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Sociabilidades, apropriações e significados do espaço de um karaokê no Espírito Santo

Administração e Finanças

Os significados sociais atribuídos pelos usuários a um espaço organizacional, mais especificamente, um karaokê, verificando-se as interações e trocas simbólicas que ocorrem neste contexto.

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1. RESUMO

O objetivo deste trabalho foi desvendar alguns dos significados sociais atribuídos pelos usuários a um espaço organizacional, mais especificamente, um karaokê localizado em Vila Velha, no Espírito Santo. O processo de construção de significados foi apreendido a partir de dois eixos temáticos: a sociabilidade e o espaço. A temática da sociabilidade mostrou-se relevante à análise, uma vez que a organização pesquisada fornecia um espaço destinado à atração de pessoas e grupos, para a realização de encontros sociais e comemorações. Assim, verificou-se que as interações e trocas simbólicas entre iguais e diferentes resultavam na conservação dos laços sociais e na formação de novos relacionamentos, grupos e redes de reciprocidade. A problematização do espaço possibilitou a compreensão de sua dinâmica social, das formas de apropriação efetuadas pelos clientes e da construção de significados. Os métodos utilizados para a coleta e análise de dados foram a observação participante e sistemática, e a entrevista semiestruturada. Em seguida, os dados foram submetidos à análise de conteúdo, organizados em texto descritivo e em categorias de significados. Os significados do espaço inferidos em campo e na reanálise dos dados ressaltam a importância social do karaokê, enquanto um espaço de fruição musical, de celebrações, de relaxamento, de vínculos, entre outras significações, sendo permeado pela cultura juvenil, que recobria as interações entre o público frequentador. Desse modo, buscou-se evidenciar que o karaokê não era apenas um lugar onde os clientes poderiam cantar e desfrutar de algumas rodadas de cerveja, era, contudo, um território social onde vivenciavam inúmeras experiências pessoais e coletivas, construindo sentidos compreensíveis dentro do seu grupo, muitas vezes, desconhecendo os significados compartilhados por outros grupos, ou discordando dos mesmos à certa distância, ou, ainda, formando elos com pessoas e grupos que partilhavam dos mesmos costumes e ideais. Não por acaso, tudo isso transcorria em meio ao show incessante de cantores e equipes, enquanto outros aguardavam a chamada para sua apresentação no palco. Ou será que estariam envolvidos em outras situações e formas de significar o espaço?

Palavras-chave: Significados sociais. Sociabilidade. Espaço. Karaokê. Cultura juvenil.

2. INTRODUÇÃO

A vida urbana é envolvida por muita agitação, constante circulação de automóveis nas avenidas, ônibus e metrôs repletos de empregados, desempregados, empresários, autônomos, estudantes, aposentados, idosos e crianças, que ocupam as calçadas e os mais diversos espaços urbanos. A noite desperta o perigo, mas mostra seus encantos, nos encontros, comemorações, festas, nos círculos sociais, após a jornada de trabalho ou estudo, ou mesmo, durante o período de folga e férias. Pois além de trabalhar, estudar, fazer negócios, fazer compras no supermercado, consultar-se com o médico, cuidar de si, da família e da casa, namorar, praticar sua religião, algumas pessoas também dedicam seu tempo ao convívio social e às práticas espaciais nos espaços de sociabilidade, como os bares, restaurantes, cafés e karaokês, que são, ao mesmo tempo, espaços organizacionais.

Na visão de Fischer (1994), o espaço organizacional pode ser compreendido não apenas como forma de distribuição física que confere melhor produtividade, mas também enquanto território social, marcado por valores e condutas, ligados a experiências internas e externas. Sendo assim, o espaço de uma organização, além de refletir a cultura organizacional, torna-se ainda um campo de tensões entre a concepção espacial de seus dirigentes e a apropriação efetuada por seus empregados e clientes (FISCHER, 1994).

Dentre os espaços de sociabilidade, pode-se destacar o espaço de organizações que favorecem um tipo particular de interação social – a sociabilidade organizacional, por meio da qual são criados e compartilhados os significados deste espaço (FANTINEL, 2012). De acordo com Fantinel (2012), o conceito de sociabilidade organizacional refere-se às formas de relacionamento social provenientes de processos que envolvem interações, representações e significados, “que se constroem dentro e fora do espaço organizacional, mas permeados pelo cotidiano da organização, e altamente influenciados pelo processo de gestão” (FANTINEL, 2012, p. 57).

Nesse sentido, foi escolhida uma organização específica para o desenvolvimento desta pesquisa, o Karaokê Canto Livre, localizado em Vila Velha, cidade que integra a Região Metropolitana da Grande Vitória (RMGV), no Estado do Espírito Santo. O estabelecimento possuía como principal atividade oferecer aos clientes a estrutura e o serviço para a apresentação de canto solo, dueto ou em pequeno grupo, mediante a escolha prévia das canções, dispostas em um catálogo de audiovisuais com áudios instrumentais para acompanhamento vocal, chamados no Brasil de playbacks. Os clientes são anunciados pelo operador de audiovisuais a subir ao palco para a execução de sua apresentação musical, enquanto são exibidas, numa tela, as letras que mudam de cor no ritmo da canção, assegurando uma melhor performance frente ao esquecimento das letras da canção escolhida. A associação do playback com o vídeo das letras das canções é o que se passou a denominar como karaokê. O karaokê é uma invenção japonesa, como o próprio nome sugere, surgida na década de 1970, que inaugurou uma nova forma de exibição do canto, por meio de seu aparato tecnológico, propriamente, o canto de karaokê (MITSUI; HOSOKAWA, 1998).

A presente pesquisa foi baseada na seguinte questão norteadora: Quais significados do espaço podem ser depreendidos a partir das formas de sociabilidade organizacional e das práticas espaciais vivenciadas pelos atores sociais no espaço do Karaokê Canto Livre?

A partir desta questão, o objetivo geral do trabalho foi dedicado a compreender os significados do espaço confirmados pelas formas de sociabilidade organizacional e pelas práticas espaciais dos atores sociais no espaço do Karaokê Canto Livre. Para a consecução deste objetivo, foram estabelecidos os seguintes objetivos específicos:

a) descrever as especificidades do espaço do Karaokê Canto Livre;

b) descrever as formas de uso do espaço do karaokê, apropriado pelos clientes;

c) descrever as formas de sociabilidade organizacional exercidas pelos clientes no espaço do karaokê;

d) articular as formas de sociabilidade com os significados do espaço apreendidos.

Este trabalho se justifica como uma proposta de reflexão no campo organizacional e acadêmico, ressaltando o fator humano e a dimensão social implicados na construção simbólica de espaços, produtos, serviços e práticas. Além disso, acredita-se na sua possível contribuição para as estratégias e práticas de gestão da organização pesquisada, uma vez que se evidencia a importância social do karaokê na vida dos seus clientes, tendo em vista, ainda, que poderiam estar em outro lugar, mas escolhiam frequentar e se reunir naquele espaço. O espaço organizacional do karaokê foi compreendido enquanto um espaço significativo de sociabilidade urbana e de trocas simbólicas, um território social permeado por práticas e significados compartilhados, que se consolidavam no valor intangível atribuído à organização, sob a perspectiva dos seus clientes. Como será visto, diferentes significados convivem entre si, porém nem sempre caminham de mãos dadas, o que traz ao gestor a responsabilidade de melhor conhecê-los e de inseri-los em sua lógica e sensibilidade de organização.

No próximo capítulo, são apresentados os conceitos fundamentais que consolidaram esta pesquisa, com base em autores clássicos e contemporâneos, a respeito de duas categorias de análise em Estudos Organizacionais: a sociabilidade e o espaço. A estrutura deste trabalho segue com a descrição dos aspectos metodológicos, no terceiro capítulo; no quarto capítulo, um breve histórico sobre a origem do karaokê e sua apropriação no contexto brasileiro; no quinto capítulo, descrevem-se algumas especificidades da organização pesquisada; no sexto capítulo, apresentam-se os resultados obtidos em todo o processo de pesquisa; e no sétimo e último capítulo, são traçadas as considerações finais.

3. SOCIABILIDADE NAS CIÊNCIAS SOCIAIS

Nas Ciências Sociais, pode-se ressaltar o problema da ação entre duas pessoas, ou entre incontáveis eus, os indivíduos constituindo as interações humanas, como um oceano povoado de vida, de formas desconhecidas, que se pretende sondar. A sociabilidade é um dos conceitos que nasce do olhar sobre essas interações.

Não se trata aqui de uma referência unívoca àquela sociabilidade dos momentos de confraternização, embora, ela esteja, muitas vezes, presente nesses momentos e espaços. Também não se restringe à palavra no sentido do dicionário, de origem latina, usada na Europa desde o século XVIII, como a “qualidade de ser sociável” (CANAL, 2015). Busca-se, todavia, para além do sentido apreendido pelo senso comum, uma elucidação desse conceito enquanto categoria de análise, já problematizado por autores de diferentes áreas do saber científico, bem como a sua aplicação no campo da Administração e dos Estudos Organizacionais.

Georg Simmel, um dos fundadores da Sociologia alemã, consolida o conceito de sociabilidade (FRÚGOLI JR., 2007), ao estabelecer uma dualidade entre o conteúdo e a forma da sociedade, metáfora com a qual fundamentou o seu método científico, e ao designar a sociabilidade como uma forma de sociação (SIMMEL, 1983). O construto da sociação pode ser correlacionado, a título de exemplo, enquanto processo associativo, aos conceitos de ação social de Weber e de solidariedade, em Durkheim, ambos considerados fundadores da Sociologia (PEREIRA, 2012). Simmel delimitou a teoria sociológica em três disciplinas: a sociologia formal, a sociologia geral e a sociologia filosófica. Coube à primeira o estudo das formas sociais, em resposta a sua pergunta: “como a sociedade é possível?”. Esta só seria possível como resultante da multiplicidade de interações sociais, isto é, das ações e reações dos indivíduos entre si, num movimento sempre contínuo de aproximação e afastamento, consenso e conflito, intimidade e reserva, de encontro e despedida (MORAES FILHO, 1983).

Ao invés de representar o conjunto total dos indivíduos, a sociedade significaria a grande pluralidade das formas de ligação entre os indivíduos, dotadas de conteúdos geradores, constituintes da realidade histórica. Logo, a sociação é definida pelo autor como cada uma destas formas sociais de interação, de influência recíproca, direta ou intermediada por um terceiro. A sociedade é o todo e a sociação, as suas partes, suas partículas mínimas, em analogia a um organismo, que se mantém vivo devido às trocas mútuas que suas células estabelecem (SIMMEL, 1983).

O conteúdo, portanto, como princípio gerador, corresponde aos instintos, interesses, propósitos, necessidades, pensamentos, sentimentos e motivações presentes nos indivíduos e que os conduzem a diversas formas de influenciar e ser influenciado, isto é, de sociações, capazes de originar uma unidade social, e enfim, uma sociedade propriamente dita. Todavia, esse conteúdo, de ordem psíquica e com finalidades existenciais, políticas, econômicas, religiosas, emocionais e tantas outras, seria objeto de outras ciências, enquanto a Sociologia se ocuparia da observação e interpretação das categorias interacionais (SIMMEL, 1983).

Nesse sentido, a sociabilidade surge, quando, numa sociação, o processo da interação entre os indivíduos se torna um fim em si mesmo, adquirindo um valor de grande estima aos seus participantes, pela satisfação intrínseca do vínculo sociável. Desse modo, a sociabilidade (Geselligkeit) é denominada como a forma lúdica da sociação (Vergesellschaftung), uma espécie de jogo sociável de interações, mobilizadas por qualidades pessoais como cordialidade e amabilidade, entre outras, e reguladas por valores sociais como alegria, cortesia, discrição, e muitos outros. Um jogo simbólico que se converte na arte de esconder e revelar-se por meio da estética das representações. Assim, uma pessoa, movida pelo impulso de sociabilidade, mantém adormecidos seus interesses objetivos e seus aspectos mais pessoais, e deixa fluir, tanto quanto possível, essa livre interação com o seu semelhante, que a retribui no mesmo movimento, até o momento da despedida, consentida ou fortuita (SIMMEL, 1983). Logo, a sociabilidade simmeliana pode ser concebida entre dois polos: o da intimidade e o da indiferença. Seus participantes devem ter um mínimo de interesse na relação, mas não chegam a revelar-se sem reservas ao outro, como se faria entre amigos íntimos e confidentes. A sua apreensão se daria, portanto, no domínio da solidariedade, do coleguismo, da reciprocidade.

A forma mais elevada da reciprocidade, segundo o autor, é a conversa (acompanhada do olhar mútuo). Seja na forma de histórias, memórias, piadas ou de problemas éticos, na sociabilidade, o conteúdo da conversa serve de mero veículo, a fim de que todos possam participar igualmente. Assim, a conversação se desenvolve por meio de habilidades comunicacionais, pela fácil mudança de assunto, contribuindo para que o elo não se quebre ao fim do primeiro tema que deu início à interação (SIMMEL, 1983). O ato de conversar por conversar, pelo simples prazer da conversa, apresenta uma distinção na sociabilidade dos brasileiros, presente nas expressões “jogar conversa fora”, “bater papo”, “trocar ideia”, “conversar fiado”. Essas expressões foram observadas por Celada (2004), linguista argentina, sem encontrar correspondentes em sua língua nativa, o que demonstra o jeito espontâneo e informal do brasileiro, ao assumir uma postura positiva ou negativa diante da sociabilidade.

Deveras, não se pode deixar de mencionar a natureza da sociabilidade que, para Simmel (1983), configura-se como o tipo mais atraente, estilizado e transparente de interação – a interação entre iguais. Essa igualdade não se dá de forma necessariamente objetiva. Ela é menos pessoal e mais social, situacional e relacional. Consiste num jogo democrático, no qual se “faz de conta” que são todos iguais. As instituições sociais procuram criar uma situação de igualdade formal entre os pares, como se vê no ingresso de um grupo com a mesma faixa etária na escola e no exército, incluindo ter o mesmo sexo para este último. Outro exemplo é encontrado na religião, como no cristianismo, em que os seus membros são considerados como irmãos, e desenvolvem sociabilidades de acordo com os valores assimilados e reafirmados, ao longo das gerações, com peso de mandamento divino, exterior ao social. A própria língua, portadora dos valores e significados, atua como um dispositivo de unificação nacional, como fator de identificação com o outro, como aquilo que as pessoas têm em comum, embora seja constantemente reelaborada dentro de grupos e geografias específicas.

Em suma, o autor esclarece que a sociabilidade construída em seu discurso pertence a um mundo ideal e artificial, e representa um ideal comunitário, onde o prazer de um indivíduo se condicionaria pelo prazer dos outros, de estar com o outro, como já havia demonstrado em seus primeiros escritos:

Este método peculiar de exagerar e reduzir conceitos produz um conhecimento do mundo que pode ser mensurável com o nosso modo de conhecimento. Nosso intelecto pode apoderar-se da realidade somente mediante limitações dos conceitos puros, os quais, não importa quanto se desviem da realidade, provam sua legitimidade pelo serviço que prestam ao interpretá-la (SIMMEL, 1983, p. 22).

Não obstante, o autor defende a importância da sociabilidade para a compreensão do fenômeno da sociedade, da estruturação e continuidade das coletividades, como sua expressão mais pura e singular, sintetizada em uma reunião sociável, o seu produto final, que se constitui uma riqueza enquanto símbolo da vida e da vitalidade de indivíduos concretos, com seus sentimentos, encantos e convicções (SIMMEL, 1983). Muito embora “todas as interações humanas sejam estabelecidas em razão de certos interesses obscuros, existe em todas elas um resíduo de pura sociabilidade ou associação para o seu próprio bem” (SIMMEL, 1949, p. 254, tradução nossa).

Ainda que a seriedade da vida imponha certas pressões e exigências, envolvida por um racionalismo superficial que tende a valorizar apenas contatos e conteúdos objetivos, a sociabilidade pressupõe a existência de uma abertura, uma disposição para o convívio social, liberador das sobrecargas diárias, com efeito de sublimação de toda a seriedade do real, em semelhança à fruição das expressões artísticas (SIMMEL, 1983).

A conceituação da sociabilidade em Simmel ressoa como uma crítica do autor ao comportamento individualista, quando afirma que nenhum interesse egoísta explícito pode conduzir o indivíduo em seus relacionamentos; e como uma apologia à unidade social firmada no ideário da democracia, na equação das convergências e divergências dos interesses individuais, quando define o caráter democrático da sociabilidade (SIMMEL, 1983). De certo modo, a sociabilidade pode ser tomada, não como sinônimo, mas enquanto figura emblemática das interações sociais de uma maneira geral, em todas as épocas e lugares.

QUADRO 1 – OPOSIÇÕES SEMÂNTICAS ENTRE OS CONCEITOS DE SOCIAÇÃO E SOCIABILIDADE DE SIMMEL

SOCIAÇÃO

SOCIABILIDADE

Interação objetiva

Interação lúdica

Formas observáveis dos conteúdos psíquicos

Formas autônomas,
como o jogo e a arte

Necessidades e interesses específicos (existenciais, políticos, econômicos, religiosos, emocionais, etc.)

A coletividade é o seu interesse e necessidade

Condições pessoais ou de sobrevivência

Condição de igualdade relacional

Conversa objetiva

Conversar por conversar

Seriedade do real

Sublimação do real

Materialidade da vida

Símbolo da vida

Reciprocidade de influências

Reciprocidade pura

Mundo racionalizado

Mundo ideal

Fonte: O autor, baseado em Simmel (1983).

Com a proposição de ilustrar sucintamente o sentido da sociabilidade simmeliana, construiu-se este quadro de oposições semânticas entre sociação e sociabilidade (Quadro 1).

3.1 SOCIABILIDADE URBANA

Em abordagens posteriores, o conceito de sociabilidade foi posto à prova nas experiências da realidade social prática, no âmbito das cidades em franco crescimento e urbanização. Nesse ponto, destacaram-se os pesquisadores da Escola Sociológica de Chicago, como William Thomas, Robert Park e Louis Wirth, entre outros, orientados, de modo geral, pela pesquisa empírica qualitativa, pelo pragmatismo de intervenção social, pela metodologia diversificada, e pela consideração da dimensão espacial como determinante do mundo social e por ele determinada (COULON, 1995; FRÚGOLI JR., 2007). Para esses pesquisadores, a sociabilidade era considerada formas de relacionamento social concreto em contextos de convívio social marcado pelo consenso, sendo encontrada, por exemplo, nas relações de vizinhança de caráter comunitário, nas relações entre grupos de interesse comum e nas interações entre grupos onde há diversidade de tipos humanos, presentes nos espaços públicos urbanos (FRÚGOLI JR., 2007).

Conforme argumenta Gilberto Velho (2013), a ideia de sociabilidade é tributária da tradição interacionista e abrange o território das interações, das redes de interações e das situações interacionais dos mais diversos tipos, imbricadas à problemática do cotidiano, de fatos que não se vinculam necessariamente às grandes questões estruturais. O autor abre o escopo da definição de Simmel, e usa o termo sociabilidade para se referir às relações, relacionamentos, interações sociais em geral, tecidas na trama da vida cotidiana, com a função de constituir a base da vida social, e, por outro ângulo, de fornecer as escolhas e as decisões que em longo prazo vão afetar a estrutura social (VELHO, 2013).

A temática da sociabilidade tem sido evidenciada, segundo Velho (2013), dentro de alguns campos de pesquisa classificados como áreas de reflexão de sociabilidade, como, por exemplo, o folclore, que lida com as interações sociais na forma de comemorações, jogos e expressões da cultura popular. A dramaturgia também possui um campo que explora a temática da sociabilidade, observada no roteiro de novelas, seriados, filmes e peças, que retratam a vida cotidiana com nuances criativas, nos gêneros de humor, romance, drama, entre outros. A crônica literária desempenha um papel semelhante. Outro exemplo é o ensino de idiomas, que, por meio de ferramentas didáticas, apresenta como as formas de cumprimento e de tratamento variam em cada país ou cultura, além de reunir uma coleção de tópicos de conversação.

Também na Historiografia, a sociabilidade se tornou uma importante categoria de pesquisa empírica, no final da década de 1960, a partir de Maurice Agulhon, na França, obtendo notável repercussão em outros países e continentes. Sua consolidação se deu por meio de numerosos trabalhos e temas, um campo de estudos dinâmico e seu reconhecimento em obras não especificamente dedicadas à sociabilidade. O historiador analisou como eram forjadas as relações sociais e políticas no espaço rural da antiga Provença, em cafés, irmandades católicas, lojas maçônicas; e estudou as formas e os espaços de sociabilidade implicados no nascimento e desenvolvimento da burguesia e da república francesa (CANAL, 2015).

Canal (1992) avalia a sociabilidade como uma categoria em contínua construção, nos aspectos temático, cronológico e geográfico, a exemplo da mutação temática em Agulhon, que de vida associativa, ou associativismo, numa esfera formal, passou a ser considerada como relacionamento de indivíduos dentro de um grupo informal. Foi então definida como “os sistemas de relações que confrontam os indivíduos entre si, ou que os impelem a formar grupos, muito ou pouco naturais, restritivos, estáveis e numerosos” (AGULHON, 1981, p. 11, tradução nossa). O autor identifica, portanto, a atuação da sociabilidade na gênese de grupos espontâneos, que podem, ou não, vir a ser formalizados e institucionalizados. De fato, toda interação social promove seus efeitos internos ou externos ao indivíduo, sejam psíquicos, comportamentais, no estabelecimento de vínculos ou fronteiras, na formação de grupos por autonomia, por reprodução ou por oposição a outros já existentes (SIMMEL, 1983).

Bastos (2011) analisou a sociabilidade capixaba do final do Oitocentos, em situações características onde as diferenças são apaziguadas e as barreiras são afrouxadas, nos espaços de convergência entre pessoas de diferentes origens e extratos sociais. Eram as festas e comemorações dos finais de semana, nas ruas de Vitória, organizadas por irmandades católicas em devoção a divindades, abertas à população em geral, congregando aspectos religiosos e mundanos, como a ingestão de bebidas alcoólicas. As irmandades eram núcleos de sociabilidade, associações reconhecidas naquela Província escravista, com certa autonomia eclesiástica e força social para a organização desses eventos de celebração e catarse, iniciados à noite e estendidos pela madrugada, capazes de fortalecer e viabilizar redes de sociabilidades, amizades, encontros amorosos e alianças que não seriam possíveis ou aceitas socialmente em outros contextos, inclusive suspendendo provisoriamente as hierarquias sociais e as diferenças de origem étnica e econômica (BASTOS, 2011). No estudo da autora, pode-se observar como as bandeiras da religiosidade, da fraternidade e da festividade funcionavam como vínculos sociais e promoviam o convívio entre iguais e diferentes. De modo geral, quando as diferenças se encontram distraídas, pode-se estabelecer um plano de igualdade, por meio de pontes de semelhança, num extremo, o vínculo de sua humanidade. Não obstante, Velho (2013, p. 180) conclui que “são justamente essas diferenças entre os indivíduos, essas singularidades, que vão permitir que haja relação, porque é isso que possibilita algum tipo de troca, de reciprocidade. A interação é isso; se os indivíduos são iguais, não há sociedade”.

Firth (1970) usa o exemplo de uma festa como possível forma de sociabilidade, ao levantar a problemática da associação entre as necessidades humanas, pessoais e sociais, e o comportamento social, reconhecendo a difícil atribuição de finalidades aos encontros sociais:

O fim de uma festa não é a satisfação da fome, o que poderia ser feito mais simplesmente. É uma forma de sociabilidade, o prazer da reunião, a excitação com companhias? Ou é uma festa um simples item de um sistema de trocas? Ou é uma oportunidade de exibição de “status” e de realce pessoal? Ou é uma forma de compulsão mística, na qual reuniões periódicas são necessárias para a integração social? (FIRTH, 1970, p. 39, 40).

Frúgoli Jr. (2007), que é referência em estudos de sociabilidade no Brasil, com destaque em redes e territorialidade, elabora releituras quanto ao conceito, reportado a Simmel, retomado na Escola de Chicago e na antropologia urbana, e propõe a consideração de dois campos de apreensão. De um lado, aponta as interações temporárias entre diferentes ou estranhos, com o intuito da simples convivência e, por outro ângulo, sublinha as interações recorrentes entre indivíduos que se conhecem ou interagem regularmente, considerados como iguais, com o objetivo de reforçar laços de ajuda mútua diante de vulnerabilidades comuns. Assim, a sociabilidade urbana se manifesta, segundo o autor, com a função de convívio social, que dissolve o estado de reserva e distância, comum aos citadinos, consagra a diversidade, e neutraliza as diferenças, na sutil coincidência entre proximidade física e proximidade social, numa forma sempre variável de reciprocidade entre desconhecidos, conforme a particularidade de cada situação interacional. Sua outra função consiste na coesão comunitária, referente ao ajustamento interno entre os membros de um grupo, num sentido de cooperação e convergência de interesses, submetido ao ajustamento externo, entre os diferentes grupos e indivíduos que coexistem em um determinado espaço urbano. Nessa construção de consensos, preza-se pela ordem, segurança e liberdade, conservadas por meio da vigilância de olhares e da atuação de líderes espontâneos, geralmente antigos no local, que representam os interesses coletivos e se dispõem a administrar eventuais conflitos (FRÚGOLI JR., 2007).

