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DULCINA DE MORAES: Tombamento e Preservação do Patrimônio Cultural Vivo

Arte e Cultura

Contextualização histórica e cultural a partir do recorte da vida da atriz Dulcina de Moraes, o Papel Social da artista Dulcina em nossa sociedade e a importância da preservação do patrimônio.

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1. RESUMO

Este trabalho investiga a obra deixada pela atriz e professora Dulcina de Moraes, abordando a importância e preservação do patrimônio, além da função social do artista. Tem como objetivo levantar dados e informações para fomentar o tombamento e a preservação do legado deixado por Dulcina. A intenção de profissionalizar os artistas e promover a educação por meio da arte aparecem neste trabalho como parte integrante do legado deixado pela dama do teatro brasileiro. Para isso, faz uso de autores que corroboram para o objeto pesquisado. Partindo da problematização que questiona como podemos preservar o patrimônio cultural deixado por Dulcina de Moraes, a pesquisa foi realizada utilizando experiências com a instituição. A preocupação e inquietação referentes ao tombamento e à mantença patrimonial surgiram no decorrer do curso de graduação em Licenciatura em Artes Cênicas desde 2014. Trata-se de uma pesquisa bibliográfica articulada com a auto etnografia em que a observação participante permitiu uma pesquisa de campo a partir das vivências do autor deste trabalho como aluno e funcionário da Fundação Brasileira de Teatro.

Palavras-chave: Dulcina de Moraes, patrimônio, preservação, história do teatro brasileiro, tombamento.

ABSTRACT

This paper investigates the work left by actress Dulcina teacher Moraes and his legacy. Cataloguing and field research. It addresses the importance of the heritage built by Dulcina, preservation and social function of the artist when she intended to professionalize the artists and their care for the profession that will follow through education. A survey accompanied by authors which corroborate the object here searched. Among them are: Sergio Viotti, biographer Dulcina de Moraes actress; Ecléia Bosi through dialogue the importance of memory; Nilson Gherardello and Beatriz Spisso, which reports the importance of heritage for society; Marilena Chaui with his book Invitation to Philosophy where the eighth chapter she discusses the concept of culture, the work as sacred, the relationship of the artist as magician and others. A collection of data and information that emerged from the concerns and worries of the author of this research on the importance in the preservation and maintenance of Moraes Dulcina property.

Keywords: Dulcina de Moraes, patrimony, preservation, history of Brazilian theater, culture.

2. INTRODUÇÃO

Este trabalho trata de uma reflexão sobre o patrimônio da atriz Dulcina Myssen de Moraes. Tem como objetivo levantar dados e informações para fomentar o tombamento e a preservação do legado de Dulcina. Para tanto, considero necessário chamar atenção da comunidade artística, dos órgãos do Governo Federal e Distrital tais como: Ministério Público do Distrito Federal e Territórios – MPDFT –, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN – e Secretaria de Cultura do DF. Nesse sentido, busca-se envolver os diversos agentes culturais para a preservação e mantença do patrimônio, do legado e da memória da atriz Dulcina de Moraes.

Entendo que o início desta pesquisa se deu quando, em 2011, agravou-se a crise financeira e acadêmica que a Faculdade de Artes Dulcina de Moraes – FADM – vinha passando. Nesse momento, comecei a me incomodar com a situação em que o patrimônio deixado por Dulcina se encontrava. Este trabalho se justifica pela relevância que a atriz teve no teatro brasileiro, quando sua vida foi toda dedicada à arte teatral e sua história atingiu o ápice com a preocupação de dignificar a profissão a partir da formação educativa dos os atores e atrizes.

Meu ingresso na FADM aconteceu em 2007, no curso de graduação em licenciatura em Artes Cênicas, mas, devido à crise já mencionada, acabei trancando o curso em 2010 e retornei somente em 2015. Nesse afastamento, comecei a me questionar sobre a situação que a instituição estava passando e fiquei muito preocupado com a possibilidade do fechamento de suas portas.

Essa situação me causou diversas inquietações que geraram esta pesquisa. Quando retornei, vi-me na atribuição de fazer um levantamento sobre o patrimônio de Dulcina e ao mesmo tempo, buscar recursos e possibilidades de preservação do bem cultural que foi entregue a todos nós brasileiros.

Logo, este trabalho monográfico é o resultado da minha atuação no âmbito acadêmico como estudante e como funcionário admitido em 2015 pela Fundação Brasileira de Teatro – FBT – e desligado em 2016. Parte da problematização que questiona como podemos preservar o patrimônio cultural deixado por Dulcina de Moraes. A pesquisa foi realizada dialogando com as experiências que obtive na instituição.

Reuni nesta pesquisa um conjunto de informações que pode fundamentar a preparação de um projeto consistente para provocar as autoridades de sua responsabilidade pela manutenção deste bem cultural. Para tanto, uso a metodologia bibliográfica articulada com a auto-etnografia em que a observação participante permitiu uma pesquisa de campo a partir de minhas vivências como aluno e funcionário da Fundação Brasileira de Teatro. Utilizo também imagens e documentos que constam no acervo da instituição.

Essa monografia ressalta a história da FBT, criada em 1955 no Rio de Janeiro e depois transferida para Brasília para continuar o fomento às atividades de caráter artístico, cultura e educacional. A criação da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes – FADM – fortaleceu as finalidades da FBT quando foi estabelecido que sua missão era oferecer o ensino de excelência com o estímulo da criação, da produção e da difusão do conhecimento artístico por meio da cultura, das artes e da comunicação e suas tecnologias.

A Fundação Brasileira de Teatro está localizada em um prédio construído em uma área de cinco mil metros quadrados no centro de Brasília. Possui dois teatros, várias salas de aulas, que a própria Dulcina atuou como professora por muitos anos. Quanto deve ter custado tudo isso para Dulcina? Todos os esforços para concretizar a FBT vieram no sentido de dar mais dignidade à profissão artística. À época em que Dulcina atuava em sua companhia teatral, os artistas de teatro eram desvalorizados. Ganhava-se muito pouco e a atuação dos atores era próxima da marginalidade. As apresentações da companhia de Dulcina não foram suficientes para dar início à construção do prédio em Brasília.

Este trabalho foi organizado em três capítulos: o primeiro capítulo intitulado Dulcina Realiza seu Sonho, trata da contextualização histórica e cultural a partir do recorte da vida da atriz. No segundo capítulo, O Papel Social do Artista, proponho uma reflexão sobre a atuação da artista Dulcina em nossa sociedade entendendo que sua ação educativa continua reverberando em nossos dias atuais. No terceiro capítulo, A Preservação do Patrimônio de Dulcina de Moraes, falo de mecanismos encontrados pela comunidade acadêmica para tentar manter viva a memória da atriz, além da importância da preservação do patrimônio.

A pesquisa descreve o caminho na luta pela realização do sonho da atriz, a sua morte e a importância na preservação de sua memória. O patrimônio constitui-se em dois teatros, uma galeria de artes e um núcleo artístico educativo. O legado entregue à nós por alguém que se deslocou do Rio de Janeiro para apostar todas as moedas em uma propriedade que se tornaria para a sociedade um ponto de difusão cultural, centro irradiador de trabalhos artísticos de grande relevância para cultura nacional. A formação humanística apresentou-se como possibilidade de transformação social engajada na propagação de cidadãos críticos: docentes inspiradores de sonhos e paixões, capacitados para encantar uma plateia chamada Brasil.

Abandonar um sonho de tamanha relevância social é contribuir com um suicídio social, pois perderemos parte de nossa própria memória e identidade cultural. Entendo que tal fato seria um crime imperdoável e impagável.

3. DULCINA REALIZA SEU SONHO

A Fundação Brasileira de Teatro – FBT – tem caráter artístico, cultural, educacional e beneficente conforme define o artigo 1º de seu Estatuto. A FBT foi instituída pela atriz Dulcina Myssen de Moraes e seu esposo Odilon Azevedo em 07 de julho de 1955 no Rio de Janeiro, como uma entidade civil, com personalidade jurídica de direito privado, sem fins lucrativos, com autonomia administrativa, financeira e patrimonial (FBT, 2002).

A criação da FBT é fruto da história e sonho da incansável dama do teatro brasileiro. A instituição forma muitos artistas, estudantes que almejam ser atores, atrizes, artistas plásticos e arte-educadores. Sobre esse ideal, Sérgio Viotti, em seu livro “ Dulcina e o Teatro do Seu Tempo”, afirma que:

Dulcina foi para Brasília para realizar um sonho que muitos poderiam considerar inútil. Lembramos que o sonho dos outros, para os que não estão empenhados neles, sempre parecem coisa supérflua, coisa de “sonhador”. Dulcina, se fosse poeta, iria dizer que era de se esperar tais coisas acontecendo – era de se esperar. Mas ela notava alguma semente de incredulidade na maneira de as pessoas a verem (e comentarem depois), era o mesmo que não perceber nada. Que ela estava muito além e muito acima destas críticas menores e pequenas, porque havia uma diferença básica entre ela e todos os demais: ela acreditava. E acreditava mais e mais, sempre e sempre (2000, p.567).

Dulcina lutou constantemente para dignificar a profissão de ator, regulamentando as causas trabalhistas que à época não estavam garantidas aos artistas. Sua ida para Brasília em 1977 era no intuito de instalar uma faculdade de artes que pudesse oferecer melhores condições de formação acadêmica. Conseguiu por intermédio do presidente da república Juscelino Kubitschek um apartamento na quadra 411 da Asa Sul. Acordava cedo e seguia caminho para o terreno onde estava sendo erguido o prédio da FBT. Dulcina falava de Brasília como se fosse o paraíso, lugar mágico em que se sentia em casa. Em entrevista concedida a Sérgio Viotti, o biógrafo descreve a fala de Dulcina quando ela se refere à Brasília:

“Eu amo Brasília. Amo. Quando volto pro Rio eu me sinto tão...tão...” Procurava a palavra. Procurava. A boca fica entreaberta. A testa se franze. Leva a mão direita aos cabelos, ajeita o que não precisa ser ajeitado. Uma preocupação. Quase dor. “ Tão - perdida. Tão fora de casa. Eu sinto falta destas larguezas. Desta amplitude. O Rio não era assim. Ficou sufocante. Aqui, eu respiro! ” E se enche de ar. Exibira com prazer. “ Eu me sinto tão bem aqui! Eu me sinto livre! ” Bate na nascente do pescoço com a mão espalmada. Golpes apressados, curtos, firmes. Hábito muito seu. “ A minha quadra é das mais bem arborizadas (1988, p.34).

