sociais e suas repercussões, ocorre grande prejuízo à harmonia social.

Sobre a necessidade de haver tolerância e respeito ao outro na solução das divergências nas relações sociais, Stuart Mill (2017) compreende que os indivíduos têm a liberdade de se organizar, discutir e reivindicar qualquer coisa, desde que não acarrete dano a outros. O acirramento do conflito impede o desenvolvimento dos indivíduos, pois estes não estarão mais empenhados em criar soluções para as questões divergentes e, sim, em defender seus pontos de vista e desejos individuais, independente do que deseja o outro, sendo que nas relações sociais o indivíduo necessariamente convive e relaciona-se com o outro, devendo existir, entre estes, respeito para com os direitos alheios. Cabe observar que, a ação do indivíduo não deve transgredir a tal ponto de prejudicar o outro.

Assim, podemos perceber que o conflito e a divergência são uma constante nas relações sociais entre indivíduos, e que, o contraditório engrandece a discussão, pois várias formas de pensamento sobre uma mesma questão podem ser apresentadas, não existindo a imposição de uma única verdade frente aos questionamentos existentes.

“Para resumir a história: esse mundo, nosso mundo líquido moderno, sempre nos surpreende; o que hoje parece correto e apropriado amanhã pode muito bem se tornar fútil, fantasioso ou lamentavelmente equivocado”. (BAUMAN, 2011, p.8)

5. A CAPACIDADE DE BEM ESCOLHER DOS INDIVÍDUOS

As diversas possibilidades e opções de escolha, viabilizadas com o desenvolvimento tecnológico e a grande quantidade de informação, disponibilizadas aos indivíduos através do uso das novas tecnologias da comunicação, no mundo digital, gera um círculo vicioso onde mais conhecimento, gera mais desenvolvimento. Para Bauman (2011), esse ciclo colabora para que muitos indivíduos vivam em constante conflito, criando expectativas e ansiedades desnecessárias ou não essenciais à sua existência, fazendo-se necessário definir um foco a ser seguido. Ao definir um foco e eleger prioridades, sempre haverá perdas, as quais podem trazer, como consequência, distúrbios emocionais e psicológicos.

Ter um objetivo a ser seguido é fundamental, pois segundo Stuart Mill (2017), somente com muito esforço e determinação, o indivíduo poderá modificar seu status socioeconômico ou cultural, porém, isso dependerá prioritariamente da vontade dele e das oportunidades que lhe são proporcionadas, ou ainda, das oportunidades que são buscadas, por ele mesmo, sabendo enfrentara dificuldades para atingir seu objetivo. O indivíduo atua constantemente na busca da realização de sua vontade e daquilo que mais lhe agrada e convém. Entretanto, não é determinada ao indivíduo a obrigação de realizar o que não lhe for conveniente.

A compreensão de que a coesão social não é determinante quanto à capacidade de escolha do indivíduo, o liberta de conceitos coercitivos de uma sociedade e consequentemente, dos conflitos originados na incompreensão disso. É necessário entender que buscar soluções idealizadas e utópicas para a compreensão e solução de conflitos das relações sociais de indivíduos em sua diversidade, sem se considerar a realidade dos fatos contextualizados, é um propósito inatingível, pois os atores, como bem pensou Platão (1987) possuem desejos, qualificações e aptidões diversas. As características individuais são diversas levando ao comportamento plural, não sendo possível conceber uma solução homogênea e uniformizada, ao se considerar a diversidade de aptidões dos indivíduos.

Stuart Mill (2017) compreende que, o mesmo indivíduo que é levado a acreditar na existência de uma estrutura social extremamente coercitiva que determina a condição de vida dos indivíduos, é apresentado, também, à possibilidade da existência de uma imensa liberdade no comportamento e entendimento da diversidade das características individuais, podendo, este, exercer uma liberdade sem limites; e uma compreensão individualizada e relativizada do fato. Desconsiderando os direitos do outro e tendo como objetivo maior, uma inconsequente e irresponsável satisfação pessoal.

“A única liberdade que faz jus a esse nome é a de perseguir nosso próprio bem ao nosso próprio modo, sem tentar privar os outros do seu, ou impedir seus esforços para obtê-lo. Cada um é o guardião apropriado de sua própria saúde, seja corporal, seja mental ou espiritual. A humanidade terá mais a ganhar com mútua tolerância para que cada um viva de acordo com o que lhe parece melhor para si mesmo do que impondo a cada um que viva como parece melhor a todos os outros.” (STUART MILL, 2017, p.15/16)

Os costumes, regras e leis regulamentam o comportamento do indivíduo no meio social, porém estes têm a opção de respeitar a ordem imposta ou transgredi-la de diversas formas. Ao fazer isto, o indivíduo pode ter que arcar com as consequências, ou mesmo, promover o desenvolvimento ao apresentar, comprovadamente, uma nova forma de compreensão de um determinado fenômeno, formulando um novo conceito sobre como entender determinado fenômeno social. Assim, mudanças e o desenvolvimento ocorrem na sociedade.

Segundo Latour (1994), para uma compreensão mais ampla sobre a complexidade das relações sociais, é necessário que ao realizar pesquisas e estudos sobre os fenômenos sociais, outros conceitos e categorias sejam considerados e se necessário, desenvolvidos. Conceitos e categorias que contemplem a influência do todo, das origens humanas do indivíduo, da tecnologia e não só as do meio criado e ordenado racionalmente pelos indivíduos. Os seres humanos são, a princípio, animais biológicos com uma formação psíquica desenvolvida sem determinações, mas condicionados pelo meio socialmente construído.

No próximo capítulo, busca-se entender as causas que podem levam o comportamento social a um conflito extremo e as suas consequências. Isso ocorre na sociedade, em razão da falta de convergência nas discussões? Ou o excesso de informação, consequência das novas tecnologias da comunicação, possibilita a exacerbação do conflito? Pode ser ainda, consequência da falta de normas reguladoras a serem seguidas? Para tanto, a leitura de alguns autores ajuda na compreensão da questão apresentada. No entendimento de Fukuyama (2000), ocorreu algo maior que uma mudança na sociedade, ocorreu uma ruptura das regras e conceitos, levando à decadência e mudanças drásticas das funções das instituições constituídas, na formação e função dos indivíduos, da família e da sociedade.

Já Beck (2018), entende que a sociedade passa por uma metamorfose, uma mudança profunda e sem precedentes, no entendimento das divergências causadas pelas desigualdades socioeconômicas, agravadas com a crise climática global, que determina o sucesso ou fracasso da humanidade, sendo o desenvolvimento capitalista inconsequente, o responsável.

Enquanto Latour (1994) entende que, a caótica situação é resultado da falta de compreensão da complexidade das relações sociais, que não deveriam ser analisadas somente pelos conceitos da racionalidade. Portanto, uma análise das relações sociais só será plausível, se contemplar todas as variáveis existentes no todo ao qual estão inseridos os indivíduos, permitindo assim, perceber a influência dos objetos e máquinas nas relações sociais. Sendo que as categorias e conceitos sociais, da modernidade, não mais conseguem analisar e conceituar corretamente as causas dos fenômenos sociais contemporâneos, sendo necessário que novos conceitos e categorias sejam criados.

"Nós mesmos somos híbridos, instalados precariamente no interior das instituições científicas, meio engenheiros, meio filósofos, um terço instruídos sem que o desejássemos; optamos por descrever as tramas onde quer que estas nos levem.” (LATOUR, 1994 p.9)

6. RUPTURA, METAMORFOSE, FALTA DA COMPREENSÃO DO TODO OU SOMENTE MUDANÇAS, RAPIDAS E CONSTANTES; INCOMPREENDIDAS?         

Nos questionamentos e discussões em um estudo sobre os conflitos nas relações sociais entre os indivíduos, suas causas e suas consequências, se percebe a dificuldade para que ocorra um consenso no entendimento dos fenômenos sociais. Mesmo quando os fatos apontam uma causa evidente e, categoricamente validada, por autoridades que detenham saber reconhecido em determinada área do conhecimento. Exemplo disso é o comportamento do presidente do Brasil Jair Bolsonaro, que sempre negou a gravidade da pandemia e a alta mortalidade do COVID-19, contrariando constantemente as recomendações das instituições de saúde, como a OMS e as referências científicas mundiais sobre a prevenção contra o vírus. Consequência disso, no início de janeiro do ano de 2021, já morreram no Brasil mais de 200 mil pessoas contaminadas com o vírus da COVID-19 (SAÚDE, 2021). Além disso, esse mesmo presidente fez propaganda de um tratamento preventivo contra o vírus pelo uso de medicamentos comprovadamente ineficazes, colocando em cheque a autoridade de diversas instituições e cientistas renomados, reconhecidos mundialmente. Tendo, o Bolsonaro, o apoio e a confiança de um número considerável de brasileiros, que acreditam e o defendem, indiferentes aos fatos, à ciência e às organizações de saúde.

Portanto, na busca do entendimento dos fenômenos relacionados às relações sociais dos indivíduos, suas causas e consequências, faz-se necessária a leitura de temas como; o desenvolvimento tecnológico acelerado, principalmente na comunicação; os conflitos extremos nas relações sociais, a individualização, o relativismo sem limites, a liberdade sem responsabilidade e respeito ao outro, o desprezo pelo meio ambiente e a falta de percepção da influência do todo no comportamento do individuo. Estas são questões abordadas e discutidas pelos autores Francis Fukuyama (A Grande Ruptura, 2000), Ulrich Beck (A Metamorfose do Mundo, 2018) e Bruno Latour (Jamais Fomos Modernos, 1994), entre outros, que analisam as relações sociais entre indivíduos, na busca de compreender o comportamento destes e as causas das mudanças que ocorrem na sociedade contemporânea.

Os autores escreveram, em períodos diferentes, portanto, contextos diferentes, sobre temas que se relacionam, observando-se diferentes formas de abordagem sobre as causas e consequências das mudanças e conflitos nas relações sociais. Percebe-se que os autores realizam, de forma própria e distinta, a abordagem sobre os fenômenos sociais, porém fica evidenciado que alguns fatos abordados são comuns no entendimento das causas dos fenômenos sociais contemporâneos.

Fukuyama (2000) entende que a sociedade, principalmente a ocidental, em especial as sociedades dos Estados Unidos e da Europa, passam por uma grande mudança no comportamento social entre os indivíduos e destes com as instituições, em particular as reguladoras e normativas da vida em sociedade, pois, as instituições estão falidas e desacreditadas não conseguindo criar e gerir um ordenamento social necessário. O que possibilita a ocorrência de mudanças frequentes na forma de conduta social do indivíduo. Às vezes não é possível realizar uma interpretação adequada desse comportamento, em razão da ruptura dos costumes e das normas estabelecidas, que não conseguem mais normatizar o comportamento social do indivíduo.

Para Fukuyama (2000), a sociedade constantemente elimina regras e normas, buscando uma maior liberdade individual, portanto a convivência social será cada vez mais desorganizada, individualizada e incapaz de realizar metas e tarefas simples, pois não existe um rumo a ser seguido, um objetivo a ser atingido. Sendo assim, necessária a existência do capital social, que é um conjunto de normas informais, comuns aos indivíduos de uma sociedade que cooperam entre si, em que se espera que o outro se comporte de forma aceitável com confiança e honestidade recíproca, não permitindo a desorganização e atomização dos indivíduos.

 “O individualismo é à base da democracia moderna, mas o excesso de individualismo pode ter efeitos negativos sobre a democracia, por tornar mais difícil atingir a coesão social.” (FUKUYAMA, 2000, p.68) O desenvolvimento tecnológico modifica, constantemente, as formas de associação levando a se desconfiar das instituições sociais e de valores éticos, o que fomenta a “Grande Ruptura” que é percebida na profunda mudança de valores que ocorre em todo o mundo. Esta é caracterizada pelo rápido desenvolvimento, que contribuiu para o crescimento da criminalidade, do desajuste social e do enfraquecimento da instituição familiar. O resultado disto é a degradação da família, não sendo, esta, mais capaz de exercer uma coerção social.

Segundo Fukuyama (2000) a ordem e o capital social têm como bases de apoio a biologia, que emerge da própria natureza humana. As ciências da vida restabelecem a visão clássica de que, a natureza humana existe, torna os seres humanos criativos sociais e políticos, com grande capacidade para estabelecer regras sociais, podendo gerar, espontaneamente, soluções para problemas de cooperação social e criar capital social. É próprio da cultura, não da natureza, a definição de determinadas normas de comportamento, que são resultado da convivência tolerante e de uma discussão moderada sobre os conflitos entre os indivíduos. A ordem necessariamente não precisa ser imposta por Deus ou por legisladores.

“Assim, a mensagem do “sem limites” é problemática. Queremos romper regras que são injustas, irrelevantes ou ultrapassadas e procuramos maximizar a liberdade pessoal. Mas também necessitamos constantemente de novas regras que permitem novas formas de empreendimento cooperativo e façam que nos sintamos ligados uns aos outros em comunidades.” (FUKUYAMA, 2000, p.27)

Já para Beck (2018), a sociedade caminha para uma transformação profunda, ou seja, uma metamorfose, um novo modo de relacionamento entre os seres humanos e destes com o meio ambiente. Essa metamorfose ocorrerá quando as pessoas entenderem que cometem um erro ao não perceberem a gravidade da crise climática global existente, sendo que o capitalismo, ao ser bem sucedido, é que promove a crise global. A humanidade terá que enfrentar os “males” gerados pelo avanço do desenvolvimento capitalista, sendo estes, consequência dos efeitos colaterais, não intencionais, decorrentes do desenvolvimento inconsequente, para que assim, possa se evitar uma catástrofe globalizada.

Beck (2018) entende que, é necessário que exista uma conscientização da geração mais nova sobre a crise climática global. Caberia aos pais e as gerações mais velhas introduzirem a geração mais nova na ordem social e política existente, pois a geração mais velha da família detém uma compreensão clara de qual comportamento deve ser adotado para que as regras não sejam transgredidas, possibilitando a socialização da geração mais nova através da escola e de outras instituições.

“Um pré-requisito essencial é que os pais e a geração mais velha saibam e sejam capazes de mostrar aos jovens o caminho, o que, por sua vez, estabiliza sua legitimidade e as hierarquias existentes dentro da relação entre gerações na família e na sociedade.” (BECK, 2018, p.241)

Segundo Beck (2018), a fé na religião foi desconstruída pela crítica científica e substituída por uma visão racionalista do mundo moderno, onde o “bem” é o resultado do desenvolvimento, sem se considerar os “males” e suas consequências, ou seja, os efeitos colaterais indesejados. Contudo, a ocorrência de uma reavaliação de valores de “males” para “bens” não acontece subitamente. Não é algo imposto, de forma linear e direta. É resultado de longos conflitos com duração de muitos anos. Esses processos são marcados por fases de estagnação e retrocesso, e dependendo da trajetória, não correm de forma uniforme e simultânea, estando amarrados a diferentes contextos históricos e culturais, sofrendo influências de atores sociais e políticos nacionais e internacionais.

