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O uso de tecnologias limpas como forma de controle da geração de resíduos nos processos de produção de café

Agricultura e Pecuária

Inovação, tecnologias limpas, controle de geração e produção de café.

índice

  1. 1. RESUMO
  2. 2. INTRODUÇÃO
  3. 3. OBJETIVOS
    1. 3.1 OBJETIVO GERAL
    2. 3.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS
  4. 4. JUSTIFICATIVA
  5. 5. REFERENCIAL TEÓRICO
    1. 5.1 PANORAMA ECOLÓGICO
    2. 5.2 DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
      1. 5.2.1 Alguns Conceitos e Princípios Básicos
      2. 5.2.2 A Agenda 21
      3. 5.2.3 Os 3 Rs
      4. 5.2.4 Gestão ambiental empresarial
      5. 5.2.5 Gestão ambiental como fator de concorrência
      6. 5.2.6 As definições para o tema variam de acordo aos segmentos em que se enquadram. Para (PORTER, 1995, pg. 19), “A Gestão Ambiental vem se tornando um plus na competitividade”. Ao formular esse pensamento o autor tenta evidenciar como a Gestão Ambiental deve ser encarada nas organizações, como um fator de concorrência, ou seja, um modo de se adquirir vantagens competitivas; como fator social (exigências dos consumidores e ações de entidades não-governamentais) e ainda como fator econômico e político (imposição de restrições e multas), exercendo pressões adicionais para a introdução do gerenciamento ambiental nas organizações.
    3. 5.3 A PRODUÇÃO MAIS LIMPA (P+L)
      1. 5.3.1 As Tecnologias Limpas
    4. 5.4 A PRODUÇÃO DE CÁFÉ NO BRASIL
      1. 5.4.1 Particularidades do Café
      2. 5.4.2 O processamento do café
      3. 5.4.3 Avaliação do processo
      4. 5.4.4 A geração de resíduos
    5. 5.5 A IMPLEMENTAÇÃO DA PRODUÇÃO MAIS LIMPA (P+L) NA PRODUÇÃO DE CAFÉ
      1. 5.5.1 Avaliação Técnica
      2. 5.5.2 Avaliação Ambiental
      3. 5.5.3 Viabilidade
      4. 5.5.4 Monitoramento
    6. 5.6 O CAFÉ SUSTENTÁVEL                           
      1. 5.6.1 A produção de café sustentável
      2. 5.6.2 Vantagens e desvantagens
  6. 6. METODOLOGIA                                     
    1. 6.1 CARACTERIZAÇÃO DA PESQUISA
  7. 7. RESULTADOS                                       
    1. 7.1 OPORTUNIDADES DE MELHORIAS
      1. 7.1.1 Uso de Torrador Ecológico
      2. 7.1.2 Implantação de Sistema para Limpeza de Águas Residuais – SLAR no Café Cereja
      3. 7.1.3 Uso de Terreiro Híbrido para Secagem do Café
    2. 7.2 ALTERNATIVAS PARA REAPROVEITAMENTO DOS RESÍDUOS DO CAFÉ
      1. 7.2.1 Reaproveitamento da Casca
      2. 7.2.2 Reaproveitamento do Pergaminho
  8. 8. CONSIDERAÇÕES FINAIS
  9. 9. REFERÊNCIAS

1. RESUMO

A crescente conscientização acerca da importância da proteção ambiental e dos possíveis impactos gerados, associados a diversos produtos produzidos, é animadora, considerando o interesse dos produtores em novas tecnologias e métodos capazes de compreender e diminuir esses impactos, de maneira a suprir as necessidades presentes sem comprometer a sobrevivência das gerações futuras. A atividade de cafeicultura colabora de forma significativa com o desenvolvimento econômico e humano em diversas regiões do Brasil, no entanto, ainda é grande a sua participação na geração de resíduos. Diante desta situação, o presente trabalho tem por objetivo estudar a viabilidade da aplicação de um modelo de tratamento adequado, capaz de contemplar inovações na área ambiental e que possa ser implantado no setor agrícola, auxiliando os gestores desse segmento. Voltado para a cultura e beneficiamento do café, atividade considerada complexa pela riqueza de detalhes e uso de diferentes equipamentos, observar-se-á a necessidade de se analisar cada processo de forma detalhada, a fim de se entender como cada impureza é gerada, quais são as etapas potenciais geradoras de resíduos e como esses poderão ser descartados ou reutilizados posteriormente. Ao final da pesquisa, através da revisão de literatura, foram atribuídas modificações quanto às tecnologias e métodos utilizados, quanto às práticas operacionais e quanto à manipulação e descarte do material gerado, considerando, ainda, a redução de resíduos como responsabilidade consciente de todos os envolvidos nos diferentes processos observados, do planejamento à implementação dos métodos.

Palavras-chave: Cafeicultura. Produção Mais Limpa. Sustentabilidade.

ABSTRACT

The increasing awareness about the importance of environmental protection and the possible impacts generated, associated with several products produced, is encouraging, considering the interest of the producers in new technologies and methods capable of understanding and reducing these impacts, in order to meet the present needs without compromise the survival of future generations. The activity of coffee cultivation contributes significantly to the economic and human development in several regions of Brazil, however, its participation in the generation of residues is still great. In view of this situation, the objective of this study is to study the feasibility of applying an appropriate treatment model capable of contemplating innovations in the economic, social and environmental areas and that can be implemented in the agricultural sector, helping the managers of this segment. With regard to the culture and processing of coffee, an activity considered complex by the richness of details and use of different equipment, it will be observed the need to analyze each process in detail, in order to understand how each impurity is generated, what are the potential stages of waste generation and how they can be discarded or reused later. At the end of the research, through the literature review, changes were made in the technologies and methods used, in terms of operational practices and in the handling and disposal of the generated material, considering also the reduction of waste as the conscious responsibility of all those involved in the different processes observed, from the planning to the implementation of the methods.

Keywords: Coffee-growing. Cleaner production. Sustainability

2. INTRODUÇÃO

Considerando a crescente conscientização acerca da importância da proteção ambiental e dos possíveis impactos associados a diversos produtos produzidos, em paralelo ao crescimento econômico, é crescente e animador o interesse dos produtores em novas tecnologias e métodos capazes de compreender e diminuir esses impactos, de maneira a suprir as necessidades presentes sem comprometer a sobrevivência das gerações futuras (ABNT, 2001).

Dessa forma, em paralelo, analisando especificamente a atividade de cafeicultura, observa-se que essa colabora de forma significativa com o desenvolvimento econômico e humano do país, chegando a ocupar 1,88 milhões de hectares em todo o território, produzindo em média 30,86 sacas por hectare (EMBRAPA – 2018).

Devido à complexidade dos processos de produção, a agroindústria de beneficiamento e processamento de café tem como resultados não intencionais a geração de diferentes resíduos e rejeitos (torrões, paus, pedras e metais) ao longo de seus processos, gerando poluição e aumento dos seus custos de produção (ESPÍNDOLA, et al., 2011). A busca por um modelo de tratamento adequado dos resíduos, capaz de contemplar inovações nas áreas econômica, social e ambiental e que possa ser implantado no setor agrícola tem sido um grande desafio para os gestores desse segmento.

Voltado para a cultura e beneficiamento do café, atividade considerada complexa pela riqueza de detalhes e uso de diferentes equipamentos, observa-se a necessidade de se analisar cada processo de forma detalhada, a fim de se entender como cada impureza (todo o material retirado passível de aproveitamento para o produto final, folhas, talos, pedras) é gerada, quais são as etapas potenciais geradoras de resíduos e como esses poderão ser descartados ou reutilizados posteriormente. Podem ser consideradas modificações quanto às tecnologias e métodos utilizados, quanto às práticas operacionais e quanto à manipulação e descarte dos resíduos gerados, considerando, ainda, a redução de resíduos como responsabilidade consciente de todos os envolvidos nos diferentes processos observados, do planejamento à implementação dos métodos.

A avaliação do desempenho e adoção de tecnologias e processos mais limpos pode ser feita considerando alguns parâmetros, desde a otimização do consumo de água e uso de energia, prevenção da poluição atmosférica e dos corpos hídricos, até a adequação dos métodos utilizados e gerenciamento dos resíduos sólidos. É necessário que se adote diferentes critérios para ordenar as principais etapas geradoras de resíduos dentro do processo, com diferentes prioridades, para que sejam aplicadas as devidas mudanças, ou seja, a produção mais limpa tem como principal foco a identificação das etapas potenciais geradoras de resíduos e posterior tomada de decisão e melhor caminho a seguir (ESPÍNDOLA, et al, 2011).

Apesar do crescente número em relação à preocupação com a aplicação de tecnologias e métodos mais limpos no cultivo do café, ainda é discreta a participação do café produzido de forma sustentável. Segundo dados da Associação Brasileira da Indústria do Café (ABIC), grande atuante na promoção do cultivo sustentável do café, pouco mais de 1% das mais de 18 milhões de sacas de café industrializadas no país, são produzidas visando à produção mais limpa e sustentável (ABIC, 2008).

Considerando os diferentes processos (físicos, químicos e biológicos) envolvidos desde o plantio, até a industrialização e consumo final do café, uma vez que se quer produzir um alimento tão absorvido no mercado e com olhos cada vez maiores para a sustentabilidade, observa-se a necessidade de um estudo mais aprofundado sobre os resíduos gerados em cada etapa e os possíveis destinos finais, seja o descarte em locais apropriados ou reuso dentro de outros processos, visando um melhor desempenho em paralelo à conservação ambiental, otimizando os processos e reduzindo perdas.

Devido à relevância da pesquisa, em um ambiente onde se é crescente a preocupação com a sustentabilidade, considerando a sua importância para o alinhamento entre o desenvolvimento econômico e sustentável, o presente trabalho se propõe a estudar a viabilidade da aplicação de tecnologias limpas voltadas para o cultivo e produção de café, a fim de se reduzir a geração de resíduos e destiná-los da melhor maneira, propondo-lhe reutilização e destinação adequada, contribuindo para a Produção Mais Limpa (P+L) e reduzindo os impactos ambientais.

