SOBRE MULHERES E MATILHAS: UMA ANÁLISE DE "UM BURACO COM MEU NOME" DE JARID ARRAES.

Arte e cultura

Análise da representação da mulher “selvagem” na obra Um buraco com meu nome (2018) de Jarid Arraes, a partir do referencial de Clarissa Pinkola Estés, Mulheres que correm com os lobos (2014), que nos traz o arquétipo da mulher selvagem.

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Resumo: Neste artigo analisaremos a representação da mulher “selvagem” na obra Um buraco com meu nome (2018) de Jarid Arraes, a partir do referencial de Clarissa Pinkola Estés, Mulheres que correm com os lobos (2014), que nos traz o arquétipo da mulher selvagem. O artigo contará também com o arcabouço teórico da crítica feminista, tal como apresentada por Lúcia Osana Zolin, que nos mostra os estereótipos comuns na literatura escrita por homens e o poder do sistema patriarcal. Também será apresentado o conceito lugar de fala, tal como pensado por Djamila Ribeiro, que nos auxilia a pensarmos em novos diálogos e novas falas, que é como consideramos a representação proposta por Jarid Arraes no livro analisado.

Palavras-chave: Mulher Selvagem, um buraco com meu nome, crítica feminista.

1. Introdução

Jarid Arraes (2018) é uma poeta contemporânea brasileira. A escritora nasceu no dia 12 de fevereiro de 1991 em Juazeiro do Norte na região do Cariri (CE). Além de poeta, é cordelista, tendo publicado os livros “As lendas de Dandara 2016”, “Heroínas Negras 2017” e “Um buraco com meu nome 2018”.

Em busca de representatividade, Arraes (2018) juntamente com Elizandra Magon criaram o selo Ferina, através de um conselho editorial integrado por mulheres, tendo em sua maioria mulheres negras, o objetivo desse projeto é voltado para que mulheres que não se encaixam em publicações consideradas apropriadas para os padrões já estabelecidos se descubram e possam publicar suas obras, assim cada um ganha seu merecido espaço.

Em 2015, ela também criou o clube Escrita para mulheres, com o intuito de estimular a produção literária de escrita feminina, bem como discutir as dificuldades enfrentadas para essa produção. Esse projeto também discute a posição política a respeito do mercado editorial.

Arraes (2018) é aquela escritora que busca seu lugar no universo literário e que parece não se encontrar na produção escrita por homens, na qual costumam aparecer muitos estereótipos negativos que colocam a mulher como objeto. A “mulher objeto”, segundo a crítica feminista, “define-se pela submissão, pela resignação e pela falta de voz” (ZOLIM 2005, p.183)

Em sua obra, a mulher é representada como alguém dona de si, uma “fera” à procura de um lugar todo seu, que expõe problemas que a sociedade enfrenta e nos mostra suas garras. Por conta disso, o objetivo principal deste trabalho é analisar como se constrói a representação da mulher “selvagem” na obra Um buraco com meu nome (2018), livro de poemas de Jarid Arraes.

Não é comum lermos obras em que haja a representação da mulher como fera, especialmente na pena de uma escritora negra. No entanto, é importante que se busque a leitura de obras assim, especialmente por parte de quem também procura seu lugar no mundo. O livro Um buraco com meu nome é composto por 71 poemas e contém ilustrações que foram desenhadas com carvão pela própria autora. Está dividido em quatro partes, sendo elas, “Selvageria”, “Fera”, “Corpo aberto” e “Caverna”. Os poemas tratam de temáticas de identidade racial, racismo, saúde mental, busca por um lugar no mundo, bem como da mulher selvagem como uma representação diversa para o feminino.

O objetivo principal deste trabalho é analisar como se constrói a representação da mulher “selvagem” na obra Um buraco com meu nome, tendo como base teórica a crítica feminista. Um dos papéis da crítica feminista é analisar os estereótipos comuns na literatura escrita por homens, além de destacar a produção de mulheres, buscando estudar as representações e temáticas que aparecem nesta produção. Por isso, depois de apresentarmos a crítica feminista, trabalharemos o conceito de lugar de fala proposto por Djamila Ribeiro (2017) e a concepção de mulher selvagem, destacada por Clarissa Pinkola Estés (2014), para então analisarmos quatro poemas da autora que trabalhem a representação da mulher como selvagem.

2. Quais são esses estereótipos em uma literatura escrita por homens? Por que falar sobre eles?

A escrita do homem e da mulher são diferentes. Ao longo de muitos anos, as mulheres foram privadas da escrita e da leitura, a consequência desta privação foi que se criou estereótipos que colocavam as mulheres em posição de inferioridade na sociedade. A área de estudos que visa ler o texto literário desconstruindo a caracterização de ideologias de gênero construídas por uma sociedade patriarcal é a crítica feminista, e será a partir de seu arcabouço teórico que realizaremos a análise aqui proposta.

Um dos grandes nomes da área é Lúcia Osana Zolin. Ela é professora, editora e coordena um grupo de pesquisa Literatura de autoria feminina brasileira (LAFEB), tendo publicado livros como o Teoria literária: abordagens estéticas e tendências contemporâneas, Desconstruindo a opressão: a imagem da mulher em A república dos sonhos, e Deslocamentos da escritora brasileira (2005). Com amplo conhecimento sobre escrita feminina, Zolin (2005), em seus estudos de gênero e literatura, ressalta que a mulher se tornou objeto de estudo em várias áreas do conhecimento, assim foi na literatura e na Crítica feminista.