Para Beck (2018), as formas e comportamento de um governo democrático, da sociedade e das classes sociais estão comprometidos com o desenvolvimento e minimizam os efeitos colaterais negativos, consequência dos “males”. Ainda existe a percepção clássica que o progresso é o responsável pelo desenvolvimento ilimitado proporcionado pela tecnociência, acreditando que os recursos naturais são inesgotáveis, em um crescimento econômico infinito e na soberania do Estado-nação. Isso pode ser contestado em virtude da fragilidade e insuficiência teórica, pois é evidente a possibilidade de uma catástrofe, que é precisamente o resultado do sucesso deste desenvolvimento. “Mais que isso, o risco climático global sinaliza novas maneiras de ser, olhar, ouvir e agir no mundo – extremamente ambivalentes, indefinidas, sem nenhum resultado previsível.” (BECK, 2018, p.164)

“Essa metamorfose abrange, não intencionalmente, não ideológica, que se apodera da vida diária das pessoas, está acontecendo de maneira quase inexorável, com uma enorme aceleração que supera constantemente as possibilidades de pensamento e ação. Enquanto os conflitos em relação a revoluções nas visões de mundo duraram décadas, até séculos; enquanto os efeitos da Revolução Francesa se estenderam sobre os últimos duzentos anos (e ainda continuam) – a metamorfose do mundo ocorre em segundos, com uma velocidade verdadeiramente inconcebível; em consequência, está ultrapassando e esmagando não apenas pessoas, mas também instituições. É por isso que a metamorfose que acontece neste momento diante de nossos olhos está quase fora do alcance da conceituação da teoria social. E é por isso também que muitas pessoas agora têm a impressão de que o mundo está louco.” (BECK, 2018, p.79)

Enquanto que, para Latour (1994), existe a necessidade de se perceber o todo em que o indivíduo está inserido, sem se desconectar a natureza das coisas do contexto social. A discussão não pode ser limitada a uma destas coisas, tendo que se considerar a influência do hibridismo entre os humanos, os objetos e os não humanos. Não sendo assim, a discussão fica reduzida à retórica e à construção textual, impossibilitando o entendimento dos fenômenos sociais a partir de conceitos e categorias racionais da modernidade. É necessário a concepção de novos conceitos e paradigmas, em que não exista uma distinção entre natureza, cultura e objetos no estudo das relações sociais, permitindo assim, a percepção e compreensão de todos os fatos que compõem os fenômenos sociais contemporâneos.

Latour (1994) entende que, os conceitos e pressupostos institucionalizados não mais conseguem compreender, definir, conceituar, normatizar e ordenar as relações sociais, pois os dados dos fatos sociais apresentados não podem, agora, serem compreendidos e sistematizados, em razão da incapacidade de se entender a amplitude e facetas existentes nos relacionamentos sociais. Estes são muito mais amplos e complexos do que permite ser percebido e compreendido, quando submetidos a uma análise que utilizam os conceitos, paradigmas e categorias da modernidade, onde não se considera que os humanos se integram e interagem entre si, com os objetos e com a natureza no seu comportamento diário.

Segundo Latour (1994), as leis da natureza impediram que as pretensões mal fundamentadas dos preconceitos humanos vislumbrassem nos antigos híbridos somente misturas indevidas, que precisavam ser purificadas, “[...] separando os mecanismos naturais das paixões, dos interesses ou da ignorância dos humanos.” (LATOUR, 1994, p.40). O pensamento do passado tornou-se inadequado ou irreal. No mundo moderno, as coisas são representadas por resultados de pesquisas e análises realizadas em laboratórios e ficam dissociadas da figura do cidadão, representada pelo contrato social ou do sujeito de direito em oposição ao objeto da ciência. Os fundamentos constituídos no contrato não mais permitem compreender a outra parte.

Latour (1994) entende que, ao não realizar o estudo empírico das redes dando sentido “[...] ao trabalho de purificação que denuncia, o pós-modernismo rejeita qualquer trabalho empírico como sendo ilusório e enganador.” (LATOUR, 1994, p.50). São racionalistas decepcionados, que mesmo percebendo o fim do modernismo, continuam aceitando seus conceitos e pressupostos. Mas estão enganados, porque as ciências, que sempre estiveram ligadas aos coletivos e, a hibridação da natureza e da técnica, não possibilitam que sociedades sejam completamente homogêneas.

Latour (1994) percebe uma coexistência entre a natureza e a sociedade nas culturas “Deles”, enquanto em “Nossa cultura”, não é permitido misturá-las. É preciso a compreensão que existe uma realidade exterior a nós, da qual recebemos influência, que no entanto, não sofrem “[...] influência de nossas paixões e nossos desejos, ainda que sejamos capazes de mobilizá-la e de construí-la." (LATOUR, 1994, p.87). As relações sociais só são possíveis quando suas paixões e desejos são socializados por sua representação na estruturação da sociedade, sendo que, mesmo construída por nós, ela está além de nós. O mundo moderno parecia desencantado, esvaziado de seus mistérios, dominado pelas forças homogêneas. “Do relativismo cultural, passamos ao relativismo "natural", o primeiro levava a diversos absurdos, o segundo irá permitir que reencontremos o senso comum.” (LATOUR, 1994, p.104).

 “O relativismo absoluto supõe culturas separadas e incomensuráveis que nenhuma hierarquia seria capaz de ordenar. É inútil falar sobre ele, uma vez que ele coloca a natureza entre parênteses. No que diz respeito ao relativismo cultural, mais sutil, a natureza entra em cena, mas para existir ela não supõe nenhuma sociedade, nenhuma construção, nenhuma mobilização, nenhuma rede. Trata-se, portanto, da natureza revista e corrigida pela epistemologia, para a qual a prática científica continua fora do jogo.” (LATOUR, 1994, p.103)

7. MUDANÇAS ESTRUTURAIS NA SOCIEDADE

Observa-se nos pensamentos e pressupostos de Latour, Fukuyama e Beck, que, apesar de existir um entendimento particular e individual sobre causas que comprometeriam o desenvolvimento da humanidade, entendem que algumas causas são comuns, em suas formulações, sobre o entendimento do comportamento das pessoas no convívio social. A emancipação e empoderamento da mulher, que é a base da família, célula base das sociedades; a percepção da diversidade das características dos indivíduos e da crescente desigualdade socioeconômica, são percebidas como consequências do desenvolvimento tecnológico, especialmente o desenvolvimento das tecnologias da comunicação, que promovem mudanças sociais consideráveis; ao possibilitar acesso à educação para um maior número de pessoas, a produção de novos medicamentos, novas técnicas de tratamento na área da saúde e novas formas e condições de trabalho e lazer.

Beck (2018) entende que, as mudanças nas instituições ficaram evidentes, quando da emancipação da mulher, que era compreendido como algo contrário à natureza e a Deus, ou seja, a mulher trabalhar era algo contrário às normas e regras sociais da época. A mulher “Mãe”, ser fundamental na organização da sociedade, agora é conceituada de diferentes formas em razão das oportunidades disponibilizadas através das inovações tecnológicas, como as novas opções de técnicas de concepção e fertilização da mulher, que mudam consequentemente o conceito de “Mãe” e, também, o entendimento clássico de família.

Para Beck (2018), a metamorfose do conceito de família ocorre quando os avanços tecnológicos da medicina apresentam novas opções e formatos para uma nova composição familiar. A mãe que nos séculos XVIII e XIX era apresentada como uma figura mística e santificada na filosofia, na religião e educação, é no século XX configurada como a mãe indiferente, que negligencia os filhos, por causa do trabalho e dos estudos ou a compreensiva e amorosa dona de casa. Mesmo, sendo as mães que continuam a cuidar dos filhos, a forma de ser mãe foi modificada, alterando o relacionamento desta e de seus filhos, tendo isso refletido na composição e comportamento dos indivíduos na sociedade.

Beck (2018) entende que, a “Mãe” Terra, sofre danos que podem levar à uma catástrofe mundial, pela falta de enfrentamento ao risco climático global que é negligenciado por muitos, sendo necessária a compreensão da importância do meio ambiente para a sobrevivência da humanidade. As mudanças severas e constantes fazem com que não existam mais “certezas fixas”, havendo a necessidade de que ocorra uma metamorfose para que seja possível a compreensão da perspectiva cosmopolita do mundo, ainda centrada na nação; evitando assim o agravamento da crise global.

“A mudança põe em foco um futuro característico da modernidade, a saber, a transformação permanente, enquanto os conceitos básicos e as certezas que os sustentam permanecem constantes. A metamorfose, em contraposição, desestabiliza essas certezas da sociedade moderna. Ela desloca o foco para “estar no mundo” e “ver o mundo”, para eventos e processos não intencionais, que em geral passam despercebidos, que prevalecem além dos domínios da política e da democracia como efeitos colaterais da modernização técnica e econômica radical. Eles provocam um choque fundamental, uma alteração que rompe as constantes antropológicas de nossa existência e de nossas compreensões anteriores do mundo. Metamorfose nesse sentido significa simplesmente que o que foi impensável ontem é real e possível hoje.” (BECK, 2018, p.15)

Para Fukuyama (2000), o desenvolvimento possibilitou mudanças sociais, iniciando pelo formato e comportamento da família, quando da substituição do trabalho físico pelo intelectual, que permitiu a mulher trabalhar, alterando os costumes tradicionais e comuns que regiam o comportamento das famílias. As inovações na área de saúde, como a pílula anticoncepcional e o aumento nos anos de vida “[...] diminuíram a importância da reprodução e da família na vida das pessoas.” (FUKUYAMA, 2000, p.17).

Fukuyama (2000) pensa que, o desenvolvimento transmite o entendimento de que normas e valores informais poderiam ser substituídos por leis e regras racionais, sendo que essa forma de entendimento das relações entre pessoas, entre pessoas e instituições ou mesmo entre instituições, não é estruturada na moral, e sim baseada em um contrato, observando-se que, nos termos contratuais qualquer parte pode rompê-lo sem maiores problemas. Enquanto que em uma relação de status, existia uma ética moral e “[...] ninguém podia simplesmente deixar o relacionamento caso não o quisesse.” (FUKUYAMA, 2000, p.21). A família nuclear, com uma menor taxa de reprodução, vem perdendo seu poder de controlar e impor um comportamento ao indivíduo. Isso compromete o capital social de uma sociedade, já que a família é a fonte de formação do capital social.

Para Fukuyama (2000), o capital social é essencial para que a sociedade seja viável, porém o capital social, por si só, não garante que a sociedade seja boa, podendo ser má, se os indivíduos que a compõem entenderem que, ações que prejudiquem a outros, sejam defendidas em benefício desse grupo. Por exemplo, um grupo de radicais defendem algo que prejudica a maioria da população, porém existe um capital social inerente ao grupo que justifica a defesa entre eles. Em todo movimento cooperativo existe organização e regras que devem ser seguidas, sendo que, diminui a importância do capital social, na medida em que ocorre o desenvolvimento tecnológico, fazendo com que a estrutura administrativa das instituições encolha e as redes substituem a hierarquia. “[...] sem capital social, não poderá haver sociedade civil e que, sem sociedade civil, não poderá haver uma democracia bem-sucedida.” (Fukuyama, 2000, p.32).

Segundo Fukuyama (2000), a ordem natural e as normas impostas pelos costumes, por si só, juntas e muito menos isoladamente, conseguem criar a totalidade das leis, conceitos, categorias e pressupostos que regulamentam a ordem social. Existe a necessidade de serem complementadas por autoridade constituída e reconhecida hierarquicamente. Percebe-se que indivíduos por si mesmos conseguem se adaptar a mudanças tecnológicas e econômicas. Portanto, os seres humanos não são, somente normas homogeneizadas, mas por interesse próprio decidem o que fazer, definem seus próprios destinos, rebelando-se, inovando ou empreendendo. Os indivíduos sabem que precisam conviver, entre si, sendo necessário que exista cooperação, bem como regras e normas da comunidade a serem seguidas, que quando transgredidas, o infrator será punido pela organização hierárquica.

Fukuyama (2000) entende que, as leis e regras estabelecidas formalmente por instituições públicas ou privadas são necessárias, mas “[...] não são suficientes para garantir o sucesso de uma sociedade moderna.” (Fukuyama, 2000, p.23), pois não existe garantia de que as instituições constituídas mantenham os valores e normas culturais, pois estão sempre sob pressão das mudanças tecnológicas, econômicas e sociais, onde prevalecem o individualismo, o pluralismo e a intolerância às instituições constituídas. O contexto próprio para que ocorram mudanças profundas na sociedade, pois as normas vigentes estão constantemente pressionadas para serem substituídas por normas condizentes com o desenvolvimento socioeconômico.

Observa-se uma questão comum na forma de pensar dos autores, pois Fukuyama (2000) entende que a célula base da sociedade é a família. A emancipação da mulher, ao estudar, trabalhar e controlar a natalidade fomentou mudanças profundas nos conceitos e formas de comportamento da família e da sociedade. Beck (2018) também entende que, o empoderamento da mulher promove mudanças, inclusive na forma de concepção, ao usarem novas tecnologias para a fecundação e gestação de um ser humano, porém isso funciona conforme o interesse do capital econômico, sem considerar o risco ambiental gerado. Em ambos os casos, entende-se que ocorreu uma profunda mudança, para Fukuyama (2000) uma ruptura e para Beck (2018) uma metamorfose, em consequência do “mal”, infligido às mulheres pelas normas coercitivas da sociedade, que agora exercem e fazem valer seus direitos.

Para Fukuyama (2000), as mudanças culturais são causa da grande ruptura, quando as mudanças sociais, que evoluíam normalmente de forma extremamente lenta passam, repentinamente, a serem alteradas e a evoluir de forma rápida, tentando acompanhar as mudanças promovidas pelo desenvolvimento tecnológico. O que evidencia o aumento do individualismo e o afrouxamento da coerção social que exercia influência no modo da vida familiar, no comportamento sexual e na obediência às leis impostas, ocorre assim, o decréscimo do capital social; “[...] o racionalismo ocidental começou a solapar a si mesmo ao concluir que não havia base racional em apoio às normas universais de comportamento.” (Fukuyama, 2000, p.84).

 “Os grandes conflitos morais de nosso tempo surgiram não pela ausência da moralidade comum, mas da tendência das comunidades humanas de se definirem estritamente com base em raça, religião, etnia ou alguma outra característica arbitrária e combater outras comunidades diferentemente definidas.” (FUKUYAMA, 2000, p. 243/244)

Segundo Fukuyama (2000), a hierarquia é necessária para corrigir defeitos e limitações dos costumes, ela cria leis através de legislação. O Estado não consegue fazer com que os indivíduos sigam leis que violam os instintos ou interesses naturais. “Mas eles podem moldar normas informais e o têm feito ao longo da história.” (Fukuyama, 2000, p.245). Entende-se que existem fontes importantes, naturais e espontâneas de ordem social, isso sugere que a cultura e os valores sociais irão continuar a evoluir, de maneira a permitir que as pessoas se adaptem às condições tecnológicas e econômicas em desenvolvimento e que, esta evolução espontânea, irá interagir com a autoridade hierárquica para produzir uma ordem ampliada de cooperação humana.

Fukuyama (2000) entende que, a vida familiar não pode ser restaurada, em qualquer país desenvolvido, através de um decreto governamental. As regras culturais deverão ser desenvolvidas por indivíduos e comunidades, interagindo uns com os outros diariamente, pois as pessoas continuarão a usar suas habilidades inatas e seu raciocínio para desenvolverem regras que sirvam aos seus interesses e necessárias nas relações sociais.

“Está claro, entretanto, que o relativismo moral é um elo vital entre as constatações, aparentemente contraditórias, de confiança decrescente e sociedade civil crescente. A comunidade é baseada em valores comuns: quando mais impositivos e disseminados esses valores, mais forte a comunidade e mais alto o nível de confiança social generalizada. Mas o crescente individualismo e o desejo de maximizar a autoridade pessoal conduzem ao questionamento generalizado da autoridade, particularmente da autoridade de grandes instituições dotadas de grande poder.” (FUKUYAMA, 2000, p.101)

Para Beck (2018), não existem “certezas fixas”, as representações perderam sua certeza, sua dominância, o desenrolar das ações não estão mais centradas nas imagens do patriarcado, da raça superior, dos conflitos de religião ou entre os “super-humanos e sub-humanos.” Embora ainda ocorra em alguns lugares a exclusão de mulheres, de “escravos” e de “bárbaros”, deve ser compreendido que tudo e todos estão inseridos ao global. As pessoas estão cosmopolizadas mesmo sem viajarem de avião, mesmo sem saírem das suas cidades, estão ligadas ao mundo, porque o smartphone se tornou, (lembrando o hibridismo de Latour, 1994), um híbrido responsável por conectar as pessoas em todo o planeta Terra.

