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À sombra da bandeira: o nacionalismo e a instabilidade internacional

História

O presente trabalho buscou, a partir de extensa bibliografia existente sobre o tema, investigar os riscos para o sistema internacional quando do uso de narrativas nacionalistas em contextos políticos de grande instabilidade.

índice

1. RESUMO

Este trabalho se propõe a analisar a natureza das manifestações nacionalistas em conjunturas adversas e reflete sobre as razões deste fenômeno político. Para responder à indagação, buscamos amparo nas concepções mais importantes sobre o tema da artificialidade da nação, sua relação com as coletividades humanas e o momento histórico de sua consolidação como paradigma nas relações internacionais. Usaremos como exemplo dois momentos históricos críticos para a compreensão do fenômeno: a Alemanha do entreguerras e a Grécia dos tempos atuais. No decorrer do trabalho, procuraremos refletir sobre a própria essência do ideário de nação, com o fito de encontrar a resposta ao nosso questionamento na constituição da nacionalidade como identidade global.

PALAVRAS-CHAVE: nacionalismo, nação, Grécia, Alemanha.

ABSTRACT

This academic paper proposes an analysis of the nature of nationalist manifestations in adverse situations and a reflection on the reasons for this political phenomenon. To answer this question, we sought shelter in the most important conceptions about the thematic of artificiality of the nation, its relation with human collectivities and the historic moment of its consolidation as a paradigm in international relations. Will be used two critical historical moments as an example for understanding of this phenomenon: interwar Germany and present day Greece. During this paper, we will seek to reflect on the very essence of the ideology of nation, with the intent of finding the answer to our questioning in the constitution of nationality as a global identity.

KEYWORDS: nationalism, nation, Greece, Germany.

2. Introdução

O presente trabalho buscou, a partir de extensa bibliografia existente sobre o tema, investigar os riscos para o sistema internacional quando do uso de narrativas nacionalistas em contextos políticos de grande instabilidade. A pesquisa foi feita utilizando-se de dois casos históricos com características típicas: o período pós-Primeira Guerra Mundial, na Alemanha, e a situação atual na Grécia. Nos dois casos observou-se uma intensa mobilização política em torno da questão nacionalista como possível solução para os problemas enfrentados, utilizando-se de retórica mítica1 acerca do passado comum e do futuro ideal pretendido. A “questão nacionalista” é um objeto de estudo com largos antecedentes, tendo sido trabalhada por autores como Eric Hobsbawm, Benedict Anderson e Anthony D. Smith2.

O tema se insere dentro da perspectiva de que o fenômeno analisado é um produto cíclico da construção histórica das nações modernas; sua importância deriva não somente do ponto de vista das instituições humanas e seus riscos quando levadas a extremos, mas também de sua atualidade, dado que o continente europeu sofre com uma grave crise econômica e de identidade, abrindo espaço para partidos e grupos nacionalistas que pululam no cenário político europeu e ganham força eleitoral em países com instituições historicamente estabelecidas. O momento é particularmente propício para a análise do tema, pois que neste ano registra-se o centenário do início da I Guerra Mundial, evento que resultou no aparecimento de uma das formas políticas mais obscuras do século XX, o Nazismo alemão.

O título escolhido para o trabalho “À sombra da bandeira” sugere o encobrimento da realidade artificial dentro da qual o nacionalismo atua, de forma aparentemente benigna, assentado em uma aparência de lealdade e patriotismo, simbolizados pela bandeira. Consideramos, assim, e procuraremos explicitar no corpo do estudo, que o nacionalismo é uma força política que está “à sombra”, escondida, e manifesta-se oportunamente nas conjunturas de fragilidade. No primeiro capítulo, portanto, buscaremos apresentar as concepções essenciais para o entendimento do paradigma do nacionalismo e suas formas de inserção na realidade histórica das relações internacionais. Daí em diante, no segundo capítulo, elaboraremos uma análise sobre casos concretos, com similitudes e diferenças marcadas, seguindo um percurso histórico de quase um século da primeira manifestação estudada à segunda, situada temporalmente nos dias atuais.

Este segundo capítulo cuidará de, não somente, servir como um desfile de fatos históricos, mas de realizar um cruzamento entre o estudo apresentado no capítulo anterior e a realidade histórica dos nacionalismos escolhidos para serem estudados. A ideia central do trabalho tomará corpo e tornar-se-á visível quando coligidos os fatos e acentuadas as características presentes nos dois casos, isto é, centraremos a discussão no aspecto do fortalecimento do ideário nacionalista quando encontrado numa conjuntura de incerteza; o viés da fragilidade como terreno propiciador do acirramento dos nacionalismos, como um corpo adormecido que subitamente desperta.

O fato de termos escolhido estes dois casos, da Alemanha nazista e da Grécia nos momentos atuais, deve-se, claramente, ao reconhecimento do caráter extremado de suas manifestações, resultado da realidade do sistema internacional quando de seus aparecimentos. O termo “extremo”, como será apresentado em momento posterior, é usualmente atribuído ao nacionalismo quando se trata das tentativas do estabelecimento do nacionalismo como um elemento exótico na realidade das relações internacionais. Na contramão disto, buscaremos demonstrar, pelo uso instrumental destes casos (estes, sim) extremos, que o nacionalismo traz, em sua própria constituição como ideário, o risco permanente do aparecimento de seu caráter violento e inflexível, mascarado por uma horizontalidade nas relações econômicas, comerciais e culturais na história.

Essa atmosfera de calmaria e aparente normalidade serve ao encobrimento das possibilidades que a identidade nacional encerra3. Mas quando reunidas as características conjunturais de fragilidade do grupo, numa paisagem moral vacilante, o edifício ideológico nacional então revela sua face crua. Isto é potencializado quando, combinada a esta circunstância, estiver uma cultura nacional que contém em seu cerne alguns componentes explosivos, o que consideramos ser o caso das duas sobre as quais iremos nos debruçar.

Tentaremos, portanto, responder ao longo deste trabalho à pergunta: comporta a nação o caráter nocivo das manifestações nacionalistas como forma natural de manifestação cíclica?

3. Capítulo I: Nacionalismo e suas bases históricas

3.1 Elementos originários (exegética conceitual)

O nacionalismo, como manifestação histórico-política, só pode ser apreendido dentro da perspectiva de sua multiplicidade absoluta. Não há termos capazes de enquadrar o nacionalismo em uma análise totalmente homogênea. Todo seu hermetismo e capacidade de ser encontrado em variados tempos históricos (desde sua concepção ativa, datada do século XVIII4) provêm deste dado fundamental e irrevogável: o nacionalismo é, antes de tudo, uma forma cambiante, modular e assimilável dentro de esquemas de identidade prévia ao seu surgimento, e emerge justamente pela instrumentalização retórica de traços distintivos pertencentes a qualquer grupo histórico.

Nossa análise parte desse pressuposto essencial para descrever algumas características inerentes ao nacionalismo e suas expressões diversas. Existem alguns aspectos, no entanto, que devem ser destarte apresentados para a compreensão global do fenômeno. Aqui neste tópico, portanto, procuraremos lançar luz às características basilares de sua interação histórica com os grupos pelos quais foi posto em marcha. Tentaremos reunir, neste debate, as condições para o alcance do reconhecimento dos fundamentos necessários à entrada da exposição de sua face artificiosa e sua poderosa influência nas formas de organização política em âmbito doméstico e mundial.

Quando investigadas as origens do nacionalismo, é possível identificar na história das realizações humanas e no desenvolvimento das doutrinas políticas registros de formas primárias de seus caracteres distintos (sempre como manifestações diversas que impossibilitariam a atribuição do termo à maneira em que concebemos5) nas sociedades mais antigas, como a Grécia6. Eventualmente, esses traços tênues (quando comparados às formas nacionais atuais) foram capazes de conjugar forças contrárias, embora enquadradas dentro uma mesma realidade cultural, com objetivo de combater inimigos externos em prol de sua conservação (novamente, o exemplo da Grécia pode ser utilizado).

Alguns autores modernos, entre os quais, em favor desta asserção, destaca-se Ernest Gellner7, admitem o próprio surgimento da nação como uma consequência das manifestações nacionalistas. A nação se torna, portanto, a instituição objetiva do ideal nacionalista: sua materialização territorial, política e histórica dentro de uma comunidade política que aspire aos mesmos ideais, o que hoje existe na forma do Estado territorial. Há, no entanto, uma clara separação entre Nação e Estado como pressuposto para entender como o nacionalismo existe à maneira de um organismo invisível e incipiente8 antes do estabelecimento das nações nos moldes pós-Westfália.

O Estado tem forma nas instituições públicas e detém a exclusividade da coerção; a nação é uma comunidade política formada por indivíduos com identidades históricas semelhantes ligadas a uma “terra natal” (SMITH, 1991). É possível encontrar, dentro de um mesmo Estado, distinções nacionalistas marcadas, e somente apaziguadas pelo ideal comum de soberania e legitimidade, que podem ser desafiadas por irrupções de comunidades étnicas dentro de suas fronteiras.

Sobre a “terra natal” referida acima cabe uma definição mais detalhada, pois exerce papel preponderante na transmissão cultural do nacionalismo. A “terra natal”, que doravante chamaremos Homeland9, é um elemento essencial na ideia de nação: essa é a marcante forma de ligação de um grupo nacional a um território histórico. Não qualquer território; aquele específico, ao qual estão ligadas as narrativas primordiais; onde os antepassados de uma nação viveram e imprimiram sua personalidade única. Onde povo e território exercem influência mútua. A própria geografia do local terá importância neste enunciado: os rios, montanhas e vales tornam-se locais “sagrados”. E somente acessível o sentimento de pertença àqueles herdeiros do tesouro imaterial da nação (SMITH, 1991).

As diferenças das comunidades étnicas citadas e das nações cívicas estão marcadamente na origem do sentimento nacionalista. Enquanto as comunidades étnicas consideram que o laço que os prende é originado de uma raiz genealógica inseparável (conceito alimentado por uma intelligentsia10 e reforçado por estudos filológicos, primordialmente) as nações fundadas sobre o princípio da pátria atribuem ao território e à unidade de ideais políticos sua legitimidade. As duas, no entanto, estão presentes em variados graus de visibilidade em todas as formas de nacionalismo - embora as chamadas nações étnicas possam ser encontradas com muito mais facilidade em países do leste europeu e Ásia, seus traços fundamentais (centralizados nos aspectos hereditários e vernáculos) também puderam ser identificadas em manifestações nacionais ocidentais (SMITH, 1991).

As duas formas podem divergir em sua atenção dada à origem do sentimento de comunhão de valores, porém ambas contêm também elementos em comum, quais sejam: a ideia de um território natural a partir de onde seus indivíduos e histórias extraem seus traços únicos; uma transmissão de valores culturais através da educação de massa; a devoção aos símbolos nacionais; e uma ideia centralizadora de unidade.

