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Os processos de violência simbólica e a orientação educacional

Educação

Estudar a violência é algo muito complexo, sem dúvidas ela se manifesta de várias maneiras e advém de muitos fatores. Ela sempre existiu na sociedade e nos últimos anos vem aumentando, principalmente no que diz respeito à educação.

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1. RESUMO:

A presente pesquisa abordou como tema a questão da violência simbólica e a orientação educacional. Para tal, usou-se da pesquisa bibliográfica. Tomou-se como base a teoria de Kupfer e Bourdieu, ambas pertencentes a campos de estudos distintos, um a psicanálise e outro a sociologia. Porém, ambas trazem contribuições para a atuação da orientação educacional. A teoria de KUPFER traz a violência simbólica como necessária e estruturante, já a teoria de Bourdieu á retrata como sendo perversa. A pesquisa buscou apontar as principais concepções teóricas a cerca da violência simbólica segundo Kupfer e Bourdieu e por fim situar o trabalho do orientador educacional em meio a essas duas teorias. Buscou-se por meio da mesma criar subsídios teóricos para a atuação do orientador educacional tendo em vista a violência nos dias atuais no ambiente escolar.

PALAVRAS CHAVES: violência simbólica, Kupfer, Bourdieu, orientação educacional.

2. INTRODUÇÃO

A escola de hoje virou cenário de violência. Não é a toa que a mesma tem buscado auxílio junto á polícia para resolver seus conflitos. São inúmeros os casos de vandalismo, depredação do patrimônio público, brigas e desrespeito dentro dos ambientes de ensino. Diante desses acontecimentos, a gestão escolar tem buscado maneiras de solucionar esses problemas e ter de volta a tão sonhada paz dentro das instituições. Dentro da escola a pessoa responsável por mediar os conflitos e intervir nos casos de violência é o orientador educacional, que busca, através de estratégias planejadas, tornar o ambiente de ensino pacífico e produtivo, visando o sucesso dos educandos.

Pensando nessa ação exercida pelo orientador educacional dentro das instituições é que surgiu o interesse pela presente pesquisa. É evidente que o trabalho do orientador é imprescindível e que é ele quem vai trabalhar todas essas situações conflitivas na escola. Baseado nessa ideia, começamos a estudar sobre as formas de resolver esses problemas de violência, iniciando pela convicção de que, para resolvê-los, não basta apenas solucioná-los no momento em que eles ocorrem, mas deve-se buscar a raiz, as causas, isto é, sua real origem.

Ao estudar as teorias dos autores Kupfer e Bourdieu, bem como, de outros autores, identificamos que há entre eles um consenso quanto à existência de uma violência própria da educação. Esse processo educacional recebe o qualificativo de violento por impor aos educandos uma ordem, uma restrição, ou seja, um enquadramento nos padrões estabelecidos. Trata-se de uma violência de nível simbólico.

Essa violência é inerente ao processo escolar e inevitável, sendo praticamente imperceptível, pois ela é tida como algo normal. Segundo a autora (KUPFER, 2007), a violência simbólica é necessária e estruturante. Para essa autora que lê a violência sobre as lentes da psicanálise, o aluno precisa encontrar no professor uma referência, um ideal, o professor precisa impor a este a ordem, as leis, bem como, o limite o não, pois caso contrário, se este não tiver recebido esta imposição facilmente resultará em agressividade e violência real, já que lhe falta a violência simbólica.

No entanto, Bourdieu nos alerta para outra face da violência simbólica, que é o abuso da autoridade da ação pedagógica. Segundo o autor, a escola tem usado de seus poderes para impor a cultura das classes dominantes como legítima, privilegiando aqueles que já nascem inseridos nessa cultura e menosprezando aqueles que pertencem à outra cultura, que precisam despir-se de suas ideologias e aceitar as impostas por essa nova cultura. Caso contrário, são excluídos e ridicularizados, acabando sempre às margens da sociedade. Assim há também a imposição de uma violência simbólica perversa que humilha e oprimi e que muitas vezes traz consequências mais severas que a própria violência real.

Diante dessas duas teorias, diferentes entre si por pertencerem a campos de estudos distintos, um à psicanálise e outro à sociologia, percebemos que ambas possuem elementos fundamentais que podem contribuir para a ação do orientador educacional junto ao corpo docente e discente. Através dessa pesquisa é possível estabelecer uma ponte entre a violência simbólica da Kupfer, necessária e estruturante que ajudará a diminuir os atos de violência reais, já que, para a autora, a falta da violência simbólica é a causadora da violência propriamente dita como real. E fazendo uso das contribuições de Bourdieu é possível de evitar que o professor use desse poder da ação pedagógica para excluir, desqualificar e reproduzir as classes sociais, bem como, as desigualdades sociais.

A orientação educacional tem como função dentro da escola mediar os conflitos educacionais e prezar pela aprendizagem e desenvolvimento do educando, visando o seu sucesso escolar. Para tal, é preciso reconhecer que existe certo grau de violência no processo escolar que se faz necessária, mas ao mesmo tempo é esta mesma violência que se torna um dos problemas educacionais e que colaboram para os atos de violência ditos como reais, ou seja, os atos de pura agressão e vandalismo. Sendo assim, chegamos a seguinte problemática: como a orientação educacional pode trabalhar neste espaço, considerando estas duas perspectivas da violência simbólica, sendo ela, por um lado, necessária e, por outro, contendo um caráter perverso?

Essa pesquisa tem como objetivo geral situar o trabalho do orientador educacional no espaço que fica entre a violência simbólica necessária e estruturante e a violência simbólica perversa que exclui e oprime. E como objetivos específicos:

Apontar as principais concepções teóricas acerca da violência simbólica segundo Kupfer; apontar as principais concepções teóricas a cerca da violência simbólica segundo Bourdieu e Passeron; discorrer sobre o espaço entre as duas perspectivas teóricas situando o trabalho do orientador educacional.

Para tal, usamos da pesquisa bibliográfica, tomando como base a teoria criada por Kupfer e Bourdieu, através de artigos e livros escritos pelos mesmos. Já para situar o trabalho do orientador educacional, usou-se de vários autores que tratam dessa temática. Após discorrer sobre a teoria de Kupfer e Bourdieu, buscamos discorrer sobre o papel da orientação educacional em meio a elas. Nas considerações finais retomamos algumas questões referentes à teoria e à prática, vislumbrando o trabalho do orientador educacional e sua importância no ambiente escolar.

3. A VIOLÊNCIA SIMBÓLICA EM KUPFER

Estudar a violência é algo muito complexo, sem dúvidas ela se manifesta de várias maneiras e advém de muitos fatores. Ela sempre existiu na sociedade e nos últimos anos vem aumentando, principalmente no que diz respeito à educação. Antigamente a escola não sofria tanto com problemas de violência como nos dias atuais, talvez seja, por isso, que muitos estudiosos têm investigado esse fenômeno com tanta intensidade. A autora Kupfer em seu livro “Educação Para o Futuro, Psicanálise e Educação” (2007), apresenta em um dos capítulos uma leitura psicanalítica do fenômeno violência presente na educação, e que será exposto nesse capítulo.

A autora inicia com a ideia de que existe uma violência própria da educação. Segundo a mesma, educar exige um esforço de humanização. Esse esforço é chamado de violento, pois impõe a essas crianças e jovens certa força, ou seja, uma regulação que faz com que estes sejam moldados pela cultura criada pela sociedade. Essa impõe a forma como devem se comportar, a linguagem, a cultura, bem como, as leis, impedindo assim que outras significações venham a se manifestar. Não há escolha e não tem nada de natural como afirma Kupfer, porém essa imposição não é arbitrária, pois aquele que a exerce também está submetido a essa ordem. Trata-se de uma violência simbólica, que, ao impor a cultura e as normas, impede que a criança desenvolva outras formas de interpretação para as sensações que a cercam. No entanto, ao fazer isso, torna-se plausível a possibilidade de tornar existentes e compartilhadas por um código comum as suas necessidades e anseios.

Essa experiência pode ser vista como relatada por Kupfer, quando uma mãe atribui ao choro da criança o sentido, que pode ser de fome, frio, dor ou outra sensação, indo assim de encontro com a necessidade da criança que passa a chorar sempre que a sente. Dessa forma, perde a chance de escolher, por exemplo, outra forma de chamar esses movimentos peristálticos, mas ganha a chance de torná-los existentes.

Nessa teoria, tem-se uma perspectiva muito importante, por entender que mesmo sendo essa imposição violenta, incisiva e sem meias medidas, como fala Kupfer, ela não é arbitrária. Isso por que aquele que a impõe, seja o adulto à criança ou os professores aos alunos, também está submetido a ela, ao jogo simbólico, que se expressa numa restrição a algo. Sendo assim, toda essa violência e imposição não estão ligadas às vontades pessoais dos agentes que a impõe, mas sim no registro da lei.

