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A CIDADE, SÍMBOLO DA MODERNIDADE

História

Processo do desenvolvimento do “urbanismo” desde Londres após a Revolução industrial até se chegar ao alvorecer do século XIX, quando a cidade de Divinópolis dá seus primeiros passos.

índice

1. INTRODUÇÃO

A CIDADE COMO SIMBULO DA MODERNIDADE

Retomando ao conceito prévio de modernidade como aquilo que nega o anterior, aquilo que vem para substituir o que já existia, chegamos ao que Kant e Weber chama de modernidade. Para estes autores a modernidade, ocidental, é aquela atingida quando os homens colocam em prática a razão, separando os espaços políticos do religioso, entre o público e o privado.

Marshall Berman em seu livro Tudo que é sólido desmancha no ar, define como moderno se encontrar em “ um ambiente que promete aventura, poder, alegria, crescimento, auto transformação e transformação das coisas em redor – mas ao mesmo tempo ameaça destruir tudo o que temos, tudo que sabemos, tudo que somos”1.

Neste sentido, experimentamos no final do século XIX e início do XX o surgimento de ideais modernizadores no país. Intelectuais e políticos da época, em detrimento a um modelo autoritário de governo, a monarquia de Pedro II, se colocam a pregar a instauração de um regime republicano, racional, pautado em ideais positivistas, muito presentes nos discursos modernizadores. Se propõe em construir o novo e destruir o antigo.

Com a Proclamação da República, colocam-se em prática as reformas do que era compreendido como o antigo em busca do novo, da ordem e progresso. Assim, busca-se alcançar a modernidade reformulando o lugar onde moram os cidadãos, a cidade.

2. CAPÍTULO I

URBANISMO E HISTÓRIA A CIDADE COMO MEIO DE CONTROLE SOCIAL

Em diversas partes do Mundo, a partir da revolução francesa e industrial, experimentou-se uma profunda transformação do espaço urbano. Em muitos casos a migração do camponês para a cidade provocou uma explosão populacional nas cidades jamais visto. Surge aí, um imenso problema nas mãos das autoridades, a necessidade de se criar um espaço urbano planejado, capaz de controlar as ações dos cidadãos.

No velho mundo, onde se experimentou o desenvolvimento urbano juntamente ao desenvolvimento econômico, as cidades cresceram e foram se moldando às novas realidades. Já em outras partes, onde não se deram as mesmas condições, tentou-se alcançar o desenvolvimento econômico através da construção de cidades planejadas. Um exemplo é o Rio de Janeiro, que sofreu profundas reformas no início do século XX, e Belo Horizonte, no final do século anterior, é totalmente construída e planejada para atender a nova demanda que impunha a nova ordem política recém instaurada no país, a República.

É neste contexto que figura Divinópolis, um pequeno arraial que até 1910 não apresentava muitas diferenças em seu traçado de duzentos anos antes.2 E que, a partir daí, com a profunda dedicação de um homem, Pedro Xavier Gontijo, que foi capaz de mobilizar todo um arraial em prol de um ideal modernizador afim de elevar à cidade e ao desenvolvimento, ainda que por meios antiquados como veremos.

Neste contexto é que se fixa este trabalho, o de tentar mostrar o que há de moderno nos ideais proclamados por este homem que inflamou os proeminentes a se dedicarem ao seu projeto. Discutir o que há de novo e o que é parte da tradição.

Assim, se faz necessário uma breve discussão do processo do desenvolvimento do “urbanismo” desde Londres após a Revolução industrial até se chegar ao alvorecer do século XIX, quando a cidade de Divinópolis dá seus primeiros passos.

Francisco Carlos Palomanes Martinho, em seu livro Resistências ao Capitalismo: plebeus, operários e mulheres, faz um breve histórico de Londres após a Revolução Industrial, afirmando que:

A Revolução Industrial, com rápido desenvolvimento fabril, provocou mudanças profundas nas sociedades européias, tradicionalmente agrária, umas das mais importantes foi o rápido processo de transformação nas cidades. Por um lado, a cidade virou um espaço público onde a população pobre que nela morava escapava à vigilância e ao controle, tão comuns no mundo rural.3

Com o desenvolvimento das fábricas, um grande número de pessoas migraram para as cidades causando muito alarde entre os conservadores, principalmente “devido ao medo que se tinha não apenas da classe operária, mas sobretudo do grande número de desempregados, vagabundos e mendigos que tomava conta do espaço público.”4

Londres viveu um aumento demográfico expressivo. “Em 1850 tinha uma população de mais de 2 milhões de habitantes; em 1870, esta população já chegava a 3,3 milhões e, em 1914, atingia a marca de 4,6 milhões.”5

Este período foi marcado por profundas agitações sociais e pela tentativa de consolidação do espaço urbano como maior exemplo de civilização industrial. Londres era a mais importante cidade e seu crescimento, vertiginoso, acontecia sem qualquer controle, apenas em 1850 criou-se um departamento de obras públicas.

Na segunda metade do século XIX, Londres era entre todas as cidades a mais próspera, com uma grande riqueza cultural, tinha o maior porto que lhe garantia um status de cidade cosmopolita, lugar de encontro dos intelectuais da época. Mas Londres era algo mais, “estava repleta de batedores de carteira, mendigo, inválidos e toda espécie de trabalhadores informais, que faziam da rua o lugar de seu trabalho.”6Além da sujeira que assolava as ruas de uma cidade, também não possuía uma estrutura capaz de resolver os problemas de higiene.

Paris também se assemelhava a Londres quanto ao seu rápido crescimento a partir da Revolução Francesa.

As condições de vida e moradia da população pobre de Paris impunham à cidade, principalmente em certas áreas, um atmosfera sufocante. Para as classes dominantes, a promiscuidade e a falta de higiene caracterizavam um comportamento selvagem em nada dignificante. Tanto é assim que suas preocupações fundamentais nesse terreno eram a higienização e o controle.7

Paris , assim como Londres, e outras cidades não contavam com uma política de saneamento e higiene até o meados do século XIX e início do século seguinte.

