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O USO DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS EM AULAS DE LITERATURA E LÍNGUA PORTUGUESA NO ENSINO MÉDIO

Arte e cultura

As possibilidades de se utilizar as HQs como gênero textual e material didático de incentivo à leitura nas aulas de Língua Portuguesa e Literatura no Ensino Médio.

índice

1. RESUMO

Esse trabalho foi desenvolvido para demonstrar possibilidades de se utilizar as HQs como gênero textual e material didático de incentivo à leitura nas aulas de Língua Portuguesa e Literatura no Ensino Médio, discorrendo sobre a origem, o preconceito contra as HQs e a inserção delas na educação. Presentes em vestibulares e no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), os quadrinhos são utilizados como apoio para questões objetivas e discursivas, embora sejam pouco trabalhados como linguagem e gênero textual. Ao estudar o potencial literário de uma HQ, que é um tipo de texto possivelmente mais acessível e prazeroso aos alunos, o professor poderá utilizá-las como apoio para trabalhar com literatura clássica. Ao utilizar essas obras em versões adaptadas para HQs e aproveitar-se de aspectos comuns entre a adaptação e o clássico presente no currículo escolar para posteriormente iniciá-los à leitura dos clássicos na íntegra, há uma transição entre essas leituras e não mais uma abordagem abrupta, além da possibilidade de se explorar os aspectos únicos presentes nos quadrinhos, buscando facilitar a iniciação dos alunos na literatura, na leitura imagética e no ato de ler por prazer.

Palavras-chave: Histórias em Quadrinhos; Leitura; Educação.

2. Introdução

Este Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) propõe-se a estudar a utilização de histórias em quadrinhos nas aulas de língua portuguesa e literatura, visando evidenciar o potencial informativo das HQs e como podem ser utilizadas para motivar leituras de textos literários considerados “difíceis”, que seriam as leituras dos clássicos. Material de extrema riqueza textual, as HQs podem ser inseridas de diversas maneiras na sala de aula, como um estudo de gênero textual, de uma linguagem, um meio de expressão artística, dentre outras.

Neste trabalho, pretende-se refletir sobre o preconceito contra HQs por parte de alguns pais, professores e especialistas. Infelizmente, os quadrinhos sofreram repressão no ambiente familiar e escolar ao longo dos anos, sendo a década de 40 o principal momento de perseguição às HQs, quando foram apontadas como causadoras de diversos problemas psíquicos na juventude, o que criou dificuldades para que fossem trabalhadas nas escolas a partir dali. Mesmo que não sejam mais vistas dessa mesma maneira, as HQs ainda são pouco utilizadas nas salas de aula, talvez por motivo de preconceito remanescente ou despreparo por parte dos professores para trabalhar com esse tipo de material.

Metodologicamente, serão feitas Pesquisa Qualitativa e Pesquisa de Campo. Com a aplicação de um questionário aberto aos professores, pretende-se verificar com que frequência os quadrinhos são utilizados ou mencionados nas aulas de Língua Portuguesa e Literatura, como um gênero textual ou uma forma de linguagem.
Também será feita uma Pesquisa de Campo com alunos dos últimos anos do Ensino Fundamental e os iniciais do Ensino Médio ao administrar uma aula visando verificar a aceitação dos quadrinhos nesse segmento. verificada essa possibilidade, buscaremos trabalhar com eles tanto as adaptações em quadrinhos de obras presentes no currículo escolar, como os quadrinhos propriamente ditos, que já são mencionados desde o PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais) de 1997 e que se encontram atualmente entre as obras do acervo do MEC para os ensinos Fundamental e Médio.

Obras presentes nos currículos, como Dom Casmurro de Machado de Assis, comumente sofrem rejeição por parte dos alunos, seja pela linguagem rebuscada usada pelo autor, seja pela distância temporal, apresentando uma realidade muito diferente da vivida pelo discente. Ao utilizar essas obras em versões adaptadas para HQs (um tipo de texto mais acessível e possivelmente mais prazeroso para os alunos, talvez ainda pouco iniciados à leitura da literatura considerada canônica), pretende-se, posteriormente, estabelecer o contato mediado e comparado com a obra original, entendendo o quadrinho não como um substituto, mas uma recriação em linguagem híbrida (verbal e não verbal).

As HQs vão muito além de um gênero textual literário convencional. Diferente de outros gêneros como artigo, carta, resenha, poema, resumo; os quadrinhos são formados majoritariamente por texto e imagem, tendo uma forma distinta de informar, ou como aponta Paulo Ramos na obra A leitura dos quadrinhos, dispõem de uma “linguagem autônoma, que usa mecanismos próprios para representar os elementos narrativos” (2. ed. São Paulo: Contexto, 2012).

Autor de diversas obras e artigos relacionados a quadrinhos, Paulo Eduardo Ramos é responsável pelo “Blog dos Quadrinhos”, um dos mais conceituados blogs nacionais sobre HQs. Transformou seu trabalho de doutorado em Letras da Universidade de São Paulo (USP) na obra A leitura dos Quadrinhos, em que nos apresenta as características da linguagem dos Quadrinhos, a forma de comunicação e os seus gêneros. Jornalista e professor do Departamento de Letras da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), possui (além do já mencionado doutorado) pós-doutorado em Linguística pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É pesquisador do Observatório de Histórias em Quadrinhos da ECA/USP e coordenador do Getexto (Grupo de Estudos do Texto), na Unifesp.

Seguindo a linha teórica adotada por Paulo Ramos em suas principais obras sobre o assunto, estudar-se-á, primeiramente, os elementos que compõem os quadrinhos, sua estética e linguagem. Neste trabalho, os quadrinhos serão estudados como um hipergênero, termo que Ramos captou de seus estudos sobre Maingueneau. Hipergênero significa um grande rótulo que agrega diversos gêneros que compartilham dos mesmos elementos textuais, como é o caso dos quadrinhos, que além do seu formato de origem, as comics (do inglês, “cômicos”), que traziam narrativas de humor, super-heróis, aventura, romance, mistério; abrange também outros gêneros como a charge, o cartum, as tirinhas, que trazem geralmente temáticas políticas, situações do cotidiano, visando satirizar ou criticar uma figura política, uma cultura, a sociedade e/ou seus costumes.

Outro importante autor teve seus estudos usados como base para esse TCC, Waldomiro Vergueiro e seu livro Uso das HQS no ensino: Como usar as histórias em quadrinhos na sala de aula serviu como aporte teórico para esse trabalho, sendo essa obra a bússola que norteou os primeiros estudos aqui reunidos. Um dos principais autores sobre histórias em quadrinhos, Vergueiro tem outras notáveis publicações como Quadrinhos e Literatura, Diálogos Possíveis, Pesquisa Acadêmica em Histórias em Quadrinhos e A Gazetinha e os suplementos de histórias em quadrinhos no Brasil (artigo em co-autoria com Roberto Elísio dos Santos), obras que compõem o referencial teórico deste trabalho.

Professor titular da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), Waldomiro Vergueiro é fundador e coordenador do Observatório de Histórias em Quadrinhos da ECA /USP. Possui pós-doutorado em Ciências da Informação pelas Universidades de Loughborough (Inglaterra) e Carlos III de Madrid (Espanha) e é membro do Conselho Editorial do International Journal of Comic Art.

Outros autores que compõem o referencial teórico serão José Helder Pinheiro Alves e Suzana Vargas, dos quais foram estudados o ensino da literatura para além de uma perspectiva meramente teórica, mas preocupada com a formação do leitor e seu prazer pela leitura.

3. Revisão Histórica das Histórias em Quadrinhos

3.1. Formas de Quadrinhos na Antiguidade

As histórias em quadrinhos se encontram entre os mais eficientes e populares meios de comunicação, sendo um dos mais antigos e ao mesmo tempo, um dos mais atuais. Os quadrinhos (também chamados de banda desenhada ou bande dessinée, em Francês, que é a origem desse termo) também são conhecidos como a nona arte, ficando entre a fotografia e os games (oitava e décima, respectivamente), de acordo com uma das recentes classificações das formas de arte. O termo “sétima arte” foi utilizado por Ricciotto Canudo para designar o cinema no “Manifesto das Sete Artes” em 1912 (publicado em 1923). A partir daí, outros autores se empenharam em continuar essa numeração (sendo a mais comumente utilizada advinda de estudiosos europeus). os quadrinhos foram nomeados como a 9ª arte por volta dos anos 60 pelo crítico Claude Beylie. Em 1971, o teórico e defensor das histórias em quadrinhos Francis Lacassin escreveu a primeira obra dedicada à defesa deste epônimo, no livro manifesto chamado Pour un neuvième art, la bande dessinée. Isso demonstra que além de um veículo informativo, as HQs também são reconhecidas como um meio artístico e expressivo.

