PERSPECTIVAS DE ENSINO E APRENDIZAGEM DA CAPOEIRA NO AMBIENTE ESCOLAR: COMPONENTE CURRICULAR, CONTEÚDO DE EDUCAÇÃO FÍSICA OU ATIVIDADE EXTRACURRICULAR

Arte e cultura

Quais os desafios de uma proposta de ensino e aprendizagem da Capoeira no ambiente escolar sob perspectivas de componente curricular, conteúdo de Educação Física ou atividade extracurricular?

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1. RESUMO

Monografia elaborada no curso de Licenciatura da Faculdade Regional da Bahia – UNIRB. Tem como pergunta investigativa a seguinte questão: Quais os desafios de uma proposta de ensino e aprendizagem da Capoeira no ambiente escolar sob perspectivas de componente curricular, conteúdo de Educação Física ou atividade extracurricular? Como hipótese levantamos que os desafios de uma proposta de ensino e aprendizagem da Capoeira no ambiente escolar vão requerer do professor uma intervenção para três dimensões de ensino, sendo as seguintes: componente curricular, conteúdo de Educação Física ou atividade extracurricular. Como objetivo geral apontamos perspectivas de ensino e aprendizagem da Capoeira em meio as suas diferentes formas de manifestação no ambiente escolar, seja como componente curricular, conteúdo de Educação Física ou atividade extracurricular. A base teórica principal tratada foi: SOARES (2004), DARIDO (2003), BOLA SETE (2005), CARVALHO (2007), SILVA (2003), CAMPOS (2001). A pesquisa realizada foi exploratória bibliográfica. Os resultados da pesquisa apontaram que conhecer, experimentar e explorar elementos da Capoeira é uma forma de ampliar o repertório de movimento do aluno criando possibilidades de interação com os outros e com o mundo. Para a necessidade dos professores reconhecerem o ensino da Capoeira pautando na valorização cultural dos povos, tendo em vista o contexto da realidade histórica e social em que foram produzidas essas manifestações, é preciso que o professor estimule a criatividade e a expressão corporal dos alunos, pois é através desse estímulo que os alunos aprendem a respeitar todos os tipos de cultura que envolvem a Capoeira, a conviver coletivamente, além de ampliar a sua criatividade na construção de novos movimentos; o professor de Educação Física deve ensinar pedagogicamente a Capoeira, com propostas que os alunos se identifiquem e sintam prazer de praticar a mesma, podendo trazê-la para sua realidade cultural e social. A pesquisa revelou ainda que é importante sabermos que para ensinar a Capoeira o professor não precisa ser um exímio capoeirista. É fundamental reconhecer que não vamos formar capoeiristas nas aulas de Educação Física, não vamos ensinar as técnicas com passo a passo rígidos, mais sim alguns fundamentos básicos essenciais para que todos aprimorem os conhecimentos sobre a Capoeira.

Palavras chave: Educação Física. Capoeira. Perspectivas de ensino e aprendizagem.

2. INTRODUÇÃO

2.1. DE ONDE PARTE O ESTUDO, PROBLEMA DE INVESTIGAÇÃO, HIPÓTESE E OBJETIVOS

Considerando os avanços que teve a educação brasileira, o objetivo do estudo que segue consiste em avançar sobre algumas discussões relacionadas com o processo de ensino e aprendizagem da Capoeira no ambiente escolar, questionando quanto aos desafios de uma proposta em Educação Física sob três perspectivas de ensino: componente curricular, conteúdo de Educação Física ou atividade extracurricular.

Durante muito tempo as escolas têm enfrentado algumas dificuldades para o desenvolvimento das suas aulas de uma forma geral. Mas, principalmente nas aulas de Educação Física isso se deve, em muitos casos, às precárias condições físicas, aos preconceitos e à opção por outras prioridades dentro do âmbito escolar.

Segundo Cury (2013, f. 1) a educação é definida de acordo com ordenamento jurídico em vigência no Brasil, sendo um direito do cidadão e dever do Estado. Portanto, esta situação deverá tornar o cidadão apto ao enfrentamento dos aspectos formativos, tornando esses indivíduos maiores colaboradores para as decisões do seu país.

Cury (2013, f. 3) afirma que “se a nossa Constituição põe como princípio do ensino a garantia de um padrão de qualidade [...]”, para que seja assegurada essa garantia faz-se necessária a cobrança a quem possui direito e dever na assunção de responsabilidades, que são o Estado, a família e a sociedade de uma forma geral.

Após reconhecer elementos de uma crítica à educação brasileira, tratamos uma justificativa de realidade da Educação Física Escolar. Pólo et al.(2013, f.2) afirmam que os alunos das séries iniciais têm vontade de ir ao encontro de algo que faça parte da sua própria cultura. Abordando aspectos inerentes à história afrodescendente nas aulas de Educação Física, reconhecemos a possibilidade de discutir o conteúdo Capoeira.

A pesquisadora Yahn (2013, f. 1) afirma que, dentro da comunidade escolar é bastante significativa a presença da manifestação de saberes ancestrais e populares por meio de cantigas, mitos e fundamentos, o que valida o cumprimento da lei nº 11.645/2008, que estabelece a obrigatoriedade do estudo da história e cultura afrobrasileira e indígena nos estabelecimentos de Ensino Fundamental e Ensino Médio, públicos e privados de todo o país.

Soares (2013, f. 1 apud MARTINS et al.), quando aborda os conteúdos da Educação Física, evidencia a importância de ensinar a Capoeira como manifestação cultural, procurando trabalhar a historicidade atrelada a todo o contexto político e cultural que a gerou, aprofundando a ampla riqueza de ritmos, movimentos e narrativas por meio de vivências lúdicas.

No universo de práticas da Educação Física, a Capoeira pode ser inserida na forma de expressão corporal, proporcionando as mais diversas abordagens de cunho histórico, antropológico, filosófico e muito mais. Sem distinção de etnia, religiosidade e classe social e respeitando a pluralidade de estilos e de praticantes, a Capoeira toma um eixo da individualidade de todos, inspirando uma abordagem metodológica representativa, proporcionando uma temática democrática e plural. “[...] Nessa perspectiva é preciso humanizar a escola em todos os sentidos [...]” (CASTRO JUNIOR; SOBRINHO 2013, f. 3 apud MARTINS et al.).

Abordando a Educação Física em uma universalização de possibilidades da cultura corporal, Soares (2013, f. 3 apud Martins et al.), esclarece que a Capoeira aplicada nesse contexto poderá ser entendida como meio de aplicação do desenvolvimento e melhoria significativa na prática pedagógica nas aulas de Educação Física para o pleno exercício da cidadania.

Como pergunta de investigação lançamos a seguinte questão: Quais os desafios de uma proposta de ensino e aprendizagem da Capoeira no ambiente escolar sob perspectivas de componente curricular, conteúdo de Educação Física ou atividade extracurricular?

Como hipótese, reconhecemos que os desafios de uma proposta de ensino e aprendizagem da Capoeira no ambiente escolar, vão requerer do professor uma intervenção para três dimensões de ensino, sendo as seguintes: componente curricular, conteúdo de Educação Física e atividade extracurricular.

Considerando a Capoeira sendo trabalhada como manifestação cultural deve ter evidenciada a sua historicidade, contribuindo para ampliar conhecimentos culturais, a partir de ritmos, movimentos e narrativas que podem ser promovidos por meio de vivências lúdicas, de aulas expositivas e de vivências práticas condizentes com os conteúdos abordados. Os conteúdos de aprendizagem relacionados com a Capoeira devem ser apresentados segundo sua categoria conceitual, procedimental e atitudinal, permitindo uma identificação mais precisa das intervenções educativas.

Mediante o exposto a relevância dessa pesquisa se coloca em apontar perspectivas de ensino e aprendizagem da Capoeira em meio as suas diferentes formas de manifestação no ambiente escolar, seja como componente curricular, conteúdo das aulas de Educação Física ou atividade extracurricular.

Os objetivos específicos são:

  1. Apresentar características históricas da Educação Física e da Capoeira;

  2. Identificar características das formas de manifestação da Capoeira no ambiente escolar;

  3. Refletir sobre possibilidades pedagógicas para o ensino da Capoeira no ambiente escolar, adotando diferentes perspectivas.

2.2. PROPOSTA METODOLÓGICA

Os procedimentos metodológicos que norteiam esta pesquisa foram desenvolvidos considerando a realização dos seguintes passos:

  • Construção de portfólio;

  • Levantamento bibliográfico sobre o objeto de investigação;

  • Realização de leituras e fichamentos do material bibliográfico;

  • Elaboração de sínteses e relatórios de pesquisa;

  • Elaboração final da monografia e exposição a uma banca da UNIRB.