As cidades cresciam muito aceleradamente e, no mesmo ritmo, cresciam também seus problemas. A começar pelo problema crônico da falta d’água. Não só a falta d’água, mas também a ausência de lugares onde jogar a água após o seu uso. O lixo, os esgotos domésticos e mesmo os dos urinóis eram jogado na rua. Os esgotos públicos, raros, desaguavam no rio local. Assim, o hábito de tomar banho, devido à falta d’água e às dificuldades de sua eliminação em coisa rara. Raras eram as casas com banheiras e muitas pessoas atravessavam suas vidas sem tomar um banho sequer.”8

A partir da segunda metade do século XIX, o prefeito de Paris, Georges Eugène Haussmann, investido no cargo por um mandato imperial de Napoleão III, inicia uma gigantesca reforma urbana na cidade. Abriram no meio da cidade um “sistema circulatório urbano”, provido de largos bulevares que permitiriam o tráfico em linha reta de um extremo a outro. Para tanto foram derrubadas as moradias miseráveis, abrindo espaços livres para a instalação de centros comerciais que ajudariam a custear as imensas demolições, indenizações e novas construções. As massas foram pacificadas com o seu emprego nas obras públicas a longo prazo e nos novos empregos no setor privado. O planejamento urbano significava, assim, uma nova visão sobre as funções da cidade

Criaram longos e largos corredores através dos quais as tropas de artilharia poderiam mover-se eficazmente contra futuras barricadas e insurreições populares.(...)Os bulevares representam apenas uma parte do amplo sistema de planejamento urbano, que incluía mercados centrais, pontes, esgotos, fornecimento de água, a Ópera e outros monumentos culturais, um a grande rede de parques 9

A cidade reformulada cria um ambiente propício para a reunião de um enorme contingente de pessoas, que vão aos bulevares para freqüentarem os inúmeros cafés, restaurantes e lojas. Assim, “por volta de 1880, os padrões de Haussmann foram universalmente aclamados como o verdadeiro modelo do urbanismo moderno. Como tal, logo passou a ser reproduzido em cidades de crescimento emergente.”10

São Petersburgo, por outro lado, é um bom exemplo de uma modernidade imposta através da criação de um espaço urbano moderno, ao contrário do ocorrido nos países ocidentais onde, via de regra, a cidade era o fruto da modernidade e não a sua causa.

Para abordar o que correu com São Petersburgo é preciso verificar a situação mundial no século XIX. Dessa forma é possível que a partir da Revolução Industrial e Francesa o mundo ocidental experimentou um grande desenvolvimento econômico e tecnológico.

Ao longo do de todo século XIX, levantes de modernização estavam acontecendo. Contudo, o que aconteceu nas áreas fora do Ocidente, onde, apesar das pressões crescentes do mercado mundial em expansão e do desenvolvimento simultâneo de uma cultura mundial moderna, a modernização não estava acontecendo? É óbvio que nelas os significados da modernidade teriam de ser mas complexos, paradoxais e indefinidos. Essa foi a situação Rússia por quase todo século XIX.11

A Rússia possuía uma economia estagnada que, em alguns aspectos, até retroagia. Os russos conheciam a modernidade como algo que não estava ocorrendo com eles. Era algo que acontecia em um lugar distante. De maneira que “a angústia do atraso e do subdesenvolvimento desempenhou um papel central na política e na cultura russa.”12 Dessa forma, a partir da década de 1703 até a Revolução Russa (1917), os russos enfrentaram questões que posteriormente seriam também enfrentados pelos países africanos, asiáticos e latino-americanos.13

Com a construção de São Petersburgo em 1703, pelo Czar Pedro I, nasce “a mais clara expressão de modernidade no solo da Rússia.”14 Construída sobre um pântano, São Petersburgo é um exemplo de modernidade “concebida e imposta”.

O Czar instituiu São Petersburgo como centro comercial da Rússia, sua porta de entrada para a Europa e descartou Moscou a partir de suas características tradicionais. É da negação do antigo para instituição do novo, que a cidade foi planejada, projetada e organizada para dar à Rússia os ares modernos da Europa.

No entanto, os métodos usados na construção, na forma como foi administrada e concebida são parte de uma realidade inteiramente Russa. Foi através da imposição do Czar que milhares de operários se deslocaram para o “pântano” para construir a cidade. Tinha-se o objetivo de se modernizar a Rússia, mas por detrás das ações estavam um modo antiquado de gerir pela imposição, pela força. Edificava-se, assim, uma cidade moderna sobre as bases “antiquadas”. São Petersburgo se torna, assim, uma cidade secular, de desenvolvimento cultural. Intelectuais eram mantidos pelos imperadores, que pretendiam “com isso construir fachadas racionais e utilitaristas para seus governos.”15 A cidade foi por vezes remodelada, e nos impérios de Ana, Elizabete e Catarina a Cidade foi “prodigamente decorada e embelezada, usando-se arquitetura e formas ocidentais”16, sendo os estilos tradicionais russos proibidos. Regras foram criadas para dar uma aparência urbana de grandes amplitudes, porém, não havia regras para os interiores das construções, “de forma que, principalmente quando a cidade cresceu, os exteriores majestosos escondiam favelas supuradas, civilizadas apenas no exterior.”17

São Petersburgo se destaca pela sua disparidade com o restante do país, tanto no nível ideológico, na valorização do novo, quanto na questão ambiental, o que gerou uma resistência violenta e duradoura da população. A cidade experimentou uma modernidade imposta e gerida pelo governo, porém o contato com a cultura ocidental germinou nos cidadãos de São Petersburgo, ou em pelo menos parte deles, uma vontade de tomar para eles a “iniciativa, difundindo, à sua maneira , o espaço público e a vida pública.”18 Muitos foram para lá, inicialmente, por imposição do governo despótico, contudo começavam a reivindicar o direito de estarem aí por suas próprias razões.

No Brasil a questão do desenvolvimento urbano não seria muito diferente. Em muitos aspectos assemelha-se à Rússia quando enfrentou os problemas impostos pelo desenvolvimento mundial e na medida que pretendeu alcançar o novo negando o antigo.

A escala e o custo extraordinário dos confrontos bélicos no Prata, em especial a catastrófica Guerra do Paraguai, forçaram o endividamento galopante que desestabilizou as bases do Império brasileiro. Foi no contexto desse processo de desestabilização institucional que se fundou o Partido Republicano (1870), propondo a abolição da monarquia, e entrou em cena uma nova elite de jovens intelectuais, artistas, políticos e militares, a chamada “geração de 70”, comprometida com uma plataforma de modernização e atualização das estruturas ‘ossificadas’ do Império, baseando-se nas diretrizes científicas e técnicas emanadas da Europa e dos Estados Unidos. 19

Inspirados pelos diretrizes científicas, tendo como base o darwinismo social do inglês Spencer e o positivismo francês de Augute Comte, assim como, apoiados pelo capital dos cafeicultores do sudeste e de suas influências políticas, no final do século XIX os jovens da “geração de 70” se puseram a promover a derrubada da Monarquia e a Implantação da República.