Assim como o cinema e a TV, além de serem reunidores e difusores de diferentes culturas, os quadrinhos também se utilizam de um dos elementos da comunicação mais eficientes: a imagem gráfica. Juntamente ao texto, as imagens formam a estrutura básica dos quadrinhos, estrutura que permanece desde o surgimento das HQs até a atualidade.

O formato das HQs são um dos mais antigos meios de narrar algo e contar histórias. Considerando a estrutura dos quadrinhos sendo formada predominantemente pela imagem seguida pelo texto, é possível apontar criações com essa estrutura há milhões de anos atrás.

Numa retrospectiva na história da humanidade, por volta de 40.000 a.C, destacam-se as artes rupestres, as primeiras formas de narrativas das mais variadas informações a partir de desenhos. Com simples rabiscos que se assemelhavam a atuais desenhos infantis, nossos ancestrais informaram sobre lugares perigosos ou bons para a caça numa época em que não havia placas. Os desenhos rupestres aparentemente tinham a principal função de contar histórias. Percebe-se pelo fato de que a maioria deles exibiam figuras humanas em lutas contra animais, narrativas históricas de bravura que detalhavam como eram feitas as caças naquela época. Essa era a única forma possível de se registrar algo, e o desenho foi usado antes mesmo do surgimento de qualquer forma de escrita.

Considerando a arte rupestre uma narrativa imagética, pode-se apontá-la como um ancestral das histórias em quadrinhos. Pesquisadores e historiadores dos quadrinhos talvez possam afirmar que as artes rupestres não devessem ser consideradas uma forma ancestral dos quadrinhos, visto que não há nelas o segundo elemento básico das HQs: o texto que acompanha a imagem. Quanto a isso, é pertinente analisarmos a questão aproximadamente 37.000 anos a frente, parando no Antigo Egito para testemunhar as produções híbridas de imagem e texto.

Por volta de 3.000 a.C, os egípcios utilizavam uma forma de escrita com símbolos de animais, partes do corpo ou objetos. Esses sinais são chamados de hieróglifos (ou hieroglifos), nome originário de dois termos gregos que significa “escrita sagrada”. Além da escrita hieróglifa, os registros egípcios também contavam com desenhos bem detalhados, com riqueza de detalhes nas vestimentas, posições e no uso das cores. Feitos de perfil, os desenhos egípcios não passavam noção de espaço ou profundidade pois não faziam uso da técnica de contraste entre luz e sombra ou de perspectiva (tridimensionalidade).

Esses desenhos retratavam o povo e seus costumes, a vida dos faraós, ensinavam sobre as ações dos deuses e sobre a vida após a morte. Retratados em pedras ou nas paredes das pirâmides, os hieróglifos eram escritos ao redor desses desenhos. Com essa junção entre desenho e escrita, os egípcios registraram informações sobre a sua cultura, arte, filosofia e etc. Essas formas artísticas de milhares de anos valiam-se da união entre texto e imagem, a fórmula que muitos séculos depois vieram a se tornar as histórias em quadrinhos, e por isso, poderiam ser possíveis formas ancestrais da HQs.

3.2. O surgimento das Histórias em Quadrinhos

A origem das primeiras histórias em quadrinhos é assunto de muita controvérsia. Numa época sem internet, as informações demoravam a viajar entre países, o que torna difícil de estipular onde surgiram as HQs, visto que estavam presentes em mais de um país numa mesma época, cada um com seu estilo diferente de publicação. Entretanto, umas das informações unânimes ao se pesquisar a origem dos quadrinhos é que as primeiras histórias em quadrinhos nasceram nas páginas de jornais. Um dos pioneiros dos quadrinhos foi William Hogarth (1697–1764). Seu trabalho consistia em quadros pintados com legendas. Unidos, os quadros criavam uma narrativa. Com o desenvolvimento das técnicas de impressão, esse tipo de arte começou a ser utilizado em jornais para fazer críticas políticas e sociais (o que hoje são os cartuns e charges), vindo a se tornar conhecido como cartoons em 1842.

Na virada do século XIX para o XX, “quando os jornais impressos se tornavam produtos de consumo de massa e a tecnologia de impressão possibilitava a publicação de ilustrações coloridas, que chamavam a atenção do público” (SANTOS, VERGUEIRO, 2016) as HQs ganharam seu espaço entre os noticiários norte-americanos como um tipo de entretenimento, histórias pequenas e de poucas ilustrações, por vezes, simples gravuras monocromáticas acompanhadas de uma legenda (como uma charge ou um cartum). Os quadrinhos publicados eram, em sua maioria, de humor, conhecidos internacionalmente como Comics, o primeiro e provavelmente o mais popular gênero dos quadrinhos. Essas narrativas satirizavam costumes do cotidiano e tinham personagens caricaturais que serviam como forma de criticar uma classe social ou alguma nacionalidade.

Figura 1: Página de Hogan’s Alley mostrando moradores de um cortiço.

Essas publicações eram reunidas nas edições dominicais em formato de pequenos cadernos chamados suplementos. Os considerados pioneiros desses suplementos são Joseph Pulitzer do jornal New York World e William Randolph Hearst, do New York Journal.

Na época da aparição do primeiro suplemento cômico em cores da imprensa, no World de Nova York, em 24 de dezembro de 1893, ninguém havia contado uma narração ilustrada servindo-se de balões de diálogo explicativos e, menos ainda, pensado em relacionar esta fórmula com a ideia de personagens recorrentes através de sua publicação continuada: se alguém houvesse feito, teria criado a primeira série de quadrinhos. (VERGUEIRO, SANTOS. 2016)

Em 1895, William Randolph Hearst adquiriu o jornal The New York World e trabalhou com mais foco no lançamento dos suplementos ilustrados. Junto ao ilustrador Richard Felton Outcault, William Hearst lançou o suplemento Hogan’s Alley e nele foi lançado o The Yellow Kid, considerado o primeiro personagem dos quadrinhos. Yellow Kid era um garoto chinês morador de um cortiço repleto de outros imigrantes. Sempre se metendo em confusões, Yellow Kid encontrava maneiras de se safar dos problemas e ludibriar quem tentava lhe enganar. Esse personagem tinha suas falas escritas em sua camisola amarela, o que consideram (pesquisadores americanos) ser a primeira utilização de um balão de fala, visto que antes se utilizavam caixas de legenda para inserir a fala dos personagens.

Figura 2 - Yellow Kid e sua camisola com sua fala escrita.

A partir desse suplemento, Hearst e Outcault ficaram conhecidos como os criadores dos quadrinhos como são concebidos, ilustrações coloridas com a fala dos personagens dentro de balões. Anos depois, as publicações dos quadrinhos tornaram-se diárias e com temas diversificados, “abrindo espaço para histórias que enfocavam núcleos familiares, animais antropomorfizados e protagonistas femininas, embora ainda conservando os traços estilizados e o enfoque predominantemente cômico” (VERGUEIRO, 2005 pág 10).

Devido ao fato de The Yellow Kid ter se tornado mundialmente famoso, muitas fontes apontam, erroneamente, Richard Outcault, seu criador, como o fundador do gênero quadrinho. The Yellow Kid foi de fato o primeiro personagem moderno de quadrinhos por unir as falas às ilustrações e assim começarem a compor os diálogos em balões. Porém, muitos jornais já traziam publicações em quadrinhos, inclusive tinham seus próprios suplementos.

Antes de 1895-96, período de criação do The Yellow Kid, já havia personagens de quadrinhos com certa popularidade. Em ordem cronológica, tem-se em 1798 o Dr. Sintaxe, do inglês Thomas Rowlandson; em 1827, Monsieur Vieux Bois, publicado pelo suiço Rodolphe Topffer, considerado pelos europeus como o pai dos quadrinhos modernos por usar várias técnicas que viriam a ser comuns nos quadrinhos da geração seguinte.

