As Helenas de Manoel Carlos: uma leitura sobre o personagem de Taís Araújo

Arte e cultura

O racismo estrutural presente nas obras do autor de novelas Manoel Carlos, baseando-se na telenovela Viver A Vida (2009).

índice

1. RESUMO

O presente trabalho aborda e reflete sobre o racismo estrutural presente nas obras do autor de novelas Manoel Carlos, baseando-se na telenovela Viver A Vida (2009) que teve a atriz Taís Araújo como a primeira protagonista negra a interpretar um papel dessa magnitude na faixa do horário nobre da Rede Globo. Teremos como principal base a cena do capítulo 55, quando Helena, uma mulher negra, ajoelhada, leva um tapa no rosto de Tereza (Lília Cabral), uma mulher branca, em plena semana do Dia da Consciência Negra, indicando a naturalização do racismo estrutural que sempre esteve presente no Brasil e como esse panorama repercutiu no país, trazendo às pessoas a necessidade de mudança e do fim do preconceito racial na televisão.

Palavras-chave: telenovela, racismo, Viver A Vida, protagonista negra.

ABSTRACT

The following work addresses and reflects the structural racism present in the works of the novelist author Manoel Carlos, based on the soap opera Viver A Vida (2009) which had the actress Taís Araújo as the first black protagonist to interpret a role of this magnitude in the band the prime time of Rede Globo. We will have as main basis the scene of chapter 55, when Helena, a black woman, kneeling, is slapped in the face of Tereza (Lília Cabral), a white woman, in the middle of Dia da Consciência Negra, indicating the naturalization of scructural racism that always was present in Brazil and how this panorama had repercussions in the country, bringing to people the need for change and an end to racial prejudice on TV.

Keywords: soap opera, racism, Viver A Vida, black protagonist.

2. INTRODUÇÃO

A televisão é um meio de comunicação imprescindível à vida do brasileiro. E nosso principal produto audiovisual é a telenovela. Segundo estudos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) em 2009, cerca de 80 milhões de brasileiros assistiram regularmente a novelas veiculadas em horário nobre no país. Há quem aposte no “fim da televisão” diante das tecnologias móveis e redes sociais. Os dados, no entanto, contrariam estes prognósticos, já que em 2012, ano em que a telenovela Avenida Brasil1 tornou-se um fenômeno de sucesso, esse índice era de 40%. Desse modo, em apenas cinco anos, o consumo de televisão cresceu 7%. Segundo o Kantar Ibope de 2017, a média de televisores ligados entre às 7h e a 00h era de 47% (Kantar Ibope, 2017).

A Rede Globo domina a produção nacional de teledramaturgia e exporta seus produtos para diversos países, logo os impactos de suas obras não são importantes somente para investigar a cultura nacional, mas também sua reverberação no mundo. Apesar de veicular seu conteúdo para 98% do território nacional, a maior parte dos enredos de suas novelas se concentram nas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo. Há ainda uma particularidade, as telenovelas da Rede Globo obedecem, em geral, a um modelo de família muito específico: pequena, atraente, branca, saudável, urbana, de classe média alta e consumista.

O alcance e a natureza do conteúdo potencializam o papel da teledramaturgia na formação do imaginário social brasileiro. Além da consolidação simbólica de uma percepção sobre nossos valores, nossos laços sociais e nossas instituições, as nossas telenovelas são profundamente atravessadas pelo racismo estrutural de nossa sociedade. Por isso, o tema deste trabalho ultrapassa a discussão sobre estes produtos audiovisuais em si. Buscamos entender o impacto social de uma protagonista negra, refletindo sobre suas reverberações na carreira da atriz Taís Araújo que interpretou a Helena, da novela Viver A Vida (2009). Uma personagem da série de famosas Helenas presentes na maioria das obras do autor Manoel Carlos.

A participação da atriz nesta novela em específico é apontada como um ponto de inflexão em sua trajetória profissional e pode também ser considerada como um episódio central para a discussão sobre o racismo estrutural presente na teledramaturgia brasileira. O documentário A Negação do Brasil (2000), de Joel Zito Araújo2, fruto de sua tese de doutorado homônima é fundamental para o desenvolvimento de nossa pesquisa. A partir dele, reconhecemos como premissa o fato de que a teledramaturgia brasileira desde o seu nascedouro reserva papéis secundários para personagens negros e que isto é reflexo e alimenta o racismo estrutural da nossa sociedade.

Araújo (2000) elenca alguns estereótipos dos personagens pretos. As mulheres de cor preta concentram os papéis das empregadas domésticas, que em geral são construídas como “criadas cômicas e alcoviteiras”, por vezes, “mentirosas e maliciosas”. Para elas, Araújo também aponta o estereótipo da “mommy”, a figura da mãe preta: mulheres gordas, maternais, “dominadoras e orgulhosas”. Já os estereótipos dos homens negros, por sua vez, seriam representados pelos jagunços, guarda-costas e capatazes.

A obra de Joel Zito Araújo traz depoimentos importantes que questionam o racismo estrutural de produções clássicas, cujas escolhas racistas são sempre justificadas por critérios técnicos. Como no caso da novela Gabriela (1975), que Sônia Braga foi escalada para o papel principal que na literatura de Jorge Amado é de uma mulher negra. O diretor da obra, Walter Avancini, justifica a escolha em um critério supostamente técnico “era preciso escolher alguém que sabia que tinha talento”. Como se não houvesse talento e competência para o papel entre as atrizes negras sondadas, optou-se então por uma atriz branca para representar a personagem. Mais recentemente o mesmo aconteceu na novela Segundo Sol (João Emanuel Carneiro, Rede Globo, 2018), dirigida por Denis de Carvalho, cujo enredo se passava na Bahia, estado com o maior número de habitantes de pele preta do país. Todos os protagonistas eram brancos e o vilão, um homem negro. O caso foi alvo de ação no Ministério Público que obrigou a incorporação de personagens pretos na trama3.

Desde o início da produção de telenovelas é notável o racismo estrutural. Negros e negras são hostilizados e rebaixados a papéis sem grande relevância, como empregados dos patrões brancos ou representando exclusivamente pessoas escravizadas. Nesse sentido, buscamos investigar a trajetória da atriz Taís Araújo e o impacto da clássica protagonista da de Manoel Carlos. Com 25 anos de carreira, a atriz viveu grandes papéis na teledramaturgia brasileira, incluindo o de protagonista em Tocaia Grande, de Duca Rachid, dando vida ao personagem Bernarda, na extinta Rede Manchete, em 1995. E uma das novelas de maior sucesso também da mesma emissora, no ano de 1997, ocasião em que viveu Xica da Silva, de Walcyr Carrasco. Mais tarde, em 2004, já na Rede Globo, atuou como Preta, na novela Da Cor do Pecado, de João Emanuel Carneiro, primeira personagem negra a ter status de protagonista e que alcançou bastante êxito. Após alguns personagens secundários, mas de grande relevância ao seu currículo, interpretou uma das Helenas de Manoel Carlos. Tratava-se da primeira atriz negra a ser protagonista de uma novela do horário nobre.

A personagem de Taís Araújo, no entanto, não teve a repercussão esperada. No decorrer de toda a trama, Helena não viveu nenhum grande conflito, marca registrada nas novelas de Manoel Carlos. A modelo que tinha a vida ganha e estava muito bem financeiramente, passou a ocupar papel secundário no enredo, uma vez que um dos únicos enfrentamentos que viveu ofuscou ainda mais seu protagonismo: o acidente de Luciana, personagem de Alinne Moraes, que a deixou tetraplégica. A personagem que teoricamente seria a protagonista perdeu espaço e passou a ressentir-se pela culpa desse acidente durante toda a novela.

Neste trabalho, abordaremos a interface entre o racismo estrutural e a teledramaturgia brasileira, analisando esta personagem de Taís Araújo em Viver A Vida, abordando os pontos necessários para reconhecer o motivo da rejeição da profissional no mais importante horário da TV brasileira. Buscamos refletir sobre o que a atriz sofreu para dar continuidade a uma protagonista frágil e cujo processo de atuação teve reverberações em sua saúde mental e sua trajetória profissional, conforme afirmou em entrevista à Marie Claire, em julho de 2017. Portanto, nosso objetivo geral é analisar o racismo estrutural refletindo sobre o personagem Helena na novela Viver A Vida, de Manoel Carlos (2009). Traçamos como objetivos específicos: 1) Analisar e levantar os personagens negros vividos por atores e atrizes nas telenovelas de Manoel Carlos focando nas que possuem o personagem Helena como protagonista; 2) Identificar como a personagem Helena, interpretada por Taís Araújo foi construída ao longo da novela Viver A vida; 3) comparar as personagens Helenas nas telenovelas de Manoel Carlos; 4) Identificar se há racismo presente na obra da teledramaturgia brasileira estudada.

Discutir a questão racial dentro e fora das novelas, com atores e personagens, é de extrema importância para que consigamos transformar em representatividade a luta do povo preto desse país. Colocar um fim no estereótipo de que determinado papel só serve para aquele ator é necessário que se faça luta e que nos sintamos representados por aqueles que estão na TV para nos entreter. Segundo Joel Zito Araújo (2006, p.75), “a branquitude persiste como padrão estético no audiovisual brasileiro, uma vez que “a proximidade do debate racial na mídia audiovisual com o debate na educação é, portanto, histórica. E o debate público hoje, em ambos os campos, continua baseado em pressupostos, ideias e fundamentos semelhantes.”

Mas afinal, o que é o racismo? O Racismo é o preconceito e a discriminação baseados em percepções sociais focadas em diferenças biológicas entre a população. Por diversas vezes se forma de ações práticas e de crenças sociais, ou ainda em sistemas políticos que consideram que as diferenças entre as raças devem ser classificadas em superiores ou inferiores, se baseando em qualidades comuns oriundas, em características e em habilidades.

A ausência de representatividade do povo preto na teledramaturgia brasileira me fez perceber que abordar esse tema me fará crescer como um futuro bacharel em Comunicação Social - Audiovisual e me ajudará como aluno negro a fazer a diferença não só na universidade, mas como futuro profissional. Denunciar o racismo presente na teledramaturgia é essencial. Transformar o sonho de uma obra ir ao ar através das mãos de um preto me faz buscar e lutar para poder ser referência para aqueles que virão depois de mim. Como preto, pobre e periférico, anseio mostrar aos meus iguais que eles também podem ter seus sonhos realizados. Diante disso, temos um grande inimigo: o racismo estrutural, que é a formalização de um conjunto de práticas institucionais, históricas, de cultura e interpessoais dentro de um grupo étnico-social que frequentemente coloca outro em uma posição melhor para alcançar êxito, prejudicando outros grupos constantemente, causando disparidades que se desenvolvem entre os demais grupos ao longo de um determinado tempo. De maneira serena e diversas vezes imperceptível, essa forma de preconceito racial tende a ser a mais perigosa por ser de difícil percepção. Trata-se de um conjunto de hábitos e de situações que já estão enraizadas no nosso cotidiano e que proporcionam, direta ou indiretamente, a segregação necessária para a manutenção das desigualdades e do genocídio da população negra. Desse modo, nós, pretos, já nascemos e crescemos com a concepção de que não podemos ir muito longe, porque sempre haverá alguém que já é privilegiado que ocuparão esses espaços e para alcançarmos a igualdade teremos que lutar muito.

Os negros sempre foram obrigados a ocupar diversos lugares que são pouco prestigiados para sobreviver: o trabalho com muita força braçal e baixa remuneração, abrangendo a situação de subsistência, a marginalização recorrente nos meios populacionais das grandes cidades e por último e não menos importante, a autoexclusão, que é quando percebemos que o negro tem a sensação de pertencer a lugar nenhum. No entanto, entendemos que apesar do racismo enraizado na nossa sociedade, um outro fator torna-se importante a ser abordado: o colorismo, que sempre foi uma realidade no Brasil. O termo colorismo foi usado pela primeira vez pela escritora Alice Walker no ensaio “If the Present Looks Like the Past, What Does the Future Look Like?”, que foi publicado no livro “In Search of Our Mothers’ Garden”, em 1982. Esse termo, que também pode ser reconhecido como pigmentocracia é muito comum em países que sofreram colonização europeia e em países pós-escravocratas, como o Brasil. De um modo mais simples, quer dizer que, quanto mais pigmentada uma pessoa, mais exclusão e discriminação essa pessoa irá sofrer. Como exemplo já citado, falamos de Sônia Braga, em Gabriela (1975), que foi escolhida para o papel, por ser mais “aceita” aos olhos do público, mesmo não sendo negra, como descrevia Jorge Amado em sua obra. Diante disso, ficou claro que ainda que uma pessoa seja reconhecida como negra, o tom da sua pele será decisivo para o tratamento que a comunidade dará a ela. Apesar do colorismo nos restringir a ser aceitos em determinados lugares, cabe a nós nos unirmos e lutarmos para nosso crescimento como pessoas e profissionais.

Além do racismo que já sofremos com papéis invisíveis nas obras da teledramaturgia brasileira, é necessário falar da interseccionalidade, que é algo como uma categoria teórica que foca em diversos sistemas de opressão, dentre os quais, destacamos raça, gênero e classe. Nesse sentido, a interseccionalidade nos dá maior compreensão que nos aproxima das desigualdades raciais existentes, que todo preto sofre todos os dias através de uma hierarquia. Enquanto nós, homens pretos causamos certo tipo de desconforto, como alguém que esconde ou segura sua mochila com força quando passamos, ou alguém atravessa a rua por pensar que será assaltada, a interseccionalidade mostra como mulheres negras são discriminadas e estão, por muitas vezes, vulneráveis aos maiores graus de racismo e opressão dessa sociedade racista. A Interseccionalidade é, portanto, “abordagem que afirma que os sistemas de raça, classe social, gênero, sexualidade, etnia, nação e idade são características mutuamente construtivas de organização social que moldam as experiências das mulheres negras e, por sua vez, são formadas por elas” (COLLINS, 2019, p. 460). Desse modo, Sueli Carneiro, feminista negra e de grande relevância no âmbito do combate ao racismo, diz que a luta dos movimentos das mulheres deve estar ligada não só à reivindicação contra as desigualdades de gênero através da história, mas também pela luta de superação de ideias complementares desse sistema que sempre foi opressor, como o racismo. Partindo dos eixos da subordinação, a intercecionalidade aponta o que há de pior na sociedade, oprimindo mulheres negras e hiperssexualizando seus corpos, colocando-as em situação de humilhações e por muitas vezes a fazendo não pertencer ao seu próprio mundo.

Para a realização deste trabalho, pesquisaremos a opinião pública da época da novela Viver A Vida (2009), o que a mídia dizia a respeito da Helena de Taís Araújo, da perspectiva que havia sobre a atriz e a decepção que a personagem causou, detectando um grande impacto negativo aos olhos do público. Abordaremos os relatos da atriz e do autor em 2009, ano de exibição do folhetim. Com a contribuição do portal Memória Globo, onde encontra-se o maior acervo de vídeos, fotos e textos sobre tudo o que já foi produzido pela Globo em entretenimento, além do documentário A Negação do Brasil (Araújo, 2000), os artigos A força de um desejo – a persistência da branquitude como padrão estético audiovisual (Araújo, 2006) e O negro na telenovela, um caso exemplar da decadência do mito da democracia racial brasileira (Araújo, 2008), o livro No País do Racismo Institucional: Dez anos de ações do GT Racismo no MPPE (Ministério Público de Pernambuco, 2013), e em colunas especializadas em televisão da Folha de São Paulo, do Estadão e do portal Uol, que abordaram a telenovela durante o tempo em que esteve no ar até os dias atuais. Além disso, faremos um comparativo entre as famílias de Helena e Luciana, identificando o racismo da trama a partir da caracterização das personagens, pois enquanto essa vive em uma grande casa típica de moradores de classe média alta, com roupas sofisticadas e empregados, aquela vive de forma mais simplória e sem nenhum tipo de elegância, o que atribui aos telespectadores que a família negra sempre seja pobre. Diante disso, é necessário identificar em quais pontos o racismo aparece não só na obra estudada, mas nas demais, afinal, Manoel Carlos possui diversas obras no decorrer da sua carreira, no entanto, focaremos nas tramas em que ele tinha como suas protagonistas Helena, que vai de 1981 com Baila Comigo até 2014, com Em Família, todas da Rede Globo, apontando os artistas negros e seus papéis, comparando as Helenas e identificando os pontos onde a protagonista de Taís Araújo perdeu seu heroísmo. Todas as pesquisas foram realizadas por meio de internet, com visita a sites e blogs que trataram do assunto referente a Viver A Vida na época.

O principal fator que contribuirá para a realização dessa pesquisa é o capítulo 55 da novela Viver A Vida: a cena que dura pouco mais de dez minutos, em que Helena ajoelha-se diante de Tereza (interpretada pela atriz branca Lília Cabral), lhe pede perdão e após dez segundos, essa lhe dá uma bofetada no rosto. Essa cena foi ao ar no dia 16 de novembro de 2009, na semana do Dia Nacional da Consciência Negra, celebrada em 20 de novembro. Observa-se que para viver uma Helena de Manoel Carlos, além de haver uma grande personalidade vinda do próprio personagem, é necessário que se hajam conflitos em que o público passe a torcer pelo êxito do que busca o protagonista da trama. No caso da Helena de Taís Araújo, o que a perseguia era o fato de ter realizado um aborto - o que já não agrada aos olhos de telespectadores mais conservadores - para poder garantir o que seria o sucesso da sua carreira como modelo e carregar a culpa por ter deixado Luciana (Alinne Moraes) tetraplégica. Tais fatos contribuíram para o fracasso do personagem principal, que poderia ter sido aproveitado de maneira muito mais positiva e eficaz, já que o tema central da telenovela era superação, abordando incluindo temas como o racismo e as poucas oportunidades que as pessoas negras têm em todos os âmbitos dessa sociedade retrógrada e racista.