Em seu artigo denominado “A crítica feminista”, ela nos traz uma análise histórica da luta das mulheres para terem seus direitos, sendo um deles o de escrever. Para sua análise, ela lançou mão dos estudos de várias escritoras como Virgínia Woolf, Simone de Beauvoir, Kate Millet, entre outras. Ela busca nos mostrar a relação de sexo e poder, a partir da qual enquanto os homens puderam ter todos os direitos, as mulheres foram privadas de ler e escrever, de modo que os únicos escritores que podiam falar sobre elas eram os homens, os quais as mostravam apenas na condição de inferioridade.

Virgínia Woolf, considerada uma das mais importantes precursoras da crítica feminista, ganha destaque no texto de Zolin (2005), que apresenta um resumo de sua fala sobre “mulher e literatura”. Para Woolf, até o século XVII as mulheres apresentavam sua escrita marcada pela amargura, pelo ódio e pelo ressentimento em relação aos homens, que dominavam uma estrutura social que impossibilitava a liberdade na escrita para as mulheres. Virgínia Woolf destaca o papel das precursoras como aquelas que possibilitam o início de uma tradição de escrita feminina:

Sem aquelas percursoras, Jane Austem e as Brontes e George Eliot não teriam tido maior possibilidade de escrever do que teria Shakespeare ou Marlowe ou Marlowe sem Chaucer, ou Chaucer sem aqueles poetas esquecidos que preparavam o terreno e domaram a selvageria natural da língua. As obras-primas não são frutos isolados e solitários são o resultado de muitos anos de pensar em conjunto, de um pensar através do corpo das pessoas, de modo que a experiência da massa está por trás da voz isolada (WOOLF,1985, p.87).

Com suas considerações, Woof nos fala sobre prejuízos ocasionados ao se pensar em uma literatura de autoria feminina e outra masculina, separadas por uma sociedade sexista e desigual.

Outro nome destacado por Zolin (2005) é o da filósofa Simone de Beavouir. Em seu livro O segundo sexo (1949), Beauvoir vê os dois sexos divididos, sendo que a mulher aparece sempre como a escrava, como o outro, enquanto o homem sempre é visto como o senhor. Esta situação de opressão é justificada pela biologia, e pelo “destino de mulher”, de modo que a fraqueza lhe é estimulada, para que ela se torne escrava de suas escolhas, além de escolhas que lhe são negadas: “O acesso a elevados valores humanos, como heroísmo, a invenção e a criação lhe é vedado” (ZOLIN ,2005, p.188).

Zolin (2005) ainda ressalta o trabalho de Kate Millet como importante para a constituição da crítica feminista. Millet é escritora, artista, educadora e ativista feminista estadunidense e sua obra mais conhecida é o livro Política Sexual (1970), que discursa sobre a opressão da mulher pelo patriarcado. Para a autora, desde os primórdios, a criação de papéis sexuais é muito rigorosa. Juntamente com outras feministas, ela faz críticas não só aos homens, mas também às mulheres, sobre o que culturalmente é dado como papel feminino, de modo que é necessário que o oprimido se manifeste e repense a sua natureza. Millet (1970) nos fala sobre a “política sexual”:

Essa política de força, segundo a teórica, afeta a literatura na medida em que os valores literários têm sido moldados pelo homem. Ela pondera que, nas narrativas de autoria masculina, as convenções dão forma às aventuras e moldam as conquistas românticas segundo um direcionamento masculino. Além disso, são construídas como seus leitores fossem sempre homens, ou de modo a controlar a leitora para que ela leia, inconscientemente como um homem (ZOLIN, 2005, p.190)

Com isso, percebe-se que a crítica feminista “visa fazer análise dos estereótipos femininos na literatura canônica, analisar o sexismo subjacente à crítica literária tradicional e analisar a pouca representatividade da mulher na história literária” (ZOLIN,2005, p.192). Os estereótipos encontrados na literatura tradicional que foram conotados como negativos são os que colocam mulher como sedutora, perigosa, megera, mulher anjo/ou indefesa. No olhar do homem sobre as mulheres, estas são caracterizadas como seres incompletos, o que contribuiu para o atraso no alcance por direitos igualitários.

Estereótipos femininos

Exemplos na literatura

Conotação

Mulher sedutora e/ ou perigosa e/ ou imoral

Lúcia (Lucíola, de José de Alencar); Capitu (Dom Casmurro, de Machado de Assis); Ema (Madame Bovary, de Gustavo Flaubert); Luísa (O primo Basílio, de Eça de Queiroz)

Negativa

Mulher como megera

Juliana (O primo Basílio, de Eça de Queiroz)

Negativa

Mulher anjo e/ ou indefesa e/ ou incapaz e/ ou impotente

Teresa (Amor de perdição, de Camilo Castelo Branco).

Positiva

Tabela “O modo tradicional de representação da mulher na literatura” (ZOLIN, 2005, p.190)

Ao falar sobre esses estereótipos, é possível notar nos novos espaços alcançados pela mulher no tocante à literatura. Quanto mais mulheres que escrevem, mais pensamentos e representações diversos são construídos, como o caso da escrita de Arraes (2018), em que aparece a representação da mulher Selvagem, diferente e única.

Apesar da conquista pela escrita, ainda hoje discutimos o espaço da mulher nesse mundo literário, o que caracteriza o conceito de “lugar de fala”, tal como pensado por Djamila Ribeiro, em seu livro O que é lugar de fala (2017). Tal livro torna-se relevante a fim de justificar a importância de se ler e divulgar a escrita de autoras negras, já que, ao apresentar a possibilidade de escrita por parte daquelas que não tiveram “lugar de fala” durante tantos anos, são possíveis outros olhares sobre a representação do mundo tal como o conhecemos. O livro de Ribeiro (2017) está dividido em quatro partes, a primeira e a segunda parte tratam sobre o feminismo negro e a terceira e quarta parte aprofundam o conceito de lugar de fala.