Pelo fato de Brasília representar uma proposta moderna de sociedade, Dulcina acreditava que nesta capital estaria concentrado um centro irradiador de cultura. Logo, buscou meios para concretizar seu sonho com a construção da sede da FBT e da FADM. Procurou o presidente Juscelino Kubitschek que lhe concedeu um terreno. Quando ela foi escolher onde seria construída a sede da Fundação Brasileira de Teatro, Dulcina se dirigiu à NOVACAP, onde lhe mostraram um mapa que lembrava uma colmeia com vários buracos, uns com bolinhas verdes que correspondiam aos espaços não ocupados e outros orifícios em vermelho correspondentes aos lugares que já haviam proprietários. Qual seria a expressão de Dulcina no momento de escolher? Sérgio Viotti descreve:

A própria compra do terreno em Brasília não acontecera como se fora um sonho? Melhor, como se fora algum mando que nem ela mesma sabia explicar? O terreno lhe fora oferecido. Seu dedo fora guiado (sim, fora guiado, sim, tinha certeza absoluta disto) para pousar no lugar certo. De olhos fechados, ela não hesitou. Seu indicador avançou como se fosse uma flecha e caiu, direto, sem voltas, naquele ponto do centro comercial. Ela nunca poderia imaginar tratar-se de um local cobiçado. “ Todos aqueles quadradinhos, meu Deus! Parecia um favo de abelhas! ” ela, se lembrava, rindo. Pois agora, um dos favos, um dos mais cobiçados, era seu. E não foi assim tão difícil ir pagando por ele assim, aos pouquinhos (2000, p.567).

Segundo Viotti, depois da compra do terreno foi contratada uma empresa que ergueu o teatro desenhado pelo arquiteto Oscar Niemeyer com capacidade para seiscentos lugares. Para conseguir dinheiro, Dulcina procurou o governador Hélio Prates da Silveira e contou com a contribuição de diversos empresários para a construção do teatro. Dulcina conquistou todo seu patrimônio que ainda encontramos vivo. Um centro de pesquisas artísticas, uma biblioteca, um salão de conferência (foyer) e outras instalações foram criadas. Foi então assinado o contrato com a NOVACAP para a construção da faculdade de teatro da FBT e para ser erguida em dois anos. Dias após assinado o contrato, ela conseguiu uma audiência com o presidente da república (VIOTTI, 2000, p.568).

Muito trabalho e suor estava por vir, então Dulcina se mudou de vez para Brasília, largou tudo no Rio de Janeiro. Muitas ideias, pensamentos, estratégias, planos e objetivos estavam sendo traçados. A FBT seria o centro de referência das artes em todo o Brasil, onde seriam apresentados espetáculos, encontros de artistas, pesquisadores para refletir sobre teatro, educação e artes plásticas. Um núcleo onde seria formado atores, artistas plásticos que iriam brilhar nos palcos e escolas fazendo surgir a nova geração cultural de Brasília. Logo, o trabalho desempenhado por Dulcina começou a movimentar e qualificar a vida cultural da cidade e do país. Seria uma transformação, uma modificação no sistema de vida de Dulcina. O autor Viotti afirma que:

Agora, em Brasília, não se tratava de mais uma excursão, mas de uma total modificação em seu sistema de vida. Pensando, pode parecer absurdo, mas lá estava enérgica mulher de 64 anos, começando tudo de novo. Não era seque recomeçar, mas partir de um marco zero e daí seguir em frente, desabrochar em novos horizontes. Que Brasília, doravante, seria o lar, o lar onde ela deveria viver e trabalhar até a última viagem (como diria). O que não a amedrontava (2000, p.569).

Uma vez estabelecida em Brasília, Dulcina transfere as atividades da Fundação Brasileira de Teatro para cumprir com o que está definido em seu estatuto. A finalidade da instituição, sua missão e objetivo estão expressos no capítulo II, artigo 6, que diz:

Artigo 6. A Fundação Brasileira de Teatro visa ao desenvolvimento do Teatro Brasileiro e das Artes, especialmente no seu aspecto educacional e terá como principais finalidades: I – interpretar o pensamento, as aspirações, os reclamos e a expressão cultural e artística do Teatro Brasileiro; II – preservar a dignidade profissional do Teatro no Brasil; III – promover a formação, a especialização e o aperfeiçoamento do pessoal de teatro e atividades afins, em todas as suas modalidades funcionais; IV – constitui-se em centro de estudos e de divulgação da cultura teatro brasileira; V – incumbir-se do planejamento, da organização de serviços, de cursos ou empreendimentos destinados a benefícios ao Teatro, tomando o encargo de executá-los, e prestar paralelamente assistência educacional, técnica, social, médica e jurídica; VI – concorrer para melhor compreensão dos problemas do Teatro, propiciando seu estudo e solução; VII – pesquisar e experimentar novos processos e métodos de interpretação teatral. Parágrafo único. No cumprimento de suas finalidades, a FBT terá como preocupação maior a busca de uma linguagem teatral e artística brasileira, fiel aos valores, sentimentos e carácter do nosso povo (Estatuto da Fundação Brasileira de Teatro,2002).

Para a alegria de Dulcina, o então presidente da república em exercício, Emílio Médici, concedeu CR$ 4 milhões para ajudar na construção do prédio da FBT. Dinheiro que foi entregue em três partes, não sendo suficiente para inaugurar o teatro da FBT em Brasília. Foram alguns anos de dificuldade até a inauguração pudesse efetivamente acontecer. Conforme Viotti, sempre faltava dinheiro (2000, p 576). Dulcina recorria às empresas e às pessoas com grande poder aquisitivo. Quase sempre havia pausas na construção por falta de recursos. A construção iniciou-se em 1977 e foi concluída em 21 de abril de 1980.


Figura 1 – Dulcina de Moraes sentada ao centro e ao fundo da imagem o prédio da FBT em construção no Setor de Diversões Sul. Acervo fotográfico FBT

Dulcina necessitava de CR$ 8 milhões para continuar sua obra. Sem pensar muito, fez uma proposta ao ministro da educação à época Ney Braga à época, lhe oferecendo o teatro da FBT no Rio de Janeiro. O ministro, pensando em colaborar com o sonho de Dulcina, aceitou sua proposta. Ela agora sabia que conseguiria concluir a construção do prédio da FBT em Brasília. Dulcina, em entrevista com Viotti, demonstra felicidade quando diz:

“O ministro aprovou minha proposta” [...]. O que lhe resta é encontrar o jeito para efetuar a transação. Creio que todos nós temos a ganhar com a troca: o MEC ficará com um bom teatro no Rio, e ao mesmo tempo, proporcionará a Brasília o teatro de que a cidade necessita para deixar o rés-do-chão e começar uma vida artística à altura de sua grandiosidade e de sua beleza eterna (2000, p.582).

Depois de tanto esforço, finalmente o teatro foi inaugurado em 21 de abril de 1980. Segundo Viotti, menos de um mês depois, o presidente da república à época, Ernesto Geisel, regulamentava a profissão de artista e técnico em espetáculos (2000, p. 586). Com isso, podemos perceber o quanto a concretização do projeto idealizado por Dulcina teve grande relevância para a cultura nacional.

3.1 A Sustentabilidade Financeira da FBT/FADM

Com a faculdade inaugurada, Dulcina deveria pôr em prática os cursos que seriam ofertados. Dulcina não gostava era de números, de contas a pagar, de tratar com o financeiro da faculdade, mas isso não era problema, pois seu esposo, Odilon cuidou da parte financeira. Em entrevista concedida a Sergio Viotti, Dulcina afirmava: “ eu não sei nada de dinheiro. O Odilon cuidava de tudo. Mas eu tenho sempre uma alma caridosa que vai, me ajudar” (VIOTTI, 1988, p. 36).

Dulcina não era uma mulher apegada a dinheiro, a bens materiais. Era simples, porém muito vaidosa consigo mesma: batom vermelho, vestido com ombreiras, salto alto e maquiagem. Era assim que se vestia. Mulher elegante e atraente, uma verdadeira dama do teatro brasileiro.

Ela mesma dizia ser grata pela realização de seu sonho, de estar ali, respirando teatro, fazendo teatro. Sobre sua rotina, Dulcina afirma:

Acordo lá pela uma hora. Vou para a Fundação e fico até tarde. A FBT é muito absorvente. Muito. Mas eu vibro com tudo aquilo porque é a realização de um ideal. Acho que é por isso que eu sinto tão imensamente feliz. Por ter podido realizar esse ideal. Eu me dou conta de que é uma forma de merecimento. Eu quis e consegui. Sei que é maravilhosa. Não acontece com todas as pessoas. E eu sou grata por isso (VIOTTI, 1988. p.38).

O que fez Dulcina ir para a capital? Ela acreditava que Brasília seria o centro irradiador da cultura e da educação. Além disso, demonstrou amor e paixão pelo barro vermelho do planalto central. Ainda em conversa com Viotti, Dulcina relata:

Sabe que minha vida aqui é completa? Eu não sinto falta de nada. Não preciso de mais nada. As pessoas me perguntam o que eu fico fazendo sozinha em casa. Acham que eu não estou fazendo nada. Mas eu estou sim. Fico aqui lendo. Planejando. Procurando. Querendo descobrir e saber. No dia em que eu não tiver mais curiosidade é porque nesse dia eu estarei morta. E há tanta coisa para saber. Tanta coisa para fazer. Tanta (1988. p.44).

Quando recebeu o terreno para construção do prédio, ela pensava que iria construir o edifício sem gastar nenhum centavo, que receberia tudo pronto. Porém, Juscelino Kubitschek apenas cedeu-lhe o espaço e ela se encarregou de todos os gastos. “Ter vindo para Brasília para construir a Faculdade de Teatro, sem nada, sem um único tostão, a não ser o meu nome e a reputação que conquistei com o meu trabalho como garantias...Sim, ah! Foi uma audácia, sim! ”, afirma Dulcina (VIOTTI, 1988. p.88).