Segundo Kupfer, essa é a violência da educação, inevitável e estruturante. Outro nome para ela é violência simbólica. Essa violência não é, como diz Kupfer, acionada uma única vez, mas sim a todo instante, em cada situação de aprendizagem, no estabelecimento da lei, do não, do limite. Educar pode-se dizer que é um ato conflitivo, pois não se educa sem imposições de regras e limites. O professor está a todo instante reafirmando as leis e impondo aos alunos as regras, seja pela forma de se relacionar com seus alunos, pelas formas de avaliar, de organizar a sala, se comportar, entre tantas outras. Sendo assim, falar da violência na educação não se refere a pais e professores que batem em seus filhos e alunos, mas do caráter violento no estabelecimento da lei.

A psicanálise ajuda a pensar a respeito da violência na educação, por essa pertencer ao campo social que é alvo de estudo da mesma e por ser o seu estudo a constituição do sujeito na relação com o outro. Esse sujeito, do inconsciente, segundo a psicanálise, constitui-se através da relação com o outro e, por essa razão, na dimensão simbólica do campo social. A psicanálise ajuda a teorizar sobre os diferentes lugares em que o sujeito pode assumir no campo social e nessa relação com o outro, bem como, as formas com que o sujeito se relaciona com os objetos do mundo.

A autora retrata que esses registros e modos com que os sujeitos se relacionam e se colocam são três, os quais ela cita como: o registro do real; do simbólico; e do imaginário. Iniciando pelo registro do imaginário e trazendo-o para os dias atuais, a autora coloca o fato de vivermos em um mundo em que há prevalência do imaginário. Segundo a mesma, se não houver uma rede que sustente uma tradição, um passado que possa remeter os sujeitos a significações para o futuro, os objetos passam a ser sem sentido operando em um mundo fragmentado. No campo da educação, esse registro do imaginário pode ser explicado pelo fato dos educadores viverem isolados e solitários mesmo vinculados a sindicatos e unidos entre si. Isso porque toda profissão precisa de uma rede imaginária que a apoie, organize, dê valor e sentido a sua prática. No entanto, a rede imaginária que se estende sobre a educação está aos pedações. Não se vê mais a antiga reverência aos professores como se via antigamente. O professor está desvalorizado, não é visto mais como o grande mestre, mas como o coitado do professor. Os jovens de hoje não encontram sentido na escola e não conseguem situar o professor em uma cadeia simbólica. O professor já não transmite mais a cultura de seus antepassados. Ao contrário, carrega sobre si o peso de sustentar em nome próprio o conhecimento construído ao longo dos séculos. Essa é uma tarefa muito difícil e quase impossível de ser realizada.

A autora faz menção que na interpretação de um lacaniano o professor se apresenta nos dias de hoje como o pequeno professor e não mais como antigamente o grande mestre, que segundo os mesmos estaria barrado e sustentando uma ordem ou uma referência. Nessa perspectiva, um lacaniano diria que ao impor a lei, o simbólico, o agente de imposição, no caso aqui o educador, deveria também estar “barrado”, submetido à mesma.

Nessa perspectiva, pode-se dizer que a violência simbólica é necessária e que está em falta na escola. Dessa maneira, a falta da mesma resultará em três respostas que, segundo a autora, são: de natureza real, imaginária e simbólica.

No caso da violência imaginária os alunos responderão com ataques ao professor que é colocado como pequeno e sem valor, que não representa mais o papel de grande outro e não lhes significa uma referência, um ideal. Sendo assim, na escola particular, como fala Kupfer, ouvirão coisas do tipo “você não pode me reprovar, pois sou eu que pago o seu salário” (KUPFER, 2007, p.144). Já na escola pública seu carrinho velho ou, como fala a autora, “seu fusca 68” (KUPFER, 2007, p.144), jogado e amassado será o motivo do desrespeito. Dessa forma, mergulhado por esses desrespeitos e desvalorização o professor responderá, usando de autoritarismo e violência na forma de educar, já que falta para este autoridade de fato.

É claro que no meio de tudo isto, surgem de maior ou menor escala, atos de violência reais, talvez resultantes justamente de ordem simbólica. Alguns alunos, além da troca de insultos, têm partido para os atos de agressão e depredação. Sem nenhuma razão ou motivação específica, simplesmente partem para a agressão e vandalismo. Kupfer faz uma comparação desses alunos com psicóticos, afirmando que estas:

Essas ações se aproximam muito do modo como agem algumas crianças psicóticas. Para essas, o Outro tão pouco esta barrado, e por isso esse Outro as ameaça constantemente com seu desejo invasivo, voraz, não castrado. Então, a criança psicótica da um jeito de castrar o outro “na marra” (um lacaniano diria, no real do corpo). Busca tirar-lhe pedaços, numa ação “escavadora”, como se ela pudesse, com isso, inaugurar a ordem simbólica que, justamente, lhe falta. (KUPFER, 2007, p. 145).

Dessa forma, o aluno depredador está na verdade buscando de uma forma desesperada instaurar a violência simbólica que justamente lhe falta. Ou seja, a razão de o aluno depredador se parecer com o psicótico está no fato dele buscar na violência real a violência simbólica. Isso é bem ilustrado na citação de Kupfer do autor Calligaris: “quando a socialização é para o sujeito sustentada pelo real ela irá produzir delinquência na tentativa de instaurar valores simbólicos” (KUPFER, 2007, p.146).

Outro exemplo dado pela autora e de grande contribuição para entender essa busca pela violência simbólica pode ser vista nas periferias e em bairros desprivilegiados. Nas periferias, os adolescentes muitas vezes instauram a lei do tráfico, do crime, em uma busca desesperada de instaurar uma ordem para as suas vidas uma regulação, mesmo que fracassada e que lhe cause sofrimento, que substitua a autoridade falida da escola. Aí está presente mais uma vez no plano real a busca pelo simbólico.

Em síntese a tudo que foi dito a cima, segundo a teoria de Kupfer, o jovem agressor e depredador, não é apenas um reflexo das injustiças sociais, mas está buscando no real recuperar pontos de identificação e de referências. A autora remete ao fato de que na infância algumas marcas são inscritas nesses jovens e que mais tarde na adolescência precisam ser reformuladas. Se caso não forem bem formuladas, se na infância esses jovens não encontrarem no professor esses pontos de referência que os ajudem a se constituírem, todos esses inscritos desde a infância podem vir a se perder. Portanto, se o professor não oferecer a esses jovens imagens ideais, pontos de referência e identificatórios, várias consequências virão à tona. Ao não acreditar nas regras da sociedade, os jovens acabam deixando a escola e caem na delinquência.

Toda essa discussão mostra também outra questão. Quando o imaginário prevalece, a sociedade como um todo passa a fabricar sintomas, buscando restituir as redes simbólicas, ainda que, muitas vezes, de formas fracassadas. E como afirma Kupfer, se a escola tiver propostas educacionais que venham de encontro a oferecer aos jovens referencias e imagens ideias maiores do que as oferecidas pelos meios de comunicação, essas terão grandes chances de serem aceitas e aderidas pelos jovens.

Por fim, talvez o termo aqui usado violência simbólica não caberia, por ser essa tão necessária e estruturante. Mas se mantém para que se possa relacioná-lo com a violência nos três níveis: o da violência real, imaginária, chegando, por fim, ao simbólico, para que se consiga entender esses três eixos como norteadores de um único pivô a violência. (KUPFER, 2007).

3.1 FALTA DE LIMITES E REFERENCIAIS

Vive-se hoje em uma sociedade cada vez mais individualista, desprovida do convívio familiar por uma série de fatores. Com a saída dos pais para trabalhar fora, inclusive a mãe que antigamente era a única responsável pela educação de seus filhos, as crianças e jovens passaram a conviver com terceiros, sejam eles babás ou até mesmo ambientes institucionalizados como creches e escolas. O que vem acontecendo é que essas pessoas, muitas vezes, não conseguem transmitir a esses jovens os referenciais que se fazem necessários a sua constituição enquanto sujeitos.

A criança constrói sua subjetividade com a aquisição da linguagem e por meio da cultura, portanto no convívio em família e em sociedade. Nessa perspectiva, é preciso refletir sobre o papel que a família possui na formação psíquica dessas crianças. É necessário que haja uma segurança familiar para que a criança construa sua identidade de forma sadia.

A maioria das reclamações que se têm hoje nas clínicas de psicólogos é referente à falta de limites, agitação e indisciplina. Segundo KUPFER e BERNARDINO (2008), os maiores problemas enfrentados hoje pelos pais é a hiperatividade e mau comportamento.