3.2 ESPAÇO DAS SOCIABILIDADES

O estudo das interações se expande, partindo das interações sociais até as interações entre os indivíduos e tudo o que os cerca, o seu território, que engloba o tempo e torna possível a sua experiência cotidiana, conforme observa Maffesoli (1998):

Por estarmos obnubilados por estas grandes entidades que se impuseram a partir do século XVIII: a História, a Política, a Economia, o Indivíduo, é difícil focalizar o "concreto mais extremo" (W. Benjamin) que é a vida de toda gente. [...] O homem em relação. Não apenas a relação interindividual, mas também a que me liga a um território, a uma cidade, a um meio ambiente natural que partilho com outros. Estas são as pequenas histórias do dia-a-dia: tempo que se cristaliza em espaço (MAFFESOLI, 1998, p. 169, grifos do autor).

No interior dos bairros, há pessoas que insistem em frequentar os espaços públicos e comerciais; que de alguma forma valorizam a sociabilidade proporcionada pela vida comunitária local, por relações de proximidade e vizinhança, além da satisfação de sua necessidade pelos bens e serviços fornecidos no mercado local. Cria-se um hábito engajado pelo sentido de pertencimento, de reconhecimento e de influência local (MAYOL, 2011). Por outro lado, existem indivíduos e grupos de diferentes bairros e de cidades vizinhas que percorrem, conforme sua rotina semanal, trajetos convergentes a um mesmo espaço de determinado bairro. São os espaços de inserção e de representação, que segundo Joseph (2005), baseado em Park, não coincidem necessariamente com os espaços de residência e vizinhança, pois o modo de vida urbano possibilita, conforme os laços criados e o poder aquisitivo, uma série de experiências de mobilidade, acessibilidade, dispersão e concentração das populações, proporcionadas pelos meios de transporte e de comunicação, e incitadas por espaços atrativos que favorecem os encontros e a sociabilidade (JOSEPH, 2005).

Na mira de uma reflexão conceitual sobre o espaço, Lefebvre (2006) levanta as problemáticas do espaço, do urbano e do cotidiano, ampliando a anterior problemática da industrialização, dos sistemas, forças e modos de produção. O autor considera o espaço como um produto social, dominado e apropriado por uma sociedade, inserida num sistema político, econômico e religioso, que lhe confere maior ou menor expressão na prática espacial. Note-se que esse produto implica uma produção, um processo, uma história, a gênese do espaço, por meio de um encadeamento de relações sociais. Destarte, considera-se o princípio da interpenetração e da superposição dos espaços sociais, segundo o qual, cada lugar, fragmento de espaço, compreende uma multiplicidade de objetos e de relações sociais (LEFEBVRE, 2006).

Segundo o autor, a teoria do espaço deve abranger uma concepção unitária dos espaços físico, mental e social, bem como dos conceitos gerais de forma, estrutura e função, sob o fundamento da descrição e da análise das práticas sociais e das significações produzidas nos atos, escritos, ditos, mas também, nos interditos (não-ditos) (LEFEBVRE, 2006).

Nesse sentido, o autor admite o espaço social na relação dialética dos espaços concebido, vivido e percebido. O espaço concebido, ou dominado, ligado ao poder e ao saber, é aquele planejado por autoridades, urbanistas e proprietários, passando por etapas de planificação, arquitetura e decoração, que fixam tanto o físico quanto o simbólico, o uso designado. O espaço vivido consiste num sistema de imagens e símbolos (representações) atribuídos pelos usuários ao espaço concebido, vivos no imaginário social. Já o espaço percebido, lugar das potencialidades, refere-se à ligação entre a realidade urbana e a realidade cotidiana, entre o espaço dominado e o espaço apropriado, entre os percursos, lugares e situações vividas, marcados pelas distinções dos espaços público, misto e privado; campo das práticas e significações. É no espaço percebido que se efetivam tanto a dominação, materializada na arquitetura e no asfalto, como a apropriação – o uso inventivo do espaço, que subentende a competência e o desempenho espacial de indivíduos e grupos, a fim de servir a seus objetivos e necessidades cotidianas, resultando na gestão coletiva do espaço (LEFEBVRE, 2006).

Certeau (2008) faz uma distinção relevante entre os conceitos de espaço e lugar. O lugar, como afirma, refere-se à ordem de elementos que ocupam posições próprias e estáveis, compreendidas geometricamente, como na planta de um edifício, no leiaute de uma sala, ou na fotografia de um dado instante. O espaço é formado pelas variáveis direção, velocidade e tempo, efetuadas por seus praticantes. Logo, o espaço se define como um lugar praticado, vivido, frequentado, e que estabelece o fato, a experiência e a existência de sujeitos históricos (CERTEAU, 2008).

O autor propõe uma teoria das práticas cotidianas dos consumidores, práticas do espaço vivido, que compõem as condições determinantes da vida social. São práticas, antes chamadas de cultura popular, consideradas pelo autor como operações, procedimentos e táticas tênues e abundantes, frente às estratégias das instituições históricas, de uma sociedade tecnocrática. Nesse sentido, praticar o espaço é também apropriar-se dele e estabelecer fronteiras, não necessariamente barreiras, mas demarcações e passagens. Se pisar é possuir, estar presente é pertencer, é ser ator e testemunha dos acontecimentos (CERTEAU, 2008). Como exemplo, os comerciantes conhecidos como camelôs e o próprio setor de venda direta se nutrem dessa reapropriação dos espaços, desde as vias públicas até os escritórios e domicílios, servindo a finalidades profissionais, sociais e econômicas.

Os praticantes ordinários da cidade formam redes que compõem um texto urbano, uma história múltipla feita de traços, trajetórias, idas e vindas, densidades, vazios, lugares apenas de passagem, ocupação de espaços e desocupação de outros. Nessa prática, permeada por relatos da conversação cotidiana, os ocupantes efetuam uma bricolagem do espaço, isto é, recriam o espaço a seu próprio modo, com um novo uso para os objetos e lugares, para cada significante espacial, desenvolvendo ainda um estilo do uso, uma maneira de fazer, que denota uma maneira de ser, um modelo social, cultural ou pessoal. Em suma, o espaço é concretizado e modificado por meio da conexão entre as práticas sociais, os percursos espacializantes, os relatos de espaço, as ocasiões significativas, as memórias partilhadas e as operações especulativas, que constituem a gestão da cidade (e de suas organizações), bem como o modo individual da apropriação e o modo coletivo da gestão do espaço (CERTEAU, 2008).

Na visão de Halbwachs (1990), o espaço se constitui de imagens habituais e estáveis que se aderem ao eu e à memória coletiva. O arranjo e o estilo dos cômodos de uma casa, por exemplo, correspondem a uma linguagem e remetem à lembrança da família e dos amigos que ali eram vistos. Os móveis, utensílios e ornamentos são objetos de apreciações e comparações, indicadores do gosto, da moda, dos costumes e das distinções sociais de uma sociedade presente ou antiga. Além disso, quando um grupo ocupa um espaço, cada aspecto desse lugar adquire um sentido particular, compreensível apenas para os membros desse grupo (HALBWACHS, 1990). Diante de memórias diversas, como a olfativa, a tátil ou a gustativa, o autor concentra-se na memória social audiovisual.

Segundo o autor, as pessoas se ligam a um lugar por meio de vínculos, seja na forma de relacionamentos, de representações, de ideais, etc. Esses vínculos se tornam mais claros diante de uma mudança ou da ocorrência de rupturas, geralmente devido a acontecimentos excepcionais, que modificam o grupo, na sua extensão, estrutura, liderança, ou que modificam o lugar, como por exemplo, uma nova condição financeira, uma morte, um casamento, e assim por diante. A descrição de um quadro espacial e a análise do conjunto e de suas partes podem identificar os vínculos, as significações, as marcas pessoais e coletivas num local, bem como indicar uma categoria social e sua maneira de ser (HALBWACHS, 1990).

No campo dos Estudos Organizacionais, diversos autores têm discriminado o espaço como uma importante categoria de análise, aliada às estratégias, práticas e soluções gerenciais (FANTINEL, 2012). Chanlat (1996) destaca o conceito de espaço ligado à concepção do ser humano, suas características e seu comportamento nas organizações. O autor afirma que todo indivíduo ou coletividade possui um lugar que marca sua origem, promove seu desenvolvimento, e que se torna uma fonte de enraizamento, no qual se aplicam investimentos materiais, profissionais, afetivos, políticos, etc. A organização é um notável espaço de enraizamento para os indivíduos que nela persistem (CHANLAT, 1996).

Fischer (1994) apreende o espaço como um objeto social, dotado de práticas, valores, representações e intervenções sociais. O autor baseia-se no conhecimento da psicologia do espaço, que aborda o espaço enquanto vetor das interações sociais, da comunicação, da mobilidade e do uso, e enquanto indicador do modo de vida e dos valores de um grupo ou sociedade (FISCHER, 1994). A psicologia dos espaços de trabalho explora a dimensão do espaço organizacional, não apenas como forma de distribuição física que confere melhor produtividade, mas também enquanto território social, marcado por valores e condutas, ligados a experiências internas e externas. Sendo assim, o espaço de uma organização, além de refletir a cultura organizacional, torna-se ainda um campo de tensões entre a concepção espacial de seus dirigentes e a apropriação efetuada por seus empregados e clientes (FISCHER, 1994).

Segundo o autor, a apropriação do espaço é um fenômeno complexo que consiste na ocupação, na fixação em um lugar, numa posse real de algo que um indivíduo ou uma coletividade toma para si, e que se torna uma propriedade pessoal, ainda que temporária, como a mesa de um restaurante, por exemplo. Trata-se de um processo interativo em que os indivíduos redefinem um determinado espaço com suas vivências e valores culturais, e sobre ele exercem uma dominação física e psicológica, que delimita sua zona de influência e de controle particular (FISCHER, 1994). Desse modo, o processo de apropriação implica uma necessidade de preservação da intimidade, da privacidade e da identidade de pessoas e grupos. Ademais, uma apropriação espacial recorrente equivale a um processo de nidificação, em que o espaço apropriado tem o sentido afetivo de estar em casa (FISCHER, 1994).

Na visão de Fantinel (2012), o espaço pode ser compreendido nos aspectos material e simbólico, especialmente baseado na dimensão social, na influência que exerce sobre comportamentos e condutas, e nos significados que lhe são atribuídos socialmente, conforme o contexto organizacional, cultural e histórico. Nesse sentido, o espaço organizacional corresponde aos usos e significados produzidos numa organização ao longo do tempo. A autora analisou o espaço e as sociabilidades no âmbito dos cafés, a ressignificação desse espaço organizacional na contemporaneidade e a sua apropriação no contexto brasileiro, que reflete significados sociais diversos enquanto espaço de vínculos e de distinção, de passagem e permanência, de refúgio e exposição, de convívio e isolamento, de transição entre o público e o privado, seja para reuniões de trabalho, passeio familiar, paquera ou encontro de amigos (FANTINEL, 2012).

3.3 SOCIABILIDADE ORGANIZACIONAL

No espaço organizacional, manifesta-se um tipo particular de interação social – a sociabilidade organizacional, por meio da qual são criados e compartilhados os significados deste espaço (FANTINEL, 2012). Segundo Fantinel (2012), o conceito de sociabilidade organizacional refere-se à ação recíproca entre indivíduos proveniente de processos que envolvem interações, representações e significados, “que se constroem dentro e fora do espaço organizacional, mas permeados pelo cotidiano da organização, e altamente influenciados pelo processo de gestão” (FANTINEL, 2012, p. 57). Desse modo, a sociabilidade organizacional se expressa como a vida social que se desenvolve em razão do espaço profissional (ou de consumo), mediante as interações e representações, que colaboram na construção de significados do espaço organizacional. Estes significados somam-se à experiência vivenciada anteriormente, e passam a repercutir dentro e fora da organização. Mais do que identificar a imagem da organização, o levantamento dos significados sociais permite desvendar o papel e a importância que uma determinada organização possui na vida de seus membros e frequentadores.

Segundo Cavedon (2003), os significados são os fundamentos da cultura organizacional, que consiste numa ampla rede de significações, por vezes ambíguas e complementares, capazes de refletir as particularidades de uma organização. Correa (2009) afirma, baseado na obra de Cassirer, que o ser humano se expressa e é reconhecido por meio de signos, da sua produção simbólica perceptível, ou seja, por meio da linguagem, dos gestos, da arte, da religião, etc. Estes símbolos são criados socialmente e espacialmente, expressando significados, que adquirem diferentes interpretações, conforme o espaço, a experiência, os valores, crenças e utopias de indivíduos e grupos, segundo a perspectiva construtivista (CORREA, 2009).

As representações envolvidas na sociabilidade, também formadoras de símbolos, referem-se, na definição de Fantinel (2012), baseada em Goffman, ao comportamento dos indivíduos numa situação social, em que representam um papel compreendido e esperado pelos outros, que pode estar associado à sua profissão, estilo de vida, autoimagem, à ocasião, ao espaço, à natureza do relacionamento, seja por parentesco, proximidade, amizade, entre outros. Segundo Goffman (1975), a representação pode ser considerada como "toda atividade de um indivíduo que se passa num período caracterizado por sua presença contínua diante de um grupo particular de observadores e que tem sobre estes alguma influência" (GOFFMAN, 1975, p.29).

A análise da sociabilidade organizacional e das significações atribuídas pelo seu público frequentador, consumidores ou não, “possibilita compreender anseios e expectativas desse público em relação à organização, que ultrapassam, muitas vezes, elementos visíveis e, até certo ponto, organizáveis” (FANTINEL; CAVEDON; FISCHER, 2014, p. 11); permite ainda compreender o contexto urbano (ou o mercado) do qual as organizações fazem parte, uma vez que as sociabilidades praticadas em um espaço organizacional são recortes das interações no âmbito maior interurbano (FANTINEL; CAVEDON; FISCHER, 2014).

Existem algumas modalidades de trabalho em que a sociabilidade é uma virtude e um diferencial do próprio ofício, implicando um envolvimento significativo com os clientes, como no caso do vendedor, do cabeleireiro, dos prestadores de serviços particulares, quando a conversação amistosa, ainda que breve, é também uma tática de trabalho e de fidelização.

Existe ainda um tipo de organização, conforme apontam Fantinel, Cavedon e Fischer (2012), onde se destaca a prática da sociabilidade, vista com maior evidência, devido ao fornecimento de um espaço destinado ao consumo e à convivialidade, que promove a atração de uma clientela interessada no consumo de seus produtos e serviços, os quais se tornam importantes elos das interações sociais; por vezes, um pretexto para estarem ali reunidos, mas que evidentemente devem lhes proporcionar o padrão médio de qualidade esperado. A apreciação em comum por determinado produto e por aquilo que ele significa favorece a construção de laços entre as pessoas no espaço organizacional, o qual agrega os significados sociais dos produtos e serviços, bem como dos usos e apropriações que se dão nesse espaço (FANTINEL; CAVEDON; FISCHER, 2012). São organizações que se constroem em torno de uma apreciação coletiva, desde produtos e serviços a práticas e hábitos compartilhados, como o esporte, a música, a dança, o trabalho voluntário ou a própria sociabilidade.

Sendo assim, essas organizações podem ser caracterizadas pelo alto grau de sociabilidade que promovem – a sociabilidade organizacional – por meio de seu espaço, produtos, serviços e práticas, tornando-se um espaço da sociabilidade urbana, baseado em apreciações coletivas, como são os bares, restaurantes, cafés, pubs, discotecas, karaokês, shoppings, clubes, entre outros. Ao fornecer uma estrutura com mesas, cadeiras, área de circulação ou recreação, banheiro, etc., a organização sociabilizadora se difere das organizações de entrega em domicílio, por exemplo, por valorizar a esfera da vida pública informal, conforme aponta Oldenburg (1999), como um terceiro espaço entre a casa e o local de trabalho, usufruído nas horas de folga de sua clientela regular, que encontra ali um conforto mental de caráter lúdico.

No próximo capítulo, são apresentados os métodos, instrumentos e procedimentos utilizados no desenvolvimento desta pesquisa, referentes ao percurso metodológico.

4. PERCURSO METODOLÓGICO

A partir da escolha do campo, do objeto e do tipo de pesquisa que seria realizado, foram traçados os caminhos que demarcariam a elaboração do referencial teórico e dos métodos científicos mais adequados à proposição da pesquisa, inspirados no estudo de Fantinel (2012), a respeito da construção dos significados sociais do espaço organizacional, baseados nas formas de sociabilidade e nas práticas espaciais. O referencial teórico é, pois, o olhar escolhido para a condução do percurso que leva à satisfação dos objetivos traçados para a pesquisa; também considerado como método, enquanto “base lógica da investigação científica” (GIL, 2008, p. 9) ou enquanto “alegações de conhecimento” (CRESWELL, 2010, p. 24). Aliados a este método fundamental estão os métodos ou procedimentos de pesquisa, compreendidos em estratégias de investigação, coleta, análise e interpretação de dados (CRESWELL, 2010), apresentados a seguir.

4.1 ESTRATÉGIAS DE INVESTIGAÇÃO

A tradição seguida neste estudo corresponde à abordagem qualitativa, na forma descritiva, apoiada no quadro teórico das Ciências Sociais, da linha interacionista e mais especificamente, dos Estudos Organizacionais. A abordagem qualitativa tem como ponto central descrever, compreender e interpretar fatos, situações, pessoas, reações, relatos, interações entre indivíduos, grupos e organizações, ao invés de medições, típicas da avaliação quantitativa (MARTINS; THEOFILO, 2009). A análise interacionista busca relacionar símbolos e interação, a fim de verificar como os significados surgem no contexto da interação entre as pessoas e como são modificados nos processos interpretativos, em diferentes espaços e tempos (GIL, 2008). Para Creswell (2010), a construção social de significados é também o objeto de análise do construtivismo social e do interpretativismo.

Por abordar um tema esclarecido nas pesquisas sociais, sobre a temática da sociabilidade, do espaço, e suas categorias de significados, este trabalho é classificado como descritivo. A pesquisa descritiva é aquela em que predomina a descrição das características de um fenômeno ou de uma população, bem como das suas atitudes e crenças, em distinção à pesquisa exploratória, que investiga temas pouco explorados, e à pesquisa explicativa, que busca as razões e os fatores que determinam a ocorrência dos fenômenos (GIL, 2008). Portanto, buscou-se compreender de que modo as formas de sociabilidade, as práticas e usos do espaço atuam na construção dos significados do karaokê pesquisado.

4.2 CAMPO E SUJEITOS DA PESQUISA

O campo selecionado para a realização da pesquisa foi uma organização que fornece aos clientes, em seu espaço, a estrutura e o serviço para a realização de apresentações de canto de karaokê, bem como o serviço de bar – o Karaokê Canto Livre, localizado em Vila Velha, no Espírito Santo, o qual também foi alvo de reportagem sobre karaokês, em um programa televisivo de variedades, veiculado por rede estadual (TV GAZETA, 2015a, 2015b). No Capítulo 5, podem ser encontradas maiores informações sobre essa organização, que funcionava, à época da pesquisa, no horário noturno, de quarta a domingo, entre 20h e 4h.

Após a visita a alguns karaokês da Grande Vitória, sendo três em Vitória e dois em Vila Velha, este se tornou um espaço de convivência entre o pesquisador e amigos. Posteriormente, em atenção ao conteúdo das aulas do curso de Administração e aos conselhos dos professores quanto à realização de uma monografia, este campo foi percebido como favorável à aplicação das teorias sociais e administrativas, visto que promovia a sociabilidade e as trocas simbólicas, e facilitava a observação das interações sociais e das práticas espaciais, bem como a participação ativa em círculos de clientes.

O papel de pesquisador foi vivido pelo estudante, buscando assumir suas implicações, os desafios, alegrias e angústias do novo, das novas experiências e descobertas durante as leituras, traduções, interpretações, escritas, observações e vivências, por meio da permanência em campo e da reclusão social e familiar para a produção textual.

Os sujeitos priorizados neste estudo foram os clientes e frequentadores do karaokê, tendo em vista a facilidade de identificação do pesquisador como um cliente e consumidor daquele espaço, mesmo antes de ter iniciado esta pesquisa, sendo um frequentador regular desde 2015, junto ao seu círculo de amigos. Portanto, este trabalho privilegiou o ponto de vista dos clientes, circunscrevendo os significados do espaço às atribuições destes atores sociais, o que possibilitou contribuições específicas à gestão, partindo da perspectiva do público consumidor.

4.3 COLETA DE DADOS

As técnicas de coleta de dados utilizadas foram a observação participante e sistemática, e a entrevista semiestruturada. Segundo Gil (2008), a observação é sempre seletiva, visto que é impossível observar tudo. Na observação sistemática, as dificuldades de controle do objeto de investigação, que são as pessoas e suas ações em seu ambiente natural, são contornadas por meio do controle de si mesmo, substituindo impressões pessoais por padrões mais precisos e categorias objetivas que permitem uma rápida codificação das interações e dos fatos, definidas com base no plano de investigação (GOODE; HATT, 1979).

Nesse sentido, procedeu-se à observação sistemática no espaço do karaokê com o apoio de um roteiro previamente elaborado (APÊNDICE A), baseado nas formas de interação e de uso do espaço. O uso do roteiro e as anotações foram realizados em bloco de notas no aparelho celular. No dia seguinte, as notas eram transferidas ao computador e organizadas na forma narrativa de um diário. Na verdade, por se tratar da ocupação de um espaço de sociabilidade e de apresentação musical, com forte direcionamento à interação social, tornou-se difícil a plena execução da observação sistemática ou não participante, como pode ser percebido no relato de campo abaixo, do segundo dia de observação. Na situação, um cliente desconhecido se aproximou do pesquisador, que realizava a observação sistemática e as anotações sobre o espaço externo, e o impeliu ao diálogo.

O fluxo da nossa sociabilidade foram as memórias significativas, nossas histórias de vida. Contei para ele sobre os meus objetivos de pesquisa no karaokê, o motivo de estar só. Ele entendeu a princípio, mas algumas vezes, dizia estar incomodado de me ver sozinho [...]. Ele me chamou para entrar e me sentar à mesa com sua família. Já era tempo de entrar e fazer minhas anotações sobre o espaço interno, e seria cordial da minha parte estar com eles, então aceitei o convite, mas não consegui continuar escrevendo depois disso. Fui impulsionado a mudar o método de observação para entrevista aberta. Já não era mais pesquisa puramente, mas uma conversa informal. Eu me senti bem na companhia deles. Concluí que é quase impossível ser um observador isolado num espaço de sociabilidade como aquele. É possível no início, mas após algum tempo, a presença do pesquisador isolado naquele espaço é sentida e desperta a curiosidade de alguns e o interesse na interação (DIÁRIO DE CAMPO, 18/05/17).

De fato, em todos os dias em campo, houve uma transição e uma alternância entre a observação sistemática e a observação participante, conforme as demandas de cada situação e o objetivo traçado para o dia. Na observação participante, como argumentam Goode e Hatt (1979), o investigador desempenha um papel como um membro do grupo, aprende seu padrão de atividades, algumas vezes, sem se identificar como pesquisador, a fim de captar o comportamento “natural” dos participantes, verificar os significados que compartilham, as sensações que vivenciam e registrar suas relações informais. Assim, a experiência profunda no campo possibilita ao pesquisador uma amplitude de informações que não conseguiria por meio de entrevistas ou de um questionário comum, além de poder descrever o contexto no qual se inserem as opiniões dos participantes e averiguar a veracidade das afirmações declaradas (GOODE; HATT, 1979).

Ao todo, foram sete dias de observação, demonstrados no Quadro 2, sendo quatro dos dias um encontro regular com amigos simultaneamente à pesquisa, e três dias sem a presença dos amigos mais próximos, porém sempre em interação com clientes que se aproximavam ou com os colegas do karaokê, o que permitiu ao pesquisador a adoção de novos papéis e a convivência em diferentes grupos. Evitou-se o envolvimento em interações no quarto e no quinto dia de observação, a fim de possibilitar maior tempo na tomada de notas. Nos demais dias, a participação em campo foi maior, incluindo as ações mais comuns entre os clientes, como conversação, consumo de itens do cardápio, e a prática do canto na plateia e no palco.

