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Força Expedicionária Brasileira - O Posto Avançado de Neuro-Psiquiatria da FEB.

História

Acompanhamento histórico da participação da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial.

RESUMO

KOELLER, Kleber Figueiredo Gonçalves. “O Posto Avançado de Neuro-Psiquiatria da FEB”. A atuação do Estado brasileiro através da Clínica Médico-Psiquiátrica na Força Expedicionária Brasileira(1943-1945). Orientador: Francisco Carlos Teixeira da Silva. Rio de Janeiro: UFRJ / IFCS / Departamento de História; 2008. Monografia (Bacharelado em História).

A Força Expedicionária Brasileira e sua participação na Segunda Guerra Mundial é acompanhada por diversas linhas de interpretação na historiografia brasileira. Este trabalho procurou perceber, ao analisar especificamente um órgão pertencente ao setor de saúde da F.E.B, o Posto Avançado de Neuro-Psiquiatria, que, através da atuação da Clínica Médica, o Estado Brasileiro buscou negar suas falhas no processo de formação, organização e manutenção da F.E.B. Neste sentido, através dos homens que no decorrer do conflito sofreram “neuroses de guerra”, identificamos que o Estado brasileiro buscou se prevenir de responsabilidades para com os que não foram feridos por tiros ou estilhaços de granada, mas sim os que foram feridos mentalmente pelas características da Guerra e pela falta de preparo psicológico que o Estado não forneceu. A grande questão é que este Estado não levou em consideração que se tratava de homens que vieram das esferas mais pobres da sociedade brasileira e que nunca haviam ouvido rajadas de metralhadoras ou tiros de canhão. Perceber a atuação do Estado brasileiro através da postura da Clínica Médica resulta em identificar a falta de valor atribuído aos homens que deixaram suas famílias e empregos para lutar por uma guerra que muitos, sequer, sabiam o seu real motivo.

ABSTRACT

KOELLER, Kleber Figueiredo Gonçalves. “The Advanced Post of Neuro-Psychiatry of FEB”. The Brazilian State performance through the Doctor-Psychiatric Clinic on the Brazilian Expedition Force (1943-1945). Orientated by: Francisco Carlos Teixeira da Silva. Rio De Janeiro: UFRJ/IFCS/Department of History; 2008. Monograph (Bacharel in History).

The “Força Expedicionária Brasileira” and its participation at the World War II is accompanied by several lines of interpretation in the Brazilian historiography. This work aims to realize, while analysing specifically an organ of the F.E.B’s health sector - the Advanced Post of Neuro-Psiquiatria - that, through the action of the Medical Clinic, the Brazilian state aimed to deny its faults in the F.E.B.’s formation process, organization and maintenance. So, studying the men who, during the conflict suffered “neuroses de guerra”, we identify that the Brazilian State tried to be prevented of responsibilities for whom were injured mentally because of the war’s characteristics and for the lack of psychological preparation that the State did not supply. The great question is that this State did not realize that its soldiers were men who came from the poorest spheres of the Brazilian society and who had never heard machine guns gusts or cannon shots. Realize the action of the Brazilian state through the posture of the Medical Clinic results in identifying the lack of value attributed to the men who left his families and jobs to fight in a war that many didn’t even knew the motivations.

Introdução

Canção do Expedicionário .

“Você sabe de onde eu venho?
Venho do morro, do Engenho,
Das selvas, dos cafezais,
Da boa terra do coco,
Da choupana onde um é pouco,
Dois é bom, três é demais,
Venho das praias sedosas,
Das montanhas alterosas,
Dos pampas, do seringal,
Das margens crespas dos rios,
Dos verdes mares bravios
Da minha terra natal.

(Refrão)

Por mais terras que eu percorra,
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá;
Sem que leve por divisa
Esse "V" que simboliza
A vitória que virá:
Nossa vitória final,
Que é a mira do meu fuzil,
A ração do meu bornal,
A água do meu cantil,
As asas do meu ideal,
A glória do meu Brasil.

Eu venho da minha terra,
Da casa branca da serra
E do luar do meu sertão;
Venho da minha Maria
Cujo nome principia
Na palma da minha mão,
Braços mornos de Moema,
Lábios de mel de Iracema
Estendidos para mim.
Ó minha terra querida
Da Senhora Aparecida
E do Senhor do Bonfim!

(Refrão)

Você sabe de onde eu venho ?
E de uma Pátria que eu tenho
No bôjo do meu violão;
Que de viver em meu peito

Foi até tomando jeito
De um enorme coração.
Deixei lá atrás meu terreno,
Meu limão, meu limoeiro,
Meu pé de jacarandá,
Minha casa pequenina
Lá no alto da colina,
Onde canta o sabiá.

(Refrão)

Venho do além desse monte
Que ainda azula o horizonte,
Onde o nosso amor nasceu;
Do rancho que tinha ao lado
Um coqueiro que, coitado,
De saudade já morreu.
Venho do verde mais belo,
Do mais dourado amarelo,
Do azul mais cheio de luz,
Cheio de estrelas prateadas
Que se ajoelham deslumbradas,
Fazendo o sinal da Cruz !

Por mais terras que eu percorra,
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá;
Sem que leve por divisa
Esse "V" que simboliza
A vitória que virá:
Nossa vitória final,
Que é a mira do meu fuzil,
A ração do meu bornal,
A água do meu cantil,
As asas do meu ideal,
A glória do meu Brasil.”

Hoje, 63 anos após o fim da 2ª Guerra Mundial, a leitura da Canção do Expedicionário remete à visualização de um cenário em que muitos dos homens que viveram tal conflito, humildes por sua condição, almejaram, a todo instante, um único objetivo: defender seu país e seus corpos com o interesse de retornar às suas vidas, simples e modestas, em seu país.

Em agosto de 1942 submarinos alemães torpedearam embarcações brasileiras na costa do Sergipe provocando a morte de brasileiros que, sem saber, seriam o motivo pelo qual o Brasil declararia guerra à Alemanha e à Itália. Tragicamente, devido à morte de homens, mulheres e crianças até então distantes do conflito, o Brasil entrava na maior guerra que o mundo já pode vivenciar.

Composta de homens advindos dos seringais, dos cafezais, dos pampas, do campo, das cidades, ente outros, a Força Expedicionária Brasileira, criada em 1943, mobilizaria 25.334 brasileiros , entre eles 73 enfermeiras. Com o dever de fazer justiça aos que foram covardemente mortos no nordeste brasileiro, pelos submarinos alemães, a FEB iria se unir ao 4º Corpo do V Exército americano sob o comando do General Mark Clark , na Itália. “A missão das tropas brasileiras era essencialmente tática, como era a de todo o V Exército de Mark Clark. Do ponto de vista estratégico, o setor em que a FEB lutaria não seria “decisivo” para a sorte da campanha aliada na Itália, embora isso não queira dizer que pudesse ser desprezado e deixado aos alemães.”

Estudar a FEB não implica apenas em entender, conhecer ou fixar os locais onde ocorreram conflitos, batalhas mais importantes ou os nomes dos Generais mais ou menos eficientes que comandaram tal tropa. Estudar a FEB, a partir de novas perspectivas historiográficas, consiste em perceber os homens que de fato venceram ou foram derrotados nos montes, ora frios ora gelados, da Itália. Consiste em perceber que os conflitos de uma guerra não cabem apenas aos seus comandantes, principalmente em uma guerra onde prevaleceu o enfrentamento por patrulhas, como no caso dos montes Apeninos na Itália , em que as ações dos praças e militares de baixa patente, no calor do combate, tinham que ser definidas ali, na hora, sem os comandos ou estratégias de um oficial superior .

Neste sentido, o objetivo deste trabalho consistiu em produzir uma análise diferenciada do que se pode chamar de uma “historiografia tradicional” sobre a FEB. Esta produção “tradicional” está representada nas obras que procuram demostrar os objetivos do Brasil, a grande política nacional, o que o país ganharia ou perderia entrando no conflito e os diferentes motivos ou causas que conduziram sua entrada na Guerra. Contudo, procuramos uma análise que percebesse a atuação do Estado através de suas ações sobre os mais debilitados naquele conflito. Os mais debilitados aqui são representados pelos homens que não se feriram fisicamente, mas aqueles que foram feridos em sua região corporal mais importante, as suas mentes.

Ainda assim, faz-se necessária uma breve apresentação do que já está publicado sobre o tema. Esta apresentação carrega informações e discussões que atravessam a historiografia tradicional e também a vertente historiográfica que caminha por novas abordagens.

Então, é pertinente uma breve explanação sobre o contexto em que se definiu a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial.
Os afundamentos no litoral nordeste brasileiro marcaram o motivo pelo qual o Brasil se empenhou em formar um Corpo Expedicionário capaz de ser enviado a um outro continente para lutar com um inimigo desconhecido. Entretanto, acreditar que este motivo tenha sido o único para tal façanha já não cabe, nem nunca coube, à historiografia que analisa o tema. As diversas análises sobre os presentes motivos que mobilizaram a formação da FEB são de grande circulação no meio acadêmico e bem difundidas nas suas esferas competentes.