3. OBJETIVOS

3.1. OBJETIVO GERAL

Estudar a possibilidade de aplicação de tecnologias limpas na produção e cultivo de café, como forma de reduzir a geração de resíduos.

3.2. OBJETIVOS ESPECÍFICOS

  • Mapear o processo de cultivo e produção de café;
  • Identificar as etapas potenciais geradoras de resíduos dentro do processo;
  • Pesquisar tecnologias limpas aplicadas à produção de café;
  • Analisar possíveis modificações quanto aos tipos de técnicas utilizadas em cada etapa do processo e ao destino dos resíduos gerados ao longo do mesmo.

4. JUSTIFICATIVA

O conceito de sustentabilidade surge da modificação dos processos de globalização e revolução tecnológica em junção ao compromisso ético e social com o meio-ambiente, de maneira que a preocupação com a responsabilidade social e ambiental se torna pré-requisito para se desenvolver qualquer atividade econômica. Em contrapartida, apesar da preocupação, muitas vezes o termo desenvolvimento ainda se encontra restrito ao seguimento econômico, culminando em desastres ambientais significativos, aumento das desigualdades sociais, levando a crises em âmbitos que deveriam se relacionar em total sinergia, considerando que a promoção de uma relação harmoniosa e em paralelo nas dimensões econômica, social e ambiental permite alcançar o melhor conceito de desenvolvimento sustentável (ANDRADE et al., 2011).

Os últimos vinte anos trouxeram uma maior preocupação da comunidade científica a respeito dos impactos gerados pelas atividades empreendidas pelo homem, levando a criação de normas regulamentadoras que fiscalizam o desenvolvimento de atividades econômicas atreladas ao uso de recursos ambientais. Dessa forma, as estratégias voltadas para questões econômicas, objetivando eficiência, competitividade e maior lucro, deixaram de ser o único foco dos gestores, que passaram a abrir espaço também para a preocupação com as variáveis ambientais (SCHENINI et al., 2006).

De acordo ao Relatório Brundtland (Nosso Futuro Comum p. 22, 1987) o desenvolvimento sustentável é concebido como: “O desenvolvimento que satisfaz as necessidades presentes sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades”. Dessa maneira, a crescente conscientização acerca da importância da proteção ambiental e dos possíveis impactos gerados, associados a diversos produtos produzidos, se torna cada dia mais otimista, levando-se em conta o interesse dos produtores em novas tecnologias e métodos capazes de compreender e diminuir esses impactos, suprindo as necessidades presentes sem comprometer a sobrevivência das gerações futuras. Para tanto, surgiu a necessidade de modificações na estrutura organizacional, redefinindo objetivos e metas, a fim de internalizar conceitos que levam a sustentabilidade a partir de simples práticas gerenciais adotadas pela administração.

Partindo de tais ideias, surge a possibilidade de se aplicar tecnologias limpas, em busca da Produção mais Limpa (P+L), como ferramenta auxiliar na prevenção e redução de impactos ambientais, buscando minimizar os possíveis danos gerados e reduzir os custos envolvidos nos processos, através da recuperação e otimização de matérias-primas e insumos (GASPAR et al., 2011).

5. REFERENCIAL TEÓRICO

5.1. PANORAMA ECOLÓGICO

A explosão demográfica e o crescimento populacional trouxeram consigo grandes problemas ambientais em paralelo ao crescimento econômico, tendo como principal causa a exploração inconsequente dos recursos naturais (SPERANDIO et al., 2008).

Os avanços em tecnologia levaram os seres humanos a acreditar que dependiam cada vez menos do ambiente natural (LEIS, 1991). Entretanto, observa-se que as atividades e o modo de vida do homem vêm destruindo e ameaçando as principais bases de recursos naturais.

A produção, o espírito consumista, a globalização e a necessidade de se encaixar num modelo de vida capitalista, atrelados ao crescimento acelerado da população, contribuem de forma significativa para os impactos no meio ambiente, gerando um aumento considerável na geração de resíduos tanto no ponto de vista doméstico quanto empresarial (ESPÍNDOLA et al., 2011).

Diante disto, de acordo à Bachelet (1995 apud RENSI, et al., 2001), as preocupações ambientais mudaram de foco à medida que os conhecimentos científicos e tecnológicos evoluíram, assim como o modo de vida e o olhar crítico voltado para sustentabilidade, fazendo da questão ambiental um assunto que preocupa toda a humanidade, se aproximando cada vez mais do conceito de modernidade empresarial.

Apesar da crescente consciência a respeito da questão ambiental, sabe-se que o crescimento exponencial da população mundial continua a afetar a disponibilidade dos recursos naturais (GASPAR et al., 2008).

Voltado para tal situação, surge a necessidade de se atentar para a maneira como o homem coloca-se em perigo e cria fatores de risco que podem afetar gerações futuras por muito tempo, ao esgotar e desperdiçar os recursos naturais de maneira desenfreada, desestabilizando o ambiente. A problemática ambiental então surge como base para o início de novos temas que envolvem a busca pela sustentabilidade, como é o caso da gestão de recursos naturais (BEAUD; BOUGUERRA, 1993).

Dessa forma, apesar da lentidão, a gestão ambiental vem passando a ser reconhecida ao longo dos anos, à medida que o homem toma consciência da importância do equilíbrio com o meio-ambiente para a perpetuação da raça humana (ANDRADE et al., 2011).

Neste sentido, Castro (1997, p. 17 apud SCHENINI, 2001) afirma que:

“[...] a Conferência de Estocolmo, em 1972, foi a primeira a tratar das relações entre o homem e o meio ambiente. Teve como objetivo conscientizar os países sobre a importância de se promover a limpeza do ar nos grandes centros urbanos, a limpeza dos rios nas bacias hidrográficas mais povoadas e o combate à poluição marinha.”

Como resultado da conferência foram elaboradas metas ambientais e sociais voltadas principalmente para os países em desenvolvimento, além da criação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). O mesmo autor ainda chama a atenção através dessa declaração sobre a maneira como a preocupação global passa a fazer parte das negociações internacionais.

No entanto, passados dez anos da conferência, o esgotamento dos recursos naturais e o alerta para os limites de absorção dos resíduos somaram-se ao agravamento das questões ambientais, voltando a ser fonte de preocupação por se notar que o nível das atividades humanas estava indo além da capacidade de assimilação da natureza (HALL et al., 2011).

Ainda de acordo à linha de gestão, Bezerra e Munhoz (2000, p. 43) frisam:

“Gestão é, em outras palavras, o modus operandi cuja premissa básica é manter os recursos naturais disponíveis para o desenvolvimento, hoje, amanhã e sempre.”

Os autores sugerem que a definição de gestão dos recursos naturais está voltada para a preocupação com um conjunto de princípios, estratégias e diretrizes de ações determinadas e conceituadas por agentes socioeconômicos, públicos e privados, que interagem no processo de uso dos recursos naturais de maneira sustentável.

A gestão de recursos naturais compreende um conjunto de ações de natureza administrativa que considera inter-relações entre recursos naturais e as atividades socioeconômicas, em determinado espaço ou planejamento (BEZERRA; MUNHOZ, 2000).

A inclusão da busca pela proteção ambiental entre os objetivos da gestão acaba por ampliar o conceito de administração. A partir disso surge a necessidade das organizações concentrarem esforços não só no planejamento voltado para a parte econômica, mas também voltado para a redução dos impactos ambiental e social, tornando as suas operações o mais ecologicamente corretas possível e se aproximando cada vez mais da gestão de recursos naturais.

5.2. DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

O termo “Desenvolvimento Sustentável” foi primeiramente discutido no relatório Our Common Future (Nosso Futuro Comum), em 1987, publicado pela Comissão do Meio Ambiente e Desenvolvimento das Nações Unidas ou Comissão Brudtland como “aquele desenvolvimento capaz de atender às necessidades presentes sem comprometer o atendimento das necessidades de gerações futuras (NOSSO FUTURO COMUM, 1988, p. 46).

O desenvolvimento sustentável, por se tratar de uma tarefa que engloba todo o mundo, trata-se de uma questão de compromisso, que sugere mudanças na produção e modo de consumo, além da forma de se pensar e viver, tendo como enfoque questões ambientais, sociais e econômicas. Independentemente do nível de desenvolvimento da sociedade o enfoque na noção de desenvolvimento sempre estará atrelado à busca por melhorias nas condições de vida, ou seja, enquanto existir a possibilidade de se melhorar algo existirá a capacidade de desenvolvimento.

Partindo disso, é importante ressaltar que determinada sociedade evolui na direção da sustentabilidade à medida que o seu desempenho nas questões econômica, social e ambiental ocorre em paralelo, ou seja, garantindo a qualidade de vida sem comprometer a mesma para gerações futuras (BEZERRA; MUNHOZ, 2000).

Assim, para Castro (1996):

“Além das questões ambiental, econômica, tecnológica, o desenvolvimento sustentável envolve uma dimensão cultural e política, que exige participação democrática de todos na tomada de decisões e mudanças indispensáveis”.

Dessa maneira, o conceito de Desenvolvimento Sustentável consegue englobar necessidades e limitações da sociedade, ou seja, independente das peculiaridades de cada povo as necessidades devem ser satisfeitas para assegurar as condições essenciais de vida a todos, sem fazer distinção, porém tais necessidades devem vir acompanhadas de tecnologias capazes de solucionar problemas e conservar os recursos limitados, permitindo renová-los à medida que for necessário, garantindo a disponibilidade para as futuras gerações.

Contudo, Fortes (1992), enfatiza que o Desenvolvimento Sustentável constitui uma visão na qual o desenvolvimento representa algo primordial para a utilização dos recursos naturais, de maneira orientada e com aplicações locais, levando a exigência da tomada de responsabilidade por parte de todos, cada um fazendo a sua parte em busca das soluções necessárias.