Para isso, no capítulo 1, denominado “De zelador a músico: um panorama de personagens negros vividos nas tramas de Manoel Carlos”, falaremos sobre a realidade do que é ser um ator e atriz negro nas telenovelas do referido autor baseando-se em Viver A Vida (2009), e como é difícil até hoje ganhar papéis de destaque nas tramas do país. No capítulo 2, chamado “Entre a realidade e a ficção: a Helena negra”, abordaremos qual telenovela antecedeu Viver A Vida, fazendo um comparativo ao produto analisado neste trabalho, além de abordar o enredo da trama, núcleos e trilha sonora e principalmente analisar a cena do capítulo 55, quando Helena, uma mulher negra, leva um tapa na cara de Tereza, que é branca, em plena semana do Dia da Consciência Negra, e falar como a Helena de Taís Araújo sofreu com o racismo estrutural que é muito presente no país. Por fim, no capítulo 3, chamado “A rejeição a Helena de Taís Araújo”, diremos como a personagem de Taís Araújo viveu tamanha negação a sua Helena, seu impacto e o que os veículos de comunicação falaram na época em que a telenovela era exibida.

3. DE ZELADOR A MÚSICO: UM PANORAMA DE PERSONAGENS NEGROS VIVIDOS NAS TRAMAS DE MANOEL CARLOS

A televisão e especificamente, as telenovelas deram poucas oportunidades às pessoas negras, a não ser em papéis de empregados, motoristas e em geral de pouca relevância nas tramas. Mesmo denunciados diversas vezes, pouco se viu mudar até os dias atuais. São poucos os núcleos de pessoas com bom poder aquisitivo formados por famílias negras nas telenovelas brasileiras. Os Noronha, em A Próxima Vítima (Silvio de Abreu, 1995, Rede Globo), se destacam. A família composta por Zezé Motta, Camila Pitanga, Antônio Pitanga, Norton Nascimento e Lui Mendes agradou ao público da época e revelou um grande fato: apesar do povo preto estar em maior número nas periferias, essas mesmas pessoas podem viver igualmente em bairros de classe média, o que ocasionou à época a sensação de vivermos em uma democracia racial, como afirmado abaixo:

Mesmo estando sob a batuta daqueles que marcaram profundamente a vida cultural contemporânea, como Gilberto Freyre, para os modernistas e os romancistas que surgiram do ciclo da literatura chamada regionalista, como Jorge Amado, a afirmação da miscigenação esteve sempre associada à ideia de que nesta terra se criava uma nação com uma nova raça, os brasileiros, frutos de um hibridismo em que prevaleceria a homogeneidade racial e cultural, que deixaria para trás, de forma completamente superada, a divisão racial de nossa formação. Nasce, nesse contexto, o conhecido mito da democracia racial brasileira. (ARAÚJO, 2006, p. 76)

Outros atores viraram destaque por terem se tornado ricos, como Lázaro Ramos e Taís Araújo na telenovela Cobras e Lagartos (João Emanuel Carneiro, 2007, Rede Globo) que viveram Foguinho e Helen, respectivamente. A partir desse fato, ambos passaram a ser vistos de outra forma e ganharam o carinho do público, não pelo fato de terem dinheiro, mas sim por fazerem parte do núcleo cômico da telenovela, arrematando-os como os “bobos da corte”.

Esses fatos nos fazem perceber o quão pouco foi feito para que o povo preto ganhasse destaque aos olhos do público e parassem de serem vistos como menores, inferiores e de pouco talento. O racismo e a aceitação das pessoas são processos que precisam parar e começar a ser reparado, caso contrário, eles sempre andarão perpetuando dentro das produções da teledramaturgia brasileira e farão sempre com que esses artistas se contentem sempre com o que lhes é oferecido, como abordado a seguir:

No cinema e na telenovela, o melhor lugar reservado para o mestiço, celebrado na literatura ou nos discursos como representante do verdadeiro brasileiro, é a representação do “povão”. Os atores marcadamente mestiços, independente da fusão racial a que pertencem, se trazem em seus corpos e em suas faces uma maior quantidade de traços não-brancos, são sempre vítimas de estereótipos negativos. (ARAÚJO, 2006, p. 77)

Como Joel Zito Araújo afirma em A Negação do Brasil (2000), é possível identificar que os mesmos preconceitos existentes no século XIX, referindo-se a telenovela A Escrava Isaura, podiam ainda ser observados nos anos 1970, década em que a trama de Gilberto Braga foi exibida. Na trama, que se tornou símbolo da teledramaturgia brasileira, a aceitação do público era, segundo o autor, muito maior pela mocinha branca vivida pela protagonista Lucélia Santos, atriz principiante, do que pelos atores e atrizes pretos. Como exemplo, Araújo (2000) destaca o contraste entre a aceitação da protagonista que interpretou uma mulher escravizada, mas de pele clara, e a personagem também escravizada de pele negra chamada Rosa, vivida por Léa Garcia, cuja morte foi amplamente comemorada por telespectadores.

Diversos fatores contribuem para o racismo estrutural, que se faz presente nas tramas brasileiras até hoje, e isso fica mais evidente quando observamos a trajetória dos personagens negros criados por um único autor. Neste capítulo, buscamos destrinchar as obras de Manoel Carlos, autor da obra que analisamos mais profundamente nesta monografia.

Inicialmente, apresentamos um levantamento dos personagens interpretados por atores e atrizes pretos em novelas de sua autoria. Buscamos elencar os personagens por novela e o perfil de cada um, observando especialmente suas profissões e posicionamentos no enredo. Tal levantamento foi fundamental para que constatássemos que os artistas negros ocupam em absoluta maioria papéis secundários, conforme demonstramos na tabela 1, a seguir:

TABELA 1 – PERSONAGENS VIVIDOS POR ATORES/ATRIZES NEGROS NAS TELENOVELAS DE MANOEL CARLOS NAS OBRAS EM QUE HÁ HELENA COMO PROTAGONISTA

ANO

NOME DA NOVELA

NOME DO PERSONAGEM

NOME DO ATOR/ATRIZ

DESCRIÇÃO

1981

Baila Comigo

Otto Rodrigues

Milton Gonçalves

Artesão

Conceição

Maria Alves

Empregada de Helena

Felipe

Paulo Bacelar

Colega de Lúcia

1991

 

Felicidade

 

Delegado Noronha

Benvindo Siqueira

Participação especial na novela Felicidade

Batista

Milton Gonçalves

Zelador em Copacabana, Zona Sul do Rio de Janeiro.

Tuquinha

Maria Ceiça

Mulata belíssima.

Aristides

Maurício Gonçalves

Ciumento, violento e apaixonado por Tuquinha.

Maria

Maria Alves

Ex-mulher de Batista e mãe de Tuquinha e Betsy. É animada, alegre e vive com Tuquinha

1995

História de Amor

Kátia

Joyce Ribeiro

Empregada na casa de Olga

Nazaré

Maria Alves

Empregada na casa de Olga

Ernani

Jorge Coutinho

Motorista na casa de Olga

1997

 

Por Amor

 

Márcia Maria de Jesus

Maria Ceiça

Artista plástica, negra, bonita e lutadora

Maria de Jesus

Maria Alves

Forte, objetiva e que sabe o que quer e o que é bom para os seus

Jorge de Jesus

Jorge Coutinho

Pacato, tolerante, avesso a brigas

Narciso

José Chaguinha

Zelador do prédio

Chica

Chica Xavier

Participação especial na novela Por Amor

2000

 

Laços de Família

 

Zilda

Thalma de Freitas

Criada de Helena desde a infância

Tide

Samuel Melo

Filho de Laerte

Laerte

Luciano Quirino

Médico da clínica Naturallis

Aline

Ana Carbatti

Médica e amiga de Edu

Rita

Juliana Paes

Empregada de Alma

2003

 

Mulheres Apaixonadas

 

Sônia Fernandes

Priscila Dias

Empregada de Helena

Jeremias

Wilson Cardoso

Motorista de Lorena

Maria

Idelcéia Santos

Empregada de Helena

Luciana Ribeiro

Camila Pitanga

Médica

Pérola

Elisa Lucinda

Cantora

Ataulfo Rodrigues

Laércio de Freitas

Músico

Jairo Rodrigues

Diego Jack

Estudante

Ivan

José Chaguinha

Jardineiro

Shirley Maria

Renata Pitanga

Empregada de Afrânio

Zilda

Roberta Rodrigues

Trabalha na casa de Irena

2006

 

Páginas da Vida

 

Lidia Alves

Thalita Carauta

Empregada doméstica de Helena

Selma Araújo

Elisa Lucinda

Médica

Gabriela Azevedo

Carolina Oliveira

Menina inteligente e viva

Salvador Fortunato

Jorge de Sá

Filho de uma ex-empregada de Helena, “adotado” como filho após a morte da mesma

Washington Silva

Marcos Enrique

Amigo de Tide

2009

 

 

 

Viver A Vida

 

Helena

Taís Araújo

Modelo

Edite

Lica Oliveira

Mãe de Helena, proprietária de uma pousada

Oswaldo

Laércio de Freitas

Pai de Helena e pianista

Sandra

Aparecida Petrowky

Irmã de Helena

Paulo

Michel Gomes

Irmão de Helena

Ronaldo

César Melo

Namorado de Edite, administra a pousada

Benê

Marcelo Mello Júnior

Mal caráter com passagens pela polícia

Nice

Roberta Almeida

Trabalha na casa de Tereza

Cida

Thaíssa Carvalho

Empregada na casa de Gustavo

Mário

Paulo Lessa

Médico

André

Antônio Firmino

Ex-namorado de Helena

2014

 

Em Família

 

Gorete

Carol Macedo

Empregada na casa de Juliana

Jairo

Marcello Melo Junior

Namorado de Gorete

Dulce

Lica Oliveira

Professora

Rosa

Tânia Toko

Empregada na casa de Chica

Ceiça

Ju Colombo

Empregada na casa de Selma

Ivi

Carla Cristina Cardoso

Empregada de Shirley

Matias

Jorge de Sá

Estudante de música

Neidinha

Jessica Barbosa/Elina de Souza

Enfermeira

Alice

Erika Januza

Filha de Neidinha

Sandra

Roberta Almeida

Estudante de psicologia

Theo

Rafael Zulu

Enfermeiro

Fonte: Elaboração própria a partir de dados do Portal Memória Globo.


A realização dessa pesquisa foi separada por ano, nome da novela, nome do personagem, nome do ator/atriz e a descrição do personagem para que fosse notável que esses artistas em sua maioria trabalharam como empregados nas tramas do autor. Nesse caso, percebe-se que os personagens que não eram domésticos, tinham um grande destaque, ou já trabalhavam com a profissão descrita na vida real.

Na tabela 1, há um total de 58 personagens negros, dos quais vinte e cinco são homens e trinta e três são mulheres, com destaque para os atores José Chaguinha, Jorge Coutinho, Laércio de Freitas, Jorge de Sá, Marcello Melo Junior, Maria Alves, Maria Ceiça, Maurício Gonçalves e Elisa Lucinda, que interpretaram mais de um personagem nas telenovelas de Manoel Carlos em tramas distintas. Vale ressaltar que o personagem Neidinha em Em Família (2014), foi interpretada pelas atrizes Jessica Barbosa e Elina de Sousa, na primeira e segunda fase da novela, respectivamente. Dentre todos, existem dezesseis empregadas/criadas, dois zeladores, dois motoristas, dois músicos, uma artista plástica, cinco médicos, uma cantora, dois enfermeiros, uma professora, quatro estudantes, dois proprietários de pousada, uma modelo, um médico, um artesão e um jardineiro. Os demais personagens não têm uma profissão descrita no Portal Memória Globo4. Exceto os intérpretes de papéis de destaque, como modelo e médico, poucas pessoas conseguiram ter um desfecho e lugar nas tramas.

No que se diz respeito as características desses personagens nas telenovelas de Manoel Carlos e o que fez com que adentrassem à tabela, foi necessário recorrer ao colorismo, como já foi abordado. Como exemplo, citamos as atrizes Thalita Carauta e Juliana Paes, que ambas não possuem a tonalidade de suas peles escuras, mas têm características natas e oriundas de pessoas negras, como cabelos crespos, narizes e bocas grandes.

Algumas dificuldades foram encontradas no decorrer da pesquisa, pois nas novelas Baila Comigo (1981) e Felicidade (1991) pouco pôde-se observar os personagens negros que participaram das tramas por serem tramas antigas e com pouco conteúdo de imagens atual, tendo em vista que alguns artistas participaram apenas de um ou de outro folhetim, sem nenhum tipo de conflito para que se pudesse haver algum destaque. Esse fato também ocorreu nas novelas seguintes, mas em menor quantidade, pois a medida em que os anos foram passando, ficaram mais fáceis a busca por imagens desses atores. Apesar do pouco destaque que tiveram na trama de Manoel Carlos, os atores negros especificamente em Viver A Vida não foram em sua maioria pobres ou estiveram em papéis de subserviência. Dos onze personagens descritos no portal Memória Globo, dois são empregados domésticos: Nice (Roberta Almeida) e Cida (Thaíssa Carvalho). Além de Helena, que era modelo, haviam sua mãe Edite (Lica Oliveira) e seu namorado, Ronaldo (César Melo), ambos administradores de uma pousada, o pai de Helena, Oswaldo (Laércio de Freitas), que era músico, Paulo (Michel Gomes) e Sandra (Aparecida Petrowky), estudantes e irmãos da protagonista, Mário (Paulo Lessa), médico, André (Antônio Firmino), modelo e ex-namorado de Helena e Benê (Marcello Melo Junior), dito no Memória Globo como mal caráter, com passagens pela polícia.

Outro ponto crucial desta pesquisa, e que é de extrema importância citar, é que na telenovela História de Amor (Rede Globo, 1995), não há um ator negro, sequer, em algum núcleo algum da trama, a não ser o dos empregados da casa de Olga, que são Kátia (Joyce Ribeiro), Nazaré (Maria Alves) e Ernani (Jorge Coutinho). A primeira sofre fortes repressões da patroa branca, que a trata diversas vezes muito mal, chegando afirmar em uma fala que se a empregada voltasse se meter na conversa alheia, iria levar tiros de canhão. Esse tipo de comportamento e diálogos que sempre alimentaram o racismo estrutural que é fortemente presente nas obras brasileiras.

Para enfatizar o racismo estrutural presente nas obras de Manoel Carlos, faz-se necessário um levantamento das suas protagonistas, levando-se em consideração que só Taís Araújo teve seu papel rejeitado pela audiência, realizar um comparativo dessas personagens e atrizes para trazer à realidade do real motivo da negativa sobre a Helena negra. Para isso, criamos a tabela 2, abaixo:

TABELA 2 – LEVANTAMENTO DAS CARACTERÍSTICAS DAS HELENAS DE MANOEL CARLOS

ATRIZ

ANO

PADRÃO ESTÉTICO

PROFISSÃO

TELENOVELA

Lilian Lemertz

1981

Branca de 50 anos de idade (em média)

Dona de casa

Baila Comigo

Maitê Proença

1991

Branca, loira e de olhos verdes de aparência jovial com 30 anos (em média)

Vendedora

Felicidade

Regina Duarte

1995

Branca com 40 anos de idade (em média)

Dona de casa

História de Amor

Regina Duarte

1997

Branca com 45 anos de idade (em média)

Empresária

Por Amor

Vera Fischer

2000

Branca, loira e de olhos azuis com 50 anos de idade (em média)

Empresária

Laços de Família

Christiane Torloni

2003

Branca com 50 anos de idade (em média)

Diretora de escola

Mulheres Apaixonadas

Regina Duarte

2006

Branca com 60 anos de idade (em média)

Médica

Páginas da Vida

Taís Araújo

2009

Negra com 30 anos de idade

Modelo

Viver A Vida

Júlia Lemertz

2014

Branca com 50 anos de idade (em média)

Leiloeira

Em Família

Fonte: elaboração própria a partir do portal Memória Globo.


Com base na tabela 2 acima, identificamos aspectos relevantes e de importância que nos fazem identificar o racismo presente nas obras de Manoel Carlos e a não aceitação da Helena de Taís Araújo por parte do público. O quadro foi elaborado separado por atriz, ano, padrão estético, profissão e telenovela. Das sete atrizes que interpretaram a Helena do novelista, cinco apresentavam ter em média cinquenta anos de idade, já eram mulheres com família formada, filhos e uma profissão de anos. São elas: Lilian Lemertz, Regina Duarte, Vera Fischer, Christiane Torloni e Júlia Lemertz. Entretanto, Maitê Proença, que deu vida a sua Helena em 1991, com Felicidade, tinha uma aparência jovial, dentro de uma faixa etária de trinta anos, tal qual a personagem de Taís Araújo, mas só aquela foi aceita pelos telespectadores. Segundo o portal Memória Globo, a descrição da Helena de 1991 diz: “Bela mulher, aparentemente dócil e bastante voluntariosa, perseguindo seus objetivos com determinação.”, descrição que poderia caber certamente na Helena de 2009, que diz: “Filha de Edite (Lica Ribeiro) e Oswaldo (Laércio de Freitas), irmã de Sandra (Aparecida Petrowki) e (Michel Gomes). Top model de renome internacional. Está no auge da carreira, aos quase 30 anos.”, nos fazendo crer que em um espaço de treze anos, as pessoas esqueceram como era uma Helena mais jovial, mesmo que ambas tenham ido ao ar em horários diferentes de exibição. Apesar desse fato, nada poderia justificar a rejeição da Helena de Taís Araújo em Viver A Vida, senão o racismo estrutural da nossa sociedade, que já havia se acostumado a protagonistas com uma idade mais avançada, mães de família e brancas, fazendo com que tal rejeição afetasse a vida da atriz de maneira que foi necessário que ela passasse determinado tempo fora da televisão.

Como Joel Zito Araújo afirma em A Negação do Brasil, personagens negros não têm destaque na teledramaturgia brasileira, e pouco mudou desde o lançamento do documentário até os dias atuais, como por exemplo nas obras de Manoel Carlos, onde fica explícito que esse discurso não só se repete, mas permanece até sua última telenovela. Infelizmente não é um caso isolado, outras obras agem da mesma maneira, e exibem diariamente o lugar do negro na televisão brasileira, seja em novelas, filmes, séries e minisséries.

