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A IDENTIDADE RELIGIOSA DA SOCIEDADE COLONIAL BRASILEIRA NA OBRA CASA GRANDE & SENZALA

História

Gilberto Freyre na historiografia brasileira e alguns autores que avaliariam sua obra, Casa Grande & Senzala e o tema da religiosidade por Euclides da Cunha, Nina Rodrigues e Capistrano de Abreu e a interpretação sobre a identidade religiosa da sociedade colonial brasileira que aparece em Casa Grande & Senzala com base na religiosidade indígena, portuguesa e africana.

índice

1. RESUMO

Esta pesquisa é voltada a analise da obra de Gilberto Freyre Casa Grande & Senzala publicada em 1933 e tem como objetivo compreender a interpretação do autor sobre a identidade religiosa da sociedade colonial brasileira a partir da influência de elementos religiosos do português, do indígena e do africano. Para análise teórica e metodológica trabalhamos a abordagem dialógica do historiador Dominick LaCapra, fazendo a relação das fontes com a abordagem teórica do Gilberto Freyre, o qual se insere no domínio historiográfico da história das ideias. As interpretações de Gilberto Freyre em Casa Grande & Senzala sobre a identidade religiosa da sociedade brasileira ressaltam a influência do catolicismo dos colonos portugueses e da atuação dos padres Jesuítas no processo de catequização durante o período colonial, a religiosidade trazida pelos povos provenientes do continente africano e dos nativos indígenas, resultando em uma identidade religiosidade hibrida.

Palavras-chave: Brasil Colonial. Identidade Religiosa. Gilberto Freyre.

2. INTRODUÇÃO

Este trabalho é voltado a analise da interpretação da identidade religiosa da sociedade colonial brasileira na obra “Casa Grande & Senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal” publicada em 1933, cuja autoria é do intelectual, ensaísta, e sociólogo brasileiro Gilberto Freyre.

As ideias de Freyre se caracterizam pelo viés culturalista, particularmente pela influência do trabalho do antropólogo Franz Boas, apresentando uma leitura sobre a formação da sociedade brasileira com foco na valorização da mestiçagem, não apenas étnica, mas também cultural. Neste caso, Freyre interpreta essa formação, partindo do desdobramento da vida intima da sociedade colonial e das relações que se originam de três principais grupos étnicos: o português, a indígena e a africana.

Esta pesquisa surgiu primeiramente pelo interesse sobre a religiosidade brasileira, em específico a reflexão sobre a pluralidade religiosa e posteriormente foi viabilizada a partir de minha participação no Projeto de Pesquisa: Narrativas da Nação: uma análise sobre a identidade nacional brasileira na obra de Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda, coordenado pelo professor Dr. Ricardo Oliveira da Silva, com início em abril de 2016.

A inquietação em fazer uma análise da narrativa de Gilberto Freyre na obra Casa Grande & Senzala se deu também devido a sua ênfase na abordagem da história cultural, em que o autor apresenta de maneira inovadora a miscigenação entre o branco, o índio e o negro como fator positivo e uma característica da identidade do Brasil. Nessa interpretação, Gilberto Freyre aponta a interface entre elementos religiosos do português, indígena e africano, como elemento importante na formação de uma sociedade híbrida.

A interpretação de Gilberto Freyre em Casa Grande & Senzala disponibiliza leques de possibilidades para analises, porém neste trabalho nos delimitaremos apenas a questão da identidade religiosa, sendo assim, o nosso objetivo principal será analisar esta obra no intuito de compreender como Gilberto Freyre interpretou a identidade religiosa da sociedade (colonial) brasileira. Os objetivos específicos serão os seguintes:

  • Abordar a obra Casa Grande & Senzala na historiografia brasileira;

  • Descrever o tema religiosidade no pensamento social brasileiro anterior à publicação de Casa Grande & Senzala;

  • Apresentar uma biobibliografia de Gilberto Freyre;

  • Analisar a interpretação de Gilberto Freyre sobre a identidade religiosa da sociedade (colonial) brasileira com base na sua leitura sobre a religiosidade do português, o indígena e o africano.

Este trabalho é uma perspectiva de análise que se insere no domínio historiográfico da história das ideias, um dos campos de investigação para o historiador. Segundo o historiador brasileiro José D’Assunção Barros, há “três tipos fundamentais de critérios geradores de modalidades historiográficas: as dimensões, as abordagens e os domínios.” (BARROS, 2008, p.02). O primeiro permite ao historiador enfatizar perspectivas da vida social, como a História Econômica, História Política, História das Mentalidades, por exemplo. O segundo classifica-se pela escolha dos métodos, como por exemplo, História Oral e História Serial. O terceiro grupo de critérios permite ao historiador:

se referir aos ‘agentes históricos’ que eventualmente são examinados (a mulher, o marginal, o jovem, o trabalhador, as massas anônimas), outros aos ‘ambientes sociais’ (rural, urbano, vida privada), outros aos ‘âmbitos de estudo’ (arte, direito, religiosidade, sexualidade), e outras tantas possibilidades. (BARROS, 2008, p.03).

Neste ultimo se insere a História das Ideias, a História da Mulher, a História da Sexualidade, a História do Direito, entre outros. Portanto, para José D’Assunção Barros a História das Ideias é um domínio historiográfico que permite ao historiador se focar em amplas possibilidades de temáticas voltadas à compreensão das ideias, do pensamento sistematizado de indivíduos e suas ideologias, tanto quanto, voltando-se para o estudo de movimentos literários e filosóficos; e na investigação da relação dos contextos históricos que estas ideias são inseridas.

José D’Assunção Barros também se refere às várias formas de proximidade que a História das Ideias tem com a História Cultural, Política e das Mentalidades, estabelecendo-a como um dos mais produtivos domínios historiográficos que proporciona “diálogos com dimensões historiográficas [...], conexões com inúmeros domínios historiográficos [...] além de abrigar as mais diversas abordagens disponíveis para uma analise de suas fontes e contextos históricos.” (BARROS, 2008, p.10).

No intuito de pensar a identidade religiosa na obra Casa Grande & Senzala nós iremos nos basear na definição de Stuart Hall sobre identidade em A identidade cultural na pós-modernidade. Stuart Hall afirma que na modernidade tardia, marcado pela interconexão global, pelas mudanças contínuas e aceleradas, o sujeito, previamente vivido como tendo uma identidade unificada e estável, se tornou fragmentário na forma de pensar sua identidade. As identidades se tornaram plurais, “à medida em que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis” (HALL, 1998, p. 13).

Com isso, Stuart Hall defende que a identidade é uma construção em permanente mudança ao longo de nossas vidas, e não algo que nasce conosco como se fosse uma essência. Em termos de identidades culturais, uma das principais identidades do sujeito é a identidade nacional, as quais são compostas por instituições culturais, mas também símbolos e representações: “uma cultura nacional é um discurso – um modo de construir sentidos que influencia e organiza tanto nossas ações quanto a concepção que temos de nós mesmos” (HALL, 1998, p. 50). Os sentidos constroem identidades, sendo que dentre os sentidos podemos destacar as narrativas sobre a nação: “fornecem uma série de estórias, imagens, panoramas, cenários, eventos históricos, símbolos e rituais nacionais que simbolizam ou representam as experiências partilhadas, [...] que dão sentido à nação” (HALL, 1998, p. 52). Nesse sentido, a obra Casa Grande & Senzala pode ser pensada como uma narrativa que dá sentido a construção de uma “identidade religiosa”.

Utilizaremos a proposta metodológica do historiador Dominick LaCapra (2012) para o estudo de Casa Grande & Senzala. Segundo o historiador norte-americano, uma das possibilidades seria trabalhar a relação da sociedade com os textos. Nesse caso, não se poderia analisar a vida individual sem uma referência significativa a sociedade, e vice-versa, algo que o historiador norte-americano procurou pensar mais em termos de natureza social ou sociológica. Não a perspectiva de uma história social que estudaria os usos dos textos para a reconstrução empírica da sociedade passada, “sino desde la perspectiva distintiva de una historia intelectual que explora la relación entre los procesos sociales y la intepretación de los textos” (LACAPRA, 2012, p. 259). Assim, relacionamos o trabalho de Gilberto Freyre com obras que trataram do tema religiosidade anterior a Casa Grande & Senzala, como Os Sertões de Euclides da Cunha, Os africanos no Brasil de Nina Rodrigues e Capítulos de História Colonial de Capistrano de Abreu.

Em termos de análise da narrativa de Casa Grande & Senzala nos amparamos na reflexão de Mark Bevir que afirma que “na qualidade de historiadores, temos de estudar significados que realmente existam. O princípio do individualismo procedimental implica que estudemos significados existentes para pessoas específicas no passado.” (BEVIR, 2008, p.102). Neste intuito verificar as ideias de Gilberto Freyre possibilita analisar significados históricos a partir da análise de sua obra, pois para Mark Bevir no intencionalismo fraco o foco é analisar os significados transmitidos no texto, e não como eles seriam na mente do autor ou como se fossem o “espelho” de uma dada realidade histórica.