1848 foi o ano de criação do primeiro personagem de quadrinhos político, Monsieur Reac, pelo fotógrafo Nadar. Ainda nesse ano, foram publicados Max & Moritz, do alemão Wilhelm Bush. Em 1867, o personagem vitoriano Ally Sloper começou a aparecer regularmente na revista Judy, da autoria de Charles Ross e Marie Duval. Por último, em 1889 foi publicado a Famille Fenouillard, do francês George Coulomb, e então, chega-se a 1896 e ao Yellow Kid. Assim a literatura especializada elenca os primeiros personagens dos quadrinhos. Um importante personagem é omitido nessa listagem. Aproximadamente 30 anos antes do surgimento do menino amarelo, o jornalista Angelo Agostini utilizaria suas influências dos quadrinhos franceses para criar o primeiro personagem de quadrinhos brasileiro, o Nhô-Quim.

3.3. A primeira HQ no Brasil - As Aventuras de Nhô-Quim

A primeira história em quadrinhos publicada no Brasil surgiu a 30 de Janeiro de 1869 na revista Vida Fluminense e se chamava As Aventuras de Nhô-Quim ou Impressões de uma viagem à Corte. Seu autor, o desenhista italiano Angelo Agostini, fez carreira no Brasil como jornalista e cartunista.

Nascido a 8 de Abril de 1843 na província de Vercelli, em Piemonte, Itália, Angelo Agostini frequentou a Escola de Belas-Artes em Paris desde a infância até o fim da adolescência. Veio para o Brasil em sua juventude e se instalou no Rio de Janeiro, onde começou a trabalhar na construção da estrada que ligava o terminal da ferrovia Mauá-Raiz à cidade de Juiz de Fora, em Minas Gerais.

Angelo Agostini fundou em 1864 a revista O Diabo Coxo, sendo esse o primeiro jornal ilustrado de São Paulo. Dois anos depois, fundou o jornal O Cabrião. Nos jornais em que trabalhou, em quase todos como chefe das publicações, Agostini aperfeiçoou o método de ilustrar as reportagens, criando ilustrações com um texto explicativo logo abaixo.

Em As Aventuras de Nhô-Quim, aproveitava-se das desventuras de um caipira rico, ingênuo, trapalhão e exilado na Corte pela família para tecer uma sucessão de críticas irreverentes aos problemas urbanos, modismos, costumes sociais e políticos da época. Comerciantes, imigrantes, artistas, prostitutas de luxo, candidatos, eleitores, autoridades e até um ou outro jornalista e caricaturista, desafeto de Agostini, é censurado nessa série de incidentes jocosos. (CARDOSO, 2013. Pg 23)

Agostini escreveu os nove primeiros capítulos de Nhô-Quim no período de um ano - de 1869 a 1870 -, interrompendo a história sem um final definido. Após dois anos, em 1872, o ilustrador e caricaturista Cândido A. de Faria assumiu a responsabilidade de continuar a história para a revista Vida Fluminense. Faria foi escolhido devido a seu estilo e traço serem extremamente semelhantes aos de Agostini. Após publicar mais cinco capítulos, Cândido Faria suspendeu, sem uma devida conclusão, a publicação de Nhô-Quim em 12 de Outubro daquele mesmo ano.

Figura 3: Nhô-Quim em uma de suas muitas confusões

O dia 30 de Janeiro, dia da primeira publicação de Nhô-Quim, passou a ser considerado como o “Dia do Quadrinho Nacional” em 1984. Além disso, foi nomeado como “Prêmio Angelo Agostini” o troféu dado aos melhores cartunistas pela AQC - Associação dos Quadrinhistas e Caricaturistas do Estado de São Paulo.

4. O preconceito contra as Histórias em Quadrinhos

Durante a segunda metade dos anos 40, um renomado psiquiatra alemão radicado nos EUA chamado Fredric Wertham apresentou uma série de estudos que seriam formas de alertar contra os possíveis malefícios que a leitura das histórias em quadrinhos poderia causar ao público jovem norte-americano. Nesse momento delicado entre o fim da Segunda Guerra Mundial e o início da Guerra Fria, Wertham encontrou o ambiente propício para reanimar o movimento contra os quadrinhos que nunca tivera forças como teria a partir do seu trabalho. Fredric Wertham apontava as histórias em quadrinhos como causadoras de muitos dos distúrbios juvenis da época, como a violência e a depressão.

Mesmo sendo materiais de grandes tiragens e muito populares entre o público leitor jovem, os quadrinhos foram apontados como leituras insignificantes que poderiam afastar as crianças de “objetivos mais nobres”, do conhecimento do “mundo dos livros” e do estudo de “assuntos sérios”, apontamentos feitos por Waldomiro Vergueiro no primeiro capítulo da obra “Uso das HQS no ensino: Como usar as histórias em quadrinhos na sala de aula.”

Wertham teve o suporte das rádios, TV, jornais e revistas para veicular seus discursos contra as HQs, fazendo palestras em escolas norte-americanas e apresentando nelas seus artigos que destacavam aspectos negativos que poderiam ser ocasionados pela leitura dos quadrinhos como a diminuição do rendimento escolar, a perda do raciocínio lógico, dificuldade em compreender ideias abstratas e o prejuízo ao relacionamento social.

Para tais apontamentos, Wertham utilizou como exemplos iniciais as histórias de terror e suspense, estendendo posteriormente suas conclusões aos demais segmentos das HQs. O Dr. Wertham selecionou alguns casos duvidosos de jovens e adolescentes com os quais trabalhou para exemplificar os efeitos maléficos de longo prazo que os quadrinhos supostamente ocasionavam nos jovens leitores, danificando-lhes a saúde mental, causando anomalias no comportamento e, futuramente, tornando-os cidadãos desajustados na sociedade.

Posteriormente, em 1954, Wertham lançou A Sedução dos Inocentes, obra de grande sucesso de público na época, responsável pela visão preconceituosa para com os quadrinhos que imperou nos EUA e se espalhou pelo mundo pelas décadas seguintes. Nesse livro, Wertham reuniu mais de seus estudos de casos de adolescentes julgados desajustados pela leitura das HQs, criando, por fim, a principal arma na luta contra as histórias em quadrinhos. Com ela, conseguiu veicular um discurso repleto de preconceitos que se estendiam para além das HQs, como o preconceito racial e o homofóbico, implícitos na escrita de seus capítulos. Apesar de ter sido publicado apenas em inglês, o conteúdo do livro se tornou conhecido e disseminado em muitos outros países, inclusive no Brasil.

Entre outras teses, o livro defendia, por exemplo, que a leitura das histórias do Batman poderia levar os leitores ao homossexualismo, na medida em que esse herói e seu companheiro Robin representavam o sonho de dois homossexuais vivendo juntos. Ou que o contato prolongado com as histórias do Superman poderia levar uma criança a se atirar pela janela de seu apartamento, buscando imitar o herói. (VERGUEIRO, 2005, p. 12)

As denúncias do Dr. Fredric Wertham causaram impacto ainda maior após serem apoiadas por diferentes segmentos da sociedade norte-americana. Devido às suas palestras em instituições de ensino, Wertham logo recebeu o apoio de parte da comunidade escolar, pais e responsáveis de alunos e de grupos religiosos, todos preocupados com a saúde mental e com o futuro de seus filhos e/ou discentes. A partir daí, houve um maior rigor para com as publicações, sendo essas gradualmente fiscalizadas pela comunidade, que confiscou diversas obras que continham o material denunciado por Wertham.

Apesar de diversas audiências jurídicas sobre a violência nos quadrinhos terem ocorrido na tentativa de proibir oficialmente as histórias, tal proibição jamais ocorreu por ir contra a primeira emenda constitucional americana que defende a liberdade de expressão. Porém, essa fiscalização das HQs retomou um processo que se iniciou já na década de 40, quando alguns editores da Association of Comics Magazine decidiram criar um modo de refinar as publicações que seriam lançadas. Como forma de se proteger contra o movimento criado por Wertham e as tentativas de proibição oficial das HQs, as editoras adotaram um sistema de autocensura em seu conteúdo.

Ainda em 1954 foi criado o Comics Code, um selo que era estampado nas capas das revistas que foram fiscalizadas e liberadas para o público. Para adquirirem esse código e serem publicadas, as revistas tinham desde os seus temas e conteúdos até palavras e cores alteradas, criando assim um padrão de publicação. No Brasil, um código semelhante foi criado em 1960. Os gibis liberados para publicação vinham com o selo “Aprovado pelo código de ética” estampado na capa.