Após o falecimento de Odilon Azevedo, Dulcina teve que tomar conta de toda parte administrativa, financeira e acadêmica, mas não tinha conhecimento na área da administração. Então, a atriz convidou seu amigo Ivan Sena e sua sobrinha Vera Moraes para administrarem a FBT em Brasília. Dulcina em suas palavras se orgulhava ao fazer a seguinte afirmação:

Olha, pra ser franca, independente...eu não tenho muito certeza não. O Odilon sempre estava do meu lado. Era ele quem cuidava de tudo me poupando. Me protegendo. Eu ficava inteiramente livre só pra pensar numa coisa: teatro. Depois que ele foi embora eu tive de me tornar independente. Querendo ou não. Força das circunstâncias. Encontrei pessoas maravilhosas, sem as quais eu não teria conseguido fazer nada sozinha. E o Ivan Sena, você sabe – que veio do Rio pra ficar perto de mim. Foi um auxiliar esplêndido. Desde os tempos da Fundação no Rio. E a Vera, a minha sobrinha, que está aqui comigo de novo. É o meu braço direito. Administra aquele prédio da Faculdade que é uma perfeição. E o teatro! É um brinco! Um brin-co! (VIOTTI, 1988, p.88).

Apesar dessa resposta de Dulcina, a FBT não recebeu a mesma atenção que Odilon dava. Ivan Sena e Vera Moraes logo voltaram para o Rio de Janeiro. Como a atriz não se envolvia na administração, ela convidou seu amigo B. de Paiva para cuidar da FBT.

De fato, B. de Paiva passaria a colaborar com a Fundação cada vez mais intimamente e, depois da morte de Dulcina, tornou-se um dos batalhadores pela sua sobrevivência e continuidade do seu trabalho. Dulcina voltara a fazer o que mais gostava: ensinar. Que sentir aqueles novos talentos desabrochando, o maior prazer de quem ensina. Procurava ignorar os grandes problemas financeiros que a FBT iria enfrentar. Toda a insegurança na situação econômica do país refletia-se direta e automaticamente na da Fundação, e quando houve o grande choque do corte no lucro das aplicações no início do governo Collor, a situação tornou-se insuportável. Ademais, os valores cobrados pelas mensalidades eram os mais baixos do mercado; os salários dos professores eram os do mercado. A fase do “pires na mão” parecia prolongar-se futuro adentro. A dependência de alguma verba suplementar, viesse de onde visse, convertia-se em exaustão administrativa (VIOTTI, 2000, p.597).

José Maria Bezerra de Paiva, mas conhecido com B.de Paiva, foi um ator, diretor e dramaturgo, nascido em Fortaleza no estado do Ceará. Esteve em um dos piores períodos na Fundação por conta da crise que o Brasil vinha sofrendo com o plano Collor. As instituições foram atingidas e, dentre essas, a FBT. B. de Paiva ficou com a incumbência dada por Dulcina antes sua morte de administrar a FBT. Tarefa difícil para quem não tinha conhecimentos em administração.

3.2 O Desafio de Continuar o Sonho Realizado

A FBT entrou em crise com a política econômica adotada pelo então presidente Fernando Collor de Melo. A partir daí as dívidas começaram a surgir. Com a morte de Odilon Azevedo, a saída de Ivan Sena e Vera Moraes agravados pelo contexto político-econômico do país, a Fundação Brasileira de Teatro entra em um processo de dificuldades financeiras. No entanto, a maior tragédia foi a perda da idealizadora desse sonho. Viotti relata que:

Por volta de 1984, Dulcina queixava-se de muita falta de memória, de estar embaralhando as coisas. Mas ria-se, pondo a culpa no desenho de sua personalidade, coisa com o que não deveria se preocupar. Eu a aconselhava a procurar um médico. Não custava nada se precaver. Eu iria fazer a mesma coisa dentro de muitos poucos anos, brincava. Mas ela (nunca saberei se havia algum temor não revelado), ria-se junto e não tomava nenhuma atitude. (VIOTTI, 2000, p. 598).

Em 1993, Dulcina deixa o prédio da FBT e passa seus últimos dias de vida em seu apartamento. Dulcina chegou em Brasília em 1972 com sessenta e quatro anos de idade e partiu em 28 de agosto de 1996 aos oitenta e nove anos. Internada no Hospital Regional da Asa Norte em Brasília para tratar de uma diverticulite, Dulcina não resistiu a cirurgia e veio a falecer. Está sepultada no Cemitério Campo da Esperança do Plano Piloto em Brasília. Em 29 de agosto de 1996, foi noticiada sua morte no Jornal do Brasil.


Figura 2 Matéria do dia 29/08/1996 no Jornal do Brasil: O Adeus de Dulcina de Moraes.

Disponível em: <http://www.divadulcina.blohspot.com.br/jornaldobrasil>. Acesso em 15/12/2015.

Quem continuaria o sonho dessa mulher? Quem preservaria o patrimônio deixado por ela? Essa grande riqueza de valor simbólico e cultural inestimável? Quem? Seu amigo B. de Paiva continuou administrando a FBT até o ano de 2013. A crise financeira se agravou ao ponto de haver uma intervenção do Ministério Público do Distrito Federal em 01 de julho de 2013. Mediante aos vários problemas gerados pela falta de pagamentos dos impostos estatais, dos salários dos funcionários e de diversos serviços, os estudantes matriculados se organizaram para que a FADM não fechasse as portas.

O Governo do Distrito Federal, provocado pela comunidade acadêmica da Faculdade Dulcina de Moraes, cogitou a possiblidade de torná-la pública. A Câmara Legislativa Federal chegou a publicar uma matéria em seu site oficial no dia 18 de abril de 2013, intitulada “ Secretário diz que Faculdade Dulcina só deverá se tornar pública no ano que vem”:

A passagem da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes para o Governo do Distrito Federal (GDF) é irreversível, mas só deve ocorrer no ano que vem. A previsão foi feita pelo subsecretário do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural da Secretaria de Cultura do Distrito Federal, José Delvinei dos Santos, diante de deputados, professores e alunos da instituição, em audiência pública nesta quinta-feira na Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados. Ele explicou que o governo local ainda elabora um projeto de lei para a criação da entidade mantenedora, que vai substituir a atual, a Fundação Brasileira de Teatro. A proposta terá que ser analisada e aprovada pela Câmara Legislativa. Depois disso, será preciso dotar a entidade de recursos orçamentários e realizar concurso público para preencher os seus quadros, conforme ressaltou Delvinei. "Eu queria deixar bem claro para a sociedade que esses processos são muito lentos. Muitas vezes o Estado não acompanha o ritmo do nosso desejo e das nossas necessidades. Desde meados do ano passado, um grupo de trabalho do Governo do Distrito Federal estuda a criação da Escola Superior de Artes de Brasília. A intenção de criar a faculdade coincidiu com a grave situação financeira por que passa a Fundação Brasileira de Teatro, com um passivo em torno de R$ 10 milhões, entre dívidas fiscais, trabalhistas e previdenciárias. Há menos de um mês, o GDF anunciou que passaria a Faculdade Dulcina para a sua responsabilidade, enchendo de esperança professores, com constantes atrasos nos salários; alunos, que vivem a incerteza de não poder concluir seus cursos, e todas as pessoas que de uma maneira ou de outra estão ligadas à escola. As dívidas do passado, porém, continuarão a cargo da fundação, assim como a gestão do teatro e do acervo cultural, conforme explica o secretário-executivo da entidade, Augusto Brandão. "Toda a parte artística-cultural da fundação e outras atividades serão mantidas na fundação. O que a gente precisa é deixar de ter esse déficit operacional para que a gente tenha condição de reformar o teatro, dar visibilidade e criar o Museu do Teatro Brasileiro, contemplando o acervo de Dulcina, o acervo de B. de Paiva e outros atores. A distritalização é o começo de um processo para que a gente tenha condições de atuar como se deve em outras áreas (LUGULLO, 2013).

No entanto, não foi concretizada a distritalização da Fundação Brasileira de Teatro. Logo, o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios prosseguiu com a intervenção. Até junho de 2016, essa crise ainda não foi superada.

3.3 Patrimônio Cultural

Tudo que está ao nosso redor, seja material ou imaterial, torna-se cultura. Livros, performances, narrativas orais, culinária, arte, memória, danças, produção científica, tradições entre outros elementos que carregam uma grande quantidade de signos, significados e símbolos culturais. Tudo o que é produzido pela humanidade com atribuição de um valor simbólico é considerado bem cultural. De acordo com os autores Nilson Gherardello e Beatriz Spisso, temos que:

O registro (físico ou não) de elementos da realidade (cultural ou material), passado ou presente. É todo elemento material ou imaterial, capaz de traduzir o momento cultural ou natural de grupos sociais ou de ecossistema. Ex.: as obras de Portinari, Niemeyer, Villa Lobos, Jararaca e Ratinho, Pixinguinha, a receita da pamonha, da cachaça, o descascador de café, a tecnologia do fogão, a lenha, a Amazônia, o Pantanal, a onça pintada, a peteca, as rendas do Ceará, o Kuarup, os corares, etc (2008, p.13).

Para melhor entender a concepção de bem cultural, vamos analisar o conceito de cultura. Os autores Ana Paula Rezende Macedo, Maria Clara Tomaz Machado e Valeria Maria Queiroz Cavalcante Lopes publicaram pela Secretaria Municipal de Cultura de Uberlândia a Revista Patrimônio CulturalQue bicho é esse?, onde consideram que:

Cultura são os costumes, a tradição de um lugar. Cultura é sinônimo de produção, diz respeito às artes de fazer que estão entranhadas no cotidiano de uma comunidade. É como uma colcha de crochê, no vaivém da linha se estabelece as relações humanas. Todavia, a cultura não é uma ação estática, ela se reinventa, porque é parte de um processo histórico em transformação (MACEDO; MACHADO; LOPES, 2014, p.07).

Esses autores definem patrimônio cultural como o conjunto de bens pertencentes a uma pessoa, a uma família ou a uma comunidade. Patrimônio é sinônimo de riqueza desde que entendida como expressão de uma tradição, de uma identidade cultural, da crença e valores culturais coletivamente (Idem).

A educação, a história, a cultura são propriedades da humanidade. Porém, algumas pessoas não valorizam ou não sabem preservar sua própria cultura. Entendo que as motivações desses sujeitos podem ter origem na falta de conhecimento da importância do patrimônio cultural como preservação de uma memória coletiva ou no interesse de destruir tais elementos que ofertam símbolos de resistência a partir da produção de diversas identidades.

Os autores da Revista Patrimônio CulturalQue bicho é esse? afirmam que:

Patrimônio cultural diz respeito a identidade cultural de um povo e da humanidade. Ele é o conjunto de todas as expressões e manifestações culturais. Nesse sentido, as peças de acervos em museus, documentos guardados em arquivos, bens antigos, casas, prédios, monumentos, objetos, hábitos alimentares, vestimentas, modas de vida, fazeres e saberes manuais, artesanais, crenças, dentre outras tradições constituem e constroem nossa identidade cultural (MACEDO; MACHADO; LOPES, 2014, p.08).

