Topo
pesquisar

Fatores que têm influenciado a leitura e a produção de textos na internet

Computação

Os fatores que têm moldado o modo como a leitura e a escrita têm ocorrido na internet a partir de uma perspectiva da análise dos elementos textuais que mais são utilizados para propiciar o processo de captura da atenção do leitor.

índice

1. Resumo

Este artigo apresenta uma discussão teoricamente amparada sobre os fatores que têm influenciado a leitura e a produção de textos na internet. O avanço da tecnologia e, consequentemente, da internet tem provocado alterações diversas no modo como a interação textual ocorre, trazendo novos determinantes e ressignificando outros. A usabilidade – conceito que, a grosso modo, refere-se à facilidade de uso – tem norteado a estruturação de um texto no ambiente virtual para que ele seja bem lido pelo usuário da internet. Assim, faz-se de suma importância, por parte de um profissional que estuda necessariamente as manifestações da linguagem e, mais especificamente, do texto, uma análise mais bem fundamentada de como os usuários da língua têm se comportado diante da Web. Para que um texto nesse tipo de mídia seja lido e alcance o resultado esperado por quem o desenvolveu, ele precisa levar em consideração fatores característicos do modo como as pessoas leem hoje na web, isto é, deve ser um texto de fácil assimilação para todo tipo de público; deve ter, na grande maioria dos casos, uma linguagem mais direta e objetiva; deve priorizar parágrafos mais curtos e títulos mais convidativos e populares; além de buscar trazer a informação mais importante do texto logo no início, haja vista que, se o leitor achar que não encontrará a informação que precisa logo no início da leitura, ele pode abandonar a página. Este artigo aprofundará essas e outras questões inerentes à leitura e escrita na Web.

Palavras-chave: usabilidade, leitura na internet, escrita na internet, como escrever para a web.

2. Introdução

Com a difusão da tecnologia e os avanços no campo da informática, a internet tornou-se um dos maiores veículos de comunicação da atualidade. Essa realidade tem influenciado os mais diversos campos sociais, e isso não seria diferente com a produção de texto, haja vista os inúmeros gêneros digitais que têm se difundido para atender às novas demandas dos usuários da língua.

A internet tem delimitado uma série de novas relações, o que desencadeou o surgimento de novos determinantes para a produção e leitura de textos na rede. Para que um texto no ambiental virtual seja lido e capte a atenção o usuário, ele precisa atender a uma série de requisitos, desde determinações do Google para um texto ser bem “ranqueado” (aparecer nas primeiras páginas dos buscadores), análise do perfil do interlocutor, questões de linguagem, até uma estruturação estética que atraia esse leitor, tornando-o um usuário fixo e levando-o a atender certa demanda (navegar pelo site, comprar um determinado produto, aceitar uma determinada ideia, obter a informação que busca, entre outros).

Essa realidade tem provocado grandes mudanças em relação ao processo de escrita e leitura, uma vez que o autor, para conseguir seu objetivo, seja ele qual for, precisa preocupar-se em construir um texto próprio para o modo com as pessoas leem hoje na internet. Dessa forma, faz-se de suma importância um estudo em torno de como esses fatores têm influenciado a produção de texto e de que forma eles propõem alterações significativas no processo de escrita e leitura.

Assim sendo, realizar uma análise mais bem fundamentada sobre essa questão faz-se de suma importância. Primeiramente porque é uma realidade que bate à nossa porta e que promete tornar-se um dos principais palcos das interações sociais; em segunda instância, porque é preciso pensar a respeito de como isso afetará a escrita e a leitura, bem como a formação do profissional de Letras, que deve estar preparado para pensar a respeito de todo esse panorama que se desenha e também contribuir do ponto de vista de alguém que estuda necessariamente as manifestações linguísticas.

É um engano pensar que esses novos gêneros que aparecem na rede não trazem nada de “novo”, isto é, que ainda mantêm suas características originais – só que agora veiculados em uma nova mídia – e que não têm, portanto, nada a acrescentar para a produção de textos e para o entendimento dos processos de leitura. O texto publicado na internet não é uma mera “republicação” de um conteúdo impresso.

Atualmente, há um estudo muito fragmentado sobre os padrões para a produção de texto para a web. Em uma pesquisa rápida, encontram-se rapidamente guias para orientar donos de sites, blogs etc., sobre como “funciona” a comunicação na rede. Não há, no entanto, nada teoricamente amparado e que realize um estudo efetivo sobre a questão.

Algumas áreas do conhecimento têm buscado estabelecer esse tipo de estudo, mas são pouquíssimas as ocorrências. Profissionais da área da Comunicação ou de Tecnologia da Informação são os casos mais comuns. Há também alguns artigos ou estudos, por parte de profissionais da área da Linguística e da Educação, sobre questões pontuais da influência da internet na escrita e leitura, como o “internetês” e sua influência sobre a escrita dos estudantes; a questão dos gêneros digitais e do hipertexto; como os professores devem portar-se diante da web para torná-la um instrumento, e não um empecilho, no contexto de sala de aula, entre outros.

É curiosa, em contrapartida, essa certa “demora” no desenvolvimento de estudos mais abrangentes sobre essa questão, pois a internet tem provocado alterações nos processos de escrita e leitura necessariamente, pois esse é o meio de que ela dispõe para conectar interlocutores. O Google, por exemplo, o maior motor de busca existente, baseia-se em elementos textuais para fazer com que texto seja “achado” por quem procura pelo assunto.

Entre esses elementos textuais, podemos destacar questões concernentes ao design da página propriamente – fator já presente em outros textos também, mas que tem relevância crucial para a web, pois esta possui uma preocupação relevante com a

estética do texto com vistas a chamar a atenção e até facilitar que o interlocutor encontre o que procura. Essa estética concretiza-se com o uso do negrito, por exemplo, em palavras-chaves do texto; o modo como aparecem títulos, subtítulos e legendas; a disposição das imagens; a cor da fonte e dos links que levam a outros assuntos, o tamanho dos parágrafos, entre outros.

Além do trabalho com o design da página onde o texto se encontra, uma adequação da linguagem também é extremamente necessária. Normalmente, pessoas na rede buscam informação rápida, clara e precisa, sem delongas e obscuridades. Tudo deve ser de fácil assimilação. Faz-se também de suma importância uma análise do perfil do usuário que visita a página com o objetivo de oferecer exatamente o que ele precisa.

Todas essas adequações que ocorrem na estruturação do texto visam a atender a demanda da usabilidade, conceito que faz referência à facilidade de uso. O texto deve ser construído de forma a responder ao que o leitor busca. Um texto de difícil leitura, que não apresenta a informação buscada, possui delongas desnecessárias, entre outros fatores, pode fazer com que esse leitor abandone a página.