Apesar da luta cotidiana para alcançar o mesmo parâmetro de pessoas brancas, o negro na TV e, principalmente, nas telenovelas é marginalizado e rebaixado. Como José Zito Araújo defende em A Negação do Brasil, mesmo com namoros e casamentos interraciais sendo exibidos na televisão, enfatizamos a cena de A Gordinha, de 1970 de Sérgio Jockyman, da extinta TV Tupi, quando Joana apresenta seu namorado à sua mãe Mônica, dizendo que não falou antes do seu relacionamento por medo da desaprovação da mãe por ela ser branca e ele, preto. Mônica diz não se importar e faz gosto do relacionamento da filha. Joel Zito Araújo ainda afirma que “diferente do que via no cinema, as relações afetivas dos negros para com os brancos sempre foram de amor, dedicação e submissão”, porém nada parecia ter mudado e pouco havia, ou falava-se sobre as relações de pessoas pretas.

Poucos autores procuravam representar a ascensão dos pretos desde a década de 1970, e Janete Clair foi uma das pioneiras a dar vida ao personagem de Milton Gonçalves, o médico psiquiatra Percival Garcia em Pecado Capital, de 1975/76, da TV Globo. É digno de nota que desde essa época os pretos sentiam-se pouco representados pelas obras que eram exibidas. Como antigamente, hoje pouco conseguiu-se enxergar a necessidade de acabar com o racismo não só na vida real, mas demonstrar nessas obras que é importante que os pretos alcancem não só papéis de destaque, mas que os atores sem reconhecidos como os demais profissionais dessa área do audiovisual que é tão importante na vida do brasileiro. Garantir um núcleo que se permita haver a igualdade do povo preto, que já não se vê em papéis rasos e de escravidão, é fundamental. Na próxima seção, apresentamos os apontamentos do levantamento bibliográfico desenvolvido sobre o tema.

3.1. A REALIDADE DE ATORES E ATRIZES BRASILEIROS: UMA PESQUISA QUE APONTA POUCO PROTAGONISMO NEGRO NAS TELENOVELAS BASEADA EM VIVER A VIDA (2009)

Identificamos dezesseis artigos dentre os quais em sua maioria abordam o racismo e a falta do protagonismo negro nas telenovelas. As pesquisas apontam dados desde 1984 até 2019, um fator importante, levando em consideração que Viver A Vida estreou em 14 de setembro de 2009. Dos dezesseis trabalhos pesquisados: nove (GRIJÓ E SOUZA, 2012; CAMPOS E JÚNIOR, 2016; ECHEVARIA E SILVA, 2016; TOURINHO, 2017; CARLOS, HENNIG E SOUZA, 2013; NUNES, ARAÚJO, SEREJO, VIEIRA, CURTIM E SENA, 2019; SANTOS E LOPES, 2010; RODRIGUES, 2016; OLIVEIRA, 2016;) apontaram a ausência ou pouco protagonismo negro nas telenovelas nacionais, além de denunciar o racismo presente nas telenovelas brasileiras, com foco em diversas abordagens em Viver a Vida e na cena 55, em que Helena (Taís Araújo) leva um tapa na cara de Tereza (Lília Cabral); quatro artigos apontam sobre a vida de cadeirantes dentro e fora do âmbito da telenovela, tendo a personagem Luciana (Alinne Moraes) como foco (GREGOLIM, 2010; AYRES, RIAL, E NUEMBERG, 2013; FERNANDES, 2011; FLAVORANTE, 2011); um que aborda a moda dentro do folhetim (CUNHA, 2009); um sobre o fato do ator José Mayer ser considerado um galã (NETO E JAKUBASZKO, 2017) e um que trata das relações interraciais nas tramas brasileiras (GRIJÓ, 2016). Nesta seção, buscamos discutir as contribuições de cada um dos artigos elencados de forma a apresentar o repertório que norteia a nossa investigação.

Em “A representação do negro na TV: O negro na telenovela brasileira: a atualidade das representações” (GRIJÓ e SOUSA, 2012) os autores focam na representação do negro em 53 telenovelas entre 2000 e 2010, o pouco avanço que se obteve com o passar do tempo nas novelas da TV Globo exibidas nos três horários: 18h, 19h e 21h. Das 53 telenovelas pesquisadas na década de 2000, apenas três tiveram como protagonista uma personagem afrodescendente: Preta (Taís Araújo), em Da Cor do Pecado e Helena, em Viver a Vida e Rose (Camila Pitanga), em Cama de Gato. (GRIJÓ; SOUSA, 2012, p. 192).

Observa-se que o artigo traz à tona Viver a Vida e aborda o fato de se ter a primeira Helena negra numa trama de Manoel Carlos e o que tiraria o brilho da protagonista da atriz Taís Araújo. Conforme observamos no texto citado:

Em Viver a Vida, por exemplo, a TV Globo trouxe duas novidades para a questão da participação do negro nas produções televisivas: a primeira Helena negra escrita pelo autor Manoel Carlos e a primeira protagonista negra de uma novela das 21 horas, carro-chefe da programação. A Helena negra (Taís Araújo) era uma modelo renomada no mercado de trabalho, com grande atuação e fraternidade com seus familiares e amigos, assim como era alvo de inveja no meio profissional, inclusive da personagem Luciana (Alinne Moraes) que se tornaria tetraplégica e ganharia maior destaque ao longo da trama (GRIJÓ; SOUSA, 2012, p. 196).

O texto é enfático e aponta as duas problemáticas da trama: a protagonista negra como pioneira nas telenovelas brasileiras na faixa do horário nobre e o fato desse mesmo personagem perder seu brilho por causa de um destaque maior dado a outro. O segundo artigo chama-se “Globo, a gente se vê por aqui?” Diversidade racial nas telenovelas das últimas três décadas (1985 – 2014), (CAMPOS; JUNIOR, 2016), que resume em um dossiê um grande levantamento de 156 novelas no período de 1985 a 2014, abordando que apesar de no decorrer dos anos haver um aumento do protagonismo negro, esse número ainda é insuficiente para o momento em que vivemos e que não cabe mais em um mundo tão moderno a ausência de pessoas negras nas tramas do Brasil.

Para Campos e Júnior (2016, p. 41) as 156 telenovelas brasileiras que foram lançadas entre 1985 e 2014 possuem, em média, 91,2% dos seus personagens centrais representados por atores e atrizes brancos. Tendo em vista que 47,9% da população brasileira se reconheceu como tal no último censo de 2010, há uma substantiva sub-representação desse grupo nas telenovelas. Esse fato mostra que mesmo com o passar dos anos, a população negra desse país pouco se sente representada.

Ao avaliarmos os artigos por outros ângulos e abrangendo o conhecimento dentro da novela Viver a Vida, pudemos observar que em “A moda na mídia: a telenovela como expoente uma análise de “‘Viver a Vida’” (CUNHA, 2009), aponta a novela como geradora de consumo a produtos de moda, focando no folhetim como tema e abordando as características principais da protagonista e da novela, usando como conceito os figurinos dos personagens, expondo como as vestimentas dessas pessoas podem influir no cotidiano dos telespectadores que acompanharam a novela. O autor ainda afirma a importância de Taís Araújo como protagonista. Segundo Cunha (2009, p. 43) “uma grande marca da caracterização da personagem é o cabelo ondulado volumoso, criando uma imagem forte ligada à beleza da mulher negra. Taís Araújo é a primeira protagonista negra de uma telenovela do horário nobre, e o cabelo coloca isso ainda mais em evidência.”

Além de abordar os mais variados figurinos da novela e do foco no tema moda, afinal, a protagonista é uma top-model, o autor fala de como uma nova Helena fez toda diferença durante a exibição da novela. Taís Araújo é protagonista da trama, trazendo como diferencial ser mais jovem dos que as “Helenas” habituais de Manoel Carlos. Saída de origem humilde obteve êxito em uma carreira de projeção e passou a ajudar a família (CUNHA, 2009, p. 44).

Transitar entre coadjuvante à protagonista sendo negro dentro das telenovelas brasileiras ainda causa um impacto muito grande em uma sociedade que ainda não se vê representada por essa parcela de telespectadores, e é isso que o artigo “De coadjuvantes a protagonistas: a Representação da População Negra na Teledramaturgia Nacional” (ECHEVARIA; SILVA, 2012) trata. O estudo aponta uma pesquisa das novelas de 1960 a 2009 e apesar dos avanços para a representação da população negra na teledramaturgia, que passou de papéis rasos ao de protagonista, o número ainda é pequeno:

o preconceito racial também foi retratado em outras novelas dos anos 90 como Anjo Mau e Por amor, ambas de 1997. Ainda nessa década, aconteceram algumas mudanças nas telenovelas favoráveis aos atores negros. A atriz Taís Araújo foi a primeira protagonista negra de uma telenovela brasileira, em Xica da Silva. A beleza da mulher negra passou a ser reconhecida e valorizada na ficção, a exemplo de Camila Pitanga e Taís Araújo (ECHEVARIA; SILVA, 2012, p. 7).

Os autores abordam o pequeno avanço sobre o protagonismo negro ainda nos anos 1990 e demais trabalhos realizados por Taís Araújo, tratando de maneira concisa Viver a Vida, focando em Helena como a primeira personagem negra numa trama de Manoel Carlos. No entanto, o maior destaque do artigo é a cena do capítulo 55 que já citamos fazendo um breve resumo do que a crítica apontou na época, destacado a seguir:

Uma cena que recebeu muitos comentários desfavoráveis foi a cena em que Helena pede perdão de joelhos à mãe de sua enteada pelo acidente de carro sofrido pela mesma. A mãe, indignada pela situação da filha e culpando Helena pelo incidente, desfere uma bofetada no rosto da protagonista, que exatamente como em novelas do passado, reagiu de forma submissa e não esboçou nenhuma defesa. Críticos e telespectadores consideram que a personagem Helena de Viver a vida não teve brilho e apenas reforçou estereótipos relacionados a personagens negros em telenovelas (ECHEVARRIA; SILVA, 2012, p. 7).

Na época em que a novela Viver a Vida estava no ar, em 2009, o grande avanço da internet nas telenovelas brasileiras estava cada vez mais presente e o folhetim de Manoel Carlos foi imprescindível na interação entre o público, que já acessava bastante a rede mundial de computadores e a telenovela, juntamente aos telespectadores. Com isso, o artigo “Viver a Vida no liminar da tela: a narrativa transmídia chega a novela” (GREGOLIN, 2012), apontou a narrativa de introdução da transmídia dentro da novela e como esse tema dominou a trama durante sua exibição, que promoveu uma novela relação entre a audiência e a telenovela.

Na trama, após sofrer um acidente e ficar tetraplégica, Luciana (Alinne Moraes) cria um blog e interage com outras pessoas, incluindo pessoas reais, que passaram pelo mesmo problema que o dela. O blog Sonhos de Luciana foi anunciado pela primeira vez no episódio de 26 de janeiro de 2009, por sua irmã, a personagem Mia (interpretada por Paloma Bernardi), que a incentivou a contar suas experiências durante a recuperação do acidente, para que outras pessoas pudessem se inspirar naquela demonstração de superação. (GREGOLIN, 2012, p. 58).

Manoel Carlos compreendeu a necessidade da interação com o público diante do crescimento de um público que já possuía acesso à internet e a telenovela ajudou muitas pessoas naquele momento, interligando a relação ficção/realidade, conforme destacamos trecho abaixo. Alinne Moraes passou a criar parcerias com ONG’s de inclusão a pessoas com deficiência à sociedade:

Essa mistura entre real e ficção foi um ponto forte na trama de Manoel Carlos. O autor utilizou procedimentos inovadores para produzir essa interrelação. Por exemplo, a certa altura da trama, em parceria com uma ONG (Organização Não-Governamental) carioca, a atriz Alinne Moraes acompanhou um projeto social de inclusão de deficientes, registrando o evento em fotos e colhendo depoimentos. Isso ocorreu na vida real com pessoas reais (GREGOLIN, 2012, p. 59).

Algo que chamou sempre a atenção aos telespectadores das telenovelas do Brasil são os galãs. Sempre houve um modelo específico que muda apenas de ator, no entanto isso vem mudando aos poucos mesmo as características básicas que compõem um sendo o homem viril, bonito, másculo e coberto de machismo e ainda assim, aceito em todas as obras que são exibidas em todas as emissoras e com José Mayer, que interpretou Marcos em Viver a Vida não é diferente, como é dito em “A ficção televisiva e o galã de novela em zona de fronteira entre o machismo e o feminismo: um estudo de caso do galã José Mayer” (NETO; JAKUBASZKO, 2017).

Para Neto e Jakubaszko (2017, p. 125), “José Mayer é um dos galãs mais reconhecidos da TV brasileira. Até hoje participou de 24 novelas, 4 minisséries e uma série. Protagonista na maioria delas, já contracenou com as mais belas e expressivas atrizes do casting da Rede Globo, sendo sempre considerado conquistador.”.

Ao abordar sua participação em Viver a Vida, os autores são sucintos e precisos ao descrever o personagem de Zé Mayer:

Em Viver a vida, Zé Mayer é Marcos. A paixão entre ele e Helena acontece à primeira vista, logo nos primeiros capítulos acontece o casamento e a lua de mel em Paris. Ele já pensa em ter filhos com a nova esposa, apesar da diferença de idade, mas o par amoroso de Helena não será Marcos, e sim Bruno (Thiago Lacerda). Por que Marcos e Helena não podem ter um final feliz? O que os impede? Seus obstáculos não parecem ser a diferença da idade, a raça ou a classe social. É a convivência que não dá certo, a relação conflituosa da filha e da ex-mulher com Helena e, sobretudo, o machismo de Marcos (NETO; JAKUBASZKO, 2017, p. 127).

Os personagens de Manoel Carlos costumam ser reconhecidos pela determinação e força, principalmente se forem protagonistas como Helena, no entanto, isso não acontece com a Helena de Taís Araújo. O artigo “As Helenas de Manoel Carlos” (TOURINHO, 2017) discorre sobre esta discrepância e mostra o perfil das protagonistas, correlacionando as personagens com a realidade do cotidiano brasileiro. Expõe-se principalmente a maneira em que os negros são representados nas tramas e o impacto do personagem de Taís Araújo. Para Tourinho (2017, p. 39), o autor estudado “apesar de gostar de apresentar o cotidiano carioca, já foi muito criticado pela ausência de personagens negros. Até mesmo quando optou por uma atriz protagonista negra, Taís Araújo, em Viver a Vida (2009), não tematizou a questão racial, a despeito da cor de Taís”.

Ao abordar sobre Taís Araújo, é digno de nota que o artigo indica que apesar da felicidade da atriz ao ganhar um papel muito importante para sua carreira, ela não se manteve alegre com o que o personagem passava e a carga emocional que enfrentava. Com isso, a atriz seguiu com o personagem até o final mesmo com as dificuldades encontradas no decorrer da trama, que foi 8ª Helena de Manoel Carlos “e também a primeira protagonista negra em uma novela das 21h. Contudo, se é esperado que, quando uma atriz é chamada para interpretar Helena de Manoel Carlos, ela se sinta realizada, não foi o que aconteceu a todo o momento com Taís” (TOURINHO, 2017, p. 39).

Maior que uma situação em que um artista não se sente bem fazendo o que ama, é um artigo que tem como tema justamente a cena que mais causou a indignação do movimento negro: Helena leva um tapa de Tereza, como em “Para além da imaginação: nação, raça e gênero e a Helena de Viver a Vida” (CARLOS; HENNIG; SOUSA, 2013):

O trabalho propõe debates em que acarretem em ideias de nação, gênero e raça. Inicialmente, nosso interesse por essa conexão entre campos partiu de uma polêmica (e simbolicamente forte) cena de novela em que ocorre a agressão de uma mulher negra – a protagonista “Helena” – por uma mulher branca, cena essa veiculada pela Rede Globo de televisão na noite de 16 de novembro de 2009, em plena Semana da Consciência Negra. Como se verá no transcorrer do ensaio, a cena presente na novela “Viver a Vida” criada pelo popular autor Manoel Carlos causou revolta em alguns setores do movimento negro (CARLOS; HENNIG; SOUSA, 2013, p. 13).

Os autores descrevem a cena do referido dia quando Tereza, personagem de Lilia Cabral vai à casa de Helena para de certa forma vingar-se do malfeito que Helena fez à sua filha, Luciana. Carlos, Hennig e Sousa apontam o diálogo de pouco mais de dez minutos, o motivo que levou Tereza à casa de Helena e onde ocorreu o desentendimento entre Helena e Luciana, como observamos no texto abaixo:

A cena da bofetada é marcada por um longo e tenso diálogo de aproximadamente dez minutos. Tereza vai à casa de Helena e Marcos para tomar satisfações da protagonista a respeito do grave acidente de sua filha preferida, Luciana, interpretada por Alinne Moraes. As duas, Helena e Luciana, viajaram juntas para um evento de moda na cidade de Petra, na Jordânia, onde ambas desfilariam para uma grife: a primeira na condição de modelo que chegou ao auge da carreira e se despedia; a segunda como uma jovem modelo, iniciando a sua carreira (CARLOS; HENNIG; SOUSA, 2013, p. 81).

Na época da exibição, a própria Taís Araújo era criticada por sua atuação na telenovela, visto que a audiência de Viver A Vida estava baixa e a Helena não ganhou o carinho do público. Para Carlos; Hennig e Sousa, (2013, p. 88), o capítulo 55, entretanto, não foi o único foco de descontentamento em relação à novela Viver A Vida. Desde o começo esta foi alvo frequente de reclamações e de baixo índice de audiência. Meios “oficiais” de imprensa e espaços de mídia alternativa têm responsabilizado a atriz Taís Araújo pelo fracasso da novela. De acordo com esses meios, a atriz não conseguiu incorporar a Helena do novelista Manoel Carlos. Os comentários dirigidos à atriz extrapolam a sua capacidade de atuação, beirando à infâmia social. Para os autores, as críticas eram muito abrangentes e questionavam desde a aparência, a dicção e verossimilhança e a moral da personagem.