Esta última, a ideia de unidade, junto à autonomia, são características dominantes na acepção do nacionalismo, e seus predicados são originados no fundamento de um de seus objetivos, isto é, o de preencher a necessidade de self11 em âmbito coletivo. Esta característica foi certamente acentuada e, pode-se dizer, proveniente de seu momento histórico de aparição. O movimento histórico condutor das características inerentes ao nacionalismo, o Iluminismo, trazia em si a ideia de autonomia moral dos indivíduos, pensamento que foi expressamente alargado para a esfera coletiva, assentando as bases filosóficas para o aparecimento do nacionalismo como força política no século XVIII, como afirma Smith:

[...] with Kant autonomy becomes an ethical imperative for the individual, a principle of his being, not just a political ideal to be invoked at times of danger. Applied by Fichte, Schlegel and the other German Romantics to groups rather than individuals, the ideal of autonomy gave rise to a philosophy of national self-determination and collective struggle to realize the authentic national will – in a state of one’s own (SMITH, 1991, p.76)12.

Finalmente, registrando-se todo o exposto neste tópico, consideremos a maleabilidade do nacionalismo como seu atributo categórico. Neste caso, a nação servirá como um repositório, relicário para as narrativas coletivas alimentadas pela necessidade de reconhecimento, resultando num organismo cuja forma, apesar de conter alguns elementos comuns, terá sempre uma configuração singular.

3.2 Nacionalismo e Tempo

Após atestarmos os dados principais da ideia de nação, e, por conseguinte, do nacionalismo, faz-se mister procurarmos situar as concepções já trabalhadas sobre o tema dentro dos grandes processos históricos que levaram à sua consolidação e demonstrar porque as nações tornaram-se um centro representativo de realidade13 através do qual se concebe a ontologia dos grupos humanos diante do tempo; a forma dominante a partir da qual nos conectamos a ele. Uma parte essencial desta busca se dará dentro do campo especulativo dessa categoria. Em seu Ser e Tempo, Martin Heidegger sugere que, ao contrário do que os cânones gregos afirmavam, a consciência humana opera sempre num incessante projetar-se adiante no tempo (HEIDEGGER, 1927), e a categoria espaço, portanto, teria função secundária na apreensão da realidade. Algo essencial desta afirmação estará presente em nossa crítica acerca da formulação das nações e de seus pretensos papéis históricos.

Existe uma correlação perceptível entre o pensamento nacionalista e os grandes sistemas culturais que o precederam. O maior deles sendo a comunidade religiosa. A ideia não é de tentar estabelecer um processo de sucessão, como se as nações houvessem substituído as religiões. No entanto, é necessário apresentar, através da oposição aos sistemas culturais predecessores e seus aspectos de decomposição, a noção do fluxo temporal que levou à instalação do nacionalismo como uma representação universalmente aceita (ANDERSON, 1983).

O caráter universalista dos nacionalismos é um aspecto crucial para entendermos seu fortalecimento como processo histórico. Sua margem de aceitação provém de fatores que podem ser associados a uma aproximação das narrativas cosmogônicas14 religiosas, ou seja, a apreensão do tempo como elemento fundador. A nação comporta em seu cerne uma ideia muito cara à tradição religiosa: a noção do homem-no-cosmos. Aqui, a percepção de continuidade representa um valor elementar do sentimento de nação: a nação como elo entre o já vivido (neste caso, vivido em conjunto) e o porvir (entre os indivíduos que ainda não nasceram). Da mesma maneira que a religião, o nacionalismo trata estreitamente do tema da mortalidade do homem. Assim, apesar de os estados serem “novos” 15, as nações presumem-se históricas, originais, e buscam avançar em direção ao futuro. As religiões, que tiveram sua imensa influência reduzida durante os séculos XVII e XVIII, cuidavam de elaborar respostas às aflições do ser humano (coisa que as ideologias não se ocuparam), e, por isso, a forma de continuidade proposta pelo nacionalismo teve grande acolhida (ANDERSON, 1983).

O ser do nacionalismo, ao modo Heideggeriano, está em pretensa formulação, projeção adiante; como coisa em construção. O que combina vividamente com a proposição de que a nação é um produto histórico de uma miríade de traços específicos da unicidade de um povo em constante processo de autodeterminação: e a autodeterminação é um objetivo fundamental do nacionalismo. Assim, o nacionalismo combina sua característica assimilativa de qualidades coletivas em um discurso de representação da realidade em realização contínua. Isto irá aliar-se à mudança de fluxo de percepção temporal resultando numa forma de finalismo persistente.

É importante, portanto, chegarmos à compreensão de como se deu essa passagem de valores primordiais, da religião à nação, sob a forma de uma nova concepção temporal. Ressalte-se, no entanto, novamente a capacidade do ideário da nação conviver em comunhão com quaisquer outros componentes do self coletivo, como ideologias e, mais precisamente para a discussão deste tópico, as religiões. É dizer: as nações não substituíram as religiões. Mesmo porque, como já observado, não precisaria, visto que o nacionalismo adapta-se ao panorama das ideologias regionais (ANDERSON, 1983).

Enquanto que os grandes sistemas culturais que antecederam o nacionalismo operavam na superfície, numa esfera mais sutil uma enorme mudança na maneira de apreender como o tempo era processado contribuiu grandemente para a afirmação do nacionalismo. Podemos tomar como ponto inicial o câmbio na noção de simultaneidade partindo da idade Média até os séculos XVIII e XIX (ANDERSON, 1983). As representações da realidade conhecidas na Idade Média eram predominantemente visuais e auditivas, e, quando vistas pelos seus aspectos temporais, revelam a realidade em um estado temporal-representativo diferente e difícil de conceber aos viventes dos séculos posteriores.

Tomemos, por exemplo, os quadros que representavam temas religiosos específicos, como os pastores que presenciaram o nascimento de Jesus. Nestes quadros, que eram formas de comunicação que cruzavam do cósmico ao mundano, as figuras têm sempre características que poderiam ser consideradas erroneamente como “modernas”. Os pastores não usam roupas do século I, mas da época em que foram representadas. Essa transposição denotava a maneira como as pessoas viam-se a si mesmas. Enquanto que o latim era a língua que o clero usava para conectar a realidade divina à terrena, nas camadas analfabetas a cristandade revelava sua forma diversa. O pensamento medieval não via a separação entre passado e presente como uma cadeia de causa e efeito, pois o tempo só era entendido quando conectado a Deus. O passado e o presente estão verticalmente ligados à deidade; a simultaneidade do passado e do futuro é um presente instantâneo. Por isso, cria-se sempre que o presente era o fim dos tempos (ANDERSON, 1983). Continua Anderson:

Nuestra propia concepción de la simultaneidad se ha venido forjando durante largo tiempo, y su surgimiento está ciertamente conectado, en formas que no se han estudiado bien todavía, con el desarrollo de las ciencias seculares. Pero es una concepción de importancia tan fundamental que, si no la tomamos debidamente en cuenta, encontraremos dificultades para explorar la génesis oscura del nacionalismo.16 (ANDERSON, 1983, p. 46.

A propósito da nossa simultaneidade, pode-se afirmar que duas formas de imaginação que despontaram entre os séculos XVII e XVIII contribuíram consideravelmente para seu estabelecimento: a ficção romanesca e a imprensa escrita. No caso da novelística existe uma técnica de compressão e simultaneidade temporal, já frutos dessa nova simultaneidade – segundo Walter Benjamin (BENJAMIN, 1955), homogênea, vazia –, capaz de alterar a compreensão de tempo. A estrutura típica das obras dos maiores romancistas da época induz o leitor de uma novela a adotar a temporalidade das ações executadas igualmente num espaço territorial delimitado pela trama, alimentando poderosamente o câmbio na concepção temporal que operava na mente dos indivíduos. Estas narrativas delimitam o espaço e condicionam o leitor a criar empatia com os atores inseridos numa realidade espacial determinada pelo autor, da mesma maneira que um organismo sociológico nacional, em que uma pessoa, sem saber o que outro anônimo faz, concebe sua ação simultânea como um movimento sólido (ANDERSON, 1983).

Da mesma forma, o periodismo teve participação decisiva na mudança da concepção de simultaneidade. Desde o final do século XV, as publicações periódicas tomaram um vulto tal que podem ser consideradas como o primeiro produto industrial produzido em massa. Mas o principal reside no seu caráter de simultaneidade e obsolescência, isto é, o jornal tem prazo de uso curto, mas poderoso: o leitor de jornal tem a consciência da simultaneidade de sua ação junto a milhares ou milhões de pessoas ao mesmo tempo cuja personalidade desconhece. A informação circula continuamente criando, pois, a confiança da comunidade no anonimato (ANDERSON, 1983).

Admitimos, assim, a mudança nas estruturas temporais, fruto de processos históricos como o Iluminismo, e os adventos da criação imaginativa como vastas contribuições ao fortalecimento das narrativas nacionalistas. Toda esta lenta cadeia de eventos ajudou a transformar a consciência temporal religiosa em uma nova forma de conceber o tempo, porém o nacionalismo, herdeiro do Iluminismo e do racionalismo secular, tornou-se ele mesmo uma forma de obscurantismo moderno17.

3.3 Artificialismo e trivialidade

Neste tópico do trabalho, em que trataremos da artificialidade18 do conceito de nacionalismo, procuraremos demonstrar, através da utilização metodológica de fundamentos contidos nas obras de Hobsbawm (“Nações e Nacionalismos desde 1780”), Benedict Anderson (“Comunidades Imaginadas”) e Michael Billig (“Banal Nationalism”), como o sentimento nacionalista foi forjado no decorrer de alguns séculos até tornar-se o que é hoje: uma força política poderosa, capaz de atingir em cada indivíduo um nervo primal19, e captar, em favor de algum objetivo político advertido como legítimo e inconteste, sua aceitação ou participação ativa. Para além do que o senso comum é capaz de apreender, é necessário o entendimento de que o nacionalismo pode ser visto não apenas em conflitos periféricos de grupos que anseiam tornarem-se nações constituídas, mas o nacionalismo é parte inerente da realidade cotidiana mundial, e os países centrais são, frequentemente, aqueles que mais se utilizam da retórica nacionalista para seus usos. O nacionalismo é um falseamento da realidade20, presente em todos os países e legitimadora mesma destes. Trataremos com maior profundidade da “invisibilidade” do nacionalismo em países centrais mais adiante.

Por que classificamos como artificial um sentimento não somente presente na vida dos povos, mas que estaria conectado com um passado, pretensamente comum, a um grande grupo de indivíduos, colocando-os em uma estatura temporal compartilhada? Isto é, como tentar vincular ao nacionalismo o status de construto histórico, visto que este sentimento está tão incorporado ao tecido social que não concebemos (não sem esforço) sua estruturação sem este laço invisível que legitima a identificação de um indivíduo, dos níveis subterrâneos de pertença aos dados cotidianos mais simples (como a tributação), a um organismo coletivo? A análise do caráter de artificialidade contido nas origens do nacionalismo é um esforço que certamente poderá esclarecer e apontar as deficiências e, ulteriormente, a inexistência de um conceito definido de nacionalismo.

Usualmente, concebemos os elementos constitutivos de uma nação como a combinação de uma língua comum, aceita em um território delimitado por fronteiras rigidamente fixadas, e assentadas em um governo formal. Estes valores simples podem (quando cuidadosamente medidos em suas particularidades regionais) ser refutados com fartas bases históricas. Segundo Hobsbawm:

As tentativas de se estabelecerem critérios objetivos sobre a existência de nacionalidade, ou de explicar porque certos grupos se tornaram ‘nações’ e outros não, frequentemente foram feitas com base em critérios simples como a língua ou a etnia ou em uma combinação de critérios como a língua, o território comum, a história comum, os traços culturais comuns e outros mais. Todas as definições objetivas falharam pela óbvia razão de que, dado que apenas alguns membros da ampla categoria de entidades que se ajustam a tais definições podem, em qualquer tempo, ser descritos como nações, sempre é possível descobrir exceções (HOBSBAWM, 1990, p.15).

