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Os Protocolos dos Sábios de Sião: O mito da conspiração judaica sob a ótica nazista

História

Os Protocolos dos Sábios de Sião - uma falsificação “criada” no final do século XIX, encomendada por alguns dos segmentos mais conservadores da Rússia czarista e que, entretanto, tenha tomado expressão máxima no nazismo.

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1.  RESUMO

Esta pesquisa pretende discutir o antissemitismo nazista através de uma falsificação literária conhecida como Os Protocolos dos Sábios de Sião. As fontes utilizadas serão o próprio conteúdo do livro citado, avaliado aqui como nossa fonte principal, além de obras que representam o pensamento nazista, como o Minha Luta, de Adolf Hitler, e que demonstrem a influência direta sobre este movimento, como O Judeu Internacional, de Henry Ford. Busca-se, dessa forma, construir um esboço de variados aspectos do antissemitismo na Alemanha nazista que interligam as diferentes obras.

PALAVRAS-CHAVE: Antissemitismo, Nazismo, Os Protocolos dos Sábios de Sião.

ABSTRACT

This research intend to discuss the Nazi anti-Semitism through of one literary forgery known as The Protocols of the Elders of Zion. The used source will be the own content of the book cited, evaluated as the main literary source. Moreover, also will be used others works that represent the Nazi thought, as My Struggle, wrote by Adolf Hitler, and The International Jew, by Henry Ford, that demonstrate one direct influence on this movement. The objective is build an outline of various aspects of the anti-semitism in the Nazi Germany that connect this different works.

KEY WORDS: Antisemitism, Nazism, The Protocols of the Elders of Zion.

2. INTRODUÇÃO

A presente pesquisa tem como objetivo central analisar o antissemitismo nazista através do texto do livro denominado Os Protocolos dos Sábios de Sião - uma falsificação “criada” no final do século XIX, encomendada por alguns dos segmentos mais conservadores da Rússia czarista e que, entretanto, tenha tomado expressão máxima no nazismo. Busca-se também compreender os estereótipos correntes do judeu presentes no nazismo e reforçados pelo livro; examinar o discurso antiliberal, assim como verificar até que ponto uma obra de ficção encontrava eco na realidade.

Na Alemanha, os Protocolos seriam publicados e traduzidos em língua nativa, pela primeira vez, apenas em 1919 1 – mais de uma década após a sua primeira publicação na história: na Rússia, em 1903 2. O ano da publicação deste livro na Alemanha coincide, quase que concomitantemente, com a publicação nos principais países da Europa e nos Estados Unidos. O período de tempo que separa a primeira publicação dos Protocolos na Rússia e as nos outros países não foi suficiente para relegar este nefasto livro ao esquecimento, mas muito pelo contrário...

Não resta nenhuma dúvida de que os Protocolos, que se constituem num dos textos antissemitas mais propagados no mundo, serviram como um dos pilares que justificariam a discriminação contra os judeus pelos nazistas. Hannah Arendt3 – ressaltando a perversa fama mundial de Os Protocolos dos Sábios de Sião - diz que não foram apenas os nazistas que utilizaram este livro como modelo para um futura organização das massas nacionais num “império mundial”, ainda assim ela nos deixa a importante informação do “tamanho” que a obra tomaria na Alemanha: após a Primeira Guerra, centenas de milhares de cópias foram vendidas no país, a maior parte delas, após a ascensão de Hitler ao poder.

Entre os leitores dos Protocolos estava Adolf Hitler. Como se perceberá adiante, tanto os seus pronunciamentos públicos como o seu livro autobiográfico, o Minha Luta (Mein Kampf), estão em consonância com a ideia geral anunciada pelos Protocolos: a de que os judeus estão por detrás de uma grande conspiração mundial para dominar os povos. No livro de sua autoria já aqui citado, Hitler usa as seguintes palavras:

Os “Protocolos dos Sábios de Sião”, tão detestados pelos judeus, mostram, de uma maneira incomparável, a que ponto a existência desse povo é baseada em uma mentira ininterrupta. “Tudo isso é falsificado”, geme sempre de novo o “Frankfurter Zeitung” [jornal alemão que existiu entre meados do século XIX até meados do século XX], o que constitui mais uma prova de que isso tudo é verdade. Tudo o que alguns judeus talvez façam inconscientemente, acha-se aqui claramente desvendado. Mas o ponto capital é que não importa absolutamente saber que do cérebro judeu provém tais revelações. O ponto decisivo é a maneira pela qual essas revelações tornam patentes, com uma segurança impressionante, a natureza e a atividade do povo judeu nas suas relações íntimas, assim como nas suas finalidades (...)4.

No trecho acima, Hitler diz que o mal causado pelos judeus, isto é, a sua tentativa de a tudo e todos dominar, se dá de forma consciente entre alguns e, talvez, de forma inconsciente entre outros, como se aquilo fosse algo pré-programado em sua própria natureza. De uma forma ou de outra, todos os judeus são assim condenados. O violento antissemitismo nazista tinha como uma de suas características a incansável pregação de perigosos dogmas propagados como “verdades científicas”. Ao nos depararmos com a carnificina do Holocausto, nos sentimos tentados a imaginar até onde ideias ocas como essa – a de que todo um grupo de pessoas seja constituído por criminosos natos – podem ter força num mundo em que se exaltam os valores da razão. Considerando essa possibilidade em que os Protocolos muito vieram a contribuir, diz Rosenfeld:

Os chamados Protocolos dos Sábios de Sião constam-se entre as mais significativas e difundidas publicações do anti-semitismo. Dificilmente se encontrará outra obra que tenha estimulado tanto o ódio contra um grupo humano. Pode-se dizer, sem exagero, que este livro contribuiu amplamente para criar a atmosfera psicológica em que se tornou possível a matança de [...] milhões de pessoas. Na história da literatura certamente não existe outro livro cujas páginas estejam tão embebidas de sangue e lágrimas5.

São várias as questões que podemos levantar a respeito de Os Protocolos dos Sábios de Sião, entre as quais estas duas sejam, talvez, as mais óbvias e contundentes: o que diz este livro para que despertasse tamanho interesse? O que levou milhares – senão milhões - de pessoas a aceitarem-no como algo digno de fé?

Os Protocolos dos Sábios de Sião, tidos pelos antissemitas como “documentos secretos”, são escritos como numa espécie de relatórios apresentados pelo líder de uma poderosa e eminente organização de judeus a seu próprio grupo. Nesses relatórios – ou atas -, são descritos os planos postos em prática pelos judeus para dominar os povos cristãos6, e o esboço de um futuro governado mundialmente pelos judeus, neste momento, já abertamente ao conhecimento de todos.

Na verdade, os Protocolos descreviam um mundo já governado pelos judeus naquela época, no entanto, de forma encoberta7. Já que escrito por imponentes e respeitáveis “sábios”, o início do texto é dominado por uma análise daqueles sobre a humanidade: “É preciso ter em vista que os homens de maus instintos são mais numerosos que os de bons instintos. Por isso, se obtém melhores resultados governando os homens pela violência e o terror do que com discussões acadêmicas”8.

O texto prossegue com uma crítica ao liberalismo político - fomentada pelos judeus para destruir as nações: “(...) a liberdade é irrealizável, porque ninguém sabe usar dela dentro de justa medida”9. Dessa forma, a democracia, a emancipação e a autodeterminação dos povos seriam como gangrenas que corromperiam as bases dos Estados.

Algo que fica patente no texto é a sua rejeição aos princípios iluministas e a exaltação do antigo regime - o que seria certamente esperado, já que os Protocolos foram forjados para satisfazer os interesses das classes reacionárias da Rússia -. Várias frases do texto, nesse sentido, denunciam a sua origem:

Sob nossa direção [a dos judeus], o povo destruiu a aristocracia, que era sua protetora e ama de leite natural, porque seu interesse era inseparável do interesse do povo. Agora, que a aristocracia foi destruída, ele caiu sob o jugo dos açambarcadores (...)10.

Mostrando a forma como os judeus agiriam para governar, os Protocolos reforçam a perversidade dos Sábios de Sião: “A política nada tem de comum com a moral. O governo que se deixar governar pela moral não é político e, portanto, seu poder é frágil. Aquele que quer reinar deve recorrer a astúcia e a hipocrisia”11. A fim de se criar uma atmosfera obscura e de medo em que os judeus estariam envolvidos, o texto descreve a tática do “jogo” judaico: “De nós promana o terror que tudo invade. Temos a nosso serviço homens de todas as opiniões, de todas as doutrinas; (...), demagogos, socialistas, comunistas e toda sorte de utopistas: atrelamos o mundo inteiro ao nosso carro”12.

Detendo a maior parte do poder econômico mundial, os judeus usariam deste meio para dominar diferentes setores: “O capital, para ter liberdade de ação, deve obter o monopólio da indústria e do comércio; é o que já vai realizando a nossa mão invisível em todas as partes do mundo”13.

Ademais, como é característico em teorias de conspirações, os Protocolos expõem um cenário de caos em que o mundo estaria completamente entregue aos ditames judaicos com o único fito de promover a desordem e a destruição: estariam por eles controlados a imprensa e a opinião pública; o regime jurídico; os partidos políticos e as eleições dos governantes; o sistema educacional; o comércio e as finanças mundiais; as artes e a vida cultural em geral.

Nos discursos inflamados de Hitler, assim como os de Goebbels – ministro da propaganda do nazismo – e outros expoentes do partido nazista, se evidenciava o seu ressentimento contra a ordem existente, sempre associada ao mal. Porém, apesar disso não se constituir em nada estranho aos segmentos reacionários, o que talvez mais diferenciasse o nazismo destes era a sua crença fanática como um movimento inédito na história mundial. Os nazistas acreditavam sinceramente numa “redenção” – redenção esta, em que eles mesmos se viam como os “salvadores”.

Os Protocolos poderiam ser totalmente aceitos como verídicos por muitas pessoas porque isto compensava o insucesso destas, apontando um responsável para o fracasso de indivíduos e nações. No que se depreende das principais biografias de Hitler, provavelmente a explicação dada pelos Protocolos – e a do antissemitismo em geral – aplacava tanto as suas frustrações pessoais como “coletivas”. Segundo Lucaks14, o jovem Hitler foi uma pessoa que se sentia humilhada e infeliz. Quando criança sentiu o descontentamento do pai. No início de sua vida adulta, teve o sonho de se tornar artista destruído pelas malogradas tentativas de ingresso na escola de belas artes de Viena. Nesta cidade, desiludido, viveu nos subúrbios e até dormiu em locais destinados a desabrigados. Quando a Alemanha perdeu a Primeira Guerra e assinou o Tratado de Versalhes, ele viu na derrota uma urdidura contra a Alemanha e, no tratado de paz, um castigo inaceitável contra o orgulho nacional.

Um ponto a se ressaltar a respeito dos Protocolos é o de sua origem histórica. O livro que hoje se encontra traduzido senão para quase todas as línguas ao menos para as principais, foi uma obra forjada em 1898 por um oportunista membro da antiga aristocracia russa em decadência, Mathieu Golovinski (1865–1920 )15.

A farsa dos Protocolos está diretamente relacionada aos momentos finais da Rússia czarista. A revolução de 1905, de caráter popular, apenas reproduzia as reivindicações da maioria durante anos por reforma política, agrária e melhores condições de vida. Sem ceder perante à maioria dos apelos, porém, introduzindo algumas inovações – como um frágil parlamento com representantes do povo (Duma) – o tsar Nicolau II, aliás Nicolau Alieksandrovich Romanov (1868-1918), também vinha desagradando os grupos reacionários do país, contrários aos princípios democráticos e à modernização da Rússia.

Um aristocrata relacionado à polícia secreta russa do czar (Okhrana), Piotr Rachkovski (1853-1910), com o objetivo de frear a “ocidentalização” do país, se aproveitando do antissemitismo latente da Europa Oriental, é indicado como o responsável por “encomendar” a farsa que relacionaria os judeus aos princípios liberais que destruiriam a Rússia. É nesse momento que ele vai até Paris, onde se encontrava o exilado Golovinski, conhecido por falsificar documentos16.

Golovinski, então, se aproveita quase completamente de uma obra publicada em 1864, Diálogos no Inferno entre Maquiavel e Montesquieu, do francês Maurice Joly (1829-1878), para escrever Os Protocolos dos Sábios de Sião. Centenas de passagens dos Diálogos foram inseridas, quase sem alterações, nos Protocolos17. Pouco conhecida na época, ninguém parecia ter notado que os Diálogos de Joly foram plagiados.

Os Diálogos foram escritos por Joly para denunciar os abusos do imperador Napoleão III – sobrinho de Napoleão Bonaparte -, da França, que havia conquistado o poder absoluto após um Golpe de Estado, em 185218. No livro, o infame Nicolau Maquiavel (1469-1527), como nos moldes do seu O Príncipe (1513), descreveria um plano para a conquista do poder. De passagem pelo inferno, Montesquieu – aliás, Charles-Louis de Secondat (1689-1755) – importante filósofo iluminista francês, em conversa com o primeiro, rebateria as suas “odiosas” ideias.

Evidentemente, o satirista Maurice Joly relacionava o “déspota” Napoleão III ao “ardiloso” Maquiavel e a si mesmo ao sensato Montesquieu – não por acaso, Joly seria condenado a quinze meses de prisão pela publicação desta obra. Aproveitando-se principalmente das falas de Maquiavel nos Diálogos, Golovinski as relacionou aos judeus nos Protocolos.

Entre os muitos trechos que demonstram a farsa, citamos um, o escrito no décimo sétimo diálogo no livro de Joly e o inserido no décimo sétimo protocolo dos “Sábios de Sião”, respectivamente: “(...) Agora compreendo a apologia ao deus Vishnu: tens cem braços como o ídolo indiano, e cada um dos teus dedos toca uma competência”19 e “Nosso regime será a apologia do deus Vichnú (...), segurando cada uma de nossas cem mãos uma manivela da máquina social”20.

Os Protocolos foram disseminados e ganharam força com tal vigor que chegaram até mesmo a se tornarem alvo de uma dramática manchete no londrino The Times em 1920 21. Com os nazistas, os Protocolos também receberiam atenção especial...

A fim de se analisar o antissemitismo nazista a partir de Os Protocolos dos Sábios de Sião, a presente pesquisa foi dividida em dois capítulos. O primeiro descreve várias correntes de pensamento influentes no final do século XIX e no início do século XX entre os intelectuais na Europa – destacadamente na Alemanha - e nas Américas, assunto que se torna importante na medida em que demonstra o ambiente em que ideias pré-concebidas tornaram possíveis o discurso teórico que justificaria o racismo e o antissemitismo nazista.

O primeiro capítulo ainda tem como objetivo se aprofundar no exame da ideologia nazista através das concepções de Hitler, assim como da análise de sua figura na história. Focando-se nesta proposta, buscou-se, através de biografias sobre o líder alemão, além de seu livro autobiográfico, identificar os aspectos de sua história, pensamentos e personalidade que dariam ao nazismo os moldes de suas políticas, destacadamente as políticas antissemitas.

No segundo capítulo, explora-se a relação encontrada no discurso nazista em relacionar os acontecimentos históricos na Alemanha a partir das derrotas e crises enfrentadas até aquele momento, preferencialmente os considerados mais agudos ou importantes, correlacionado-os com o que “pregava-se” nos Protocolos. Neste capítulo busca-se apontar alguns pontos gerais ligados ao antissemitismo nazista que estariam em contato com as ideias abordadas nos Protocolos, como por exemplo, a democracia e a república, a derrota na Primeira Guerra e a grande crise financeira de 1929.

Ainda temos como escopo no segundo capítulo detectar nos Protocolos a alardeada relação, promovida pelos nazistas, entre a figura do judeu e o capitalismo “internacional” e o comunismo/bolchevismo. Investiga-se nos Protocolos de que forma essa estereotipada ligação é construída no livro e como ela encontra no antissemitismo nazista a sua correspondência.

A fonte principal desta pesquisa será o livro Os Protocolos dos Sábios de Sião, entretanto, outras fontes também serão utilizadas: o Minha Luta, de Adolf Hitler e O Judeu Internacional, de Henry Ford. Estas duas últimas fontes são importantes na medida em que a primeira descreve o pensamento e o tipo de comportamento que seria esperado do nazismo e, a segunda, o embasamento teórico dos argumentos que seriam utilizados pelos nazistas. Ressalte-se que Henry Ford foi um dos maiores propagadores dos Protocolos no mundo, ao publicar, já em 1920 - muito antes da ascensão nazista -, O Judeu Internacional 22.

Destaca-se também nesta pesquisa à consulta a trabalhos de autores como Anatol Rosenfeld, especialista nos Protocolos; Will Eisner, consagrado quadrinista que se dispôs a escrever e desenhar, após intensa pesquisa bibliográfica, a histórica dos Protocolos; Hannah Arendt, que trouxe importante análise à história do antissemitismo na Europa; Norbert Elias, pesquisador da história germânica, referencial teórico para a compreensão da “alma” e das aspirações alemãs; Eric Hobsbawm e suas consideráveis observações a respeito do contexto social, político e econômico na Europa; John Lucaks e Joachim Fest, responsáveis por trazer à tona interessantes biografias de Adolf Hitler; Edwin Black, Léon Poliakov e outros autores que deram útil contribuição para o estudo aqui apresentado sobre teorias raciais.

