Topo
pesquisar

Comportamentos agonísticos e emissões vocais em papagaios de recinto do gênero Amazona associadas à visitação no Zoológico Municipal de Volta Redonda, Volta Redonda-RJ, Brasil

Biologia

Apesar da visitação pública em zoológicos ser destinada a educação ambiental, a falta de critério no controle da visitação pode resultar no surgimento de impactos no bem-estar dos animais em recintos.

índice

1.  RESUMO

Os zoológicos são instituições de grande prestígio no que se trata de ações voltadas à conservação de espécies nativas. O ZooVR (Zoológico de Volta Redonda) possui um importante papel no que se refere ao recebimento de espécies da fauna regional apreendidas ilegalmente ou machucadas por motivos diversos. Os papagaios do gênero Amazona representam uma das mais graciosas aves da fauna nacional e por conta desta beleza e sua inteligência sofrem muitas ameaças em seu ambiente natural. O estudo visou avaliar o comportamento agonístico e a frequência de vocalizações dos papagaios do recinto (Amazona sp.) entre períodos sem visitação e de alta visitação, a fim de correlacionar estes aspectos ao estado de estresse dos mesmos. Os comportamentos dos espécimes em recinto foram registrados no ZooVR através do procedimento ad libitum e posteriormente quantificados em frequências. Os visitantes e a emissão de ruídos foram registradas ao longo do estudo. Os papagaios exibiram maior atividade em dias sem visitação, e houve menor atividade em dias com visitação, os comportamentos que mais se destacaram foram: vocalização, que mais ocorreu em dias sem visitação e o display agressivo com visitantes nos dias de visitação. Apenas na 3ª semana houve diferenças significativas entre as médias de ruídos registradas. Os indivíduos demonstram sinais de estresse do recinto ou tratos anteriores. A partir da pesquisa, foi possível constatar que os resultados encontrados revelaram importantes informações, porém, o atual trabalho aponta uma necessidade de maior tempo amostral, para que as diferenças sejam realmente significativas.

Palavras-chave. cativeiro, psitacídeos, repertório comportamental, vocalização.

ABSTRACT

The zoos are very prestigious institutions when it comes to actions aimed at conservation of native species. The ZooVr (Zoo of Volta Redonda) have an important paper about the receipt of species of regional fauna illegally seized or injured for various reasons. The parrots of the genus Amazona represent one of the most graceful birds of the national fauna and because of this beauty and intelligence they suffer many threats in their natural environment. The objective of this study was to evaluate the agonistic demeanor and the frequency of the vocalisations of the parrots (Amazona sp.) Between periods without visitation and elevated visitation, in order to correlate these aspects with their state of stress. The behaviors of the specimens in the enclosure were recorded in ZooVR through the procedure and libitum and later quantified in frequencies. Visitors and noise emission were recorded throughout the study. Parrots showed greater activity on days without visitation, and there was less activity on days with visitation, the behaviors that stood out most were: vocalization, which occurred more in days without visitation and the aggressive display with visitors in the days of visitation. Only in the 3rd week there were significant differences between the averages recorded. Individuals show signs of stress from the enclosure or previous treatments. From the research, it was possible to verify that the results found revealed important information, however, the current study points out a need for longer sampling times, so that the differences are really significant.

Keywords. captivity, psittacines, behavioral repertoire, vocalization

2. INTRODUÇÃO

A ordem Psitaciformes é dividida em três famílias: Loridae, Cacatuidae e Psittacidae, compostas, ao todo, por aproximadamente 78 gêneros e 332 espécies (Fagundes 2013). Os psitacídeos são aves caracterizadas pelo bico curvo, pés zigodáctilos, língua carnuda, variadas colorações de plumagem e grande capacidade intelectual e verbal. São facilmente encontradas em cativeiros comerciais ou domésticos, sendo a criação das espécies exóticas permitida pelo IBAMA (Silva et al. 2015).

Além da plumagem, a popularidade dos psitacídeos deve-se à sua natureza social, em particular, a capacidade de usar palavras humanas, a característica que garantiu-lhes destaque na mitologia, literatura e cultura popular (Ferraroni 2015). De forma geral, os psitacídeos consomem diferentes alimentos, que incluem grãos, flores, frutos, brotos, folhas e também insetos (Melo et al. 2014).