Os questionamentos sobre a construção da Companhia Siderúrgica Nacional e para qual lado o Brasil penderia entre alemães e americanos representam um dos vários pontos de análise que constróem as discussões sobre a FEB. Assim como as disputas entre políticos brasileiros, dos quais certo grupo simpatizava com os nazistas e outro com os aliados. Além da própria questão governamental interna do Brasil, que vivia uma ditadura com o então presidente Getúlio Vargas e o seu Estado Novo (que se assemelhava com a vertente italiana de governo), porém, tendo os EUA como iminente aliado , era um ponto influente nas decisões que o governo brasileiro tomaria dali em diante.

O Brasil dos anos 40 era essencialmente rural. Seu exército composto por pobres e semi-analfabetos. Sem armamento, meio de transporte, treinamento, logística, engenharia. De fato, sem estruturas para organizar um corpo militar que iria lutar com o, até então, melhor e mais bem preparado exército do mundo.

Como fazer com que homens que nunca passaram por um conflito semelhante, homens sem uma cultura de guerra, como são os europeus devido aos seus diversos conflitos históricos, homens mal alimentados, mal nutridos e mal informados se transformassem em uma Força Expedicionária?

Ainda que muito debilitada, esta Força Expedicionária foi eficiente em suas empreitadas durante a Guerra devido a associação entre o exército americano e o brasileiro, além desqualificação ou desinteresse, por parte do exército alemão, em manter suas forças no sul da Itália , que permitiram ao Brasil sair vitorioso, após muitos custos, em suas operações na Itália.

Entretanto, este trabalho buscou interpretar uma outra resposta à pergunta colocada acima. Ainda que americanos e alemães tenham colaborado, cada um ao seu modo, com o sucesso brasileiro na Itália, este sucesso não foi unânime entre os homens que enfrentaram a guerra. Dentro da Força Expedicionária Brasileira temos homens que, de fato, perderam a guerra. Homens que foram derrotados pelo maior conflito que a humanidade já viveu. Homens que foram obrigados a sair de suas plantações, seus seringais, suas roças para pegar em armas em um outro continente. Homens que nunca ouviram falar ou pensaram em neve e tiveram que se acostumar a usar penas de galinha, grama ou papel dentro de suas galochas para evitar que seus pés congelassem nos campos de gelo da Itália .

Muitos destes homens foram feridos fisicamente e podem representar o despreparo da Força Expedicionária uma vez que diversos relatos de acidentes são em função de erros no manejo de equipamentos, veículos e armas devido à falta de informações ou conhecimento sobre o que se estava utilizando. Um exemplo destas falhas de manejo pode ser identificado nos casos de praças que dispararam em seu próprio pé, ou por desconhecimento ou descuido, com seu armamento . “... oficiais brasileiros demostraram falta de preparo físico, pouco adestramento no manejo do fuzil, e precisariam treinar subida de morro carregando armas individuais. Todos conheciam apenas o sistema francês de ataque a baioneta, e assim mesmo eram fracos”.

Pensar o despreparo da FEB a partir de seus ferimentos físicos e acidentes é interessante, mas não é o objetivo deste trabalho. Os ferimentos que analisamos aqui são de outra ordem, outra especificidade, outro valor. Ferimentos que não podem ser vistos a olho nu. Analisamos ferimentos advindos da falta de preparo psicológico dos militares brasileiros devido a incapacidade e ingerência do Comando do Exército, juntamente com o governo brasileiro, no decorrer do processo de organização e formação da FEB no Brasil e sua condução e manutenção na Itália.

A maneira encontrada para viabilizar a análise destes “ferimentos” foi o estudo do órgão militar criado com a finalidade de receber, tratar e recuperar os homens acometidos por abalos psicológicos durante a atuação da FEB na Europa. Este órgão militar foi denominado: Posto Avançado de Neuro-Psiquiatria sob o comando do até então Capitão Médico Mirandolino Caldas. Este posto teve sua “história” transcrita em livro pelo seu mentor e condutor, Cap. Mirandolino Caldas sob a denominação de “O posto Avançado de Neuro-Psiquiatria da FEB” .

Uma segunda forma de análise capaz de fornecer informações fundamentais para a ratificação de que o Estado não forneceu o treinamento ou condições suficientes para que os febianos tivessem capacidade de enfrentar a Segunda Guerra Mundial são os Prontuários Médicos destes militares pesquisados no arquivo do Hospital Central do Exército, no Rio de Janeiro.

Através desta documentação é possível visualizar as diferentes formas encontradas pelo Estado brasileiro em negar sua responsabilidade com os militares que foram enviados à guerra. Buscando negar sua incapacidade de organizar, manter e conduzir uma Força Expedicionária em outro continente, o Estado brasileiro procurou responsabilizar os militares que formaram o corpo militar enviado à Itália pelos acontecimentos negativos ocorridos com a FEB, não assumindo suas falhas de comando e organização no decorrer da guerra na Europa.

Neste sentido, os homens que tiveram suas mentes marcadas para o resto de suas vidas foram taxados como “neuróticos de guerra”. É fato, porém, que uma guerra não respeita a integridade psicológica de nenhum dos indivíduos que nela lute , entretanto, não é permissível que em uma guerra onde o Estado tenha consciência de sua fragilidade enquanto administrador, organizador e patrocinador de sua tropa, homens que foram arrancados de suas simples vidas tenham em seus prontuários médicos apenas o número “631” .

Contudo, a formação, a manutenção e o encerramento da Força Expedicionária Brasileira apresentou diversas dificuldades em todos os âmbitos. Este trabalho, não teve, em nenhuma hipótese, a pretensão de analisar o grande número de dificuldades inerentes à formação e desfecho da FEB. O objetivo pretendido foi perceber, especificando nosso tema, a negação do Estado em admitir que sua falha na organização e manutenção da FEB gerou, ainda que em número pequeno, um grupo de homens debilitados psicologicamente em função das características da guerra. Deve-se ressaltar que se tratava da maior guerra que o mundo viveu, ainda que críticas sobre o campo de atuação dos brasileiros sejam pertinentes.

“Grande parte dos praças não era voluntário e o nível de analfabetismo era ainda alto. Isso se refletia na baixa preparação técnica dos quadros subalternos e na condução deficiente dos equipamentos de bordo, aumentando a “rate” de avarias, algumas, mesmo graves. A necessidade de contratar civis e estrangeiros para o guarnecimento das máquinas exacerbou ainda mais essa situação. O nível dos oficiais era melhor, pois a maioria provinha das classes mais abastadas da sociedade, no entanto, a velocidade das mudanças tecnológicas provocadas pela guerra tornou os conhecimentos dos oficiais desatualizados. Para complicar ainda mais essa situação desfavorável, os claros nos efetivos eram consideráveis, já que o Governo ou por falta de recursos financeiros ou por falta de interesse político mantinha os efetivos abaixo do estipulado por Lei.”

A citação acima poderia ser facilmente interpretada como uma descrição da capacidade do Exército brasileiro e da disponibilidade do Estado brasileiro durante o período da 2ª Guerra Mundial, porém, esta descrição se refere à Marinha brasileira que lutou na “Grande Guerra” entre 1914 e 1917, muito bem estudada pelo Comandante Alves de Almeida em sua monografia para obtenção de grau em Bacharel em História. Sendo assim, a desqualificação das Forças Armadas brasileiras permeia suas ações ao longo de sua história. E corroboram as assertivas deste trabalho.

O que se pretendeu investigar neste trabalho foi a ação do próprio Estado brasileiro que, através do Posto Avançado de Neuro-Psiquiatria, consciente da falta de estrutura e preparo na qual formou o Corpo Expedicionário, utilizando seus oficiais e médicos, procurou negar as conseqüências sofridas por aqueles homens que tiveram suas vidas marcadas por um conflito ao qual não estavam corretamente preparados psicologicamente para enfrentar.

O trabalho, assim, foi divido em 2 capítulos.

O primeiro capítulo representou uma síntese dos acontecimentos que conduziram o Brasil a participar da 2ª Guerra Mundial e uma breve discussão bibliográfica acerca da FEB. Esta discussão teve por objetivo salientar as diferenças de opiniões entre os homens - leia-se Generais - que escreveram sobre a FEB, historiadores, jornalistas e veteranos em livros de memorialismo, caraterizando a diversidade de análises e interpretações sobre a FEB. Uma discussão entre a chamada “historiografia tradicional” e uma “historiografia mais atual”, mais focada nos sujeitos de carne e osso, nos indivíduos que realmente fazem a história.

Hoje, porém, tanto a Força Expedicionária quanto seus veteranos, mortos ou ainda vivos, são esquecidos, ignorados na sociedade brasileira. Um exemplo deste esquecimento pode ser encontrado nos livros didáticos utilizados nas escolas brasileiras que mencionam, quando o fazem, um parágrafo, quando muito meia página, para falar de um tema que já produziu e pode produzir páginas e páginas de conteúdo histórico.