Beck (2018) entende que, as pessoas precisam se abrir para o mundo, terem pensamento e ações cosmopolizadas. Para as, pessoas, que têm a nação, a etnia ou a religião como uma verdade, seu mundo desmorona e, desesperados, tornam-se reacionários do fundamentalismo religioso e nacionalista, ficando o mundo no início do século XXI “esquizofrênico num sentido fundamental”.

“Esse nexo entre atividades além de fronteiras e além de tabus não é necessariamente um nexo de valor ou emocional, mas muitas vezes se baseia em “ignorância mútua” (barrigas de aluguel, doadores de rim e recebedores de transplante de rim). Para fazer uso deles você não precisa ter passaporte correspondente, falar a língua correspondente ou ter a identidade correspondente. Às diferenças fazem a diferença! As diferenças entre tradições culturais, as diferenças entre populações ricas e pobres, as diferenças entre sistemas legais e as diferenças na geografia constituem a nova estrutura cosmopolizada das oportunidades.” (BECK, 2018, p.26)

Segundo Beck (2018), os espaços cosmopolizados ocorrem quando, uma ação que é proibida em uma determinada nação, em outra nação é permitida, relativizando a legalidade dos valores regionalizados. Não existindo, assim, fronteiras de pensamento e ação, pois estas fronteiras são agora oportunidades para atingir seus objetivos particulares e para tanto, é preciso estar apto e qualificado. Entretanto, estamos totalmente confusos porque o que antes era impensável é realidade hoje e que, para compreender estas mudanças, que o autor chama de metamorfose, se faz necessário “[...] não apenas explorar a dissolução da realidade sociopolítica, mas focarmos novos começos, naquilo que está emergindo e nas estruturas e normas futuras.” (BECK, 2018, p.31).

Apesar de dizer, não ser otimista nem pessimista, Beck (2018) fala que a pobreza, o envenenamento, o analfabetismo e a poluição aumentam no mundo de forma ameaçadora e que o crescimento econômico global não é o desejado, sendo o mercado mundial o carrasco da humanidade e que nos levará à ruína. As instituições sociais e políticas do mundo industrializado desrespeitaram as condições naturais da humanidade e enfrentaram novos desafios.

“Em suma, metamorfose não é mudança social, não é transformação, não é evolução e não é crise. É uma maneira de mudar a natureza da existência humana. Significa a era dos efeitos colaterais. Desafia nosso modo de estar no mundo, de pensar sobre o mundo, de imaginar e fazer política. E exige uma revolução científica (tal como compreendida por Thomas Kuhn) – de “nacionalismo metodológico” para “cosmopolitismo metodológico”.” (BECK, 2018, p.36)

Beck (2018) entende que, é necessário uma reformulação profunda na forma de se conceber os problemas e soluções para a questão climática, sendo que, em uma situação de catástrofe, uma metamorfose sobre o entendimento das mudanças climáticas, beneficiaria toda a humanidade. Para tanto, é necessário o reconhecimento de que a mudança climática altera as bases de formação da sociedade, consequentemente, altera as formas de poder, de desigualdade, da insegurança, de cooperação, das certezas e da solidariedade. Cria novas formas de leis, de mercados, das tecnologias, do entendimento do que é nação e do Estado, em que todos os Estados devem estar imbuídos em enfrentar o risco global da mudança climática, considerando que existem aqueles que geram o risco global e aqueles que são afetados por ele.

Já para Latour (1994), não existe a compreensão dos fenômenos sociais porque a análise feita é dividida em três categorias usuais dos críticos, ou seja, ficam limitadas ao que diz respeito à natureza, ou à política ou ao discurso de forma purificada, sendo que a pesquisa só ocorre considerando isoladamente, uma das categorias citadas, desconsiderando a influências das demais. Os fatos não podem ser desprezados por serem entendidos como marginais e sagrados, reduzindo-os à contingências insignificantes, não permitindo uma análise, pois no contexto social, existe o envolvimento dos coletivos e dos objetos, sendo redefinida a pessoa humana conforme o contexto em que se encontra.

Latour (1994) compreende que, o desenvolvimento de máquinas, equipamentos e objetos gera fatos e criam-se os híbridos, “os meio-objetos e meio-sujeitos”, modificando a composição da sociedade, ao adicionar esses novos seres nas relações sociais locais e globais. Estas são reconfiguradas, redimensionadas, embora permaneçam como princípios, para a sua compreensão, as antigas categorias universais e contextuais, tentando percebê-las como totalidades estruturais e globais.

“Não somos nós que acrescentamos arbitrariamente a "dimensão simbólica" a forças puramente materiais. Assim como nós, estas também são transcendentes, ativas, agitadas e espirituais. O acesso à natureza não é mais imediato do que à sociedade ou ao Deus suprimido.” (LATOUR, 1994, p.127)

Segundo Latour (1994), fica impossível compreender os erros que o mundo moderno inflige a si mesmo. As técnicas não são novas, não são modernas, são coisas que sempre existiram no mundo, foram digeridas, integradas, ou mesmo humanizadas, acreditando-se incondicionalmente nas ciências sem contestar ou questionar sua eficácia ou riscos.

Nesse sentido, Beck (2018) entende que, a sociedade sofre as consequências dos efeitos colaterais indesejados que é resultado do desenvolvimento nacionalista desmedido realizado na modernidade sem uma perspectiva cosmopolita, tendo como resultado a crise climática global. Existe a inação e a complacência dos Estados-nação, não existindo uma postura para o controle da crise global, que minimize os efeitos colaterais negativos na sociedade. Sendo, a mudança climática, responsabilidade dos laboratórios de tecnologia, ciência e dos negócios. O nacionalismo normatiza e cristaliza as estruturas científicas, políticas e sociais e as categorias básicas de formação do pensamento. “Mesmo quando mudanças sociais e políticas são pretendidas, estas permanecem ligadas, aos interesses de elites intelectuais, por mais abrangente que seja sua formulação” (BECK, 2018, p.75).

Já Fukuyama (2000) entende que, os seres humanos, por natureza, criam regras morais e ordem social por eles mesmos. Porém, para Latour (1994), jamais ocorreu uma distinção clara das leis da natureza, das convenções sociais ou entre objetos e sujeitos, sem falar na presença constante do “Deus suprimido”, quando da reflexão pura sobre a produção dos híbridos da natureza e da sociedade, misturas de humanos e não-humanos ou objetos.

“Hobbes, em seu Leviatã, refaz ao mesmo tempo a física, a teologia, a psicologia, o direito, a exegese bíblica e a ciência política. Em seus escritos e suas cartas, Boyle retraça ao mesmo tempo a retórica científica, a teologia, a política científica, a ciência política e a hermenêutica dos fatos. Em conjunto descrevem como Deus deve reinar, como o novo rei da Inglaterra deve legislar, como os espíritos ou os anjos devem agir, quais as propriedades da matéria, como se deve questionar a natureza, quais os limites da discussão científica ou política, como manter a plebe afastada, quais os direitos e os deveres das mulheres, o que devemos esperar da matemática. Na prática, portanto, eles se situam na velha matriz antropológica, repartem as competências das coisas e das pessoas, e ainda não fazem nenhuma separação entre a força social pura e o mecanismo natural puro.” (LATOUR, 1994, p.35)

8. DESENVOLVIMENTO TECNOLÓGICO E CRISE GLOBAL

O desenvolvimento tecnológico, em especial das novas tecnologias da comunicação, possibilitou que as pessoas carreguem junto a si, como se um amuleto fosse, aparelhos eletrônicos chamados smartphones, que os conecta individualmente, com máquinas e outras pessoas. Estes aparelhos são na verdade microcomputadores, que deixam as pessoas instantaneamente conectadas e a par de quase a totalidade dos eventos que ocorrem em qualquer lugar do mundo, produzindo a sensação de terem; “[...] duas coisas que as pessoas mais valorizam numa democracia moderna: liberdade e igualdade.” (Fukuyama, 2000, p.15).

Para Bauman (2011), todos podem receber e criar informações, fazer comentários, concordar ou discordar e até julgar e condenar. Exercendo grande influência nas decisões a serem tomadas pelas autoridades, quebrando uma hierarquia estabelecida nas instituições públicas ou privadas, que sofrem pressão, são desqualificadas e desacreditadas. Ocorre ainda que a comunicação pode propagar informação em quantidade excessiva de forma distorcida ou mesmo inverídica entre as informações de valor. É preciso ter foco em um tema específico e filtrar no lixo, nas mentiras e ilusões, o que lhe é realmente proveitoso.

Os autores, Latour, Fukuyama e Beck têm em comum a compreensão de que o rápido desenvolvimento, em especial o frenético desenvolvimento tecnológico na comunicação, é fator preponderante na acentuação dos conflitos, na desigualdade socioeconômica, na decadência das instituições, na globalização desordenada, na destruição da cultura regional, na crise climática global, na individualização e do relativismo extremado no entendimento dos fatos.

Fukuyama (2000) entende que, a produção é globalizada à medida que a tecnologia da informação de baixo custo torna cada vez mais fácil enviar informações através de fronteiras geográficas e as comunicações rápidas destroem os limites de comunidades culturais há muito estabelecidas. Ocorre que a mudança, para uma sociedade da informação, tem sido comemorada por quase todos que escreveram ou falaram sobre ela. Viram essas mudanças como boas para a prosperidade, para a democracia, para a liberdade e para a sociedade em geral. Mas será que todas as consequências foram positivas? Mesmo quando os laços mútuos tendem a ser menos permanentes e firmes, ocorrendo o colapso da ordem social com o enfraquecimento dos “laços sociais" e dos valores comuns?

Segundo Fukuyama (2000), o desenvolvimento dos benefícios de uma economia mais complexa e baseada na informação, tende a mudar a natureza do trabalho substituindo o trabalho físico pelo trabalho intelectual. Onde existe a cultura do individualismo intenso, do mercado e do laboratório que conduz à inovação e ao crescimento, que invade o domínio das normas sociais, enfraquecendo as formas de autoridade e os laços que mantinham unidas as famílias, as vizinhanças e as nações. Porém a ordem social, uma vez rompida, tende a ser refeita e é muito provável que isso esteja ocorrendo. As normas sociais que funcionam para um período histórico são rompidas pelo avanço da tecnologia e da economia e a sociedade precisa se esforçar para estabelecer novas normas, sob novas condições.

“O papel da informação e da inteligência, incorporadas tanto em pessoas como em máquinas cada vez mais espertas, torna-se disseminado e o trabalho intelectual tende a substituir o físico. A produção é globalizada à medida que a tecnologia da informação de baixo custo torna cada vez mais fácil passar informações através de fronteiras nacionais e as comunicações rápidas por televisão, rádio, fax e e-mail destroem os limites de comunidades culturais há muito estabelecidas.” (FUKUYAMA, 2000, p.15)

Nesse sentido, se faz necessário lembrar o pensamento de Latour (1994). É preciso entender que a humanidade faz parte do todo, incluído o hibridismo com os objetos, a natureza e das ações, para a compreensão e análise do comportamento humano. O entendimento da importância da inovação tecnológica na comunicação para cosmopolitização das relações humanas é percebida por Beck (2018), pois, ele entende que, estamos todos ligados, porque a comunicação móvel é uma constante na vida diária das pessoas em todo o globo.

Para Beck (2018), os riscos globais criam um público específico e globalizado, consequentemente, este público globaliza e torna visível a informação sobre os riscos globais, através dos antigos meios de comunicação de massa, ou seja, dos jornais, rádios e televisão, que estão abertos há eventos globais que se utilizam cada vez mais dos novos meios de comunicação, disponibilizados pelo avanço do desenvolvimento tecnológico, aumentando as redes e o fluxo de comunicação global não respeitando as fronteiras nacionais. A comunicação pública não está mais restrita aos encontros pessoais em espaços específicos, como ruas, praças e igrejas. A comunicação digital possibilita que os grupos se organizem mantendo o distanciamento físico, diminuindo os custos e riscos, otimizando o tempo e mantendo o intercâmbio em tempo real.

“Ao mesmo tempo, as novas variantes tecnológicas da comunicação digital, em processo de rápida evolução, estão transformando o conceito de público. Consumidores de notícias se tornam produtores de notícias. Fronteiras e tópicos nacionais se tornam menos importantes. Novas paisagens de comunicação emergem – fragmentadas, individualizadas e espalhando-se simultaneamente em redes nas quais o poder dos meios de comunicação é quebrado. No processo, conceitos essenciais como “participação”, “integração”, considerados invariantes na perspectiva da mudança social, estão mudando.” (BECK, 2018, p.175/176)

Beck (2018) entende que, existe a possibilidade de manipulação, pois as plataformas digitais, utilizadas para a comunicação digital, também são utilizadas para atender o mercado, sendo uma enorme vitrine para exibição dos mais diversos tipos de produtos. Estão, as redes sociais, programadas para atender aos interesses do mercado digital, que é dominado por grandes empresas multinacionais. A liberdade do debate público é limitada e influenciada pelos interesses do poder das grandes corporações privadas. “O mesmo se aplica à infraestrutura tecnológica. Por quanto tempo as democracias podem sobreviver a essa privatização da opinião pública?” (BECK, 2018, pg.177)

Segundo Beck (2018), as novas tecnologias da comunicação digital possibilitam a produção e o consumo de informação e de dados numa proporção nunca imaginada. Não estão limitadas ou subjugadas a territórios ou leis nacionais, acompanham as zonas de livre comércio do mundo econômico em busca do seu público-alvo. Assim, as novas tecnologias da comunicação digital produzem uma sociedade mundial digital, não ficam restritas ao território e leis de um Estado. Observa-se que não há o uso da força para tanto, esse comportamento é uma escolha individual de quem deseja ser inserido em um contexto mundial, não sendo necessário haver uma identidade coletiva. Onde a unidade básica da ação social e política, passa a ser o indivíduo.

No entendimento de Beck (2018), a existência de um controle total e em escala global da informação e dos dados, passa despercebido, ficando cada dia mais invisível e perigoso em relação à democracia, à verdadeira liberdade e à privacidade das pessoas. Deve se entender que já existe um controle amplo e constante que abrange a totalidade global sobre os dados publicados na comunicação digital, consolidando um império global sobre as preferências aceitas como individuais. É crescente o grau de interconectividade e intercâmbio, sendo que para estar inserido, no mundo digital, o indivíduo tem que possuir uma conexão de internet e estar sempre conectado, mudando conceitos e ideias como o de educação, pois a internet possibilita acesso a todas as bibliotecas do mundo criando uma memória coletiva global.

“A existência de geração de risco global certamente não significa que esteja ocorrendo uma convergência mundial de situações sociais. Ao contrário, a diversidade e a desigualdade de situações de vida e de oportunidades são extremamente visíveis, e é precisamente isso que produz tensões particulares e forças explosivas.” (BECK, 2018, p.246)

Já para Latour (1994), as pessoas são manipuladas pelas mídias e pela sociedade de consumo, ao terem que se submeter às imposições do mercado para conseguir se conectar à internet e às redes sociais, que estão em dimensões local e global. É preciso adquirir um código e equipamentos para ter acesso às ondas magnéticas que estão em toda parte. Sendo assim equipamentos e máquinas híbridas estão sendo constantemente desenvolvidas, levando o indivíduo cada vez mais a utilizá-las e delas dependerem nas atividades diárias.

Segundo Latour (1994), fica evidente que as mudanças ocorrem rapidamente no meio científico e econômico, contudo, modificam-se lentamente no meio social em virtude, principalmente das questões morais, quando os limites impostos por costumes, regras e normas culturais de uma sociedade são transgredidos ou desrespeitados. Porém, os indivíduos tendem a se adaptar às mudanças que possibilitam uma variedade imensa de escolhas individuais.