A importância da preservação de um bem cultural está diretamente vinculada ao valor imaterial que a comunidade lhe atribui. A imaterialidade está diretamente relacionada com o que é abstrato, trata-se de um valor, de saberes e sentimentos. As formas de expressão de um povo, aquilo que é intangível e que não se pode tocar. O bem cultural também pode ser material quando se constitui de objetos palpáveis. Considerando essas colocações sobre a definição de patrimônio, o legado deixado pela atriz Dulcina de Moraes pode ser classificado como bem cultural material e imaterial, fazendo parte da história do teatro brasileiro.

O prédio que abriga a FBT, os teatros Dulcina e Conchita de Moraes, a galeria de artes, as salas de aulas da Faculdade de Artes, são exemplos de bens culturais materiais. Os conhecimentos artísticos, a memória, a história, a tradição teatral transmitida às novas gerações a partir das experiências de Dulcina formam sua herança imaterial.

Conhecer a forma de preservação do patrimônio cultural e apropriar-se dele são caminhos possíveis que viabilizam sua proteção, seja por meio de instrumentos legais como inventário, tombamento, registro, ou ações que objetivam a sua promoção e valorização. Pelo fato de algumas pessoas não terem o conhecimento sobre o que é patrimônio e como preservá-lo, terminam por não compreenderem o que seja proteção e preservação patrimonial.

Mas seriam a FBT e a FADM bens culturais? Evidentemente que sim, pois existem inúmeros registros materiais e imateriais sobre a obra, o legado deixado por Dulcina, principalmente sua memória. No meu entendimento, o patrimônio material da FBT encontra-se em um estado que precisa urgentemente passar por uma série de cuidados. Considero preocupante o fato do acervo pessoal de Dulcina, em que se encontram as roupas, sapatos, chapéus, documentos pessoais, mobília, quadros, fotos entre outros, não estarem em local apropriado para garantir a sua preservação.

Sabendo então que preservar é cuidar e que a comunidade precisa estar atenta quanto à proteção do patrimônio deixado por Dulcina, para tanto, penso que a valorização deste universo cultural, rico em história, peças teatrais, objetos de cena, e principalmente a memória da grande dama do teatro brasileiro, necessita de ações efetivas para concretizá-la.

Ecléa Bosi (1994, p.55) conta que “na maioria das vezes, lembrar não é reviver, mas refazer, reconstruir, repensar, com imagens e ideias de hoje, as experiências do passado. A memória não é sonho, é trabalho. ” Logo, manter viva a memória de Dulcina requer grande esforço e trabalho constante. A FBT e a FADM constituem-se como a presença de Dulcina de Moraes na sociedade por meio da vida teatral e acadêmica.

Como vimos, Dulcina trabalhou, batalhou para realizar a construção da FBT. Vendeu tudo que tinha no Rio de Janeiro. Realizou seu sonho com muito suor. Esforçou-se ao máximo, sem cansar, entregou à população um sonho então realizado. Para valorizar a memória daquela que mudou a história do teatro brasileiro e garantir que sua imagem não caia no esquecimento, entende-se que “a lembrança é uma imagem construída pelas matérias que estão, agora, a nossa disposição, no conjunto de representações que povoam nossa consciência atual” (BOSI, 1994, p.55).

Portanto, lembrar de Dulcina todos os dias é contribuir para o desenvolvimento das artes em nosso país, pois essa mulher que se preocupou com os atores, os artistas, a cultura e a educação do nosso povo. Dulcina agiu como uma mãe preocupada com o futuro artístico-cultural de seus filhos. O patrimônio cultural material e imaterial de Dulcina nos foi entregue para que cuidemos dele, sem deixar que ninguém e qualquer órgão venha determinar a finalização deste sonho realizado.

4. O PAPEL SOCIAL DO ARTISTA

Neste capítulo vamos compreender o papel social do artista na sociedade. Que função o artista desempenha em uma coletividade? Entendo que o papel da arte seria provocar o ser humano com incômodos que ocasionem estranhamentos e reflexões, impulsionando transformações. Nesse contexto, a expressão do artista por meio das linguagens apresenta representações que atingem nossas emoções, sentimentos e razão.

Sob essa perspectiva Marilena Chaui, em seu livro Convite a Filosofia (2000) afirma que “ arte corresponde ao termo grego techne. São ações produzidas pelo homem por meio de técnicas. Significa habilidade, agilidade, pessoa com o dom de produzir algo, utilizando ferramentas adequadas para a obtenção de uma obra”. Está relacionado ao que é espontâneo e natural.

Nesse sentido, a autora define a arte em duas categorias: liberal e mecânica. Ela exemplifica:

São artes liberais: gramática, retórica, lógica, aritmética, geometria, astronomia e música, e o teatro. São artes mecânicas todas as outras atividades técnicas: medicina, arquitetura, agricultura, arquitetura, pintura, escultura, tecelagem, etc. Essa classificação diferenciada será justificada por Santo Tomás de Aquino durante a idade média como diferença entre as artes que dirigem o trabalho da razão e as que dirigem o trabalho das mãos. Ora, somente a alma é livre e o corpo é para ela uma prisão, de sorte que as artes liberais são superiores às artes mecânicas (CHAUI, 2000, p.406).

Ainda conforme Chaui, São Tomás de Aquino afirmava que a alma é livre e o corpo prisão e estamos assim condicionados a criar e o corpo se coloca como prisioneiro da criação. Para ela, o artista é um ser dotado de inspiração, de iluminação, é um gênio capaz de criar algo com técnicas específicas que provoque a sociedade e a si mesmo.

Em determinadas sociedades, a arte se aproximava da magia, pois era considerada sagrada. Sendo assim, o artista era visto como mago, detentor de um ofício adquirido por meio de estruturas espirituais ou não. A autora conta que o trabalho do artista “nascia de um dom dos deuses (que deram aos humanos o conhecimento do fogo, dos metais, das sementes, dos animais, das águas e dos ventos) ” (2000, p.409).

Estudos apontam que a arte surgiu na pré-história em rituais ligados à magia e ao religioso. O profissional da arte exprime seu modo de enxergar as coisas na companhia de outros humanos, reflete sobre a sociedade em que vive, busca extrair do seu intelecto, sonetos, críticas, sugestões, transcreve seus pensamentos em cores fixadas em telas, em textos teatrais como faz diversos autores.

Nesse discurso, a autora Marilena Chaui afirma que:

[...] a relação arte-sociedade levou a duas atitudes filosóficas opostas. A primeira afirma que a arte só é arte se for pura, isto é, se não estiver preocupada com as circunstâncias históricas, sociais, econômicas e políticas. O valor da obra de arte decorre do seu compromisso crítico diante das circunstâncias presentes, na qual o artista toma posição diante de sua sociedade, lutando para transformá-la e melhorá-la, e para conscientizar as pessoas sobre as injustiças e as opressões do presente (2000, p.418).

O profissional das artes é visto como um gênio, pessoa inspirada, cheia de vigor e de ideias, criador extraordinário de obras. É um mágico misterioso. Entendo que, quanto mais uma obra de arte provocar a humanização por meio da sensibilidade, maior será o seu valor simbólico. Os processos criativos passam pela profunda observação de mundo, pois os insights surgem antes, durante e depois da realização do trabalho. Marilena Chaui afirma que “a natureza é a ordem e a conexão universal e necessária entre as coisas, expressas em leis naturais” (2000, p.371).

A capacidade de criar faz parte do ser humano. Quando o artista cria, ele se conecta ao universo dos símbolos, de seus ideais e aos objetivos culturais. Ele escolhe o que quer, produz e entrega o resultado final à sociedade, para que essa possa refletir sobre questões que ele considera relevante.

Somos todos sujeitos culturais, mesmo que não tenhamos o costume de pintar quadros ou de interpretar personagens no teatro, mas produzimos histórias, damos exemplos, entregamos ao artista elementos imateriais, e ele nos devolve em obras de arte. Mas convêm definirmos o que é cultura a partir da autora Marilena Chaui onde explica:

Dois são os significados iniciais da noção de cultura: 1 - Vinda do verbo latino colere, que significa cultivar, criar, tomar conta e cuidar. Cultura significa o cuidado do homem com a natureza. Donde: agricultura, significava também, cuidado dos homens com os deuses. Donde: culto, significa ainda o cuidado com a alma e o corpo das crianças, com sua educação e formação. Donde: puericultura (em latim, puer, significava menino; puera, menina). A cultura era o cultivo ou a educação do espírito das crianças para tornarem-se membros excelentes ou virtuosas da sociedade pelo aperfeiçoamento e refinamento das qualidades naturais (caráter, índole, temperamento). 2 - A partir do século XVIII, cultura passa a significar os resultados daquela formação ou educação dos seres humanos, resultados expressos em obras, feitos, ações e instituições: as artes, as ciências, a filosofia, os ofícios, a religião e o Estado. Torna-se sinônimo de civilização, pois os pensadores julgaram que os resultados da formação educacional aparecem como maior clareza e nitidez na vida social e política ou na vida civil (a palavra civil vem do latim: civis, cidadão, civitas, a cidade-Estado) (CHAUI, 2000, p. 372).

O aperfeiçoamento do homem se inicia na educação, alfabetizando as crianças com música, dança, ginastica, gramática, poesia, retórica, história, filosofia, etc. A pessoa provida de culto, torna-se virtuosa, participante, conhecedora das ciências, das artes, filosofia, sociologia e do teatro.

A educação das crianças com o amplo acesso à arte, ao teatro, à dança, à música e outras linguagens artísticas proporciona a formação de um ser humano sensível. Diante disso, podemos formar crianças em que seu terreno possa ser cultivado de forma natural, de maneira em que as estruturas cognitivas, as regras, as crenças, a forma de ver a sociedade como um lugar onde terão a liberdade de se expressar.

A democracia cultural tem por objetivo privilegiar a todas as classes, sem haver qualquer restrição por parte de quem deseja alcançá-la. Porém, algumas vezes, obstáculos interferem na aquisição do culto. O capitalismo restringe o acesso ao capital cultural, criando barreiras que dificultam o acesso dos desfavorecidos com a intenção de perpetuar a dominação. Toda cultura tem seu capital cultural.