Diante disto, observa-se que a forma sustentável de vida parte do compromisso em aceitar o dever da busca de harmonia com outras pessoas e com o meio ambiente, tendo como objetivos base, compartilhar e cuidar da Terra, onde cada um deve retirar da natureza apenas o necessário, respeitando a capacidade desta de fazer sua reposição.

Para todos os envolvidos na conjuntura sustentável existem perspectivas diferentes para abordar o Desenvolvimento Sustentável. As instituições governamentais se concentram no importante papel de planejar e organizar políticas, normas e leis, entre outras. À comunidade e às ONGs fica, a responsabilidade de identificar, executar e fiscalizar os processos desenvolvidos e ao homem e às organizações fica o dever de agir de forma consciente buscando minimizar e recuperar estragos realizados, prevenindo futuros impactos (SCHENINI, 1999).

Ainda de acordo ao mesmo autor, as ações voltadas para a sustentabilidade podem ser definidas como aquelas atitudes através das quais as pessoas buscam qualidade de vida, observando as questões de saúde da população, nos padrões educacionais e no bem-estar social com a consciência voltada para o contexto social geral.

Apesar da mudança na visão e maior consciência sobre o desenvolvimento sustentável, muitas vezes o termo é confundido e fica restrito apenas ao segmento econômico, o que leva a desastres ambientais significativos e ao aumento das desigualdades sociais, gerando conflitos e consequentes crises paradigmáticas.

A promoção de novos olhares voltados para o desenvolvimento (incluindo as dimensões social, ecológica e a cultural, além da econômica, contemplando-as de maneira harmoniosa), permite atingir o verdadeiro conceito do desenvolvimento sustentável, onde ocorre uma sinergia entre os três aspectos, de acordo à figura 1:

Figura 1 - Base do Desenvolvimento Sustentável

 

Fonte: Projeto Factível (2013)

Dessa forma, a abordagem das dimensões base (social, econômica e ecológica) exemplificadas na figura 1 formam o que seria chamado de base da sustentabilidade.

5.2.1. Alguns Conceitos e Princípios Básicos

5.2.2. A Agenda 21

Pode-se definir a Agenda 21 como um plano de ação que busca alcançar o desenvolvimento sustentável em médio e longo prazo, sendo composta por quarenta capítulos onde são propostas bases para ações em nível global. A agenda visa delinear as diretrizes nas quais a humanidade deve se basear para alcançar os objetivos da sustentabilidade, enfatizando o manejo ambientalmente correto de resíduos e a importância do tratamento dos mesmos, desde o simples depósito ao aproveitamento dos resíduos gerados. Busca, ainda, resolver as causas principais dos problemas procurando mudar padrões de produção e consumo que fujam da ideia sustentável. Isso abrange a utilização do conceito de manejo integrado do ciclo de vida de produtos, apresentando uma oportunidade de se conciliar desenvolvimento e proteção ao meio ambiente, resultando em ações que viabilizam a sustentabilidade (SPERANDIO; GASPAR, 2008).

De acordo com Mendonça (1997), a Agenda 21 pode ser resumida por meio dos seguintes princípios:

- Minimização de resíduos;

- Reciclagem e utilização;

- Tratamento e disposição ambientalmente seguros;

- Substituição de matérias-primas perigosas;

- Transferência e desenvolvimento de tecnologias limpas.

Dessa forma, observa-se que os princípios propostos na Agenda 21 vão de acordo aos objetivos principais da sustentabilidade, de avaliar os impactos ambientais e propor medidas que venham a remediá-los, dando direcionamento para o alcance do significado de Desenvolvimento Sustentável.

5.2.3. Os 3 Rs

A gestão sustentável de resíduos sólidos pressupõe uma abordagem que tem como referencial os princípios dos 3R’s (PORTUGAL, 2007), conforme apresentado na Agenda 21, que trazem os seguintes pontos:

  • Reduzir o desperdício de matérias-primas, energia e quantidade de lixo produzido, exigindo produtos com maior durabilidade, buscando um consumo mais racional e compartilhando com outras pessoas o uso de materiais e produtos (equipamentos, livros e demais materiais utilizados).
  • Reutilizar sempre que possível os diversos materiais passando para outras pessoas a quem possa servir (móveis, aparelhos domésticos, livros, roupas, brinquedos e demais utensílios).
  • Reciclar, encaminhando para locais de reprocessamento os materiais que podem ser reciclados (garrafas, papel e demais produtos passíveis de reaproveitamento).

O autor ainda cita a existência de uma hierarquia entre os 3R’s que parte do princípio de que se causa menor impacto evitar a geração do que reciclar materiais após o seu descarte, onde o primeiro “R” (Reduzir) é a maneira mais correta para a preservação ambiental e para evitar o esgotamento dos recursos naturais, isso significa buscar sempre produzir de acordo aquilo que se pode consumir, valendo desde atividades do nosso cotidiano, como se alimentar, colocando no prato apenas o que se consegue comer, até a produção industrial, reduzindo os insumos necessários. No segundo “R” (Reutilizar), a forma de tratar resíduos demanda muita imaginação, além de tecnologias de mudança da forma de destinação dos resíduos, tomando como exemplos o uso de garrafas de vidro retornáveis, ou embalagens e potes de plástico que podem servir como recipientes para guardar objetos e até mesmo comida. O terceiro e último “R” (Reciclar) busca aproveitar da melhor maneira possível a matéria-prima embutida no resíduo para fabricar produtos. Tem-se como exemplos a reciclagem de pneus para construir móveis e até mesmo tapetes de borracha e a matéria orgânica proveniente dos restos de alimentos para a produção de fertilizantes.

5.2.4. Gestão ambiental empresarial

Com os avanços tecnológicos e a crescente preocupação voltada para o meio ambiente as organizações passaram a incluir entre os seus objetivos a busca pela sustentabilidade em paralelo ao crescimento econômico. Para lidar com essas questões, as empresas cada vez mais têm praticado a Gestão Ambiental. Barbieri (2004, p. 137) considera que a gestão empresarial pode ser definida como “diferentes atividades administrativas e operacionais executadas pelas empresas para abordar os problemas ambientais decorrentes da sua atuação, buscando evitar que eles ocorram no futuro”.

A mudança de postura observada nas empresas impulsiona a adoção do Sistema de Gestão Ambiental (SGA), vindo ao encontro da necessidade de as organizações adotarem práticas gerenciais adequadas às exigências do mercado, fazendo uso de princípios e procedimentos que permitem uma expressiva qualidade ambiental.

Considerando as semelhanças dos sistemas de gestão da qualidade e ambiental, muitas empresas que adotaram programas de qualidade também conseguiram se adaptar em termos de certificação ambiental (MEDEIROS, 2007).

Os procedimentos voltados para a gestão ambiental foram mundialmente padronizados, visando definir critérios e exigências. A garantia de que a organização atende a esse critério é uma certificação ambiental, segundo as normas ISO 14000. Essas normas foram definidas pela International Organization for Standardization (ISO), fundada em 1947, com sede em Genebra, na Suíça. Trata-se de uma organização não-governamental que congrega mais de 160 países, representando 95% da produção industrial do mundo. A ISO tem como objetivo principal criar normas que representem o consenso entre os diferentes países. O Brasil tem a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) como representante da ISO. Entre as diversas áreas de atuação da ISO estão as normas de certificação ambiental (HARRINGTON; KNIGHT, 2001):

  • ISO 14001 - define os requisitos para certificação ambiental;
  • ISO 14004 - norma orientativa que exemplifica e detalha as informações necessárias à implementação de um Sistema de Gestão Ambiental (SGA);
  • ISO 14010, 14011, 14012 e 14015 - referem-se ao processo de auditoria ambiental;
  • ISO 14020, 14024 e 14025 - relativas à rotulagem ambiental;
  • ISO 14031 e 14032 - referem-se à avaliação de desempenho ambiental (também definem a integração entre as normas de qualidade e de meio ambiente);
  • ISO 14040, 14041, 14042 e 14043 - versam sobre a avaliação do ciclo de vida;

Para se qualificar e receber o certificado das normas ISO 14000, a empresa tem que estar de acordo com as políticas e leis ambientais de seu país. Deve, ainda, estabelecer e manter um Sistema de Gestão Ambiental (SGA) de acordo com as especificações das normas, além de outros requisitos que se não cumpridos impedem a empresa de ser certificada (NORMAS TÉCNICAS, 2018):

  • Planejamento ambiental: a empresa deve fazer um planejamento completo dos aspectos ambientais da área, metas, objetivos e programas ambientais;
  • Realização e manutenção: após planejar, é preciso “ligar” o sistema, fazer com ele funcione e mantê-lo funcionando;
  • Documentação e arquivamento: a empresa deve realizar uma documentação completa de todos os processos relacionados com a gestão ambiental da empresa e do sistema que está sendo implementado e arquivá-los;
  • Revisão e inspeção: a empresa deve estar monitorando e verificando os processos ligados à gestão ambiental e tomar possíveis ações corretivas quando preciso.

O atendimento às exigências e condições estabelecidas aproxima a organização da ideia principal de Gestão Ambiental, como principal caminho para a Sustentabilidade.

5.2.5. Gestão ambiental como fator de concorrência

5.2.6. As definições para o tema variam de acordo aos segmentos em que se enquadram. Para (PORTER, 1995, pg. 19), “A Gestão Ambiental vem se tornando um plus na competitividade”. Ao formular esse pensamento o autor tenta evidenciar como a Gestão Ambiental deve ser encarada nas organizações, como um fator de concorrência, ou seja, um modo de se adquirir vantagens competitivas; como fator social (exigências dos consumidores e ações de entidades não-governamentais) e ainda como fator econômico e político (imposição de restrições e multas), exercendo pressões adicionais para a introdução do gerenciamento ambiental nas organizações.