3. DAS TENDÊNCIAS INTELECTUAIS DO FINAL DO SÉCULO XIX A HITLER

3.1 Uma Visão Geral da Teoria Racial

O conhecimento das ideias e correntes de pensamento de boa parte da intelectualidade europeia e alemã, desde meados do século XIX até o surgimento do nazismo, é de extrema importância para se compreender a estrutura dos argumentos antissemitas que deram a possibilidade de um livro como Os Protocolos dos Sábios de Sião – escrito no final do século XIX - terem tomado força de arma política contra toda uma etnia. Sem a grande influência desses disseminadores de pensamentos que se tornaram populares em quase toda a Europa, o nacional-socialismo, por exemplo, estaria carente da base ideológica que deu direção ao seu movimento político, visto que “Hitler foi mais um compilador de ideologias que propriamente um ideólogo”23.

Apesar do nacional-socialismo ter possuído uma retórica voltada ao passado tradicional, os guardiães que lhe serviram como escudo não eram a religião ou a monarquia, mas algo novo: a liderança corporificada no próprio homem. Assim, Hitler e, na verdade, boa parte dos europeus - alemães ou não – tinham como base de suas ideias a descoberta de um mundo até então desconhecido: as novas ciências que rompiam com os paradigmas até então existentes (apesar de, no caso dos nazismo, haver uma fusão entre o novo e o antigo, a ciência e a tradição) . Segundo Hobsbawm:

O passado ao qual eles [os nazistas] apelavam era uma invenção. Suas tradições, fabricadas. Mesmo o racismo de Hitler não era feito daquele orgulho de uma linhagem ininterrupta e sem mistura (...), mas uma mixórdia pós-darwiniana do século XIX pretendendo (e, infelizmente, na Alemanha muitas vezes recebendo) o apoio da nova ciência da genética, mais precisamente do ramo da genética aplicada (“eugenia”) que sonhava em criar uma super-raça pela reprodução seletiva e a eliminação dos incapazes. A raça destinada a dominar o mundo através de Hitler não tinha sequer um nome até 1898, quando um antropólogo cunhou o termo “nórdico”. Hostil como era, em princípio, à herança do Iluminismo e da Revolução Francesa do século XVIII, o fascismo não podia formalmente acreditar em modernidade e progresso, mas não se acanhava em combinar um lunático conjunto de crenças com uma modernidade tecnológica em questões práticas, exceto quando ela comprometia sua pesquisa científica básica feita em premissas ideológicas (...)24.

Deve-se ter em vista o contexto histórico em que surgiram essas ideias da segunda metade do século XIX. De um lado, os novos tempos eram de grande tormento para as antigas classes conservadoras, não raro, associadas à direita política. Um “novo mundo” estava se descortinando frente aos seus olhares perplexos: a classe trabalhadora ascendia e ganhava importância política; o capitalismo e a crescente industrialização, através do liberalismo econômico, transformavam aceleradamente as sociedades; e a maior migração de massa da história até então, levava um enorme número de estrangeiros a invadir todo o mundo25.

Dessa forma, é interessante notar que essas preocupações estiveram presentes nas novas correntes de pensamento. As classes trabalhadoras eram vistas com desdém ou como massas de manobra; o liberalismo político e econômico, como desagregadores da vida social e destruidores das tradições; e o crescente número de forasteiros, como o colapso das nações, sendo então, combatido pela xenofobia e pelo racismo.

Esmagados pela grande empresa e pelos crescentes movimentos trabalhistas, esses homens procuravam respostas que justificassem os seus ressentimentos. O antissemitismo como argumento político, por exemplo, nasceu – entre outros fatores - como forma de se apontar culpados pelas figuras do odiado capitalista/financista e do agitador revolucionário. Além disso, os judeus – emancipados pelas tendências “progressistas” – pareciam ser o símbolo dos ideais iluministas26. Não por acaso, os Protocolos descreviam a forma como os judeus traziam o colapso dos “bons costumes”, da vida financeira e política dos povos e das nações.

Como resposta às fobias e transformações sociais de meados do século XIX, alguns dos segmentos conservadores das sociedades europeias compilaram uma série de pensamentos que formariam a sua teoria racista, também conhecido como “racialismo” – doutrina pseudo-científica que buscava o estudo das raças humanas. O aristocrata francês Conde Joseph Arthur de Gobineau (1816-1882) é considerado o fundador da teoria racial na era contemporânea. Assim como Hitler, ele acreditava que a questão racial domina todos os outros problemas da história.

O seu conjunto de ideias foi influenciado pelo que ficou conhecido como “A Primavera dos Povos”. Resumidamente, esta foi uma série de revoluções entre os anos de 1846 e 1848 em vários países europeus, inclusive na França. Devido a uma série de péssimas colheitas, uma crise econômica provocou a súbita elevação dos preços dos alimentos ao mesmo tempo em que a queda dos produtos industrializados motivou a demissão de operários nos centros urbanos.

Dessa forma, membros do operariado e do campesinato passaram a exigir melhores condições de vida e trabalho. Influenciados pelas novas ideologias - foi nessa época, por exemplo, que Karl Marx publicou o seu Manifesto Comunista (1848) -, esses levantes se opunham violentamente contra os regimes monárquicos, reunidos sob a égide da Santa Aliança e em oposição ao liberalismo disseminado pela Revolução Francesa de 1789. O reacionário Gobineau, avesso aos ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade entre os indivíduos e os povos consagrados na Revolução de seu próprio país, desqualificaria quaisquer movimentos que propusessem uma visão unitária da humanidade. Assim, considerava os revoltosos como provindo de elemento racial inferior.

O antropólogo brasileiro Roberto Damatta27 diz que em A diversidade moral e intelectual das raças, escrito em 1856, Gobineau teorizava a existência de três raças na humanidade: a “branca” (associada à aristocracia), a “amarela” (associada à burguesia) e a “negra” (associada ao proletariado). Além disso, elas seriam responsáveis pelos estágios de desenvolvimento social, econômico e tecnológico. A raça branca seria a superior e, as outras, as inferiores. O grande problema da humanidade estaria no cruzamento dessas raças, pois isso traria a decadência de todas elas.

Dessa forma, dizia Gobineau - cônsul da França na corte de Pedro II – que o Brasil, por exemplo, pereceria devido à miscigenação racial, pois ela eliminava as qualidades do branco, do negro e do índio, deixando um tipo indefinido, híbrido, deficiente em energia física e mental28.

Podemos distinguir o eurocentrismo como fundamento do pensamento racista de Gobineau – por isso mesmo os seus escritos também puderam ser usados em consonância com a política imperialista. As nações europeias, segundo ele, se pretendiam continuar dominando o globo, deveriam permanecer “puras”. Entretanto, através de seu fatalismo e pessimismo, Gobineau acreditava ser irreversível o processo de miscigenação racial que já tinha sido iniciado no globo – inclusive na Europa - e que se completaria em três ou quatro milênios29.

Por outro lado – ainda relevando o contexto histórico -, não só a Europa, mas, na verdade, a grande parte das regiões do mundo foi influenciada pelo Imperialismo – política europeia e americana de expansão e domínio territorial, econômico e cultural iniciada no final do século XIX. Com o domínio das nações desenvolvidas, as novas teorias “científicas” viriam a legitimar tal dominação. Baseando-se na hierarquização da humanidade, com o homem branco ocupando o topo da espécie, a teoria racial justificaria “intelectualmente” o que seria conveniente aos neocolonizadores:

(...) Foi notória a visão de que a colonização era uma missão civilizadora de uma raça superior, a branca(...). Esta imagem era estimulada por doutrinas marcadamente racistas, como a elaborada pelo filósofo inglês H. Spencer, conhecida por “darwinismo social”. Segundo essa filosofia, a Teoria da Evolução de Darwin podia ser aplicada perfeitamente à evolução da sociedade. Assim como existia uma seleção natural entre as espécies, ela também existia na sociedade. A luta pela sobrevivência entre os animais correspondia à concorrência capitalista; a seleção natural não era nada além da livre troca dos produtos entre os homens; a sobrevivência do mais capaz, do mais forte era demonstrada pela forma criativa dos gigantes da indústria que engoliam os competidores mais fracos, em seu caminho para o enriquecimento. O sucesso dos negócios demonstrava habilidade superior de adaptação às mudanças; o fracasso indicava capacidade inferior30.

Dessa forma – como apresentada no trecho acima -, uma poderosa corrente que viria a influenciar a teoria racial seria o darwinismo social, fundado pelo britânico Herbert Spencer (1829-1903). Spencer procurava representar as aspirações da burguesia industrial inglesa, por isso formulava suas ideias baseadas na referência ideológica ultra-liberal. Ao contrário de Gobinaeu – movido em grande parte pelos preconceitos tradicionais-, Spencer acreditava ter encontrado uma teoria científica que justificasse a sua visão de mundo.

Tomando como base a biologia evolucionista do naturalista Charles Darwin (1809-1882) e seus conceitos de seleção natural e hereditariedade, as ideias de Spencer sobre a concorrência entre os homens viriam a influenciar a interpretação da história, da cultura e da política. Em seu consagrado A Origem das Espécies, publicado em 1859, Darwin tem como tese principal o conceito de seleção natural, baseado na ideia de que os animais mais adaptados ao seu meio são os mais aptos à vida. Na teoria racista, numa tentativa de adaptar o darwinismo ao que lhe era conveniente, Spencer, tendo como foco o conceito de seleção natural aplicada ao meio social humano, afirmava que o mundo pertencia ao mais forte e que, por isso mesmo, este teria o direito de submeter os mais fracos à sua vontade31.

Assim como na biologia de Darwin, o darwinismo social também incorporou o conceito de hereditariedade, agora aplicado ao comportamento humano. Dessa maneira, o indivíduo não viveria de acordo com as suas próprias escolhas, já que a sua herança genética influenciaria os rumos de sua vida. Juntos, os conceitos de seleção natural e hereditariedade tinham como objetivo criar uma hierarquia dos grupos e “raças” humanas, separando-as em raças criadoras e conquistadoras, e raças dominadas ou inferiores. Essas teorias reforçavam a ideia de que o judeu, por exemplo, como grupo distinto, devido às suas inalteráveis características raciais e biológicas, não deveria ser integrado à sociedade32.

Spencer acreditava ter descoberto uma lei universal que levaria a humanidade a um futuro melhor através de uma marcha comandada pela raça branca, permanecendo as outras muito atrás dela, num estado primitivo ou infantil.

O darwinismo social teve grande influência, inclusive, no Brasil. O escritor Euclides da Cunha (1866–1909), autor do aclamado Os Sertões (1902), presenciou, como correspondente pelo jornal O Estado de São Paulo, a fase final da Guerra dos Canudos (1896-1897) - movimento popular de fundo sócio-religioso liderado por Antônio Conselheiro (1830-1897), no interior da Bahia. A obra de Euclides da Cunha, criada graças a sua presença e experiência no sertão durante o massacre da jovem República contra a pequena aldeia, se baseia na imagem do sertanejo nordestino e sua luta contra a seca e a miséria, na sua relação com o seu meio ambiente, além de sua controversa convivência com as elites locais.

Em Os Sertões, que também pode ser encarada como um estudo de geografia e história, Euclides da Cunha deixa clara a influência recebida de vários pontos do darwinismo social em sua obra: o determinismo geográfico, o fator hereditário e a crença numa hierarquização entre as diferentes raças. Acreditando na existência de três diferentes raças em nosso país; a saber: a branca, a negra e a indígena, que também estavam divididas hierarquicamente, ele dizia que: “Adstrita às influências que mutuam, em graus variáveis, três elementos étnicos, a gênese da raças mestiças do Brasil é um problema que por muito tempo ainda desafiará o esforço dos melhores espíritos. Está apenas delineando”33. E defensor da homogeneidade racial – ou no caso do Brasil, da diminuição da mistura sanguínea entre as “raças” – acreditava, como Hitler, que a miscigenação racial “abastardava” e degenerava a raça superior:

A mistura de raças mui diversas vezes é, na maioria dos casos, prejudicial. Ante as conclusões do evolucionismo, ainda quando reaja sobre o produto o influxo de uma raça superior, despontam vivíssimos estigmas do inferior. A mestiçagem extremada é um retrocesso. O indo-europeu, o negro e brasílio-guarani ou o tapuia exprimem estádios evolutivos que se fronteiam, e o cruzamento, sobre obliterar as qualidades preeminentes do primeiro, é um estimulante à revivescência dos atributos primitivos dos últimos. De sorte que o mestiço – traço de união entre as raças, breve existência individual em que se comprimem esforços seculares – é, quase sempre, um desequilibrado. 34

Um importante ponto do evolucionismo biológico darwiniano adaptado à teoria racial foi a divisão das sociedades em atrasadas e evoluídas. Segundo Hobsbawm, o século XIX assistiu ao desenvolvimento repentino da ciência social da antropologia. Através da análise e comparação dos diferentes tipos de sociedades, “o mundo burguês parecia sem dúvidas o mais elevado”35.

Neste sentido, sintomático de tal “missão” imperialista da época foi o poema intitulado "The White Man's Burden" (“O Fardo do Homem Branco”), publicado originalmente em 1889 pela popular revista McClure’s. Nele, o escritor britânico Rudyard Kipling (1865-1936) defende o neocolonialismo europeu e americano. Lido atualmente, o poema parece ter sido escrito ironicamente pelo autor, como numa crítica à política de dominação. Na verdade, o que Kipling procurava era sensibilizar norte-americanos e britânicos a serem os “evangelizadores” dessa “boa nova”. O trecho a seguir reproduz a primeira estrofe do poema:

Tomai o fardo do Homem Branco –

Envia teus melhores filhos

Vão, condenem seus filhos ao exílio

Para servirem aos seus cativos;

Para esperar, com arreios

Com agitadores e selváticos

Seus cativos, servos obstinados,

Metade demônio, metade criança36

No trecho acima, Kipling parece dar o tom de sacrifício a um destino inexorável dos conquistadores ao usar o verbo “condenar”, aplicado a eles mesmos. Para dar a noção de “nobreza” à missão, os “melhores filhos” da nação é que deveriam cumpri-la. Remetendo a conceitos antropológicos correntes na época, os povos que seriam conquistados são vistos como num estágio embrionário de evolução: “selváticos” pode ser traduzido para “selvagens”. E o mais importante: o povo conquistado e de raça não-europeia é retratado através da dualidade bom-mau. De um lado, os povos de raças dominadas são vistos como “demônios”, o que justificaria a ação dos povos brancos e cristãos a lhes trazer a sua cultura e religião, para lhes “exorcizar” e punir. De outro, ele é visto como “criança”, o que habilita o homem branco a lhe adotar – não como pai, mas como tutor – a fim de que siga os passos e se desenvolva de acordo com o modelo avançado de civilização.

A conceituação de superioridade e inferioridade de diferentes povos, raças e culturas também se torna importante para o entendimento da evolução do antissemitismo. Segundo Arendt, a atração política decorrente do uso dos Protocolos é importante, na medida em que suas origens estão no imperialismo em geral, a partir dos movimentos etnicamente unificadores, principalmente pangermânicos e pan-eslavos37.

Francis Galton (1822-1911), primo de Charles Darwin, foi o idealizador do que viria a ser chamado de “eugenia” (bem-nascido), termo criado em 1883. A eugenia pretendia-se se tornar o estudo dos fatores que melhorariam ou empobreceriam as qualidades raciais das futuras gerações, física ou mentalmente. A sua teoria era a de que o fruto dos relacionamentos sexuais resultaria em elementos saudáveis ou degenerados, fortes ou fracos.

Seguindo os conceitos da seleção natural – teoria na qual se preconiza a ideia de que o mais apto e forte sobrevive, e o inapto e fraco sucumbe – a eugenia pregava o princípio de que o homem poderia contribuir ou até mesmo suprir parte do papel da natureza na seleção dos indivíduos. “Proibindo uniões eugenisticamente defeituosas, e promovendo a união de parceiros bem-nascidos, acreditava que ‘o que a natureza faz de maneira cega, lenta e impiedosa, o homem deve fazer de modo previdente, rápido e bondoso’.”38

As ideias de Galton foram tomadas como política estatal por vários países europeus – se destacando a Alemanha nazista - e os Estados Unidos, havendo, inclusive, tentativas de proibição de casamentos inter-raciais (na Alemanha, por exemplo, o regime nazista “proibiu” as relações sexuais entre arianos e pessoas de outras raças, destacadamente a judia, já que esta seria uma raça parasita e doente) e restrições contra alcoólatras, epiléticos e alienados39. Em 1933, na Alemanha nazista, seria decretada a lei para a Prevenção da Progênie Defeituosa: milhares de deficientes mentais, esquizofrênicos, epiléticos, surdos, cegos e outros seriam esterilizados compulsoriamente.