2.3. MÉTODOS DE EXPOSIÇÃO

Para desenvolver o processo investigativo proposto, realizamos uma revisão teórica, considerando a exposição dos fundamentos históricos da Educação Física e de suas abordagens, suas especificidades teórico-metodológicas e os avanços a partir da pedagogia histórico crítica. Para finalizar a produção monográfica, elaboramos nossas considerações e expomos uma lista de autores que subsidiaram a base teórica desenvolvida nos capítulos.

3. FUNDAMENTOS HISTÓRICOS DA EDUCAÇÃO FÍSICA E DA CAPOEIRA NO BRASIL

Este capítulo visa o esclarecimento a respeito de algumas classificações e tendências da Educação Física no Brasil e também busca evidenciar pontos relevantes do percurso histórico da Capoeira neste país.

3.1. FUNDAMENTOS QUE CARACTERIZAM A HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO FÍSICA NO BRASIL

Buscando fomentar estudos referentes ao surgimento e à evolução da área do conhecimento em questão, foram realizadas consultas em fontes bibliográficas de autores renomados, complementando esta produção com dados derivados de artigos científicos publicados por alguns estudiosos, professores e ex-profissionais da área da Educação Física.

Carmem Soares (2004, p. 69) afirma em seus textos que “[...] a Educação Física no Brasil se confunde em muitos momentos de sua história com as instituições médicas e militares”. Embora existam fatos comprovados dessa confusão histórica, Ghiraldelli Júnior (1991, p. 15) expõe o seguinte:

[...] O que existe na literatura da área são estudos sobre as grandes linhas dos métodos ginásticos, ou, ainda, mais recentemente, artigos esparsos que procuram transpor, mecanicamente, quadros classificatórios sobre as correntes pedagógicas para a área específica da Educação Física. [...] É óbvio que essa discussão não surge por acaso [...].

Desde os tempos primórdios quando era preciso lutar, caçar, pescar e fugir para sobreviver que o homem primitivo executa os seus movimentos corporais, básicos e essenciais, que vieram a contribuir para o que hoje tratamos como ciência de estudo dos movimentos.

Ainda no período em que o Brasil era colônia de Portugal, os índios e os negros deram a sua contribuição, cada um com um pouco de sua cultura, de suas danças e brincadeiras da época, assim como com os movimentos necessários para a sobrevivência de cada grupo, dentre os quais podemos citar os saltos, os arremessos, o ato de trepar, empurrar, nadar, lançar o arco e flecha, dentre muitos outros.

De acordo Darido (2003, p. 1), a Educação Física dos tempos atuais é resultante de várias tendências que influenciaram para os objetivos e as propostas educacionais desta área do conhecimento. Afirma, ainda, que a disciplina foi incluída na escola a partir do século XIX, apesar da existência há um século antes, na Europa, do interesse pela inclusão dos exercícios físicos no currículo escolar.

Conforme Soares o século XIX é particularmente importante para o entendimento da Educação Física, por ter sido neste século elaborado conceitos básicos sobre o corpo e sua utilização como fonte de trabalho. (2007, p. 4)

A partir de dados colhidos na literatura de livros dos anos entre 1910 a 1920, foi possível verificar cinco tendências da Educação Física brasileira: Higienista (até 1930), Militarista (1930-1945), Pedagogicista (1945-1964), Competitivista (pós 1964) e Popular. (GHIRALDELLI JÚNIOR, 1991, p. 16)

Afirma Ghiraldelli Júnior (1991, p. 16) que, no âmbito da Educação Física Escolar pode haver complicações entre as relações das cinco concepções e a prática cotidiana. Para evitar contravenções, destaca a importância em esclarecer que essas concepções não são arbitrárias e que a periodicidade deve ser entendida com cautela, para que não haja separatismo entre uma tendência e outra, pois uma foi incorporada por outra.

A mais antiga tendência da Educação Física brasileira foi a Educação Física Higienista. Ela vem dar ênfase à questão da saúde, tendo o papel fundamental de formar pessoas mais fortes e sadias, tanto individualmente quanto em um sentido coletivo. (GHIRALDELLI JÚNIOR, 1991, p. 17)

A Educação Física Higienista caracterizava-se por utilizar a ginástica, o desporto, os jogos recreativos e todos os demais temas da Educação Física como forma de disciplinar as pessoas para hábitos de higiene e saúde. E por não pensar apenas em saúde individual, mas principalmente na resolução dos problemas de saúde coletivos, tinha como ideia central a disseminação dos problemas de conduta, impostos pelas elites dirigentes que antecederam o século XX. (GHIRALDELLI JÚNIOR, 1991, p. 17)

Nessa mesma época, afirma Darido (2003, p. 1), a Educação Física encarada sob uma perspectiva higienista é voltada para a valorização da higiene e da saúde corporal. Somente no início do século XXI é que essa área do conhecimento toma um novo rumo, com o surgimento dos métodos ginásticos, propostos pelo sueco Ling, pelo francês Amoros e pelo alemão Spiess.

Contudo, Ghiraldelli Júnior afirma que, de acordo às suas pesquisas, percebeu a Educação Física Higienista mais voltada para uma educação preocupada com a saúde pública, tendo em vista uma sociedade eugênica. (1991, p. 17)

A partir do ano de 1930 surge uma nova concepção da Educação Física que, assim como a Higienista também se preocupava com a saúde pública, a Educação Física Militarista. Esta se diferenciava da anterior unicamente pelo seu maior objetivo: formar jovens estereotipados, capazes de suportar combates, lutas e guerras. (GHIRALDELLI JÚNIOR, 1991, p. 18)

De acordo Ghiraldelli Júnior (1991, p. 18), diferentemente da Educação Física Higienista, que se posicionava para educar o povo livrando da ignorância, responsável pela deterioração da saúde, a Educação Física Militarista procurava formar cidadãos cegamente obedientes, capazes de servir de exemplo para os demais pela sua coragem e bravura.

Se até então a Educação Física foi praticada no sentido de promover a saúde ou para o adestramento da juventude, a partir de 1945 surge uma nova corrente da Educação Física, que visa o enfrentamento da disciplina como uma prática instrutiva, mas principalmente educativa, como afirma Ghiraldelli Júnior em seus textos, referindo-se à Educação Física Pedagogicista. (1991, p. 19)

Além de instrutiva, como uma forma de diferenciar instrução de educação, a Educação Física nesse sentido passa a ser abordada como educativa, diferenciando-se das demais disciplinas da época, que se limitavam apenas à instrução. (GHIRALDELLI JÚNIOR, 1991, p. 19)

Ghiraldelli Júnior (1991, p. 19) aponta a Educação Física Pedagogicista como uma concepção utilitária e social, que utiliza a ginástica, o desporto, a dança etc. como meios de educação do alunado, ou seja, como instrumentos para formação do caráter, do convívio democrático e da aceitação das regras do convívio social.

A partir de 1964, afirma Darido (2003, p. 2), depois de uma significativa repressão militar que proporcionou a liderança da pátria pelos mesmos, o então governo resolve investir fortemente nos esportes, na meta de desviar a atenção do povo frente aos problemas político-sociais da época. Disso nasce a concepção de uma Educação Física Competitivista.

Na fase contextualizada pela Educação Física Competitivista, o maior objetivo era alcançar o rendimento físico e o mecanicismo perdurava nas aplicações das aulas de Educação Física Escolar.

É nessa fase da história que o rendimento, a seleção dos mais habilidosos, o fim justificando os meios está mais presente no contexto da Educação Física na escola. Os conhecimentos empregados são extremamente diretivos, o papel do professor é bastante centralizador e a prática uma repetição mecânica dos movimentos repetitivos. (DARIDO, 2003, p. 3)

Em conseguinte à Educação Física Competitivista surge outra concepção entre as classes trabalhadoras da época, que vem a contrariar todas as demais concepções anteriormente citadas e não estava preocupada com a saúde pública e nem teve revelada uma produção teórica, se sustentando quase que exclusivamente numa teorização transmitida oralmente entre as gerações de trabalhadores deste país, a Educação Física Popular (GHIRALDELLI JÚNIOR 1991, p. 21).

Segundo Ghiraldelli Júnior (1991, p. 21) a Educação Física Popular não pretende disciplinar e nem adestrar seres humanos, tão pouco está preocupada com o competitivismo. Apenas expressa a ludicidade e cooperação por meio do desporto, da dança, da ginástica, das lutas e outros.

Castellani Filho apud Darido (2003, p. 3) considera que as mudanças ocorridas na Educação Física foram resultantes de dois motivos distintos. O primeiro deles se refere ao modelo educacional que prioriza a formação do homem consciente do tempo cronológico, porém que precisava se modificar para acompanhar os novos avanços. O segundo diz respeito à questão da necessidade de produtividade, onde o modelo de corpo produtivo seria o caminho para o avanço do processo de automação de mão-de-obra.