Em “18 anos de história: a falsa democracia racial e a presença do negro como protagonistas nas telenovelas das 8 e 9 da Rede Globo de 2000 a 2018” (NUNES, et al., 2019), observamos que a leitura aborda a falsa sensação de ascensão da democracia racial no que se refere aos protagonistas negros das novelas da Rede Globo, nos horários da 8h e 9h, entre 2000 e 2018, através da análise de conteúdo, destacando que nesse período houve apenas três protagonistas negros nas tramas e o que impacta essa informação à sociedade atual que tanto busca por igualdade racial.

Um dos maiores embates dentro do artigo é a afirmação correta sobre a Helena de Viver A Vida ser diferente das demais já mostradas por Manoel Carlos. Nota-se uma Helena, que claramente veríamos em outras obras, que lutaria até atingir seu êxito profissional, o que não vimos no caso da personagem de Taís Araújo, que já começou a telenovela com sucesso na carreira, mas que não se diferencia tanto assim das anteriores, apesar de ser negra, já que era a primeira atriz a viver um papel dessa magnitude e seu personagem não teve nenhum conflito referente à sua cor. Como podemos ver no trecho abaixo:

Na novela “Viver a Vida”, a personagem Helena é a primeira negra escolhida pelo escritor Manoel Carlos dentre tantas Helenas brancas. Ao analisar seu papel, conhecemos alguém que tem um alto padrão de vida, diferente das outras Helenas trazidas pelo escritor que eram sofridas e batalhadoras, dos poucos traços que podem ser identificados como elementos que valorizaram a etnia negra é o fato dela ter tido seu cabelo crespo mantido. Porém a novela não trouxe debates raciais em seu roteiro além de não dar o destaque merecido pela personagem, que perdeu espaço para a Luciana, coadjuvante. Apesar da ascensão social, o que percebemos, quando analisamos a protagonista de Viver a vida, é uma negra de alma branca (NUNES, et al., p. 11).

Mais uma vez, o artigo refere-se a cena de Helena ajoelhada pedindo perdão a Tereza pelo acidente ocorrido a sua filha, em que aquela tem para si o sentimento de culpa por ter deixado a enteada e colega de profissão tetraplégica. Para os autores, “Em uma cena da novela, fica claro a demonstração da relação de superioridade do branco em relação ao negro, comum na época colonial. A sequência mostra Helena, de joelhos, pedindo perdão por todas as acusações feitas por Tereza (Lilia Cabral), a qual devolve-lhe o pedido com um tapa no rosto.” (p. 11).

Ao falarmos mais uma vez do personagem de Alinne Moraes, Luciana, que ao decorrer da telenovela Viver A Vida teve uma mudança drástica na sua vida, devido a um acidente que a deixou tetraplégica, viu-se a necessidade de abordar um assunto que poucas vezes foram tratadas na teledramaturgia brasileira: como ser uma mulher que tornou-se deficiente e como viver com isso na sua vida?

O artigo “A mocinha em cadeira de rodas: mulher, corpo, sexualidade deficiência: um olhar sobre a trajetória da personagem Luciana na telenovela Viver a Vida” (AYRES; RIAL; NUEMBERG, 2013), que aborda a trajetória de Luciana como protagonista, deixando Helena em segundo plano, focando nas dificuldades de ser uma mulher cadeirante perante a sociedade, acentuando-a como “nova mocinha”, uma referência dupla a “substituição” de Helena por Lucina na preferência do público e o fato de ser uma mocinha que é portadora de uma deficiência física. Os autores mostram como Manoel Carlos centraliza sua protagonista e como ele gosta de exibir a mulher como personagem central de suas tramas, além de trazer problemas reais do cotidiano dos brasileiros aos telespectadores. Para Ayres; Rial e Nuemberg (2013, p. 2), “As telenovelas de Manoel Carlos se caracterizam, por incluir temáticas reais e atuais, com uma visão diferenciada sobre a mulher: ela sempre aparece como o centro das ações, ela é a que desafia, que luta, que gera mudanças”.

O texto mostra toda a trajetória de Luciana e sobre a aceitação da sua nova realidade, como teve que lidar com a perspectiva de uma pessoa cadeirante, as dificuldades, os enfrentamentos, preconceitos e demais atividades do cotidiano, aprendendo inclusive, que pode fazer determinadas atividades que qualquer pessoa pode fazer, apesar das suas novas limitações, como citado abaixo:

Entre o momento do acidente e a efetiva aceitação da nova condição transcorre um longo tempo, que na trama corresponde a mais de sete meses. Nesse período Luciana se enfrenta as novas características de seu corpo, luta por um novo amor, redescobre sua sexualidade, se casa, e deseja ter filhos, etc. No último capítulo da novela, Luciana dá a luz a gêmeos e decide voltar a trabalhar como modelo. Na última cena de Viver a Vida Luciana desfila junto a Helena e outras modelos. Ela aparece linda desfilando em sua cadeira de rodas sob o olhar de seu marido, seus pais e irmãs sentados na plateia. Não há diálogos, as imagens estão acompanhadas pela música do desfile (AYRES; RIAL; NUEMBERG, 2013, p. 10).

Ainda falando sobre Luciana, temos o artigo “O Blog de Luciana: convergências midiáticas promovidas pela telenovela “Viver a Vida”” (FERNANDES, 2011), que aponta a nova forma do telespectador e comunicar na telenovela através do blogOs Sonhos de Luciana”, que após o acidente, torna-se cadeirante e através da interação com o público na internet, promove-se um grande apoio aos cadeirantes do país. Tal fato instigou aos novos telespectadores, já que a novela amargava baixos índices de audiência e ajudou na vida de pessoas que também têm deficiência física.

Para Fernandes (2011, p. 5) “o que chama a atenção para o blog da personagem de Viver A Vida é o grande volume de “posts” e as centenas de comentários recebidos diariamente. O blogSonhos de Luciana” também foi muito divulgado na própria trama de Manoel Carlos. Tudo começou quando Luciana (Alinne Moraes) ficou tetraplégica após um acidente de ônibus na cidade de Petra (Jordânia), local em que estava trabalhando como modelo internacional ao lado de Helena. De volta para o Brasil, Luciana teve pequenas melhoras físicas, mas não estava contente com sua futura condição de cadeirante.

A importância da interação entre público e a telenovela ajudou muitos telespectadores que tiveram seus sonhos ceifados pelo que lhes aconteceu. O foco da trama é a superação e nisso, Manoel Carlos agiu com bastante delicadeza ao abordar toda a situação durante a exibição do folhetim. “Luciana era uma modelo em crescente ascensão. Grande aposta do produtor Osmar (Marcelo Valle). Após sua condição tetraplégica ela pensa em parar com a carreira. A primeira iniciativa da volta, parte da ideia de Miguel e Tereza em produzir um book no estúdio de Ingrid. Luciana posta fotos desse book no blog. Osmar vê as fotos e a chama para fazer campanhas. No final da trama, ao lado de Helena, Luciana também volta para as passarelas” (FERNANDES, 2011. p. 12).

Além disso, outro texto que remete ao mesmo assunto foi de extrema importância ao retratar a situação de cadeirantes no que se refere a Viver a Vida, “O Merchandising na telenovela Viver a Vida: Estudo de Recepção com um grupo de cadeirantes do Distrito Federal” (FLAVORANTE, 2011), é uma monografia que busca entender como o merchandising social proposto pela telenovela Viver a Vida na vida de seis cadeirantes, tendo em vista que um dos temas centrais da trama tinha como protagonista a situação da tetraplegia de Luciana. “O enredo de Manoel Carlos, Viver a Vida, trouxe muitas realidades dentro de uma só, estimulando o público em como pode se tirar proveito da vida.” (FLAVORANTE, 2011, p. 48).

Muito telespectadores se viram na mesma situação que Luciana e acompanharam seu cotidiano em todo o decorrer da telenovela, incluindo a interação através do seu blog “chamado Sonhos de Luciana mostra um pouco da recepção do público, que em muitos momentos ao postarem no blog, ignoravam a ficção, pois o cotidiano da personagem se assemelhava ao seu, sendo assim, o relacionamento da personagem com o público, invadia uma realidade” (FLAVORANTE, 2011, p. 49).

Como afirma Joel Zito Araújo em A Negação do Brasil (2000), casais interraciais sempre existiram nas teledramaturgias nacionais, no entanto, não foram suficientes para acabar com o racismo presente até hoje nas telenovelas do Brasil. No artigo “A ideologia da mestiçagem nas telenovelas brasileiras” (GRIJÓ, 2016), busca-se compreender a mistura de raça dentro do âmbito de cinco telenovelas, atrelando as relações interraciais ao gosto do público e a sua aprovação: Corpo a Corpo (1984), Anjo Mau (1997), Da Cor do Pecado (2004), Duas Caras (2008) e Viver a Vida (2010).

Ao focarmos em Viver a Vida, o autor descreve como Helena (Taís Araújo) e Marcos (José Mayer) iniciaram seu romance, sendo ela negra e ele, branco, como destacamos abaixo:

Já Viver a Vida, telenovela urbana e contemporânea, escrita por Manoel Carlos para o horário das 20 horas, apesar de ter como temática principal a superação, trouxe para o prime time da Rede Globo a primeira protagonista negra do principal produto da grade de programação. Apesar das questões ligadas às relações étnico-raciais não comporem o enredo principal da narrativa, a história tinha como protagonista uma personagem negra, Helena (Taís Araújo), cujo contexto fugia das representações corriqueiras das mulheres negras nas telenovelas, visto que esta era uma modelo famosa internacionalmente, emancipada, mas que decidiu abandonar a profissão para contrair matrimônio com o rico empresário branco Marcos (José Mayer) (GRIJÓ, 2016, p. 14).

Na telenovela, Helena tem familiares negros, mas nenhum relacionamento amoroso com ninguém da sua cor, além de não haver nenhum tipo de conflito referente a isso, “a Helena negra cujo os parceiros na trama foram homens brancos, ao ter sua negritude invisibilizada se aproxima do que Fernandes (2007) já acenava há décadas sobre a presença do negro nos espaços de hegemonia branca: a integração do negro na sociedade brasileira só se efetiva na medida em que ele se descaracterize cultural e socialmente.” (GRIJÓ, 2016, p. 15).

Sabemos também que dentro da televisão no Brasil há uma comparação em relação ao que uma emissora faz melhor que outra. Ao falarmos de um tema importante como o Dia da Consciência Negra, o artigo “A Representação dos Negros na Rede Globo e na TV Brasil na Semana do “Dia Nacional da Consciência Negra” (SANTOS; LOPES, 2010), como o próprio tema diz, faz um comparativo das atividades dessa data tão importante para o país durante sua semana em 2009, equiparando a TV Brasil, que se dispôs a trabalhar em diversos programas esse dia, a TV Globo, que além de falar de maneira branda, ainda exibiu durante a semana a cena em que o personagem de Taís Araújo em Viver A Vida levando um tapa no rosto de Tereza, personagem de Lilia Cabral, como citado abaixo:

Na contramão da tentativa da CEF de valorizar a população negra na semana do Dia Nacional da Consciência Negra, do ano de 2009, a Rede Globo de Televisão exibiu na novela Viver a Vida (que ia ao ar às 21h), uma cena chocante para os seus telespectadores e humilhante para a população negra. Ao que tudo indica, essa cena visava colocar os negros no seu devido lugar 9 ou, simbolicamente, visava “dar um tapa na cara” dos indivíduos pertencentes a esse grupo racial de pertença. humilhante tapa que levou no rosto. Ao contrário, passivamente resigna-se. Pode ter sido simples coincidência o fato de essa cena ter sido exibida exatamente na semana do Dia Nacional da Consciência Negra. Mas alguns programas da TV Globo, especialmente as suas telenovelas, têm histórico de não somente sub-representar os negros, como também de subalternizá-los, conforme demonstrou o cineasta e pesquisador Joel Zito Araújo (2000), algo que pode indicar a possibilidade de que a exibição dessa cena naquela semana não foi sem intenção (SANTOS; LOPES, 2010, p. 88).

Exibir uma cena forte como essa em uma semana que se luta justamente contra um racismo enraizado e estrutural no Brasil afetou de forma grosseira e desrespeitosa diversos movimentos negros, que ficaram indignado ao ver a cena ir ao ar.

Mais do que um papel de destaque em uma novela de um autor renomado como Manoel Carlos, é ser respeitado por esse papel, e quando uma mulher negra como Taís Araújo consegue um papel de protagonista em uma telenovela do horário nobre, ela tem que lidar com o racismo presente no seu próprio país, além da hiperssexualização e a invisibilidade que há por trás desses personagens que a todo tempo tem que provar o seu talento, e é disso que o artigo “A mulher negra na telenovela: hiperssexualização, invisibilidade ou subalternidade?” (RODRIGUES, 2016) aborda, sendo uma monografia que busca mostrar o quanto o corpo da mulher negra é utilizado para fins banais, sendo hiperssexualizado e subalternizado, que é exibido apenas como uma vitrine e pouco representado em meio à sociedade. O texto aborda Viver A Vida como uma novela que apesar de mostrar Taís Araújo ao seu estilo natural, sofreu diversas críticas do público e da mídia, para o autor, as humilhações que a personagem sofreu foram desnecessárias (RODRIGUES, 2016, p. 80).

Imaginar personagens negros como protagonistas ainda causa um impacto à sociedade, muitos deles negativos, pois as pessoas não estão acostumadas a ver o negro como personagem principal seja do que for. Em “A mulher negra na primeira pessoa: uma construção de raça e gênero nas telenovelas protagonizadas por Taís Araújo” (OLIVEIRA, 2016), mostra a dissertação que aborda os personagens de Taís Araújo, colocando-a como protagonista da sua própria vida, falando dos seus personagens e quão importante é sua contribuição para a teledramaturgia brasileira correlacionando isso a construção das categorias de raça, gênero e poder e como a mulher negra tem sido representada nas tramas.

Taís Araújo tem um currículo longo na teledramaturgia nacional, incluindo protagonistas memoráveis, que a fizeram ser a atriz reconhecida que é hoje. No entanto, ao entregar-se ao papel de ser uma Helena de Manoel Carlos na telenovela Viver A Vida, a primeira negra dentre as que já ganharam esse personagem, Taís Araújo sofreu por não ter tido o mesmo reconhecimento:

Em “Viver a Vida” Taís Araújo protagoniza a sua 3ª novela, a primeira vez que a emissora apresenta uma protagonista negra em horário nobre. No entanto, a novela recebeu inúmeras críticas por parte dos telespectadores organizados em movimentos por equidade racial, a principal crítica é a ausência de características das demais “Helenas”, que traziam coragem e certa imponência em suas ações. A Helena protagonizada por Taís Araújo mostrou fraqueza e submissão, causando desconforto na cena em que leva um tapa na cara da personagem interpretada por Lilia Cabral, na semana do dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra (OLIVEIRA, 2016, p. 72).

Usada como um dos grandes fatores para exibir o racismo dentro da teledramaturgia brasileira, a bofetada que Helena recebe de Tereza, de joelhos, é um reflexo do lugar que o negro sempre ocupou nas telenovelas, o branco que o vê em superioridade, a submissão em que o negro se coloca e a violência que sempre sofreu em todos os seus papéis. Segundo Oliveira (2016, p. 133), “a violência também é face do racismo. Usada como forma de poder desde os tempos mais remotos, era através desse dispositivo que os negros e negras ainda escravos eram obrigados a trabalhar e satisfazer os desejos dos escravocratas.” Em suma, quase todos os artigos aqui mostrados abordam a cena de humilhação da Helena de Viver A Vida na semana do Dia da Consciência Negra como o maior exemplo de racismo que Taís Araújo viveu na teledramaturgia brasileira, onde de joelhos, recebe uma bofetada no rosto de Lília Cabral, totalizando oito trabalhos que denunciam o racismo presente na telenovela através dessa cena que contém um diálogo pesado, durando pouco mais de dez minutos. No que se refere à tabela 1 apresentada, percebemos o pouco avanço das tramas brasileiras ao falarmos de protagonismo negro nas obras de Manoel Carlos, mostrando claramente a necessidade de uma mudança nesse cenário que se faz tão preciso no cotidiano do povo brasileiro, colocando os artistas negros nos papéis principais e não apenas em atuações secundárias, ou para compor o núcleo pobre de alguma telenovela.

Neste capítulo, abordamos os atores e atrizes negros que trabalharam nas obras de Manoel Carlos, focando em Helena como filtro da pesquisa, destacando cinquenta personagens negros presentes entre as obras Felicidade (1991) e Em Família (2014). Além disso, destacamos dezesseis artigos que apontaram o racismo e pouco protagonismo negro na teledramaturgia brasileira, baseando-se em Viver A Vida (2009). No próximo capítulo destrincharemos a caracterização dos personagens, traçaremos comparações entre os núcleos e o enredo trama com o intuito de entender o processo que resultou na rejeição da personagem pelo público.

4. ENTRE A REALIDADE E A FICÇÃO: A HELENA NEGRA

Viver A Vida foi uma telenovela que contou com bons personagens, muitos de personalidade forte e temperamentos que davam um grande fôlego ao folhetim que sofreu em determinados momentos com uma audiência baixa para os padrões do horário nobre na época. Comparada a sua antecessora, Caminho das Índias (Rede Globo, 2009), escrita por Glória Peres, esta informação perde relevância, pois por mais popular que fosse, já que a autora tem o costume de ambientar suas tramas em outros países, o que causa uma maior popularidade às suas telenovelas, a trama de Peres também não teve grandes picos de audiência obtendo no geral 38 pontos, na Grande São Paulo.

Caminho das Índias contou com 203 capítulos, seis a menos que Viver A Vida, que teve 209 e tinha uma proposta completamente diferente da sua sucessora. A última telenovela escrita por Manoel Carlos foi Em Família (Rede Globo, 2014), havendo um espaço de tempo de cinco anos entre ela e Viver A Vida, que foi escrita em 2009, sendo aquela sua última trama. Essa tinha como palavra-chave a superação, abordando temas como a vida de cadeirantes no cotidiano das pessoas e problemas que fazem parte do dia a dia da sociedade brasileira.