O Brasil é o país com a maior diversidade de psitacídeos do mundo, abrigando 72 espécies reconhecidas, com 16 espécies presentes no “Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção” (Christofoletti 2014).

Ainda há poucos registros sobre o repertório vocal de espécies do gênero Amazona. Entretanto, segundo Prestes (2000) indivíduos da espécie Amazona pretrei Temminck 1830 em cativeiro apresentaram cinco tipos de emissões sonoras: (1) vocalizações para requisitar alimento e quando as aves recebiam o alimento; (2) vocalizações matutinas e vocalizações vespertinas; (3) vocalizações de exploração do ambiente onde se encontravam; (4) vocalizações para comunicação entre parentes em recintos separados; e (5) vocalizações relacionadas à aproximação de pessoas aos recintos (Queiroz 2009).

A ocorrência de transtornos produtivos nos animais, seja por influência antrópica ou ambiental, faz com que a avaliação dos parâmetros do estresse sobre a fisiologia necessite ser mais precisos, para poder prever as alterações e evitá-las, tornando possível melhorar o bem-estar animal (Santos 2005).

Por outro lado, o termo estresse se caracteriza como reações comportamentais e neurovegetativas de defesa dos animais em resposta a estímulos do meio que ameaçam a homeostasia. No entanto, conforme a intensidade e frequência de ocorrência do estressor, podem haver comprometimentos graves à saúde e ao bem-estar animal envolvendo problemas de crescimento, de reprodução e imunológicos, aumentando a incidência de doenças e podendo levar à morte (Molico 2013). Nesse sentido, é fundamental compreender causas de estresse animal para adoção de medidas de manejo adequadas a vivência dos residentes de recintos.

Assim, apesar da visitação pública em zoológicos ser destinada a educação ambiental, afim de que as pessoas entendam e se importem mais com os problemas que ocorrem no meio ambiente, e também à aproximação com o ambiente natural, a falta de critério no controle da visitação pode resultar no surgimento de impactos no bem-estar dos animais em recintos.

O Zoológico Municipal de Volta Redonda recebe semanalmente um grande número de visitantes levando consideravelmente ao aumento de ruído. Comportamentos agressivos podem ser influenciados por condições de maus tratos, estresse, ações pontuais de enriquecimento ambiental do recinto e entre outros, em alguns casos a frequência destes estímulos para animais em recinto pode levar ao desenvolvimento de estereótipos, doenças, e consequentemente à morte. Logo, a compreensão da biologia e do comportamento das espécies cativeiro constituem princípios fundamentai no que se refere ao bem-estar animal.

Os psitacídeos são aves exuberantes e carismáticas, despertando o interesse dos visitantes no entorno do seu recinto. Psitacídeos como araras e papagaios interagem indiretamente com os visitantes, seja através de vocalizações ou por meio de comportamentos de exibição diversos, estes fatores podem permitir a identificação de sintomas relacionados ao estresse ocasionado pelo aumento de ruído e movimentação dos visitantes em volta do recinto. Além disso, o estudo pretende compreender a situação atual dos papagaios do gênero Amazona para implementar ações aplicadas ao bem-estar animal nos recintos dos psitacídeos do Zoológico Municipal de Volta Redonda.

Neste contexto, o estudo visou avaliar o comportamento agonístico e a frequência de vocalizações dos papagaios do recinto (Amazona sp.) entre períodos sem visitação e de alta visitação, a fim de correlacionar estes aspectos ao estado de estresse dos mesmos.

3. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

3.1 PSITACÍDEOS BRASILEIROS

O Brasil é o país mais rico do mundo em diversidade de Psittacidae, tendo sido catalogadas até o presente 85 espécies (4,66 % do total de aves brasileiras) (Moraes 2010).