Na Educação Física Escolar aconteceu um grande avanço histórico onde, até os tempos hodiernos, coexistem nesta área a influência de várias concepções, todas tendo em comum o anseio pelo fim do modelo tecnicista, oriundo de uma etapa recente da Educação Física. “Na tentativa de romper com o modelo hegemônico do esporte/aptidão física praticado nas aulas de Educação Física [...] o ensino encaminha no sentido de uma emancipação, possibilitada pelo uso da linguagem”. (DARIDO, 2003, p. 16).

Uma das principais tendências discutida na Educação Física é a abordagem Crítico-Superadora. Esta, por sua vez, também se opõe ao modelo mecanicista outrora imposto na educação brasileira. O trabalho mais marcante desta abordagem foi um livro publicado no ano de 1992, denominado por Metodologia do Ensino da Educação Física, publicado por um Coletivo de Autores. (DARIDO, 2003, p. 8)

A abordagem Crítico-Superadora defende a ideia da justiça social como ponto de apoio para a educação, tendo importantes teóricos a seu favor, a exemplo de Libâneo e Savianni. Nesta abordagem, a seleção de conteúdos e o método de avaliação para as aulas é proposta levando-se em consideração a relevância social dos conteúdos, sua contemporaneidade e as adequações às características sociais e cognitivas do aluno, esclarece Darido (2003, p. 8).

Apresentamos assim várias tendências pelas quais perpassaram a Educação Física no transcorrer da sua história, descrevendo as bases de organização e aplicabilidade da disciplina no contexto escolar e objetivando a construção de cidadãos renovados e conscientes na democratização da sua sociedade.

3.2. FUNDAMENTOS QUE CARACTERIZAM A HISTÓRIA DA CAPOEIRA NO BRASIL

Considerando a Capoeira como uma manifestação artístico-cultural que envolve a dança, a música, a literatura, o teatro e a arte marcial, este texto foi construído a partir de estudos derivados do percurso histórico da Capoeira no Brasil, buscando evidenciar a verdadeira origem do objeto de investigação do qual trata esta produção científica.

Na busca por esclarecimentos à cerca da origem e história da Capoeira, foi realizado um estudo bibliográfico referente ao surgimento do objeto de estudo-Capoeira, bem como procuramos complementar o material analisado com dados oriundos de artigos científicos e revistas digitais publicadas nos últimos dez anos.

Primeiramente, é importante mencionar que a capoeira não teve um criador específico, apenas é apontada como uma criação dos africanos em terras brasileiras, como afirma o Mestre Bola Sete em um de seus textos:

Não se sabe, ao certo, a verdadeira origem da capoeira. Isso por que muitos dos documentos que se referiam à escravidão no Brasil foram queimados por ordem de Ruy Barbosa, Ministro da Fazenda daquela época. Tudo o que conseguimos até agora é resultado da transmissão oral de negros africanos, dentre eles grandes mestres de capoeira [...]. (BOLA SETE, 2005, p. 19)

Nos textos de Silva (2003, p. 34) há relatos de que a capoeira tem sua origem no Brasil Colônia, quando os negros escravos foram trazidos à força para o território brasileiro e descobriram a grande valia dos seus movimentos corporais para expressar sua indignação pelos maus tratos a que eram submetidos.

Encontramos registros desde o início da história da humanidade sobre lutas e poder, com prevalência do domínio dos mais fortes, fazendo dos mais fracos os seus prisioneiros e obrigando-lhes aos mais diversos trabalhos forçados. Conforme relatos históricos, os portugueses eram considerados os maiores investidores em meios de transportes que pudessem proporcionar-lhes condições de chegar a lugares bastante distantes, despertando a vontade de conhecer diversas regiões, visto que eram os detentores do poder logo após a sua chegada às terras brasileiras, como afirma Carvalho (2007, p. 19).

Em seus textos, Carvalho (2007, p. 19-21) relata que, após a invasão às terras brasileiras, os portugueses tentaram escravizar os índios, mas enfrentaram muitas dificuldades para domesticá-los, o que os levou a importar escravos africanos. Logo a partir da primeira década do ano de 1500, ainda no sul de Portugal, os negros eram traficados da África, importados como se fossem mercadorias, para executar forçadamente árduos trabalhos na agricultura e nas minas, até chegarem ao Brasil de forma ilegal, trocados por fumo, açúcar e aguardentes, comercializados por senhores donos de engenho.

Relata Carvalho (2007, p. 21) que, de muitos negros que vieram traficados da África, a maioria era de origem Bantus de Angola e Sudaneses. Mesmo com aspectos favoráveis para aquele tipo de trabalho, tais quais mais se destacaram na prática de capoeira na Bahia, muitos negros não suportavam os maus tratos, provenientes da falta de estrutura para acomodação, da ausência de alimentação e de ventilação adequada, e morriam ainda no caminho da viagem. Quando não morriam de fome ou de frio, morriam de solidão, devido à saudade da família e dos seus costumes.

Após todo o sofrimento passado, os escravos que conseguiam sobreviver e chegar ao Brasil eram alimentados com sopa de milho para se fortalecer e depois serem vendidos no mercado. Eram expostos como mercadorias e examinados de forma humilhante pelos interessados para, conforme o perfil serem utilizados no tipo de trabalho indicado, tais quais: trabalho no engenho, na cozinha, no canavial, mãe de leite e outros. (CARVALHO, 2007, p. 25)

Ainda nos cativeiros, os negros procuravam utilizar de instrumentos musicais e movimentos cadenciados para disfarçar a perigosa luta em dança e conseguirem se libertar. Cansados dos maus tratos recebidos pelos feitores, se refugiavam para a grande mata que existira nas terras brasileiras, onde lutavam ferrenhamente contra os capitães do mato, partindo em seguida para os grandes quilombos, outrora já formados por outros negros fujões. (BOLA SETE, 2005, p. 20)

Para tentar recrutar os negros fujões, os senhores de engenho designavam pessoas de sua confiança, inclusive outros negros, para castigá-los e evitar novas fugas. Eram os conhecidos por capitães-do-mato que, muitas das vezes, saíam em desvantagem na tentativa de resgate, pela agilidade de defesa de muitos negros daquela época.

Nos tempos da escravidão foram formados vários Quilombos², tendo sido conhecido como o mais importante historicamente o Quilombo dos Palmares, situado no estado do Alagoas, que tinha como líder um negro, o então conhecido pelo nome de Zumbi dos Palmares, afirma Carvalho. (2007, p. 27)

Relatos históricos comprovam a existência do termo capoeira proveniente dos locais onde os negros refugiados praticavam as lutas disfarçadas de dança, que eram matas rasteiras facilitadoras da aprendizagem e do aperfeiçoamento da sua prática, como esclarece Bola Sete em um dos seus muitos relatos: “[...] quando um negro escravo fugia e o feitor retornava sem conseguir capturá-lo, o senhor de engenho indagava [...] e o mesmo respondia: - Me pegou na capoeira!”

Baseados em algumas fontes, podemos nos certificar de alguns sinônimos diferentes para o termo capoeira. Silva (2003, p. 34-35) cita em sua obra alguns significados: “[...]gaiola grande [...], terreno em que o mato foi roçado e/ou queimado para cultivo da terra e para outro fim [...], espécie de cesto para resguardo dos defensores de uma fortaleza [...], jogo atlético, constituído por um sistema de ataque e defesa...”.

De todas as significações que foram citadas acima, a que mais se aplica é a última, justamente por se imaginar que a Capoeira é definida como dança, luta, jogo de corpo e arte brasileira. Mesmo assim, não esqueçamos de que “a capoeira é a resistência de um povo integrado à massa, é cultura, é raça, enfim, é o fenômeno do inacabado”, como esclarece Silva (2003, p. 35).

Em virtude da proliferação da Capoeira e dos seus feitos em grandes centros urbanos, começaram a se intensificar as perseguições e repressões nas capitais brasileiras onde se praticavam a Capoeira, tendo maior destaque na época Recife, Rio de Janeiro e Salvador.

Marinho (2007, p. 28-29 apud CARVALHO) esclarece a importância da agricultura para a sobrevivência de muitos negros daquela época. Afirma, ainda, que no ano de 1687 o então governador Matias da Cunha foi procurado por um sertanejo paulista que tinha o objetivo de exterminar os Palmares em troca de terras. Descontente com o crescimento dos Palmares, o governo aceitou a proposta travando uma enorme guerrilha entre o sertanejo e os escravos.

Segundo Carvalho (2007, p. 29-30) o embate resultou na morte de muitos negros. Poucos foram capturados e a maioria preferiu o suicídio a voltar para a escravidão. Quanto ao líder Zumbi, existem duas versões para a sua morte: a primeira conta a versão de que Zumbi despencou de um rochedo e a segunda enfatiza que o chefe dos Quilombos foi traído por outro negro, que o entregou aos inimigos para deceparem a sua cabeça em praça pública.