Neste artigo, proponho uma discussão teoricamente amparada sobre os fatores textuais que estão em evidência na elaboração e leitura de um texto veiculado pela internet. Em seguida, será feita uma análise de um questionário feito a professores que produzem textos para sites de Educação com vistas a atestar o que será levantando em toda a fundamentação teórica.

3. Fundamentação Teórica

Para realizar qualquer tipo de análise que se volte para os processos de leitura e escrita na internet, é necessário evidenciar primeiro alguns conceitos basilares da Linguística e outros ligados a outras áreas do conhecimento que têm somado à construção textual no contexto web. Este trabalho detém-se sobre os conceitos de Texto, Gênero Textual, Suporte e Mídia; Usabilidade e recepção de textos na internet.

3.1 Gênero, Suporte e Mídia

A interação comunicacional no ambiente da internet é possível graças a uma gama de processos e equipamentos que trabalham juntos para possibilitar a criação de um universo à parte das relações físicas. Assim, os mais diversos gêneros textuais são veiculados em um espaço próprio, que chamaremos de mídia. Essa mídia é possibilitada pela aparelhagem que constitui o computador, celular, tablet, entre outros aparelhos. Essa aparelhagem que permite a consolidação da mídia é o que entendemos como suporte.

Tendo isso em vista, fica clara a distinção que fazemos entre gênero, mídia e suporte, que, segundo Bonini, podem ser definidos como:

a) gênero – unidade da interação linguageira que se caracteriza por uma organização composicional, um modo característico de recepção e um modo característico de produção. Pode ser de natureza verbal, imagética, gestual, etc. Como unidade, equivale ao enunciado bakhtiniano; b) mídia – tecnologia de mediação da interação linguageira e, portanto, do gênero como unidade dessa interação. Cada mídia, como tecnologia de mediação, pode ser identificada pelo modo como caracteristicamente é organizada, produzida e recebida e pelos suportes que a constituem; e c) suporte – elemento material (de registro, armazenamento e transmissão de informação) que intervém na concretização dos três aspectos caracterizadores de uma mídia (suas formas de organização, produção e recepção). (BONINI, 2011, p.688)

Com base no raciocínio de Bonini, um exemplo claro de suporte seria a aparelhagem do computador; a mídia seria a internet; o site, um tipo de hipergênero; e os diversos textos que são apresentados pelos site, gêneros textuais. Vamos a cada um desses conceitos mais detalhadamente.

O suporte é o veículo material que possibilita o aparecimento da mídia e, por conseguinte, do gênero. De acordo com Bonini:

(...) entendo o suporte também como um portador de textos, mas defendo a tese da existência de duas formas de suporte: os físicos (o álbum,o outdoor, etc.) e os convencionados (o jornal, a revista, etc.). Essa posição (que revejo no presente artigo) pressupõe, conforme discutido em Bonini (2003), a existência de um contínuo que vai do gênero (como unidade da interação dialógica) ao suporte em sua forma mais característica (como portador físico). Em meio a esses dois pontos extremos, haveria a ocorrência de elementos híbridos que seriam, ao mesmo tempo, um gênero formado por outros gêneros (um hipergênero) e um suporte, sendo exemplos, entre outros, o jornal, a revista, o site. (BONINI, 2011, p.681)

Vale ressaltar que as diferenças entre esses conceitos configuram-se em uma linha muito tênue. O site, por exemplo, pode ser entendido como um hipergênero, por abrigar outros gêneros e relacionar-se com eles, e também como um suporte, por ser também um “portador de textos”.

A mídia, por sua vez, estabelece-se como o meio que possibilita a circulação dos diversos gêneros e hipergêneros e que delimita as características desses textos para atender seu público-alvo. Nesse ínterim, um texto sobre o mesmo tema terá diferentes abordagens a partir da mídia na qual está inserido. Ainda com base em Bonini:

A mídia constitui-se de um ou mais suportes e apresenta uma forma característica de organização, produção e recepção. Diferentemente do hipergênero, a mídia não é um grande enunciado, mas um continente para os enunciados. Ela dispõe os sujeitos e suas locuções numa determinada ordem espacial e temporal, fazendo o mesmo com os interlocutores. Por vezes, elas também apresentam gêneros organizadores (como é o caso das vinhetas nos canais de televisão). Gêneros e hipergêneros se ajustam às formas de produção e recepção possibilitadas pela mídia. O hipergênero pode preencher o todo de uma mídia (como é o caso do jornal, da revista), mas ele também pode ser apenas um grande enunciado em meio a outros em determinada mídia (a exemplo do telejornal e do programa de entrevistas na televisão). (BONINI, 2011, p.693)

A mídia, dessa forma, estabelece parâmetros para os gêneros textuais ligados a ela. Na internet, por exemplo, os textos devem atender às expectativas geradas pelos interlocutores nesse ambiente, o que está diretamente ligado ao modo como as pessoas escrevem e leem nesse contexto específico, pois há mudanças significativas de uma mídia para outra. Assim, uma notícia, por exemplo, não é escrita e nem lida da mesma forma na internet, na televisão e em um jornal impresso. Os tipos distintos de mídia alteram o modo de produção e leitura dos gêneros.

Uma mídia estabelece coordenadas (processos de edição, relações espaciais e temporais particulares entre interlocutores, etc.) às quais o gênero se ajusta, de modo que as várias versões de uma mesma notícia na televisão, no rádio, no jornal e na internet são coisas relativamente distintas em função do tipo de mediação linguageira a que estão sujeitas. Em oposição ao gênero, que é uma unidade da interação linguageira, a mídia é um elemento contextualizador no interior do qual o gênero circula. Mas não se trata de um elemento inócuo em relação ao gênero, uma vez que é a mídia que determina as coordenadas de cada gênero que nela circula. (BONINI, 2011, p.688)

A partir de um suporte e de uma mídia, temos aquilo que chamamos de hipergênero, que, como afirma Bonini, é:

– os gêneros, por vezes, são produzidos em agrupamento, compondo uma unidade de interação maior (um grande enunciado) que estou chamando de hipergênero. O jornal, nesse sentido, é um hipergênero, uma vez que ele responde às características propostas por Bakhtin (1953) para caracterizar o enunciado. Uma notícia é produzida em um jornal como parte de um grande enunciado, de modo que ela se relaciona necessariamente com os demais gêneros produzidos (com a chamada, com o editorial, com os artigos, etc.). Todo hipergênero, como o jornal, a revista, o site, apresenta um sistema de disposição dos enunciados que envolve gêneros organizadores (sumário, introdução, editorial, chamada, etc.) e gêneros de funcionamento (notícia, romance, tratado, entrevista, etc.). (BONINI, 2011, p.691)

Nesse sentido, um site poderia ser entendido como um hirpergênero porque abarca gêneros organizadores (home, chamadas e seções) e de funcionamento (artigos, notícias, comentários etc.).