Freyre se foca no decorrer de Casa Grande & Senzala com ideias que interpretam a sociedade colonial, como a vida doméstica, a vida conjugal, o patriarcado, a escravidão, a relação sexual, a poligamia, a religião de família, as crendices da senzala, a raça inferior e superior, a política, a higiene entre outras que veremos posteriormente no decorrer do trabalho com o objetivo de analisar como o texto apresenta uma identidade religiosa da sociedade (colonial) brasileira.

Esta pesquisa terá como principal fonte a obra “Casa Grande & Senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal”, de Gilberto Freyre. Está obra possui cinquenta e uma edições e utilizaremos a edição 51ª em sua 9ª reimpressão, no ano de 2006.

Também serão analisados textos de outros autores da historiografia brasileira que façam referência a Gilberto Freyre e a temática em questão. Artigos científicos, dissertações, textos em geral de caráter historiográfico que auxiliem nas analises também serão utilizados no decorrer da pesquisa.

Em termos de estrutura de capítulos estaremos apresentando primeiramente Gilberto Freyre na historiografia brasileira e alguns autores avaliariam sua obra; seguiremos com o contexto intelectual de Casa Grande & Senzala e o tema da religiosidade por Euclides da Cunha, Nina Rodrigues e Capistrano de Abreu; também será apresentada a biobibliográfica de Gilberto Freyre tanto quanto as inovações teóricas, metodológicas e das fontes em Casa Grande & Senzala; por fim, apresentaremos a interpretação sobre a identidade religiosa da sociedade colonial brasileira que aparece em Casa Grande & Senzala com base na religiosidade indígena, portuguesa e africana.

3. GILBERTO FREYRE NA HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA

Gilberto Freyre, ao publicar Casa Grande & Senzala, apresentou novas perspectivas para a historiografia brasileira com a utilização de fontes inéditas e pela inovadora abordagem cultural. Desde a sua publicação em 1933, já passados oitenta e três anos, podemos constatar que este intelectual causou grandes debates em torno das relações raciais, da escravatura, da miscigenação, provindas de um olhar positivo em que o autor detinha quanto à interpretação da colonização, incluindo a valorização da mestiçagem e a contribuição do negro no processo colonizador português.

A proposta desta pesquisa é analisar a interpretação sobre a identidade religiosa da sociedade brasileira em Casa Grande & Senzala. A seguir serão apresentadas as ideias de alguns trabalhos historiográficos que avaliariam a obra de Gilberto Freyre e ressaltaram as contribuições e limitações das análises do autor sobre a formação da sociedade brasileira. Para isso destacamos os textos de Carlos Guilherme Mota, José Carlos Reis e Ricardo Benzaquen de Araújo.

3.1 CARLOS GUILHERME MOTA

Carlos Guilherme Mota, historiador brasileiro, publica em 1978 uma obra clássica, fruto de pesquisa sobre os fundamentos ideológicos das interpretações sobre o Brasil. Esta obra é intitulada Ideologia da cultura brasileira (1933-1974): pontos de partida para uma revisão histórica. No primeiro capítulo desta obra, nomeado cristalização de uma ideologia: a “Cultura Brasileira”, Carlos Guilherme Mota apresenta sua compreensão sobre as ideias de Gilberto Freyre em Casa Grande & Senzala.

Para Carlos Guilherme Mota a obra de Gilberto Freyre surge após a revolução de 1930 contrapondo a historiografia do IHGB baseada numa história elitizada e de heróis e se diferenciando principalmente por valorizar a mestiçagem e interpretar o Brasil de maneira harmoniosa. Para Carlos Guilherme Mota, Gilberto Freyre mascarou com suas teses a crise em que o poder oligárquico ao qual pertencia estava passando e se focou no quadro social, justamente cristalizando uma ideologia de cultura brasileira, ou seja, contribuindo para consolidar ideias conservadoras e o status quo da burguesia. Pois, mesmo que na obra de Gilberto Freyre seja dada a importância aos heróis coletivos e anônimos, como o índio, o escravo, o negro e os trabalhadores, contudo, para Carlos Guilherme Mota, Gilberto Freyre escreve Casa Grande & Senzala com “esforços de compreensão da realidade brasileira realizados por uma elite aristocratizante que vinha perdendo poder” (MOTA, 1978, p. 58).

Quanto à questão da religiosidade, Carlos Guilherme Mota mostra que Freyre teve posições pouco achegadas ao pensamento da igreja e referindo às analises de Dante Moreira Leite, observa que Freyre teve contatos com americanos protestantes, o que “ajuda a compreender talvez a sensibilidade aguçada por certos aspectos peculiares da religião no Brasil” (MOTA, 1978, p. 57).

Carlos Guilherme Mota mostra que após 1967 surgiu uma nova onda de produções sobre Gilberto Freyre e enfatiza que estes estudos assumem “grande importância por permitir a analise da cristalização de uma ideologia com grande poder de difusão: a ideologia da cultura brasileira” (MOTA, 1978, p. 54). Dentre as principais produções publicadas após 1967, Carlos Guilherme Mota refere às análises de Dante Moreira Leite, Antônio Candido, Emilia Viotti da Costa e Verena Martinez-Alier, os quais se enquadram numa nova geração de autores que criticam a obra de Gilberto Freyre, não somente pelo peso da erudição ou pelo estilo em que manipula suas fontes, mas também por ter embutido em seu comportamento intelectual, questões políticas, econômicas e sociais. Carlos Guilherme Mota não destaca a si próprio como parte desta nova geração de autores, mas podemos acrescentá-lo, pois suas analises são da época e se aproximam dos críticos acima referidos por ele.

3.2 JOSÉ CARLOS REIS

O historiador José Carlos Reis escreve dois livros sobre as identidades do Brasil. No primeiro, publicado em 1999 e intitulado As Identidades do Brasil 1: de Varnhagen a FHC, José Carlos Reis apresenta cento e vinte anos do pensamento histórico brasileiro, com início em Francisco Adolfo de Varnhagen (1850) e término em Fernando Henrique Cardoso (1970). José Carlos Reis reconstrói paradigmas do pensamento histórico brasileiro, apresentando obras clássicas e analisando suas narrativas. As analises de José Carlos Reis estão baseadas nos conceitos de mudanças e de continuidades como base para o conhecimento histórico do Brasil, neste aspecto divide as sínteses do Brasil em duas correntes, a primeira parte desta obra denominada Descobrimento do Brasil (1850-1930) é representada por Varnhagem e Gilberto Freyre e segunda parte denominada Redescobrimento do Brasil (1900 a 1960-70) é representada por Capistrano de Abreu, Sérgio Buarque de Holanda, Nelson Werneck Sodré, Caio Prado Junior, Florestan Fernandes e Fernando Henrique Cardoso.

Quando José Carlos Reis se refere à corrente em que denomina Descobrimento do Brasil, está se referindo a uma corrente de autores que apresentaram uma narrativa histórica que seria a continuidade da história dos descobridores do Brasil. Neste caso, escolhe Varnhagen por ser o fundador da História do Brasil e Gilberto Freyre por dar continuidade a sua visão. Ambos, além de terem importância na historiografia, tinham preferencia pelo passado brasileiro que ao futuro, preferiam a continuidade em relação à mudança, eram conservadores na interpretação do Brasil, olhando o progresso de maneira gradual e linear em relação à importância da colonização portuguesa para o desenvolvimento do Brasil.

José Carlos Reis, nos leva a refletir sobre Freyre e Varnhagen na historiografia brasileira, quanto à identidade do brasileiro diante da colonização, em que ambos são defensores e legitimadores de uma visão elitizada do Brasil. Porém nos mostra que Varnhagem defende a colonização portuguesa latifundiária e escravocrata, mesmo sendo contra o tráfico de africanos à colônia, enquanto Freyre diferentemente de Varnhagem valorizava a presença negra que proporcionou, a seu ver, contribuição para o sucesso à colonização. Nesta perspectiva José Carlos Reis afirma que Gilberto Freyre realiza um reelogio da colonização portuguesa, dando continuidade na visão dos descobridores do Brasil, sendo “a mesma coisa renovada, revigorada: a legitimação entusiasmada e, acrítica, idealizadora e nostálgica, do mundo que o português criou nos trópicos” (REIS, 2006, p. 63).

José Carlos Reis fala da proximidade de Freyre a Franz Boas, do qual herdou o conceito de cultura e a relatividade de valores do historicismo alemão de Dilthey, o que corresponde com sua abordagem cultural, em que a raça não seria mais determinante na análise da realidade social, e sim a cultura. Sendo assim, José Carlos Reis mostra que Gilberto Freyre aceitou e valorizou a presença negra no Brasil e interpreta a sociedade brasileira como resultado do sucesso da colonização brasileira a partir da mestiçagem promovida pelos portugueses.