QUADRO 2 – DATA, HORÁRIO E SITUAÇÃO DAS OBSERVAÇÕES EM CAMPO

DATA

HORÁRIO

SITUAÇÃO

12/05/17 (sexta-feira)

22h – 1h

Pesquisa e Encontro social

18/05/17 (quinta-feira)

21h – 0h30

Pesquisa

19/05/17 (sexta-feira)

21h – 1h

Pesquisa e Encontro social

26/05/17 (sexta-feira)

21h30 – 2h

Pesquisa

27/05/17 (sábado)

20h – 1h30

Pesquisa

01/06/17 (quinta-feira)

23h – 1h

Pesquisa e Encontro social

09/06/17 (sexta-feira)

21h – 0h

Pesquisa e Encontro social

Fonte: O autor

A entrevista foi também um instrumento indispensável à fundamentação dos significados sociais do espaço organizacional estudado, complementar à observação. Optou-se pelo uso da entrevista semiestruturada, que, segundo Farias Filho e Arruda Filho (2013), compõe-se de um roteiro de apoio, intercalado por perguntas não previstas, que se fazem necessárias ao esclarecimento ou ao redirecionamento aos objetivos da pesquisa; alcançando, dessa maneira, maior profundidade nas respostas, do que se teria com um roteiro fechado.

Sendo assim, realizou-se a entrevista semiestruturada com o uso de roteiros (APÊNDICES B e Ba) junto ao gestor/proprietário do karaokê e a oito clientes, que representavam uma intersecção entre diferentes grupos, e que formavam, naquele espaço, uma rede de sociabilidade. A escolha dos informantes se deu pelo critério de acessibilidade, devido à relação de proximidade existente entre eles e o pesquisador, na maioria deles, criada no próprio espaço. As entrevistas foram realizadas face a face, ou por meio do celular, e gravadas mediante a autorização dos entrevistados, o que facilitou sua posterior transcrição e análise.

Algumas entrevistas foram mais proveitosas, quanto ao processo de interação e à participação do entrevistado, mesmo em tempo menor. Ao passo que, outras de maior duração demonstram maior envolvimento do respondente ou o esforço do entrevistador na obtenção de respostas significativas. Algumas perguntas eram sanadas ainda antes de serem feitas; outras serviram apenas para contextualizar o espaço, descontrair o entrevistado e prepará-lo para as perguntas finais, sendo incentivado a refletir sobre situações vividas e ideais, mais específicas à temática proposta. No Quadro 3, encontram-se os dados básicos das entrevistas e do perfil dos informantes, identificados com nomes fictícios.

QUADRO 3 – DADOS BÁSICOS DOS ENTREVISTADOS E DAS ENTREVISTAS

ENTREVISTADOS

ENTREVISTAS

Identificação

Sexo

Idade

Ocupação

Data

Duração

Meio

Geraldo

M

50

Gerente/Proprietário do karaokê

01/06/17

52 min

Presencial

André

M

26

Designer de interiores

06/06/17

44 min

Celular

Bruno

M

31

Administrador de oficina mecânica

05/06/17

21 min

Celular

Cauã

M

31

Analista de informática

09/06/17

30 min

Presencial

David

M

32

Professor de inglês

01/06/17

54 min

Presencial

Edson

M

68

Aposentado como técnico ferroviário

09/06/17

40 min

Presencial

Flora

F

27

Publicitária e Cantora

05/06/17

28 min

Celular

Gabriela

F

30

Técnica de informática

06/06/17

26 min

Celular

Hosana

F

37

Analista de meio ambiente

30/05/17

24 min

Presencial

Fonte: O autor

4.4 ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DE DADOS

A técnica de análise empregada sobre o material coletado foi a análise de conteúdo. De acordo com Bardin (2006), a análise de conteúdo consiste na sistematização dos dados coletados e na geração de indicadores, a fim de obter inferências de conhecimentos à luz do referencial teórico, do contexto e das condições de produção dos dados. A análise passa pelas etapas de descrição, como síntese inicial; de inferência, ou dedução lógica, frequentemente utilizando o método das categorias; e de interpretação das significações inferidas (BARDIN, 2006). Segundo o autor, a categorização refere-se à classificação das informações, por diferenciação e condensação, em grupos homogêneos, a fim de extrair dos dados brutos o conteúdo subjacente e uma representação simplificada em categorias.

Nesse sentido, os diários das observações e as entrevistas transcritas foram arquivados em computador, reanalisados e organizados em texto descritivo, balizado pelas temáticas da sociabilidade e do espaço, aplicadas no campo da gestão. Em seguida, em meio ao processo de leitura, interpretação e diferenciação das ideias contidas no relato dos informantes, emergiram temas como, por exemplo, a fruição musical, nas falas “Eu gosto de cantar”, “Músicas que a gente canta com o coração”, e “Essa é a minha música”. Desse modo, as categorias foram condensadas conforme o critério semântico, baseado nos temas apreendidos, sendo apresentadas no Capítulo 6. Sendo assim, as variáveis de inferência das categorias foram os significados sociais do espaço, interpretados a partir do discurso e das práticas dos clientes do karaokê pesquisado.

5. SOBRE A ORIGEM DO KARAOKÊ E SUA APROPRIAÇÃO NO CONTEXTO BRASILEIRO

O fenômeno do canto de karaokê, bem como das organizações dedicadas à sua prática, surgiu no Japão, no início da década de 1970, e se espalhou por vários países em todos os continentes, levantando uma indústria bilionária. A máquina de karaokê é um aparelho eletroeletrônico projetado para uso público e privado, especialmente para o uso recreativo de cantores anônimos e amadores, cocantores e ouvintes (MITSUI; HOSOKAWA, 1998). A sua invenção é atribuída ao músico japonês Daisuke Inoue, que criou um protótipo como extensão do jukebox, uma espécie de estante toca-fitas. O cliente do bar acionava a máquina com a inserção de uma moeda, escolhia uma canção disponível numa fita magnética e cantava ao microfone com o mecanismo de eco e reverberação, ao som de uma trilha instrumental pré-gravada para acompanhamento vocal. As letras da canção, disponíveis em folhas, escritas à caneta de tinta fluorescente, colaboravam para um melhor desempenho (CHOI, 2010).

A palavra karaokê é a junção de kara (karappo, traduzido como “vazio”) e oke (okesutora, “orquestra”), literalmente “orquestra vazia” (TONGSON, 2015). Assim como em karatê (“mão vazia”), a composição do termo representa a estética central japonesa do espaço vazio, da ausência (WONG, 1994). Em karatê, a ausência de armas evoca a força do corpo e da mente humana no desempenho da arte marcial. Já em karaokê, a ausência da gravação do áudio vocal ressalta a singularidade da voz humana enquanto instrumento de produção musical e do intérprete amador em sua apresentação. Essa ausência é ocupada não apenas pela voz do cantor, mas também pelo público que lhe assiste, pelo agrupamento social que se forma nesses espaços de apresentação musical.

Segundo Wong (1994), a tecnologia é o ponto central do fenômeno do karaokê. A tecnologia se tornou uma obsessão nacional e tem sido empregada em termos de acessibilidade social. Associa-se a isso a prática do canto de música popular, que é comum nos encontros sociais em muitas sociedades asiáticas, como forma de demonstrar bom humor e bons costumes, com ênfase na participação, independente da habilidade técnica (WONG, 1994). Do mesmo modo, Kato (1992) afirma que, antes do surgimento do karaokê, os japoneses, especialmente os homens, costumavam fazer uma apresentação, geralmente cantando, nas reuniões sociais e familiares. Assim, o canto de karaokê teve rápida assimilação na cultura local, devido à prática social do canto, à afeição pelo consumo de tecnologia e, ainda, pela disposição da elite japonesa, que, em geral, não possui grande resistência ideológica e psicológica à cultura popular (KATO, 1992).

Santini (2006) situa o aparecimento do karaokê no contexto da história da música e dos seus meios de produção, reprodução, gravação e armazenamento. A partir da invenção do fonógrafo e, em seguida, do gramofone, a audição de música se deslocou do seu espaço e tempo de apresentação, chegando ao espaço doméstico como uma incrível novidade. A música gravada, registrada em suporte físico ou acessada por algum meio de difusão, tornou-se onipresente no dia a dia das pessoas, podendo ser ouvida em casa, no carro, no ônibus, na rua, no local de trabalho, em lojas e em diversos espaços comerciais, emitida por diferentes meios como o rádio, a televisão, a internet, o computador, o tocador portátil ou o celular. Por conseguinte, o conjunto de inovações tecnológicas em eletrônica, informática e comunicação, bem como o barateamento dos produtos de hardware e software, propiciaram consideráveis mudanças nos modos de produção, distribuição e consumo da música, afetando ainda as práticas musicais, como o canto associado ao karaokê, denominado comercialmente como videokê ou DVDokê (SANTINI, 2006).

As tecnologias digitais e audiovisuais dos DVDs utilizadas para “karaokê” invadiram as casas, as confraternizações e as festas privadas nos últimos anos, fazendo os participantes se sentirem verdadeiros cantores diante de uma banda, ou de uma orquestra, e de uma plateia. O sucesso do videokê surpreendeu sua própria indústria. O karaokê japonês se difundiu com muita rapidez por toda a Ásia na década de 90 e nos últimos anos tem se espalhado para o resto do mundo (SANTINI, 2006, p. 38, grifos do autor).

O aparelho de karaokê atravessou várias transformações em meio a sucessivas inovações tecnológicas, como afirma McGowan (1992), até chegar ao seu formato audiovisual com o uso do ecrã, que transmite as letras das canções, assim como o teleponto utilizado por jornalistas e apresentadores de TV, transmite o texto a ser narrado com naturalidade diante das câmeras. Segundo McClure (1992) cantar em frente à “telinha” é uma forma de diminuir o desconforto que os clientes sentem enquanto se apresentam diante de outras pessoas. Seja no cinema, na televisão, no computador, no celular, ou no karaokê, a tela demanda atenção e exerce o poder de entretenimento.

Vale observar, o canto de karaokê nasceu como forma de sociabilidade organizacional, no contexto dos bares. De acordo com McClure (1992), beber com amigos ou parceiros de negócios faz parte do estilo de vida japonês. Muitas decisões de negócio são fechadas em espaços como bares e restaurantes, porém é nos bares, em meio ao consumo de bebidas alcoólicas que a reserva japonesa tende a desaparecer. Logo, os bares foram as organizações que difundiram a prática do karaokê, uma vez que a ingestão de bebidas anula a inibição que alguns mantêm diante do ato de se apresentar publicamente. Não obstante, a prática de karaokê propagou-se por diferentes espaços organizacionais, como os restaurantes, clubes, hotéis, cafés, cerimoniais, fábricas, hospitais e ônibus turísticos. Desse modo, o karaokê foi reconhecido formalmente pelo Ministério da Educação do Japão, em 1993, como uma atividade cultural daquele país (McCLURE, 1992, 1994).

Além de ser uma tecnologia e um comportamento musical, Mitsui e Hosokawa (1998) concebem o karaokê enquanto um espaço. De fato, o karaokê deixou de ser apenas uma máquina de divertimento encontrada em bares para se tornar também uma organização, cuja principal atividade é fornecer a estrutura, os equipamentos e o serviço para as apresentações do canto de karaokê, agregando ainda outros serviços e tipos organizacionais, tornando-se karaokê bar, karaokê café e assim por diante. É um fenômeno organizacional relativamente recente e se tornou mais evidente a partir dos anos 1980, com o novo conceito do karaokê box ou karaokê room (karaokê em salas). O karaokê em salas é um estabelecimento que possui várias salas privadas, alugadas por hora, para pequenos grupos, sendo cada uma equipada com um sistema de karaokê, com qualidade superior em relação ao que geralmente dispõem em casa (McGOWAN, 1992; JENNY, 2005).

No Brasil, a cena karaokê concentra-se no Estado de São Paulo, podendo-se destacar o bairro da Liberdade, conhecido como um bairro oriental, devido à presença de chineses, coreanos, japoneses e seus descendentes (HOSOKAWA, 1998; DAIGO, 2008). Desde a década de 1910, os imigrantes japoneses chegaram ao Brasil enviados para o trabalho agrícola nos cafezais e se estabeleceram principalmente na Grande São Paulo. Os concursos de canto amador eram um elemento marcante na cultura japonesa desde os anos 1950, tanto no Japão quanto no Brasil entre a comunidade nipobrasileira. Com a chegada do karaokê, nos anos 1980, os concursos e práticas de canto foram então inseridas ao novo gênero (HOSOKAWA, 1998). De início, o canto de karaokê representou uma das formas de conservação da sociabilidade na comunidade nipobrasileira, frente ao constraste cultural que vivenciavam em seu cotidiano. Atualmente, a apresentação das canções japonesas contribui para a preservação da sua identidade étnica, relacionada à língua materna, à linguagem musical, à sensibilidade e à ética japonesas (HOSOKAWA, 2000), o que não é diferente para as demais famílias asiáticas que ali vivem.

Segundo Araújo (2009), a União Paulista de Karaokê (UPK) reúne mais de 180 associações ligadas à essa modalidade, com 10 mil cantores participantes dos concursos, que acontecem em todo final de semana. O crescimento da atividade incentivou o surgimento de novas profissões, como a de professor de karaokê (no estilo musical japonês) e a de consultor dos concursos de karaokê. Os concursos nacionais de karaokê, costumam reunir mais de 700 concorrentes de todo o Brasil, de 2 a 90 anos, distribuídos em 20 categorias. No concurso nacional realizado em Campo Grande/MS, em 2012, pela Associação Brasileira de Canção (ABRAC), os ganhadores levaram um troféu e o melhor cantor foi premiado com uma viagem para o Japão. Na ocasião, Bernardo Tibana, então presidente da associação nipobrasileira local, expressou o valor dessa prática para sua comunidade: "Posso comparar a paixão da comunidade japonesa pelo karaokê com a dos brasileiros pelo futebol" (GLOBO, 2012).

Note-se que os concursos de canto tiveram importante participação na ascensão do rádio e do novo mercado fonográfico que se desenvolvia no Brasil, desde a década de 1930, inseridos no programa de auditório, que foi plenamente aderido pelas emissoras de televisão, conforme aponta Scoralick (2008, p. 7):

Os auditórios foram os locais onde se viveram as maiores histerias do rádio brasileiro. Ídolos e fãs dividiam o mesmo espaço, calouros buscavam seu espaço na fama e, assim, o estilo se consagrou durante toda a era radiofônica e proliferou também nas telas da TV. [...] Eram comuns os programas de calouros, onde se apresentavam novos talentos (SCORALICK, 2008, p. 7).

A apresentação de canto amador e a competição de calouros, aspirantes a cantores profissionais, receberam os moldes lançados pelos meios de comunicação de massa e, posteriormente, foram aderidas à prática do karaokê na sociedade brasileira, influenciadas pela comunidade nipobrasileira e ressignificadas nas práticas cotidianas. Esse paralelo foi levantado por Drew (1997), em seu estudo sobre o karaokê no Ocidente, aplicando o exemplo dos Estados Unidos, onde essa prática se iniciou não da cultura popular, mas a partir de investimentos de empresários e fabricantes, e dos discursos de celebridade da cultura de massa, reinvidicados nos anúncios publicitários e artigos de jornal, a fim de alcançar o mercado local.

A apropriação do karaokê entre os brasileiros assume diferentes formas e significados conforme o contexto urbano em que está inserido. No Espírito Santo, podem-se encontrar máquinas e espaços de karaokê, geralmente associados a bares, com funcionamento noturno, desde a década de 1990, conforme relatos e pesquisa de campo. Um desses espaços, o karaokê Canto Livre, delimitado como campo deste trabalho, será apresentado no próximo capítulo.

6. A ORGANIZAÇÃO PESQUISADA

O karaokê Canto Livre iniciou suas atividades em janeiro de 2015, no bairro Itapuã, em Vila Vela, cidade que integra a Região Metropolitana da Grande Vitória (RMGV), no Estado do Espírito Santo. Foi constituído pela combinação de dois gêneros organizacionais, karaokê e bar. Por um lado, o cardápio do bar oferecía opções de bebidas como cervejas, drinques alcóolicos, água, sucos, refrigerantes; e opções de petiscos como batatas-fritas, quibes, pastéis, caldos, kieber (frango empanado com queijo e presunto), entre outros. Por outro lado, o “cardápio” do karaokê – catálogos de audiovisuais, fornecía cerca de 5.500 canções brasileiras, cerca de 27.500 canções estrangeiras, nos idiomas espanhol, italiano, japonês, entre outros, e sobretudo, inglês. O sistema eletrônico utilizado era composto por três aparelhos com banco de dados: o Songbox, o RAF, o Karaokanta Brasil, e dois aparelhos de reprodução: o DVD, e o Blu-Ray.

O Canto Livre era fruto da paixão por karaokês de seu fundador e proprietário. Em entrevista, o proprietário, com idade de 50 anos, relatou que cresceu ouvindo música com seus pais, tocada nos aparelhos domésticos. Nascido no Rio de Janeiro, foi morar em São Paulo aos 16 anos, em mudança com a família. Lá, estudou violão no Conservatório Souza Lima, produção musical no Instituto de Áudio e Vídeo, e conheceu vários karaokês. Assim, tornou-se músico multi-instrumentista, professor de violão na igreja Católica, coordenador da pastoral do canto, músico de bares, em paralelo à sua profissão como técnico na Secretaria de Segurança Pública. Tequila’s, Samurai, Chopperia (também chamado Da Mama) eram os karaokês que mais frequentava, de quarta-feira a domingo. Foi no karaokê da Mama que ele e sua esposa se conheceram e começaram a namorar.

Mais tarde, quando vieram morar no Espírito Santo próximos a outros familiares que viviam no estado, ele decidiu abrir um karaokê, com a condição de adquirir o aparelho Songbox, que contém o karaokê/playback dos áudios originais dos cantores, que reportam à memória auditiva e à qualidade de execução da obra musical, ao contrário dos playbacks criados por músicos de estúdio, que não transmitem a mesma riqueza de detalhes da obra original. Segundo o proprietário, “[...] se você fechar os olhos e você ouvir uma pessoa cantando bem um playback, cantando um Songbox, você imagina que é um disco; aí, a ideia do Canto Livre foi essa. Eu tinha vontade de cantar, aí eu falei: ‘Eu vou abrir um karaokê’” (Geraldo, 50 anos). Nesse sentido, referente à fruição musical dos ouvintes, seja o desempenho do cantor amador bom ou não, a audiência pode se satisfazer ao menos com a qualidade da trilha original, como som ambiente. Se além disso, houver um bom desempenho, é bem provável que se conquiste a atenção e a admiração do público.

A organização funcionava no horário noturno, de 19h às 3h na quarta-feira, quinta e domingo, e de 20h às 4h, na sexta-feira e no sábado, sendo praticamente o único estabelecimento da avenida com fluxo de pessoas nesse horário, com a exceção de um bar a uma quadra de distância. Com isso, os clientes poderiam encontrar vagas para estacionar seus veículos facilmente, além das nove vagas disponíveis no estacionamento. Havia também um ponto de ônibus na avenida a poucos metros do karaokê e um terminal rodoviário interurbano nas proximidades que serviam de acesso a muitos clientes.

A estrutura física pode ser dividida em quatro partes principais: o pátio, o auditório, a cozinha e o estacionamento. O auditório (área interna) e o pátio (área externa) foram os espaços destacados no trabalho de campo, visto que eram ocupados pelos consumidores e permeados pela sociabilidade e pelas práticas espaciais, que contribuíam para a formação dos significados deste espaço (FANTINEL, 2012). Ao chegar, os clientes passavam pelo pátio, onde havia três mesas com algumas cadeiras, ou pelo estacionamento, e eram recepcionados por um funcionário na entrada. Recebíam uma comanda impressa, uma senha que ordenava as apresentações, e entravam com acesso aos fundos do auditório. O auditório possuía 28 mesas e cerca de 100 cadeiras, numa área de 140 m². Na entrada, à esquerda, havia o balcão de um pequeno bar do tipo americano, à direita, encontravam-se os banheiros masculino e feminino. Do lado oposto à entrada, o palco demarcava a frente do auditório. À esquerda localizava-se a porta para a cozinha, e à direita, os balcões do operador de karaokê e do caixa.

O suporte às apresentações era fornecido basicamente por meio do palco, de caixas amplificadas, sendo duas no palco e duas nas paredes laterais; dois microfones com fio sobre pedestais, ligados à uma mesa de som; cinco monitores de vídeo distribuídos nas paredes, nas colunas e em frente ao palco; os refletores de iluminação automática, e os equipamentos de reprodução do karaokê. O bar contava com um balcão de atendimento, três assentos suspensos, prateleiras de bebidas, pia, liquidificador, utensílios diversos, computador para registro de pedidos, e refrigeradores. Na cozinha, eram armazenados o estoque de bebidas para reabastecimento do bar, e os alimentos adquiridos com fornecedor que, conforme a chegada de pedidos, eram fritos ou aquecidos.

O perfil dos clientes era notadamente jovem, porém não sendo difícil a presença de crianças, pais e idosos. Acredita-se que a maioria dos clientes eram moradores de Vila Velha, sendo também frequentes os moradores da Grande Vitória. As práticas de consumo e de vestuário sinalizavam comportamentos de classe média, podendo ser de diferentes estratos médios. Diversas conversas informais apontavam para diferentes estilos de vida, para um público dotado de certo ecletismo e tolerante à diversidade musical, social e de gênero. Nesse ponto, notava-se um público heterogêneo.

A organização era composta pelo gerente/proprietário e por sete funcionários, sendo um subgerente, um caixa, um operador de karaokê, um garçom, um atendente de bar, uma auxiliar de cozinha, e um porteiro/segurança. Além desses, havia os funcionários diaristas ou temporários, que trabalhavam em dias de maior movimentação de clientes, nas funções de garçom, auxiliar de limpeza ou em substituição a funcionários. O proprietário exercía diferentes atividades durante a noite, geralmente como anfitrião do espaço, como caixa ou como operador de karaokê, em cobertura ao funcionário que se retirava para o horário de jantar, fornecido pela empresa. O mesmo revezamento ocorría entre o garçom, o atendente de bar e o porteiro.

A rotina de trabalho costumava ser mais intensa no final de semana, sexta-feira e sábado, quando havia lotação do auditório. O expediente se iniciava meia hora antes de se abrirem as portas, com breve preparação das mesas e assentos no pátio e no auditório, ligação e teste de equipamentos, e disposição de alimentos, bebidas e utensílios. Na primeira hora, chegavam os clientes que buscavam usufruir o karaokê ao máximo, vindos de casa ou do local de trabalho. Tendo em vista um número reduzido de pessoas, eles conseguíam cantar mais canções, desde a primeira rodada até o momento em que vários clientes entregassem seus pedidos de música. Ou seja, se três amigos chegavam ao karaokê abrindo a primeira rodada, eles poderíam cantar a segunda, a terceira rodada, enfim, sem sair do palco, até que outros clientes chegassem e fizessem seus pedidos. À medida que vários pedidos de canções eram adicionados, o tempo de espera para se apresentar novamente aumentava, o que poderia causar ansiedades ou conformidades. Após cerca de três horas, a fila do caixa aumentava, quando a primeira leva de clientes se preparava para ir embora. A partir de então, chegava uma segunda leva, que geralmente trabalhava até mais tarde ou chegava de outros encontros sociais, e permanecía por algumas horas ou até o fechamento do estabelecimento.

Nos outros dias, quarta-feira, quinta e domingo, o fluxo de clientes costumava ser menor e a quantidade de pessoas no auditório apresentava certa constância, o que favorecía o desejo dos clientes mais aficionados pelo canto de karaokê de poder cantar mais vezes. Nesses dias, os funcionários possuíam menor demanda de serviços e poderiam ser vistos conversando do lado de fora, no pátio, ou sentados no auditório, assistindo às apresentações.

O espaço organizacional, sumariamente, transmitía um ar de simplicidade, e nos finais de semana, era possível perceber um clima festivo, devido às apresentações entusiasmadas dos clientes e das comemorações de aniversários. Não se pode esquecer o concurso de karaokê “O Rei ou a Rainha da Voz”, que era realizado anualmente durante um período de três meses, e que despertava euforia no auditório, o espírito de competitividade e de torcida, revelando cantores talentosos. Havia pessoas que aparecíam apenas na época do concurso para competir ou torcer, todavia, devido ao forte envolvimento que esse evento promove, algumas criavam vínculos com o espaço e se tornavam clientes regulares.

A dimensão social do espaço obteve maior atenção no tópico a seguir, no qual se apresentam os resultados da pesquisa e a interpretação dos dados à luz do referencial teórico e do cotidiano organizacional.

7. APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS: UM ESPAÇO DE SOCIABILIDADE JUVENIL

Os resultados desta pesquisa são provenientes das conexões de saberes teóricos e práticos, efetuadas no trabalho de campo e por meio da análise de conteúdo dos diários de observação e das entrevistas transcritas, tendo como eixos estruturantes as temáticas da sociabilidade e do espaço, englobando o conceito de cultura organizacional (FANTINEL, 2012). Após recorrer à descrição das características do espaço organizacional do karaokê pesquisado, relatando algumas de suas especificidades, procurou-se demonstrar as práticas e usos desse espaço, destacando entre os atores sociais, o público consumidor.