Segundo os mesmos, hoje há uma inversão de papeis nas famílias, sendo que a criança é quem faz as escolhas pelos pais, de quais programas fazer, do que comprar e para onde ir. A criança acaba mandando, inclusive dá ordens e ensina os pais acerca dos bens que os faz comprarem. Para essas duas autoras, a sociedade de hoje vive na era do “gozo”, onde quem decide o que gozar são às crianças.

As crianças e jovens desse século só estão preocupados em ter e não mais em ser. Não há limites, nem regras, o importante é gozar de bens e produtos, comprar tudo aquilo que se deseja.

Vivemos em tempos de profusão de objetos reais que prometem gozo ilimitado e a ilusão de não se ter nenhuma falta; as imagens que nos perseguem são imagens da completude permitida por estes inúmeros objetos e a felicidade correspondente; enquanto, em termos simbólicos, todo aquele que ocupa o lugar de poder e de saber mostra-se cada vez mais ridicularizado, questionável e impostor (desde o chefe da nação, até o professor, os grandes mestres da cultura e o pai de família). (KUPFER; BERNARDINO, 2008, p. 12).

A sociedade hoje, não garante mais as condições para que ocorra a transmissão de referenciais pelos pais, a fim de que se constitua uma organização psíquica adequada nos filhos. As mudanças no campo social, à interferência da mídia na educação dos jovens e na construção de sua subjetividade tem tido grande influência sobre estes. “No lugar da transmissão, por parte dos pais, dos necessários limites para o gozo, é o filho que acena para as inúmeras possibilidades de gozo que os objetos oferecidos ininterruptamente pelo campo social prometem.” (KUPFER; BERNARDINO, 2008, p. 14).

O enfraquecimento na figura do pai se dá de maneira simbólica. É fato notório nos dias atuais a falta de autoridade que os pais têm na relação diária com seus filhos. Esse pai desautorizado é justamente aquele que segundo a psicanálise é o encarregado de transmitir as leis, a cultura, bem como, a linguagem.

A participação do pai também é indispensável na incorporação desses limites primordiais, desse contorno subjetivo; pois ele deve se colocar como uma espécie de garantia de que tais limites veiculados pelos cuidados maternos poderão ser, de fato, internalizados. (KUPFER; BERNARDINO, 2009, p. 9).

As falhas na função paterna estão diretamente ligadas à construção da subjetividade. Segundo as autoras, a hiperatividade pode ser um apelo para que se restabeleça a função paterna. Diante desses pressupostos, a falta de autoridade do pai ocasiona uma falta de respeito às leis da sociedade, ou seja, a falha da função paterna gera problemas relacionados à convivência e o respeito às normas e as leis.

Os jovens, na sua ânsia por figuras de identificação, mais ainda numa sociedade confusa e confusionante, voltam-se para pais substitutos, idealizados. Esses “pais” serão tanto mais idealizados quanto mais certezas tiverem. Os jovens procuram, desesperadamente, referenciais aos quais possam agarrar-se, e quanto mais sólidos eles parecem, mais atenuam seu desespero. Nesse momento está aberto o caminho para o fanatismo, a crença acrítica, os ideais de superioridade, as certezas absolutas e a necessidade de eliminar o diferente, que será o inimigo. (LIVISKY, 1998, p. 17).

Subintende-se dessa forma que o declínio da figura paterna, sendo essa simbólica, prejudica as relações. Falta a violência simbólica necessária e estruturante, que se deve dar também pela autoridade pedagógica, na imposição das leis e das regras, sendo sua falta extremamente prejudicial para a constituição da subjetividade do indivíduo. Os professores podem assumir o papel simbólico de pais substitutos, servindo como um referencial, que impõe as regras, as leis, o espelho a quem se espelhar, evitando assim que os jovens sejam manipulados por ideais de adultos mal intencionados.

3.2 AUTORIDADE NA ESCOLA

Antigamente, os educadores utilizavam sempre de uma vara de vidoeiro em seu dia a dia como uma forma de impor respeito e autoridade perante os alunos. Estes não ousavam levantar a voz ou desobedecer aos mestres que tinham a vara como um meio eficaz para impor a lei. Nos dias atuais, tal autoridade antes fácil obtida pelos educadores por meio da vara, já não produz mais efeito, pois os alunos não se amedrontam mais diante do olhar mais firme do educador, nem tão pouco das ameaças. Além do mais, é proibida tal façanha, e de modo justo.

No entanto, será que o respeito que os alunos devotavam aos professores em tempos idos eram de fato respeito e reconhecimento de sua autoridade, ou era apenas reflexo do medo e da imposição feita por meio das ameaças com a vara? Kupfer em seu artigo por uma vara de vidoeiro simbólica nos remete às ideias de Freud sobre a questão da autoridade, levando-nos a olhar para a figura paterna e a sua função nesse processo. Segundo Kupfer,

Dessa constituição, deverá emergir um sujeito desejante, que deseja, porém porque está castrado; está castrado pelo Pai sem o saber, e não sabe por que se encontra dividido em relação a esse saber. Separado dele pelo recalque. Desejante porque castrado e dividido. Eis como se opera, para a psicanálise, a relação entre lei e o desejo. Desse modo, a Lei do Pai, princípio do qual emana a autoridade dos pais e professores, é esteio da civilização e do exercício do desejo. (AQUINO, 1999, p. 87).

O pai constitui sua autoridade através de um discurso de mestre, ou seja, ele é um educador. Sendo este um educador, os professores podem ser considerados como um “pai substituto”, pois eles herdam a relação existente entre pais e filhos. Por meio dessa constatação é possível explicar os conflitos existentes entre professores e alunos. A autoridade em si é baseada na legitimação por parte dos sujeitos em relação à lei, sendo que quando esta é imposta por meio de coação. Está sendo, na verdade, respeitada por meio do autoritarismo, o que não significa autoridade e respeito à lei, ou seja, sua legitimação.

Há casos em que há legitimidade por meio da persuasão, onde somos convencidos por outrem a fazer ou deixar de fazer algo. Também há o fato de que aquele que está submetido a uma autoridade, pensa não possuir nenhuma autonomia. Dessa forma, percebe-se que nem sempre a submissão e a obediência significam respeito e autoridade, pois elas podem estar sendo resultado de uma coerção e imposição. Sendo assim, nem sempre o fato de alguns educadores conseguirem a obediência dos educandos significa que esses tem autoridade sobre os mesmos. Pois este pode estar sendo respeitado apenas por usufruir de instrumentos punitivos e de coerção.

De acordo com AQUINO (1999), é de suma importância para que se estabeleça a autoridade dos educadores e sua legitimidade que a família legitime o poder a escola e aos educadores. Segundo ele a maior parte dos conflitos educacionais são causados pela falta de autoridade e pelo autoritarismo. Ou seja, falta na escola autoridade de fato, a lei, a violência simbólica necessária e estruturante. Diante desses pressupostos, o professor responde com autoritarismo já que lhe falta autoridade de fato.

4. A VIOLÊNCIA SIMBÓLICA EM BOURDIEU

A violência simbólica é uma teoria desenvolvida por Pierre Bourdieu, sociólogo francês, que foi fortemente influenciado por autores como Marx, Durkheim e Weber. Seus estudos sobre a sociologia da educação e da cultura influenciaram grandes pensadores nacionais e internacionais ao longo dos anos. Em seus estudos, que contemplavam a sociedade contemporânea, Bourdieu analisou as relações sociais existentes e como tais grupos sociais se mantinham, elaborando assim a teoria da reprodução baseada no conceito de violência simbólica.

Para o autor, a escola é a principal responsável pela reprodução das classes sociais. Pode-se perceber nas instituições de ensino a sua função de legitimadora de um sistema de ideias, seja de cunho político ou cultural. Bourdieu, em seus escritos, deixa claro a sua inconformidade com toda a forma de imposição e dominação que ocorrem de maneira dissimulada na sociedade. No livro “A Reprodução” (1970) de Bourdieu e de Passeron, é dada grande ênfase à forma como as escolas francesas tem impedido às classes dominadas a ascensão social e contribuído para que as relações de classes se reproduzam.

A sociedade está dividida em classes e essas, por sua vez, se diferem uma em relação à outra por meio de sua cultura. A classe dominante possui um sistema cultural que se manifesta na linguagem, na vestimenta, na maneira de se comportar e também nos valores. A classe dominada também possui o seu sistema cultural, porém estes se diferem muito do sistema da classe dominante. Essas diferenças culturais é o que mantém a separação entre as classes.

As instituições de ensino não têm levado em conta as diferenças existentes na sociedade e acabam por privilegiar e legitimar em suas práticas os preceitos da cultura dominante. Dessa maneira, a escola está dando maior vantagem para as crianças que já nasceram inseridas nessa cultura e dominam tais preceitos culturais. Para esses, a escola será a continuidade de sua prática social e familiar. No entanto, para as crianças das classes dominadas é preciso despir-se de sua cultura para assimilar esses novos preceitos culturais das classes dominantes.