Segundo José Carlos Reis, podemos verificar em Casa Grande & Senzala que do ponto de vista étnico, o português já era miscigenado anteriormente em Portugal com outros povos, como os mouros. Devido a isto é que Gilberto Freyre denominou o povo português como um povo hibrido, com facilidade e predisposição para a miscigenação tanto étnica como cultural, como, por exemplo, na vida sexual, na alimentação, na religião.

José Carlos Reis refere quanto à religiosidade em Casa Grande & Senzala, que Gilberto Freyre aponta para a religião como um ponto de encontro das culturas, com a predominância do cristianismo não ortodoxo, algo reciproco e com trocas de valores, equilibrado. Sendo assim, pensa na identidade brasileira consolidada no passado, em que “nessa identidade, ele integra índios e negros retrospectivamente – a identidade singular brasileira é a da mistura de raças e culturas sob a liderança portuguesa” (REIS, 2006, p. 81).

3.3 RICARDO BENZAQUEN DE ARAÚJO

Ricardo Benzaquen de Araújo em seu texto Chuvas de verão. “Antagonismos em equilíbrio” em Casa Grande & Senzala de Gilberto Freyre, publicado em 2009 em São Paulo pela Editora Companhia das letras, discuti alguns aspectos da obra de Gilberto Freyre, como a mestiçagem e o hibridismo, nomeadamente como fatores produtores do antagonismo de equilíbrio.

Para explicar a questão da mestiçagem, Ricardo Benzaquen de Araújo primeiramente apresenta que o debate intelectual do contexto histórico de 1933 colocava a mestiçagem como um fator que inviabilizava o desenvolvimento nacional e causava o retardo do domínio da raça branca e Casa Grande & Senzala alterou esta avaliação, redefinindo a ideia de mestiçagem e “enfatizando não só o valor específico das influencias indígenas e africanas como também a dignidade da híbrida e instável articulação de tradições que teria caracterizado a colonização portuguesa” (ARAÚJO, 2009, P. 200). Para tanto, posteriormente, Ricardo Benzaquen de Araújo refere que influenciado por Franz Boas, Gilberto Freyre reinventa o Brasil a partir de uma analise da vida social, separando a noção de raça da de cultura.

Ricardo Benzaquen de Araújo mostra que a ideia de mestiçagem apresentada por Gilberto Freyre seria como

um processo no qual as propriedades singulares de cada povo jamais chegam a se dissolver por completo, guardando indelevelmente a lembrança das diferenças presentes na sua gestação. Sincrética mas nunca sintética, essa concepção torna possível a Gilberto definir o português – e mais adiante o brasileiro [...]. (ARAÚJO, 2009, p. 201).

Neste caso, Ricardo Benzaquen de Araújo desenvolve sua argumentação mostrando que para Gilberto Freyre os antagonismos existentes em Casa Grande & Senzala só podem ser entendidos sob o olhar do hibridismo, mostrando que os antagônicos grupos sociais participaram na formação da sociedade brasileira de maneira equilibrada, porém indivisível. Partindo deste pressuposto, podemos pensar no processo de trocas culturais, como a questão da religiosidade, em que predominou o catolicismo, mas de maneira sincrética as experiências de outras religiosidades, como as dos índios e dos africanos, não se dissolveram por completo, restando resquícios que estavam presentes na formação da sociedade brasileira.

Ricardo Benzaquen de Araújo termina suas considerações sobre os antagonismos de equilíbrio em Casa Grande & Senzala apontando que Gilberto Freyre aproxima os antagonismos sem reduzi-los, inclusive no contexto da vida social, nas diferenças culturais, em que Gilberto Freyre tenta dar equilíbrio mesmo em situação de extrema oposição.

Neste capítulo minha intenção foi apresentar Gilberto Freyre em outros trabalhos importantes da historiografia brasileira. As análises foram dispostas ressaltando algumas contribuições para as interpretações de Gilberto Freyre sobre a formação da sociedade brasileira. Nós destacamos as discursões relevantes para o processo de uma ideologia de cultura nacional como apontado por Carlos Guilherme Mota. Apresentar a visão de continuidade quanto à colonização portuguesa de Gilberto Freyre, caracterizado como um reelogio, em que José Carlos Reis o coloca como também descobridor do Brasil. Destacar seu olhar diferenciado quanto à mestiçagem, seu posicionamento em relação aos antagonismos existentes em Casa Grande & Senzala pelo olhar do hibridismo, analisado por Ricardo Benzaquen de Araújo.

No próximo capítulo abordaremos o contexto intelectual de Casa Grande & Senzala, discutiremos mais profundamente o tema da religiosidade em obras de autores que publicaram seus trabalhos anteriormente à publicação de Casa Grande & Senzala.

4. O CONTEXTO INTELECTUAL DE CASA GRANDE & SENZALA

Apresentaremos neste capítulo uma breve exposição sobre a história do debate intelectual em torno do tema da religiosidade em que apareceu Casa Grande & Senzala. Para isso, tomamos como referência os seguintes autores: Euclides da Cunha, Nina Rodrigues e Capistrano de Abreu, os quais publicaram suas obras no início do século XX.

4.1 EUCLIDES DA CUNHA

Euclides Rodrigues da Cunha, escritor e jornalista brasileiro, nascido no Rio de Janeiro em 1866, escreveu a obra Os Sertões, a qual foi publicada em 1902. Euclides da Cunha escreve esta obra fruto de suas reportagens para o Jornal Estado de São Paulo, com o objetivo de informar sobre a guerra no Arraial de Canudos no ano de 1897 no sertão da Bahia. Os Sertões se torna um livro clássico, por relatar o panorama da cultura brasileira, por conter abordagens que se relaciona com a antropologia, sociologia, geografia e história. A obra é dividida em três partes, A Terra, O Homem e A Luta.

Para Nísia Trindade Lima o escritor Euclides da Cunha foi marcado por uma época em que estavam presentes o pensamento científico, as teorias deterministas europeias e o positivismo militar, e como Nina Rodrigues também teve contato com o romantismo, mostra um contexto intelectual em que Euclides da Cunha encontra-se com frequência “divido entre a visão de uma civilização que deveria se impor e a denuncia de seus problemas e contradições” (LIMA, 2009, p.107).

O tema sobre religiosidade nós encontramos na parte O Homem, em que Euclides da Cunha apresenta o sertanejo, a religião mestiça e seus fatores históricos, o caráter variável da religiosidade sertaneja, a “Pedra Bonita”, o “Monte Santo”, as missões e a vida religiosa de Antônio Conselheiro.

Euclides da Cunha fala da complexidade do problema etnológico no Brasil, com a mestiçagem das três raças, o selvícola, os africanos e o branco. A partir dessa ideia Euclides da Cunha considera o homem sertanejo um mestiço e igualmente sua religião, a qual segundo ele também é mestiça, a partir do monoteísmo cristão e do fetichismo do índio e do africano,

e as suas crenças singulares traduzem essa aproximação violenta de tendências distintas. [...]. As lendas arrepiadoras do caapora travesso e maldoso, [...]; os sacis diabólicos, de barrete vermelho à cabeça, assaltando o viandante retardatário, nas noites aziagas das sextas-feiras, de parceria com os lobisomens e mulas-sem-cabeça notívagos; todos os mal-assombramentos, todas as tentações do maldito ou do diabo — este trágico emissário dos rancores celestes em comissão na Terra; as rezas dirigidas a S. Campeiro, canonizado in partibus, ao qual se acendem velas pelos campos, para que favoreça a descoberta de objetos perdidos; as benzeduras cabalísticas para curar os animais, para amassar e vender sezões; todas as visualidades, todas aparições fantásticas, todas as profecias esdrúxulas de messias insanos; e as romarias piedosas; e as missões; e as penitências.... (CUNHA, 2000, p.117-118).

Para Euclides da Cunha essas manifestações religiosas são explicáveis historicamente por uma herança de mestiçagem portuguesa que persiste no sertão brasileiro. Segundo Euclides da Cunha, a religiosidade sertaneja é de caráter variável, é uma religião adaptado pelo meio físico do homem, em que tanto o negro participa de solenidades da igreja com seus fetiches, quanto os sertanejos participam de missas e depois vão para ritos africanos ou silvícolas. Euclides da Cunha apresenta uma religião indefinida, impressionante e repulsiva como o culto aos mortos, o dia do falecimento de uma criança, solenidades fanáticas e o tipo missionário moderno que alucina e perverte o sertanejo.

Euclides da Cunha Euclides faz referência à solenidade da Pedra Bonita no sertão de Pernambuco em que se pregava para que fossem derramado sangue das crianças sobre as rochas da Serra Talhada, no intuito de o povo alcançar o reino encantado de D. Sebastião. Neste caso Euclides da Cunha interpreta um tipo de fanatismo na fé demonstrada pelas mulheres sertanejas, almas propícias às influencias que a agitam, as quais “erguendo os filhos pequeninos e lutavam, procurando-lhes a primazia do sacrifício... O sangue espandanava sobre a rocha jorrando, acumulando-se em torno [...] era impossível a permanência no lugar infeccionado” (CUNHA, 2000, p.121).