Como o foco de estudo deste trabalho é a internet, é importante focalizar os aspectos diretamente perceptíveis nesse tipo de mídia, que, como salienta Bonini (2011), é um dos exemplos mais complexos e intrigantes da relação entre gênero, hipergênero e mídia.

Em relação ao gênero, trata-se do elemento que traduz o contexto sócio-histórico em que está inserido. O gênero responde às necessidades dos interlocutores e apresenta características relativamente estáveis. Segundo Sacchetto,

Falar em gêneros textuais é, acima de tudo, falar do sujeito construtor do texto e das situações comunicacionais que envolvem essa construção. Em outras palavras, o gênero pode ser definido por seus aspectos sociocomunicativos e funcionais, segundo os quais surgirá a pluralidade textual expressa nos diferentes gêneros, que advém da necessidade de o sujeito se expressar atendendo a objetivos específicos, visando a um público determinado e limitado por uma singular situação comunicativa. Segundo Luiz Antônio Marcuschi (2002), em seu texto Gêneros textuais: definição e funcionalidade, os gêneros são concebidos como fenômenos históricos profundamente ligados à vida social e cultural dos sujeitos. São flexíveis, dinâmicos e surgem a partir das necessidades dos homens, das atividades socioculturais e das inovações tecnológicas. (SACCHETTO, s/d, p.170)

O surgimento dos gêneros textuais está condicionado ao contexto, às situações de uso. Assim, a cada nova necessidade, o falante desenvolve meios diferentes de comunicar-se para atingir seus objetivos. Foi exatamente por essa razão que o advento da internet na última década exerceu influências sobre os processos de escrita e leitura. As relações sociais não estão, de nenhuma forma, desvinculadas da linguagem e, consequentemente, dos meios pelos quais ela se manifesta. O mundo virtual estabeleceu novas relações e necessidades aos usuários da língua.

A tela, como novo espaço de escrita, traz significativas mudanças nas formas de interação entre escritor e leitor, entre escritor e texto, entre leitor e texto e até mesmo, mais amplamente, entre o ser humano e o conhecimento. (...) a hipótese é de que essas mudanças tenham conseqüências sociais, cognitivas e discursivas, e estejam, assim, configurando um letramento digital, isto é, um certo estado ou condição que adquirem os que se apropriam da nova tecnologia digital e exercem práticas de leitura e de escrita na tela, diferente do estado ou condição – do letramento – dos que exercem práticas de leitura e de escrita no papel. (SOARES, ibid, p.146). (MAGNABOSCO, 2009, p.90)

Por essa razão, são inegáveis as consequências resultantes das novas formas de interação linguística que a internet tem promovido. Por ser um novo campo da interação social, tudo o que diz respeito à linguagem está sujeito aos novos parâmetros estabelecidos nesse contexto, haja vista que é o meio social que determina como a linguagem acontecerá.

3.2 O Texto e suas implicações

Seria incoerente e impreciso falar de suporte, mídia e gênero sem se voltar para o elemento-base que possibilita todo essa dinâmica: o texto. Com a virada pragmática, “os textos deixaram de ser vistos como produtos acabados, (...), passando a ser considerados elementos constitutivos de uma atividade complexa, como instrumentos de realização de intenções comunicativas e sociais do falante.” (KOCH, 2015).

Todo texto é produzido para um fim, para ser lido e entendido por um interlocutor. Portanto, de acordo com Koch (2015):

a enunciação é sempre movida por uma intenção de atingir determinado objetivo ilocucional. Para que este seja alcançado, faz-se necessário assegurar ao enunciatário as condições essenciais para que reconheça a intenção e realize o objetivo visado. Para tanto, o enunciador realiza atividades linguístico-cognitivas com o intuito de garantir a compreensão e estimular, facilitar ou causar a aceitação. Da parte do enunciatário, é preciso que ele compreenda o objetivo fundamental do enunciador, o que depende da formulação adequada da enunciação, para que se decida a aceitar (ou não) colaborar na realização de seu objetivo e mostrar a reação desejada. (KOCH, 2015, p. 31)

Assim sendo, nenhum texto pode ser desenvolvido sem se levar em conta a sua recepção, isto é, aqueles que receberão a mensagem proposta. Nesse ínterim, cada texto é desenvolvido a partir de um processamento estratégico para atingir o leitor, para que ele entenda o que está sendo apresentado, como salienta Koch:

Falar em processamento estratégico significa dizer que os usuários da língua realizam simultaneamente, em vários níveis, passos interpretativos finalisticamente orientados, efetivos, eficientes, flexíveis, tentativos e extremamente rápidos; fazem pequenos cortes no material entrante (incoming), podendo utilizar somente informação ainda incompleta para chegar a uma (hipótese de) interpretação. (KOCH, 2015, p. 38)

Ao mesmo tempo em que ocorre um processamento estratégico na produção do texto por parte do enunciador, também acontece outro processamento interpretativo por parte daquele que lê a mensagem. É nesse contexto que o texto evidencia-se como um local de interação entre os usuários da língua.

Portanto, na concepção interacional (dialógica) da língua, na qual os sujeitos são vistos como atores / construtores sociais, o texto passa a ser considerado o próprio lugar de interação e os interlocutores, sujeitos ativos que - dialogicamente - nele se constroem e por ele são construídos. A produção de linguagem constitui atividade interativa altamente complexa de produção de sentidos, que se realiza, evidentemente, com base nos elementos linguísticos presentes na superfície textual e na sua forma de organização, mas que requer não apena a modificação de um vasto conjunto de saberes (enciclopédia), mas a sua reconstrução - a dos próprios sujeitos - no momento da interação verbal,. (KOCH, 2015, p. 38)

Em Introdução à Linguística Textual, Ingedore Villaça Koch lança luz sobre alguns aspectos fundamentais para a produção de sentidos em um texto e que são muito pertinentes ao foco deste trabalho. Assim, é interessante falar sobre alguns princípios de textualidade que não podem ser deixados de lado em uma análise sobre a construção de textos para a internet.

