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O EMPODERAMENTO DO NEGRO NO SERIADO “MISTER BRAU”: REPRESENTAÇÃO E REPRESENTATIVIDADE NA CONTEMPORANEDADE

Arte e Cultura

Mister Brau é uma mistura de humor, denúncia e reflexão do cotidiano, permite o novo olhar do negro por meio de narrativas que lançam ao telespectador o confronto da ficção com a realidade.

índice

Resumo

O presente artigo apresenta como objetivo central, compreender o processo de empoderamento dos personagens protagonistas no seriado Mister Brau, produzido e exibido pela Rede Globo de Televisão. Para tanto, buscar o entendimento das mediações que entrelaçam a figura do negro no seriado. Desse modo, foram selecionadas algumas sinopses da primeira até a terceira temporada do seriado no intuito de fazer uma análise geral. A intenção do projeto é buscar o entendimento das possíveis representações e representatividades atingidas pelas mudanças sociais, culturais e da mídia. Dessa maneira, a presente metodologia teve como objetivo duas fases: coleta de dados bibliográficos pelos quais busca-se correlacionar a análise de dados variados do seriado Mister Brau e, logo após, a partir das informações obtidas, a realização de um levantamento da análise para enfim, apresentar os possíveis resultados. A necessidade pela escolha do seriado, gira em torno de explorar os novos espaços do negro e seus resinificados na mídia brasileira.

Palavras Chaves: Empoderamento; Negro; Rede Globo; Mister Brau.

Abstract: This article aims to understand the process of empowerment of the characters protagonists in the series Mister Brau, produced and shown by Rede Globo de Televisão. To do so, seek the understanding of mediations that intertwine the figure of the black in the series. In this way, some synopses were selected from the first to the third season of the series in order to make a general analysis. The intention of the project is to seek the understanding of possible representations and representations affected by social, cultural and media changes. In this way, the present methodology had as objective two phases: collection of bibliographical data by which it is sought to correlate the analysis of varied data of the series Mister Brau and, soon after, from the obtained information, the accomplishment of a survey of the analysis for Finally, to present the possible results. The need for the choice of the series, revolves around exploring the new spaces of the black and its resinified in the Brazilian media.

Keywords: Empowerment; Black; Rede Globo; Mister Brau.

O racismo ainda é uma grande ferida. É importante que todos pensem sobre esse assunto”.

Lazaro Ramos².

1. INTRODUÇÃO

1.1 O Empoderamento

Segundo o dicionário, o termo empoderamento se refere ao ato de dar ou conceder poder para si próprio ou para outrem.

A partir de seu sentido sociológico contemporâneo, acreditamos que o ato de empoderar está ligado à conscientização dos grupos sociais e, assim, pode ocorrer individualmente ou coletivamente. Desse modo, o ato de empoderar é ligado aos traços dos sujeitos e, assim, os rastros de suas ações e estilhaços de sentidos.

Para Lazaro Ramos, em seu livro “Na Minha Pele”, define o empoderamento como:

Então “empoderar” é uma palavra que, como “soriedade” (aliança entre mulheres com base em empatia e companheirismo) e “ representatividade”, ainda vai nos ajudar a encontrar novas regras de 1convivência, claro gerando muitos debates, conflitos e busca de novos significados para relações já estabelecidas. (Ramos, 2017, p.117).

Um dos atos de empoderar mais conhecido é o empoderamento feminino. Nesta perspectiva, é a mobilização coletiva das mulheres buscando a conquista plena dos direitos de cidadania, defesa de seus direitos e deveres e, assim, o movimento ganhou mais força e evidência devido a inserção dos movimentos negros na luta pelos direitos identitários .

Por certo, o termo empoderamento nos últimos anos vem sendo alvo de significados e ressignificados. Podemos pressupor que as mobilizações coletivas e individuais das mulheres e os movimentos negros podem ter sido o fator principal para os avanços, pois, estabeleceu um novo olhar para as questões de gêneros, desenvolvimento e poder. Então, o que é empoderar? O que é representação? O que é e representatividade?

Por esse motivo, observando as múltiplas possibilidades de abordagem da representação e representatividade do negro nas telenovelas brasileiras, propusemo-nos neste estudo uma análise da ausência ou presença dos estereótipos dos personagens protagonista do seriado Mister Brau. Nesse intuito, trata-se de uma pesquisa qualitativa, em virtude de buscarcompreender a importância por certo da influência positiva dos protagonistas. Como ponto de partida, a pesquisa foi dividida em duas partes: Na primeira parte, é apropriado das referências de Souza e Munanga para destrinchar a história do negro no Brasil. Posteriormente, utilizaremos das referências de Joel Zito Araújo e Silva Ramos para destrinchar a história da televisão brasileira. Assim, no seguinte, é apresentado um breve retrospecto da inserção do negro na televisão desde a década de 60 até alcançar seus espaços na atualidade. Finalmente, a segunda e última parte da pesquisa é inteiramente dedicada à análise de “Mister Brau”. O estudo teve como foco, prioritariamente, na seleção de algumas sinopses, entrevistas e fotos da primeira até a terceira temporada do seriado, no intuito de compreender as representações identitárias. A partir das informações obtidas, nas considerações finais é apresentado o estudo da análise da ausência ou presença dos estereótipos dos personagens protagonistas para estabelecer a maneira como se caracterizam as representações e representatividades dos personagens protagonistas no seriado.

1.2 A História do Negro no Brasil

Durante muito tempo, discorrer sobre a história do negro no Brasil é trazer informações sobre a história da resistência no contexto social e histórico. Nesse sentido, diversas foram às lutas do negro para a conquista da liberdade, em modo particular, esse processo dura até hoje. Dessa forma, os primeiros africanos nas condições de escravizados chegaram ao Brasil no século XVI, trazidos pelos portugueses para trabalhar como escravos nos engenhos de açúcar, nas plantações de cana, nas plantações de café, nas minas, na captura de outros escravos, empregado doméstico, entre outros.