A Gestão Ambiental busca elevar o potencial competitivo da empresa em paralelo à preocupação com o meio ambiente, de maneira que satisfaz o interesse principal dos gestores (lucratividade) em meio à proteção ambiental, interesse principal da sociedade geral (SCHENINI et al., 2006).

Uma das formas de se atuar na Gestão Ambiental é por meio da prevenção da poluição, onde através de uma pressão sobre a empresa essa passa a pensar de maneira sistêmica nos seus processos. Como consequência, surge a maior competitividade diante do mercado. A ideia pode ser reforçada através da afirmação dos professores Haves, Wheelwright e Clark, eles afirmam que: “a redução de desperdício de matéria-prima (prevenção da poluição), com frequência, aumenta a produtividade muito além do que se pode imaginar com apenas a economia de material” (ROOM, 1996, pg. 45).

Alguns resultados positivos podem ser obtidos através da adoção e implementação da Gestão Ambiental nas Organizações:

  • Redução de custos, através da redução do consumo de recursos naturais e dos resíduos gerados, gerando menores gastos com tratamento, armazenagem e disposição dos mesmos;
  • Possibilidade de entrada em mercados internacionais, por adequar-se a normas de exigências comerciais;
  • Melhoria da imagem da empresa pela adoção de um modelo de administração sustentável;
  • Maior facilidade na obtenção de financiamento junto às agencias financiadoras que exigem certificação ambiental.

Sendo assim, as organizações que tentam se enquadrar à Gestão Ambiental acabam por somar vantagens gerando maiores chances competitivas (SICSU; FILHO, 2003).

5.3. A PRODUÇÃO MAIS LIMPA (P+L)

Apesar de não possuir definição precisa, o conceito de Produção Mais Limpa (P+L) surge da necessidade da busca de soluções definitivas para o problema da poluição por parte das organizações que buscam a Gestão Ambiental, tendo como objetivo principal, evitar a geração de resíduos, tornando mais eficiente o uso de recursos, desde as matérias-primas, até a energia, através de modificações nos processos produtivos, no emprego de materiais, nas práticas industriais e nos produtos. Sendo necessário frisar, ainda, que a redução dos resíduos deve ser vista como responsabilidade de todos os envolvidos na produção, desde o planejamento até a implementação das ferramentas disponíveis (CHEREMISINOFF, 1995).

A PmaisL surgiu com o Programa Cleaner Production, criado pela United Nations Industrial Development Organization (UNIDO) em conjunto com o United Nations Environmental Programme (UNEP). A partir da consciência na busca por práticas sustentáveis junto às organizações, esse programa deu seus primeiros passos em busca de atividades voltadas para a redução dos impactos ambientais (CNTL, 2010).

Ainda de acordo ao UNEP (2010), a Produção mais Limpa busca aumentar a eficiência no uso de matérias-primas, água, energia e demais recursos necessários para a produção, através da não-geração, minimização e ou reciclagem dos resíduos gerados durante o processo, tendo como principais etapas, o planejamento, com o diagnóstico do processo produtivo e a busca por oportunidades e melhorias; e a implementação, com a avaliação, o estudo da viabilidade e o monitoramento das fases de aplicação.

As empresas que buscam a metodologia PmaisL como forma de alcançar a Gestão Ambiental podem admitir diversos níveis de aplicação, desde o simples ato de refletir de maneira crítica sobre as possibilidades de melhorias nos processos, redução de impactos e geração de resíduos, até a parte prática, com a aplicação das ferramentas disponíveis e criação de programas sustentáveis (CETESB, 2010).

Dessa maneira, voltada para o cultivo e produção de café, a aplicação da Produção mais Limpa visa à busca pela melhoria contínua somada à Gestão Ambiental, através da reflexão sobre a geração de resíduos durante os processos, da avaliação dos impactos causados e da possibilidade de aplicação de tecnologias limpas capazes de reduzir esses impactos.

5.3.1. As Tecnologias Limpas

Nos dias atuais pode-se perceber a crescente preocupação em torno das questões ambientais. Seja por razões de mercado ou de responsabilidade social, o que se observa é que cada vez mais pessoas e empresas adotam atitudes ambientalistas. É importante analisar se os resultados que estão sendo atingidos efetivamente se voltam para uma reversão do processo de degradação ambiental ou para uma redução da velocidade com que esse acontece (KIPERSTOK, 1999).

De acordo ao mesmo autor, um dos principais elementos que pode contribuir para uma aceleração dos processos de melhoria de performance ambiental no âmbito das empresas é a capacidade de identificar mudanças tecnológicas que impliquem em continuas reduções de resíduos.

Já segundo Mazon (1992), essas tecnologias que reduzem os custos de produção através de economias em matérias-primas e energia, pelo aumento em produtividade, levando a um incremento em competitividade e rentabilidade, são denominadas de Tecnologias Limpas. Possuem também, a capacidade de limitar as descargas, evitando a produção de produtos secundários e reduzindo os riscos de poluição acidental e da transferência de poluição entre ambientes físicos.

Para difundir o uso dessas tecnologias limpas é importante considerar os motivos que apontam para a sua utilização. Ao mesmo tempo é importante entender os motivos que têm levado a priorização destas práticas (KIPERSTOK, 1999).

5.4. A PRODUÇÃO DE CÁFÉ NO BRASIL

Estima-se que a produção de Café do Brasil foi de mais de 58 milhões de sacas em 2018, divididos entre as duas principais espécies, 44 milhões de Café Arábica e 14 milhões de sacas tipo Conilon. Tais números em comparação a produção mundial esperada para o ano, 160 milhões, equivalem a um percentual de 36% da produção, dando ao ano de 2018 o título de ano cafeeiro da Organização Internacional do Café – OIC (EMBRAPA, 2018).

No território nacional, a área cultivada em 2018 esteve em torno de 1,88 milhões de hectares, gerando uma produtividade média recorde de 30,86 sacas por hectare, considerando a estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento – CONAB. Para a CONAB, esse recorde de produtividade foi alcançado em maior parte nas lavouras do tipo arábica, devido às favoráveis e boas condições climáticas (CONAB, 2018).

Em relação ao volume da produção brasileira, a lista dos seis maiores estados produtores em 2018, em ordem decrescente, é a seguinte (EMBRAPA, 2018):

  • Minas Gerais: 30,7 milhões de sacas, equivalente a 53% da produção.
  • Espírito Santo: 12,81 milhões de sacas, equivalente a 22% da produção.
  • São Paulo: 6,07 milhões de sacas, equivalente a 10% da produção.
  • Bahia: 4,5 milhões de sacas, equivalente a 8% da produção.
  • Rondônia: 2,19 milhões de sacas, equivalente a 4% da produção.
  • Paraná: 1,05 milhões de sacas, equivalente a 2% da produção.

5.4.1. Particularidades do Café

O café pertence à família Rubiaceae se dividindo em mais de 70 espécies, no entanto as mais comercializadas são a Coffea Arábica (cerca de 75% da produção mundial) e Coffea Canefora (cerca de 25% da produção mundial). A primeira espécie possui melhores propriedades sensoriais e a segunda é mais resistente a pragas (MUSSATO, 2011).

O fruto do café possui formato ovóide e é formado pelas seguintes partes, de acordo a figura 2 (MUSSATO, 2011):

  • Casca (polpa): formada pela casca do grão do café. Na fase madura passa de verde para amarelo ou vermelho.
  • Mucilagem: é uma camada de espessura entre 0,5 e 2,0 mm quimicamente composto por água, açúcares e ácidos orgânicos.
  • Pergaminho: é uma membrana cartilaginosa que cobre o grão do café.
  • Película prateada: é a casca do café, eliminada quando o grão passa a ser torrado.
  • Grão do café: parte utilizada na preparação da bebida. Sua dimensão varia entre 7 a 15 mm de comprimento e entre 6 a 8 mm na largura, pesando entre 0,1 e 0,2 g.

Figura 2 - Corte longitudinal do grão de café

 

Fonte: Mussato (2011)

As diferentes espécies de café possuem mesmo formato e divisões de suas partes, representados na figura 2, diferenciando-se apenas pelas suas propriedades e quantidade de substâncias em sua composição (MUSSATO, 2011).

5.4.2. O processamento do café

O processamento do café, desde a sua colheita até a torra é considerada uma atividade complexa pela riqueza de detalhes e equipamentos utilizados ao longo da produção. Todavia, faz-se necessário conhecer detalhadamente cada parte do processo, já que os resíduos são gerados ao longo da produção. A figura 3 mostra o fluxograma detalhado das etapas da produção do café, apresentando as possíveis formas de processar o fruto colhido (ANDRADE, et al., 2011).

Figura 3 - Fluxograma do beneficiamento do café

Fonte: Borém (2008)

O primeiro passo no processo representado na figura 3 é o descarregamento dos grãos na moega de recebimento para em seguida serem direcionados aos diferentes tipos de processo, via úmida ou de via seca. Em ambos os processos existe a formação de resíduos que podem ser classificados como sólidos ou líquidos. O resíduo líquido é composto basicamente por água da lavagem dos frutos, componente indispensável no processo via úmida por ser o meio de transporte dos frutos. Já os resíduos sólidos secos são provenientes do processo de via seca, dispostos no ambiente para o beneficiamento, onde ocorre a separação dos grãos diferenciando-os por densidade, cor e tamanho. Durante a fase de remoção da casca, através do meio mecânico, o grão é submetido à movimentação que faz com que os resíduos secos (casca, pó, impurezas) sejam liberados (ESPÍNDOLA et al., 2011).