O conceito de lugar de fala, segundo Djamila Ribeiro (2017), tem a ver com o posicionamento de determinada pessoa frente a deliberado assunto, que depende de sua posição de fala, do falar do lugar que pertence. Todas as pessoas têm o seu lugar de fala, a partir do qual podem discorrer de forma crítica pelos grupos sobre assuntos como racismo, raça, gênero, identidade, entre outros. É preciso falar para desnaturalizar certos conceitos criados pelo colonialismo, dados como certos, para, assim, podermos contribuir para uma sociedade menos desigual.

Ter um lugar de fala não é falar sobre vivências pessoais e sim sobre um conjunto de pessoas. Quando se fala, é preciso que se contribua para a devolução de uma humanidade negada para mulheres e negros, pois o discurso do homem branco se entendia como universal. A escritora Ribeiro (2017) nos faz pensar no processo de resistência, sobre esses processos de identidade criadas pelo colonialismo. Com isso, podemos nos questionar sobre o que nos é permitido falar e com o que estamos acostumados.

Sobre a situação da mulher, Ribeiro (2017) cita os estudos de Simone de Beauvoir:

Segundo o diagnóstico de Beauvoir, a relação que os homens mantêm com as mulheres seria esta: da submissão e dominação, pois estariam enredadas na má fé 15 dos homens que as veem e as querem como um objeto. A intelectual francesa mostra, em seu percurso filosófico é em si mesma, mas em relação ao homem e através do olhar do homem. (RIBEIRO, 2017, p.22)

No capítulo denominado “ O que é lugar de fala”, a autora nos explica a importância de ouvir os grupos sociais excluídos, e que a luta por direitos deve vir de um conjunto de pessoas, com isso teremos uma construção de saberes.

Explicitar a questão dos estereótipos, segundo a crítica feminista é questionar o direito à fala por parte dos grupos minoritários, como os negros e as mulheres, o que contribui para encontrarmos novas maneiras de ver e sentir o mundo. Uma das formas de ver o mundo, que é atualizada a partir de leitura feminista, é a da mulher selvagem, isso porque o estereótipo de mulher, segundo a tradição branca e patriarcal, é da mulher sedutora/ perigosa/imoral, megera ou anjo/indefesa (ZOLIN, 2005, p.190).

Assim, depois de pensarmos a constituição da crítica feminista e sua relação com o conceito de lugar de fala, passaremos para a descrição do que seja a mulher selvagem e, para tal, utilizaremos como arcabouço teórico a leitura de Clarissa Pinkola Estés, com o livro Mulheres que correm com os lobos (2014).

3. Mas o que é essa mulher selvagem?

Clarissa Pinkola Estés é uma psicanalista junguiana, contadora de histórias e poeta americana, com profunda análise psicológica, que resgata a natureza feminina feroz, sendo considerada uma guardiã das velhas histórias na tradição latina.

O livro de Estés Mulheres que correm com os lobos (2014) é um best-seller diferenciado, que ficou durante um ano na lista dos mais vendidos nos Estados Unidos e que apresenta a tese de como a natureza da mulher foi sendo domesticada ao longo dos anos.

Para escrever esse livro, a autora se baseou em seus estudos sobre a biologia de animais selvagens, especificamente os lobos. Fazendo uso da Psicanálise, de contos que envolvem bruxas, mocinhas, criaturas surreais, a escritora envolve suas leitoras tecendo relações entre a experiência vividas nessas histórias e a vida real e no cotidiano:

A Mulher Selvagem como arquétipo é uma força inevitável e inefável que traz para a humanidade um abundante repertório de ideias, imagens e particularidades. O arquétipo existe por toda parte e, no entanto, não é visível no sentido comum da palavra. O que pode ser visto dele no escuro não é visível a luz do dia (ESTÉS,2014, p.44)

Ao comparar o lobo e a mulher, a autora nos explica sobre a reputação equivocada de mulheres. Os lobos ficaram na história dos contos de fadas como ferozes que assustavam as meninas indefesas, mas será que essa representação não é limitante? E o que tem haver lobos com mulheres? Sobre isso, a analista e caçadora Clarissa Pinkola Éstes destaca:

Os lobos saudáveis e as mulheres saudáveis têm certas características psíquicas em comum: percepção aguçada, espírito brincalhão e uma elevada capacidade para a devoção. Os lobos e as mulheres são gregários por natureza, curiosos, dotados de grande resistência e força. São profundamente intuitivos e têm grande preocupação para com seus filhotes, seu parceiro e sua matilha. Tem experiência em se adaptar a circunstâncias em constante mutação. Têm uma determinação feroz e extrema coragem. (ESTÉS,2014, p.16).

Nesse contexto podemos perceber elementos como percepção aguçada, resistência, curiosidade, força, parceria, coragem e ferocidade que aproximam lobos e mulheres e que podem ser encontrados nos poemas que vamos analisar de Jarid Arraes (2018).