Albuquerque aponta que:

A retirada violenta de africanos de suas comunidades, conduzidos para trabalhar como escravos em terras distantes, foi a solução encontrada pelas potências coloniais europeias para provocar e explorar riquezas tropicais e minerais das colônias no Novo Mundo. A colônia portuguesa (O Brasil) dependia de grande suprimento de africanos para atender às necessidades crescentes de economia carente de mão-de-obra. A migração transatlântica forçada foi a principal fonte de renovação da população cativa no Brasil, especialmente nas áreas ligadas à agricultura de exportação, como cana-de-açúcar. Submetida a péssimas condições de vida e maus-tratos, a população escrava não se reproduzia na mesma proporção da população livre. Era alto o índice de mortalidade infantil e baixíssima a expectativa de vida. Além dos que morriam, o tráfico repunha os que saíam do sistema através da alforria ou da fuga para os quilombos. Assim, havia demanda constante de escravos africanos, algo que se intensificava nos períodos de crescimento econômico. (Albuquerque,2006, p.40-41).

Ao pisar em solos brasileiros, os primeiros destinos eram os estados da Bahia e do Rio de Janeiro.Em primeiro momento, o fluxo de escravos nas condições de escravizados nos países africanos era inexpressiva. Logo após, o fluxo passou a se tornar mais expressivo, em razão da comercialização de escravos. Naquela época, bastante lucrativa para os fornecedores e portugueses. Conforme Souza, descreve abaixo:

As negociações envolviam várias etapas, eram lentas e com gestos cheios de significados simbólicos. Os navios tinham que pagar taxas de ancoragem, e os capitães ofereciam presentes para os chefes locais ou para os representantes dos reis, que moravam no interior do continente. Estes geralmente eram presenteados com tecidos finos, como brocados, veludos e sedas, com botas de couro, chapéus emplumados, casacos agaloados, punhais e espadas trabalhadas, pipas de bebidas destiladas, cavalos e uma variedade de produtos que indicavam prestigio. (Souza, 2008, p.59).

A princípio, durante épocas, os processos de trocas de negros escravizados por mercadoria arrastavam-se de forma lenta. Sobre o tema tratado, Albuquerque relata que:

Desde meados do século XVI, grandes números de africanos desembarcaram em cidades litorâneas como Salvador, São Vicente (São Paulo), Rio de Janeiro, Recife. A partir desses primeiros núcleos de povoamento, a ocupação avançou para o interior, seguindo direções diversas. Para onde fossem, os colonizadores levavam escravos africanos.

Nessas condições, os negros escravizados eram capturados, afastados da sua comunidade, de seus laços sociais. Ora, vendidos para os donos de terras, alojados em senzala e, assim, era imposta pelos brancos uma nova cultura, religião e, principalmente, identidade. Por esse motivo, os negros possuíam dialetos de regiões diferentes e com o passar do tempo, aprendiam a língua oficial ‘português do Brasil’.

Munanga (1994), ao falar sobre identidade afirma que:

(...) a identidade é uma realidade sempre presente em todas as sociedades humanas. Qualquer grupo humano, através do seu sistema axiológico sempre selecionou alguns aspectos pertinentes de sua cultura para definir-se em contraposição ao alheio. A definição de si (auto definição) e a definição dos outros (identidade atribuída) têm funções conhecidas: a defesa da unidade do grupo, a proteção do território contra inimigos externos, as manipulações ideológicas por interesses econômicos, políticos, etc. (MUNANGA, 1994, p.177 – 178).

A ideia de identidade não possui uma única definição, pois o seu processo, varia de indivíduo para indivíduo. Abordar esta questão é também falar sobre um aspecto plural. Desta maneira, o negro aprende uma nova cultura devido ao convívio com outros africanos e, principalmente, com os povos da terra e, assim, adaptava-seaos modos brasileiros de ser e deestar. O negro na atualidade convive evidentemente no cotidiano com seus direitos negados ou ignorados na sociedade. O racismo continua presente e atuante no mundo considerado civilizado. A ideia de abolição e liberdade sãoantônimas uma da outra, pois a escravidão deixou marcas profundas na sociedade. Para tanto, reforçou a ideia de que a população negra não possui o direito de ser livre e, assim, desde a história até a atualidade sãonegadascondições dignas de vida.

De acordo com Joel Zito Almeida de Araújo (2000), em seu livro “A negação do Brasil: O Negro na Telenovela Brasileira” aponta que:

Os interditos do tabu racial, que rejeitam a negritude e promovem a branquitude, com seus modelos de estético e bom gosto calcados nas construções do mundo branco, trouxeram também problemas discriminatórios no meio e na imagem da televisão... ...Além da telenovela, podemos ver os reflexos dessa realidade nos comerciais de tevê. Aí percebemos as consequências do desinteresse histórico da elite brasileira em formar um mercado consumidor amplo, em seu próprio país, e da preferência pela imigração da mão-de-obra europeia no período final da escravidão, em detrimento do trabalhador negro. Empresários, publicitários e produtores de tevê, como norma, optam pelo grupo racial branco, nos processos de escolha de modelos publicitários, na estética da propaganda e até mesmo nos critérios de patrocínio ou apoio a projetos culturais. É uma constante a negativa de incentivo cultural aos programas de tevê voltados para a população afro-brasileira, normalmente sob a alegação de não haver retorno comercial. O empresário brasileiro, em sua grande maioria, não acredita que o negro seja uma força econômica. Na lógica dessa maioria, preto é igual a pobre, que é igual a consumo de subsistência (ARAÚJO, 2000, p. 38,39).

A análise de Araújo ajuda refletir que os telespectadores negros são excluídos do processo de representação e representatividade na televisão e, assim, é propagada nos canais de comunicação a ideologia do branqueamento. Entretanto, a televisão, uma poderosa ferramenta formadora de opiniões e saberes, normas e valores, deveria levar para casa dos brasileiros a verdade sobre exclusão social. Realçamosessaquestão, pois é constante repensar nos espaços do negro na sua história até a atualidade e, além disso, pensar como os espaços foram conquistados. Para isto, a mídia necessita repensar e criar condições de equidade racial, no sentido de fazer com que não se permita quea ideologia do branqueamento continue a tomar conta da maior parte representativa da população brasileira. Sobre o tema tratado, Lahni, afirma que:

A mídia absorve, reelabora e transmite o imaginário coletivo nas representações sociais. Como fica o negro na mídia? Não muito diferente da sua realidade social. É verdade que a realidade está se modificando, o problema é que essa mudança é muito lenta. Enquanto isso os afro-brasileiros que estão à margem da sociedade desde a abolição da escravatura (e durante a escravidão), agora continuam marginalizados nas favelas, com acesso precário ao estudo e emprego e também sem ser representados na sociedade (cargos políticos) e na mídia (jornalistas, atores e personagens que realmente identifiquem os afro-brasileiros), (LAHNI, 2007 p. 83).