O próprio autor, ao iniciar o tratamento particular de cada um dos elementos acima mencionados, e as confusões conceituais associadas a estes (marcadamente nos séculos XVIII e XIX), o faz a partir de recortes da época, quando, dispersamente, o tema da unidade do conceito de nação é debatido e instrumentalizado em diferentes partes do continente europeu - em cada um com enfoque em diferentes aspectos - ficando bastante nítida a dificuldade em formar um marco que distinga claramente o que constitui uma nação. O reconhecimento, ou não, da língua comum como característica intrínseca; uma clareza no termo “povo”; a unidade étnica como princípio? Verifica-se, mesmo, que, apesar de a discussão conceitual ter sido tomada como realidade política pós-Westfália, somente, grosso modo, durante o terceiro decênio do século XIX (período que o autor denomina “Era das Revoluções”) é que o termo nacionalismo tomou um caráter político-retórico: sob o nome de “princípio da nacionalidade” (HOBSBAWM, 1990).

Ao comentar sua residência na Espanha, após ter-se pública e espontaneamente exilado de Portugal, José Saramago comenta o que para ele representa a nação:

Yo tengo mi patria. Esto a que llamamos patria. Es que yo creo que la patria no existe. Lo que existe es un deseo de patria. Esto es lo que nosotros tenemos: un deseo de patria. Pero, después… la patria, que es la patria? Todos? No pueden ser todos. [..] Sobre todo lo que tú tienes es eso: esa memoria de lugares, de horas, de momentos, de caras, de miradas, de afectos. Esto es lo que te, más o menos, liga a un tiempo que es el tuyo y a un lugar donde has vivido (informação verbal).21

Apesar da falibilidade no uso da concepção, em geral reputa-se à nação (através de uma retórica encoberta nas notícias diárias, nas manifestações silenciosas de patriotismo e no ensino escolar de massa) uma posição privilegiada na história das coletividades humanas, algo como um desnovelo natural de instituições arcaicas e flutuantes sentimentos de pertença em direção à forma fundamental de identificação coletiva possível22. Mas, ao contrário dessa asserção, comodamente tomada de um platonismo volitivo, uma das características mais visíveis da nação é sua modernidade. Diante disso, é possível afirmar que as nações, em seu processo de afirmação histórica, tomaram para si elementos históricos preexistentes, e, assim, imprimiram uma falsa identidade teleológica, como se a nação fosse o produto final previsto de uma cadeia de eventos anteriores – o que constituiria uma inversão. Para Renan (1882)23, inclusive, “o erro histórico é parte da formação de uma nação”. A fragilidade da afirmação de que uma nação é um elemento a posteriori ainda pode ser apontada na dimensão que cada manifestação de nação comporta seus próprios componentes singulares de realização material; sendo, portanto, qualquer nacionalidade considerável como elemento sui generis, irreproduzível, por assim dizer, em quaisquer outras circunstâncias (ANDERSON, 1983). Sobre o assunto discutido, assim resumiu Anderson (1983, p. 29): “A magia do nacionalismo é a conversão do azar em destino”.

A questão do surgimento das nações está inserida em um contexto histórico de profunda transição tecnológica e política; elas existem, assim, como a materialização do estado territorial como agenda administrativa, respondendo a problemas da ordem da escolarização e da difusão da informação em massa (HOBSBAWM, 1990): a imprensa deu seus primeiros e decididos passos da metade do século XVI para o XVII (algo já tratado no tópico anterior: Nacionalismo e Tempo).

Alguns questionamentos, abordados por Benedict Anderson (ANDERSON et al., 1983) como paradoxos, ajudam a apontar o caráter superficial da teorização das nações e do nacionalismo como fenômenos sociais bem acabados, quais sejam: o primeiro se refere à dissonância entre o uso retórico da existência das nações (e, por conseguinte, do nacionalismo) como algo subjetivamente antigo – narrativas incrustadas nas primeiras realizações coletivas de um determinado grupo social -, quando comparado com o tratamento dado pelos historiadores: a novidade objetiva do aparecimento das nações como produto histórico de uma amálgama de fatores conjunturais e estruturais. O segundo diz respeito à ideia de que todo indivíduo deve possuir uma identidade nacional, como se não houvesse diferenças na forma de manifestação desta. E, por fim, o fato de que o nacionalismo nunca conseguiu firmar-se como uma teoria aceitável dentro de padrões mínimos de comparação; e, portanto, o fato de que não há nenhum grande teórico capaz de ser identificado com o pensamento nacionalista. Não há, em favor do nacionalismo, nenhuma obra lapidar.

Logo, é sintomático o que escreve Tom Nairn24, estudioso identificado com o pensamento nacionalista:

El ‘nacionalismo’ es la patología de la historia moderna del desarrollo, tan inevitable como la ‘neurosis’ en el individuo, con la misma ambigüedad esencial que ésta, una capacidad semejante intrínseca para llevar a la demencia arraigada en los dilemas de la impotencia que afectan a la mayor parte del mundo (el equivalente del infantilismo para las sociedades), y en gran medida incurable.25 (1977 apud ANDERSON, 1983, p.22)

Em sua obra “Banal Nationalism”, Michael Billig aponta um olhar minucioso às manifestações nacionalistas triviais. Ao contrário do que se propaga comumente, as formas mais visíveis (e, ao mesmo tempo, pouco perceptíveis) de nacionalismo são aquelas presentes em nossa vida diária, porém encobertas por uma espécie de manto de invisibilidade. O nacionalismo não é apenas um produto social de grupos que desejam tornarem-se nações; não é somente um sentimento irracional exercido por uma vontade de legitimidade.

Quando se fala dos movimentos nacionalistas, sejam eles em países do leste europeu ou na Espanha ou na França, sempre são sublinhados termos como “extremo”, deixando omissa não só a artificialidade das nações em geral (como “comunidades imaginadas”, segundo brilhantemente descreveu Anderson), mas, principalmente, negando a realidade dos “nossos” nacionalismos. Quando falamos dos “nossos” nacionalismos suavizamos e encobrimos sua existência com eufemismos lisonjeiros como “lealdade” e “patriotismo”. Projeta-se, em geral, o nacionalismo nos outros, à forma de um sentimento alheio à realidade cotidiana global.

Por isso, nosso estudo, neste momento, irá se concentrar na “banalidade” dos nacionalismos nossos de cada dia. Este reconhecimento é importante em nossa análise pelo fato de que os nacionalismos dos quais iremos falar adiante foram produtos de países com fronteiras e signos históricos já estabelecidos. O nacionalismo reativo aparece, portanto, como efeito da doutrinação banal a que são submetidos os indivíduos de uma ordem nacional qualquer. Mas, por ora, nos concentraremos na análise da aparência invisível do nacionalismo, sob os auspícios do estudo de Billig.

Seguindo a definição de Renan, para quem “uma nação é um plebiscito diário” 26, poderemos delinear as razões de não atentarmos à já trabalhada ideia da artificialidade da nação, e expor o conjunto de manifestações penetrantes de convencimento diários.

Nosso primeiro contato com o termo nacionalismo normalmente acontece no ambiente escolar (embora a enorme influência dos códigos nacionalistas já esteja presente de maneira indiscriminada na vida social inicial de qualquer indivíduo) quando nos é apresentado o estudo da sociologia. O nacionalismo então aparece como aquela forma política exótica, enquadrada em realidades sociais distantes e tipificada de modo passageiro. Ao mesmo tempo, classifica-se a sociologia como o estudo das sociedades; e as sociedades, por sua vez, são descritas de maneira a ressaltar a ligação do indivíduo a um território, um certo senso de valores comuns e uma língua nacional (BILLIG, 1995). Certamente podemos relacionar essa descrição banal ao conhecimento já adquirido sobre o que é uma nação. A reflexão do que é a sociedade fica relegada ao senso comum, e, por isso, injeta os valores da nação dentro de uma categoria inatingível. O sociólogo Norbert Elias descreve o contexto da seguinte maneira:

Many twentieth century sociologists, when speaking of ‘society’, no longer have in mind (as did their predecessor) a ‘bourgeois society’ or a ‘human society’ beyond the state, but increasingly the somewhat diluted image of a nation-state (ELIAS, 1978, p. 241).27

Como consequência, a nação participa, sem qualquer escrutínio, como organizador e representação da realidade da vida social humana.

Da mesma maneira que o discurso comporta um forte teor ideológico, os símbolos diários de nacionalismo reforçam sua absorção despercebida. Podemos entender com alguma reserva o uso de códigos ostensivos como a devoção ao hino, museus, desfiles e mesmo a representatividade da moeda nacional, mas aqueles que representam de forma mais penetrante são aqueles apreendidos de maneira pouco consciente. Quando avistamos uma bandeira assomar no horizonte, no alto de um edifício qualquer, não relacionamos o signo a uma manifestação nacionalista de “demarcação de território subjetivo”. Nem quando, fastidiosamente, é cantado o hino nacional antes de algum evento esportivo, porém essas formas “furtivas” comportam um teor nacionalista poderoso e propiciam uma dialética de lembrança e esquecimento constitutivos na vida moderna (BILLIG, 1995).

Esse processo ao qual nos referimos toma forma em qualquer atividade diária. As atividades sociais, conquanto não sejam experimentadas dessa maneira, são atos de lembrança contínuos. Estão simultaneamente presentes e ausentes. Sua função é a de preservar a memória coletiva, o hábito, sem a lembrança consciente do símbolo contido no ato. Essa nuance da vida social é tratada desta maneira por Pierre Bourdieu: “The habitus – embodied history, internalized as a second nature and so forgotten as history is the active presence of the whole past of which it is the product” (BOURDIEU, 1990, p.56) 28. Assim, a lembrança da nação tende a aparecer em cada momento da vida cotidiana, como repetição. “The remembering, not being experienced as remembering, is, in effect, forgotten.” (BILLIG, 1995, p.38) 29.

Podemos assinalar, portanto, o quanto o nacionalismo está incorporado na rotina das sociedades mais tradicionais – não somente naquelas que desejam o reconhecimento – e como somos lembrados e feitos esquecer sua realidade de maneira ininterrupta. A tentativa de dissociar o nacionalismo da realidade das nações estabelecidas é de fato um artifício da construção intelectual desta. Geralmente concebemos o patriotismo como a forma branda, inofensiva de demonstrar nosso apreço pela nossa Homeland, mas essa separação é na verdade tão artificial quanto a própria existência subjetiva da nação.

Cuidaremos de demonstrar nos capítulos seguintes o caráter perverso inerente a qualquer forma de nacionalismo quando cotejarmos os aspectos históricos particulares das manifestações nacionalistas na Alemanha nazista e na Grécia atual.

A artificialidade e banalidade (não benigna) da nação, e, portanto, do nacionalismo (“essa forma radicalmente alterada de consciência” 30) está adequadamente colocada em posição para auxiliar-nos na discussão central deste trabalho. Veremos como, quando a identidade nacional parece vacilar em momentos históricos de incerteza quanto ao futuro, a força retórica do nacionalismo como defensor da continuidade aparece em manifestações políticas de radical recusa ao novo.