Ao falar sobre os fatores que estão relacionados com a coerência de um texto, Koch cita: situacionalidade, informatividade, interxtualidade, intencionalidade e aceitabilidade. Aqui, interessa-nos três:

  • Situacionalidade

Em se tratando de textos para a web, a avaliação da situacionalidade é fundamental, haja vista que quem escreve deve fazê-lo de forma a atender o mais variado tipo de público. Segundo Koch,

a situacionalidade refere-se ao conjunto de fatores que tornam um texto relevante para uma situação comunicativa em curso ou passível de ser reconstruída. Trata-se, neste caso, de determinar em que medida a situação comunicativa, tanto o contexto imediato de situação como o entorno sócio-político-cultural em que a interação está inserida, interfere na produção/recepção do texto, determinando escolhas em termos, por exemplo, de grau de formalidade, regras de polidez, variedade linguística a ser empregada, tratamento a ser dado ao tema etc. (KOCH, 2015, p. 49)

Por essa razão, um texto não pode ser formal e denso demais ou, em contrapartida, muito atrelado ao senso comum. A intenção é agradar os variados tipos de público-leitor.

  • Informatividade

A informatividade diz respeito ao modo como a informação em um texto é veiculada, exercendo, pois, importante papel na seleção e arranjo dos componentes textuais. Como afirma Koch:

Quanto à distribuição da informação, é preciso que haja um equilíbrio entre informação dada e informação nova. Um texto que contenha apenas informação conhecida caminha em círculos, é inócuo, pois falta-lhe a progressão necessária à construção do mundo textual. Por outro lado, é cognitivamente impossível a existência de textos que contenham unicamente informação nova, visto que seriam improcessáveis. (KOCH, 2015, p. 50)

Esse fator é pertinente, no contexto da web, porque se faz necessário um cuidado maior com o modo como um conteúdo é passado, pois, não pode ser algo difícil demais para o leitor nem trivial em demasia.

  • Aceitabilidade

Todo texto é produzido para alguém. Assim, para aqueles que escrevem na internet, é necessária uma preocupação com o modo como o texto é construído para que este seja “aceito” pelo receptor. Apesar de ser essa uma preocupação revelante para todos os contextos de produção de texto, na internet, isso se faz elementar, pois pode refletir no índice de rejeição, isto é, por que um texto não é lido. Para Koch,

Em sentido restrito, a aceitablidade refere-se à atitude dos interlocutores de aceitarem a manifestação linguística do parceiro como um texto coeso e coerente, que tenha para eles algumas relevância. Deste modo, mesmo que o tenho contenha incoerências locais ou pareça a princípio incoerente, o leitor / ouvinte fará o possível para atribuir-lhe um sentido.(KOCH, 2015, p. 51)

A noção de aceitabilidade, conceito próprio da Linguística Textual, está diretamente relacionada com a usabilidade, que será mais bem explanada logo a seguir. O fato de um texto ser bem aceito por um leitor resulta da facilidade de uso (usabilidade) desse mesmo texto.

Em razão da dinamicidade proporcionada pela WEB, um texto superficial, com leitura dificultada ou enfadonha, entre outros fatores que comprometem a leitura, pode ser facilmente trocado por outro. Dessa forma, se o usuário encontra dificuldade para obter o que motivou sua busca (falta de usabilidade), ele abandonará o texto e buscará outro.

3.3 Usabilidade: a demanda da Web para a produção de textos

No ambiente virtual, o modo como se efetiva a estruturação do texto possui relevância sem igual, pois, faz-se patente a “usabilidade”, um conceito que, a grosso modo, refere-se à facilidade de uso do usuário (leitor). No livro “Como escrever para a Web”, Guilherme Franco destrincha esse conceito mais detalhadamente:

Como esta definição (usabilidade) pode soar abstrata para um leitor médio, neste documento nos permitiremos – com propósito pedagógico - reduzi-la à de “palavra que descreve a facilidade de uso”. O conceito pode ser aplicado a uma ampla variedade de produtos e serviços, como software, hardware, websites, controles remotos de eletrodomésticos e até a qualidade dos textos. O conceito de facilidade de uso de um texto não se refere à complexidade do tema, mas à forma como está estruturado. Ao ser questionado sobre por que é importante a usabilidade, Jakob Nielsen, conhecido como o ‘guru’ da usabilidade, responde: “Na Web, a usabilidade é condição necessária para a sobrevivência. Se um website é difícil de usar, os leitores o abandonam. Se a página inicial falha em mostrar claramente o que os usuários podem fazer no website, eles o abandonam. Caso os usuários se percam num website, eles o abandonam. Se a informação do website é difícil de ler ou não responde às perguntas-chave dos usuários, eles o abandonam.” (FRANCO, s/d, p. 27)

É justamente essa busca por usabilidade que deve nortear a produção de texto para a Web. Tudo que envolve a estrutura do texto pode comprometer ou contribuir para “conquistar” o leitor/usuário - a linguagem do texto, se mais clara ou obscura; os subtítulos presentes no corpo do texto para apresentar melhor do que se está falando; as palavras em negrito; frases longas ou curtas; objetividade ou delongas; o aspecto visual do texto na página; tamanho dos parágrafos; entre outros tantos fatores que se voltam necessariamente para a construção textual e que fazem o texto ser lido ou rejeitado pelos usuários.

O Google, o maior motor de buscas existente, baseia-se em diversos elementos textuais para fazer com o que texto seja “achado” por quem procura pelo assunto. Para que os textos estejam nas primeiras páginas de busca do Google, é necessário que ele atenda a algumas determinações desse motor de busca e a maioria delas volta-se para a organização textual, como aponta Guilherme Franco:

Vale perguntar se existe relação entre a forma de escrever e a posição de um texto dentro do ‘ranking’ de um mecanismo de busca como o Google. Calcula-se que o site leva em conta mais de 200 elementos associados à estrutura do texto. Então, a resposta simples é, sim, existe. (FRANCO, s/d, p.82)

Fica evidente a importância da organização estrutural do texto em si para o contexto web. Mesmo diante dos inúmeros recursos que um computador pode oferecer, o texto ainda é o que rege o sucesso da interação entre interlocutores.

3.4 O comportamento do Leitor na internet

No livro Como escrever para a Web, Guilherme Franco levanta questões importantes sobre o modo como devem ser estruturados os textos para o padrão imposto pela internet com base em alguns fatores ligados ao comportamento do leitor.