Estés (2014) ainda destaca que muito foi escrito sobre a humanidade, mas que as fraquezas e defeitos das mulheres sempre ganharam ênfase, de modo que esses fatores culturais decaíram a fortaleza feminina:

Creio que todos os homens e mulheres nascem com talentos. No entanto, a verdade é que houve pouca descrição dos hábitos e das vidas psicológicas de mulheres talentosas, criativas, brilhantes. Muito foi escrito, porém, a respeito das fraquezas e defeitos dos seres humanos em geral e das mulheres em particular. (ESTES, 2014, p.23)

Diante de tantas descrições e representações negativas construídas ao longo da história, o arquétipo da mulher selvagem nos traz outra possibilidade de ver a mulher, destacando o que é instintivo, natural, de modo a repensar a mulher como ser livre, o que possibilita refletir o que em nós está morto, está só o osso. E o interessante da noção de arquétipo é a sua perenidade:

Essa mulher não domesticada é o protótipo de mulher, não importa a cultura, à época, a política, ela é sempre a mesma. Seus ciclos mudam, suas representações simbólicas mudam, mas na sua essência ela não muda. Ela é o que é; e é um ser inteiro. (ESTÉS, 2014, p.23)

Ao dizer que as representações simbólicas podem mudar, mas que a essência não muda, Estés evoca o sentido de “arquétipo”, que segundo o dicionário Melhoramentos (1992), significa “Modelos de seres criados, Modelo, padrão, exemplo” (p.41). O conceito de arquétipo é bastante usado em psicanálise na busca de entender a psique humana. O arquétipo da mulher selvagem, como dissemos, pode funcionar como uma chave de leitura para o livro de Arraes (2018), como já demonstra o título do livro, Um buraco com meu nome, que em suas quatro partes denominadas “ Selvageria” “Fera” “Corpo Aberto” e “Caverna” demonstram que teremos uma nova leitura, buscaremos demonstrar na sequência, com a análise dos poemas de Arraes.

4. Um buraco com meu nome: selvageria x domesticação

A domesticação da mulher se deu ao longo de muitos anos, conforme pudemos ver com a leitura de Estés. Para isso, contribuiu a educação feminina, que costumou (e costuma) ser diferenciada, de modo que a mulher deve enquadrar-se num padrão estabelecido por uma sociedade falha, de um mundo dominado pelos homens (a sociedade patriarcal). Por conta disso, cada tentativa de sair dessa domesticação e falar sobre temas que incomodam se faz necessária. E esta é uma boa razão para lermos Arraes (2018), segundo a qual “palavras são garras”.

Dividido em quatro partes, Um buraco com meu nome, de Arraes (2018) trata de temáticas distintas, mas todas aproximáveis pela busca de questionamento dos papeis femininos na sociedade patriarcal. A primeira parte, denominada “selvageria”, tem 19 poemas, dos quais escolhemos “Uma mulher pergunta”; a segunda, parte denominada “fera”, possui 13 poemas, sendo que escolhemos o poema “IX”; a terceira parte, chamada “corpo aberto”, tem 28 poemas, dos quais selecionamos o poema “Temporã”; e, na quarta e última parte, denominada “caverna”, há 11 poemas, dos quais escolhemos o poema “Chama”.

O livro Um buraco com meu nome (2018) é a obra de estreia na poesia de Arraes, nele a autora se baseou em sua infância no Cariri, onde vivenciou muita intransigência e machismo, o que também ajudou a despertar para a vida literária foi o exemplo do seu pai e avô que eram cordelistas. Arraes (2018) sentia muita a ausência de escrita de autoria feminina, com isso deu início aos seus livros. Também em busca dessa representatividade feminina, criou o selo Ferina, inaugurado por seu livro de poesia.

O poema “Uma mulher pergunta”, da primeira parte do livro, mostra a situação de opressão, de desânimo e questionamento da mulher. Esta mulher se dá conta de que o poder está nas mãos dos homens, como sempre esteve. Como demostra no título, a pergunta que a mulher faz representa a tomada de consciência ao questionar este aspecto de sociedade.

Uma mulher pergunta

  1. há tardes e pequenos espaços

  2. de tempo

  3. em que uma mulher pergunta

  4. de que adianta

  5. se as mãos dos homens

  6. dirigem o metrô e os ônibus

  7. os carros blindados

  8. as motos que serpenteiam

  9. entre corredores breves

  10. se as mão

  11. dos homens

  12. assinam os papéis e carimbam

  13. autorizam o prontuário

  14. a entrada e saída do corpo

  15. o reconhecimento dos órgãos

  16. doados

  17. se as mãos dos homens

  18. orquestram as violências

  19. balas esporros olhares

  20. e tocam seus instrumentos

  21. fálicos curtos enrugados

  22. colocados para o lado

  23. se os homens e suas

  24. mãos

  25. discam números

  26. estabelecem os valores

  27. fazem lista de nomes

  28. de outros homens

  29. e se as mãos dos

  30. homens

  31. alcançam todas as coisas

  32. que quebram ou selam

  33. acordos

  34. e apertam botões

  35. que começam guerras

  36. internas

  37. por muitas e muitas

  38. gerações

  39. há um dia em que a mulher

  40. pergunta a si mesma

  41. pergunta para outra

  42. mulher

  43. e as perguntas pairam

  44. flutuam

  45. sobre a cabeça

  46. as perguntas incomodam

  47. e vazam como excremento

  48. de aves de árvores do céu

  49. nesse dia a mulher procura

  50. a resposta

  51. por que de que adianta

  52. se há mãos que fazem dançar

  53. as cordas

  54. e os pequenos membros

  55. do corpo vivem em sacolejo

  56. e o ventre morre em liminares

  57. gestações que formam mãos

  58. de homens

  59. e a partir do ventre

  60. as mãos nutridas pela mulher

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  61. saem na direção do mundo