4. Capítulo II: O nacionalismo nazista (a Alemanha de 1919 a 1939)

4.1 O Caso Alemão

Se houve um momento que podemos tomar como decisivo para a análise da força do nacionalismo como ideal e seu enraizamento categórico, esse momento histórico é o período pós I Guerra Mundial. A partir do final do conflito as bases e ferramentas com as quais os povos haviam se habituado a entender a configuração das territorialidades e os seus papéis na organização política europeia sofreram um decisivo abalo, o qual seria a força mesma que faria encaminhar a desconfiança a um novo conflito.

Se considerarmos que o nacionalismo tem sua face cruenta revelada em momentos de pouca certeza acerca do futuro e de uma frouxidão moral não podemos furtar-nos a descrever, antes de focarmos especificamente na questão do caráter nacionalista alemão, a realidade das relações internacionais do período (causa de seu aparecimento) e apontar em quais medidas o nacionalismo contribuiu para a excitação das forças rivais com seus pressupostos já apresentados no capítulo anterior.

Tomemos como ponto de partida o ano de 1919, em que foram iniciadas as tratativas que deram forma ao Tratado de Versalhes, este decisivo para alimentar as rivalidades já existentes.

Após a derrota alemã (e de seus aliados) na I Guerra Mundial, os países vencedores (não estiveram incluídos os EUA nem a URSS) sentaram para decidir o futuro dos países vencidos, que, ausentes da negociação, esperaram as resoluções propostas pelos vencedores. A França teve, nesse contexto, participação fundamental na tomada de decisões. Estas previam sanções esmagadoras à Alemanha, tanto do ponto de vista militar como territorial, mas, principalmente, moral, pois atribuía à nação derrotada a responsabilidade integral pelo conflito. A França, assim, raivosa e orgulhosamente, deu mostras de força em suas resoluções, e saiu como maior vitoriosa.

De 1919 a 1920, os tratados de Versalhes, Saint-German, Trianon, Neuilly e Sèvres decretaram a ilegalidade da existência de exércitos alemães e estipularam o valor da indenização a ser paga pela Alemanha. Em resposta às imposições a ela atribuídas, a Alemanha tentou anular as decisões, mas teve como resposta a ameaça francesa de reinício do conflito e de dividi-la em duas partes (CERVO, 2001).

Encetavam os franceses, portanto, as condições psicológicas para o aparecimento do sentimento de revanche no povo alemão. Explica Hannah Arendt os motivos para a forma adotada do Tratado de Versalhes:

A inadequação dos Tratados de Paz tem sido frequentemente explicada pelo fato de que os seus autores pertenciam a uma geração formada pelas experiências da era anterior à guerra, e jamais chegaram a compreender inteiramente todo o impacto da guerra cujo armistício tiveram que assinar. A melhor prova disso é a tentativa de resolver o problema da Europa oriental e meridional criando Estados-nações e introduzindo tratados de minorias. (ARENDT, 1989, p. 303)

Presente na delegação britânica durante as negociações, o jovem economista John Maynard Keynes, em seu livro As consequências econômicas da paz (1919), previra a ineficiência e o perigo que as sanções impostas à Alemanha trariam à economia europeia, pois subtrairia a força dinâmica da economia alemã.

Em meio ao turbilhão que o sistema internacional vivia, uma voz propunha um modelo de solução que iria afetar profundamente a consolidação do ideal nacional e também plantaria a semente de muitos movimentos nacionalistas futuros e de então. O à época presidente americano Woodrow Wilson, em seus 14 pontos tentara estabelecer os princípios para a definição de quais critérios poderiam ser tomados para reconhecer-se uma nação. Eram eles, em suma, tentar fazer as fronteiras do Estado coincidirem com as fronteiras da nacionalidade e da língua. Wilson criara, assim, um caminho (materializado pela criação da Sociedade das Nações) que viria a ser adotado por vários países como alternativa à ameaça que a Terceira Internacional produzia31. Mas, como anota Hobsbawm:

A implicação lógica de tentar criar um continente corretamente dividido em Estados territoriais coerentes, cada um habitado por uma população homogênea, separada étnica e linguisticamente, era a expulsão maciça ou a exterminação das minorias (HOBSBAWM, 1990, p.161).

Mas, por ora, nos concentremos nos fatores psicológicos e econômicos conjunturais, deixando os resultados para um momento posterior da análise.

Havia um claro tremor ideológico resultante da guerra, que fizera com que os nacionalismos recrudescessem, assim como as soluções socialistas, comunistas, pacifistas e fascistas aparecessem como opção no incerto cenário ideológico europeu32 (CERVO, 2001). O nacionalismo enquanto identidade coletiva global encontrava-se, então, numa encruzilhada histórica. A economia, em frangalhos após os esforços de guerra terem extraído parte significativa da força de trabalho europeia, desviado todo o foco e abalado as maiores potências europeias, acompanhou e decidiu os movimentos psicológicos do período. Toda a possibilidade de reconstrução econômica capitalista ancorava-se nos EUA, que tornaram-se o centro de toda movimentação financeira mundial, com o dólar sendo a única moeda a manter sua conversibilidade. No ano de 1922, os EUA propuseram um plano para facilitar o pagamento das dívidas alemãs. A França recusou o plano. Ao mesmo tempo, a Alemanha e a URSS reataram as relações diplomáticas, com o perdão recíproco das dívidas e a desistência das reparações de guerra. A França, tomando conhecimento do fato, sentiu-se traída e, alegando atraso no pagamento da dívida alemã, ocupou a região de Ruhr, como garantia do pagamento. Este episódio ajudou a potencializar a antipatia já existente na Alemanha em relação à França.

Em 1924, porém, a história registra um período de distensão alavancado pela conferência realizada em Londres, que devolvera à Alemanha a região tomada pela França e propôs a suavização das dívidas aos EUA. Esse movimento histórico fez com que a Sociedade das Nações voltasse a ter papel importante. No entanto, a Sociedade das Nações falhou em suas resoluções pouco realistas e no pouco valor que deu à conciliação entre os países satisfeitos com as resoluções de Versalhes (Polônia, Tchecoslováquia, Romênia e Iugoslávia) e os revisionistas (Hungria, Bulgária e Itália), além de isolar a URSS e, principalmente para nossa análise centrada na Alemanha, ignorou o nacionalismo alemão insurgente, que denunciava a “escravidão das reparações” (CERVO, 2001). Mas os ajustes econômicos elaborados fizeram com que a economia mundial sofresse um golpe fulminante mais adiante, como resultado da excessiva centralização na economia norte-americana (também denunciada por Keynes).

Com o advento da crise econômica mundial de 1929, todo o processo de reaproximação e revitalização da economia europeia foi bruscamente interrompido e os países mergulharam em uma crise ainda maior. Esse cenário fez com que as soluções nacionalistas potencializassem sua força. Assim, as diretrizes do mercado livre e da competição internacional são substituídas por um feroz protecionismo e nacionalismo econômico. As alternativas radicais ganharam com isso força para apresentarem-se através da propaganda como centralizadoras das frustrações.

O apelo de tal propaganda nacionalista era bem mais eficiente, mesmo entre trabalhadores, à medida que culpava os inimigos, de fora, e os traidores, de dentro, pelo fracasso ou pela fraqueza. E havia bastante fracasso e fraqueza a serem explicados. (HOBSBAWM, 1990, p. 172)

O nacionalismo opera aí, portanto, em seu ponto propiciatório máximo, o terreno ideal para que suas soluções pareçam não só viáveis, mas a resposta fundamental à fragilidade (“em termos dialéticos, o momento negativo é aquele propriamente crítico, antes do restabelecimento de uma nova tese”)33. Não é a fraqueza da nação que resultou na instabilidade, mas a invasão por forças exógenas que contamina a integridade dela, dizem os nacionalistas34. Os indivíduos aceitam suas premissas acreditando estarem voltando à sua identidade mesma. O consolo da pureza das intenções é legitimado pelo esforço em inculcar nos nacionais a certeza de que aqueles, que ora se apresentam como guardiões da solução, estariam respondendo à vocação histórica da nação de alinhar seu caminho em direção ao futuro. Novamente, Hobsbawm observa a força contida na opção nacionalista

[...] mesmo que não se veja o ressurgimento do nacionalismo militante como um mero reflexo do desespero, era simplesmente algo que preenchia a lacuna deixada pelo fracasso, pela impotência, e pela aparente inabilidade de outras ideologias, projetos e programas políticos compreenderem as esperanças dos homens. Era a utopia daqueles que perderam as velhas utopias da época do Iluminismo, o programa dos que perderam a sustentação das velhas certezas políticas e sociais (HOBSBAWM, 1990, p. 173).

A crise situa-se historicamente entre 1929 e 1932. O ano seguinte é decisivo para nossa análise, pois é o ano em que Hitler torna-se chanceler da Alemanha. No ano anterior, 1932, foi realizada mais uma conferência em Londres, que visava tentar substituir as alternativas nacionalistas por soluções internacionais. O evento fracassou clamorosamente. Todas as nações presentes revelaram somente interesses estritamente particulares. Ainda em 1932, foi iniciada a Conferência do Desarmamento, em Genebra, a qual também malogrou. Acentue-se o fato de Hitler ter retirado sua delegação ao considerar o descaso do tema do desarmamento da Alemanha como ponto de partida para o desarmamento geral. Cinco dias depois anunciava o abandono da Sociedade de Nações (CERVO, 2001).

O contexto político-econômico desse período fez com que em diversos países ditaduras assumissem o poder35 e, particularmente, o partido nazista iniciava a implementação de seu projeto nacionalista. As peculiaridades do nacionalismo ao mesmo tempo negam e afirmam a estrutura básica do discurso nacionalista. Isto reforça a noção já apresentada do caráter sui generis de cada manifestação nacionalista. Mas, como queremos afirmar, o nazismo é o reflexo mais bem acabado e abrangente do nacionalismo de seu tempo. E se alimenta dos pormenores históricos conjunturais para basear-se. Daqui em diante iremos focar nos aspectos discursivos elementares do nacionalismo alemão, e buscaremos apontar como fator decisivo a instabilidade política, como força motriz de sua instituição.