Quanto ao Monte Santo, Euclides da Cunha mostra-o como lugar lendário, ficou conhecido por que atraia as pessoas de maneira irresistível, mas desapareceu. Foi encontrado posteriormente por um missionário chamado Apolônio de Todi, que achou semelhante ao calvário de Jerusalém, então ergueu um templo religioso e ali os fieis realizavam via sacras. Com as ações missionárias neste lugar, Euclides da Cunha destaca as características do missionário moderno, o qual diante de um ambiente propício coloca em ação suas práticas e se torna “um agente prejudicialíssimo no agravar todos os desequilíbrios do estado emocional dos tabaréus.[...] destrói, apaga e perverte o que incutiram de bom naqueles espíritos ingênuos” (CUNHA, 2000, p.123).

Para Euclides da Cunha a fé religiosa no sertão era um amparo, por isso o messiânico Antônio conselheiro, também um tipo missionário moderno, atrai adeptos com suas práticas. Inclusive, para Euclides da Cunha Antônio Conselheiro foi um falso apóstolo, um gnóstico bronco, um homem pelo avesso, capaz de arrastar o povo sertanejo com seu misticismo doentio. Euclides da Cunha considera-o resultado da estratificação étnica, acúmulo de “todas as crenças ingênuas, do fetichismo bárbaro às aberrações católicas, todas tendências impulsivas das raças inferiores” (CUNHA, 2000, p.127).

4.2 NINA RODRIGUES

Raimundo Nina Rodrigues, médico e antropólogo brasileiro, nascido em Vargem Grande, no Maranhão, no ano de 1862, pioneiro em escrever sobre a cultura negra, publicou obras As Raças Humanas e a Responsabilidade Penal no Brasil em 1894 e O Animismo Fetichista dos Negros Baianos em 1900. A obra que trataremos nesta pesquisa intitulada Os Africanos no Brasil estava sendo escrito pelo autor quando ele faleceu, em 1906, e foi publicado postumamente, em 1932.

Para Lilia Moritz Schwarcz, Nina Rodrigues escreveu em um momento em que o determinismo racial, biológico e social estava presente no contexto intelectual da época, ou seja, final do século XIX e início do século XX. Suas ideias foram consideradas radicais. Aceitava as teorias do darwinismo social apenas de forma literal, então negava o evolucionismo social e incluiu inovadoramente a antropologia criminal, neste caso antagonizou com seus colegas de direito ao “conferir às raças o estatuto de realidades estanques, defendeu que toda mistura de espécies seria sinônimo de degeneração” (SCHWARCZ, 2009, p. 93).

Em Os africanos no Brasil, obra póstuma de Nina Rodrigues, destaca-se a influência africana na cultura brasileira, inclusive a religiosidade animista fetichista e a maometana e também analise biológica e racial do negro. Quanto às analises raciais dos negros, Nina Rodrigues destaca que entre eles existem graus, cultura e aperfeiçoamento, inclusive melhoram e progridem, mas era considerada uma raça inferior, tanto que considerou a miscigenação com o negro um problema para povo brasileiro. Para Nina Rodrigues

a Raça Negra no Brasil, por maiores que tenham sido os seus incontestáveis serviços à nossa civilização, por mais justificadas que sejam as simpatias de que a cercou o revoltante abuso da escravidão, por maiores que se revelem os generosos exageros dos seus turiferários, há de constituir sempre um dos fatores da nossa inferioridade como povo. (RODRIGUES, 1977, p.07).

Toda a obra trata da cultura negra, porém destacaremos três capítulos que se voltam exclusivamente à religiosidade: Os negros maometanos no Brasil, Sobrevivências totêmicas: festas populares e folk-lore e Sobrevivências religiosas religião, mitologia e culto.

Nina Rodrigues mostra na religiosidade africana, o islamismo, o animismo fetichista e o catolicismo adaptado às suas crenças. Para Nina Rodrigues o zelo religioso fez com que os africanos preservassem suas crenças e pensamentos, inclusive considerou que influência do Islamismo nos negros brasileiros foi uma das que causas das insurreições do século XIX, como por exemplo, a Insurreições dos Haussás em 1809 e a Insurreição dos Malês em 1835, na Bahia. No entanto, Nina Rodrigues considerava o islamismo e o catolicismo, credos superiores às capacidades religiosas dos negros, tanto que conclui sobre o cristianismo considerando que os negros tinham “sua inclinação espontânea para o fetichismo, adaptando a ele o culto católico” (RODRIGUES, 1977, p. 61).

Segundo Vanda Fortuna Serafim, Nina Rodrigues se preocupava “com a questão da miscigenação, não apenas em seus aspectos biológicos, mas também no que se refere às práticas culturais e à vida social” (SERAFIM, 2013, p.110). Neste aspecto, podemos verificar que Nina Rodrigues apresenta as influencias das crenças africanas e indígenas no Brasil, suas influencias no catolicismo, a forma de resistência e a vitalidade principalmente da crença negra.

Nina Rodrigues Discorre sobre a mitologia africana e suas divindades, mostrando como sobreviveram através de influências reciprocas entre os próprios negros e entre o catolicismo, mostra que o

fetichismo africano constituído em culto apenas se reduz ao da mitologia gege-iorubana. Angolas, Guruncis, Minas, Haussás, etc., que conservam as suas divindades africanas, da mesma sorte que os Negros crioulos, Mulatos e Caboclos fetichistas, possuem todos, à moda dos Nagôs, terreiros e candomblés em que as suas divindades ou fetiches particulares recebem, ao lado dos orichás iorubanos e dos santos católicos, um culto externo mais ou menos copiado das práticas nagôs. (RODRIGUES, 1977, p.216).

Nina Rodrigues ao referir sobre estas sobrevivências religiosas, de origens totêmicas e animistas, diz que algumas são consideradas no Brasil como feitiçarias, e estão presentes entre os indígenas, porém, mas preponderantes entre os negros, as quais sobreviveram através dos usos e costumes introduzidos no Brasil, como por exemplo, a lavagem da igreja do Bonfim que é “uma prática religiosa iorubana ou nagô; mas é verdadeiro culto vivo, pois, para Africanos, negros crioulos e mestiços daquela seita, o Senhor do Bonfim é o próprio Obatalá.” (RODRIGUES, 1977, p. 180) e ainda “as danças e cantigas africanas, que se exibiam com este sucesso no Carnaval, são as danças e cantos dos candomblés, do culto jeje-iorubano, fortemente radicado na nossa população de cor” (RODRIGUES, 1977 p. 181). Desta forma podemos verificar sobrevivências africanas tanto em festas populares, carnaval, folclore, alguns contos e algumas danças, como na linguagem, nas vestimentas e na culinária.

4.3 CAPISTRANO DE ABREU

João Capistrano Honório de Abreu, historiador brasileiro, nasceu no ano de 1853 em Maranguape, no Ceará, escreveu a obra Capítulos da História Colonial: 1500-1800, publicada em 1907. Segundo José Carlos Reis, nessa obra Capistrano de Abreu abre novos caminhos para a historiografia brasileira e rompe com o modelo trazido por Varnhagem, é o primeiro na relação de autores da segunda corrente denominada por José Carlos Reis de Redescobrimento do Brasil (1900 a 1960-70), representada após Capistrano de Abreu, por Sérgio Buarque de Holanda, Nelson Werneck Sodré, Caio Prado Junior, Florestan Fernandes e Fernando Henrique Cardoso. Essa corrente se refere a autores que procuram a ruptura com o passado, e “Capistrano de Abreu foi o primeiro a ver o futuro da sociedade brasileira com assimetria profunda em relação ao passado colonial” (REIS, 2006, p. 17).

Antecedendo Casa Grande & Senzala, o livro Capítulos da História Colonial surge como um clássico sobre a colônia, com a valorização do indígena e antecipando abordagens da vida íntima dos índios e dos negros, algo que mais tarde iria aparecer no livro de Gilberto Freyre.

Conforme José Carlos Reis, Capistrano de Abreu juntamente com os intelectuais do fim do século XIX, tiveram as influências positivistas da Comte, de Buckle de Spencer e de Taine, mas Capistrano de Abreu teve ainda a influência cientificista e depois foi influenciado pelo realismo histórico rankiano. Jose Carlos Reis refere que diferente de sua geração, Capistrano de Abreu optou “pela teoria também europeia que valoriza a singularidade, a historicidade de cada povo e formulou uma nova interpretação do Brasil em que enfatizará o tempo histórico específico brasileiro” (REIS, 2006, p. 94).