Das espécies que ocorrem no Brasil: Amazona pretei Temmink, 1830 (papagaio-charão), A. rhodocorytha Salvadori, 1890 (chauá), A. vinacea Huhl, 1820 (papagaio-do-peito-roxo), Anodorhynchus leari Bonaparte, 1856 (arara-azul-de-lear), Aratinga solstitialis Linnaeus, 1766 (jandaia-amarela), Cyanopsitta spixii Wagler, 1832 (ararinha-azul), Guaruba guarouba Gmelin, 1788 (ararajuba), Pyrrhura cruentata Wied, 1820 (tiriba-grande), P. lepida Wagler, 1832 (tiriba-pérola), P. lepida lepida Wagler, 1832  (tiriba-pérola), P. griseipectus Salvadori, 1900  (tiriba-de-peito-cinza), P. leucotis Kuhl, 1820  (tiriba-de-orelha-branca), P. pfrimeri Miranda-Ribeiro, 1920  (tiriba-ppfrimer), Touit melanonotus Wied, 1820 (apuim-de-costas-pretas), T. surdus Kuhl, 1820 (apuim-de-cauda-amarela), Pionus reichenowi Heine, 1844 (maitaca-de-barriga-azul) e Pyrilia vulturina Kuhl, 1820 (curica-urubu) estão em alguma categoria de ameaça de extinção (ICMBio 2016). Aliás, C. spixii resta apenas um exemplar na natureza que vive em Curuçá, no sertão de Pernambuco (Santos 2018).

Além disso, segundo o ICMBio (2014) os psitacídeos estão entre as espécies mais visadas pelo tráfico de animais silvestres. O papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva Linnaeus, 1758) e o papagaio-do-mangue (Amazona amazonica Linnaeus, 1766) despertam grande interesse devido à habilidade em imitar a voz humana, a inteligência, beleza e docilidade (Ribeiro e Silva 2007). Este tipo de comércio já contribuiu para decretar a extinção da ararinha-azul (C. spixii) (RENCTAS 2001).

3.2 O QUE SÃO E QUAIS SÃO OS PAPEIS DOS ZOOLÓGICOS?

Os primeiros zoológicos pouco mais eram do que espetáculos de aberrações; alguns chegavam a incluir aberrações humanas nas jaulas junto com animais selvagens. O maior zoológico conhecido foi descoberto por exploradores espanhóis quando encontraram pela primeira vez o antigo império americano dos astecas do soberano Montezuma, fanático por animais, que mantinha uma magnífica coleção de aves de rapina e felinos (Achutti et al.1991).

Com o tempo, os zoológicos adquiriram outras potencialidades e o seu perfil deixou de ser considerado o de apenas uma área com animais confinados para ostentação por parte dos seus mantedores e contemplação dos visitantes do local (Monerat 2012).

Os zoológicos devem ser projetados com objetivos bem definidos à pesquisa, preservação e educação. Desse modo, os zoológicos devem exercer não só o papel de proteger os animais, zelando sempre pelo seu bem-estar, como explorar o potencial educativo e de pesquisa (Monerat 2012). IUDZG (1993) descreverem que os zoológicos devem: (1) servir de base para que a instituição alcance as metas voltadas para as práticas conservacionistas; (2) apoiar ativamente a conservação das populações ameaçadas de extinção; (3) oferecer apoio e facilidades para pesquisas científicas; e (4) promover um aumento da sensibilização do público por questões voltadas para a conservação ambiental com a criação de políticas de educação ambiental (Aragão 2013).

No que se refere a oferta de opções de desenvolvimento de educação formal e não formal ligadas ao tema meio ambiente, os zoológicos exercem um papel importante na divulgação e na popularização das ciências, além da proposição de atividades dirigidas a um público grande e heterogêneo. As atividades educativas oferecidas nesses espaços induzem diferentes níveis de interatividade entre os visitantes e os animais (Monerat et al. 2002).

No Brasil, o primeiro zoológico foi inaugurado por volta de 1882, com a criação de um anexo ao Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém do Pará (Marino 2008). O último censo no Brasil contabilizou um total 106 zoológicos e 10 aquários (SZB 2013).

3.3 COMPORTAMENTO ANIMAL EM RECINTOS

O longo período de cativeiro provoca alterações funcionais, que podem tornar os animais enfraquecidos e sem habilidades físicas e psicológicas necessárias à sobrevivência, no momento da sua introdução ou reintrodução na natureza (Orsini e Bondan 2005). Além disso, o recinto dos animais deve ser de tamanho apropriado, o que lhes proporcionarão um melhor bem-estar (Costa 2016).

Estereotipias são caracterizadas pela repetição de movimentos, aparentemente sem objetivo, como, por exemplo, balançar o corpo para os lados ou para frente e para trás, e andar de um lado para o outro, entre outras manifestações. Estes comportamentos podem estar relacionados a uma má-adaptação atual ou a alterações causadas por traumas do passado (Leira 2017). No entanto, alguns pesquisadores acreditam que a estereotipia é um evento positivo porque melhora a condição física e diminui as emoções negativas dos animais, enquanto outros pesquisadores afirmam que o comportamento estereotipado pode acarretar um gasto muito grande de tempo e energia por parte dos indivíduos (Leira op cit.)