7.1 FORMAS DE USO DO ESPAÇO

Em seus percursos urbanos, alguns dos praticantes ordinários da cidade, nas palavras de Certeau (2008), encontravam no karaokê Canto Livre um campo de apropriação, um lugar onde poderiam passar algumas horas do seu dia, leia-se da noite, como um hábito boêmio, geralmente ou especificamente nos finais de semana, ou em datas consideradas especiais. Ali poderiam desfrutar do espaço, de companhias, e se houvesse disposição, da prática do canto. A ida ao karaokê pode ser entendida, à princípio, como um encontro social de estudantes e trabalhadores, em suas horas de folga, ou mesmo de pessoas desempregadas ou aposentadas, que frequentavam esse espaço já conhecido ou ainda novo para eles. Em todos os dias de observação foi possível encontrar clientes visitando o espaço pela primeira vez.

Ao chegar à porta de entrada, que dá acesso aos fundos do auditório, os novos clientes eram cumprimentados pelo porteiro, recebiam uma comanda, uma senha, caso manifestassem o interesse de cantar, e as instruções básicas de como funcionavam as apresentações do karaokê. Os clientes que se interessavam por cantar escolhíam uma canção nos catálogos impressos, ou no portal do fornecedor, disponível na internet, e preenchíam o seu nome, a senha e o código da canção numa pequena ficha que deveria ser entregue ao operador do karaokê. Alguns o chamavam de DJ, embora a função de um DJ (disc jockey), conforme a prática profissional, seja fazer a seleção, mixagem, programação de canções e a paisagem sonora de uma festa (FERREIRA, 2017), que difere da função do operador de karaokê, ou KJ (karaoke jockey), pois este toca as canções escolhidas pelos clientes e nos intervalos entre uma música e outra, toca uma música de livre escolha, dentro de um estilo musical que o gestor/proprietário já recomendou. Enfim, os clientes é quem construiam a cena musical da noite, de modo aleatório ao ouvinte, apresentação após apresentação. A exibição em tela da pontuação referente ao desempenho dos cantores não era aplicada, reforçando assim o caráter lúdico das apresentações.

Conforme o horário de chegada, os clientes possuíam maior ou menor liberdade de escolha quanto à mesa e ao lugar em que preferiam se sentar. De igual modo, os clientes que chegavam nas primeiras horas, poderiam cantar mais vezes, por mais rodadas. Uma rodada de apresentações é composta pelo total de fichas entregues ao operador de karaokê, o qual anuncia a senha e o nome de cada cantor ou grupo de cantores que deve subir ao palco para se apresentar. Normalmente, nos expedientes dos finais de semana, devido à lotação do auditório, ocorríam de quatro a cinco rodadas, de modo que os primeiros clientes a chegar conseguíam realizar até cinco apresentações, enquanto o público subsequente teria chance reduzida de se apresentar. Isso pode ser ilustrado no depoimento dos seguintes entrevistados, para os quais o uso do palco era capital:

[...] eu gosto de chegar cedo mesmo, cantar tudo que eu tiver que cantar, pra depois não ficar preocupado com: “Ah, a casa tá cheia, eu não cantei nada, e num-sei-quê”. Então, tipo assim, eu vou logo que abre. [...] Como eu chego muito cedo, eu sou o primeiro a cantar mesmo, e fico no palco cantando até um segundo ser humano chegar [risos]. [...] Eu faço questão de chegar cedo pra pegar aquele lugar, ou, já deixo reservado quando eu vou com muita gente, porque, por exemplo... Volta e meia, eu marco aniversário de amigos lá e etc., então, eu já deixo reservado e tudo-o-mais (André, 26 anos).
[...] uma noite ideal, pra mim, seria eu cantar seis músicas em um-a noite, num-a sexta ou num sábado. É muito difícil! [...] Se a gente chega [...] na hora que abre, dá pra gente cantar no máximo, umas 4 ou 5 músicas (Edson, 68 anos).

As formas de uso do espaço são selecionadas dentro de uma dada ordem espacial, atualizada constantemente nas práticas dos usuários, que modificam cada significante espacial e, muitas vezes, transformam as determinações fixadas para o uso dos objetos. Por conseguinte, cria-se um estilo do uso espacial. O uso define uma norma, um código social de um sistema de comunicação, e o estilo define uma maneira de ser e estar no mundo, sob o aspecto simbólico (CERTEAU, 2008). Nesse sentido, foram destacadas na pesquisa as regiões de livre circulação dos clientes, compreendidas na área interna (o auditório) e na área externa (o pátio), onde foram observadas diferentes formas de uso do espaço. No auditório, estavam dispostas várias mesas e cadeiras, nos fundos, no centro, na frente e nas laterais, que poderiam ser reservadas previamente ou escolhidas na chegada entre as não reservadas. Nas observações de campo, foi possível perceber alguns clientes que se sentavam sempre no mesmo lugar, por razões diversas. Em entrevista, alguns confirmaram preferir as laterais e coluna central devido ao acesso a tomadas para recarga do aparelho celular e à possibilidade de visão periférica do salão; a região da frente por estar mais próxima ao palco e aos balcões do caixa e do operador de karaokê; os fundos, por estar próximo ao balcão do bar e ao garçom, facilitando o atendimento.

Eu tenho um lugar, né, específico pra ficar [ao lado da coluna central], um lugar que eu vejo o palco bem, um lugar que eu me sinto mais à vontade, entendeu; já tenho ali a mesa, já, praticamente reservada (Edson, 68 anos).
Eu gosto muito de ficar [pausa] na parede, lá perto do caixa, porque acho que [...] não passa muita gente ali; acho que é um lugar que a gente consegue ficar mais tranquilo; assim, fica perto do palco, a gente... É como se fosse um, um cantinho nosso, já, meio que, virou um cantinho nosso (Flora, 27 anos).

De acordo com a fala desses entrevistados, percebe-se a criação de uma relação com o espaço, uma forma de apropriação do espaço por meio de uma mesa, de um “cantinho”, um lugar em que se sentiam estabelecidos e livres para usufruir seus momentos. Fischer (1993) afirma que uma das marcas da apropriação é a criação de um espaço pessoal, uma zona invisível de proteção emocional que se expande desde a intimidade do indivíduo até certa distância social, variando conforme as personalidades envolvidas e as características socioculturais de uma sociedade/organização. Sendo assim, cabe a cada cliente defender o seu próprio espaço e demonstrar que tipo de interação está disposto a desenvolver com os demais. A solicitação gentil de uma cadeira vazia que esteja junto a uma mesa ocupada pode ser uma demonstração da percepção desse espaço pessoal. Se uma mesa ocupada ficou temporariamente vazia e uma cadeira foi retirada, os membros do grupo podem se sentir ofendidos quando retornarem à mesa ou podem relevar o ocorrido e solicitar outra cadeira a um garçom. Uma forma como a organização poderia lidar com esse impasse da ocupação do espaço seria dispor de um funcionário para indicar aos clientes, assim que chegassem, quais mesas estão desocupadas e acompanhá-los até uma delas ou observar à distância onde os clientes escolheram se sentar, a fim de garantir que todos estejam bem acomodados.

Pequenos grupos conseguíam ficar bem acomodados junto à uma mesa. Quando o grupo era maior, geralmente ajuntava-se ao redor de duas ou mais mesas. Como eram mesas de plástico poliuretano, elas poderiam ser facilmente movimentadas, unidas ou separadas, com ou sem o auxílio de um funcionário. Quando a ocupação do espaço já não permitia a união das mesas, os grupos de clientes se amontoavam ao redor de uma mesa, ou sentavam-se junto a mesas distantes e se deslocavam algumas vezes até outras mesas, até o pátio, ou interagiam nas apresentações sobre o palco. Assim, evidencia-se como o uso do espaço era permeado pela sociabilidade, como aponta a seguinte informante:

Geralmente, quando a gente chega, né, por exemplo, o meu grupo chegou primeiro. Chegou eu mais umas duas, três pessoas; nós sentamos numa mesa. Se chegarem outras pessoas, se tiver mesas perto, a gente [...] pede pra os garçons juntarem a mesa, pra ficar o grupo todo junto. Ou então, às vezes, calha de não conseguir mesa próximo. E aí, a gente fica espalhado, e aí um vai na mesa do outro, um pede pra cantar a música com o outro. Mas quando vai chegando o grupo, às vezes, o grupo fica grande. Já cheguei a ficar com cinco mesas. Fui, fui com duas pessoas, e aí o pessoal foi chegando, chegando, colocando mesa, colocando mesa, ficamos em cinco mesas (Hosana, 37 anos).

Ademais, foram observadas outras formas de apropriação que não tinham a mesa como referência. Alguns grupos de clientes reorganizavam as cadeiras em linha, uma ao lado da outra, fora da mesa, voltadas para o palco, para assistirem às apresentações. Outros grupos sentavam-se em círculo de até nove cadeiras, curiosamente sem o uso de mesas, como um modo de reduzir a distância entre aqueles que ficavam nas pontas. Alguns grupos, ainda, dirigiam-se à uma mesa inicialmente, mas permaneciam boa parte do tempo em pé, conversando, bebendo, cantando, interagindo com o espaço.

Ah, eu fico o tempo todo saracoteando, conversando com todo mundo. Eu raramente tô sentado no karaokê, você já deve ter percebido. Minha mesa, eu deixo minhas coisas lá, e tipo, eu não fico na mesa, eu fico vagando (David, 32 anos).
Eu fico em pé o tempo todo, conversando e dançando. Geralmente, eu levanto, e converso, e: “Vamo dançar, vamo lá pra frente brincar”. Eu gosto de tá, assim, no meio de todo mundo, é que tipo assim: “Eu sou a estrela do lugar”, né, e: “Me olhem” [risos]. Vou fazer o que? Eu sou leonina! (Gabriela, 30 anos).

Pode-se notar no relato de espaço desses entrevistados o seu estilo de uso espacial, nos termos de Certeau (2008), indicando sua maneira de ser e os significados sociais que imprimem no espaço, por meio do reforço da experiência sociável; interagem com colegas de diferentes grupos/mesas, andam, observam, são observados, circulam nas áreas de livre acesso, praticam o espaço. Num âmbito maior, o estilo de uso de ir ao karaokê, como um dos lugares que se pode frequentar na cidade, torna o seu público conhecido como “os frequentadores do karaokê”, pessoas que se reconhecem entre si em outros espaços urbanos, que demonstram gosto pela música, pelo canto e por essa forma de entretenimento. Pelo fato de manterem encontros sociais fora de casa à noite, eram chamados, por alguns, de “boêmios” ou “baladeiros”, em vez de “caseiros”.

Na linguagem jovem, os termos festa, balada (e rock, no Espírito Santo) são comumente usados como sinônimos e se diferenciam de outras opções noturnas por proporcionarem uma maior interação entre as pessoas, seja com amigos ou com pessoas que se conhecem na ocasião. É isto o que afirmam Muniz, Silva e Maffezzoli (2014) em seu estudo sobre o tema, no qual resumem o conceito de balada, na visão de jovens e profissionais da área, como sendo:

[...] uma festa noturna, marcada pela música alta e um ambiente especial em termos de luz ambiente (mais escuro), efeitos de luz e a existência de pista de dança (o que por si difere do conceito de barzinho ou restaurante, que em geral não possui música no mesmo volume nem a luz diferenciada, nem espaço para dançar, e onde a gastronomia – a comida – ganha uma dimensão mais relevante). Nas baladas, a bebida é ingrediente, mas a comida não aparece nas descrições e avaliações (MUNIZ; SILVA; MAFFEZZOLI, 2014, p. 96).

A respeito dos bares, Ferreira, Valduga e Bahl (2013) corroboram com o fato de que esse tipo de estabelecimento pode ser vinculado ao conceito de baixa gastronomia, ao fornecimento de aperitivos do tipo caseiro, de senso familiar, relacionados a uma culinária mais simples, popular, cotidiana, típica de uma região, com maior apelo ao sabor do que à estética. Assim, baseados na comensalidade e no bom atendimento, tornam-se espaços relacionais, envoltos pela sociabilidade, hospitalidade e acolhimento.

Nesse contexto, marcado pelas formas de consumo no e do espaço, o karaokê pesquisado poderia ser enquadrado como um karaokê bar tanto como um karaokê balada (casa noturna), de acordo com a visão e as práticas de diferentes grupos frequentadores, com o dia da semana referido, e com suas próprias características espaciais. Este karaokê se assemelhava à uma casa noturna quando eram observados a iluminação diferenciada, a alta intensidade de som, o palco para apresentações musicais, o destaque para a bebida em detrimento da comida, a movimentação de pessoas e o clima festivo nos finais de semana. Por outro lado, a disposição de mesas e cadeiras, e a ausência de pista de dança (embora alguns clientes dançassem em frente ao palco) denotava a sua condição de bar. Porém, conforme as declarações dos clientes em entrevistas e principalmente durante a observação participante, a comida fornecida não foi notada ou não foi considerada um ponto forte do estabelecimento. Nas falas de campo, os clientes reconheceram a música e a bebida como sendo o foco do karaokê, e alguns manifestaram o desejo de que houvesse investimento na qualidade dos petiscos, afirmando o potencial do espaço para tanto. Além disso, alguns clientes afirmaram se alimentar em casa ou em outros estabelecimentos antes de ir para o karaokê. Nesse quesito, sugere-se uma reavaliação do cardápio de petiscos e a aplicação de uma pesquisa de opinião a fim de descobrir os anseios desse público consumidor, que busca resgatar ao espaço o ideal de comensalidade e hospitalidade.

Desse modo, foi possível confirmar, no cotidiano organizacional, a percepção de um karaokê bar (Fotografia 1), principalmente nos dias de quarta-feira, quinta e domingo, quando a frequência de clientes era reduzida, e as apresentações, mais contidas ou mais intimistas. Também pôde ser assim percebido, nas primeiras duas horas do expediente de fim de semana, pois boa parte dos frequentadores costumava chegar depois desse horário, entre 21h30 e 1h. A partir de então, o karaokê poderia ser apreeendido como uma balada (Fotografia 2), uma festa, um show de cantores amadores ou desconhecidos, junto às comemorações de aniversariantes, que eram responsáveis por reunir os maiores grupos. Ademais, confirmou-se nas observações que, após algumas horas, o público era envolvido pela atmosfera acústica que se configurava na sequência de canções e de reações às apresentações; bem como pelo efeito do álcool consumido por alguns cantores e expectadores.

Fotografia 1 – Imagem percebida de um karaokê bar (entrada do auditório)


Fonte: Arquivo da organização gentilmente concedido ao autor.

Fotografia 2 – Imagem percebida de um karaokê balada (fundos do auditório)


Fonte: Arquivo da organização gentilmente concedido ao autor.

Além do público que chegava no horário de abertura do karaokê, vindo de casa ou do trabalho, havia um público que frequentava o espaço após realizar atividades em outros espaços culturais ou de consumo de alimentos, configurando um segundo e terceiro turnos de frequentadores. A rotatividade de clientes transcorria aleatoriamente, mas também de um modo que era possível perceber a chegada de uma segunda leva, e pouco tempo depois, a saída da primeira. A escolha do karaokê como segunda atividade demonstrava a execução de um roteiro noturno na cidade, no qual havia diferentes interesses e opções, porém o karaokê tornava-se o ponto em comum do grupo, justamente por valorizar a sociabilidade e a expressividade musical. Para ilustrar essa escolha regular do karaokê (ou curiosa, por novos clientes) após outras atividades noturnas em grupo, pode-se realçar o relato da seguinte informante:

Às vezes, a gente vai direto pro karaokê, porque é próximo de casa. Mas, muitas vezes, [...] a gente sai, faz alguma coisa antes, vai comer ou vai a um teatro, a algum show, e a gente termina a noite lá. [...] No final, tudo acaba em karaokê! [risos] (Hosana, 37 anos).

Nos finais de semana, era comum observar a lotação do espaço cerca de duas horas após a sua abertura, o que gerava a conformidade de parte do público, mas frequentemente causava desconforto, devido ao aumento do tempo de cada rodada, entre outros fatores. Quanto mais clientes ocupavam o auditório, havia tendencialmente mais cantores inscritos e maior era a duração de cada rodada, bem como o tempo de espera para cada cantor e equipe de cantores poder se apresentar novamente. Além disso, o espaço lotado era percebido, algumas vezes, como sinal de queda na qualidade da prestação do serviço, seja na cozinha, no bar, no atendimento às mesas, na conservação dos banheiros, na possibilidade de se apresentar no palco antes do horário previsto de saída ou retorno para casa. Com isso, alguns clientes se dirigiam pessoalmente ao bar para agilizar o atendimento da mesa; interagiam com os companheiros, com o espaço, com as apresentações; levantavam-se para cantar e dançar, a fim de usufruir a noite e espantar o sono e a preguiça. Os relatos dos entrevistados abaixo demonstram diferentes formas de lidar com a ocupação pessoal e múltipla do espaço, nas ocasiões de superlotação:

Às vezes, vou ao bar, e faço o meu pedido diretamente lá... [...] eu não espero vir o garçom na minha mesa (Hosana, 37 anos).
Eu prefiro o karaokê mais vazio, porque a gente canta mais. [...] Quando tá cheio, demora muito a passar [a duração das rodadas] e eu fico com sono (Gabriela, 30 anos).
[...] se tiver muito cheio, e eu não tiver gostando do ambiente em si, me dá vontade de ir embora mais rápido, assim, sabe? Mas, se tiver cheio, se eu tiver curtindo, se tiver todo mundo sincronizado, todo mundo de boa, dançando, todo mundo junto, tal, ah, fico até de manhã, se minha, minha preguiça deixar. Quando tá cheio me incomoda um pouco, porque a qualidade de muita coisa cai, né? [...] O atendimento do bar já não é o mesmo, começa tudo ficar complicado (André, 26 anos).

Nesse contexto, os clientes que chegavam após a lotação do auditório, ocupavam os três bancos suspensos junto ao balcão do bar, geralmente vazios, aguardando a liberação de alguma mesa ou permanecendo ali mesmo; ou se acomodavam junto à uma mesa no pátio; quando encontravam conhecidos, solicitavam uma cadeira para se juntar a eles; do contrário, desistiam da espera e deixavam o local.

Nos dias observados, não era comum a formação de filas em frente aos banheiros; quando se formavam, eram pequenas e logo se diluíam. Em ambos, havia apenas um vaso sanitário e, na entrada, um lavabo em comum para homens e mulheres. Nas paredes do banheiro masculino, foram encontradas inscrições, comuns a banheiros escolares e públicos em geral, como declarações de amor, assinaturas, números de telefone; marcas de apropriação, comunicação e reconhecimento; no entanto, uma delas pode ser destacada pelo seu potencial de produção de significados sociais: a inscrição “Prefiro Vila Velha” em formato de palavra-chave, como “#prefirovilavelha”. Trata-se de uma etiqueta que pode ser utilizada pelos usuários das redes digitais, em adesão ao conteúdo dessa mensagem, e que se torna um filtro para todas as publicações com a mesma marcação, acessado facilmente por meio de um clique. A autoria da mensagem pode ser atribuída a Vieira (2016), como parte de sua exposição de arte realizada em 2009, em Vitória. A mesma inscrição pode ser encontrada em muros pichados por anônimos na Grande Vitória, conforme relatou um cliente em uma das noites, afirmando usar essa etiqueta nas redes digitais:

[...] é, na verdade, um grafite que vi perto do viaduto da saída da ponte. Alguém escreveu “Prefiro Vila Velha” ali. Daí meus amigos e eu sempre brincamos sobre essa frase. [...] Mas o que vem à mente é mais uma rivalidade, entre aspas, com Vitória [a capital]. Uma comparação entre as duas cidades. No meu caso, eu prefiro Vila Velha por uma questão bairrista, por morar e trabalhar aqui (DIÁRIO DE CAMPO, 09/06/17).

Essa mensagem anônima encontrada num banheiro do karaokê evidencia o nexo existente entre o cotidiano da cidade e o cotidiano organizacional, como uma marca de comunicação urbana e da inclusão deste karaokê dentro dessa proposta, visto que é localizado em Vila Velha. Em outras palavras, alguns moradores de Vila Velha declaravam preferir a sua cidade em relação às outras, sobretudo, à capital, em defesa das suas qualidades singulares e ao sentido de pertencimento. Um dos meios de manifestar essa preferência pela cidade seria por meio da apropriação do seus espaços de sociabilidade urbana. Logo, este karaokê poderia ser reconhecido como um desses espaços que evocam a valorização urbana de Vila Velha, além de ser frequentado por habitantes das cidades vizinhas. Ademais, o potencial turístico deste karaokê pôde ser percebido na pesquisa de campo, com a chegada, em um micro-ônibus, de um grupo de moradores de Guarapari, por ocasião da comemoração de uma formatura.

As interações do público com o espaço acústico e com as apresentações davam-se gradativamente até se converter numa engrenagem de efervescência social que perdurava algumas horas e se esvanecia pouco antes do horário de fechamento, quando se percebia o crescimento de uma fila em frente ao caixa. Nesse momento de fechamento da conta, alguns clientes compartilhavam, ante o balcão do caixa, as suas percepções do espaço, os significados socialmente e espacialmente vivenciados ali, como pode-se destacar na declaração do gestor entrevistado:

Eu cumprimento todo mundo, eu faço questão de cumprimentar, eu acho bacana. Quebra aquele lance de, de empresa e cliente, né? Eu trato, às vezes, o cliente como amigo, né? [...] Pra mim, é muito gratificante. E depois, entra o reconhecimento das pessoas. Eu ouço ali no caixa muita coisa bacana, então isso me agrada muito [...] (Geraldo, 50 anos).

Observou-se que a aproximação criada pelo gestor, como anfitrião do espaço, facilitava a sua interação com alguns clientes, que consequentemente lhe forneciam o retorno quanto à prestação do serviço e às formas de uso que aplicavam ao espaço. Uma relação semelhante pode ser criada entre garçons e clientes, conforme aponta Rolim (1997) em seu estudo sobre os significados do ato da alimentação, no contexto de bares e restaurantes que se tornaram relevantes espaços de sociabilidade, sendo lembrados ao longo de décadas. Segundo a autora, os garçons se fazem conhecidos devido à sua permanência na organização, o que possibilita a criação de um relacionamento pessoal com a clientela, que espera encontrá-los novamente e ser atendida pelos mesmos, tendo em vista o tratamento profissional, mas também a relação de afetividade estabelecida. Desse modo, o atendimento personalizado, tanto por parte dos garçons ou dos proprietários, exerce grande influência na criação da identidade de bares e restaurantes (ROLIM, 1997).

Na observação participante, o atendimento dos garçons não pôde ser apontado como um tratamento padronizado e suscetível à criação de um relacionamento, pois à época da pesquisa, eram todos diaristas; não havia um garçom fixo. Embora alguns oferecessem um bom atendimento, em ocasiões posteriores eram encontrados novos garçons. Não obstante, alguns clientes demonstravam grande apreço pela auxiliar de cozinha, que aparecia no auditório para se comunicar com um garçom, além de doar sua simpatia e cumprimentar com um abraço aqueles clientes habituais. Aliás, alguns clientes demonstraram sentir a ausência de um garçom querido que há pouco havia deixado a organização, por razões ainda desconhecidas, onde servira a clientela por mais de dois anos. O fato ilustra a importância de se viabilizar uma relação de proximidade continuada entre funcionários e clientes, no contexto do karaokê, sendo os garçons aqueles que desempenham um papel notável junto às mesas, em contato direto e recorrente com os clientes, contribuindo na construção de laços de afetividade com o espaço.

Como norma do karaokê, o pagamento pelos produtos e serviços consumidos deveria ser efetuado indo até o caixa, onde cada cliente recebía um tíquete assinado para liberação da saída junto ao porteiro. Como algumas pessoas frequentavam o espaço na companhia de seus familiares e amigos, e costumavam entregar a comanda vazia, por ausência de consumo ou pelo consumo em outras comandas; a partir do segundo ano de funcionamento, o gestor estabeleceu a cobrança da consumação mínima de R$5,00, um pequeno valor representativo e compatível com o público esperado de classe média. A cobrança de um valor maior poderia inibir ou reduzir a frequência de alguns dos clientes habituais. Entretanto, a cobrança do consumo mínimo não fornece respostas quanto às razões por que tais frequentadores não consumiam ou continuavam consumindo apenas o valor mínimo cobrado. Podem-se levantar questões relacionadas ao cardápio, que não teria atrativos para esses clientes; ou relacionadas à comunicação dos garçons sobre sugestões interessantes de consumo. Destaca-se, contudo, que a atuação dos garçons era delimitada por sua condição de diarista e, portanto, pela ausência de vínculos com a organização. Desse modo, a sua atenção poderia estar mais voltada ao fornecimento de um bom atendimento, não sendo capaz de transmitir os valores e a tradição da organização, representada aqui pela gama de produtos, seus sabores, aromas, texturas, características em geral; os itens mais pedidos e desejados pelos clientes; os itens mais adequados para o dia, o horário, a quantidade de pessoas, e assim por diante.