Talvez a razão maior de o discurso nazista haver sido tão bem recebido tenha sido o aparecimento do fenômeno do “homem massa”, ou seja, o ressentimento arraigado como razão de participação política de grupos inertes politicamente até então. A novidade do “homem massa” se devia ao crescimento populacional vertiginoso dos últimos 150 anos na Europa e do desemprego em massa. Ao contrário do que consideravam os comunistas à época, as contradições internas inerentes ao partido nazista36 não fariam com que o recebimento de seus pressupostos fosse minimizado pela população alemã, pois o nazismo não trabalhava com o conceito de classe. Assim, o uso do conceito de massa é coerente quando:

[...] lidamos com pessoas que, simplesmente devido ao seu número, ou à sua indiferença, ou a uma mistura de ambos, não se podem integrar numa organização baseada no interesse comum, seja partido político, organização profissional ou sindicato de trabalhadores. Potencialmente, as massas existem em qualquer país e constituem a maioria das pessoas neutras e politicamente indiferentes, que nunca se filiam a um partido e raramente exercem poder de voto. (ARENDT, 1989, p. 361)

Logo, o ambiente de desorientação e desencontro, junto com uma despolitização e um esvaziamento no plano do exercício institucional, alimentado por fortes ressentimentos com traços característicos de cada nação (e, no caso alemão, com o advento da propaganda como nova força de mobilização), resultou num clima propício para o aparecimento de partidos nacionalistas. Os ignorados, portanto, convergiram em direção ao partido que trabalhou melhor o sentimento de frustração corrente. Dentro desse esquema de mobilização, até os intelectuais (como o filósofo Martin Heidegger, citado no capítulo primeiro) concentraram-se na novidade do nazismo, fazendo parte do movimento de massa, e demonstrando que a cultura não pôde ser antídoto para o nazismo. Essa adesão maciça era resposta ao contexto econômico que a precedeu, onde existia uma atomização social e individualização intensa. O partido nazista, portanto, não teve que combater dentro dos velhos moldes de participação política - nem pretendia, pois lidava com pessoas hostis à política tradicional (ARENDT, 1989).

Depois de assumido o poder, então, Hitler (além de extirpar os núcleos possíveis de resistência37) concentrou seus esforços em fazer uso maciço da nova ferramenta que tinha às mãos: a propaganda. Esta foi um dos alicerces do seu regime desde o início. Desde quando escrevera seu Mein Kampf, Hitler já destacara a atenção necessária que deveria ser dada à propaganda como meio para mobilizar as massas. Seus pressupostos partiam da ideia de que as massas tinham um nível de compreensão baixo, e que, portanto, o principal seria criar narrativas fáceis que aglutinassem os inimigos dentro de uma mesma categoria, a fim de não dispersar a atenção do espectador ou ouvinte, criando um mundo maniqueísta facilmente digerível (LENHARO, 1994).

Hitler pôde, tendo a máquina governamental a seu dispor, criar uma cadeia enorme de pontos de convergência de sua cultura em direção a uma estética própria ao regime nazista, capaz de abarcar todas as manifestações nacionais, e de gerar em cada indivíduo um sentimento inédito até então de participação do espetáculo político. O espetáculo como política era uma ideia muito cara a Hitler, que considerava que as duas, a arte e a política, deveriam caminhar lado a lado. Hitler, é notório, tentou sem sucesso a vida de artista e era um apaixonado pela ópera Wagneriana (o próprio Wagner era um convicto apolítico). Concebia que povo e nação juntos possuíam as características passíveis de criar as formas de Estado e artísticas ideais. Aqui, é importante entender que, como afirma Lenharo, “a oferta estetizante que o nazismo trouxe à cena política era familiar a uma visão enraizada na cultura nacional” (LENHARO, 1994, p. 38). Essas manifestações eram entendidas, assim, como mais uma forma de exercitar o propósito ideal da nação: a forma da nação alemã.

Dentro da referida política de espetáculo, havia uma intenção de contato com a ancestralidade do homem histórico alemão, na forma do culto aos mortos, na estetização da morte. No Congresso Anual de Nuremberg, a homenagem atingia seu ápice, com recursos teatrais e a participação ativa da massa presente38. Esse recurso servia, claramente, para reforçar profundamente o sentimento no homem comum de pertença à comunidade alemã, criando, no instante presente, um vínculo entre o passado e o futuro, em que a nação era o fio condutor e motivo principal de sua existência.

As raízes históricas do povo germânico contêm traços característicos que ajudam a explicar a pronta aceitação que a ideologia nacionalista recebeu. Segundo Lenharo, essa explicação teria origem nos “problemas que já vinham de muito antes: a tradição autoritária prussiana, o nacionalismo exacerbado e o racismo”. (LENHARO, 1994, p. 11). A personalidade disciplinada do povo germânico, egressa da cultura prussiana, conferia uma altivez desmedida aos supostos desígnios históricos alemães. Isso irá desembocar numa questão central sobre o nacionalismo do qual tratamos: a ideia de “espaço vital”.

A já trabalhada noção de que a nação atribui ao território importância fulcral encontra aqui sua realização histórica exemplar. Hitler, que, podemos afirmar, era um wilsoniano lógico39, desde o início de sua escalada ao poder, já assinalava a necessidade de aumentar o espaço de convívio da Alemanha para atingir seus objetivos políticos40. Assim foi que, de 1938 a 1939, vertiginosamente, a Alemanha começou a anexar as regiões que considerava pertencentes ao povo germânico: Áustria, Hungria, Romênia, Polônia e, finalmente, a região tcheca dos Sudetos foram anexadas e incorporadas à pátria alemã, à qual alegadamente já pertenciam.

Internamente, Hitler organizava ao seu modo as mentes do povo alemão, atribuindo aos inimigos do regime a culpa por toda sorte de adversidade vivida pelo país nos últimos anos. Os judeus, notadamente, foram as maiores vítimas, e sofreram desde o início com a propaganda massiva (no cinema, principalmente) que atribuía a eles a degeneração da raça ariana, como concebia Hitler. Além dos judeus, outros grupos, como os ciganos, os homossexuais, os adversários políticos, eslavos, doentes incuráveis e os doentes mentais foram culpabilizados, e, posteriormente, enviados a campos de concentração, onde sofreram as maiores perversidades da vida política do século passado.

O conceito de raça, como entendida pelo partido nazista, é um aspecto que se conecta à perspectiva apresentada no primeiro capítulo de nosso trabalho, que tratou das formas de nação. Seria, assim, uma aproximação da nação hereditária. Mas a raciologia constituiu-se numa pseudo ciência importante para apresentar a alegada superioridade ariana, que legitimaria todos os movimentos em direção à obtenção do “espaço vital”, da eliminação dos judeus e dos objetivos históricos alemães primordiais. Sobre a ideia de superioridade racial (difundida com proeminência nos meios acadêmicos, no século XIX41) e a política de extermínio nazista, defendida como forma de eliminação de uma raça tida como inferior, o antropólogo Claude Lévi Strauss sustenta que:

[...] é na própria medida em que pretendemos estabelecer uma discriminação entre as culturas e os costumes, que nos identificamos mais completamente com aqueles que tentamos negar. (STRAUSS, 1952, p. 22)

O expediente da retórica racial veio acompanhado de uma profunda mitificação do indivíduo germânico, em todas as esferas da vida social. Desde a arquitetura, que formaria o cenário material da superioridade ariana, nas construções grandiloquentes que formavam o padrão estético arquitetônico nazista; ao cinema, que projetava no homem comum os valores tradicionais da moral germânica, de bravura e disciplina; à formação dos contingentes doutrinados que integrariam as SS; ao papel escolhido para a mulher, de detentora e guardiã da raça, exercendo o papel de propagadora biológica, acentuando sua ligação vital com a terra, na forma de quadros dessexualizados com motivos rurais; à glorificação moral da vida rural, imputando ao homem rural (ao invés de ao operário, já identificado com a ideologia comunista) o papel de “reserva moral alemã, seu elemento sadio e agregador” 42 (LENHARO, 1994), em todos esses nichos da vida social alemã o nazismo cuidou de exercer sua própria leitura.

Apresentada toda essa gama de mitos, inseridos num contexto de euforia pela vivificação da economia alemã e num governo com alcance de ordem totalitário, estavam acertadas as bases para que os inimigos da nação alemã fossem exterminados43. Esse viés, importantíssimo, e riquíssimo em substrato para o trabalho acadêmico, do totalitarismo44 enquanto forma política, inaugurada pela Alemanha nazista e pelo regime comunista soviético de Stálin, perpassa toda a compreensão do fenômeno nacionalista nazista, dado que incorpora e dá forma a todas as atribuições dadas ao nacionalismo dentro de um esquema de concentração ideológica e realização total dos desideratos pretendidos pela nação.

Essa noção é a característica histórica mais acentuada de tentativa de projeto nacionalista, a qual se alimentou da conturbada relação político-ideológica do período pós Primeira Guerra e anterior à Segunda Guerra Mundial, revelando a potencialidade da nação para o desequilíbrio de seus elementos em direção à exacerbação. Portanto, o clima de instabilidade, o revanchismo, o surgimento das massas, da propaganda e a convivência histórica de ideologias conflitantes resultaram nessa força nacionalista imperiosa. A história, entretanto, registrou poucas menções proeminentes à nação como causadora primária de tamanho desequilíbrio. E o ciclo contínuo dos acirramentos nacionais não ficou restrito a esse momento histórico.

5. Capítulo III: O “Aurora Dourada” (O nacionalismo grego no século XXI)

5.1 O Caso Grego

O nacionalismo no século XX seguiu, então, sendo identificado como um fenômeno exótico, trazido à tona apenas em questões que diziam respeito a limites fronteiriços e demandas por reconhecimento internacional. No entanto, a relativa bonança que o capitalismo viveu, inclusive enquanto combatia o modelo comunista soviético, encobriu parte significativa dos sinais presentes em nações que começaram a experimentar o fenômeno da globalização, e a horizontalidade decorrente da abertura das economias. O modelo que a Europa decidiu adotar, de união das nações em torno de uma supra identidade, capaz de harmonizar as virtudes econômicas dos maiores centros da região com um plano de estruturação das menores economias, visando rivalizar com os EUA em termos de ampliação de mercados, trazia consigo um enorme risco quando confrontado com uma instabilidade econômica geral, encarada como uma impossibilidade diante da enorme capacidade econômica do continente.

Mas, ao contrário do que indicava o cenário amplo da economia, a tal crise chegou, e com força. As razões de sua chegada devem ser examinadas diretamente na fonte do sistema capitalista, os EUA. O espraiamento das consequências foi imediato, atingindo de forma certeira significativa parte dos países que estavam sendo “preparados“ pela União Europeia para atingir uma maturidade do exercício capitalista nos esquemas de participação regional.

A Grécia, que falhou em realizar as transformações estruturais necessárias para garantir sua capacidade de se manter equilibrada em uma situação catastrófica, como a que se apresentou, viu-se diante de um enorme problema: enquanto que, a nível regional, seu futuro era decidido pelos órgãos econômicos do bloco, na forma de concessão de empréstimos com rígidas metas de cumprimento; no âmbito local sua população sofria com níveis de desemprego assustadores. O pior: para conseguir que os empréstimos fossem concedidos o país teve que anuir com pesadas medidas de enxugamento do aparelho estatal e diminuição das contas públicas. Isto resultou em um desmantelamento do estado de bem-estar social, que era a última garantia de acolhimento dos serviços públicos para a população. O que instaurou-se, então, foi um panorama de fortíssima rejeição à política, ainda mais porque dois partidos dominam a política local há décadas, e nenhum dos quais foi capaz de assegurar o desenvolvimento econômico do país, que convive com um nível de corrupção endêmico.

Esse cenário descrito contem fortes semelhanças com o que foi apresentado sobre o caso alemão. Excetuando que não tenha ocorrido nenhuma guerra anterior a toda a situação de instabilidade, há muitos pontos de convergência entre o que ocorreu na década de 30 do século passado e o que vemos atualmente na Europa. No entanto, como acentuamos no capítulo primeiro, as manifestações nacionalistas não podem ser emolduradas em nenhum arcabouço teórico estanque. Ao invés disso, deve-se procurar nas razões econômicas e nos traços culturais específicos os motivos para o fortalecimento da alternativa nacionalista. E esta é a forma analítica que procuraremos atingir.