Técnicas de enriquecimento ambiental são utilizadas para reduzir o estresse causado pelo cativeiro, que pode ser expresso através de condições fisiológicas inadequadas, de comportamentos e padrões de atividades atípicos para a espécie e de comportamentos estereotipados (Vasconcellos 2009). O enriquecimento ambiental envolve a mudanças na estrutura do recinto (i.e., melhorando as condições físicas do ambiente) a fim de estimular cognição e a capacidade mecânica animal, a alimentação e a socialidade (Leira 2017). O ambiente enriquecido acarreta no aumento da excitação, que por sua vez, pode vir a trazer benefícios sobre a qualidade de vida dos animais, facilitando a adaptação ao cativeiro e até mesmo auxiliando no desempenho reprodutivo da espécie (Silva 2010).

4. MATERIAIS E MÉTODOS

4.1 ÁREA DE ESTUDO

O Zoológico Municipal de Volta Redonda (Zoo-VR: 22°31’56,18”S e 44°06’12,74”O) é o único zoológico público do interior do Estado localizando-se no perímetro urbano do município de Volta Redonda, no bairro Vila Santa Cecília. O Zoo-VR ocupa uma área de 150.439m2, estando localizado em área de Mata Atlântica, e no entorno da ARIE da Floresta da Cicuta. O Zoo-VR recebe mensalmente cerca de 6000 visitantes, dentre estas centenas de estudantes de ensino fundamental, médio e idosos de todo região (ZooVR 2018). O Zoo-VR está incluso na gerência da Secretaria de Meio Ambiente, portando é mantido pela Prefeitura Municipal de Volta Redonda (PortalVR 2018).

O plantel conta com 377 animais: 218 aves, 65 mamíferos e 94 répteis pertencendo a 105 espécies, estando incluídos entre estas algumas espécies ameaçadas de extinção. O local funciona também como um centro de referência da região para abrigo de animais não sadios provenientes de doações, vítimas de acidentes e maus tratos, recebendo em média 200 animais por ano, que após receberem cuidados biológicos e veterinários, e serem submetidos à avaliação física, sanitária e psicológica é constatado se tem ou não condições de ser reintroduzido na natureza (ZooVR 2018).

O estudo foi conduzido entre janeiro a fevereiro de 2018 nas áreas internas do ZooVR, sendo que as avaliações comportamentais diretamente realizadas na área das aves (recinto dos psitacídeos), enquanto a visitação foi monitorada entre 10 as 15 hs ao longo do período amostral. Os dias de avaliação foram organizados de maneira que possam ser analisados o comportamento dos papagaios em períodos de menor e maior movimentação no ZooVR.

4.2 COLETA E ANÁLISE DE DADOS

O monitoramento dos visitantes, níveis de ruídos e interações comportamentais entre os papagaios em recinto foram registrados simultaneamente.

O número de visitantes contados no zoológico foi obtido por meio de censo direto, junto ao acesso principal do ZooVR (após o pátio para estacionamento) sob condições de tempo bom. A contagem ocorreu em três turnos diários (manhã e tarde) entre 16 a 21 de janeiro. O monitoramento dos visitantes permitiu estimar valores semanais referentes à frequência da visitação.

Informações sobre a intensidade de ruídos foram aferidos através de decibelímetro digital portátil com precisão 30dBA≈130dBA (Marca Insthruterm). Os níveis de ruídos foram obtidos a partir de um ponto fixo na proximidade do recinto dos papagaios. Os registros foram feitos entre 10 às 11hs da manhã (1° turno), 12 às 13hs (2º Turno) e 14 às 15hs da tarde (3° turno) em intervalos de cada 5 minutos.

Não pare agora... Tem mais depois da publicidade ;)

O recinto dos papagaios é composto por 14 aves, sendo: 6 ind. A. amazônica (papagaios-do-mangue); 4 ind. Amazona aestiva (papagaios-verdadeiros); 3 ind. A. rhodocorytha (papagaios-chauás) e 1 ind. A. farinosa (papagaio-moleiro). As interações comportamentais seguiram as técnicas de Altmann (1974) e foram registradas em planilhas. Como forma de compreender diferenças entre frequência dos comportamentos agonísticos (estresse), atos comportamentais amistosos entre as aves (i.e., comportamentos controle) também foram registrados.