7.2 FORMAS DE SOCIABILIDADE

A apresentação das formas de sociabilidade não se deu de modo imediato, pois elas se confundem, ao mesmo tempo, com as formas de uso do espaço, o qual é tomado como vetor não apenas do comportamento territorial, mas também das interações sociais, dos valores da organização e dos grupos que a compõem, configurando a realidade simbólica que comunica, no conjunto, a cultura organizacional (FISCHER, 1994). Por conseguinte, algumas práticas espaciais puderam ser destacadas notadamente como modos de sociabilidade e de associação de indivíduos em grupos. Como aponta Agulhon (1981), a sociabilidade evoca relacionamentos e movimenta a formação de grupos informais que podem variar em quantidade de integrantes, em naturalidade (coesão interna), estabilidade (coesão externa), e em sua restrição (sinais de adesão ou de evitação). Simmel (1983) toma a sociabilidade como uma estrutura sociológica que, na esfera pública, remete ao comportamento de uma pessoa num círculo social, orientada à conservação de um grupo enquanto forma social, por meio de interações e de uma representação de si.

Nesse sentido, foi possível observar, no karaokê pesquisado, a confluência de pessoas em grupos pequenos e grandes, junto a mesas e em pé, no auditório e no pátio, conforme a ocasião. Esses círculos sociais eram formados por pessoas que chegavam juntas ou que se uniam pouco a pouco com a chegada das demais, tornando o grupo maior do que se aparentava no início. Os grupos eram fechados ou relativamente abertos, geralmente delineados pela ocupação das mesas. Além disso, pequenos grupos se ajuntavam e se dissolviam em meio às interações entre pessoas procedentes de diferentes grupos, como por exemplo, o grupo que se formava em frente ao palco para dançar, ou aquele formado a partir da saudação a conhecidos que chegavam ou que já estavam no local. Alguns clientes reconheceram seu apreço pela convivência em grupos:

Normalmente, você vai no karaokê em grupo, né? É muito difícil você ir sozinho, até quem vai sozinho, eu acho que acaba encontrando alguém. [...] Então, acho que é um espaço muito pra socializar mesmo (Flora, 27 anos).
[...] geralmente, eh, o mínimo, o mínimo, quatro pessoas, muito mínimo! Assim, no dia de “bad”, mas... Geralmente, deixa eu ver, sei lá, de seis pra cima. [...] Assim é bem mais, tipo, divertido, bem mais legal, todo mundo vai conseguir aproveitar, e tal (André, 26 anos).

Assim, verificou-se a propensão do karaokê à atração de diferentes grupos que constituíam um mesmo espaço social, o que possibilitava a interação entre iguais e diferentes, conforme o contexto vivido e a inclinação de cada participante. Na visão de Frúgoli Jr. (2007), a sociabilidade pode ser apreendida em dois campos interacionais: a interação entre iguais, assim considerados por serem pessoas conhecidas ou que interagem regularmente, a fim de reforçar laços sociais e de ajuda mútua; e a interação entre diferentes, isto é, entre pessoas desconhecidas que se encontram em circunstâncias temporárias e se dispõem ao convívio social. Desse modo, era comum observar as interações entre iguais, ligados por laços de amizade, de parentesco ou organizacionais; por relações de proximidade estabelecidas no cotidiano urbano, entre amigos, familiares, colegas de profissão, de bairro, de escola, de faculdade, de curso de idiomas, de times esportivos, entre outros âmbitos. Essas interações se davam no interior dos grupos que eram atraídos ao karaokê, o qual se tornava um ponto de encontro e de comemorações.

Em linhas gerais, os fatores de igualdade entre conhecidos, percebidos a partir do tipo de vestuário, da etnia, do sexo, dos itens de consumo às mesas, não eram capazes de constituir uma imagem homogênea dos grupos. No entanto, os fatores de idade e de gênero musical puderam ser mais facilmente realçados nas observações. Assim, foi possível concluir que havia o predomínio da sociabilidade etária de grupos mistos, ligados pela idade, pelo repertório em comum e pela apreciação da música e, em alguns casos, da cerveja e de outras bebidas alcóolicas – em muitos grupos havia pelo menos dois consumidores de bebidas, juntos no ato de brindar, enquanto outros grupos consumiam apenas água ou refrigerante. Este karaokê foi notado, portanto, como um espaço de sociabilidade juvenil, frequentado em sua maioria por jovens com idade aproximada entre 20 e 40 anos, demonstrando diferentes faixas geracionais e um prolongamento de hábitos da juventude ao início da fase adulta. Identificou-se, ainda, em número menor, a sociabilidade masculina e feminina por idade, alguns pares isolados de namorados ou casais, grupos familiares, e uma ou duas pessoas sem companhia, mas que interagiam com funcionários e clientes.

O depoimento de um informante, um senhor de certa idade, cliente assíduo do karaokê, permite elucidar a percepção da apropriação daquele espaço pelos jovens e o modo como ele se inseria na sociabilidade juvenil por meio da música, das canções escolhidas para suas apresentações:

Eu me dou muito bem, né, [risos] com o público do karaokê, [...] eu sou muito sociável, nesse ponto aí. A galera nova que tem aí, eu sempre me dou muito bem com todos eles. [...] Geralmente, eu gosto de cantar música, eh, não de acordo, né, com a banda que eu tenho, [...] que é dos anos 60, né, eh... Eu canto, mais, músicas atuais [...]. Essa interatividade com o público jovem é muito fácil, porque eu canto músicas, que eles também gostam, né, que é do agrado deles (Edson, 68 anos).

Em entrevista, esse senhor relatou que foi vocalista de uma banda de rock formada na sua adolescência, com relativa expressão numa comunidade de interior. A banda se apresentava em várias cidades do Espírito Santo e de Minas Gerais, tocando o rock britânico dos Beatles e dos The Rolling Stones. Após 40 anos do encerramento da banda, os integrantes se reencontraram para ensaios e realizaram um evento em Governador Valadares, junto à sua comunidade de origem, revivendo aquela época e os valores juvenis da década de 1960, propagados pelo movimento cultural e musical do rock. Atualmente, o entrevistado se apresentava com o mesmo repertório em eventos, porém com amigos que moravam mais próximos a ele. Agora, em relação à sua vivência no karaokê, esse senhor buscava um repertório mais atual, em torno do gênero rock, como uma forma de interação e de identificação com o público frequentador, uma maneira de “ser jovem”, de manter uma identidade e autoimagem assimilada em meio à cultura juvenil. Além disso, ele tinha preferência pelo vestuário de moda jovem, fazendo uso de calça jeans, camiseta estampada e boné, itens facilmente encontrados nas magazines de moda e usados por boa parte dos jovens de classes médias ou periféricas. Assumia, pois, uma maneira de ser e uma mentalidade jovem, o que pode ser verificado em suas palavras:

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Eu me visto mais jovem, sempre... Eu acho que [risos] [...]. Eu tenho um-a mentalidade muito jovem, entendeu? Apesar da minha idade, eh, meu padrão é um completamente diferente, sei lá... Eu gosto sempre de tá ouvindo músicas novas, aquelas músicas que soam bem no ouvido, eu gosto de cantar, entendeu? Então, eu sou assim, é meu jeito, não adianta (Edson, 68 anos).

A constituição de grupos de iguais, como ressalta Pinto (2015), surge a partir da adolescência, nesta etapa da vida em que os indivíduos buscam adaptar o sentido do eu em face das mudanças no corpo e na mente advindas da puberdade; e traçar sua autonomia perante o mundo dos adultos, em relação à sua autoimagem, ao que são e pretendem ser, à sua escolha ocupacional, às diferenciações entre o eu e o outro.

O grupo de iguais tem como finalidade cristalizar a identidade adulta do adolescente e afirmar-se como indivíduo autônomo, para deixar de utilizar os pais ou sub-rogados desses, como modelos de identificação, concomitantemente a isso, os adolescentes têm necessidade de buscar novas pautas identificatórias no seu grupo de iguais (PINTO, 2015, p. 261, 262).

Os grupos juvenis encontrados no karaokê não eram compostos normalmente por adolescentes, de idade escolar, mas por jovens em fase de estabelecimento profissional, universitários, pós-universitários, trabalhadores ou desempregados, que moravam com os pais, com a família, sozinhos ou com amigos, sendo oriundos de estratos sociais de classe média. Eram jovens que acumulavam experiências e repertórios delineados na sua adolescência e na atualidade, seja de canções conhecidas, seja de variados signos culturais de seus tempos rememorados, como linguagens, crenças, conhecimentos, comportamentos e práticas, de um passado recente e de suas vivências cotidianas.

Entre os jovens, havia grupos relativamente fechados e coesos, não necessariamente homogêneos no aspecto visual, mas regulados pelo reconhecimento mútuo, pelo sentido de pertencimento ante vivências efêmeras, e por trocas simbólicas particulares, isto é, a expressão gestual, comunicacional, artística; os costumes, as visões de mundo, etc. Esses grupos podem ser incluídos dentro da noção de tribos ou neotribalismo, em convivência com diferentes estilos de vida assumidos e apregoados pelos jovens, segundo afirmam Guerra e Quintela (2016):

Diferentemente do que aconteceu entre os anos 50 e 80 do século XX, os jovens não se confinam, nem mantêm fidelidade a um só estilo, são influenciados por vários e tendem a construir um estilo pessoal dentro dessa panóplia optativa, estilo que é particularmente influenciado pelos gostos musicais e pelas sociabilidades com pares (GUERRA; QUINTELA, 2016, p. 201).

Além do conceito de tribos urbanas, autodenominadas como “nosso bonde” ou “nosso grupo”, os autores destacam a noção de microculturas juvenis, que identifica os jovens como atores culturais, e não mais, ou não apenas, como vítimas, marginais ou antissistema, como eram considerados nas teorias subculturais. Essa abordagem busca sobrepor as concepções do discurso político, midiático, ou mesmo do senso comum adulto, sobre a juventude, por meio de uma ênfase nas atividades cotidianas em que os jovens participam e na visão crítica desses atores, evidenciando identidades juvenis plurais. Sendo assim, as microculturas juvenis contemporâneas apontariam para uma condição transitória de adesão, a possibilidade de mobilidade intergrupal e a estruturação de sociabilidades em rede, em que circulam estilos ecléticos ou multi-identitários (GUERRA; QUINTELA, 2016).

Nesse contexto, as relações intra e intergrupais foram discernidas como representações recorrentes no espaço organizacional, inseridas no âmbito das tribos e microculturas juvenis, observadas diante da copresença de grupos mais estáveis e compostos normalmente pelos mesmos integrantes, bem como de grupos sem fronteiras bem definidas, nos quais transitavam diferentes participantes a cada encontro. Envolvidos nessa conjuntura, os clientes do karaokê demonstravam diferentes posturas e comportamentos interacionais. Uma parte se restringia às interações entre iguais, na busca de estreitar relacionamentos, manifestando uma preferência nítida por seus companheiros, possivelmente aderidos por uma representação do espaço, enquanto um karaokê bar direcionado à comunidade local, como fora mencionado anteriormente, ou seja, a imaginação de um pequeno boteco (botequim) que comporta poucas pessoas, talvez apenas seus amigos. Outra parte engajava-se nas interações no seu grupo de iguais, ao passo que também se permitiam e valorizavam a interação entre diferentes (desconhecidos), como abertura a novas amizades, transmitindo uma ideia do espaço vivido (LEFEBVRE, 2006), enquanto um karaoke club, uma balada. Os seguintes depoimentos podem ilustrar esses particulares posicionamentos ante à sociabilidade, indicando diferentes perfis sociais:

Tipo o dia do, da despedida, por exemplo. Tinham pessoas ali que nunca trocaram um “ah”, porque são amigos de grupos diferentes, assim, [...] e nem ali trocaram. Estavam todos na mesma mesa, por causa da [citou o nome], mas, muitos ali não se conheciam, tipo, nem se falaram, praticamente. Eu gosto de tá na mesa que eu conheço todo mundo, mas se eu estou na mesa que eu não conheço todo mundo, eu procuro conhecer, sabe? Porque a gente vai ficar ali por horas, então, tipo, é até mal-educado, se não conversar com a pessoa que tá na mesa, sabe? [...] Nossa, uma noite ideal? [...] Uma noite no karaokê fechada só pra gente, com certeza, seria uma noite ideal, pra mim. Cantando, se divertindo, dançando... (André, 26 anos).
Olha, uma noite que todo mundo se divirta, né, que a gente conheça outras pessoas, faça outras amizades, então... Isso é sempre muito bacana. Aquela noite que você vai até quatro, cinco horas da manhã e nem se cansa; que você tá se divertindo, tá dançando, então... Essa é uma noite bacana (Hosana, 37 anos).
Quando eu chego nos lugares, se eu não conheço as pessoas, eu me faço conhecer, costuma ser assim. Inda mais, mesmo que, que eu não conheça, às vezes, eu subo no palco e canto, e as pessoas vêm falar comigo, então... Vem pedir pra eu cantar uma música, pergunta se eu quero cantar uma música com elas... [...] E eu sempre gostei de conversar, aí puxa um assunto dali... (David, 32 anos).

Podem-se destacar, a partir dessas falas, pelo menos duas convicções a respeito da noite de diversão no karaokê: uma ligada à conservação do círculo de amigos e à apropriação que fazem do espaço para seus encontros informais e comemorações; e a outra ligada à contingência de novos relacionamentos, geralmente associados ao início de novas amizades ou, em alguns casos, a paqueras e relacionamentos amorosos mais íntimos, de diferentes classificações entre os jovens, de acordo com o tipo e o nível de compromisso. Note-se que as apresentações de canto tornavam-se, às vezes, um meio para interação com desconhecidos. O talento e o desempenho no palco eram percebidos por alguns como gancho para o convívio social. Além disso, o próprio gosto pela conversa e por relações recíprocas era atrativo para as interações.

As apresentações de canto, individuais ou em grupo, dividiam atenções na platéia de acordo com o clima estabelecido e percebido. Na primeira hora de abertura do karaokê ou no horário de chegada de um grupo, os clientes costumavam estar entretidos entre pares, ocupados com a escolha de canções, com pedidos ao garçom, no cumprimento a conhecidos, com o uso do banheiro, etc., percebendo as apresentações apenas como som ambiente, sem atenção ao palco. Após a interpretação de uma série canções, geralmente conhecidas e apreciadas pelo público, a atmosfera do ambiente começava a mudar e a percepção do espaço acompanhava essa modificação algumas vezes, seja com olhares, gritos, aplausos, dança ou a reprodução do canto, entre outras reações. Os seguintes relatos demonstram como alguns clientes percebiam as reações do público e a sua própria reação às apresentações:

É coisa de momento. Se o palco chamar atenção, eu vou olhar pro palco [...]. Se for alguém que eu gosto, eu vou assistir, eu vou gritar, se não for, eu vou ficar na minha, fingir que não tá lá... [...] O [citou o nome], pois é, quando ele abre a boca, o pessoal acha que a Amy Winehouse reencarnou. Maravilhoso! Então, tem essas questões de vozes peculiares, coisas que, que não é uma coisa que você vê todo dia. Então, causa uma reação nas pessoas (David, 32 anos).
Chandelier. Essa música eu conheci, [...] porque eu gosto muito da cantora, né, eu gosto muito da Sia. Aí, eu conheci logo que ela lançou a música, e fez muito sucesso, e tal. Aí, aí eu comecei a cantar ela, porque eu gostei “de cara”; assim, era uma música super diferente, e também, pelo nível de dificuldade. Eu adoro escolher música pelo nível de dificuldade [...]. Essa música todo mundo, sem exceção, interage [pausa] de alguma forma, ou aplaude [...]. Todo mundo tem uma reação com essa música, é legal por isso (Flora, 27 anos).

Pode-se observar no discurso desses informantes a importância que atribuíam ao canto, ao cantor, ao talento vocal e à canção escolhida como fatores condicionantes das reações da audiência e da interação com a mesma. O interesse do público seria despertado devido à interpretação de uma canção conhecida e apreciada pelos ouvintes; ao desempenho e ao talento vocal percebido; à apresentação de um ou mais de seus companheiros em continuidade à interação que já realizavam junto à mesa; à identificação com o cantor que gravou originalmente o áudio do karaokê escolhido, ou mesmo, o gênero musical que esse cantor representa; entre outros. Como aponta Salgado (2009), podem ser admitidas correspondências entre as teorias da interação social, da ação comunicativa e da estética da recepção. Desse modo, o karaokê se torna um bom exemplo em que as pessoas interagem entre si, participam em fluxos comunicacionais e se tornam receptores ativos da apresentação de canções, cujo efeito estético é ressignificado no espaço ao ser compartilhado entre indivíduos e grupos.

Na verdade, portanto, pretende-se demonstrar a polifonia existente na mutação das formas de sociabilidade no contexto do karaokê, ora baseadas na conversação e nas interações junto à mesa, ora baseadas nas interações com o espaço, nas interferências sentidas no espaço musical, com apresentações ao vivo, que ocorriam, muitas vezes, de maneira participativa. Turino (2008) afirma que o karaokê está inserido no campo social de desempenho musical em tempo real, envolvendo quatro estruturas conceituais, quais sejam: o desempenho representativo, o desempenho participativo, o áudio de alta fidelidade (high fidelity) e o áudio arte. Nesses termos, o desempenho representativo é o mais usual, quando artistas se apresentam para um público, que não participa na música ou na dança. Em contrapartida, o desempenho participativo refere-se a “um tipo especial de prática artística em que não há distinções artista-público, apenas participantes e potenciais participantes desempenhando diferentes papéis, e o principal objetivo é envolver o maior número de pessoas em algum papel de desempenho” (TURINO, 2008, p. 26, tradução nossa).

Na música contemporânea, como aponta o autor, os áudios gravados em estúdio têm sido utilizados normalmente nas apresentações profissionais, inclusive os DJs e as casas noturnas têm mudado a concepção musical entre os jovens, ao elevar o valor dos áudios, que são representações de música ao vivo, como bons substitutos de uma banda ao vivo. Com isso, no áudio arte se admite a produção e manipulação de sons em estúdio para a criação de uma gravação, considerada um objeto artístico, ao passo que, no áudio de alta fidelidade, pretende-se produzir uma gravação, em estúdio ou em shows, que se torne um ícone do desempenho em tempo real (TURINO, 2008). Além disso, a gravação de disco na modalidade ao vivo em cidades metropolitanas têm sido realizada como um modo de comprovação do talento dos músicos, de caráter testemunhal da audiência ali presente para a sociedade em geral. Aliás, as apresentações podem também se pautar num desempenho de alta fidelidade, quando os artistas buscam reproduzir ao vivo os mesmos arranjos vocais e instrumentais que executaram na gravação de seu disco, ou quando os intérpretes anônimos moldam a sua voz e gestos às características de interpretação do cantor que gravou originalmente aquela canção, observadas no timbre, entonação e impostação vocais e na sua atuação no palco. Enfim, baseado nas tradições da arte musical, Turino (2008) argumenta que:

As pessoas precisam das artes por causa dos limites do pensamento simbólico, assim como precisam do simbólico por causa dos limites das experiências icônicas e indexadoras. Embora as tradições participativas tendam a restringir a liberdade criativa individual, o fato de permitirem que mais pessoas participem do domínio artístico ao longo da vida fornece benefícios importantes para a saúde individual e social (TURINO, 2008, p. 51, tradução nossa)

Desse modo, observou-se que o karaokê pesquisado agregava as formas representativas e participativas de desempenho musical, bem como o uso de áudios de alta fidelidade para acompanhamento vocal, o uso de áudios artísticos (geralmente associados à música eletrônica) e de áudios não originais, gravados em estúdio com o uso de instrumentos sintetizados, sendo considerados por alguns como um áudio de baixa qualidade, enquanto outros não percebiam essa diferença. A fim de atender ao gosto de diferentes públicos, a organização apresentava catálogos de audiovisuais com gravações originais e sintetizadas, de modo que fosse reconhecida como o espaço de karaokê com o maior catálogo de músicas do Espírito Santo.

Cada indivíduo e grupo de frequentadores imprimia no espaço organizacional sua percepção da qualidade dos áudios e suas concepções de desempenho participativo ou representativo, a partir da posição de audiência e das apresentações individuais e coletivas, quando estas eram percebidas enquanto tais, em vez de mera música ambiente. Observou-se que o desempenho participativo era facilitado, algumas vezes, pelo consumo de bebidas alcoólicas, pela participação junto a seus companheiros, pela apresentação de cantores que demonstravam não ter preparo vocal, e pelas reações de admiração da audiência, incentivando a desinibição de parte do público. Estar no palco era assumir um comportamento comum ao espaço de karaokê ou, ainda, era vencer o medo diante da opinião pública. Certamente, cantar em público era mais prazeroso para uns do que para outros, assim alguns grupos possuiam pelo menos um integrante que atuava como cantor, enquanto os outros integrantes atuavam como platéia, como fãs, ou como jurados, embora, às vezes, permanecessem concentrados em conversas. Assim, o desempenho representativo era fator de inibição para alguns, quando se percebia que as apresentações eram de nível elevado, enquanto o desempenho participativo era um meio de agregação, quando se percebia que pessoas com diferentes níveis de talento se apresentavam como forma de expressão musical ou atuação em grupo.

É importante destacar que o canto de karaokê surgiu como uma forma de sociabilidade organizacional, em bares japoneses onde os clientes podiam interagir, cantar e assistir à apresentação dos demais ao som de áudios instrumentais que eram reproduzidos num protótipo da máquina de karaokê. De acordo com Fantinel (2012), o conceito de sociabilidade organizacional refere-se a formas de relacionamento social que envolvem interações, representações e significados, construídos em meio ao cotidiano organizacional e urbano, e ao processo de gestão. Desse modo, o próprio canto de karaokê, como acima mencionado, era uma forma de sociabilidade organizacional, uma vez que conduzia a interação entre os participantes, desde a escolha de canções até a apresentação em equipe, ou na relação cantor e plateia, como pode ser demonstrado no relato das seguintes informantes:

Na maioria das vezes, eu canto em grupo, porque é bem mais divertido [risos], e não vou ter todas as atenções voltadas pra mim. [...] Às vezes, é uma música que você não sabe ela toda, aí o colega, o colega sabe a outra parte, aí você junta, eh, esse que é o bacana. [...] às vezes, eu nem sabia a música e eu aprendi na hora, joguei no Youtube, vi o vídeo, e aprendi a cantar uma parte da música na hora. Mas, a gente escolhe, ou porque alguém gosta, ou então a gente escolhe uma música: “Ah, vamo tentar cantar essa música aqui, que a gente nunca cantou”, na hora mesmo (Hosana, 37 anos).
Por exemplo, em casa eu canto no Smule [aplicativo de karaokê via celular] com, com pessoas que, tipo, não estão em tempo real, pessoas que eu não conheço; são de outros estados, né? Eu tenho essa opção... Mas, no karaokê, eu tenho os meus amigos mais próximos, e tipo, eh, e tem interação com outras pessoas que você conhece na vida real, não só pelo aplicativo, né? É outra coisa, outro convívio, né? (Gabriela, 30 anos).

Pode-se perceber como a prática do canto favorecia as interações face a face e até mesmo as interações no ciberespaço, porém a preferência por cantar no espaço físico da organização era relacionada ao convívio social, visto que poderiam encontrar seus amigos, conhecer outras pessoas e cantar em grupo. O canto coletivo era assim percebido tanto no palco, quanto no auditório, em reação às apresentações. Algumas vezes, era possível ouvir vozes em coro reproduzindo a canção, a partir das mesas. Ademais, as canções são carregadas de significados sociais, linguísticos e estéticos, expressos nas letras, nos gêneros musicais, nos aspectos estilísticos de composição, arranjo e interpretação. O discurso musical pode, então, ser uma forma indireta ao discurso verbal, sendo ao mesmo tempo verbal e não-verbal – indireta porque, ao misturar sonoridades com a poesia cantada, as pessoas podem declarar interditos (LEFEBVRE, 2006), opiniões que não pronunciariam senão por meio de formatos textuais estabelecidos, como as canções, que potencializam a expressividade social e as trocas simbólicas. Assim, por meio da execução do canto popular contemporâneo, as pessoas podem expressar seus pensamentos, sentimentos, opiniões, visões de mundo, bem como pertenças e identidades, convocando diferentes percepções e interpretações dos sujeitos.

Nesse sentido, foi possível observar em campo o uso de canções que abordavam diferentes temáticas, sejam étnicas (Canto da Cidade, gravada por Daniela Mercury), de protagonismo pessoal (Máscara, gravada por Pitty), de empoderamento feminino (Bang, gravada por Anitta), de relacionamentos amorosos (Toda Forma de Amor, gravada por Lulu Santos), etc. Destarte, pode-se destacar um excerto das observações que ilustra uma situação de reapropriação de uma canção de temática étnica sobre a discriminação contra negros, interpretada por um rapaz branco:

Apresentação da canção Olhos coloridos, lançada em 1986, pela brasileira Sandra de Sá – Um rapaz branco de cabelo liso se apresentava, segurando um copo, dançando, cantando em alta voz, desinibido. Vestia uma camisa de estampa. Suas características físicas destoavam do eu lírico da canção, que dizia: “Você ri da minha roupa/ Você ri do meu cabelo/ Você ri da minha pele/ Você ri do meu sorriso/ A verdade é que você/ Tem sangue crioulo...”. Talvez quisesse demonstrar que, a despeito de sua aparência física, ele era contra o preconceito racial, e se identificava com a mistura étnica do povo brasileiro, exaltada na canção (DIÁRIO DE CAMPO, 26/05/17).