Existe um mito de que a leitura nesse contexto costuma ser mais superficial, isto é, que, normalmente, um usuário não lê todo o texto, assimilando apenas aquilo que lhe é de interesse instantâneo. Essa é a primeira ideia combatida por Franco a partir de uma pesquisa feita pelo Eyetrack07, estudo realizado pela Poynter Institute, Centro de Pesquisa em Educação e Jornalismo com sede na Flórida, Estados Unidos, que avaliou o nível de profundidade de leitura em um experimento em que óculos especiais registravam o movimento dos olhos dos participantes diante da tela de um computador.

Não pare agora... Tem mais depois da publicidade ;)

De acordo com essa pesquisa, ao contrário do que a maioria das pessoas acredita, as pessoas na internet leem, na verdade, com mais profundidade do que aqueles que leem edições impressas.

De acordo com os pesquisadores, os participantes online do Eyetrack07 leram 77% do texto que escolheram Essa cifra é alta se for comparada com o que leram os participantes dos formatos impressos em formato standard, 62%, e os do tabloide 57%. Os pesquisadores estabeleceram que esse comportamento - maior leitura online do que impressa - não dependia do tamanho dos textos. Também estabeleceram que os leitores online tendiam a completar a leitura dos textos selecionados mais do que os leitores do impresso: 63%, comparado com 40% em standard e 36% em tabloide. (FRANCO, s/d, p.29)

Nesse contexto, o que é realmente importante não é se o leitor lê mais na internet ou não - apesar de que a ideia de que ele lê de forma mais superficial nesse espaço já ter sido comprovada como um equívoco, mas, sim, como atrair esse usuário para que ela permaneça no texto e não abandone a página. Alguns elementos textuais podem facilitar ou prejudicar esse processo, a saber:

  • A barreira dos parágrafos

Geralmente, os leitores no ambiente da internet possuem certa rejeição a parágrafos muito longos. Isso acontece principalmente porque, em razão da comunicação mais instantânea, o usuário buscar identificar logo o que ele precisa e não quer ter que realizar um árduo exercício de leitura para encontrar a informação buscada.

“Na pesquisa, os parágrafos mais curtos tiveram melhor desempenho que os maiores. Nossos dados revelaram que textos com parágrafos curtos recebiam o dobro de atenção visual que aqueles com parágrafos mais longos. O formato de parágrafos longos parece desestimular sua observação”, dizem Steve Outing e Laura Ruel. (FRANCO, s/d, p.29)

Em grande partes dos casos, o usuário entra na página por uma informação específica e, se o texto atraí-lo, ele permanece na página. Parágrafos muito longos dificultam esse processo.

  • Texto escaneável

Um fator muito importante para os textos produzidos para a internet é a parte estética, isto é, a primeira impressão do texto. Nesse momento, o leitor precisa identificar, de forma efetiva e rápida, do que o texto trata. Assim, ao fazer uma leitura rápida e pontual, uma espécie de escaneamento mesmo, o usuário precisa identificar a informação que ele busca, bem como o foco principal do texto.

Ao comentar os resultados da pesquisa Poynter de 2000 (Eyetracking Study of the Web Readers), Jakob Nielsen dizia algo que pode ser aplicado aos resultados do EyeTrack07: “O comportamento mais comum é caçar informação e ser brutal em ignorar detalhes. Mas, depois que a presa foi pega, os usuários algumas vezes mergulharão mais profundamente. Assim, o conteúdo da Web precisa dar suporte a ambos os aspectos do acesso à informação: busca e consumo. Os textos precisam ser escaneáveis, mas também devem dar as respostas que o usuário busca”. Dito de outra maneira: para Nielsen, escanear é o comportamento dominante, e não a leitura detalhada. Mesmo quando ocorre a leitura, ela prossegue só depois de o usuário ter escaneado uma seção específica que contém informações importantes. (FRANCO, s/d, p.39)

Para tornar o texto escaneável, é necessário realizar um trabalho de rompimento da uniformidade da página por meio de subtítulos e destaque das palavras-chave com negrito, por exemplo. Com esse tipo de estruturação, o usuário identificará mais facilmente o assunto do texto.

  • Pirâmide Invertida

Em outras produções textuais, como trabalhos acadêmicos, as informações mais importantes são deixadas para o fim. Na maioria dos textos, é necessária uma introdução que apresente o tema e também uma espécie de contextualização. Essa organização comum, no ambiente da internet, não funciona tão bem. A informação mais importante deve estar logo no início do texto para que o usuário não desista da leitura e vá à outra página.

Utilizar a estrutura de pirâmide invertida, na definição tradicional, significa começar o texto com a informação mais importante e depois prosseguir na ordem decrescente de importância. Nielsen descreve a estrutura de uma forma sutilmente diferente: “Comece o artigo contando a conclusão aos leitores, siga com a mais importante informação de apoio e termine dando contexto. Esse estilo é conhecido como pirâmide invertida pela simples razão de que vira do avesso o estilo tradicional de pirâmide”. (FRANCO, s/d, p.53)

Esse processo é positivo por dois aspectos: se o usuário não concluir a leitura até o fim, ele já possuirá a informação principal; a segunda questão é que se ele já encontra o que procura no início, há mais chances de continuar na página.

  • A influência dos títulos

Em todos os contextos, os títulos servem como chamariz para os textos. Para os textos feitos para a WEB, eles têm ainda maior relevância, pois devem traduzir a forma como, normalmente, a maior parte dos usuários busca por um assunto. Assim sendo, os títulos devem ser simples, diretos e falarem por si próprios. Títulos muito rebuscados ou que exigem muitas inferências para serem entendidos devem ser evitados.

Nas páginas iniciais, resultados de buscas, canais RSS, boletins enviados por e-mail ou até no menu de favoritos de um navegador, os títulos aparecem descolados do contexto – ou seja, não têm material no entorno para facilitar sua interpretação. Por exemplo, outros textos em forma de resumo, textos destacados, fotos ou gráficos. Por esse motivo, propõe Nielsen, devem adquirir sentido e explicar-se por si próprios. (FRANCO, s/d, p.71)

As diretrizes de titulação expostas até este ponto excluem a utilização de títulos que pretendam ser divertidos, ‘grandes sacadas’ ou trocadilhos. Dizendo de outra maneira: seja direto e eficiente. Essa também é a proposta de Marion Lewenstein, professora de comunicação da Universidade de Stanford, que participou da pesquisa EyeTrack II. Segundo ela, um excesso de estética pode afugentar os usuários da Web, que só desejam saber se vale a pena ler uma matéria. (FRANCO, s/d, p.79)

Situações muito comuns são títulos que prezam, por exemplo, pelo nome científico original, isto é, ao falar de “uma manifestação de piolhos”, por exemplo, o autor intitula seu artigo como “Pediculose” (termo científico para o problema). O entrave, nesse caso, é que a grande maioria da população, ao fazer uma busca no Google sobre o assunto, dificilmente optará pelo nome mais rebuscado, mesmo que seja o mais adequado.