De acordo relatos históricos, os negros que foram capturados para retornar ao trabalho escravo levaram consigo uma nova experiência: a prática da Capoeira. Com isso, muitos negros escravizados passaram a ser contratados para serviços de interesses pessoais de muitos políticos da época, contribuindo com seus atos para a marginalização da Capoeira.

Após muitos anos de ameaças para o término da escravidão no Brasil, no dia 13 de maio de 1888 foi criada a Lei Áurea, que visava à libertação de todos os escravos. Porém, para aqueles ex-escravos restavam somente problemas de desemprego, despreparo e fome, o que impulsionava a muitos daqueles negros a partirem para a criminalidade, afirma Carvalho (2007, p. 32-33).

Pastinha apud Silva (2003, p. 34) dizia o seguinte: “Eles sabiam que eu jogava Capoeira, então queriam me desmoralizar na frente do povo. Por isso bati algumas vezes em polícia [...] por defesa da minha moral e do meu corpo”. Essa era a forma que os negros escravizados encontravam na época da escravidão para se defender dos brancos dominadores, acirrando ainda mais os conflitos entre brancos e negros.

Vicente Ferreira Pastinha foi considerado um grande ícone na história da Capoeira. Defensor da capoeira angola, Mestre Pastinha teve sua concepção respeitada pela maneira como exercia o jogo dentro de uma roda, pela maneira como permitia que seu corpo falasse sem precisar abrir a boca. “Conhecer as leis do ritual, saber brincar, cantar, dançar, ser malicioso, mandingueiro, são qualidades mais importantes do que a simples eficiência marcial dos golpes” (Pastinha apud Silva, 2003, p. 52).

Dois anos após ter sido decretada a lei que libertou os escravos, foi criado um novo decreto de lei no dia 11 de outubro de 1890, que colocou a Capoeira no Código Penal Brasileiro, proibindo toda e qualquer prática daquela luta, até a chegada de um ilustre nome na história da capoeira no Brasil, conhecido por Mestre Bimba. (ALMEIDA apud CARVALHO, p. 36-37)

Manoel dos Reis Machado, popularmente conhecido por Mestre Bimba, revolucionou a Capoeira por criar um estilo de jogo nomeado por “capoeira regional” ou “luta regional”. Com apenas 12 anos de idade, começou a aprender Capoeira com um africano de nome Bentinho, onde treinava golpes mais duros com aspecto de arte marcial. Sua maior pretensão seria tirar a capoeira do Código Penal, tornando-a uma prática reconhecida e sem repressão social. (SILVA, 2003, p. 52)

Na meta de cumprir seu maior objetivo, esclarece Silva (2003, p. 52-53), Bimba introduz ao novo estilo de jogo algumas práticas da Capoeira angola, porém com um ritmo mais ligeiro e eficaz, equiparando-se às artes marcias muito valorizadas na época. “Conta-se que na África, em Angola, existia um ritual bastante violento [...] onde os negros lutavam aplicando cabeçadas e pontapés [...] e os vencedores tinham como prêmio as meninas das tribos que ficavam moças” (BOLA SETE, 2005, p. 19).

Mestre Bimba foi o primeiro capoeirista da história a entrar no palácio governamental e se exibir com seus alunos para um chefe de Estado, conquistando no ano de 1961 o reconhecimento da Capoeira como desporto, e tendo a mesma sido introduzida no currículo do ensino da Polícia Militar da Guanabara. (CARVALHO, 2007, P. 38)

A partir de então, a Capoeira toma um novo rumo, ganhando o seu devido espaço na sociedade e aperfeiçoando a sua prática com a utilização de instrumentos, ritos e símbolos de uma linguagem representativa de mundo, desde a formação de sua roda, grande círculo composto por capoeiristas a contemplar a destreza de dois jogadores, até a conquista do respeito de todas as classes sociais. (SILVA, 2003, p. 54)

Contudo, a Capoeira pode ser definida como uma expressão corporal do negro representada pela dança e pela luta, pelo canto e pelo jogo, pelo ataque e defesa, encontrando nos vácuos da roda uma oportunidade para expressar a felicidade de sentir-se livre de opressões sociais e excludentes.

4. PERSPECTIVAS DE ENSINO DA CAPOEIRA NO AMBIENTE ESCOLAR

Este capítulo surge da necessidade de discutir as principais perspectivas de ensino e aprendizagem da Capoeira no âmbito escolar. A partir da pesquisa realizada foram identificadas três perspectivas, a saber: A primeira perspectiva se propõe em conceituar a Capoeira, para depois contextualizar uma abordagem mais pedagógica da mesma, evidenciando sua importância enquanto componente curricular; em seguida, abordaremos alguns dos principais aspectos metodológicos para o ensino da Capoeira enquanto conteúdo das aulas de Educação Física e finalizando a discussão apontaremos os mais diversos desafios pedagógicos de ensino da Capoeira enquanto atividade extracurricular.

4.1. CONCEITUANDO A CAPOEIRA E SUA IMPORTÂNCIA PEDAGÓGICA ENQUANTO COMPONENTE CURRICULAR

Tendo a Capoeira sido reconhecida como Patrimônio Cultural Brasileiro e, para tanto, apresentando uma profunda e incessante relação com a história do povo dessa terra, a cada dia a discussão relacionada com essa arte e luta genuinamente brasileira se torna ainda mais interessante para ser discutida no âmbito escolar, em todos os níveis de ensino.

Para fortalecer a necessidade de discussão e aplicação da temática afro-brasileira no ambiente escolar, foi sancionada a Lei nº 10.639/2003, tornando obrigatória a matéria “História e Cultura Afro-Brasileira” no currículo da educação básica nacional, tanto em escolas públicas quanto particulares.

Ainda na mesma década foi feita uma alteração na Lei 9.394/1996 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), já modificada pela Lei nº 10.639/2003, quando passou a vigorar a Lei nº 11.645/2008 com a seguinte redação: “Art.26-A. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino médio, públicos e privados, torna-se obrigatório o estudo da história afro-brasileira e indígena.” (BRASIL, 2010, p. 24)

Muitos alunos desconhecem a contribuição histórica e social que os nossos ancestrais indígenas e africanos tiveram para a formação da população brasileira. Por isso mesmo, ainda há uma forte resistência a ser vencida pelos professores no espaço escolar, no sentido de quebrar paradigmas de preconceitos relacionados a tudo o que diz respeito à herança desse povo, principalmente os africanos, com as suas danças e manifestações religiosas.

De acordo Abib (2005, p. 205), o aprendizado de culturas populares, a exemplo da capoeira e do samba, ainda causa estranhamento e rejeição por parte dos sujeitos da educação formal. Isso se deve ao fato de essas culturas serem oriundas das diversas vivências entre crianças e jovens de classes menos favorecidas, desde a sua origem, quando eram praticadas apenas pelos escravos, em seus poucos momentos de lazer, quando se refugiavam para as matas brasileiras.

Mas, para tratar da temática Capoeira enquanto componente curricular, primeiramente será necessário conceituar o objeto de estudo em questão, perpassando pelos seus diversos significados do vocábulo propriamente dito, para tentar compreender a forte influência que teve dos diversos povos que aqui passaram desde a época da escravidão no Brasil.

É importante saber que para a disseminação da Capoeira não existiu somente a contribuição dos povos africanos que aqui chegaram, sendo estes os mentores da arte e luta brasileira de que tratamos. Também existiu, e ainda existe, forte influência dos povos indígenas que até hoje perdura em meio às manifestações culturais de tudo o que é relacionado com a prática da Capoeira. Um grande exemplo disso está na própria origem do vocábulo Capoeira.

Campos (2001, p. 21) afirma em seus textos que o vocábulo capoeira tem sido tratado por vários estudiosos com significações diferentes, com os primeiros registros datando de 1712 e 1813. Porém, enfatiza que foi no ano de 1865 que se teve notícia da primeira proposição do uso do termo capoeira, após a edição de Iracema, obra de José de Alencar. Nesta época, o termo foi oriundo do tupi Caa-Apuam-era, traduzindo-se em ilha de mato cortado.

Silva (2003, p. 34) procura sintetizar os diversos significados da Capoeira, evidenciando sobre as relações desses significados com o sentido para o qual é utilizado o termo, a exemplo de compreendê-la como uma grande gaiola onde se alojam pássaros, terreno ou mato que foi roçado e/ou queimado para cultivo da terra ou para outro fim, ou ainda um jogo atlético de caráter individual constituído por um sistema de ataque e defesa, que surgiu entre os negros bantos de Angola que foram escravizados no Brasil.