No livro de Capistrano de Abreu encontramos abordagens sobre a religiosidade, como a religião cristã, que era predominante, sobre o protestantismo, o judaísmo, as crenças indígenas e africanas, mas nenhum de seus capítulos é direcionado exclusivamente a esta temática. No segundo capítulo denominado Fatores exóticos, o qual trata do inicio da história do Brasil, Capistrano de Abreu apresenta a natureza, os índios e elementos exóticos externos que chegam posteriormente, os quais foram o europeu e o africano. Estes dois últimos apresenta como elementos exóticos, o português como colonizador, dominador e propagador do catolicismo. A partir desse elemento europeu apresenta o poder da Igreja e do Estado, o papa como cabeça da sociedade religiosa e o Reis cabeça da sociedade civil. O negro apresenta como mais um personagem.

Para Capistrano de Abreu o catolicismo na colônia era dominante, porém tolerante, o que propiciava a miscigenação das três raças. Em específico sobre o negro diz que “trouxe uma nota alegre ao lado do português taciturno e do índio sorumbático. As suas danças lascivas, toleradas a princípio, tornaram-se instituição nacional; suas feitiçarias e crenças propagaram-se fora das senzalas” (ABREU, 1998, p. 60).

Quanto ao indígena, Jose Carlos Reis se refere que Capistrano de Abreu o valorizou mais que ao negro, pois segundo sua ótica foi a partir da miscigenação do branco com o índio que se forma o brasileiro, o qual “continuou com a ação colonizadora e cristianizadora do português” (REIS, 2006, p. 105).

Capistrano de Abreu apresenta o índio com virtudes morais e intelectuais, busca em outros autores, como Loreto Couto, que escrevia em 1757, a glorificação do indígena, se referindo que este

para provar suas virtudes morais, cita o nome de índios notáveis pelo valor e pela fidelidade, um Tabira, os Camarões e tantos outros auxiliares nas guerras flamengas e na conquista do país. Entre as manifestações de suas virtudes intelectuais aponta os conselhos em que os velhos da tribo discutiam as questões pendentes, o conhecimento das enfermidades e mezinhas, os ardis de caça e pesca. (ABREU, 1998, p. 205-206).

Capistrano de Abreu mostra o índio não desprovido de religião e apresenta um olhar positivo da presença jesuíta no meio dos índios, com a catequização e a mudança de costumes, por exemplo, a nudez pelas vestimentas de algodão, neste caso, elogia os jesuítas por não fazer apenas o essencial, dizendo que a “catequese grandiosa não consistia simplesmente em verter as orações da cartilha para a língua geral, fazê-las repetir pela multidão ignara, submetendo-a à observância maquinal do culto externo” (ABREU, 1998, p. 144).

Capistrano de Abreu apresenta um Brasil mestiço, principalmente entre o português e o índio, mas também proveniente no geral de três raças presentes no organismo social, que são o índio, o português e o negro, os quais também considera consolidadores da nação brasileira consistente de multiplicidade,

ligados pela comunidade ativa da língua e passiva da religião, moldados pelas condições ambientes de cinco regiões diversas, tendo pelas riquezas naturais da terra um entusiasmo estrepitoso [...]. (ABREU, 1998, p. 256).

Podemos verificar que Euclides da Cunha e Capistrano de Abreu tinham a divisão de raças presente em suas narrativas. Também Nina Rodrigues, que realizou profundamente analises sobre a raça e acreditava na inferioridade da raça negra. Esta analise é importante para entendermos nestas ideias dos autores suas interpretações sobre a religiosidade na sociedade brasileira, sempre com a presença das crenças indígenas e africanas, mas com maior predominância do catolicismo, imposto pelos portugueses.

Para Euclides da Cunha o problema etnológico se dá justamente pela mestiçagem, porém mesmo apresentando sua explicação, podemos perceber que suas analises justificam um problema, o qual seria o catolicismo distorcido. Para Nina Rodrigues as sobrevivências religiosas africanas na cultura brasileira, dentro do catolicismo, em festas populares e em contos populares, são percebidas como resultado da miscigenação e contribui para inferiorizar o povo brasileiro. Para Capistrano de Abreu os grupos étnicos eram comunidades que se ligavam não apenas pela língua e pelas condições geográficas, mas também pela religião.

5. A IDENTIDADE RELIGIOSA DA SOCIEDADE BRASILEIRA EM CASA GRANDE & SENZALA1

Neste capitulo apresentaremos uma biobibliografia de Gilberto Freyre, com as inovações teóricas, metodológicas e das fontes em Casa Grande & Senzala. Apresentaremos também a interpretação sobre a identidade religiosa da sociedade colonial brasileira que aparece em Casa Grande & Senzala com base na religiosidade portuguesa, indígena e africana.

5.1 APRESENTAÇÃO BIOBIBLIOGRÁFICA1 DE GILBERTO FREYRE

Gilberto Freyre, natural de Recife, nasceu no dia 15 de março de 1900, filho de Alfredo Freyre e de Francisca de Mello Freyre. Seu pai era educador, juiz de direito e catedrático de Economia Política da Faculdade de Direito do Recife. Faleceu no dia 18 de julho de 1987, com oitenta e sete anos.

Sua vida foi dedicada a pesquisar e a escrever. Aos dezoito anos Gilberto Freyre realizou sua primeira conferencia publica. Neste ano se interessou pelo socialismo cristão e em 1917 tornou-se membro de uma igreja evangélica, porém, apesar de ter sido adepto do protestantismo, sua vida teve várias caminhadas, pois se casou em Mosteiro católico e antes de sua morte recebe os sacramentos da Reconciliação, da Eucaristia e da Estrema Unção dos Enfermos.

Gilberto Freyre realizou diversas viagens internacionais. Nos Estados Unidos iniciou a escrita de seus primeiros artigos e como estudante de sociologia realizou pesquisa sobre a vida dos negros em Waco e dos mexicanos marginais do Texas e concluiu o curso de bacharel em artes. Conheceu Franz Boas e outros professores, intelectuais e cientistas. Foi para a Europa, realizou diversas viagens pelos países europeus, iniciando posteriormente suas viagens pelo Brasil. Fez bacharelado em Ciências e Letras e em Artes e especializou-se em política e sociologia, desta forma, ministrou aulas no Brasil e em diversas universidades na Europa e EUA, escreveu diversos livros e recebeu muitos prêmios importantes. Também teve vida política ativa como deputado federal.

Gilberto Freyre escreveu várias obras, dentre elas podemos destacar a trilogia que explica a formação e desagregação da família patriarcal na sociedade brasileira, sendo a primeira Casa Grande & Senzala, publicada em 1933, a segunda obra Sobrados e Mocambos publicada em 1936 e a terceiro e última obra Ordem e Progresso publicada em 1959. A obra Casa Grande & Senzala: formação da família sob o regime da economia patriarcal é uma das obras mais representativas sobre os problemas e a formação da sociedade brasileira, para José Carlos Reis “é a obra de interpretação do Brasil mais conhecida no país e mais traduzida e editada no exterior” (REIS, 2006. p.51). Esta obra já está na 51ª edição, na 9ª reimpressão em 2016. Tem edições em outros países, como na Argentina, Estados Unidos, França, Portugal, Alemanha, Itália, Venezuela, Polônia, Hungria e Romênia, edição na Coleção Archivos da UNESCO e também edições em quadrinhos P&B e Colorida. A obra é extensa, contando na 51ª edição de 2016, com o total de 727 páginas numeradas, dividida entre o prefácio, capítulos, bibliografia, apêndices e índices.

A obra Casa Grande & Senzala trata de assuntos voltados à formação da sociedade brasileira, sua organização social, política e cultural a partir da casa-grande, a miscigenação, o convívio dos proprietários e dos escravos e a presença indígena, ou seja, delimita-se na formação do Brasil hibrido, neste caso com participação do branco europeu, do índio nativo e do negro escravo. A obra está dividida em cinco capítulos, em que o primeiro se refere às características gerais da colonização portuguesa do Brasil: formação de uma sociedade agrária, escravocrata e híbrida. O segundo capítulo: O indígena na formação da família brasileira. O terceiro: O colonizador português: antecedentes e predisposições. O quarto: O escravo negro na vida sexual e familiar do brasileiro e o quinto como continuação do anterior.

Em síntese o primeiro capítulo levará ao leitor a organização econômica da sociedade brasileira em 1532, a qual era baseada na agricultura do açúcar. Focará na formação social e cultural em torno da casa-grande e das pessoas as quais moravam nela, como, por exemplo, os senhores brancos e os padres, e também sobre o convívio entre escravo negro e senhor branco na casa-grande e na senzala. A colonização como um empreendimento da família patriarcal. O autor mostrará a formação social em volta da casa-grande delimitando os aspectos religiosos, alimentares e de convívio. Com a colonização também abordará a questão da miscigenação que gerou o hibridismo cultural na sociedade brasileira focando na facilidade de adaptação dos colonizadores portugueses.