Contudo, os noscenários televisivos, infelizmente, ainda é incomum, os negros serem representados por personagens que estimulem uma visualização positiva para os telespectadores: advogados, empresários, jornalistas, protagonistas e formadores de opiniões entre outros. Por sua vez, deveria ser o compromisso da mídia representar as pessoas de etnias negras evidenciando os elementos identitários. Todavia, há muito a ser feito para tentar diminuir o preconceito e a desigualdade social.

1.3 A História da Televisão Brasileira

A palavra televisão foi usada pela primeira vez em 1900, pelo cientista russo Constantin. Entretanto, foram anos de especulação e teoria até 1909, George Rignoux e A. Fournier. Ambos franceses, criarame desenvolveram uma imagem sem movimento. A princípio, em 1926, John Logie Bard desenvolveu a primeira imagem em movimento e, assim foi-se aperfeiçoando anos mais tarde. No Brasil, a televisão surgiu em 1950. Nesta época, a televisãoé encarada como canal de rádio com imagens e, assim, diversos artistas do rádio migravam à televisão. Por esse motivo, em 1956 é criado o primeiro programa infantil pela TV Tupi, especializado em programas de festas infantis. Após, nos anos 1960, chega ao Brasil o vídeo-tape.

Segundo Sergio Mattos, em seu livro, “Um perfil da TV Brasileira: 40 anos de história: 1950 – 1990”, sobre a história da televisão brasileira, aponta que:

Desde o início, a televisão brasileira teve uma característica: todas as emissoras hoje em funcionamento estão sediadas em áreas urbanas, suas programações são dirigidas às populações urbanas, são orientadas para o lucro (com exceção das estações estatais) e funcionam sob o controle sob o controle direto e indireto da legislação oficial existente para o setor. O modelo de radiodifusão brasileiro, tradicionalmente privado evoluiu para o que se iniciava, operando canais destinados a programas educativos. (Mattos, 1990. P.17).

A princípio, a televisão era acessível para elite e, assim, as pessoas de camadas populares mais baixa e de zona rural não tinha acesso. Anos mais tarde, em 1965, nasce a Rede Globo de Televisão, no Rio de Janeiro, mais conhecida TV Globo de Televisão. Depois de dois anos, é fundada a Rede Bandeirantes de Televisão. Anos mais tarde, em 1969, é criado o telejornal e logo após, é criado o Jornal Nacional que foi o primeiro jornal a apresentar reportagens via satélite. Mattos relata que:

Durante as duas primeiras décadas de nossa televisão, os programas eram identificados pelos nomes dos patrocinadores. Em 1952, e por vários anos subsequentes, os telejornais tinham denominados como: “Tele notícias Panair”, “Repórter Esso”, “Telejornais Bendix”, “Reportagem Ducal” ou “Telejornal Pirelli”. Os demais programas também tinham nome do patrocinador: “Gincana Kibon”, “sabatina Maizena” e “Teatrinho Troll”. (Mattos, 1990, p.9).

A popularização da televisão foi aos poucos. Sergio Mattos (1990) relata que, com o objetivo de estimular e crescimento dos telespectadores, foram instalados receptores em praça pública, no intuito de atingir uma boa camada da população. Inicialmente, as acessibidade das primeiras emissoras nas telinhas brasileiras eram precárias: cheias de modulações, improvisos e necessitavam de modificações técnicas. Entre 1972 a 1974, foi o grande marco da televisão brasileira, devido a chegada da transmissão de canal em cores, com implementação do sistema Pal-M. Uma nova realidade que mudou a forma de assistir e aumentou a magia da televisão. Como ponto de partida, a Rede Globo de Televisão implanta o ‘Padrão Globo de Televisão’, ou seja, uma nova estratégia de marketing e tecnologia. Por outro lado, em 1980, o governo fecha a rede Tupi. No início de 90 é criado o sistema brasileiro de televisão: ‘SBT’, por Silvio Santos, mais conhecido como o ‘patrão’, caracterizado com diversos programas infantis, grandes novelas importadas e telejornais. Nove anos mais tarde, a TV Record é vendida para o Bispo Edir Macedo e, então, é fundada a rede Record de Televisão. A partir de 1990 é o ano que inicia as primeiras transmissões de canal de assinatura no Brasil e com isso o mercado cultural é aberto. Em 1999, um grupo de empresários paulistas compra a Rede Manchete e cria a Rede TV.

Hoje em dia, a televisão é uma ferramenta de entretenimento cada vez mais potente e, assim, aproxima, transmite um imaginário coletivo na sociedade e, além disso, funciona como um veículo de lazer e cultura.

1.4 O Negro na Televisão Brasileira

O Brasil, considerado um país tropical, multicultural, rico em diversidade e belezas naturais possui uma população formada por negros, pardos, indígenas, brancos e mulatos. Por esse motivo, estima uma população de milhões de habitantes segundo dados do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Já somos mais de 200 milhões de brasileiros

Atualmente, os pretos representam 45% da população brasileira. Entretanto, sabemos que o país é formado em sua maioria por afrodescendentes, mas, infelizmente, nos espaços na mídia é minoria. Por outro lado, mesmo exigido 2% de negros na televisão, nos jornais e propagandas há muito a ser feito para representar a mesma quantidade de brancos, pardos e pretos no cenário midiático. Como prova disso, a primeira participação do negro no cenário televisivo ocorreu no ano de 1960, na novela brasileira O Direito de Nascer, pela personagem Dolores (Isaura Garcia), representava uma figura matriarcal da época. Nove anos mais tarde, é exibida a novela A Cabana do Pai Tomás, a primeira novela a contar com personagens negros principais. Assim, anos mais tarde, é exibida a novela Pecado Capital vivenciado pelo personagem Percival (Milton Gonçalves) cujo enredo das narrativas abordava a questão social mais sem impactos para os telespectadores. Nesse mesmo período, é exibida a novela Escrava Isaura, revolucionou a história devido a participação de personagens negros no enredo. Entretanto, o papel de destaque se deu a Lucélia Santos, mulher branca para interpretar uma mulher escravizada. Entretanto, essa posição adotada reflete a continuidade do racismo. Na verdade, reflete o racismo midiático e de certa forma presente na sociedade.