4.1 Indústria Cultural

Na sociedade capitalista, a arte se distancia da finalidade de sacralização do mundo. Há uma submissão das linguagens artísticas às regras do Capital, em que a prática do consumo de produtos culturais fabricados em série transforma obras de arte em mercadorias. Nessa perspectiva, Marilena Chaui afirma que a arte se massificou para ser consumida rapidamente nos meios de comunicação e no mercado da moda. “ As obras de arte são mercadorias como tudo que existe no capitalismo” (2000, p. 422). A autora utiliza o conceito de aura, conforme a definição de Walter Benjamin, para dizer que a obra artística perde sua característica de singularidade, ou seja, “ a sua condição de exemplar único que se oferece num aqui e agora irrepetível, sua qualidade de eternidade e fugacidade simultânea” (2000, p. 409).

Seguindo esse raciocínio, a indústria cultural massificou a cultura. Os valores das obras artísticas, dos espetáculos, esculturas e outros separam a elite da massa. Quem tem poder aquisitivo, tem acesso à boa parte das obras de arte. Quem não tem, fica restrito. A arte tornou-se uma mercadoria classificada setorialmente, em que só quem detém o poder pode adquirir para si. Sobre a cultura de massa, Marilena Chaui explica que:

Em primeiro lugar, porque separa os bens culturais pelo seu suposto valor de mercado: há obras “caras” e “raras”, destinadas aos privilegiados que podem pagar por elas, formando uma elite cultural: e há obras “baratas” e “comuns” destinadas à massa. Assim, em vez de garantir o mesmo direito de todos a totalidade de produção cultural, a indústria cultural introduz a divisão social entre elite “culta” e a massa “inculta”. O que é massa? É um agregado sem forma, sem rosto, sem identidade, sem pleno direito à cultura. Em segundo lugar, porque cria a ilusão de que todos têm acesso aos mesmos bens culturais, cada um escolhendo livremente o que deseja, como o consumidor num mercado (2000, p. 423)

Essa massificação faz com que a arte perca três de suas principais características, pois se tornaram reprodutivas e repetitivas, produtos de consumo próprio e ainda serem consagração do Mercado. A obra deve seduzir o interessado. A arte torna-se, em diversos momentos, um objeto decorativo. Podemos considerar também que a cultura é colocada no lugar de lazer e entretenimento, diversão e distração, tirando a dignificação do artista por sua obra proposta.

Portanto, a arte é o caminho para a reflexão, uma forma de induzir o olhar do outro para aquilo que nunca havia enxergado. Chaui diz que “massificar é assim, banalizar a expressão artística e intelectual. Em lugar de difundir e divulgar a cultura, despertando interesse por ela, a indústria cultural realiza a vulgarização das artes e dos conhecimentos” (2000, p.424).

Dessa forma, podemos dizer que a indústria cultural age de forma a provocar a imaturidade dos consumidores quando são utilizadas as linguagens artísticas de maneira a não oferecerem elementos que provoquem a reflexão crítica sobre o que está sendo dito. A promessa de felicidade ao alcance de nossas mãos feita por meio da publicidade, transforma-nos em um público dócil e passivo, uma vez que processos de imposição de valores, hábitos, comportamentos e ideias são realizados como se não fôssemos capazes de pensar, avaliar e julgar o que vemos (2000, p. 427).

Assim sendo, considero um bom artista aquele que produz uma obra de arte capaz de provocar questionamentos e reflexões em seu público. Quanto à artista Dulcina, entendo que ela, além de representar suas personagens de forma que o público fosse provocado, também fomentou na sociedade brasileira a necessidade de educar a população, tendo a arte como um enorme potencial de humanização.

4.2 Dulcina de Moraes e o Papel da Artista

Dulcina de Moraes instituiu a FBT/FADM para que a mesma formasse pessoas críticas, reflexivas, com ensino de qualidade, de forma que a criação e a produção artística fossem valorizadas. Conforme o Regimento Interno da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes, a instituição acadêmica tem como objetivo oferecer ensino de excelência que estimule a criação, a produção e a propagação do conhecimento por meio da cultura, das artes, da comunicação e de suas tecnologias, fundamentado em uma visão humanista, na ética e no respeito às classes sociais.

Dulcina teve como interesse formar profissionais, artistas e colocá-los no mercado de trabalho. Estimulou-os a praticar a pesquisa, a comunicar-se com a sociedade e com a educação. Como vimos anteriormente, a atriz promoveu ações que fortalecessem a admiração pelas artes. Desenvolveu uma metodologia de estudo que pudesse proporcionar aos discentes a reflexão sobre o existente e o que ainda viria a existir.

No artigo 4º do Regimento Interno da FADM explica que são objetivos:

I. Promover a formação de professores e artistas nas diversas linguagens das artes e da comunicação, para a inserção no mercado profissional; II. Estimular a pesquisa em arte e comunicação e programas educacionais e culturais de alcance social; III. Divulgar e difundir a cultura artística, favorecendo a construção de discursos poéticos e promovendo o acesso à produção cultural; IV. Estender à comunidade a extensão e a pesquisa, visando à preservação e o desenvolvimento da cultura e arte, das ciências e da tecnologia; V. Incentivar o gosto pela arte e a criação cultural, desenvolvendo o espírito científico e o pensamento reflexivo, para o exercício pleno da cidadania; VI. Oferecer aprimoramento educacional e cultural, comprometido com a visão prospectiva da realidade regional e nacional; VII. Constituir-se em centro de estudos de formação continuada e difusão da cultura (Regimento Interno- FADM).

Assim, observa-se as intenções da atriz Dulcina quando a mesma sonhava em promover, estimular, fomentar, difundir, desenvolver o campo artístico como área de conhecimento aberto à pesquisa e à extensão de ensino. Os verbos utilizados no início de cada item do artigo acima nos fazem refletir sobre o real interesse de Dulcina em vir para Brasília construir uma faculdade de artes.

Com a concretização da construção da FADM, Dulcina tornou-se uma referência na história do ensino das artes, mais especificamente do teatro, no Brasil, permitindo que muitas pessoas pudessem realizar seu sonho em formar-se como artista e/ou arte-educador. Considero a FADM como uma caixa mágica, uma fábrica onde desenvolve humanos capacitados para difundir o conhecimento artístico na sociedade.

Em entrevista a Sergio Viotti, Dulcina responde:

O teatro é a minha casa. O meu habitat. O meu oxigênio. Neste apartamento eu apenas como alguma coisa, leio, durmo, me preparo para sair. Porque a minha verdadeira casa é a Fundação. E lá eu continuo vivendo no teatro. O prazer que a Fundação me dá é através do teatro. Porque as aulas são teatro. É estar fazendo, trabalhando, criando em termos de teatro. Ensinar teatro é estar no teatro. E eu estou contribuindo, como tantas outras pessoas, para distribuir conhecimento, a noção da responsabilidade do teatro. O prazer do teatro. Estou dando a eles um ensinamento que vai possibilitar, eu estou certa, tenho certeza absoluta disso, que vai possibilitar a eles serem felizes como seres humanos. Você sabe o que é sentir que se está distribuindo alguma forma de felicidade para essa juventude de hoje? Eles são tão cheios de problemas, de angústias, de perguntas sem respostas. O mundo em que eles estão vivendo agora é tão exigente, tão implacável. Eu gostaria que eles sentissem que as artes, sobretudo, o teatro, além de ser uma atividade profissional, deve e pode ser uma fonte de alegria, de realização pessoal plena. Consequentemente, de felicidade. É isso o que eu estou tentando comunicar a essa juventude. E esta cidade, mais do que qualquer outra, precisa de alguém que tenha essa preocupação. Aqui tudo está sendo feito. Ainda. E eles vão continuar fazendo depois de mim (1988, p. 39).

Sobre essas palavras, enxerga-se a tamanha preocupação de Dulcina na difusão da cultura. Como já apresentei neste trabalho, o conceito de cultura está relacionado à ideia de cuidar, criar, tomar conta, cuidar. No sentido do cuidado da humanidade com a natureza, cultura significa o cultivo de um terreno. No sentido educativo, a cultura é entendida como o cuidado com a alma e o corpo, o cultivo da educação e da formação das novas gerações.

Logo, podemos entender que havia uma preocupação da atriz em cultivar a alma dos alunos que frequentavam aquele universo cultural-acadêmico. Ela queria que seus estudantes pudessem trabalhar o teatro como fonte de energia, alegria e felicidade. Por isso, considero de suma importância a preservação do patrimônio histórico-cultural deixado pela atriz, pois, trata-se do cultivo de nosso espírito por meio das artes.

Dessa maneira, Dulcina provocou a expansão das pesquisas em artes quando se preocupou com a sistematização do ensino de teatro no Brasil. Desenvolveu uma célula, um núcleo de artes com um corpo docente experiente que transmitiria o conhecimento prático/teórico a quem tivesse interesse. Eu passo pelo processo de ensino-aprendizagem em artes, e assim, cultivo em mim o que futuramente cultivarei em outros, contribuindo com a formação crítica, questionando o sistema capitalista por meio da democratização do capital cultural.

Sendo assim, podemos afirmar que Dulcina de Moraes cumpriu com seu papel de artista, modificando a história do teatro com a valorização da profissão de artista e arte-educador. A dama do teatro brasileiro preocupou-se com a sensibilização da humanidade por meio das artes e instituiu práticas que favoreceram a educação dos sujeitos com a valorização da aura do teatro.

Os processos de criação artística na FADM são vistos até hoje como formas educativas de formação crítica e nos coloca no mundo como agentes atuantes no enfrentamento aos mecanismos de massificação e objetivação da obra de arte. Para que tudo isso se mantenha de pé, precisamos zelar, atentando-se aos princípios que Dulcina nos propôs, ao estatuto da FBT e ao regimento interno da FADM.

5. PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO DE DULCINA DE MORAES

Considerando o que Jorge Larrosa fala sobre a experiência sendo aquilo que “nos passa, que nos acontece, que nos toca” (2002, p.21), adoto nesse estudo a concepção de que a vivência gera conhecimento. A atribuição de sentidos às experiências gera saber. Sabemos que a prática é primordial para nossa sobrevivência como ser humano, pois os descobrimentos ficam na memória, arquivados. Sobre esse assunto, Jorge Larossa afirma que:

[...] a experiência é um movimento de ida e volta. Um movimento de ida porque a experiência supõe um movimento que vai ao encontro com isso que passa, ao encontro do acontecimento. É um movimento de volta porque a experiência supõe que o acontecimento afeta a mim, que produz efeitos em mim, no que sou, no que penso, no que sinto, no que sei, no que quero, etc. (2011, pag.06).