No segundo capítulo, o autor falará da chegada dos europeus na América e a degradação da sociedade indígena em contato com os brancos portugueses, a interação com os jesuítas e as contribuições indígenas na cultura, na culinária e na medicina. Também mostrará a parte religiosa da cultura indígena, suas magias e ritos, assim como também o convívio entre si e o encanto que a índia era para o português.

No terceiro capítulo será apresentado o colonizador português e suas características, o poder da Igreja Católica, a imigração dos mouros e judeus e a iniciativa privada na colonização.

No quarto e no quinto capítulo, Gilberto Freyre mostrará a herança da cultura africana, suas lendas, mitos, rituais, festas e astrologias, as quais contribuíram para o desenvolvimento cultural da sociedade brasileira. Enfatiza o campo sexual com as relações entre as raças, à educação das crianças brancas pelas escravas negras, os colégios jesuítas, o senhor-de-engenho como um homem que não trabalhava e a culinária negra.

Gilberto Freyre apresenta uma abordagem que favorece o âmbito cultural e enriquece a historiografia brasileira com detalhes da sociedade no Brasil colonial. Isto se dá por que o autor busca em variadas fontes informações da vida, dos costumes, das crenças e das relações que se tinham naquele momento.

5.2 INOVAÇÕES TEÓRICAS, METODOLÓGICAS E AS FONTES

Para José Carlos Reis, a obra Casa Grande & Senzala só pode ser compreendida se atentarmos para a motivação e o problema que incentivou Gilberto Freyre a escrevê-la. Neste caso seria a visão externa que teve do Brasil e da figura do brasileiro levando-o a tratar do tema miscigenação. Porém, para José Carlos Reis, também se deve levar em consideração o ponto de vista teórico-metodológico e social que Gilberto Freyre utiliza, o qual consiste em seu olhar senhorial do Brasil e em sua concordância com o marxismo, mas com “um sentido psicológico ou psicofisiológico na analise do Brasil, aspectos que atuam sobre as sociedades independentemente das pressões econômicas.” (REIS, 2006, p.65).

Para Ricardo Benzaquem de Araújo no período em que Gilberto Freyre escreve Casa Grande & Senzala, os debates intelectuais da época estavam envolta do tema mestiçagem como retardamento do desenvolvimento do Brasil e Gilberto Freyre produz grande impacto ao enfatizar a influência indígena e africana, conferindo à colonização brasileira um caráter híbrido em seu desenvolvimento, a partir da miscigenação. Segundo Ricardo Benzaquem de Araújo, a antropologia e orientação relativista de Franz Boas, leva Gilberto Freyre a separar a noção e raça da de cultura e “contrapor-se à maioria dos seus contemporâneos, redefinir a ideia de mestiçagem e, de certa forma, reinventar o Brasil” (ARAUJO, 2009, p. 200).

Gilberto Freyre com a obra Casa Grande & Senzala inova quanto aos intelectuais de sua época, toma um rumo contrário no que se refere à metodologia a as fontes, prioriza a abordagem cultural e utiliza fontes antes não utilizadas, sai de uma história somente documental e penetra no cotidiano das pessoas. Carlos Guilherme Mota se refere à Gilberto Freyre como um dos autores intelectuais que estabelecem novos parâmetros no conhecimento do Brasil e de seu passado, inclusive diz que

a obra de Freyre teve o peso de uma denúncia do atraso intelectual, teórico, metodológico, que caracterizava os estudos sociais e históricos na Brasil. Ao bacharelismo, à cultura estagnada, suas analises contrapunham uma interpretação livre e valorizadora dos “elementos de cor” – enfeixadas numa obra de difícil classificação dentro dos moldes convencionais e compartimentados (Economia, Sociologia, Antropologia, etc. (MOTA, 1978, p. 30).

A obra Casa Grande & Senzala, para Gilberto Freyre foi um ensaio de sociologia e de história social, escrita a partir do estudo da história da vida íntima da sociedade brasileira, prezando pelos aspectos mais significativos da rotina de vida, da vida doméstica, como “um passado que se estuda tocando em nervos; um passado que se emenda com a vida de cada um; uma aventura de sensibilidade, não apenas um esforço de pesquisa pelos arquivos” (FREYRE, 2006, p.45).

Quanto às fontes, no prefácio da obra Casa Grande & Senzala, Gilberto Freyre relaciona o enorme arsenal de fontes utilizadas, como inventários, cartas de sesmarias, testamentos, correspondências, relatórios de bispos, atas de sessões, confrarias, arquivos inquisitórios e eclesiásticos, documentos públicos de cartório e da câmara, relatórios de junta de higiene, documentos parlamentares, documento e estudos médicos, arquivos de família, livros de viagens, cartas de jesuítas, livros de modinhas, de folclore, de culinária, coleções de jornais, livro de etiqueta, livros atas, literatura e muitas outras, as quais o ajudaram no estudo e no relatado da vida intima da família patriarcal brasileira.

5.3 A RELIGIOSIDADE NO INDÍGENA

Para Gilberto Freyre a sociedade brasileira é hibrida e se constituiu de maneira harmoniosa com as outras raças. Em relação ao indígena, a reciprocidade cultural e a mestiçagem entre europeu e o índio, Gilberto Freyre mostra o papel da mulher indígena, em que o colonizador católico

organizou-se uma sociedade cristã na superestrutura, com a mulher indígena, recém-batizada, por esposa e mãe de família; e servindo-se em sua economia e vida doméstica de muitas tradições, experiências e utensílios da gente autóctone. (FREYRE, 2006, p. 160).

Na compreensão de Gilberto Freyre o indígena está presente no processo de formação da família brasileira, neste caso, a cultura moral dos indígenas, como as práticas sexuais, as relações de família, a magia e a mística “são traços que se comunicaram à cultura e à vida do colonizador português” (FREYRE, 2006, p.168). Um dos primeiros relatos apresentados por Gilberto Freyre foi à questão do casamento religioso entre índios com laços sanguíneos relatados pelo padre Anchieta em que os próprios padres realizavam os casamentos, “o que mostra ter a moral sexual dos índios afetado logo os princípios da colonização à moral católica e às próprias leis da igreja relativas a impedimentos de sangue para o matrimônio” (FREYRE, 2006, p. 170).

Gilberto Freyre sempre se refere ao misticismo como resposta ao surgimento de manifestação religiosa que percebe na sociedade, como o caso do encarnado, a cor vermelha que Gilberto Freyre observa preferencialmente no índio, mas também nas práticas portuguesa e africana. Para Gilberto Freyre em “qualquer das três vias, trata-se de um costume místico, de proteção ou de profilaxia do indivíduo contra espíritos ou influências más” (FREYRE, 2006, p. 173).

Gilberto Freyre atribui aos europeus a culpa pela degradação da raça e da cultura indígena. Ele define a diferença entre raças com a distinção de superiores e inferiores. Neste momento ele enfatiza que o contato dessas duas só pode produzir ou extermínio ou degradação. Assim podemos observar que para Gilberto Freyre no Brasil a raça indígena “intoxicou” a moral católica, mas ao mesmo tempo também observamos que para Gilberto Freyre foi o catolicismo que “sufocou” muitos modos de vida indígena, como algumas danças e festividades, “procuraram destruir, ou pelo menos, castrar, tudo o que fosse expressão viril de cultura artística ou religiosa em desacordo com a moral católica e com as convenções europeias.” (FREYRE, 2006, p. 178). Notamos que apesar de Gilberto Freyre rejeitar o conceito de raça como fator explicativo da formação da sociedade brasileira, ele não rompe totalmente com o conceito ao se referir aos indígenas.

Gilberto Freyre mostra que a denominação de bugres dada pelos portugueses aos indígenas se dá como forma de expressão da incredulidade e heresias que acreditam os índios terem em comparação às crenças ainda medievais do português, inserindo “o termo bugre que ficou impregnado da mesma ideia pegajosa de pecado imundo” (FREYRE, 2006, p. 189).

A influência dos padres jesuítas na moralização, no ensino e na técnica de exploração econômica do indígena alterou seu modo de vida. Gilberto Freyre mostra que inclusive a imposição de vestuário “aos indígenas pelos missionários europeus vem afetar neles noções tradicionais de moral e de higiene, difíceis de se substituírem por novas” (FREYRE, 2006, p. 180).

Segundo Gilberto Freyre era principalmente a mulher indígena que desenvolvia a magia e a arte, salvo alguns homens efeminados ou bissexuais, que se tornavam pajés e eram temidos e respeitados, os quais “resvalaram em geral os poderes e funções de místicos, de curandeiros, pajés, conselheiros, entre várias tribos americanas” (FREYRE, 2006, p. 186).

O menino indígena, chamado de culumim, ensinado pelos padres, aprendiam novos padrões cristãos de moralidade, não preservando a cultura e tradição indígena. Desta forma, segundo Gilberto Freyre, o menino indígena representa um ponto de contato entre a cultura europeia e indígena, pois é o menino que os jesuítas catequizam e se tornam como “veículo civilizador do missionário católico junto ao gentio, quer como condutor por onde preciosa parte de cultura aborígene escorre das tabas para as “missões” e daí para a vida, em geral, da gente colonizadora” (FREYRE, 2006, p. 198).