3.2 A Intelectualidade e a Teoria Racial na Alemanha

Na Alemanha - provavelmente o país europeu mais receptivo ao nacionalismo da época-, as ideias que, direta ou indiretamente, serviam à doutrina racialista, geralmente se dividiam entre a exaltação do povo alemão e da raça ariana, e a estigmatização do povo judeu. A estigmatização do povo judeu nem sempre esteve presente de forma explícita, mas de uma forma ou de outra, as principais críticas o tinham como alvo. Chamados pelos antissemitas de “criminosos de novembro”40, os judeus eram associados ao desprezível fruto do estrangeiro: a democracia, o parlamentarismo, o marxismo, o comunismo, o liberalismo e a desmoralização da nação. Como que influenciados pelos padrões de seu código genético, os judeus representavam ao mesmo tempo a sedição e a dominação. Os Protocolos reproduziriam fielmente este retrato.

Em sua interessante obra – Os Alemães - Norbert Elias41 diz que é necessário pesquisar a conturbada história da Alemanha - uma história marcada por derrotas e consequentes perdas de poder que deram vazão a um abalado orgulho nacional e uma identidade muito insegura de si mesma – para se compreender como um retrógrado ideal nacional que envolvia a projeção fantasiosa de um passado mais grandioso no futuro facilitou o surgimento de uma variante particularmente maligna de crenças e tendências comportamentais que se manifestou no país.

Segundo Elias42, a auto-imagem alemã era afetada por uma impotência multissecular, pois como os príncipes eram mais fortes que os imperadores, a desunião política e governamental entre os seus povos os deixavam fragilizados contra os constantes ataques externos. O fervor nacionalista alemão e suas consequências têm explicação no desenvolvimento histórico da nação. Situada na Europa Central e rodeada por Estados rivais, os alemães não encontravam unidade nem em seu próprio território. Assim, o desejo de se verem governados por um líder forte que trouxesse a união foi um desejo ardente durante gerações.

Com a consolidação da unificação dos Estados Alemães em 1871, liderada pelo prussiano Otto von Bismarck (1865-1898), “no lugar dos sentimentos de inferioridade nacional, cujas raízes eram, com frequência, muito profundas, surgiam agora os sentimentos fortemente enfatizados de grandeza e poderio nacionais”43.

Logo, o domínio absolutista na Alemanha – sobretudo após a unificação dos Estados germânicos - era respeitado e querido pelo povo: “a estrutura da personalidade dos alemães esteve afinada para essa tradição absolutista, ininterrupta ao longo dos séculos”44. Os moldes militares de superordenação e subordinação, comando e obediência, serviam amplamente como modelos para as relações humanas em outras esferas. A hierarquização tradicional do povo alemão estava presente em todos os setores da vida: no serviço civil, na polícia e na estrutura familiar, por exemplo.

Com a crescente crise econômica alemã no final da Primeira Guerra, uma série de revoluções lideradas pela esquerda política acabou por tirar a Alemanha da guerra. Como consequência, o sistema democrático, através da República de Weimar, foi proclamado na Alemanha, em 1918. No entanto, a opinião geral da população alemã não era favorável à República, mas muito pelo contrário. Dizia-se mesmo, ser a democracia como algo não-alemão45.

Devido às particularidades do desenvolvimento histórico alemão, Elias descreve como foi possível a ideologia nacionalista - que viria mais tarde ser exacerbada e reinventada pelos nazistas - ganhar terreno no seio da sociedade. Diz ele que, a “chave” para se entender a preponderância dos valores nacionalistas, se encontravam nas seções conservadoras das classes médias alemãs. Segregados do poder político até à unificação da Alemanha, tais segmentos iniciariam a partir daí uma aproximação com os governantes – período que coincide com a propagação geral da “militarização social” ou superordenação da sociedade alemã. Enquanto esses mesmos segmentos em outros países frequentemente procediam à fusão dos ideais humanistas – constantemente associadas ao elemento judeu - aos nacionalistas, a parte alemã rejeitava tal conciliação: “Ostentando com frequência um ar de triunfo, preferiram voltar-se contra os ideais humanistas e morais das classes médias em ascensão cuja falsidade tinha sido desmascarada”46.

Uma vez que os valores humanitários – que, apesar de não serem sinônimos, ainda assim se confundem com os valores humanistas (a saber: o respeito, a justiça, a solidariedade e a liberdade, por exemplo) - estejam ameaçados ou sejam ignorados por segmentos influentes nos governos ou nas sociedades, “crenças e tendências malignas” surgirão, provocando preconceitos, sofrimentos e desastres. Aplicando tal situação no caso da Alemanha pré-nazista, diz Elias:

A identificação mútua dos seres humanos, que foi talvez um tanto exagerada pelo idealismo dos autores clássicos, seria enfaticamente negada nesses mais recentes grupos, em favor de uma identificação exclusivamente nacional. Na guerra, as pessoas comuns do lado inimigo não precisavam ser tratadas como seres humanos. Essas pessoas não são mais do que “bestas selvagens e malignas”47.

Segundo Farias48, os professores de história, filosofia e economia alemães estavam, em sua maioria, convencidos de que o povo alemão era um “povo metafísico”, em violenta oposição à superficialidade do Ocidente democrático. Paulo Natorp (1854-1924) – professor da universidade de Marburgo durante a Primeira Guerra – pensava que a guerra serviria para “despertar” a Alemanha e o mundo inteiro: “[os alemães] sentiam-se como os soldados de Deus em luta contra um mundo cheio de demônios, como guerreiros cuja missão é serem os profetas de toda a humanidade”49.

Na visão de Richard von Kralik (1852-1934)– ideólogo católico ultraconservador:

O povo alemão não morre, sua substância é sadia e cresce, ele se desenvolve, ele está adaptado à vida; ele se constitui um povo muito mais que o povo francês e seus outros rivais (...). Nada disto deve ser compreendido como um imperialismo, pois o povo alemão é o único povo de dimensões universais. Os ingleses e americanos não passam de descendentes da Alemanha, e o que sabem aprenderam com os alemães. A mãe sempre foi a Alemanha.50

O historiador alemão Georg von Below (1858-1927) se destacou pelo extremismo de suas posições desde antes da instalação da República de Weimar. Ele considerava a democracia o pior perigo para a Alemanha e o seu povo. Suas promessas de acabar com os “interesses privados judeus”, que ameaçavam estrangular a economia e a população, foram acolhidas tanto por altos funcionários, como também pelos numerosos moradores do subúrbio.51

O reverendo Dr. Stöecker, pregador de Potsdam, favorito do Kaiser, declarou que “os judeus são, simultaneamente, os pioneiros do capitalismo e do socialismo revolucionário, trabalhando assim pelos dois lados para destruir a atual ordem social e política”52.

O filósofo e economista alemão Eugen Dühring (1833-1921) foi um radical antissemita que defendia um racismo mais agressivo. Negando qualquer aspecto religioso da “questão judaica” - que deveria ser encarada sob uma visão estritamente racial –, Dühring descartava a possibilidade de que o “problema judaico” pudesse ser resolvido através da simples conversão ao cristianismo, pois isso não mudaria as características que seriam inatas à raça.

Dessa forma, ele se contrapunha à permanência dos judeus na sociedade europeia. Foi ele que levantou algumas questões que seriam utilizadas pelo nazismo, como por exemplo, o “egoísmo inveterado” dos judeus e o seu caráter de “parasitas”, então predestinados à destruição da raça mais forte. Ele também contribuiu a disseminar a ideia paranoica de “dominação mundial judaica”, motivada por suas características raciais53.

Tal ideia de dominação e conspiração mundial pelos judeus foi bastante utilizada pelos nazistas como justificativa para a derrota alemã na Primeira Guerra Mundial e na infestação democrática, através da proclamação da República em solo nacional. Também Os Protocolos dos Sábios de Sião foram escritos sob essa temática. Algumas frases de Dühring poderiam mesmo ser associadas ao que futuramente ocorreria aos países dominados pelos nazistas, o genocídio contra os judeus, pois ele dizia que os alemães “não deveriam ficar inibidos por qualquer escrúpulo, e sim usar os mais modernos métodos de desinfecção”54, a fim de livrar a Alemanha e a Europa da “peste” judaica.

Um importante divulgador do pensamento de Gobineau na Alemanha foi o bibliotecário Ludwig Schemann (1852-1938). Em 1894, ele fundou a Sociedade Gobineau com este objetivo. Atribuindo supostas características maléficas das raças negra e amarela ao judeu, ele pretendia criar uma representação ainda pior deste. Ao pessimismo fatalista de Gobineau, Schemann contrapôs um otimismo salvador: a raça ariana, através de métodos de cultivo da pureza do sangue, poderia - e deveria -, se manter através do tempo55.

Uma das grandes personagens antissemitas no cenário alemão foi o inglês, naturalizado alemão, Houston Stewart Chamberlain (1855-1927). Chamberlain é considerado um dos mais influentes ideólogos antissemitas da Teoria Racial, e suas obras – destacadamente A gênese do século XIX (1899)vieram a influenciar grande número de intelectuais alemães do início do século XX, além de Hitler e os nacional-socialistas.

Em sua visão da história em termos biológicos, ele considerava a ação de duas forças diametralmente opostas: os arianos e germanos contra os judeus e semitas. Os primeiros estariam relacionados à grandeza, enquanto os outros às qualidades danosas. Remetendo ao ariano a ideia de pureza, e ao judeu a de sujeira e degeneração causadas através de uma intensa miscigenação racial durante a sua história, ele acreditava numa “luta racial de vida ou morte” entre esses dois elementos56.

Em sua visão, “a raça judaica estaria mesmo completamente abastardada, e sua existência seria um crime contra as sagradas leis da vida”57. E tão importante quanto isso, o ariano, como defensor de uma raça superior a todas as outras, teria legitimado por isso mesmo o seu direito à dominação mundial.

3.3 Considerações Acerca do Líder Nazista

Adolf Hitler foi o líder do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, chanceler e, após a morte do presidente da República – Paul von Hindeburg (1847-1934) -, declarado Führer (líder) da Alemanha, unificando e assumindo os cargos de presidente, chanceler e comandante supremo das forças armadas.

Provavelmente, Hitler é uma das personalidades mais odiadas da história. O seu nome é associado, quase que automaticamente, ao Holocausto até mesmo por muitos daqueles que pouco conhecem a respeito do assunto. A sua biografia também é uma das que mais despertam interesse tanto por parte de especialistas, biógrafos e historiadores; como também de curiosos e amadores.

Muito já se foi publicado a respeito de Hitler pelo mundo. Várias obras, principalmente as voltadas para o grande público, retratam o líder nazista em seu foro íntimo. Teorias, a maioria das quais, carentes de provas e fontes – muitas até beirando ao sensacionalismo - se propõem a explicar as obsessões de um Führer psicótico. Em busca de se apontar influências para traçar o que moldou a personalidade e os rumos da vida de Adolf Hitler, já se especulou, por exemplo, sobre a sua suposta descendência judaica, causadora de violentos sentimentos de ódio à sua própria origem; ou sobre a sua também suposta homossexualidade, “fato” fundamental para a sua trajetória política, devido as também supostas relações de poder, pautadas pelo homoerotismo presente na cúpula nazista, segundo o autor58.

No âmbito profissional, excelentes estudos foram publicados sobre Hitler. Essas pesquisas – algumas das quais serão abordadas neste trabalho – buscaram, criteriosamente, analisar variados aspectos da vida do líder alemão. Importantes informações sobre a sua personalidade, carreira política, pensamento e ideologia, assim como outros temas, foram aí tratados. Para o historiador e compilador de dezenas de biografias sobre Hitler, Jhon Lucaks, “por mais de uma razão, Adolf Hitler foi a figura mais extraordinária na história do século XX; a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, sem ele seria inconcebível e permaneceria incompreensível”59.

A associação entre Hitler e “grandeza” é controversa. Se, por um lado, Hitler conquistou o posto de homem mais poderoso da Alemanha, arrastando consigo milhões de pessoas que, com corações e mentes excitadas, abraçaram a sua causa e os seus objetivos; por outro, ele foi o líder de uma ideologia de ódio que provocou a devastação da Alemanha e de grande parte da Europa, o que resultou na maior carnificina da história da humanidade – a Segunda Guerra Mundial.

Segundo Fest60, seria até mesmo crível que Hitler fosse considerado como um dos grandes estadistas alemães caso tivesse morrido em 1938 – um ano antes de ter provocado a Segunda Guerra -, pois, até aquele momento, ele havia conseguido reestruturar a economia alemã, reduzir drasticamente as taxas de desemprego e revigorar o orgulho nacional do povo, “rasgando” vários dos pontos humilhantes impostos à Alemanha pelo Tratado de Versalhes.

Também Hobsbawm reconhece o sucesso do governo Hitler, ao afirmar que, a respeito da crise econômica de 1929 que abalou o mundo, “o único Estado ocidental que conseguiu eliminar o desemprego foi a Alemanha nazista entre 1933 e 1938”61.

Porém, ao brilhante estadista de antes da guerra e ao adorado líder da nação, contrapõe-se o inescrupuloso fanático que levaria até as últimas consequências a sua doutrina de destruição. Para Lucaks, grande e profundo é o problema do lugar de Hitler na história – e não se ele merece o sentimental e impreciso adjetivo “grande”. Segundo ele, “não havia nobreza na constituição física, mental e espiritual de Hitler – nem em seus atos”62.

Outro ponto interessante no vasto material a respeito do nazismo é a questão da culpa do povo alemão, algo que, em primeiro momento, talvez pareça indissociável do “brilhantismo” e força de persuasão de Hitler. Essa questão foi, até pouco tempo atrás, evitada por grande parte dos alemães como um tabu. O genocídio de judeus, eslavos e outros grupos na Segunda Guerra é, ainda hoje, um fardo enorme, mas que, de qualquer forma, deve ser debatido a fim de ser compreendido. Apesar de se incorrer em juízo de valor – o que dificilmente se evitaria num trabalho em que se estude temas relacionados ao nazismo -, o ideal proposto neste trabalho, assim como em vários outros, não foi o de se apontar culpados, mas o de se compreender a história.

Apesar do inegável “magnetismo” que Hitler possuía sobre os alemães, é falso acreditar que ele tenha “hipnotizado” o povo. E mesmo que a Solução Final – eufemismo usado pelos nazistas para designar o genocídio de judeus – devesse ser um “segredo de Estado, todas as políticas antissemitas, regadas pela violência física e moral, foram apoiadas pelo povo. A escritora alemã de origem judaica Hannah Arendt – que inclusive fora perseguida pelo regime nazista - afirma ser falsa a afirmação de que as massas da população alemã nunca se fanatizaram realmente contra os judeus, ou que o extermínio destes não se conectava ao alemão típico63.

De acordo com Fest:

Continua a objeção (...) à necessidade de justificativa dos milhares de adeptos, que se transformaram em vítimas diante de tanta grandeza ou, de qualquer forma, querem lançar toda a responsabilidade do acontecido por conta dos caprichos patológicos de um Führer demoníaco e inacessível. Em resumo, (...) não seria senão uma manobra disfarçada de desobrigação, em face de uma vasta estratégia de desculpa64.

Em sua brilhante dissertação em que analisa os cartazes de propaganda política produzidos pelo nacional-socialismo, diz Enrique Luz:

(...) O fato de que o governo de uma nação como a Alemanha, uma das maiores potências econômicas e culturais do mundo, pôde empregar a dominação política, jurídica, institucional, militar, social e até mesmo psicológica, dir-se-ia, com tanto furor e tamanha eficácia, que conseguiu conduzir uma nação de cerca de 65 milhões de pessoas relativamente bem instruídas social, moral e religiosamente (já que, por mais que se evoque e algumas vezes se exagere as más condições de vida dos alemães no primeiro pós-guerra, jamais houve um estado de caos social completo) a odiar o povo judeu e perpetrar um dos maiores genocídios da história da humanidade, o chamado Holocausto, é uma questão das mais polêmicas da história contemporânea65.

No trecho acima, Luz parece se surpreender demasiadamente com o fato de que a instrução moral e religiosa dos alemães não tenham sido suficientes em evitar o Holocausto, porém, deve-se ter em vista que ambas foram apropriadas pelo discurso nacional-socialista em seus objetivos. Se passando por bastião da pureza da raça ariana e da nação germânica, Hitler e seu movimento ressignificaram os valores, associando ao judeu tudo que fosse imoral, perverso e diabólico. Dessa forma, a morte da raça parasitária dos judeus era vista como medida salutar pela sociedade. Para a grande parte do povo, isso não se contrapunha à moral, mas pelo contrário.

Os horrores do Holocausto provocam, ainda hoje, mais de meio século depois, enorme choque ao mundo. As imagens do genocídio presentes em documentação - inclusive abertas ao grande público, através da internet, por exemplo - provocam grande comoção. Como dito anteriormente, a ligação entre Hitler e o Holocausto é instantânea. Na tentativa de se explicar toda a perversidade contida nesta mancha da história, o líder nazista muitas vezes é considerado apenas como um louco. Entretanto, segundo Lucaks, ao se considerar esta opinião como válida, falhamos duas vezes, pois, se Hitler era louco, então todo o período hitlerista nada mais foi do que um caso de loucura, tornando o seu estudo quase que irrelevante. E mais grave ainda, a definição de Hitler como louco, o exonera de toda e qualquer responsabilidade66.