Diferenças significativas entre as frequências de comportamentos foram aferidos pelo Teste do qui-quadrado (x2), enquanto o Teste t foi utilizado para avaliar diferenças entre médias registradas pelo decibelímetro. Todas as análises consideraram o nível significância de α=0,05. As análises estatísticas foram realizadas através do Microsoft Excel 2010® e BioEstat 5.0®.

5. RESULTADOS

O repertório comportamental interpretado e selecionado exibido pelos indivíduos do gênero Amazona mantidas no recinto do ZooVR foi constituído por 11 atos comportamentais (Tabela 1).

Tabela 1. Repertório comportamental social entre os papagaios do gênero Amazona no ZooVR.

Atos comportamentais

Acrônimo

Descrição

Vocalização

Voc

Emissão sonora ou repetição de falas humanas.

Escalada nas grades

EnG

Deslocamento vertical ou horizontal nas grades do recinto.

Sobrevoo pelo recinto

SpR

Voos sem objetivo de buscar alimento.

Arrancar penas

ArP

Retirar penas do próprio corpo com o bico.

Display agressivo c/aves

DAA

Postura agressiva com outra ave do recinto. Movimento corporal de luta com o corpo (balanceio). Bico entreaberto, penas eriçadas.

Luta

Lut

Agressão física de uma ave com a outra.

Disputas por alimento

DaA

Competir por comida com outros papagaios.

Disputas por espaço

DeA

Competir por espaço com outros papagaios.

Inatividade

Ina

Sem movimentação pelo recinto ou interação com outro papagaio.

Display agressivo c/visitantes

DAV

Eriçar penas, emissão de som e balanceio corporal direcionado.

Acariciar

Aca

Acariciar a cabeça e pescoço de outros papagaios com o bico.

Um total de 294 atos foram contabilizados entre os 11 atos comportamentais registrados durante o período de observação. Todos os 11 atos comportamentais foram registrados nos três períodos de análise no ZooVR, com visitação ou sem visitação. Portanto não houveram registrados comportamentais exclusivos entre os períodos de análise (Tabela 2).

De maneira detalhada, os períodos sem visitação registraram o total acumulado de 161 atos comportamentais (54,7%), enquanto que os períodos com visitação registraram 133 atos comportamentais (45,2%). Independentemente do período analisado, os atos comportamentais com maior e menor frequência foram respectivamente, vocalização (n=79, 26,8%) e display agressivo c/visitantes (n=12, 4,0%). Durante as observações não foram registrados comportamento de luta e ou de arranchamento de penas (Tabela 2).

Diferenças significativas foram registradas apenas entre as frequências de vocalização (x2=14,633; Gl=1; p=0,0001) e display agressivo c/visitantes (x2=10,083; Gl=1; p=0,0015), ao contrário dos demais, as demais frequências dos comportamentos que não foram significativamente diferentes: escalada nas grades (x2=3,361; Gl=1; p=0,0668), sobrevoo pelo recinto (x2=0,762; Gl=1; p=0,3827), display agressivo c/aves (x2=1,422; Gl=1; p=0,2330), disputas por alimento (x2=0,409; Gl=1; p=0,5224), disputas por espaço (x2=0,500; Gl=1; p=0,4795), inatividade (x2=2,326; Gl=1; p=0,1273) e acariciar (x2=2,722; Gl=1; p=0,0990) (Tabela 2).

Tabela 2. Frequência comportamental observada das aves do gênero Amazona sp. em recinto no ZooVR.

Repertório Comportamental

Condição

Σ

x2

s/visitação

c/visitação

n

%

n

%

n

%

 

Vocalização

57

35,4

22

16,5

79

26,8

p<0,05

Escalada nas grades

24

14,9

12

9,0

36

12,2

Ns

Sobrevoo pelo recinto

13

8,0

8

6,0

21

7,1

Ns

Arrancar penas

0

0,0

0

0,0

0

0,0

-

Display agressivo c/aves

18

11,1

27

20,3

45

15,3

Ns

Luta

0

0,0

0

0,0

0

0,0

-

Disputas por alimento

13

8,0

9

6,7

22

7,4

Ns

Disputas por espaço

7

4,3

11

8,2

18

6,1

Ns

Inatividade

16

9,9

27

20,3

43

14,6

Ns

Display agressivo c/visitantes

0

0,0

12

9,0

12

4,0

p<0,05

Acariciar

13

8,0

5

3,7

18

6,1

Ns

Σ

161

100,0

133

100,0

294

100,0

 

(*) diferenças significativas à 5,0%; (ns) não há diferença significativa.