Em oposição, é exibida em 1997, a novela Xica da Silva, retratou o período da escravidão do Brasil. Assim, foi à primeira novela a conter uma protagonista negra ‘Xica’ (Taís Araújo), uma mulher negra a frente do seu tempo e, assim, lutava contra o preconceito da época e pelo direito de se tornar livre. Por fim, é o grande marco da telenovela brasileira por ter uma protagonista negra. Anteriormente à novela, foi exibida o filme Chica da Silva com o personagem protagonista Zezé Mota. Assim, o filme abordou a trajetória de Xica (Zezé Mota), que de escrava, conquistou o direito de se tornar a primeira dama negra da época e, enfim adentrou na sociedade branca ganhando prestigio e reconhecimento. De modo geral, em 1984, é exibida a novela Corpo a Corpo, que abordava a questão do preconceito racial. Entretanto, as telenovelas brasileiras ainda não davam notoriedade ao negro em suas narrativas. Sobre o tema tratado, em 1996 é exibida a novela Sinhá-Moça, um marco na teledramaturgia, pois retratava os heróis negros, suas lutas, seus direitos, as questões dos quilombos e sua importância por meio de discursos do opressor substituído pelas lutas dos oprimidos. Por outro lado, retratava um período onde a identidade do negro é uma roupagem da imagem do branco. Nesse sentido, em 1995, é exibida a novela A Próxima Vítima, cujo enredo retratava os personagens negros em ascensão social (classe média) e, assim, nessa novela os personagens possuíam voz ativa em relação às novelas anteriores. Dois anos depois, é exibida a novela Anjo Mau, abordava a negação da identidade negra de Tereza (Luiza Brunet) e a questão do preconceito social. No mesmo ano, é exibida a novela Por Amor, cujo negro foi representado a partir do preconceito racial e violência física. Por sinal, retratava a discriminação do marido de etnia branca (Paulo Cesar Grande) pela esposa Marcia (Maria Ceiça) em relação a não aceitação de a criança possuir etnia negra, pois aparentemente possui características físicas (cor de pele, olhos, cabelo) do pai.

Um dado curioso, a novela Pagina da Vida, exibida em 2007, a personagem Selma (Elisa Lucinda) de etnia negra, médica era casada com o personagem Lucas (Paulo Cesar Grande) de etnia branca, enfermeiro-chefe, homem mais novo. Por sua vez, Lucas possuía uma filha Gabriela (Carolina Oliveira) de etnia branca que era contra o casamento do pai, pois sua madrasta possuía a pele negra. Desta forma, na vida real esse evento não é algo incomum na sociedade e retrata infelizmente, as marcas do preconceito do passado no presente.

Por sua vez, a novela Cobra & Lagartos, exibida em 2006 abordou a questão do racismo dentro das relações familiares, o personagem Foguinho ‘homem – sanduiche’ (Lazaro Ramos) de etnia negra sofria ofensas racista da sua madrasta e os seus dois irmãos de etnia branca. Este personagem cai no gosto dos telespectadores por apresentar características de malandro, irreverente, meio herói e meio vilão. Por ironia do destino de forma arbitrária muda de vida e, assim, a família que o discriminava e desprezava passa a bajular. Dessa forma, a sociedade o aceita devido à ascensão social.

Em 2009, Tais Araújo deu a vida a sua terceira protagonista, “Helena”, uma modelo de etnia negra de reputação internacional que iniciava um romance com o personagem Marcos, José Mayer de etnia branca na novela Viver a Vida, exibida pela Rede Globo de Televisão, do autor Manoel Carlos, um dos autores mais prestigiados da emissora. Entretanto, nos folhetins da narrativa seu personagem foi declinando, declinando e, enfim, seu personagem perdeu a visibilidade para a modelo Luciana, Aline Moraes, de etnia branca filha de Marcos que no início da trama sofreu um acidente e ficou tetraplégica tirando todo protagonismo de Tais Araújo. Em entrevista para o Programa Saia Justa, exibido na noite de quarta-feira, no canal pago GNT a atriz declara que:

Eu fui achando que seria a chance da minha vida, e não era. “Ou talvez tenha sido, porque mudei muito depois daquilo”, contou. “Aquele texto não me dizia nada, eu me sentia a professora do Snoopy (...)u não fazia bem e não sei se tinha como fazer”, revelou. “Me sentia em uma areia movediça, patinei até o fim.

Conforme o relato, a atriz revelou sua insatisfação com a novela e, principalmente, o desenrolar do seu personagem que se transformou em algo caricato, sem nenhuma expressividade.

Para tanto, a grande mudança da ascensão do negro nas telenovelas brasileiras em especial na Rede Globo de Televisão ocorreu na década de 70. Sobre e tema tratado, Joel Zito Almeida de Araújo afirma que:

Três tendências foram desenvolvidas pela Globo nos anos 70: a adaptação literária dos romances brasileiros clássicos, no qual destacaram as temáticas que enfocaram o pais no período da abolição da escravatura; a inovação do melodrama, com um folhetim modernizado e adaptado a realidade brasileira, enfocando a cotidiano urbano e rural; e a novela comedia, gênero em que Bráulio Pedroso e Silvio de Abreu foram os principais destaques, criando textos cômicos que dialogavam com o cinema americano e com a chanchada. (ARAÚJO, 2000, p.115).

Vale ressaltar que, segundo Araújo, a participação de personagens de etnia negra nas telenovelas brasileira é evidente na década de 90. Assim, a novela tornou-se um produto cotidiano ao telespectador. Uma indústria cultural que ao mesmo tempo mexe com as emoções e, enfim, o imaginário do público. Desse modo, este importante veículo de comunicação influencia a adoção de novos hábitos, crenças, valores e posicionamento. Nesse sentido, as telenovelas dialogam com o telespectador na medida em que proporcionam uma atenção por assuntos que prendem o interesse. Entretanto, as telenovelas ainda são vulneráveis em encarar o racismo do cotidiano nos folhetins. Ainda assim, o anulam numa tentativa por talvez não o admitir na sociedade, e assim, transmite uma falsa imagem de o não racismo ao público. Nessa linha,é exibida a novela Da Cor do Pecado, em 2007, um grande sucesso e reprisada nas tardes do globo nos anos de 2008, 2014 e 2017. A trama abordava a história de amor ente os personagens e protagonista Preta (Tais Araújo), uma jovem negra e pobre e Paco (Reynaldo Gianechini), um jovem branco e milionário. Entretanto, as narrativas vão sofrendo uma inversão de papeis baseada na questão do preconceito racial, ascensão social, relação de amizade do avô Raul (Lima Duarte) de etnia branca e o neto Raí (Sergio Malheiros) de etnia negra e, principalmente, a sensualidade na medida em que aborda o estereotipo da negra sensual e erótica. As novelas,a partir de 2000 até 2010, os negros nas telenovelas ganharam maiores visibilidades e, enfim, mais participações ativas nas narrativas e de certa forma começaram a ganhar espaços nos cenários televisivos. Em 2011, Lazaro Ramos encarou seu primeiro galã negro da televisão brasileira, André Gurgel, na novela Insensato Coração, de autoria de Gilberto Braga. Segundo, Ramos (2017, p.104) aponta que: “Criar um personagem arrogante e desapegado teve um preço, que paguei recebendo ofensas pela internet ou tendo que lidar com suspeita com da minha qualidade como interprete”. Visto desta forma, a notoriedade dos personagens negros enfrenta o problema sério do país: O racismo.