Num mundo em que também se mata em nome de Deus, e entre os demais exemplos pode-se citar Hitler e o nazismo, que acreditavam num Armageddon entre a raça ariana – “a mais elevada semelhança de Deus”67 – e a diabólica raça judaica, também não deve-se incorrer no erro de, por mais fantástico que pareça – pois ainda há grupos fundamentalistas no mundo contemporâneo – “conceder” ao Führer poderes extra-humanos e mesmo diabólicos68.

Outro erro comum é reduzir Hitler a mero fantoche do capital, presente em estudos marxistas. Lucaks acredita que, ao se estudar o nazismo, refuta-se a interpretação materialista da história:

E a ideia amplamente aceita (propagada não só por historiadores marxistas), segundo a qual a história era – e continua a ser – feita não por pessoas individuais, mas por condições sociais específicas e forças econômicas subjacentes, foi obviamente refutada e é especialmente inaplicável a Hitler – e, na verdade, a toda a história da Segunda Guerra Mundial. O fato de que essa guerra não teria explodido em 1939 se Hitler não houvesse existido, e que o curso de toda ela teria sido diferente se não tivessem existido Churchill, Stalin e Roosevelt, dispensa mais explicações69.

Apesar de não podermos reduzir Hitler exclusivamente aos interesses do capital, o

cristão anticomunista e antimarxista Lucaks – algo que ele deixa transparecer em sua obra – talvez falhe em marginalizar a influência das condições socioeconômicas da sociedade alemã da época sobre o regime hitlerista e a própria escalada de Hitler ao poder. Os efeitos da grande crise de 1929, por exemplo, foi o momento decisivo da aceitação popular da radicalização da sociedade alemã - sociedade esta que tinha a economia muito dependente do capital externo americano.

Em contrapartida à opinião de Lucaks, Hobsabawm demonstra, através de dados estatísticos, o poder que a crise financeira de 1929 proporcionou aos nazistas: de um pequeno e modesto partido nas eleições de 1928 (cerca de 3% dos votos), o partido nazista conquistou 18% do eleitorado em 1930 e 37% em 1932. “Está claro que foi a Grande Depressão que transformou Hitler de um fenômeno de periferia política no senhor potencial, e finalmente real, do país”70.

Provavelmente, o “fenômeno” Hitler não poderia ter acontecido numa outra época e lugar, pois ele está intrinsecamente ligado à condição da Alemanha derrotada e subjugada do pós-guerra. De certa forma, ele mesmo se torna parte da “biografia” de um período da história alemã. Dificilmente podemos imaginar Hitler galgando o poder, por exemplo, numa Inglaterra, França ou Estados Unidos, países orgulhosos de sua tradição democrática – algo que, definitivamente, não era o caso da Alemanha. Sobre os fatores fundamentais para a sua conquista do poder, diz Fest:

Para isso tanto contribuiu a romântica intuição política alemã, como o “cinza” particularmente triste da República de Weimar; o rebaixamento social das camadas mais amplas da população, devido ao mesmo tempo à inflação e à crise da economia mundial; a fraqueza da tradição democrática na Alemanha; os sobressaltos causados pela ameaça da revolução comunista; os transes da guerra; os cálculos falhos de um conservantismo que se tornara precário e, finalmente, as angústias que se difundiram pela transição de uma ordem em que se confiava para uma outra, ainda incerta. Tudo isso, acrescido ainda do desejo de encontrar soluções simples para opor às causas do descontentamento, frequentemente impenetráveis e confusas, e de pôr-se a salvo de todos os agravos de uma época sob a proteção de uma autoridade dominante71.

Outro questionamento a se fazer é se Hitler foi um reacionário ou um revolucionário. Certamente em algumas opiniões, ele foi reacionário. Suas ideias sobre raça, liberdade, mulheres ou artes, por exemplo, eram retrógradas. Mas na visão de Lucaks72, Hitler representava uma força revolucionária, pois estava empurrando para frente a “roda” da história, mesmo que numa direção nova e sinistra.

Hitler, apesar do apoio recebido dos conservadores e reacionários alemães; como parte de seu plano para alcançar o poder; nunca abandonou a ideia de que ele representava uma revolução nacional. Ele representava não a decadente burguesia e muito menos a antiga aristocracia, mas algo totalmente diferente: o povo, os trabalhadores, tanto que as “suas maiores simpatias e lealdades voltavam-se para os operários alemães”73.

Hitler foi um líder da era democrática. Sem o amplo apoio popular, ele não teria alcançado o poder. Ele não foi um déspota como os monarcas do passado, numa sociedade em que o poder baseava-se pela hereditariedade; e os reis, investido por Deus. Ele também não tomou o poder por assalto, já que não houve golpe de Estado. Na verdade, desde fins de 1923, quando efetivamente tentou em vão tomar o Estado pela força – o que ficou conhecido como Putsch (Golpe) da Cervejaria ou Putsch de Munique – ele se resignou em “jogar” de acordo com as regras democráticas, a fim de alcançar os seus objetivos políticos. Segundo Lucaks:

Ele pode ter sido o líder revolucionário mais popular na história do mundo moderno. A ênfase aqui é na palavra popular, porque Hitler pertence à era democrática, e não aristocrática, da história. Ele não pode ser corretamente comparado a um César, a um Cromwell, a um Napoleão. Inteiramente diferente, foi, mais do que qualquer um deles, capaz de eletrizar a maioria de um grande povo, durante sua vida o povo mais educado do mundo, convencendo-o a acreditar que ele, o povo, (e ele, o líder) representavam o que era a antítese do mal74.

O líder nazista representou algo totalmente novo na política alemã da época. Ele foi popular e populista. Seu carisma, devido em grande parte ao seu alto poder de persuasão, transmitido pelo dom oratório, fazia com que ele fosse adorado pela grande parte do povo. Em compensação, as suas políticas de reestruturação nacional se voltavam para o operariado.

3.4 O Mein Kampf

Boa parte do que se sabe a respeito da vida de Hitler, além de sua ideologia e programa nacional-socialista se encontra em sua obra, Minha Luta (Mein Kampf). Sintomático de seu conteúdo revanchista foi o título original do livro: Viereinhalb Jahre [des Kampfes] gegen Lüge, Dummheit und Feigheit (Quatro Anos e Meio [de Luta] contra Mentiras, Estupidez e Covardia); título esse se referindo ao tempo cronológico de desde as suas atividades no Partido dos Trabalhadores Alemães, mais tarde rebatizado para Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, até a época de sua redação. Mais tarde, o título da obra foi alterado para simplesmente Minha Luta.

O Minha Luta se compõe de dois volumes: o primeiro, escrito na prisão militar de Landsberg, em 1924 – ano em que começou a pagar a pena pela sua liderança no Putsh de Munique -, e editado em 1925; já o segundo volume foi editado em 1926, fora da prisão. Curioso notar é que, nessa época, dos cinco anos de prisão a que Hitler foi condenado a passar em Landsberg, foi cumprida apenas pequena parte dessa pena: nove meses.

O livro foi, inicialmente, editado por Hitler a Emil Maurice (1897-1972), um dos primeiros membros dos partidos, e depois a Rudolf Hess (1894-1987), fiel amigo e comandado de Hitler.

O Minha Luta abarca vários dos mais preciosos temas que foram caros ao nazismo: o antissemitismo latente; o antimarxismo e o antiliberalismo político e econômico; e o ideal da raça ariana. No movimento nacional-socialista, esses são os pilares de sua ideologia e a base para a tomada de suas decisões políticas.

Junto à concepção de raça ariana, a grande ideia por detrás do nazismo foi o antissemitismo, tanto que a sua própria propaganda - algo que exerceu grande poder na Alemanha nacional-socialista -, se fixava nestes dois polos, um representando aquilo se aspirava e exaltava e, o outro, o que se rejeitava e combatia. O nazismo seria inconcebível sem essa ideia.

Apesar de ser uma opinião relativamente disseminada no senso comum, o antissemitismo não foi criação do nazismo. A nefasta obra de Os Protocolos dos Sábios de Sião, por exemplo, apesar de ter sido introduzida na Alemanha e na maioria dos países do mundo, foi algo “criado” por uma ala de russos conservadores. Na verdade, o que o nazismo fez foi radicalizar, como nunca havia sido feito, essa ideia – o que culminou no Holocausto.

O antissemitismo foi o único ponto de sua ideologia que Hitler manteria intacto até o fim de sua vida. Segundo Lucaks75, o seu racismo era volátil: ele poderia ser deixado para segundo plano quando se tratasse de um acordo de paz com outras “raças” inferiores – o Tratado Molotov-Ribbentrop, com a “raça” eslava russa – ou até mesmo de aliança – o Eixo, com os “amarelos” japoneses, por exemplo. Os judeus, porém, nunca deixariam de ser estigmatizados.

Numa visão evolucionária da história do antissemitismo, descobre-se de forma aterradora como um preconceito considerado pelas elites como mero meio populista de se chegar ao poder, pôde se transformar em elemento político que tomaria dimensões catastróficas. Nas palavras de Elias:

Hitler e sua gente foram classificados como “agitadores”, usavam os judeus em sua propaganda como “bodes expiatórios”, sem que, no entanto, acreditassem em tudo o que diziam a respeito deles. “No fundo”, tais comentaristas pareciam sugerir, “esses líderes nazistas sabem tão bem quanto nós que muita coisa que dizem é pura besteira. Quando a coisa ficar feia”, era o pressuposto implícito, “essa gente pensa e comporta-se exatamente como nós”76.

A principal arma de Hitler e de seu movimento para chegar ao poder foi a acusação e o apontamento de inimigos e mazelas do povo alemão. O grande inimigo da Alemanha, na visão do Führer, era o judeu. Numa associação quase bíblica entre o judeu e o próprio diabo, Hitler escreveu que “o judeu é o maior mestre da mentira e a mentira e a fraude são as únicas armas da sua luta”77. Imaginava que existia uma “questão judaica” que deveria ser resolvida na Alemanha – a presença de judeus na Alemanha e na Europa era um problema fundamental que deveria ser solucionado - e obcecado por essa ideia, acreditava ter compreendido nisso a “chave da história”78.

Em seu pensamento – e os Protocolos tem grande parte nisso -, o judeu estava por trás de todas as desgraças da nação e do mundo. Em sua visão apocalíptica e em seus discursos inflamados pelo ódio, o judeu era quem comandava o marxismo; o capital internacional; a imprensa mundial. Era este ainda que trazia a corrosão dos costumes; da cultura e da arte nacional. O judeu manipulava os governos; conspirava contra as outras raças; promovia as guerras entre os países e planejava – literalmente – comandar o mundo. A respeito dessa visão generalizante de Hitler quanto aos judeus, diz Toland:

[Hitler] disse que o assim chamado “Pacifismo Mundial” era uma maquinação judia; que os líderes do proletariado eram judeus (“novamente os judeus!”); que os maçons serviam de instrumentos aos judeus (“mais uma vez os judeus!”) e que, na verdade, os judeus tramavam uma conspiração para conquistar o mundo79!

Quase sempre associado ao judeu, o marxismo também era estigmatizado pelo nazismo. Era comum entre os nazistas a expressão “judeu-bolchevique”. Apesar de Karl Marx (1818-1883) – idealizador do marxismo - ter sido um alemão, ele também era um judeu. Para os nazistas, um judeu era somente um judeu, independentemente de sua nacionalidade. Hitler considerava a social-democracia a porta-voz do marxismo na Alemanha.

Segundo o que dizia, a social-democracia manipulava e se apossava dos sindicatos e do operariado apenas para destruir a economia nacional, e não para trazer melhores condições sociais ao povo, devido ao seu ódio contra o Estado alemão. Em discussão com um grupo de operários alemães, trabalhando num serviço de construções em Viena, muito antes de conquistar o poder, Hitler acreditou ter percebido um verdadeiro envenenamento marxista sobre a alma da classe trabalhadora alemã:

Ali tudo se negava: a nação era uma invenção das classes capitalistas (...); a Pátria era um instrumento da burguesia para exploração das massas trabalhadoras; a autoridade da lei era simples meio de opressão do proletariado; a escola era instituto de cultura do material escravo e mantenedor da escravidão; a religião era vista como meio de atemorizar o povo para melhor exploração do mesmo; a moral não passava de uma prova estúpida da paciência de carneiro do povo. Não havia nada, por mais puro, que não fosse arrastado na lama mais asquerosa80.

Em oposição a toda ideologia antinacional que ele acreditava ser pregada pelo marxismo (ou socialismo internacional), Hitler se resignou a combatê-la através do que ele chamava de “socialismo alemão” ou nacional - tanto que o seu movimento seria nomeado de Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães. Na verdade, ele considerava a burguesia alemã - dirigente da república - como fraca e estúpida, pois ela não havia compreendido que a concessão de direitos sociais seria um “restabelecimento de direitos” e não uma “distribuição de favores”81. Dessa forma, Hitler pensava ter compreendido a “questão social” que deveria ser sanada no país, a fim de se combater o Perigo Vermelho.

Segundo Hitler82, o judeu não só estava por trás da revolução bolchevique como também do capital estrangeiro. Na verdade, em sua mixórdia de ideias, o capitalismo internacional não só tentava destruir a economia nacional, a fim de provocar o caos, como também era aliado do movimento marxista neste fim.

Para Hannah Arendt83, Hitler não estava totalmente equivocado quanto a essa associação, pois parte do grande capital judeu financiava os movimentos de subversão social trabalhistas, mas que isso explicava-se devido a falta de consciência de classe da burguesia judaica, de uma parte; e da falta de antissemitismo das classes trabalhadoras, de outra.

O povo judeu era tido como um Estado (secreto) dentro do Estado - onde não importava as suas diversas e opostas nacionalidades, credos políticos ou classes sociais, pois todos os seus elementos eram ligados através da raça - que tinha como objetivo submeter os outros povos. O judeu era abstrato, internacional e sem raízes; e o capitalismo era produto de sua religião, marcada pelo racionalismo e intelectualismo84.

O próspero famoso industrial e antissemita americano Henry Ford (1863-1947), que influenciou amplamente o nazismo, muito veio a contribuir com a associação entre o judeu e o capital internacional. Ignorando toda a história de discriminação profissional sofrida pelo judeu europeu - já que o mesmo era proibido de exercer determinados ofícios protegidos por corporações de ofícios medievais -, Ford reforçava o preconceito corrente de que o judeu vivia quase que exclusivamente do comércio e da especulação financeira. Segundo ele, o judeu era o verdadeiro e único capitalista internacional, capaz de modificar a ordem mundial e influenciar a vida econômica das nações:

(...) Os historiadores de vida econômica europeia vem se esforçando sempre por saber o por quê da passagem da preponderância comercial da Espanha, Portugal e da Itália, para os países setentrionais, Holanda, Inglaterra e Alemanha, sem aduzir nenhuma razão convincente. Mas, se tivermos em conta que essa mudança coincide com a época da expulsão dos judeus dos países meridionais – expulsão que os levou a buscar refúgio nos países do norte, e que com sua chegada a essas regiões surgiu nelas o florescimento comercial, não interrompido até agora, veremos que não é difícil uma explicação verossímil. É fato sempre reproduzido que, saindo os judeus de um país, lá se vai com eles o principal mercado dos metais preciosos85.

Outro grande pilar do movimento nacional-socialista e abordado no Mein Kampf, é o ideal de uma “raça” mestra, superior a todas as outras. Essa raça, denominada de ariana, seria a raça “criadora” de cultura. Segundo Lucaks, Hitler dizia que “uma raça suprema, sob a forma de uma nação superior, um dia governará o mundo”86.

Se confiarmos no relato de Albert Speer (1905-1981) – ministro do armamento e amigo pessoal do Führer – Hitler não compartilhava, mas até mesmo desdenhava, do misticismo racial de Heinrich Himmler (1900-1945) – chefe da  Schutzstaffel (“Tropa de Proteção” de Hitler e de seu Partido, também conhecida simplesmente pela abreviatura SS) - e considerava retrógrada a obra O mito do século XX (1930), de Alfred Rosenberg (1893-1946), importante teórico racista do nacional-socialismo87. Assim, as obsessões raciais do líder nazista nada tinham de biológicas, mas serviam ao seu nacionalismo. O que se pode afirmar, sem dúvidas, é que Hitler era antissemita, independentemente desse preconceito basear-se ou não no biologismo racista pseudo-científico defendido por Himmler e Rosenberg.