Viver A Vida girava em torno de Helena (Taís Araújo), que apesar de ser a protagonista, acabou perdendo espaço na telenovela, que era uma modelo de sucesso e se confrontava por muitas vezes com Luciana (Alinne Moraes), que sempre foi muito mimada, acostumada a ter tudo o que queria e viu sua vida mudar completamente após o acidente que a deixou tetraplégica. A obra também contou com Marcos (José Mayer), um empresário do ramo hoteleiro, que se apaixona e casa com Helena em uma de suas viagens. No entanto, não tem uma boa relação com a ex-esposa Tereza (Lília Cabral), mãe de Luciana, divorciada de Marcos, que é ressentida por ter abandonado a carreira de modelo para se dedicar a família.

Além disso, o ex-casal tinham mais duas filhas, além de Luciana, Isabel (Adriana Birolli), muito mimada e que não mede esforços quando é para prejudicar ou fazer intriga com as pessoas, o contrário da irmã mais nova, Mia (Paloma Bernardi), que sempre se dedica a família e é atenciosa. Além disso, o enredo também integra os pais de Helena, o pai Oswaldo (Laércio de Freitas), que é músico, a mãe Edite (Lica Oliveira), dona da pousada, presente de sua filha bem sucedida Helena, administrada por ela e pelo atual marido e padrasto da protagonista, Ronaldo (César Melo). Discreto, o padrasto tenta sempre não se meter nos problemas familiares e dos irmãos de Helena, Sandra (Aparecida Petrowky), problemática e vive em confusões e Paulo (Michel Gomes), que mora com a mãe em Búzios, mas sonha em mudar para o Rio de Janeiro.

Viver A Vida além de ser de autoria de Manoel Carlos, contou com a colaboração dos autores Ângela Chaves, Claudia Lage, Daisy Chaves, Juliana Peres, Maria Carolina Campos de Almeida e foi dirigida por Adriano Melo, Teresa Lampreia, Maria Rodrigues, Leonardo Nogueira, Frederico Mayrink, Luciano Sabino. A obra teve na direção-geral Jayme Monjardim (que também atuou na direção de núcleo) e Fabrício Mamberti. A telenovela foi exibida entre 14/09/2009 e 14/05/2010, na faixa de horário das 21h.

A trilha sonora nacional de Viver A Vida foi dividida em dois CD’s, em que diversos artistas da MPB contribuíram com suas músicas. Como tradicionalmente acontece nas obras de Manoel Carlos, a trilha sonora se alicerçou em artistas consagrados como Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Maria Bethânia e Tom Jobim. A trilha sonora internacional também foi dividida dois CD’s e contou com Shakira, Mariah Carey e Lily Allen.

A Helena de Taís Araújo na telenovela Viver A Vida (2009) tinha tudo o que a época da obra pedia: era jovem, estava no auge da carreira de modelo, era bonita e se destacava entre as demais colegas de profissão. A protagonista causava a ira e a inveja da sua rival e enteada Luciana (Alinne Moraes). Apostava-se ainda em diferentes estratégias transmidiáticas que aproximavam a trama do público, logo entendia-se que a tendência do personagem seria crescer ainda mais.

Características de conflito familiar são próprias das obras de Manoel Carlos, que traz aos seus telespectadores críticas sociais e problemas vividos na vida de pessoas da classe média, especialmente. Um exemplo a ser citado foi na telenovela Laços de Família (Rede Globo, 2000), em que Camila (Carolina Dieckmann), se apaixona pelo namorado da sua mãe, Helena (Vera Fischer), e em seguida tem câncer, algo que comoveu bastante os telespectadores na época. Outro ponto importante foi na obra Mulheres Apaixonadas (Rede Globo, 2003), a personagem Heloísa (Giulia Gam) tinha um ciúme doentio pelo marido Sérgio (Marcello Antony), e revelou o lado perigoso de um relacionamento sem confiança.

As estratégias de marketing do produto audiovisual estiveram voltadas para reforçar o perfil inovador da protagonista, afinal, tratava-se da primeira e única Helena negra do autor Manoel Carlos na faixa do horário nobre. Como é possível perceber no portal Memória Globo que destaca a sinopse da obra com o seguinte título “Viver a Vida, A força de superação conduzia a novela, que trazia uma Helena diferente das anteriores criadas pelo autor: uma jovem negra”. A trama é fundamentada em um tradicional conflito familiar presente nas obras deste autor, estruturado especialmente no conflito de gerações, no divórcio e na disputa entre mulheres, como se destaca na sinopse compilada abaixo:

A trama central mostra a história de Helena (Taís Araújo), top model de renome internacional que, no auge da carreira, por volta dos 30 anos, decide largar a profissão para se casar com o sedutor Marcos (José Mayer), empresário do ramo hoteleiro, por quem se apaixona perdidamente. Ele é 20 anos mais velho, recém-divorciado da ex-modelo Teresa (Lilia Cabral) e pai das jovens Luciana (Alinne Moraes), Isabel (Adriana Birolli) e Mia (Paloma Bernardi) – esta última, filha adotiva. Ao longo da trama, Luciana, jovem mimada que nunca precisou batalhar por nada na vida, transforma-se em símbolo da luta pela superação após sofrer um acidente e ficar tetraplégica. A partir do grave acidente, o público acompanha a lenta recuperação de Luciana e sua luta para não esmorecer. Sempre acompanhada pela enfermeira Laura (Arieta Corrêa) e pela fisioterapeuta Larissa (Patrícia Carvalho Oliveira). A tragédia muda sua visão do mundo e a faz repensar sua vida, fazendo-a, inclusive, romper o namoro com o arquiteto Jorge (Mateus Solano), com quem havia feito planos de casamento antes da tragédia (PORTAL MEMÓRIA GLOBO, on-line).

De início, a sinopse já mostra o perfil de Helena, sua profissão e sua “problemática” na trama, mas destaca muito mais a vida do personagem de Alinne Moraes, Luciana, e seu acidente. De fato, ao iniciar a trama, Helena se mostra uma mulher viva, de fibra, batalhadora e que lutou para atingir seus objetivos na vida: ser uma modelo de sucesso internacional. O destaque se dá pelo seu estilo, cabelo e jeito de ser, algo que cativa muitas mulheres. O cabelo volumoso e cacheado foi uma marca de caracterização do personagem, algo que nunca havia se visto no maior papel do horário nobre (Figura 1). Nesse sentido, a Helena de Manoel Carlos se diferenciava das demais, não só na idade, mas em tudo o que o autor havia feito anteriormente.

FIGURA 1 - CARACTERIZAÇÃO DE HELENA VIVIDA POR TAÍS ARAÚJO EM VIVER A VIDA (2009)

Fonte: Reprodução Rede Globo, 2009.

A caracterização da personagem foi recurso difundido como inovador pela própria emissora produtora. No portal Memória Globo, como curiosidade sobre a novela, destaca-se um trecho das obras de Joel Zito Araújo (2000), que já citamos, para fundamentar a construção adotada para a Helena em questão. Para além de se tratar da primeira protagonista negra do horário nobre, o personagem havia, segundo o portal, recebido “tratamento inédito” no que se refere à sua família que era negra e que “cada integrante tinha sua história própria” e à caracterização valorizando seus cabelos. No entanto, o próprio Joel Zito Araújo problematiza a questão. O fato de ter personagens negros não significa necessariamente que a narrativa será antirracista. Para o autor, “o racismo brasileiro apareceu na telenovela somente como uma das características negativas do vilão, e não como um traço ainda presente na sociedade e na cultura brasileira” (ARAÚJO, 2008, p. 981). Nossa teledramaturgia tem vergonha de demonstrar o próprio racismo, que se transforma em tabu.

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No entanto, o racismo estrutural também se manifesta. A família de Helena é marcada por diferentes situações de conflito social, vividos especialmente por Sandrinha, da atriz Aparecida Petrowki, que se envolve e engravida de um marginal contrariando os anseios de seus parentes (Figura 2). A relação de ambos é marcada por fugas e ameaças e ambientada na clandestinidade.

FIGURA 2 - CARACTERIZAÇÃO DE HELENA VIVIDA POR TAÍS ARAÚJO EM VIVER A VIDA (2009)

Fonte: Reprodução, Rede Globo, 2009.

Viver A Vida teve em seu primeiro capítulo uma polêmica: enquanto mostra cenas de Helena no mar, em uma praia de Búzios, no Rio de Janeiro, dando uma entrevista e apresentando sua família, em paralelo isso, mostra sua irmã e o namorado, ambos sendo perseguidos pela polícia. Ao ser capturada, Sandra tem o cabelo puxado e é agredida pelo policial. Esse fato não causou nenhum tipo de repercussão, por mais forte que tenha sido a cena, afinal era uma mulher sendo espancada. Essa questão já aponta um levantamento sobre a naturalização da falta de empatia do público: uma pessoa negra sendo perseguida pela polícia sempre foi algo natural dentro e fora das telenovelas, pois teria feito algo errado.

Um ponto a ser levado em consideração são os núcleos da família de Helena e de Tereza. Enquanto vemos a sofisticação das mansões na casa de Tereza (Figura 3), vemos simplicidade da família de Helena, na ambientação em que sua família se encontra. Quando vemos Tereza e sua família, todos estão sempre com roupas elegantes e aparentemente caras. Como o próprio portal Memória Globo fala:

A novela enfocou o glamour e os bastidores do universo da moda, especialmente por meio de Helena (Taís Araújo), Teresa (Lilia Cabral) e Luciana (Alinne Moraes), três das principais personagens, modelos em estágios diferentes da carreira. Helena fazia um estilo contemporâneo, e aparecia sempre confortável, vestindo peças clássicas mas arriscando-se a usar calças saruel com camiseta. Na cartela de cores da personagem, predominavam as solares como amarelo, laranja, bege, cáqui e dourado. Luciana tinha um figurino mais despojado, colorido e curto. Já a ex-modelo Teresa mostrava que tinha bom gosto ao vestir-se de forma clássica e elegante, abusando dos tons neutros e das roupas com bom corte, como uma combinação de bermuda moderna com camisa social e sandália rasteira (PORTAL MEMÓRIA GLOBO, on-line).

A valorização dos cabelos crespos da atriz também foi um fator importante e uma das poucas representações que fizeram parte da caracterização da Helena de Taís Araújo, tendo sido motivo de várias inspirações a aspirantes à carreira de modelo, como no concurso “Menina Fantástica 2009”, um quadro do programa dominical Fantástico, que foi uma espécie de “caça-talentos”, criado para atrair jovens moças que desejavam modelar.

FIGURA 3 - CARACTERIZAÇÃO DA FAMÍLIA DE TEREZA, VIVIDA POR LÍLIA CABRAL EM VIVER A VIDA (2009)

Fonte: Reprodução, Rede Globo, 2009.

Já na família de Edite todos se vestem de forma menos requintada (Figura 4), além disso, a irmã de Helena, Sandrinha, vive em uma comunidade, o que torna a família da protagonista, que é negra, mais simples ainda. Apesar de Helena ser uma mulher mais sofisticada, o mesmo não acontece com a família, que também tem menos visibilidade na trama. Apesar do portal Memória Globo não abordar a caracterização da família de Edite, é notório a simplicidade das pessoas que fazem parte desse núcleo do folhetim de Manoel Carlos, aumentando ainda mais a diferença social entre as duas famílias.

Situações como essas causam certo desconforto ao público, que já não se vê representado por essa parcela do elenco, pois apesar de as telenovelas representarem aquilo que as pessoas convivem no seu cotidiano, só o público não negro parece ter o direito de viver elegantemente, passando a sensação de que aquilo que temos já é o suficiente e é até ao máximo que podemos chegar, contrariando qualquer mudança que pudesse vir no decorrer da trama.

FIGURA 4: CARACTERIZAÇÃO DA FAMÍLIA DE EDITE, VIVIDA POR LICA OLIVEIRA EM VIVER A VIDA (2009)

Fonte: Reprodução, Rede Globo, 2009.

4.1. O ENREDO DE VIVER A VIDA

A trama se inicia com o processo de abandono da carreira da personagem protagonista. Helena abdicava de uma carreira de sucesso como modelo, provocada, especialmente, pela paixão por Marcos vivido por José Mayer5, ator que tradicionalmente representou galãs nas tramas de Manoel Carlos.

Nesse caso, do capítulo 1 ao 39, vemos a apresentação dos personagens, e nos primeiros dez capítulos Helena se mostra uma mulher de fibra, que demonstra que batalhou bastante para ser quem é, e por algumas vezes já tem certo desentendimento com Luciana, inclusive no primeiro capítulo Luciana se queixa e demonstra descontentamento por Helena ter maior destaque em um evento em que ambas iriam desfilar juntas, na ocasião.

Helena então cede sua vez para que Luciana tenha o holofote que deseja, porém acaba dando errado, pois ela leva um tombo no meio da passarela e se irrita ainda mais com a protagonista. Os capítulos posteriores, Marcos e Helena se conhecem e se envolvem amorosamente, o que resulta no casamento dos dois no capítulo 8, a contragosto de Luciana, que não aprova a relação do pai e da madrasta. Porém, o que se entende é que se trata de uma grande insegurança e medo de perder espaço na vida do seu pai.

Os episódios seguintes focam em Helena vivendo sua paixão com Marcos, enquanto sua família lida com a pousada e peleja com os problemas de Sandrinha. Tereza, apesar de sempre estar séria e amargurada, sempre trata as filhas com carinho. Enquanto isso, Helena e Luciana dão uma trégua na rixa que têm e passam a ficar mais próximas, passando a conversar civilizadamente e até mesmo trocar confidências. Entretanto, à medida que a trama avança, Helena vai cedendo aos caprichos do marido, que quer que ela abdique da carreira de modelo e se aposente das viagens e passarelas, mas a protagonista acaba se desentendendo com o marido por aceitar mais um trabalho fora do país.

No capítulo 29, ambas embarcam rumo a Petra, na Jordânia, e antes de viajarem Tereza tem uma conversa franca com Helena, onde ela pede que cuide de Luciana, visto que ela nunca viajou para fora do Brasil sem os pais, tampouco a trabalho. Elas viajam e ao desembarcarem, Luciana fica entusiasmada e quer conhecer a cidade e a noite, conhecem dois jovens, Bruno (Thiago Lacerda) e Felipe (Rodrigo Hilbert), com quem fazem amizade, e logo Luciana se interessa por Bruno, e os dois acabam tendo um envolvimento amoroso. Helena tenta regulá-la, colocando alguns limites, lembrando, inclusive, que Luciana tem um namorado no Brasil, que é Jorge (Mateus Solano). Esse diálogo se desencadeia em várias discussões, que logo causa atrito entre as modelos, o que faz Helena pedir a Bruno para que ele mantivesse distância delas, pois a situação já estava se tornando insuportável entre elas.

O enredo opõe maternidade e inserção feminina no mercado de trabalho. Helena e Tereza são opostas e disputam o mesmo homem: Helena, jovem e bem sucedida modelo, ainda em atuação e Tereza, ex-modelo, que encerrou a carreira em virtude do casamento e é mãe de três mulheres, dentre elas uma modelo também. A estrutura narrativa se alicerça no processo de culpabilização da protagonista que em nome de seu sucesso profissional havia se submetido a um aborto. Ao longo da trama a personagem tenta engravidar, mas perde a criança. A questão maternal retoma quando Tereza (Lília Cabral) ex-esposa de seu marido, transfere para Helena as responsabilidades de maternar sua filha adulta.

A partir do capítulo 40, Luciana e sua família já vinham ganhando um destaque maior do que a de Helena, afinal era a típica “família modelo” e branca, da zona sul do Rio de Janeiro, enquanto a família da protagonista negra era marcada por Sandrinha, que teve um relacionamento com um criminoso, engravidou e teve que lidar com a dor de enfrentar o julgamento do pai do seu filho, pois Bené (Marcello Melo Junior), e como a própria descrição do personagem no portal Memória Globo diz, ele era um mau caráter com passagens pela polícia, algo que já estamos acostumados a presenciar nas mais variadas tramas brasileiras.

Enquanto isso, entre o capítulo 41 ao 46, Helena e Luciana oscilam entre conversas e discussões, e após essa não conseguir contato com o pai, as duas têm novamente uma briga. Helena tentou tomar para si a responsabilidade de cuidar de Luciana, aceitou que poderia lidar com a personalidade da enteada, algo que prometeu a Tereza. Entretanto, as duas discutem bastante durante a viagem, mas tentam manter uma boa relação. Do capítulo 47 ao 55, há uma inflexão na trajetória da protagonista da trama. Em Petra, na Jordânia, Helena e Luciana têm uma briga no quarto de hotel onde estavam hospedadas (Figura 5). Ambas se acusam de diversas formas, o que termina em Helena dando um tapa no rosto de Luciana, após essa acusá-la de ter realizado um aborto para conseguir o que seria o triunfo da sua carreira, e promete fazer Helena pagar pelo que tinha feito. Na cena, a protagonista assume não ter tido a facilidade na vida que Luciana sempre teve, falando dos vários obstáculos que teve para ser quem é hoje, e que continua passando por diversas dificuldades, falando suavemente do racismo que viveu para conseguir o êxito da sua carreira.

Após saberem que teriam que realizar uma outra viagem juntas, Helena se recusa a ir no mesmo carro que Luciana, o que a obriga a ir de ônibus com as demais modelos. Furiosa, Luciana vai, enquanto Helena seguiu no carro com o amigo. Passados poucos minutos, o ônibus com as modelos sofre um acidente e deixa Luciana gravemente ferida. Helena se desespera e tenta ajudar, em vão, a colega de profissão, pois havia prometido a Tereza que cuidaria de Luciana enquanto realizassem essa viagem. Em seguida, liga para Marcos, relata ao marido sobre o que aconteceu aos prantos, ele avisa a Tereza, que se desespera.

A partir do capítulo 55, as cenas seguintes são repletas de choro e de muita emoção por parte do público, destacando a cena em que Luciana descobre na presença do médico, do namorado e dos pais, que está tetraplégica (Figura 6). Gritos são ouvidos seguidos de choro e desespero de todos. Luciana indignada grita por Helena, a chamando de maldita e que não deveria estar naquele ônibus, que a culpa era dela. A cena causou muita comoção perante o público, que ficou bastante emocionado e se compadeceu da história de Luciana, que ganhou um maior destaque na telenovela a partir de então, o que fez com que Helena se tornasse culpada pelo que aconteceu com a enteada.