A expansão do conhecimento aumentou, consideravelmente, a participação de indivíduos na elaboração de estudos e pesquisas que viabilizaram o desenvolvimento das novas tecnologias e estas, por sua vez proporcionam o crescimento exponencial do conhecimento e sua divulgação por meio das antigas e das novas mídias de comunicação. A informação agora está “realmente” ao alcance das nossas “mãos”. O smartphone sintetiza o que de mais moderno existe em tecnologia da comunicação, a informação global está disponível e é utilizada diuturnamente por quase a totalidade da população mundial.

A velocidade com que se multiplicam e propagam-se as informações na internet, através de diversas plataformas de interação, produz um estado de entorpecimento do internauta que pode levá-lo a acreditar em informações inverídicas, chegando a negar os fatos cientificamente comprovados. A falta de capacidade de analisar a utilidade da informação, sua eficácia e a sua veracidade pode induzir o internauta ao erro e gerar conflitos, pois a imensa quantidade de informações geradas sem nenhum comprometimento com as consequências de sua divulgação, possibilita as divergências sobre as questões sociais que são compreendidas, não baseadas nos fatos que a causaram, mas sim nas especulações elaboradas conforme o entendimento relativo de cada indivíduo, que na maioria das vezes não têm aptidão, qualificação e muito menos capacidade para fazê-lo.

Até aqui, podemos perceber que os autores estudados concordam que o desenvolvimento, na forma que ocorre na atualidade, produz um descompasso entre o desenvolvimento tecnológico e econômico para com o desenvolvimento social. As normas e costumes, há muito estabelecidos, são constantemente pressionados para se adaptarem às mudanças ocorridas no meio tecnológico e econômico. Sendo que, as novas tecnologias, ao mesmo tempo em que permitem a individualização e sensação de maior liberdade do individuo, podem estar, na verdade, a condicionar o comportamento dos indivíduos. Além disso, ao ter acesso a uma quantidade quase que infinita de informações, já que estas são criadas e publicadas constantemente no mundo digital, o individuo tem que, fazer escolhas para não perder o foco do que de fato lhe interessa.

Para uma melhor compreensão sobre a influência das novas tecnologias da comunicação, na criação e divulgação de informações, e a influência no comportamento dos indivíduos, é interessante o estudo sobre as ideias e pensamentos dos autores Pierre Lévy, Manuel Castells e Klaus Schwab, em que fica evidente que o avanço tecnológico é um caminho sem volta, onde existem acertos e erros. Porém, os benefícios se sobressaem e são importantíssimos para a promoção do bem estar de toda a sociedade, sendo de responsabilidade dos indivíduos fazer a escolha e suas consequências.

“Compreender quais resultados sociais provêm de mudanças tecnológicas e econômicas profundamente enraizadas e quais estão sob maior controle da sociedade nos ajuda a evitar dois erros comuns. O primeiro é em geral cometido pela esquerda: a crença de que todos os problemas sociais podem ser resolvidos pela política pública. O segundo erro é cometido mais comumente pelos conservadores; é acreditar que mudanças sociais indesejáveis são consequência de flacidez moral e que elas podem ser corrigidas com arrogância e apelo aos valores corretos.” (FUKUYAMA, 2000, p.138/13

9. INFLUÊNCIA DAS NOVAS TECNOLOGIAS DA COMUNICAÇÃO NAS SOCIEDADES CONTEMPORÂNEAS

“A gestão da atenção não é algo que começou com as ferramentas digitais. A disciplina mental, aprender a concentrar-se, é algo que sempre foi útil e que deve também ser aplicado com essas ferramentas. Não é possível estar diante de uma tela de computador e, de uma hora para outra, esquecer o que se está fazendo e ir fazer outra coisa, de qualquer jeito. Diante do computador, é necessário controlar a sua mente e se concentrar num objetivo de aprendizagem e de colaboração. A sobrecarga cognitiva é realmente um problema falso porque é o mesmo que dizer que há livros demais em uma biblioteca. Muitos livros não provocam uma sobrecarga cognitiva. Você aprende a utilizar os arquivos da biblioteca, as fichas, a escolher um livro mais adequado com seu objetivo e você lê esse livro. A gente não vai começar a ler a primeira página, depois buscar outro livro. Na plataforma on-line acontece o mesmo. É a responsabilidade pessoal que faz a diferença.” (Lévy, 2013)

É importantíssimo para a compreensão dos fenômenos sociais contemporâneos o entendimento do que são as novas tecnologias da comunicação e quais as consequências de sua utilização no comportamento dos indivíduos em uma sociedade. Para tanto, a leitura de textos dos autores Pierre Lévy, Manuel Castells e Klaus Schwab, nos permite antever o que está por vir, na verdade já estão ocorrendo no mundo digital, a utilização maciça das novas tecnologias, em especial as tecnologias da comunicação, suas máquinas, equipamentos e programas utilizados mais diversas áreas.

Lévy (1999) diz que, apesar de ser otimista, não entende que a internet irá solucionar todas as questões culturais e sociais existentes no mundo. Ele reconhece que o crescimento do ciberespaço é consequência da mobilização internacional de jovens em busca de novidades e do conhecimento, através das novas tecnologias da comunicação. Sendo esse, um novo espaço de comunicação, onde devemos nos ater “[...] as potencialidades mais positivas deste espaço nos planos econômico, político, cultural e humano.” (LÉVY, 1999, p.11).

Para Lévy (1999), algumas pessoas se espantam com as possibilidades existentes na rede de comunicação digital, pois entendem que os videogames, o mundo virtual e os fóruns eletrônicos, produzem efeito negativo sobre os jovens. Porém, o autor argumenta que outras tecnologias também foram desprezadas e mal compreendidas quando da sua utilização no meio social, para depois terem seu valor reconhecido, não sem antes passarem por um processo de aceitação. As novas tecnologias não foram criadas em outro mundo, sem qualquer valor e significado humano, ao contrário, as tecnologias são criadas e produzidas conforme a necessidade do seu uso por pessoas.

“Seria a tecnologia um ator autônomo, separado da sociedade e da cultura, que seriam apenas entidades passivas percutidas por um agente exterior? Defendo, ao contrário, que a técnica é um ângulo de análise dos sistemas sócio-técnicos globais, um ponto de vista que enfatiza a parte material e artificial dos fenômenos humanos, e não uma entidade real, que existiria independentemente do resto, que teria efeitos distintos e agiria por vontade própria”. (LÉVY, 1999, p.22)

Na mesma linha de pensamento de Latour (1994), Lévy (1999) entende que, “[...] é impossível separar o humano de seu ambiente material, assim como dos signos e das imagens por meio dos quais ele atribui sentido à vida e ao mundo”. (Lévy, 1999, p.22). Ambos entendem que não é concebível desprezar a influência do meio artificial nas relações sociais, pois esse é resultado das ideias e necessidades dos homens que, o criaram e os utilizam, sendo esses, agora híbridos que estão inseridos nas atividades realizadas no cotidiano das pessoas.

Para Lévy (1999), nem tudo que é realizado, ao se utilizar o ciberespaço, é necessariamente “bom”. A consequência dos atos realizados através do mundo digital é o resultado da forma que foi usada e com qual finalidade e interesse, do ator, ao utilizar uma determinada ferramenta digital. O resultado é consequência das ações e escolhas espontâneas do indivíduo. Para que ocorra o entendimento das ações nas interações digitais faz-se necessário que estejamos abertos e receptivos para receber a novidade, tentando compreender as qualidades existentes nas mudanças, resultado das inovações tecnológicas nas redes de comunicação e sua influência na vida social e cultural. Assim, novas tecnologias, podem ser desenvolvidas, dentro de uma perspectiva humanista, objetivando realizar as ideias, desejos, necessidades, projetos sociais e de poder dos indivíduos e dos coletivos.

Para Lévy (1999), o desenvolvimento das tecnologias é o resultado de um conjunto de atividades técnicas, culturais e sociais, pois as tecnologias são produtos de uma sociedade e de uma cultura que busca uma melhor qualidade de vida. As tecnologias são desenvolvidas, representando as ideias coletivas, que visam solucionar as necessidades comuns a um determinado grupo de indivíduos, não sendo um problema "puramente técnico", "puramente cultural" ou "puramente econômico". Portanto, a falta de compreensão da influência das novas tecnologias na sociedade é a ausência do conhecimento sobre as questões envolvidas. Precisa ser entendido que o desenvolvimento tecnológico é resultado das relações, “[...] entre um grande número de atores humanos que inventam, produzem, utilizam e interpretam de diferentes formas as técnicas.” (LÉVY, 1999, p.22).

Segundo Lévy (1999), não é possível definir um sentido único, a técnica, já que ela possibilita que as consequências da sua utilização seja o resultado da forma e razão que foi utilizada e na diversidade de aplicabilidade, já que, o desenvolvimento das cibertecnologias, é desejado por Estados em busca de uma supremacia, pela competição econômica entre as grandes empresas mundiais, por desenvolvedores e indivíduos que interagem, buscando aumentar sua autonomia individual ao adquirir mais conhecimentos. É desejado também por cientistas que buscam realizar seus ideais. São propostas diferenciadas que possibilitam conflitos, mas havendo convergência de interesses, tendem a se associar para um resultado mutuamente satisfatório.

Lévy (1999) entende que, a complexidade do ciberespaço, que é um instrumento de comunicação interativo e comunitário, seja resultado da inteligência coletiva que acompanha o desenvolvimento tecnológico, condicionando uma sociedade às suas técnicas, possibilitando que novas opções de arranjos sociais sejam pensadas podendo ser aproveitadas ou não, sendo que uma mesma técnica pode ser utilizada em sociedades distintas. Porém, não é louvável acreditar que as tecnologias estejam disponíveis para o uso dos indivíduos de forma estritamente livre, sem nenhuma imposição, mesmo aos mais esclarecidos e racionais.

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“As telecomunicações geram esse novo dilúvio por conta da natureza exponencial, explosiva e caótica de seu crescimento. A quantidade bruta de dados disponíveis se multiplica e se acelera. A densidade dos links entre as informações aumenta vertiginosamente nos bancos de dados, nos hipertextos e nas redes. Os contatos transversais entre os indivíduos proliferam de forma anárquica. É o transbordamento caótico das informações, a inundação de dados, as águas tumultuosas e os turbilhões da comunicação, a cacofonia e o psitacismo ensurdecedor das mídias, a guerra das imagens, as propagandas e as contrapropagandas, a confusão dos espíritos.” (LÉVY, 1999, p.13)

Lévy (1999) observa que, além dos serviços pagos, que continuaram a se expandir, a internet possibilita que um grande número de serviços gratuitos seja ofertados, por isso, ele não entende que a exploração econômica da internet constitui, por si mesma, uma condenação da cibercultura, pois são complementares o comércio e a dinâmica intelectual que coordenou o desenvolvimento do mundo digital. Entretanto existe a exclusão do indivíduo, quando os seus métodos de trabalho tornaram-se obsoletos, os conhecimentos adquiridos são insuficientes e inadequados, ou mesmo quando a profissão que exerce não é mais necessária, estando ultrapassada, “para todos esses a evolução técnica parece ser a manifestação de um "outro" ameaçador.” (LÉVY, 1999, p.28).

Segundo Lévy (1999), para que não ocorra a exclusão dos indivíduos do mercado de trabalho, o constante desenvolvimento dos processos de inteligência coletiva possibilita a apropriação, por indivíduos e por grupos, das alterações técnicas, minorando os efeitos de exclusão dos indivíduos do mercado de trabalho, que é resultado da aceleração do desenvolvimento tecnológico. Para tanto, é necessária uma constante atualização das novas técnicas de trabalho, e as empresas devem proporcionar aos trabalhadores instrumentos que disponibilizem informações, capacitação e formação profissional adequada, pois somente devidamente qualificado, é que o indivíduo terá condições de utilizar de forma produtiva as novas técnicas e especialmente um computador conectado à rede mundial de computadores, podendo, assim, acessar uma infinidade de outros computadores e, mesmo, outros equipamentos eletrônicos ampliando suas informações e capacidade de análise de dados armazenados no ciberespaço.

Para Lévy (1999), o ciberespaço permite pensar todos os computadores do mundo como se fosse um só, a expansão do ciberespaço propicia a aceleração de procedimentos virtuais na economia e na sociedade. Onde um mundo virtual pode ser criado e simular fidedignamente o mundo real, podendo variar, proporcionalmente ao tamanho real, de grandes a minúsculas medidas, permitindo que sejam realizadas mudanças radicais na imagem virtual ou se construir algo totalmente diferente da sua aparência física normal. Existe ainda a possibilidade de criar virtualmente, ambientes semelhantes aos existentes, para que neles sejam simulados os mais diversos tipos de atividades e pesquisa, observando-se antecipadamente, no mundo digital, as variáveis e possíveis consequências, das ações a serem realizadas no mundo físico e biológico.

“Um mundo virtual, no sentido amplo, é um universo de possíveis, calculáveis a partir de um modelo digital. Ao interagir com o mundo virtual, os usuários o exploram e o atualizam simultaneamente. Quando as interações podem enriquecer ou modificar o modelo, o mundo virtual torna-se um vetor de inteligência e criação coletivas.” (LÉVY, 1999, p.75)

Segundo Lévy (1999), existem duas formas de se perceber o futuro da cibercultura. Uma quando os indivíduos seriam uniformizados e homogeneizados perdendo o seu valor individual, onde seriam bestializados, atormentados e explorados. A outra perspectiva para a cibercultura, é a exaltação do indivíduo, que tem seu valor reconhecido e respeitado, sendo priorizadas as relações entre os indivíduos, independente de gênero, raça, idades e condição socioeconômica, apesar das dificuldades e dos conflitos existentes, havendo a necessidade do reconhecimento pacífico das diferenças. Para tanto se faz necessário o "[... ]reconhecimento do outro, a aceitação e ajuda mútua, a cooperação, a associação, a negociação, para além das diferenças de pontos de vista e de interesses”. (LÉVY,1999, p.13/14).

Lévy (1999) ressalta que, o virtual não irá substituir o real, porém ele aumenta as possibilidades para atualizá-lo. Será necessário escolher uma em meio a infinidade de opções das interações possíveis no ciberespaço. Essa navegação pode ser gratificante enriquecendo o conhecimento, porém, as possibilidades de interação na internet são infinitas; como em uma imensa “bibliotecadiscoteca ilustrada”, onde estão disponíveis opções variadas de textos, imagens e vídeos em vários idiomas. Além disso, há a interação ao vivo com outras pessoas, não sendo necessário, que exista uma uniformidade nos conteúdos, que são criações da diversidade cultural e científica do mundo, o que pode levar o indivíduo a perder o foco, sem manter uma disciplina necessária para a realização produtiva das interações no ciberespaço.

Para Lévy (1999), o crescimento do ciberespaço não determina automaticamente o desenvolvimento da inteligência coletiva, apenas fornece a esta um ambiente propício, de onde emerge a cibercultura, que representa “o surgimento de um novo universal”. Essa é constituída diferentemente de qualquer cultura anterior, não existindo a determinação de um sentido global em que se baseie, sendo necessário definir um formato a ser seguido. “Computadores e redes de computadores surgem, então, como a infraestrutura física do novo universo informacional da virtualidade.” (Lévy, 1999, p.75).