Com isso, busca-se evidenciar que o canto não é neutro, pois expressa os significados contidos nas canções, desde que percebidas e compreendidas pelos ouvintes. Embora as canções fossem escolhidas em meio às contingências do espaço, de forma consciente ou inconsciente, por conveniência e pelo acesso ao catálogo do karaokê, as apresentações de canto eram fontes potenciais à transmissão de uma ideia geral, um sentimento, um valor social e assim por diante. Por outro lado, os intérpretes, não raras vezes, apresentavam uma mesma canção sem compreenderem seguramente o seu conteúdo, sem terem acessado o sentido de alguns dos versos e estrofes, em seu próprio idioma ou em outros, visto que estavam ocupados nas interações ou com aspectos estéticos, como melodia, ritmo, segurança nas letras, afinação, autoimagem, etc.

A dança, de igual modo, era outra forma de sociabilidade, contudo menos usual que o canto, geralmente despertada ao som de canções de tempo alegre e ritmo dançante, entre pares ou pequenos grupos, que se levantavam em frente às mesas para simplesmente balançar ao ritmo da música ou, de fato, dançar. Outras vezes, dirigiam-se para frente do palco – uma região que se tornava uma pequena pista de dança. Alguns ainda se aproximavam da mesa de outros colegas dançando, como convite à interação por meio da dança. Enfim, alguns também dançavam sobre o palco durante sua apresentação ou em companhia aos intérpretes, compondo a representação musical.

Eu fico mais sentado, e quando é música que eu gosto, eu, tipo, levanto, danço, canto e volto pra mesa. Geralmente, eu vou lá pra frente, porque é mais fácil dançar, mais espaço; não corro o risco, tipo, de bater num funcionário, por exemplo, que tá levando cerveja pra alguém, alguma bebida, alguma coisa... (André, 26 anos).

No entanto, alguns não reconheciam a dança como adequada à representação daquele espaço, pois afirmavam que preferiam dançar em apresentações de bandas ou de DJs. Outros evitavam a dança em relação à sua representação pessoal (GOFFMAN, 1975), visto que não queriam ser vistos dançando, pois “chama muita atenção”, ou por não possuírem essa habilidade ou porque a maioria das pessoas não estava dançando. Mesmo assim, a dança se tornava um forte agregador social, uma vez que os poucos que a reconheciam poderiam criar grande afinidade entre si. Para estes, como fora dito, a representação do espaço seria a de uma festa.

A interação em torno do aparelho celular e por meio deste era também uma forma de sociabilidade recorrente no espaço organizacional. Alguns interagiam em pares ou em grupos mostrando seu álbum de fotos no celular multifuncional e relatando a situação de cada foto; jogando questionários de conhecimentos gerais; buscando canções que pretendiam aprender ou relembrar para cantarem juntos; navegando na rede, nas redes sociais e em aplicativos de bate-papo; interagindo com colegas que não puderam estar presentes ou que foram lembrados no momento, por meio de textos, áudios, figuras e fotos; entre outras atividades.

Outro modo de sociabilidade que merece destaque era o registro fotográfico, frequentemente por meio do celular, o qual exercia a funcionalidade de câmera. Algumas pessoas interagiam por meio de fotos que tiravam de si mesmas junto a seus companheiros (foto “self” coletiva), e enviavam-nas a todos os presentes por via eletrônica. Alguns publicavam as fotos em perfil pessoal nas redes digitais, posteriormente ou naquele momento, neste caso percebendo as reações e comentários de pessoas de outros círculos sociais, interagindo com as mesmas e com os presentes. Além disso, realizavam o registro fotográfico ou audiovisual de algumas apresentações dos colegas, o qual se tornava um marco na memória coletiva do grupo (HALBWACHS, 1990), e quando publicadas, tornavam-se representações da vida cotidiana. Decerto, todas as experiências vividas no karaokê eram pouco a pouco aderidas à memória dos participantes. Entretanto, as lembranças e os seus significados poderiam ser ativados mais rapidamente por meio de fotos e vídeos produzidos naqueles encontros sociais.

Como já referido, muitas pessoas demonstravam valorizar a conversação como forma de sociabilidade, e algumas vezes, dividiam sua atenção entre a interação junto à mesa e as interferências sentidas em meio às apresentações e às reações do público. Com isso, alguns se queixavam da alta intensidade do som percebida no auditório, que dificultava a conversação em grupo, e possibilitava geralmente conversas de ouvido a ouvido. Os tópicos de conversação variavam de acordo com o contexto e com as disposições pessoais e coletivas, contudo versavam normalmente sobre os acontecimentos do cotidiano da vida pessoal, da família, da faculdade, do trabalho, de novos projetos, de planos de atividades do grupo; sobre a vida alheia, os conhecidos e desconhecidos, o conteúdo dos meios de informação e comunicação; sobre o universo da música, a escolha de canções que iriam apresentar, as apresentações em curso no palco, os cantores e bandas da indústria fonográfica e da comunidade local, as canções preferidas e consideradas um hino ou iluminação divina; entre outros assuntos.

A conversação e as interações à mesa eram o ponto mais comum entre os frequentadores do karaokê que não aderiam a outras práticas, como por exemplo, à apresentação de canto ou ao consumo de bebidas, o que pode ser ilustrado na fala do seguinte informante:

Geralmente, sou eu que dou a ideia [de ir ao karaokê]. Tem um ou outro que não gosta muito, porque, tipo: “Ah, não canto, etc.”, ou senão: “Ah, não canto e não posso beber, porque to dirigindo”. E aí, eles acabam meio que dando pra trás, assim, mas acabam vindo, de qualquer forma (André, 26 anos).

Vale ressaltar a partir desse depoimento a participação de clientes que atuavam como instigadores de encontros, interações e programas sociais junto aos seus círculos de amizade e influência, o que ocorria de modo espontâneo, associado ao seu perfil de liderança. Em parte, a lotação do karaokê poderia ser atribuída à atuação desses clientes promotores de encontros sociais e de comemorações, mobilizando a participação de indivíduos que não estariam ali senão em razão da interação com seus amigos, namorados, cônjuges ou familiares.

Não obstante, havia grupos que manifestavam pouca ou nenhuma conversação, envolvendo-se em outros modos de sociabilidade como as representações de audiência ativa, de intérpretes e de jurados, por meio de interações em torno das apresentações de canto. Observa-se, com isso, a existência de dois perfis sociais: o de grupos baseados na conversação e o de grupos baseados em práticas culturais e de consumo, que favoreciam as interações. Ambos compartilhavam das diferentes formas de sociabilidade, mas poderiam ser assim caracterizados pelo predomínio de uma delas.

O ato de comer e beber juntos, além de ser hábito de consumo ou a satisfação de uma necessidade, era também um modo de sociabilidade, uma vez que os membros de um grupo interagiam a partir do compartilhamento de uma porção de petiscos ou de uma garrafa de cerveja, este simbolizado no ato de brindar. No entanto, como algumas pessoas se alimentavam antes de ir para o karaokê, era mais comum o beber juntos, seja água, refrigerante, caipirinha, cerveja, entre outras bebidas disponíveis no cardápio, o que pode ser demonstrado na fala da seguinte informante:

Comer não é sempre que eu como, agora beber, sempre que eu vou lá, eu bebo alguma coisa, seja cerveja ou água, qualquer coisa assim, eu acabo consumindo. [...] A cerveja, assim, eu falo, né, cerveja não é bom não. A gente bebe cerveja “mais” pra socializar, eh... Eu gosto de cerveja, mas acho que é “mais” porque a gente tá ali com a galera, né, e tudo-o-mais. Aí, todo mundo tá bebendo, a gente bebe junto. [...] Quando eu comecei a beber foi por, pra socializar. Agora eu já, eu já gosto, né? (Flora, 27 anos).

Pode-se notar como o ato de beber cerveja era associado por alguns à inserção num grupo, ao ato de confraternizar entre amigos por meio do compartilhamento de uma mesma bebida, ainda que não fosse considerada boa ao paladar. O beber juntos, tal como um rito de iniciação, abria caminhos para a partilha de valores, informações e conhecimentos no grupo de iguais, facilitada ainda pelo efeito do álcool sobre os participantes. Naturalmente, o significado do consumo de bebidas alcoólicas não se resumia à sociabilidade, remetia, ainda, ao relaxamento, ao fazer-se ébrio e entusiasmado, à desinibição para externalização de si, como afirmam os seguintes entrevistados:

Dentre as bebidas que tem lá, acho que, caipirinha foi, das que eu tomei até hoje, caipirinha foi a mais certeira, sabe, do tipo, gosto do gosto, me deixa “alto” com a rapidez maior que todas as outras, e consequentemente, eu gasto menos. [...] Eu fico mais “alto”, mais alegrinho e etc., bêbado [risos] (André, 26 anos).
Eu, eu sou uma pessoa muito, muito extrovertida sem beber. Eu não preciso beber pra falar o que eu penso, pra brincar, pra cantar, pra dançar, pra zoar, pra rir, mas... Às vezes, a gente beber dá uma relaxadinha, né, deixa a gente meio “soltinho”, é gostoso! Mas não é uma coisa que eu faça muito, principalmente porque, pela questão do canto mesmo, da preservação da voz. Eu quero cantar pra o resto da minha vida (David, 32 anos).

Desse modo, era comum encontrar ao menos uma garrafa de cerveja sobre as mesas, representando um hábito de consumo. Este hábito não estava limitado ao espaço do karaokê; algumas vezes era uma continuidade do consumo que se iniciava em casa, por meio da economia na compra de bebidas no supermercado, e poderia terminar no karaokê ou se estender a um bar, como um programa pós-karaokê na madrugada. Todavia, algumas pessoas não apreciavam o consumo de bebidas alcoólicas e se sentiam contrariadas diante do comportamento de consumo excessivo de alguns clientes, de forma que evitavam contato com os mesmos, permanecendo junto ao seu círculo de influência, onde não era visto aquele tipo de comportamento.

Ah, lá, a gente conhece muita gente, mas eu não gosto de me juntar com quem bebe, esse pessoal [citou nomes], porque eles não falam com você direito, não conseguem prestar atenção no que você tá falando, ficam estranhos, não acho legal não. Às vezes, eles já chegam bêbados já, aí, bebem mais, lá, um pouquinho. Sabe [citou o nome]? Teve um dia que não reconheceu minha mãe, e ela tá sempre lá, já foi lá várias vezes! (Gabriela, 30 anos).

Como salientam Douglas e Isherwood (2004), os bens e o seu consumo podem ser marcadores perceptíveis de categorias culturais, de papeis sociais específicos e de significados construídos socialmente, podendo servir como pontes ou como barreiras às interações sociais. Nesse sentido, as bebidas alcoólicas e o seu consumo serviam como pontes para um determinado público consumidor, enquanto para outros que percebiam os seus excessos, o consumo de bebida se tornava uma barreira às interações. Uma vez que o karaokê pesquisado fora constituído como uma organização sociabilizadora, a partir de apreciações coletivas, como produtos, serviços e práticas sociais, essas apreciações em comum serviam como elos às interações sociais, no desenvolvimento da sociabilidade organizacional (FANTINEL; CAVEDON; FISCHER, 2012). Portanto, a paixão pelo canto e pela música, a paixão pelo consumo de cerveja e de outras bebidas alcoólicas e o prazer nas interações tornavam-se, muitas vezes, pontes à sociabilidade. Em contrapartida, algumas pessoas não atribuíam os mesmos significados à prática do canto ou ao consumo de bebidas alcoólicas, de modo que estas práticas se tornavam, algumas vezes, barreiras à interação, no contexto das relações intergrupais e das redes de sociabilidade.

Na esfera dos relacionamentos e das microculturas juvenis, foi possível notar, por meio da observação participante, a existência de redes de sociabilidade já estabelecidas no cotidiano urbano e que se desenvolviam no espaço organizacional por meio da interação entre amigos, conhecidos e “amigos de amigos”. Além disso, novas redes eram forjadas e interconectadas a partir das microssociabilidades entre indivíduos e grupos, da contiguidade entre iguais e diferentes propiciada pelo espaço do karaokê, no qual eram criados laços organizacionais. Na visão de Ferreira (2008, p. 102), a rede de sociabilidade refere-se a “[...] uma estrutura flexível, voluntarista e convivial, [...] baseada em laços mais afinitivos e afetivos que definitivos e vinculativos, representativos de interesses mais expressivos que instrumentais”. Nesse sentido, podem-se destacar os seguintes relatos, a fim de exemplificar as misturas e rearranjos sociais implicados na formação de redes de sociabilidade, a partir da criação de novas amizades e reciprocidades:

[...] A princípio, nós sentávamos em mesas separadas. Aí depois, a gente começou, a gente passou a sentar em mesas juntas [...], porque começava a conversar. Aí, outros amigos foram sendo agregados ali também. [...] Tenho amigos [...] que eu fiz lá. E assim, toda vez que essa galera tá reunida é muito bacana, pela animação mesmo da, da galera. [...] [citou seis pessoas]: todos esses eu conheci ali no karaokê mesmo. Nós fizemos até um grupo no Facebook [rede digital] chamado “Vamos Pro Karaokê? ”, porque aí, quando todo mundo quer se reunir, aí a gente coloca lá: “E aí, vamo pro karaokê hoje? ”. E aí: “Ah, eu vou”, “Eu vou”. Aí a gente já sabe, mais ou menos, o grupo que vai, né? E a gente acaba convidando outras pessoas também que tão fora do grupo, né, mas... O grupo, as pessoas ficaram tão unidas que a gente, a gente criou um grupo no Facebook, pra convidar, pra chamar pra ir pra o karaokê (Hosana, 37 anos).
[...] Eu soube através de amigos [da existência do karaokê]. Eu vim por iniciativa própria, vim sozinho. [...] Acho que depois de um mês, na minha mesa, eu já estava [...] com pessoas do karaokê (Cauã, 31 anos).

Com efeito, as interações entre os grupos com fronteiras flexíveis, abertos à interação com desconhecidos, proporcionavam a constituição de sociabilidades em rede. Algumas pessoas que frequentavam o karaokê sozinhas, após algum tempo começaram a se relacionar entre si e formaram um grupo; outras se associaram a um grupo existente; algumas vezes, juntavam-se como um grande grupo, e assim formavam redes de reciprocidade. Inclusive, um membro dessa rede criou um grupo numa rede digital (Facebook), chamado “Vamos pro karaokê?”, a fim de que, por meio do ciberespaço, os participantes pudessem interagir, enviar comunicações, fotos, e fazer convites para um encontro no karaokê. Além disso, havia uma sala de bate-papo virtual criada pela própria organização em outra plataforma, o WhatsApp, onde transcorriam diálogos e envios de textos, áudios, fotos, vídeos a partir do espaço organizacional ou de vários espaços urbanos, seja entre frequentadores assíduos ou eventuais. Em suma, as interações entre diferentes ocorriam a partir de um grupo de referência ou sem uma vinculação social explícita, tomando o espaço organizacional como base para o estabelecimento de laços, geralmente formados a partir das apresentações de canto, por iniciativa de alguns, ou nos termos de Simmel (1983), pelo impulso de sociabilidade. Por conseguinte, surgiam novos grupos e redes formados a partir das interações entre pares e do entrelaçamento de círculos sociais, evidenciando o potencial sociabilizador daquele espaço de karaokê.

Dito isto, observou-se que o florescimento da sociabilidade organizacional implicava a demanda dos grupos pelo encontro ou reencontro periódico, explanado em expressões como “Colocar o assunto em dia” e “Rever os amigos”; pelo hábito de passear (prática espacial), ilustrado nas falas “Vamos sair?”, “Vamos fazer alguma coisa?”; pela participação numa esfera pública, nas falas “Eu quero ver gente (bonita)”, “Vamos arrasar”; pela prática social do canto, nas falas “Vamos cantar essa música lá?”, “Vamos ao karaokê?”; pelo consumo de bebidas alcoólicas, na fala “Bora tomar uma (cerveja) hoje?”, pela comemoração de uma data, entre outras disposições. Cada demanda social pode estar associada a muitas significações, que vão sendo agregadas ao espaço organizacional. Alguns destes significados sociais, já apontados ao longo desta sessão, serão destacados mais especificamente, a seguir.

7.3 SIGNIFICADOS DO ESPAÇO

A produção do espaço, dos seus usos e significados, segundo Lefebvre (2006), procede de múltiplas relações sociais e espaciais. O autor considera o princípio da interpenetração e da superposição dos espaços sociais, referindo-se à sucessão de tempos e à confluência de diferentes experiências, memórias, lugares, épocas, conhecimentos e símbolos a um mesmo fragmento de espaço, região ou território. Os símbolos, como afirma Correa (2009), expressam significados que podem suscitar diferentes interpretações de acordo com o espaço, os valores, crenças e utopias de indivíduos e grupos. Com essa premissa, entre outras noções já abordadas, procurou-se compreender os significados do espaço suscetíveis a uma interpretação em comum, dentro de um fluxo comunicacional, compartilhados no seio dos grupos de clientes e frequentadores do karaokê.

QUADRO 4 – CATEGORIAS DE SIGNIFICADOS SOCIAIS DO KARAOKÊ PESQUISADO

BASES TEMÁTICAS

SIGNIFICADOS SOCIAIS

Sociabilidade

e

Espaço social

Espaço de fruição musical

Espaço de recordações

Espaço de entretenimento

Espaço de celebrações

Espaço de relaxamento

Espaço de vínculos

Espaço de inserção

Espaço de reserva – o pátio

Fonte: O autor

Em meio a uma gama de significados sociais possíveis, declarados ou não, foram destacados, sobretudo, aqueles depreendidos das entrevistas semiestruturadas, e confirmados nos relatos e observações em campo, por meio da reanálise do material coletado. Sendo assim, após o levantamento das formas de uso do espaço e das formas de sociabilidade organizacional, foram elencados alguns significados sociais do espaço do karaokê, organizados em oito categorias temáticas, sendo as sete primeiras relacionadas ao espaço global do karaokê, tendo como ponto de convergência o auditório; e a última, relacionada especificamente ao pátio, que representa a área externa. Por conseguinte, os significados depreendidos ressaltam a importância social do karaokê, enquanto um espaço de fruição musical, de recordações, de entretenimento, de celebrações, de relaxamento, de vínculos e de inserção, além de possuir um espaço de reserva, localizado no pátio. As categorias de significados foram então organizadas no Quadro 4, baseadas nas temáticas da sociabilidade e do espaço social.

7.3.1 Espaço de Fruição Musical

Os amantes do canto e da música popular eram as pessoas mais interessadas no espaço de karaokê e na realização de apresentações de canto, as quais não estavam restritas ao desempenho artístico no palco; significavam, contudo, a fruição musical da canção enquanto apresentada por clientes ou enquanto reproduzida pela audiência. Para esse público, o karaokê era um espaço onde poderiam realizar uma das atividades de que mais gostam: cantar; seja na plateia ou no palco, como cantor solista ou equipe vocal. A fruição artística e musical por meio da prática do canto é uma experiência que envolve sentidos, sensações, sentimentos e o prazer vivenciado por quem aprecia cantar e ouvir outros cantos. Os seguintes depoimentos podem ilustrar este significado:

Olha, primeiro, primeira situação: Eu gosto de cantar, né? Então, nada melhor do que cantar num, num karaokê. Eu ligo uma coisa à outra, então, né? Eu tenho minhas outras atividades, né? Eu gosto de jogar futsal, entendeu? To até parado, porque agora eu to com o ombro machucado, mas, eh... Mas a minha atividade mais noturna é “mais” eu vim pro karaokê e cantar. Isso aí que me, me apraz muito. [...] Tem muitas músicas que a gente sente, eh, e canta mesmo com, com o coração, então, eu observo muito isso. Eu me concentro muito na música, eu não concentro em aplausos, e, mas, eu procuro fazer o melhor, pra, pra não desafinar, pra não cantar errado, mas, de vez em quando, acontece [risos] (Edson, 68 anos).
Uma situação marcante foi quando eu cantei Evidências e passei na primeira fase, mesmo errando. [...] Eu participei do concurso, porque eu sempre gostei de cantar e, tipo, tive motivação pra cantar; os meus amigos insistiram, assim como o dono também [...], e eu acho a minha voz bonita, por isso eu fui pra lá, acho que, pras pessoas apreciarem a minha voz mesmo. E, também, eu sou muito competitiva, muito [risos], mas, assim, só no concurso mesmo (Gabriela, 30 anos).

A fruição musical se apresenta ao fruidor em relação a si mesmo e em relação a outros, para o deleite pessoal, para apresentação e interação com o público, ou ainda para competições. Pode-se dizer que a história de vida desses sujeitos fora atravessada pela música, de maneira significativa, por meio de experiências pessoais e sociais com o canto e com o universo da música, o qual é composto por diversos atores sociais e institucionais, entre os quais, o cantor e a cantora se destacam aos olhos e ouvidos desse público, talvez devido ao instrumento de que fazem uso: a voz humana. A prática do canto é intima, começa em casa, durante a escuta, no aprendizado de canções, no treino individual ou com o auxílio de um profissional da voz; mas também se estende à esfera pública, nas interações sociais, na dramatização musical, na ida ao karaokê, enfim, está inserida na vida cotidiana. O discurso do seguinte informante pode ser ressaltado como um exemplo emblemático de trajetória musical, de significação do palco e de apropriação do karaokê:

Desde pequeno, com seis anos de idade, [...] eu ia pra janela do meu quarto e cantava pro jardim, como se tivesse um público. Eu ficava pensando que tinha um público me assistindo... [...] Cantar, pra mim, é uma questão de paixão. Cantar, pra mim, é respirar, sempre foi. É parte da minha expressão pessoal, artística, filosófica, o que que você quiser chamar. É o meu eu. [...] Música, pra mim, é a arte mais fascinante que existe, a que mais toca, a mais bonita, a mais expressiva, é a que mais arrepia as pessoas... [...] Cantor é universal, a questão de cantor é universal, e, e eu sinto muito prazer nisso [...]. Então, eu sempre treinei muito, sempre gostei, e acabei desenvolvendo isso. [...] Eu fiz aula de canto por motivos de preservação vocal, e aprendizado mesmo, porque, querendo ou não, eu era um antes, e sou outro depois, é outro universo. [...] Eu tenho a sensibilidade, a coisa que eu gosto, passar o sentimento. As pessoas me falam: “[...] Você canta essa música, dá vontade de chorar”. [...] Porque não é só o canto, não é só a voz, eh, é a postura no palco, é a fase, uma preparação que eu tive, que eu passei por ela. [...] é uma coisa que eu amo fazer, então... Quando eu subo no palco, eu entro num, num transe, é uma personagem. A música tá em mim, eu to na música [...]. Então, é uma coisa que impressiona as pessoas (David, 32 anos)

Nesse contexto, a canção possui papel central, enquanto bem simbólico aglutinador de diversas referências espaço-temporais; um objeto abstrato de apreciação, produção, registro, difusão, classificação, compartilhamento e escolha. Assim, cada cliente recebia uma senha e poderia escolher a canção que iria apresentar, como solista ou como integrante de uma equipe de cantores. As canções eram classificadas nos catálogos impressos como nacionais, internacionais, japonesas, gospel ou lançamentos, e organizadas por ordem alfabética segundo o nome das canções, bandas e cantores da música popular. A quantidade de canções era aproximadamente de 5.500 canções brasileiras e cinco vezes mais de canções estrangeiras, com cerca de 27.500. Os idiomas mais cantados eram o português e o inglês, com algumas aparições do espanhol, italiano, japonês e coreano. Os gêneros musicais mais frequentes eram o pop, a balada, o rock e o sertanejo, das décadas de 1980 à 2010, tendo sido possível ouvir ainda canções dos anos 1950 à 1970 e de gêneros diversos como forró, samba, pagode, reggae, samba-reggae, reggaeton, funk carioca, country, jazz, entre outros.

Em linhas gerais, a escolha de canções ocorria de modo aleatório facilitada pelo uso dos catálogos. Contudo, os clientes mais frequentes guardavam na memória o código das suas canções preferidas para apresentação, ou possuíam anotações em bloco impresso ou no celular que tornavam sua escolha mais programada. Alguns traziam canções em mente e procuravam o código ao chegarem ou já traziam o código encontrado no sítio eletrônico do fornecedor de dados do karaokê.