Nos anos seguintes às denúncias de Wertham contra as HQs e à criação do selo de fiscalização e censura, os quadrinhos passaram a ser mal vistos pela sociedade. A partir disso, seria difícil de se pensar em inserir esse tipo de texto no contexto escolar. Mesmo tendo uma linguagem própria e sendo bastante acessível, os quadrinhos se tornaram uma espécie de inimigo da educação, sendo inviável a sua utilização por professores, visto que eram por vezes proibidas até mesmo no ambiente familiar.

A barreira pedagógica contra as histórias em quadrinhos predominou durante muito tempo e, ainda hoje, não se pode afirmar que ela tenha realmente deixado de existir. Mesmo atualmente há notícias de pais que proíbem seus filhos de lerem quadrinhos sempre que as crianças não se saem bem nos estudos ou apresentam problemas de comportamento, ligando o distúrbio comportamental à leitura de gibis (VERGUEIRO, 2005, p. 16).

Fredric Wertham e “A Sedução dos Inocentes” foram o tema de um dos estudos da 2ª Jornada Internacional de Histórias em Quadrinhos da USP (Universidade de São-Paulo), evento ocorrido entre 20 e 23 de Agosto de 2013.

Reinterpretando Wertham: Influência de Seduction of the Innocent nos estudos de quadrinhos no Brasil, do autor Nobu Chinen, é um estudo que buscou analisar o impacto da obra de Wertham na produção teórica sobre quadrinhos no Brasil e como ela contribuiu para que um tipo de censura aos quadrinhos brasileiros fosse estabelecida.

Chinen citou no estudo não apenas as publicações nas quais Fredric Wertham e sua obra foram mencionadas, mas o longo processo de acompanhamento de jovens e pesquisas de conteúdos que custou a Wertham e sua equipe sete anos de trabalho para que A Sedução dos Inocentes fosse publicado.

Nobu Chinen trouxe informações como entrevistas e publicações com Wertham em que ele aponta que, embora seus estudos tenham se tornado as principais armas para a censura das HQs, não pretendia defender uma censura, mas sim “um controle mais rígido do conteúdo das revistas voltadas ao público infanto-juvenil.” (CHINEN, 2013, pág. 2). Ao longo do texto, Chinen ressalta que apesar das informações imprecisas e teorias mal fundamentadas nas quais Wertham se baseou, o estudo era fruto de um médico sério e respeitado, com uma ótima reputação devido a seu trabalho em diversos julgamentos importantes de grande repercussão nos EUA, nos quais trabalhou como perito, preocupado com as crianças e jovens expostos à violência e à inversão de valores presentes nos quadrinhos.

A Sedução dos Inocentes nunca foi editado no Brasil, mas isso não impediu que seu material chegasse em solo brasileiro. Em setembro de 1957, a edição brasileira da revista Seleções publicou uma versão resumida do livro. Nos dois anos seguintes, a revista Mundo Melhor publicou sínteses de alguns dos capítulos e das imagens presentes na obra de Wertham. Os textos tiveram boa repercussão no país e serviram de inspiração e base de estudo para autores como Carlos Studart Filho e W. S. Jonas Speyer, que defenderam e elogiaram A Sedução dos Inocentes.

Em artigo publicado na Revista de Letras, Speyer (1961) faz um breve resumo de cada um dos 14 capítulos de Seduction of the Innocent e acrescenta comentários elogiosos à obra. Speyer lamenta não existirem meios para se realizar uma pesquisa no Brasil nos moldes do que foi empreendido por Wertham e declara que “Um trabalho desse tipo representará uma grande e poderosa arma na luta travada em defesa da integridade moral e da evolução imperturbada da nossa infância e juventude.” (CHINEN, 2013, p. 6).

Após 64 anos desde a publicação de A Sedução dos Inocentes, Fredric Wertham continua sendo frequentemente citado em estudos, como na presente monografia. Recentemente, suas pesquisas têm sido apontadas como fraudadas. Mesmo com as contradições e polêmicas que envolvem Fredric Wertham e sua obra, esta continua, segundo Nobu Chinen, “merecendo por parte de estudiosos e interessados nos quadrinhos, uma atenção permanente” (2013, pág 8).

Nobuyoshi Chinen é autor de obras que tratam sobre a linguagem HQ e como desenhar e criar histórias em quadrinhos. Segundo seu perfil na página do Observatório de Histórias em Quadrinhos da USP, observatório no qual é pesquisador ao lado de Paulo Ramos e Waldomiro Vergueiro, Chinen é Bacharel em Publicidade e Propaganda pela UNITAU (Universidade de Taubaté), criador e redator da VupVaptPum, uma página semanal sobre HQs publicada no fim dos anos 80 no jornal Valeparaibano, em São José dos Campos. Também foi organizador da primeira Expo Quadrinhos do Vale em 1986 e editor do Clube do Mangá na ABRADEMI - Associação Brasileira de Desenhistas de Mangá e Ilustrações.

5. Superando o preconceito e evidenciando o potencial educativo das HQs

Após as críticas intensas e perseguições fanáticas sofridas ao longo dos anos, as HQs foram se diversificando, encontrando novos estilos, novos públicos e novos formatos de publicações. Assim como o cinema e a TV, os quadrinhos também evoluíram, tornando-se uma forma de expressão menos repreendida e mais livre de censura. O gênero deixou de ser alvo de perseguições e passou a ser visto de maneira “menos apocalíptica”, como aponta VERGUEIRO (2005, pág 16). Segundo ele, procurou-se “analisá-los em sua especificidade e compreender melhor o seu impacto na sociedade” (Ibidem).

Os quadrinhos começaram então a ser percebidos como uma forma de expressão com características estéticas próprias. Essa mudança de visão que se iniciou na cultura europeia foi aos poucos se ampliando pelo mundo, permitindo que fossem rompidas as barreiras impostas aos quadrinhos, barreiras construídas pelo medo e preconceito contra algo de que se tinha pouco conhecimento a respeito.

Por outro lado, a percepção de que as histórias em quadrinhos podiam ser utilizadas de forma eficiente para a transmissão de conhecimentos específicos, ou seja, desempenhando uma função utilitária e não apenas de entretenimento, já era recorrente no meio “quadrinhístico” desde muito antes de seu “descobrimento” pelos estudiosos da comunicação (VERGUEIRO, 2005, pág 17).

Por volta de 1940, eram publicadas revistas como True Comics, Real Life Comics e Real Fact Comics, HQs com conteúdo extremamente didático que traziam personalidades famosas e eventos históricos. Ainda que essa tenha sido a década em que o preconceito contra os quadrinhos chegou ao ápice, já se utilizava o potencial didático das HQs anos antes.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o desenhista Will Eisner foi convidado a colaborar com um projeto que propunha ilustrar, em HQs, os manuais para treinamento das tropas do exército americano. Eisner ilustrou também o manual da Guerra do Vietnã, que viria acontecer anos depois, em 1959. Com um traço realista de uma bela mulher, Eisner ilustrou diversos livretos com mais de 30 páginas de conteúdos como, por exemplo, como usar, recarregar, desmontar e reparar rifles e outros equipamentos do exército. Esses livretos eram distribuídos como guia aos jovens soldados.

Figura 4 - Páginas do manual de como fazer manutenção em um rifle M-16.

A editora Educacional Comics publicou na mesma década uma série de quadrinhos de conteúdos religiosos com intenção de pregar a moral e os bons costumes. Picture Stories from the Bible e Picture Stories from American History são exemplos de quadrinhos que pregavam uma moral religiosa e de valores, apresentando um material totalmente contrário ao que Fredric Wertham julgava nas HQs da época. Durante muito tempo, em países como a Estados Unidos e Itália, os quadrinhos foram usados pela igreja católica como forma de catequizar, sendo publicadas biografias de santos e personagens bíblicos. Na década seguinte, na China, durante o governo de Mao Tse-Tung, as HQs foram amplamente utilizadas em campanhas educativas para retratar modelos de vida pregados pelo governo da época. Nelas, atitudes benevolentes e demonstrações de caráter eram ensinadas, quase sempre usando-se a imagem do soldado chinês como forma de promover tanto o exército quanto o regime político em vigor.

Com o passar dos anos, quadrinhos de conteúdos com apelo mais infantil foram surgindo, permitindo que pais e professores pudessem ver nos quadrinhos um modo de recreação saudável e inofensivo para as crianças. Na cena dos quadrinhos brasileiros, destacam-se publicações como Turma da Mônica, de Maurício de Souza e Turma do Pererê, de Ziraldo. Publicações de longa data, esses quadrinhos há muito caíram no gosto popular, permanecendo nas bancas até hoje. Ambos os autores trazem em muitas de suas histórias o próprio ambiente escolar, o que de certa forma leva a narrativa para dentro de uma sala de aula. O contexto escolar e o processo de aprendizado é ilustrado seja durante as aulas do personagem Chico Bento ou na famosa publicação de Ziraldo, Uma professora muito maluquinha (1995), obra que ganhou duas adaptações cinematográficas, uma em 1996 e outra em 2011.

