ARTICULANDO CORPOREIDADE E CONSCIÊNCIA SÓCIO-HISTÓRICA ATRAVÉS DO TRABALHO COM A DANÇA AFRO.

Arte e cultura

Os resultados da aplicação da oficina “Concordança:corpo, mente e história através da dança afro”, à adolescentes de classe média, da zona sul da cidade de São Paulo.

índice

Resumo: O presente artigo descreve os resultados da aplicação da oficina “Concordança:corpo, mente e história através da dança afro”, à adolescentes de classe média, da zona sul da cidade de São Paulo. Tendo como principal ferramenta de pesquisa, a dança de origem africana, como tambémexercícios de educação somática e discussões histórico-sociais sobre a contribuição das influências do povo africano inseridas na cultura brasileira e os preconceitos raciais ainda existentes na sociedade pelo mesmo.

Palavras-chave: Dança afro. Adolescentes. Educação somática. História.

1. Introdução

Atualmente no Brasil existem diversas danças inseridas na cultura de massa, sendo a maioria advindas da cultura afro-brasileira. Porém, essas danças contém poucos aspectos originais desta, restando apenas alguns resquícios de seu movimento (muitas vezes deturpado) e perdendo-se a riquíssima base histórica significativa do povo Africano inserido no Brasil.

Em nosso mundo contemporâneo a tecnologia e a aceleração impostas, transformam as noções de espaço e tempo de nossos movimentos. Por isso, a arte da dança deve cumprir seu papel de educação corporal, trabalhado a liberdade corporal através da prática do movimento e a estimulação da criatividade inerente ao ser humano, assim concretizando fisicamente (corporalmente) o desenvolvimento de idéias e sentimentos. Desta maneira, a dança tem o poder psicológico de expressar os sentimentos mais profundos, impulsionar o inconsciente e até mesmo transportar para os movimentos corporais sua percepção individual dos aspectos da vida (CHENEY, 1977).

Em suma, o movimento possui identidade própria (MARQUES, 2003), auxiliando a concentração, a comunicação e a identificação de sensações.

Tendo em vista todos esses aspectos, pode-se perceber que a miscigenação de origem africana inserida no Brasil pelo longo de sua história, vinda com os escravos africanos, possui grande influencia na cultura brasileira, principalmente no aspecto da identidade corporal que constitui o povo da mesma.

Sendo assim, as danças de descendência afro, com suas cores, metais, alimentos, domínios no universo e saudações, “povoam a cultura brasileira desde os tempos da colonização e estão presentes em todas as nossas artes, notadamente no samba, um dos símbolos internacionais da brasilidade” (REGO, 1994). Mas, como aconteceu em toda parte do continente americano onde houve escravos africanos, a música e a dança feita pelos afro-descendentes foram inicialmente desprezadas e mantidas na marginalidade, até que ganhou certa notoriedade no início doséculo XX (ALBUQUERQUE, 2006) e se tornou mais popular nos dias atuais, ainda que, exista até hoje uma parcela de preconceito e racismo referente a essa cultura em nossa sociedade. Portanto, a oficina de iniciação á dança afro, teve como principal foco buscar através da investigação do movimento e da leitura de textos acadêmicos, resgatar a identidade do povo escravo africano que se inseriu na história e na formação da população brasileira.

2. Fundamentação teórica

As sequências didáticas das aulas tiveram como base teórica, estudos de diversos pesquisadores da área da dança e movimento corporal, todos tendo em comum a junção da percepção corporal com a contextualização crítica de seus movimentos.

Com base em alguns estudos de Laban1 e Klaus Vianna2, estes dando mais ênfase ao aspecto da consciência do movimento corporal, foi preparado o corpo para a dança afro que foi trabalhada em seguida.

Já no aspecto da inserção da dança afro e diversidade cultural atrelada á ela, foi tido como base teórica os pensamentos da pedagoga e especialistaem dança-educação Isabel Marques. Enfatizando a mesma, uma citação de seu livro “Dançando na escola” (2003):

A linguagem da dança é uma área privilegiada para que possamos trabalhar, discutir e problematizar a pluralidade cultural em nossa sociedade. Em primeiro lugar, o corpo em si já é expressão da pluralidade. Tanto os diferentes biótipos encontrados hoje no Brasil quanto a maneira com que esses corpos se movimentam, tornam evidentes sócio-culturais nos processos de criação em dança.(...) na dança também estão contidas as possibilidades de compreendermos, desvelarmos, problematizarmos e transformarmos as relações que se estabelecem em nossa sociedade entre etnias, gêneros, idades, classes sociais e religiões(p.37 - 38).