Então, se a experiência me afeta de algum modo, posso compartilhá-la. Eu construí um caminho, uma passagem, não estou e nunca estive sozinho. Precisamos ouvir nossas próprias experiências e a dos outros também. Quando Larossa diz que é um movimento de ida e volta, está mostrando que é uma troca de informações, de saberes, de conhecimentos. A experiência é algo que nos acontece, é um rito de passagem pela vida.

Tenho enorme preocupação com o patrimônio deixado pela atriz. Existe uma grande história, uma memória, uma simbologia cultural que considero que deve ser preservada. Dulcina não só deixou um prédio de cinco andares com cinco mil metros quadrados. Ela nos permitiu sonhar. Devo total gratidão à ela e uma obrigação de preservar e cuidar de seu patrimônio, pois entendo que muitos sonhos ainda serão realizados e, para que isso aconteça, a saúde da FBT precisa estar estável. O trabalho desta artista mudou a história da arte teatral no Brasil, contribuindo com a propagação do ensino e com a valorização da formação educativa do arte-educador. Entendo que a atriz precisa ter reconhecimento pela UNESCO por ter desempenhado grande relevância artístico-cultural para nosso país.

A Faculdade de Artes Dulcina de Moraes me proporcionou o encanto pelo teatro. O legado deixado por Dulcina emana energia que vai além do mundo físico, do concreto. Entendo que o patrimônio aqui em questão não está só no prédio e no acervo. O túmulo da atriz pode ser considerado como parte integrante de sua memória. Em abril de 2015, muito me angustiou ver que sua lápide estava completamente abandonada como mostra a imagem a baixo:


Figura 3 - Foto tirada do túmulo de Dulcina Myssen de Moraes, situado no Cemitério Campo da Esperança em Brasília, DF. Fotografia de Paulo de Sousa Rodrigues tirada em abril de 2015

Quando me deparei com a situação do túmulo, enviei um e-mail aos administradores judiciais, indicados pelo Ministério Público para gerenciar a FBT, solicitando a autorização financeira para a manutenção do túmulo, o que foi prontamente autorizada. Em seguida, a diretora da FADM à época, Ana Cláudia Pinheiro, passou-me o contato de um jardineiro do Cemitério Campo da Esperança. Entrei em contato com ele e solicitei que realizasse o trabalho de limpeza e de jardinagem, revitalizando o túmulo. Na antiga placa de identificação não constava mais os dados da atriz e nem o endereço do jazigo. Foi então que providenciei duas novas placas, uma com o nome completo da atriz e sua data de nascimento e falecimento e outra com endereço do túmulo.


Figura 4 – Foto produzida em Agosto de 2015, Brasília-DF por Paulo de Sousa Rodrigues

No dia 28 de agosto de 2015, completaram-se dezenove anos de falecimento da atriz Dulcina de Moraes. Neste mesmo dia fui ao Cemitério Campo da Esperança situado no final da W3 Sul – avenida do Plano Piloto – para pagar a mensalidade ao jardineiro que cuida do túmulo. Foram realizados o plantio das flores, a limpeza do rejunte e a higienização do mármore. A antiga placa onde deveria mostrar a mensagem com a data de nascimento, falecimento, estava apagada com a ação do tempo. Outra placa foi produzida conforme vemos na figura 4. Para celebrar os vintes anos de seu falecimento, escrevi um projeto de revitalização do túmulo, juntamente com uma estátua de Dulcina. Este projeto foi entregue ao Rumos Itaú Cultural, porém não foi selecionado.


Figura 5 – Foto registrada em maio de 2015, após a revitalização do túmulo de Dulcina de Moraes no Cemitério Campo da Esperança, Brasília, DF por Paulo de Sousa Rodrigues

O abandono do túmulo, para mim, revela um descaso que a sociedade brasiliense, principalmente da classe artística, pois faz parte patrimônio deixado pela artista. Podemos considerar que este mesmo abandono do túmulo acontece no prédio da FBT. Esse mesmo edifício precisa passar por reformas estruturais. As instalações elétricas e hidráulicas comprometem a segurança dos seus frequentadores.

O Teatro Dulcina é considerado como um dos melhores do Distrito Federal. Dulcina acompanhou pessoalmente a construção e orientou os responsáveis pelas obras para que a estrutura do prédio oferecesse a melhor acústica possível. A situação da Sala Conchita de Moraes não é diferente. Hoje, coletivos artísticos ocupam o espaço para apresentarem espetáculos e em contrapartida estão fazendo pequenas restaurações.

Encontrei, nos arquivos da FBT, dois projetos: um deles foi elaborado em parceria com a Petrobrás e outro foi produzido pela Associação dos Amigos de Dulcina e encaminhado ao Ministério da Cultura. Os dois projetos foram arquivados, pois a FBT está com suas certidões negativas.

A situação da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes é bastante preocupante. Alguns professores, em 2016, não recebem seus salários há mais de dois anos. Alguns estão recebendo a partir de ações na justiça. A biblioteca Odilon Azevedo tem o acervo desatualizado e necessita de reformas para melhor receber os estudantes. O único elevador do prédio ficou parado por muito tempo e só voltou a funcionar no início de 2015. O elevador existe desde o início da construção da FBT e algumas peças para manutenção já não existem no mercado. Logo, seu uso deve ser restrito aos cadeirantes, gestantes e idosos. A troca do elevador por um novo custaria hoje uma quantia de aproximadamente cento e cinquenta mil reais.

Em seu diário localizado em seu acervo pessoal, Dulcina aponta as dificuldades que foram vencidas a partir de processos na justiça para dar continuidade à construção de sua obra.

Quanta gente feliz! Como fica imensa a felicidade da gente quando ela é igualmente sentida por muitas outras pessoas. E fomos muitos: na FBT, fora da FBT, Brasília, no Rio...foi um maravilhoso presente de Papai Noel. Hoje à tarde soubemos que no dia 15 de dezembro, o juiz Luiz Cláudio de Almeida Abreu declarou extinto o processo de execução movido pela MERCATEC contra a FBT. Viva Deus! Vamos poder recomeçar a obra! Agora precisamos rescindir o contrato da FBT com a MERCATEC. Não existe mais clima para trabalharmos juntos depois de tudo que atrasaram e sabotaram a FBT (Diário de Dulcina de Moraes, em anexo, cópia).

Compreendo que a FBT/FADM representa vida, liberdade e paixão. Muitas pessoas sentem amor pela história que esse patrimônio material e imaterial representa. Vejo nos olhos dos que frequentam esta faculdade, o amor pela profissão e pelas artes. O cheiro que sentimos nos corredores da FADM, nos camarins, no teatro Dulcina, na galeria de artes, na Sala Conchita está impregnado pela presença de Dulcina.

5.1 Estratégias de Como Preservar o Patrimônio

Mas o que seria preservar? Os autores Nilson Gherardello e Beatriz Spisso definem a preservação como “a manutenção de um bem no estado físico em que se encontra e a desaceleração de sua degradação, visando prolongar e salvaguardar o patrimônio cultural” (GHERARDELLO/BEATRIZ SPISSO, 2008, p.14).

Sabe-se que as instalações do prédio da FBT não estão em perfeitas condições, porém as atividades não se encerraram, mesmo com todas as dificuldades. Olhar as paredes sujas, as lâmpadas queimadas, as cerâmicas dos pisos quebradas é motivo de tristeza, pois o espaço revela uma imagem da memória coletiva.

A insistência pela manutenção do espaço revela a importância que uma pequena parcela da comunidade brasiliense atribui ao patrimônio histórico-cultural deixado por Dulcina. Algumas ideias já surgiram e não foram concretizadas, pois a FBT/FADM passa por dificuldades em recuperar-se enquanto instituição, pois sofre sansões do Estado por não ter pago seus impostos. Surgiu a ideia da criação de um museu para expor o acervo da atriz Dulcina de Moraes, juntamente com a produção de um longa-metragem. Para este, existe até o roteiro escrito pela roteirista Dryca Lys. Porém, nenhum desses dois projetos foram concretizados.

Diante das ameaças de fechamento e venda do prédio da FBT para pagar as dívidas, houve um momento em que um bispo da Igreja Universal, localizada ao lado da FADM, apresentou proposta de aluguel do teatro durante o período de um ano. Circularam informações de que pessoas queriam comprar o patrimônio deixado por Dulcina. Para impedir que a sociedade brasiliense perdesse tal legado, um grupo de pessoas se mobilizou à época para provocar junto ao Estado o tombamento do conjunto arquitetônico por meio de um decreto, registrado no Diário Oficial do dia dez de dezembro de 2007.

O GOVERNADOR DO DISTRITO FEDERAL, no uso das atribuições que lhe confere o artigo 100, inciso VII, da Lei Orgânica do Distrito Federal, e com fulcro nos dispositivos da lei nº 47, de 02 de outubro de 1989, regulamentada pelo decreto nº 25.849, de 17 de maio de 2005, que se dispõe sobre o tombamento, pelo Distrito Federal, de bens de valor cultural, DECRETA: Art 1º. Considera-se sobre a proteção do Governo do Distrito Federal, mediante tombamento como Bem Cultural do Distrito Federal, de valor histórico, o Teatro Dulcina de Moraes e suas dependências destinadas às atividades cênicas (plateia, palco, camarins, foyer, acervos e circulações adjacentes, bem como os acervos fotográficos, textuais e cênicos, remanescentes dos espetáculos protagonizados pela atriz. Art 2º. Fica destinada como Área de Tutela do Teatro Dulcina de Moraes a projeção do prédio. Parágrafo único – Quaisquer intervenções físicas, porventura, realizadas no Teatro Dulcina de Moraes e na respectiva Área de Tutela, somente poderão ser executadas mediante parecer técnico e aprovação da Secretaria de Estado de Cultura do Distrito Federal / Diretoria de Patrimônio Histórico e Artístico – DEPHA. Art 3º. A Administração do Distrito Federal, no âmbito de sua competência e nos termos da legislação civil e penal, adotará providências visando a apuração penal e ao ressarcimento dos danos causados por atos de vandalismo, destruição, deterioração e mutilação que venha a ser praticados em relação aos Bens Tombados em Área de Tutela do Teatro Dulcina de Moraes. Art 4º. Este decreto entra em vigor na data de sua publicação. Art 5º. Revoga-se o Decreto nº 27.795, de 20 de março de 2007. Brasília, 07 de dezembro de 2007.