A escolha da situação da Grécia como exemplo para a observação do fenômeno nacionalista não foi fortuita. A exemplo do que ocorreu na Alemanha pós I Guerra, uma amálgama de fatores prévios fizeram irromper uma força política de caráter nacionalista que cresce continuamente em aceitação popular. Seus predicados, no entanto, diferem em vários pontos dos alemães. A Grécia pode ser apontada como uma das nações que já possuíam uma das mais fortes identidades culturais anteriores à consolidação histórica do Estado territorial. A comunidade Helênica foi uma fonte fundamental do pensamento filosófico ocidental, e a Grécia carrega consigo essa herança como forma de conceber sua própria “comunidade imaginada”. Ela credita, portanto, à sua existência um papel preponderante na história das civilizações. A Grécia tem também um agravante, no que diz respeito à assimilação cultural de grupos “estranhos”: as fronteiras da Grécia com a Turquia são as mais acessadas por imigrantes ilegais na Europa, e as leis de imigração da União Europeia preveem que qualquer imigrante ilegal que seja localizado deve retornar ao país a partir do qual entrou na Europa45.

Conquanto o caso alemão e o grego guardem semelhanças no que diz respeito a algumas características de manifestação locais, no plano macro certamente há grandes diferenças nos dois casos. Ao passo que a Alemanha pós I Guerra reunia um ressentimento causado pelas reparações da guerra, tenha se aproveitado do surgimento do “homem massa”, e, principalmente, o partido nazista tenha crescido numa atmosfera de fechamento econômico, o caso grego é alimentado por algumas forças históricas diferentes. No caso atual, o pano de fundo é a globalização e a abertura das fronteiras, conjugado com uma profunda descrença nas instituições políticas.

Outra razão, esta ancorada na conjuntura atual, é que a Grécia é talvez o país onde os efeitos da Crise de 2008 tenham sido mais sentidos pelo “homem comum”, e onde a situação de acirramento e a descrença política sejam mais sensíveis – como vimos, a despolitização cria um terreno fértil à legitimação das narrativas nacionalistas. Apesar das diferenças na situação ampla, a atual fragilização da democracia grega é frequentemente comparada com a República de Weimar46. Garante Filippa Chatzistavrou, advogada e professora na Universidade de Atenas: “Os pontos de semelhança com os métodos do partido nazi NSDAP (partido nacional-socialista dos trabalhadores alemães) em Weimar são impressionantes” 47.

A União Europeia, que foi criada sob forte entusiasmo, é hoje uma “prisão” da qual muitos países desejam se libertar48 (movimento que resulta numa aproximação de vários desses países, entre eles a Grécia, com a Rússia49). As medidas econômicas propostas pela troika (junção da Comissão Europeia, Banco central europeu e FMI) tendem a esmagar as chamadas “soberanias nacionais”, criando uma situação de calamidade na vida da população grega em nome da recuperação política. A impressão do cidadão grego em relação ao governo é de total submissão às medidas impostas ao país. Assim, pairam dúvidas sobre as razões pelas quais “Não há uma única medida das leis pré-fabricadas pela troika que não tenha passado. As pessoas perguntam para que serve o parlamento? Para que serve ter eleitos?”, afirma Panagiotis Grigoriou, historiador e etnólogo, autor do blog “Greek Crisis50. O reflexo imediato disto é uma crescente despolitização, situada na mais antiga democracia51.

Nesse quadro catastrófico, onde o percentual da população que não participa de atividades econômicas chega a 56,4%52, não estranha que apareça um partido com matizes nacionalistas, que politicamente se sirva de todos os ressentimentos para propor suas “soluções”. Daí a maciça aceitação que recebe o partido Aurora Dourada. O partido, que tem como símbolo uma forma que guarda enormes semelhanças com uma suástica, foi criado na década de 1980, mas somente agora cresce em importância na Grécia. E as semelhanças com o partido nazista não ficam restritas ao símbolo. Suas premissas nacionalistas têm forte inspiração nas questões que foram mais trabalhadas pelo partido alemão. A supremacia racial, a recusa à participação econômica do estrangeiro em solo nacional, a busca pelo resgate das fronteiras primordiais, os slogans e também a virulência de seus adeptos.

Quanto à definição dos seus traços que caracterizam o Aurora Dourada como extrema-direita, vale ampliar por um momento o olhar para os outros partidos tidos como ultradireita que estão ganhando força no continente europeu, quase sempre com a retórica de expulsão dos imigrantes e saída da União Europeia, e procurar as diferenças que os distinguem. A principal característica que difere, por exemplo, o partido Frente Nacional, da França, (que já conta com significativas intenções de voto53) do Aurora Dourada é o seu caráter de recusa ao “sistema”; enquanto que o partido francês ao invés de recusar todo o aparelho político institucional...

...defende a economia de mercado, pois esta permite ao indivíduo exercer seu espírito empreendedor, mas o capitalismo que elas promovem é exclusivamente nacional, daí sua hostilidade à globalização. São, em suma, partidos nacional-liberais, que admitem a intervenção do Estado não apenas nos campos de competência soberanos, mas também para proteger os marginalizados da economia globalizada e financeira, como testemunha o discurso de Marine Le Pen, presidente do FN. (fonte: http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1609).54

A identidade do partido Aurora Dourada é composta por fortes marcadores nacionalistas. Suas premissas reforçam a caracterização do uso das narrativas nacionalistas como fonte última da capacidade de uma nação. Reclama a soberania nacional em temas econômicos; reconhece a existência de um território histórico e defende sua reconquista; dirige a grupos culturais diferentes a culpa pela degeneração da pureza nacional; e acusa os partidos tradicionais pela situação de fragilidade do país. Conclama, enfim, os cidadãos a defender os valores primordiais da nação como forma de defesa e reconstrução da identidade - como analisa Zizek:

Embora as crises realmente sacudam o povo para fora de sua complacência, forçando-o a questionar os aspectos fundamentais da vida, a primeira reação, a mais espontânea, é o pânico, o que leva ao “retorno ao básico”: as premissas básicas da ideologia dominante, longe de ser questionadas, são reafirmadas com ainda mais violência (ZIZEK, 2011, p. 28).

O fenômeno histórico da globalização tem papel fundamental no entendimento do porquê de o partido Aurora Dourada ter sido recebido com tamanho entusiasmo em suas armações retóricas. Com o crescimento das interações culturais e econômicas que caracterizam a globalização, a própria identidade nacional perde em apelo e como que dissolve-se em uma consciência de pertencimento global. Isto pode ter seus efeitos bem assimilados enquanto as coisas andam bem. Certamente, entretanto, podemos considerar que a rejeição à globalização já exista em alguma medida mesmo enquanto tudo parece caminhar com naturalidade. Mas, no momento em que aparece uma turbulência e um país sente-se diminuído diante da imensa complexidade das relações que a globalização comporta, há uma tentativa de retorno à identidade com a qual o indivíduo já se reconhece. Quando os indivíduos se sentem deixados de lado em função de interesses que não mais lhe beneficiam, então a nação serve como um último espaço de resistência à imensa fluidez do capitalismo global. Isto, no caso grego, foi reforçado pela tentativa europeia de formar uma identidade regional, que, em última análise, aniquilará as identidades nacionais.

Podemos afirmar que, mesmo que a própria identidade nacional tenha a mesma natureza abstrata da identidade regional, é o observar o nascimento da nova identidade que faz com que o povo grego (e igualmente outros países da Europa) queira apartar-se “enquanto ainda é tempo”. O partido Aurora Dourada reconhece estar no meio de um processo que, ulteriormente, fará com que a nacionalidade grega perca importância quando medida com a identidade europeia e a multiculturalidade com a qual a Europa atualmente convive. A nação apresenta-se então como um último bastião de defesa da soberania histórica do povo grego contra a assimilação cultural histórica55.

Outro de seus predicados nacionalistas é a culpa que atribui aos estrangeiros residentes no país, marcadamente aqueles de origem muçulmana. "A raiva sempre quer um alvo", afirma a psicóloga clínica Iphigenia Macri. "O Aurora Dourada oferece um alvo, que são os imigrantes" 56. A raiz desse problema também pode ser percebida por toda a Europa, mas agravada na Grécia pela frouxa vigilância às fronteiras. A questão da multiculturalidade é um problema de toda região europeia. A herança filosófica da Revolução Francesa e do Iluminismo inglês, que colocava todos os seres humanos em um patamar de igualdade, é hoje uma espécie de armadilha em que os europeus se veem enredados. Isso é parte da agonia da consciência Europeia, que neste século já alterou suas relações por causa da Zona do Euro. A recusa à convivência com grupos de religiões diferentes contrasta com a identidade cristã com a qual a maioria dos europeus se reconhece. A Grécia, por exemplo, é um país com grande influência da Igreja cristã-ortodoxa. É assim que o líder do partido, Aurora Dourada, Ilias Panagiotaros, afirma que: “a Grécia está sendo invadida por ‘jihadistas”57. O território é também tema da retórica nacionalista do Aurora Dourada: “Ele reivindica uma ‘Grande Grécia’, estendendo-se da Albânia ao Chipre, passando por territórios búlgaros e turcos”58. Este, como já tratamos, é um expediente comum aos partidos nacionalistas, a busca pela revisão dos territórios considerados históricos para melhor servir à nação em seus propósitos históricos. No caso grego não é diferente.

Assim, a experiência nacionalista grega repete em muitos termos a situação anterior à Segunda Guerra vivida na Alemanha. O partido Aurora Dourada é um efeito colateral da ineficácia do governo grego em manter sólidas as estruturas políticas diante de um quadro de multiplicidade absoluto, um “jardim de caminhos que se bifurcam”, na expressão borgeana59. Se é certo que a nação se ressente da tentativa de diminuí-la em favor de novos paradigmas de identidade, mais grave é o ressentimento quando disposta a nação numa condição de “naufrágio econômico”, como ocorre na Europa. A Grécia é hoje palco de um dos mais árduos processos de estabilização. De um lado encontra-se a União Europeia, irredutível em seu projeto de soerguimento, do outro a Grécia, em uma grave situação de fragilidade econômica e às voltas com a radicalização das soluções que se apresentam. Essas forças antigas, adormecidas pela tranquilidade, acirram-se, alimentadas por pressupostos que se apresentam como inequívocos para afrontar a inquietação do momento. O nacionalismo é uma enfermidade que se pretende antídoto.

Por ora, o partido Aurora Dourada não se constituiu como força majoritária, visto que o vencedor das eleições nacionais neste ano foi o partido de esquerda Syriza60, também um novo ator no cenário político grego, mas enquanto a crise de legitimidade política, os níveis altíssimos de desemprego e as privações continuarem, a ameaça nacionalista continuará existindo e não deve ser ignorada.

6. Conclusão

Concluímos, portanto, que a identidade nacional, em função da maneira como a nação se concebe, contém uma característica de transbordamento e exacerbação propriamente pertinaz: acontece justamente quando parece se esvaziar, quando se encontra com o novo, quando é confrontada. Essa característica, que entendemos cíclica, é fruto da própria armação retórica que originou a nação, e o nacionalismo como sua manifestação reativa: a ideia de que a nação é o resultado da maturação de identidades incipientes, o fim esperado de toda coletividade. A nação, como defendido no percurso deste trabalho, procura afirmar seu status de centralizadora, de vetor através do qual o grupo continuamente volta para reconhecer e legitimar sua existência histórica.