4. Metodologia

Foi realizada uma pesquisa qualitativa para conseguir efetuar uma análise mais bem fundamentada sobre o objetivo de estudo, isto é, os fatores que têm influenciado a leitura e produção de textos na web. Segundo Neves:

A expressão "pesquisa qualitativa" assume diferentes significados no campo das ciências sociais. Compreende um conjunto de diferentes técnicas interpretativas que visam a descrever e a decodificar os componentes de um sistema complexo de significados. Tem por objetivo traduzir e expressar o sentido dos fenômenos do mundo social; trata-se de reduzir a distância entre indicador e indicado, entre teoria e dados, entre contexto e ação (MAANEN, 1979a, p.520). Em sua maioria, os estudos qualitativos são feitos no local de origem dos dados; não impedem o pesquisador de empregar a lógica do empirismo científico (adequada para fenômenos claramente definidos), mas partem da suposição de que seja mais apropriado empregar a perspectiva da analise fenomenológica, quando se trata de fenômenos singulares e dotados de certo grau de ambiguidade (NEVES, 1996, p.1).

O instrumento de coleta de dados consistiu na elaboração de um questionário para professores da Rede Omnia (empresa que administra os maiores portais de Educação do Brasil) que trabalham com a produção de conteúdo para a internet com vistas a identificar os desafios e o padrão que eles seguem para desenvolver os textos.

4.1 Sujeitos da pesquisa e situação da coleta de dados

Os sujeitos da pesquisa foram professores graduados em áreas distintas que trabalham para a empresa Rede Omnia com produção de conteúdo para a internet. A Rede Omnia é a empresa proprietária dos maiores sites de educação do país. O site Brasil Escola, por exemplo, recebe cerca de 21,8 milhões de visitas mensais e possui cerca de 34 milhões de pageviews1 (páginas vistas no site). Fundada em Goiânia, em 2000, hoje desenvolve e administra os sites do grupo voltados para a área de educação, como o Brasil Escola, Mundo Educação, História do Mundo, Português, entre outros.

Aos professores foi dado um questionário, que poderia ser respondido em casa, para delimitar os aspectos que influenciam o modo como esses professores escrevem para a Web.

5. Análise de Dados

Foram feitas oito perguntas aos professores da Rede Omnia sobre o trabalho desenvolvido em relação à produção de textos on-line, a saber:

Questão 1 - Você vê muitas diferenças entre o texto que você produz para internet e o texto que produz para outros meios?

Questão 2 - Quais são as maiores dificuldades encontradas para elaborar um texto para a internet?

Questão 3: Você acredita que o design (cor da página, tamanho da fonte, publicidades, layout, etc.) da página onde o seu texto se encontra na web pode influenciar o modo como seu texto vai ser lido? Por quê?

Questão 4 - Quais são as adequações de linguagem que você normalmente faz quando produz um texto?

Questão 5 - Em relação ao conteúdo, que tipo de adequações são feitas na hora de passar o que você sabe para texto que vai para a web?

Questão 6 - Em sua experiência, o que não “funciona” de forma nenhuma para um texto para a web?

Questão 7 - Em sua experiência, há algum padrão que você utiliza que normalmente tem um bom retorno por parte dos usuários?

Questão 8 - Você acredita que palavras-chave negritadas, subtítulos, títulos chamativos ou populares podem mudar o modo como o seu texto é lido? Por quê?

A primeira pergunta do questionário voltou-se para as possíveis diferenças entre o texto on-line e o texto produzido para outros meios. As respostas foram:

Professor A: Existem várias diferenças entre os textos produzidos para internet e aqueles que produzo para outros meios. A principal diferença está na explicação detalhada, em textos para internet, dos termos utilizados. Em textos científicos, o conteúdo é explicado de forma mais direta e utilizando linguagem mais formal e técnica.

Professor B: Sim. O texto produzido para internet, sobretudo para os sites de conteúdo educacional, exige uma linguagem mais direta e dimensões geralmente menores que um texto acadêmico, por exemplo.

As duas respostas selecionadas salientam que a diferenciação entre texto on-line e outros textos existe, sim, e destacam a questão da linguagem, que, em textos para a internet, deve ser mais direta e clara, longe dos jargões dos textos acadêmicos, por exemplo. Essa ocorrência atesta o que afirma Koch (2015): “o enunicador realiza atividades linguístico-cognitivas com o intuito de garantir a compreensão e estimular, facilitar ou causar a aceitação.”

A segunda questão tentou evidenciar as dificuldades encontradas para a elaboração de textos para a internet.

Professor A: Para elaborar um texto para internet, é preciso pensar em maneiras de deixá-lo acessível para todos os públicos. Entretanto, é fundamental não deixar o texto pobre em conteúdo. Outro ponto importante é considerar que o leitor não possui conhecimento prévio sobre o tema e tentar explicar aqueles pontos fundamentais, mesmo que, muitas, vezes, pareça óbvio para quem é especialista no assunto.

Professor B: Como dito na resposta anterior, o texto escrito para a internet exige linguagem e tamanho precisos. E as principais dificuldades que se me apresentam quando estou escrevendo estão relacionadas com isso. A internet tem como suporte a tela (seja o visor de um celular ou o monitor de um computador), que emite luz e cansa os olhos. Se o texto for grande demais ou muito difícil (a ponto de exigir repetidas leituras), o leitor acabará desistindo dele e partirá para outros, mais precisos. A precisão em combinar bom conteúdo de forma sucinta é a principal dificuldade.

Professor C: As dificuldades em elaborar um texto são: não fazer um texto longo e cansativo; ser direto na informação; escrever de forma clara e utilizar uma linguagem que chame a atenção.

Nas respostas obtidas, três aspectos chamam a atenção: a preocupação em tornar o texto acessível para todo tipo de público; a preocupação com o tamanho do texto para que a leitura não seja cansativa ou muito difícil; e a dificuldade em apresentar um bom conteúdo de forma sucinta. Todos esses aspectos atestam o que afirmou Koch (2015) sobre informatividade e situcionalidade, isto é, “quanto à distribuição da informação, é preciso que haja um equilíbrio entre informação dada e informação nova.”, e “em sentido restrito, a aceitabilidade refere-se à atitude dos interlocutores de aceitarem a manifestação linguística do parceiro como um texto coeso e coerente, que tenha para eles algumas relevância.”

A terceira questão busca respostas sobre a influência do design (cor da página, fonte, publicidade etc.) sobre o modo como o texto será lido.