As vocalizações foram registradas toda vez que os visitantes se aproximavam ou contornavam os respectivos recintos, bem como quando uma ave se comunicava com a outra. O horário mais frequente que as vocalizações ocorriam era pela manhã, às 10:00. Por outro lado, o comportamento de escalada nas grades, em geral, era mais frequente quando tratadores do ZooVR se aproximavam do recinto com o alimento.

Já os sobrevoos pelo recinto aconteciam quando não havia visitantes nas proximidades quando eram dias de visitação, e ocorriam principalmente em dias sem visitação. Geralmente, o display agressivo com outras aves era observado quando entre os indivíduos do recinto encontravam-se mais próximos um dos outros em dias de maior visitação de pessoas por perto do recinto.

As disputas por alimento ocorriam sempre que o alimento era distribuído nos comedouros do recinto, aparentemente por haver um menor número de comedouros em relação ao número de aves do recinto, deflagrando conflitos. Enquanto, as disputas por espaço não pareciam ter um aparente motivo.

A inatividade foi muito observada quando o zoológico estava com grande número de pessoas circulando entre a área dos recintos, comumente após às 14hs. Display agressivo com visitantes era sempre notado quando os próprios visitantes tentavam interagir com os papagaios e quando eles apenas paravam em frente ao recinto. Carícias somente foram registradas quando não existia nenhum visitante por perto, e em geral, nos dias sem visitação.

As variações médias de ruídos registradas foram discretas entre os turnos de monitoramento ou entre a ausência ou presença de visitantes (Tabela 3), de maneira que apenas na 3ª. semana foi registrado diferença significativa entre as emissões médias de ruídos.

Tabela 3. Médias de ruídos registrados entre turnos de monitoramento em condição sem visitante e com visitante no ZooVR.

Período amostral

s/visita

c/visita

t(p<0,05)

 

1a semana

63,78

55,53

58,09

59,13

61,34

55,67

56,22

57,74

Ns

2a semana

67,53

55,73

56,50

59,92

65,40

56,03

58,71

60,05

Ns

3a semana

67,23

68,29

60,05

65,19

56,23

57,81

58,53

57,52

p=0,0228

4a semana

56,23

57,81

57,25

57,09

56,35

54,81

60,59

57,25

Ns

5a semana

56,32

54,13

54,83

55,09

60,08

56,43

57,84

58,11

Ns

6a semana

60,08

52,50

56,23

56,27

60,61

55,12

55,80

57,18

Ns

6. DISCUSSÃO

Os comportamentos dos indivíduos registrados traduzem o estado e a frequência de repetição das condições no recinto e podem estar relacionados a diversos manejos ou traumas. Além disso, o uso de terminologias e descrição dos atos comportamentais são dificilmente comparáveis a outros estudos, já que se refere a forma com que os mesmos foram interpretados pelo investigador.

Nos estudos com maritacas em recintos, Telles et al. (2014) avaliaram os comportamentos dos animais a partir do enriquecimento ambiental dos recintos e o uso de haloperidol em água e registraram 10 atos comportamentais, sendo: andando no poleiro, parado no poleiro, andando na tela do recinto, parado na tela do recinto, arrancando as penas, vocalizando, dormindo, forrageando, interação social positiva e interação social negativa. Segundo Telles et al. op cit, as aves reagiram melhor com o enriquecimento ambiental, pois reduziu o comportamento parado no poleiro, aumentou a interação positiva entre elas, bem como a frequência de vocalização. Além disso, diminuiu significativamente o arrancamento de penas, apresentando melhores resultados nos aspectos comportamentais e na melhoria da plumagem, enquanto o tratamento com haloperidol mostrou que os comportamentos ociosos aumentaram, havia menos frequência de vocalização, apresentavam também tremores musculares, e o comportamento arranchamento de pena reduziu pela metade.