Procuramos ao longo desta exposição afirmar a essência de artifício, de abstração, que caracteriza a ontologia da nação, em contraste com seu próprio ideário de finalismo teleológico. Como definimos, a legitimidade da nação é consequência do projeto filosófico Iluminista, que defendia a autonomia do indivíduo, ao que, posteriormente, foi também atribuída à coletividade a necessidade de autonomia. Da miscelânea de acontecimentos históricos europeus, e da proeminência da região nos assuntos políticos, o princípio da nacionalidade, então, entra em voga e pretende harmonizar propriedades coletivas específicas em torno de um modelo remissível a qualquer grupo histórico. O sucesso dessa pretensão deve-se justamente à frouxidão dos caracteres que enunciam o reconhecimento de uma nação. Termos como a língua, o território e a legitimidade estatal compunham os requisitos para a atribuição do status de nação a uma coletividade preexistente. A relação que a nação é capaz de engendrar como compreensão do tempo é também fundamental no entendimento do porquê de sua aceitação em regiões humanas tão díspares. A capacidade de cercar a imaginação coletiva, demarcar a extensão espacial subjetiva dentro da qual um grupo reconhece uma igualdade de códigos, e fazer mover-se, qual massa compacta, as individualidades em um território mental comum é o princípio da interação da nação com o tempo.

Devido ao modo pelo qual a nação entende sua própria natureza, como vinculação entre o passado e o presente, como prefiguração da existência posterior, não é de espantar a relação de antinomia com que a nação recebe a emergência de uma categoria de identidade diversa. É assim, pois, que ao encontrar-se diante de um cenário de incerteza acerca do futuro um grupo nacional evoca a primazia da nação. Expusemos duas situações históricas em que a nação foi confrontada com novas maneiras de conceber o conteúdo histórico coletivo. Esses casos que estudamos especificamente, entendemos, compõem dois momentos de intensificação de um panorama geral de penetração sutil da nação. A dialética cotidiana que a nação estabelece com a realidade dos grupos é, notadamente, um dos artifícios mais marcantes de sua existência. O encobrimento de sua realidade fabricada é resultante do rito contínuo de assimilação pelo qual se apresenta aos indivíduos de uma coletividade nacional.

Quando encontrada em uma concorrência de circunstâncias adversas, a nação, portanto, apela para suas supostas virtudes. Aqueles que se apropriam do discurso nacionalista repetem alguns de seus sustentáculos retóricos legitimadores: a defesa do território histórico, a negação à iminente assimilação cultural, uma suposta pureza e a atribuição da culpa dos insucessos ao elemento estranho. Outra inferência que, sustentamos, potencializa a aceitação das soluções nacionalistas é a redução da legitimidade política institucional, algo que pôde ser visto nos dois casos expostos. O esvaziamento e a desconfiança em torno dos negócios públicos incrementam as possibilidades de concordância com os motivos alegados pelos grupos nacionalistas, pois o latente descrédito dos grupos políticos e a sua incapacidade de fazer frente às vicissitudes do momento contrastam com a suposta atemporalidade e o inquestionável caráter defensivo que os pressupostos nacionalistas comportam.

Daí entendermos e defendermos a proposição de que o nacionalismo é uma manifestação natural da construção histórica das nações, pois apresenta-se tanto nas situações de elevação como de instabilidade: é um movimento renitente, que existe sob quaisquer circunstâncias. Procuramos afirmar, embora consideremos essencial o reconhecimento da dimensão distensa em que participa das relações internacionais, o agravamento da visibilidade do nacionalismo em conjunturas de pouca convicção, e o risco que a aceitação de seus objetivos exacerbados pode trazer à estabilidade do sistema internacional como locus teórico deste trabalho. Esperamos, enfim, ter alcançado a expressão de movimento que identificamos na constituição e na manifestação do ente nação no decorrer da história das relações internacionais.

7. REFERÊNCIAS

1 ANDERSON, Benedict. Imagined Communities, Reflections on the Origin and Spread of Nationalism. Londres, Nova York: Verso, 1983.

2 ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

3 BENJAMIN, Walter. Illuminations. Nova York: Schocken Books, 2007.

4 BILLIG, Michael. Banal Nationalism. Londres: Sage Publications, 1995.

5 BOURDIEU, Pierre. The Logic of Practice. Stanford: Stanford University Press, 1990.

6 CERVO, Amado. A instabilidade internacional (1919-1939) In SARAIVA, Flavio Sombra (org.). Relações internacionais - dois séculos de história: entre a preponderância europeia e a emergência americano-soviética (1815-1947), Brasília: IBRI, 2001.

7 CHOMSKY, Noam. Razões de Estado. São Paulo: Record, 2008.

8 ELIAS, Norbert. What is Sociology? Londres: Hutchinson, 1978.

9 FORSYTH, Frederick. O Dossiê Odessa. São Paulo, Círculo do Livro, 1972.

10 GELLNER, Ernest. Nations and Nationalism. Oxford: Basil Blackwell, 1983.

11 HOBSBAWM, Eric J. Nations and Nationalism since 1780 – programme, myth, reality. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.

12 LENHARO, Alcir. Nazismo: O Triunfo da Vontade. São Paulo: Atica, 1990.

13 MEAD, G.H. Mind, Self and Society. Chicago: University of Chicago Press, 1934.

14 NAIRN, Tom. The Break-up of Britain. Londres: Verso, 1977.

15 PONDÉ, Luiz Felipe. Contra um mundo melhor: ensaios do afeto. São Paulo: Leya, 2010.

16 RENAN, Ernest. Palestra proferida na Sorbonne, Paris, 1882, intitulada Que é uma Nação? (Qu’est-ce qu’une nation?), Paris: Presses Pocket, 1992.

17 SARAMAGO, José. Lanzarote, TVCanariados, jun. 2000. Entrevista concedida a Juan Cruz.

18 SMITH, Anthony D. National Identity in Comparative Perspective. Nevada: University of Nevada Press, 1991.

19 STRAUSS, Claude Lévi. Race and History. Editorial Presença, 1952.

20 ZIZEK, Slavoj. Primeiro como tragédia, depois como farsa. São Paulo: Boitempo, 2011.

OUTRAS REFERÊNCIAS

Disponível em Acesso em 05/06/2014.

Disponível em <http://www.lithuaniatribune.com/68722/how-big-will-russias-political-footprint-be-in-europe-201468722> Acesso em 05/06/2014.

Disponível em Acesso em 04/06/2014.

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Disponível em Acesso em 04/06/2014.

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Disponível em Acesso em 05/06/2014.

Disponível em Acesso em 05/06/2014.

Disponível em Acesso em 04/06/2014.

1 A retórica mítica se refere ao uso instrumental de lendas e histórias relacionadas ao pretextado passado comum do grupo em questão. Este reforço serve para criar um vínculo atemporal entre o indivíduo e o grupo, ligando-o inextricavelmente aos demais viventes de uma ordem nacional. Este uso foi utilizado, por exemplo, pela propaganda nazista, tema de capítulo posterior. Sobre o tema ver: GEARY, Patrick J. (2008), O Mito das Nações. A invenção do nacionalismo. Lisboa: Gradiva, 204 p.; LENHARO, Alcir (1990). Nazismo: O Triunfo da Vontade. São Paulo: Atica, 93 p.

2 Obras citadas, respectivamente: HOBSBAWM, Eric J. (1990). Nations and Nationalism since 1780 – programme, myth, reality. Rio de Janeiro: Paz e Terra; ANDERSON, Benedict (1983). Imagined Communities, Reflections on the Origin and Spread of Nationalism. Londres, Nova York: Verso; SMITH, Anthony D. (1991). National Identity in Comparative Perspective. Nevada: University of Nevada Press.

3 De uma maneira lúdica, visualizamos a ambiguidade do nacionalismo como uma aproximação do comportamento dos personagens Dr. Jekyll e Mr. Hyde - figuras do magistral romance de Stevenson, “O Médico e o Monstro”.

4 HOBSBAWM, 1990, p. 13; SMITH, 1991, p. 45.

5 Sobre essas manifestações “erráticas” e a impossibilidade de atribuir a culturas antigas o cunho de Nações, como entendido neste estudo, ler o capítulo The Rise of Nations, contido na obra de SMITH, Anthony D. National Identity in Comparative Perspective. Nevada: University of Nevada Press, 1991.

6 Ibidem, p.45.

7 GELLNER, Ernest (1983). Nations and Nationalism. Oxford: Basil Blackwell.

8 Essa importância deve-se ao fato de que os nacionalistas consideram que as nações já existiam antes de sua formalização sob uma aparência inicial (que bordejava a história como expressão coletiva incompleta), mas que denotava sua inevitabilidade (SMITH, 1991).

9 Usamos o termo original (extraído da obra National Identity, de Anthony D. Smith) por considerarmos que seu uso expressa com maior inteireza o sentido que tentamos captar, isto é, da ligação do grupo à terra dentro da qual se origina.

10 Geralmente o termo se refere a uma pequena categoria de intelectuais cujo complexo trabalho serve à cultura, no sentido de fornecer um panorama de compreensão privilegiado.

11 Para aprofundamento sobre o termo e o seu uso na sociologia moderna, consultar: MEAD, G.H. (1934), Mind, Self and Society. Chicago: University of Chicago Press

12 “[...] com Kant, a autonomia torna-se um imperativo ético para o indivíduo, um princípio do seu ser, não somente um ideal político a ser invocado em momentos de perigo. Aplicado por Fichte, Schlegel e os outros Românticos Alemães a grupos ao invés de indivíduos, o ideal de autonomia deu surgimento a uma filosofia de autodeterminação nacional e esforço coletivo para concretizar o ideal nacional autêntico – em um estado próprio” (tradução nossa)

13 A ideia exprime a concepção de que as nações, após seu processo de consolidação, principiaram a exercer a função de centro de sentido, pelo qual indivíduos e grupos enxergam a realidade e sua colocação no mundo e, principalmente, sua posição diante da inexorabilidade do tempo: como um consolo para a efemeridade.

14 Narrativas cosmogônicas são aqueles princípios – geralmente associados à religião - que pretendem explicar a gênese do universo, ou cosmogênese.

15 As aspas indicam a relatividade do termo “novo” dado aos estados-nação. Estes têm seu estabelecimento formal, tal como empregamos na análise, atribuída ao ano de 1648, pela configuração do Tratado de Westfália. Os estados-nação como comunidades culturais, relativamente conjugadas sob um ideal comum, têm longos antecedentes. Desde a Grécia antiga, pelo menos. (SMITH, 1991). O uso do termo “novo” deve-se à perspectiva de contraste entre a formação dos estados-nação e suas supostas correspondências com uma cultura originária incipiente, da qual teria resultado.

16 “Nossa própria concepção de simultaneidade vem sendo forjada através do tempo, e seu surgimento está certamente conectado, em formas que não foram ainda profundamente estudadas, com o desenvolvimento das ciências seculares. Mas é uma concepção de importância tão fundamental que, se não tomamo-la devidamente em conta, encontraremos dificuldades em explorar a gênese obscura do nacionalismo” (tradução nossa).