(Brasil. Decreto n.º 27.795, de março de 2007)

Este decreto assinado pelo governador do Distrito Federal à época José Roberto Arruda em 2007, protege o patrimônio material deixado por Dulcina de Moraes na esfera distrital. Entendo que há uma necessidade de o tombamento junto ao Instituto de Patrimônio Artístico Nacional - IPHAN. Com esse decreto, não pode haver qualquer tipo de vandalismo, destruição, deterioração ou intervenção física sem o consentimento e autorização da Diretoria de Patrimônio Histórico e Artístico – DEPHA. Logo, o acervo pessoal – figurinos, documentos, peças teatrais, mobília, adereços, fotos, vídeos –, os camarins, o Teatro Dulcina, Conchita e as áreas adjacentes ao prédio da FBT devem ser protegidos, mantidos em ordem plena e preservados por todos. Este recurso possibilitou a preservação da identidade social, cultural e educativa.

Considero relevante resgatar o que foi discutido no primeiro capítulo sobre a ideia de patrimônio cultural, uma vez que se trata do conjunto de bens materiais e imateriais de interesse coletivo relevantes para serem perpetuados no tempo. Nesse sentido, as instituições FBT e FADM estão dentro desta categoria, pois se constituem um conjunto de bens que fazem recordar o passado, rememoram acontecimentos importantes na história da arte teatral brasileira, além de preservarem a memória social.

Esse patrimônio pertence à população de Brasília, pois por meio dele é que pode ser possível difundir o ensino de Arte nas escolas da cidade e do país. Patrimônio cultural é tradição, algo passado de geração a geração, é a representação e símbolo de algo e/ou alguém consagrado.

Hoje, encontra-se na região administrativa do Plano Piloto uma matéria física, concreta, fincada no centro da capital federal e que está à disposição da cultura e da educação. Uma fundação sem fins lucrativos, uma escola de artes. Há também uma considerável quantidade de artistas que atuam no mercado como arte-educadores, atores, diretores de teatro, performers, palhaços, desenhistas, pintores, escultores espalhados em Brasília, no Brasil e no mundo.

Sendo Dulcina parte da memória cultural do teatro brasileiro, podemos considerá-la como a imagem viva do teatro brasileiro. Sua história rompe as fronteiras temporais. Um bem cultural constitui elementos formadores do patrimônio, ícone repositório da memória, permitindo que o passado interaja com o presente, transmitindo conhecimento e formando a identidade de um povo (GHERARDELLO; SPISSO, 2008, p. 13).

Vive-se no prédio da Fundação Brasileira de Teatro, uma passagem constante entre o passado e o presente. A todo instante é transmitido conhecimento, seja em sala de aula, no corredor, na portaria, na lanchonete e outros espaços. As paredes antigas, a mobília, os azulejos, portas e janelas fazem do patrimônio que revela a riqueza em que muitos poderão conhecer uma parte da história do teatro brasileiro.

No momento atual, o plano de ação voltado para a preservação e manutenção do patrimônio não contempla as reais necessidades de reformas estruturais. Coletivos de artistas ocuparam os espaços, mas as pinturas feitas nas paredes do corredor no 4º andar não são suficientes para sua preservação. As ações voluntárias de alguns alunos que se reúnem durante o semestre letivo, pintam paredes, lavam pisos, organizando os espaços, apesar de amenizar a situação, também não resolvem os problemas apontados.

Na minha visão, é preocupante o fato de existirem ações assistencialistas, por parte da administração judicial, com atendimento a coletivos que não colaboram com o retorno financeiro da instituição. Um exemplo evidente é o fato de terem salas cedidas a grupos que muitas vezes não pagam aluguel e deixam professores da faculdade sem espaço para darem suas aulas. Acredito que a queda na receita financeira da FBT está associada ao grande número de pessoas que utilizam o espaço sem trazer recursos financeiros. Essa situação tem dificultado a quitação de dívidas, inclusive, o atraso dos pagamentos dos salários dos professores.

Com todos os dados levantados e registrados nesse trabalho, pode-se dizer que cuidar tem sido uma importante função, não só como funcionário ou estudante, mas como cidadão. Algumas pouquíssimas pessoas se preocupam com o que Dulcina deixou, outras apenas cumprem suas funções. De acordo com o art.70 do Estatuto da FBT, temos que:

[...] os funcionários da Fundação Brasileira de Teatro deverão constituir-se em exemplo de cidadão, conhecer e observar o Estatuto e demais regulamentos da instituição, sua visão, missão e premissas e ser disseminadores dos seus princípios e valores, tanto interno como externamente (ESTATUTO DA FUNDAÇÃO BRASILEIRA DE TEATRO, 2002).

Mas porque preservar? Para Nilson Gherardello e Beatriz Spisso:

Cada indivíduo é parte de um todo da sociedade e do ambiente onde vive e constrói, com os demais, a história dessa sociedade, legando às gerações futuras, por meio dos produtos, criados e das intervenções no ambiente, registros capazes de propiciar a compreensão da história humana, pelas gerações futuras. A destruição dos bens herdados das gerações passadas acarreta o rompimento da corrente do conhecimento, levando nas a repetir incessantemente experiências já vividas. Atualmente, a importância da preservação ganha novo foco, decorrente da necessária consciência de diminuirmos o impacto sobre o ambiente, provocado pela produção de bens. A preservação e o reuso de edifícios e objetos, contribuem para a redução de energia e matéria prima necessárias para a produção de novos (2008, p. 15).

Considerando as palavras a cima, estamos incluídos no meio social em que os bens culturais da atriz são referências para o patrimônio da cultura brasileira, temos por obrigação providenciar de imediato a preservação do legado de Dulcina. Isso faz com que cuidemos da história, da memória, da identidade, registrando experiências que serão passadas às gerações futuras. Caso haja uma depreciação dessa herança, o patrimônio se destituirá e assim o conhecimento da arte-educação sofrerá um forte impacto.

Nesse meio, Dulcina pedia aos que estivessem envolvidos com a arte-educação que: “conservem seus passados, por menos interesse que aparentam ter, e os entreguem, com certeza das preservações, a instituições que se empenhem em preservar a história do nosso teatro. ” (1988, p.43).

A valorização dos processos de produção artístico-cultural no âmbito da história teatral brasileira pode ser apontada como um caminho para a ressignificação social relevante para nossa sociedade. Entendo que ainda não damos valor efetivo a este patrimônio. Os futuros artistas, professores, diretores, propagadores da cultura e da educação podem perder a importante referência caso a FBT não venha a ser realmente reconhecida em sua finalidade educacional.

3.2 A Importância do Tombamento

Para os autores Nilson Gherardello e Beatriz Spisso, tombar um patrimônio constitui-se em “um conjunto de ações, realizadas pelo poder público e alicerçado por legislação específica, que visa preservar os bens de valor histórico, cultural, arquitetônica, ambiental e afetivo, impedindo a sua destruição e/ou descaracterização” (2008, p. 15).

Sabendo que o patrimônio de Dulcina está tombado pelo GDF – Governo do Distrito Federal, este precisa ainda ser tombado pelo IPHAN. Este bem que tanto é comentado, constitui-se de uma obra material e imaterial, de interesse cultural, possuidor de significados.

Para realizar um tombamento seguindo as orientações do IPHAN, precisa ser organizado um portfólio, com todas as informações pertinentes ao patrimônio da FBT/FADM com fotos, documentos, livros e outros. Em seguida, ser encaminhado a Superintendência do IPHAN para avaliação do possível tombamento do patrimônio registrado.

O tombamento existe para que seja protegido o bem que alguém proporcionou à sociedade, que teve grande destaque em suas ações, dando-lhe segurança de sua existência. Nesse caso, o Governo Federal e o IPHAN, seriam os responsáveis pela preservação da herança entregue por Dulcina de Moraes, como também todos aqueles que estiverem usufruindo direta ou indiretamente do que for oferecido.

A obra de Dulcina, no alto sagrado, confirma um conjunto arquitetônico irreverente, de valor inestimável, com capacidade para progredir com os saberes artísticos culturais e educacionais da humanidade. A preservação pode existir sem o tombamento, porém sem garantia de que tal possa existir no futuro. A ação de tombar, resguarda o patrimônio de uma possível desfiguração e destruição, assegura que nenhuma intervenção poderá ser realizada sem o consentimento dos órgãos competentes, e esses poderão caso seja necessário, restaurar, reformar e manter a originalidade de princípio.

A finalidade do tombamento, segundo Nilson Gherardello e Beatriz Spisso “é uma medida legal conveniente e segura, particularmente em relação a bens ameaçados pela descaracterização, destruição e pela especulação imobiliária” (2008, p. 16).

Como já comentado anteriormente, existem pessoas com interesses no prédio, parte do patrimônio material de Dulcina de Moraes. O Ministério Público afastou judicialmente pessoas que cometeram irregularidades na administração da FBT conforme vemos nos autos:

O processo nº 2013.01.1.039266-9 foi ajuizado pelo MP do Distrito Federal, objetivando a destituição da diretoria da Fundação Dulcina, sob a alegação de teriam ocorrido irregularidades na administração da entidade, inclusive à dívida oriunda dos mútuos que aparelharam a presente ação de cobrança.

A extinção da FBT atente aos interesses capitalistas pelo valor que o prédio representa de acordo com sua localização. Caso isso venha acontecer, o público poderá perder todo contato com a cultura e educação que a Faculdade Dulcina propicia por esses trinta e seis anos de sua existência nesta capital.

O próprio Ministério Público pode preservar. O promotor de justiça tem como atribuição na sua função como agente, evitar a destruição iminente. Sua determinação pode ter início com a consulta de especialistas em preservação de patrimônio, no caso o IPHAN. De acordo com a Constituição Federal, em seu artigo 129, parágrafo 3º, aponta que uma das atribuições do MPDFT é “ promover o inquérito civil e a ação civil pública, para a proteção do patrimônio social, do meio ambiente e de outros interesses difusos coletivos (BRASIL,1988).

Até a presente data, 02 de agosto de 2016, a FBT encontra-se sob intervenção do MPDFT. Verifica-se a importante abertura de um processo de tombamento provocado pelo promotor público, hoje responsável pela instituição que aqui está sendo diagnosticada.

O tombamento preservará a história e memória da atriz idealizadora do Complexo Cultural, perpetuando uma história que ficará para outras gerações. Ele pode trazer benefícios para desenvolver o turismo na capital. Os administradores judiciais designados para reavivar o patrimônio deveriam ser os primeiros a procurarem mecanismos para proteger, preservar, reerguer e manter operante a fundação. Sabe-se que esta encontra-se debilitada em sua gerência, tudo por conta de uma má administração já afastada pelo MP e de pessoas que teriam e ainda tem interesse pessoal para com o patrimônio de Dulcina.