A teoria da reprodução criada por Bourdieu e Passeron está vinculada a ideia de violência simbólica. Para eles, a ação pedagógica é objetivamente uma violência simbólica, pois impõe um poder arbitrário. Esta arbitrariedade se refere como tal, pelo fato da cultura das classes dominantes ser imposta como cultura legítima e oficial para todos, desconsiderando a cultura das classes dominadas. Já o nome poder arbitrário é pela razão da sociedade estar dividida em classes. A ação pedagógica através de suas práticas acaba por reproduzir a cultura dominante e a sociedade de classes.

Dessa forma, para os alunos oriundos das classes populares, a escola representa uma expulsão de sua cultura, pois desconsidera os seus saberes, suas práticas, suas formas de pensar e sua essência. Não só desconsidera, como despreza, menospreza, desvaloriza e ignora. Dentro dessa perspectiva, fica evidente que para os alunos oriundos das classes dominantes, que já possuem essa cultura desde o nascimento, é muito mais fácil obter o êxito escolar, do que para aqueles vindos das classes dominadas, que necessitam despir-se de sua cultura materna e aprender uma nova cultura, novos hábitos, nova linguagem, novo vocabulário, nova maneira de se portar entre tantas outras regras imputadas pela cultura dominante. Sendo assim, o sujeito só será bem visto pela sociedade se dominar esses preceitos eleitos como legítimos.

Para BOURDIEU e PASSERON (1970) existe uma violência na educação que é considerada inevitável e inerente a esse processo escolar. Segundo os mesmos, toda ação pedagógica é uma violência simbólica, por reproduzir a cultura dominante, sua ideologia, infligindo um modelo padrão de sociedade a ser seguido que contribui para a reprodução da sociedade de classes e para as relações de poder e hierarquia.

A ação pedagógica é objetivamente uma violência simbólica, num primeiro sentido, enquanto que as relações de força entre os grupos ou as classes constitutivas de uma formação social estão na base do poder arbitrário que é a condição da instauração de uma relação de comunicação pedagógica, isto é, da imposição e da inculcação de um arbitrário cultural segundo um modo arbitrário de imposição e de inculcação (educação). (BOURDIEU; PASSERON, 1970 p. 27).

Os mesmos se referem a tais pressupostos como uma violência simbólica, pois, entendem que toda essa destituição da cultura materna e inculcação de uma nova cultura, a das classes dominantes, detentora do poder, fazem com que a classe dominada perca a sua identidade, suas referências, tornando-se dessa maneira submissos, fragilizados e sem autonomia. Isto porque os mesmos têm a sua cultura desrespeitada e desprezada, tendo que aderir a cultura dos poderosos, ficando dessa forma fácil a sua dominação.

O caráter simbólico pode ser visto nas principais características da sociedade capitalista, como por exemplo, a divisão do trabalho que está vinculada ao apoderar-se dos meios de produção diferenciados. Segundo BOURDIEU e PASSERON (1970) as instituições de ensino consolidam a sociedade capitalista através da reprodução da cultura e da estrutura de classes. A reprodução da cultura se revela através das representações simbólicas e sistema de ideias. Já a reprodução das estruturas de classes opera na própria realidade.

É evidente que nas instituições de ensino e no processo escolar a reprodução das classes e da cultura, bem como, os meios de dominação estão presentes. No entanto, para que essas reproduções sejam consolidadas, é necessário que haja a reprodução do simbólico, ou seja, a ideologia dessas relações.

Através da comunicação a escola exerce violência simbólica, pela inculcação de sua ideologia, por meio de discursos dissimulados carregados de doutrinas que embora pareçam neutros em um primeiro momento de neutralidade não tem nada. Estes estão carregados de intenções que visam doutrinar e dominar sem que estes percebam, pois essa não é uma violência física, mas de nível simbólico, que faz com que os educandos acabem pensando e agindo como os detentores das forças dominantes esperam, legitimando a ideologia dominante. ”Enquanto poder simbólico que não se reduz jamais por definição á imposição da força, a AP (ação pedagógica) não pode produzir seu efeito próprio, isto é, propriamente simbólico, a não ser na medida em que se exerce numa relação de comunicação”. (BOURDIEU E PASSERON, 1970, p.28).

Para Bourdieu, a escola através da violência simbólica esta reproduzindo as estruturas de classes, por essa razão ele entende que o trabalho pedagógico é uma ação coerciva, sendo a ação pedagógica violenta. Nesta ação esta sendo imposta através de ideologias a maneira como esses jovens devem pensar e agir, o que acaba por criar nos mesmos, formas de agir que os diferenciam em classes.

Ainda segundo o mesmo, a escola busca reproduzir as formas de pensar e os valores das classes dominantes, essa age de forma a atingir uma parte do grupo. Tendo essa parte aderido a esses preceitos dominantes, acabam reproduzindo na sociedade e os impondo a classe dominada. Segundo Bourdieu e Passeron,

Enquanto trabalho prolongado de inculcação que produz a interiorização dos princípios de um arbitrário cultural sob a forma de um habitus durável e transferível, e, por conseguinte capaz de gerar práticas conforme a esses princípios fora de e para além de toda regulamentação expressa e de todo apelo explicito á regra, o trabalho pedagógico permite, ao grupo ou á classe que delegue á autoridade pedagógica sua autoridade de produzir e de reproduzir sua integração intelectual e moral sem recorrer á repressão externa e, em particular, á coerção física. (1970, p. 57).

A escola valorizando assim a cultura e o modelo dominante privilegia e promove aqueles que se adequam melhor a esse padrão, e assim também isso se reproduz pelos sujeitos na sociedade, onde aqueles que possuem esses preceitos se destacam nos cargos de poder e dominam sobre os dominados. Assim aqueles que não nasceram nesse ambiente “privilegiado” e que não conseguiram se despir totalmente de sua cultura e revestir-se da cultura e das regras da cultura dominante são excluídos e convencidos à submissão. São excluídos por não serem considerados hábeis, capacitados, bons o suficiente, segundo o modelo que lhes foi imposto como o melhor e legítimo.

Essa exclusão se estabelece nas instituições de ensino e também é visto nas universidades, que legitimam isso em suas seleções, onde aqueles que não falam da forma culta, ou não se portam de maneira adequada, segundo os valores dominantes, são considerados inaptos e acabam por ficar de fora. Isso também se dá no mercado de trabalho que também seleciona seus empregados usando dos padrões da classe dominante, sobrando para os que não se enquadram os cargos de menor prestígio social e de subordinação. Sendo assim a escola contribui para as desigualdades sociais por não levar em conta as diferenças culturais e econômicas, reproduzindo assim a sociedade e a cultura, bem como as relações de poder que interferem na distribuição do capital.

4.1 O CAPITAL

Aparentemente a escola é o lugar onde o conhecimento é transmitido de maneira democrática e igual para todos. Bourdieu, em seus estudos, percebeu que essa afirmação feita pelas instituições de ensino não tem sido verdadeira e que a escola não tem transmitido o conhecimento da mesma forma para todos os alunos como ela tem feito parecer. Para esse autor, os alunos que pertencem às classes mais favorecidas, trazem de berço uma herança que ele denominou de capital cultural. A cultura nada mais é do que os valores e significados que orientam e dão personalidade a um grupo social. Segundo o mesmo a cultura que está dividida em classes se transforma em uma moeda utilizada pelas classes dominantes para estabelecer as diferenças.

Dessa forma, a cultura acaba por se transformar em instrumento de dominação, sendo que os dominantes acabam por impor aos dominados a sua cultura. Dando a esta um valor inquestionável, fazendo da mesma a melhor cultura a ser seguida. Essa dinâmica pode ser entendida como arbitrário cultural dominante, ou seja, uma cultura se impor sobre a outra. Essa foi a maior de todas as contribuições de Bourdieu transposta para a educação.

A escola de forma dissimulada contribui para que a cultura dominante seja transmitida como tal, favorecendo e privilegiando alguns em detrimento de outros. Esses desfavorecidos são os alunos que não tiveram por meio de sua família acesso a esse capital cultural, sejam por meio de livros, lugares, obras de arte e informações que são de fácil acesso para os mais privilegiados. Sendo assim tais alunos não conseguem dominar os códigos culturais que a escola valoriza e para esses aprender é algo muito mais difícil. Assim a escola marginaliza os alunos oriundos das classes populares e privilegia os que possuem maior capital cultural.