17 Pois não admite a existência de outra categoria coletiva superior, e nega ontologicamente seu caráter de construto histórico.

18 Consideremos, no entanto, o fato de que nas relações sociais históricas qualquer forma de representação é, em última análise, invenção.

19 A expressão alude ao artifício resultante das narrativas nacionalistas: a de imputar ao ser humano uma inerente vocação social de pertencer a um grupo ou categoria, como forma de reconhecimento e colocação no mundo. Sobre esse expediente enganoso, ver: BILLIG, 1995, p. 16.

20 O termo refere-se à concepção da natureza mesma das ideologias, atribuída a Karl Marx.

21 “Eu tenho minha pátria. Isto a que chamamos pátria. É que creio que a pátria não existe. O que existe é um desejo de pátria. Isto é o que nós temos: um desejo de pátria. Mas, depois... a pátria, o que é a pátria? Todos? Não podem ser todos. (...) Sobretudo o que tens é isso: essa memória de lugares, de horas, de momentos, de caras, de olhares, de afetos. Isto é o que, mais ou menos, te liga a um tempo que é o seu e a um lugar aonde vivestes” (tradução nossa). Conteúdo obtido no site Youtube, pelo canal “tvcanariados”, em razão de entrevista concedida pelo autor ao jornalista Juan Cruz em Lanzarote, junho de 2000. Acessível no link: http://www.youtube.com/watch?v=sng4Rcq_lKc.

22 Gellner define desta maneira o conteúdo teleológico do discurso nacionalista: “the national state, identified with a national culture and committed to its protection, is the natural political unit” (GELLNER, 1993, p. 409).

23 Acentue-se, no entanto, o papel que o próprio Renan exerceu como um dos inventores do “mito da nação”.

24 NAIRN, Tom. The Break-up of Britain. Londres: Verso, 1977.

25 “O nacionalismo é a patologia da história moderna do desenvolvimento, tão inevitável como a ‘neurose’ no indivíduo; com a mesma ambiguidade essencial que esta, uma capacidade semelhantemente intrínseca para levar à demência, arraigada nos dilemas da impotência que afetam a maior parte do mundo (o equivalente do infantilismo para as sociedades), e, em grande medida, incurável” (tradução nossa)

26 Citação contida na conferência feita por Ernest Renan, na Sorbonne (Paris, 1882) intitulada Que é uma Nação?, (Qu’est-ce qu’une nation?) Paris: Presses Pocket, 1992.

27 “Vários sociólogos do século vinte, quando falam de ‘sociedade’, não têm mais em mente (como tinham seus predecessores) uma ‘sociedade burguesa’ ou uma ‘sociedade humana’ além do estado, mas crescentemente uma imagem como que diluída de um estado-nação” (tradução nossa).

28 “O hábito - história incorporada, internalizada como uma segunda natureza e, assim, esquecida como história é a presença ativa de todo o passado, do qual é o produto” (tradução nossa).

29 “A lembrança, não experimentada como lembrança, é, efetivamente, um esquecimento” (tradução nossa).

30 ANDERSON, 1983, p. 15.

31 A Terceira Internacional (ou Comintern) tinha como objetivo espalhar, em escala mundial, o modelo revolucionário soviético. O seu pressuposto que contrastava com a Sociedade das Nações consistia na convicção de que as fronteiras nacionais deveriam ser dissolvidas para a que o partido comunista pudesse disseminar a “revolução proletária”.

32 “Se houve um momento em que o ‘princípio da nacionalidade’ do século XIX triunfou, esse momento foi o final da primeira Guerra Mundial. [...] foi o resultado de dois fatores não intencionais: o colapso dos grandes impérios multinacionais da Europa central e oriental e a Revolução Russa, que fizeram os Aliados preferirem os argumentos wilsonianos aos bolcheviques.” (HOBSBAWM, 1990, p. 159).

33 PONDÉ, Luiz Felipe (2010). Contra um mundo melhor: ensaios do afeto. São Paulo: Leya, p. 55.

34 “Quando o curso normal das coisas é interrompido de forma traumática, abre-se campo para uma competição ideológica – como aconteceu, por exemplo, na Alemanha no início da década de 1930, quando, invocando a conspiração judaica, Hitler triunfou na competição de qual narrativa explicava melhor as causas da crise da República de Weimar e oferecia a melhor saída para escapar da crise” (ZIZEK, 2011, p. 27).

35 Até o início da Segunda Guerra Mundial ditaduras estavam estabelecidas na Romênia, Polônia, nos estados bálticos (Lituânia e Letônia), na Hungria, em Portugal e Espanha.

36 “Karl Radek, um militante comunista espantado com os resultados eleitorais do partido nazista em 1930, chamou a atenção para o fato de que se tratava de um ‘partido sem história’ desconhecido da literatura burguesa e da socialista, uma ilha isolada na vida política alemã” (LENHARO, 1994, p. 17)

37 LENHARO, 1994, p.28

38 Para maior aprofundamento, ler: LENHARO, Alcir (1994), O Triunfo da Vontade, p.43

39 Referimo-nos à tentativa Hitleriana de “transferir os alemães que não viviam em território pátrio” (HOBSBAWM, 1990, p. 162) para dentro do “território histórico germânico” (como entendia a “doutrina” nacionalista nazista), resultando num movimento que, nesse aspecto, pode-se dizer, aproximava Hitler de uma lógica wilsoniana básica

40 Em entrevista dada ao jornalista George Sylverster Viereck, pela revista Liberty, em 9 de julho de 1932, Hitler já adiantara sua concepção sobre o tema: “Estamos na mesma situação de um homem que perde a casa em um incêndio. Ele precisa ter um teto antes de entregar-se a planos mais ambiciosos. Conseguimos criar um abrigo de emergência que nos mantinha protegidos da chuva. Não estávamos preparados para o granizo. Entretanto, infortúnios caíram sobre nós. A Alemanha vive sob uma verdadeira tempestade de catástrofes nacionais, morais e econômicas”, e completa: “Queremos uma Alemanha maior, que una todas as tribos germânicas. Mas a nossa salvação pode começar em uma pequena região. Mesmo se tivéssemos apenas dez acres de terra, mas estivéssemos determinados a defendê-los com nossas próprias vidas, os dez acres iriam se tornar o foco da regeneração” (A Arte da Entrevista, São Paulo, Boitempo, 2004, p. 131-132).

41 Noam Chomsky, em seu livro Razões de Estado (2008, São Paulo: Record, 503 p.), no capítulo Psicologia e Ideologia, argumenta sobre a validação ou não do status de ciência da “raciologia” do século XIX: “ No caso da antropologia racista do século XIX, a questão de seu status científico já não constitui uma discussão séria, e não é difícil perceber sua função social”, prossegue: “Examinemos agora uma generalização da pseudociência oitocentista: [...] A ciência revelou que é uma ilusão falar em ‘liberdade’ e ‘dignidade’. O que a pessoa faz é totalmente determinado por sua dotação genética e sua história de reforço. Portanto, devemos servir-nos da melhor tecnologia comportamental para moldar e controlar o comportamento, a bem do interesse comum”. Ainda: “Quanto a suas implicações sociais, a ciência skinneriana [refere-se a B. F. Skinner, teórico da “raciologia”, autor de “Beyond Freedom and Dignity”] do comportamento humano, por ser muito vazia, tanto é receptiva ao libertário quanto ao fascista”. Chomsky acentua os ecos “Orwellianos” das afirmações de Skinner.

42 LENHARO, 1994, p.67.

43 É interessante observar a tipificação dada aos órgãos oficiais do governo: por exemplo, o RSHA, ou Escritório Central de Segurança do Reich: “O uso um tanto estranho da palavra ‘segurança’ na denominação desse serviço vem da extravagante ideia nazista de que as vítimas constituíam uma ameaça para o Reich, o qual tinha de ter segurança em relação a elas” O Dossiê Odessa: Frederick Forsyth, São Paulo, Círculo do Livro, 1972, p. 153. Michael Billig trata da questão da beligerância contida no sentimento nacionalista de uma maneira inerente, ao demonstrar como as ações tomadas em nome da nação são realizadas sob um disfarce de defesa da integridade da nação e não do ódio ao outro. Para maior aprofundamento sobre o tema, ler, de Michael Billig: Fascists: a social psychological view of the national front.

44 Aludimos ao tema do totalitarismo de maneira discreta, por considerarmos que o tema merece uma discussão com uma profundidade que não podemos atingir sem que o foco deste trabalho seja desviado. Para maiores esclarecimentos sobre a discussão teórica acerca dor regimes totalitários, ler: ARENDT, Hannah (1989), As Origens do Totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 562 p.; FRIEDRICH, Carl J. e BRZEZINSKI, Zbigniew K. (1956), Totalitarian Dictatorship and Autocracy. Cambridge: Harvard University Press, 346 p.

45 Fonte: http://www.nytimes.com/2012/07/11/world/europe/as-golden-dawn-rises-in-greece-anti-immigrant-violence-follows.html?pagewanted=all&_r=0.

46 A República de Weimar foi implementada logo após a Primeira Guerra Mundial. Tinha como modelo o governo parlamentarista democrático e foi extinta no ano de 1933, no mesmo ano que Hitler subia ao poder. Atribui-se ao malogro de suas resoluções o fortalecimento do partido nazista.

47 Fonte: http://www.esquerda.net/artigo/gr%C3%A9cia-aurora-dourada-outra-face-da-extrema-direita-europeia/28766

48 Nas últimas eleições para o Parlamento Europeu, em maio deste ano, 27% dos candidatos eleitos se definiam como contrários à continuação da zona do Euro. Fonte: http://www.lithuaniatribune.com/68722/how-big-will-russias-political-footprint-be-in-europe-201468722/

49 Sobre o tema, ler: http://www.lithuaniatribune.com/68722/how-big-will-russias-political-footprint-be-in-europe-201468722/

50 Fonte: http://www.esquerda.net/artigo/gr%C3%A9cia-aurora-dourada-outra-face-da-extrema-direita-europeia/28766

51 Sobre as proposições que solaparão o estado de bem-estar social europeu, ler: http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1647

52 Fonte: http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1650

53 Fonte: http://internacional.elpais.com/internacional/2013/10/12/actualidad/1381607684_144429.html

54 Sobre as diferenças entre os partidos de direita que se fortalecem na Europa, ler: http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1609

55 “A única maneira de compreender a verdadeira novidade do novo é analisar o mundo pela lente do que era ‘eterno’ no velho” (ZIZEK, 2011, p. 27).

56 Fonte: http://www.cartacapital.com.br/internacional/aurora-dourada-a-grecia-pertence-aos-gregos longa-vida-a-vitoria-4382.html

57 Fonte: http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/34867/partido+grego+aurora+dourada+descreve+hitler+como+grande+personalidade.shtml

58 Em 1922, a guerra grego-turca resultou na expulsão de 1,3 a 1,5 milhão de gregos da Ásia menor, onde estavam desde tempos imemorais.

59 Referência ao conto “O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam”, de Jorge Luís Borges, publicado no livro “Ficções”, Rio de Janeiro: Editora Globo, 1986.

60 Fonte: http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/35420/na+grecia+partido+de+esquerda+syriza+vence+eleicao+para+parlamento+europeu.shtml


Publicado por: Gilberto Clementino de Oliveira Neto

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