Figura 5 - Chico Bento na escola Figura 6 - Uma professora muito maluquinha

Essa superação do preconceito com os quadrinhos possibilitou que as HQs encontrassem nas novas práticas pedagógicas que se desenvolveram ao longo dos anos a possibilidade de serem nelas inseridas.

5.1. Os Quadrinhos na Educação Brasileira

Na forma de tirinhas e charges, as HQs encontram-se entre as páginas dos livros didáticos e principalmente em vestibulares e exames como o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio), demonstrando que sua presença no ambiente escolar tem sido frequente. Entretanto, enquanto linguagem, os quadrinhos ainda são pouco explorados, apesar de sua utilização estar prevista nos PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais) desde 1997 no caderno de Língua Portuguesa, sendo mencionado como um gênero textual a ser trabalhado assim como a poesia, o conto, o romance. Além disso, obras em quadrinhos, tanto adaptações, quanto publicações originalmente HQs, encontram-se dentre as obras do acervo do MEC (Ministério da Educação), tanto para os segmentos do Ensino Fundamental, quanto para o Ensino Médio.

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No acervo do MEC de 2013, estão presentes quatro livros a serem trabalhados com os anos finais do Ensino Fundamental no próprio formato dos quadrinhos: três adaptações das obras clássicas Dom Casmurro, de Machado de Assis, Dom Quixote, de Miguel de Cervantes e O Guarani de José de Alencar. A quarta obra seria A Turma do Pererê: Coisas do Coração, publicação de Ziraldo e que é originalmente uma HQ.

Nos acervos destinados ao Ensino Médio, o quadrinhos estão ainda mais presentes: de sete obras indicadas nos dois acervos disponíveis, cinco são quadrinhos. As adaptações são Nietzsche em HQ por Michel Onfray, O Médico e o Monstro de Robert Louis Stevenson, A Terceira Margem do Rio em Graphic Novel, obra de João Guimarães Rosa adaptada por Maria Helena Rouanet e Thais dos Anjos e Frankenstein em Quadrinhos, obra de Mary Shelley e traduzida por Taisa Borges. Nos capítulos Estabelecendo um paralelo entre as obras clássicas e as HQs e Utilizando HQs na formação de leitores abordaremos as adaptações de obras clássicas com mais propriedade.

 

A listagem do PNBE 2013 evidencia, portanto, o traço mais marcante da postura pedagógica em relação ao uso das HQs em sala de aula: a ênfase na ideia da adaptação. Como já vimos, a leitura da adaptação literária não seria de todo mal se, em primeiro lugar, não fosse a única forma com a qual grande parte dos educandos acaba se deparando com a narrativa gráfica na sala de aula; não seria igualmente problemática se fossem trabalhados, de fato, os elementos particulares dos quadrinhos nesse processo, no sentido de perceber a produtividade da linguagem na qual a obra-fonte encontra um novo espaço; não seria ruim se não fosse, também, a percepção de que aquilo que mais vale nessa prática de leitura é, tão somente, o conhecimento da história em questão, sendo assim, o objeto que se quer ver, de fato, passa a ser a literatura, não os quadrinhos. (RODRIGUES, 2013, p. 121).

 

Tanto os PCNs quanto os acervos do MEC demonstram o compromisso educacional em inserir os quadrinhos nas salas de aula de forma a se aproveitar o seu potencial didático. Mesmo que seja mais comum a utilização como um simples apoio para um outro texto ou uma base para uma questão numa prova, ainda é preciso que se explore as características do gênero textual quadrinhos. Além da linguagem escrita e da imagem, diferente dos jornais e diários que também podem apresentar esses dois aspectos, as HQs são mais populares com as crianças e jovens e, por estarem inseridas no cotidiano de alguns deles, o aprendizado pode se tornar mais interessante e prazeroso.

 

5 - Os elementos que compõem os quadrinhos: Além da linguagem, imagem!

 

Ao se utilizar os quadrinhos em sala de aula não apenas como um recurso, mas também um gênero textual, é necessário que haja um processo de preparação. Essa preparação é chamada de “alfabetização” por Waldomiro Vergueiro no capítulo A linguagem dos quadrinhos Uma “alfabetização” necessária. Para ele, essa “alfabetização” na linguagem dos quadrinhos é necessária para que os alunos consigam decodificar as mensagens presentes e para que se obtenham resultados nessa utilização.

 

Em primeiro lugar, nota-se que as histórias em quadrinhos constituem um sistema narrativo composto por dois códigos que atuam em constante interação: o visual e o verbal. Cada um desses ocupa, dentro dos quadrinhos, um papel especial, reforçando um ao outro e garantindo que a mensagem seja entendida em plenitude (VERGUEIRO, 2005, p. 31).

 

Para a transmissão de elementos específicos da mensagem nos quadrinhos, pode-se utilizar a linguagem verbal com mais enfoque ou pode-se priorizar a utilização da linguagem visual, dependerá apenas da intenção e/ou do estilo do autor. A maioria das mensagens que se transmitem em um quadrinho são completas a partir da interação entre o código verbal e o visual, e por isso, não se aconselha pensá-las separadamente no ambiente das HQs, ou como destaca Vergueiro, “a análise separada de cada um deles obedece a uma necessidade puramente didática”, ou seja, apenas explorando o gênero em aula.

Considerada o elemento básico das histórias em quadrinhos, a imagem desenhada é a forma usada para transmitir informações e mensagens sem utilizar a linguagem escrita. Expressões, locais e situações são exemplos de informações transmitidas nas ilustrações emolduradas em pequenos quadros dispostos ao longo das páginas, daí surgiu o nome “histórias em quadrinhos”. Assim como o fonema é a menor partícula da linguagem falada, o quadrinho é a menor partícula da linguagem imagética da HQ, podendo ser chamado também de vinheta. Essas imagens são dispostas de cima para baixo, da esquerda para a direita, como no sentido da leitura ocidental. Seguindo essa lógica, os quadrinhos orientais também seguem o curso da leitura oriental, da direita para a esquerda. Por isso, os quadrinhos japoneses, chamados de Mangás, são lidos do final para o começo.

Figuras 7 e 8: avisos presentes na primeira e na última folha respectivamente da esquerda para a direita de um mangá traduzido e publicado no Brasil.

Essas vinhetas são ilustrações de instantes específicos na história, e como aponta Vergueiro, se constitui com elas “uma sequência interligada de instantes” essenciais para o entendimento do que está acontecendo na história. Diferente da fotografia, que representa um momento único em uma única imagem, os quadrinhos formam juntos uma sequência de momentos que formarão uma narrativa, o que faz com que se aproximem mais da linguagem usada no cinema, que em seus primórdios, tinha suas cenas construídas com sequências de imagens.

Coincidentemente nascidos na mesma época (final do século XIX), o cinema foi “o meio que mais emprestou recursos de linguagem aos quadrinhos [...]” (VERGUEIRO, 2005, pág 32). Exemplos desses recursos cinematográficos nas HQs são os planos visuais, ângulos “de câmera”, iluminação, todos usados para construir a cena presente no quadrinho com um estilo próprio. Atualmente, percebemos que essas duas artes ainda fazem trocas entre si, visto que a maioria das produções cinematográficas atuais são filmes de super-heróis, adaptações de arcos inteiros de histórias criadas nos quadrinhos. Filmes campeões de bilheteria como Mulher Maravilha, Thor: Ragnarok, Guardiões da Galáxia Vol. 2, Logan e Homem-Aranha: De volta ao lar são alguns exemplos dos maiores êxitos cinematográficos do ano passado, 2017, e que fazem parte do mercado de filmes mais popular nessa década, os filmes de heróis. Pode-se entender isso como uma forma de os quadrinhos retribuírem ao cinema os recursos emprestados.

Após essa abordagem sobre a disposição das imagens e da representação de instantes, Waldomiro Vergueiro fala sobre como a técnica empregada pelo criador da história vai ser escolhida de acordo com o objetivo do mesmo. Predominantes no início das ilustrações para HQs, os “desenhos caricata” foram deixados um pouco de lado por volta de 1920, cedendo espaço para o desenho naturalista que viria a ser usado para ilustrar histórias de aventura e super-heróis. Destaca em seguida que “a adequação entre o estilo de desenho e a temática abordada” devem ser conceitos claros para o professor para que este possa “tirar vantagens da variedade no processo de ensino” (VERGUEIRO, 2005, p. 33).