Apesar do relato de Speer, o que se lê no Mein Kampf é um alinhamento com as ideias do racialismo (conjunto de doutrinas que pretendiam-se se tornar uma espécie de “racismo científico”) propagado em grande parte da Europa e na América desde meados do século XIX. Em sua obra, Hitler deixa claro as suas crenças na divisão da humanidade em raças superiores e inferiores, entre as quais a raça ariana seria a melhor; e na importância da “pureza” do sangue para a manutenção da supremacia racial:

Inúmeras provas nos fornecem a experiência histórica. Com assombrosa clareza ela demonstra, que, em toda mistura de sangue entre o ariano e povos inferiores, o resultado foi sempre a extinção do elemento civilizador. A América do Norte, cuja população decididamente na sua maior parte, se compõe de elementos germânicos, que só muito pouco se misturaram com povos inferiores e de cor, apresenta outra humanidade e cultura do que a América Central e do Sul, onde os imigrantes, quase todos latinos, se fundiram em grande número com os habitantes indígenas. Bastaria esse exemplo para fazer reconhecer clara e distintamente, o efeito da fusão de raças. O germano do continente americano elevou-se até a dominação deste, por se ter conservado mais puro e sem mistura; ali continuará a imperar, enquanto não se vitimar pelo pecado da mistura de sangue88.

Seguindo este raciocínio, dizia ele que a humanidade poderia também ser classificada de acordo com três categorias: fundadores, depositários e destruidores de cultura. Apenas o ariano seria o fundador de cultura, pois provêm dele o alicerce de todas as criações humanas. Todo o progresso humano só poderia advir através do povo ariano ou do contato com ele; assim, por exemplo, os japoneses deviam o seu desenvolvimento e a sua potência econômica e tecnológica ao elemento civilizador ariano. Dessa forma, esses povos depositários de cultura, teriam seus fundamentos baseados no espírito helênico e na técnica germânica, apesar de manterem seus aspectos exteriores originais89.

O judeu seria a expressão máxima dos povos destruidores de cultura. Ele apresentaria o maior contraste com o ariano. Enquanto os povos arianos seriam idealistas e abnegados, sacrificando a própria vida em proveito da comunidade e do coletivo, os judeus seriam egoístas e individualistas. O judeu não teria cultura própria, pois viveria da imitação. A função desse povo seria apenas a de sugar - como um parasita - os outros povos ao se introduzir no seu meio. Ao idealismo alemão e ariano se oporia o materialismo judeu.

4. OS PROTOCOLOS DOS SÁBIOS DE SIÃO E O NAZISMO

4.1 A Conspiração Judaica pela Dominação da Alemanha

Os Protocolos dos Sábios de Sião tiveram larga divulgação pelos nazistas, sendo adotados, inclusive, como manual político90.


Figura 01 - Capa de Os Protocolos dos Sábios de      Figura 02 - Capa de Os Protocolos dos Sábios de Sião.

Sião. “Сионские протоколы” [Protocolos de           Die Geheimnisse der Weisen von Sion” [Os Segredos

Sião]. Versão russa. (1905?)                          dos Sábios de Sião]. Versão alemã (1920)

À esquerda, na figura 01, a capa de uma das primeiras edições dos Protocolos, na Rússia do início do século XX. Nitidamente ainda sob a influência do místico cristão Sergei Nilus (1862-1929), a capa retrata uma figura associada a Baphomet, relacionado ao diabo no imaginário cristão/católico e, supostamente, a uma entidade cultuada na maçonaria. Em ambos os antebraços da figura existem alguns caracteres escritos em latim, “Solve” e “Coagula”, associados, respectivamente, aos verbos “dissolver” e “coagular/solidificar”; e na Terra em que ela se senta, “Eliphas Lévi”, significando, simplesmente, o pseudônimo do ocultista francês Alphonse Louis Constant (1810-1875), responsável pela criação de tal representação de Baphomet. Vale dizer que tais palavras têm significados estritamente esotéricos associados à figura, não se relacionando com esta pesquisa.

Na testa da figura há o desenho de uma estrela de cinco pontas, o pentagrama, que, apesar de ser original à figura de Baphomet, talvez tenha sido utilizada com a pretensão de compará-la com a estrela de seis pontas judaica, a Estrela de Davi ou, muito provavelmente, à estrela vermelha bolchevista – já que o comunismo constantemente era associado ao judeu pelos antissemitas. Parece não haver na imagem significados mais profundos que a associação entre os judeus/judaísmo e o diabo/satanismo, o que é reforçado pela forte cor avermelhada no fundo da imagem, talvez evocando-se sangue ou mesmo a imagem clássica do inferno, envolta pelo fogo.

À direita, na figura 02, a capa de uma edição dos Protocolos na Alemanha, de 1920. Divulgada, possivelmente, há mais de uma década após a edição russa da figura 01, a capa da versão alemã se mostra com aspecto muito mais “leve” que aquela outra. Livre de figuras associadas ao aspecto religioso, a imagem retrata, acima, uma bandeira bem parecida com a do atual estado de Israel. Na verdade, ela se refere à bandeira do sionismo, criada já no final do século XIX. Abaixo, há a representação do “cumprimento maçom” e de outro símbolo ligado a esta sociedade. Ressalte-se que, aqui, a menção à maçonaria não tem conotação religiosa - como provavelmente há, em alguma proporção, nas primeiras edições russas-, mas simplesmente política.

Desde a revolução francesa de 1789 disseminou-se um turbilhão de teorias a respeito de sociedades secretas que estariam por detrás dos grandes acontecimentos políticos mundiais, e a franco-maçonaria, por defender os princípios liberais, foi logo apontada como a grande responsável pela trama da subversão popular na França. Seguindo neste encalço, os Protocolos, além de inserir a maçonaria na conspiração contra o mundo, lhe conferiu papel secundário, já que estaria a trabalho dos verdadeiros líderes da urdidura: os sábios de Sião, um grupo de judeus que tramavam um governo mundial. Nos Protocolos, estes dizem que:

Fomos nós os primeiros que, já na antiguidade, lançamos ao povo as palavras Liberdade, Igualdade, Fraternidade, palavras repetidas tantas vezes pelos papagaios inconscientes que, atraídos de toda a parte por essa isca, dela somente tem usado para destruir a prosperidade do mundo, a verdadeira liberdade individual, outrora tão bem garantida dos constrangimentos da Multidão91.

Hitler também compartilhava da mesma opinião a respeito da utilização da maçonaria pelos judeus, como nos moldes dos Protocolos. Segundo ele:

Para consolidar sua posição política, [o judeu] tenta destruir as barreiras raciais e de cidadania, que mais do que tudo o embaraçam a cada passo. Para atingir tal fim, luta, com sua resistência típica, pela tolerância religiosa, encontrada na Maçonaria, que caiu inteiramente em seu poder, um excelente instrumento para o combate e para a realização de suas aspirações. Os círculos governamentais, assim como as camadas superiores da burguesia política e econômica, caem em suas armadilhas, guiados por fios maçons, mal se apercebendo disso92.

Comparando as duas capas – a da figura 01 e a da figura 02-, percebe-se que, os alemães e o nazismo, ao contrário dos russos conservadores, pouca importância conferiam a uma trama liderada por membros da religião judaica, mas sim a uma maquinação encabeçada pelos membros da raça judia. Enquanto Nilus via na conspiração dos Protocolos um sinal do anticristo, Hitler enxergava nela a certeza que justificaria as armas empregadas na guerra contra os judeus na Alemanha e fora dela: a cassação de seus direitos políticos, civis, sociais e até mesmo humanos – com expressão máxima no Holocausto. Sintomática dessas diferenças de concepções, a própria evolução na história do antissemitismo europeu explica essa mudança de rumo no ódio ao judeu: inicialmente baseado na fobia e no ódio religioso, o antijudaísmo se transformou mais acentuadamente em antissemitismo, o que abarcava num só preconceito os “caracteres” biológicos, políticos, econômicos, sociais e religiosos.

Nessa questão, retornando-se ao assunto abordado no primeiro capítulo desta pesquisa, verifica-se que os próprios Protocolos já são influenciados pela evolução do novo conceito de antisemitismo, fundamentado nas novas ciências trazidas em meados do século XIX, com destaque para o darwinismo social. Ainda esclarecendo a sua perniciosa influência no ideário da tríade da revolução francesa, os Protocolos apontam que os valores como a liberdade e igualdade implantados pelos judeus, trazem efeitos nefastos ao homem e à sociedade, visto não existirem na natureza.

Homens que se julgavam inteligentes não souberam desvendar o sentido oculto dessas palavras, não viram que se contradizem, não repararam que não há igualdade na natureza, que nela não pode haver liberdade que a própria natureza estabeleceu a desigualdade dos espíritos, dos caracteres e das inteligências, tão fortemente submetidos as suas leis (...)93.

Os princípios universais proclamados pela revolução francesa e fomentados pelos Sábios de Sião eram vistos como incompatíveis com a Alemanha idealizada por Hitler – e, na verdade, por grande parte dos alemães, como explicado por Norbert Elias. Por isso, os Protocolos puderam servir como propaganda antissemita pelos nazistas. As ideias do liberalismo político descambariam num Estado democrático, associado à fraqueza e à degradação do povo germânico.

Os Protocolos dizem que “um plano dividido por tantas cabeças quantas há na multidão, perde sua unidade, tornando-se ininteligível e irrealizável”94 e ainda: “somente um autócrata pode elaborar planos vastos e claros, pondo cada coisa em seu lugar no mecanismo da estrutura governamental.”95. Aqui, fica claro que tais passagens poderiam ser manipuladas da forma desejada pelos nazistas no caso alemão, visto que a república proclamada após a Primeira Guerra Mundial, e a renúncia – fuga - do então pressionado imperador (Kaiser) Guilherme II, decretou o fim do Império, “entregando” a Alemanha à democracia.

Os nazistas encontraram, até mesmo, facilidade em demonizar a República de Weimar (1919-1933) – sucessora do antigo regime no poder -, e associá-la a uma fraude imposta através da degenerescência do povo alemão pelos judeus, pois a massa desse mesmo povo a via como algo “alienígena” à “alma” alemã: “A tragédia da República de Weimar é que o trauma de seu nascimento foi tão grande que ela não pôde nunca registrar a lealdade desinteressada de todos, ou mesmo de muitos de seus beneficiários”96. Segundo Ford, o fato de vários ministros judeus ocuparem tais cargos na república alemã, comprova que esse regime foi imposto ao país pelos judeus97.

Os “Sábios de Sião” tinham o interesse de tornar os Estados fracos e sem direção para que os judeus dominassem os povos como maior facilidade, a fim de que eles próprios comandassem o mundo. A implantação da república e da democracia seria um dos passos viáveis na conquista desse objetivo:

Do liberalismo nasceram os governos constitucionais, que substituíram, para os cristãos, a autocracia salutar e a constituição; como bem o sabeis, não é mais do que uma escola de discórdias, de desinteligências, de discussões, de dissentimentos, de agitações estéreis dos partidos; em uma palavra, é a escola de tudo o que faz com que um Estado perca sua individualidade e sua personalidade. A tribuna, assim com a imprensa, condenou os governos à inação e à fraqueza; tornou-os poucos necessários, inúteis; é isso que explica que sejam derrubados. A era republicana se tornou então, possível, quando substituímos o governante por uma caricatura de governo, por um presidente tomado na multidão, no meio de nossas criaturas, de nossos escravos. Aí está o fundo da mina que cavamos sob o povo dos cristãos, ou melhor, sob os povos cristãos98.

No trecho acima, percebe-se que a democracia e o regime parlamentar são descritos de forma pejorativa: enquanto o antigo regime é caracterizado como “salutar”, a ideia que se forma do liberalismo político é de total desorganização. O nazismo também adotou essa forma de maniqueísmo político:

O que mais que tudo e com mais insistência me fazia refletir no exame do parlamentarismo era a falta evidente de qualquer responsabilidade individual. O parlamento toma qualquer decisão – mesmo as de consequências mais funestas – e ninguém é por ela responsável, nem é chamado a prestar contas. (...) Não está todo conceito de responsabilidade intimamente ligado à personalidade? Pode-se, na prática, responsabilizar o dirigente de um governo pelos atos cuja existência e execução devem ser levadas à conta da vontade e do arbítrio de um grande grupo de homens?(...) Toda ação genial neste mundo não é um protesto do gênio contra a inércia da massa?(...) Não deverá todo aproveitador estar destinado a “fazer” política, desde que a responsabilidade não caberá, afinal, a ele, mas à massa intangível?99

Em outro trecho do Minha Luta Hitler critica de forma veemente a democracia como fruto do judeu para destruir toda sã política na Alemanha: “É o que mais satisfaz às suas necessidades, porque, nesse regime, faz-se abstração da personalidade e institui-se, no seu lugar, a preponderância da burrice, da incapacidade e, por último, da covardia!”100.

O que percebe-se no pensamento – e mais tarde nas ações – de Hitler e do nazismo é sua predisposição para o autoritarismo, senão para o totalitarismo. Apesar de Hitler guiar o país de acordo com o que acreditava ser a vontade da maioria, na verdade, ele seguia uma política bem particular a seu próprio modo de pensar e que, não raro, era aceita pela população, senão imposta. Apesar do amplo apoio popular; em sua visão, o controle da nação não deveria ser baseado em princípios democráticos, mas numa “ditadura da maioria” comandada por uma espécie de raros e privilegiados “indivíduos superiores” entre os quais, logicamente, ele mesmo se incluía.

Um outro ponto que liga os Protocolos ao nazismo se refere a algo cronologicamente anterior à República de Weimar e foi algo caro a Hitler: a derrota alemã na primeira guerra mundial. Ford diz que, “segundo a opinião de todas as classes sociais, tanto a derrota depois do armistício, como a revolução e suas consequências, sob as quais sucumbe o povo, são obra da astúcia e de um plano premeditado dos judeus”101, e vai além, ao dizer que “nunca a influência judaica se manifestara na Alemanha tão acentuadamente como durante a guerra. Surgiu esta com certeza audaz de um canhonaço, como se tudo já houvesse sido já preparado de antemão” 102.

Segundo os Protocolos, os judeus estariam dispostos a promover guerras contra seus inimigos: “a qualquer oposição devemos estar em condições de fazer declarar guerra pelos vizinhos da nação que ousar criar-nos embaraços; e, se esses próprios vizinhos se lembrarem de se aliar contra nós, devemos repeli-los por meio de uma guerra geral”103. Aliada a outras “previsões” históricas contidas nos Protocolos – como supostamente foi a proclamação da república democrática na Alemanha -, a Primeira Guerra Mundial também foi encarada como uma conspiração judaica em busca do domínio mundial.

Na visão nazista, os judeus eram os verdadeiros causadores da guerra em 1914 e da consequente derrota alemã. Próximo à segunda guerra mundial, Hitler pronunciava em público através de seus discursos que, caso os judeus provocassem uma ‘nova’ guerra contra a Alemanha, eles pagariam duramente por isso. Na visão de Hobsbawm, o apelo nacionalista era eficiente “à medida que culpava os inimigos de fora, e os traidores, de dentro, pelo fracasso ou pela fraqueza. E havia bastante fracasso e fraqueza para serem explicados”104. No caso nazista, os judeus seriam os grandes inimigos e traidores, influenciando a sua covarde política de destruição tanto interna como externamente à Alemanha.

No Minha Luta Hitler indagava-se: “Valeria a Alemanha do passado menos do que supúnhamos? Não tinha ela obrigações para com a sua própria História? Éramos nós ainda dignos de nos cobrir com a glória do passado?”105. Para o nazismo, era de fundamental importância explicar a derrota sofrida em 1918, pois se os arianos eram a raça mestra da humanidade, então algo – ou alguém – teria, por meios obscuros, induzido os alemães a fraquejarem. Acusando o imperador Guilherme II de ter se conciliado ao marxismo, Hitler continua: “com judeus não se pode pactuar” e ainda: “nessas noites [se referindo aos primeiros dias após a derrota e a revolução que culminaria na república] cresceu em mim o ódio contra os responsáveis por esses acontecimentos”106.

Em consequência à derrota, a Alemanha foi obrigada a reconhecer o tratado de paz imposto pelas nações vitoriosas, o Tratado de Versalhes, e, em consequência, desarmar-se, indenizar e assinar sua declaração de culpa pela guerra, além de ceder as suas colônias no ultramar, perder partes de seu território, desativar sua indústria de guerra e limitar o número de seu exército e forças armadas. Uma parcela considerável do povo alemão - incluindo-se aí, claramente, Hitler e os nazistas-, considerou os termos do tratado ultrajantes.

A partir da derrota e da subjugação da nação, foi criado o mito de uma grande conspiração que viria a rebaixar o povo ariano, destruir a sua cultura, corroer os seus costumes, aviltar o seu sangue, promover doenças e problemas sociais, subverter as massas trabalhadoras e desnacionalizá-las, entregar a economia do país ao “capital internacional”, destruir os seus sãos princípios políticos e trazer diversos outros males. Tudo parecia levar a acreditar que, com o Tratado de Versalhes, “os aliados desejavam não um acordo, mas uma vingança, uma verdadeira humilhação”107. Tudo maquinado pela mente diabólica do judeu, pensavam.

Se referindo aos Protocolos, a reflexão de Rosenfeld acerta em dizer que um escrito odioso como este só poderia vingar num ambiente emotivo, desestabilizado e movido por paixões e preconceitos, manipulado por elementos fanáticos sedentos de desejos e aspirações profundas, como um chauvinismo exagerado, ideias políticas fixas e até mesmo a uma piedade sincera, ainda que mal orientada e envolta de provas falazes108.