Por essas razões o discurso que a escola faz de igualdade não se mostra eficaz na prática. Assim ela não cobra dos mesmos os saberes ensinados tão somente, mas cobra habilidades que são fáceis para uns e difíceis para outros que não as conhece. Assim ela acentua as diferenças culturais e aqueles que não possuem a cultura valorizada pela escola se enganam pensando que as dificuldades enfrentadas por eles são faltas de inteligência. Da mesma forma, essa dominação pode ser vista na seleção de certas disciplinas em detrimento de outras, mantendo assim a dominação de uma classe sobre outra.

BOURDIEU (1998) define capital simbólico como sendo o reconhecimento e o prestígio que alguns grupos possuem. Um exemplo comum de capital simbólico é o valor que está agregado a certas marcas, que possuem credibilidade e alto valor econômico, tudo isso devido a seu valor simbólico.

Já o capital cultural é todo o conhecimento que o sujeito consegue incorporar através de estudo, obras de arte, livros, habilidade para língua culta, além daqueles que foram herdados pela família, como gostos, hábitos e posturas. Que acabam situando as diferenças entre as classes.

O capital cultural pode existir sobre três formas: no estado incorporado, ou seja, sob a forma de bens culturais- quadros, livros, dicionários, instrumentos, máquinas, que constituem indícios ou a realização de teorias ou de críticas dessas teorias, de problemáticas, etc.; e, enfim, no estado institucionalizado, forma de objetivação que é preciso colocar á parte porque, como se observa em relação ao certificado escolar, ela confere ao capital cultural-de que é, supostamente, a garantia-propriedades inteiramente originais. (BOURDIEU, 1998, p. 74)

O capital social se refere às relações que se estabelecem, está no poder de se relacionar e ter influência. Para manter esses capitais sociais muitos realizam festas, frequentam clubes, cruzeiros, escolas da alta sociedade, entre muitos outros eventos que os ajudem a continuar mantendo essas relações e possuindo esse capital. O capital econômico se refere ao poder aquisitivo e o seu poder de mobilização sobre os outros indivíduos. Segundo Bourdieu,

Essa definição tipicamente funcionalista das funções da educação, que ignora a contribuição que o sistema de ensino traz a reprodução da estrutura social, sancionando a transmissão hereditária do capital cultural, encontra-se, de fato, implicada, desde a origem, numa definição do “capital humano” que, apesar de suas conotações “humanistas”, não escapa ao economicismo e ignora, dentre outras coisas, que o rendimento escolar da ação escolar depende do capital cultural previamente investido pela família e que o rendimento econômico e social do certificado escolar depende do capital social- também herdado- que pode ser colocado a seu serviço. (1998, p. 74)

4.2 O JULGAMENTO PROFESSORAL

O julgamento professoral que se dá pelas apreciações, ou pode se dizer “pelas notas” pode ser relacionado diretamente com a origem social dos educandos. Nos estudos realizados por Bourdieu, pode-se perceber essa relação, onde os alunos oriundos de classes dominantes ou pode-se dizer da elite, se sobressaem em relação aos filhos dos operários e dos trabalhadores. Isso acontece devido à própria organização da escola que é muito semelhante à cultura das classes dominantes, pois exprime os seus pensamentos e valores como legítimos.

Nessas análises observou-se que a nota dos alunos se elevava em consonância com o aumento de sua condição social, ou seja, seu capital cultural. Essas apreciações analisadas por Bourdieu receberam muitas justificativas por parte dos educadores, qualificativos de julgamento tais como, “bobo, servil, vulgar, chato, mas organizado, aplicada, mas servil”, entre muitos outros descritos pelo autor que remetiam as classes populares, os operários e trabalhadores. Em sua análise, ele observou que até mesmo o elogio vinha com palavras negativas, como bom, mas tímido e assim sucessivamente. Em relação aos alunos oriundos das classes mais altas e da elite, dificilmente foram encontrados restrições, estes receberam os melhores qualificativos e elogios por parte dos educadores.

Para o autor, seu estudo comprovou que quanto mais baixa a origem social, maiores foram os agravos nos qualificativos negativos, mais desprezo e repudio ao classificar e até mesmo os elogios suavam de maneira hesitante. O contrário aconteceu nas apreciações dos alunos oriundos das classes mais altas que receberam os melhores qualificativos e honrosos elogios.

Esses julgamentos dos educadores, não são em nenhum momento explicados por meio de um conjunto de normas explicitas e padronizados. E também não são neutros, mas possuem implicitamente a superioridade exigida pela cultura dominante, do intelectual, desenvolto e elegante como afirma Bourdieu. Outra consideração a se fazer, está quanto a um critério de julgamento implícito que muitas vezes é feito pelos professores de maneira inconsciente e se manifesta principalmente nas provas orais, onde a nota se dá em observância a postura, as roupas, a aparência, até mesmo o sotaque dos jovens é mal visto pelos educadores.

À parte os qualificativos que podem designar propriedades específicas do exercício escolar (parcial, sumário, confuso, metódico, obscuro, vago, impreciso, desordenado, claro, preciso, simples), a quase totalidade dos adjetivos utilizados designam as qualidades da pessoa, como se o professor se autorizasse da ficção escolar para julgar, á maneira de um crítico, literário ou artístico, não a aptidão técnica, para se conformar ás exigências rigorosamente definidas, mas uma disposição global, a rigor indefinível, combinação única de clareza, de concisão e de vigor, de sinceridade, de naturalidade e de savoir-faire, de fineza, de sutileza e de engenhosidade. (BOURDIEU,1998, p. 196)

Segundo o autor, há uma relação entre a carreira que se segue e a origem social. Pois, segundo ele a própria universidade usa de critérios de seleção que muitas vezes dificultam a entrada de alunos de origem mais humilde. Isso acontece porque a universidade exige qualidades de excelência, que coloque a universidade a um nível altíssimo, e que segundo os padrões estabelecidos por ela são semelhantes aos da cultura dominante. Dessa maneira acaba por excluir os que não se enquadram e privilegiar os que já possuem essa cultura.

Através de um discurso de universalização de ensino, a universidade e a escola aceitam os considerados por ela “fracos”, mas os mantém excluídos dentro do próprio sistema.

4.3 O PODER SIMBÓLICO

Bourdieu, em sua obra “O poder simbólico” (2008) retrata bem sobre o poder que é exercido de maneira implícita na sociedade. Esse poder é ignorado por aqueles que o estão sujeitos e também por aqueles que o praticam. Segundo o autor o mesmo só pode ser exercido se houver a cumplicidade dos agentes envolvidos. Esse é visto como algo normal, inevitável, portanto não é reconhecido como algo ruim.

Este poder está representado por sistemas simbólicos, que estão estruturados na sociedade através das religiões, dos partidos políticos, das artes, da linguagem, entre outros. Esses constituem um universo simbólico. O sistema simbólico por ser este um meio de comunicação e de tal forma estruturado, acaba por ser aceito passivamente pelos envolvidos de forma conformada. Sendo considerado como algo normal e que faz parte da organização da sociedade.

Dessa maneira, esses símbolos produzidos e estruturados, passam a operar de tal forma a dominar os agentes que acreditam em seus preceitos, impondo a estes suas ideologias e sendo difícil sua contestação. Esses se apresentam como sendo do interesse do bem comum, eleitos pelos seus subordinados, quando na verdade está servindo aos interesses de minorias que esperam tirar vantagens e se manterem no poder, legitimando suas concepções.

As diferentes classes e fracções de classes estão envolvidas numa luta propriamente simbólica para imporem a definição do mundo social mais conforme aos seus interesses, e imporem o campo das tomadas de posições ideológicas reproduzindo em forma transfigurada o campo das posições sociais. Eles podem conduzir essa luta quer diretamente, nos conflitos simbólicos da vida quotidiana, quer por procuração, por meio da luta travada dos especialistas da produção simbólica (produtores a tempo inteiro) e na qual será em jogo o monopólio da violência simbólica legítima (cf.Weiber), quer dizer, do poder de impor, e mesmo de inculcar instrumentos de conhecimento e de expressão (taxinomias) arbitrários, embora ignorados como tais da realidade social. (BOURDIEU, 1989, p. 11)

O professor, pode se dizer, é um agente de dominação, pois tem seu poder reconhecido culturalmente e historicamente, tendo seus preceitos como legítimos. Dessa forma usa da autoridade que lhe é concedida para inculcar nos educandos as ideologias que a escola entende como sendo as melhores ao bem comum.

A mídia é outro sistema de dominação e de poder simbólico, que carrega por trás de suas noticias e matérias interesses particulares implícitos. Isso acontece com a TV, com o rádio, os jornais, a internet e tantos outros meios de comunicação. Um exemplo bem comum é o caso das pequenas cidades que muitas vezes os proprietários das rádios locais são justamente os prefeitos e vereadores, obviamente as noticias sempre beneficiarão a eles. No tocante a programas de televisão como os desenhos animados, inúmeras são as formas de violência simbólica e de inculcação que se mantém de forma dissimulada. Os próprios programas como novelas e reportagens banalizam a violência e a prostituição, impondo aos espectadores a aceitação das ideias defendidas por eles que estão por trás de todos os discursos e imagens.