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Neste ponto, o discurso de exclusão dos anos anteriores em retratar os personagens negros como mísera figura começaram a se transformar em um discurso inclusivo e por outro lado, estabeleceu uma mudança de comportamento. Vale ainda ressaltar, que o motivo desta mudança possa ter sido a mobilidade dos personagens negros nas tramas. Um bom exemplo, é o seriado Mister Brau, exibido pela primeira vez em 22.09.2015 sua primeira temporada, na Rede Globo de Televisão e na atualidade encontra-se na terceira temporada.

O seriado surge no momento em que os olhos da mídia brasileira começaram a se interessar na autoafirmação compartilhada do negro nos movimentos das pretas, nos movimentos das marchas das mulheres negras e o movimento das cacheadas, devido à popularização destes movimentos nas mídias sociais e, assim, passaram a ganhar uma expressiva proporção na mídia, permitindo a população de etnia negra, aceitar seus corpos, seus cabelos e, assim, afirmar sua identidade e, de certa forma, possibilitou o reconhecimento de poder da sociedade negra.

Desse modo, lançamos o nosso olhar, numa tentativa de compreender as influências destas representações e representatividades no público, em especial, a população negra.

2. O Seriado Mister Brau

Produzido pela Rede Globo de Televisão, direção geral Flavia Lacerda, Patrícia Pedrosa (roteiro), Ricardo Spencer, no elenco Lazaro Ramos, Tais Araújo, Fernanda de Freitas, George Sauna, Luís Miranda, Daniel Dantas, Claudia Missura, Marcelo Flores e diversos atores convidados. O seriado foi escrito e criado por Jorge Furtado que iniciou a carreira profissional nos anos de 1980, na Televisão Educativa/RS: repórter, apresentador, editor, roteirista e produtor. Em 1990, ingressou como roteirista na Rede Globo de Televisão. Enfim, em seu curriculum, 16 seriados e 30 longas – metragem e vários prêmios, inclusive o grande prêmio ‘Cinema Brasil’, o melhor filme brasileiro de 2003. Em 2005, Jorge Furtado lança o seriado Mister Brau nos estúdios da Globo. Assim, na primeira temporada contou com 14 episódios exibidos semanalmente (terça – feira). Logo, em 2016, a segunda temporada da série constou com três episódios a mais que na primeira temporada.

O enredo aborda as questões sociais e o preconceito racial. Desse modo, a história é ambientada no condomínio de luxo ‘Mountain Hall’, situado na Barra da Tijuca, local onde gira a maioria das cenas do seriado. Uma grande curiosidade é que as cenas gravadas foram na própria casa dos protagonistas: Lazaro Ramos e Tais Araújo. Desta maneira, as narrativas giram em torno do cantor popular Brau (Lazaro Ramos), considerado o popstar do momento e sua mulher, Michele (Tais Araújo). O casal é uma mistura de lúdico, popular e cotidiano sem perder a naturalidade e autenticidade. É um casal de alto e baixo, como qualquer casal da vida real, e por sinal estas características caíram no gosto popular dos telespectadores. Talvez pelo formato do seriado em representar pela primeira vez na televisão aberta uma nova realidade do negro, trazendo-o como centro nas telinhas brasileiras sem perder a essência em retratar o racismo e a crítica social do preconceito e suas marcas na sociedade.

Sendo assim, aproprio-me das narrativas dos episódios das três temporadas (2015, 2016, 2017) na tentativa de decifrar a ausência do estereotipo do negro neste seriado e, enfim, pensar a causa do seriado, ter-se tornado um importante veículo de afirmação da autoestima da população negra, como verá a seguir:

TABELA 1. ELENCO DO SERIADO MISTER BRAU (2015, 2016, 2017).

Programa

Ano

Autores

Elenco

Personagens

Mister Brau

2015

Jorge Furtado

Lazaro Ramos

Mister Baru

Tais Araújo

Michele

Fernanda de Freitas

Andreia de Menezes

2016

George Sauna

Henrique de Menezes

Luís Miranda

Lima

2017

Daniel Dantas

Antônio Carlos

Claudia Missura

Catarina

Marcelo Flores

Marques

Conforme podemos ver na tabela 1, a primeira temporada do seriado Mister Brau foi exibida entre 22.09.2015 – 29.12.2015 e, assim, se propôs a contar os conflitos da realidade do racismo e, assim, no decorrer das narrativas acentua-se pela crítica da ascensão social dos personagens.

2.1 Ascenção social

O seriado revela a nova realidade dos personagens Brau e Michele, depois de Brau lutar bastante, a sorte bate à porta e ele consegue emplacar um hit de sucesso e, então, sua vida muda da noite para o dia. De moradores de Madureira, periferia do Rio de Janeiro, o casal se torna milionários e vão morar na elite carioca.

Brau e Michele mudam para um luxuoso condomínio, situado na Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Ao chegar são recepcionados pelos moradores “novos vizinhos” que não ficam contentes com a presença dos “novos moradores” e, implicam com o estilo de vida do casal, regado a muitas festas e muito barulho. Brau e Michele em posse da sua casa nova, resolvem dar uma festa regada a pagode, bebidas, churrasco e muitos convidados. O episódio começa com a divulgação da impressa em várias revistas da nova rotina de festas dos Brau. A cena inicia com a divulgação em de várias festas cedidas pelo casal Brau na nova casa. Andreia com posse do tablete na sala de sua casa, comenta as supostas festinhas dos seus novos vizinhos.

Andrea (A): Orgia de Mister Brau! Cantor faz farra com garotas em Festinhas intimas!

Catarina (C): Cafajeste! Como ele teve coragem de fazer isso?