O uso do palco do karaokê também implicava um conflito de papeis. Segundo afirma Drew (1997), em alusão à Goffman, os intérpretes de karaokê enfrentam uma situação de desenvolvimento de um papel diante de outros papeis preexistentes, relacionados à idade, ao gênero, à etnia, ao trabalho e aos relacionamentos em geral. A fala da seguinte informante pode ilustrar que a fruição musical também envolvia um conflito de papeis:

Às vezes, acontece, ah, realmente, tipo: “Ah, vou cantar essa música porque todo mundo gosta, eu sei que a galera vai curtir”. Mas, a maioria das vezes, eu acho que, que é mais pra mim mesmo. Eu fico olhando a letra, brinco mais com a galera que tá comigo, assim, mas... Mas querendo ou não, é meio que inevitável, eu acabo que, que tenho essa interação maior com o público, né? (Flora, 27 anos).

Pode-se notar a indefinição da informante ao declarar seu papel exercido no palco, que poderia representar seu desfrute pessoal, a interação com suas companhias ou uma interação com toda a plateia presente no karaokê. De fato, o papel de cantor/a ou de equipe de cantores era engendrado de acordo com cada situação. O cantor em atuação poderia ter maior interação com aqueles que lhe dirigissem a atenção, conhecidos ou não, assim como uma equipe poderia transmitir uma imagem ao público, de acordo com seu desempenho no palco e com o gênero musical escolhido, e assim por diante.

7.3.2 Espaço de Recordações

As canções podem evocar memórias, pessoas, lugares, épocas e experiências. Por esse princípio, o karaokê se tornava um espaço de construção e de preservação de recordações, tanto pessoais quanto sociais. As canções se tornavam referenciais dos indivíduos e grupos que as interpretavam com frequência: “Essa é a música do Pedro”, “Essa é a nossa música!”. Algumas canções eram identificadas pelos usuários como “clássicos de karaokê”, as mais cantadas nos karaokês brasileiros como, por exemplo, Evidências, regravada pela dupla brasileira Chitãozinho & Xororó; Como Os Nossos Pais, regravada pela brasileira Elis Regina; What’s Up, gravada pela banda norte-americana 4 Non Blondes; My Way, regravada pelo estadunidense Frank Sinatra; entre outras. Desde as primeiras notas e batidas, as pessoas eram capazes de reconhecer uma determinada canção que poderia carregar diversos significados e recordações. Para alguns clientes, a canção escolhida possuía um valor especial, relacionada a acontecimentos memoráveis, pessoas queridas, períodos da vida; à admiração por uma banda ou por cantores, como é possível perceber no seguinte relato:

She Will Be Loved me faz lembrar uma amiga muito, muito, muito querida, que gosta muito dessa música. E engraçado, que sempre que eu a canto, eu lembro dela [...], a gente aqui em casa tocando violão, e cantando ela aqui mesmo. [...] A Famous Last Words, nossa, envolve tanta coisa, momento da vida, eh... Essa música, inclusive, tipo, teve uma época da vida, inclusive, que eu tava, assim, quase entrando em depressão mesmo, assim, forte. E, essa música, ela, assim que ela foi lançada, ela foi lançada como um hino pra, pra, de fato, salvar pessoas da depressão, sabe, e tipo... Tem relatos, tipo, muitas, muitas, muitas, milhões de pessoas que, que já escreveram pra banda, e inclusive, existe um site de agradecimento, de fato, pra música, sabe? [...] a música é extremamente forte, extremamente poderosa, e eu sinto tudo que eu passei na época, e, e eu deixo ir pro universo, sabe, quando eu canto. E é muito, muito, muito bom, muito gratificante; e eu sou muito feliz por tê-la no karaokê e cantar. [...] Minha primeira relação foi com a banda mesmo, letra, estilo, presença de palco... [...] Então, tipo, várias situações da vida, tipo, de adolescência, foi, tipo, bandas me ajudando, sabe? (André, 26 anos).

Além disso, o karaokê pesquisado também evocava lembranças de outros lugares, onde era desenvolvida uma sociabilidade musical semelhante, como em outros espaços de karaokê, o que pode ser ilustrado no discurso do seguinte informante:

Karaokê, eu frequentava há muitos anos aqui, desde, há uns 15 anos, ou 20 anos atrás, quer dizer, já tinha karaokê aqui, lá na Praia da Costa [...]. Era, era com palco, microfone... Pra mim, na época, era o melhor karaokê que tinha aqui [...]. Era o... Cantinho de Nossas Músicas. Lá [...], sentava todo mundo no mei da rua, e era aquela festa. Era, era, ele parecia um pub. [...] Nós chegamo fazer lá, até, um-a confraria, lá, mais de 30 pessoas [...], tudo amigos, colegas do karaokê, só vinha no karaokê, encontrava no karaokê... E, só saía de madrugada, de manhã... [...] Não tem mais [...]. Era o point, na época (Edson, 68 anos).

Para o cliente entrevistado, o karaokê frequentado se tornava um espaço de recordações referente à um karaokê não mais existente, ao grupo de amigos formado naquele lugar, às vivências ali transcorridas. Por outro lado, as situações vividas ao longo dos meses no karaokê pesquisado eram também fontes recorrentes de recordações no seio dos grupos e das redes de sociabiidade organizacional, compondo, assim, a cultura daquela organização.

7.3.3 Espaço de Entretenimento

O entretenimento talvez seja o significado mais imediato e mais facilmente compartilhado entre os usuários do karaokê. Muitas pessoas declaravam buscar aquele espaço para se divertir. Para alguns, a diversão era trocar ideias com os amigos, para outros, era cantar e assistir às apresentações; ou ainda, para uns, poderia ser todo um conjunto de atividades. Ou seja, o que era divertido para alguns poderia não ser divertido para outros, contudo, em geral, interagir entre pares e assistir às apresentações eram as formas mais unânimes de entretenimento. Eram mais comuns os gritos de “uh” ou “uhu” no início e no final de uma canção apreciada pelo público, do que os aplausos; e também a exclamação: “Arrasou”!

[...] pra mim é uma diversão, uma coisa muito saudável, eh, essa cantoria toda. Eu canto só no karaokê mesmo. E segundo, pra encontrar os amigos, né, bater papo, isso é o que me motiva. [...] As apresentações me chamam a atenção, porque, como é um karaokê, as pessoas não são profissionais, então, elas chegam ali um pouco tímidas, às vezes. Mas, aí, quando eles se soltam é muito engraçado. Então, assim, é divertido, né, olhar a performance das pessoas lá no palco [risos] (Hosana, 37 anos).
Assim como eu não vi nenhuma briga, nesses três anos, eu só vi uma pessoa embriagada, né? Assim, mas, porque tava acontecendo alguma situação, enfim... Mas, realmente, é um lugar que as pessoas vão pra se distrair, pra conversar, pra, pra brincar mesmo, né? (Bruno, 31 anos).
Eu penso o seguinte: Eu to indo pro karaokê, eu sei como tudo acontece lá dentro, e eu estou indo pra me divertir. A partir do momento que isso não vira diversão, a partir do momento que isso está me incomodando, eu saio, entendeu? Então, até hoje, assim, não aconteceu d’eu me incomodar e ter que sair (André, 26 anos).

Pode-se observar nesses relatos que a percepção da diversão estaria intimamente relacionada à conservação de um clima agradável, à prestação de um bom serviço e de um bom atendimento, bem como à manutenção das condições necessárias ao usufruto do espaço, como o abastecimento de bebidas e comidas, o funcionamento dos equipamentos, o respeito ao seguimento das apresentações de canto de acordo com a sequência de senhas inscritas, entre outros aspectos. Em entrevista, o proprietário da organização pontuou como fator de grande importância para a gestão a conservação da ordem social, em que não são deflagradas situações conflituosas de provocação entre os frequentadores ou funcionários: “A noite ideal, pra mim, é quando encerra, eh, o ciclo de trabalho, e não teve nenhuma ocorrência, briga, garrafada, que nem você vê... Nunca houve isso aqui. Aqui nunca houve uma briga, uma confusão” (Geraldo, 50 anos).

7.3.4 Espaço de Celebrações

Não raras vezes, o karaokê se tornava um espaço de celebrações, onde os grupos de clientes realizavam festas, comemorações diversas de aniversários, de despedidas, de conquistas pessoais ou da equipe de trabalho/estudos; celebravam datas como a festa julina, o halloween, o natal e o carnaval. Para tanto, os grupos maiores solicitavam a reserva de mesas pela internet ou por telefone, e assim, criavam uma maior movimentação na ocupação do espaço.

Meu aniversário do ano passado, quando eu consegui, eh, reunir 88 pessoas, 88 amigos ali dentro, eu fiquei muito feliz! Eu fiz um evento [...] no Facebook, eh, e falei: “Gente, confirma, porque eu tenho que reservar mesa, [...] quem for de surpresa vai ficar sem mesa, e tal”. Eu falei “até”, daí... Daí que eu ganhei, que o pessoal foi confirmando, confirmando e confirmando. Quando eu vi a lista de convidados, tinha uns, tinha 86 confirmados; aí eu falei: “Gente, não vão 86 pessoas, eu tenho certeza que não vão 86 pessoas!” [...]. Aí quando eu fui contar e deram, tipo, 88, eu fiquei: “Caramba! Nossa! Que bom...” (André, 26 anos).

O sucesso do evento realizado por esse informante é atípico, mas é um exemplo de como as comemorações de aniversário aglomeravam uma maior quantidade de pessoas no espaço do kararokê, o qual fornecia a comodidade do serviço à mesa, bem como o sistema para as apresentações de canto de karaokê, por meio da cobrança do consumo mínimo de produtos. Durante as observações, foram vistos chapéus de festa sobre algumas mesas e um grupo reunido para uma foto com dois balões no formato da idade do aniversariante, evidenciando a situação de comemoração. Aliás, o aniversário recebia um vívido destaque, quando o operador de karaokê convocava dois convidados e o aniversariante para subirem ao palco, a fim de celebrarem a data, por meio da canção tradicional “Parabéns Pra Você”, interrompendo temporariamente a série de apresentações.

O silêncio era algo raro ou equívoco no karaokê. A fila de clientes aguandando a chamada da sua senha tornava a sequência de apresentações praticamente ininterrupta, intercalada sempre com uma música ambiente na transição das apresentações, geralmente no gênero sertanejo. Além disso, alguns clientes buscavam construir uma representação do espaço enquanto uma festa, demonstrando a preferência na escolha de canções de ritmo alegre e dançante para apresentar-se ao público, para dançar junto a suas companhias em frente ao palco ou para levar a plateia à dançar.

A gente acaba animando as outras pessoas que estão no lugar, porque acaba contagiando, porque a gente coloca músicas engraçadas e tal, então... Sempre é bom. Eu prefiro cantar músicas animadas, músicas que, ah, que vai fazer a galera dançar. Então, como é música, tem essa, essa questão do pessoal se identificar com a música e dançar... O local fica mais animado com, dependendo da música que você cante. Às vezes, você coloca uma música, eh, uma música lenta e tal... Dependendo da música é bacana também. Mas a maioria das vezes, a gente canta música mais animada, música mais dançante. Dá pra ver que as pessoas estão realmente se divertindo, e não ficam paradas ali, só sentadas na cadeira ouvindo (Hosana, 37 anos).

A fala dessa informante demonstra a conexão estabelecida entre diversão e celebração. Assim, buscava-se a interação entre as pessoas e com os espectadores, por meio da escolha de canções dançantes e engraçadas, que seriam capazes de despertar o ânimo das pessoas, a vontade de se movimentar, mexer-se, levantar-se das cadeiras, dançar, celebrar a noite e os presentes.

7.3.5 Espaço de Relaxamento

Outro significado que se pode ressaltar é o relaxamento proporcionado pela organização, frequentemente associado à fruição vocal de uma música, à apropriação do espaço ou ao consumo de bebidas alcóolicas.

Eu vou lá pra relaxar, é um lugar que eu posso relaxar, que eu fico à vontade, me sinto em casa, aí, seria mais pra relaxar, aí eu tomo uma cervejinha. [...] Porque lá eu tenho a possibilidade de, de cantar de forma mais relaxada, [...] porque, pra mim, eh, cantar é trabalho. Então, não tem aquela exigência de, que o palco, como o trabalho exige, né? Então, lá eu canto do jeito que eu quero, eh, tranquilo, eh... Eu canto músicas que normalmente eu não cantaria, ah, numa festa, né, num show. Então, lá é mais, mesmo, é uma coisa diferente do meu habitual. [...] Apesar de ser uma coisa que, eh, eu já faço há muito tempo, ele tira aquela obrigatoriedade, né? É o momento do lazer, é a música sendo lazer, né? (Flora, 27 anos).
Assim, no karaokê, eu me sinto mais em casa, [...] e... Principalmente, porque eu vou na sexta-feira, o estresse da semana fica lá, sabe, no palco. Eu, eu não carrego aquilo comigo... É mais pra descarregar e recarregar, meio que isso, sabe? (André, 26 anos).
Cerveja, sempre cerveja. Eu gosto muito, me deixa bêbado, e eu acho incrível, porque eu fico leve, porque eu fico relaxado... Me desloca da rotina dura do dia a dia (Cauã, 31 anos).

Pode-se notar no relato desses informantes o paralelo estabelecido entre o trabalho, a rotina, os compromissos e a apropriação do espaço do karaokê, como uma opção para o relaxamento, o desestresse e o recondicionamento mental às atividades semanais. Inclusive, a entrevistada que exerce a profissão de cantora, junto à uma banda que toca o gênero soul e à uma organização de músicos que toca em eventos particulares, ressaltou a leveza de cantar no palco do karaokê, sem as exigências profissionais às quais está habituada, e com a liberdade e maior autonomia na escolha de canções do que seria possível conseguir em seu trabalho. Além disso, o efeito físico obtido no consumo de bebidas alcóolicas, frequentemente a cerveja, intensificava o relaxamento procurado naquele espaço.

7.3.6 Espaço de Vínculos

Uma vez que permaneciam no espaço da organização e retornavam em outras ocasiões com as mesmas companhias, com outras ou mesmo sozinhos, alguns frequentadores estabeleciam vínculos com o espaço e com as pessoas com quem mais interagiam. Logo, esses clientes buscavam reforçar os laços sociais com seus amigos, familiares e conhecidos, e outros buscavam ainda por novas amizades ou por um novo amor.

A gente canta, mas não é só isso. A gente vai pra se divertir, mas no fundo, tem uma coisa séria, que é a afinidade que a gente cria com algumas pessoas, essa oportunidade de afinizar, de, de criar elos com algumas pessoas, que às vezes se resume a ali, mas isso é importante pra mim. [...] Uma situação importante que aconteceu lá, e que me marcou, e que é importante, foi eu ter conhecido o amor da minha vida lá, né? [...] A gente não é só um encontro de karaokê, a gente foi encontro de, de corpos, de almas, que é muito bacana, né, que foi feito lá. [...] é uma lembrança muito boa, muito agradável de se ter (Bruno, 31 anos).
[...] uma das primeiras vezes que nós saímos foi lá, eh, assim, tipo, de amizade mesmo. [...] Eu a levei, e ela começou a levar o pessoal do trabalho dela pra, pra ir lá também. E quando ela falou: “Ah, eu vou embora”, ela lembrou do karaokê e juntou todo mundo lá. Ela tá indo pra Irlanda (André, 26 anos).
A primeira vez que eu fui [pausa] foi muito marcante. Eu fui, foi muito engraçado, porque eu tava em casa, e de qualquer jeito, e eu fui, assim, com a roupa que eu tava, de calça jeans, toda descabelada, toda, sem maquiagem, de chinelo... E fiquei quietinha, no meu canto, assim, conversando com o pessoal da mesa e aí, quando... Eu nem lembro que música que eu fui cantar... [...] E aí, eu lembro que [citou o nome] veio falar comigo, que ele ficou doido quando me viu, [...] e aí, veio ele e a [citou o nome], e vieram falar comigo, e aí, eu já fiz amizade com eles [...]. Então, essa é a parte legal que rolou, que é marcante pra mim, que até hoje, eu [pausa] tenho esse laço com eles, né, to sempre lá (Flora, 27 anos).

De acordo com Halbwachs (1990), quando as pessoas ocupam um espaço, elas constroem nele significações compreensíveis aos ocupantes, e podem estabelecer vínculos mais ou menos estáveis, que se tornam mais claros diante de mudanças e de novos acontecimentos que modificam o lugar ou o grupo. Nesse sentido, os depoimentos acima podem demonstrar a formação de vínculos a partir de uma nova amizade ou de um novo relacionamento amoroso iniciados no karaokê ou favorecidos pelo mesmo, transformando-se num marco espacial para encontros regulares ou até mesmo para despedidas. A despedida evidencia o vínculo com o espaço, visto que as pessoas poderiam se reunir em outro local, no entanto escolheram o karaokê por ser um lugar significativo na memória coletiva do grupo.

Ademais, o concurso anual de canto de karaokê, que ocorria num período de três meses, atraia diferentes públicos competidores e torcedores, e possibilitava a consecução de situações de efervescência musical, favoráveis à formação de vínculos com o espaço organizacional que, em alguns casos, eram conservados após a conclusão do concurso. Hosokawa (2000) argumenta que as competições musicais estabelecem padrões estéticos e redes socioculturais, em meio a diferentes capacidades artísticas, às apresentações públicas, aos critérios de avaliação dos jurados e às características de interpretação dos ganhadores. Desse modo, os concursos reabasteciam o imaginário cultural da organização, e transformavam a disposição latente de competição entre alguns frequentadores em um evento formalmente organizado e valorizado pelo público, consonante à tradição dos concursos de calouros difundida pelas emissoras de rádio e televisão. Além de receber um prêmio, os vencedores poderiam receber algo de grande satisfação para os competidores: o reconhecimento público e notório da sua competência artística frente aos demais concorrentes.

Eu gosto de competir. Vamo, não sejamos hipócritas. Por quê? Eu adoro ganhar, todo mundo gosta. Mas eu gosto de competir, pela questão, o seguinte... Primeiro: os prêmios, eu adoro receber, e o reconhecimento, eu gosto do reconhecimento. [...] Eu era o mais aplaudido, eu era aquele que as pessoas vinham pedir pra tirar foto, abraçavam, esse reconhecimento... Eu adoro isso! [...] Teve competição em São Paulo que eu participei... Não, eu não fui bem, eu não mereci ganhar, e não ganhei. [...] Mas a questão é de testar a sua habilidade, saber até onde você vai, saber em que posição que você se encontra [...]. A questão é: superar a si mesmo é a parte mais difícil, né? É você treinar e pensar: “Não. Eu quero cantar melhor do que eu canto hoje, e eu vou treinar, e amanhã, eu sei que eu vou cantar melhor do que eu cantava hoje”. E a gente acha que nunca vai melhorar, e tem coisas que eu to fazendo hoje que eu não tava fazendo mês passado, tem coisas que eu faço hoje que eu não fazia ano passado. E aí eu subo naquele palco e canto... Quem me ouve cantar aqui desde 2015 sabe a diferença de quando eu cheguei... (David, 32 anos).

Conforme o discurso desse entrevistado – o primeiro colocado na segunda edição do Concurso O Rei ou A Rainha da Voz, realizado pelo karaokê – a participação no concurso põe à prova a sua dedicação cotidiana à prática do canto e o incentiva à superação dos seus limites e ao seu crescimento como um cantor reconhecido socialmente, embora não exercesse essa atividade profissionalmente. Desse modo, o informante se tornara duplamente vinculado, por um lado, ao karaokê onde fora consagrado, e por outro lado, aos admiradores que lhe atribuíam o mérito, por lhes conceder apresentações do seu talento vocal e artístico. Com efeito, a distinção social percebida durante as observações em campo, não estava relacionada aos atributos corporais, ao uso da moda ou aos hábitos de consumo; relacionava-se, todavia, ao desempenho musical demonstrado no palco, sendo possível perceber a existência de grupos formados por indivíduos talentosos que se associavam a partir do reconhecimento mútuo de suas habilidades vocais. De fato, a distinção buscada ou atribuída não era igualmente compreendida por todos. Logo, os grupos não estavam isentos de conflitos, invejas e ciúmes, manifestos ou não; de afastamentos e reconfigurações. Não obstante, essas situações não foram percebidas como a tônica dos encontros.

7.3.7 Espaço de Inserção

O karaokê fora percebido ainda como um espaço de inserção, em que algumas pessoas se sentiam ajustadas, bem situadas e aderidas à conjuntura local; possuíam concordância com a lógica e as normas compartilhadas; eram recebidas na sua singularidade sem o estranhamento no olhar; e respeitavam as diferenças com senso de equidade. Segundo Joseph (2005), os espaços de inserção, incluídos no processo de socialização geral, não se restringem aos espaços de residência e vizinhança, uma vez que as experiências de mobilidade e acessibilidade demonstram o caráter migrante dos citadinos. Dessa maneira, foi possível notar a continuidade de frequentadores oriundos de diferentes bairros e das cidades vizinhas, que se reuniam no karaokê por ser um lugar onde eram bem-vindos e onde eram estabelecidos laços de cordialidade.

“Eu gosto de vir no karaokê, porque aqui é um lugar que me cabe, e cabe o meu filho [de três anos de idade]”. Ela esclareceu: “Porque é um lugar onde não tem promiscuidade”. Tanto o karaokê quanto outro bar a que ela se referiu, a duas quadras dali (DIÁRIO DE CAMPO, 18/05/17).
Aqui eu me sinto bem, e me sinto querido. Eu me sinto melhor em ambientes como esse, que tenho amigos e pessoas que eu conheço. Mas, eu já tive, tipo, uma experiência semelhante em um lugar que não era um karaokê. O La Villa [restaurante e bar musical], por exemplo, que era um lugar que eu frequentava toda semana, durante quatro anos. Então, eu também conheci pessoas, conheci os funcionários, e, a situação de fraternidade funcionava da mesma forma (Cauã, 31 anos).
Eu me sinto muito querido, e me faz muito feliz, assim, porque eu também gosto muito, então... O karaokê, o Canto Livre, pra mim, é uma libertação, porque... Primeiro: aqui todo mundo é bem-vindo, não tem diferença, assim, a mistura é muito boa. Seja branco, seja negro, seja pobre, seja rico, cante bem, cante mal, seja gay, seja hetero, seja bi, seja o que for... Aqui, a gente tem um ambiente e uma aceitação muito grande. E, as pessoas cantam do pop ao rock, ao trash, ao funk, ao, ao clássico, ao erudito, à música japonesa, à música em inglês, à música brasileira, ao samba; e essa variedade, essa mistura, essa... O respeito... Porque aqui, são pouquíssimas as vezes que eu vi pessoas desrespeitando outras por motivo de estar no palco, cantando alguma coisa, desrespeitar... O respeito que as pessoas têm com as outras, eu... Eu sinto um, uma coisa muito boa aqui, sempre senti (David, 32 anos).

De acordo com o depoimento da mãe, realizado em campo, a sua inserção no karaokê era propiciada devido aos costumes ali praticados, sem os inconvenientes percebidos em outras casas noturnas, como o uso de roupas que marcam ou mostram o corpo, ou o comportamento de um casal que se assemelha às preliminares de uma relação sexual. No depoimento seguinte, o informante demonstra o seu envolvimento em organizações sociabilizadoras, que costuma frequentar semanalmente, e onde pode estabelecer reciprocidades e fazer novas amizades. Por fim, o outro informante traz um discurso de liberdade e aceitação, ressaltando a afetividade e o respeito mútuo percebidos no espaço. Um exemplo vivenciado em campo que vale ressaltar foi a interação em um círculo social entre pessoas que portavam diferentes bandeiras ou sistemas de crenças, entre as quais havia católicos, evangélicos, espíritas, umbandistas e ateus. De fato, observou-se a convivialidade entre um público heterogêneo, entre pessoas adeptas de diferentes estilos de vida, com alguns pontos em comum, assentados na afeição musical, nas formas de reciprocidade e no convívio social possibilitado pelo espaço organizacional.

7.3.8 O Pátio: Um Espaço de Reserva

O lugar central dos acontecimentos do karaokê era o auditório, localizado na área interna, onde estavam o palco, o bar, os banheiros e o maior número de mesas e cadeiras. Entretanto, havia uma parte entre a rua e o auditório, que também merece destaque – o pátio de entrada, correspondendo à área externa, geralmente composto por três mesas, algumas cadeiras, além de dois canteiros nas pontas, e uma divisória de concreto em frente à porta do auditório, onde o porteiro recebia os clientes. Para algumas pessoas, o pátio era considerado um espaço de reserva em relação à alta intensidade de som percebida no auditório e ao distanciamento daqueles que permaneciam na área interna.

Para os fumantes, o pátio representava uma área ao ar livre, de liberdade à prática do fumo; de sociabilidade com outros fumantes, acompanhantes ou desconhecidos que se aproximavam. Para o público em geral, representava um espaço de alternância à presença constante dentro do auditório; um lugar onde as apresentações ficavam esquecidas, embora fosse possível ouvir os seus ruídos; quando se queria escapar de apresentações e canções desagradáveis, ou até mesmo de pessoas e de olhares. Tornava-se ainda um espaço para contar segredos, afastado dos companheiros que estavam no auditório ou de conhecidos nas outras mesas; um espaço de reserva em relação ao que ocorria na área interna, sem a agitação e o som alto que eram comuns no auditório. Por conseguinte, o pátio atendia a várias finalidades, como atender ligações, tratar de assuntos de longa conversa, paquerar, namorar, etc. Era também como um camarim para os clientes que precisavam ouvir no celular, rapidamente, a canção que iriam apresentar, para relembrar alguma parte das letras ou melodia.