Atentando para o artigo 69 do Código Civil (BRASIL, 2002), cabe ao MP, ou aos interessados, a extinção de uma Fundação incorporando seu patrimônio em outra instituição que tenha finalidade igual ou semelhante e que é designada pelo juiz. Porém, compreendo que a solução não seria extinguir, sim lutar pelo sucesso da mesma, pois não estamos tratando de uma fundação qualquer.

Dulcina quando escolheu construir sua fundação aqui em Brasília, enxergava além de outros olhares, ela acreditava no potencial que esta capital iria lhe proporcionar. Dulcina mostrou-se encantada em entrevista à Viotti quando afirma:

Eu senti que aqui havia tanta força! Tanta! Enfim, tanto que criar, que realizar. Era um mundo que estava começando. Foi o que eu senti: vontade de estar ali, poder começar com ele. Não recomeçar. Começar. Brasília me causou uma impressão muito funda. Muito forte, muito forte, mesmo. Acho que foi um caso de amor à primeira vista. Numa época que não havia muita coisa para amar (1988, p. 39).

Nesse encantamento de Dulcina, hoje encontramos um legado que nos foi entregue e que devemos preservar, cultivar e restaurar. Existe a necessidade de restauração em todo conjunto arquitetônico. O restauro irá recuperar a originalidade que foi perdida.

Nilson Gherardello e Beatriz Spisso afirmam que “a restauração visa a garantir a permanência de um testemunho físico e real de épocas passadas para gerações futuras. Os processos de restauração são orientados por posturas consolidadas em cartas patrimoniais” (2008, p.26). Porém, para que haja uma proteção, uma ação educativa precisa ser elaborada e transmitida as pessoas que estão ligadas a fundação, alunos, professores, visitantes e outros precisam tomar o conhecimento do que seria preservar um patrimônio.

Todos devemos ser agentes patrimoniais, defender o que nos pertence e o que salvaguardar a integridade material e imaterial do que utilizamos. Caso alguém presencie um ato de demolição ou descaracterização de um patrimônio tombado, esse, deverá se dirigir aos departamentos de fiscalização, ao próprio MPDFT, a secretaria de cultura, ao departamento de polícia e aos demais setores fiscalizadores para denunciar o fato ocorrido.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Conforme vimos, a vida da atriz Dulcina de Moraes foi voltada para a realização de um projeto em que a educação dos seres humanos, por meio da valorização da arte teatral, foi concretizada com a estruturação da Fundação Brasileira de Teatro e com a construção da Faculdade de Artes. Estas instituições, tão caras à sociedade brasileira, são o legado de uma artista que tinha consciência do seu papel em nosso país.

Ao entregar o patrimônio histórico-cultural aos brasileiros, especificamente aos brasilienses, Dulcina reafirmou que a arte desempenha a importante função de cultivar a alma humana. Nesse sentido, considero que ela proporcionou o reencantamento do mundo, pois sua intenção era despertar nos sujeitos uma maneira de se reaproximar do aspecto mágico e sagrado, que existe no teatro e nas artes visuais. Segundo relatos de pessoas que conviveram com a atriz, o acesso a arte era uma forma ritualística e sagrada, pois para entrar no palco, a artista tinha seus rituais ligando-se às forças imateriais.

Devido ao capitalismo e a massificação das obras artísticas, as artes tornaram-se reprodutivas, repetitivas, desvalorizadas. A estratégia para a manutenção do poder por grupos elitistas é de banalizar a arte e provocar uma massificação das pessoas, tornando tudo e todos em produtos mercadológicos. Dulcina de Moraes, entendendo os processos de seu tempo, construiu a faculdade de artes e acreditava que essa seria a chave para o sucesso da educação e profissionalização dos artistas. Entendo que esta mulher deveria ser reconhecida não só pelo IPHAN, mas também pela Organização das Nações Unidas – ONU –, por sua tamanha relevância para a história do teatro. A FBT deve, por questões estatutárias, manter a FADM. As gestões da FBT não têm conseguido cumprir seu papel de mantenedora e a FADM vem sendo constantemente ocupado essa função. Acredito que, se a FBT tiver uma gestão compartilhada com a comunidade acadêmica em um exercício democrático, que privilegia todos na promoção da cultura e da educação, será possível manter a sustentabilidade das duas instituições.

Para tanto, entendo que o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios precisa estar atento às contas, aos integrantes que fazem parte do conselho da FBT. Processos investigativos e fiscais precisam ser constantes, com análise e rigor de todas as contas, evitando qualquer corrupção dentro da instituição.

Com este trabalho monográfico, confirmo minhas ideias iniciais concluindo que a a FBT deve ser mantida para que continue com sua finalidade, com a promoção e formação dos futuros professores e artistas. A FADM precisa continuar levando os alunos para o caminho da reflexão, transformando-os em sujeitos questionadores e ensinando outros a questionarem qualquer sistema que venham enfrentar.

O Estatuto da FBT e o Regimento Interno da FADM precisam estar visíveis a todos. Existem aqueles que entram na FBT com interesses próprios, sem se preocuparem com o real objetivo quando Dulcina concretizou seu bem maior na Capital Federal. Para que possamos seguir, devemos todos dar as mãos em defesa da memória da dama do nosso teatro e de seu/nosso valoroso patrimônio cultural.

7. REFERÊNCIAS

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília DF: Senado Federal: Centro Gráfico, 1988. Disponível em: <http://www.dji.com.br/constitiucao_federal/cf225.htm>. Acesso em: 17 de março de 2016.

BRASIL. Decreto n. 28.518, de 07 de dezembro de 2007. Dispõe sobre o tombamento do Teatro Dulcina de Morais e dos acervos fotográfico, textual e cênico da atriz. Disponível em: <http://www.tc.df.gov.br/SINJ/Arquivo.ashx?id_norma_consolidado= 56515>. Acesso em: 01 de dezembro de 2015.

BRASIL. Estatuto da Fundação Brasileira de Teatro de 2002. Brasília: Imprensa Oficial, 2002.

BRASIL, Lei 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Disponível em: http://www.jusbrasil.com.br/topicos/10725393/artigo-69-da-lei-n-10406-de-10-de-janeiro-de-2002. Acesso em: 23 de março de 2016.

BOSI, Eclea. Memória e Sociedade: Lembranças de Velhos. 3a ed. São Paulo, Companhia das Letras, 1994.

BRASIL. Regimento Interno da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes; agosto de 2002. Brasília: Imprensa Oficial, 2002.

CHAUÍ, M., Convite à Filosofia, São Paulo, 13ª, ed., Ática, 2000.

FREITAS, Marise Lugullo. Conexão Senado. Agenda da Câmara dos Deputados. Rádio Câmara. <http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/EDUCACAO-E-CULTURA/440528-SECRETARIO-DIZ-QUE-FACULDADE-DULCINA-SO-DEVERA-SE-TORNAR-PUBLICA-NO-ANO-QUE-VEM.html>. Acesso em:27 de abril de 2016.

GHIRARDELO, Nilson; SPISSO, Beatriz (coord). Patrimônio histórico: como e por que preservar. Bauru, SP: Canal 6, 2008. Disponível em: <http://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=1&ved=0C www.brasiliapatrimoniodahumanidade.df.gov.br>. Acesso em: 29 de agosto de 2015.

LARROSA, Jorge. Experiência e alteridade na educação. Revista Reflexão e Ação. Santa Cruz do Sul, v. 19, n.2, 2011.

LUGULLO, Marise. Secretário diz que Faculdade Dulcina só deverá se tornar pública no ano que vem. [on-line] Disponível em: <http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/EDUCACAO-E-CULTURA/440528-SECRETARIO-DIZ-QUE-FACULDADE-DULCINA-SO-DEVERA-SE-TORNAR-PUBLICA-NO-ANO-QUE-VEM.html>. Acesso em: 27 de abril de 2016.

MACEDO, Ana Paula Rezende, MACHADO, Maria Clara Tomaz e LOPES, Valeria Maria Queiroz Cavalcante. Patrimônio Cultural – Que bicho é esse? Disponível em <www.uberlandia.mg.gov.br/uploads/cms_b_arquivos/6385.pdf>. Acesso em: 13 de setembro de 2015.

VIOTTI, Sérgio. Dulcina e o Teatro do Seu Tempo. Lacerda Editores. RJ. 2000.

_____________. Dulcina Primeiros Tempos. Rio de Janeiro: Fundação Nacional de Artes Cênicas. Lacerda, 1988.

8. ANEXOS

ANEXO A - Decreto

O GOVERNADOR DO DISTRITO FEDERAL, no uso das atribuições que lhe confere o artigo 100, inciso VII, da Lei Orgânica do Distrito Federal, e com fulcro nos dispositivos da lei nº 47, de 02 de outubro de 1989, regulamentada pelo decreto nº 25.849, de 17 de maio de 2005, que se dispõe sobre o tombamento, pelo Distrito Federal, de bens de valor cultural, DECRETA: Art 1º. Considera-se sobre a proteção do Governo do Distrito Federal, mediante tombamento como Bem Cultural do Distrito Federal, de valor histórico, o Teatro Dulcina de Moraes e suas dependências destinadas às atividades cênicas (plateia, palco, camarins, foyer, acervos e circulações adjacentes, bem como os acervos fotográficos, textuais e cênicos, remanescentes dos espetáculos protagonizados pela atriz. Art 2º. Fica destinada como Área de Tutela do Teatro Dulcina de Moraes a projeção do prédio. Parágrafo único – Quaisquer intervenções físicas, porventura, realizadas no Teatro Dulcina de Moraes e na respectiva Área de Tutela, somente poderão ser executadas mediante parecer técnico e aprovação da Secretaria de Estado de Cultura do Distrito Federal / Diretoria de Patrimônio Histórico e Artístico – DEPHA. Art 3º. A Administração do Distrito Federal, no âmbito de sua competência e nos termos da legislação civil e penal, adotará providências visando a apuração penal e ao ressarcimento dos danos causados por atos de vandalismo, destruição, deterioração e mutilação que venha a ser praticados em relação aos Bens Tombados em Área de Tutela do Teatro Dulcina de Moraes. Art 4º. Este decreto entra em vigor na data de sua publicação. Art 5º. Revoga-se o Decreto nº 27.795, de 20 de março de 2007. Brasília, 07 de dezembro de 2007.

Brasil. Decreto n.º 28, 518, de dezembro de 2007

DODF de 10.12.2007

Republicação - DODF de 19.12.2007

ANEXO B - Cópia do Diário de Dulcina de Moraes


Publicado por: Paulo de Sousa Rodrigues

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