Com a Proclamação da República, as primeiras medidas governamentais foram de ordem econômica, por exemplo a “abertura da economia aos capitais estrangeiros, a permissão para bancos privados emitirem moeda, uma nova lei liberal das sociedades anônimas e a criação de um moderno mercado de ações.”20

A modernização deveria ocorrer a todo custo. O resultado destas medidas foram a penetração de capitais estrangeiros e da “mais escandalosa fraude especulativa”21, conhecida como encilhamento. O resultado foi a ruína dos capitalistas da monarquia e o surgimento de um novo grupo enriquecido no jogo especulativo. Juntos com os cafeicultores, estes tornaram- se a base econômica que sustentaria a “elite científica e tecnocrática inspirada no rígido racionalismo positivista.”22

A ascensão destes novos homens implicou em diversas mudanças sociais e em diversas ações afim de manter a Republica. Uma destas ações, por exemplo, foi a derrocada de Canudos, tido como um reduto monarquista no sertão da Bahia, por tropas do Exército que, somente na quarta expedição conseguiu êxito.

Outra ação da República em função de seus ideais modernizadores, que nos interessa, principalmente, foi a construção e reforma de algumas das principais cidades do recém criado regime, tais como Belo Horizonte e Rio de Janeiro.

Batistina Maria de Sousa Corgozinho, em sue livro Nas Linhas da Modernidade23, que trata da passagem do tradicional ao moderno no centro-oeste de Minas Gerais traz o conceito das possibilidades de modernização urbana ocorridas no Brasil. A primeira delas, a experimentada em Belo Horizonte, é aquela em que uma cidade é inteiramente projetada e construída em um espaço desocupado, preservando a antiga cidade, neste caso Ouro Preto. Neste não há conflitos internos da nova cidade, já que até então não existia, mas externos como a especulação imobiliária e disputas entre regiões que desejam sediar a nova cidade.

Belo Horizonte é exemplo da modernização urbana promovida pela recém instalada República. Totalmente planejada e construída entre 1894 e 1897 em uma

atmosfera de incerteza política e de efervescência ideológica dos primeiros anos da República, em meio à necessidade de legitimar o regime, instaurado por um golpe militar, sem dúvida delineou um horizonte favorável ao gesto ousado de construção de uma cidade-capital24

Uma cidade planejada nos moldes europeus, delineada com a mais moderna técnica, voltada para construir um ambiente urbano salubre, aberto, onde o controle tanto de endemias quanto de pessoas fosse possível.

O Rio de Janeiro é um exemplo do um segundo modelo de modernização urbano identificado no Brasil, semelhante aos empregados em Paris, em que a nova cidade surge no interior da velha, através de desocupações e derrubada da já existente, gerando conflitos internos como desalojamento de pessoas e interrupções de vínculos afetivos. É uma sobreposição da cidade nova sobre a velha.

O Rio de Janeiro era o principal porto de exportação e importação do país e o terceiro em importância no continente, depois de Nova York e Buenos Aires. Mais que isso, como capital da República ela era a vitrine do país. Num momento de intensa demanda por capitais, técnicos e imigrantes europeus, a cidade deveria operar como um atrativo para os estrangeiros. Mas, ao contrário ela era acometida por uma série de endemias, que assolavam e vitimavam sua população local. O Rio apresentava focos permanentes de difteria, malária, tuberculose, lepra, tifo, mas suas ameaças mais aflitivas eram a varíola e a febre amarela que todo verão se espalhava pela cidade como uma maldição. Por isso a cidade tinha, desde o século XIX, a indesejável reputação de ‘túmulo do estrangeiro’.25

Diante desta situação, as autoridades organizaram uma ação conjunta que reestruturaria a cidade em três instâncias, fazendo surgir a nova cidade. As medidas foram a modernização do porto, saneamento da cidade e a reforma urbana. Uma equipe foi nomeada pelo presidente Rodrigues Alves: “o engenheiro Lauro Müller para a reforma do porto, o médico sanitarista Oswaldo Cruz para o saneamento e o engenheiro urbanista Pereira Passos, que havia acompanhado a reforma urbana de Paris, para a reurbanização” 26

As reformas se voltaram para o centro da cidade, onde haviam muitos casarões em que moravam um grande número de pessoas pobres, que tiveram suas casas invadidas por equipes do sanitarista e derrubadas pelo reurbanizador. Um contingente enorme de pessoas foram postas na rua, migrando para os morros, iniciando essa nova ocupação. Surge aí as favelas. Diante destas ações arbitrárias o povo se revolta .

A Regeneração se completou no fim desse mesmo ano de 1904. Seu marco foi a inauguração da avenida Central, atual avenida Rio Branco, eixo do novo projeto urbanístico da cidade. As revistas mundanas e os colunistas sociais da grande imprensa incitavam a população afluente para o desfile de modas na grande passarela da avenida (...), nas mediações, as tradicionais festas e hábitos populares, congregando gentes dos arrabaldes, foram reprimidos e mesmo o Carnaval tolerado não seria mais o do entrudo, dos blocos, das máscaras e dos sambas populares, mas dos corsos de carros abertos (...), típicos do Carnaval de Veneza, tal como era imitado em Paris.27

A reforma urbana do Rio de Janeiro bem como a construção de Belo Horizonte, se destinaram à introdução no país de ideais de controle social, assim como em Londres e Paris, e São Petersburgo, para levar o país à alcançar a “modernidade”.

Neste contexto encontramos Divinópolis um exemplo próximo desse processo de modernização. Emancipada em 1911 por um processo que envolveu a elite da cidade em uma série de medidas que modernizadoras que se identificam com os ideais republicanos de se alcançar o progresso pela ordem, como pretendo demonstrar. Divinópolis representa o que Corgozinho define como sendo um terceiro modelo de modernização do espaço urbano, chamado pela autora de modelo ‘paralelo’, em que não é um construção de uma nova cidade em um lugar desocupado, nem o de sobrepor uma cidade nova sobre a velha. É um meio intermediário entre esses dois modelos, em que a cidade nova é construída ao lado da cidade velha, preservando-a e em até certo ponto a ignorando. Este convívio entre o novo e o velho se dá até que o antigo se torne um empecilho à expansão da nova cidade.

3. CAPÍTULO II

DIVINÓPOLIS, CIDADE MOLDADA PARA O FUTURO

Divinópolis, antes chamada de Paragens do Itapecerica, Espírito Santo do Itapecerica e Henrique Galvão, segundo o conhecimento popular fora fundada por

fugitivos da Guerra dos Emboabas, luta que aconteceu na região mineradora de Minas Gerais, no início do XVIII. Estes fugitivos teriam se fixado às margens do rio Itapecerica para escaparem das perseguições que estavam sofrendo. A área junto à Cachoeira Grande, conhecida como Passagem do Itapecerica, já era percorrida por tropeiros a caminho das vilas de Pitangui, Tamanduá e São João del- Rei, desde meados do século XVIII, possivelmente antes mesmo do surgimento do arraial do Espírito Santo do Itapecerica.28

Estes homens aqui se fixaram e começaram o primeiro núcleo do povoado, que pouco se desenvolveu até início do século XX.