Normalmente, a gente fica muito tempo sem ver a galera. Então, pra conversar melhor, trocar ideia, né, às vezes, botar o bafo em dia, aí tem que ser lá, do lado de fora. Acho que é, é um lugar mais pra socializar ainda do que a parte de dentro, lá, por conta da música, né, e tal... Lá de dentro, a gente não consegue muito conversar, então, acho que fica melhor lá do lado de fora, acho que é [pausa] um lugar legal. A gente fica ali, fica ouvindo a musiquinha de fundo, fica conversando, quem fuma fuma, né, essas coisas (Flora, 27 anos).
Hoje, [...] devido à segurança, geralmente, eu fico mais lá dentro. E aqui, depois das 23h, aqui, é perigoso, aqui, essa área, aqui, entendeu? Mas, pra mim, é muito tranquilo. Eu fico lá dentro (Edson, 68 anos).
O público do pátio aumentou para 19 pessoas, caiu para cinco, depois subiu para 10. Os clientes entravam e saíam para fumar ou apenas conversar. [...] Um rapaz decide entrar e sua amiga diz: “A sua senha é a 136, menino!”. E completa: “Não fala que tô fumando, não. Comecei a fumar tem um mês” (DIÁRIO DE CAMPO, 26/05/17).

Pode-se observar na fala da informante, a preferência pelo pátio como um lugar mais favorável à conversação, ocupado pelo seu círculo de amigos. Ali poderiam fomentar diálogos com maior facilidade e desenvoltura, no seu tom de voz habitual, sem a necessidade de gritar ao pé do ouvido. Por outro lado, segundo o outro informante, muitos consideravam a área interna mais segura, devido ao horário noturno; e interessante, devido às atrações e interações vivenciadas no auditório do karaokê.

QUADRO 5 – DESCRIÇÃO SUMÁRIA DOS SIGNIFICADOS SOCIAIS DO KARAOKÊ PESQUISADO E AS FORMAS DE SOCIABILIDADE PRECURSORAS

SIGNIFICADOS

DESCRIÇÃO SUMÁRIA

FORMAS DE SOCIABILIDADE

Espaço de fruição musical

Um espaço valorizado pelas pessoas que gostam de cantar e de ouvir outros cantos; que apreciam a prática social do canto e o seu efeito estético e sinestésico.

- prática social do canto

- registro de fotos e videos

- dança

Espaço de recordações

A capacidade proporcionada pelo espaço e pelas canções apresentadas de resgatar memórias pessoais significativas e de construir recordações coletivas no cotidiano organizacional.

- conversação

- prática social do canto

- registro de fotos e videos

Espaço de entretenimento

A concepção mais frequentemente compartilhada entre os usuários na intenção de aproveitar o tempo, divertir-se junto a companhias queridas e entreter-se com a série aleatória de apresentações de canto, num contexto informal de vida social, dentro de um clima agradável assegurado pela administração do estabelecimento.

- conversação

- prática social do canto

- interação em torno do aparelho celular e por meio dele

- registro de fotos e videos

- dança

Espaço de celebrações

Um espaço favorável à realização de encontros e comemorações diversas por grupos maiores; marcado por um espírito de celebração, devido à apresentação de canções alegres e dançantes.

- prática social do canto

- registro de fotos e videos

- comer e beber juntos

- dança

Espaço de relaxamento

A capacidade proporcionada pelo uso do espaço e pelo consumo de produtos e serviços de fornecer um relaxamento e um recondicionamento mental às atividades cotidianas.

- conversação

- prática social do canto

- beber juntos

Espaço de vínculos

A propensão do espaço em promover a criação e o fortalecimento de vínculos entre as pessoas e entre estas e o espaço frequentado, o qual se torna um marco espaço-temporal de encontros sociais, comemorações, novas amizades e relacionamentos ou mesmo de despedidas.

- conversação

- prática social do canto

- interação em torno do aparelho celular e por meio dele

- registro de fotos e vídeos

- comer e beber juntos

- dança

Espaço de inserção

Um espaço aberto ao convívio entre um público heterogêneo, cordial, tolerante à diversidade de gêneros e de estilos de vida, e que compartilha um conjunto semelhante de normas de comportamento social, transmitindo um senso de acolhimento e bem-estar social.

- conversação

- prática social do canto

- interação em torno do aparelho celular e por meio dele

- registro de fotos e vídeos

- comer e beber juntos

- dança

Espaço de reserva – o pátio

O pátio do karaokê pode ser considerado um espaço de reserva em relação à centralidade do auditório, como um distanciamento da alta intensidade de som, de canções indesejadas ou mesmo de olhares; onde se encontravam fumantes e grupos em conversação.

- conversação

- prática social do canto

- interação em torno do aparelho celular e por meio dele

- registro de fotos e vídeos

- beber juntos

Fonte: O autor

Finalmente, as oito categorias referentes aos significados sociais do espaço organizacional foram sintetizadas no Quadro 5, acima, a fim de elucidar a compreensão geral de cada uma. Além disso, buscou-se realizar nessa exposição uma articulação entre as formas de sociabilidade exercidas pelos clientes do karaokê e os significados do espaço resultantes dessas interações sociais. Desse modo, observou-se que cada forma de sociabilidade poderia estar implicada na construção de diferentes significados; por outro lado, cada significado era permeado por diferentes formas de sociabilidade. Ou seja, as pessoas e os grupos atribuíam significados diversos à uma mesma prática, e expressavam um mesmo significado social por meio de diferentes formas, e de maneiras que não eram necessariamente as mesmas que o outro grupo admitia. Para alguns, por exemplo, o significado de entretenimento estava mais ligado à prática do canto, para outros, estava baseado na conversação, com abertura ou não a outras formas de sociabilidade. Em relação às práticas, a prática do canto, para alguns, remetia ao relaxamento e a recordações, para outros, todavia, possuía maior significado enquanto fruição musical ou forma de inserção social, na rede de sociabilidade organizacional. Sendo assim, o espaço era constituído de significados e de uma dinâmica social muito própria, cuja compreensão se mostrou bastante relevante, podendo ser agregada ao processo de gestão, o que será abordado no próximo capítulo, nas considerações finais.

8. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A reflexão formulada no decorrer deste trabalho esteve pautada nas dimensões social e espacial da organização pesquisada – o karaokê Canto Livre, localizado em Vila Velha, no Espírito Santo. Desse modo, buscou-se compreender alguns dos possíveis significados sociais atribuídos ao karaokê pelo seu público consumidor, considerando o papel crucial da sociabilidade organizacional e das práticas espaciais no processo de construção dos significados ali estabelecido. Isto é, foram destacadas as formas como as pessoas interagiam entre si e como se apropriavam daquele espaço, estabelecendo laços sociais e organizacionais, tornando o karaokê um ponto de encontro social, de comemorações e de novos relacionamentos.

Por conseguinte, os métodos utilizados para a coleta de dados foram a observação participante e sistemática, com a produção de sete relatórios ou diários de campo; e a entrevista semiestruturada, resultando em nove entrevistas transcritas, sendo uma com o proprietário e as demais com clientes habituais, que integravam uma rede de sociabilidade criada na organização. Em seguida, os dados foram submetidos à análise de conteúdo, organizados em texto descritivo e em categorias de significados.

A organização fornecia os meios de apropriação, como as mesas e o palco, e os consumidores se adaptavam ao uso designado, mas também desenvolviam, conforme suas necessidades e objetivos, os seus próprios usos e significados ligados aos objetos, produtos, serviços, práticas e vivências que constituíam o espaço organizacional. Diferentemente dos bares musicais onde se apresentam bandas locais e DJs, com desempenho profissional, o karaokê concedia o palco à participação dos seus clientes, o que subentendia um desempenho surpresa: alguns cantavam sem nenhum preparo vocal, enquanto outros demonstravam uma capacidade profissional no uso da voz. Assim, diante das opções fornecidas nos catálogos, com milhares de canções e dezenas de gêneros musicais, os grupos de clientes faziam suas escolhas e assim construíam a cena musical da noite, de modo coletivo e aleatório aos ouvintes, definindo os gêneros mais tocados, como o pop, o rock e o sertanejo, das décadas de 1980 a 2010. Os clientes, algumas vezes, influenciavam outros grupos com suas apresentações e eram influenciados, em parte, por suas companhias e pela música ambiente, no gênero sertanejo, tocada no intervalo entre as apresentações pelo operador de karaokê.

As representações do espaço eram construídas de acordo com as condições espaciais do karaokê, como sua estrutura física, a quantidade de pessoas, o dia da semana, as formas de uso, as crenças e práticas de diferentes indivíduos e grupos frequentadores. Nesse sentido, foi possível destacar a representação do espaço enquanto um karaokê bar, nos dias em que a frequência de clientes era reduzida, e as apresentações eram mais intimistas; e enquanto um karaokê balada, como uma casa noturna (nightclub), quando a quantidade de clientes aumentava e a sequência de apresentações envolvia a audiência, criando uma atmosfera festiva, de celebração e de comemorações.

De certo, o silêncio é algo raro no contexto do karaokê, ao menos nos moldes da organização pesquisada, porque “o show não pode parar”, afinal há clientes em espera, uns mais, outros menos ansiosos por serem chamados para cantar a sua canção, já escolhida e inserida na rodada de apresentações. Esse show incessante era um canal aberto à interação, seja no palco ou na plateia, como também um pano de fundo propício a diversos acontecimentos, interações e conversas nem sempre ligados às apresentações, o que demonstrava uma complexa dinâmica social e outras formas de significar o espaço, não imediatamente percebidas.

A superlotação do auditório nos finais de semana demanda uma análise quanto aos possíveis impactos de decisões gerenciais e mudanças no espaço e no serviço, como a limitação do número de senhas inscritas numa rodada de apresentações ou o investimento na ampliação do auditório, acompanhando a contratação de novos funcionários e um maior provimento de produtos. Além disso, sugere-se um estudo para o fortalecimento da imagem conceitual do karaokê, abrangendo a decoração, a reformulação do cardápio e o padrão de atendimento. Deve-se atentar para o fato de que essa mudança pode atrair e reter novos públicos, agregando novos usos e significados ao espaço. Ademais, a contratação de garçons fixos mostrou-se necessária, uma vez que possuem contato direto e recorrente com os clientes, no atendimento às mesas. Dessa forma, quando os garçons permanecem na organização, eles podem criar um relacionamento pessoal com a clientela que, por sua vez, pode estabelecer uma relação de afetividade com o espaço.

O público mais frequente do karaokê era composto por jovens com idade aproximada entre 20 e 40 anos, em fase de estabelecimento profissional, empregados, autônomos ou desempregados, que denotavam hábitos de classe média. Logo, o karaokê foi percebido como um espaço de sociabilidade juvenil, suscetível à atração de grupos mistos, sejam grupos fechados, formados normalmente pelos mesmos integrantes; sejam grupos com fronteiras flexíveis, abertos à interação com desconhecidos, a novos relacionamentos, amizades ou paqueras, o que caracterizava a formação de novos grupos e redes de sociabilidade no âmbito organizacional que se estendiam a outros espaços urbanos.

As formas de sociabilidade organizacional se alternavam conforme as intenções e percepções dos indivíduos, ora baseadas nas interações entre pares, ora baseadas nas interações com o espaço musical, nas interferências advindas das apresentações e reações do público. As formas de sociabilidade mais regulares eram a conversação, a prática do canto na plateia ou no palco, a interação em torno do aparelho celular e por meio dele, o registro de fotos e vídeos, o ato de comer e beber juntos, e a dança. Cada uma dessas formas guardava e expressava diferentes significados sociais, podendo representar pontes ou barreiras à interação, visto que algumas pessoas valorizavam mais a prática do canto do que o compartilhamento da cerveja, por exemplo; ou preferiam conversar à cantar e à assistir às apresentações, e assim por diante. Contudo, essas distinções de valores não fracionavam visivelmente os grupos, visto que, em geral, eles se pautavam na construção de consensos e na adesão a apreciações coletivas. Desse modo, foram identificados dois perfis sociais: os grupos baseados na conversação e os grupos baseados em práticas culturais, nas representações como cantores, como audiência ativa ou como jurados das apresentações.

Aliás, vale ressaltar a atuação de clientes que eram promotores de encontros sociais e de comemorações, junto ao seu círculo de amigos e à sua rede de influência, devido à sua disposição espontânea de liderança. Algumas vezes, a lotação do karaokê poderia ser atribuída à participação desses clientes que marcavam encontros e eventos naquele espaço e promoviam a organização. Destarte, esses clientes se tornavam importantes parceiros à gestão.

Os significados sociais atribuídos ao espaço pelos clientes, nas entrevistas e nas observações, ressaltam, pois, a importância social do karaokê na vida de seus frequentadores. Assim, cada encontro social, cada comemoração e cada novo relacionamento assumia diferentes significados de acordo com as sociabilidades e práticas dos indivíduos e grupos, podendo representar um espaço de fruição musical, de recordações, de entretenimento, de celebrações, de relaxamento, de vínculos e de inserção. Além disso, o pátio de entrada foi identificado como um espaço de reserva, em relação à agitação da área interna e à busca de uma certa privacidade, curiosamente, em frente à rua. Desse modo, buscou-se uma compreensão mais abrangente do papel que a organização exercia no imaginário social, nas práticas individuais e coletivas, nas formas de sociabilidade e de apropriação espacial, enfim, na vida cotidiana das pessoas.

Ademais, buscou-se uma articulação entre as formas de sociabilidade e seus significados correspondentes, concluindo-se que cada forma de sociabilidade pode promover diferentes significados em diferentes círculos sociais, ao passo que cada significado também pode ser resultante de formas de sociabilidade diversas. Por conseguinte, grupos distintos vivenciavam o significado de celebração de formas distintas, por exemplo, uns celebravam no ato de beber juntos, enquanto outros celebravam por meio da prática da dança, e outros ainda, por meio de todo um conjunto de ações, como o canto, a dança, o compartilhamento de bebidas, a roupa escolhida para ocasião, de modo que não se pode precisar. Pode-se, entretanto, reconhecer a pluralidade de associações entre comportamentos sociais e significados a eles atribuídos.

Com efeito, pode-se destacar a relevância do exercício de investigar e de repensar os motivos que levavam as pessoas a frequentar aquela organização e a se tornarem clientes habituais, partindo das suas experiências e dos seus pontos de vista. Sendo assim, as razões que levavam os consumidores ao karaokê não se resumiam à variedade de canções fornecidas ou ao consumo da boa cerveja, pois o espaço, uma vez ocupado, era revestido de significados construídos por meio das interações sociais, que ressignificavam o próprio ato de cantar ou de beber cerveja. Logo, entravam em jogo diversos fatores como a proximidade geográfica e social, o convívio e o distanciamento de determinadas pessoas ou grupos em copresença, a conservação de amizades e de redes construídas no cotidiano urbano, a possibilidade de formação de novos laços sociais e de inserção na rede de relações construídas na organização, que proporcionavam um senso de bem estar social, entre muitos outros fatores.

Portanto, o conhecimento dos significados do espaço possibilita à gestão uma aplicação mais coerente de decisões no cotidiano da organização, bem como de investimentos e de modificações estruturais e funcionais no espaço organizacional, podendo ressaltar cada significado como um foco específico de ação periódica ou tempestiva. Tomando como exemplo o significado de entretenimento, a administração poderia manter uma via de comunicação por meio de sua equipe da linha de frente e das plataformas digitais a fim de confirmar se os clientes estariam se divertindo, usando perguntas abertas e observando as suas formas de sociabilidade. Nos casos de resposta contrária, a organização deveria contornar a situação e fornecer soluções satisfatórias ao resgate do entretenimento esperado, consonante à escolha daquele espaço por tais consumidores. Logo, busca-se evidenciar que os significados sociais consagrados à organização dizem respeito às razões de utilização do espaço, à margem de escolha concernente ao público consumidor, à preferência dos usuários em se reunir naquele espaço, visto que poderiam ter escolhido estar em tantos espaços urbanos ou, mesmo, em suas casas, contudo, decidiram usufruir de seu tempo e de suas companhias naquele karaokê.

Vale pontuar, ainda, que foram encontrados neste estudo significados sociais positivos que convivem entre si. A existência de significados antagônicos à estabilidade geral não é impossível de acontecer, como por exemplo a formação de um espaço de intrigas, ou de um espaço de liberação às drogas. Estes significados exigem uma ação afirmativa em defesa dos preceitos organizacionais, tão logo alguns frequentadores possam se manifestar contra esses grupos discordantes ou cortem laços com a organização, disseminando uma imagem indesejada do lugar.

Embora não tenha sido inserido no escopo desta pesquisa, recomenda-se como análise posterior a consideração do ponto de vista dos funcionários, que possuem participação fundamental na construção de significados do espaço organizacional, como analisado por Fantinel (2012). Com sua presença constante na organização, os funcionários imprimem no espaço os significados do trabalho, de suas expectativas, das sociabilidades entre a equipe e com os demais atores sociais, além de serem responsáveis pela transmissão dos valores organizacionais aos clientes.

Pode-se notar, ao longo deste trabalho, que a gestão de serviços da organização foi apreendida dentro da noção de uma gestão coletiva do espaço (LEFEBVRE, 2006; CERTEAU, 2008), compreendendo a participação dos diversos atores sociais envolvidos, e não apenas do gestor ou da equipe gestora. Como já visto, após ser projetado e concretizado, o espaço está sujeito às apropriações, aos novos usos e significações que são incorporados aos produtos, serviços e práticas espaciais. Portanto, esta concepção de gestão admite as intervenções dos usuários no espaço, não como ameaçadoras, mas como formadoras de organizações sólidas, desde que os significados construídos socialmente e espacialmente sejam compreendidos e bem aproveitados no processo geral de gestão.

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10. APÊNDICES

10.1 Apêndice A – Roteiro da Observação Sistemática

Data:

Hora início:

 

Hora fim:

 

Pesquisador:

 

Organização pesquisada:

 

Objetivo da pesquisa:

Compreender os significados do espaço confirmados pelas formas de sociabilidade organizacional e pelas práticas espaciais dos atores sociais no espaço do Karaokê Canto Livre

1) Espaço

a) Relato do espaço físico - interno e externo:

- arranjo físico, fixos e móveis, portas e janelas, piso, paredes e teto;

- quantidade de mesas e cadeiras/ lotação;

- iluminação agradável ou incômoda;

- temperatura estável, alta ou baixa;

- som estável ou alto, música ou ruídos;

- odor estável ou incômodo.

b) Relato do espaço social:

- quantidade de funcionários e impressões como apresentação e proximidade;

- quantidade de clientes por mesa, localização, e aspectos como idade, sexo, vestuário, postura, comportamentos;

- impressões sobre o gestor.

c) Relato de práticas espaciais:

- chegada de clientes, para onde se direcionam;

- descrição da apropriação do espaço por um indivíduo e por seu grupo desde a chegada até a sua saída;

- frequência e formas de uso de diferentes regiões no espaço, como o palco, outras mesas, o bar, a área externa;

- consumo de produtos, como bebidas e alimentos;

- consumo do serviço de karaokê;

- reações do público diante das apresentações de canto;

- identificação de usos criativos do espaço;

- uso do espaço pelo gestor e funcionários.

2) Sociabilidade

a) entre clientes:

- interação entre iguais, pessoas conhecidas com características, práticas ou preferências em comum, seja com a mesma faixa etária, sexo, traços físicos, estilo de vestuário, objetos ou uso do espaço;

- interação entre diferentes, desconhecidos – abertos ou fechados, interessados ou reservados;

- formas de sociabilidade: conduzidas por meio da fala, de objetos, práticas, espaço, como a conversação, a refeição, o canto, a fotografia;

- tópicos de conversação;

- interação entre os intérpretes no palco e o auditório;

- identificação de competição artística;

- observação de eventual conflito e sua resolução.

b) entre clientes e funcionários

c) entre os clientes e o gestor

10.2 APÊNDICE B – Roteiro da Entrevista Semiestruturada (Gestor)

Data:

 

Duração:

 

Entrevistador:

 

Entrevistado:

 

Objetivo da pesquisa:

Compreender os significados do espaço confirmados pelas formas de sociabilidade organizacional e pelas práticas espaciais dos atores sociais no espaço do Karaokê Canto Livre

Perfil do gestor – dados básicos

- Sexo: - Idade: - Ocupação: - Bairro:

1. Como começou o Karaokê Canto Livre? Em que data? Fale-me sobre a história do karaokê, e da sua história com o ramo de karaokê.

2. Você tem sócio? Qual é o envolvimento de outros familiares no negócio?

3. A Av. Resplendor é uma avenida comercial que tem uma variedade de ramos comerciais, boa localização e movimentação durante o dia. Como foi a escolha da avenida? E a relação da avenida com o horário de funcionamento e com o serviço de karaokê?

4. Quantos metros quadrados tem a área interna e externa?

5. A meu ver, o espaço ficou bem distribuído. Você optou pelo formato de auditório. Você conhece outros formatos de karaokê, com salas?

6. Como foi a escolha dos itens do cardápio?

7. Na sexta e no sábado, qual a rotina de trabalho, da abertura ao fechamento do karaokê?

8. Quantos funcionários trabalham no karaokê à noite ou em outros horários? Quais cargos e hierarquia?

9. Possuem horário de lanche? Comida própria ou fornecida?

10. Se você pudesse descrever uma situação marcante vivida por você aqui no karaokê, qual seria?

11. E, por fim, imagine como seria para você, uma noite ideal aqui. Descreva-a.

10.2.1 APÊNDICE Ba – Roteiro da Entrevista Semiestruturada (Cliente)

Data:

 

Duração:

 

Entrevistador:

 

Entrevistado:

 

Objetivo da pesquisa:

Compreender os significados do espaço confirmados pelas formas de sociabilidade organizacional e pelas práticas espaciais dos atores sociais no espaço do Karaokê Canto Livre

Perfil do cliente – dados básicos

- Sexo: - Idade: - Ocupação: - Bairro:

- Gasto médio numa noite:

Entendendo a ida ao karaokê

1. Há quanto tempo você frequenta o Karaokê Canto Livre? [espaço]

2. Como você ficou sabendo sobre o Karaokê Canto Livre? [sociabilidade/ espaço]

3. Geralmente, você vem para o karaokê em que horário? Qual dia da semana? [prática espacial]

4. E você vem de onde, de casa, do trabalho...? E como você vem? [meio de transporte/ sociabilidade/ prática espacial]

Práticas espaciais

5. Onde você prefere ficar? Por quê? [prática espacial]

6. Você se levanta algumas vezes? O que você faz? [prática espacial/ sociabilidade]

7. Digamos que você cantou e voltou para sua mesa. Você geralmente fica atento ao palco e às apresentações que estão acontecendo? [prática espacial]

8. Considerando o dia e o horário em que você vai ao karaokê, o auditório geralmente está cheio ou vazio? Como você lida com isso?

9. Como você percebe o pátio, a área externa?

Sociabilidade

10. De quem você se lembra de ter conhecido no karaokê e que hoje vai junto com você ou combina de se encontrar lá? [sociabilidade]

11. Você já conhece os funcionários e o proprietário do karaokê. Como é a sua relação com eles? [sociabilidade]

12. Você costuma consumir comida ou bebida? Quais? Por quê? [sociabilidade/ prática espacial]

13.Você conhece ou já ouviu falar do concurso deste karaokê? Se sim, você já participou? Por quê? Se não, você pensa em participar? Por quê? [sociabilidade/ prática espacial]

Significados do espaço

14. Você frequenta outros lugares que funcionam nesse horário? Ou outros karaokês? Por que você gosta de vir a esse karaokê?

(Se o entrevistado mencionou os seus companheiros)

Essas pessoas, você conhece de onde? [sociabilidade]

Vocês costumam se encontrar também em outros lugares? E, por que vocês escolhem se encontrar no karaokê e não em outro lugar? [prática espacial]

(Se o entrevistado mencionou que gosta de cantar)

Você também canta em outros lugares. Quais? E o que este espaço tem de diferente destes que você citou? [prática espacial]

Você, normalmente, canta sozinho ou em grupo? Por quê? [sociabilidade]

Tente se lembrar de três canções que você já cantou no karaokê, sozinho ou em grupo. Como foi a escolha dessas canções? [sociabilidade]

Finalizando

15. Se você pudesse descrever uma situação marcante vivida por você no karaokê, qual seria? [sociabilidade/ espaço]

16. E, por fim, imagine como seria para você, uma noite ideal no karaokê. Descreva-a. [sociabilidade/ espaço] 


Publicado por: RAFAEL FREITAS BATISTA DE ASSIS

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