FIGURA 5 - FRAMES DA CENA DE CONFLITO ENTRE HELENA E LUCIANA NO CAPÍTULO 47

Fonte: Printscreen de trechos da cena no Google Imagens.

Identificamos que a perspectiva, a expectativa, a felicidade e a rejeição da Helena de Taís Araújo são motivadas pela forma como a trama foi construída, pouco a pouco a personagem Helena foi perdendo ritmo e espaço na trama deixando-a em segundo plano. Quando uma cena dessa magnitude acontece, é natural que haja uma forte carga de emoção por parte dos telespectadores, que acabam criando empatia com o personagem e o que ele está passando naquele momento. Com a discussão, o acidente, que deixou Luciana tetraplégica e o peso na consciência de Helena, que não permitiu que a colega de trabalho fosse junto com ela no carro, fez com o que o público passasse a enxergar a protagonista de forma negativa, vendo em Tereza uma forma de fazer Helena pagar pela situação em que Luciana se encontrava, o que contribuiu para sua impopularidade, seguida de muitas críticas e por vezes acusações pela baixa audiência da telenovela.

FIGURA 6 - FRAMES DA CENA EM QUE LUCIANA DESCOBRE SUA TETRAPLEGIA.

Fonte: Printscreen de trechos da cena no Google Imagens.

Cenas como essas são sempre de grande relevância e foram capazes de aflorar no público a sensação de empatia, compaixão e, por muitas vezes, pena. Manoel Carlos sempre trabalhou em suas tramas a percepção das pessoas o “e se fosse comigo?”, deixando assim a possibilidade de abrirem uma lacuna de pensamentos sobre determinado assunto que ele aborda nas suas telenovelas, que no caso de Viver A Vida, foi o acidente de Luciana.

O capítulo 55 foi de fato muito emocionante, a começar pela notícia que Luciana recebeu de que não poderia voltar a andar, o abatimento de Helena por se sentir culpada e perceber que seu casamento está definhando com a situação ocorrida a Luciana e Tereza indo confrontar Helena. A partir desse ocorrido, como uma maneira de vingança, a mãe de Luciana, Tereza (Lília Cabral), vai ao encontro de Helena na casa dela, onde as duas têm um diálogo de pouco mais de dez minutos. Helena chora, se ajoelha e pede perdão a Tereza por se sentir culpada por, indiretamente, ter contribuído para a atual deficiência de Luciana, e leva um tapa no rosto, ajoelhada, como veremos nas próximas seções.

4.2. O TAPA DA REALIDADE: ANÁLISE DA CENA EM QUE HELENA LEVA UMA BOFETADA DE JOELHOS DE TEREZA NO CAPÍTULO 55 DA TELENOVELA VIVER A VIDA (2009)

Depois do acidente que deixou Luciana tetraplégica e ter desferido toda a culpa da situação em que se encontrava à madrasta, sua mãe, Tereza (Lília Cabral) foi ao apartamento de Helena, onde as duas tiveram um longo diálogo. De um lado, Helena chorava, pedia perdão pelo que ocorreu a Luciana e se sentia culpada todos os dias desde que isso ocorrera à moça. Do outro, Tereza estava furiosa e falou todo o tempo de maneira sarcástica da culpa que Helena estava carregando naquele momento.

De fato, Tereza aparentava estar muito chateada por tudo o que aconteceu com sua filha, mas é fato que as duas nunca se deram bem, sempre haviam pequenas provocações por parte de Tereza não gostar do fato de seu ex-marido estar casado com uma mulher vinte anos mais jovem que ele, e guardou o momento exato para se vingar da atual esposa do ex-companheiro, algo que também o público já esperava que fosse acontecer.

Helena, que vestia uma roupa branca simples, com cabelo preso e sem maquiagem, chorando, se ajoelha diante de Tereza, que vestia um terno cinza, com a madeixa solta e curta, com acessórios como brincos, colar e relógio, após vinte segundos de silêncio, essa dá um tapa no rosto de Helena, que não reage de maneira alguma, ficando na mesma posição em que estava, apenas olhando para Tereza, que a via com raiva e desprezo e apenas ouviu: “Estou lhe devolvendo a bofetada que você deu na minha filha!”, saindo do apartamento, em seguida. O fato é que Tereza não só bateu em Helena pelo que ela diz ter feito à sua filha, mas por nunca ter suportado o fato de Helena ser quem era e nunca ter gostado de ver ao lado do seu ex-marido uma mulher jovem e independente.

FIGURA 7 - FRAMES DA CENA EM QUE TEREZA BATE EM HELENA

Fonte: Printscreen de trechos da cena no Google Imagens.

Observando do ponto de vista estético, as roupas das atrizes na cena já causavam um certo desconforto, tendo em vista em que na maioria das cenas Helena sempre esteve bem vestida, com o cabelo solto ao ar livre, estava com uma roupa branca, com cabelo preso para trás e sem maquiagem, e Tereza que também se vestia muito bem, chegou ao apartamento de Helena impecável.

O teor da cena não pedia que Helena estivesse arrumada por estar em casa, que é quando estamos mais à vontade, mas dar relevância para essa ocasião faz levantar dúvidas para os fatos da necessidade de se usar branco numa cena tão marcante. Partindo do ponto técnico, enquanto estavam em pé conversando, as cenas se divergiam em plano médio longo mostrando as duas atrizes e primeiro plano.

No entanto, o que chamou mais atenção, além da atuação as atrizes, foi quando Helena se ajoelhou diante de Tereza, mostrando o plano contra-plongée6, demonstrando completamente a superioridade de Tereza na cena (Figura 8), onde Helena humilhada, apanha da sua rival, mostrando essa em primeiro plano, exibindo completamente a inferiorização que Taís Araújo vivenciou naquela época em que seu personagem já não estava sendo bem visto pelos telespectadores que acompanhavam a telenovela, pois muitas pessoas viram essa cena do ponto de vista vingativo e não atentaram a data em que foi ao ar, tampouco a representação que ela causou ao movimento negro. Na cena ficou claro o papel submisso que Helena precisou enfrentar, tal qual as situações em que pessoas escravizadas passavam diante dos seus senhores.

FIGURA 8: FRAME DO ÂNGULO EM CONTRA-PLONGÉE DO MOMENTO EM QUE TEREZA DÁ UM TAPA EM HELENA EM VIVER A VIDA (2009)

Fonte: Reprodução, Rede Globo, 2009.

4.3. O CASO DA PERSONAGEM: A HELENA DE TAÍS ARAÚJO FOI SIMBOLICAMENTE ENGOLIDA PELO RACISMO ESTRUTURAL

A partir desse momento, do capítulo 55 ao 100, Helena perdeu todo o seu protagonismo, apesar de fatos relevantes terem ocorrido a ela, como a separação de Marcos e a descoberta da gravidez, ela ainda se sente culpada pelo acidente de Luciana, pondo a culpa no aborto que realizou no início da carreira, em um diálogo com a mãe. A personagem passou a ser rejeitada pelo público e Luciana acabou ganhando um espaço de protagonismo na telenovela, que também passou a ter um outro tipo de temperamento, falando em tom alegre, animado e sorridente, por vezes infantil, como se já tivesse aceitado sua nova condição de vida, compreendendo e querendo conversar com Helena quando estiver mais tranquila.

O processo de recuperação começa a acontecer com Luciana, o que causa grande emoção, que aconteceu no capítulo 70, em que ela senta pela primeira vez, enquanto isso Helena, apesar de ter reatado com Marcos, perdeu seu bebê, vítima de um aborto espontâneo, o que aos olhos do público, pode ter sido uma forma de “castigo”. Entretanto, Luciana, que já havia conquistado a comoção dos telespectadores, cresceu ainda mais quando reviu Helena após o acidente e a perdoou pelo que havia acontecido, o que contribuiu para a sua superação, que era o tema principal de Viver A Vida.

Do capítulo 101 ao 150, enquanto Luciana demonstra pequenos avanços na fisioterapia para tentar reverter sua deficiência, Bruno, que é fotógrafo, retorna ao Brasil e consegue um emprego na agência em que Helena trabalha, o que acaba deixando os dois mais próximos e após alguns capítulos, acabam flertando e se beijam, algo que também pôde não ter sido bem visto aos olhos dos telespectadores, levando em consideração que a protagonista era uma mulher casada, por mais que estivessem em crise e dormindo em quartos separados.

Helena estava tão impopular que muitas vezes era confrontada por Rafaela (Clara Castanho), uma criança de dez anos e não tinha resposta alguma a dar à menina quando as duas conversavam. Algo que se tem de se levar em consideração é o fato de enquanto Edite vai à casa da filha, em um morro do Rio de Janeiro, para fazer uma visita e desconfia dos amigos do companheiro dela, o que enfatiza o fato do próprio negro desconfiar das pessoas pelo próprio tom da pele e de onde eles vivem, Tereza conversa com Luciana, falando que o acidente que ocorrera a filha a fez mudar e se tornar uma pessoa melhor, apresentando o contraste existente no país. Enquanto isso, como uma forma de redenção, Luciana aceita o convite de Helena e Marcos para morar na casa deles, depois de adaptá-lo às necessidades dela e elas acabaram selando a paz de vez.

Do Capítulo 151 ao 203, a trama entra na fase final e o clima de desavenças pareceu ter dado uma trégua, menos para o elenco negro, que inclui Bené e Sandrinha, pois ele continua no mundo do crime. Situações como essas só acrescentam ao público o fato do negro ser o único problemático e envolvido em crimes numa telenovela. Enquanto isso, Helena e Marcos terminam seu casamento, e como o machismo presente, ele colocou a culpa do término do relacionamento nela, a culpando por não ter colocado o casamento como prioridade, o que não é verdade, pois em toda a trama Helena agiu por amor e dedicação, o que não pareceu suficiente aos olhos dos telespectadores. A protagonista então colocou um ponto final no casamento e resolveu se dedicar a Bruno, com quem inicia um novo relacionamento. Mais uma vez, essa atitude pode ter contribuído para a negatividade da personagem, sem contar que pela segunda vez Helena entra no segundo relacionamento com um homem branco. Um ponto a ser levado em consideração é o capítulo 175, em que Bruno questiona sua mãe que após conhecer Helena foi indiferente, perguntando se era pelo fato de ela ser negra, o que não fica explicitado, pois a mãe dele revela que tem divergências com a profissão de modelo e não pela cor da pele de Helena, no entanto, pairou a dúvida de que realmente ela estava falando do trabalho da protagonista e não pelo fato de ela ser uma mulher negra.

Entre os capítulos 204 e 209, algo que chamou bastante a atenção, mas que não houve repercussão alguma, foi a morte de Bené, que havia abandonado a criminalidade, porém depois de mais uma vez ser perseguido por inimigos no morro onde estava morando com Sandrinha, é alvejado por vários tiros, todos partindo de também pessoas negras, inferiorizando e banalizando a vida do povo preto, o que parte do princípio do racismo estrutural presente entre a população brasileira.

Tereza e Marcos conversam e fica notório o quanto o machismo impera nessa sociedade ainda, e como se faz muito forte, pois ao passo que Tereza compreende o fato do ex-marido ser um homem mulherengo, ter lhe traído diversas vezes e a machucado bastante, não perdoou Helena por tudo o que aconteceu, concluindo que a havia avisado quem era Marcos e que a maior mágoa da sua vida, ela devia a protagonista de Viver A Vida. Mais a frente, o destaque do último capítulo continuou com Luciana, com o anúncio da gravidez e o parto emocionante, onde dá à luz a gêmeos, enquanto que com Helena, que também engravidou, a emoção ficou por conta dos personagens. Em uma das últimas cenas, Helena e Luciana desfilam juntas, essa estando ainda em cadeira de rodas, o que comoveu o público da trama de Manoel Carlos.

Desse modo, com o fim da telenovela, foi notório o tamanho do espaço que Helena perdeu na trama, e como sua personagem não teve a relevância que poderia ter obtido, e o grande fator que contribuiu de fato foi o acidente, que o público não percebeu, mas que foi causado pela própria Luciana que se não tivesse tratado Helena mal e feito julgamento da protagonista sem conhecer realmente sua história, teriam viajado juntas no carro e ela não teria enfrentado a tetraplegia. Além disso, o tapa que recebeu de Tereza como forma de vingar a filha, a deixou ainda menor em Viver A Vida, em plena semana da Consciência Negra, como veremos no capítulo a seguir.

5. A REJEIÇÃO: A HELENA DE TAÍS ARAÚJO

O Dia Nacional da Consciência Negra é comemorado em 20 de novembro. Essa data foi escolhida em homenagem a Zumbi dos Palmares, que morreu no dia 20 de novembro de 1695. Nesta semana, diversas atividades, programas televisivos, eventos educativos e projetos culturais enfatizam a importância que o negro exerce em nossa sociedade, entretanto, essa abordagem deveria ocorrer corriqueiramente, rompendo com o racismo que, infelizmente, ainda persiste em diversos pontos do mundo inteiro.

Em Viver A Vida, Helena não previu que um acidente com suas colegas de trabalho a afetaria de tal maneira, que sua participação na telenovela passaria de protagonista a coadjuvante, transformando toda a carreira de Taís Araújo, sua intérprete, após esse fato. Pior do que esse episódio, foi a relevância de saber que a cena do capítulo 55, onde ajoelhada leva um tapa no rosto de uma mulher branca aconteceu ano dia 16 de novembro de 2009, em plena semana do Dia da Consciência Negra no Brasil, o que tornou a público o racismo existente nos tempos contemporâneos e afirmando que ele se faz presente até os dias de hoje. Esse ato afetou muitos telespectadores e o movimento negro, que se sentiu diretamente atingido pela cena de humilhação e subordinação que Helena passou.

O fato é que um acontecimento como esse causa uma discussão e coloca em cheque a luta pelo racismo que constantemente lutamos todos os dias contra para que acabe e que possamos atuar em nossas obras de maneira que não precisemos ter que passar por esse tipo de situação vexatória. Ir ao ar uma cena de humilhação como a que Taís Araújo enfrentou, levanta a questão da necessidade de buscarmos respostas para esse fato, tendo Helena a culpa pelo ocorrido, ou não.

A personagem já estava sofrendo com a culpa de não ter permitido que a colega de trabalho viajasse ao seu lado e, indiretamente, ter deixado Luciana tetraplégica, humilhá-la ainda mais só contribuiu para mostrar o racismo presente nas tramas brasileiras, e pior, exibi-la na única semana em que se pode ouvir o negro nesse país. Por mais avanços que o povo preto tenha adquirido, ainda é fato que as pessoas queiram ver os negros no Brasil em situação de subserviência, como afirma Araújo (2008), “A representação dos atores negros têm sofrido uma lenta mudança desde a década de 60, quando somente atuavam interpretando afro-brasileiros em situações de total subalternidade.” (p. 980), comprova que o racismo existe e que é fato que ainda caminhamos a passos lentos para o fim dele nas obras da teledramaturgia brasileira.

Havia muita expectativa sobre a primeira protagonista negra a estrelar numa telenovela na faixa do horário nobre, e em setembro de 2009, um dia antes de Viver A Vida estrear, Manoel Carlos concedeu uma entrevista ao Estadão para falar sobre o folhetim, e, principalmente sobre sua protagonista, Helena. Ao ser indagado sobre a personagem de Taís Araújo ser jovem e negra, o autor falou o seguinte a respeito das duas informações:

Só dou importância ao fato de ser jovem. É natural que todos pensem que o principal é que ela é negra, mas não é. Quando comecei a criar a trama, tive vontade de fazer uma Helena menos maternal, porque todas as minhas Helenas viviam em função dos filhos e da família. [...] Cheguei à Taís Araújo porque sempre quis fazer uma novela com ela. Por isso, não importa o fato de ela ser negra. O mais importante é que ela convença como top model, e a Taís, que tem uma beleza internacional, convence (PORTAL ESTADÃO, on-line).

Partindo deste ponto, ficou claro que na opinião do autor, infelizmente, levantar a questão do combate ao racismo estaria fora de cogitação, o que é frustrante, pois a personagem teria sido levada muito mais a sério, abordando as dificuldades da sua vida até atingir o êxito profissional, incluindo o racismo como ponto inicial, atingindo telespectadores que poderiam ter o mesmo sonho que ela, e não ser julgada pelo fato de ter realizado um aborto (que não colaborou no seu desempenho na obra) para conseguir um contrato de trabalho.

Ao ser questionado pelo fato de não levantar a bandeira das questões raciais, Manoel Carlos concluiu: “Não, nada. Até pode surgir, porque tenho outros personagens negros. Mas definitivamente não é uma bandeira. [...] Poderia ser japonesa, para mim não faria diferença.”. O autor relativiza uma realidade existente no Brasil, o racismo que ele renegou na trama, poderia ter sido levantado em diversos momentos, como quando Bruno (Thiago Lacerda) questionou a mãe por ter estranhado ver seu filho namorando Helena, que ele pensou que seria por ela ser negra, mas que na verdade era porque ele é filho do ex marido dela. Ignorar esse fato fez com que as pessoas se sentissem cada vez mais menos interessadas em abordar o racismo no país.

Indo de encontro ao que falou na entrevista, Manoel Carlos não só abordou, como cometeu racismo em Viver A Vida. Logo no segundo capítulo da telenovela, numa conversa com Tereza (Lília Cabral), Luciana (Alinne Moraes), conversa com a mãe sobre o fato de ter flagrado sua rival, Helena e seu pai, Marcos (José Mayer), aos beijos. Durante o diálogo, Tereza diz aos risos: “Você esperava o que do seu pai? Sempre trocou o vinho pela cerveja, o almoço requintado pelo sanduíche do botequim da esquina, os amigos pelos bajuladores, e evidente, é claro, que ele ia trocar uma branca por uma negra (...) é verdade, as garçonetes.”.