Dessa forma, os judeus deixariam registrados nos Protocolos uma verdadeira cadeia de eventos que viria a abalar os alicerces das sociedades. Entre as acusações nazistas, havia a de que os judeus teriam tomado a imprensa e manipulado, através dela, o povo alemão, destacadamente durante a guerra, imbuindo em seu espírito, o fracasso e o derrotismo:

À proporção que o meu exame se aprofundava, diminuía o motivo de minha antiga admiração por essa imprensa. O estilo desses jornais era insuportável, as idéias eu as repelia por superficiais e banais e as afirmações pareciam aos meus olhos conter mais mentiras do que verdades honestas. E os editores dessa imprensa eram os judeus!109

Também o americano Henry Ford, baseado nas tramas dos Protocolos, via com grande alarde os rumos que a imprensa tomava nos últimos tempos:

Um dos fatos mais perigosos do desenrolar de nossa era atual é a desconfiança do grande público para com a imprensa. Se um dia se fizesse necessário divulgar, rapidamente, notícias verídicas e orientadoras entre a grande massa do povo para defender e reunir em uma só ação comum os interesses da nação, ver-se-ia nesta num estado de lamentável insegurança, enquanto subsistisse este estado de desconfiança geral.110

Constantemente a mídia é descrita como o “Quarto Poder” na sociedade, representando uma “faca de dois gumes”: se por um lado, ela representaria uma força que daria voz ao povo e protegeria os seus direitos e as suas opiniões frente aos outros poderes, por outro, ela agiria de forma privada ou nada popular, defendendo interesses escusos de determinados grupos e manipulando a opinião pública a fim de que aqueles tivessem algum tipo de benefício, seja este financeiro, político ou outro.

Guareshi111 diz que existem dois tipos de poder: um ilegítimo, e outro democrático e legítimo. Em sua visão, quando se fala na mídia como Quarto Poder, é preciso dizer que também há a possibilidade desse poder ser tomado de forma não democrática e ilegítima, usurpado; quando arrogado por conta própria, sem participação popular, já que baseado apenas no poder econômico, político e ideológico de determinados grupos.

No contexto dos Protocolos, a mídia seria uma verdadeira potência a trabalho do mundo judeu. Os “Sábios de Sião” dariam a ela um sentido totalmente desagregador e destrutivo: “Que papel desempenha agora a imprensa? Serve para acender as paixões ou conservar o egoísmo dos partidos. Ela é vã, injusta e mentirosa e a maioria das pessoas não compreende absolutamente para que serve”112. Jornais, livros e brochuras estariam nas mãos dos judeus, ora sendo censurados, ora direcionados conforme a sua vontade.

Quando, finalmente, chegasse o momento em que os judeus destruiriam os Estados e implantariam o seu governo mundial, a imprensa pagaria impostos e multas, ficando totalmente refém dos donos absolutos do mundo. Através de um diabólico plano de mentiras e fraudes, o povo “escolhido” trapacearia a nação, fazendo-a acreditar que jornais de oposição - na verdade, dominados pelos próprios judeus -, se manteriam livres para noticiar o que lhes fossem de própria vontade: “Peço-vos notar que, entre os jornais que nos atacarem, haverá órgãos criados por nós, os quais atacarão somente os pontos, cuja modificação nós desejarmos”113.

A grande imprensa – que Hitler tanto detestava –, não comunicaria à sociedade nada sem o controle prévio dos judeus: “Este controle já foi alcançado em nossos dias, porque todas as notícias são recebidas por diversas agências, que as centralizam por toda a parte do mundo”114.

Outro estratagema posto em prática pela “raça” judaica para dominar a imprensa seria taxar em dobro, futuramente, as edições curtas, de poucas páginas, porque essas seriam as mais vendidas e lidas. Dessa forma, ela obrigaria os escritores não-judeus a escreverem obras longas, poucos lidas. Além disso, antes de se publicar qualquer coisa, o editor ou impressor deveria consultar as autoridades a fim de se obter permissão para fazê-lo. Quanto aos jornais, se dez fossem autorizados, logo seria fundado mais trinta, a fim de que a confusão entre as opiniões se espalhassem115.

É importante ressaltar que, muito do que os judeus supostamente planejavam ao escrever os Protocolos em 1897 – no primeiro congresso sionista, em Basileia, na Suíça -, poderiam já fazer parte do passado ou estar em vias de se realizar, segundo a opinião geral: “É conveniente meditar sobre os vários capítulos, comparando seu texto a outros documentos de origem hebréia e observar até que ponto foram realizados, durante e depois da guerra, os fatos previstos e os acontecimentos anunciados nas cópias escritas vinte anos antes!”116.

Essa mentalidade paranoica certamente serviu para que os nazistas apontassem um “bode expiatório” que retirasse dos alemães a culpa pelos seus próprios problemas. Após a eclosão da primeira guerra, a derrota alemã e a consequente proclamação da república, a catástrofe financeira assolou o povo durante a grande crise de 1929. Também ela foi atribuída ao grande plano judeu de destruição do povo ariano. Dizem os Protocolos que “as crises econômicas tem sido produzidas por nós entre os cristãos com um único fim de retirar dinheiro de circulação”117.

Para Ford, as crises financeiras seriam todas provocadas pelos judeus através de uma retirada em massa de dinheiro em circulação, o que logo provocaria uma escassez de capital e traria desespero aos governos. Dessa forma, os judeus teriam dinheiro emprestado a uma baixa taxa de juros. Porém, esse mesmo dinheiro seria reemprestado a terceiros com uma taxa de juros elevada, o que explicaria parte da riqueza dos judeus capitalistas.

Ford, que dedicou um capítulo inteiro de sua obra a respeito da influência maligna do judeu sobre a Alemanha, veio a influenciar a política nazista de forma decisiva. A compilação de seus escritos em O Judeu Internacional, publicado em 1920, muito antes de Hitler galgar o poder e, na verdade, quando ainda o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães “engatinhava” sob a influência de Hitler, demonstra, assim como os próprios Protocolos, que o antissemitismo estava de tal forma difundido nos Estados Unidos e, principalmente, na Europa, que a ascensão do fervoroso discurso antissemita do nazismo não parecia representar algo original.

É com grande espanto que se lê há mais de uma década antes de Hitler se tornar chefe supremo da nação, as obscuras palavras de Ford a respeito do futuro alemão baseando-se numa falsificação literária que condenava todos os judeus: “Não se pode prever o que irá suceder mais adiante na Alemanha, mas não resta dúvida de que os alemães saberão dominar a situação, estudando e empregando os meios adequados e eficazes que o caso exija”118.

O judeu era comumente associado à figura do capitalista internacional como também do revolucionário bolchevista. Apesar dessas imagens parecerem um tanto contraditórias e conflitantes, obviamente por se tratar de pontos totalmente opostos, Hitler e os nazistas, assim como conservadores antissemitas como Henry Ford, as relacionavam uma à outra. Os Protocolos certamente foram usados tanto por fanáticos como por reacionários para corroborar a imagem do conspirador judeu que maquina ora através de seu poderio financeiro, ora através da provocação da subversão social, pois ao mesmo tempo em que ele destrói a economia nacional dos povos através de seu capital, ele fomenta no povo o desejo de rebelião contra a ordem estabelecida.

No Mein Kampf, relembrando a greve de munições que a Alemanha sofria em sua indústria bélica já próximo ao final da Primeira Guerra, Hitler dizia que, daquela forma, “a ofensiva [alemã] seria assim evitada, a Entente estaria salva e o capital internacional se tornaria dono da Alemanha. A finalidade íntima do marxismo, isto é, a mistificação dos povos, teria sido atingida”119.

Henry Ford também não dispensava palavras para denunciar o “jogo duplo” da trama mundial dos judeus:

(...) O judeu rico não é anarquista, porque pode alcançar seus fins por caminhos mais suaves, enquanto o judeu pobre não dispõe de outros meios senão os violentos para enriquecer. Não obstante, o judeu rico e o pobre fazem juntos uma grande parte do caminho. O vínculo de simpatia de raça não se rompe entre eles, porque no caso de triunfar a anarquia, o judeu pobre ocupará seu posto ao lado do irmão rico, e se o movimento fracassar, deixará abertos novos sulcos, onde o judeu rico poderá continuar a desenvolver seus planos”120.

4.2 A Figura do Judeu-Bolchevista

Provavelmente mais impactante em sua propaganda do que a relação entre o judeu e o “capitalismo internacional”, o nazismo priorizava convencer tanto aliados como adversários que a verdadeira face da ameaça bolchevista mundial era judaica. Esta preferência certamente tem uma explicação: enquanto a imagem histórica do judeu como mercador, financista ou próspero proprietário já era bastante arraigada de forma geral na sociedade121, a representação do judeu como agitador revolucionário das massas trabalhadoras ganharia um enorme impulso após a então recente Revolução Russa de 1917, quando os bolcheviques viriam a tomar o poder após a revolta contra o absolutismo czarista.

Segundo os Protocolos, os judeus tramavam dominar os países elevando o povo ao status de proprietário das nações. Fazendo-o rebelar-se contra as classes dirigentes ou lhe concedendo o sufrágio universal, sem distinção de classe e de censo eleitoral, seria estabelecido o despotismo da maioria. O povo seria uma força cega a serviço dos judeus122.

Também muito contribuiu para isso (o foco na associação entre judeu e comunismo) o processo pela conquista do poder do partido nazista, pois embora este desprezasse a burguesia e os conservadores, os utilizou como importante ferramenta até se apoderar de forma definitiva do controle político, quando então pôde se expurgar de sua influência. Assim, durante boa parte da sua história, o partido de Hitler pareceu discursar quase que exclusivamente de forma reacionária, na tentativa – bem-sucedida, diga-se de passagem – de angariar o apoio dos segmentos conservadores. Como era de se esperar, tais conservadores poderiam servir tanto apoio financeiro como ideológico ao nazismo, o que de uma parte restringiria a sua crítica contra o capitalismo – ao menos, durante algum período - e de outra, a fomentaria contra o comunismo – este, tão temido por esses grupos marcadamente antissemitas.

Além disso, tem-se a impressão de que o capitalismo, na visão nazista, além de não parecer algo tão malévolo quanto o comunismo, parecia também ser algo irreversível, enquanto o “jovem” comunismo poderia – e deveria – ser combatido com vigor capaz de extirpá-lo da Terra. A localização geográfica do comunismo também parecia um fator decisivo: o núcleo da “peste” se restringia à Europa Oriental – talvez palco dos maiores horrores da Segunda Guerra, já que estima-se que cerca da metade do total de mortos durante este conflito tenham acontecido nessa região.

A Alemanha nazista, autointitulada “bastião” da cultura ocidental, tinha como objetivo impedir que a “barbárie” soviética invadisse e destruísse a civilização superior dos povos arianos. Essa noção de selvageria comunista, como uma nova forma de conceber o homem e a sociedade, era muito mais profunda do que a ideia de um mero sistema político e econômico. O comunismo seria imoral, ateu, antinacional/ internacional e assassino. No Minha Luta, ao “examinar” se os “fundadores” do marxismo teriam sido, eles próprios, vítimas de um erro ou se, em caso contrário, teriam em mente todas as suas consequências, Hitler medita:

No primeiro caso, era dever de todo ser pensante colocar-se à frente da reação contra esse desgraçado movimento, para que chegasse às suas extremas consequências; na segunda hipótese, os criadores dessa epidemia coletiva deveriam ter sido espíritos verdadeiramente diabólicos, pois só um cérebro de monstro – e não de um homem – poderia aceitar o plano de uma organização de tal porte, cujo objetivo final conduzirá à destruição da cultura humana e à ruína do mundo”123.

Neste trecho, assim como por toda a obra de Hitler, percebe-se que a forma que o nazismo encontra para se posicionar contra o marxismo/comunismo não se dá através do debate intelectual das suas implicações sócio-políticas ou econômicas, mas, simplesmente, através de uma aversão a tudo que remeta a ideia grosseira de um governo dirigido pelo proletariado, como se isto estivesse associado à ruína geral da sociedade. Isso fica visível quando se verifica as expressões utilizadas em seu discurso para descrever o marxismo e seus defensores: “desgraçado movimento”, “epidemia coletiva”, “espíritos (...) diabólicos”, “cérebro de monstro”.

Está escrito nos Protocolos que, a existência social depende da divisão do trabalho e, consequentemente, da divisão dos homens em classes e condições. Subvertendo a ordem pela manipulação judaica, as multidões derramariam o sangue daqueles que “invejam”124.

Quanto a isso, cabe aqui mais uma consideração quanto aos Protocolos: estes não foram os pioneiros na criação da falácia de que o judeu era o exclusivo e verdadeiro agitador revolucionário das massas trabalhadoras. A importância dos Protocolos e o que os fez se distinguirem na história do antissemitismo reside no fato de que eles descreveriam uma conspiração em que os próprios judeus diziam como atingir tal fim. O que fez com que os Protocolos se disseminassem fervorosamente e se destacassem entre os diversos textos que atacavam os judeus não foi a simples transmissão de preconceitos – tão comuns na Europa, já desde séculos impregnada de antissemitismo, por exemplo -, mas sim a prova da autoria dos judeus por trás dos acontecimentos mundiais, a revelação de uma urdidura planejada contra as nações. Isso contribuía para o processo, levado a cabo de forma apaixonada pelos nazistas, de aglutinar o antissemitismo e o anticomunismo.

Hitler define de forma sucinta como a “doutrina de destruição” marxista “infectava” o povo alemão:

O processo aí empregado é o seguinte: aproxima-se do trabalhador, finge compaixão pela sua sorte ou mesmo revolta contra seu destino de miséria e indigência, tudo isso unicamente para angariar confiança. Esforça-se por examinar cada privação real ou imaginária na vida dos operários, despertando o desejo ardente de modificar a sua situação. A aspiração à justiça social, latente em cada ariano, é por ele levada de um modo infinitamente hábil, ao ódio contra os privilégios da sorte; a essa campanha pela debelação de pragas sociais imprime um caráter de universalismo bem definido. Está fundada a doutrina marxista125.

No trecho acima, o que é chamado por Hitler de “privilégios da sorte”, nada mais foi do que uma maneira que o nazismo encontrou para suprimir a noção da existência da “luta de classes”. No lugar de um conflito de interesses entre a exploração do trabalho pelo capital e a defesa de seus direitos pelo trabalhador, o nazismo simplesmente distorceu essa realidade ao criar o conceito daquilo que Martin Heidegger (1889-1976) - um dos “filósofos do nazismo” - viria chamar de “socialismo nacional”: um “novo” Estado alemão, um lugar de confraternização entre os membros que sacrificariam sua individualidade para o bem comum. Na visão desse Estado racista de Heidegger126, já que baseado nos princípios do sangue e da terra, classes sociais seriam um mito, pois existia apenas um único e homogêneo povo alemão.

Farias – crítico das obras de Heidegger - critica essa “ordem mística da comunidade do povo”, pois, em sua visão, ela “renova assim o demagógico passe de mágica conceitual próprio do nacional-socialismo destinado a eliminar as diferenças e as contradições sociais, e, com elas, as organizações políticas que as reconhecem para poder combatê-las”127.

De modo geral, como descrito no livro, os judeus tinham como plano fazer do mundo uma massa de proletários128. O destaque aqui é na palavra “mundo”. Certamente, os Protocolos fizeram com que os reacionários e fanáticos antissemitas mais crédulos vissem no caráter universalista/internacionalista do comunismo uma missão “diabolicamente” premeditada. Como o comunismo tinha como plano de ação se expandir geograficamente, o judeu “sem raízes” parecia ser o seu símbolo perfeito, já que ainda sem Estado “próprio” e disperso por toda a Europa.

Sobre a questão do “internacionalismo” judaico – tão usado pelos nazistas para reforçar a associação com o universalismo comunista -, Arendt129 afirma que os judeus sempre foram vistos como um grupo sem pátria e mesmo quando os conflitos europeus se desenvolveram para guerras nacionais, os judeus permaneceram neutros, sem causa nacional. Por isso mesmo os judeus eram um símbolo do “equilíbrio do poder” e interesses comuns dos povos europeus.

Porém, quando se quis aniquilar os competidores – um fenômeno causado e iniciado por volta do último quarto do século XIX, na era da rivalidade capitalista das nações imperialistas -, os judeus perderam sua importância. Diz ela que – justamente o oposto do que pensava os nazistas e outros antissemitas -, “os judeus, o único povo não-nacional da Europa, foram mais ameaçados que quaisquer outros pelo colapso de Estados nacionais”130.

O que se depreende da visão de Arendt é que as disputas imperialistas pelo poder mundial fizeram, pela primeira vez, com que os judeus perdessem a sua “utilidade” como ponto de equilíbrio entre as nações europeias. Enquanto Hitler e os nazistas se baseavam em escritos como os Protocolos para reforçar a ideia de que os judeus controlavam os acontecimentos mundiais para destruir as nações – representados, sobretudo, na figura do judeu-comunista -, na sua opinião (na de Arendt), o colapso do equilíbrio entre os países europeus e a sua consequente recusa ou desavença ao que fosse ‘internacional’, prejudicava de forma definitiva a imagem dos judeus.