Lévy (1999) entende que, não existe uma determinação, mas sim, pode existir um condicionamento exercido nas interações no mundo digital que influenciam o comportamento do indivíduo. Isso ocorre em razão da intensa propagação de informações nas redes virtuais, com sua maior capacidade de cálculo, de memória e de transmissão. Porém, a expansão do mundo virtual irá desenvolver-se, ampliar-se e exercer influência de forma variável, pois existem várias possibilidades de conexão e interação no ciberespaço, onde, enquanto algumas tecnologias possibilitam a interação prioritariamente entre máquinas, outras técnicas permitem a interação entre indivíduos, máquinas e equipamentos e, por fim, os programas que permitem a interação entre indivíduos ou grupos de indivíduos. Exemplo disso é o celular que permite, entre várias outras opções, a interação entre os indivíduos, onde ocorre o contato direto e em tempo real entre os interlocutores, sendo possível ver a imagem física do corpo e sua voz tornando possível serem transmitidas e percebidas as emoções, comportamentos e ideias.

“A nova universalidade não depende mais da autossuficiência dos textos, de uma fixação e de uma independência das significações. Ela se constrói e se estende por meio da interconexão das mensagens entre si, por meio de sua vinculação permanente com as comunidades virtuais em criação, que lhe dão sentidos variados em uma renovação permanente.” (LÉVY, 1999, p.15)

Para Lévy (1999), o telefone e a internet "apenas" comunicam, como tantos outros meios criados pelos homens, não podendo ser definida como a causa de uma possível catástrofe do mundo. O desenvolvimento das tecnologias digitais implica em mudanças culturais e sociais, porém o indivíduo e toda a sociedade são os responsáveis pelo formato dado a estas novas tecnologias, e as interações no ciberespaço viabilizam as transformações que ocorrem no meio social. Não cabe mais a forma de comunicação anterior, que reduzia o esquema de divulgação de um emissor para vários receptores, o que empobreceria o ciberespaço e, consequentemente, prejudicaria o desenvolvimento da humanidade, além da existência dos interesses econômicos e políticos, que exercem pressões junto à comunidade virtual.

Segundo Lévy (1999), para entender as mudanças culturais e socioeconômicas na contemporaneidade, podemos comparar o momento atual da emergência do ciberespaço com a passagem das sociedades orais para as sociedades que passaram a utilizar à escrita. Nas sociedades orais, as mensagens eram transmitidas e recebidas verbalmente no mesmo tempo e espaço. Nas sociedades escritas, as comunicações poderiam ser realizadas entre pessoas que estavam geograficamente distantes, e mesmo mortas há muito tempo. Podendo ainda ser mensagens entre pessoas de culturas totalmente diferentes e até desconhecidas. Assim, modificou-se a condição dos atores na comunicação, pois não era mais necessário estarem fisicamente no mesmo local para realizar a transmissão da mensagem. Sendo necessária a contextualização de quando e onde fora emitida a mensagem para sua perfeita compreensão.

Para Lévy (1999), a forma cultural de universalidade é iniciada pela escrita, quando muitos adotam as regras de comportamento transmitidas através de textos e continuadas pelas mídias de massa tradicionais, ou seja: imprensa, rádio, cinema e televisão. Que a princípio utilizam a mesma forma de transmissão de mensagem, onde não existe interação recíproca entre os interlocutores. As novas tecnologias da comunicação mudaram esse comportamento, a interação entre interlocutores, no mundo digital, é realizada de forma universal, direta e em tempo real. “O processo de interconexão mundial atinge de fato uma forma de universal, mas não é o mesmo da escrita estática, ele conecta pelo contato, pela interação geral.” (LÉVY, 1999, p.119).

Lévy (1999) entende que, o ciberespaço possibilita a existência da comunidade virtual e sua expansão, que é construída a partir da cooperação e interação, independente da localização geográfica, onde exista interesse de conhecimento em comum, sem estar sujeito às normas e regras instituídas em uma sociedade. Portanto, quanto mais universal, menos totalizável é a rede mundial na internet, pois no ciberespaço a interação não é realizada com base em características e conceitos estabelecidos, sendo que gênero, raça e condição socioeconômica, necessariamente, não exclui alguém de se conectar a rede digital mundial. Cada nova conexão é mais uma fonte de informação, ao mesmo tempo em que reproduz informações recebidas, expandindo-se ao infinito, dificultando um controle total e efetivo sobre as conexões e interações no ciberespaço.

“Quanto mais o ciberespaço se amplia, mais ele se torna "universal", e menos o mundo informacional se torna totalizável. O universal da cibercultura não possui nem centro nem linha diretriz. É vazio, sem conteúdo particular. Ou antes, ele os aceita todos, pois se contenta em colocar em contato um ponto qualquer com qualquer outro, seja qual for a carga semântica das entidades relacionadas. Não quero dar a entender, com isso, que a universalidade do ciberespaço é “neutra” ou sem consequências, visto que o próprio fato do processo de interconexão já tem, e terá ainda mais no futuro, imensas repercussões na atividade econômica, política e cultural. Este acontecimento transforma, efetivamente, as condições de vida em sociedade. Contudo, trata-se de um universo indeterminado e que tende a manter sua indeterminação, pois cada novo nó da rede de redes em expansão constante pode torna-se produtor ou emissor de novas informações, imprevisíveis, e reorganizar uma parte da conectividade global por sua própria conta.” (LÉVY, 1999, p.111)

Lévy (1999) entende que, o conflito é exercido na comunidade virtual, onde podem ocorrer discussões acaloradas ou mesmo muito agressivas nos debates entre indivíduos, na defesa de seus pontos de vista. Divergem também em razão de discordarem das regras e critérios impostos ou mesmo em relação aos que transgridam essas imposições. Entretanto, são comuns às interações que resultam em afinidades, como a cooperação científica, a associação na realização de trabalhos e mesmo amizades entre os membros dos grupos de discussão, que se encontram regularmente para interagir. As manipulações, transgressões, enganações, associações, cooperações e amizades sempre são possíveis nas comunidades virtuais, assim como o são em qualquer outro lugar: na televisão, nos jornais impressos, no telefone, pelo correio ou em qualquer reunião "em carne e osso".

Segundo Lévy (1999), existem pessoas que imaginam o ciberespaço como algo fantasioso e utópico, onde existe o domínio de uma nova elite virtual composta por grandes empresários que vendem sonhos. Já outra corrente, entende que o ciberespaço propicia o domínio e manipulação das sociedades pelo poderio militar, econômico e cultural americano. Esse tipo de pensamento não é totalmente inválido, porém, da mesma forma que estes, todos os povos, as nações, os Estados e os indivíduos podem utilizar e manipular as informações no ciberespaço. As regras desse tabuleiro não estão completamente postas, sendo assim, são previstas grandes e profundas mudanças no campo militar, econômico, político e cultural. Aqueles que conseguirem acompanhar as mudanças serão beneficiados.

“Em outras palavras, na perspectiva da cibercultura assim como nas abordagens mais clássicas, as políticas voluntaristas de luta contra as desigualdades e a exclusão devem visar o ganho em autonomia das pessoas ou grupos envolvidos. Devem, em contrapartida, evitar o surgimento de novas dependências provocadas pelo consumo de informações ou de serviços de comunicação concebidos e produzidos em uma óptica puramente comercial ou imperial e que têm como efeito, muitas vezes, desqualificar os saberes e as competências tradicionais dos grupos sociais e das regiões desfavorecidas.” (LÉVY, 1999, p.238)

São grandes as expectativas sobre até onde poderá expandir-se a rede digital mundial. Qual será sua abrangência e influência sobre o comportamento dos indivíduos? Quais as possibilidades de realizações sociais através do ciberespaço, ou melhor, no próprio ciberespaço, onde ações sociais podem ser projetadas, difundidas, executadas, acompanhadas, estudadas e analisadas?

A leitura de Castells (2013), permite compreendermos melhor como as ações sociais podem ser desenvolvidas no ciberespaço, com o uso das novas tecnologias da comunicação, que possibilita a aglutinação de pessoas com ideais em comum, onde são realizados debates sobre as questões sociais. São debates virtuais que tomam a forma de um movimento contestador em uma massa física, em que as pessoas insatisfeitas com uma determinada situação ou fato tomam as ruas para manifestar seu desagrado.

Castells (2013) demonstra as ações revolucionárias que foram realizadas na Tunísia, Espanha, Egito e EUA. Este movimento no mundo árabe ficou mundialmente conhecido como primavera árabe. Nesses movimentos revolucionários, foram de fundamental importância o uso das tecnologias da comunicação na interação e nas trocas de informações entre os indivíduos, que se organizaram virtualmente para realizarem, fisicamente, protestos em prol de transformações sociais.

“Ninguém esperava. Num mundo turvado por aflição econômica, cinismo político, vazio cultural e desesperança pessoal, aquilo apenas aconteceu. Subitamente, ditaduras podiam ser derrubadas pelas mãos desarmadas do povo, mesmo que essas mãos estivessem ensanguentadas pelo sacrifício dos que tombaram. Os mágicos das finanças passaram de objetos de inveja pública a alvos do desprezo universal. Políticos viram-se expostos como corruptos e mentirosos. Governos foram denunciados. A mídia se tornou suspeita. A confiança desvaneceu-se. E a confiança é o que aglutina a sociedade, o mercado e as instituições. Sem confiança nada funciona. Sem confiança, o contrato social se dissolve, e as pessoas desaparecem, ao se transformarem em indivíduos defensivos lutando pela sobrevivência. Entretanto, nas bordas de um mundo que havia chegado ao limite de sua capacidade de propiciar aos seres humanos a faculdade de viver juntos e compartilhar sua vida com a natureza, mais uma vez os indivíduos realmente se uniram para encontrar novas formas de sermos nós, o povo.” (CASTELLS, 2013, p.9)

Castells (2013) entende que é essencial entendermos que, agora somos um mundo conectado, pois bilhões de pessoas possuem um celular ou smartphone e existe uma “autocomunicação” já que, com o uso das plataformas de interação existentes na internet, não existe um monopólio na comunicação. No mundo virtual várias pessoas interagem, simultaneamente, e realizam interações trocando mensagens, imagens, documentos e outros tantos arquivos digitais, ou mesmo utilizando os arquivos existentes no mundo virtual. Sendo essa interação realizada de forma autônoma, direcionada e de difícil controle pelo estado ou outras instituições.

Segundo Castells (2013), para controlar e limitar a liberdade na internet, as instituições que têm poder, principalmente as financeiras e as que detêm o controle das grandes plataformas de multimídia, limitam o compartilhamento de arquivos e difundem informações do seu interesse, criam leis e normas que são impostas pelo estado. Porém estas instituições possuem um poder de controle do ciberespaço que está para além do controle do estado. Para contrapor a esse imenso poder, reprograma-se a rede digital com os interesses e valores comuns aos que desejam mudanças sociais. São desenvolvidas redes independentes que propagam massivamente mensagens direcionadas, comunicando as ações a serem realizadas contra os poderes constituídos. Os movimentos sociais utilizam as tecnologias da comunicação, autônoma e livremente, para realizarem a divulgação das reivindicações comuns no mundo digital, através das redes sociais onde são apresentadas e discutidas.

“Em 15 de outubro de 2011, uma rede global de movimentos Occupy, sob a bandeira “Unidos pela Mudança Global”, mobilizou centenas de milhares de pessoas em 951 cidades de 82 países, reivindicando justiça social e democracia verdadeira. Em todos os casos, os movimentos ignoraram partidos políticos, desconfiaram da mídia, não reconheceram nenhuma liderança e rejeitaram toda organização formal, sustentando-se na internet e em assembleias locais para o debate coletivo e a tomada de decisões.” (Castells, 2013, p.12)

Na concepção de Castells (2013), a tecnologia não determina a ação social ou qualquer espécie de comportamento social. Contudo, as redes sociais e o smartphone são mais que uma ferramenta ou equipamento, pois o seu uso condiciona o comportamento do usuário. Sendo possível que se realize mobilizações espontâneas dos indivíduos, que comungam dos mesmos pensamentos e ideais, tendo os mesmos descontentamentos. Em uma ação de cooperação e ajuda mútua, os indivíduos organizam-se, no mundo virtual, contra o que lhes oprime e iniciam ações com presença física para demonstrar essa insatisfação. A falta de condições adequadas de vida e uma crise de legitimidade do governo fazem com que as pessoas reajam em defesa da sua sobrevivência e utilizem as plataformas digitais para interagir e deliberar livremente sobre as questões político-sociais e decidir as ações a serem realizadas, convencendo e motivando a participação de outras pessoas na defesa das suas propostas, com mensagens indignadas que são massificadas no mundo digital através das plataformas de redes sociais conectadas no ciberespaço.

Para Castells (2013) as informações, divulgadas virtualmente, visam sensibilizar outras pessoas quando transmitem ao vivo imagens e vídeos das ações realizadas e dos contra-ataques, geralmente com uso de força desproporcional, do estado e suas forças de repressão. Que tentam coibir o uso dos smartphones e das redes sociais, fundamentais na comunicação on-line. As redes são ligadas diretamente ao movimento e ao mundo, com outros movimentos, com as mídias digitais e analógicas e com a sociedade, em geral. No ciberespaço, a tecnologia permite a discussão das propostas de ação ao mesmo tempo em que concebe novas formas de agir, e corrige ações já em andamento, que podem, virtualmente, ter antecipado o resultado e as consequências da ação em execução.

“A questão fundamental é que esse novo espaço público, o espaço em rede, situado entre os espaços digital e urbano, é um espaço de comunicação autônoma. A autonomia da comunicação é a essência dos movimentos sociais, ao permitir que o movimento se forme e ao possibilitar que ele se relacione com a sociedade em geral, para além do controle dos detentores do poder sobre o poder da comunicação.” (Castells, 2013, p.21)

Castells (2013) entende que, os resultados dos movimentos sociais, iniciados a partir das redes digitais, obtiveram sucesso em várias partes do mundo, em virtude de defenderem interesses de uma grande massa da população descontente, sem a necessidade da existência de um líder para que ocorra a associação das pessoas e a interação entre vários indivíduos com interesses em comum, que se organizam no mundo digital e passam a ocupar fisicamente os espaços urbanos. Considera-se que estes movimentos têm como motivação inicial indivíduos ou mesmo um indivíduo que é seguido por grupos de pessoas que formam coletivos com pensamentos, desejos e ideais comuns. As ações dos coletivos, que são convenientemente categorizados pela sociedade, na verdade são realizadas por indivíduos que se mobilizam, se movimentam e transformam instituições com suas ações, sendo estas mobilizações, inicialmente impulsionadas por emoções. A organização com uma agenda política e ideológica só ocorre após o surgimento de uma liderança, que pode já fazer parte do grupo ou mesmo ser de fora.

Portanto, para Castells (2013), o mundo digital é uma realidade universal na vida cotidiana, dos indivíduos, das empresas, do trabalho, dos estudos, da cultura, da política, do lazer e dos meios de comunicação que formam redes digitais e através delas interagem. Fica evidente a existência de uma sociedade digital, deve se reconsiderar tudo o que sabíamos sobre o comportamento em sociedade, suas categorias e conceitos, porque o contexto atual é outro. No contexto atual a capacidade de expansão do mundo digital parece ser infinita e abrange todas as áreas do conhecimento, influenciando, mas não determinando, o comportamento dos indivíduos, formando um novo contexto social. As diversas possibilidades de interação entre os indivíduos no mundo digital, a princípio livre e autônoma, permitem que pessoas e grupos se mobilizem e articulem ações em defesa de seus interesses, na execução de suas atividades, no desenvolvimento de trabalhos, estudos e pesquisas.

O mundo virtual viabiliza uma nova forma de relacionamento entre os indivíduos, entre estes e as instituições, entre indivíduos, máquinas e equipamentos e entre as máquinas. Veremos a seguir que as novas tecnologias, ao mesmo tempo em que, elimina pontos de trabalho e mesmo profissões, possibilitam o surgimento de oportunidades, ocupando a mão de obra excluída do trabalho pelo avanço tecnológico. Em consequência do desenvolvimento tecnológico as atividades, comuns hoje, serão substancialmente modificadas, ocorrendo mudanças desde as relações de trabalho, até a forma do atendimento à saúde e à educação entre várias outras atividades, alterando consideravelmente as condições da vida humana na sociedade.