Luciana repreende a mãe, mas acaba concordando, quando diz: “as arrumadeiras do hotel, a vizinha bunduda de Petrópolis.”. Tereza continua: “a bunduda de Petrópolis, que eu não me conformo, que foi lavadeira um dia, que eu sei muito bem, aí o marido dela ganha um dinheiro, não sei de onde ele ganhou esse dinheiro, aí se tornou minha vizinha.”. A conversa reflete o racismo estrutural presente na esposa que condena e desconfia da mulher negra, apesar de não ter ficado claro a cor da pessoa falada em questão, e ameniza o fato de ter sido traída pelo marido com seus comportamentos machistas, sendo tudo naturalizado pela fala da mãe e da filha.

Infelizmente esse tipo de discurso perpetua em outras obras mesmo depois de dez anos do fim da trama e ainda temos poucos atores e atrizes negros em papel de destaque, principalmente no horário nobre, que além de não se sentir representado, é obrigado a ouvir falas desse tipo, citadas pela personagem de Lília Cabral. O fato de ter sido enfatizado que a obra seria estrelada por uma atriz negra, era justamente porque antes disso não houve outra. Em um país onde seus habitantes são em sua maioria negra, alimentar essa fala em pleno século 21 só fortalece o fato da segregação que existe nesse país.

Em novembro de 2009, com dois meses da trama já no ar, Manoel Carlos concedeu uma outra entrevista, dessa vez ao Portal R7, onde negou que a rejeição do público por parte da sua Helena, em relação a Taís Araújo era o fato de ela ser negra, afirmando que somos um país de negros e que eles sempre foram reconhecidos no ramo artístico. Para ele, o problema está no preconceito à moda, que ele afirma haver uma resistência contra a Helena de Taís Araújo, pois durante as dez novelas anteriores, a mesma personagem foi interpretada por mulheres mais maduras, exceto Maytê Proença, que também interpretou uma Helena mais jovial, e o fato da protagonista de Taís Araújo ser uma mulher mais nova, o mundo da moda pode ter provocado uma maior rejeição ao público.

Se o autor tivesse enfatizado o fato da realidade dos negros no Brasil, o público certamente a veria de outra maneira, inclusive se em empatizando com sua história de vida, levando em consideração os mais variados episódios de racismo já presentes na televisão desde a sua existência. Devemos levar em consideração que Manoel Carlos insiste em afirmar que a questão de o fato de Helena ter sido rejeitada é apenas por ser jovem e não pelo fato de vivermos em um país racista, mesmo depois da cena em que Helena é agredida por Tereza, o público se manteve contra a protagonista, levando isso até os capítulos finais da trama, mesmo depois de ter conseguido o perdão da própria Lucina. O racismo estrutural de anos fez as pessoas não enxergarem a importância de uma atriz negra na faixa de horário mais importante no país e o quanto isso poderia ter combatido o preconceito dessa sociedade racista e elitista, tal como foi relatado neste capítulo.

5.1. A INTERNET EM 2009: O QUE OS VEÍCULOS DE INFORMAÇÃO, O MOVIMENTO NEGRO E OS TELESPECTADORES FALARAM NA ÉPOCA SOBRE O CAPÍTULO 55

Depois da cena em que Helena levou o tapa, alguns portais manifestaram suas opiniões a respeito do capítulo 55 e o que ele causou ao público, e diversos sites informaram sua indignação pela cena ter ido ao ar na mesma semana em que se comemora o Dia Nacional da Consciência Negra, dia 20 de novembro. Neste dia, 16 de novembro, data do enfrentamento de Helena e Tereza, a audiência da telenovela foi de 37 pontos na Grande São Paulo, segundo dados do portal R7 (na época, cada ponto equivalia a 52 mil domicílios com televisores ligados, em 2019, a quantidade passou a ser de 73.015), um bom índice, levando em consideração que a telenovela obteve média geral de 36 pontos.

O confronto entre Helena e Tereza repercutiu bastante e dividiu opiniões que questionavam o real impacto que ele causou à sociedade. A opinião dos próprios telespectadores se dividiu parte achou que a cena não foi normal e que as pessoas estavam se vitimizando e outros ficaram indignados por uma cena com tamanha violência tivesse ido ao ar. Para o portal Mundo Afro, do site Uol, a Helena de Taís Araújo foi tímida e ofuscada por outros personagens, que se tornaram grandes diante dela, e enfatizou a falta do combate ao racismo na telenovela e nessa obra de Manoel Carlos, que já abordou temas polêmicos em outras obras, como afirma abaixo Cleidiana Ramos, do blog Mundo Afro, do portal Uol, em 28/04/2010:

Claro que todo mundo sabe que novela é entretenimento, mas a mesma emissora alardeia a necessidade de discutir questões relevantes para a sociedade brasileira em suas tramas. Esta inclusive é uma marca do próprio autor que já debateu ética médica, preconceito contra homossexuais, dentre outros temas. Em tempos de debate sobre o racismo existente na sociedade brasileira e da defesa ou combate das ações afirmativas como as cotas para negros nas universidades, seria interessante ver o tema surgir num produto que coloca diante da TV milhões de pessoas (BLOG MUNDO AFRO, on-line).

O blog Observatório de Imprensa foi certeiro ao afirmar que o diálogo de Helena e Tereza parecia ter saído de uma cena de telenovela de época ao ter que ver a protagonista de joelhos pedindo perdão por uma culpa justificável e que Helena era facilmente manipulável. Helena foi inclusive chamada de golpista por querer dar o “golpe da barriga”, porque casou com um homem rico e vinte anos mais velho que ela, mesmo tendo sido enfatizado que ela era uma mulher independente e uma modelo de sucesso internacional. Então, não caberia esse tipo de discurso para Helena, ainda assim esse fato fez complementar a impopularidade da personagem, entretanto o site abordou principalmente como a protagonista foi humilhada por Tereza, como falou Gleiciele Oliveira e Shagaly Araújo, em 1/12/2009:

Em um primeiro momento, a descrição parece referir-se a alguma novela ‘de época’, na qual o tempo e o espaço ficcional situam-se em um Brasil escravocrata e a mulher do senhor de engenho esbofeteia uma de suas mucamas. No entanto, fala-se aqui de mais um capítulo da novela Viver a Vida, cujas personagens concentram-se no Rio de Janeiro do século 21, e que as atrizes Lília Cabral e Taís Araújo, Tereza e Helena, respectivamente, contracenam um dos momentos mais fortes e infelizes da teledramaturgia brasileira (PORTAL OBSERVATÓRIO DE IMPRENSA, on-line).

O movimento negro também reagiu a cena do tapa que Helena levou em plena semana do Dia da Consciência Negra. Um grupo de mulheres do movimento negro prometeu na época protestar contra o autor da novela Viver a Vida, Manoel Carlos. Para a militante do movimento antirracista e historiadora Janete Santos Ribeiro, o problema é o momento em que a cena foi ao ar: “O autor foi infeliz ao colocar essa cena no mês da Consciência Negra, porque remete a uma memória que a gente está lutando há 500 anos para mudar”, informou ao jornal O Dia. A Central Globo de Comunicação comentou a polêmica em nota: “Respeitamos a opinião de todos, mas é importante registrar que novelas são gêneros da categoria ficção, sem compromisso com a realidade. De qualquer forma, é estranho que, mesmo na teledramaturgia, se julgue a pessoa pela cor de sua pele. Uma personagem negra pode, por exemplo, agredir uma personagem branca. Mas, por ser negra, não pode ser agredida por uma branca?”.

A emissora se referiu a personagem de Taís Araújo já ter dado uma bofetada em Luciana, filha de Tereza, representada por Alinne Moraes, como já foi mostrado anteriormente, o que não torna o fato menos culposo e nem como uma desculpa, levando-se em consideração que as cenas desse tipo de violência ocorreram por situações completamente distintas. Isso apenas confirma o racismo estrutural que presenciamos todos os dias, não apenas na ficção, como já é natural observarmos, mas também na vida real, onde somos capazes de combater toda e qualquer situação de racismo que possa afetar a nossa convivência perante a sociedade.

Maria Júlia Nogueira, que foi secretária nacional de Combate ao Racismo da CUT, através do site Vermelho, afirmou que o que aconteceu a Helena naquela situação foi humilhante, relembrando inclusive, o fato de protagonista ter que se envolver amorosamente com um homem branco para conseguir o destaque que precisava na telenovela, no entanto, ao dar ênfase na posição em que a personagem de Taís Araújo se encontrava, o portal revelou, em novembro de 2009: “O reforço da ideia da mulher negra como permissiva e disponível, que levaria os homens (brancos) a cometerem loucuras e a extrema humilhação de Helena na cena, faz acreditar que o autor e a Globo resolveram punir a personagem, colocando-a no "seu lugar", ou seja, de uma pessoa inferior que merece ser surrada a critério daqueles que, efetivamente, são cidadãos plenos de direitos.” [...] “Mais uma vez a personagem negra sofre humilhação, não reage e aceita a violência, acreditando ser merecedora dela.”. Assertivo em seu apontamento, ficou claro óbvio o desconforto de diversos portais, que se indignaram por ter que assistirem algo que já viram a vida toda.

Por fim, o site ainda confirma os avanços ocorridos no decorrer dos anos, mas que a emissora ainda insiste em mostrar o povo preto em situação de subalternidade: “Esse avanço, entretanto, parece que não atingiu certos setores da mídia, ou o que é pior, atingiu e contribuiu para que radicalizassem concepções racistas e manifestassem esse pensamento na sua dramaturgia. O fim dos castigos corporais a negros (resquício de três séculos e meio de escravidão) só foi possível graças a uma rebelião de marinheiros em novembro de 1910. Quase cem anos depois, autores e direção da Rede Globo continuam achando legítimo o espancamento de negros.”, finalizou.

Já o portal Café com Notícia, através do colunista Wander Veroni Maia, em novembro de 2009, eleva o fato de não-culpa de Helena pelo acidente ocorrido a Luciana, falando da importância dos negros nos últimos anos: “Aos poucos, o negro consegue se ver na mídia brasileira – o que já é uma grande vitória. Por exemplo, produtos cosméticos já são feitos para esse grupo (do qual me incluo) que também querem se sentir parte da sociedade. Não se trata de discriminação ou de presunção, mas o mundo é diverso e existem vários padrões de beleza.” Aflorado pela indignação de Helena ter que passar pela humilhação que foi exibida em Viver A Vida, o jornalista ainda fala: “No capítulo da última terça-feira (17/11) da novela Viver a Vida, exibida na TV Globo, foi marcada por uma profunda humilhação, submissão e desvalorização do negro, afetando diretamente o orgulho desta etnia. Boa parte dos veículos de comunicação noticiou esse capítulo como a "Tereza vinga o sofrimento da filha", passando justamente essa ideia de culpa - o que é ridículo.” [...] “Seria a hora ideal para o Maneco colocar uma Helena firme, dona de si e determinada, assim como as Helenas que foram interpretadas por Vera Fischer e Christiane Torloni. A Helena virou a "Geni" de Viver a Vida, assim como a música de Chico Buarque. Todo mundo agora quer jogar uma pedra”, finalizou, revelando claramente que se a cena tivesse ocorrido com outras atrizes, a situação teria sido outra, e afirmando que a partir daquele momento a Helena de Manoel Carlos carregaria a culpa do acidente, querendo, ou não, acabando sendo julgada pelos personagens da trama e pelo público.

Luciana Coelho, também do blog Observatório de Imprensa, da Folha de São Paulo, em novembro em 2009, enfatiza o fato e da violência que há em Viver a Vida, ironiza ao falar das cenas dos tapas que ocorreram na telenovela, tanto de Helena em Luciana, quanto de Tereza em Helena, como uma forma de exagero, mostrando que o autor estaria apelando para alavancar a audiência: “Na novela, entretanto, além da banalização da violência, há um outro elemento, um tantinho mais perverso. Como uma obra ‘aberta’, que responde à reação do público, a coisa vai num crescendo maluco: vocês gostaram do tapa (merecido) de Helena em Luciana? Então, aqui vai mais uma: a negra Helena de joelhos recebe um tapa (merecido) da senhora branca Tereza. Não foi suficiente?”. A colunista coloca entre parênteses o fato do tapa que Helena recebeu ter sido merecido por, de certa forma, ter contribuído para a atual situação de Luciana, e sarcasticamente põe Helena como a negra escravizada que apanha da sua “dona”, Tereza, colocando ambas em uma situação que normalmente passaria em uma obra de época. Isso nos faz transparecer ainda mais como uma cena daquela situação se fez desrespeitosa a toda população preta que via a trama, como o movimento preto que luta incansavelmente para que ocasiões como essas não se repitam.

Em suma, podemos afirmar que algumas opiniões se divergem, mas quase todas concordam que de fato há um racismo velado na cena em que Helena apanha, ajoelhada, de Tereza. É correto afirmar, inclusive, que situações como essas se perpetuam em todas as obras das telenovelas brasileiras e que o público prefere simpatizar - e comemorar - com o branco de classe média, furioso e vingativo, que comete um ato de violência gratuita sobre um preto, do que se compadecer da tristeza e uma culpa questionável de um negro que já vem sofrendo. Sendo assim, neste capítulo vimos o embate de Tereza e Helena, no capítulo 55 da telenovela Viver A Vida, depois que essa leva um tapa daquela, as proporções que esse ato tomou, o que o público e os sites acharam da cena, e o que o movimento negro fez a partir do racismo exibido pela obra na semana do Dia da Consciência Negra, em plena faixa do horário nobre.

Dessa forma, na próxima seção, abordaremos se há racismo nas obras de Manoel Carlos, baseando-se em Viver A Vida, e a opinião de Taís Araújo sobre sua Helena nos dias atuais, o que a atriz aprendeu com o papel que mudou o rumo da sua carreira e como foi um divisor de águas na vida da atriz.

5.2. A REALIDADE DAS TELENOVELAS NO BRASIL: O RACISMO NAS OBRAS DE MANOEL CARLOS

A teledramaturgia brasileira, por não dar visibilidade à verdadeira composição racial que sempre existe no país, acaba por concordar com o uso do povo preto como escudo para evitar a importância dessas pessoas na história e na vida da cultura brasileira, compactuando com a utopia de inferioridade do negro no Brasil e que viver dessa forma sempre foi normal no país. Visto isso, é correto afirmar:

Todos eles, portanto, são obrigados a incorporar na televisão a humilhação social que sofrem os mestiços em uma sociedade norteada pela ideologia do branqueamento, em que a acentuação de traços negros ou indígenas significa a possibilidade de viver um eterno sentimento racial de inferioridade, e uma consciência difusa e contraditória de ser uma casta inferior que deve aceitar os lugares subalternos intermediários do mundo social (ARAÚJO, 2006, p. 77).

Ao retratarmos Viver A Vida, podemos observar as poucas oportunidades em que os negros obtiveram de voz dentro e fora da telenovela, que trazia consigo a primeira protagonista negra na faixa do horário nobre, ainda que o próprio autor não tenha dado importância à relevância dessa informação, parte por ser branco, e parte por não querer levantar a questão do racismo presente na nossa sociedade. Se a própria protagonista foi calada com um tapa na cara, por que ele tocaria em tal assunto? O dramaturgo permitiu a falta de interesse por parte dos telespectadores em reconhecer o racismo estrutural presente na telenovela, aumentando assim, a imperceptibilidade das pessoas em ver o quão a obra estava sendo racista.

O fato de não abordarmos o racismo em telenovelas, além das tramas de época, nos faz levantar as questões da supremacia branca no país e a inferiorização do povo preto, que sempre foi muito pouco representado na teledramaturgia brasileira. Manoel Carlos poderia ter feito da sua Helena de Viver A Vida a mais marcante e reconhecida possível, ao invés de entregar ao público uma personagem sem conflito, sem voz e sem direito algum.

Além de entender como a atriz Taís Araújo enxerga sua Helena nos dias atuais, após dez anos do papel que foi um divisor de águas na sua carreira, buscamos fazer um panorama da discussão na atualidade. Aos poucos, atores e atrizes pretas têm conquistado mais protagonismo na teledramaturgia brasileira.

O autor nunca colocou nenhuma outra Helena negra antes e nem depois de Taís Araújo, tendo sido ela, a única atriz a protagonizá-la e representar um papel que sempre foi entregue a mulheres com uma idade mais avançada. A atriz Regina Duarte, por exemplo, interpretou três vezes a personagem nas telenovelas em anos distintos, foram elas: História de Amor (Rede Globo, 1995); Por Amor (Rede Globo, 1997) e Páginas da Vida (Rede Globo, 2006). O talento da atriz é incontestável, no entanto, por que não convidar outras atrizes, inclusive negras, para interpretar um papel já bastante conhecido no Brasil, ao invés de entregá-lo a mesma profissional durante anos? Após as pessoas estarem habituadas a ver Regina Duarte como Helena, o público certamente estranharia ver outra atriz dando vida a uma personagem mais jovial, independente e com um grande potencial de realizar uma mudança positiva no cenário da teledramaturgia no Brasil.

Desse modo, era óbvio que haveriam comentários e críticas de todos os meios de comunicação, embora o público tivesse uma empatia por uma personagem já conhecida das telenovelas, pois já estava acostumado a um determinado padrão, não gostou de ver uma jovem preta no papel principal na faixa do horário nobre da Rede Globo. O principal fator que fez com que a Helena de Taís Araújo fosse criticada e rejeitada pela audiência, além de ter sido o próprio papel, que não permitia a atriz crescer de forma alguma em Viver A Vida, foi o fato do racismo estrutural do autor, pois não pensou em abordar o racismo na trama central da sua telenovela, que tinha como protagonista uma mulher negra e do público, culpabilizando a atriz pelo fraco desempenho no seu papel, mesmo não havendo outra forma de fazê-lo.

Vale ressaltar que durante anos nas obras de Manoel Carlos que têm Helena como protagonista, não foi constatado um núcleo de elenco com pessoas negras nas obras Felicidade (1991) e História de Amor (1995), a não ser o dos empregados. Com exceção de Baila Comigo (1981), que havia um personagem negro pertencente a um determinado núcleo, que era Otto Rodrigues, interpretado por Milton Gonçalves, essa realidade mudou apenas em Por Amor (1997), quando as personagens Márcia (Maria Ceiça), Maria (Maria Alves) e Jorge (Jorge Coutinho) faziam parte de um núcleo fixo da trama e não eram empregados. No entanto, esse número ainda é inferior, levando em consideração a quantidade de personagens brancos que faziam parte da telenovela e eram protagonistas, sinalizando desde sempre a necessidade dessa mudança que sempre foi presente dentro da nossa sociedade.