Ford, em seu O judeu internacional, descreve as várias formas e maneiras que o universalismo do judeu criou para comandar as demais nações. Segundo ele, o judeu é o causador da badernação bolchevista na Rússia. Na Alemanha, foi o causador da derrota sofrida na guerra. Na Inglaterra, diz que o judeu é o verdadeiro dono do mundo e a “raça” judaica uma supranacionalidade que vive no meio e acima dos povos. Nos Estados Unidos, se introduz em organizações militares para obter ganhos no ramo industrial e comercial da guerra131.

Associado a essa imagem do judeu internacional, corria o mito de que, por isso mesmo, o judeu constituía um “Estado dentro Estado”. Vivendo disperso entre os diversos países, o judeu – assim como descrito nos Protocolos – tramava uma traição contra o povo “hospedeiro” que, inocentemente, o abrigava “amigavelmente”. Diz Hitler que “o Estado judaico nunca teve fronteiras, nunca teve limites no espaço, mas era unido pela raça. Por isso, aquele povo sempre foi um Estado dentro Estado”132.

Essa traição planejada pelo “parasita” judeu através de um golpe contra o seu povo “hospedeiro” poderia ser lançada a qualquer momento. Nos moldes dos Protocolos, o judeu planejava tomar os governos das nações por assalto:

(...) Queremos que, no próprio dia de sua proclamação, quando os povos estiverem estupefatos com o golpe de Estado que acabar de efetuar-se, quando ainda estiverem mergulhados no terror e na perplexidade, queremos que, nesse momento, reconheçam que somos tão fortes, tão invulneráveis, tão poderosos que não fazemos o menor caso deles; que, não somente não daremos atenção as suas opiniões e aos seus desejos, mas estaremos prontos e preparados, com indiscutível autoridade, para reprimir qualquer expressão, qualquer manifestação desses desejos e opiniões; que nos apoderamos de uma só vez de tudo o que precisávamos e que, em caso algum, partilharemos com eles nosso poder. Então, fecharão os olhos e esperarão os acontecimentos133.

Na Alemanha, a ideia de que o judeu planejava os rumos políticos do país era propagada de forma ostensiva pelos nazistas. Em 27 de fevereiro de 1933 – menos de um mês após Hitler ter se tornado chanceler – o Reichstag (Parlamento alemão) seria palco de um atentado que o deixaria em chamas. O responsável pelo incêndio, Marinus van der Lubbe (1909-1934), um jovem holandês esquerdista em ato de protesto contra o nazismo, apesar de agir solitariamente, se tornaria, graças à ferocidade da propaganda e divulgação feita pelos nazistas, num perigoso agitador revolucionário comunista. O incêndio do Reichstag causou grande perplexidade na população e o receio das elites de que a ameaça comunista poderia se materializar em solo alemão. Hitler, reconhecendo aí a oportunidade de esmagar toda a oposição e angariar ainda mais o apoio popular, apontou o partido comunista (associado aos judeus) como o responsável pela tentativa de “golpe de estado”. A partir daí, os deputados comunistas perderam seus mandatos e milhares de pessoas foram torturadas e feitas prisioneiras.

Curiosamente, essa relação entre conspiração judaico-comunista e golpe de Estado também seria utilizada no Brasil quatro anos mais tarde, no que ficou conhecido como Plano Cohen. “Descoberto” em 30 de setembro de 1937, a urdidura tinha como objetivo dar aos comunistas o controle sobre o país através de um golpe de Estado. Mais tarde, soube-se que tal “plano” fora forjado pelos nacionalistas do Integralismo, apesar de Vargas ter sido o “beneficiário” dos acontecimentos seguintes. As consequências da “trama” também seguiram o modelo do “golpe” ocorrido na Alemanha: assim como o nazismo saiu fortalecido com o incêndio do Reichstag, o governo federal liderado por Getúlio Vargas (1882-1954) instituiu o Estado Novo em novembro de 1937, um autoritário regime político que duraria até outubro de 1945, quando seria deposto pelas Forças Armadas. Vale ressaltar que a palavra Cohen tem origem na tradição judaica, um nome dado aos sacerdotes da Torá.

Também aqui é interessante notar outro ponto de convergência que une a imagem do judeu ao do comunista/bolchevista pelos segmentos reacionários: ambos agiriam às espreitas de suas vítimas, as dopando com mentiras até o momento do ataque que pegaria a todos de surpresa.

Na Alemanha, o incêndio do Reichstag – e de forma geral, a marcha dos acontecimentos anteriores e posteriores - ampliou de tal forma os poderes conquistados pelos nazistas que a progressão de sua política antissemita não encontraria mais barreiras internas.

4.3 A Figura do Judeu Capitalista “Internacional”

Também como parte da difamação do judeu pelos nazistas foi a sua associação com o capital internacional. É interessante notar a argumentação que Hitler e outros antissemitas utilizavam a respeito deste assunto, pois, em sua visão, não existia meramente o capitalismo, mas, na verdade, este dividia-se em dois tipos: um positivo e nacional, e outro, negativo e internacional. Enquanto o primeiro seria produtivo e benéfico à economia do país; o segundo, controlado pelo “judeu internacional”, seria de caráter especulativo e destrutivo para as nações134.

Percebe-se aí algumas considerações que valem ser ressaltadas: em primeiro lugar, o capitalismo – ao contrário do comunismo – não seria um adversário a ser aniquilado, apesar de sua versão nefasta – o capital internacional – dever ser combatida. Como já dito, o comunismo seria muito mais um adversário ideológico do que político e econômico, apesar de não poder se desprezar o peso destes últimos nas campanhas para sua condenação. Em segundo lugar, o fato de que o nazismo - apesar de, em seus discursos, fazer a defesa de um passado imemorial, em que se remetia a noção de Volk135, se utilizou do apoio financeiro da temerosa e reacionária burguesia alemã para alcançar o poder. Dessa forma, o capital “nacional” deveria ser protegido.

Nos Protocolos, os judeus estariam por trás do capital especulativo. Comumente visto como aquele que busca apenas obter vantagens de uma determinada situação, não trazendo benefícios para qualquer setor, mas apenas vantagens estritamente egoístas e individuais, o capital especulativo era associado ao capital internacional. Com a sua tão alardeada sede por lucro, o “judeu internacional” dominaria o mundo financeiro: “(...)É necessário que a indústria tire a terra o fruto do trabalho, como o do capital, que nos dê, pela especulação, o dinheiro de todo o mundo; lançados, assim, as fileiras dos proletários, todos os cristãos se inclinarão diante de nós para terem ao menos o direito de viver”136.

Hitler não tinha dúvidas de que o capital internacional – que “financiava” o marxismo – visava destruir a economia nacional. Diz ele que o movimento operário estava, inocentemente, a serviço dos judeus ao combater o capitalismo. Na verdade, os trabalhadores estariam sendo enganados: “(...)Nisso tudo, grita-se constantemente contra o capital internacional, quando em verdade o que se visa é a economia nacional. É esta que importa demolir para que, no seu cemitério, se possa edificar triunfalmente a Bolsa Internacional”137.

Ford corrobora essa opinião ao dizer que a luta judaica não era contra o capitalismo em si, mas apenas contra o capital nacional dos outros povos e países: “(...) ressentimentos judaicos não vão dirigidos contra o capitalismo, mas, pelo contrário, este se pôs a serviço daqueles. A única forma de Estado contra a qual se dirigem representa qualquer ordem nacional não-judaica, e o único capital atacado é o dos não-judeus”138.

Hitler e outros antissemitas associavam ao judeu a figura do capitalista internacional, entretanto, também isso não foi uma criação do nazismo. De fato, a imagem do megalomaníaco judeu capitalista, tão bem desenhada nos Protocolos foi uma evolução da tradicional visão europeia do judeu como mercador e usurário – ao contrário da contemporânea criação do “judeu-bolchevista” ou “judeu-comunista”.

Restrito a poucas atividades laborais no passado, os judeus viriam a se destacar no ramo comercial e econômico. A maioria dos ofícios considerados “produtivos” estava, desde a Idade Média, “protegida” e sob o controle de corporações de ofícios – também conhecidas como guildas. Evidentemente, essas corporações excluíam os judeus que, assim, não poderiam exercer várias profissões. Ignorando este fato imposto por elas mesmas aos judeus, as sociedades europeias, em geral, consideravam as atividades econômicas praticadas pelos judeus como cruéis e abusivas. Ford traduz de forma sucinta este caráter do judeu: “Possuindo, como nenhuma outra raça, aversão para todo o trabalho material e produtivo, sabe equilibrar este defeito por uma predisposição característica para o intercâmbio”139.

Dessa forma, o judeu pôde ser facilmente associado à imagem do cambista, devido a sua “intimidade” com as diferentes moedas e operações financeiras; do mercador e comerciante que viviam com os seus escusos métodos de vendas; ou ainda do profano usurário, já que em desacordo com a visão da Igreja: a de que a cobrança de juros seriam imorais, já que “o tempo somente a Deus pertencia”. Enquanto o restante do povo ‘produzia’ e ‘criava’ para o bem coletivo, os judeus se apropriavam dessas ‘produções’ para realizar pechinchas e comércio, como um parasita que vive do sangue de seu hospedeiro: os judeus seriam, naturalmente, improdutivos, se constituindo um fardo.

Hannah Arendt, em sua obra As Origens do Totalistarismo, descreve a evolução histórica das relações socioeconômicas entre o judeu, o Estado e as sociedades europeias, assim como foi possível a transformação do antissemitismo de base religiosa, social e econômica em explosivo antissemitismo de base política, este último, uma das consequências da política imperialista e, consequentemente, totalitarista140.

Segundo a autora141, com a expansão econômica estatal do século XVII, aumentou-se a necessidade de crédito e o alvo predileto na obtenção desse apoio financeiro foram os judeus. Com o desenvolvimento da política econômica do Estado no século XVIII apareceram os grupos de judeus ricos e privilegiados. Porém, o capitalismo imperialista do século XIX solicitava homens de mentalidade “verdadeiramente capitalista”, o que contrastava com as atividades econômicas do passado, pois o excepcional ritmo de produção e busca de financiamentos neste momento eram inéditos na história.

Desse modo, os judeus não mais teriam importância para os empreendimentos financeiros do Estado, pois, ao contrário do que se pensava – e aqui destaca-se o nazismo e a fraude dos Protocolos-, aqueles teriam aspirações muito diferentes da imagem clássica do que seria o “grande capitalista”142. Os judeus, afinal, ainda não teriam quebrado totalmente as suas relações com o passado, na qual era ligado à nobreza por questões de interesses comerciais, administrando e financiando exércitos e outras empresas143.

Dessa maneira, o grupo de judeus privilegiados havia mesmo desintegrado-se décadas antes da Primeira Guerra. A concorrência capitalista do imperialismo havia, definitivamente, dado um ultimato ao que restava da supremacia financeira dos judeus. Sem influência e proteção política, a riqueza acumulada por destacados grupos judeus poderiam agora ser vistos com desdém sem limites. É neste contexto que se insere a importância que viria a tomar os Protocolos, quando poderiam ser manipulados numa mistura de “mentiras e meia-verdades”. Arendt144 diz que Hitler só perseguiu os judeus quando estes estavam enfraquecidos e em declínio, não quando eles estavam com o poder. As instituições bancárias, por exemplo, estavam quase que inteiramente “desjudaizadas”.

Foi no lento processo histórico que a noção de “judeu-da-corte” – já que próximo à monarquia e à nobreza– se transformou em judeu internacional. Agora, este punha seus serviços à disposição de vários países simultaneamente. Os Rothschild145 seriam o símbolo máximo dos “tentáculos” judaicos que agarravam as diversas partes do mundo com o seu despotismo financeiro:

Vemos então os judeus sempre representados como uma organização de comércio internacional, uma firma familiar global com interesses idênticos em toda parte, uma força secreta por trás do trono, que transformava outras forças em mera fachada e vários governantes em marionetes, cujos cordões são puxados por trás do pano146.

Os Protocolos também se inspiraram nesta visão do judeu que detém tanto poder financeiro que seria mesmo capaz de transformar governantes em impotentes fantoches que agiriam de acordo com os seus comandos:

Os administradores, escolhidos por nós no povo, em razão de suas aptidões servis, não serão indivíduos preparados para a administração do país. Assim, facilmente se tornarão peões de nosso jogo nas mãos de nossos sábios e geniais conselheiros, de nossos especialistas, educados desde a infância para administrar os negócios do mundo inteiro.147

.Para Arendt148, o surgimento do antissemitismo como sério fator político no final do século XIX na Alemanha, Áustria e França - destacadamente entre as classes médias inferiores, as mesmas que estariam entre as primeiras a sucumbir ante o discurso nazista – foi precedido por escândalos financeiros em que estavam envolvidos os judeus, o governo, a nobreza e as próprias classes médias inferiores.

Para este último segmento, era uma questão de “tudo ou nada” aumentar rapidamente as suas rendas até elevar-se ao status de burguês, pois a expansão capitalista no cenário nacional tendia cada vez mais a liquidar os pequenos proprietários, condenados a escorregarem para o proletariado. Essas mesmas classes médias inferiores descendiam das associações ou corporações de ofícios que, durante séculos, se protegeram dos riscos externos por meio de um sistema fechado que bania a concorrência. Protegidos pelos governantes, foram os primeiros a evocaram o “Estado protetor” quando a livre concorrência capitalista surgiu149. Os judeus, agora, pareciam ser o símbolo do novo mundo que emergia.

Nos Protocolos, os judeus tramavam fazer a si próprios os donos financeiros do mundo se tornando proprietários e banqueiros:

Rodearemos nosso governo por uma multidão de economistas. Eis por que as ciências econômicas são as mais importantes a serem ensinadas aos judeus. Rodear-nos-emos de uma plêiade de banqueiros, industriais, capitalistas e, sobretudo, milionários porque, em suma, tudo será decidido pelas cifras150.

Essas classes médias baixas - sobretudo na era do imperialismo, marcada pela busca de crédito – dependiam da ajuda financeira e empréstimos recebidos dos banqueiros. Progressivamente, na medida em que se tornavam cada vez mais antissemitas, o pequeno burguês via no banqueiro o motivo de sua derrocada. Desse modo, este passou a ser encarado como seu explorador, assim como o grande industrial era para o trabalhador151.

A figura do judeu como próspero banqueiro que usava o seu poder econômico para fustigar pelas dívidas e pelos juros os povos e nações também fazia parte do arsenal de repetidas acusações – entre as quais, a relação entre o poder econômico e os benefícios trazidos pelas guerras a “determinados grupos” que as financiavam - de um Henry Ford, por exemplo:

Prejudica-se gravemente “um povo”, fazendo subir artificialmente o desconto de seus saques; “a outro”, subtraindo o seu dinheiro da circulação natural da vida comercial. Mas que significa isso tudo para o banqueiro internacional? Este tem suas preocupações próprias e particulares. Em épocas de tempestade, chove o ouro nas arcas dos banqueiros internacionais, mais ainda que em tempos tranquilos. As guerras e penúrias lhe proporcionaram as colheitas mais ricas152.

O que facilitava essa associação era que muitos banqueiros eram realmente judeus e, mais importante ainda, a imagem geral do banqueiro tinham traços definitivamente judaicas, por múltiplas razões históricas. Assim, até mesmo os movimentos esquerdistas – que mais tarde seriam oponentes ferrenhos dos nazistas – também viam no capital bancário a imagem do judeu. As classes médias baixas, no entanto, não restringiriam a sua repulsa contra a imagem do banqueiro judeu, mas contra todos os judeus. O ódio social e econômico reforçava o argumento político com a violência impulsiva, até então desconhecidas153.

É nesse momento que se dá a gênese dos movimentos pangermânicos e, mais tarde, do nazismo:

Os antissemitas estavam convencidos de que a sua pretensão de tomar o poder absoluto não era outra coisa senão aquilo que os judeus já haviam conseguido, e que o seu antissemitismo era justificado pela necessidade de eliminar os reais ocupantes dos postos de mando: os judeus. Assim, era necessário ingressar na área de luta contra os judeus exatamente como os trabalhadores lutavam contra a burguesia, e, atacando os judeus, que apresentavam – de acordo com a ideia geral – como detentores do poder por detrás dos governos, agrediam abertamente o próprio Estado154.

Dessa maneira, Arendt afirma que, ao lutar contra o judeu “capitalista” que dominava o mundo financeiro mundial e que, por isso mesmo, havia se apoderado dos governos das nações; os nazistas tinham como alvo algo muito maior que apenas conquistar o poder na Alemanha: eles pretendiam – e, em grande medida, conseguiram – destruir as bases do “antigo” Estado para construir um novo Estado, um bem adaptado à sua própria maneira...