Não foi possível confirmar se os comportamentos agonísticos entre as aves em recinto são influenciados diretamente pela visitação ou estresse do recinto, apenas que há uma mudança nas frequências comportamentais.

No entanto, em estudos sobre ruídos, Tolentino (2015) avaliou o repertório comportamental de 10 diferentes aves pequenas, como: Antilophia galeata Lichtenstein, 1823, Brasileuterus culicivorus Deppe, 1830, Cantorchilus leucotis Lafresnaye, 1845, Cyclarhis gujanensis Gmelin, 1789, Herpsillochmus longirostris Pelzeln, 1868, Leptopogon amaurocephalus Tschudi, 1846, Myiothlypis flaveola Baird, 1865, Picummus albosquamatus d’Orbigny, 1840, Tolmomyias sulphurescens Spix 1825, Veniliornis passerinus Linnaeus, 1766, em diferentes fragmentos florestais do Cerrado e verificou se existia variações nos níveis de ruídos entre fragmentos próximos e distantes das áreas urbanas. E o trabalho revelou que em áreas mais próximas às áreas urbanas apresentaram mais ruídos, no caso, provenientes do tráfego de veículos, e não da vocalização das aves, o estudo também mostrou que todas as espécies apresentavam um tipo de sensibilidade à altos níveis de ruídos de fontes externas, indicando que as aves possuíam graus de perturbação quanto à ruídos urbanos.

Sobre as variações de ruídos quanto aos dias com visitação e sem visitação, foram discretas as diferenças, possivelmente pelo local que o decibelímetro ficou parado, necessitando talvez de mais pontos de coletas de ruídos.

7. CONCLUSÃO

Não foi possível confirmar diferenças entre os atos comportamentais das aves no recinto em períodos com ou sem visitação, ao contrário da vocalização, que pode ser interpretada como um indício consistente da inibição ocasionada pela visitação. Os resultados gerais podem ser considerados esperados, já que os indivíduos se mostraram mais ativos em períodos sem visitantes.

Os resultados encontrados sugerem a necessidade de ampliação do esforço amostral, mas o enriquecimento do recinto pode ser uma alternativa importante para distrair e reduzir o eventual estresse das aves (i.e., tempo de inatividade) em períodos de visitação e muito barulho.

8. BIBLIOGRAFIA

Achutti, M. R. D. N. G. 2003. O zoológico como um ambiente educativo para vivenciar o ensino de ciências. Itajaí, SC.

Aragão, G., Kazama, R. 2013. A função dos zoológicos nos dias atuais condiz com a percepção dos visitantes. Educação Ambiental em Ação, 43, 21.

Boere, V. 2001. Enriquecimento ambiental para primatas neotropicais em cativeiro. Ciência rural, 31 (3), 543-551.

Christofoletti, M. D. 2014. Reprodução de papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva) em cativeiro: perfil anual de esteróides sexuais e ensaio de estímulo hormonal exógeno.

Duarte, N. Saiba qual é a rota do tráfico de animais silvestres no Brasil. 2010. Acessado em 30 de março de 2018, disponível em: http://g1.globo.com/brasil/noticia/2010/10/saiba-qual-e-rota-do-trafico-de-animais-silvestres-no-brasil.html.

Fagundes, N. 2013. Síndrome do arrancamento de penas em psitacídeos: revisão de literatura.

Ferraroni, A. "Taxonomia e filogenia de Aratinga Spix, 1824 (Aves: Psittacidae)." Diss., Universidade de São Paulo.

ICMBio, 2016. Papagaios do Brasil / Sociedade de Zoológicos e Aquários do Brasil.

ICMBio. 2014. Tráfico de animais contribui para extinção de espécies. Acessado em 11 de março de 2018. Disponível em <http://www.icmbio.gov.br/portal/ultimas-noticias/4905-trafico-de-animais-contribui-para-extincao-de-especies>.

IUCN 2017. The IUCN red list Threatened Especies. Acessado em 11 de abril de 2019. Disponível em <http://www.iucnredlist.org/>.

Leira, M. H., Reghim, L. S., Cunha, L. T., Ortiz, L. S., de Oliveira Paiva, C., Botelho, H. A., ... & Dias, N. P. P. 2017. Bem-estar dos animais nos zoológicos e a bioética ambiental. PUBVET, 11, 538-645.