Em A leitura dos quadrinhos, no capítulo Uma linguagem autônoma, Paulo Ramos cita Barbieri ao explicar que a linguagem funciona como um ecossistema repleto de pequenos nichos que se diferenciam entre si, e segundo o autor, Barbieri os chama de “ambientes”. Cada um desses ambientes tinha suas próprias características que os diferenciavam dos outros, mas mesmo assim podiam ser compartilhadas. Com os diferentes estilos e tipos de publicações disponíveis, os quadrinhos podem utilizar elementos presentes no poema, no teatro, na literatura (na linguagem verbal), na pintura, na fotografia, na caricatura (linguagem visual) e etc.

Com a linguagem verbal em forma de legendas e balões de falas e a linguagem visual em forma de desenhos se constrói, basicamente, a linguagem das HQs. Diferente de outros tipos de texto, os quadrinhos podem ser consumidos antes mesmo da alfabetização verbal. Apenas com a leitura imagética, é possível compreender determinadas histórias e exercitar a imaginação. Com um material tão suscetível a leituras, é possível se explorar diversas formas de ensinar, jamais se esgotando as abordagens didáticas que podem ser desenvolvidas a partir dos quadrinhos. Conhecendo os elementos dessa linguagem, o professor será capaz de desenvolver aulas usando as HQs como melhor lhe convier, desde que explore ao máximo o potencial desse tipo de texto versátil e acessível.

6. O hipergênero quadrinhos

É comum, em aulas de literatura, comparar os diferentes gêneros textuais e diferenciá-los pelas suas características como estrutura, aplicações, finalidades e etc. Os quadrinhos, por exemplo, facilmente se diferenciam de uma carta ou uma poesia, pela já mencionada linguagem visual entre outros elementos. Entretanto, como diferenciar textos que usam as mesmas características, linguagem verbal e não verbal, desenhos e balões de falas? Como diferenciar uma tirinha de uma charge, um cartum de uma Comics? Essa separação é difícil até mesmo para estudiosos dos quadrinhos. Sobre tal discussão, Paulo Ramos escreve o artigo História em Quadrinhos: Gênero ou Hipergênero?, onde explora seus estudos sobre gêneros do discurso baseados nos autores Dominique Maingueneau e Mikhail Bakhtin e suas teorias a respeito de gêneros textuais.

Não existissem os gêneros do discurso e se não os dominássemos, se tivéssemos de criá-los pela primeira vez no processo da fala, se tivéssemos de construir cada um de nossos enunciados, a comunicação verbal seria quase impossível (BAKHTIN apud RAMOS, 2009, p.10).

Com essa citação, Ramos explica que conforme os enunciados vão surgindo, características em comum neles vão se evidenciando, gerando estruturas, estilos e temas que serão compartilhados entre os gêneros.

Baseando-se em estudos e análises de quadrinhos, Ramos identificou que há algumas tendências: a linguagem de diferentes gêneros textuais é usada, as histórias podem ou não ter personagens fixos, a narrativa pode ocorrer em um ou mais quadrinhos, dependendo do formato do gênero (Comics é um formato que costuma manter uma mesma narrativa em muitas publicações e sequências). Muitas vezes, o rótulo, o formato ou o veículo de publicação podem orientar a percepção do leitor, agregando determinados valores à leitura e orientando o receptor a uma percepção dos elementos construtores do gênero em questão. De posse dessas informações, Paulo Ramos definiu que as histórias em quadrinhos constituem “um grande rótulo que une as características apresentadas” que são utilizadas por diversos gêneros. Assim, as charges, as tirinhas, os cartuns, por usarem os elementos da linguagem dos quadrinhos (desde os elementos básicos como a linguagem verbal e visual até elementos como balões de fala e onomatopeias) para constituírem uma narrativa também são considerados quadrinhos. Ramos ressalta que caricaturas não são vistas como pertencentes ao gênero quadrinhos por não constituírem narrativas. Sendo assim, os quadrinhos seriam um grande rótulo que agrega diferentes gêneros com suas peculiaridades, o que o autor chama de hipergênero, termo que capta de seus estudos das obras de Maingueneau. Hipergênero tratam-se de rótulos de organização textual usados para categorizar textos como “carta”, “ensaio” ou “diário”, o que vai “formatar” o texto e alterar a maneira como será lido.

Num primeiro momento, Ramos aponta que Maingueneau defende que um gênero de discurso não se limita à organização textual apenas, mas também a outros elementos como a finalidade, o lugar ou o momento em que o texto ocorre, o suporte no qual é publicado (jornal, rádio, TV) e etc. Posteriormente, Maingueneau teria acrescentado que “os gêneros autorais ocorrem com o auxílio de uma indicação paratextual do autor ou do editor” (RAMOS, 2009, p. 5). Ao rotular um texto como um ou outro gênero, indica-se como se pretende receber aquele texto. Se rotularmos um texto como um artigo, ele assim será visto pelo leitor, mesmo que esse texto possa ser rotulado como uma resenha e ser, consequentemente, lido de maneira diferente. O rótulo irá influenciar a maneira como o leitor poderá interpretar o gênero.

Por fim, sugere-se que, ao trabalhar os quadrinhos em sala, que se adote o comportamento teórico que aborda os quadrinhos como um grande rótulo que abrigará diferentes gêneros. Assim, permite-se usar os subgêneros presentes nos quadrinhos como charge, cartum, tirinha, comics, mangá, muitos desses já presentes nos materiais didáticos e em provas e vestibulares, mas sem qualquer distinção, sem uma explicação sobre porque uma tirinha do Garfield de Jim Davis ou um cartum de Laerte são assim classificados. Não cabe à prova distinguir tais textos, mas se em sala forem trabalhados esses gêneros, o aluno poderá ser capaz de entender, por exemplo, porque esses textos são assim nomeados e qual é a leitura esperada para tais.

6.1. Hipergênero quadrinhos em sala de aula

Durante uma aula empregada no estágio curricular supervisionado do 7º período do curso de Licenciatura em Letras, foi feita uma pesquisa de campo ao ser ministrada uma aula sobre quadrinhos. Utilizando o conceito de quadrinhos como um hipergênero, foram apresentados aos alunos os principais e mais comuns tipos de histórias .

Os tipos usados na aula foram tirinha, gibi, cartum, charge, comics e mangá. Inicialmente, foi entregue aos alunos uma apostila (ANEXO A) com três figuras diferentes. Em seguida, eles foram questionados sobre quais tipos de quadrinhos cada figura seria (charge, tirinha e etc). Após as tentativas, percebeu-se que mesmo com figuras bem distintas entre si, os alunos não souberam diferenciá-las. Depois, com o material da apostila, foram trabalhadas as características de cada gênero separadamente, demonstrando que apesar de todos serem considerados quadrinhos, cada um tem um estilo, linguagem, contexto ou tema.

Após as explicações, os alunos conseguiram, utilizando as características, identificar as figuras. Conhecendo essas características, o aluno poderia ter mais facilidade de, em um vestibular ou Enem, ler de maneira mais adequada esse tipo de texto. Se uma charge for apresentada numa questão, o aluno poderá lê-la levando em conta que charges nem sempre trazem balões de fala, geralmente fazem uma crítica social ou política e precisam de um contexto para ser entendida. De posse desses conhecimentos, o aluno poderá diferenciar com mais facilidade a charge de um cartum, por exemplo, visto que este não precisa de um contexto e costuma criticar comportamentos. Sendo os quadrinhos usados como um suporte para a questão, não basta o aluno ler e entender a questão. É importante que ele saiba fazer a leitura da imagem utilizada para que se direcione para a leitura que aquele tipo de texto propõe e assim, compreenda o problema proposto com maior propriedade.

7. Estabelecendo um paralelo entre as obras clássicas e as HQs

Num contexto escolar, durante a aula, o quadrinho pode ser inserido de diversos modos. Apresentá-lo como uma linguagem, um gênero textual, uma informação de apoio para uma questão e etc. Além dessas apresentações, os quadrinhos trazem a possibilidade de serem trabalhados em aula como um apoio para as leituras dos clássicos, que é um dos objetivos deste TCC. Visto que existem diversas adaptações de obras clássicas que estão presentes no currículo do MEC, tanto brasileiras quanto estrangeiras, podem-se utilizá-las como ponte entre o aluno e a obra original que por vezes é rejeitada pelo discente, seja pela distância temporal que pode causar estranhamento, ou pela linguagem rebuscada que pode tornar a leitura entediante.