O beneficiamento, quando feito na própria fazenda, possui a vantagem de reduzir custos com transporte e proporciona a garantia de que os grãos beneficiados estarão em perfeitas condições, evitando perdas provocadas na movimentação. Essa etapa consiste nas operações que compõem o processo de transformação do café em pergaminho, já seco, em café em grão, de acordo ao esquema mostrado na Figura 4 (BORÉM, 2008):

Figura 4 - Etapas do beneficiamento do café

Fonte: Borém (2008)

Após a secagem do café e processamento de acordo a figura 4, esse agora será destinado a um conjunto de operações necessárias para a fase de descascamento, retirada de impurezas (paus, torrões, pedras, metais, dentre outros, realizada por um catador de pedras) e separação dos grãos, em diferentes tamanhos, sendo ensacados para posterior comercialização.

5.4.3. Avaliação do processo

O detalhamento do processo permite melhor visualizar o balanço de material e definir as entradas (inputs) e a saída (outputs) de cada etapa.

  • Entrada (Inputs): Estão relacionados às matérias-primas ou insumos necessários para a realização de determinada etapa do processo.
  • Saída (Outputs): Estão relacionados aos resíduos gerados na realização determinada etapa do processo.

O fluxograma descrito na Figura 5 exemplifica como se dá o escopo do processo (ESPINDOLA et al., 2011):

Figura 5 - Diagrama operacional

 

Fonte: Espíndola et al. (2011)

Após a determinação das entradas e saídas, de acordo a figura 5, é necessário além de quantificar a adição de insumos, identificar os resíduos que poderão ser gerados durante cada etapa do processo. No caso do processamento e beneficiamento de café, a figura 6 apresenta os componentes e materiais que devem ser utilizados e explorados na atividade, desde os recursos utilizados para processamento até a sua forma quanto material para descarte:

Figura 6 - Entradas e saídas de material no beneficiamento do café

Fonte: Borém (2008)

A energia utilizada no processo é proveniente de diferentes fontes, desde a disponibilizada pela companhia de luz até outras fontes alternativas, como a queima de lenha de eucalipto (de reflorestamento) ou ainda o uso de gás natural, biogás, dentre outras. A água é o principal insumo no processo de via úmida, fornecido pela companhia de abastecimento ou ainda pelo bombeamento de poços. Quanto aos demais insumos, existem alguns combustíveis como o diesel e a gasolina, utilizados no funcionamento e manutenção de alguns maquinários (BOREM, 2008).

5.4.4. A geração de resíduos

As impurezas podem ser definidas como qualquer material retirado do processo de beneficiamento do café que não será aproveitado no produto final, ou seja, folhas, talos, pedras, ramos, torrões. Os efluentes, por sua vez, se caracterizam por conter tanto a água utilizada quanto o material (mucilagem, polpa), quanto às cascas e resíduos provenientes da etapa de descascamento pela via úmida. Já os resíduos sólidos são aqueles que correspondem à parte do fruto que é retirada para a obtenção do grão de café, se caracterizando como cascas, pó e pergaminho (ESPÍNDOLA; ANDRADE, HALL, 2011).

Estima-se que anualmente são gerados cerca de 225 milhões de toneladas de resíduos líquidos (25 toneladas de águas residuais por toneladas de grãos de café) e 9,9 milhões de toneladas de resíduos sólidos incluindo casca, polpa, mucilagem, pergaminho, película prateada e borra, (1,1 toneladas de resíduos sólidos por tonelada de grãos de café) (DIAS, 2014).

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Depois de caracterizadas as entradas e saídas é possível realizar o balanço de material de acordo a cada etapa, como representa o quadro 1:

Quadro 1: Balanço de material em cada etapa

Fonte: Espíndola, et al. (2011)

Através da descrição da sequência dos procedimentos e da quantificação de cada entrada e saída, pode-se visualizar a dinâmica do processo de beneficiamento do café.

5.5. A IMPLEMENTAÇÃO DA PRODUÇÃO MAIS LIMPA (P+L) NA PRODUÇÃO DE CAFÉ

Para a implementação das ferramentas e tecnologias voltadas para a Produção Mais Limpa é necessário que se avalie questões técnicas e ambientais, além do estudo da viabilidade que vai determinar a possibilidade da aplicação da PmaisL. Considerando as etapas prioritárias, principais geradores de resíduos e as possíveis oportunidades de melhoria dentro do processo, são realizados então estudos de viabilidade técnica, econômica e ambiental. Para que seja garantida a eficiência surge então a necessidade de se detalhar as condições de processo, registrando todas as informações, não só referentes à produção, mas também em relação à geração de resíduos, quantidade, classificação, destinação e formas de tratamento. O detalhamento possibilita a melhor compreensão, tomada de decisão, possível redução de custos e passivos ambientais, além de prover o surgimento de novas alternativas para o tratamento e disposição dos materiais antes descartados (ESPÍNDOLA, 2011).

5.5.1. Avaliação Técnica

Considerando o cultivo do café, observa-se que os tratos culturais da colheita à pós-colheita podem variar de acordo ao tipo de produtor até mesmo numa mesma região e com mesma espécie cultivada, onde são observadas variações quanto às técnicas, tipo de mão de obra e equipamentos utilizados (VILELA, 2010).

Ainda de acordo ao mesmo autor, para o processo de beneficiamento do café, geralmente feito no interior de galpões, são necessários diversos equipamentos, descascadores, mesas densimétricas, ensacadores, e pequenos transportadores para sacas de até 60 kg ao armazém. Esses equipamentos devem estar dispostos num layout que corresponda ao fluxo de produção adotado, de maneira que proporcione a integridade do patrimônio e dos funcionários. É necessário que exista, ainda, a revisão dos procedimentos adotados, de forma a garantir o controle de agentes nocivos à saúde, como a poeira, através da instalação de um sistema de captação de pó e de umidificadores. A inserção de tecnologias capazes de dispor os resíduos sólidos de maneira adequada proporcionará uma melhor disposição desses resíduos trazendo como consequência a significativa redução com custos futuros.

5.5.2. Avaliação Ambiental

A redução dos impactos ambientais negativos, advindos de processos produtivos, é o principal resultado da mudança na consciência da agroindústria, que busca agora controlar o consumo de recursos naturais. Essa nova visão defendida pelo modelo de ecoeficiência surge então como principal aliada à sustentabilidade (CEBDS, 2010).

De acordo com Stup (2005), o princípio da ecoeficiência se baseia em elementos que vão desde a redução do consumo de materiais, bens e serviços, redução de consumo de energia, redução da dispersão de substâncias tóxicas, até a intensificação da reciclagem de materiais com a maximização do uso sustentável de recursos e o prolongamento da durabilidade dos produtos. Tais elementos basilares do modelo sustentável quando atendidos agregam valor às atividades e, consequentemente, aos produtos finais.

Dessa forma, implementar técnicas voltadas para a PmaisL depende da verificação da disponibilidade de recursos financeiros, humanos e técnicos, para que seja possível avaliar o desempenho após modificados os processos. A avaliação de desempenho considera os seguintes parâmetros: otimização dos recursos hídricos e uso da energia; prevenção da poluição atmosférica; prevenção da poluição dos corpos hídricos; adequação tecnológica aos produtos sustentáveis e gerenciamento da disposição dos resíduos sólidos. Dentre as principais ações prioritárias no programa PmaisL voltado para a produção de café, está a correta seleção dos resíduos, ainda na fase descascamento, em função de sua natureza e a sua correta destinação, seja ela o descarte ou o reaproveitamento. Entretanto, outras etapas do processo também podem ser passíveis de implementação (STUP, 2005).

5.5.3. Viabilidade

Depois de constatada a viabilidade da implementação do PmaisL, o próximo passo é compor um cronograma de implantação da metodologia. O período para dar início às mudanças dentro dos processos pode variar de acordo às condições da agroindústria. Por se tratar de um setor que conta com certa instabilidade decorrente da sazonalidade, um dificultador, o período para se dar início ao programa é ajustado de acordo à produção esperada. No caso do café esse período corresponde, na maioria das vezes, à safra para o período do mês de abril ao mês de setembro (HALL, 2011).

Ainda de acordo Hall, o estudo da viabilidade da implementação do programa leva em consideração, ainda, os recursos financeiros e humanos disponíveis, analisando a alocação do capital disponível bem como a escolha dos profissionais escolhidos. As funções e atividades precisam ser documentadas para a posterior análise daquelas que conseguem agregar valor, trazer resultados positivos e avaliar quais precisam ser modificadas.

5.5.4. Monitoramento

O monitoramento das operações voltadas para o programa PmaisL acontece quando existe interação das partes interessadas através das ações de controlar e monitorar o programa. Pode-se obter as semelhanças e principais diferenças entre os procedimentos adotados, calculando a eficiência do programa através de indicadores estabelecidos, como a exemplo da relação entre a quantidade de sacas produzidas e a quantidade de resíduos gerados, de acordo às equações 1, 2 e 3. (ANDRADE et al., 2011).

Dados da EMBRAPA (2016) mostram que a produção média de café é de aproximadamente 35 sacas por hectare (há), considerando a área de plantio de sacas produzidas a quantidade de café já beneficiado (X) equivale à:

 

Área de Plantio (ha) x 35 = Nº de sacas de café               

(1)

 

Nº de sacas de café x 60 kg = X kg de café beneficiado   

(2)

Estima-se que cerca de 50% do café é constituído de resíduo, ou seja, para uma proporção de 0% de café verde e 100% de café cereja (em número de frutos), tem-se o peso grão de 463,40 g e o peso do café beneficiado de 234,01 g. A diferença entre o peso do café beneficiado e o peso do café em grãos resulta, dessa forma, no peso correspondente a quantidade de resíduos gerados do processo de beneficiamento, sendo este 229,39 g (FERRONE; TUJA, 1992).