Até a chegada da Estrada de Ferro Oeste de Minas, final do século XIX, o arraial era um núcleo tradicional em que a dependência do trabalhador rural em relação ao fazendeiro gerava uma relação muito estreita entre os habitantes. A religião predominante era a católica, o que fazia do padre uma figura muito importante para a população, “sendo uma população predominantemente católica, as atividades religiosas no arraial, tais como a missa aos domingos e as festas religiosas, eram fatores de sociabilidade, aglutinação e unidade entre as pessoas”.29

Como descreve Pedro Xavier Gontijo, em seu livro História de Divinópolis: 1684

– 1936, em 1895, Divinópolis, nesta época chamada de Espírito Santo do Itapecerica, era constituída pelos seguintes elementos:

a matriz, com umas casa regulares ao redor, uma rueta, hoje Santa Casa; duas ruetas saindo dela para a Praça da Matriz: duas ruetas saindo da Praça da Matriz, até, hoje, a Rua Itapecerica, ainda existentes todas elas, embora com algumas pequenas modificações; uma rua mais larga, hoje Rua do Comércio; uma ruazinha toda torta, chamada Rua Direita; umas casinhas espalhadas pelo Córrego do Barro; uma só escola, (...), Escola Mestre Juca.30

A partir de 1888, desencadeara-se profundas mudanças no cenário nacional brasileiro rumo a um progresso material. No Brasil percebeu-se o deslocando da sociedade brasileira do mundo rural para o urbano, apagando com isso os vestígios do nosso passado tipicamente agrário. Estava em formação algo novo, dominado pelas cidades, que, rompidas com a antiga ordem rural, reclamavam agora sua soberania.

Em Divinópolis não foi diferente. Quando no final do século XIX passa pelo então arraial a Estrada de Ferro Oeste de Minas (EFOM), criada ainda no Império para chegar até aos limites da Província de Minas Gerais, modifica em muito o cotidiano da população. Os trabalhadores da ferrovia, principalmente portugueses e italianos, vêm para o arraial para trabalharem na construção da estrada. Isso causou um choque entre a população local e os forasteiros acostumados a um estilo de vida já urbano, de relação mais impessoal. Há relatos que na época ocorreram confrontos entre a população do arraial e os trabalhadores da ferrovia.

Os tiroteios aconteciam geralmente à noite, principalmente nos finais de semana. Nesses dias muitas famílias apavoradas e sem apoio de autoridades policiais, que haviam abandonado seus postos, saíam de casa e se escondia no mato. Diante dessas ameaças a população começou a se organizar contra a ação desordeira. A primeira resistência contra os abusos foi organizada pelo vendeiro Belmiro e o oficial de justiça Joaquim Inácio, mas o grupo de portugueses descobriu e atacou a casa de Belmiro destruindo tudo após a fuga dos residentes. A segunda resistência foi comandada por Hipólito, um pequeno produtor local, que estava sendo ameaçado pelo grupo de portugueses e para enfrentá-lo solicitou o apoio do amigo João Epifânio e do chefe político major Francisco Machado Gontijo, recebendo armas e munições. Organizou a resistência com a participação principalmente de sua família e enfrentaram o ataque dos portugueses à sua casa, localizada no cruzamento atual entre a rua Paraíba com a avenida 1º de junho. O líder dos desordeiros e outros foram mortos e os demais membros do grupo foram retirados do arraial pelo engenheiro da estrada. 31

Além dos conflitos, a chegada do trabalhador estrangeiro marca o surgimento de novas relações sociais. Como as novas casas, construídas para abrigar os trabalhadores da ferrovia, foram feitas ao longo da linha férrea em função da ferrovia e não mais em função da igreja da Matriz, saindo do núcleo tradicional, inaugurando um modelo de povoação funcional para atender as necessidades práticas da empresa, do capital. Além disso, eram pessoas desvinculadas da teia tradicional das relações sociais uma vez que assalariados, os funcionários não tinham uma relação pessoal com seus patrões, como era a tradicional relação na região, mesmo porque a figura do patrão esta diluída no sistema de hierarquia do trabalho operário, sendo, portanto, impessoal.

A economia também sofreu profundas mudanças. Antes o comércio voltado para atender a uma clientela estável, rural, servia de suporte as necessidades que o consumidor não poderia produzir. Agora, com um novo tipo de cliente, o trabalhador assalariado, era necessário a implementação de uma rede de comércio que atendesse também as suas necessidades.

Tal foi a importância dos funcionários da ferrovia para o comércio que quando ocorreu a primeira greve dos operários em 1899, devido ao atraso no pagamento dos salários, receberam a ajuda de “Aristóteles Epifânio Pereira, um negociante da rua do Comércio. Ele improvisou uma cozinha em frente à sua loja e forneceu comida gratuitamente aos grevistas durante todo o movimento”.32 Esta adesão do comerciante ao movimento dos operários iniciou mudanças no convívio da população do povoado e os trabalhadores da ferrovia. Assim, “a greve dos ferroviários contribuiu como meio de articulação entre os novos e os velhos habitantes, pois era um conflito organizado e, não, uma arruaça com insegurança para a população, como tinha ocorrido anteriormente.33

A ferrovia cria novas oportunidades de intercâmbio entre o arraial e as outras cidades da região também cortadas pela ferrovia e a capital, Belo Horizonte. Viagens que duravam dias eram feitas em horas, diminuindo a distância do contato com outros centros.

Além de atrair um número grande de forasteiros de cidades vizinhas para aqui trabalharem na ferrovia, aumentou em muito a demografia do arraial.

Devido a importância que passou a ter a ferrovia na região pelo fluxo de pessoas e cargas que transportava, foram construídas no arraial, a partir de 1910, as oficinas da EFOM para se dar manutenção nas locomotivas em tráfego e também para fabricar peças e equipamentos de reposição.

A instalação das oficinas da EFOM teve um significado fundamental. Pois representaram o surgimento da primeira grande fábrica na cidade consolidando-se como uma nova estrutura de trabalho e produção.34

As oficinas foram instaladas na área plana e distante do núcleo velho. Neste local também foi construída a Vila Operária para abrigar os trabalhadores da ferrovia. A forma como foi construída a vila influenciou no planejamento da parte nova da cidade, localizada entre o núcleo antigo e a vila.