O segundo capítulo consistiu em uma apresentação do P.A.N.P, Posto Avançado de Neuro-Psiquiatria, e das condições, imposições e questionamentos colocados por seu idealizador, o Cap. Mirandolino Caldas, acerca das condições dos homens que compuseram a FEB. Associado à história do PANP relacionamos os prontuários médicos investigados no Hospital Central do Exército com o interesse de conciliar as informações existentes chegando a uma tese consolidada.

Este capítulo representou a tentativa de demostrar que o Estado Brasileiro percebeu a necessidade de compor um órgão competente que tivesse como objetivo manter a identidade de grupo que se buscava na FEB, mantendo assim os “desajustados” psicologicamente distantes dos ditos “sãos”, com o interesse de recuperá-los para que pudessem retornar às suas atividades ou então serem recuados aos hospitais de evacuação .

Todavia, a função do PANP foi além destas obrigações. Nosso trabalho identificou que o Estado brasileiro utilizou a clínica médica , devido seu direito de intervenção aos sujeitos, como o “juíz” responsável para definir quem era capaz ou incapaz, quem era um promissor pensionista ou não, quem iria sorver as custas do Estado ou não.

Nas condições em que os homens brasileiros foram transladados para a Itália, identificar problemas psicológicos em um indivíduo e atribuí-los a um problema já trazido do Brasil é negar a incompetência no gerenciamento e organização por parte do Estado brasileiro representado pelo seu comando militar e seu comando político .

CAPÍTULO I

“VOCÊ SABE DE ONDE EU VENHO?”.

Você sabe onde fica a Alemanha, a Itália? Você sabe quem é Adolf Hitler e Benito Mussolini? Você sabe onde fica sediado o V Exército Americano? E o General Mark Clark, você sabe quem é? Você sabe de onde venho? Ou melhor, você sabe para onde vou?

“Cerca de 50% dos soldados e convocados que examinei não me souberam responder se o Brasil tinha, ou não, motivos para tomar parte nesta guerra. Muitos me disseram que, se o governo declarou guerra é porque havia razão, mas não sabiam qual era essa razão. Ora, uma tropa que vai para o campo de batalha sem saber porque, não pode ter o necessário élan para vencer as fraquezas do instinto de conservação. Quem não tem diante de si um motivo superior que justifique um sacrifício que pode acarretar a perda de sua própria vida, não terá também a menor disposição para suportar as asperezas do combate, numa guerra de extermínio.”•

Em 1º de setembro de 1939 a Alemanha invadia a Polônia. Por convenção, nomeamos este dia como o inicio da Segunda Guerra Mundial. Porém, se analisarmos, por exemplo, a China, veremos que ela assimila a Segunda Guerra Mundial tendo seu início em 1931, quando ocorreu a invasão japonesa em seu território. Assim como a Coréia que também foi invadida em 1931. Para estes dois países a Segunda Guerra não começou em 1 de setembro de 1939, mas sim com a invasão japonesa. Neste sentido, é fundamental identificar que dossiês fechados sobre a Segunda Guerra Mundial não podem ser definidos, pois temos muitos questionamentos sobre início e fim deste um conflito que, “supostamente”, acabou em 1945.

Para o Brasil a guerra se inicia com o torpedeamento das embarcações brasileiras no litoral nordeste do país em agosto de 1942. Com o avanço da 2ª Guerra e suas possíveis amplitudes, a batalha no Norte da África fez do nordeste brasileiro um ponto estratégico de ataque e defesa norte-americanos.

“Assim, a guerra chagava às Américas. Os cenários imaginados pelos estrategistas norte-americanos eram preocupantes. Um deles previa uma invasão alemã no litoral do Nordeste brasileiro, através de navios de transporte de tropas escoltados por esquadrilhas aéreas, vasos de guerra e submarinos(...) Posicionados no Norte e Nordeste brasileiros, os invasores poderiam atacar facilmente o Canal do Panamá, ameaçando a circulação de bens e materiais estratégicos latino-americanos para os Estados Unidos e deste para os seus aliados em todo o mundo”.

Pensar a entrada do Brasil na 2ª Guerra Mundial requer perceber que o jogo de interesses que circundaram a decisão de enviar uma Força Expedicionária para outro continente carregou consigo decisões políticas inerentes ao contexto da época, tanto por parte do Brasil quanto por parte dos países que travavam a guerra e buscavam se fortalecer em todos os setores a fim de conseguirem o resultado desejado, a vitória. "A guerra é a continuação da política por outros meios”. Com essa máxima, Carl von Clausewitz, estrategista e estudioso da guerra, pode ajudar a percebermos a relação estabelecida entre o Brasil e os Estados Unidos em função da decisão de enviar uma Força Expedicionária para lutar na Itália.

A relação de troca seria simples: os americanos teriam o controle do nordeste brasileiro e Brasil enviaria um Corpo Expedicionário à guerra, com armamentos e infra-estrutura americanos e receberia o investimento necessário para construir a primeira siderúrgica nacional na cidade de Volta Redonda, no Estado do Rio de Janeiro. Neste sentido, o governo de Getúlio Vargas buscava a modernização necessária para fazer o Brasil sair dos anos de atraso que vivera durante a chamada “República Velha” . Contudo, esta relação de troca de interesses não mais pode ser interpretada desta forma. Essa visão condiz com uma proposta da chamada “historiografia tradicional”, sendo que essa construção histórica não mais atende as novas perspectivas de análise que discutem tal processo.

Uma vez que o acordo para a construção da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional) foi assinado em setembro de 1940, o apoio brasileiro aos Estados Unidos na 2ª Guerra Mundial já se configurava antes mesmo dos torpedeamentos das embarcações brasileiras.

A produção de uma séria de abordagens diferenciadas é fruto da relação interna brasileira que vivia um regime político muito próximo do Fascismo após a Instauração do Estado Novo, em 1937. Esse regime político suscitou uma série de análises em que o governo Getúlio Vargas seria pró “Eixo”. O que não parece se confirmar com o desfecho das decisões políticas que engendraram o Brasil na Guerra.

“Na verdade, mais do que o acordo que permitiu a criação da CSN, foram o fluxo contínuo e exclusivo de matérias-primas estratégicas para os Estados Unidos e a cessão das bases do Norte e Nordeste que envolveram o Brasil definitivamente no conflito” .

Uma vez decidido que o Brasil mandaria uma Força Expedicionária para a Europa surgiram dúvidas em vários sentidos. Uma delas foi sobre quem teria afundado as embarcações brasileiras. Teria sido realmente os alemães, os americanos ou ingleses a fim de forçarem uma decisão rápida do Brasil a cerca do lado em que entraria na guerra? Porém, esta dúvida é infundada. “Toda a documentação comprova a autoria alemã dos torpedeamentos. Os registros da marinha alemã são claros e bastante minuciosos – nomes das embarcações afundadas, número de torpedos utilizados, horário, posição...” . Os alemães foram os responsáveis pelos afundamentos das embarcações e mortes dos brasileiros em 1942.

Outras dúvidas pairaram acerca da formação da Força Expedicionária Brasileira. Uma dúvida intrigante se refere ao número de recrutados que deveriam ser enviados à Itália. A bibliografia que discute o tema apresenta divergências. Carlos de Paiva Gonçalves em “Seleção médica do pessoal da FEB: histórico, funcionamento e dados estatísticos” fala em 100 mil homens recrutados para a FEB.

César Campiani Maximiano comenta sobre a promessa do governo brasileiro em enviar 100 mil homens, porém, segundo Maximiano, o exército brasileiro possuía um efetivo que não ultrapassava 72 mil homens. Já Francisco César Ferraz escreve em seu livro que o projeto da FEB seria enviar três divisões somando 60 mil homens sendo que o efetivo do exército brasileiro era de 90 mil homens.

“Era preciso destacar uma pequena parcela desse contingente para treinar e comandar os milhares de jovens conscritos. Porém, a força terrestre brasileira, em 1942, refletia fielmente as carências de toda ordem de sua sociedade. As armas, munições e equipamentos originavam-se de fornecedores de diversos países, alguns dos quais em guerra com o Brasil; havia carência de carros de combate, equipamentos de comunicação, engenharia, logística e peças de artilharia até para a defesa das fronteiras contra os tradicionais ”inimigos potenciais” do Prata. Equipamentos que já eram usados na guerra, como criptógrafos, teletipos, detectores de minas, unidades de cozinha, limpeza e banho eram completamente desconhecidos por oficiais e praças. Um novo exército deveria ser criado para o Mediterrâneo.”

A discussão acerca do número de expedicionários é apenas uma dentre as diversas que circundam a FEB. Neste sentido, cabe uma apresentação dos autores que tentaram estabelecer propostas, critérios ou métodos de entendimento para a FEB. É válido ressaltar que a linha de análise escolhida para identificar estes autores e suas obras é inerente ao tema deste trabalho. Portanto, as interpretações colhidas destes autores foram assimiladas a partir de um olhar do Posto Avançado de Neuro-Psiquiatria e suas caraterísticas.