  62. de tudo que é externo

  63. de tudo que é global

  64. antropológico

  65. fágico

  66. e social

  67. e a mulher nesse dia pergunta

  68. para outra mulher

  69. para o espelho

  70. de que isso tudo

  71. adianta

Podemos perceber a repetição da palavra “pergunta” em várias estrofes do poema. O verbo perguntar significa questionamento e está presente nos versos 1,2,40,41,42,44 e 47. Ou seja, há uma situação, por muitos consideradas normal, que é destacada pelo questionamento do eu lírico. Essa situação representa o patriarcado, que é um sistema social em que os homens mantém o poder primário, no domínio familiar e político. Segundo o dicionário Melhoramentos (1997), “patriarcado” é “1. Dignidade ou jurisdição de patriarca, 2. Exercício das funções de patriarca, 3. Dioceses dirigidas por um patriarca”. O Patriarcado é questionado pela crítica feminista, principalmente por Kate Millet, em 1970, segundo a qual critica a “ os papéis femininos tornam-se repressivos; a necessidade de representa-los, que se impõe no âmbito dominância de homens e subordinação de mulheres, é o que Millet chama de “política sexual” (ZOLIN,2005, p.190). Tal questionamento é evidente neste poema pela expressão “de que adianta”, que ressalta o poder nas mãos dos homens, e a manutenção de tal poder que continua.

Esse questionamento destaca a tomada de consciência que aparece no título, “Uma mulher pergunta”, e que é ressaltada nos versos 41,42,43. O questionamento pode ser relacionado ao conceito de lugar de fala, de Djamila Ribeiro, segundo a qual essa mulher fala do lugar que está, se posicionando. A tomada de consciência do eu lírico em um mundo dominado pelo poder e voz masculina só aparece porque esse eu lírico pode tomar a palavra para si, conquistando, assim, o seu lugar de fala, como se percebe nos versos 10,11,29,30,31, em que temos os exemplos dessa inquietação “se as mãos” “dos homens” “assinam os papéis e carimbam” “e se a mão dos” “homens” “alcançam todas as coisas”. Ou seja, ao tomar para si seu lugar de fala, o eu lírico percebe o caráter de exceção desta apropriação. A palavra “se” repetida diversas vezes dá ideia de condição, como no verso 17 “se as mãos dos homens”, que nos mostra que o poder de decisão está na mão desses. A palavra “se” aparece 6 vezes, nas estrofes 5,10,17,23,29 e 52, de modo a ressaltar essa ideia de condição, que destaca tanto sua tomada do discurso quanto sua percepção do caráter de exceção dessa tomada.

O poema chamado “IX” é um dos principais da segunda parte. Seu tema retoma o título do livro no último verso. Nele podemos notar a representação da mulher selvagem, essa mulher negra que quer ocupar seu lugar, depois de perceber que muitos espaços não lhe são possíveis.

XI

  1. Estou em busca

  2. de uma

  3. toca

  4. para pisar

  5. com minhas

  6. patas

  7. um chão

  8. que não me afunde

  9. um teto

  10. que não caia

  11. estou em busca

  12. de uma

  13. casa

  14. que aceite pulgas

  15. piolhos

  16. traças

  17. procuro uma

  18. toca

  19. que abafe meus

  20. uivos

  21. que segrede

  22. meu

  23. choro

  24. e esconda

  25. minha mandíbula

  26. estou em busca

  27. de uma

  28. toca

  29. onde as fezes

  30. descansem

  31. onde os vômitos

  32. durmam

  33. uma toca

  34. de paredes

  35. grossas

  36. um abrigo

  37. que cesse

  38. a fome

  39. estou em busca

  40. de uma

  41. toca

  42. um buraco

  43. com meu

  44. nome

Ao relacionarmos com o título da parte de que faz parte, “fera”, verificamos que o campo semântico construído no poema retoma o lugar da mulher como selvagem. O tema do poema aparece como busca, caminho, o que corrobora o pensamento de Éstes (2014), segundo a qual a mulher instintivamente procura seu lugar, seu lado selvagem, mesmo que em situações adversas.

O eu lírico mostra um lado animalizado, como podemos observar nos versos 3,6,14,15,16,20,25,28,33,42, em que são destacadas características animais como toca, pata, pulgas, uivos e buraco. Já nos versos 27 a 32, a civilidade é escondida, como se pode perceber nos exemplos: “estou em busca” “de uma toca” “onde as fezes” “descansem” “onde os vômitos” “durmam”

A procura de “um buraco com seu nome” destaca a busca por pertencimento da parte desse eu lírico, possivelmente pela falta de encaixe em uma sociedade já modelada em parâmetros que o diferente não se encaixa. Tendo em vista os estereótipos construídos ao longo dos anos para a representação da mulher, como “Anjo”, “Sedutora” ou “Megera” (ZOLIN, 2005, p.190), é esperado que a mulher se comporte conforme esses estereótipos. Daí que, quando outra representação é destacada, neste caso unindo a ideia de Mulher à de selvageria, outros sentidos são destacados:

Quando as mulheres ouvem essas palavras, uma lembrança muito antiga é acionada, voltando a ter vida. Trata-se da lembrança do nosso parentesco absoluto, inegável e irrevogável com o feminino selvagem, um relacionamento que pode ter se tornado espectral pela negligência, que pode ter sido soterrado pelo excesso de domesticação, proscrito pela cultura que nos cerca ou simplesmente não ser mais compreendido. Podemos ter-nos esquecido do seu nome, podemos não atender quando ela chama o nosso; mas na nossa medula nós a conhecemos e sentimos sua falta [...] (ESTÉS, 2014 p.19).