Sendo assim, a quantidade de resíduos alcança uma margem de 49,5% da quantidade total de produto beneficiado, ou seja, para determinada quantidade de café beneficiado, em quilogramas, a quantidade de resíduo gerado (Y) equivale à:

 

 

X kg de café beneficiado x 0,495 = Y kg de resíduo

 

(3)

Dessa forma, pode-se quantificar os resíduos gerados no processo, possibilitando o monitoramento dos indicadores de quantidade, bem como avaliar os casos em que existe a possibilidade de reutilização dos mesmos, onde esse resíduo passa a ser matéria-prima para outros processos. Essa interação entre recursos técnicos atrelada a capacidade de se discutir com todos os envolvidos, antecipando problemas, elaborando estratégias de entendimento, promovendo mecanismos de monitoramento dos processos e das tecnologias envolvidas, constituem os parâmetros fundamentais para a implementação da Produção mais Limpa em qualquer ramo ou atividade econômica, até mesmo de caráter agroindustrial (ZIMMERMANN; TAVARES, 2011).

5.6. O CAFÉ SUSTENTÁVEL                           

A preocupação com o desenvolvimento sustentável tem chamado a atenção para os estudiosos ambientalistas, a partir do momento em que os empresários passaram a observar certa preferência dos consumidores por produtos sustentáveis, ou seja, aqueles produzidos respeitando o meio-ambiente. Olhando para o lado da agricultura, um dos ramos onde essa preocupação se destaca é a produção de café sustentável, que, mesmo gerando custo mais alto tem a capacidade de agregar valor ao produto final, aumentando as vantagens competitivas diante do mercado (ABIC, 2018).

De acordo à Associação Brasileira da Indústria do Café (ABIC), principal patrocinadora da ideia de produção de café sustentável no Brasil, pouco mais de 1% das mais de 18 milhões de sacas industrializadas de café brasileiros são produzidas de forma sustentável. Em países mais desenvolvidos, a exemplo da França, o consumo desses produtos chega a ultrapassar 20% do mercado, o que mostra grande crescimento, não só para quem vende para o mercado interno, mas também para o mercado externo (DESTINO NEGÓCIO, 2017).

5.6.1. A produção de café sustentável

A produção de Café Sustentável está ligada à definição que leva em consideração as dimensões social, econômica e ambiental. Segundo Sérgio Parreiras Pereira (2017), “Se trata da aplicação e manutenção de boas práticas agrícolas e de gestão que visam produzir um café de maneira sustentável, que respeita o meio ambiente, de forma economicamente viável e justo” (CCAC, 2017).

De acordo ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), a principal condição para que a produção de café seja considerada sustentável, é a existência de boas condições de trabalho em todas as etapas do processo produtivo, considerando as conformidades das técnicas utilizadas, bem como respeito às normas de segurança e garantias dos trabalhadores, além do efetivo monitoramento da geração de resíduos e implementação de alternativas para redução dos impactos ambientais (SEBRAE, 2018).

A questão social dentro da produção de café diz respeito às melhores condições de trabalho possíveis, como o combate ao trabalho infantil, a busca de capacitações para os trabalhadores da lavoura e a regularização da situação dos trabalhadores em relação às leis trabalhistas e ao cumprimento de normas de segurança vigentes.

A dimensão ambiental diz respeito ao uso de práticas e métodos que visam preservar recursos hídricos, a manutenção da biodiversidade e da qualidade do ar, como exemplo o controle do uso de agrotóxicos e fertilizantes e ainda ao reaproveitamento dos resíduos gerados na produção (ACOB, 2017).

5.6.2. Vantagens e desvantagens

De acordo a Pereira, uma das principais vantagens da produção de café sustentável está na possibilidade de obter uma certificação que melhora a visibilidade do produto. “A aplicação de boas práticas agrícolas reduz o desperdício e melhora a gestão da propriedade produtora”, completa (CCAC, 2017).

Existe, ainda, uma certificação emitida pela ABIC para produtos que sejam torrados e moídos de acordo com o selo Cafés Sustentáveis do Brasil. Este selo ainda está ligado a outros certificados atribuídos por demais entidades responsáveis pela avaliação e auditoria das fazendas. Para obter o selo é preciso cumprir as exigências quanto à origem dos grãos e ao seu processo industrial, além de comprovar que no mínimo 60% do blend (matéria-prima básica para cafés superiores e gourmets) é de origem de cultivo sustentável (ABIC, 2017).

Em contrapartida, a principal desvantagem da produção de café sustentável está relacionada ao aumento de custos, principalmente ligados às despesas iniciais que são necessárias para se adequar as rotinas convencionais ao modelo sustentável.

Apesar disso, Sérgio Parreiras Pereira (2017) explica que a produção de café sustentável tende a envolver menores riscos do que a produção convencional, pois “trata da aplicação do conhecimento gerado pela pesquisa visando bons produtos, com redução de riscos”. Ainda de acordo à ABIC (2017), a adoção da produção de café sustentável garante um produto de maior qualidade, com valor de revenda superior, o que vem a compensar os custos provenientes dos investimentos iniciais.

6. METODOLOGIA                                     

6.1. CARACTERIZAÇÃO DA PESQUISA

O presente trabalho teve como principal proposta, uma revisão bibliográfica conceitual, seguido de uma Revisão Sistemática sobre as práticas, ferramentas, métodos e aplicações da Produção mais Limpa na Produção de Café, caracterizando-o assim como uma pesquisa básica exploratória. De acordo à Sampaio e Mancini (2007, pg. 5) a revisão sistemática é:

“Uma forma de pesquisa que utiliza como fonte de dados a literatura sobre determinado tema. Esse tipo de investigação disponibiliza um resumo das evidências relacionadas a uma estratégia de intervenção específica, mediante a aplicação de métodos explícitos e sistematizados de busca, apreciação crítica e síntese da informação selecionada. As revisões sistemáticas são particularmente úteis para integrar as informações de um conjunto de estudos realizados separadamente [...].”

Utilizou-se da Revisão Sistemática como meio de se caracterizar e reunir informações de como o processo de aplicação da Produção Mais Limpa beneficia ambientalmente, produtivamente e economicamente o ramo da Cafeicultura. Foram utilizadas pesquisas com base em banco de dados digitais de publicações científicas (Artigos, Teses, Capítulos de livro) que abordam o tema, e demais trabalhos voltados para o mesmo. Assim, com base nos dados levantados relacionados à cultura do café, aos tipos de técnicas alternativas voltadas para a sua produção, buscou-se uma proposta de aplicação da Produção mais Limpa que contemple a minimização da geração de resíduos, bem como o destino adequado para os mesmos.

Dentre as diversas abordagens de classificação dos propósitos de pesquisa na literatura pôde-se selecionar alguns com melhor aplicação na Engenharia de Produção, sejam elas descritivas, exploratórias, explicativas ou de simples avaliação. Para Ganga (2012), é de suma importância compreender o objetivo da pesquisa para se poder definir os métodos e instrumentos mais adequados para a coleta de dados.

Quanto à natureza do presente trabalho, de acordo ao mesmo autor, esta pode ser classificada como básica, considerando o seu principal objetivo como o de se obter novos conhecimentos que poderão contribuir no avanço da ciência sem a necessidade de aplicação prática, tendo em vista que para desenvolvimento foi feito apenas uma revisão de literatura. Quanto aos propósitos, a pesquisa pode ser caracterizada como exploratória, pois busca promover meios para melhor compreender o problema estudado. Quanto à abordagem do problema, a pesquisa utilizada foi a de caráter qualitativo. Essa pesquisa se enquadra nessa maneira, pois explorou informações acerca das potenciais fontes geradoras de resíduos nos processos de produção do café, classificando-as de acordo ao seu impacto (GANGA, 2012).

Quanto aos procedimentos técnicos, a pesquisa apresentou-se como pesquisa de literatura, pois analisou-se trabalhos existentes que também abordam o mesmo tema, verificando assim as contribuições de diferentes autores para o tema estudado.

O procedimento foi escolhido pelo fato de os dados encontrados poderem representar a realidade de outras propriedades também produtoras de café, no entanto, buscou-se apresentar apenas resultados já existentes na literatura.

O procedimento metodológico da pesquisa constituiu-se nas seguintes etapas: determinação do tipo de material bibliográfico utilizado para pesquisa, artigos, teses, periódicos, dissertações e livros; seleção das principais contribuições voltadas para o tema.

A revisão da literatura iniciou-se buscando exclusivamente trabalhos nacionais, como artigos, teses e monografias do tema Gestão Ambiental, Sustentabilidade nas organizações, Produção mais Limpa e o Cultivo de café orgânico ou demais produções sustentáveis. Na análise do material foram avaliados os títulos e resumos onde foram abordados o uso de Tecnologias Limpas e a busca da Produção mais Limpa nas organizações.

Dentre os livros nacionais que trazem referências sobre o assunto, foram consultados os capítulos que mencionam sobre o desenvolvimento sustentável, a gestão ambiental e a adoção de práticas sustentáveis dentro das empresas, sendo utilizados dois livros.

Tanto as pesquisas nacionais quanto as internacionais englobam o acervo de bibliotecas digitais de teses e dissertações, publicações em periódicos e anais de eventos nas áreas de Engenharia de Produção, Engenharia Ambiental, Ciências Agrárias, entre outras.  As bases de dados eletrônicas utilizadas foram: Portal de Periódicos (CAPES/MEC) e EAA (Educação Ambiental em Ação). Os materiais utilizados estão dentro de um intervalo de tempo que varia de 1996 a 2017. Destes, foram selecionados dois mestrados e um doutorado, que serviram de base para análise da revisão de literatura.

Foram avaliados quinze artigos que abordam o tema, analisando palavras chaves, como: Gestão Ambiental, Produção mais Limpa, Tecnologias Limpas, e Cultivo de Café de Maneira Sustentável. Destes foram selecionados oito das bases de dados mencionados, que tratavam de conceitos, e/ou das abordagens, e/ou dos desafios da gestão de resíduos e avaliação das fases potenciais geradoras dos mesmos. Destes oito artigos, um foi selecionado para o estudo de abordagem qualitativa, onde obtinham dados relacionados às fases que compõem o processo de produção do café, quais as principais fontes geradoras de resíduos, assim como a sua disposição, avaliando as possíveis alternativas viáveis para descarte de efluentes.