É necessário perceber que a bibliografia referente à Força Expedicionária Brasileira é ampla, diversificada e repleta de discussões sobre diferentes abordagens relacionadas ao tema. É muito presente também a produção de memórias e memorialismo dos veteranos que buscaram externar, publicar, suas vivências durante o conflito.

Obras tradicionais, como a do Marechal Mascarenhas de Morais, “A FEB pelo seu comandante” e “O Brasil na Segunda Guerra Mundial” de Manuel Thomaz Castelo Branco, simbolizam uma produção, em forma de relatos, de um acompanhamento passo a passo, do processo de formação, condução e desfecho da Força Expedicionária Brasileira. São excelentes manuais com datas, mapas e fotos. Nestas obras é presente o olhar dito ”do alto”. Suas perspectivas têm por característica minimizar todo e qualquer desfecho que venha denegrir a imagem dos homens que conduziram os expedicionários na Itália.

Em resposta a esta produção dita tradicional, diretamente relacionada ao livro de Mascarenhas de Morais, o livro “Depoimentos de oficiais da reserva sobre a FEB”, de Demócrito Arruda , apresenta diversos relatos que trazem diferentes críticas ao processo de organização e condução da FEB. É uma obra de grande repercussão por apresentar as divergências existentes na Força Expedicionária. “O Exército de Caxias” e “O Exército da FEB” representando a diferenciação que os soldados faziam do exército que ficou no Brasil e o exército que atravessou o oceano é um dos pontos que marcam as críticas encontradas em “Depoimentos de oficiais da reserva sobre a FEB”.

Diante desta literatura vista “do alto, autores como o Comandante de Estado Maior da FEB, Lima Brayner , em “A verdade sobre a FEB - Memórias de um Chefe de Estado Maior na Campanha da Itália”, trataram a FEB com uma orientação menos elogiosa que Castelo Branco e Mascarenhas de Morais, além de produzir críticas severas a atuação destes comandantes. Aqui, um parêntesis: Lima Brayner pode ser considerado o único representante do que chamamos de Comando da FEB que produziu uma obra polêmica e diferenciada, se aproximando da proposta deste trabalho. No mesmo sentido, Leonércio Soares , com o livro ”Verdades e Vergonhas da Força Expedicionária Brasileira” foi muito mais agressivo ao relatar o despreparo dos soldados e a falha de comando em diversas situações. Já Agostinho Rodrigues escreveu em “O Paraná na FEB”, que os alemães estavam muito bem posicionados e que as tropas brasileiras teriam grande dificuldade em combate-los. Este autor procurou não “agredir” ninguém ao não mencionar nomes.

Mantêm-se assim, por diversas esferas, as diferenças de análises sobre a FEB.

Neste sentido, trazendo a discussão bibliográfica para perto da proposta deste trabalho, uma aproximação encontrada entre a bibliografia analisada e o P.A.N.P, Posto Avançado de Neuro-Psiquiatria, refere-se a um episódio que demonstra como o despreparo psicológico de um homem pode resultar em derrotas em campo de batalha e, posteriormente, produções textuais diferenciadas entre os que fizeram parte, de uma forma ou de outra, de tal episódio.

O episódio pode ser delineado da seguinte maneira:

“Um dos oficiais que tivemos ensejo de tratar no Posto Avançado de Neuro-Psiquiatria foi vítima - estou certo – do seu sentimento de inferioridade em relação aos alemães. Ele estava impressionadíssimo com o treino militar dos tedescos, treino que, na sua opinião, os brasileiros nunca realizaram. Estava alarmado com a perícia dos alemães nos combates noturnos. “os alemães só atacam de noite e nós ainda não sabemos brigar de noite; sempre que formos atacados perderemos”. Assim me falou esse capitão” .

Este Capitão que apresentou tal crise de inferioridade acabou sendo responsável por um evento que culminou com uma demonstração de fraqueza para uma Companhia inteira . Segundo o Cap. Caldas, este oficial comandava essa companhia quando foi atacado por alemães à noite. E esse ataque foi amplificado pelo despreparo psicológico do Capitão a ponto dele ter ilusões de que os alemães atacavam pela retaguarda quando na verdade não o faziam. O resultado foi uma debandada sem ordens superiores deixando as armas brasileiras para os alemães.

Este fato resultou em diferenciadas análises, em diferentes comentários. Comentários intensos em determinadas obras e em outras, uma pequena menção. A intensidade destes comentários é fruto das escolhas, muito particulares, dos que escrevem sobre o tema. E isso interessou a este trabalho para clarificar que as produções historiográficas são originadas a partir de particularidades onde a verdade é pertinente aos interesses de quem escreve.

Sendo assim, para a dita literatura vista “do alto”, leia-se aqui, neste caso específico, Mascarenhas de Morais, o Comandante da FEB caracteriza em seu livro que esta debandada e perda de território foi apenas fruto de um ataque à noite prontamente restabelecido por outra companhia, “felizmente sem maiores conseqüências” . Deixando clara sua postura em sempre negar falhas em seu comando ou em sua tropa.

Já Leonércio Soares, Lima Brayner, Agostinho Rodrigues, fazem parte de uma produção que busca analisar o lado contrário aos ditos tradicionais. Apresentam diversos fatores como desorganização da tropa, falta de comando, falta de experiência, fraqueza psicológica como causas para a debandada geral e a desqualificação daquela companhia.

Diante destas análises fica claro que a bibliografia sobre a FEB é marcada por idiossincrasias dos diferentes autores sobre o tema.

Seguindo o repertório de autores que colaboram com este trabalho, definimos como uma “historiografia moderna” o livro: “Os brasileiros e a Segunda Guerra Mundial” do professor Francisco César Ferraz. É um trabalho, de 2005, em que o autor explorou um panorama geral da guerra. Um manual atualizado, com fotos e mapas, onde é discutida, desde a entrada do Brasil na guerra, passando pelas disputas políticas, disputas entre Estados Unidos e Alemanha para obter o apoio do Brasil, disputas dentro do próprio exército sobre quem apoiar, recrutamento, front, retorno dos febianos. Em suma, em poucas páginas o professor Francisco Ferraz organiza um manual oposto aos manuais tradicionais apresentando os sucessos e falhas da FEB.

Da mesma forma, César Campiani Maximiano ao escrever: “Onde estão nossos heróis: uma breve história dos brasileiros na Segunda Guerra Mundial”, seguindo a mesma linha crítica que pauta este trabalho, procurou demonstrar que o discurso tradicional, via Mascarenhas de Morais estabelecendo uma condição de heroísmo para a FEB, não condiz com as condições em que os expedicionários viveram nos campos da Itália, tão pouco com sua própria realidade como heróis da pátria.

Outra obra que fornece um horizonte diferenciado do que já foi exposto neste trabalho em termos de estilo de análise, numa franja tênue entre jornalismo e história, é o livro de William Waack: “As Duas Faces da Glória”: a FEB vista pelos seus aliados e inimigos” . Utilizando-se de arquivos alemães e americanos, Waack constrói a atuação da FEB por intermédio do ponto-de-vista americano e alemão. Em seu título: “As duas faces da Glória: a FEB vista por seus aliados e inimigos”, o autor deixa clara sua perspectiva de análise. Neste sentido, a obra de Waack é inovadora, além de nos fornecer informações sobre a estrutura militar alemã que nos enfrentou nos campos da Itália.

Ainda que inovadora no seu modo de análise, a obra de Waack apresenta as mesmas características dos autores que procuraram criticar a historiografia tradicional. Contudo, a repercussão de seu livro foi grandiosa por ser extremamente embasado em arquivos alemães e americanos, contendo dados que desqualificam a FEB desde sua formação, passando pela organização, indo até o comando.

Além destas afirmações, Waack colocou em seu livro a fraqueza e debilidade do exército alemão que enfrentou a FEB na Itália. Essa debilidade advém de um exército composto de soldados inexperientes e comandados por oficiais já velhos e cansados de outras linhas de frente. Esta situação do exército alemão representou que a importância da região dos Apeninos era de menor valor para a estratégia de guerra alemã. Neste momento, já consciente do avanço aliado, e voltando suas forças para o lado oriental, para as batalhas com os russos, a Alemanha concentrava forças fora da Itália. Neste sentido, Waack estaria desqualificando a idéia que a FEB enfrentou um exército de 1ª categoria, minimizando os feitos do Brasil na Segunda Guerra Mundial.

Mesmo com o reconhecimento da qualidade empregada na pesquisa, o livro de Waack foi causador de grandes polêmicas em função de seu discurso crítico à FEB. Devemos ressaltar também que este livro carregou críticas indiretas ao período em que foi produzido – 1985 - ano em que a Ditadura Militar iniciava seu processo de abertura política. Ainda assim, a visão de Waack, ao relacionar os comandantes da FEB que posteriormente fariam parte do comando da Ditadura Militar no Brasil, nos serviu, conscientes da posição do autor em relação à Ditadura Militar, como demonstrativo da estreita ligação entre o comando do Exército e o interesses do Estado brasileiro.