Olhando a parte antiga do arraial, vêem-se ruelas estreitas, curvas, com suas construções voltadas para o largo da Matriz. Ao longo das ruelas as casas vão se dispondo sem qualquer organização ou planejamento prévio. Ao contrário, a Vila Operária obedeceu a um outro tipo de ocupação do espaço, caracterizado pela existência de ruas retas, cruzadas, formando grandes quarteirões divididos em lotes

menores, onde foram construídas as residências impessoais e iguais, distribuídas geometricamente nas imediações das oficinas.35

A vila operária - seguindo o ideal republicano de se construir um espaço urbano planejado em que o poder público é capaz de garantir o seu controle - é construída com divisões racionalizada do espaço a ser ocupado, tornando um local auto-suficiente, contando com toda a infra estrutura necessária, do médico à capela.

Neste sentido que configurando-se na década de 1910, contemporâneos as reformas no Rio de Janeiro, então capital da República, bem como da construção de Belo Horizonte sob os moldes positivistas republicanos, que se constitui a instalação do Município. Salientando a importância da chegada aqui das linhas da EFOM, no final do século anterior, que fomentou e trouxe as notícias das mudanças que estavam ocorrendo em outras partes do País, fecundando nestes homens o ideal alcançar o progresso.

Contudo, o trabalho de mobilização da população não foi fácil. Em primeiro lugar foi necessário convencer aos homens que detinham o poder a aderirem ao projeto de emancipação do arraial. Pedro Xavier Gontijo, farmacêutico recém formado, que volta ao arraial em 1910 e o encontra tal como o deixou anos antes, sofrendo apenas pequenas modificações, e influenciado pelo que conhecera de outras cidades enquanto realizava sua graduação, assim como movido por um espírito empreendedor, que deixa claro tal ideal descrevendo a si mesmo, escreve:

Procuro construir agitando almas e não corpos. Sou um anarquista cristão, confesso e impertinente que, como Cristo, sou também mais crístico do que cristão: lembro o ontem, discuto o hoje, mas prego o amanhã.36

Nesta passagem demonstra sua íntima relação com os ideais positivistas, fortemente presentes no discurso republicano de “ordem e progresso”.

Como em 1911, aconteceria a Divisão Administrativa do Estado37, Pedro X. Gontijo, ansiando por mudanças que levasse o arraial ao desenvolvimento, organizou uma reunião em que foram convidados todos os “elementos de prôa do Arraia”38 para se discutir e viabilizar a emancipação do arraial, contudo, ninguém compareceu. Os cidadão do arraial eram pessoas avessas a mudanças, eram “uma mistura indolente e apática de Gontijos, Machados e Fonsecas. Nasciam e viviam aqui e, em geral, sem saírem daqui, e aqui morriam”39. Os da ‘prôa’ não se interessavam por mudanças, posição afirmada por Gontijo quando em 1911 escreve que, “até o Vigário, um homem culto, era contrário à criação do Município”40.

Nestes contexto, escreve a Pe. Matias Lobato, Vigário de Maravilhas de Pitangui, um velho amigo e expõe suas intenções, frustadas pela indiferença dos que aqui viviam. O amigo, apesar de não confiar no êxito de suas intenções, como mesmo relata Gontijo, “foi para me ser agradável”41, a uma reunião com o Patriarca Francisco Machado Gontijo42, chefe político do arraial. O Patriarca ao descobrir que o padre era filho de um compadre, aderiu a idéia e fez com que todos os que não queriam, também aderissem.

Este episódio nos leva a constatação, como afirma Sérgio Buarque de Holanda, que a “cordialidade” do brasileiro não se trata, necessariamente, de um referência direta ao significado literal da expressão. Na realidade, o historiador ao referir-se à cordialidade buscava enfatizar uma característica marcante do nosso modo de ser – a dificuldade de manter as relações sociais em níveis formais e não pessoais, de separar o público e o privado - mais do que em uma espécie de indivíduo, a cordialidade perpassa, em maior ou menor escala, a todos. De acordo como Sérgio Buarque de Holanda:

A lhaneza no trato, a hospitalidade, e generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, representam, com efeito, um traço definido do caráter brasileiro, na medida, ao menos, em que permanece ativa e fecunda a influência ancestral dos padrões de convívio humano, informados no meio rural e patriarcal. Seria engano supor que essas virtudes possam significar ‘boas maneiras’, civilidade. São antes de tudo expressões legítimas de um fundo emotivo extremamente rico e transbordante. Na civilidade há qualquer coisa coercitivo – ele pode exprimir-se em mandamentos e sentenças.43

A influência pessoal é o que arrebatou os demais de “proa” e não, como deveria ser, o empreendimento proposto. Consiste, então, na quebra da formalidade para que esta passe a se tornar uma relação de “amigos”. É neste sentido que se pode constatar a herança do antigo, que perpassa as idéias de modernidade da criação do Município.

Estando todos agora comungando um mesmo ideal, iniciam-se uma série de medidas44 , contando com o apoio da população, para tornar possível a criação do Município. Foi feito um documento ao governador do Estado, exaltando as qualidades do arraial e as suas vantagens para o Estado. Este documento foi feito em nome do povo do arraial, uma demonstração que estavam comungando as práticas políticas que ocorriam no País.

Ultrapassado os problemas burocráticos necessários para a implantação do município, o presidente da Câmara, Antônio Olímpio de Moraes, tendo como exemplo o traçado funcional e moderno da Vila Operária, o solicitou a planta topográfica dos terrenos adquiridos pelo município e lançou a idéia de projetar a parte nova da cidade.

Estava aqui em Divinópolis o Dr. José Berredo, como engenheiro chefe da construção da Estrada de Ferro Oeste de Minas ..., conhecendo o Sr. Antônio Olímpio de Moraes e tornou-se muito seu amigo. Com essa amizade, Sr. Antônio Olímpio lhe expunha sempre as dificuldades que encontrava na administração..., donde nasceu a idéia de fazer uma planta geral dos terrenos pertencentes à Municipalidade e realizarem um traçado moderno e funcional..., que atendesse não só à população da época, como também à população futura.45

Os vereadores consideraram exagerado a largura das ruas, que giravam em torno de vinte a trinta metros. No entanto tal projeto comungava os ideais cietificistas de higiene e saúde criando vias mais amplas e de controle social, amplamente pregados pelos positivistas republicanos.

E Divinópolis é projetada dentro dos ideais modernizadores, como descreve

VEIGA:

A fixação pela higiene e saúde, a funcionalidade das ruas e parques, a objetivação de cada função a áreas determinas e específicas. Tudo é passível de planejamento: a moradia, o lazer, o trabalho; a rejeição ao passado é substituída pelo traçado geométrico, espectaculo da estética moderna.46

Rita de Cássia Chagas Henriques em seu artigo sobre A Razão Moldando o Cidadão: Estratégias e Política Higienista e Espaço Urbano Disciplinar – Belo Horizonte – 1907-1908, traz as premissas dos ideais da República observados na concepção de Belo Horizonte e diz:

Na passagem do século, a política higienista, matriz ideológica dessas práticas e discursos, adequava-se ao projeto político-econômico-social subjacente à consolidação da república em seus desdobramentos regionais e municipais. Em Minas, a recém instalada capital exibia um planejamento urbanístico e arquitetônico digno de novos tempos.47

Em Divinópolis não foi diferente. Comungando desses ideais foram promulgadas leis para a implementação do novo município. Lotes foram doados na parte nova da cidade, para quem nela quisesse construir, tentando levar a população a ocupar este local. Porém, as construções seguiriam rígidos regulamentos de como deveriam ser feitas e seriam fiscalizadas pelo poder público, para assim criar um ambiente efetivamente controlado e esteticamente aceito.