Os autores Silva e Heine (2008, p.29) explicam que “a capoeira foi e sempre será símbolo de resistência e de luta por uma sociedade mais justa e com direitos reais e iguais para todos”. Com isso podemos perceber que, em se tratando de resistência e luta por direitos iguais, os índios também se fazem presentes, tendo em vista que eles, assim como os negros, serviram de mão-de-obra escrava dos colonizadores europeus.

De acordo aos Parâmetros Curriculares Nacionais da Educação Física (PCN’s), que serve como um documento norteador para os profissionais da área, dentro do processo de ensino e aprendizagem da Educação Física espera-se que o indivíduo seja capaz de exercer com autonomia suas possibilidades corporais, que serão refletidas no seu convívio social e cultural. “Trata-se de compreender como o indivíduo utiliza suas habilidades e estilos pessoais dentro de linguagens e contextos sociais [...]”. (BRASIL, 2000, p. 33)

Corroborando o exposto nos Parâmetros Curriculares Nacionais, a Capoeira aplicada enquanto componente curricular poderá contribuir em todos os níveis de ensino para o aprimoramento físico, motor e psicológico dos alunos, uma vez que a mesma possui uma infinidade de maneiras para ser ensinada, tanto na fase da Educação Infantil quanto nos demais anos que compreendem a educação básica, inclusive abrangendo ao Ensino Médio.

Além do mais, a Capoeira trabalhada como componente curricular de qualquer que seja o ano da educação básica, poderá ser representada com enfoque histórico, social e cultural, atrelando os conhecimentos adquiridos nas aulas com as mais variadas vivências dos alunos dentro e fora do ambiente escolar. Dessa maneira, poderá corresponder às expectativas do exposto na lei nº 11.645/2008, uma vez que desenvolverá o estudo de um assunto pertinente à história afro-brasileira.

Na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, em seu Título I, artigo 1º, que trata da educação, encontra-se exposto o seguinte: “[...] abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais”. (BRASIL, 2010, p. 7)

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Para tanto, conforme a situação em que ocorra um determinado gesto e a necessidade de quem o realiza, o mesmo poderá representar significados diferentes. Utilizando a Capoeira em meio às aulas de Educação Física os alunos poderão aprender a organizar e a utilizar sua motricidade de maneira adequada, desde que lhes sejam proporcionadas vivências motoras das mais diversificadas possíveis.

A Capoeira desenvolvida na perspectiva de componente curricular poderá enaltecer de forma prática as ideias expostas nos Parâmetros Curriculares Nacionais, os quais esclarecem a importância em observar o aluno em sua totalidade, considerando os aspectos cognitivos, afetivos e corporais interagindo em todas as situações.

Pouco importa a mera repetição de gestos estereotipados, automatizados e reproduzidos. O mais importante é a apropriação, por parte do aluno, dos diversos conhecimentos relativos ao corpo e ao movimento, na busca da autonomia na utilização de seu potencial gestual, é o que afirmam os Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 2000, p. 33).

Em sua amplitude de possibilidades de aplicabilidade da Capoeira enquanto componente curricular, podem ser trabalhados nos alunos os valores éticos, o desenvolvimento da espiritualidade, o sentido de coletividade, a musicalidade, a teatralidade dentre tantos outros fundamentos, funcionando com apoio pedagógico e vislumbrando possibilidades variadas de desfazer preconceitos e fazer com que os alunos aprendam a superar os obstáculos e a lidar com as diferenças.

Silva e Heine (2008, p. 29-30) fortalecem o exposto no parágrafo anterior, quando explica que:

Muitos jovens oriundos de famílias com profundos problemas estruturais encontram na capoeira um alicerce para a formação de seu caráter e de uma consciência de cidadania. Com a capoeira, tem-se a chance de conhecer deveres e direitos, conviver com seus semelhantes, acreditar em si mesmo e nas suas possibilidades de realização, assumir responsabilidades e compartilhar compromissos na realização de projetos coletivos.

Devido às várias formas que poderá ser contemplada dentro do ambiente escolar, a Capoeira se torna uma excelente ferramenta pedagógica que atua de maneira direta e indiretamente na vida do aluno, influenciando na formação dos aspectos cognitivos, afetivos e motores, dentre tantos outros, como frisa Campos (2001, p. 23).

Outra importante contribuição da Capoeira para os alunos é no aprimoramento dos conhecimentos históricos, sociais e culturais do seu povo. Por meio das músicas da Capoeira, por exemplo, os alunos poderão ser contemplados com relatos históricos verídicos, pertinentes à história do Brasil, além de ser trabalhada a oralidade e a coordenação motora, que permeiam a roda com o acompanhamento das palmas e cânticos que ocorrem alternadamente.

No que diz respeito à atenção no processo de ensino e aprendizagem das habilidades motoras, alguns fatores devem ser considerados, tais quais: complexos processos de ajustes neuromusculares, equilíbrio, regulação do tônus muscular e interpretação de informações perceptivas. Contudo, o processo deve ser gradual, tendo em vista a aplicabilidade de movimentos individuais ou em conjunto, de acordo ao desenvolvimento do indivíduo, afirmam os Parâmetros Curriculares Nacionais (EDUCAÇÃO, 2000, p. 35).

Ainda há maiores vantagens no processo de ensino e aprendizagem da Capoeira no âmbito escolar por se tratar de um conteúdo que pode (e deve!) ser aplicado fazendo uso da ludicidade. Para uma melhor apropriação dos conteúdos no Ensino Fundamental, é recomendado o uso da ludicidade, pois:

As situações lúdicas, competitivas ou não, são contextos favoráveis de aprendizagem, pois permitem o exercício de uma ampla gama de movimentos que solicitam a atenção do aluno na tentativa de executá-los de forma satisfatória e adequada. Elas incluem, simultaneamente, a possibilidade de repetição para manutenção e por prazer funcional e a oportunidade de ter diferentes problemas a resolver. (EDUCAÇÃO, 2000, p. 36)

Através de uma prática ordenada da Capoeira no contexto pedagógico, o aluno poderá assimilá-la e atuar em uma ou mais linhas com as quais se identifica. Essas, por sua vez, são as seguintes: Capoeira luta, Capoeira dança e arte, Capoeira folclore, Capoeira esporte, Capoeira educação, Capoeira como lazer e Capoeira como filosofia de vida. (CAMPOS, 2001, p. 23-24)

De acordo Campos (2001, p. 23), a Capoeira sob a perspectiva de luta deverá sem ministrada com o objetivo de Capoeira combate e defesa, por representar na sua origem a essência da sobrevivência através dos tempos.

Em se tratando da perspectiva da Capoeira dança e arte, o autor diz o seguinte: “[...] a arte se faz presente através da música, ritmo, canto, instrumento, expressão corporal [...]. Na dança, as aulas deverão [...] aproveitar os movimentos da Capoeira, desenvolvendo flexibilidade, agilidade, destreza [...] em busca de coreografia e satisfação pessoal”. (CAMPOS, 2001, p. 23).

A Capoeira folclore deverá promover a participação dos alunos, tanto na teoria quanto na prática, por se tratar de uma expressão popular que faz parte da cultura brasileira. Já a Capoeira esporte deverá ter enfoque especial para a competição, desde sua institucionalização em 1972, pelo Conselho Nacional dos Desportos, obedecendo a técnicas e táticas da modalidade e estabelecendo treinamentos físicos, afirma Campos (2001, p. 23).

A Capoeira educação é representada como elemento de extrema importância para a formação integral do aluno, tendo em vista a sua contribuição para o desenvolvimento físico, formação do caráter e da personalidade e influenciando nas mudanças comportamentais. Para os alunos portadores de necessidade especiais, a Capoeira tem contribuído significativamente com o processo de reabilitação, enfatiza Campos (2001, p. 23-24).

Enquanto lazer, a Capoeira é desenvolvida informalmente através das rodas espontâneas que são realizadas em escolas, praças públicas, praias, festas de largo e outros. Como filosofia de vida, Campos afirma o seguinte: “Muitos são os adeptos que se engajam de corpo e alma, criando uma filosofia própria de vida, tendo a Capoeira como elemento símbolo, e até mesmo usando-a para sua sobrevivência”. (CAMPOS, 2001, p. 24)

A partir de atividades de caráter recreativo, cooperativo, competitivo, dentre outros, será possível identificar e aprimorar, se for o caso, os diversos aspectos motores dos indivíduos. “Um dos principais motivos que tem levado as pessoas em geral a praticar a capoeira é exatamente a possibilidade de experimentar sensações de prazer e alegria por meio de sua prática”, afirmam Silva e Heine (2008, p. 49).