Melo, D. N., Passerino, A. S. M., & Fischer, M. L. 2014. Influência do enriquecimento ambiental no comportamento do papagaio-verdadeiro Amazona aestiva (Linnaeus, 1758) (Psittacidae). Estudos de Biologia, 36.

Molico E. 2013. Comportamentos que avaliam estresse nos animais: Uma revisão e alguns dados novos na Tilápia-do-Nilo. Diss. UNESP, Campus Botucatu.

Monerat, A. A. C. 2012 Percepções sobre a contribuição do jardim zoológico em relação ao ensino de ciências junto a estudantes da educação básica.

Moraes, L. L. Amazona vinacea. Museu de Zoologia João Moojen. Acessado em 30 de março de 2018, disponível em <http://www.museudezoologia.ufv.br/bichodavez/edicao24.pdf>.

Orsini, H., Bondan, E. F. 2006. Fisiopatologia do estresse em animais selvagens em cativeiro e suas implicações no comportamento e bem-estar animal – revisão da literatura. Revista do Instituto de Ciências da Saúde, 1(24): 7-13.

Pereira, G. A., & Brito, M. T. 2005. Diversidade de aves silvestres brasileiras comercializadas nas feiras livres da Região Metropolitana do Recife, Pernambuco. Atualidades ornitológicas, 126(1), 7.

Queiroz, B. C. 2009. Comportamento de papagaios-chauás (Amazona rhodocorytha, Salvadori, 1890) cativos. Tese, Universidade Federal do Espírito Santo.

RENCTAS. 2001. 1º Relatório Nacional sobre o Tráfico de Animais Silvestres. Disponivel em <http://www.renctas.org.br/trafico-de-animais/>. Acessado em 11 de abril de 2018.

Ribeiro, L. B., & Silva, M. G. 2007. O comércio ilegal põe em risco a diversidade das aves no Brasil. Ciência e Cultura, 59(4), 4-5.

Santos, E.O. 2005. Metabolismo do Estresse: Impactos na saúde e na produção animal. Seminário, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Rio Grande do Sul.

Santos. R, S, A. 2018. Araras, papagaios e periquitos do Brasil. Acessado em 30 de março de 2018. Disponível em <http://www.aultimaarcadenoe.com.br/araras-papagaios-e-periquitos/>.

Silva, C. J., C. M. L., Leonardo, O. L. M. J. Análise do comportamento dos psitacídeos em cativeiro e implantação de enriquecimento ambiental. VII Mostra Interna de Trabalhos de Iniciação Científica 21 a 24 de outubro de 2014. ISBN 978-85-8084-724-6.

Silva, T. G. G., Vieira, L. N. G., & Barrella, W. Estudo preliminar de enriquecimento ambiental no recinto do Ramphastos toco, e a interação do público alvo no Parque Zoológico Municipal “Quinzinho de Barros”. Revista Eletrônica de Biologia (REB). ISSN 1983-7682, 3(3), 93-104.

Souza, R. R., S. D. S. 2006. Humanos no Zoológico - A reação dos visitantes mediante os recintos animais do Zoológico. Anais do VIII Congresso de Ecologia do Brasil, 23 a 28 de Setembro de 2007, Caxambu - MG.

SZB. 2013. Lista de Zoológicos e Aquários do Brasil, divididos por regiões. Disponível em < http://www.szb.org.br/zoos-e-aquarios.html>. Acessado em 11 de abril de 2018.

Teixeira, B. J., I. S. S. E. L., Santos, T. N. 2015. Análise quantitativa de visitas monitoradas do Zoológico Municipal de Volta Redonda.

Telles, L. F., Malm, C., Melo, M. M., Vilela, D. A. D. R., Lago, L. A., Silva, M. X., & Martins, N. R. D. S. 2015. Arrancamento de penas psicogênico em maritacas: haloperidol e enriquecimento ambiental. Ciência Rural, 45(6), 1099-1106.

Tolentino, V. C. D. M, 2015. Repertório vocal e variações no canto de aves em diferentes áreas florestais no cerrado sensu lato. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal de Uberlândia.

Vasconcellos, A. D. S. 2009. O estímulo ao forrageamento como fator de enriquecimento ambiental para lobos guarás: efeitos comportamentais e hormonais. Dissertação de Mestrado. Universidade de São Paulo.  


Publicado por: Priscila Batista Matos

  • SIGA O BRASIL ESCOLA
Monografias Brasil Escola