Nesse momento Catarina sai da sala e Andreia se levanta e vai de encontro a Catarina

A: Coragem e folego porque pela quantidade de pirigete (...) Ele deve ter distribuído senha.

C: Mas será que isso é verdade mesmo?

A: Claro que é verdade Catarina! As únicas coisas falsas nessa foto são os peitos de silicone! Pelo amor de Deus não tem mais respeito pela casa onde vivem, mas, agora pegaram ele com a boca na botija.

Andreia se movimenta de um lado para outro.

C: Não só na botija! Coitada da dona Michele, pois, agora virou corna de internet.

Catarina arruma as almofadas do sofá... Movimento dos personagens

A: Será que ela já sabe disso?

C: Noticia ruim chega a cavalo!

A: Às vezes chega até mais rápido!

Andreia pega a sua bolsa na mesa de centro e se dirige a porta.... Movimentação de Andreia... Andreia chega a casa de Michele que é recepcionada pela empregada e entra na casa de Michele. (...) Andreia desce a escada de entrada da casa dos Brau.

A: Michele... Michele Querida! Eu vi aqui para te oferecer apoio nesse momento tão difícil!

Michele (M): encontra-se na mesa, tomando café da manhã.

M: Tem pão com leite! Não é um momento tão difícil! Está servida?

A: Aja como se nada tivesse acontecido! Tadinha! Imagino como você está se sentindo...

M: O que você está falando amor?

Andreia exibe o tablete a Michele com a notícia das festas da casa dos Brau. Nesse momento Michele tom a um susto e pega o tablete da mão de

63Andreia e se levanta.

M: O que! Eu não acredito que isso caiu na internet!

A: Não só caiu na internet

Michele fica chateada com a divulgação das festas na internet e no ato de nervosismo pega seu celular e faz uma ligação.

(...) Mister Brau, episodio 02.

Nessa cena, é possível perceber o estereotipo da personagem Andreia, uma típica madame de fina flor: rica, chata e carregada de preconceitos. No momento, em que o casal Brau residem ao lado, Andreia implica com o estilo de vida do casal e, assim, a personagem, acredita que os novos vizinhos não pertencem o lugar, logo que o casal possui um histórico de moradores de subúrbio e são negros e, assim, julga o casal Brau devido a cor da pele.

2.2 Preconceito

No início da trama, Brau e Michele agora bem-sucedidos, mudam para o condomínio de luxo ‘Mountain Hall’, situado no bairro da Barra e, assim, Brau acaba sendo confundido com um manobrista na porta de um restaurante.

Brau sai do restaurante e suas fãs recepcionam o popstar .

Fã (f): Eu sou muito …muito sua fã!

Brau (B): Você tem muito bom gosto? Que nem eles que tem muito bom gosto! Eles são da Chechênia. (Risos).

Brau aponta para o grupo de jovens.

B: Eles estão fazendo um documentário sobre mim.

F: Tira uma self?

B: Claro!

Movimentação odos figurantes...

F: Ih! Você piscou!

B: Você também meu amor!

Nesse momento Brau se dirige para a fachada da saída do restaurante (parte interna). Logo após, chega o motorista falando ao telefone e entrega a sua chave a Brau.

Motorista (MO): Claro que não! Cuidado com esse carro ai!

Brau surpreso, se direciona para a câmera sem entender nada.

B: Ih! O cara pensou que eu era manobrista e me entregou a chave do carro dele (...). Então tah!

Brau vira para seu motorista e pede para ele levar seu carro e se direciona ao carro do motorista que entregou a chave.

(...) Mister Brau, episodio 12.

Nessa cena, Brau é confundindo com manobrista, pelo motivo da cor de sua pele e, assim, é alvo do preconceito.

Nesse contexto, em entrevista no site ‘Tempo’, Jorge Furtado defende que a criação do seriado Mister Brau foi inspirada em:

Soube que o Jorge Bem tinha uma casa num condomínio na Disney e achei engraçado. Fiquei pensando na vida que esses grandes artistas levam e como seria ser vizinho do Jorge Bem, do Tim Maia ou do Raul, meus ídolos.

Assim, para Jorge Furtado, a grande preocupação era que os protagonistas (Tais Araújo e Lazaro Ramos) não fossem protagonistas jecas que conquistaram a fama e a riqueza instantânea. Na verdade, a ficção produz as formas das narrativas da sociedade revelando o cotidiano. Assim, o racismo cotidiano muitas vezes invisível ao olhar do outro apresenta sequelas e marcas nas vítimas e, por outro, descontrói a autoestima. No entanto, esta cena da ficção é um evento frequente na população negra. Quantos negros passam por isso no seu cotidiano? Quantos negros tiveram suas vidas ceifadas seja no caminho do trabalho, casa, faculdade? Uma prova disso é a música ‘Meu nome é Brau’:

Do mundo inteiro eu vim. Eu me encontrei em mim. Sou animado sim. Eu sou assim. Au,au,au. Sou mister Baru. Au, au-au. Meu nome é Brau. Vim do Planeta virtual, eu vim. Eu vim de Tóquio, vim do Senegal. Vim do agreste, do litoral. Sou a geleia transcontinental. Sou uma ilha cercada de mata. Eu sou o semba, o samba e a sonata. Sou cordilheira, cruzei o sertão. Sou curumim, sou guri pancadão. Vim pra mexer. Pra misturar. Pra confundir. Pra levantar. Vim de você. Vim pra você. Eu vim pra ser. um mash-up total.³

Por esse motivo, o seriado possui um importante papel em discutir temáticas sociais das questões raciais e, principalmente, as relações entre brancos e negros. Entretanto, a segunda temporada exibida entre 03/05/2016 – 02/08/2016 gira em torno de programas especiais e musicais fruto da boa audiência e, principalmente, a repercussão do programa. Tais Araújo aponta, numa entrevista sobre o preconceito que:

(...). Acontece até hoje. Quando eu chego a um restaurante no Brasil, as pessoas que são iguais a mim só estão limpando e servindo. É o Brasil me dizendo que meu lugar é servir e limpar, quase falando que não tenho o direito de estar ali comendo. Ser Taís Araújo ameniza, mas não isenta. No nosso país, o preconceito está presente no momento em que saímos de casa.