7. RESULTADOS                                       

Na produção de café, semelhante aos demais processos produtivos, é necessário que existam critérios capazes de ordenar os diferentes resíduos gerados, numa escala de maior para menor prioridade. Consistindo esse um dos principais objetivos para o presente trabalho, depois de mapeados os processos desde a colheita até a torra, observou-se de acordo a diferentes autores que o descascamento (processo constituinte do beneficiamento) é identificado como etapa prioritária para a tomada de decisão na implementação de possíveis soluções para a minimização dos resíduos. Ainda considerando o processo de descascamento foi possível observar ao final deste a geração de resíduos como folhas, talos, palha e a própria casca do café. Para isso foram propostas formas e alternativas para reutilizar desses resíduos de forma a incorporá-los ao sistema produtivo, levando a uma solução para a questão do passivo ambiental, transformando o que seria refugo em nova matéria-prima, fonte geradora de energia. Tendo em vista então as principais fases potenciais geradoras de resíduos são apontadas as possíveis oportunidades de melhorias dentro do processo.

7.1. OPORTUNIDADES DE MELHORIAS

De acordo com Borém (2008), o descascamento é considerado a fase central do processo de beneficiamento do café, por se tratar de uma etapa que liga todos os processos. Os descascadores são os equipamentos responsáveis por remover tanto as cascas quanto o pergaminho e outras impurezas que fazem parte dos grãos. Por se tratar de uma etapa de grande importância no processo, apesar de grande fonte geradora de resíduos, eliminá-la não seria o recomendado, mas sim uma adequação dos parâmetros considerados na caracterização desses resíduos, como: a matéria-prima; as práticas operacionais; a tecnologia utilizada; o desenho do produto e a manipulação dos resíduos gerados. Dentre os parâmetros analisados, as oportunidades de melhoria e minimização de resíduos provenientes da fase de descascamento correspondem às seguintes adequações:

Quanto à Tecnologia: Podem ocorrer modificações tanto no processo, quanto nos equipamentos, podendo variar os métodos de captação de pó e o destino adequado para os resíduos dessa etapa, através do uso de aspiradores (alto custo).

Quanto às Práticas Operacionais: Podem ser aplicados procedimentos que vão desde os administrativos; com a conscientização da redução dos resíduos por parte dos envolvidos, os operacionais; com a prevenção de perdas, separação de resíduos que não podem ser reutilizados no processo, até as práticas de gestão ambiental voltadas para implementar os conceitos de Produção Mais Limpa, abordados no trabalho.

Quanto à Manipulação dos Resíduos Gerados: Pode ocorrer o estímulo do retorno de materiais residuais ao processo, seja no plantio (como o uso na adubação e compostagem) ou em outras etapas, substituindo materiais de entrada após o devido tratamento.

7.1.1. Uso de Torrador Ecológico

O torrador ecológico é um exemplo de tecnologia end-of-pipe criada pela empresa Alfa na década de 80, que é utilizada em tratamento e minimização de resíduos tendo como intenção a reutilização da mesma fonte de calor, ou seja, que ao final do processo de torra a fumaça resultante retorne a circular na fornalha por meio de dutos de desvio de ar quente para que seja liberada para a atmosfera somente gases limpos, quando totalmente incinerados. Mais à frente nos anos 2000, a empresa aperfeiçoou as técnicas e passou a controlar além da emissão de gases, a temperatura, pressão, rotação da câmara de torra e a velocidade do fluxo do ar. Com isso, permite-se manipular todo o processo de torra (OURA; SOUZA, 2007).

Essa sistemática além de aumentar a eficiência do método de torra, agrega um procedimento de autolimpeza da tubulação, diminuindo com isso os custos feitos com manutenções. Entretanto, Oura e Souza (2007) salientam que ainda seria necessária a limpeza da máquina devido aos óleos e gases liberados pelo café, que tendem condensar-se nas paredes da tubulação, o que pode levar a um incêndio do equipamento caso haja alguma faísca.

Ainda segundo os autores, com a implementação do torrador ecológico:

“foi possível atender aos três propósitos do conceito de tecnologia limpa   definidos na Conferência de Estocolmo: A poluição foi reduzida com o emprego do sistema de recirculação dos gases para a fornalha; As películas puderam ser recentemente peletizadas e reaproveitadas para serem utilizadas como adubo ou como fonte de energia para outros processos produtivos; O consumo de combustível foi reduzido continuamente com a substituição do pós-queimador.”

7.1.2. Implantação de Sistema para Limpeza de Águas Residuais – SLAR no Café Cereja

Durante os processos de lavagem, descascamento e degomagem, diversas impurezas aderidas ao “café da roça”, fragmentos de folhas, de ramos, dos frutos, das cascas e a mucilagem se juntam à água, formando a água residual do café (SILVA et al., 2014). Devido ao potencial poluidor dessas impurezas, a água residual não pode ser lançada em corpos hídricos sem tratamento adequado, de modo que atenda às condições e padrões para o lançamento de efluentes, conforme disposto na Resolução 430, de maio de 2011, do CONAMA (BRASIL, 2011).

Com isso, o Sistema para Limpeza de Águas Residuais – SLAR tem impacto positivo nesta tratativa, visto que apresenta diferentes possibilidades para o reuso de água nos distintos processos envolvidos na produção, principalmente no pós-colheita, uma vez que a água utilizada no processamento ao ser liberada, se encontra repleta de resíduos sólidos, altamente tóxicos e prejudiciais ao meio ambiente, graças a grande quantidade de compostos orgânicos retirados do fruto do cafeeiro.

O SLAR, desenvolvido pela Embrapa Café, Epamig e o Incaper, é constituído, por três caixas de decantação/ flotação e duas peneiras filtros. As caixas retêm os resíduos mais densos da água por decantação e os menos densos por flotação. Os resíduos, com potencial para obstruir os esguichos do cilindro do descascador, carreados para fora da terceira caixa são retidos nas peneiras (filtro) do SLAR (SILVA et al., 2014).

Esse processo permite a reutilização da água por quatro ou cinco vezes, bem como a possibilidade de utilização na fertirrigação. Já quanto aos resíduos sólidos, esses podem ser retirados e empregados na produção de adubos orgânicos, ou seja, podem ser direcionados a um processo de compostagem.

Os resultados encontrados com essa utilização foram completamente satisfatórios, reduzindo o consumo de água em torno de 76% do consumo médio utilizado anteriormente, conforme teste feito por Moreli (2010), na Fazenda Experimental do Incaper, em Venda Nova do Imigrante - ES. Vale ressaltar que o sistema pode ser utilizado por produtores de pequeno, médio e grande porte, graças ao baixo custo de instalação e manutenção (EMBRAPA CAFÉ, 2014).

7.1.3. Uso de Terreiro Híbrido para Secagem do Café

Por se tratar de uma cultura que muitas vezes é cultivada em regiões com baixa incidência de radiação solar, a inconstância da radiação solar e a possibilidade de períodos chuvosos durante a colheita inviabilizam a produção de cafés de qualidade em algumas regiões (SILVA et al. 2011). Sobre isso, Donzeles (2002) analisou a adaptação de um sistema de ventilação com ar quente para melhorar o desempenho e reduzir o tempo de secagem de um terreiro convencional, dando origem ao terreiro híbrido.

Segundo Silva et al. (2013), o terreiro híbrido é simples, econômico e capaz de secar o café recém-saído do lavador ou descascador em menos de cinquenta horas efetivas de funcionamento, com o ar aquecido a 50ºC, resumindo, ele faz uso de parte de um terreiro convencional onde se adapta um sistema de ventilação composto de ventilador, túnel e distribuidores de ar (tomadas de ar e calhas de distribuição), cujo ar é aquecido por uma fornalha para biomassa ou qualquer outra forma de aquecimento para secagem do produto enleirado sobre as calhas de distribuição. A figura 7 mostra um esquema de opção de terreiro híbrido:

Figura 7 - Modelo de Terreiro Híbrido

Fonte: Sousa (2013)

Sua efetividade nas regiões consideradas se dá devido a não necessidade de radiação solar para o seu funcionamento, bem como a cobertura utilizada que protege em dias chuvosos, podendo ser feita a princípio por lona ou um telhado fixo, podendo ainda, futuramente, utilizar um teto de captação solar para que nesses períodos mais chuvosos se faça uso desse recurso energético. Portanto, na ausência de radiação solar, incidência de chuvas ou durante os períodos noturnos, o produto que se encontra espalhado no terreiro convencional deve ser recolhido e enleirado sobre as calhas de secagem ou distribuído nas caixas para secagem com ar aquecido (SILVA et al., 2013).

A escolha da localidade de instalação do terreiro é de suma importância, visto que para manejo do produto, a facilidade no desenvolvimento dos processos torna-se o ponto chave para o sucesso dessa construção, ou seja, a locomoção entre o lavador, o secador, leiras e o armazenamento deve ser bem estruturado. Sendo assim, também para o processo de ventilação ou aquecimento é necessário atentar-se para essa escolha quanto à fornalha, para que a distribuição do ar seja feita de forma análoga e os grãos sejam secos de forma uniforme. Uma fornalha a carvão vegetal, como a analisada por Lopes (2002), teria vantagens como: queima contínua do combustível, manutenção da temperatura do ar de secagem constante e ser fonte de energia limpa, ou seja, gerar calor livre de fumaça e de contaminantes durante a secagem (SILVA et al., 2013)

7.2. ALTERNATIVAS PARA REAPROVEITAMENTO DOS RESÍDUOS DO CAFÉ

O surgimento de novas técnicas no Brasil proporciona à indústria do café a possibilidade de se produzir de maneira sustentável, minimizando riscos econômicos de produção e adequando os processos quanto às questões ambientais que o novo sistema sugere.