Um exemplo disso é o Estatuto/Regimento Interno do Município editado em 191248que traz, entre outros, os seguintes artigos que disciplinam a construção das residências na cidade:

Artigo 226. É permitido a um pretendente adquirir até quatro lotes, contanto que edifique em todos, podendo no entanto aproveitar algum terreno entre um e outro predio para jardins e portões de entrada para um pequeno pateo.49

Estes lotes foram doados, limitando a cada pretendente quatro lotes afim de evitar um excesso de lotes desocupados, apesar de possuir proprietários. Devendo, ainda que não utilizado todos os lotes com a construção, serem urbanizados com jardins.

Artigo 234. Compete ao alinhador alinhar ou perfilar o edifíficio, casa, ou obra, conforme o armamento estabelecido, não se podendo construir casas dentro do perímetro urbano, assim como nas sedes dos futuros districtos, senão de accordo com os padrões da Camara.

§1º. O Presidente poderá approvar a planta que lhe for apresentada pelo pretendente, uma vez que sejam observadas as condições Hygienicas e archtectonicas(...)

§2º. prohibida expressamente, na zona urbana, a construcção de choupanas, cobertas de capim ou zinco(...)

Artigo 236. É proybida em qualquer rua ou praça a construção de cercas de arame, de madeira ou de sabes ou abertura de vallas.50

Estes artigos foram selecionados pois trazem a essência da preocupação do poder público do recém criado município de Divinópolis com a ordenação do espaço. “A ocupação das áreas urbanas foi regulamentadas tanto do ponto de vista quantitativo quanto qualitativo, procurando uma ocupação efetiva do espaço dentro de padrões planejados”51, assim como já o era para os construtores de Belo Horizonte.

A cidade se constituirá no observatório privilegiado da diversidade; ponto estratégico para apreender o sentido das transformações, num primeiro passo, e logo em seguida, à semelhança de um laboratório, para definir estratégias de controle e intervenção.52

Modos de como se comportar foram editados, sendo penalizados os infratores com multas. É o poder público regulamentando, controlando e higienizando e espaço urbano.

As medidas apontadas como solução de problemas tão iminentes casam perfeitamente com o espírito positivista da física social de Augusto Comte. As distorções sociais são explicadas pela rigidez das leis naturais que regem a sociedade. Ao Estado cabe zelar pela harmonização desses conflitos e distorções. Nada mais a fazer senão resguardar o corpo social, confinar os mendigos e isolar os doentes, medidas que transparecem como humanitárias.53

Neste sentido também encontramos artigos desta lei que foram editados com objetivo de reeducar a população quanto a postura que deveriam ter, bem como a preocupação com a higienização da nova Urbe:

Artigo 284. É infracção contra a Hygiene e saude publica:

§1º. Lançar nas ruas, praças e largos da Villa, (...), dentro do perimetro habitado, imundícies, lixo, animais mortos ou moribundos ...

Artigo 285. É prohibido vender, (...), peixe, toucinho, deteriorados, carnes de animais mortos accidentalmente ou por veneno, herva, etc...

Artigo 291. Os doentes serão isolados no domicílio ou removidos para logar conveniente, sendo o domicílio desinfectado, si fôr o doente removido, ou sel-o-á diariamente, si ahi permanecer

Artigo 303. É prohibido, sob pena de multa....

§3º. Fazer correr em disparada animais pelas ruas e praças das povoações, amansar animais bravos dentro do perímetro das mesmas povoações ...

Artigo 307. É prohibido o transito pelas ruas e praças do perimetro urbano, de quaesquer animaes, exceptuando-se animaes montados, atrellados ao carro oi vehiculo ou conduzidos presos, ou boiadas em transito, sob pena de multa.

Artigo 311. É prohibido vagar pelas ruas da Villa os loucos, mentecaptos e ebrios, sendo estes detidos e entregues pelo Agente Municipal á policia convencional, e aquelles entregues aos seus responsaveis e, em falta destes, enviados aos estabelecimentos de caridade publica...

Artigo 320. Nenhum individuo poderá pedir esmolas na Villa, sem estar inscripto como mendigo no livro respectivo da Polícia ou Secretaria Municipal ...

Artigo 323. Nenhum mendigo inscripto poderá esmolar: sem bilhete de identidade,

..., fora do local e dias mencionados pela autoridade, ...; Exibindo chagas ou deformidades

Corgozinho, com relação as leis editadas no município, observa que “as sociedades em processo de desenvolvimento manifestam também interesse especial em prescrever normas de higiene necessárias, graças à alta densidade demográfica por m2, própria do processo de ocupação das áreas urbanas.”54Assim como na nova capital mineira o poder público da recém Divinópolis também têm preocupação com a vadiagem, não sendo esta encarada como homens fora do mercado de trabalho mas aqueles que se recusam a trabalhar, vivendo da mendicância, sendo desajustados da república do trabalho. Aos que fossem flagrados nesta situação seriam detidos e submetidos a exames, dos quais se comprovada sua capacidade para o trabalho seriam processados pelos meios legais e, caso não residissem no município, seriam remetidos a sua naturalidade, como prevê o artigo 322 do já citado estatuto do município. O espaço urbano foi moldado, construído para atender as novas demandas do recém instalado regime Republicano e com ela foram também moldados seu moradores, que já não poderiam dar vazão a seus impulsos rotineiros, próprios do meio rural, exigindo do habitante da cidade a aquisição de uma cultura urbana. A cidade exige do cidadão uma postura vigiada e passível de punição caso transgredida alguma norma de civilidade. É a cidade reeducando e promovendo a mudança de comportamento do cidadão.

4. CAPÍTULO III

A CIDADE, EXPRESSÃO DO OBJETIVO DA MODERNIDADE

A modernidade, a partir da Europa, toma todo o mundo ocidental e com ela traz mudanças na mentalidade e na vida das pessoas. O modo como se vê o mundo se dá pelo predomínio da razão e individualismo. O homem se vê desligado de domínios externos, tornando-se responsável pelas suas próprias ações.