Nesse sentido, a grande maioria da população de etnia negra não se reconhecia e nem valorizava sua origem devido à própria mídia no geral durante muito tempo estereotipar de forma negativa os personagens negros nas novelas, seriados, e meios jornalísticos levando-o para o "desejo de branqueamento", e, enfim, padronizava ao telespectador a influência da estética branca herdada desde o colonialismo e que vigora até os dias de hoje. Assim, o seriado Mister Brau veio de oposição do sistema da estética branca. Em busca disso, a segunda temporada investe na música e no Empoderamento feminino.

Figura 1. Michele decide ir trabalhar. Foto: Galeria globo/ TV Globo.

Desse modo, na segunda temporada uma cena em que o tema tratado: quando a personagem Michele decide ir trabalhar e, assim, construir a carreira internacional. Assim, a personagem deixa de ser antagonista do marido, ou seja, viver à sombra de Brau e passa se tornar protagonista da sua própria história como demostra à figura 1.

Sobre o empoderamento em entrevista ao Ego, Tal Araújo afirma que:

Sempre foi uma história mal contada, acho que a gente agora já entendeu que o objetivo das pessoas era quase a extinção de um povo, era não dar poder a esse povo. O que a gente está tentando fazer é reverter essa situação. Falar: 'Ô, calma, a gente está aqui, a gente existe e merece respeito, amor, compaixão. Já fomos muito maltratados pelo mundo até, então e estamos aqui para reverter essa situação. E mais do que isso, a gente não está aqui para lutar contra, queremos lutar com vocês por um mundo melhor para todos nós, inclusive para vocês, que sempre foram beneficiados'. Nosso objetivo maior é sensibilizar o outro e mostrar como nossa história foi mal contada, como nosso povo sofreu até então, como a gente tem uma história linda na construção desse país. O objetivo é sensibilizar todas as pessoas. “Vivemos em sociedade, em elo, um é fundamental para a existência do outro”,

Para Tais Araújo, o seriado Mister Brau é um importante veículo para que os telespectadores reflitam sobre a história do negro.Assim, na terceira temporada, o seriado investe na questão social, com histórias sérias sem perder o ar da comedia. Em parte, o foco principal é a família:

Brau (Lázaro Ramos) e Michele (Taís Araújo) adotam as três crianças que apareceram no último episódio da segunda temporada: Carlito (Sérgio Rufino), Egídio (Leonardo Lima) e Lia (Brunna Oliveira). A rotina do casal vai virar de pernas para o ar com a chegada das crianças. Entre os obstáculos enfrentados pelos cinco está um mundo cheio de preconceitos.

Figura 2. O casal Brau adotam Carlito, Egídio e Lia. Foto: João Miguel Junior/Rede Globo/Divulgação

2.3 Mulheres Unidas

Figura 3. Mulheres Unidas. Foto: João Miguel Junior/Rede Globo/Divulgação

Outro episódio de grande repercussão foi “mulheres unidas jamais serão vencidas “ que contou com a participação especial de Elza Soares. A trama se inicia com uma grande confusão com a frase “Atrás de um grande homem, há sempre uma grande mulher”, conforme a figura 3, faz parte de uma campanha publicitária exibida no programa. Assim, inicia uma discursão na equipe de trabalho, pois Andreia discorda da decisão de Michele por motivos burocráticos.

Apos o show de Elza Soares no programa de auditório, o casal Brau se levanta para agradecer a presença especial da convidada.

Michele (M): Maravilhosa!

Brau e Michele carinhosamente beijam Elza Soares

(Comercial)

Fala do Anunciante (FA): Com o oferecimento do Sabão Brasil, atrás de homem tem sempre uma grande mulher.

Brau e Michele ficam se entreolham.

Elza Sores (ES): O que?

Michele sai do palco muito indignada com o acontecido e se direciona com o acontecido e se direciona a Andreia.

M: Absurdo! Eu não aprovei o texto deste anúncio!

Michele da as costas para Brau e Andreia e mexe no celular.

Andreia (A): Desculpa Michele, mas, está no contrato! Francis tem todo o direito de aprovar o texto.

M: Pois, não devia estar!

Michele volta a usar o celular.

Brau (B): Mas você está linda na foto .... Oh! Cheirosa!

M: Você acha que eu prestei atenção na foto?

M: Atrás de um grande homem há uma grande mulher

Michele fica visivelmente chateada e se vira para Brau e Andreia.

A: Pois é verdade!

M: Atrás ... O certo não seria ao lado ... Andreia?

Michele dá as costas novamente.

B: Você tem toda razão! Sério! Mesmo porque não gosto de ninguém atrás de mim! Eu fico agoniado. Tenho trauma da época da escola da escola atrás da fila.

Brau começa a debochar e Michele se vira novamente.

M: Se fosse ao lado de um grande homem há uma grande mulher.... Tudo bem! Liga para Francis e diga que esta campanha está fora do ar hoje!

B: Pera Cheirosa! Ele patrocina o programa! Sem o patrocínio o programa acaba!

M: Tudo bem! Que acabe o programa!

Novamente Michele da as costas.

Andreia mexe no celular numa tentativa de ligar para Francis e comunica que Francis não atende o celular e vai mandar o e-mail.

M: Então escreva nesse e-mail que o programa dele está fora do ar.

A: Ok! O programa é seu!

Andreia fica furiosa e se vira para Brau que finge está falando com o diretor e se retira, deixando Andreia sozinha.

(...) Mister Brau, episodio 08.

Nessa cena, de modo particular, o evento da ficção é muito comum na realidade, pois muitas mulheres são vítimas constantes de condutas machistas seja no ambiente doméstico, no ambiente profissional, no ambiente acadêmico por meios de palavras ou ações de baixos escalões do sexo masculino. Nesse sentido, o seriado Mister Brau por entrelinhas quebra todas as amalhas de um passado marcado pela desconstrução que a mulher sofreu no passado.

Noúltimo capítulo da terceira temporada, o foco principal é ascensão de Michele na novela Amor & Êxtase e, enfim, o sucesso do seu personagem nas telinhas leva Brau a uma crise de ciúme e inveja do sucesso da mulher.