“Para entendermos as conseqüências que a guerra trouxe para aqueles que efetivamente participaram dela, é necessário lembrar que a maioria dos expedicionários foi recrutada no meio civil, nas classes mais empobrecidas e de menor escolaridade. Foram tirados de seus empregos, das escolas, de suas famílias, treinados e embarcados para a guerra” .

“Lançados sem treinamento e sem preparo numa guerra cujo sentido e alcance muitos deles nunca entenderam” . Estas citações são fundamentais para percebermos que estudamos homens comuns que tiveram suas vidas transformadas por um conflito em que o Brasil participou sem apresentar condições físicas e psicológicas condizentes com as necessidades que se faziam necessárias na Itália. Ressalto: o Brasil, o Estado brasileiro, não proveu seus soldados de condições físicas e psicológicas para participar da guerra. O que esperar dos homens que compunham esta Força Expedicionária?

Um dado deve ficar claro: estes homens comuns são, na nossa história contemporânea, os únicos heróis, muitos ainda vivos, outros tão saudosos, que o Brasil possuiu e sempre possuirá em sua história.

CAPÍTULO II

631 – Neurose de Guerra

Este segundo capítulo tem por objetivo apresentar as caraterísticas e funções do Posto Avançado de Neuro-Psiquiatria da FEB associando suas informações aos prontuários médicos que acompanharam os militares feridos nos hospitais americanos até seu retorno ao Brasil e posteriormente enviados ao Hospital Central do Exército no Rio de Janeiro.

Contudo, para que seja possível uma descrição do PANP é fundamental explanarmos sobre seu idealizador, administrador e responsável, o Cap. Médico Mirandolino Caldas .

Foi nomeado Capitão Médico da Reserva do Exército Brasileiro, por Decreto de 25-06-1943, em virtude de ter concluído o Curso de Medicina Militar, organizado pela Diretoria de Saúde do Exército. Convocado para o serviço ativo do Exército, por portaria do Gen. Ministro da Guerra nº. 6.715, publicado no diário oficial de 7-7-1944.

Apresentou-se a D.S.E em 17-7-1944. Embarcou para o teatro de operações seguindo por via aérea para à Itália, no dia 11-8-1944, às 6 horas da manhã. Chegou em Nápoles, no dia 21-8-1944, às 12 horas. Apresentou-se à Chefia do Serviço de Saúde da FEB, então acantonada em Vada, no dia 25-8-1944. No mesmo dia foi designado para servir no 38th Evacuation Hospital, estabelecimento americano acampado em Santa Luce. A 2-9-1944 foi mandado adir ao Batalhão de Saúde, para fins de estacionamento, ficando à disposição do Chefe do Serviço de Saúde da FEB.

Pelo chefe do Serviço de Saúde da FEB foi designado, em 7-9-1944, para organizar o Posto Avançado de Neuro-Psiquiatria da FEB, cuja chefia ocupou até 6-6-1945, quando foi o mesmo extinto, por haver terminado a guerra. Partiu de Nápoles, por via aérea, no dia 7-7-1945.

Esta resumida trajetória do Cap. Mirandolino Caldas é estritamente interligada à trajetória do Posto Avançado de Neuro-Psiquiatria. O PANP, enquanto órgão militar, se confunde com seu idealizador em suas funções e características.

Neste sentido, este trabalho analisou o PANP a partir de um livro. Livro que teve por objetivo relatar a construção e atuação deste Posto Avançado na Itália e que recebeu o mesmo nome do órgão que ele representa, “O Posto Avançado de Neuro-Psiquiatria da F.E.B (Pré-F.E.B. – F.E.B. – Após F.E.B) e que foi escrito pelo médico responsável pela criação do Posto Avançado, o Capitão Médico Dr. Mirandolino Caldas.

Trazendo relatórios, tabelas e dados oficiais da atuação do PANP, este livro é a base, é a fonte primária mais utilizada para a confecção deste trabalho. Porém, outras duas fontes, os Relatórios Médicos da 1ª DIE e os prontuários médicos - que saiam do Posto Avançado com os pacientes e iam com eles até seus últimos locais de internação ou avaliação - foram também importantes para a finalização da pesquisa.

A origem do Posto Avançado de Neuro-Psiquiatria seguiu o modelo de assistência psicológica americano. Ainda que o Brasil fizesse parte do IVº Corpo do Vº Exército americano e, devido a isso, ter recebido a infra-estrutura necessária para os dispêndios da guerra como armamento, alimentação, vestimenta e hospitalização, este último subsídio, a hospitalização, funcionava de maneira eficiente apenas aos homens feridos fisicamente. E por que? Mesmo com todas as críticas americanas aos soldados e oficiais brasileiros , o corpo humano é o mesmo, independentemente de ser brasileiro, americano ou alemão, sendo assim, os atendimentos médicos aos feridos não precisavam do idioma para serem efetuados. Bastava o médico diagnosticar o ferimento e providenciar o tratamento. Porém, quando o ferimento não era físico e sim mental, o melhor médico americano não teria sucesso com o soldado brasileiro devido as dificuldades da língua. Sem mencionar que a maioria dos soldados brasileiros era composta por analfabetos e semi-analfabetos . Como um tratamento psicológico seria feito nestas condições? Como, com idiomas diferentes, médicos americanos tratariam brasileiros que entendiam mal o português devido sua ignorância?

Sendo assim,

“as singularidades que caraterizavam a Força Expedicionária Brasileira entre os exércitos em luta naquele Teatro – a língua falada, por exemplo – impunham, mais do que para as outras modalidades do serviço médico-cirúrgico, uma ininterrupta assistência aos neuróticos por especialistas brasileiros, pela evidente necessidade de proporcionar um perfeito entendimento entre o médico e paciente.

Para tal, a necessidade de um local de tratamento para os “desajustados mentais” era presente. Estabeleceu-se então: o Posto Avançado de Neuro-Psiquiatria da FEB.

“Com a incumbência de estruturar e chefiar o Órgão que veio, depois, a chamar-se Posto Avançado de Neuro-Psiquiatria, tudo fizemos para que esse Posto cumprisse com a sua dupla missão de velar pelo moral da nossa tropa e de recuperar, com rapidez, os soldados chamados neuro-mentais para as novas investidas contra o inimigo.”

O Marechal Mascarenhas de Morais, na página 127 do seu livro – A FEB pelo Seu Comandante, escreve, a esse respeito, a seguinte nota:

“O Posto Avançado de Neuro-Psiquiatria, órgão básico para tratamento e recuperação rápida dos neuróticos, muita das vezes foi antena captadora da causas que buscavam deprimir o moral de nossa Unidade combatente”.

O Posto Avançado de Neuro-Psiquiatria teve uma relação direta no processo de admissão, tratamento e definição daqueles homens que tiveram distúrbios psicológicos durante a guerra. Como atribuições técnicas o PANP deveria cumprir às seguintes metas:

“a) o recebimento dos indisponíveis psico-neuróticos das unidades, através de triagem procedida pelo posto de Tratamento da divisão;

b) observação e tratamento precoce;

c) recuperação a muito curto prazo (até 5 dias);

d) possibilidade de reter em até 10 dias, em situações especiais;

e) evacuação para Seção Brasileira de Hospitalização anexa ao Hospital de Evacuação” .

O livro que utilizamos como fonte primária, além de tabelas e dados referentes a todo o processo de formação, andamento e fechamento do Posto Avançado de Neuro-psiquiatria , apresenta um relatório que o Cap. Mirandolino havia mandado ao Diretor do Serviço de Saúde da FEB após o processo seletivo dos soldados denominado: “Pré-FEB”. A segunda parte é denominada “FEB”, onde o autor apresenta os três primeiros meses do Posto Avançado de Neuro-Psiquiatria, o resultado dos trabalhos do P.A.N.P na campanha da Itália, os métodos usados no P.A.N.P e a cooperação e auxílios prestados ao P.A.N.P por outros órgãos da FEB. A terceira e última parte do livro chamada pós-FEB, pode ser caraterizada como uma análise sociológica produzida pelo Cap. Mirandolino acerca das relações entre o que ele chama de tenacidade e suas implicações dentro do país e diante de seus habitantes. É interessante perceber nesta parte do livro como o raciocínio do homem que seria o responsável pelo andamento psicológico da tropa brasileira era dúbio.

“...O que é certo é que a sociedade hoje organizada não constitui um ambiente harmonioso e pacífico, onde se possa viver tranqüilamente. O que nela predomina não são os interesses gerais da coletividade e, sim os dos indivíduos e dos grupos.

Isso que se passa com os indivíduos, se reproduz, em ponto maior, no âmbito dos povos e das nações. As nações, como é sabido, são grupos de indivíduos que tendo, embora, cada um, os seus interesses pessoais, se reuniram para defender, em conjunto, certos princípios, certa política e certa ideologia, que constitui os interesses comuns do conglomerado.”

Ainda que esse raciocínio seja lógico e pertinente, essa dominação existente nas Nações por grupos de indivíduos pode simbolizar, por exemplo, a segregação do grupo que lutou na FEB diante do grupo que comandou a FEB. Diversos são os comentários na bibliografia sobre este tema em relação aos erros de comando, falhas na administração, falhas na logística por parte do Estado brasileiro na Itália onde os praças, os soldados, foram os que pagaram as custas de tais erros. O pensamento do Cap. Mirandolino pode ser compreensível porém, ele não se encaixa na relação entre a tropa e comando na Itália.