Professor A: Todo o design influencia no modo como o texto é visto. Páginas carregadas de anúncios e cores que causam cansaço visual logo são abandonadas pelos leitores. Além disso, o tipo de fonte escolhida pode influenciar na leitura, sendo que alguns estudos sugerem ainda que o tipo de fonte ajuda ou dificulta a compreensão do conteúdo de um texto.

Professor B: Sim. Se o design do site for mal feito, com má diagramação, fonte minúscula, fundo mal trabalhado, o leitor sequer vai dar atenção ao que está lá publicado, mesmo que o conteúdo seja excelente. O modo como o site está construído influi decisivamente na leitura de qualquer conteúdo. E ainda há que se destacar que o design do site também deve se adequar ao conteúdo oferecido: se é um site de conteúdo educacional, que tenha uma plataforma relacionada a isto, se é um site de crítica cinematográfica, idem.

A partir das respostas, é inegável a influência que os fatores de design, propriamente, possuem em relação à leitura de um texto. Assim sendo, esse cuidado estético em relação ao modo como o texto será apresentado é de suma importância, haja vista que, em ambientes on-line, mais do que em outros suportes e mídias, esse fator pode, até mesmo, desencorajar a leitura e impedir o sucesso da interação.

Sobre as adequações linguísticas, tema da quarta questão, houve os seguintes apontamentos:

Professor A: As principais adequações dizem respeito ao leitor. Quando o público é infantil, por exemplo, a linguagem deve ser o mais simples possível.

Professor B: Normalmente, procuro “limpar” o texto de jargões acadêmicos e esmiuçar o peso dos conceitos (que são geralmente um lugar comum na academia) em explicações mais fáceis, em linguagem corrente, menos densa, mas sem perder a profundidade. Também procuro segurar a atenção do leitor logo no primeiro parágrafo, apresentando o tema de forma geral mas sem “entregar tudo”, porque o leitor precisa continuar a leitura e ficar mais tempo no site.

Professor C: Sempre procuro respeitar a linguagem científica, porém utilizando termos informais para facilitar o entendimento.

Reiterando o que já foi salientado na primeira questão, as adequações de linguagem buscam tornar o texto de mais fácil leitura, alcançando, assim, todo e qualquer leitor. Na resposta dada pelo Professor B, um aspecto merece atenção. Ele diz: “Também procuro segurar a atenção do leitor logo no primeiro parágrafo, apresentando o tema de forma geral mas sem “entregar tudo”, porque o leitor precisa continuar a leitura e ficar mais tempo no site.” Essa prática não se contrapõe ao que é proposto pela “Pirâmide Invertida”, isto é, mostrar a informação mais importante primeiro, mas revela um trabalho ainda mais apurado em relação a isso, um estratagema para ganhar o leitor.

O assunto da quinta pergunta volta-se para as adequações que podem ser feitas em relação ao conteúdo quando se escreve para a web. A isso os professores responderam que:

Professor A: Na maioria das vezes, o conteúdo deve ser simplificado para atender ao público do site. Termos muito técnicos normalmente não são colocados e, quando aparecem, são acompanhados das explicações.

Professor B: Em se tratando de conteúdo, o importante é procurar transpor para uma linguagem acessível as informações mais elementares do tema tratado, combinadas com aquilo que se debate na universidade, haja vista que o professor precisa estar e se mostrar atualizado. Essa transposição pode ser feita por meio de apresentações de teses de determinados autores em termos simples, sem jargões, de modo a mostrar ao leitor como um tema pode ter muitas interpretações diferentes. Quando há a necessidade de esclarecimentos pontuais, estes podem feitos em pequenas notas de rodapé ou observações, desde que não comprometam a estrutura do texto.

Professor C: Com relação ao conteúdo, quando escrevo um texto para a web, busco sempre trabalhá-lo relacionando com algo real ou prático (exemplo) para facilitar o entendimento.

Mais uma vez a questão da adequação da linguagem aparece. A partir das respostas obtidas, é possível perceber que há um árduo trabalho em apresentar um bom conteúdo por meio de uma linguagem acessível. No senso comum, é muito comum a ideia de que, normalmente, os textos produzidos para a internet não são tão confiáveis em relação ao conteúdo propagado. Todavia, a partir das respostas dadas pelos professores, é possível inferir que há, sim, uma preocupação com o conteúdo – pelo menos por parte desses autores –, mas esse fator deve estar aliado – e, muitas vezes, limitado, a uma linguagem que torne o texto compreensível para todo tipo de público.

A sexta pergunta buscou identificar um padrão de texto que não recebesse uma boa recepção por partes dos usuários on-line. As considerações dos professores foram:

Professor A: Textos muito longos sem destaque das palavras-chave e com poucas figuras normalmente são criticados pelos leitores.

Professor B: Prolixidade, por um lado. E, por outro, falta de cuidado com o conteúdo. Um texto longo demais, com muitos rodeios, que não tem foco certo, não ganha a atenção dos leitores. Tampouco um texto que não apresenta nada, que joga informações duvidosas, de forma desordenada.

Professor C: O que não funciona de forma alguma na WEB, na minha opinião, são textos com parágrafos longos e/ou sem exemplos que ilustram a teoria.

A partir das respostas, há, sim, diversos fatores que não funcionam bem para textos da internet. Entre eles, prolixidade, parágrafos e textos muitos longos, falta de exemplicações, entre outros. Esse panorama reflete a necessidade do conceito de usabilidade para a produção de texto, ou seja, este deve ser fácil para o seu interlocutor. “Se a informação do website é difícil de ler ou não responde às perguntas-chave dos usuários, eles o abandonam.” (FRANCO, s/d, p.27)

Na contramão da sexta questão, a sétima busca identificar um padrão de texto que seja bem recebido pelos usuários. Os apontamentos dos professores foram:

Professor A: Não existe um padrão para textos, pois cada assunto tem sua particularidade que pode ou não se adequar a um padrão. Alguns assuntos podem ser explicados usando tabelas, por exemplos, outros não. Assim como na sala de aula, é necessário buscar métodos que ajudem na assimilação do conteúdo.

Professor B: Não saberia dizer ao certo. Acho que não há um padrão (no sentido de “fórmula”) para que os textos produzam maior impacto sobre os leitores, em se tratando de produção para internet. Mas há que ser direto. O leitor não quer sentir que está perdendo tempo.

A partir das respostas, é possível concluir que não há um padrão de “bom” texto para a Web, mas esse texto também não pode deixar de considerar todos os demais aspectos já levantados.