Schwab (2016) faz uma análise pragmática, de um futuro próximo, das consequências do desenvolvimento tecnológico na vida dos indivíduos e de toda a sociedade. Primeiro, ele lembra que a tecnologia não é algo externo sobre o qual o indivíduo não exerce nenhum controle, podendo escolher entre conviver e utilizar as novas tecnologias ou não. Este também comunga com o modo de pensar de Lévy (1999) e Castells (2013), quando enfatizam que as tecnologias devem estar a serviço do bem estar do indivíduo e não determinando o comportamento destes, apesar de exercerem influência sobre os mesmos.

Entretanto, Schwab (2013) diz que, com o desenvolvimento tecnológico que ocorre, ao mesmo tempo, em áreas que vão do sequenciamento genético até a nanotecnologia, existindo a fusão entre as tecnologias e a interação destas com os mundos físicos, digitais e biológicos (lembrando Latour, 1994), mudam as características e condições de vida dos indivíduos, possibilitando o desenvolvimento global e, contraditoriamente o aumento das desigualdades socioeconômicas entre as pessoas, sendo esse um desafio a ser enfrentado.

Segundo Schwab (2016), com a expansão do uso das tecnologias na produção, cada vez mais elimina-se a mão de obra física, que é substituída por robôs ou programas, havendo uma expansão do trabalho intelectual. Postos de trabalho são fechados onde atividades físicas, ou seja, mão de obra humana não qualificada ou já ultrapassada não é mais necessária. As rápidas mudanças surpreendem os trabalhadores que não se atualizaram, por diversos motivos, perdendo assim o seu posto de trabalho. Existe uma necessidade urgente de que seja feita a qualificação, capacitação ou atualização dos conhecimentos do trabalhador para que este tenha a possibilidade de se ajustar ao desenvolvimento das novas tecnologias e das novas formas de trabalho, ocupando assim as novas frentes de trabalho que surgem.

“As instituições acadêmicas costumam ser consideradas como um dos locais mais importantes para as ideias pioneiras. No entanto, novas evidências indicam que, atualmente nas universidades, os incentivos à carreira e as condições de financiamento favorecem mais as pesquisas incrementais e conservadoras que os programas ousados e inovadores.” (Schwab, 2016, p.32)

Schwab (2016) entende que, a quarta revolução industrial possibilita o crescimento econômico aliviando, assim, alguns desafios mundiais, entretanto, é preciso reconhecer as consequências negativas do desenvolvimento (os “males” do desenvolvimento capitalista, inconsequente, segundo Beck, 2018), como as desigualdades socioeconômicas em razão do desemprego e das condições de trabalho, já que as novas tecnologias estão mudando profundamente a forma de trabalho de todas as profissões e de todos os locais de trabalho, podendo, serem até totalmente automatizados ou extintos. As profissões braçais e automáticas devem ser extintas, enquanto que algumas profissões das relações humanas serão valorizadas, porém somente o profissional que se qualificar e estiver devidamente capacitado em uma das profissões essenciais ao desenvolvimento tecnológico e a outras profissões criadas, não só em razão das tecnologias, mais também em razão das mudanças sociais, é que ocuparam os cargos com os maiores salários e melhores condições de trabalho.

Para Schwab (2016), o avanço científico e a utilização das novidades tecnológicas fazem parte do processo sociológico que ocorre conforme os indivíduos interagem e desenvolvem ideias, criando regras e normas em diversos contextos, sendo o grande desafio saber como acomodar as novidades aos conceitos preexistentes em uma sociedade. Pois, um agravante para a causa de exacerbação do conflito é o radicalismo de grupos conservadores que desconhecem os possíveis benefícios do desenvolvimento tecnológico e temem as rápidas mudanças e avanços que ocorrem, dificultando uma ação cooperativa entre os indivíduos, provocando uma crescente polarização entre os que acreditam e aceitam as mudanças e aqueles que a temem e querem garantir as suas crenças, costumes e status.

Segundo Schwab (2016), a internet é uma ferramenta de grande importância e sem algo similar no mundo, que deve ser utilizada na preservação da democracia e da liberdade individual, existindo possibilidade de se fiscalizar as instituições governamentais ou privadas. Além de promover a pesquisa e o compartilhamento do conhecimento, promovendo continuamente o desenvolvimento, e o entendimento que o indivíduo é quem promove o desenvolvimento tecnológico não estando subjugado a ele.

Percebe-se que os autores compreendem como de grande importância o desenvolvimento tecnológico para o desenvolvimento socioeconômico da humanidade. Isso não quer dizer que o desenvolvimento tecnológico seja o salvador da humanidade, sendo de fundamental importância o indivíduo estar atendo para não ser levado a perder o foco nas interações virtuais o que prejudicaria o seu desenvolvimento, em virtude da excessiva quantidade de informações existente no ciberespaço. É preciso filtrar as informações úteis e verdadeiras, que estão embaralhadas, com informações inúteis e falsas. Apesar dos conflitos e divergências, causas das rápidas mudanças tecnológicas. As tecnologias estão definitivamente inseridas no cotidiano da vida dos indivíduos, promovendo mudanças, influenciando e condicionando, mas não determinando o comportamento destes, não de forma linear e homogênea, mas de forma diversa, não sendo compreendida e aceita por muitos dos indivíduos, por não ser percebida.

10. DADOS E ANÁLISE DA PESQUISA

Esta pesquisa tem por objetivo perceber se as novas tecnologias, em especial as tecnologias da comunicação (internet), aqui representadas pelo smartphone, exercem influência sobre o comportamento dos indivíduos, podendo com isso levar o conflito aos extremos nas relações sociais. O resultado da pesquisa possibilitará uma melhor compreensão sobre o comportamento dos indivíduos.

A motivação para a realização dessa pesquisa foi a percepção da existência de uma maior intolerância e rispidez nas discussões divergentes em todos os seguimentos da sociedade. Os indivíduos se posicionam nos extremos, defendendo seus pontos de vista, não havendo o interesse em solucionar o conflito, e sim, em fazer prevalecer seu entendimento como sendo único e verdadeiro. O conflito agora coloca pessoas de uma mesma família em posições opostas, os amigos de longa dada desfazem a amizade e os debates com pontos de vistas contraditórios, que engrandeciam a defesa de uma tese, agora são inviáveis, não sendo possível haver uma convergência das ideias, pois sempre as partes possuem verdades cristalizadas. É até pretencioso, a execução dessa tarefa, porém é gratificante buscar entender o que ocorre atualmente no comportamento dos indivíduos em suas relações sociais.

Para termos uma ideia da evolução das tecnologias, e em especial a tecnologia da comunicação, apresento um breve histórico da evolução do telefone para a telefonia móvel, já que o smartphone é a tecnologia fundamental para a consolidação das interações dos indivíduos através do mundo digital.

Segundo MAFFEI (2008), o serviço de telefonia móvel, conectado ao celular, veio a público no ano de 1983 em Chicago nos EUA e foi introduzido no Brasil no ano de 1990 no estado do Rio de Janeiro. Foram necessários 114 anos para que ocorresse uma mudança significativa no uso do telefone, que foi formalmente iniciado no ano de 1876. A evolução da tecnologia da informação ocorreu de forma exponencial e já, no ano 2000, uma empresa de telefonia disponibilizou, no Brasil o uso da internet em celulares, foram apenas 17 anos para ocorrer tal mudança significativa na utilização do celular. Porém, as mudanças ocorreram constantemente e com mais rapidez, já em 2002, o celular deixa de ser um aparelho de transmissão de voz e alguns dados e passa a ser um pequeno computador de bolso, que inclui câmera e diversos outros aplicativos que conectam o usuário às mais diversas redes e programas virtuais existentes no mundo digital.

Atualmente, são realizadas as mais diversas atividades utilizando aplicativos instalados nos smartphones e conectados ao mundo digital, permitindo uma conexão contínua para a interação dos indivíduos com as mais diversas fontes de informação, comercialização, trabalho e lazer no mundo físico e digital. No Brasil, segundo o IBGE (2020), no ano de 2018 79,3% da população com mais de 10 anos tinha smartphone para uso pessoal e, segundo uma pesquisa da FGV (2020), no ano de 2019 existiam 424 milhões de aparelhos e equipamentos digitais em uso no Brasil.

Imagem: Evolução do aparelho celular/smartphone[1]
Imagem: Evolução do aparelho celular/smartphone[1]

A construção dessa monografia é o exemplo do uso da tecnologia em várias áreas, começando pelos livros que foram usados como base para esse trabalho. A maioria deles são arquivos baixados do mundo digital em formato PDF para computador, as informações adicionais também foram anexadas a partir de diversos sites localizados no ciberespaço, os formulários de pesquisas foram criados nas “nuvens”, utilizando o aplicativo Formulários Google, não sendo necessário o uso de papel ou caneta, e a compilação dos dados é automática, se o formulário de pesquisa for bem configurado, (eu só percebi isso depois que tinha criado os formulários), sendo possível exportar os dados coletados para o estudo e análise em outros programas. Para enviar e receber os formulários de pesquisa foi utilizado as seguintes plataformas de comunicação virtual, Gmail, Facebook, Instagram e WhatsApp, sendo o melhor retorno via WhatsApp e o pior via Gmail. Talvez porque o contato no WhatsApp seja mais pessoal, o que é inversamente verdadeiro na utilização do Gmail.

Para a compilação e cruzamento dos dados a serem analisados, foi utilizada a plataforma de software SPSS. Originalmente o nome era acrônimo de Statistical Package for the Social Sciences - Pacote Estatístico para as Ciências Sociais, mas na atualidade a parte SPSS do nome completo do software (IBM SPSS)[2] não tem significado. O software oferece análises estatísticas avançadas, uma vasta biblioteca de algoritmos de machine learning, análises de texto, extensibilidade de código aberto, integração com big data e implementação contínua em aplicativos.

Para uma compreensão empírica da influência do smartphone e da internet no comportamento das pessoas, foi realizada uma pesquisa em que 319 pessoas responderam as perguntas dos formulários de pesquisa criados no mundo virtual. Os formulários foram criados na plataforma Google Forms e foram enviados um total de 5.000 formulários através das plataformas de comunicação e interação na internet.

As perguntas referentes ao campo que definem o perfil dos entrevistados foram elaboradas a partir de dados da Receita Federal, para a pergunta sobre renda, e as demais perguntas, tiveram como base as divisões de gênero, idade e escolaridade utilizadas pelo IBGE. As demais perguntas foram elaboradas visando compreender a percepção e comportamento do entrevistado em relação ao uso da internet e do smartphone. O grupo de indivíduos pesquisados não representa, proporcionalmente, o perfil socioeconômico, de gênero, idade ou escolaridade da população brasileira inteira.

Após a tabulação dos dados da pesquisa, passamos a analisar e descrever como é percebido pelos pesquisados sua relação com seus smartphones e a internet. A análise dos dados coletados poderá ajudar a demonstrar se existe influência das novas tecnologias no comportamento dos indivíduos e na exacerbação dos conflitos nas relações sociais.

O grupo pesquisado é formado por 319 indivíduos que responderam ao formulário virtual na plataforma do Google. Os pesquisados residem em 18 estados brasileiros e no Distrito Federal de diversas camadas socioeconômicas, escolaridades e idades. Sendo que o retorno foi de 6,38% do total dos formulários enviados. A seguir são apresentados e analisados os dados coletados na pesquisa. Sendo que os entrevistados residentes no estado do Ceará representam a maioria, com 32,9% do total das pessoas que responderam ao questionário do formulário de pesquisa. Destes, 62,9% são do gênero feminino, 68,6% tem idade entre 15 e 39 anos, sendo que 45,7% têm curso superior incompleto e 62,9% têm renda até R$ 1.903,98.

Na sequência são apresentados os gráficos com dados referentes as variáveis residência, gênero, renda, idade e escolaridade.

Gráfico1

Gráfico2

Gráfico3

Gráfico4

Gráfico5

Podemos observar nas respostas aos formulários de pesquisa que a maioria absoluta das pessoas que responderam os questionários são do gênero feminino representando 69,3%, dos 319 entrevistados, dos quais 30,7% têm renda individual, acima de R$ 4.664,68, enquanto 17,2% não têm renda individual. As idades dos entrevistados que mais responderam as perguntas do formulário de pesquisa estão entre 40 a 53 anos, que são 27% dos entrevistados, sendo que, 89,7% do total dos entrevistados estão em um curso de graduação, são graduados, pós-graduados ou doutores, dentre estes 32% são pós-graduados e foi o grupo com maior número de participantes na pesquisa.

Com base nos dados coletados na pesquisa podemos dizer que, nesse grupo, as pessoas com maior grau de escolaridade são as que possuem maior renda individual e foram estas as que mais responderam os questionários. Evidenciando que, quanto mais estudo, mais interesse se tem em estudar, fomentando a capacidade de possuir uma melhor remuneração financeira.

Estes dados apresentam uma surpresa em relação à expectativa do perfil de quem responderia o questionário. Como o tema da pesquisa era sobre internet, smartphone, novas tecnologias e conflito social, esperava-se que haveria a participação maior de pessoas mais jovens, o que não se confirmou, pois, as pessoas da faixa etária entre, 15 a 24 anos, que responderam os questionários, correspondem a 18,8% do total dos entrevistados. Esta expectativa foi criada em razão da compreensão de que o desenvolvimento tecnológico na atualidade seria de interesse das pessoas mais jovens. Talvez isso represente que, as novas tecnologias exercem uma influência no comportamento das pessoas passando despercebido, já sendo aceito como algo normal à vida humana, não se percebendo o bem ou mal que podem ocasionar, como pensam Beck (2018) e Bauman (2011). Ou mesmo que não exista a capacidade de se perceber isso como pensa Latour (1994).

Renda Individual X Escolaridade

Contagem

Renda Individual

Total

Sem renda

Até R$ 1.903,98

De R$ 1.903,98 a R$ 2.826,65

De R$ 2.826,66 a R$ 3.751,05

De R$ 3.751,06 a R$ 4.664,68

Acima R$ 4.664,68

Escolaridade

Fundamental incompleto

0

0

0

1

0

0

1

Fundamental completo

0

2

0

0

0

0

2

Médio incompleto

6

0

0

1

0

0

7

Médio completo

6

11

3

1

2

0

23

Superior incompleto

31

30

5

1

8

4

79

Superior completo

9

19

12

13

9

22

84

Pós-graduado

3

6

10

21

11

51

102

Doutorado

0

0

0

0

0

21

21

Total

55

68

30

38

30

98

319

Tabela1

Na tabela1 podemos constatar que, em relação aos membros que participaram da pesquisa, os melhores salários são das pessoas que têm uma maior escolaridade.

A seguir são apresentados os dados referentes a como os entrevistados percebem sua relação ao usar a internet e o smartphone, quais são os aparelhos mais utilizam para acessar a internet, com qual finalidade acessam a internet e quando acessam a internet. Nas perguntas sobre qual o aparelho utilizado para acessar a internet e qual a finalidade de acessar a internet, foi solicitado à escolha de duas opções entre as seis opções de respostas apresentadas. Foi pesquisado ainda sobre se ao acordar, o pesquisado, imediatamente procura se conectar a internet, se antes de dormir acessa a internet e como ele percebe a quantidade de informações disponíveis na internet.