Faz-se essa relação da violência simbólica na mídia, pois ela também é objeto de análise para a escola, por entender que os educandos passam parte do tempo em casa e estão constantemente expostos a esse tipo de conteúdo e sendo assim é dever da escola discutir esses temas com os alunos.

A violência simbólica foi o grande alvo de pesquisa de Bourdieu, segundo o mesmo, essa violência não é a simples imposição de uma classe sobre a outra, pois envolve jogos e estratégias criados pelos agentes envolvidos. Para ele os indivíduos da sociedade criam um sistema denominado por ele como construtivismo estruturalista, considerando que a sociedade é organizada e estruturada pelos homens, sendo estes resultados das relações sociais. Bourdieu reforça que essa violência simbólica age por meio de alguns conceitos elaborados por ele, como a estratégia, os interesses escondidos por trás de cada ideologia, o capital simbólico, as divisões da sociedade em classes e a legitimação das ideologias das classes dominantes.

5. O PAPEL DO ORIENTADOR EDUCACIONAL EM MEIO A VIOLÊNCIA SIMBÓLICA

A orientação educacional teve origem nos Estados Unidos no ano de 1908. Nesse período, seu trabalho se voltava para o aconselhamento e para a orientação profissional. Mais tarde, no ano de 1924, a orientação educacional veio para o Brasil, também direcionada a orientação vocacional para o mercado de trabalho. Somente no ano de 1942, mediante a lei orgânica criada no governo de Getúlio Vargas, é que a orientação educacional ganhou referência na lei.

No entanto, essa estava pautada no atendimento a alunos “problemáticos”, aplicando sansões disciplinares, orientação aos horários de estudo, zelando pela ordem e disciplina e também tirando possíveis dúvidas dos educandos. Sua função se destinava para a orientação para o trabalho. Para tal função era necessário ao educador que fizesse um curso especifico na área.

A lei de diretrizes e bases n°4024 de 1961, traz a questão da formação em Orientação Educacional, incumbindo ao curso normal formar esses profissionais para atuarem no ensino primário. Já as faculdades de filosofia, encarregar-se-iam de formar esse profissional para atuar junto ao ensino médio.

Segundo GRINSPUN (2001),a esse profissional incumbe o acompanhamento escolar do educando, contribuindo para uma formação integral, visando à integração desse sujeito a sociedade. Ainda de acordo com o mesmo, a função do orientador educacional foi marcada por seu caráter aconselhador e se estendeu para todo o mundo por meio de movimentos da época, como revolução industrial e das novas tendências pedagógicas.

Surgiram também em 1934 experiências isoladas em algumas escolas do Rio de Janeiro, essas segundo GRINSPUN (2001) seguiam o modelo de escolas americanas e europeias. Enfim, a concretização da orientação educacional tal qual ela é hoje, se deu em virtude de uma série de movimentos em prol da educação, passando por longas transformações até chegar-se ao ideal que se espera hoje da profissão. Sendo essa reconhecida em lei, exigindo-se para tal pessoa qualificada e sendo essa função imprescindível no ambiente escolar.

Ao analisar a história, percebe-se que a figura do orientador ou conselheiro, como era chamado, já existia há muito mais tempo em diferentes tipos de sociedade, sendo sua tarefa auxiliar os membros da sociedade nas tomadas de decisões.

Todavia, a orientação antigamente não possuía o caráter pedagógico que possui nos dias atuais, mas se preocupava com os sujeitos e com o seu aprendizado. Sendo assim, a orientação educacional, surgiu no mundo todo através da orientação vocacional e profissional. Platão foi considerado grande precursor da orientação educacional, embora não a idealizasse da forma que ela é hoje, pois o mesmo concebeu a escola ajudando e orientando os indivíduos a exercerem funções de acordo com suas aptidões e talentos.

5.1 O PAPEL DA ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL

Tomando por base a lei n° 5.564 de 21 de dezembro de 1968 que estabelece as funções do exercício profissional do orientador educacional, fazer-se á aqui uma explanação das principais atribuições do mesmo na escola. Pode-se dizer que não há por parte de algumas escolas uma clareza quanto o papel do orientador educacional. É muito comum vermos nas escolas esse profissional exercendo diversas atividades que não lhe cabem, como a de porteiro, professor substituto, auxiliar administrativo, entre muitas outras funções que acabam por descaracterizá-lo do seu verdadeiro papel.

Mas, quais são as atribuições estabelecidas pela lei para regulamentar o trabalho desse profissional? Segundo a lei n° 5.564, ao orientador educacional incumbe dar assistência ao educando, podendo ser essa individual ou em grupo. O mesmo deve trabalhar para desenvolver de forma integral e harmoniosa a personalidade dos educandos. Segundo a mesma lei, essa função só poderá ser exercida por profissionais devidamente capacitados para este fim, sendo estes portadores de diploma devidamente regulamentado e autorizado pelo ministério da educação.

A mesma lei estabelece que ao orientador educacional esteja atribuída a função de aconselhar e mediar os educandos em suas necessidades e peculiaridades, além de lecionar as disciplinas referentes à sua profissão.

Segundo (HEREDIA, 2005), o orientador educacional tem o papel de se colocar em meio aos conflitos, como um terceiro, um mediador, que constrói com os envolvidos no conflito um espaço de resolução dos problemas por meio do consenso e da ética. Para tal, coloca-se como necessário a valorização do outro como outro, como um ser total, soberano e não como extensão de si próprio. Conforme Bauman,

Odo Marquard falou, não necessariamente com ironia, do parentesco etimológico entre zwei e Zweifel (“ dois e dúvida”) e insinuou que o elo entre essas palavras vai além da simples aliteração. Onde há dois não há certeza. E quando o outro é simples extensão, eco, ferramenta, ou empregado trabalhando para mim, o primeiro – a incerteza é reconhecida e aceita. Ser duplo significa consentir em determinar o futuro (2004, p. 35).

De acordo com (JARES, 2002), na medida em que se respeita a diversidade a incerteza, a dúvida, os conflitos sempre vão se fazer presentes, de modo negativo, mas também de modo positivo. O papel do orientador educacional, neste caso, apresenta-se como fundamental, enquanto mediador dos conflitos, das dúvidas, das incertezas provenientes da consideração do outro como outro. Oliveira e Grinspun (2009, p. 49) definem o Orientador Educacional afirmando que:

“O orientador educacional é aquele que ajuda a descobrir a bússola que cada individuo possui para indicar os diferentes caminhos (ângulos) que a vida contempla; da mesma forma, os meridianos externos-que servem para determinar o” norte-sul pessoal” – relacionando-se ás questões externas, com o mundo em geral e com a sociedade em particular, para que os principais objetivos do desenvolvimento individual possam ser atingidos.

5.2 O PAPEL DO ORIENTADOR EDUCACIONAL EM MEIO A VIOLÊNCIA SIMBÓLICA NECESSÁRIA E ESTRUTURANTE DE KUPFER E A PERVERSA DE BOURDIEU

Existe um consenso por parte de educadores e pensadores da época que entendem que há uma violência própria da educação. Ou seja, a escola não só reproduz as violências presentes em nossa sociedade, como ela também as produz, já que ela não é uma instituição isolada do mundo, mas sim uma parte ativa da sociedade.

Essas violências se dão de várias maneiras, sejam elas verbais, físicas, simbólicas ou até mesmo psicológicas. Pierre Bourdieu, sociólogo francês, demonstrou em seus estudos como a sociedade e a escola produzem a violência simbólica. Sendo essa silenciosa e naturalizada, é a imposição da classe dominante sobre as classes populares, que sequer as percebe. Estas estão presentes em diversas estruturas, como nas artes, na língua, na cultura e em qualquer outra categoria capaz de moldar a forma de pensar dos indivíduos. É considerada como violência por ser esse um poder arbitrário, pois é imposto de forma dissimulada. É uma violência exercida no cotidiano da escola por parte dos educadores, sem que esses muitas vezes se deem por conta e sem que os próprios educandos a vejam como violência.

É claro que a violência simbólica, como nesse estudo foi visto em capítulos anteriores, não possui um caráter apenas perverso. Kupfer demonstrou em sua teoria a respeito da violência a necessidade de uma ordem de uma imposição, que regule a vida das pessoas, sendo essa não arbitrária, pois não se trata de impor as vontades pessoais, mas sim à lei, que segundo a psicanálise seria uma restrição ao desejo materno, e o que a impõe está também submetido à mesma. Essa, segundo a autora, é necessária e estruturante, indispensável para o bom desenvolvimento da personalidade e sua falta à causadora da violência dita como real.