Em contrapondo, é exibido em 2014, o Seriado Sexo e as Negras, produzido pela Rede Globo de Televisão, autoria Miguel Fabella. O seriado, retratou a história do dia a dia, das quatro protagonistas negras: Karin Hils, Corina Sabbas, Lilian Valeska e Maria Bia, na cidade Alta de Cordovil, Rio de Janeiro. A série, revelava os dilemas pessoais e profissionais das protagonistas que enfrentavam diferentes situações de machismo e racismo Entretanto, antes da estreia, o seriado vinha sofrendo questionamentos da secretária de Políticas para Mulheres Negras, críticas e, alguns boicotes em especial, boa parte dos movimentos das mulheres negras e movimentos negros que apontavam que o seriado induzia a figura das protagonistas ao sexíssimo e aumentava o racismo, proliferando a imagem negativa da mulher negra, ‘o racismo reverso’. Os estereótipos das protagonistas no seriado, representavam a mulher extremamente sexualizada “erotismo”. Uma mulher sedutora e figura fácil de satisfazer os desejos masculinos, mas, incapaz de possuir relacionamento sério.

Em oposição, o seriado Mister Brau, traz o negro como referência positiva e o coloca como protagonista de sua história, de sua identidade e trajetória. De modo particular, o seriado permite uma reflexão aos telespectadores em especial, o público negro a se reconhecer, se enxergar e, enfim, auto afirmar.

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir do desenvolvimento do estudo, conclui-se que o seriado Mister Brau é uma mistura de humor, denúncia e reflexão do cotidiano. Assim, mantem o caráter reflexivo e afetivo das representações dos personagens negros, sem a posição de sujeição presentes na maioria das telenovelas brasileiras, nos cinemas e outros seriados. Por esse motivo, seu formato centra na amizade e convivência familiar. Além disso, permite o novo olhar do negro por meio de narrativas que lançam ao telespectador o confronto da ficção com a realidade.

Além destas relações, a figura de Brau e Michele ficam distantes de cair no formato de personagens caricato e, enfim, foge da imagem de caras e bocas. Do ponto de vista desta perspectiva, o seriado caiu nas graças do público em retratar a vida como ela é sem nenhum maniqueísmo ou submeter à conotação ou apelo sexual como recurso para conquistar audiência e, assim, vem de oposição a outros formatos da televisão brasileira.

Durante o estudo, foi possível observar que o seriado confronta a teoria de Araújo que os telespectadores rejeitam atores negros em papeis de destaque.

Prova disso, é a empatia do público com o seriado que segundo o site da Rede Globo, rederam uma ótima audiência e o mesmo, será alongado na quarta temporada em 2018, mas, é necessário um cuidado especial nos espaços conquistados pelos negros na telinha para que não vire uma modinha, pois existe todo o discurso que não há racismo no Brasil e, obviamente, a mídia em geral, influencia o telespectador a pensar neste sentido. “O discurso que lhe convém”.É comum a maioria dos meios de comunicações, em especial a televisão na atualidade, propagarem negativamente diversos estereótipos da figura do negro na sociedade. Ora, colocando-os como profissionais domésticos, criminosos, ignorantes, retratando a ideia de serviços braçais ou por outro lado reforça que o negro é o culpado pelo sistema e, assim, excluem todas as condições de oportunidades. Ramos (2017), ao falar sobre os espaços dos atores na televisão afirma que:

Para um ator negro, não basta fazer bem seu trabalho. Ainda temos que lutar contra várias coisas. Tenho que brigar para conseguir mais e mais personagens que estejam fora da rubrica ”personagem para ator negro” que os autores geralmente fazem. (Ramos, 2017, p. 89).

Nesta perspectiva, é preciso muita luta e trabalho de conscientização dos espaços do negro nos meios midiáticos e, especial à televisão para que não gerem um terreno de disputa com diversas interpretações. Ao analisar a trajetória do negro nas telenovelas, podemos perceber que os personagens negros na televisão cumpriram pequenas ou poucas escalações em novelas, seriados e, assim era raro os espaços no cenário televisivo e, principalmente, nos cenários jornalísticos e, assim, a televisão determinava o significado social e, consequentemente, os telespectadores interpretavam a ideologia do sistema de branqueamento. Vale ressaltar que a grande mudança da mídia televisiva consistiu no momento em que os meios midiáticos começaram a levar em conta a notoriedade do negro.

Através do seriado Mister Brau, podemos perceber que os personagens Michele e Brau contribuíram para autoafirmação da representação dos elementos identitários, pois hoje em dia, podemos perceber que a população negra esta assumido sua origem, seus traços físicos, posicionamentos e pensamentos.

O que permite concluir que, o seriado Mister Brau permitiu o contato face a face com a população de etnia negra, pois explora o negro sem forçar a barra ou espetacularizar os personagens protagonistas. Além disso, o seriado criou uma relação de comunicação com o público-alvo: o negro.

Para tanto, o seriado é um leque inicial para que a população negra se auto afirme enquanto indivíduo e enquanto sociedade e, assim, conscientize sua auto percepção de sua etnia. Bem-dito isto, sua consciência crítica do processo de ressignificação.

4. REFERÊNCIAS

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Disponível em: <http://odia.ig.com.br/diversao/televisao/2017-04-18/terceira-temporada-de-mister-brau-aborda-temas-como-racismo-e-bullying.html>. Acesso em: 27 jun. 2017.

Disponível em: http://ego.globo.com/famosos/noticia/2016/11/tais-araujo-e-lazaro-ramos-falam-de-empoderamento-e-igualdade-racial.html. Acesso em: 27 jun. 2017.

FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Rio de Janeiro: Fator, 1983.

FERREIRA, Ricardo Franklin, Afro – descendente: Identidade em Construção. Rio de Janeiro. Palas. São Paulo: EDUC, 2000.

FREIRE, Gilberto. Casa Grande & Senzala. Rio de Janeiro. José Olympio: 1954.

GOMES, Nilma Lino. Corpo e cabelo como ícone de construção e reconstrução da beleza e da identidade negra nos salões étnicos de Belo Horizonte. São Paulo: USP, 2002. (Tese: doutorado).

_________________. Alguns termos e conceitos presentes no debate sobre relações raciais no Brasil: Uma breve discussão: In: Educação antirracista: caminhos abertos pela lei federal nº 10.639/03. Brasília: Ministério da Educação/ Secretária de Educação continuada. Alfabetização e Diversidade, 2005.

HALL, Stuart. Quem Precisa da Identidade? In: Identidade e diferença. 4 ed. Petrópolis: Vozes, 2005, p.103 – 133.

LAHNI, Claúdia Regina. Rev. Cient. Cent. Univ. Barra Mansa - UBM, Barra Mansa, v. 9, n. 17, Julho, 2007.

1 Ator, apresentador, cineasta e escritor de literatura infantil brasileiro. Uns dos grandes nomes no combate


Publicado por: Raphaella Reis

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