A oitava questão salienta a importância da organização estrutural estética do texto, isto é, a elaboração de um projeto de texto que, a partir de certos recursos (palavras-chave negritadas, subtítulos, títulos chamativos ou populares) ligados à imagem textual, chame a atenção do leitor. As respostas foram:

Professor A: Todas as características citadas podem alterar a forma como o texto é lido. Ao destacar as palavras-chave e criar subtítulos, o leitor consegue rapidamente identificar se naquele texto ele encontrará o que procura. Já os títulos populares fazem com que mais pessoas acessem o texto e não apenas estudantes realizando trabalho, por exemplo.

Professor B: Podem sim. Estes recursos de formatação, além de deixar o texto visualmente mais organizado, ajudam a direcionar a leitura – claro que tudo precisa ser bem empregado, senão a atenção do leitor é encaminhada para pontos difusos do texto, o que acaba comprometendo o entendimento.

Professor C: Eu faço muito o uso de palavras ou títulos destacados porque acredito que favorece o encontro de informações de forma mais rápida pelo usuário.

A questão do rompimento da uniformidade do texto por meio de subtítulos e destaque de palavras-chave em negrito, sem dúvidas, faz total diferença para um bom projeto de texto on-line. Tornar o texto escaneável, como já salientado, permite que o leitor possa identificar, em uma primeira impressão, os principais tópicos do texto e se este, portanto, interessa-lhe.

Em relação aos títulos, estes podem ser o diferencial para tornar um texto “achável” no Google, haja vista que, ao lançar mão de títulos que falem por si próprios e sejam mais claros, mais populares entre as pessoas, há mais chances de o usuário encontrar o texto. Títulos difíceis, vagos ou rebuscados em demasia podem afastar totalmente o leitor, que, provavelmente, não conseguirá identificar o assunto do texto apenas lendo o título. Na internet, a questão da primeira impressão é fundamental.

6. Considerações Finais

Este trabalho buscou desenvolver uma análise dos fatores que têm moldado o modo como a leitura e a escrita têm ocorrido na internet a partir de uma perspectiva da análise do texto. Apesar de ser um assunto que está diretamente ligado ao texto, no universo acadêmico do curso de Letras, pouco se tem discutido sobre esse assunto.

O grande motor de todas as mudanças que têm delimitado o modo como as pessoas escrevem e leem hoje na internet é a usabilidade, isto é, o trabalho constante em tornar o texto fácil para o usuário, isto é, responder satisfatoriamente ao que usuário busca.

Para tornar a usabilidade uma realidade, aqueles que têm produzido textos para internet têm lançado mão de elementos inerentes à organização estrutural do texto. O objetivo é que não haja entraves para que o leitor encontre o que ele está buscando. Logo, é necessário um trabalho diferenciado em relação à aparência estética desse texto em um site, por exemplo, isto é, tudo que é visível na página deve apontar para o assunto do texto, em um processamento estratégico que seja facilmente identificável pelo leitor.

Entre os elementos textuais que mais são utilizados para propiciar esse processo de captura da atenção do leitor, podemos destacar o trabalho com títulos mais populares e menos rebuscados; a preocupação com a linguagem do texto para que seja clara e direta, sem delongas e rodeios; a organização das informações do texto em uma hierarquização em que o que é mais importante apareça primeiro; a tentativa de rompimento da uniformidade do texto para torná-lo escaneável em uma rápida leitura; e, por fim, uma preocupação com o tamanho dos parágrafos para evitar uma leitura que seja cansativa e dispensável.

A partir do que foi visto pela pesquisa, talvez o fator que mais diferencie o texto on-line do texto veiculado em outras mídias, seja a questão da “Pirâmide Invertida”, isto é, a estruturação do texto de forma que a informação mais importante esteja em primeiro plano. Normalmente, nas demais manifestações textuais, as colocações mais essenciais são deixadas mais para o fim. Na internet, isso não pode acontecer porque o usuário não quer sentir que está perdendo tempo e, assim, precisa identificar o foco do texto o mais rápido possível.

Apesar de não ter sido levantado nenhum apontamento acerca do papel do profissional de Letras nesse tipo de realidade, esse é um assunto que não pode ser omitido. Em razão do avanço tecnológico que temos vivido e de como isso tem afetado as nossas vidas, o profissional de Letras deve ser alguém apto para avaliar as novas manifestações linguísticas a partir da perspectiva de alguém que estuda a linguagem. Por essa razão, não é tempo para retrocessos nem para omissão de posicionamentos acerca dos fatores que têm influenciado a produção e leitura de textos na intenet. É tempo de pesquisas e estudos sobre os fenômenos que têm surgido na sociedade com vistas a tornar os estudos linguísticos mais aplicáveis à vida social.

7. Referências

BONINI, A. Mídia / Suporte e hipergênero: os gêneros textuais e suas relações. Disponível em: <www.scielo.br/pdf/rbla/v11n3/05.pdfa> Acesso em: 22 de novembro de 2015.

FRANCO, Guillermo. Como escrever para a web: elementos para a discussão e construção de manuais de redação on-line. Trad.: Marcelo Soares. Disponível em: <http://issuu.com/midia8/docs/comoescrevernaweb> Acesso em 12 de julho de 2015.

KOCH, I. V. Introdução à Linguística Textual. São Paulo, Contexto, 2015.

MAGNABOSCO, Gislaine Garcia. Hipertexto e gêneros digitais: modificações no ler e escrever? Disponível em: <http://www.ucs.br/etc/revistas/index.php/conjectura/article/viewFile/14/13> Acesso em: 24 de abril de 2015

NEVES, J. L. Pesquisa Qualitativa – Características, Usos e Possibilidades. Disponível em: <http://www.dcoms.unisc.br/portal/upload/com_arquivo/pesquisa_qualitativa_caracteristicas_usos_e_possibilidades.pdf> Acesso em: 15 de novembro de 2015.

SACCHETTO, Maria Elizabeth; SCAFUTOO, Maria Luiza Scafutto; MENDES, Sávio Damato; LEMOS, Ana Carolina. Gêneros textuais: reflexões e ensino. Disponível em: <http://www.cesjf.br/revistas/cesrevista/edicoes/2008/genero_texturiais.pdf> Acesso em: 15 de maio de 2015.

_____________________________________
1 Ao falar em visitas mensais, refiro-me ao número de visitantes únicos que acessam qualquer página do site. Ao falar em pageviews, ao número de páginas vistas no site pelo mesmo usuário único. 


Publicado por: Natália Lemes

  • SIGA O BRASIL ESCOLA
Monografias Brasil Escola