Uma vez que a violência simbólica está presente em diferentes níveis na escola, é necessário que a orientação educacional, que é responsável pela mediação dos conflitos dentro do ambiente escolar, tome conhecimento dos diferentes meios que ela se manifesta para poder intervir nos processos de violência instaurados na e pela educação.

Diante desses pressupostos envolvendo as duas teorias, ambas distintas uma em relação à outra, por pertencerem a campos diferentes do saber, um a psicanálise e o outro a sociologia, busca-se agora discorrer sobre o papel da orientação educacional em meio a essas duas perspectivas. Tendo em vista que nenhuma delas está errada e ambas trazem grandes contribuições que podem ajudar a orientação educacional a lidar com essa violência simbólica presente no ambiente escolar.

De acordo com a teoria de Kupfer, a violência deve ser encarada como uma busca desesperada de restituição de pontos de identificação e da violência simbólica que está em falta. Nessa perspectiva, o jovem depredador age de forma violenta por não ter encontrado uma rede de sustentação simbólica que regule e de sentido a sua vida. Cabe aos professores e ao orientador educacional trabalhar para que a escola cumpra com seu papel na construção de redes simbólicas que sustentem imagens ideais capazes de alcançar os jovens em suas necessidades enquanto indivíduos desejantes. De acordo com a autora,

Desta perspectiva, as propostas educacionais que venham a oferecer efetivamente referências, imagens ideais com um lastro maior do que aquelas oferecidas pela televisão, que ofereçam finalmente uma efetiva rede de sustentação simbólica, terão grandes chances de ser adotadas pelos jovens. (KUPFER, 2007, p. 147)

Dessa forma, é preciso que os jovens encontrem na figura do orientador educacional e dos professores esse pai substituto que trata a psicanálise, que possa ser para eles um referencial a ser seguido. Para tal, é necessário que o orientador educacional cumpra sempre com sua palavra, aja de acordo com aquilo que está pregando, demonstre bons sentimentos e valores aos jovens, para que através do seu exemplo esses se sintam amparados e simbolicamente estruturados. Pois, é necessário que haja uma ordem, uma coerência, não se educa sem impor às leis, as regras, as normas. Não é possível se construir uma sociedade justa, igualitária, solidária, com bons princípios sem que estes sejam ensinados, moldados na personalidade dos jovens. Não só nos jovens, mas o orientador deve atuar na formação junto aos educadores também, prezando pelo bom exemplo e pela boa referência para os educandos.

A atuação do OE deve contemplar, para além de um trabalho com os alunos, um trabalho com os professores, com os pais e com toda a comunidade. O OE deve se constituir no pedagogo da unidade e da identidade da escola, com uma atuação voltada para o que nela tem de fundamental, o seu projeto político-pedagógico. (SCHMITZ, 1997, p. 75).

É preciso entender que os adolescentes precisam das regras, da lei, do limite e do não. Muitas vezes os mesmos não possuem em casa os limites necessários e não encontram no professor e na escola o referencial ideal que necessitam. Ficando dessa maneira, como diz Kupfer, desenfreados na ordem do gozo, fazendo aquilo que querem sem medir as consequências. Assim, está aberto o caminho para o crime, para a delinquência, para a drogadição, pois através do mesmo eles buscam instaurar, mesmo que de forma fracassada uma regulação para suas vidas, o simbólico.

É preciso que a escola, reafirme em suas ações cotidianas a violência simbólica, essa não se refere à violência punitiva, onde o educador bate em seus alunos, de forma alguma, mas da violência simbólica do cotidiano, do estabelecimento da lei, do limite e do não. É preciso mudar o discurso dentro das instituições de ensino. O professor deve mudar seu discurso de coitado, de fracassado, de pequeno outro. Segundo Kupfer,

O professor pode, contudo, buscar uma retomada desse simbólico, dessa tradição, e reatar com ela. Pode beber desta fonte e rearticulá-la com o desejo que o levou a ocupar aquela posição. Faz muita diferença, como diz, por exemplo, Sara Paín (1996), ensinar números simplesmente e ensinar números testemunhando ao mesmo tempo o assombro, o encantamento de que podemos ser tomados diante de seus paradoxos ou diante da ideia de infinito. (2007, p. 147).

O que não se pode de forma alguma é impor as normas, as regras com autoritarismo, usando da perversidade da violência simbólica que Bourdieu fala. É dentro dessa relação de imposição das leis, dos limites que surge o perigo do professor cometer a violência simbólica perversa que humilha, menospreza, desqualifica e ridiculariza.

O orientador educacional deve ter clareza quanto ao que é autoridade e autoritarismo. Pois, autoridade é o respeito e o reconhecimento do poder instituído e aceito como legítimo. Já o autoritarismo é a autoridade imposta por meio da coerção e do medo, o que não queremos em nossas escolas. Segundo Rayo (2003, p. 9) :

Ao apontar para a importância de uma autoridade baseada na assimetria moral, Sennett (2001) oferece uma dica valiosa de como construir relações que promovam boas referências. Nesse modelo, o adulto deve comportar-se de forma moralmente superior. Ele precisa colocar-se em uma relação vertical de reconhecimento, sendo capaz de fazer mais e melhor aquilo que exige de seus educandos. Por outro lado, para que uma relação de autoridade se estabeleça de maneira respeitosa e legítima, ela deve ter uma horizontalidade. De acordo com Guillot (2008), isto seria possível através do reconhecimento e respeito recíprocos de cada um dos envolvidos na relação, ou seja, é necessário que o professor reconheça de verdade que seu aluno merece respeito. Assim, o professor também poderá ser respeitado.

Outro fato importante a ser analisado pela orientação educacional quanto à autoridade, está na grande frequência com que se aciona o conselho tutelar e outras entidades. Quando se delega a autoridade a outrem, emite-se a mensagem de que não somos capazes de resolver tal conflito e acabamos por perder a autoridade. Dessa maneira, é imprescindível que o orientador educacional faça todo o possível para resolver os conflitos da escola na escola, sem recorrer a outras instituições.

Para combater a violência tanto simbólica, como a real, é necessário que a orientação educacional que visa o sucesso escolar do educando e sua aprendizagem, entenda que o desempenho escolar é resultado do trabalho de toda equipe pedagógica, que leva o aluno a se motivar, porque, somente assim, poderá traçar metas que o ajudarão a seguir em frente.

Assim, ao olhar para trás o aluno poderá perceber que a família é a base, o alicerce e a escola a continuidade de sua formação enquanto sujeito, além de ser a escola fator crucial para o sucesso ou fracasso. Nessa perspectiva, pode o educador ser ensinante ou mutilante, de acordo com suas práticas, tendo papel determinante na vida dos sujeitos.

Também há de se ter um cuidado dentro das instituições de ensino no que tange a classificação e desclassificação, ao julgamento professoral. O orientador educacional, enquanto parte integrante da gestão escolar deve cuidar para que não haja dentro da escola discriminação. Deve se respeitar a cultura que cada indivíduo possui, respeitando suas características e peculiaridades. Principalmente no que se refere às avaliações e seleções no ambiente de ensino, devem levar em conta o conhecimento em si, sem menosprezar aqueles que se comportam culturalmente de outra forma á considerada superior pela escola.

Deve o orientador educacional levar em conta os valores coletivos, impor sim as regras de boa convivência, o respeito às diferenças. “Não é porque possuo uma determinada cultura, que posso me comportar como eu quero”, meu espaço termina onde começa o do outro.

É imprescindível que a orientação educacional estabeleça o diálogo, a valorização do outro. Construindo um espaço de respeito mútuo entre educandos e educadores, onde a autoridade é fruto do respeito e do reconhecimento do trabalho feito com excelência por parte dos educadores. Não é fruto de mera coerção, de má vontade, mas foi conquistado, por meio de bons exemplos, pois, quem não se encanta diante de bons referenciais, de belas atitudes, de aulas feitas com entusiasmo e amor, com mais alegria.

Valorizar a cultura, respeitar as diferenças, impor as regras não em nome próprio, mas em nome do bem maior, respeitar para ser respeitado, educar com amor parece ser um bom alicerce para se desenvolver o trabalho na orientação educacional. Unindo o que há de bom na teoria da Kupfer e do Bourdieu para servir como referencial nas práticas cotidianas da escola.

O orientador educacional deve olhar para o aluno sem pré-conceitos, com afetividade, somente dessa forma poderá ir contra qualquer tipo de violência simbólica dentro da escola. Bourdieu de forma muito sábia falou que a única forma de combater essa violência simbólica é a tornando conhecida, ou seja, fazendo-a ser notada. Essa é também tarefa do orientador educacional, fazer da violência simbólica em suas diferentes facetas conhecidas dentro das instituições de ensino, tanto pelos educadores, quanto pelos educandos, para assim combate-la.