Para tanto, será imprescindível um prévio planejamento por parte do professor, bem como deverá ser propiciado aos alunos a oportunidade de experimentar as mais diversas ações corporais em diferentes espaços, com e sem o uso de objetos e mais uma série de procedimentos cognitivos, consideráveis para o processo de ensino e aprendizagem da Educação Física. (EDUCAÇÃO, 2000, p. 33-34)

De acordo os Parâmetros Curriculares Nacionais, todos os seres humanos possuem uma tendência natural para a automatização dos movimentos, que vão dos mais básicos aos mais complexos. Para tanto, quanto maior a quantidade e a qualidade na execução de exercícios motores, menos atenção se exigirá para o controle de cada movimento. (EDUCAÇÃO, 2000, p. 34)

Contudo, tornar-se-ão necessárias algumas observações, a exemplo de se levar em consideração as características individuais e as vivências anteriores dos alunos dentro do processo de ensino e aprendizagem das práticas corporais. Cabe ao professor, enquanto mediador do processo, buscar desenvolver nos indivíduos as potencialidades e limitações, proporcionando situações para o aluno arriscar, decidir, acertar e errar, valorizando cada ação, na meta de contribuir para o avanço do processo. (EDUCAÇÃO, 2000, p. 38)

Nesse sentido, a Capoeira em seu amplo universo de possibilidades de ensino e aprendizagem no âmbito escolar, desenvolvida com a perspectiva de componente curricular, poderá contribuir significativamente para a integração do indivíduo na sociedade, buscando um desenvolvimento pleno e por puro prazer em sua execução. Contudo, os mesmos desenvolverão dimensões procedimentais oriundos das aulas, tendo em vista as possibilidades que lhes serão oportunizadas.

A partir da justificativa de atendimento a base legal vigente, a Capoeira também poderá servir como ótima alternativa, por se tratar de um conteúdo completo, que pode ser desenvolvido por meio de vivências lúdicas, em se tratando dos anos iniciais da educação básica ou, ainda, sob dimensões conceituais e procedimentais para todos os demais anos da educação básica.

4.2. ASPECTOS METODOLÓGICOS DO ENSINO DA CAPOEIRA COMO CONTEÚDO DE EDUCAÇÃO FÍSICA

Se a aprendizagem em Educação Física, por si só, já envolve alguns riscos do ponto de vista físico que são inerentes ao próprio ato de se movimentar, as aulas de Capoeira nesse contexto irão requerer do professor um nível de preparo que vai muito além dos métodos procedimentais.

Situações de desequilíbrio, déficit de atenção, dificuldade para a execução de determinados movimentos corporais, timidez e vergonha por parte dos alunos, são apenas alguns, dentre muitos outros desafios que poderão ser encontrados em meio às aulas de Capoeira em qualquer que seja o ano da Educação Básica, devendo o professor levar sempre em consideração as vivências anteriores dos alunos, que podem variar dependendo do nível social, intelectual e motor de cada um.

Encontramos afirmado nos Parâmetros Curriculares Nacionais da Educação Física que:

Nas situações em que o equilíbrio corporal é solicitado, a possibilidade de desequilíbrio está inevitavelmente presente. Dessa forma, mesmo considerando que escorregões, pequenas trombadas, quedas [...], não possam ser evitados por completo, cabe ao professor a tarefa de organizar as situações de ensino e aprendizagem, de forma a minimizar esses pequenos incidentes. (BRASIL, 2000, p. 37)

Silva e Heine (2008, p. 41) afirmam que em algumas escolas de Educação Infantil a única opção de atividade física que os alunos encontram é por meio das aulas de Capoeira, devido à mesma oferecer uma gama de oportunidades motoras. Usar a ludicidade como ferramenta para o processo de ensino e aprendizagem da Capoeira nessa fase escolar poderá ser uma excelente alternativa de ensino, onde os alunos explorarão, por si só, as mais variadas movimentações corporais, que muito contribuirão para o seu desenvolvimento integral.

No que tange à metodologia de ensino da Capoeira Escolar, Campos (2001, p. 27) esclarece que o a aprendizagem de cada golpe deverá ser acompanhada não somente de um conhecimento técnico, como também de todos os elementos que constituem sua cultura, história, origem e evolução dos mesmos. A ideia principal é de que todos os alunos interajam em meio às aulas, jogando, cantando e tocando.

Conforme Silva e Heine (2008, p. 43) a Capoeira inserida no contexto escolar deve interagir e dialogar com todos os saberes e diversidades da instituição, sem perder suas características originais e essenciais, que muito contribuirão para o processo de formação dos alunos, uma vez reconstruída e reinventada a partir de referenciais educacionais.

Desse modo, entendemos que a Capoeira deve interagir dinamicamente com o projeto político-pedagógico da escola, estando inserida no planejamento de curso da disciplina Educação Física. Além do mais, nos tempos hodiernos existe um interesse muito grande na inclusão e valorização de saberes ancestrais dentro das escolas formais, tendo em vista a capacidade que essas culturas têm na colaboração para a formação de valores morais dos alunos. (ABIB, 2005, p. 205)

Como conteúdo integrante das aulas de Educação Física, acreditamos que a Capoeira deverá fazer parte pelo menos de uma das unidades do calendário escolar, onde será contemplado o estudo de algo relacionado à cultura afrobrasileira. No entanto, é importante para os professores repensarem a sua metodologia, desenvolvendo uma visão mais crítica dos conteúdos e práticas a serem abordadas com os alunos em todos os anos que compreendem a educação básica, desde o Ensino fundamental até o Ensino Médio.

De maneira geral, a Capoeira deve integrar o indivíduo na sociedade, tomando por base os conhecimentos adquiridos no ambiente escolar, tornando as aulas prazerosas, implicando nas relações sociais, nas decisões tomadas e na superação de conflitos, explicam Silva e Heine (2008, p. 50).

Para os alunos dos anos iniciais do Ensino Fundamental, o documento norteador dos professores de Educação Física, denominado de Parâmetros Curriculares Nacionais, orienta que:

Não basta a repetição de gestos estereotipados, com vistas a automatizá-los e reproduzí-los. É necessário que o aluno se aproprie do processo de construção de conhecimentos relativos ao corpo e ao movimento e construa uma possibilidade autônoma de utilização de seu potencial gestual. (BRASIL, 2000, p. 33)

De acordo os Parâmetros Curriculares Nacionais da Educação Física “[...] quanto mais uma criança tiver a oportunidade de saltar, girar ou dançar, mais esses movimentos tendem a ser realizados de forma automática” (BRASIL, 2000, p. 34).

Castilhas (2012, p. 76) explica que a Capoeira praticada no ambiente escolar deverá proporcionar à criança o contato com a diversidade, não se restringindo apenas aos inúmeros ensinamentos da arte e luta brasileira como também proporcionando aos educandos um universo de possibilidades para a aprendizagem de novos conhecimentos. Com isso, compreendemos o importante papel que a Educação Física, fazendo uso do conteúdo Capoeira, poderá exercer para a automação e aperfeiçoamento das práticas da cultura corporal em crianças nos anos iniciais da Educação Básica.

Alguns aspectos se fazem indispensáveis dentro do processo de ensino e aprendizagem da Capoeira para alunos da educação básica e, para tanto, devem ser considerados. São eles: a utilização de materiais pedagógicos, o ensinamento dos movimentos, a prática dos cantos das músicas e o ritual do jogo de Capoeira.

Silva e Heine (2008, p. 67) classificam como material pedagógico tudo o que possa servir de apoio para a aplicabilidade das aulas de Capoeira, e que não seja o próprio corpo do aluno. Frisam, ainda, que já dentro das senzalas e dos quilombos, os negros utilizavam de alguns elementos naturais, que em tempos mais atuais tratamos como pedagógicos, a exemplo de pedaços de madeira ou um simples cipó.

É de suma importância a criatividade do professor no momento de planejar as suas aulas e selecionar qual material se deve utilizar. Mais importante ainda é a adequabilidade do material em conformidade com a realidade do contexto social de cada grupo específico de alunos, bem como se pensar na quantidade de crianças, faixa etária e nível de aprendizagem individual. (SILVA e HEINE, 2008, p. 68)

Em se tratando do ensino dos movimentos, trataremos primeiro de conceituar a psicomotricidade que, de acordo Ferreira “estuda a relação existente na formação psico (mente) e motriz (movimento)”. (2010, p. 25)

Ainda conforme Ferreira (2010, p. 25) a psicomotricidade “é a ciência que tem por objeto de estudo o homem, através do seu corpo em movimento e em relação ao mundo interno e externo, bem como suas possibilidades de perceber, atuar, agir com o outro, com os objetos e consigo mesmo.”

Le Bouch apud Castilha (2012, p. 76) define psicomotricidade como “a ciência que estuda a conduta motora como expressão do amadurecimento e desenvolvimento da totalidade psicofísica do homem [...]”.