Gráfico 6

Gráfico7

Gráfico 8

Gráfico 9

Gráfico10

Com base nos dados coletados, 65,2% dos entrevistados, entendem que a quantidade de informações na internet é excessiva, talvez estes não estejam focadas em acessar informações relevantes para o desenvolvimento pessoal. Bauman (2011) e Lévy (1999) entendem que é necessário o empenho individual para que a interação na internet seja proveitosa, pois um dilúvio caótico de dados é disponibilizado no mundo digital, onde existem temas para todos os gostos e interesses podendo ser relevante ou mesmo inútil, pois, das informações que temos acesso, muitas não sabemos se são verdadeiras ou já estão ultrapassadas, não mais representando a verdade. As informações podem ser mesmo modificadas ou criadas conforme a concepção e entendimento do fato por parte do criador da informação, devendo ser filtradas pelos indivíduos, para um bom aproveitamento das informações disponibilizadas no ciberespaço. Já sobre os que acharam a quantidade de informações insuficiente, Lévy (1999) entende que existe, por parte destes, a ausência do conhecimento sobre as questões envolvidas.

Os dados, apresentados, corroboram com o pensamento de Castells (2013) de que, o mundo digital já é uma realidade, onde bilhões de pessoas possuem um smartphone e estão constantemente conectadas ao ciberespaço, que exerce influência sobre o comportamento social do individuo. Deixando bem claro que, apesar de condicionar, as informações obtidas na internet não determinam a ação do individuo, sendo ele o responsável por suas escolhas. Enquanto que Latour (1994) nos chama a atenção para que, se não aceitarmos a influência dos híbridos nas relações sociais não teremos a capacidade de compreendê-las. É necessário que a ação do individuo seja analisada, considerando-se o todo ao qual está inserido ou seja as condições atuais, o contexto atual tem que ser considerado.

Gráfico 11

Gráfico 12

Gráfico 13

Gráfico 14

Gráfico 15

Gráfico 16

Os dados apresentados nos gráficos, acima, demonstram que é importante para 77,4% das pessoas entrevistadas terem o smartphone conectado e junto a si, isso se confirma quando verificamos que 63,6% dos pesquisados acessam a internet, imediatamente, ao acordar, que 85% acessam a internet antes de dormir, que 55,5% dos entrevistados entendem que a internet é muito importante e 43,9% percebem que a internet é importante, sendo que 88,7% dos entrevistados utilizam o celular para acessar a internet. O smartphone é utilizado para trabalhar, socializar, pesquisar, receber noticia e para o lazer. A pessoa não é mais despertada pelo barulho inconfundível dos antigos despertadores, agora o despertador é um aplicativo inserido no smartphone que acorda o individuo da forma que este o programar, existindo diversas opções para configuração do modo de despertar no aplicativo do smartphone.

As pessoas sentem a necessidade de estarem sempre conectadas, como se, ao desconectarem o smartphone da internet estariam se desconectando do mundo. Para Latour (1999) é exatamente isso que ocorre e nós temos que compreender que estamos em um mundo onde os híbridos fazem parte do nosso dia a dia, das nossas interações e relações sociais. Até porque, mantemos mais interações quando conectados à internet do que pessoalmente. Sendo esse, atualmente, o mundo real, onde grande parte das interações de trabalho, pesquisa, estudo, diversão e lazer ocorrem no mundo digital ou através dele. Os contatos presenciais continuaram a ocorrer, porém parece inviável pensar o mundo como ele era a poucos anos passados.

Para que possamos analisar melhor os dados da pesquisa, se faz necessário realizar o cruzamento de alguns dados, assim algumas questões podem ser observadas com maior clareza.

Idade X A quantidade de informações recebidas na internet é

 

A quantidade de informações recebidas na internet é

Total

Excessiva

Ideal

Insuficiente

Idade

até 14 anos

Contagem

1

1

0

2

% em Idade

50,0%

50,0%

0,0%

100,0%

De 15 a 24 anos

Contagem

45

13

2

60

% em Idade

75,0%

21,7%

3,3%

100,0%

De 25 a 39 anos

Contagem

54

20

2

76

% em Idade

71,1%

26,3%

2,6%

100,0%

De 40 a 53 anos

Contagem

57

27

2

86

% em Idade

66,3%

31,4%

2,3%

100,0%

De 54 a 64 anos

Contagem

48

33

2

83

% em Idade

57,8%

39,8%

2,4%

100,0%

De 65 a 79 anos

Contagem

3

8

1

12

% em Idade

25,0%

66,7%

8,3%

100,0%

Total

Contagem

208

102

9

319

% em Idade

65,2%

32,0%

2,8%

100,0%

Tabela 2

Escolaridade X A quantidade de informações recebidas na internet é

 

A quantidade de informações recebidas na internet é

Total

Excessiva

Ideal

Insuficiente

Escolaridade

Fundamental incompleto

Contagem

0

1

0

1

% em Escolaridade

0,0%

100,0%

0,0%

100,0%

Fundamental completo

Contagem

0

1

1

2

% em Escolaridade

0,0%

50,0%

50,0%

100,0%

Médio incompleto

Contagem

1

5

1

7

% em Escolaridade

14,3%

71,4%

14,3%

100,0%

Médio completo

Contagem

12

11

0

23

% em Escolaridade

52,2%

47,8%

0,0%

100,0%

Superior incompleto

Contagem

57

19

3

79

% em Escolaridade

72,2%

24,1%

3,8%

100,0%

Superior completo

Contagem

50

31

3

84

% em Escolaridade

59,5%

36,9%

3,6%

100,0%

Pós-graduado

Contagem

70

31

1

102

% em Escolaridade

68,6%

30,4%

1,0%

100,0%

Doutorado

Contagem

18

3

0

21

% em Escolaridade

85,7%

14,3%

0,0%

100,0%

Total

Contagem

208

102

9

319

% em Escolaridade

65,2%

32,0%

2,8%

100,0%

Tabela 3

No cruzamento dos dados referentes a idade e a quantidade de informações recebidas na internet (Tabela2), temos o seguinte resultado: 65,2% dos entrevistados responderam que a quantidade de informações recebidas na internet é excessiva, sendo que essa percepção é maior entre os mais jovens e vai diminuindo conforme aumenta a idade do entrevistado.

Essa percepção, de que as informações existentes no mundo digital são excessivas, pode ser, como pensa Bauman (2011), resultado da fluidez e velocidade das atualizações das informações, pois as que recebemos hoje como corretas e apropriadas, amanhã podem ser inúteis ou mesmo equivocadas. No mesmo sentido, Latour (1999) entende que, o pensamento do passado tornou-se inadequado e irreal. Onde os fatos sociais apresentados não podem agora ser compreendidos e sistematizados, enquanto as pessoas são manipuladas pelas mídias e pela sociedade de consumo, ao terem que se submeter às imposições do mercado, para conseguir se conectar a internet e as redes sociais.

Beck (2018) pensa que, os mais velhos por serem mais sensatos e terem adquirido mais conhecimento, devem encaminhar os mais novos para seguirem os caminhos virtuosos da vida. Sendo assim, as experiências vividas permitem que as pessoas tenham a possibilidade de realizarem as melhores escolhas, pois os eventos e processos não intencionais, que em geral passam despercebidos, são os efeitos colaterais da modernização técnica e econômica que interferem e influenciam no comportamento das pessoas e, mais uma vez lembrando o pensamento de Lévy (1999) e Bauman (2011), as pessoas são responsáveis por onde navegam na internet e as informações que acessam, pois elas têm a capacidade de decidir quais as informações são mais importantes de serem absorvidas.

Idade X Qual a importância da internet

 

Qual a importância da internet

Total

Muito importante

Importante

Pouco importante

Idade

até 14 anos

Contagem

1

1

0

2

% em Idade

50,0%

50,0%

0,0%

100,0%

De 15 a 24 anos

Contagem

36

24

0

60

% em Idade

60,0%

40,0%

0,0%

100,0%

De 25 a 39 anos

Contagem

47

29

0

76

% em Idade

61,8%

38,2%

0,0%

100,0%

De 40 a 53 anos

Contagem

36

49

1

86

% em Idade

41,9%

57,0%

1,2%

100,0%

De 54 a 64 anos

Contagem

49

33

1

83

% em Idade

59,0%

39,8%

1,2%

100,0%

De 65 a 79 anos

Contagem

8

4

0

12

% em Idade

66,7%

33,3%

0,0%

100,0%

Total

Contagem

177

140

2

319

% em Idade

55,5%

43,9%

0,6%

100,0%

Tabela 4

Escolaridade X Qual a importância da internet

 

Qual a importância da internet

Total

Muito importante

Importante

Pouco importante

Escolaridade

Fundamental incompleto

Contagem

1

0

0

1

% em Escolaridade

100,0%

0,0%

0,0%

100,0%

Fundamental completo

Contagem

0

2

0

2

% em Escolaridade

0,0%

100,0%

0,0%

100,0%

Médio incompleto

Contagem

3

4

0

7

% em Escolaridade

42,9%

57,1%

0,0%

100,0%

Médio completo

Contagem

14

9

0

23

% em Escolaridade

60,9%

39,1%

0,0%

100,0%

Superior incompleto

Contagem

43

36

0

79

% em Escolaridade

54,4%

45,6%

0,0%

100,0%

Superior completo

Contagem

49

34

1

84

% em Escolaridade

58,3%

40,5%

1,2%

100,0%

Pós-graduado

Contagem

52

50

0

102

% em Escolaridade

51,0%

49,0%

0,0%

100,0%

Doutorado

Contagem

15

5

1

21

% em Escolaridade

71,4%

23,8%

4,8%

100,0%

Total

Contagem

177

140

2

319

% em Escolaridade

55,5%

43,9%

0,6%

100,0%

Tabela 5

No cruzamento dos dados pesquisados sobre idade X qual a importância da internet (Tabela4) e das variáveis escolaridade X qual a importância da internet (Tabela5) não demonstram nenhuma tendência explícita, não existindo uma percepção contundente da importância da internet em relação as variáveis escolaridade ou idade.

Escolaridade X É importante ter o smartphone sempre conectado e junto a si

 

É importante ter o smartphone sempre conectado e junto a si

Total

Sim

Não

Escolaridade

Fundamental incompleto

Contagem

1

0

1

% em Escolaridade

100,0%

0,0%

100,0%

Fundamental completo

Contagem

2

0

2

% em Escolaridade

100,0%

0,0%

100,0%

Médio incompleto

Contagem

4

3

7

% em Escolaridade

57,1%

42,9%

100,0%

Médio completo

Contagem

22

1

23

% em Escolaridade

95,7%

4,3%

100,0%

Superior incompleto

Contagem

55

24

79

% em Escolaridade

69,6%

30,4%

100,0%

Superior completo

Contagem

69

15

84

% em Escolaridade

82,1%

17,9%

100,0%

Pós-graduado

Contagem

79

23

102

% em Escolaridade

77,5%

22,5%

100,0%

Doutorado

Contagem

15

6

21

% em Escolaridade

71,4%

28,6%

100,0%

Total

Contagem

247

72

319

% em Escolaridade

77,4%

22,6%

100,0%

Tabela 6

Idade X É importante ter o smartphone sempre conectado e junto a si

 

É importante ter o smartphone sempre conectado e junto a si

Total

Sim

Não

Idade

até 14 anos

Contagem

2

0

2

% em Idade

100,0%

0,0%

100,0%

De 15 a 24 anos

Contagem

43

17

60

% em Idade

71,7%

28,3%

100,0%

De 25 a 39 anos

Contagem

69

7

76

% em Idade

90,8%

9,2%

100,0%

De 40 a 53 anos

Contagem

66

20

86

% em Idade

76,7%

23,3%

100,0%

De 54 a 64 anos

Contagem

60

23

83

% em Idade

72,3%

27,7%

100,0%

De 65 a 79 anos

Contagem

7

5

12

% em Idade

58,3%

41,7%

100,0%

Total

Contagem

247

72

319

% em Idade

77,4%

22,6%

100,0%

Tabela 7

O cruzamento dos dados da variável idade X é importante você ter o smartphone sempre conectado e junto a si (Tabela7), demonstram que quanto mais velho, menor é a necessidade de ter o smartphone junto a si e, quando se cruza essa variável, com os dados da variável escolaridade (Tabela6), não demonstram nenhuma tendência relevante em relação a variável “é importante você ter o smartphone sempre conectado e junto a si”.

Idade X Como você percebe seu smartphone

 

Como você percebe seu smartphone

Total

Como uma extensão do seu corpo

Como um aparelho

Como um apêndice

Como um ser híbrido

Como um objeto

Idade

até 14 anos

Contagem

1

0

0

1

0

2

% em Idade

50,0%

0,0%

0,0%

50,0%

0,0%

100,0%

De 15 a 24 anos

Contagem

8

39

5

1

7

60

% em Idade

13,3%

65,0%

8,3%

1,7%

11,7%

100,0%

De 25 a 39 anos

Contagem

13

47

1

1

14

76

% em Idade

17,1%

61,8%

1,3%

1,3%

18,4%

100,0%

De 40 a 53 anos

Contagem

6

72

1

2

5

86

% em Idade

7,0%

83,7%

1,2%

2,3%

5,8%

100,0%

De 54 a 64 anos

Contagem

5

67

1

2

8

83

% em Idade

6,0%

80,7%

1,2%

2,4%

9,6%

100,0%

De 65 a 79 anos

Contagem

0

12

0

0

0

12

% em Idade

0,0%

100,0%

0,0%

0,0%

0,0%

100,0%

Total

Contagem

33

237

8

7

34

319

% em Idade

10,3%

74,3%

2,5%

2,2%

10,7%

100,0%

Tabela 8

Escolaridade X Como você percebe seu smartphone

 

Como você percebe seu smartphone

Total

Como uma extensão do seu corpo

Como um aparelho

Como um apêndice

Como um ser híbrido

Como um objeto

Escolaridade

Fundamental incompleto

Contagem

0

1

0

0

0

1

% em Escolaridade

0,0%

100,0%

0,0%

0,0%

0,0%

100,0%

Fundamental completo

Contagem

0

2

0

0

0

2

% em Escolaridade

0,0%

100,0%

0,0%

0,0%

0,0%

100,0%

Médio incompleto

Contagem

0

5

0

1

1

7

% em Escolaridade

0,0%

71,4%

0,0%

14,3%

14,3%

100,0%

Médio completo

Contagem

2

19

0

0

2

23

% em Escolaridade

8,7%

82,6%

0,0%

0,0%

8,7%

100,0%

Superior incompleto

Contagem

8

57

5

1

8

79

% em Escolaridade

10,1%

72,2%

6,3%

1,3%

10,1%

100,0%

Superior completo

Contagem

10

60

2

3

9

84

% em Escolaridade

11,9%

71,4%

2,4%

3,6%

10,7%

100,0%

Pós-graduado

Contagem

11

77

0

2

12

102

% em Escolaridade

10,8%

75,5%

0,0%

2,0%

11,8%

100,0%

Doutorado

Contagem

2

16

1

0

2

21

% em Escolaridade

9,5%

76,2%

4,8%

0,0%

9,5%

100,0%

Total

Contagem

33

237

8

7

34

319

% em Escolaridade

10,3%

74,3%

2,5%

2,2%

10,7%

100,0%

Tabela 9

Observamos que no cruzamento dos dados das variáveis idade X como você percebe seu smartphone (Tabela8) e das variáveis escolaridade X como você percebe seu smartphone (Tabela9), 74,3% dos entrevistados percebem o smartphone como um objeto, porém na variável escolaridade percebe-se que quanto maior é a escolaridade maior é a tendência a se perceber o smartphone mais que um simples aparelho. Em relação a variável idade ocorre que quanto mais novo é o entrevistado, mais existe a tendência de perceber o smartphone como mais que um aparelho. Então, podemos conceber que os mais escolarizados têm uma maior capacidade de compreender e perceber as novas configurações das coisas em razão de acumular mais conhecimento. Já os mais novos percebem as novas configurações dos objetos por estarem convivendo com eles e também, nesse grupo pesquisado, é alto o número de jovens acadêmicos.