Levando em conta este quadro, o Brasil sendo um país multicultural devido á miscigenação contida na formação da população brasileira, não pode ser dito uma nação branca europeizada, mas sim, enfatizando, um país essencialmente mestiço, com uma grande população negra e uma cultura em grande parte influenciada por suas origens negras e indígenas. E do ponto de vista étnico, grande parte da população brasileira é negra, mulata– mestiça do negro com o índio.

Pode-se observar este conceito no livro de Andrade (1997, p.16):

Se é grande a influencia étnica do negro no Brasil, muito expressiva é a sua influencia na cultura, na alimentação, na religião, etc. Assim, grande parte da música popular brasileira, como o samba e o maracatu, é de evidente influencia africana.(...) Ao lado da música, há também uma grande influencia da dança, a ela ligada.

Assim, o desenvolvimento da oficina “Concordança”, teve como base inicial a dança como uma forma de educação corporal atingindo o âmbito da consciência sócio-histórica da pluralidade cultural enfocada no afro-descendente brasileiro, atingindo também por influência dos participantes uma pequena pesquisa da historia do street dance dos EUA, fazendo relações e distinções com a dança afro-brasileira.

Metodologia

A aplicação da oficina “Concordança: corpo, mente e história através da dança afro”, foi feita na Escola Estadual Júlio Ribeiro dentro do “Projeto Escola da Família”, que abre a escola aos finais de semana para variadas atividades culturais, artísticas, esportivas e de formação profissional.

Os participantes da oficina foram adolescentes moradores da região, de faixa etária entre 15 á 19 anos de idade.

Foram aplicadas quatro aulas no período de um mês, totalizando seis horas/aula. Tendo como conteúdo programático:

- Sensibilização corporal.

- Anatomia básica do sistema ósseo.

- Estudo teórico sobre a história da Dança Afro e Street Dance.

- Prática corporal - Dança Afro.

- Estudo prático dos temas de movimento - peso, fluência, apoios dos pés e eixo global (sensibilização da postura corporal).

- Sensibilização musical para a Dança Afro.

Todas as aulas foram focadas no estilo de aprendizagem dos alunos, tentando identificar sempre, por parte da docente, as influências culturais que desenvolveria nos mesmos a vontade de aprender. Sendo assim, foi incorporado á oficina a discussão histórico-social sobre o estilo de dança chamado street dance, pois os participantes praticavam a mesma.

Não pare agora... Tem mais depois da publicidade ;)

O street dance ou dança de rua, é originalmente uma dança de origens negras, provavelmente da Jamaica (ALVES, 2004), que se expandiu e se difundiu nos subúrbios de Nova York. Desta maneira, pode-se desenvolver nas aulas da oficina, uma roda de conversa sobre as semelhanças e diferenças da dança negra no Brasil e nos EUA, como também a sua inserção na sociedade.

No tópico a segu ir encontram-se as sequências didáticas das aulas de maneira detalhada.

2.1. Sequências didáticas das aulas

1ª aula

- O que é dança?

- Apresentação corporal.

- Níveis e kinesfera.

- Consciência corporal.

- Relaxamento.

- Texto: Dança afro.

- Discussão inicial e sondagem dosconhecimentos prévios dos participantes sobre o que é dança.

- Exercício de apresentação através dos gestos.

- Trabalho dos níveis (alto, médio e baixo), juntamente com o aspecto da kinesfera (espaço).

- Trabalho de atenção a postura (coluna encaixada).

- Exercício de consciência e relaxamento através da atenção ao corpo com os olhos fechados (“skaner corporal”).

- Leitura coletiva do texto: Dança afro.

- Conclusões e explicações sobre o texto.

2ª aula

- Anatomia do sistema ósseo.

- Sensibilização corporal dos pés com caminhada.

- Iniciação ao movimento da dança afro.

- Alongamento e relaxamento.

- Apresentação do esqueleto humano e nomenclatura básica.

- Toque/sensibilização no próprio corpo a partir do que foi visto no esqueleto artificial.

- Exercício de caminhada com atenção aos ossos do pé e suas articulações em diferentes dinâmicas do caminhar (lento, rápido, etc.).

- Caminhada com balanço corporal (pés, flexão de joelhos e cintura pélvica). Obtendo a iniciação ao movimento de dança afro.

3ª aula

- Alongamento e aquecimento.

- Passos de dança afro.

- Relaxamento.

- Texto: Origens históricas do street dance.

- Conclusões sobre texto.

- Alongamento e aquecimento em roda, trabalhando com as articulações.

- Reprodução de passos da dança afro, usando as articulações inferiores e agregando em seguida as superiores.

- Relaxamento corporal através de alongamento.

- Leitura do texto: Origens históricas do street dance.

- Explicação e entendimento coletivo sobre o texto.

4ª aula

- Sensibilização dos pés e corpo através do toque.

- Exercício de fluência e peso.

- Discussão final das aulas e dos dois textos.