Em forma de exemplo, a FEB teve, além do Posto Avançado de Neuro-Psiquiatria, um outro serviço que auxiliava contra os abalos psicológicos gerados pela guerra. Este serviço chamava-se Serviço Especial. Este órgão tinha como função permitir aos febianos momentos de relaxamento em meio à guerra. Viagens, apresentações de filmes, teatro, música, banhos em locais adequados, divertimentos que buscavam fazer o militar aliviar suas tensões em função das ações de guerra. Contudo, o despreparo e a desorganização fizeram com que a maioria dos militares não dispusessem de tais serviços. Um exemplo pode ser o fato dos responsáveis pelos filmes terem levado filmes em películas com uma determinada medida e não terem levado o projetor correspondente para tal filme, não podendo utilizar o projetor americano devido as diferenças de especificações da máquina, o resultado foi, por diversas vezes, os brasileiros terem que assistir filmes em inglês olhando apenas as imagens por não compreenderem a língua. “O Serviço Especial(...), tem se ressentido da falta de material de toda a ordem que não lhe foi fornecida pelo Ministério da Guerra. A falta mais grave porém, é a de meios de transporte que tem impossibilitado a execução de sérias tarefas ”.

Este Serviço Especial, ou a tentativa de colocá-lo em prática como era planejado, representa a desqualificação das ações dos militares superiores em capacidade organizacional e logística. Este trabalho identificou que estas falhas são inerentes a todo o cenário militar em que a FEB foi envolvida. Neste sentido, é fundamental uma análise da fonte, o livro-relato do Capitão Médico Mirandolino Caldas, que nos permite identificar que as falhas neste corpo militar eram presentes e suas reformas eram pleiteadas já algum tempo.

A primeira parte do livro, denominada Pré-FEB, é uma argumentação por parte do Cap. Mirandolino e de seus estudos sobre a tropa brasileira, para que o Serviço de Saúde da FEB procurasse perceber a necessidade de um trabalho psicológico em seus expedicionários e que não bastaria apenas homens com saúde física para suportar a guerra mas sim, principalmente, com saúde mental.

Esse primeiro relatório, datado em 16/11/1943, concilia as experiências que o Médico Mirandolino vivenciou no ato do processo seletivo para a formação do Corpo Expedicionário Brasileiro .

“Em resumo, a preparação psicológica da tropa exige que se faça o soldado passar por três fases sucessivas: na primeira fase, coloca-se o soldado numa situação dolorosa, mas decisiva, firme, irremediável – ter de seguir para a guerra. Na Segunda fase, procura-se evitar a revolta íntima, explicando a esse soldado porque ele foi colocado nessa situação dolorosa e irremediável – a razão superior contra a qual nenhum homem de brio poderá protestar. Na terceira fase, em que o soldado se debate entre duas forças opostas, a do instinto de conservação que o amedronta, e a do amor-próprio que o encoraja, auxilia-se, oferecendo ao seu espírito elemento decisivo que debelará o conflito – a força compensadora do interesse. Nessa terceira fase, o soldado vendo-se torturado pelas idéias trágicas da guerra, apega-se ao interesse como a única tábua de salvação e começa, então, a sonhar com o futuro, com o futuro da família, com o futuro da pátria...

O discurso do médico psiquiatra é patriótico, impulsionador e consciente. Entretanto, as variações de posição são freqüentes. Ora o autor se posiciona favorável ao Estado, ora ele é crítico aos erros e às falhas que este Estado apresenta diante de seus militares. “Com esse preparo psicológico, teremos um Corpo Expedicionário à altura de nossa missão. Se nada disto se fizer, estamos sujeitos a vergonhosas defecções” .

Esse discurso é fulcral diante da relação Estado e Clínica Médica.

Como embasamento teórico necessário para percebermos o papel da clínica médica e suas atribuições para com o Estado, o livro Michel Foucault, “O Nascimento da Clínica” é a referência que utilizamos neste trabalho.

Em “O Nascimento da Clínica”, Michel Foucault procura apresentar, historicamente, o processo em que a clínica médica sofre um rompimento com o espaço da representação, com o espaço superficial que modela suas caraterísticas nos séculos chamados clássicos, XVII e XVIII. Para Foucault, a clínica moderna, século XIX, assume um espaço objetivo, um espaço em que o real delineia a postura de uma prática que antes era superficial. Ao rejeitar a atitude predominantemente teórica, sistemática, filosófica, típica dos séculos XVII e XVIII, ganha uma objetividade que sustenta modernamente seus resultados e sua originalidade. A clínica moderna, atinge a doença não mais a partir da nosografia mas sim por localizar a doença intervindo no espaço corpóreo do indivíduo. Em suma, Foucault constrói a origem da clínica médica fazendo uma crítica histórica às estruturas políticas e epistemológicas que constituem a racionalidade contemporânea. Neste sentido, Foucault estabelece uma trajetória da clínica-médica em que suas relações são mescladas com o poder capitalista instaurado na sociedade contemporânea.

Ao pensarmos a clínica como lugar de fala do Estado aos doentes ou a clínica como a agência que trata o doente, estabelecemos um ponto de contato entre a teoria de Michel Foucault e a proposta deste trabalho acerca dos diagnósticos referentes a um grupo específico de militares que foram acometidos por distúrbios mentais ao atuarem na FEB durante a Segunda Guerra Mundial.

Ao pensarmos nas instâncias burocráticas e judiciais do Estado como dependentes da clínica médica ao concederem total autoridade à clínica no sentido de definir se um indivíduo pode ser, ou não, julgado em função de sua condição psicológica ou se um indivíduo pode, ou não, se aposentar por sua debilidade física ou psicológica, estamos aproximando ainda mais a relação com este “poder” de decisão que a clínica exerce sobre as esferas de saúde comandadas pelo Estado. Em suma, a clínica é Estado. A fala da clínica é poder.

Ao analisarmos “O Posto Avançado de Neuro-Psiquiatria” da FEB estamos analisando a clínica e suas formas de poder. Estamos analisando a posição dos médicos que podem estabelecer se o paciente está curado ou não. A decisão final é dele, do médico; é dela, da clínica.

Da mesma forma, além de analisarmos o papel da clínica médica, foi fundamental relacionarmos a idéia de grupo que se formou no seio da FEB. Para tal analise, como base teórica, o artigo do professor Denisson de Oliveira, “Poder Militar e identidade de Grupo na Segunda Guerra Mundial: A experiência histórica da Psiquiatria Militar Brasileira” foi de extrema importância para as conclusões que buscávamos. Este artigo

“se propõe a discutir, com relação à experiência militar da Força Expedicionária Brasileira(FEB) na Campanha da Itália(1944/45) na Segunda Guerra Mundial, dois aspectos que a literatura disponível considera centrais para o entendimento da organização da violência a partir das instituições militares: as formas pelas quais se dá a construção de uma identidade coletiva entre os seus membros e o papel que dentro desse processo é desempenhado pelos sentimentos experimentados pelos indivíduos. Este artigo pretende interpretar as evidências legadas sobre esses tópicos a partir de fontes legadas pela História Militar e pela Psiquiatria Militar brasileiras numa perspectiva interdisciplinar.”

Ao analisarmos o artigo do professor Dennison de Oliveira percebemos claramente a interdisciplinariedade proposta pelo autor para a condução de seu artigo. O artigo é orientado para uma construção abrangente do conceito de guerra e suas características. Violência, religiosidade, sentimentos, psicologia e medo são temas que circundam tal obra. Neste sentido, nosso trabalho difere do artigo em questão por não abordar, isso por não relacionar tais assuntos ao tema da pesquisa, aos diferentes eixos temáticos propostos pelo Professor Dennison de Oliveira.

No entanto, o artigo contribui, além de utilizar grande parte da bibliografia que utilizamos como referência e por abordar o mesmo corpus, para nos servir como embasamento teórico quando discutimos o despreparo e falta de organização de grupo no seio da FEB.

“Conforme nos referimos, o aspecto mais paradoxal da história da FEB é que essa tropa acabou por desempenhar bem suas tarefas de campanha na Itália, a despeito de inúmeras falhas no processo de mobilização, recrutamento, seleção médica, treinamento e comando no campo de batalha, para não mencionar os erros de comando. Contudo, parece haver um razoável consenso de que a FEB desempenhou a contendo as suas missões no teatro de operações da FEB, na Segunda Guerra Mundial....”

Conforme a citação utilizada, o Professor Dennison de Oliveira salienta as dificuldades da tropa brasileira mas apresenta os resultados surpreendentes que a FEB alcançou na Itália. Para este trabalho, nos apropriamos do conceito de identidade de grupo usado por Oliveira porém pretendemos utiliza-lo em sentido oposto ao utilizado pelo Prof. Oliveira. Partimos da premissa de analisar não os vitoriosos na guerra mas sim aqueles que perderam a batalha, para aqueles que a guerra saiu vitoriosa.