Com base nos dados da, fica evidente que entre os entrevistados, 88,7% utilizam o smartphone para se conectar a internet, 63,6% acessam a internet imediatamente ao acordar e 85% acessam a internet antes de dormir, sendo que 77,4% acham que é muito importante ter o celular conectado e junto a si, além do que, 99,4% dos entrevistados entendem que a internet é muito importante ou importante. Podemos, assim, concluir que o smartphone e a internet influenciam no comportamento dos indivíduos, como pensa Beck (2018), sobre os eventos e processos não intencionais, que em geral passam despercebidos, provocam um choque fundamental, uma alteração que rompe as nossas compreensões anteriores do mundo de que o que foi impensável ontem é real e possível hoje. Castells (2013) complementa, ao pensar que o mundo digital é uma realidade universal na vida cotidiana, dos indivíduos, de todos os seguimentos da sociedade e dos meios de comunicação que formam redes digitais e através delas interagem.

Apesar da maioria dos entrevistados entenderem que é importante manter o celular conectado e junto a si, sendo a primeira coisa que realizam ao acordar é se conectar a internet, de acessarem a internet antes de dormir e entenderem que a internet é muito importante ou importante; 74% dos entrevistados percebem o smartphone como somente um aparelho ou um equipamento eletrônico utilizado na/para comunicação, sem perceberem e considerar a influência e condicionamento que exerce sobre o comportamento dos indivíduos.

Os dados da pesquisa deixam evidente a existência de uma sociedade digital e teremos que reconsiderar tudo o que sabíamos sobre o comportamento em sociedade, suas categorias e conceitos, porque o contexto atual é outro. A partir dessa constatação, podemos considerar que as redes sociais e o smartphone são mais que uma ferramenta ou equipamento, pois, influenciam e condicionam o comportamento dos indivíduos, das empresas, do trabalho, dos estudos, da cultura, da política, do lazer e dos meios de comunicação que formam redes digitais e, através delas, interagem.

11. CONCLUSÔES

Castells (2013) e Lévy (1999) entendem que, para termos condições de compreender o avanço tecnológico e o entendimento das ações no ciberespaço faz-se necessário estarmos abertos para receber novidades, tentando compreender os benefícios existentes nas mudanças, resultado das inovações tecnológicas nas redes de comunicação e sua influência na vida social e cultural. O desenvolvimento das tecnologias é o resultado de um conjunto de atividades técnicas, culturais e sociais, já que as novas tecnologias são produtos de uma sociedade e de uma cultura que busca uma melhor qualidade de vida.

As novas tecnologias da comunicação geram um dilúvio explosivo e caótico do crescimento exponencial das informações gerando conflitos, no entanto, quando os interesses convergem, as pessoas tendem a se associar para um resultado mutuamente satisfatório. O indivíduo e a sociedade são os responsáveis pelo formato dado a estas novas tecnologias.

Os conflitos são percebidos e se agravam com o crescimento do uso das tecnologias na produção, uma vez que a expansão do trabalho intelectual ocupa cada vez mais os postos de trabalho realizado com mão de obra física e estes são substituídos por robôs ou programas. É preciso reconhecer as consequências negativas do desenvolvimento, como as desigualdades socioeconômicas, em razão do desemprego e das condições de trabalho. As novas tecnologias podem automatizar ou mesmo eliminar estas funções, dado que exigem qualificação adequada para atender as profundas mudanças na forma de executar as atividades profissionais.

Outra fonte de conflito ocorre quando se percebe que, o que hoje parece correto e apropriado, amanhã pode muito bem se tornar fútil, fantasioso ou lamentavelmente equivocado. Confuso, o indivíduo exerce pressão sobre as decisões a serem tomadas pelas autoridades, ao individualizar sua forma de pensar e relativizar o seu entendimento dos acontecimentos, quebra assim a hierarquia estabelecidas nas instituições públicas ou privadas, sendo estas, desqualificadas e desacreditadas.

As novas tecnologias da comunicação tornaram o pensamento do passado inadequado ou irreal, agravando as relações sociais que são líquidas em razão da superficialidade e rapidez com que ocorrem na atualidade. Ao priorizar o desejo individual, sem um compromisso duradouro com o outro, fomenta o conflito e possibilita que as pessoas sejam manipuladas pelas mídias e pela sociedade de consumo.

Podemos supor, com base nos dados coletados e nos pressupostos dos autores estudados que, o excesso de informações divulgadas na internet, sem um entendimento adequado sobre elas e as constantes interações realizadas no mundo digital, propiciam a exacerbação dos conflitos quando, os dados criados e divulgados no mundo digital, influenciam e moldam o comportamento dos indivíduos e da sociedade.

Corroboro com Fukuyama (2000) que, a convivência social está cada vez mais desorganizada, atomizada, isolada e incapaz, é necessária a existência do capital social, que é um conjunto de normas informais, comuns aos indivíduos de uma sociedade que cooperam entre si, onde se espera que o outro se comporte de forma aceitável, confiável e reciproca. O desenvolvimento tecnológico modifica as formas de associação constantemente, levando a desconfiança nas instituições sociais e dos valores éticos. Ao fomentar a “Grande Ruptura” que é percebida na profunda mudança de valores que ocorre em todo o mundo, a mensagem do “sem limites” é problemática. Queremos romper regras que são injustas, irrelevantes ou ultrapassadas e procuramos maximizar a liberdade pessoal.

Podemos supor que a falta de entendimento sobre as mudanças promovidas pelo desenvolvimento tecnológico e econômico, possibilitam um conflito extremo, no momento em que o individuo perde suas certezas fixas, sua cultura e seus valores sem ter a condição de vislumbrar algo melhor.  Em razão das alterações que ocorre atualmente, de forma rápida, severa e constante que exclui postos de trabalho, eleva a desigualdade socioeconômica e de oportunidades, sem que o meio social acompanhe a velocidade das mudanças tecnológicas e econômicas.

Conforme a compreensão da informação recebida e da sua utilização, conflitos podem ser criados ou mesmo estimulados, já que as informações sofrem mudanças e transformações constantemente, o usuário que antes era o receptor das informações passa a ser o autor das mesmas. Oportuniza que os indivíduos desqualifiquem as instituições quebrando hierarquias, destruindo os limites culturais e geográficos, quando costumes e leis de um país não têm o mesmo entendimento em outro país.

É grande o desafio de saber como acomodar as novidades aos conceitos preexistentes em uma sociedade, uma vez que um dos agravantes para a causa de exacerbação do conflito é o radicalismo de grupos conservadores que desconhecem os possíveis benefícios do desenvolvimento tecnológico e temem as rápidas mudanças e avanços que ocorrem, dificultando uma ação cooperativa entre os indivíduos. Isto provoca uma crescente polarização entre os que acreditam e aceitam as mudanças e aqueles que a temem e querem garantir as coisas que acreditam e dominam. As pessoas precisam se abrir para o mundo, terem pensamentos e ações cosmopolizadas. Para as que têm a nação, a etnia ou a religião como uma verdade, seu mundo desmorona e desesperados tornam-se reacionários ao fundamentalismo religioso e nacionalista. O mundo no inicio do século XXI fica, delirante, inconsequente e esquisito.

As mudanças sociais que ocorrem de forma lenta e constante precisam de um longo período para se consolidar, logo não deveriam ser consideradas rupturas ou metamorfose, mas somente mudanças. Estas não ocorrem repentinamente e muito menos produzem algo que seja totalmente diferente do que foi anteriormente. Elas são decorrência dos conflitos e divergências nas relações entre os indivíduos na busca constante do que lhes é mais conveniente, para satisfazer os desejos particulares e atingir seus objetivos. Desta forma promovem mudanças e consequentemente o desenvolvimento econômico e tecnológico. É necessário que ocorram mudanças culturais para que os indivíduos compreendam e acompanhem as inovações que o desenvolvimento, principalmente das novas tecnologias, proporcionam em toda a sociedade.

12. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAUMAN, Zygmunt. 44 Cartas do Mundo Líquido Moderno. Tradução: Vera Maria Pereira, Rio de Janeiro: Ed. Zahar, 2011

BECK, Ulrich – A Metamorfose do Mundo: Novos conceitos para uma nova realidade. Tradução: Maria Luiza X. de A. Borges, Rio de Janeiro: ED. Zahar, 2018.

CASTELLS, Manuel. Redes de indignação e esperança – Movimentos sociais na era da Internet. Tradução: Rio de Janeiro: Ed. Zahar, 2013

FGV, Pesquisa Anual do FGVcia. São Paulo, SP, 08 de jun de 2020  https://portal.fgv.br/noticias/brasil-tem-424-milhoes-dispositivos-digitais-uso-revela-31a-pesquisa-anual-fgvcia   Acesso em: 08 de mar de 2021 as 13:35

FUKUYAMA, Francis. A Grande Ruptura: a natureza humana e a reconstituição da ordem social. Tradução: Nivaldo Montigelli, Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 2000.

G1, Globo.com, Bem Estar – Coronavírus. 17 de ago de 2020, Rio de Janeiro  https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/08/17/casos-e-mortes-por-coronavirus-no-brasil-em-17-de-agosto-segundo-consorcio-de-veiculos-de-imprensa.ghtml  . Acesso em: 17 de ago de 2020 as 9:43h.

GIDDENS, Anthony e TURNER, Jonathan (Orgs). Teoria Social Hoje; Tradução: Gilson Cesar Cardoso de Sousa. - São Paulo: Editora UNESP, 1999.

IBGE, Agência de Noticias,  PNAD Contínua TIC 2018: Internet chega a 79,1% dos domicílios do país. 29 de abr de 2020   https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/27515-pnad-continua-tic-2018-internet-chega-a-79-1-dos-domicilios-do-pais  acessado em  08 de mar de 2021 as 13:00

LATOUR, Bruno. Jamais Fomos Modernos. Tradução: Carlos Irineu da Costa. Rio de Janeiro: Editora 34, 1994

LÉVY, Pierre. Cibercultura. Tradução: Carlos Irineu da Costa. São Paulo: Editora 34, 1999. 260 p.

LÉVY, Pierre, Gestão Educacional. 18 de fev de 2013,  https://www.gestaoeducacional.com.br/internet-e-escola-de-maos-dadas/   Acesso em: 20 de nov de 2020 as 16:42

MAFFEI, Fabiana Agostini, Educação: Qualquer Coisa Me Ligue! - O Uso do Celular. Ijuí – RS, 2008   http://www.projetos.unijui.edu.br/matematica/capacitacao/capacitacao/ccpmem/fabiana/fabiana_comput.htm . Acesso em: 08 de mar de 2021 as 10:26

OPAS/OMS, Brasil,  Folha informativa  - COVID-19. 14 de ago de 2020, Brasília https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_joomlabook&view=topic&id=183 . Acesso em: 17/08/2020 as 9:14 h

PLATÃO, A república. Tradução: Maria Helena Da Rocha Pereira, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1987, 9ª Edição

SAÚDE, Ministério da, Coronavírus/Brasil. 8 de jan de 2021, Brasília   https://covid.saude.gov.br/ - Acesso em: 8 de jan de 2021 as 9:34

SIMMEL, G., A natureza sociológica do conflito, in Moraes Filho, Evaristo (org.), Simmel, São Paulo, Ática, 1983.

SCHWAB, Klaus. A quarta revolução industrial. Tradução: Daniel Moreira Miranda, São Paulo: Edipro, 2016

STUART, Mill John. Sobre a Liberdade - A Sujeição das Mulheres. Tradução: Paulo Geiger, Companhia das Letras, 2017

13. ANEXOS

Formulário de Pesquisa

Novas tecnologias e consequentes conflitos nas relações sociais, a racionalidade explica? Uso do smartphone e dependência.

Você está convidado (a) a responder este questionário anônimo que faz parte da coleta de dados do projeto de pesquisa monográfico intitulado, “Novas tecnologias e consequentes conflitos nas relações sociais, a racionalidade explica? Uso do smartphone e  dependência.” de responsabilidade do estudante Antonio da Paz Rosa Filho, do curso de Ciências Sociais da UFC, sob a orientação do Professor Dr. Valmir Lopes de Lima.

*Obrigatório

Endereço de e-mail *

_________________________________

TERMO DE CONSENTIMENTO O presente termo refere-se ao convite para participar e responder o questionário, em anexo, do projeto de pesquisa intitulado "Novas tecnologias e consequentes conflitos nas relações sociais; a racionalidade explica? Uso do smartphone e dependência." Caso você concorde em participar da pesquisa, leia com atenção os seguintes pontos: a) Você é livre para, a qualquer momento, recusar-se a responder às perguntas que lhe ocasionem constrangimento de qualquer natureza; b) você pode deixar de participar da pesquisa e não precisa apresentar justificativas para isso; c) sua identidade será mantida em sigilo; d) caso você queira, poderá ser informado (a) de todos os resultados obtidos com a pesquisa, independentemente do fato de mudar seu consentimento em participar da pesquisa. Estou ciente de que minha privacidade será respeitada e meus dados serão mantidos em sigilo. *

Sim

Não

PERFIL DO ENTREVISTADO

1 - Gênero: *

Feminino Masculino Outro:

2 - Renda individual: *

Sem Renda

Até R$ 1.903,98

De R$ 1.903,99 até R$ 2.826,65

De R$ 2.826,66 até R$ 3.751,05

De R$ 3.751,06 até R$ 4.664,68

Acima de R$ 4.664,68

3 - Idade: *

Até 14 anos

15 a 24 anos

25 a 39 anos

40 a 53 anos

54 a 64 anos

65 a 79 anos

80 nos ou mais

4 - Escolaridade: *

Fundamental incompleto Fundamental completo Médio incompleto

Médio completo

Superior incompleto

Superior completo

Pós-graduado

Doutorado

5 – Estado brasileiro em que você reside: *

6 - Qual (is) aparelho (s) que mais utiliza para acessar a Internet? (marcar até 2 opções) *

Smart TV

Tablet

Desktop ou Notebook Smartphone

Console de jogos Outros

7 – Ao acessar a Internet (São todas as formas de comunicação e troca de informações realizadas na rede mundial de computadores.), qual é a finalidade mais relevante? (marcar até 2 opções) *

Pesquisa Trabalho

Fonte de Informação Socialização/Redes Sociais Lazer

Outros

8 – Ao acordar, você imediatamente procura se conectar à Internet? *

Sim Não

9 – Antes de dormir, você tem o hábito de acessar a internet? *

Sim Não

10 - A quantidade de informações recebidas pela Internet é: *

Excessiva Ideal Insuficiente

11 - As informações disponíveis na Internet são confiáveis? *

Sim Não Talvez

12 - Você compartilha informações nas redes sociais/Internet? *

Sim Não

13 - Você confere a fonte ou origem das informações que recebe? *

Sim Não Talvez

14 - É importante para você ter sempre seu aparelho (Smartphone) conectado e junto de si? *

Sim Não

15 – Qual é a importância que você atribui à internet? *

Muito Importante

Importante

Pouco importante

Nenhuma importância

16 - Você percebe o seu aparelho eletrônico (Smartphone)? *

Como uma extensão do seu corpo

Como um aparelho (É um equipamento eletrônico utilizado na/para comunicação) Como um apêndice

Como um ser hibrido

Como um objeto (É um bem material percebido pelos sentidos)

[1] Disponível em: Mobile Future, 02 de abr de 2015,

https://twitter.com/molibefuture/status/583714794936672257/photo/1

[2] Disponível em: IBM, SPSS. Software IBM SPSS.

 https://www.ibm.com/br-pt/analytics/spss-statistics-software  


Publicado por: Antonio da Paz Rosa Filho

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do site por meio do canal colaborativo Monografias. O Brasil Escola não se responsabiliza pelo conteúdo do artigo publicado, que é de total responsabilidade do autor. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.
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