A implementação da Produção Mais Limpa através das tecnologias sustentáveis ainda traz diversos pontos positivos: melhoria da qualidade de vida; aumento de renda da população através da geração de empregos, ainda que temporários; adequação estrutural para correta disposição dos resíduos; reaproveitamento dos resíduos sólidos, fonte de potássio, desde que estudado o seu impacto em caso de sobrecarga, necessário para a adubação na fase de plantio; reutilização da água pós–tratamento para a irrigação; e a reutilização dos resíduos para a obtenção de briquetes (lenha ecológica) substituindo a lenha que geralmente é proveniente do eucalipto.

7.2.1. Reaproveitamento da Casca

De acordo a Matos (2008), a casca representa a principal parte dos resíduos dos grãos de café, com cerca de 39% da massa fresca ou 29% da massa seca do fruto. Da proporção representada a mucilagem constitui uma capa que varia entre 0,5 e 2,0 mm de espessura, fortemente aderida ao pergaminho, sendo esse último a parte anatômica que envolve o grão, representando cerca de 12% de matéria seca do fruto (DE LIMA, 2006). Quanto à parte de cascas dos resíduos do café, os destinos e usos alternativos mais viáveis são:

  • Combustível: por conta do poder calorífico, cerca de 3.500 kcal/kg, permite autotomia energética, onde qualquer excesso desse resíduo pode ser queimado sem oferecer riscos, constituindo assim alternativa de uso economicamente interessante (VEGRO; CARVALHO, 1993).
  • Carvão: pode ocorrer a transformação das cascas em carvão, gerando também retorno financeiro. Através de técnicas de gaseificação e hidrogenação poderá ocorrer ainda a conversão térmica dos resíduos secos (ADAMS; DOUGAN, 1987).
  • Adubo Orgânico: as cascas podem ser utilizadas como cama para animais, misturadas com esterco de curral e outros resíduos orgânicos, sendo acrescentadas em diversos adubos químicos, além da possibilidade de uso em ciclos biogênicos através da compostagem.
  • Material Filtrante: podem ser utilizadas na separação de sólidos das águas residuárias (MATOS, 2008).
  • Absorvente de Metais Pesados: as cascas secas, em seu estado natural, quando envolvidas em solução aquosa, foram avaliadas como potenciais absorventes capazes de remover metais pesados, com baixo custo. Sendo ainda melhores quando utilizadas inteiras (REIS, 2005).
  • Ração Para Animais: as cascas podem complementar a ração se misturadas a outros vegetais forrageiros. Estudos apontam que é possível utilizar até 10% de casca de café na fase de crescimento e até 15% na fase de engorda (COSTA, 1998).

7.2.2. Reaproveitamento do Pergaminho

Com características celulósicas, o pergaminho é o principal constituinte do endocarpo do fruto do café (12% do peso seco das cerejas), constituindo 25% do peso do café beneficiado (BARTHOLO et al, 1989). Os principais usos alternativos, quando não descartados são:

  • Ração Para Animais: pode ser incorporado nas rações para animais substituindo o milho em até 30% da sua proporção, de maneira a não afetar a absorção pelos bovinos (CLAUDE, 1979).
  • Adubo Orgânico: o pergaminho tem sido utilizado como adubo em solos pobres em potássio, apesar de possuir um alto custo de transporte por conta do seu volume (BORÉM, 2008).
  • Composto Orgânico: pode ser utilizado como cama ou forragem em currais, pisoteado e misturado ao esterco, resultando num composto que serve como adubo (ADAMS; DOUGAN, 1087).
  • Combustível: por se tratar de material de grande poder calorífico (CLAUDE, 1979), o material excedente que não é utilizado como composto pode ser usado como combustível no próprio local ou vendido para a indústria (ADAMS; DOUGAN, 1987).
  •  Carvão: o pergaminho já é bastante conhecido pelo seu uso na produção de briquetes (lenha ecológica), sento utilizado como combustível domiciliar. O produto possui a capacidade de queimar por mais tempo que o carvão convencional, já sendo utilizado em alguns países como o Quênia (ADAMS; DOUGAN, 1987).
  • Material Filtrante: de acordo à Matos (2008), da mesma forma da casca, o pergaminho pode ser usado como material filtrante para separar sólidos da água residuária nas estações de tratamento.

Os resíduos gerados listados quando não reaproveitados dentro do mesmo processo ainda podem ser comercializados para serem utilizados em outros tipos de produção.

As tecnologias alternativas possíveis de serem aplicadas bem como as possibilidades de reaproveitamento de resíduos apontadas podem ser melhor visualizadas de acordo aos quadros 2 e 3:

Quadro 2: Resumo das possíveis Tecnologias Limpas a serem utilizadas

TECNOLOGIA

Torrador Ecológico

Sistema de Limpeza de Águas Residuais (SLAR)

Terreiro Híbrido

ETAPA

Torra

.Lavagem.

.Descascamento.

.Degomagem.

Secagem

 

GANHOS

.Reutilização da fumaça nos dutos.

.Liberação na atmosfera apenas de gases limpos.

.Autolimpeza.

.Redução no consumo de combustível.

.Reutilização da água.

.Produção de adubos com os resíduos orgânicos.

.Redução do consumo de água.

.Redução no tempo de secagem.

.Adequação independente das condições climáticas.

DISPOSIÇÃO DOS RESÍDUOS

Incinerados

.Fertirrigação.

.Compostagem.

 

Fonte: Próprio autor (2019)

As tecnologias não são excludentes entre si, podendo assim ser incorporadas aos processos mesmo que já existam outras em uso.

Como resultados do estudo da possibilidade de reaproveitamento dos resíduos gerados ao longo do processo, estes podem ser listados de acordo ao quadro 3:

Quadro 3: Resumo das alternativas de reaproveitamento dos resíduos do processo

RESÍDUO

CASCA

PERGAMINHO

REAPROVEITAMENTO

.Combustível.

.Carvão.

.Adubo Orgânico (compostagem).

.Material Filtrante.

.Cama para animais.

.Absorvente de metais pesados.

.Ração para animais.

.Ração para animais.

.Adubo Orgânico.

.Composto orgânico (adubo).

.Forragem para animais.

.Combustível (briquetes, lenha ecológica).

.Carvão.

.Material Filtrante.

 

GANHOS

. Autonomia energética.

. Retorno financeiro.

.Autonomia energética.

.Retorno financeiro.

Fonte: Próprio autor (2019)

Como pode-se perceber, o reaproveitamento dos resíduos pode gerar ganhos que vão além da reutilização dos mesmos dentro do processo, constituindo também possível fonte de renda através da sua comercialização, atendendo novamente a proposta da Produção mais Limpa, de sempre que possível reutilizar e dar destino correto aos resíduos gerados em cada processo.

8. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Para a obtenção de alimentos adequados para o consumo humano, que atendem às especificações de qualidade e são atrativos às prateleiras, são empregados diferentes processos de produção, sejam eles físicos, químicos ou biológicos. O processamento de alimentos, especificamente o de grãos constitui-se de diversas etapas, desde a colheita, até o armazenamento do produto final e sua comercialização. Considerando que produtos de qualidade e com espaço no mercado são o principal objetivo da agroindústria, paralelo a sua produção observa-se à geração de materiais de origem não-intencional, os resíduos. Dessa maneira, surge a necessidade de um estudo aprofundado sobre os mesmos, como parte de um gerenciamento ambiental preventivo, visando melhorias no desempenho ambiental e produtivo, reduzindo perdas e remediando os possíveis impactos gerados ao ambiente.

Analisando as possibilidades de tecnologias voltadas para o processo de cultivo e produção de café, verificou-se que os processos de utilização de torrador ecológico, o sistema para limpeza de águas residuais (SLAR) e o terreiro híbrido para secagem de café, constituem-se alternativas promissoras para o tratamento dos resíduos gerados, possibilitando a retirada de nutrientes descartados, com a possibilidade de concentrá-los para um possível reuso dentro dos subprocessos da cultura do café. Além disso, as sugestões de modificações quanto aos processos, mudança de equipamentos, adoção de procedimentos voltados para a conscientização dos envolvidos e estímulo à reutilização dos materiais residuais, como novas matérias-primas a serem agregadas em diferentes processos, apresentaram-se como alternativas capazes de remediar os impactos gerados e agregar valor ao produto final, levando a vantagens competitivas que podem ir além da simples certificação, como retorno econômico e ambiental para a indústria. Entretanto, qualquer intenção de implementação das técnicas citadas exige uma análise econômica apurada.

A PmaisL proporciona uma modelagem lógica e detalhada dos processos, possibilitando conhecer a principal fonte geradora de resíduos. A partir disso, pôde-se direcionar o foco a esta etapa, buscando soluções capazes de minimizar o desperdício de materiais e até mesmo incorporá-los novamente ao processo produtivo. Neste sentido, a premissa desta pesquisa esteve relacionada à consciência de que: quanto maior for o esforço para mitigar os impactos ambientais através das práticas de Gestão Ambiental, melhor será o gerenciamento dos resíduos gerados na agroindústria, trazendo benefícios não só ambientais, mas também sociais e econômicos. Desta forma, a implementação da Produção mais Limpa na agroindústria do café traz uma solução para se reduzir o passivo ambiental por sugerir destinos ambientalmente corretos para os resíduos gerados em sua atividade. Essa preocupação com a Gestão Ambiental pode ser enxergada como uma resposta natural aos novos tipos de clientes, caracterizados pela sua preocupação com produtos e serviços ecologicamente corretos.

Posto isto, apesar da dificuldade em encontrar trabalhos que abordem o tema de maneira semelhante e apresentem resultados consistentes, a pesquisa apresentou-se como de grande contribuição por agregar conhecimento a respeito dos meios alternativos de se produzir café, consequentes da aplicação da P+L, abrindo margem para futuros estudos capazes de colocar em prática o uso das tecnologias apontadas, contemplando avanços no ambiente social, econômico e ambiental.

9. REFERÊNCIAS

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Publicado por: Eros Gusmão Andrade

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