Estés (2014) em seu livro, faz uso de características animais, ao destacar o fato de que as mulheres que eram domadas viviam presas em suas boas maneiras. Ao contrário das mulheres “certas” (as domesticadas), havia também as que saíam dessa prisão, as quais eram consideradas as “erradas”, ela se coloca no lugar dessas:

Por isso, igual a muitas mulheres antes e depois de mim, passei minha vida como criatura disfarçada, à semelhança de parentela que me procedeu, andei cambaleante em saltos altos e fui à igreja usando vestido e chapéu. No entanto, minha cauda fabulosa muitas vezes aparecia por baixo da bainha do vestido, e minhas orelhas se contorciam até meu chapéu sair do lugar, no mínimo cobrindo meus olhos e às vezes indo parar do outro lado da nave (ESTÉS, 2014, p.18).

Podemos perceber que tanto no poema como no livro, as características animais são usadas para conseguir demostrar uma mulher que não aceita a domesticação, e busca seu espaço: “um buraco com seu nome”, tal como representa o título do livro retirado do poema “IX”. Ao destacar características de animalidade, como toca, patas, pulgas, traças e uivos, Arraes questiona os estereótipos advindos da domesticação da mulher, de modo que o lugar de fala novamente possibilita discursos antes silenciados.

O poema “Temporã”, da terceira parte, traz a passagem de uma criança à fase adulta, que cresce entre amarguras e perguntas.

TEMPORÃ

  1. Nasci prematura

  2. de peso e tamanho

  1. fui enchendo o corpo

  2. aos poucos

  3. com tapas

  4. e cintos com fivelas

  5. nas canelas

  6. depois a mão por baixo

  7. de calcinha

  8. depois a mão por cima

  9. da boca

  10. nasci mirrada

  11. miúda

  12. fui crescendo com raiva

  13. em rasuras

  14. e pele toda marcada

  15. por tinta preta

  16. por unhas

  17. nasci já madura

  18. de mente

  19. querendo entender

  20. os motivos

  21. os meus

  22. especialmente

  23. depois fui enchendo

  24. de respostas difíceis

A palavra “temporã”, segundo o dicionário, significa: “Que vem ou sucede antes do tempo apropriado” (MELHORAMENTOS,1997, p.503). O uso do vocábulo no poema retoma um processo de crescimento adiantado de um corpo, que cresce sobre abuso de autoridade, recebendo tapas, apanhando de cintos e fivelas, e sofrendo a pior das violências, a sexual. Com isso, o eu lírico foi se criando com raiva, até que, quando crescida, tomou consciência e tentou entender os motivos pelos quais isso tudo ocorreu

Como sabemos, no contexto cultural, o Patriarcado é um sistema que domina as mulheres e crianças, para garantir o poder dos homens. No poema, podemos perceber que essa menina enquanto criança era submissa a uma pessoa que a violentava, sendo constituída como objeto. A construção do ser feminino como objeto é um dos aspectos do patriarcado, em que só tem direito de ser sujeito o que detém o poder, no caso, o homem. Se quando criança, o eu lírico não foi capaz de perceber essa estrutura opressiva, com a idade adulta vem a tomada de consciência, que possibilita que ela perceba o que estava errado. Os questionamentos que começam são característicos de uma postura contra-cultural, ou seja, que questiona a cultura dominante. Segundo a crítica feminista, numa sociedade patriarcal:

A mulher objeto se define-se pela submissão, pela resignação e pela falta de voz. As oposições binárias subversão/aceitação, inconformismo/resignação, atividade/passividade, transcendência/imanência, entre outras, referem-se respectivamente, a essas designações e as complementam. (ZOLIN,2005, p.183).

A crítica feminista destaca a submissão como papel requerido para a mulher numa sociedade patriarcal, o que, segundo Estés (2014), teria a ver com seu processo de “domesticação”. A partir de amplo estudo da pisque feminina e do instintivo natural, é possível tecer relações entre a abordagem da psicanalista e o poema, de modo que o eu lírico é caracterizado como a presa prematura de um predador.

Todas as criaturas precisam aprender que existem predadores. Sem esse conhecimento, a mulher será incapaz de se movimentar com segurança dentro de sua própria floresta sem ser devorada. Compreender o predador significa tornar-se um animal maduro pouco vulnerável à ingenuidade, inexperiência ou insensatez. (ESTÉS, 2014 p.60)

Por não ser capaz de entender a violência sofrida, que tem a ver com a própria organização social, o eu lírico vai “crescendo com raiva”: “Do ponto de vista psicológico, as meninas e os meninos são como dormentes para o fato de que eles próprios possam ser presas. Embora ás vezes pareça que a vida seria mais fácil e menos dolorida se todos os seres humanos nascessem totalmente em estado de alerta, isso não acontece” (ESTÉS, 2014, p.61). Este estado de alerta pode aparecer somente depois de sofrer a ação de ser presa de alguém. Para Estés (2014), para que alguém se torne uma pessoa inteira, é preciso realizar uma busca de si, mesmo que tal busca seja preenchida de “respostas difíceis”, como no poema. O eu lírico quando destaca ter nascido madura de mente revela, na verdade, uma aceleração do processo de crescimento pela dor, já que o amadurecimento vem com o tempo: “Nós todos nascemos Anlage, como o potencial no núcleo de uma célula: em biologia, a Anlage é a parte da célula caracterizada como “aquilo que se tornará”. Dentro da Anlage está a substância fundamental que, com o tempo, irá se desenvolver fazendo com que nos tornemos uma pessoa inteira” (ESTÉS, 2014, p.61)

Da análise do poema também podemos perceber que o eu lírico não teve alguém que a protegesse de todo o mal que passou, de modo que precisou se tornar sua própria protetora. Em Mulheres que correm com os lobos, temos a descrição de como a mãe loba protege e orienta seus filhotes:

[...] A mãe rosna para eles, investe contra eles e apavora os filhotes até que eles voltem atabalhoadamente para dentro da toca. A mãe sabe que os filhos ainda não têm condições de pesar e avaliar outras criaturas. Eles não sabem quem é um predador e quem não é. Com o tempo, ela irá ensina-los como rigidez e eficácia. (ESTÉS, 2014, p.63).