Queremos pensar os homens que estamos chamando de perdedores não por serem fracos ou incapazes. Estamos pensando este grupo “perdedor” como resultado do somatório da 2ª Guerra Mundial mais o despreparo e má formação da FEB na Itália. Como embasamento teórico, o artigo do Professor Dennison nos favoreceu para discussões sobre o grupo de militares que atuou na guerra, assim como suas origens e caraterísticas. E nos conduziu à uma discussão sobre os impactos da guerra sobre os indivíduos, tanto em grupo como individualmente.

Associando o artigo do Prof. Dennison ao livro do Cap. Mirandolino Caldas, já em sua segunda parte, podemos relacionar as propostas do Capitão Mirandolino para um bom andamento do moral e do psicológico da tropa brasileira no decorrer do conflito. Sua proposta real para organização médico-psiquiatra, em tese, não se resumia ao P.A.N.P, mas sim, ao que Cap. Médico chamou de “O Serviço Avançado de Medicina Psicológica” . Este serviço contaria com as seguintes divisões: o Posto Avançado de Neuro-Psiquiatria, como órgão básico para o tratamento intensivo e precoce, para uma recuperação rápida dos neuróticos de guerra. Posteriormente se estabeleceria o “Campo de treino e reabilitação”, em que o nome já suscita sua função de permitir aos homens que sofreram distúrbio neurológicos um local próprio para sua reabilitação. O Cap. Mirandolino estava certo que enviar um neurótico, por exemplo, com fobia a metralhadora para um hospital de guerra seria permitir que os medos daquele homem continuassem, uma vez que neste hospital ele iria assistir a diversos homens feridos, mutilados pela arma que o abalou psicologicamente. Seria um forte empecilho na recuperação daquele militar. No que se refere a reabilitação, seria necessário um local para que o doente pudesse ter contato com o artifício que o tirou de combate, em doses terapêuticas. O exemplo de fobia a metralhadora se encaixa nesta questão. A idéia de um campo de reabilitação teria como objetivo permitir que aquele sujeito amedrontado pela metralhadora pudesse ter um contato prévio com ela, seus ruídos e suas potencialidades, ao invés de voltar a ouvi-la já no campo de batalha, podendo acirrar suas neuroses.

Continuando com o Serviço Avançado de Medicina Psicológica , o Cap. Mirandolino buscava do Estado o fornecimento de um repousário para os doentes. Este repousário seria mais uma ação preventiva com as seguintes caraterísticas: servir de posto de observação dos suspeitos de neuroses de guerra uma vez que não seria interessante enviar para o mesmo local homens que não apresentassem de fato sintomas de neuroses para ficarem junto de homens com casos de neuroses já confirmadas. Além dessa função, o repousário também serviria para fortalecer os estafados e enfraquecidos e também como centro de higiene mental, mantendo um trabalho de prevenção a priori e a posteriori dos casos de neuroses de guerra.

A preocupação do Cap. Mirandolino se demostrou constante ao longo do processo de organização do Posto Avançado de Neuro-Psiquiatria. Essa preocupação já se fazia presente desde o processo seletivo da tropa, como foi comentado linhas acima. Contudo, a associação dos relatos provenientes do Posto Avançado com os Relatórios Médicos pertencentes ao Hospital Central do Exército demostram que um militar, seja ele de baixa patente ou oficial, após sofrer baixa psiquiátrica, não teve suas complicações neurológicas relacionadas ao mal preparo da tropa e nem com a falta de organização do comando da FEB. No sentido de prevenir de forma contundente estes possíveis e alarmados problemas que poderiam surgir em meio a 2ª Guerra Mundial, o comando da FEB e o governo brasileiro foram, de certa forma, facilitadores destas complicações neurológicas.

Uma relação encontrada, demostrando o descaso com os militares que se feriram, tanto físico quanto mentalmente, é a maneira que encontramos armazenadas as informações nos prontuários médicos que relatam os acontecimentos que foram geradores para os ferimentos que acometeram psicologicamente os militares brasileiros.

Nestes prontuários estavam descritos os fatos que conduziram os militares brasileiros à baixar nos hospitais de campanha ou de evacuação na Itália. Uma grande fonte histórica onde se pode encontrar relatos completos de acontecimentos sofridos com os brasileiros na Europa que são de fundamental importância para o estudo da participação brasileira na 2ª Guerra mundial. Um exemplo pode ser encontrado em um militar que sofreu ferimentos no crânio, pernas e braços após o desabamento de uma marquise devido a queda de uma granada alemã. Os ferimentos são relatados com grande quantidade de detalhes. As cicatrizes são medidas e informadas em centímetros e com exata localização no membro atingido. Por exemplo: “cicatriz de 22 centímetros na parte posterior da coxa esquerda proveniente de fratura exposta do fêmur”. Estes relatos, além de detalhados, são específicos quanto ao local de onde o paciente veio, para onde foi, em que porto brasileiro ele chegou e o que se definiu sobre aquele paciente.

No entanto, este trabalho procurou perceber as falhas na organização e preparo da tropa que conduziram os ferimentos psicológicos do militares brasileiros. Neste sentido, os relatos presentes nos prontuários médicos são de grande valia quando falamos em ferimentos físicos. Porém, quando falamos em “neuroses de guerra” a única informação encontrada é um número 631 que representa uma disfunção chamada “Neurose de Guerra”. Por que não ser relatado no prontuário médico o motivo que conduziu ou que gerou tal disfunção no paciente? Uma granada alemã ou uma metralhadora MG-42 causaram diversos ferimentos psicológicos nos militares brasileiros não porque eles não tiveram contato com tais armas mas porque o treinamento destes militares foi feito com armamentos obsoletos para sua época causando um estranhamento tal a ponto de produzir um desajustado mental no interior da tropa devido ao medo provocado pelo desconhecimento destes armamentos . A falta de relatos específicos nos prontuários médicos dos acometidos por Neuroses de Guerra podem, no eixo que este trabalho se estruturou, representar a tentativa do Exército brasileiro em transferir sua culpa, enquanto gestor ineficiente da Força Expedicionária Brasileira, para os homens retirados do cafezais, seringais e roças do Brasil.

Pensar uma tropa mal treinada, mal organizada e mal administrada remete uma séria de dúvidas acerca de seus sucessos e insucessos no campo de batalha. As fontes carregam uma série de contradições sobre as intenções do comando deste exército e de seus executores, especificamente o Cap. Médico Mirandolino Caldas que foi o mentor, organizador e responsável pelo setor onde seriam tratados os homens vencidos mentalmente pela guerra. Estabelecer uma relação entre falhas e conseqüências deste comando, das ações de guerra e dos resultados negativos identificados nos militares acometidos por distúrbios neurológicos é um trabalho complicado. Uma neurose de guerra identificada em um soldado ou oficial pode representar muito mais que uma simples fragilidade pessoal de um determinado indivíduo. Ela pode representar, além do despreparo psicológico de um soldado diante da maior atrocidade que o homem já pode criar, a 2ª guerra Mundial, a falta de comando e organização do comando militar que conduziu os febianos até à Itália; a falta de capacidade do Brasil em montar um corpo expedicionário capaz de enfrentar a realidade da guerra na Europa e todas as suas conseqüências; representar a busca pelo comando do exército em negar suas falhas transferindo a culpa para os “desajustados sociais” que “conseguiram facilmente” passar pelas comissões selecionadoras.

O inimigo brasileiro na Segunda Guerra Mundial talvez não tenha sido apenas os alemães, mas, talvez, os próprios brasileiros.

CONCLUSÕES

“Não se pode encarar apenas o fato de ter sido recondicionado um bom número de soldados para a FEB. Os 294 pacientes recuperados representam não somente 294 soldados ganhos pela 1ª D.I.E(Divisão de Infantaria Expedicionária), como também e sobre tudo menos 294 desajustados sociais ou menos 294 inválidos para o Brasil.

E, se considerarmos que cada inválido representa para a nação uma sanguessuga a sorver a seiva do Tesouro e cada desajustado social um infeliz a sofrer e atritar-se com o meio que vive, se considerarmos tudo isso, teremos que reconhecer também a elevada significação moral e econômica do trabalho realizado pelo P.A.N.P (Posto Avançado de Neuro-Psiquiatria) .

A leitura desta citação é agressiva. Perceber a fala do Estado através da clínica médica é confirmar uma busca por parte do Estado em negar que os homens que foram tirados de suas casas e de seus trabalhos, sem nenhuma experiência em conflitos armados, que dirá do maior conflito armado que o mundo já viveu, não tinham o direito de sofrer as conseqüências da pior atitude que o ser humano pode tomar, a guerra.