Além das obras que já são estipuladas pelo MEC como adaptações em HQs (já exemplificadas anteriormente), propõe-se aqui a utilização de adaptações que não estão listadas no currículo, ressaltando que não se propõe a substituição da adaptação pela obra original (as adaptações sugeridas pelo MEC substituem a obra original), mas que se utilize a HQ como apoio para a leitura do texto original, uma porta de entrada para que os alunos conheçam os personagens, o enredo, entendam o contexto e assim possam se interessar pela leitura do livro original. Assim, o professor terá mediado uma transição da adaptação para o clássico, sem apresentá-lo de maneira abrupta.

8. Trabalhando com adaptações

Para levantar questões sobre a utilização de adaptações em sala, foi necessário que se fizesse uma pesquisa com professores que atuam nos anos finais do Ensino Fundamental e no Ensino Médio para verificar frequência com que são usadas obras literárias no formato de histórias em quadrinhos nas suas aulas de língua portuguesa e literatura. Intitulada “Utilização de HQs em sala de aula”, essa pesquisa foi feita com método qualitativo a partir da aplicação de um questionário online através da plataforma Google Docs. Dos professores que participaram do questionário, todos responderam que, dependendo da abordagem do professor, as HQs podem e devem ser usadas para aproximar o aluno da leitura dos clássicos de modo a desconstruir o preconceito e o medo do aluno de ler um clássico. Mesmo que todos tenham afirmado ter acesso às HQs pela internet, biblioteca ou acervo pessoal, apenas 75% dos professores que responderam o questionário afirmaram usar frequentemente as histórias em quadrinhos em sala, seja como suporte ou linguagem, enquanto os 25% restantes nunca utilizaram. Metade dos professores já utilizou adaptações em HQs de obras clássicas para trabalhar a leitura com seus alunos. Os que utilizaram, responderam que a aula ocorreu de maneira dinâmica e que a experiência foi boa, pois os alunos se interessaram mais pela narrativa nesse formato, e que também a linguagem não verbal presente na HQ amplia a capacidade narrativa do leitor. Todos os que participaram disseram acreditar que as adaptações devem fidelidade à obra original, que mesmo que alterações sejam necessárias, a narrativa ou o desfecho dos personagens não podem ser comprometidos, sendo o máximo fiel possível. Todos foram positivos em relação à utilização das adaptações paralelas às obras clássicas. Os que já utilizaram as HQs nas aulas apontaram que as HQs são um gênero com o qual os alunos estão mais familiarizados e são mais receptivos, facilitando assim a abordagem do tema da narrativa, abordando o clássico de maneira menos abrupta a partir daí.

Existem diversos tipos e estilos de adaptações de obras para quadrinhos. A adaptação é uma interpretação da obra original a partir da visão do ilustrador. Adaptações exigem algumas alterações, mas não nos elementos essenciais da história original (portanto, a adaptação deve estar mais para a paráfrase do que para a paródia). Existem adaptações que trazem o texto da obra adaptada com fidelidade e outras que abordam a narrativa por uma perspectiva diferente, mas sem comprometer o enredo original.

Um dos grandes problemas de se trabalhar uma adaptação é a perda do texto que deu origem a ela. Todo o trabalho poético do autor pode se perder na conversão para a linguagem dos quadrinhos, restando apenas os personagens e o enredo. Entretanto, há adaptações que apenas acrescentam a ilustração ao texto original do autor, trazendo-o na íntegra. Um exemplo é a adaptação da obra Capitães da Areia de Jorge Amado pelo autor Ruy Trindade.

Criador do projeto “Transcrever romances inteiros para quadrinhos”, Ruy Trindade foi responsável pela adaptação de obras integrais para a linguagem das HQs, preservando o texto obras e adicionando suas ilustrações bem detalhadas. Com uma adaptação desse tipo, o aluno pode se interessar mais pelo texto, visto que as ilustrações, além de exercitarem a leitura imagética, podem tornar o texto mais atrativo. As obras desse projeto são exemplos de adaptações sem nenhum tipo de perda na tradução, ocorrendo apenas o acréscimo das ilustrações, o que podemos considerar um enriquecimento da obra de Jorge Amado. Nascido em Salvador, BA, em 1946, Ruy Trindade iniciou seu contato com o mundo das artes aos 17 anos, quando estagiou numa agência de propaganda. Praticou seus desenhos durante o serviço militar aos 18, ingressando em uma emissora de TV aos 19 e trabalhando com propaganda. Em 1991, criou o projeto Transcrever Romances Inteiros Para Quadrinhos para incentivar a leitura. A primeira obra traduzida foi Capitães da Areia, publicado em 1995.

Em 1998, Ruy publicou Os Pastores da Noite, também de Jorge Amado. Adaptou também As aventuras de Tibicuera (2000) de Érico Veríssimo, A Revolução dos Bichos (2002) por George Orwell e o clássico Dom Casmurro (2005) de Machado de Assis. Mais de 12.000 exemplares dessas adaptações foram distribuídos gratuitamente por Ruy em mais 150 escolas públicas no Estado da Bahia.

 

Figuras 9 e 10: Capa e páginas de Capitães da Areia, em quadrinhos sem cortes.

Existe um outro tipo de adaptação que converte quase todo o texto em ilustrações. Temos como exemplo a adaptação em quadrinhos A Terceira Margem do Rio em Graphic Novel do conto de João Guimarães Rosa extraído do livro Primeiras Estórias, Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1988, pág. 32. Produzida por Maria Helena Rouanet e Thais dos Anjos, essa adaptação está entre as obras do acervo do MEC de 2013 como obra a ser trabalhada no Ensino Médio. Essa adaptação é feita majoritariamente por ilustrações coloridas que, com riqueza de detalhes, substituem a maior parte das palavras do conto. Este tipo de quadrinho explora a ilustração para construir a narrativa convertendo o texto descritivo em imagens sem comprometer o entendimento do conto.

Figuras 11 e 12: Capa e páginas de A Terceira Margem do Rio em Graphic Novel.

9. Proposta didática utilizando as HQs

Trabalhados a linguagem dos quadrinhos, os gêneros e os tipos de adaptações, sugere-se agora uma metodologia para iniciar os alunos na leitura das HQs visando futuramente utilizá-las para estabelecer o contato dos alunos com os clássicos, não como substituição pela adaptação, mas como auxílio. Uma vez atraídos pelas páginas das HQs, espera-se que adquiram a prática de uma leitura espontânea e prazerosa, sem uma responsabilidade didática ou cobrança sobre o material lido. A aproximação adequada nas aulas de língua portuguesa e literatura poderá definir a formação de leitores ou não-leitores.

9.1. Primeira Etapa - Aula de Língua Portuguesa

Numa aula de língua portuguesa, a possibilidade para iniciar os alunos na leitura dos quadrinhos é a disciplina sobre gêneros. Ao falar sobre carta, jornal, poema, crônicas, contos, o professor pode usar esse momento para falar sobre as HQs, como já visto, um gênero textual dotado de vários subgêneros. Uma boa maneira de inserir os quadrinhos na aula é trazer diferentes tipos de publicações como Comics de heróis da Marvel e DC, gibis da Turma da Mônica, da Disney e etc. (que são os mais populares no Brasil) e colocá-los sobre a mesa, não os apresentando aos alunos. Será usada como exemplo a aula do meu estágio supervisionado no 7º Período (plano de aula referente no ANEXO C). Essa estratégia foi utilizada para atrairmos os alunos antes de iniciar a aula sobre o gênero quadrinhos.

Ao colocar os quadrinhos na mesa, os alunos olharam desconfiados e logo pediram pra examinar as revistas. Muitos deles pediam para olhar depois dos colegas, relatando que gostavam da Turma do Pererê ou que adoravam os Vingadores, que foram alguns dos exemplares levados. Após esse primeiro momento de aproximação com os quadrinhos na sala de aula, recolhemos o material e iniciamos a aula, questionando-os sobre aquelas revistas, o que eram, se gostavam, quando começaram a lê-las e por fim, perguntamos se saberiam dizer em qual gênero os quadrinhos se encaixavam. Esse momento de interação é importante para a verificação dos saberes dos alunos e as dúvidas, para que a aula ocorra de modo a instruí-los e sanar o máximo de dúvidas possível. Após o último questionamento sobre quais era o gênero dos exemplos na apostila, que os alunos não souberam responder, foi iniciada a aula sobre o gênero quadrinhos.