Partindo de fontes documentais, percebe-se que a gênese do desenvolvimento econômico-social moderno em Divinópolis se deu no início do século XX, quando o arraial é elevado a condição de município, e posteriormente com a elaboração de leis que começaram a legitimar os ideais modernizadores da elite, definindo e modelando o espaço urbano.

Ao contextualizar o processo de modernização da cidade, tornou-se possível perceber sua especificidade histórica, no modo de como veio se processando o fenômeno da transição da ordem tradicional para a ordem moderna e de como a experiência de modernidade foi e esta sendo vivida. Da mesma forma, como em outras cidades brasileiras, tais como Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte, as situações históricas vivenciadas em Divinópolis imprimiram em seu modo de vida características da civilização industrial e da modernização dos seus processos sociais.55

As transformações urbanas ocorridas em Divinópolis apresenta-se impregnado de um processo sócio-educativo, na medida que ela propicia ao seus cidadãos a aquisição de uma nova mentalidade e os leva a guiar suas ações por novos valores. É a nova cidade moldando os cidadãos.

O espírito da modernidade impregnou a elaboração de projetos político- administrativos e urbanísticos. As ruas projetadas no início da construção da cidade continuam sendo prolongadas de forma retilínea e tiram do seu caminho qualquer obstáculo natural. A preocupação do poder público em manter o município dentro dos moldes modernos é expresso em leis. Um exemplo é uma lei editada no final da década de 1940, em que fica claro o compromisso com os ideais de fundação da cidade. Nesta lei lê-se no seu primeiro artigo o seguinte:

Art.1. O alinhamento das ruas e avenidas centrais da cidade terá continuação indefinida, isto é, continuará sempre na mesma direção e largura independente de qualquer obstáculo.

§1. Encontrado o obstáculo, qualquer que seja ele, o alinhamento seguirá este, abandonando o obstáculo para futuros acertos.56

Na luta incessante ente a construção e desconstrução, o velho é substituído pelo novo. As antigas relações sociais, com seu conjunto de idéias tradicionalmente aceitas, são dissolvidas e são substituídas por algo novo e moderno que se tornam também antiquado antes mesmo de se firmar. Tudo que era sólido e estável se esfuma.57 Os valores da vida moderna ao impregnarem-se nas relações sociais desencadeiam uma transformação acelerada de tudo. O novo substitui continuamente o velho e tenta retirar dele os seus sinais. Divinópolis tem como registro físico do antigo arraial apenas um sobrado que esta no largo da Matriz, onde hoje funciona o museu histórico da cidade. Tudo fora destruído e reconstruído. E o que fora construído como novo nas primeiras décadas já não existe mais, já foram substituídos por edifícios ainda mais modernos. É um processo constante de construir, destruir e construir de novo. Como sublinha Berman, analisando o pensamento de Marx, escreve que:

não obstante, a verdade é que, como Marx o vê, tudo o que a sociedade burguesa constrói é construído para ser posto abaixo. ‘Tudo que é sólido’- das roupas sobre nossos corpos aos teares e fábricas que as tecem, aos homens e mulheres que operam as máquinas, às casas e aos bairros onde vivem os trabalhadores, às firmas e corporações que os exploram, às vilas e cidades, regiões inteiras e até mesmo nações que as envolvem – tudo isso é feito para se desfeito amanhã, despedaçado ou esfarrapado, pulverizado ou dissolvido, afim de que possa ser reciclado ou substituído na semana seguinte e todo o processo possa seguir a diante, sempre adiante, talvez para sempre.58(grifo meu)

Apesar das marcas de destruição deixadas na realidade social, os conflitos políticos-culturais desencadeados cumpriram sua função educativa. À medida que a ordem antiga foi destruída e superada por uma outra ordem, segmentos sociais iniciaram também o aprendizado do reconhecimento do outro, da tolerância e da necessidade de um novo convívio numa sociedade diversificada. O que era restrito e individual se torna comum a todos nesta sociedade moderna. “Em lugar da velha auto-suficiência local e nacional, deparamos, em todas as direções com a interdependência universal. Tanto na produção material como na espiritual. As criações espirituais de nações individualizadas se tornam propriedade comum.”59

Marx descreve uma sociedade moderna que comunga os mesmos ideais de tornar comum a todos. É uma produção cultural, política e social que cria em todos as mesmas necessidades, atendendo, assim, as leis do capital.

Com Divinópolis não foi diferente, impregnada com os ideais modernizadores desde o início de sua história como município, chega hoje a “autonomia” de pertencer a “uma rede da qual ninguém pode escapar, nem no mais remoto canto do mundo”.60

Divinópolis é fruto da modernidade. Do antigo arraial não resta quase nada. A modernidade esta tão raizada na mente dos cidadãos, que é considerada uma cidade nova. Todo o passado de mais de duzentos anos do arraial está apenas em pequenos vestígios. A cidade foi modelada, construída e reconstruída. O cidadão foi moldado, educado e reeducado a uma nova cidade em que ao mesmo tempo une em uma cultura comum, individualiza na vida cotidiana.

Assim como na fundação da cidade, o mito sobrevive. A cidade não é apenas onde mora o cidadão, é ante de tudo um lugar idealizado, cantado em seu hino que traz introjetado a esperança de se alcançar o progresso pela construção racionalizada do espaço urbano das terras do Oeste”, a princesa altaneira. É uma Cidade oficina, de filhos leais. Cidade-esperança, que anseia, por lindo futuro de veraz grandeza.61 É o compromisso de cumpri o projeto republicano de se chegar a modernidade através da ordem, almejando o progresso.

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AZEVEDO, Francisco Gontijo. Azevedo, Antônio Gontijo. Da História de Divinópolis. Belo Horizonte: Graphilivros, 1988.

BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.

CORGOZINHO, Batistina M. Sousa. Nas Linhas da Modernidade: continuidade e ruptura. Divinópolis, MG, 2003.

GONTIJO, Pedro Xavier. História de Divinópolis: 1684-1936. 1ed. Divinópolis: Papelaria Sherlock, 1962.

HENRIQUES, Rita de Cássia Chagas, A Razão Moldando o Cidadão: Estratégias e Política Higienista e Espaço Urbano Disciplinar Belo Horizonte 1907-1908. Cad. Hist., Belo Horizonte, v.2, n.3, p.57-63, out. 1997

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Braseil. 26 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

JULIÃO, Letícia, Belo Horizonte: Itinerários da cidade moderna(1891-1920).UFMG, 1992. MARTINHO, Francisco Carlos Palomares. Resistências ao Capitalismo: plebeus, operários e mulheres. In: REIS FILHO, Daniel Arão, FERREIRA, Jorge, ZENHA, Celeste (orgs.). O Século XX. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

MARX, Karl, ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. Londres : 1848. PEREIRA, José Brasil, Hino de Divinópolis. Divinópolis : 1935

SEVCENKO, Nicolau – Introdução; O prelúdio republicano, astúcias da ordem e ilusões do progresso, in: NOVAIS, Fernando A. (coord.) SEVCENKO, Nicolau,(org) História da Vida Privada no Brasil 3- República: da Belle Époque à Era do Rádio: Companhia das Letras, 1998.