Essa citação foi retirada do livro base para este trabalho: “O Posto Avançado de Neuro-Psiquiatria da FEB” escrito pelo psiquiatra responsável pelo Posto Avançado, Cap. Médico Mirandolino Caldas. O mesmo homem que participou da avaliação psicológica dos febianos e afirmou em seu relatório que

”a conclusão geral que se pode tirar das observações que temos feito é que grande parte da tropa que está sendo examinada não apresenta ainda um preparo psicológico adequado. Há muito desespero, muita má vontade, muita indecisão”

Não é contraditório o médico responsável pela seleção psicológica da FEB, ainda no seu período de recrutamento em 1943, ter uma avaliação tão ríspida referente aos homens que sofreram ferimentos mentais ao fim da guerra uma vez que ele próprio ressaltava o despreparo destes mesmos homens durante o seu processo seletivo?

Uma outra fonte primária que auxiliou o andamento deste trabalho foi o Relatório de Saúde da Primeira Divisão de Infantaria Expedicionária pertencente ao Arquivo Histórico do Exército. Nesta fonte podemos perceber, mais uma vez, a tentativa de transferência de responsabilidades impressa pelo Estado em seus discursos que emanam da clínica médica:

“No parecer do mesmo especialista em nenhum dos 20 pacientes até agora vistos pareceu haver margem para presumir a influência exclusiva, predominante, ou mesmo simplesmente adjuvante dos chamados fatores etiologicos da guerra.

A maioria, segundo ficou desprendido dos antecedentes e curva vital, já era anteriormente portadores de distúrbios, quer psicopáticos, quer neuróticos ou psicóticos. Alguns sendo apenas fronteiriços (neuróticos, psicopatas) conseguiram facilmente se infiltrar pelas inspeções selecionadoras, que são impotentes para surpreender estados mórbidos só exteriorizáveis na continuidade da conduta e reações em face dos problemas vivênciais.”

Como um médico especialista, representando a voz da clínica médica, assume que o processo seletivo é impotente para identificar um distúrbio neurológico e transfere a responsabilidade deste distúrbio para o indivíduo que não conhecia o motivo pelo qual estava enfrentando um “tal” alemão numa “tal” Itália ao lado de um “tal” americano, e afirma que ele já saiu do Brasil com distúrbios mentais e que estes foram agravados com as ações da guerra? Muito provavelmente, este médico, não esteve presente em um dos diversos ataques alemães e ou simplesmente nunca ficou próximo a uma rajada da metralhadora alemã MG-42, apelidada pelos brasileiros de “Lurdinha” ou “rasgapano” .

Pensar nos homens que saíram do Brasil sem o devido preparo físico e mental e admiti-los como potenciais soldados nas circunstancias da 2ª Guerra Mundial foi uma atitude desmedida do Estado brasileiro.

É fundamental perceber que, do leque de fontes analisadas, foi retirado o viés de análise dos que comandaram esta Força Expedicionária. Foi interpretada a posição de um grupo muito específico que tinha por interesse minimizar seus erros e externar as falhas correspondentes aos mais fracos deste corpo militar, os soldados e sargentos, os “praças” em geral . O desfecho deste trabalho procurou percorrer as entrelinhas do repertório de fontes disponível, discutindo as possíveis causas que conduziram a formação dos “neuróticos” de guerra entendendo que, além dos fatores etiológicos inerentes à guerra, a Força Expedicionária Brasileira e seus resultados são frutos diretos das decisões, vontades e imposições do Estado brasileiro camufladamente uniformizado com a farda do Exército. Neste sentido, a Clínica Médica é resultado desta linha de pensamento e procura negar, em todas as suas prerrogativas, as falhas ou despreparos da coordenação deste Exército.

Desta forma, discutindo uma nova interpretação sobre o tema, este trabalho teve por características analisar um grupo particular que sofreu graves conseqüências em função da guerra, os chamados “neuróticos de guerra”. Através deste grupo específico, tivemos a possibilidade de discutir a maneira como o Estado Brasileiro reconheceu, ou não soube reconhecer, como seu despreparo e incapacidade foi responsável pelo acometimento psicológico dos homens que só queriam voltar aos seus morros, choupanas, seringais e para sua boa terra do coco.

Anexo 1.

QUADRO 1 - NÚMERO DE PACIENTES ENTRADOS NO POSTO AVANÇADO DE NEURO-PSIQUIATRIA (PANP) DE SETEMBRO DE 1944 A MAIO DE 1945

 
mês/ano                    1ªadmissão             readmissão               total
setembro de 1944           18                              0                         18
outubro de 1944              11                              1                         12
novembro de 1944          40                              2                         42
dezembro de 1944          68                              3                         71
janeiro de 1945               58                              2                         60
fevereiro de 1945            58                              4                         62
março de 1945                61                             15                        76
abril de 1945                   34                              7                        41
maio de 1945                   2                                0                          2
SOMA                            350                             34                      384

 
Fonte: CALDAS,1950. p.57
 
Anexo 2

QUADRO 2 - ENTRADA DE COMBATENTES NOS POSTOS DE ATENDIMENTO PSIQUIÁTRICO BRASILEIROS POR DIAGNÓSTICO SEGUNDO O PANP:

Estado de ansiedade ............................... .102
Histeria (ataques) .................................. ....33
Histeria (estupor emotivo) .................... ......3
Histeria (paralisia) ................................. .....2
Histeria (alucinações oníricas) .............. .....2
Histeria (surdo-mudez) .......................... ....1
Histeria (amaurose) ............................... ....1
Organo-neurose .........................................30
Fobia de obuses .........................................33
Fobia do fronte ....................................... ...20
Fobia de metralhadora ........................... ....8
Fobia de tiros .......................................... ...4
Personalidade psicopática ...................... ..11
Neurastenia emotiva ............................... ...7
Esquizofrenia ......................................... ....5
Esquizomania .............................................1
Estado maníaco...........................................1
Depressão melancólica .......................... ....3
Exaustão ................................................. ...11
Alcoolismo ............................................. .....8
Epilepsia ................................................. ....4
Deficiência mental ................................. .....5
Deficiência mental-inversão sexual ........ ....1
Sentimento de inferioridade ................... .....3
Concussão cerebral ................................ ....2
Confusão mental .................................... .....3
Síndrome paranóide ................................... 3
Gagueira emotiva ....................................... 2
Nevralgia facial ...................................... .....1
Caimbra profissional .............................. .....1
Síndrome parkinsonoide ......................... ....1
Simulação de ataques epilépticos ........... ..20
Simulação de psicose ............................. ....5
Simulação de amnésia ................................1
Simulação de tubérculos ............................ 1
Simulação de insônia ................................. 1
Não diagnosticado .......................................5

Fonte: CALDAS,1950. p. 75

Bibliografia

• Fontes Primárias:

CALDAS, Mirandolino. O posto Avançado de Neuro-Psiquiatria da FEB. 2ª ed. Rio de Janeiro, 1950.

Relatórios Médicos da 1ª D.I.E.(Divisão de Infantaria Expedicionária). Arquivo Histórico do Exército(AHEx). Caixa 155, I-23, P-03, N27103.

Prontuários Médicos dos Expedicionários. Hospital Central do Exército. Serviço de Arquivo Médico e Estatística. Setor de Contingente, sem caixa ou referência. Documentação inédita.

• Fontes Secundárias:

ALMEIDA, Francisco Eduardo Alves de. “Tudo pela Pátria”: a Grande Guerra no mar e o Poder Naval Brasileiro de 1914 a 1917. Orientador: Francisco Carlos Teixeira da Silva. Rio de Janeiro: UFRJ / IFCS, 2007. Monografia (Bacharelado em História).

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BONANATE, Luigi. A Guerra. São Paulo: Estação Liberdade, 2001.

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CLAUSEWITZ, Carl von. Da Guerra. Lisboa: Ed.Perspectivas e Realidades,1976

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FOUCAULT, M. O Nascimento da Clínica. 6ª ed. Rio de Janeiro: Editora Forense – Universitária, 2004.

GONÇALVES, Carlos de Paiva. Seleção médica do pessoal da FEB: histórico, funcionamento e dados estatísticos. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, s/data.

KEEGAN, John. Uma História da Guerra. São Paulo: Cia. das Letras,2001.

MANNA, Rubens de Lacerda. Alguns aspectos da psiquiatria militar. Tese de livre docência apresentada à Faculdade de Medicina da UFPR. Curitiba, 1950.

MAXIMIANO, Cesar Campiani. Onde estão nossos heróis: uma breve história dos brasileiros na 2ª Guerra Mundial. São Paulo: Maximiano, Ed. do autor,1995.

MORAES, J. B. Mascarenhas de. A FEB pelo seu comandante. Rio de Janeiro : Impressa no Estabelecimento General Gustavo Cordeiro de Farias, 1960, 2ª edição.

OLIVEIRA, Denisson de. Poder Militar e Identidade de Grupo na Segunda Guerra Mundial: A experiência histórica da Psiquiatria Militar Brasileira. In: História: Questões e Debates. n° 35. Curitiba: Editora da UFPR, 2001. p. 117-154.

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SOARES, Leonércio. Verdades e Vergonhas da Força Expedicionária Brasileira. Curitiba : S.E., 1992.

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WAACK, William. As Duas Faces da Glória: a FEB vista pelos seus aliados e inimigos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

Publicado por: Kleber Koeller

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