Após distribuir a apostila (ANEXOS A e B), iniciamos a aula explicando o conceito de hipergênero de maneira simples, que se trata de um gênero com alguns subgêneros que são agrupados por compartilhar dos mesmos elementos para constituir a narrativa. O conceito de Maingueneau não foi totalmente explorado por não se encaixar no currículo de uma aula de Ensino Médio. Após entenderem essa parte, perguntamos aos alunos em quais estilos se encaixam os trechos destacados na primeira página da apostila, três fragmentos de quadrinhos, ao que logo responderam de maneiras diferentes. Iniciamos a explicação sobre os gêneros presentes na segunda página. Utilizamos os mais populares: Charge, Gibi, Cartum, Tirinha, Comics e Mangá. Este último foi utilizado com a intenção de captar o interesse dos alunos, visto que é um gênero muito popular entre jovens e adolescentes. Destaca-se aqui a importância de um material não muito extenso, mas que seja suficientemente explicativo, trazendo as principais características de cada tipo de quadrinho e distinguindo bem cada um deles.

Trabalhadas as características ao longo da aula e respondendo às perguntas dos alunos, seria o momento de trabalhar os elementos comuns entre os quadrinhos. Nesse momento de aula, apenas os tipos de balões de falas e as onomatopeias foram utilizados, elementos híbridos da linguagem visual e verbal que trazem diferentes formatos (ANEXO B). Os balões de fala trazem contornos diferenciados para esclarecer se o personagem está falando, gritando, pensando, cochichando e etc., enquanto as onomatopeias fazem o papel do som na HQ, exemplificando sons de carro, impacto, socos, trovões e etc. Ao fim dessa aula, os alunos foram separados em grupos e avaliados num jogo de perguntas e respostas sobre quais características pertencem a determinados tipos de quadrinhos, avaliando se o conteúdo foi entendido e absorvido por eles.

9.2. Segunda Etapa - Aula de Literatura

Antes de iniciar uma aula com uma obra clássica não sugerida numa versão adaptada, sugere-se que o professor faça uma pesquisa sobre as adaptações da obra com que irá trabalhar. Ao selecionar uma adaptação, o professor precisa conferir se a linguagem é adequada, se a narrativa é fiel à obra original e se o enredo não é alterado. Escolhida a adaptação adequada, pode-se, num primeiro momento, elencar as principais características entre a adaptação e a obra. Além dos personagens e do enredo, essas características poderão servir como uma ponte para ligar a HQ à obra original. Ao escolher, por exemplo, uma adaptação de Dom Casmurro de Machado de Assis, pode-se procurar características em comum como as digressões que interrompem a linearidade da narrativa ou se ocorre a quebra da quarta parede. Surgido provavelmente na Idade Média com o Teatro Saltimbanco, o termo “quarta parede” seria a lateral da lona da carroça onde os atores atuavam e se deslocavam pelos vilarejos. A lona (quarta parede) se levantava e revelava aos espectadores os atores prestes a encenar. O teatro assume a sua apresentação como uma caixa, com quatro paredes, onde a última delas, na frente do palco e diante dos espectadores, cai e revela a peça. Atualmente, o termo é usado quando essa parede não apenas é removida, mas quando o personagem interage com o espectador a partir da brecha criada com a falta da parede, ou no caso de Dom Casmurro, a quando o narrador dirige sua fala ao leitor ao longo da obra. Esse artifício é utilizado por alguns personagens da Marvel Comics.

Inicialmente, esse artifício foi utilizado nas HQs da She-Hulk, mas se tornou mais conhecido pelo personagem Deadpool, que além de quebrar a quarta parede e se referir ao leitor, faz uso da metalinguagem (ao reconhecer que faz parte de uma história em quadrinhos) e diversas intertextualidades, fazendo referências a outros heróis, filmes, séries, personalidades históricas e etc. Deadpool se tornou muito popular após o lançamento da adaptação para o cinema em 2016, sendo um dos filmes de maior bilheteria do ano e que além de manter essas características dos quadrinhos, faz, no filme, referências aos quadrinhos e a outros filmes populares. Sua sequência será lançada em 2018.

Após a adaptação definida, o professor poderá escolher a melhor maneira para abordá-la com os alunos. Seja em uma aula comum ou em uma mesa redonda, será necessário inserir a HQ adaptada como uma releitura do texto original, a visão do autor da adaptação sobre a obra clássica. Nessa aula, serão inseridos a narrativa, os personagens, o contexto histórico, elementos comuns entre as versões. As ilustrações servirão como um apoio para demonstrar as vestimentas, os cenários da época em que se passa a narrativa, funcionando como um possível atrativo para os alunos. Sendo a narrativa o mais fiel possível à obra, não seria necessário a leitura integral da adaptação, lendo-se apenas o clássico. Como no currículo se indica trabalhar o texto original (e nem sempre o professor tem autonomia para optar por uma adaptação), a HQ acaba por ser uma porta de entrada para que, conhecendo o plot inicial, os personagens, o contexto histórico, os alunos sejam atraídos pela obra original, aceitando-a com mais facilidade.

Estabelecendo relações entre o clássico e as HQs, o professor pode estar iniciando os alunos na literatura, na leitura imagética e no ato de ler por prazer sem que percebam. Não é intenção deste trabalho reduzir os outros gêneros textuais em relação às HQs, mas inseri-las no cotidiano das escolas como mais um recurso pedagógico para formação de leitores. Pretende-se retomar o potencial didático da linguagem dos quadrinhos de um ponto em que nunca deveria ter parado. Passados os anos de fanatismo e perseguição contra os quadrinhos, ainda permanecem resquícios do preconceito que impede que se perceba a importância e a riqueza de uma linguagem que ganhou o título de uma das grandes artes, devido à sua importância.

10. Considerações Finais

O desenvolvimento deste trabalho buscou estudar o potencial didático das HQs e trabalhar a partir delas a leitura nas aulas de literatura no Ensino Médio, estabelecendo relações entre o clássico e a HQ e facilitando a iniciação o aluno tanto na leitura da obra clássica, quanto na leitura dos quadrinhos. Pesquisas Qualitativa e de Campo foram feitas buscando verificar a utilização das HQs no ambiente escolar e a recepção dos alunos quanto a elas. Um questionário online respondido por professores levantou que as HQs são utilizadas, mas apenas metade dos que responderam já usaram adaptações e adquirindo ótimos resultados, desenvolvendo uma aula dinâmica e captando o interesse dos alunos. Dos professores pesquisados, todos responderam acreditar que as adaptações podem servir como um auxílio ao se trabalhar as obras clássicas com os alunos, defendendo que se deve desconstruir o medo do professor em trabalhar com quadrinhos e que com as adaptações, é possível que se inicie a leitura dos clássicos de maneira menos abrupta.

A Pesquisa de Campo feita durante uma aula de estágio permitiu a verificação da aceitação dos alunos por parte dos quadrinhos como uma linguagem. Muitos dos alunos já estavam familiarizados com as HQs, recebendo bem o assunto da aula. Os que não tinham contato com os quadrinhos, demonstraram interesse na novidade, constatado que nunca haviam visto aquele tipo de material de perto.

Após a revisão histórica das HQs, pode-se perceber o quanto essa forma artística e expressiva tem se desenvolvido ao longo dos séculos, relacionando-se com outras formas artísticas e desenvolvendo uma linguagem própria. Foi evidenciado a sua utilização didática desde antes da Segunda Guerra Mundial, utilização que ainda hoje precisa ser estudada, desenvolvida e exercitada, devido à variedade de temas, formatos e estilos que se pode encontrar nos quadrinhos. Presente nos currículos nacionais desde os anos 90, as HQs têm ganhado o seu espaço e seu reconhecimento na educação. Este trabalho destaca que ainda há muito a ser estudado e trabalhado, de modo que as HQs se tornem uma linguagem mais presente nas aulas de língua portuguesa e um suporte para as aulas de literatura, uma vez que compartilham elementos comuns com essa e com outras formas de linguagem, elementos que, utilizados na linguagem e na imagem, tornaram as HQs um gênero textual, uma forma de linguagem, de expressão e, por fim, de arte.


Publicado por: Igor Da Silva Oliveira

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