Na capoeira, entende-se que o movimento do praticante se desenvolve desde situações de passividade a uma progressiva dinamicidade. Por isso, propostas lúdicas são fundamentais no desenvolvimento da capoeira na educação infantil e devem orientar-se para a participação criativa da criança, facilitando a expressão de seus sentimentos e contribuindo também para o desenvolvimento de habilidades cognitivas (CASTILHAS, 2012, p. 76).

São inúmeros os movimentos pertinentes à Capoeira, que iniciam seguindo uma progressão pedagógica, indo do mais simples ao mais complexo. O conhecimento, a execução e a habilidade de cada aluno na execução dos movimentos dependerão da forma como será ensinada pelo professor, bem como exigirá do aluno atenção, concentração, consciência corporal e diversas valências físicas e motoras para o sucesso na aprendizagem.

Carvalho (2007), conhecido no mundo da Capoeira como Mestre Piauí, explica que a melhor maneira de ensinar os golpes da Capoeira para os alunos é um método utilizado pelo mesmo no decorrer de suas aulas:

[...] primeiro, com uma explicação do movimento dizendo se ele é ofensivo, traumático ou desequilibrante; depois uma demonstração do movimento dando um enfoque com a parte do corpo que vai ser utilizada para o ataque e em que região o adversário vai ser atingido, tudo isso usando educativos que protejam ao máximo as articulações, principalmente a do joelho, que é muito exigida na prática da capoeira [...]; por último, o fracionamento crescente e depois decrescente do movimento conforme o grau de dificuldade de aprendizado do aluno. Depois que o aluno conseguir fazer o movimento saindo da base, começamos a treinar saindo da ginga, pois, na capoeira, todos os golpes saem e voltam para ginga. (CARVALHO, 2007, p. 71-72)

Acreditamos, portanto, que o método indicado acima só propiciará resultados satisfatórios ao professor se for desenvolvido com alunos preferencialmente na fase escolar a partir do terceiro e quarto ciclos do Ensino Fundamental, tendo em vista que a consciência corporal desse público seja melhor, pressupondo que já tenham vivenciado no primeiro e no segundo ciclos as mais diversificadas atividades envolvendo a motricidade, por meio de vivências lúdicas.

A aprendizagem dos movimentos, de uma maneira ampla, contribuirá com qualidades físicas, como a força, a resistência, a flexibilidade e a agilidade dos alunos, e também fortalecerá os laços de afetividade, o espírito de coletividade e respeito mútuo entre os indivíduos, como esclarecem Silva e Heine (2008, p. 60).

Conforme a situação em que ocorra um determinado gesto e a necessidade de quem o realiza, o mesmo poderá representar significados diferentes. Portanto, nas aulas de Educação Física os alunos poderão aprender a organizar e a utilizar sua motricidade de maneira adequada, uma vez que lhes sejam proporcionados conhecimentos a respeito da natureza e características de cada ação corporal, esclarecem os Parâmetros Curriculares Nacionais (EDUCAÇÃO, 2000, p. 33).

De acordo Silva e Heine “[...] por meio das músicas de capoeira são expressos diferentes sentimentos, sentidos, ideias e ideais: amor, ódio, paixão, saudade, respeito, agressividade, violência, paz, liberdade, confiança, desconfiança, devoção, louvor[...]”. Por tantos motivos, através da música e dos cantos o professor poderá desenvolver nos alunos a capacidade de expressão, a oralidade, o sentimento de afetividade, o respeito mútuo, a atenção e outros.

4.3. DESAFIOS PEDAGÓGICOS DO ENSINO E APRENDIZAGEM DA CAPOEIRA NA ATIVIDADE EXTRACURRICULAR

Como ficou explícito até aqui, a forma como se oferece a Capoeira em instituições de ensino pode se diferenciar de uma escola para outra. Em alguns poucos casos a Capoeira é oferecida enquanto componente curricular, fazendo valer as Leis 10.639/2003 e 11.645/2008; em outros, a mesma é discutida apenas em uma das unidades de ensino, dentro do plano de curso do ano corrente, também de acordo ao cumprimento das leis anteriormente citadas, mesmo que superficialmente falando e consonante com a LDB e com alguns pontos dos PCN’s.

Mas há, ainda, outra forma da qual mais se utiliza a Capoeira em escolas brasileiras, onde “a capoeira é oferecida como uma atividade extracurricular, em que um professor ou Mestre de capoeira trabalha com os alunos fora do período das aulas curriculares” (CASTILHA, 2012, p. 41). É relacionada à essa última perspectiva de ensino da Capoeira que permeará a discussão dessa última parte do nosso trabalho.

No Brasil, o ensino da Capoeira tem adentrado nos ambientes escolares de diferentes formas. Por isso, é importante que o professor, ao ministrar aulas de Capoeira nesse tipo de ambiente, entenda a diferença entre a Capoeira da escola e a Capoeira na escola.

De acordo Silva e Heine (2008, p. 43) a Capoeira da escola é aquela que “[...] sem perder as suas características originais e essenciais é “reconstruída” e “reinventada” a partir de referenciais educacionais [...]”. Desse modo, entendemos que o perfil desse tipo de ensino não condiz em sua totalidade com o objetivo principal esperado pelo professor de Capoeira na atividade extracurricular.

Contrapondo, em parte, com a Capoeira da escola, a Capoeira na perspectiva de atividade extracurricular ou Capoeira na escola não necessariamente fará parte do projeto político-pedagógico escolar. Inclusive, na maioria dos casos o ensino das técnicas e habilidades é a única preocupação de quem ministra as aulas.

A Capoeira na escola pode ser identificada quando há o entendimento desportivo desenvolvido dentro do espaço físico escolar, com objetivos que correspondem aos mesmos que existem em academias e clubes, supervalorizando a aptidão física e habilidades técnicas do aluno. (CASTILHA, 2012, p. 73).

Os Parâmetros Curriculares Nacionais da Educação Física para o terceiro e quarto ciclos do Ensino Fundamental, no que se refere ao tecnicismo esclarece que: “Especificamente em relação aos aspectos técnicos, a utilização de modelos pode ser útil na medida na medida em que situa o aluno tanto no que diz respeito às coordenações executadas com êxito quanto àquelas em que o êxito não é obtido.” (BRASIL, 1998, p. 50)

Isso não significa que devemos adotar unicamente o método tecnicista de ensino, deixando de lado a abordagem pedagógica, visto que as aulas também serão ministradas no ambiente escolar e com pessoas em fase de aprendizagem e formação da personalidade, o que vem a exigir um conhecimento muito além dos golpes, das cantigas e dos instrumentos da Capoeira.

A Capoeira desenvolvida nesse sentido, quando os alunos são instigados a permanecerem o máximo de tempo possível na escola, em turno oposto ao do ensino regular ou em período letivo por meio de oficinas e projetos escolares suscita uma observação feita por Silva e Heine (2008, p. 72):

Nesse caso, o profissional, muitas vezes, apenas utiliza a estrutura física da escola para conseguir alunos e divulgar seu trabalho, atuando, na maioria das vezes, de maneira alheia ao processo político-pedagógico da escola, o que deixa de ser interessante tanto para a instituição, quanto para os alunos e o corpo docente, uma vez que eles acabam aproveitando pouco desta modalidade.

Abordar a Capoeira e suas múltiplas formas de contextualização nos tempos hodiernos, ainda que em um curto período de tempo e desvinculada do projeto político pedagógico escolar, requer um esforço que vai muito além de um “ocupar o tempo livre”, uma vez que o ensino e aprendizagem da mesma tornam-se obrigatório em todos os níveis de ensino da Educação Básica, para fazer valer a legislação vigente e evitar possíveis sanções governamentais pelo não cumprimento desta.

Com tudo o que já fora citado até o momento, seria indispensável abordar a Capoeira enquanto atividade extracurricular desvinculando-a de uma das partes que mais interessa aos estudantes em qualquer que seja a fase escolar: o jogo.

Falar de jogo requer um pensar nos desafios e possibilidades enfrentadas nas aulas de Capoeira fora dos horários das aulas regulares, onde os alunos se sentem livres de qualquer responsabilidade vinculada às obrigações escolares. E como afirma Kishimoto (2009, p. 13), a pronúncia da palavra jogo pode ser interpretada de várias maneiras, embora, ainda que receba a mesma denominação em situações diferentes, cada jogo tenha a sua especificidade.

Tendo em vista a importância do jogo em meio ao processo de ensino e aprendizagem da Capoeira no ambiente escolar, o mesmo poderá contribuir com a disciplina, o espírito de coletividade, o respeito mútuo, dentre tantos outros valores. Sabendo ser aplicado, o jogo da Capoeira servirá de base para a evolução do processo em qualquer que seja a idade escolar.