Assim como essa mãe loba ensina aos seus filhotes que nem tudo no mundo interior e exterior é adequado, muitas pessoas não tem esse conhecimento básico de perigo:

Muitas mulheres não chegam a receber os ensinamentos básicos a respeito dos predadores que a mãe loba dá aos seus filhotes como, por exemplo, se for ameaçador e maior que você, fuja; se for mais fraco, pense no que quer fazer; se estiver doente, deixe-o em paz; se tiver espinhos, veneno, presas ou garras aguçadas, recue e vá na direção oposta; se tiver um cheiro bom, mas estiver cercado de garras de ferro, passe direto. (ESTÉS, 2014, p.63)

Com a citação podemos perceber que a falta de cuidado de uma figura materna para com o eu lírico, permitindo que ela fosse presa de um predador não identificado, mas que a tirou de seu crescimento natural, obrigando-a nascer madura e diz nos versos 14 e 15 “fui crescendo com raiva” “em rasuras” essa raiva dela pode se manter a vida toda. Como Estés nos fala da raiva:

A raiva residual de antigas feridas podem ser comparadas aos efeitos traumáticos de um ferimento por estilhaços. A pessoa pode conseguir catar praticamente todos os pedaços de metal estilhaçados do míssil, mas os caquinhos menores permanecem. Seria de se pensar que, se a maioria foi retirada tudo bem. Mas não é assim. Em certas ocasiões, esses caquinhos minúsculos se torcem e retorcem, causando uma dor semelhante à do ferimento original (o fervor da raiva) mais uma vez (ESTÉS,2014 p.405).

Considerando com a leitura de Mulheres que correm com os lobos é possível buscar cura para feridas e para a raiva, ser uma mulher selvagem é considerado muitas vezes uma questão de necessidade, porém o eu lírico já havia nascido em uma sociedade patriarcal, o que a transformou em um “animal domesticado” (ESTÉS, 2014).

Nenhum de nós pode fugir inteiramente da nossa história. Sem dúvida, podemos mantê-la num segundo plano, mas ela está ali do mesmo jeito. No entanto, se você quiser agir em seu próprio benefício, você superará a raiva e acabará se acalmando e se sentindo bem. Não perfeita, mas bem. Você será capaz de seguir em frente. Ficará para trás o tempo da raiva em estilhaços[...] A mulher lembra-se de que pode ser feroz e generosa ao mesmo tempo. (ESTÉS, 2014, p.406)

O poema “Chama” da quarta parte fala de uma mulher que sofre por fatos que aconteceram. Essa mulher tenta lutar, se reerguer. O vocábulo que dá título ao poema “Chama” significa emissão de luz vinda de algum fogo, sua parte gasosa visível.

Chama

  1. li que resiliência

  2. é a qualidade de alguns corpos

  3. possuem

  4. de retomar à forma

  5. original

  6. após terem submetidos

  7. a uma deformação elástica

  8. e talvez o equívoco seja

  9. você argumentar

  10. que alguns é quantidade

  11. indefinida

  12. posto que alguns

  13. podem ser raros

  14. e que certas deformações

  15. você pode insistir

  16. não são esticáveis

  17. mas estilhaços

  18. minúsculos cacos

  19. com as cores

  20. descaracterizadas

  21. tornadas poeira cortante

  22. quando se pisa descalça

  23. mas sei

  24. por prova viva

  25. meu bem

  26. que a qualidade de se expandir

  27. retrair

  28. crescer e encolher

  29. ser grande num segundo

  30. e em seguida desaparecer

  31. é dom das criaturas

  32. que sofrem

  33. sei que elas possuem forma

  34. um contorno belo

  35. único

  36. que espera o momento

  37. do lar

  38. o instante em que os braços

  39. se abrem

  40. então

  41. o coração desiste

  42. de arritmia

  43. os pulmões descolam

  44. como se novo parto

  45. como se o novo berro

  46. agora com olhos melhores

  47. e talvez você teime

  48. que as deformações

  49. o peso

  50. os chicotes

  51. as carroças puxadas

  52. que os calabouços

  53. o chão de pedra irregulares

  54. e as palavras disparadas

  55. contra as têmporas

  56. tudo isso seja o fim da linha

  57. que a pele das criaturas

  58. flácidas

  59. jamais voltaria ao desenho

  60. ao sentimento original

  61. e de fato

  62. meu bem

  1. nada pode ser sentido

  1. duas vezes

  2. posto que cada grito

  3. ou paixão

  4. cada par de braços

  5. quentes

  6. envolvendo em conforto

  7. cada corte de papel

  8. nos dedos

  9. é primeiro e último

  10. porém

  11. as criaturas do acaso

  12. as que sofrem

  13. também aleatoriamente

  14. se regeneram

  15. e a força da física

  16. as leis explicadas

  17. pelos compilados

  18. elas nos forçam

  19. à cura

  20. então não posso afirmar

  21. que a resiliência

  22. é a qualidade apresentada

  23. por todos

  24. por você ou por mim

  25. mas tenho essa única

  26. de que escrevo por ela

  27. de que sou lida por ela

  28. e que por ela

  29. você abre agora

  30. os braços

  31. também sentindo

  32. minha chama

No poema Chama, o eu lírico fala sobre resiliência. Nos versos de 1 a 7 nos explica o que é: “li que resiliência é a qualidade de alguns corpos possuem de retomar à forma original após terem submetidos a uma deformação elástica”. No decorrer da leitura, percebemos que essa resiliência, característica normalmente vista como positiva, é denotada como algo negativo, visto que, para que algo ou alguém aprenda a ser resiliente, é necessário que alguma violência seja aplicada sobre esse algo ou alguém. No caso do eu lírico do poema, percebemos que foi obrigada a resistir. Nos versos 23 a 32, percebemos que esse dom de resistir é de pessoas que sofrem, tal como o eu lírico: “ mas sei por prova viva meu bem que a qualidade de se expandir retrair crescer e encolher ser grande num segundo e em seguida desaparecer é dom das criaturas que sofrem”.