Nas danças dos meninos indígenas, nas imitações de animais, em jogos e brinquedos, em histórias, cantigas e contos de bichos infantis, Gilberto Freyre considera uma espécie de memória social herdada, com resquícios de animismo e totemismo indígena, “sob formas católicas, superficialmente adotadas, [...] na cultura brasileira” (FREYRE, 2006, p. 200). Neste contexto, Gilberto Freyre ainda refere sobre os cuidados com as crianças contra os maus-olhados e para proteção, em que os indígenas desfiguram as crianças, perfuram suas orelhas, penduram dentes de animais e as crianças de famílias devotas ao catolicismo que próximo destas práticas tinham o costume de ofertar cachos do cabelo à imagem do Senhor dos Passos, ou ainda pendurava teteias “ao pescoço – dentes de animais, figas de madeira ou de ouro, bentos e medalhas católicas” (FREYRE, 2006, p. 203).

A presença do animismo e do totemismo indígena na sociedade brasileira enlaçada de alguma forma na cultura é vista por Gilberto Freyre como resquício das experiências e superstições indígenas que foram diminuídas, porém, ao mesmo tempo, assimiladas entre as culturas, como “é o folclore, são os contos populares, as superstições, as tradições que o indicam.” (FREYRE, 2006, p. 211). Para Gilberto Freyre isso representa uma integração ao meio e uma predisposição dos portugueses em incorporar e assimilar, como por exemplo, a referência que os índios tinham costume de colocar nomes de animais nos filhos para serem repugnantes aos demônios e que tanto os adultos quanto as crianças tinham enorme medo do diabo, talvez influência do diabo cristão, pois “o diabo do sistema católico veio juntar-se ao complexo Jurupari ou mesmo absorvê-lo” (FREYRE, 2006, p 211).

Para Gilberto Freyre o português assimilou crenças primitivas, teve predisposição aos medos, mentalidades, pavores e instintos primitivos por que tudo que nos rodeia tem o toque de influências estranhas, como em aparições, mal-assombrados e encantamentos, isso se deve por que “o brasileiro é por excelência o povo de crença no sobrenatural” (FREYRE, 2006, p. 212). Desta forma, Gilberto Freyre caracteriza a crença no sobrenatural na cultura brasileira derivada da herança ancestral primitiva, inclusive também a selvageria, das quais se entende no pensamento de Gilberto Freyre como resultado de “culturas oprimidas explodindo para não morrer sufocadas, rompendo a crosta da dominante para respirar” (FREYRE, 2006, p. 213).

5.4 A RELIGIOSIDADE NO PORTUGUÊS

Segundo Gilberto Freyre, a colonização portuguesa trouxe para o Brasil um elemento religioso importante para a formação da família brasileira, o catolicismo, que para Gilberto Freyre foi o cimento da unidade, caracterizada por uma religião que era “mais uma liturgia antes social que religiosa, um doce cristianismo lírico, com muitas reminiscências fálicas e animistas das religiões pagãs [...]” (FREYRE, 2006, p. 84). Para Gilberto Freyre o português, mais do que qualquer colonizador europeu, sobressai com sua plasticidade, resultado de uma facilidade de cruzamento e miscigenação, características da sociedade portuguesa anterior à colonização.

Gilberto Freyre considera que a formação social brasileira faz-se de fé religiosa do português, neste caso a fé católica, tanto que afirma que na América no século XVI ninguém era impedido de entrar na colônia, “o que era preciso é que fosse católico-romano ou aqui se desinfetasse com agua benta de heresias pestífera. Que se batizasse. Que professasse a fé católica, apostólica, romana” (FREYRE, 2006, p. 277).

Gilberto Freyre caracteriza a formação da sociedade portuguesa pelo desempenho de ordens religiosas, como, por exemplo, os judeus e os mouriscos; sendo assim, Gilberto Freyre acredita que “a nação constitui-se religiosamente, sem prejuízo das duas grandes dissidências que por tolerância política da maioria, conservaram-se [...]” (FREYRE, 2006, p. 284). Desta forma, ele defende que devido à cultura portuguesa ter sido influenciada tanto pelos judeus, quanto pelos mouros, já provinha de misturas religiosas da Europa e teve facilidade para colonizar a América tropical e absorver outras influências ou ainda tolerá-las.

Gilberto Freyre salienta que a formação do caráter português se deu a partir da mistura do português com o mouro, neste caso considera a formação social e cultural da América colonizada pelos portugueses, com influências do misticismo e da cultura maometana. Desta forma, apresenta a colonização do Brasil pelo português com entusiasmo religioso anterior ao da conquista, “o Brasil foi por algum tempo a Nazaré das colônias portuguesas. Sem ouro nem prata. Somente pau-de-tinta e almas para Jesus Cristo” (FREYRE, 2006, p. 322).

A sobrevivência pagã dos mouros no cristianismo português teve papel importante para que no Brasil o catolicismo português fosse influenciado pelas religiosidades indígenas e africanas. Nos relatos de Gilberto Freyre sobre o caráter social na sociedade colonial, observamos a presença dessas influências religiosa, como por exemplo, algumas festas aos santos com presença afrodisíaca africana como a festa de São João, ou a proteção de Santo Antônio, “um dos santos que mais encontramos associados às práticas de feitiçaria afrodisíaca no Brasil” (FREYRE, 2006, p. 326-327). Também o culto a São Gonçalo na Bahia, festa influenciada por “elementos orgásticos africanos que teria absorvido no Brasil. Mas o resíduo pagão característico, trouxera-o de Portugal o colonizador branco no seu cristianismo lírico, festivo, de procissões alegres [...]” (FREYRE, 2006, p. 329).

Para Gilberto Freyre essas sobrevivências pagãs foram possíveis devido à facilidade do português em se adaptar, inclusive refere às festas cristãs com símbolos do paganismo, danças orgiásticas em honra aos santos católicos, culinária portuguesa com simbolismo sexual afrodisíaco, linguagem com palavrões e safadezas e o não desprezo dos jesuítas pelos conhecimentos místicos dos curandeiros indígenas, os quais para Gilberto Freyre “são traços todos estes que indicam o pendor português para adaptação” (FREYRE, 2006, p.335).

5.5 A RELIGIOSIDADE NO AFRICANO

Podemos observar que Gilberto Freyre lança um olhar diferente ao negro, à sua cultura e aos aspectos da religiosidade africana que teve sua origem no continente africano e resistiu na colônia, inclusive nas disposições de capítulos da obra Casa Grande & Senzala, em que dedica para o escravo negro os dois últimos capítulos de sua obra e apenas um capítulo para o indígena e outro para o português.

Gilberto Freyre considera que quase todos os brasileiros trazem de alguma maneira a marca da influência negra “na ternura, na mímica excessiva, no catolicismo em que se deliciam nossos sentidos, na música, no andar, na fala, no canto de ninar de menino pequeno, em tudo que é expressão sincera da vida” (FREYRE, 2006, p. 367). Freyre enfatiza a influência negra no processo de formação da família brasileira, no que tange à organização social, moral e religiosa, e ressalta

a influência africana fervendo sob a europeia e dando um acre requeime à vida sexual, à alimentação, à religião [...] corrompendo a rigidez moral e doutrinária da igreja medieval; tirando os ossos ao cristianismo, ao feudalismo, à arquitetura gótica, à disciplina canônica, ao direito visigótico, ao latim, ao próprio caráter do povo. (FREYRE, 2006, p. 66).

Para o autor de Casa Grande & Senzala há uma diferença entre raças, um termo que frequentemente ele utiliza, baseando nos estudos de Nina Rodrigues, o qual considera o negro brasileiro uma raça superior a de outros negros. Porém, para Gilberto Freyre era a condição de escravidão que degrada e diminui o negro no Brasil e não a sua raça, pois considerava que “não era a “raça inferior” a fonte da corrupção, mas o abuso de uma raça por outra.” (FREYRE, 2006, p. 402).

Gilberto Freyre em sua abordagem sobre os negros, influenciado por antropólogos, como o seu orientador Franz Boas, instiga-nos com suas informações para comprovar a superioridade de raça e na organização social influenciada pelo Islamismo, inclusive no trato da educação, pois vinham mestres e pregadores da África para os ensinar e “ nas senzalas da Bahia de 1835 havia talvez maior número de gente sabendo ler e escrever do que no alto das casas-grandes” (FREYRE, 2006, p. 382). No intuito de apresentar uma leitura sobre a formação da sociedade brasileira com foco cultural, Gilberto Freyre incrementa nesta formação não apenas a etnicidade, mas a valorização dos conhecimentos dos escravos negros, provindas do continente africano e “revela-nos no negro traços de capacidade mental em nada inferior à das outras raças” (FREYRE, 2006, p. 379).