VEIGA, Cynthia Greive. Cidade e educação na trama da cidade: a construção de Belo Horizonte em fins do século XIX. Campinas: Universidade de Campinas, 1994.

6. FONTES PRIMÁRIAS

DIVINÓPOLIS. Leis e resoluções n.1 a 59, de 20 de junho de 1912 a 24 de dezembro de 1918. [Câmara Municipal pelo presidente Antônio Olympio de Moraes].

DIVINÓPOLIS. Leis n.1 a 282, de 19 de fevereiro de 1948 a 11 de abril de 1953. [Câmara Municipal e Prefeitura].

MINAS GERAIS. Lei n.556 de 30 de agosto de 1911. Dispõe sobre a divisão administrativa do Estado e contém outras disposições, assinada por Júlio Bueno Brandão e Delfim Moreira da Costa Ribeiro. Belo Horizonte, 1911.

_______________________________________________________________________

1 Berman, 1986, p.15.

2 GONTIJO, Pedro Xavier. História de Divinópolis: 1684-1936. 1ed. Divinópolis: Papelaria Sherlock, 1962,p.8.

3 PERRO apud MARTINHO, Francisco Carlos Palomares. Resistências ao Capitalismo: plebeus, operários e mulheres. In: REIS FILHO, Daniel Arão, FERREIRA, Jorge, ZENHA, Celeste (orgs.). O Século XX. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000 – v.1 p. 191

4 Bresciani apud Martinho, p.191

5 Mayer apud Martinho, p. 192

6 Bresciani apud Martinho, p. 192

7 Perrot apud Martinho, p. 193

8 Martinho, 2000, pp. 193-194

9 Berman, 1986, p.146

10 Berman, 1986,p.147

11 Berman, 1986, p.169

12 Berman, 1986, p.170

13 Ibidem

14 Ibidem

15 Berman, 1986, p.173

16 Ibidem

17 Ibidem

18 Berman, 1986, p.175

19 SEVCENKO, Nicolau – Introdução; O prelúdio republicano, astúcias da ordem e ilusões do progresso, in: NOVAIS, Fernando A. (coord.) SEVCENKO, Nicolau,(org) História da Vida Privada no Brasil 3- República: da Belle Époque à Era do Rádio: Companhia das Letras, 1998 p. P.14

20 Sevcenko, 1998, p.15

21 Ibidem

22 Ibidem

23 CORGOZINHO, Batistina M. Sousa. Nas Linhas da Modernidade: continuidade e ruptura. Divinópolis, MG, 2003. p.92-94

24 Carvalho apud JULIÃO, Letícia, Belo Horizonte: Intinerários da cidade moderna(1891-1920).UFMG, 1992. p. 49

25 Sevcenko, 1998, p.22

26 Sevcenko, 1998, p.23

27 Sevcenko, 1998, p.27

28 Corgozinho, 2003. p.42

29 Corgozinho, 2003. p.47

30 Gontijo, 1962. p. 8.

31 Azevedo, Francisco Gontijo. Azevedo, Antônio Gontijo. Da História de Divinópolis, Belo Horizonte: Graphilivros, 1988, p.76-79

32 Corgozinho, 2003, p. 65

33 Corgozinho, 2003, p.66

34 Corgozinho, 2003, p. 70

35 Corgozinho, 2003, p. 71

36 Gontijo, 1962, p. 5

37 A cada dez anos o estado promove a sua divisão administrativa, elevando determinados núcleos de ocupações a municípios.

38 Gontijo, 1962. p. 8.

39 Gontijo, 1962. p.7.

40 Gontijo, 1962. p. 20

41 Gontijo, 1962. p. 25

42 Chefe político do arraial do Espírito Santo do Itapecerica, que viveu na segunda metade do século XIX até 1930 e exercia expressiva liderança, sendo um dos articuladores da criação do município de Divinópolis e construção do ramal ferroviário ligando a EFOM à Belo Horizonte. Chico Machado, como também era conhecido, era neto de dois grandes negociantes e fazendeiros denominados Francisco da Costa Gontijo e Francisco Machado de Miranda e ocupou durante sua vida, diferentes cargos públicos tais como juiz de paz e delegado.

43 Holanda, Sérgio Buarque de. Raízes do Braseil. 26 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 141

44 A lei n.556 de 30 de agosto de 1911, que criou o município de Henrique Galvão (depois Divinópolis), instituía em seu art. 16 que: “os novos municípios creados por esta lei não poderão ser installados senão depois que seus moradores satisfazerem as exigências(...) quanto a terrenos para logradouros, cemitério, edifícios apropriados para sessões da Câmara, escolas de instrucção primaria e cadeias, a juízo do governador” MINAS GERAIS (1911) apud Corgozinho. p. 87

45 Azevedo, Francisco Gontijo de. Azevedo, Antônio Gontijo. Da História de Divinópolis. Belo Horizonte:

Graphilivros, 1988. P.110

46 Veiga, Cynthia Greive. Cidade e educação na trama da cidade: a construção de Belo Horizonte em fins do século XIX. Campinas: Universidade de Campinas, 1994, apud Corgozinho. 2003. P. 88

47 HENRIQUES, Rita de Cássia Chagas, A Razão Moldando o Cidadão: Estratégias e Política Higienista e Espaço Urbano Disciplinar Belo Horizonte – 1907-1908. Cad. Hist., Belo Horizonte, v.2, n.3, p.57-63, out. 1997

48 Estatuto/ Regimento Interno. In : DIVINÓPOLIS(1912-1918)

49 Estatuto/ Regimento Interno. In : DIVINÓPOLIS(1912-1918), p. 31-34.

50 Estatuto/ Regimento Interno. In : DIVINÓPOLIS(1912-1918), p. 31-34.

51 Corgozinho, 2003, p. 83

52 Bresciani, 1985, p. 36 apud Henriques

53 Henriques, 1997, p. 59

54 Corgozinho, 2003, p. 84

55 Corgoziho, 2003,p.282

56 Projeto de lei nº22 de 19 de março de 1948

57 Marx, Engels, 1848, p.3

58 Berman, 1986, p. 97

59 Marx apud Berman, 1986, p.120

60 Berman, 1986, p.35

61 Hino de Divinópolis, composto por José Pereira Brasil em 1935. Trechos.


Publicado por: marcelo santos de carvalho

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