5.3. OS IMPACTOS PESSOAIS DE UMA REJEIÇÃO JAMAIS VISTA

Tomar para si a responsabilidade de atuar em um papel diferente de tudo o que já fez, tendo esse mesmo papel passado por outros artistas, causa um burburinho e comparações, muitas vezes muitos julgamentos, como foi o caso de Taís Araújo, com a Helena de Viver A Vida. As pessoas não estavam acostumadas a ver uma Helena jovem, com uma carreira de modelo consolidada e negra. A partir desses fatos, a personagem passou a ter uma rejeição jamais vista na história das Helenas já vividas em outros folhetins.

A atriz passou por diversos problemas desde o início da telenovela e carregou esse fardo até o fim da trama de Manoel Carlos, sendo muitas vezes acusada de não interpretar bem sua personagem, e isso ter causado a baixa audiência de Viver A Vida, o que não é verdade, pois desde 2004, as telenovelas brasileiras já vinham em uma queda gradativa, e após as plataformas de streaming terem chegado ao Brasil, essa situação se tornou ainda mais cotidiana.

Por ter se cobrado bastante, a atriz também acreditou que teria o retorno do público, pois estava acostumada a ser reconhecida pelos papéis que já protagonizou na televisão. Ao perceber que Helena não estava indo como o planejado, a atriz revelou anos depois sua frustração pela situação que estava vivendo, quando disse ao portal Marie Claire em 2017: “Larguei tudo e voltei. Ou seja, não aprendi francês e ganhei outro trauma, a Helena. Não chegou a ser um trauma, mas é uma frustração. Era a primeira Helena negra das novelas e ela tinha que ser um arraso”.

O fato de Helena ser negra deveria ter sido um ponto positivo, no entanto, a atriz recebeu uma enxurrada de críticas, acompanhadas do racismo estrutural que se faz presente até os dias atuais. Não levantar a bandeira contra o racismo na trama contribuiu para o enfraquecimento de Helena em Viver A Vida, visto que todo o núcleo ao redor de Helena era composto por atores e atrizes negros, principalmente sua família. Entretanto, a cada capítulo, Helena foi perdendo espaço, pois seu personagem se perdeu, como revelou à Marie Claire, também em 2017: “Dramaturgicamente, era fraca, sem conflitos, tinha a vida ganha. Se eu tivesse forças, teria a transformado numa vilã. Mas estava tão abalada com as críticas, tão frágil, que não tinha forças para pensar”.

Com o passar dos anos, Taís Araújo foi percebendo que sua Helena acabou lhe ajudando e dando forças para continuar seu trabalho. As críticas a ajudaram a superar a fase difícil que viveu em 2009 e 2010. Ao site Notícias da TV, em setembro de 2015, ela afirmou: “Minha Helena foi um fracasso e, depois dela, eu virei outra atriz”, admitiu a atriz [...] “Comecei a entender que protagonista não é necessariamente um bom personagem. Tem tantos personagens que são muito mais ricos e que te proporcionam desafios maiores”.

Taís Araújo destacou que a Helena foi importante nesse processo: “para eu saber que tipo de atriz eu quero ser, que tipo de papel eu posso fazer”. De qualquer forma, o papel foi importante para o crescimento de Taís Araújo como pessoa e como profissional. Em seu perfil pessoal no Instagram, em maio de 2018, a atriz fez uma postagem em forma de agradecimento pelo papel que interpretou em 2009. Para a atriz: “E não é que passados oito anos vi que deu certo?! Deu muito certo, deu mais que certo. Me transformou, me fez repensar minha carreira, o tipo de atriz eu queria ser, o caminho que eu queria seguir. E me deu irmãos de vida”, e finaliza: “Então, no dia de hoje, quero fazer aqui o que não fiz no fim da novela: obrigada, Helena, por ter mudado a minha vida pra melhor. Eu amo vc, acredite!” (sic).

No texto, Taís Araújo faz uma crítica a si por ter colocado uma grande expectativa no seu papel e agradece ao personagem que mudou sua carreira e a fez se enxergar de maneira como nunca feito antes, a colocando de maneira a observar por outros parâmetros como levaria sua carreira daquela fase em diante. Já em setembro de 2019, em outro post (Figura 9), a atriz também realiza uma reflexão do que viveu entre 2009 e 2010, de maneira mais concreta, ela aceita que precisou passar por aquele tipo de situação para poder de refazer dentro da própria carreira.

FIGURA 9 – POSTAGEM DE TAÍS ARAÚJO EM COMEMORAÇÃO AOS 10 ANOS DE HELENA

Fonte: Printscreen da postagem extraída do dia 16 de setembro de 2019.

Em setembro de 2019, Taís Araújo fez uma releitura do que viveu há dez anos atrás. Atualmente, ela enxerga que o papel foi importante para ela e para outras pessoas que a acompanharam, como as meninas que se viram reconhecidas na cor e no cabelo, algo jamais visto dentro da faixa do horário nobre no país. Esse tipo de opinião contribui para o crescimento do artista, que sempre precisa de um feedback, mesmo que às vezes ele não seja positivo, ou como esperado, conforme a postagem abaixo:

Há 10 anos, neste horário, estreava Viver a Vida. A novela que mudou minha história. Tenho algumas mudanças na minha história - Xica da Silva foi uma delas. Mas foi com Viver a Vida que eu tive a chance, mais madura, de rever minha profissão, minhas escolhas, minha vida. Quando a novela estava no ar, fiquei muito confusa sem saber o que as pessoas estavam realmente achando, recebi críticas duras e me apeguei a elas. Ao mesmo tempo, quando ia até São Paulo, naquele aeroporto onde parte do Brasil se encontra, eu era saudada pelas pessoas. Claro que a gente só se apega ao que é ruim, né? Como hoje em dia com os comentários da internet… Passados os anos, eu tenho recebido tantas, mas tantas mensagens de meninas, agora já mulheres, que se sentiam representadas pela personagem, escuto falar tanto do cabelo crespo assumido numa novela da 21h, escuto tantas coisas lindas que tenho certeza que o saldo foi mais que positivo. Além de ter ganhado amigos pra toda uma vida. Então, 10 anos depois, com o coração bem cheio de amor, digo: obrigada, Maneco; obrigada, Jayme; obrigada a todo elenco e equipe, que estiveram comigo nesse processo tão importante da minha vida. E obrigada, Helena, por me abrir os olhos, o coração e me dar coragem pra levantar e seguir de cabeça erguida em busca do que eu acredito. E ainda mais obrigada por me fazer entender que não existe jogo ganho e que o barato dessa profissão é o eterno recomeçar (ARAÚJO, 2019, on-line).

A cada novo papel, um artista precisa se reinventar e se entregar ao personagem que foi dado para atuar. Da expectativa à frustração, Taís Araújo precisou aprender a lidar com sua nova realidade e o que a vida lhe proporcionou naqueles anos em que lá viu sua carreira desmoronar. Viver com duras críticas não é fácil, e como a própria atriz disse, sua Helena abriu seus olhos para que ele saísse da sua zona de conforto e partisse para a zona de confronto.

Viver A Vida foi uma telenovela que tinha como palavra-chave a superação e foi assim que Taís Araújo fez, superou cada obstáculo e fez papéis memoráveis que contribuíram para ser quem ela é hoje. Desse modo, a trama a ajudou a sair da redoma da sua carreira a entregou à teledramaturgia papéis dignos e de aceitação pessoal. O que pudemos observar neste capítulo nos faz pensar em como algo que nos fez mal em determinado momento da nossa vida, nos fortalece para podermos seguir em frente. Percebemos que a cada passo que damos, crescemos um pouco mais, ainda que esses passos sejam curtos, vemos pequenas mudanças do povo preto na teledramaturgia brasileira e a ascensão dessas pessoas que sempre foram tão humilhadas e reduzidas a pequenos papéis. Notamos que para acertar, mesmo que não tenhamos culpa, é necessário errar bastante para ter a certeza que para algo dar certo, o conjunto todo precisa trabalhar de maneira igual, e que para isso acontecer à união sempre será a palavra certa.

Taís Araújo pôde perceber que com o passar dos anos viu que sua Helena contribuiu para seu crescimento pessoal e como artista, viu no personagem que transformou sua vida, alguém que necessitava encarar para poder crescer. Desse modo, percebemos que a atriz progrediu e que essas mudanças a amadureceram como profissional e mais do que isso, notou que as críticas sempre serão uma forma de aprendizagem.

6. APONTAMENTOS FINAIS

Viver a Vida foi uma trama com bons assuntos apresentados e que faz parte do cotidiano de vários brasileiros. No entanto, Manoel Carlos teve em suas mãos o poder de abordar um tema crescente e presente desde sempre na sociedade brasileira. Taís Araújo, além de ter sido a primeira e única Helena negra do autor, foi a primeira protagonista negra na faixa do horário nobre da Rede Globo e escolhida pelo autor para dar vida à sua personagem principal.

Por não ter vivência de fato do que é conviver com o racismo, afinal, Manoel Carlos é branco e morador do bairro do Leblon, zona sul do Rio de Janeiro, seria natural que por mais que tenha escolhido uma atriz negra para dar vida à sua Helena, pouco importou esse fato e a abordagem do racismo na sua trama. De forma errônea, Viver a Vida passou longe de debater o racismo dessa sociedade elitista e preconceituosa, e quando abordou foi de forma debochada e superficial. Não adianta termos uma protagonista negra se a narrativa da trama é racista, com personagens que não levantam bandeira alguma e por diversas vezes, são submissos, e por esse motivo, é correto afirmar abaixo:

O racismo brasileiro apareceu na telenovela somente como uma das características negativas do vilão, e não como um traço ainda presente na sociedade e na cultura brasileira. Até o final dos anos 90, poucas telenovelas trataram a discriminação racial contra o negro brasileiro de forma direta. Na teleficção, assim como na nossa sociedade, a vergonha de demonstrar o próprio preconceito, ou o “preconceito de ter preconceito”, conforme alertava o sociólogo Florestan Fernandes, criou o tabu que inibe a manifestação aberta do racismo e fortaleceu o consenso em torno do mito da democracia racial brasileira (ARAÚJO, 2008, p. 981).

Quando olhamos essas situações por trás das câmeras, fica ainda mais evidente a falta de representatividade do povo negro no audiovisual brasileiro. Quantos autores de telenovelas negros conhecemos? Quantos produtores? Não temos nenhuma representatividade no âmbito das tramas brasileiras que tenha autoria de pessoas negras no que se refere às telenovelas, muito pouco foi feito para que essa visão fosse mudada e, ainda assim, não pudemos ver uma novela escrita por alguém negro, e por esse motivo quando há pessoas negras na grande maioria das tramas, e o racismo se torna um ponto a ser abordado, todas as questões são vistas do ponto de vista da branquitude, como no caso de Viver A Vida, onde havia um número considerável de personagens negros, mas que em nenhum deles foi levantada a questão racial.

Além da deficiência física, o outro ponto delicado abordado por Manoel Carlos foi o alcoolismo, representado pela atriz Bárbara Paz, que deu vida a Renata. Ademais, os personagens negros não construíram uma narrativa em que os telespectadores pudessem se sentir representados. É necessário que se abra espaço aos autores, diretores e roteiristas negros, para que mais pessoas possam ter a chance de demonstrar seu trabalho de maneira que o público se reconheça naquilo que está vendo. Desses profissionais que estão na produção atualmente das telenovelas, nenhum deles é negro, e isso nunca mudou. Vemos então, a necessidade de mudar essa realidade, pois os negros nesse país nunca tiveram oportunidade alguma, e quando tiveram, foram para trabalhos em que não se houve a representação dessas pessoas. Dito isso, de autores a atores, o negro sempre esteve em situação de inferioridade, como citado abaixo:

Na telenovela, a melhor oportunidade reservada para o mestiço, que sempre foi celebrado nas discussões teóricas como a melhor representação do verdadeiro brasileiro, é na representação do ‘povão’, ou seja, transeuntes, malandros e moradores dos bairros populares. Os atores marcadamente mestiços, independentemente da fusão racial a que pertencem, se trazem em seus corpos e em suas faces uma maior quantidade de traços não-brancos, são sempre vítimas de estereótipos negativos (ARAÚJO, 2008, p. 981).

Desse modo, Viver A Vida, que poderia ter colocado um ponto final em décadas de representações de estereótipos, estigmatizando atrizes negras como profissionais de cozinha, babás e domésticas, acabou gerando críticas por parte dos telespectadores e do movimento negro, que não se calou diante da exposição de uma personagem que poderia ter mudado a história da televisão brasileira. Diferente de Da Cor do Pecado (João Emanuel Carneiro, Rede Globo, 2004), em que Preta, também protagonizada por Taís Araújo, foi a primeira atriz negra a protagonizar uma telenovela na faixa das 19h, não admitia qualquer acusação de racismo, e sofreu diversos durante o período em que a trama foi exibida, a Helena era apática à própria realidade, afinal, o assunto, sequer, foi abordado de forma concisa.

Nos últimos anos, apesar de várias tramas terem retratado questões sociais bastante presentes e problemáticas no Brasil, incluindo o racismo, todas vieram de autores brancos. O tema foi explorado em folhetins de todos os horários da Rede Globo, com personagens de todas as faixas etárias, que passaram por situações vexatórias e criminosas. A telenovela Amor de Mãe (Manuela Dias, Rede Globo, 2019), exibida às 21h, por exemplo, elucidou como o racismo estrutural existe e sempre foi praticado no país. Na cena em que o garoto Thiago (Pedro Guilherme) foi confundido com um pedinte e é maltratado, simplesmente pelo fato de ser negro e estar em um espaço geralmente frequentado por pessoas brancas. Se a cena fosse ao ar, dez anos antes, na época em que Viver A Vida estava sendo exibida, provavelmente, a situação seria vista como natural. Já em Bom Sucesso (Rosane Svartman e Paulo Halm, Rede Globo, 2019), que foi exibida na faixa das 19h, a cena de racismo estrutural aconteceu com Lulu (Carla Cristina Cardoso), que estava em um evento do lançamento de um livro quando uma convidada branca a mandou limpar o banheiro, acreditando que ela fazia parte da limpeza, simplesmente por ser a única negra na festa. Apesar dessas cenas representarem o que o negro comumente sofre no Brasil, elas foram escritas por pessoas brancas, que não têm qualquer vivência do que é sofrer racismo num país em que 54% da sua população é preta.

Dito isto, faz-se necessária a representatividade de um povo que sempre esteve a margem de qualquer oportunidade nesse país. É importante ressaltar que os próximos profissionais negros tenham maior visibilidade e reconhecimento diante e por trás das câmeras. Não adianta apenas valorizarmos os artistas negros, se não ajudarmos no crescimento de outros negros que fazem o audiovisual acontecer, dando voz às pessoas que nunca tiveram a chance de se equiparar a uma sociedade elitista e branca, que sempre viu o negro como objetificação. Além disso, colocar um personagem negro em situação de destaque, com uma profissão reconhecida, e não falar como ele chegou até o êxito dela, explicando as dificuldades e os problemas enfrentados por ele, na tentativa de mostrar o não-preconceito de uma sociedade racista, torna-se tão errado quanto reduzir personagens negros a situações de subalternidade na teledramaturgia brasileira.

Sendo assim, é importante que se haja mais representatividade negra nesse país. Produções audiovisuais escritas, produzidas e atuadas por mais pessoas negras, pois a luta pela igualdade racial nas produções não pode e nem deve parar. Nessa sociedade racista, como já falou Ângela Davis: “não basta não ser racista, é necessário ser antirracista”, essa fala sempre perpetuará pelas gerações seguintes. O que mais queremos em pleno século 21, é não ter que provar que somos capazes de realizar um trabalho que qualquer pessoa branca poderia fazer e ser reconhecida por muito menos, pois não cabe mais o discurso de que todos são iguais se o racismo, a falta de políticas públicas e as desigualdades imperam nesse país que sempre tratou o povo preto com menosprezo e inferioridade. Enquanto não formos reconhecidos por quem somos, haverá luta e resistência para que o povo preto possa ligar a tv com sua família e veja uma telenovela em que ele se sinta representado e acolhido pelo sistema, como sempre deveria ter sido. Para que isso aconteça, é necessário que o povo brasileiro perceba quantos direitos ao povo preto lhe foi retirado e quando isso puder acontecer, seremos uma nação finalmente igualitária.

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1 Avenida Brasil é uma telenovela brasileira produzida pela Rede Globo e exibida no horário das 21 horas de 26 de março a 19 de outubro de 2012 [...] Escrita por João Emanuel Carneiro [...]

2Joel Zito Araújo é doutor em Ciências da Comunicação e Artes pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo – ECA/USP. Cursou pós-doutorado na University of Texas. Lecionou no programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Anhembi-Morumbi, em São Paulo, coordenou o Curso de Pós-Graduação Lato Sensu de Cinema na Universidade de Cuiabá, desenvolveu atividades no Museu de Imagem e do Som de Cuiabá e atuou no Curso de Pós-Graduação Lato Sensu de Cinema de Cabo Verde (Mindelo) no M_EIA – Instituto Internacional de Arte até 2011.

3A Rede Globo foi notificada em maio de 2018 pela Coordenadoria Nacional de Promoção de Igualdade de Oportunidade e Eliminação da Discriminação no Trabalho do Ministério Público do Trabalho.

4Memória Globo é a abreviação de Projeto Memória do Grupo Globo: uma série de iniciativas das empresas de comunicação do grupo da família Marinho que visa preservar a memória dos veículos que o compõem.

5Em 2017, José Mayer foi acusado de assédio sexual pela figurinista da Rede Globo Su Tonani. Após a grande repercussão do caso, o ator ficou afastado da TV e algumas atrizes da emissora criaram a campanha “Mexeu com uma, mexeu com todas”, alcançando grandes números de revolta na internet, o que resultou na demissão do ator, no final de 2018.

6 Enquadramento utilizado quando a câmera está abaixo do nível dos olhos e voltada para cima. 


Publicado por: Francisco Ewerton Aleixo da Silva

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