Sodré (1942, p. 46) discursa que a palavra jogo pode levar à ideia de confusão. Porém, enfatiza a sua natureza fictícia desenvolvida no discurso acadêmico, onde o jogo passa a ser destinado como uma atividade praticada com regras dentro de um espaço reservado e protegido, contudo envolvendo risco, habilidade e prazer.

Não obstante, Vanja Ferreira (2010, p. 37) define o jogo como “uma atividade física e/ou mental que favorece a socialização, e é realizado obedecendo a um sistema de regras, visando um determinado objetivo”.

No jogo de Capoeira o espaço reservado é a roda e é dentro dela que devem se expressar os diversos elementos educacionais. Na hora em que acontece o jogo é importante que haja a participação efetiva de todos os alunos, e é nesse momento que são esperados os fundamentos aprendidos no decorrer das aulas, a exemplo da coordenação entre palmas e cânticos, toque dos instrumentos e desenvolvimento coordenado dos golpes e da ginga.

Acreditamos na contribuição fundamental que a inserção desse e de outros tipos de atividades oferecidas no contra-turno na escola poderá ter para a formação integral dos alunos. Com elas, crianças e adolescentes têm a oportunidade de ocupar ao máximo o seu tempo, melhorando suas capacidades motoras, aprimorando suas habilidades físicas e se tornando, principalmente, cidadãos de bem, responsáveis, disciplinados e comprometidos.

Ao tipo de atividades em que há interação entre a Capoeira, a escola e a comunidade e acontecem em turnos ou horários que não correspondem à grade curricular da instituição, como é o caso citado anteriormente, Silva e Heine pontuam o seguinte:

Na prática, a capoeira pode ser encarada apenas como uma atividade a mais oferecida pela escola. Nesse caso, o professor ou Mestre não consegue interagir com a dinâmica da escola, seus professores, coordenadores e diretores. Muitas vezes, permanecem “excluídos”. Possuem um espaço que lhes foi reservado (uma quadra ou um salão), onde ministram suas aulas, ao final das quais guardam seu material e vão embora, sem participar ou influenciar verdadeiramente o ambiente escolar. (SILVA e HEINE, p. 42)

Já existem algumas alternativas que contam com incentivo governamental para a inserção da Capoeira e de outras atividades esportivas e recreativas em turnos opostos ao do ensino regular, dentre as quais podemos citar o Programa Mais Educação e o Projeto Segundo Tempo, ambos financiados pelo Governo Federal.

Para a existência e permanência desses e de tantos outros projetos de incentivo a práticas esportivas e recreativas no ambiente escolar, existe a necessidade de recursos materiais e de pessoas que podem ou não fazer parte da comunidade circunvizinha à escola, precisando ter uma “certa” qualificação para desenvolver a atividade proposta, a exemplo da Capoeira.

Cunha (2003, p. 65) define a Capoeira como uma arte brasileira de múltiplas linguagens, sendo considerada uma atividade física diferenciada por oferecer possibilidades de inúmeras experiências motoras, umas desenvolvidas com mais e outras com menos intensidade, trabalhando todas as valências físicas.

É de extrema importância que um tipo de atividade tão rica culturalmente, que em certos momentos pode ser compreendida como arte ou luta e em outros como dança, folclore brasileiro, esporte, lazer, filosofia de vida e, sobretudo, educação, seja ensinado por um profissional conhecedor não apenas da parte técnica propriamente dita, como também de alguns pontos de suma importância para a formação continuada de crianças e adolescentes em todos os anos de ensino da Educação Básica, tais quais: Didática, Anatomia Humana, Fisiologia, Psicologia e outros.

Em se tratando da aplicabilidade da Capoeira sob a perspectiva de atividade extracurricular, podemos sugerir atividades não apenas dentro do espaço físico da escola, como também no entorno da comunidade escolar. “A característica do trabalho deve contemplar os vários níveis de competência, para que todos os alunos sejam incluídos e as diferenças individuais resultem em oportunidades para troca de enriquecimento do próprio trabalho”. (BRASIL, 1998, p. 68)

Esses tipos de atividades podem proporcionar extrema satisfação e incentivo continuado, fortalecendo os ensinamentos relacionados à sociabilidade, cidadania, respeito e tantos outros que são adquiridos no ambiente escolar e no convívio social e familiar dos alunos.

Apresentações folclóricas envolvendo danças, peças teatrais e dramatizações podem ser realizadas dentro e fora do ambiente escolar, visando a motivação dos alunos e a atração de muitos outros para participarem; aulões ao ar livre realizados nas proximidades da escola e exibição de rodas de Capoeira servem como divulgação do trabalho e expansão da cultura para a conhecimento da comunidade de uma forma geral.

5. CONSIDERÇÕES FINAIS

Nesse capítulo trataremos de uma síntese do estudo desenvolvido sobre algumas perspectivas de ensino e aprendizagem da Capoeira no ambiente escolar, abordando algumas possíveis formas de aplicabilidade nesse contexto.

Atendendo a necessidade de elaborar este capítulo, recuperamos o problema investigativo, que levanta quais os desafios de uma proposta de ensino e aprendizagem da Capoeira no ambiente escolar sob perspectivas de componente curricular, conteúdo de Educação Física ou atividade extracurricular.

Após a realização da pesquisa bibliográfica, a hipótese apontada na introdução se confirma, pois consideramos que os desafios de uma proposta de ensino e aprendizagem da Capoeira no ambiente escolar vão requerer do professor uma intervenção para as três dimensões de ensino sugeridas, considerando a interação entre os alunos com os processos históricos e culturais da Capoeira enquanto componente curricular, promovendo as diversas capacidades físicas e motoras dos alunos durante os processos pedagógicos da Capoeira enquanto conteúdo da Educação Física e aprimorando as múltiplas habilidades desses indivíduos quando desenvolvida na atividade extracurricular.

São muitos os benefícios da Capoeira para os indivíduos, tanto psicológico como cognitivo e motor, por isso mesmo não deve ser apenas utilizada em eventos festivos ou datas especificamente ligadas com a cultura afrobrasileira, pois é um tema que pode e deve estar inserido no ambiente escolar, seja na perspectiva de componente curricular, conteúdo da Educação Física ou atividade extracurricular.

Fazendo parte das aulas propostas, em qualquer que seja a perspectiva de ensino, a Capoeira nesse sentido poderá contribuir para a efetivação da aplicabilidade das leis de inclusão da cultura afrobrasileira em todos os anos da educação básica, além de fortalecer as ideias propostas pelos Parâmetros Curriculares Nacionais, que trata o objeto de estudo em questão como um dos muitos conteúdos a serem desenvolvidos nas aulas de Educação Física Escolar.

É importante sabermos que para ensinar a Capoeira o professor não precisa ser um exímio capoeirista, pois não precisamos ensinar as técnicas com passo a passo, rígidos, em meio às aulas de Educação Física, mas sim alguns fundamentos básicos. Caso algum aluno desperte o desejo de se aprofundar na arte, luta, dança e cultura da Capoeira, este poderá buscar aprimoramento em outros espaços sociais, pois o principal papel do professor de Educação Física no ensino da Capoeira é formar cidadãos que conheçam a arte e luta genuinamente brasileira como uma prática sócio-histórico-cultural que pode ser desenvolvida em toda a sua existência de vida.

A Capoeira como conteúdo de ensino da e na escola, em qualquer que seja a perspectiva abordada, além de ampliar o repertório cultural, promove a interação de meninas e meninos, a realização de atividades corporais que trazem benefícios á saúde, libera imaginação e criatividade, consciência corporal, desenvolve habilidades motoras, entre outros. Com esses objetivos, há grandes desafios pedagógicos que o professor terá de enfrentar a cada ano da educação básica.

A partir dessa pesquisa é possível notar que o ensino da Capoeira tem especificidades pedagógicas que precisam existir nas aulas de Educação Física, considerando a região, a localidade da escola, a realidade sociocultural dos alunos, oportunizando assim, um ensino de qualidade; partindo das vivências dos alunos, é possível trabalhar a Capoeira, fazendo fluir movimentos contextualizados com a realidade, permitindo a liberdade de expressão, abrindo espaço para uma formação corporal e humana.

Portanto, reconhecemos que a Capoeira, enquanto componente curricular, conteúdo de Educação Física ou atividade extracurricular, discutida e vivenciada em todos os anos pertinentes à Educação Básica, pode contribuir significativamente para o desenvolvimento de valores éticos, de habilidades, tais como a oralidade, o sentido de coletividade, domínio de historicidade e dentre tantos outros conhecimentos culturais.

Para consolidar essa investigação, expomos a seguir as referências bibliográficas tratadas nos capítulos teóricos.

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Publicado por: Daiane Sodré de Lima dos Santos da Silva

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