Ao retomarmos a concepção de lugar de fala, dada por Ribeiro (2017), podemos perceber que a resiliência das mulheres não foi o bastante para garantir-lhes espaço ou mesmo para acabar com a opressão vivida. É preciso ser “chama” e queimar, a fim de que se tornem mais visíveis. Para que se haja chama, é necessário fazer a queima do que não permite a liberdade de ser mulher. Da chama depende a construção da mulher livre, destemida, que viria da retomada do arquétipo da mulher “selvagem”. Percebemos, pela leitura do poema, que essa mulher tem seu sofrimento causado por um sistema que a alterou como ser, este sistema é o patriarcado, para o qual a dominação das mulheres é requisito para a manutenção do poder dos homens. Ao sofrer violência (seja física, seja simbólica) e se manter resiliente, não se consegue alterar o contexto que possibilita a violência. Seria preciso não ver a resiliência como fator positivo, a fim de lutar por outra condição. A resiliência possibilitou estereótipos e silenciamentos que são questionados por estudiosas como Lúcia Zolin e Djamila Ribeiro, para quem que a luta por direitos deve vir de um conjunto de pessoas, a fim de encontrarmos novas maneiras de ver e sentir o mundo.

Segundo Estés, “ O fogo é o principal símbolo da reverificação na psique” (ESTÉS 2014, p.369), então o eu lírico reverifica seu lugar no mundo, sua postura resiliente, a fim de que, ciente da opressão vivida, possa buscar formas de lutar contra ela: “de que escrevo por ela” “de que sou lida por ela”. A qualidade da resiliência possibilita que o interlocutor para quem o eu lírico se apresenta sinta sua chama e talvez se contamine dela: “e que por ela” “você abre agora” “os braços” “também sentindo” “minha chama” vistos, tal como nos versos 90,91,92,93,94,9 e 96 do poema. A chama que reverifica a psique do eu lírico pode servir como modelo para quem acompanha seu queimar, pois é só a partir da reivindicação do grupo que a situação da opressão pode vir a ser questionada e mudada.

Assim percebemos que nos quatro poemas apresentados “Uma mulher pergunta” “IX” “Temporã” e “Chama” o questionamento de estereótipos, busca por lugar de fala e representação da mulher como selvagem.

5. Considerações finais

Neste trabalho buscamos analisar a representação da mulher selvagem em quatro poemas do livro Um buraco com meu nome (2018), de Jarid Arraes. A escritora é uma poeta contemporânea do Ceará que representa a mulher fora de estereótipos corriqueiros como o da mulher anjo ou da mulher pecadora. Para a análise, trouxemos como arcabouço teórico a crítica feminista de Lúcia Osana Zolin, o estudo de Djamila Ribeiro sobre lugar de fala e o trabalho de Clarissa Pinkola Estés sobre o arquétipo da mulher selvagem. As leituras teóricas possibilitam que pensemos no silenciamento das mulheres, especialmente as negras, de modo que, quando elas têm acesso à escrita, podem oferecer um outro lugar de fala, construindo novas representações.

Para a análise, escolhemos quatro poemas: Uma mulher pergunta” “IX” “Temporã” e “Chama” Analisamos o primeiro poema chamado “Uma mulher pergunta” e nele encontramos a tomada de consciência de uma mulher que se questiona. Arraes (2018) nos lembra que “as palavras são garras” e que, portanto, é necessário falar, se questionar. Ao analisarmos o segundo poema “IX”, verificamos a representação da mulher fera, que busca um buraco com seu nome. No terceiro poema, “ temporã”, encontramos uma menina domesticada que sofreu por se calar, encheu-se de raiva e de perguntas difíceis. Como se refere no livro Mulheres que correm com os lobos (2014) de Clarisse Pinkola Estés, a mulher com arquétipo selvagem consegue a cura para todas as feridas. E no quarto e último poema, “Chama”, encontramos um eu lírico em processo de resiliência, mas que não se quer mais deixar sofrer as violências que proporcionam seu ser resiliente.

A partir das leituras teóricas e da análise, pudemos verificar que o livro de Jarid Arraes apresenta outra representação da mulher, o que colabora com a ideia de que, quando temos um lugar de fala diferente, podemos erigir uma representação que também seja diferente e que, neste caso, é a da mulher selvagem.

6. Referências:

RIBEIRO, D. O que é; lugar de fala? Belo Horizonte (MG): Letramento,2017

BONNICI, Thomas; ZOLIN, Lúcia Osana. Teoria literária: abordagens históricas e tendências contemporâneas. 2 ed. Maringá: Eduem, 2005

ARRAES, Jarid. Um buraco com meu nome. São Paulo: Ferina, 2018.

http://clubedaescrita.com.br/>acesso em 04 abril.2019.

http://ferina.com.br/selo/> acesso em 21 abril 2019.

Melhoramentos minidicionário da língua portuguesa. São Paulo: Companhia Melhoramentos,1997.


Publicado por: ETIMAIRA PAGNUSSATTO BAIFUS

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