A conscientização dentro da escola parece ser um dos melhores caminhos para se evitar a violência simbólica. Para tal, podem ser feitos projetos que contemplem esse tema em suas diferentes esferas e modalidades. Abordando a importância de se estabelecer um elo entre essas duas perspectivas, onde uma contempla a necessidade de tal violência para a construção de uma boa personalidade e a perversidade que a outra impõe excluindo e deixando indivíduos as margens da sociedade e impedindo sua ascensão social.

Pode-se tomar como alicerce para unir essas duas teorias as palavras de que o educador deve educar com suavidade e firmeza, com amor, mas com exigência. Unindo assim a teoria de Kupfer e Bourdieu, sendo firme, impondo sim as normas, as regras, mas com amor e ética, visando o bem maior que é o sucesso dos educandos. Para isso, cabe à orientação educacional propiciar meios para que essa educação justa e humanitária aconteça, zelando pelas boas relações no ambiente escolar, de maneira a extinguir qualquer forma de exclusão e prepotência.

SCHMITZ (1997) nos remete para o papel que a orientação educacional tem de trabalhar para a emancipação das classes populares, contrariando assim a violência simbólica denunciada por Bourdieu. Para esta autora o orientador educacional deve usar da comunicação e do diálogo nas relações no ambiente de ensino, evitando assim usar de autoritarismo e violência simbólica na linguagem. Outro autor interessante que traz a comunicação como uma prática fecunda na orientação educacional é ROSENBERG (2006), este nos fala de que a linguagem violenta é mais insidiosa que a violência real, podendo trazer sérios danos aos indivíduos, por essa razão esse autor trabalha com a comunicação não violenta. Essa é uma relação de diálogo, escuta qualificada, mansidão, compreensão e alteridade.

De acordo com SCHIMITZ (1997) a orientação educacional pautada em um novo paradigma, o da comunicação, pode promover por meio da linguagem e da comunicação entre os docentes e discentes novos e significativos conhecimentos a cerca da cultura de ambos. Essa perspectiva é muito eficaz para estabelecer o respeito e a compreensão a cerca da cultura de cada indivíduo, pois assim pode- se evitar pré- conceitos, exclusão, discriminação, entre tantas outras formas de violência simbólica cometida muitas vezes por falta de conhecimento.

Ainda segundo a mesma, a escola deve problematizar o conhecimento, dessa forma é importante que a orientação educacional assuma esse compromisso de formar pessoas críticas e reflexivas quanto às questões do mundo que a cercam. Provocando a reflexão sobre as atitudes vivenciadas na escola, sobre os acontecimentos do mundo e sobre as noticias e ideologias transmitidas pelos meios de comunicação. Para tal o orientador educacional deve se pautar pelo viés da escuta qualificada, fazendo do ambiente escolar um local de ampla discussão sobre diversos temas e debates, visando à emancipação, a democratização e a autonomia dos indivíduos.

Esse espaço de discussão dialógica deve se estender para as questões pedagógicas, o orientador educacional deve contemplar um espaço onde haja a possibilidade de educadores e alunos exporem suas ideias, suas angustias e necessidades, para que haja uma construção coletiva do PPP da escola, vislumbrando uma escola para todos, participativa e construída por todos os envolvidos no processo educacional. É preciso que a orientação educacional conheça a realidade dos educandos, sua cultura, para assim seu trabalho ser fecundo e conseguir abranger as reais necessidades de seus alunos. Segundo SCHMITZ, 1997:

Na perspectiva do agir comunicativo, o OE leva a sério a função social da escola de preparar os educandos para o exercício da cidadania. O OE deve propiciar as condições de participação dos sujeitos das questões que os envolvem enquanto cidadãos. (p. 80).

É importante ainda segundo as palavras de PIMENTA (1991), que a orientação educacional esteja trabalhando de acordo com o projeto político pedagógico da instituição. Que o mesmo verifique se a escola está conseguindo atingir os objetivos propostos, como estão se dando os processos avaliativos e se a cultura dos alunos está sendo levada em consideração. Para conhecer melhor a cultura de seus alunos o orientador educacional juntamente com os educadores pode promover entrevistas e atividades envolvendo o grupo. Enfim para concluir o trabalho do orientador educacional na escola pode se usar das palavras de PIMENTA onde a mesma diz que:

Muito das teorias e práticas específicas da orientação educacional podem ser úteis desde que redirecionadas na perspectiva de tornar a escola não seletiva. Junto com o professor e o supervisor, tendo sempre uma contribuição específica, o OE pode trabalhar em situações como: na chegada das crianças, na organização das turmas (critérios?), no período preparatório, no método de alfabetização, nas classes fracas, na relação da escola com a família e comunidade. (PIMENTA, 1991, p152).

6. CONCLUSÃO

Como pudemos perceber ao longo dessa pesquisa, existe uma violência própria da educação. Esta, segundo Kupfer, é necessária e estruturante, inevitável e inerente ao processo escolar. Trata-se da imposição das leis, das regras e dos limites. Segundo a autora, a falta desta causa os atos de violência reais, pois a violência exercida no plano real é uma busca da restituição do simbólico.

A imposição de uma ordem, de uma sexualidade, de uma interpretação, de uma linguagem, nada disso é feito por causa das idiossincrasias de um pai caprichoso, mas por causa da necessidade de impor uma restrição ao desejo materno. Assim nada se passa no registro das vontades pessoais. Ou seja, quando estamos falando de violência na educação , não estamos nos referindo a pais violentos que gostam de bater em seus filhos, e sim do caráter necessariamente violento que existe no estabelecimento da lei. (KUPFER, 2007, p. 142)

Também vimos, de acordo com Bourdieu e Passeron, que a escola não tem cumprido com o seu papel de libertadora e emancipadora. Para esses autores, a escola tem sido um meio mascarado dê impor uma violência de nível simbólico que acaba por reproduzir as desigualdades sociais. “Toda ação pedagógica é objetivamente uma violência simbólica enquanto imposição, por um poder arbitrário, de um arbitrário cultural” (BOURDIEU, 2008, p. 26).

Enquanto poder arbitrário de imposição que, só pelo fato de ser desconhecido como tal, se encontra objetivamente reconhecido como autoridade legítima, a AuP, poder de violência simbólica que se manifesta sob a forma de um direito de imposição legitima , reforça o poder arbitrário que a estabelece e que ela dissimula. .(BOURDIEU, 2008, p. 34)

Cabe à orientação educacional intervir nos processos de violência instaurados na e pela educação. Para tanto, ela precisa ter teorias que subsidiem e fundamentem suas práticas, bem como, ter clareza do PPP da escola para poder intervir de forma consciente e não meramente reproduzir aquilo que vem sendo feito nos últimos anos.

A função de OE é da responsabilidade de todos os que trabalham na escola. Mas se não houver um profissional que identifique a real orientação de uma determinada escola segue e que – se concorda com ela – arregimente forças para que essa orientação de fato se concretize numa prática pedagógica, ou – se não concorda com ela – arregimente forças para tentar mudá-la, ou seja, definir um outro projeto pedagógico, essa orientação fica muito difusa e o trabalho da escola acaba se realizando por ricochete. (AZEVEDO, 1990, p. 66)

Com a presente pesquisa, pudemos conhecer as duas teorias referentes à violência simbólica. Teorias essas que se contrapõe, uma defendendo a violência simbólica como sendo boa, e outra a instituindo como perversa. Pudemos demonstrar que ambas estão corretas e podem contribuir com a orientação educacional em suas práticas cotidianas. Percebemos a necessidade de articular essas duas teorias, trazendo um equilíbrio entre elas. É preciso entender que a violência simbólica enquanto imposição das leis, das normas, ela é necessária sim, mas devemos ter muito cuidado para não transformá-la na violência simbólica perversa.

Acreditamos que tal pesquisa é uma relevante contribuição para a sociedade e para toda a comunidade escolar, por trazer à luz esse tema tão relevante nos dias atuais, isto é, a violência simbólica em suas diferentes facetas. E, claro, principalmente no que cabe à orientação educacional, que está intimamente relacionada e lida diariamente com esses problemas. Assim, penso que com esses levantamentos a orientação educacional terá um olhar diferenciado para seus alunos e professores, buscando não cometer, nem ser cúmplice de tal violência, mas sim buscar na escola a violência simbólica necessária e estruturante de que fala Kupfer.

7. REFERÊNCIAS

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BAUMAN, Sigmunt. O amor líquido: sobre fragilidade dos laços humanos. Trad. Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.

BOURDIEU, Pierre; PASSERON, Jean-Claude. A reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1970.

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Publicado por: Vanessa Danieli Moreira da Silva

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