- Manipulação/massagem dos próprios pés, sentindo os ossos e articulações.

- Percussão de todas as partes do corpo com as palmas das mãos em concha e sensibilização do rosto com os dedos.

- Construção de célula coreográfica, apresentando duas vezes: uma vez pesado e uma vez leve.

- Questões para nortear o entendimento do exercício: O que diferencia as duas células coreográficas? Quais aspectos do movimento corporal que as diferenciam? (força, peso, tônus muscular, fluência)

3. Discussão dos resultados

Através das discussões no decorrer do curso e principalmente na aula de finalização, pode-se obter através dos próprios alunos a explanação dos resultados da oficina. Onde foram abordados variados temas, dentre eles a importância de se contextualizar uma aula de maneira crítica e significativa confrontando com o modelo tradicional ainda muito presente no ensino formal, em que os participantes afirmam conviver.

Também foi apresentado um ponto negativo: o reduzido tempo em que ocorreram as aulas, onde poderia acontecer em um curso mais longo um tempo maior de estudo e pesquisa tanto teoricamente como corporalmente, e assim agregar um maior repertório de conhecimento sobre o assunto da corporeidade em geral e da construção da cultura corporal brasileira.

Já na discussão sobre as semelhanças e diferenças entre as danças de origem africanas executadas no Brasil e nos EUA, esta última acrescida na grade da oficina devido as influencias dos participantes da mesma, atingiram as expectativas de construção do conhecimento. Pois, os participantes conseguiram apontar o seguinte:

Semelhanças:

- As duas danças apresentam em sua origem a expressão como forma de comunicação dos sentimentos.

- Presença da energia vital do povo africano.

- O uso intensivo das articulações do corpo.

Diferenças:

- A base da dança de origem africana no Brasil é mais voltada à religiosidade e o street dance (EUA) se concentra em sua origem na crítica social da situação do negro no país.

- Maior uso do centro de gravidade do corpo (cintura pélvica) e das articulações/flexão dos membros inferiores na dança afro brasileira.

4. Considerações finais

As pesquisas realizadas através das aulas na oficina “Concordança: corpo, mente e história através da dança afro”, mostraram-se significativas para os participantes da mesma. Atingindo o objetivo de unir reflexão cognitiva com trabalho corporal.

Tendo este objetivo como foco principal da pesquisa, pode-se considerar que o trabalho com a dança de origem africana, pôde auxiliar no entendimento da cultura corporal brasileira dos participantes da oficina, situando o afro-descendente na pluralidade sócio-histórica e cultural na formação da população do Brasil.

5. Referências

ALVES T. Pergunte a quem conhece: Thaíde. São Paulo: Labortexto Editorial, 2004.

ALBUQUERQUE, WlamyraR. de;FILHO, Walter Fraga. Uma história do negro no Brasil. Salvador: Centro de Estudos Afro-Orientais;Brasília: Fundação Cultural Palmares, 2006.

ANDRADE, Manuel Correia. O Brasil e a África. São Paulo: Contexto, 1997.

CHENEY, Sheldon (Ed.). The Art of the Dance, Isadora Duncan. Nova York: Theater Arts Books, 1977.

HUNGER, Caroline, VALDERRAMAS, Caroline. Origens históricas do Street Dance. Disponível em: http://www.efdeportes.com/efd104/street-dance.htm

LABAN, Rudolf. Dança Educativa Moderna. São Paulo: Ícone, 1990.

MARQUES, Isabel. Dançando na Escola. São Paulo: Cortez, 2003.

NAVAS, Cassia; LOBO, Lenora. Teatro do Movimento. São Paulo: LGE, 2003.

REGO, José Carlos. Dança do Samba: Exercício do Prazer. Rio de Janeiro: Aldeia, Sindicato Nacional dos Editores de Livros, l994.

MILLER, Jussara. A escuta do corpo, Sistematização da técnica Klauss Vianna. São Paulo: Summus, 2007.

1Rudolf (Jean-Baptiste Attila) Laban, também conhecido como Rudolf Von Laban. Dançarino, coreógrafo, considerado como o maior teórico da dança do século XX. Dedicou sua vida ao estudo e sistematização da linguagem do movimento em seus diversos aspectos: criação, notação, apreciação e educação.

2Klauss Vianna(Belo Horizonte, 1928 — São Paulo, 1992) bailarino e coreógrafobrasileiro. Escreveu o livro A Dança, e desenvolveu um método próprio para a expressão corporal na dança e no teatro, que seu filho Rainer posteriormente viria a sistematizar (a chamada Técnica Klauss Vianna). 
 


Publicado por: Arantxa Melaine de Lima

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do site por meio do canal colaborativo Monografias. O Brasil Escola não se responsabiliza pelo conteúdo do artigo publicado, que é de total responsabilidade do autor. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.