Segundo Gilberto Freyre, Nina Rodrigues observava elementos religiosos maometanos fortemente expressos e com saliente intelectualidade e “proeminência intelectual e social entre os negros importados para o Brasil” (FREYRE, 2006, p. 393). Observamos nos relatos de Gilberto Freyre uma relação que parece ter ocorrido entre as diferenças de religiosidades na atuação cultural desenvolvida na formação brasileira, em que “forçosamente o catolicismo no Brasil haveria de impregnar-se dessa influência maometana como se impregnou da animista e fetichista, dos indígenas e dos negros menos cultos.” (FREYRE, 2006, p. 394).

Em Casa Grande & Senzala também são destacados traços maometanos em orações, em costumes como atar papeis nos pescoços ou nas portas, em festas, em rituais, em vestimentas, em predisposição religiosa e também na organização religiosa e em revoltas de escravos na senzala, e desta forma salientasse a “atuação cultural desenvolvida na formação brasileira pelo islamismo, trazido ao Brasil pelos escravos malês” (FREYRE, 2006, p. 395). Assim, com as influências africanas misturadas com as liturgias católicas e rituais indígenas, se destaca uma sociedade hibrida que teria se misturada docilmente, favorecendo um catolicismo não tão rigoroso como o europeu, mas flexível e determinante na formação da sociedade brasileira, com “práticas em que às influências africanas misturavam-se, muitas vezes descaracterizados, traços de liturgia católica e sobrevivência de rituais indígenas” (FREYRE, 2006, p. 407).

Podemos então constatar que Gilberto Freyre atribui às influências africanas como marcantes na sociedade colonial, evidenciando laços do convívio entre os senhores brancos e os escravos negros, principalmente pela religião, que “tornou-se o ponto de encontro e de confraternização entre as duas culturas” (FREYRE, 2006, p.439). Porém mesmo Gilberto Freyre dando importância especial aos negros, ele faz diferença entre todo brasileiro e os negros, mostrando convívio, mas não igualdade.

Sobre as religiosidades africanas Gilberto Freyre se refere por vezes à feitiçaria, à magia sexual, ao misticismo negro e à macumbaria, como também quando trata de algum misticismo português se refere à bruxaria, satanismo europeu e a crença no sortilégio, trazida pelos colonos para o Brasil. Gilberto Freyre considera que todas estas práticas dominadas pelos negros se movimentam geralmente em torno do motivo amoroso em que “as influências africanas misturaram-se, muitas vezes descaracterizados, traços de liturgia católica e sobrevivência de rituais indígenas” (FREYRE, 2006, p. 407).

Das práticas religiosas dos africanos que se desenvolveram no Brasil, Gilberto Freyre evidência que não foram somente os feitiços sexuais e afrodisíacos para fins amorosos, mas também para fecundidade, para proteção como cuidados profiláticos. As negras (em alguns casos o negro) exerciam o papel de curandeiras, por “meio de bruxedos, rezas, benzeduras” (FREYRE, 2006, p. 446). As escravas negras participavam na vida doméstica dos senhores praticando as cantigas de ninar, cheias de misticismo, que traziam medos e mal-assombrados, também eram ativas na culinária, a qual tinha caráter afrodisíaco, religioso e litúrgico no preparo, com “reminiscências de velhos cultos fálicos ou totêmicos” (FREYRE, 2006, p. 543).

Gilberto Freyre apresenta o cristianismo doméstico, lírico e festivo, o qual chega à colônia e cria nos negros as primeiras ligações espirituais e morais nas relações com os brancos, inclusive dá “aos negros a oportunidade de conservarem, à sombra dos costumes europeus e dos ritos e doutrinas católicas, formas e acessórios de cultura e da mítica africana.” (FREYRE, 2006, p. 438). Neste caso, Gilberto Freyre acredita que foi harmonioso o processo sincrético na colônia, de aproximação das duas culturas e dos negros destaca que “seus cantos de trabalho, tanto quanto os de xangô, os de festa, os de ninar menino pequeno, enchem de alegria africana a vida brasileira.” (FREYRE, 2006, p. 551).

Gilberto Freyre destaca que a formação brasileira não é um processo de pura europeização, mas sim de adaptação da cultura europeia com a indígena e a africana, circunstancia esta, que identifica a religião na formação da sociedade brasileira de característica hibrida o que se poderia notar no

próprio sistema jesuítico - talvez a mais eficiente força de europeização técnica e de cultura moral e intelectual, a agir sobre as populações indígenas;[...]. Na cristianização dos caboclos pela música, pelo canto, pela liturgia, pelas profissões, festas, danças religiosos, mistérios, comédias; pela distribuição de verônicas com ágnus dei, que os caboclos penduravam no pescoço, de cordões, de fitas e rosários; pela adoração de relíquias do Santo Lenho e de cabeças das Onze Mil Virgens. Elementos muitos desses, embora a serviço da obra de europeização e de cristianização, impregnados de influência animista ou fetichista vinda talvez da África. (FREYRE, 2006, p. 115).

As referencias de Gilberto Freyre em Casa Grande & Senzala enfatiza a história social da Casa Grande, a vida íntima de quase todo brasileiro e desta forma refere-se à presença da religião como um dos elementos constitutivos na formação a sociedade brasileira, com predomínio do catolicismo, um “cristianismo reduzido à religião de família e influenciado pelas crendices da senzala” (FREYRE, 2006, p. 44). A ideia que Gilberto Freyre apresenta é de uma identidade religiosa brasileira formada a partir de um tipo de catolicismo luso-brasileiro enquadrado ao novo ambiente como resultado do equilíbrio entre as raças, não nos esquecendo de um fator preponderante que é a predisposição do português para a colonização hibrida antes de chegar ao Brasil, em que Freyre explica pelo “passado étnico, ou antes, cultural, de um povo indefinido entre a Europa e a África” (FREYRE, 2006, p. 66).

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Gilberto Freyre é um intelectual importante na historiografia brasileira, com sua abordagem com ênfase na cultura e não na raça como fator explicativo da formação da sociedade colonial brasileira. No pensamento de Gilberto Freyre encontramos novas possibilidades que subsidiam o entendimento social e coopera para a interpretação do processo histórico de uma nação. Desta forma, nos leva ao entendimento da sociedade colonial brasileira pensando na miscigenação cultural, não apenas na miscigenação racial e étnica, desta maneira incluindo a religiosidade como fator importante neste processo.

Como podemos observar nesta pesquisa, em Casa Grande & Senzala verificamos que para Gilberto Freyre a compreensão da identidade religiosa da sociedade colonial brasileira implica a miscigenação cultural com influências religiosas presente na colonização, provenientes da interação e convivência entre os portugueses, os índios e os negros. Neste caso, estamos falando de uma identidade religiosa de natureza hibrida e miscigenada, com preponderância católica e com presença de elementos da religiosidade indígena e da africana, que se desdobra em diversidade religiosa.

Como dissemos, as interpretações de Gilberto Freyre proporcionam várias possibilidades que não se findam neste trabalho, com recorte apenas no tema da religiosidade pelo viés da História das Ideias, ainda há aberturas para diversas pesquisas e outros campos historiográficos os quais o historiador pode propor, como por exemplo, História da Sexualidade ou História de Gênero, ou ainda sobre as ideias de Gilberto Freyre na perspectiva educacional jesuítica.

7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABREU, Capistrano de (1853-1927). Capítulos da história colonial, 1500-1800. 7ª Ed. rev. anotada e prefaciada por José Honório Rodrigues. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1988.

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FREYRE, Gilberto. Casa Grande & Senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. Apresentação de Fernando Henrique Cardoso. 51ª ed. rev. São Paulo: Global. 2006.

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SILVA, Ricardo Oliveira Da. História das ideias: abordagens sobre um domínio historiográfico. Revista Brasileira de História & Ciências Sociais. RBHCS. Vol. 7 nº 13, junho de 2015.

1 Parte deste capítulo com alterações foi apresentada em comunicações orais em eventos. O primeiro artigo intitulado Sincretismo religioso no Brasil (colonial): uma perspectiva de análise através da obra Casa Grande & Senzala foi apresentado no Congresso Internacional de História: Novas epistemes e narrativas contemporâneas entre os dias 27 a 29 de setembro de 2016 na Universidade Federal de Goiás em Jataí-GO e publicado nos anais eletrônico do evento. O segundo artigo intitulado A religiosidade africana em Casa Grande & Senzala foi apresentado no XIII Encontro da ANPUH-MS: "Histórias, democracia e possibilidades do saber histórico" na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul entre os dias 08 a 11 de novembro de 2016 em Coxim-MS, ainda não publicado.

2 Sobre a vida e obra de Gilberto Freyre nos baseamos no Apêndice 1 – Biobibliografia de Gilberto Freyre (Edson Nery da Fonseca) contido na obra Casa Grande & Senzala de Gilberto Freyre, 51ª ed. rev. da editora Global de 2006.


Publicado por: Lidiana Zanati

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