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A presente pesquisa, longe de ter esgotado os diversos temas possíveis na análise de Os Protocolos dos Sábios de Sião, buscou analisar algumas das facetas do antissemitismo nazista, entre elas a associação entre os judeus e a democracia “ocidental”; os princípios iluministas; a influência judaica na imprensa; as crises econômicas; além da figura do capitalista internacional e do comunista-bolchevista.

Este trabalho buscou compreender como foi possível o discurso irracional de calúnia e de ódio racial conduzido pelo nazismo encontrar terreno fértil numa nação como a Alemanha, um dos países mais industrializados do planeta já naquela época e um dos bastiões da produção intelectual na Europa e no mundo, aspectos aparentemente opostos ao barbarismo primitivo do nacionalismo tribal – baseado nos valores da raça e do sangue – conduzido pelo nazismo.

Os Protocolos dos Sábios de Sião, apesar de terem sido apenas um dos vários “documentos” e “provas” usados pelos nazistas a fim de se apontar os judeus como os conspiradores para a destruição da Alemanha e mesmo para a dominação mundial, foi explorado de forma intensa pelos nazistas: os judeus seriam a “chave” para se entender a história. Curiosamente, um dos maiores divulgadores dos Protocolos pelo mundo não foi alemão, mas sim o americano Henry Ford – autor de O Judeu Internacional -, que chegou mesmo a ser condecorado com honrarias nazistas.

Os Protocolos dos Sábios de Sião são conhecidos como um livro que nunca “morre” e talvez, neste ponto, é que este livro demonstra uma preocupação ainda atual. Forjado e escrito nos anos finais do século XIX e publicado no começo do século XX na Rússia, os Protocolos se espalharam inicialmente por toda a Europa e, logo depois, por todo o mundo. Hoje, se encontra traduzido em diversas línguas.

No ano de 2002, por exemplo, foi levado ao ar, em vários canais de televisão árabe, “Cavaleiro Sem Cavalo”. Baseada nos Protocolos, a série foi patrocinada pela televisão estatal egípcia. Certamente produzida pela influência dos acirrados ânimos entre judeus e palestinos devido às tensões pela criação e permanência do Estado de Israel, a série televisiva se tornou popular no mundo árabe, contribuindo para a exacerbação de ódios infundados.

Entretanto, os Protocolos não se tornaram correntes apenas entre os árabes após a Segunda Guerra, o Holocausto ou a criação do Estado de Israel. Este escrito já “preocupou”, inclusive, povos que pouco contato tiveram com os judeus, como demonstra a versão em língua japonesa publicada neste país em 1987. Quinze anos antes uma versão dos Protocolos foi publicada na Espanha para explicar algumas reformas da Igreja. Bem antes disso, em 1930 uma versão italiana se tornou popular entre fascistas e, nesse mesmo ano, uma versão em espanhol foi publicada na Argentina. Os argentinos antissemitas que liam os Protocolos acreditavam que os sionistas conspiravam para fundar um Estado judaico em seu país...

Em 1972 foi a vez do Egito receber a publicação dos Protocolos em seu país.. No mesmo ano, a embaixada soviética em Paris publicou uma crítica ao Estado de Israel baseando-se em trechos dos Protocolos! Dois anos depois, a Índia também “recebeu” sua versão do livro. Em 1978, os Protocolos reapareceram na Inglaterra e, um ano antes, nos Estados Unidos.

Em 1992, certas escolas católicas mexicanas taxaram os Protocolos como leitura obrigatória. Oito anos depois, o Líbano publicou uma versão do livro.

Em 2006, a Centauro, editora que publicara a última edição dos Protocolos no Brasil teve 1.600 exemplares do livro apreendido em sua sede, em São Paulo, por ordem da Justiça. Membros da Fisesp (Federação Israelita do Estado de São Paulo) alegaram que o livro promovia o antissemitismo.

Um dos principais pontos motivadores para a atual pesquisa foi a busca pelo exame de ideias pré-concebidas; neste caso, o antissemitismo nazista. Pensa-se que, assim, este trabalho tenha contribuído de alguma maneira - mesmo que por menor que seja tal contribuição -, na compilação de materiais para o processo de investigação histórica.

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TOLAND, John. Adolf Hitler. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves Editora S.A., 1978.

WINTERBOTHAM, Frederick W. Enigma: o segredo de Hitler. Rio de Janeiro: Biblioteca do exército, 1978.

1 ROSENFELD. Mistificações Literárias: “Os Protocolos dos Sábios de Sião”, p. 45.

2 ROSENFELD. Mistificações Literárias: “Os Protocolos dos Sábios de Sião”, p.30.

3 ARENDT. Origens do totalitarismo, p.407.

4 HITLER. Minha Luta, p.228.

5 ROSENFELD. Mistificações literárias:“Os Protocolos dos Sábios de Sião”, p.23.

6 Deve-se ter em mente que os Protocolos foram criados para atormentar as mentes de um povo bastante arraigado aos valores tradicionais de uma Rússia do início do século passado, onde ainda reinava o absolutismo czarista, e a religião tinha um importante papel na vida social.

7 O nazismo, por exemplo, também se aproveitando do corrente imaginário antissemita, propagava a ideia de uma conspiração judaica “silenciosa”. Em sua dissertação, p.128, figura 22 – os dados completos da pesquisaem questão constam na lista bibliográfica da presente pesquisa -, Enrique Luz apresenta a imagem de um cartaz de propaganda nazista em que o rosto de um judeu é descoberto através de uma cortina, dando a entender que a manipulação judaica que ocorria de forma dissimulada nos “bastidores”, estaria naquele momento sendo desvendada ao povo alemão.

8 OS protocolos dos sábios de Sião, p.44.

9 OS protocolos dos sábios de Sião, p.44.

10 OS protocolos dos sábios de Sião, p. 57.

11 OS protocolos dos sábios de Sião, p.45.

12 OS protocolos dos sábios de Sião, p.76.

13 OS protocolos dos sábios de Sião, p.65.

14 LUCAKS. O Hitler da história, p.61.

15 EISNER. O complô: a história secreta dos Protocolos dos Sábios de Sião, p.60.

16 EISNER. O complô: a história secreta dos Protocolos dos Sábios de Sião, p.39.

17 ROSENFELD. Mistificações literárias:“Os Protocolos dos Sábios de Sião”, p.48.

18 EISNER. O complô: a história secreta dos Protocolos dos Sábios de Sião, p.12.

19 JOLY. Diálogos no inferno entre Maquiavel e Montesquieu, p.149.

20 OS protocolos dos sábios de Sião, p.118.

21 EISNER. O complô: a história secreta dos Protocolos dos Sábios de Sião, p.67.

22 ROSENFELD, Mistificações literárias:“Os Protocolos dos Sábios de Sião”, p.45.

23 LUZ. O eterno judeu: antissemitismo e antibolchevismo nos cartazes de propaganda política nacional-socialista (1919-1945), p.63.

24 HOBSBAWM. Era dos extremos: O breve século XX (1914-1991), p.121,122.

25 HOBSBAWM. Era dos extremos: O breve século XX (1914-1991), p.122.

26 HOBSBAWM. Era dos extremos: O breve século XX (1914-1991), p.123.

27 DA MATTA. Qual é a vocação do Brasil? Disponível em: <http://revistaepoca.globo.com/opiniao/roberto-damatta/noticia/2012/06/qual-e-vocacao-do-brasil.html>. Acesso em: 15 agosto 2012.

28 O termo mulato, inclusive, é derivado da palavra mula, animal misto resultante do cruzamento entre um jumento e uma égua, ou um cavalo e uma jumenta. Se a mula é uma animal estéril; na visão de Gobineau, o mulato também seria um ser estéril na sociedade, o que explicaria o subdesenvolvimento de nosso país.

29 LUZ. O eterno judeu: antissemitismo e antibolchevismo nos cartazes de propaganda política nacional-socialista (1919-1945), p.46.

30 BRUIT. O imperialismo, p.8.

31 LUZ. O eterno judeu: antissemitismo e antibolchevismo nos cartazes de propaganda política nacional-socialista (1919-1945), p.48.

32 LUZ. O eterno judeu: antissemitismo e antibolchevismo nos cartazes de propaganda política nacional-socialista (1919-1945), p.49.

33 CUNHA. Os Sertões, p.28.

34 CUNHA. Os Sertões, p.45.

35 HOBSBAWM. A Era do Capital (1848-1875), p.368.

36 KIPLING. O fardo do homem branco.

37 ARENDT. Origens do totalitarismo, p.22.

38 BLACK. A guerra contra os fracos: a eugenia e a campanha norte-americana para criar uma raça superior, p. 63.

39 SCHWARCZ. O Espetáculo das Raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil (1870-1930), p.60. 

40 Termo amplamente propagado pelos nazistas para se referir aos judeus marxistas que teriam trabalhado para implantar a república na Alemanha, o que acabou por “derrotar” a nação na Primeira Guerra.

41 ELIAS. Os alemães: a luta pelo poder e a evolução do habitus nos séculos XIX e XX., p.293.

42 ELIAS. Os alemães: a luta pelo poder e a evolução do habitus nos séculos XIX e XX., p.283.

43 ELIAS. Os alemães: a luta pelo poder e a evolução do habitus nos séculos XIX e XX, p.166,167.

44 ELIAS. Os alemães: a luta pelo poder e a evolução do habitus nos séculos XIX e XX, p.260.

45 ELIAS. Os alemães: a luta pelo poder e a evolução do habitus nos séculos XIX e XX, p.284.

46 ELIAS. Os alemães: a luta pelo poder e a evolução do habitus nos séculos XIX e XX, p.128.

47 ELIAS. Os alemães: a luta pelo poder e a evolução do habitus nos séculos XIX e XX, p.161.

48 FARIAS. Heidegger e o nazismo - Moral e política, p.118.

49 FARIAS. Heidegger e o nazismo - Moral e política, p.91.

50 FARIAS. Heidegger e o nazismo - Moral e política, p.69,70.

51 FARIAS. Heidegger e o nazismo - Moral e política, p.58.

52 SARTRE. Reflexões sobre o racismo, p.76.

53 LUZ. O eterno judeu: antissemitismo e antibolchevismo nos cartazes de propaganda política nacional-socialista (1919-1945, p.51.

54 DÜHRING apud SARTRE. Reflexões sobre o racismo, p.104.

55 LUZ. O eterno judeu: antissemitismo e antibolchevismo nos cartazes de propaganda política nacional-socialista (1919-1945), p.54.

56 LUZ. O eterno judeu: antissemitismo e antibolchevismo nos cartazes de propaganda política nacional-socialista (1919-1945), p.56.

57 CHAMBERLAIN apud CORREA NETO. Os judeus: raça ou religião?, p.79.

58 Disponível em: <http://veja.abril.com.br/idade/estacao/hitler/entrevista.html>. Acesso em: 14 setembro 2012.

59 LUCAKS. O Hitler da história, p.9.

60 FEST. Hitler, p.7.

61 HOBSBAWM. Era dos extremos: O breve século XX (1914-1991), p.97.

62 LUCAKS. O Hitler da história, p.174.

63 ARENDT. Origens do totalitarismo, p. 17.

64 FEST. Hitler, p.4.

65 LUZ. O eterno judeu: antissemitismo e antibolchevismo nos cartazes de propaganda política nacional-socialista (1919-1945), p.7,8.

66 LUCAKS. O Hitler da história, p.42.

67 HITLER. Minha Luta, p.292.

68 De qualquer maneira, o argumento religioso antijudaico não representou, definitivamente, papel principal no nazismo, apesar de também ter sido manipulado.

69 LUCAKS. O Hitler da história, p.41.

70 HOBSBAWM. Era dos extremos: O breve século XX (1914-1991), p.133.

71 FEST. Hitler, p.5.

72 LUCAKS. O Hitler da história, p.65.

73 LUCAKS. O Hitler da história, p.70.

74 LUCAKS. O Hitler da história, p.46.

75 LUCAKS. O Hitler da história, p.94.

76 ELIAS. Os alemães: a luta pelo poder e a evolução do habitus nos séculos XIX e XX, p.280.

77 HITLER. Minha Luta, p.258.

78 LUCAKS. O Hitler da história, p.130.

79 TOLAND. Adolf Hitler, p.168.

80 HITLER. Minha Luta, p.35.

81 HITLER. Minha Luta, p.25.

82 HITLER. Minha Luta, p.176.

83 ARENDT. Origens do totalitarismo, p.99.

84 LUZ. O eterno judeu: antissemitismo e antibolchevismo nos cartazes de propaganda política nacional-socialista (1919-1945), p.105.

85 FORD. O Judeu internacional, p.16.

86 LUCAKS. O Hitler da história, p.94.

87 LUCAKS. O Hitler da história, p.95.

88 HITLER. Minha Luta, p.211,212.

89 HITLER. Minha Luta, p.222,223.

90 ARENDT. Origens do totalitarismo, p. 407.

91 OS protocolos dos sábios de Sião, p.48.

92 HITLER. Minha Luta, p.233.

93 OS protocolos dos sábios de Sião, p.48,49.

94 OS protocolos dos sábios de Sião, p.47.

95 OS protocolos dos sábios de Sião, p.47.

96 GAY. A cultura de Weimar, p.22.

97 FORD. O Judeu internacional, p.21.

98 OS protocolos dos sábios de Sião, p.82.

99 HITLER. Minha Luta, p.64,65.

100 HITLER. Minha Luta, p.234.

101 FORD. O Judeu internacional, p.21.

102 FORD. O Judeu internacional, p.22.

103 OS protocolos dos sábios de Sião, p.72.

104 HOBSBAWM. Nações e nacionalismo desde 1780: programa, mito e realidade, p.172.

105 HITLER. Minha Luta, p.154.

106 HITLER. Minha Luta, p.154.

107 GAY. A cultura de Weimar, p.27.

108 ROSENFELD. Mistificações literárias:“Os Protocolos dos Sábios de Sião”, p.64.

109 HITLER. Minha Luta, p.48.

110 FORD. O Judeu Internacional, p.131,132.

111 GUARESCHI. Mídia e Democracia: o quarto versus o quinto poder, p.18.

112 OS protocolos dos sábios de Sião, p.91.

113 OS protocolos dos sábios de Sião, p.92.

114 HITLER. Minha Luta, p.92.

115 OS protocolos dos sábios de Sião, p.93.

116 OS protocolos dos sábios de Sião, p.14.

117 OS protocolos dos sábios de Sião, p.130.

118 FORD. O Judeu Internacional, p.25.

119 HITLER. Minha Luta, p.147.

120 FORD. O Judeu Internacional, p.24.

121 Os Pogrom do leste europeu, por exemplo, tinham como alvo preferido a figura do judeu proprietário de terras e “explorador da miséria do povo”.

122 OS protocolos dos sábios de Sião, p.81.

123 HITLER. Minha Luta, p.52.

124 OS protocolos dos sábios de Sião, p.58.

125 HITLER. Minha Luta, p.236.

126 FARIAS. Heidegger e o nazismo - Moral e política, p.171.

127 FARIAS. Heidegger e o nazismo - Moral e política, p.173.

128 OS protocolos dos sábios de Sião, p.71.

129 ARENDT. Origens do totalitarismo, p.40,41.

130 ARENDT. Origens do totalitarismo, p.42.

131 FORD. O Judeu Internacional, p.11.

132 HITLER. Minha Luta, p.113.

133 OS protocolos dos sábios de Sião, p.88.

134 HITLER. Minha Luta, p.156.

135 Termo muito particular à cultura germânica quando comparado aos seus pares em outras línguas, significando, não de forma totalmente satisfatória, a palavra povo.

136 OS protocolos dos sábios de Sião, p.70.

137 HITLER. Minha Luta, p.236.

138 FORD. O Judeu Internacional, p.153.

139 FORD. O Judeu Internacional, p.12.

140 Na visão de Arendt, o totalitarismo está intimamente interligado ao imperialismo, na verdade, aquele seria uma consequência deste. O nazismo na Alemanha demonstraria isso, sendo possível graças à existência do imperialismo alemão.

141 ARENDT. Origens do totalitarismo, p.34.

142 ARENDT. Origens do totalitarismo, p.35.

143 ARENDT. Origens do totalitarismo, p.40.

144 ARENDT. Origens do totalitarismo, p.24.

145 Famosa família judaica que se espalhou por toda a Europa, destacando-se mundialmente no ramo bancário. A sua “dinastia”, devido à sua prosperidade financeira, passou a ser vista por muitos como a mais poderosa do mundo. Constantemente era – e, na verdade, ainda é atualmente – um dos principais alvos dos antissemitas.

146 ARENDT. Origens do totalitarismo, p.48.

147 OS protocolos dos sábios de Sião, p.51.

148 ARENDT. Origens do totalitarismo, p.56.

149 ARENDT. Origens do totalitarismo, p.57.

150 OS protocolos dos sábios de Sião, p.74.

151 ARENDT. Origens do totalitarismo, p.57.

152 FORD. O Judeu Internacional, p.279.

153 ARENDT. Origens do totalitarismo, p.58.

154 ARENDT. Origens do totalitarismo, p.60.  


Publicado por: Renilson Martins Jr.

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